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LIVRO DE

MELQUISEDEQUE

Nelson Marins
Melquisedeque é descrito na Bíblia como
rei de Salém e sacerdote do Deus Altíssimo
mencionado em Genesis 14:18 e Hebreus
7:1-3. Este livro descreve a criação dos
Edição Revisada e anjos, a rebelião nos céus a criação da Ter-
Corrigida ra entre outros fatos, mas o mais impor-
tante

22/11/2015
O LIVRO DO 1

MELQUISEDEQUE
A criação do Universo 8 Ao sul do paraíso, em ambas as mar-
gens do rio da vida, foram edificadas numero-

1 ANTES que existisse uma estrela a


brilhar, antes que houvesse anjos a can-
tar, já havia um céu, o lar do Eterno, o único
sas mansões adornadas de pedras preciosas,
que se destinavam aos anjos, os ministros do
reino da luz.
Deus. 9 Circundando o Éden e as mansões ange-
2 Perfeito em sabedoria, amor e glória, licais, construiu Deus uma muralha de jaspe
viveu o Eterno uma eternidade, antes de luzente, ao longo da qual podiam ser vistos
concretizar o Seu lindo sonho, na criação do grandes portais de pérolas.
Universo.
3 Os incontáveis seres que compõem a A criação da Jerusalém Celestial e dos anjos
criação foram, todos, idealizados com muito
carinho.
4 Desde o pequeno átomo às gigantescas
galáxias, tudo mereceu Sua suprema atenção.
3 COM alegria, o Eterno contemplou a
Capital sonhada.
2 Carinhosamente, o grande Arquiteto a
5 Movendo-Se com majestade, iniciou denominou: Jerusalém, a Cidade da Paz.
Sua obra de criação. 3 Deus estava para trazer à existência a
6 Amante da música, Deus idealizou o primeira criatura racional.
Universo como uma grande orquestra que, 4 Seria um anjo glorioso, de todos o mais
sob Sua regência, deveria vibrar acordes honrado.
harmoniosos de justiça e paz. 5 Adornado pelo brilho das pedras precio-
7 Para cada criatura Ele compôs uma can- sas, esse anjo viveria sobre o monte Sião,
ção de amor. como representante do Rei dos reis diante do
Universo.

2 O ETERNO estava muito feliz, pois os


Seus sonhos estavam para se realizar.
2 Movendo-se com majestade, iniciou Sua
6 Com muito amor, o Criador passou a
modelar o primogênito dos anjos.
7 Toda sabedoria aplicou ao formá-lo, fa-
obra de criação. zendo-o perfeito.
3 Suas mãos moldaram primeiramente um 8 Com ternura concedeu-lhe a vida; o
mundo de luz, e sobre ele uma montanha formoso anjo, como que despertando de um
fulgurante sobre a qual estaria para sempre profundo sono, abriu os olhos e contemplou a
firmado o trono do Universo. face de seu Autor.
4 Ao monte sagrado Deus denominou: Si- 9 Com alegria, o Eterno mostrou-lhe as
ão. belezas do paraíso, falando-lhe de Seus pla-
5 Da base do trono, o Eterno fez jorrar um nos, que começavam a se concretizar.
rio cristalino, para representar a vida que 10 Ao ser conduzido ao lugar de sua mo-
d'Ele fluiria para todas as criaturas. rada, junto ao trono, o príncipe dos anjos
6 Como sala do trono, criou um lindo pa- ficou agradecido e, com voz melodiosa, ento-
raíso que se estendia por centenas de quilôme- ou seu primeiro cântico de louvor.
tros ao redor do monte Sião. 11 Das alturas de Sião descortinava-se,
7 Ao paraíso denominou: Éden. aos olhos do formoso anjo, Jerusalém em sua
vastidão e esplendor.
2 MELQUISEDEQUE, 4, 5

12 O rio da vida, ao deslizar sereno em as vozes em belíssimos cânticos de louvor ao


meio à Cidade, assemelhava-se a uma larga Criador.
avenida, espelhando as belezas do jardim do 3 Deus traria agora à existência o Univer-
Éden e das mansões angelicais. so que, repleto de vida, giraria em torno de
Seu trono firmado em Sião.
As leis do Eterno 4 Acompanhado por Seus ministros partiu
para a grandiosa realização.

4 ENVOLVENDO o primogênito dos


anjos com Seu manto de luz, o Eterno
passou a falar-lhe dos princípios que haveri-
5 Depois de contemplar o vazio imenso, o
Eterno ergueu as poderosas mãos, ordenando
a materialização das multiformes maravilhas
am de reger o reino universal. que haveriam de compor o cosmo.
2 Leis físicas e morais deveriam ser res- 6 Sua ordem, qual trovão, ecoou por todas
peitadas em toda a extensão do governo divi- as partes, fazendo surgir, como que por en-
no. canto, galáxias sem conta, repletas de mundos
3 As leis morais resumiam-se em dois e sóis, paraísos de vida e alegria, tudo girando
princípios básicos: amar a Deus sobre todas as harmoniosamente em torno do monte Sião.
coisas e viver na fraternidade com todas as 7 Ao presenciarem tão grande feito do su-
criaturas. premo Rei, as hostes angelicais prostraram-se,
4 Cada criatura racional deveria ser um fazendo ecoar pelo espaço iluminado um
canal por meio do qual o Eterno pudesse cântico de triunfo, em saudação à vida.
jorrar aos outros vida e luz. 8 Todo o Universo uniu-se nesse cântico
5 Dessa forma, o Universo cresceria em de gratidão, em promessa de eterna fidelidade
harmonia, felicidade e paz. ao Criador.
6 Depois de revelar ao formoso anjo as 9 Guiados pelo Eterno, os anjos passaram
leis de Seu governo, o Eterno confiou-lhe a conhecer as riquezas do Universo.
uma missão de grande responsabilidade: seria 10 Nessa jornada pelo universo ficaram
o protetor daquelas leis, devendo honra-las e admirados ante a vastidão do reino da luz.
revela-las ao Universo prestes a ser criado. 11 Por todas as partes encontravam mun-
7 Com o coração transbordante de amor a dos habitados por criaturas felizes que os
Deus e aos semelhantes, caber-lhe-ia ser um recebiam em festa.
modelo de perfeição: seria Lúcifer, o portador 12 Os anjos saudavam-nos com cânticos
da luz. que falavam das boas novas daquele reino de
8 O príncipe dos anjos; agradecido por paz.
tudo, prostrou-se ante o amoroso Rei, prome-
tendo-Lhe eterna fidelidade. O livre arbítrio de escolha de todas as criatu-
ras celestes
Deus cria as criaturas celestes
13 Tão preciosa como a vida, a liberdade

5 O ETERNO continuou Sua obra de


criação, trazendo à existência inumerá-
veis hostes de anjos, os ministros do reino da
de escolha, através da qual as criaturas pode-
riam demonstrar seu amor ao Criador, exigia
um teste de fidelidade.
luz. 14 Com o propósito de revelá-lo, o Eterno
2 A Cidade Santa ficou povoada por essas conduziu as hostes por entre o espaço ilumi-
criaturas radiantes que, felizes e gratas, uniam nado, até se aproximarem de um abismo de
MELQUISEDEQUE, 6, 7 3

trevas que contrastava com o imenso brilho 7 Em Jerusalém, os ministros do reino


das galáxias. reuniam-se ante o soberano Rei, sempre
15 Ao longe, esse abismo revelara-se in- prontos a cumprir os Seus propósitos.
significante aos olhos dos anjos, como um 8 Era através de Lúcifer que o Eterno tor-
pontinho sem luz; mas à medida de sua apro- nava manifesto os Seus desígnios.
ximação, mostrou-se em sua enormidade. 9 Depois de receber uma nova revelação,
16 O Criador, que a cada passo revelava ele prontamente a transmitia às hostes angeli-
aos anjos os mistérios de Seu reino, ficou ali cais.
silencioso, como que guardando para Si um 10 Estas, por sua vez, a compartilhavam
segredo. com a criação.
17 As trevas daquele abismo consistiam 11 Em célere voo os anjos rumavam para
no teste da fidelidade. as terras planetas capitais, onde, em grandes
18 Voltando-Se para as hostes, o Eterno assembleias, reuniam-se os representantes dos
solenemente afirmou: "Todos os tesouros da demais mundos.
luz estarão abertos ao vosso conhecimento, 12 Em muitas dessas assembleias, Lúcifer
menos os segredos ocultos pelas trevas. Sois fazia-se presente, enchendo os participantes
livres para me servirem ou não. Amando a luz de alegria e admiração.
estareis ligados à Fonte da Vida". 13 Perfeito em todas as virtudes, ele os
19 Com estas palavras fez Deus separação cativavam com sua simpatia.
entre a luz e as trevas, o bem e o mal. 14 Nenhum outro anjo conseguia revelar
20 O Universo era livre para escolher seu como ele os mistérios do amor do Eterno.
destino.
A corrupção de Lúcifer
O amor do Eterno

6 O TÃO acalentado sonho do Criador se


concretizara.
7 O UNIVERSO, alimentando-se da Fonte
da Vida, expandia-se numa eternidade de
perfeita paz.
2 Agora, como Pai carinhoso, conduzia as 2 A obediência às leis divinas era o fun-
criaturas através de uma eternidade de har- damento de todo progresso e felicidade.
monia e paz. 3 Ainda que conscientes do livre-arbítrio,
3 Em virtude do cumprimento das leis di- jamais subira ao coração de qualquer criatura
vinas, o Universo expandia-se em felicidade e o desejo de se afastar do Criador.
glória. 4 Assim foi por muito tempo, até que tal
4 Havia um forte elo de amor, que a todos problema irrompeu na vida daquele que era o
uniam fortemente. mais íntimo do Eterno.
5 Os seres racionais, dotados da capaci- 5 Lúcifer, que dedicara sua vida ao co-
dade de um desenvolvimento infinito, encon- nhecimento dos mistérios da luz, sentiu-se aos
travam indizível prazer em aprender os ines- poucos atraído pelas trevas.
gotáveis tesouros da Sabedoria divina, trans- 6 O Rei do Universo, aos olhos de quem
mitindo-os aos semelhantes. nada pode ser encoberto, acompanhou com
6 Eram como canais por meio dos quais a tristeza os seus passos no caminho descenden-
Fonte da Eterna Vida nutria a todos de amor e te que leva à morte.
luz. 7 A princípio, uma pequena curiosidade
levou Lúcifer a se aproximar daquele abismo
profundo.
4 MELQUISEDEQUE, 8

8 Contemplando-o, ele começou a indagar 3 Ele queria que a obediência fosse fruto
o porquê de não poder compreender o seu de reconhecimento e amor, por isso decidiu
enigma. correr o grande risco.
9 Retornando a seu lugar de honra, junto 4 Ainda que prosseguisse na busca do
ao trono, prostrou-se ante o divino Rei, supli- sentido das trevas, Lúcifer não pretendia
cando-Lhe: abandonar a luz.
10 Pai, dá-me a conhecer os segredos das 5 Esforçava-se para chegar a uma combi-
trevas, assim como me revelas a luz. nação entre essas partes que, no reino do
11 Ante o pedido do formoso anjo, o Eterno, coexistiam separadas.
Eterno, com voz expressiva de tristeza, disse- 6 Finalmente, com um sentimento de
lhe: exaltação, concebeu uma teoria enganosa, que
12 Meu filho, você foi criado para a luz, pretendia apresentar ao Universo como um
que é vida. novo sistema de governo, superior ao gover-
13 Convencendo-se de que o Criador não nar do Eterno.
lhe revelaria os tesouros das trevas, Lúcifer 7 Denominou sua Lei "a ciência do bem e
decidiu compreender por si mesmo o enigma. do mal".
14 Julgava-se capacitado para tanto. 8 Estruturada na lógica, a ciência do bem
15 Com esta triste decisão, o príncipe dos e do mal revelou-se atraente aos olhos de
anjos permitiu que surgisse em seu coração Lúcifer, parecendo descerrar um sentido de
uma mancha de pecado que poderia trazer vida superior àquele oferecido pelo Criador,
uma catástrofe para o Universo. cujo reino possibilitava unicamente o conhe-
16 Só Deus sabia o que se passava no co- cimento experimental do bem.
ração de Lúcifer. 9 No novo sistema haveria equilíbrio en-
17 O anjo, que fora criado para ser o por- tre o bem e o mal, entre o amor e o egoísmo,
tador da luz, estava divorciando-se em pen- entre a luz e as trevas.
samentos do bondoso Criador que, num esfor- 10 Ao longo do tempo em que amadure-
ço de impedir o desastre, rogava-lhe perma- cera em sua mente a ciência do bem e do mal,
necer a Seu lado. Lúcifer soube guardar segredo diante do
18 Uma tremenda luta passou a travar-se Universo.
em seu íntimo. 11 Continuava em seu posto de honra,
19 O desejo de conhecer o sentido das cumprindo a função de Portador da Luz.
trevas era imenso, contudo, os rogos daquele 12 Contudo, por mais que procurasse fin-
amoroso Pai, a quem não queria também gir, seu semblante já não revelava alegria em
perder, o torturavam. servir ao Eterno.
20 Vendo o sofrimento que sua atitude 13 O divino Rei, que sofria em silêncio,
causava ao Criador, às vezes demonstrava procurava, por meio de Suas revelações de
arrependimento, mas voltava a cair. amor, preparar as criaturas racionais para a
grande prova que se aproximava.
Lúcifer prega nova lei nos céus 14 Sabia que muitos dariam ouvido à ten-
tação, voltando-Lhe as costas.

8 ANTES de criar o Universo, Deus já


previra a possibilidade de uma rebelião.
2 O risco de conceder liberdade às criatu-
15 A noite da provação faria sobressair,
contudo, os verdadeiros fiéis, aqueles que
serviam ao Criador não por interesse, mas por
ras era imenso, mas, sem este dom, a vida não amor.
teria sentido.
MELQUISEDEQUE, 9, 10 5

16 Ao ver que a hora da prova chegara, e 6 Silenciando, o Eterno abria-lhes cami-


que Lúcifer estava pronto para traí-Lo diante nho para o entendimento de mistérios ainda
do Universo, o Eterno, que jamais cessara de não sondados, mantidos até então além dos
revelar os tesouros de Sua sabedoria, tornou- limites de Seu governo.
se silencioso e contemplativo. 7 Surpresas, as hostes tomaram conheci-
17 Seu silêncio fez reviver no coração das mento da experiência de Lúcifer sobre as
hostes a lembrança daquela primeira jornada trevas.
pelo universo, quando, depois de lhes mostrar 8 Com eloquência, ele falou-lhes da ciên-
as riquezas do reino da luz, Deus tornou-se cia do bem e do mal, indicando-a como o
silencioso ante aquele abismo. caminho das maiores realizações.
18 Lembram-se de Suas palavras: "Todos 9 O efeito de suas palavras logo se fez
os tesouros da luz estarão abertos ao vosso sentir em todo o Universo.
conhecimento, menos os segredos ocultos 10 A questão era decisiva e explosiva, ge-
pelas trevas. rando pela primeira vez discórdia.
19 Sois livres para me servirem ou não. 11 Os seres racionais, em sua prova, ti-
20 Amando a luz estareis ligados à Fonte nham de optar por permanecer somente com o
da Vida. conhecimento da luz, o qual Lúcifer afirmava
21 Lúcifer, que passara a cobiçar o trono haver chegado ao seu limite, ou se aventurar
de Deus, indagou-Lhe o motivo de Seu silên- no conhecimento da ciência do bem e do mal.
cio. 12 No começo, os anjos debateram-se di-
22 O Criador, contemplando-o com infini- ante da questão, sendo logo depois todo o
ta tristeza, disse-lhe: "É chegada a hora das Universo posto à prova.
trevas; você é livre para realizar seus propósi- 13 Dir-se-ia que a ciência do bem e do
tos". mal haveria de arrebanhar a maior parte das
criaturas, mas, aos poucos, muitos que a
Lúcifer coloca duvidas sobre o Eterno nos princípio se empolgaram com a teoria, desper-
corações dos anjos taram para a ilusão da mesma, reafirmando
sua fidelidade ao reino da luz.

9 VENDO que o momento propício para a


propagação de sua teoria havia chegado,
Lúcifer convocou os anjos para uma reunião
14 Ao fim desse conflito, que se arrastou
por longo tempo, revelou-se um terço das
estrelas do céu ao lado de Lúcifer, e as restan-
especial. tes, ainda que abaladas pela prova ao lado do
2 As hostes, desejosas de conhecer o sig- Eterno.
nificado do silêncio do Pai, tomaram seus
lugares junto ao magnífico anjo, que sempre Lúcifer e os rebeldes solicitam o trono para
lhes revelara os tesouros do reino da luz. reinar no lugar do Eterno
3 Lúcifer começou seu discurso exaltan-
do, como de costume, o governo do Eterno.
4 Num amplo retrospecto, lembrou-lhes
as grandiosas revelações que os enriquecera
10 A CIÊNCIA do bem e do mal fora
apregoada por Lúcifer como um
novo sistema de governo.
em toda aquela eternidade. 2 Mas como exercê-lo, se o Eterno conti-
5 O silêncio divino, apresentou-o como nuava reinando em Sião?
sendo a indicação de que o Universo alcança- 3 O conselho, formado pelos anjos rebel-
ra a plenitude do conhecimento oriundo da des, passou a tratar disso.
luz. 4 Decidiram, finalmente, solicitar-Lhe o
6 MELQUISEDEQUE, 11

trono por um tempo determinado, no qual revelações procedentes do Criador pudessem


poderiam demonstrar a excelência do novo aclarar-lhes os mistérios desse grande confli-
sistema de governo. to.
5 Caso fosse aprovado pelo Universo, o 8 As acusações e blasfêmias das hostes
novo sistema se estabeleceria para sempre; rebeldes alcançavam o ponto culminante
caso contrário, o domínio retornaria ao Cria- quando o Eterno, num gesto surpreendente,
dor. ergueu-se de Seu trono, como que pronto a
6 Foi assim que Lúcifer, acompanhado deixá-lo.
por suas hostes, aproximou-se d'Aquele Pai 9 Os infiéis, na expectativa de uma con-
sofredor, fazendo-Lhe tal pedido. quista, aquietaram-se, enquanto um sentimen-
7 O Eterno não era ambicioso, apenas to de temor penetrava no coração dos súditos
queria bem às Suas criaturas. da luz.
8 Se a ciência do bem e do mal consistisse 10 Entregaria Ele o domínio de toda a cri-
realmente num bem maior, não Se oporia à ação, para livrar-Se das vis acusações?
sua implantação, cedendo o trono a seus 11 De acordo com a lógica a partir da
defensores. qual Lúcifer fundamentava seus ensinamen-
9 Mas Ele sabia que aquele caminho con- tos, não restava outra alternativa ao Criador.
duziria à infelicidade e à morte. 12 Nesta tremenda expectativa, o Univer-
10 Movido por Seu amor protetor, o Cria- so acompanhava os passos de Deus.
dor desatendeu o pedido das hostes rebeldes,
que se afastaram enfurecidas. Deus se levanta do trono e anuncia a queda
dos rebeldes e a vitória dos fiéis
O Eterno nega-lhes o trono, e eles blasfemam
contra o Eterno 13 Num gesto de humildade, o Criador
despojou-Se de Sua coroa e de Seu manto

11 AO LHES ser negado o trono, Lúci-


fer e suas hostes passaram a acusar o
divino Rei, proclamando ser o seu governo de
real, depondo-os sobre o alvo trono.
14 Em Seu semblante não havia expressão
de ressentimento ou ira, mas de infinito amor
tirania. e tristeza.
2 Afirmavam ser sua permanência no tro- 15 Com solenidade, o Eterno proclamou
no a mais patente demonstração de Sua arbi- que o momento decisivo chegara, quando
trariedade. cada criatura deveria selar sua decisão ao lado
3 Não lhes concedera liberdade de esco- da luz ou das trevas.
lha? 16 Numa ampla revelação Ele alertou pa-
4 Por que neutralizá-la agora, impedindo- ra as consequências de um rompimento com a
os de pôr em prática um sistema de governo Fonte da Vida.
superior? 17 Com olhar de ternura o Criador con-
5 As acusações das hostes rebeldes reper- templou seus filhos.
cutiram por todo o Universo, fazendo parecer 18 Era um olhar de humildade, que cheio
que o governo do Eterno era injusto. de amor, suplicava para que permanecessem
6 Isto trouxe profunda angústia àqueles ao Seu lado.
que permaneciam fiéis ao reino da luz. 19 Incontáveis criaturas, emocionadas,
7 Não sabendo como refutar tais acusa- corresponderam ao Seu olhar de bondade,
ções, essas criaturas, emudecidas pela dor enquanto uma multidão se manteve cabisbai-
moral, ansiavam pelo momento em que novas xa.
MELQUISEDEQUE, 12, 13 7

20 Lúcifer e seus seguidores estavam 7 Como olharei para os lugares vazios


conscientes da seriedade daquele momento. onde tantas vezes rejubilantes ergueram as
21 Ainda era possível voltar atrás em seus vozes em hosanas festivas, sem me vir à
planos, entregando-se arrependidos ao divino mente um misto da felicidade e dor?!
Pai que sempre os amara. 8 Saudade infinita já invade o meu ser, e
22 Enquanto cabisbaixos consideravam sei que será eterna!
sobre a decisão final, Lúcifer e seus adeptos 9 Hoje o meu coração rompeu e quebrou-
ouviam o cântico daqueles que, em reconhe- se; as cicatrizes carregarei para sempre!
cimento e gratidão, colocavam-se ao lado do 10 Depois de proclamar em pranto tão do-
Eterno. lorosa lamentação, o Eterno, dirigindo-Se a
23 A última luta travava-se no coração Lúcifer, o causador de todo o mal, disse:
dos infiéis que, estremecidos, chegaram a 11 “Você recebeu um nome de honra ao
pensar em recuar. ser criado”.
24 Finalmente, a lembrança do recente 12 “Agora não mais o chamarão Lúcifer,
gesto divino, despojando-Se da coroa, deu- mas Satanás, O Senhor das Trevas”.
lhes a certeza de que o governo lhes seria
entregue. O Eterno vai até o abismo de trevas
25 Vendo que o Trono permanecia vazio,
Lúcifer e suas hostes, dominados pela cobiça,
romperam definitivamente com o Criador; 13 DEPOIS de lamentar a perdição das
hostes rebeldes, o Eterno, em lentos
passos, ausentou-se do jardim do Éden, lugar
A dor da angustia do Eterno do trono Universal.
2 Onde seria agora a Sua morada?

12 AO ver um terço dos súditos transpor


as divisas da eterna separação, Deus
deixou extravasar a dor angustiante que por
3 As hostes fiéis acompanharam reveren-
tes os Seus misteriosos passos de abandono,
que pareciam descerrar um futuro difícil, de
tanto tempo martirizava Seu coração, curvan- sofrimentos e humilhações.
do-Se em inconsolável pranto. 4 Ocupariam os rebeldes o divino trono,
2 Contemplando Seus filhos rebeldes, er- profanando-o como domínio do pecado?
gueu a voz numa lamentação dolorosa: 5 Esta indagação torturava o coração dos
3 "Meus filhos, meus filhos! Já não posso súditos do Eterno.
chamá-los assim! Queria tanto tê-los nos 6 Deixando Sua amada Cidade, o Senhor
braços meus! Lembro-Me quando os formei da luz conduziu-Se, em meio às glórias do
com carinho! Universo, em direção do abismo imenso, a
4 Vocês surgiram felizes e perfeitos, em respeito do qual silenciara até então.
acordes de esperança em eterna harmonia! 7 Ali deteve-Se mais uma vez, emudeci-
Vivi para vocês, cobrindo-os de glória e do, enquanto parecia ler nas trevas um futuro
poder! Vocês foram a minha alegria! de grandes lutas.
5 Por que seus corações mudaram tanto? 8 Ante o sofrimento do Eterno, expresso
O que mais poderia eu ter feito para fazê-los na tristeza de Seu semblante, os fiéis puderam
permanecer comigo? finalmente compreender o significado daquele
6 Hoje minh’alma sangra em dor pela se- misterioso abismo: consistia numa represen-
paração eterna! tação simbólica do reino da rebeldia.
8 MELQUISEDEQUE, 14, 15

Primeiro dia: A criação da Terra 4 Imediatamente, o calor de Sua luz fez


com que imensa quantidade de vapor se ele-
9 Na face entristecida de Deus manifes- vasse das águas, envolvendo o planeta num
tou-se, por fim, um brilho que aos fiéis ani- manto de transparência anil.
mou. 5 Surgiu assim a atmosfera, com sua mis-
10 Erguendo os poderosos braços ante as tura perfeita de gases que seriam essenciais à
trevas ordenou em alta voz: "Haja luz." vida que em breve coroaria o planeta.
11 Imediatamente, a luz de Sua presença 6 O Criador, contemplando a expansão,
inundou o profundo abismo e, triunfando denominou-a "Céus".
sobre as trevas, revelou um mundo inacabado, 7 A atmosfera, que cheia de brilho envol-
coberto por cristalinas águas. via a Terra, sombreou-se ao sobrevir o cre-
12 Com esse gesto, iniciava o Eterno uma púsculo de um outro entardecer.
grande batalha pela reivindicação de Seu
governo de luz; batalha do amor contra o Terceiro dia: A criação dos mares, dos conti-
egoísmo; da justiça contra a injustiça; da nentes, erva verde e arvores frutíferas
humildade contra o orgulho; da liberdade
contra a escravidão; da vida contra a morte.
13 Batalha que, sem trégua, se estenderia
15 AO serem vencidas as trevas no
terceiro dia, o Criador prosseguiu
Sua obra, fazendo surgir os imensos continen-
até que, no alvorecer almejado, pudesse o tes que ainda estavam sob a superfície das
divino Rei retornar vitorioso ao santo monte águas.
Sião, onde, entronizado em meio aos louvores 2 Com as mãos erguidas ordenou: "Ajun-
dos remidos, reinaria para sempre em perfeita tem-se as águas debaixo dos céus num lugar e
paz. apareça a porção seca".
14 As trevas, em sua fuga, apontavam pa- 3 Em pronta obediência, as cristalinas
ra o aniquilamento final da rebeldia. águas cederam sua posição superior à porção
15 As águas abundantes que cobriam seca que se ergueu, sobrepondo-se a elas.
aquele mundo, até então oculto, simbolizavam 4 Nas regiões baixas da Terra, as águas
a vida eterna que para os fiéis seria conquis- continuariam refletindo o brilho celeste,
tada pelo amor que tudo sacrifica. sendo um refrigério para as criaturas sedentas.
16 O mundo revelado era a Terra. 5 Nesse gesto de humildade, as águas pre-
17 Visitada pelas trevas e pela luz, ela se- figuravam o Criador, que na grande luta
ria o palco da grande luta. desceria ao mais profundo abismo para fazer
renascer nas almas sedentas a vida eterna.

14 REJUBILAVAM-SE os fiéis 1 ante o


triunfo da luz naquele primeiro dia,
quando as trevas em sua fúria rolaram sobre o
6 Contemplando a face daquele novo
mundo, o Eterno denominou a parte seca
"terra", e ao ajuntamento das águas chamou
planeta, sucumbindo-o em densa escuridão. "mares".
2 A luz, que parecia vencida, renasceu vi- 7 Com Sua poderosa voz prosseguiu, or-
toriosa num lindo alvorecer. denando: "Produza a terra erva verde, erva
que dê semente, árvore frutífera que dê fruto
Segundo dia: A criação da Atmosfera segundo a sua espécie, cuja semente esteja
3 Ao raiar a luz do segundo dia, o Eterno nela sobre a terra".
ordenou: "Haja uma expansão no meio das 8 Em obediência ao mando divino, a su-
águas, e haja separação entre água e águas”. perfície sólida do planeta revestiu-se de toda
1
Jó 38:4-7
MELQUISEDEQUE, 16, 17, 18 9

sorte de vegetação: lindos prados a florir, 6 “Haja luminares na expansão dos céus,
campos verdejantes entrecortados por rios para haver separação entre o dia e a noite;
cristalinos, florestas sem fim onde árvores sejam eles para sinais e para tempos determi-
frondosas deixavam pender frutos saborosos nados, para dias e anos”.
de infindáveis espécies. 7 “E sejam para luminares na expansão
9 A Terra era como uma tela onde o Cria- dos céus para alumiarem a Terra”.
dor, pelo poder de Sua palavra, coloria qua- 8 Imediatamente, o espaço tornou-se radi-
dros de beleza sem par. ante pelo brilho do sol e pelo reflexo de pla-
netas e estrelas.

16 ENQUANTO com admiração as


hostes contemplavam as belezas
daquela criação, surpreenderam-se ao reco-
9 Ante esta demonstração de poder, as
hostes fiéis curvaram-se em reverente adora-
ção.
nhecer sobre o novo planeta o jardim do 10 No quarto dia, o Eterno criou os mun-
Éden, lugar do trono divino. dos de nosso sistema solar não para serem
2 O Eterno, pelo poder de Sua palavra, o habitados como a Terra, mas para o equilíbrio
havia transferido para o seio daquele mundo do sistema.
especial, onde em justiça seria confirmado o 11 Encheriam também o céu de fulgor,
governo do Universo. abrandando as trevas das noites terrenas.
3 Naquele dia primaveril, a brisa acarici- 12 Volvendo os olhos para a Terra, as
ou mansamente as verdes florestas e os prados hostes alegraram-se por vê-la radiante em
em flor, inundando a atmosfera com suave cores.
aroma e frescor. 13 Bem próximo dela podia-se ver a Lua
4 Contemplando Sua obra, o Criador com que, com seu reflexo prateado, afugentaria as
felicidade exclamou: "Eis que tudo é muito profundas sombras noturnas.
bom".
5 Exuberante, o planeta cumpriu mais um Quinto e sexto dias: A criação de toda cadeia
dia em sua harmoniosa rotação. animal

Quarto dia: A criação do Sol, a lua, os plane-


tas e as estrelas 18 ENVOLVIDOS por esse cenário
encantador, os filhos da luz, rejubi-
lantes, saudaram o alvorecer do quinto dia,

17 AS HOSTES fiéis agora podiam


compreender melhor a importância
da luz divinal.
que seria de muitas surpresas.
2 O Eterno tornaria a Terra festiva pela
presença de infindáveis espécies de animais
2 Sua ausência havia ofuscado, naquela irracionais que habitariam toda a superfície do
noite, as belezas de Sião. planeta.
3 Nesse novo dia, o Criador expressaria o 3 Essa criação teria continuidade no sexto
Seu grande poder, dando à Terra luminares dia.
que a encheriam de luz e calor. 4 Erguendo as poderosas mãos, o Criador,
4 Esses luminares permaneceriam para olhando primeiramente para as cristalinas
sempre como símbolos da presença espiritual águas, ordenou:
do Eterno, que é a fonte de toda a luz. 5 "Produzam as águas abundantemente
5 Contemplando o espaço escuro e vazio répteis de alma vivente".
que se estendia ao redor da Terra, com poten- 6 De imediato, as águas tornaram-se on-
te voz ordenou: dulantes pela presença de incontáveis espécies
10 MELQUISEDEQUE, 19, 20

de répteis que, felizes e gratos, festejavam a 9 Movendo-Se com majestade, o Eterno


existência num contínuo nadar e saltitar. baixou às glórias do novo mundo, dirigindo-
7 Desde os seres microscópicos até as Se ao jardim do Éden, lugar do divino trono.
grandes baleias, todos surgiram em completa 10 Os anjos da luz acompanharam-No re-
harmonia, refletindo em sua natureza o amor verentes, detendo-se em uma nuvem sobre os
do Criador. céus do paraíso.
8 Pousando os olhos sobre a atmosfera 11 Todo Universo observava com profun-
anil que repousava sobre as verdejantes flo- do interesse o desdobramento dos atos do
restas, o Eterno continuou: "Voem as aves Criador, em resposta às acusações de seus
sobre a face da expansão dos céus". inimigos.
9 Mediante Sua ordem, os Céus enche- 12 O momento era decisivo.
ram-se de pássaros coloridos que, voando em 13 Tudo indicava que o Eterno demons-
todas as direções, tinham no coração um traria não ser tirano nem egoísta, coroando
cântico de gratidão pela vida. alguém sobre o monte Sião.
10 Esse cântico encheu o ar, misturando- 14 Satanás e seus seguidores não duvida-
se com o perfume das matas floridas. vam de que o reino lhes seria entregue e
11 Contemplando com prazer Suas criatu- reinariam vitoriosos no seio daquele antigo
ras terrenais, o Eterno abençoou-as dizendo: abismo, onde as trevas e a luz agora se entre-
12 “Frutificai e multiplicai-vos e enchei laçavam.
as águas nos mares, e as aves se multipliquem 15 Os súditos da luz estremeceram ante
na Terra". essa perspectiva.

19 REJUBILANTES, as hostes fiéis


presenciaram o alvorecer do sexto
A criação do homem

dia.
2 O que criaria Deus nesse novo dia?
3 Esta indagação pairava na mente de to-
20 JUNTO à fonte do rio da vida, o
Eterno curvou-Se solenemente e,
com os elementos naturais da Terra, começou
dos os seres racionais. a moldar, com muito carinho, uma criatura
4 Estavam certos de que algo muito espe- especial.
cial estava para acontecer. 2 Depois de alguns instantes estava esten-
5 Então Deus ergueu os potentes braços, e dido diante do Criador o corpo, ainda sem
ordenou: “Produza a Terra alma vivente vida, do primeiro homem.
conforme a sua espécie: gado, répteis e bes- 3 O Eterno contemplou-o e, após acarici-
tas-feras da terra, conforme a sua espécie”. ar-lhe a face fria e descorada, soprou-lhe nas
6 Sua voz poderosa foi prontamente ouvi- narinas o fôlego da vida e o homem começou
da e, nas florestas e campos, pôde-se ver o a viver.
resultado de Seu poder criador. 4 Como que despertando de um sono, o
7 Animais de todas as espécies desperta- homem abriu os olhos e contemplou a face
ram numa existência feliz, em meio a um meiga de Seu Criador que, sorrindo, beijou-
paraíso de perfeita paz. lhe a face agora corada e cheia de vida.
8 A Terra tomara-se extremamente bela, 5 Emocionou-se ao ouvir o Eterno dizer-
como uma princesa adornada para receber o lhe com voz suave e cheia de afeição: "Meu
seu rei e senhor. Quem seria esse ser especial? filho, meu querido filho!”.
6 Por ter nascido do solo, o primeiro ho-
mem recebeu o nome de Adão.
MELQUISEDEQUE, 21, 22 11

7 As hostes fiéis que admiradas testemu- 5 Como era agradável acariciar sua alva
nhavam a grandiosa realização divina, emoci- lã!
onadas ante o gesto humano, prostraram-se 6 Seus olhinhos meigos refletiam um bri-
também em reverente adoração. lho de amor e humildade.
8 Uniram então as vozes num cântico de 7 Havia algo de especial naquele animal-
júbilo em saudação àquela criatura especial, zinho.
que despertava para a vida num momento tão 8 Afetuosamente, Adão chamou-o de
decisivo para o Universo. "cordeiro".
9 Com o coração cheio de felicidade, 9 Com o animalzinho em seus braços,
Adão uniu-se aos anjos em seu cântico de Adão olhou agradecido para Deus e O adorou.
louvor. 10 Contemplando Suas alvas vestes, Seus
10 Sua voz, ao ecoar pelos arredores flo- olhos expressivos de um amor sem par, Adão
ridos, misturou-se ao canto das aves e ao descobriu que tinha nos braços um símbolo de
mugir de animais que se aproximavam em seu Autor.
festa. 11 Feliz exclamou: "Oh, Senhor, este cor-
11 Num passeio de surpresas inesquecí- deirinho revestido de tão branca lã, com olhar
veis, Adão foi conscientizado das belezas de expressivo de tanto amor, se parece Contigo.
seu lar. Eu quero tê-lo sempre junto a mim."
12 Com admiração contemplou o monte
Sião, donde jorrava o rio da vida, numa casca- Adão entristece por não ter uma companheira
ta de luz.
13 O glorioso monte jazia coroado por um
lindo arco-íris.
14 Em seus passos seguiu o curso do cris-
22 OBSERVANDO os animais, Adão
percebeu que eles desfrutavam de um
companheirismo especial.
talino rio, que deslizava sereno em meio às 2 Via por toda parte casais felizes que vi-
maravilhas do Éden. viam um para o outro.
15 Admirava-se das altaneiras árvores 3 Seus pensamentos voltaram-se para o
que, embaladas pela brisa, deixavam pender Seu Companheiro.
dos ramos abundantes flores e frutos. 4 Olhou ao derredor e ficou surpreso por
16 Inclinava-se aqui e acolá, atraído pelo não vê-Lo.
fulgor de pedras preciosas que por todas as 5 O Eterno havia Se ocultado proposital-
partes enfeitavam o gramado. mente, tornando-Se invisível.
6 Adão sentia-se solitário em meio àquele
Adão admira a beleza do jardim paraíso.
7 Com quem partilharia sua felicidade e

21 COM intensa alegria, Adão tomava


conhecimento das infindáveis espé-
cies de animais que povoavam o jardim.
seu amor?
8 Havia ali os animais, mas eles eram ir-
racionais, não podendo compartilhar de seus
2 Todos eram mansos e submissos e vivi- ideais.
am em perfeita harmonia e felicidade. 9 Nascia em seu coração, ao caminhar so-
3 Detendo-se em seus passos, Adão admi- litário naquele entardecer, um desejo ardente
rou-se da alvura e meiguice de um animalzi- de encontrar alguém que pudesse estar sempre
nho que brincava no gramado. a seu lado.
4 Aproximando-se, tomou-o em seus bra- 10 Enquanto Adão olhava para as distan-
ços, dedicando-lhe um afeto especial. tes colinas na esperança de ver alguém, o
12 MELQUISEDEQUE, 23, 24

Eterno apresentou-Se ao seu lado e disse-lhe: 11 Admirou-se por não ver o efeito da
11 "Não é bom que o homem esteja só; brisa nos ramos floridos.
far-lhe-ei uma companheira". 12 Mas como, se a sentia suavemente no
12 Adão ficou feliz ao ouvir do Criador rosto?
essa promessa, justamente no momento em 13 Começou então a despertar de seu so-
que tanto ansiava ter alguém para estar sem- nho.
pre visível a seu lado. 14 Ainda com os olhos fechados lembrou-
se do momento em que, sonolento, recostara-
Deus cria a mulher se no peito do Eterno.
15 Seria a brisa o afago de Suas mãos?

23 TOMADO por um profundo sono,


Adão reclinou-se no peito de seu
amoroso Criador que, com carícias, o fez
16 Com esta indagação abriu os olhos e
emocionou-se ao contemplar uma linda mu-
lher que, com as mãos perfumadas, acaricia-
adormecer. va-lhe a face com amor.
2 Em seu subconsciente surgiram os pri- 17 Era a brisa de seu sonho; a promessa
meiros sonhos: de um Criador que só queria fazê-lo feliz.
3 Contempla o olhar meigo do Eterno; 18 Agora Adão era completo, pois tinha
ouve o som harmonioso da música angelical; Eva, que era carne de sua carne e ossos de
descobre as maravilhas ao derredor: o monte seus ossos.
Sião com seu arco-íris; o rio da vida; os pra-
dos em flor; os animais que o saúdam em Adão e Eva ficam admirados com a criação
festa. de Deus - Fim do sexto dia
4 Repetem-se em seus sonhos as cenas
que o envolveram em seu anseio; olha ao 19 Tomando-a pela mão, Adão convidou-
derredor na esperança de encontrar seu com- a para um passeio de surpresas inesquecíveis.
panheiro, mas não o vê. 20 Mostraria à sua companheira as bele-
5 Sente-se solitário em seu sonho, e isso o zas de seu lar.
faz procurar alguém com quem possa compar- 21 Sensibilizada Eva detinha-se a cada
tilhar sua existência. passo, atraída pelas flores que exalavam
6 Seu olhar estende-se por campinas ver- suaves perfumes; pelos pássaros que gorjea-
dejantes, divisando ao longe colinas floridas. vam alegres cantos; pelos animais que os
7 Enquanto caminha esperançoso, sente a seguiam submissos; pela vegetação de ricos
brisa mansa a acariciar-lhe os cabelos macios. matizes; pelas águas cristalinas do rio da vida
8 Conversa com a brisa: “Brisa, você pa- que jorravam em cascata do monte Sião.
rece ser quem tanto procuro; você me acaricia 22 Tudo no paraíso era perfeito e belo,
os cabelos; beija minha face; você tem o mas nada se igualava ao ser humano, criado à
perfume das verdes matas”. imagem de Deus.
9 “Se eu pudesse ver sua face, beijá-la-ia; 23 Voltaram-se um para o outro em admi-
se eu pudesse tocar os seus cabelos, faria ração e carícias.
longas tranças e as enfeitaria com as flores do 24 Embalados por esse amor permanece-
nosso jardim!”. ram até o entardecer.
10 Após caminhar em sonho pelos prados
do paraíso, Adão deteve-se enquanto contem-
plava a paisagem ao redor. 24 COM deleite, o jovem casal passou a
contemplar o sol poente que, através
de rosados raios, coloria o céu em lindo
MELQUISEDEQUE, 25 13

arrebol. 15 Quanto almejavam o alvorecer, pois


2 Era o sexto dia que chegava ao seu fi- somente ele traria consigo o paraíso!
nal, dando lugar às horas de um dia especial:
o sábado. Deus fica aquela noite no jardim com Adão e
3 Esse dia, em seu significado, seria sole- Eva em seus braços
ne para todos os súditos do Eterno, pois seu
alvorecer traria a vitória para o reino da luz. 16 Ante o anseio do coração humano, o
4 O sol, que durante o sexto dia alegrara a Eterno surgiu em meio às trevas, devolvendo
natureza com seu brilho e calor, ocultou-se, ao casal a alegria de se encontrar novamente
deixando-a em frias sombras. num jardim colorido.
5 Os alegres pássaros, silenciando seus 17 Banhados em suave luz caminhavam
trinos, buscavam seus ninhos enquanto os agora por prados verdejantes e floridos, o
outros animais se recolhiam. brilho do Criador despertava a natureza por
6 Somente o casal permaneceu imóvel, onde passavam, colorindo e alegrando tudo
procurando divisar, no último lampejo que se em derredor.
apagava no horizonte, a esperança de um 18 O casal, admirado, aprendeu que ao
novo alvorecer. lado do Eterno poderiam ter um paraíso em
7 Indagavam o sentido das trevas quando, plena noite.
por entre as ramagens, viram um lindo luar, 19 Sentindo-se sonolentos, Adão e Eva
cujos raios prateados banhavam a natureza em recostaram-se no colo do amoroso Pai, que os
suave luminosidade. faz adormecer docemente, esperançosos de
8 Todo o céu estava iluminado pelo fulgor um despertar feliz.
das estrelas. 20 Deitando-os sobre a relva macia, o
9 Admirados, descobriram que a noite Eterno elevou-Se indo para junto das hostes
somente era trevas quando se olhava para contemplativas.
baixo. 21 Voltaria a manifestar-Se ao alvorecer,
10 Adão e Eva em sua inocência não sa- fazendo o casal despertar para o mais solene
biam que aquela noite simbolizava o futuro acontecimento, que reduziria a pó as vis
sombrio da humanidade. acusações dos inimigos.
11 Quando o compreendessem, ficariam
confortados ao contemplar o fulgor dos céus:
o luar falaria de esperança e as estrelas cinti-
lantes testemunhariam o interesse das hostes
25
luz.
A NOITE escura e fria, através de
suas longas horas, parecia zombar da

da luz em aclarar-lhes as trevas morais, dando 2 Ofuscaria para sempre as belezas da cri-
alento aos pecadores. ação? Oh, jamais!
12 Mas seriam iluminados apenas àqueles 3 O sol não recuaria ante a imponência
que, desviando os olhos da Terra, contem- das trevas; surgiria em breve como um liber-
plassem os altos céus. tador, arrebatando com seus cálidos raios a
13 Após contemplar por algum tempo o natureza das frias garras, dando-lhe vida e
céu em sua luminosidade, o casal, lembrando- cor.
se das belezas do paraíso, volveu os olhos, 4 Num último desafio, as trevas tornaram-
buscando divisá-las. se densas nas horas que antecederam o alvo-
14 Estavam, porém, ocultas em meio às recer.
sombras. 5 A noite arregimentava suas forças para
lutar pelo domínio usurpado.
14 MELQUISEDEQUE, 26

6 Finalmente, surgiu no leste um lampejo


que parecia falar de esperança em um novo
dia.
26 O UNIVERSO vivia um momento
realmente solene.
2 Naquela manhã festiva, o Eterno have-
7 O céu aos poucos tornou-se colorido de ria de revelar a grandeza de Seu caráter, que é
um vermelho vivo. justiça e amor.
8 As trevas impotentes recuaram ante a 3 As acusações de que Seu governo era de
força crescente da luz e foram consumidas em egoísmo e tirania seriam refutadas.
sua fuga. 4 Aos olhos de todas as criaturas racionais
9 A natureza começou a despertar da lon- do vasto Universo, Deus conduziu o jovem
ga noite, refletindo em seu seio os saudosos casal ao monte Sião, lugar do divino trono.
raios. 5 Ali, ante o estremecimento das hostes
10 Flores abriram-se, exalando perfumes emudecidas, o Criador, num gesto surpreen-
de alegria; animais e aves, silenciados pela dente, cobriu o homem com o manto real,
noite, uniram as vozes num cântico triunfal colocando sobre sua cabeça a coroa que fora
em saudação ao alvorecer daquele dia grandi- cobiçada por Lúcifer.
oso. 6 Movidos por profunda gratidão pela su-
11 A negra noite chegara ao fim, dando prema honra conferida, Adão e Eva prostra-
lugar à luz do dia sonhado; dia que para Deus ram-se reverentes, depondo aos pés do Cria-
tinha um sentido especial, pois prefigurava a dor sua coroa preciosa, em sinal de submis-
final vitória de Seu reino sobre o domínio da são.
rebeldia. 7 Seguiu-se a esse gesto humano um bra-
do de vitória que sacudiu toda a Criação.
Sétimo dia – O Eterno exalta o homem 8 Os filhos da luz, que por tanto tempo
haviam sofrido afrontas e humilhações ante as
12 O Eterno agora despertaria Seus filhos constantes acusações das hostes rebeldes,
humanos que, banhados pela luz de Sua pre- exaltaram em retumbante louvor o Deus
sença, haviam adormecido na esperança de bendito, que em Sua obra de justiça desmenti-
um alvorecer feliz. ra os inimigos, revelando Seu caráter de
13 Numa marcha festiva, todas as hostes humildade, desprendimento e amor.
santas, com cânticos de vitória, acompanha- 9 Tendo constituído o homem como o se-
ram-No rumo ao paraíso banhado em luz. nhor de toda a criação, o Eterno, com voz
14 Quando já estavam próximos, o Cria- solene, passou a conscientizá-lo da grandiosi-
dor deteve-Se contemplando o casal adorme- dade de sua missão.
cido, e exclamou suavemente: "Acordem 10 Como um guardião, deveria cuidar do
meus filhos". paraíso, mantendo límpida a fonte do rio da
15 Sua voz penetrou nos ouvidos de Adão vida.
e Eva, despertando-os para a mais feliz co- 11 As leis da justiça e do amor, funda-
munhão. mentos do reino da luz, deveriam ser honra-
16 Quão depressa raiara a acalentada ma- das.
nhã, trazendo em sua luz o doce paraíso, 12 Como um cetro racional, caberia ao
perdido naquela noite! homem, em gesto de reconhecimento e grati-
17 Com alegria o casal saudou o divino dão, aceitar livremente o governo d'Aquele
Criador, unindo-se aos anjos em cânticos que o criou.
triunfais. 13 As hostes, que maravilhadas testemu-
nhavam a revelação do desprendimento
MELQUISEDEQUE, 27, 28 15

divino, compreenderam que o Senhor da Luz seus frutos tão infinita responsabilidade, Adão
não governaria mais o Universo, a não ser prostrou-se ante o Criador, dizendo:
com o consentimento humano. 10 "Digno és Senhor de reinar sobre o
14 O homem, pela vontade do Eterno, fo- Universo, pois pela Tua sabedoria, amor e
ra feito o árbitro da criação; em seu glorioso poder todas as coisas foram criadas e subsis-
ser, feito à imagem do Criador, resplandecia o tem".
selo do eterno domínio. 11 O sábado, emblema do triunfo divino,
encheu-se de louvor.
Deus adverte Adão e Eva 12 Todos os filhos da luz uniram-se ao ser
humano no mais harmonioso cântico de exal-

27 APÓS revelar ao casal a infinita


honra e responsabilidade de sua
missão, o Criador conscientizou-o do conflito
tação Àquele cuja grandeza é sem par.

Satanás e os rebeldes maquinam derrubar o


espiritual que se travava pela conquista do homem
domínio universal;
2 Lúcifer, que por incontáveis anos serviu
ao divino Rei em Sião, mas havia sido cor-
rompido pelo orgulho e pelo egoísmo, sendo
28 FOI com espanto que Satanás e seus
seguidores testemunharam a grandi-
osa realização do Eterno.
seguido por um terço das hostes racionais; 2 Presenciaram com amargura a alegria
buscavam agora destronar o Eterno, deson- dos fiéis ante a coroação do homem; aconte-
rando-O com vis acusações. cimento que lançara por terra as fortes acusa-
3 Tendo revelado ao ser humano a dolo- ções que eles haviam levantado contra o
rosa situação em que o Universo se encontra- governo divino.
va, o Eterno, num gesto solene, mostrou-lhe 3 Cheios de frustração e ira, considera-
duas altas árvores que, carregadas de grandes vam agora sua triste condição.
frutos, se erguiam em ambas as margens do 4 Quão terrível e humilhante era-lhes o
rio que nascia do trono. pensamento de verem seus planos de rebeldia
4 A que se elevava à direita revelou o Se- desfazerem-se diante do Criador, semelhantes
nhor ser a árvore da vida monumento do reino às sombras daquela noite.
da luz. 5 Se pudessem, pensavam, encheriam o
5 A que se erguia à outra margem revelou sábado de trevas, banindo da mente dos súdi-
ser a árvore da ciência do bem e do mal - tos do Eterno qualquer esperança de vitória.
símbolo da rebeldia. 6 Finalmente, em suas considerações, Sa-
6 Comendo do fruto da árvore da vida, o tanás e seus liderados compreenderam que
homem manifestaria sua submissão ao Cria- lhes restava uma oportunidade: no meio do
dor, que é Fonte de vida e luz. jardim do Éden, nas alturas de Sião, elevava-
7 Comer da outra árvore seria entregar ao se, junto ao rio da vida, a árvore da ciência do
inimigo o domínio de Sião. bem e do mal.
8 O inevitável resultado desse passo seria 7 Bastaria um gesto humano, nada mais, e
a morte eterna, não somente para o ser huma- teriam sob seu poder, para sempre, o domínio
no, mas para toda a criação, que se reduziria cobiçado.
ao caos sob a fúria da rebeldia. 8 Mas como seduzi-lo?
9 Após contemplar demoradamente as 9 Animado ante a perspectiva de uma
duas altaneiras árvores, que externavam em conquista, Satanás procurou, com engenhosi-
dade, arquitetar um plano de abordagem.
16 MELQUISEDEQUE, 29, 30

10 Sabia que, se falhasse em sua tentativa, 13 Ao despertarem para as alegrias de ca-


todas as esperanças de triunfo ter-se-iam da dia vinham-lhes à lembrança as carícias e o
diluído, desfazendo-se todos os seus sonhos doce canto do Eterno, que os fazia adormecer
de aventura. todas as noites.
11 Concluiu que o engano haveria de ser 14 A vida de Adão e Eva no Éden não era
sua poderosa arma. de ociosidade.
12 Não fora através dele que conseguira 15 A eles foi recomendado o cuidado do
dominar um terço das hostes celestes?! jardim.
13 Aguardaria, portanto, um momento 16 Sua ocupação não era cansativa, ao
propício para armar sua cilada. contrário, era agradável e revigorante.
17 O Criador indicara o trabalho como
A paz e a harmonia reinava no Éden uma fonte de benefícios para o homem, a fim
de ocupar-lhe a mente e fortalecer-lhe o cor-

29 NO Éden pairava a doce calma de


uma perfeita paz.
2 Por todos os lados os passarinhos fazi-
po, desenvolvendo-lhe todas as faculdades.
18 Na atividade mental e física, o homem
encontrava um elevado prazer.
am ouvir seus alegres trinos em louvor cons- 19 Era comum ao jovem casal receber vi-
tante ao Criador. sitas de seres celestes.
3 Toda a natureza a florir parecia procla- 20 Aos visitantes sempre tinham novida-
mar um reino de eterna alegria. des a relatar e perguntas a fazer.
4 Os animais em união brincavam por to- 21 Passavam longo tempo ouvindo deles
da parte, sempre submissos ao homem, o sobre as maravilhas do reino de luz.
senhor daquele paraíso encantador. 22 Através desses visitantes, Adão e Eva
5 Tudo era felicidade para o casal; mas passaram a ter amplo conhecimento da rebe-
esta tornava-se mais intensa na viração daque- lião de Lúcifer e de suas eternas consequên-
les dias primaveris. cias.
6 O arrebol, que com sua beleza coloria o 23 Aos visitantes, Adão e Eva sempre pe-
céu prenunciando as escuras noites, anuncia- diam que lhes ensinassem os harmoniosos
va-lhes também o momento da visita diária do cânticos celestiais.
Eterno. 24 Como se deleitavam ao unirem as vo-
7 Juntos, sob a luz de Sua presença, pas- zes ao coro angelical!
savam longo tempo em conversação.
8 Com ânimo, o casal contava ao Senhor Deus revela a seus anjos os planos de Sata-
as surpreendentes maravilhas que iam desco- nás, os quais advertem o homem do pecado
brindo a cada dia na natureza.
9 Deus, com carinho, descerrava-lhes o
significado de cada ser.
10 Como ficavam gratos pelas lindas li-
30
inimigo.
EM Sua onisciência, Deus tinha
conhecimento do terrível intento do

ções aprendidas a Seus pés! 2 Convocando as Suas hostes principais,


11 A cada dia que passava maior era o revelou-lhes com pesar o iminente perigo que
amor, o respeito e a admiração pelo grandioso pairava sobre o Universo.
Criador. 3 Satanás haveria de armar uma cilada, a
12 Como Ele fora bom, trazendo-os à fim de levar o homem a comer da árvore da
existência e concedendo-lhes um lar tão cheio ciência do bem e do mal.
de delícias! 4 Ante essa revelação, os filhos da luz
MELQUISEDEQUE, 30 17

ficaram temerosos, pois conheciam a tremen- 19 Satanás haveria de armar-lhes uma ci-
da facilidade de Satanás em enlaçar criaturas lada, a fim de levá-los a comer do fruto da
inocentes e atirá-las em suas malhas de morte. árvore da ciência do bem e do mal.
5 No solene concílio, sem a autorização 20 Se dessem ouvidos à tentação, fariam
de Deus, decidiram enviar, com urgência, sucumbir toda a criação no abismo de um
mensageiros para advertirem o homem do eterno caos.
grande perigo. 21 Os anjos lembraram-lhes que o reino
6 Dois poderosos anjos foram encarrega- lhes fora confiado como um sagrado depósito,
dos dessa decisiva missão. devendo, em uma vida de fidelidade, honrar
7 Imediatamente, os mensageiros comis- Aquele que por amor esvaziou-Se, colocando-
sionados irromperam pelos portais de Jerusa- Se numa posição de hóspede do ser humano.
lém, alcançando o seio do espaço infinito. 22 Adão e Eva deveriam ser firmes ante
8 Em instantes, transpuseram imensidões, as insinuações do inimigo, pois assim selari-
cruzando todo o universo. am a eterna vitória do reino da luz.
9 Penetraram no túnel da constelação de 23 Falando-lhes da feliz recompensa que
Orion, aproximando-se do novo sistema. se seguiria ao seu triunfo, os anjos revelaram
10 Podiam agora divisar a pouca distância que era plano de Deus a transferência de
o Jardim do Éden, onde o destino do Universo Jerusalém Celeste para a Terra.
estava para ser decidido. 24 Ali, novamente acoplada ao paraíso,
11 No Éden havia descontração. permaneceria para sempre.
12 O jovem casal continuava em suas 25 E o homem, submisso ao Criador, rei-
inocentes atividades, desfrutando o prazer de naria pelos séculos sem fim sobre o monte
um viver feliz. Sião, em meio aos louvores das hostes univer-
13 Longe estavam de pensar que naquele sais.
momento todo, que todos os filhos da luz 26 Mas tudo isso dependia inteiramente
estavam tensos, pensando em seu futuro do posicionamento humano frente às tenta-
ameaçado. ções do inimigo, que faria de tudo para arre-
14 Adão e Eva viram então no límpido batar-lhe o reino.
céu o sinal da aproximação dos visitantes 27 Adão e Eva ficaram temerosos ao co-
celestes e a eles ergueram os braços numa nhecerem os planos de Satanás, mas foram
alegre saudação. consolados ao saber e que ele não poderia
15 Adão e Eva admiraram-se, porém, por fazer-lhes nenhum mal, forçando-os a comer
não verem no semblante deles a mesma ale- do fruto proibido.
gria. 28 Se, porventura, procurasse intimidá-los
16 Os visitantes traziam na face uma ex- com seu poder, todas as hostes do Eterno
pressão de anseio que eles não podiam enten- viriam em seu socorro.
der. 29 Os mensageiros da luz concluíram sua
17 Tentaram mudar-lhes a triste feição, missão recomendando ao casal permanecerem
contando-lhes as novas descobertas feitas no vigilantes, tendo sempre em mente a respon-
paraíso. sabilidade que sobre eles repousava.
18 Os mensageiros, todavia, não tendo 30 Não deveriam separar-se um do outro,
tempo disponível como outrora, interrompe- nem por um momento sequer, pois a sós
ram-nos com palavras de advertência. poderiam ser seduzidos.
31 Adão e Eva, agradecidos pelas adver-
tências dos anjos, uniram as vozes num
18 MELQUISEDEQUE, 31, 32

cântico de promessa em uma eterna vitória. 11 Animados, contudo, ante o pensamen-


32 Estavam certos de que jamais abando- to da vitória, uniram mais uma vez as vozes
nariam o bendito Criador, ouvindo a voz do num cântico que expressava a certeza do
tentador. triunfo anelado.
33 Animados ante a promessa humana, os 12 Essa melodia baniu de suas mentes to-
dois mensageiros retornaram ao seio da Jeru- do o medo de derrota e, alegres, correram
salém Celeste onde, junto às hostes santas, pelos prados verdejantes, acompanhados
aguardariam com anseio o anelado triunfo. pelos fogosos animais que pareciam comemo-
rar a grande conquista.
Satanás fala em acabar com cântico de lou- 13 Sentiam-se seguros em seu paraíso, to-
vor do homem talmente esquecidos do perigo de uma possí-
vel tentação.

31 SATANÁS viu aproximarem-se do


paraíso os mensageiros e ouviu o
canto do homem prometendo uma eterna
Satanás segue cada passo do homem, espe-
rando uma oportunidade para traga-lo no
vitória. pecado
2 Esse cântico fez com que sua inveja e
ódio aumentassem de tal maneira que não os
pôde conter.
3 Disse então a seus seguidores que em
32 ENTÃO Satanás, que observava
atentamente o casal, percebeu estar
chegando a sua oportunidade.
breve faria silenciar aquela voz. 2 Aproximou-se de forma invisível do pa-
4 Faria tudo para transformar o louvor raíso, e ficou esperando o melhor momento
humano em blasfêmias ao Criador. para armar sua cilada.
5 As hostes rebeldes ficaram curiosas para 3 Inconsciente da presença do inimigo, o
conhecer os planos de seu chefe, mas foram casal continuava em sua desprendida alegria
por ele advertidas de que deveriam aguardar brincando despreocupadamente com os ani-
até que tudo ficasse para sempre decidido. mais.
6 Se o homem ouvisse sua voz, comendo 4 No semblante transtornado de Satanás
do fruto da árvore da ciência do bem e do estampou-se um maldoso sorriso, ao presen-
mal, seria vitorioso, possuindo para sempre o ciar um descuido do casal: em sua exaltação,
domínio do Universo. haviam afastando-se um do outro.
7 Caso o homem resistisse, permanecendo 5 O astuto inimigo, não perdendo tempo,
fiel ao Criador, já não haveria qualquer espe- apossou-se de uma serpente, a mais bela do
rança para eles. paraíso, fazendo-a aproximar-se graciosamen-
8 O paraíso parecia estar envolvido por te de Eva.
uma eterna segurança, mas no semblante do 6 Eva, que assentada no gramado brinca-
homem podia ser vista uma expressão de va com os animais, percebeu a presença da
temor. atraente serpente, cujo corpo refletia as cores
9 Desde a partida dos anjos, Adão e Eva do arco-íris.
permaneciam silenciosos, meditando com 7 Ficou admirada ao vê-la colher flores e
reverência sobre a tremenda responsabilidade frutos do jardim, depositando-os a seus pés.
de sua missão. 8 Agradecida, tomou-a nos braços, dedi-
10 Pensavam na seriedade daquela imi- cando-lhe afeto.
nente prova que haveria de selar o seu futuro 9 Tendo conquistado a afeição da mulher,
e o de toda a Criação. Satanás, em sua astúcia, começou a atraí-la
MELQUISEDEQUE, 33, 34 19

para junto da árvore da ciência do bem e do 9 Em sua aflição pôs-se a correr de um


mal. Sem se dar conta do perigo, Eva acom- lado para outro, procurando-a, em vão.
panhou a serpente até a árvore da prova. 10 Nessa ansiosa busca, sentiu a brisa
10 Ali, tendo nos braços o inimigo vela- acariciar-lhe os cabelos e recordou seu pri-
do, acariciou-o e disse-lhe palavras de cari- meiro sonho.
nho. 11 Essa lembrança, no entanto, desfez-se
11 Tendo nos olhos o brilho da sedução, a ante o pensamento do perigo que os ameaça-
serpente pôs-se a falar. va.
12 Suas palavras eram cheias de sabedoria 12 Com a mente tomada por um grande
e ternura e sua voz como a de um anjo. senso de culpa, Adão apressou o passo na
13 Eva mal pôde crer no que via. aflitiva procura.
14 Sua alegria tornou-se imensa por ter 13 Onde estaria a sua amada? A envolve-
nos braços uma criatura tão fantástica. ria a tempo em seus braços, livrando-a de
15 Passaram a conversar sobre muitas cair?
coisas: o amor; as belezas do jardim; o poder 14 Mais uma vez ergueu a voz num grito
do Criador. ansioso que repercutiu por todo jardim: "Eva,
16 Eva ficou admirada ante o conheci- onde você está?"
mento tão vasto da serpente, que discorria 15 Aguardou uma resposta, mas ouviu
com maestria sobre qualquer assunto. somente um eco vazio que o desesperou.
17 Envolvida por essa experiência, Eva 16 Lembrou-se da árvore da ciência do
esqueceu-se completamente de seu compa- bem e do mal; ali era o único lugar que não
nheiro. fora procurado onde sua companheira poderia
18 Nem sequer passavam pela sua mente ser iludida..
as advertências dos anjos. 17 Esperando obstruir a única oportuni-
dade do inimigo avançou em direção ao lugar
A aflição de Adão por não encontrar Eva da prova.
18 Seu coração pulsou forte ao contem-

33 ADÃO, inteiramente esquecido dos


conselhos dos mensageiros celestes,
havia se afastado na companhia de alguns
plar ao longe a copa da árvore proibida.

Satanás confunde Eva com suas mentiras


animais.
2 Depois de certo tempo, sobreveio com
ímpeto em sua mente a lembrança das adver-
tências recebidas.
34
coisa.
COM a serpente em seus braços, Eva
interrogou-a a respeito de muita

3 Soaram em seus ouvidos com clareza as 2 Maravilhou-se ao perceber que a ser-


últimas palavras proferidas pelos anjos: pente a sobrepujava grandemente em conhe-
4 "Não se afastem um do outro... Não se cimento.
separem nem por um instante, pois é perigo- 3 Cheia de curiosidade, perguntou à ser-
so". pente: Onde está a fonte de seu tão grande
5 Subitamente o coração de Adão pulsou saber?
forte por não ver Eva a seu lado. 4 Responda-me, pois quero também pos-
6 Ergueu então a voz num grito ansioso. suí-la.
7 Sua voz, ecoou pelo paraíso, contudo, 5 Sem perder tempo, Satanás, apontando
não trouxe consigo uma resposta. para a árvore da ciência do bem e do mal,
8 O silêncio quase o sufocou. respondeu:
20 MELQUISEDEQUE, 35

6 Ali está a fonte de todo meu saber. 2 Em cada planeta habitado, os filhos da
7 Ele conta então uma mentirosa história: luz contemplavam impotentes aquela angusti-
disse que era uma serpente como as demais, ante cena.
comendo dos frutos do paraíso. 3 O futuro deles estava em jogo.
8 Provando certo dia daquele fruto espe- 4 Em Jerusalém havia grande comoção.
cial recebeu, como que por encanto, todas as 5 Poderosos anjos apresentaram-se diante
virtudes. do Criador, solicitando permissão para esma-
9 Olhando para a árvore da ciência do garem o covarde inimigo, oculto naquela
bem e do mal, Eva ficou surpresa e confusa. serpente.
10 Privaria o Criador em seu amor algo 6 O Eterno, contudo, impediu-lhes tal
tão bom às suas criaturas?! ação.
11 Vendo-a surpresa, Satanás perguntou: 7 Se o uso da força fosse a solução, já o
12 É assim que Deus disse: Não comereis teria aplicado.
de todas as árvores do jardim? 8 Deviam respeitar o livre-arbítrio conce-
13 Eva, inquieta, respondeu: Dos frutos dido ao homem, podendo ele manifestar sua
das árvores do jardim comemos, mas do fruto escolha sob a tentação do inimigo.
dessa árvore que você diz ser fonte de sabedo- 9 Os filhos da luz sofriam imensamente
ria, disse Deus: "Não comereis dele, para que ao verem a mulher duvidando d’Aquele que
não morrais". tão bondosamente lhes dera a vida e a oportu-
14 A serpente em tom de desdém disse: nidade de reinarem naquele paraíso.
Isso é falso. 10 Como poderia duvidar de quem lhes
15 Se fosse assim, eu teria morrido. dedicava tanto amor?!
16 Certamente o Eterno os proibiu de co- 11 Adão, que numa forte esperança de as-
mer dessa árvore para impedir que o homem segurar a acalentada vitória apressava-se em
venha a se tomar como Ele, conhecendo todas sua corrida, contemplou ao longe sua amada,
as coisas. assentada junto à árvore da prova.
17 As palavras sedutoras da serpente cau- 12 O que fazia Eva naquele lugar tão pe-
saram confusão na mente de Eva. rigoso?!
18 Em quem confiaria? 13 Um pressentimento horrível lhe sobre-
19 Tinha em mente a lembrança da ordem veio, ao lembrar-se mais uma vez das adver-
do Criador e de sua sentença, mas ao mesmo tências recebidas, mas procurou bani-lo como
tempo tinha diante de si uma prova palpável pensamento de que alcançaria sua esposa
que O contradizia. antes que algum mal lhe ocorresse.
20 Atordoada começou a duvidar do cará- 14 Eva vacilava em sua convicção ao con-
ter do Eterno. templar o fruto em suas mãos.
21 Num desafio, a serpente colheu frutos 15 Seu brilho, seu encanto, uma forte ma-
da árvore proibida e passou a saboreá-los. gia atraia aquele fruto a sua boca.
22 Colocando um fruto nas mãos da mu- 16 Por alguns momentos o futuro pare-
lher incentivou-a a comer, dizendo: ceu-lhe sombrio e aterrador, mas venceu esse
23 Não disse o Eterno que se alguém to- sentimento, pensando nas glórias que haveria
casse nesse fruto morreria? de conquistar ao comer aquele fruto.
17 Ainda um tanto indecisa ergueu vaga-
A queda de Eva rosamente as mãos até tocar o fruto com os

35 UM completo silêncio pairava sobre


o Universo.
lábios.
18 Os súditos do reino da luz, estremeci-
MELQUISEDEQUE, 36 21

dos, inclinaram-se tomados por grande espan- fronte estampando um sorriso, mas surpreen-
to. deu-se ao vê-lo chorando.
19 Parecia quase impossível, àquela altu- 36 Com profunda amargura, Adão procu-
ra, a mulher voltar atrás. rou saber a razão que a levara a rebelar-se
20 Enquanto pálidos os fiéis indagavam contra o Eterno.
sobre uma possível esperança, presenciaram 37 Eva, prontamente, passou a contar-lhe
com horror a terrível decisão de Eva: resolve- a fantástica história da sábia serpente.
ra romper para sempre com o Criador, tor- 38 Satanás sabia que essa história de ser-
nando-se cativa da morte. pente jamais convenceria o homem a comer
21 O Eterno, que em silêncio e dor con- do fruto da árvore proibida.
templava aquela cena de rebelião, curvou a 39 Precisava encontrar uma maneira sutil
fronte a face banhada de lágrimas. de levá-lo a selar sua sorte seguindo os passos
22 Não podia suportar a dor daquela sepa- de sua esposa.
ração. 40 Tendo Eva sob seu poder resolveu fa-
23 Os fiéis, que em pânico julgavam-se zer dela o objeto tentador.
vencidos, foram conscientizados de que nem 41 Aguardaria o momento oportuno para
tudo estava perdido. enlaça-lo.
24 Se Adão resistisse à tentação, perma-
necendo fiel ao Eterno, ele selaria a grande A queda de Adão
vitória.
25 Eva, que fora vítima de um engano,
poderia ser conscientizada de seu erro, sendo
favorecida com o perdão divino.
36 NO dia em que dela comerdes, cer-
tamente morrereis.
2 A lembrança desta sentença deixava
26 Quando Adão em sua angustiosa corri- Adão muito aflito.
da alcançou o lugar da árvore, já era tarde 3 A expectativa de ver sua amada pere-
demais. cendo em seus braços, era demais para supor-
27 Assentada junto ao rio, Eva saboreava tar.
despreocupadamente o fruto proibido. 4 Esta aflição, contudo, foi diminuindo,
28 Adão estremeceu. ao ver que ela continuava feliz e carinhosa ao
29 Seria mesmo o fruto da prova? seu lado, como se nenhum mal lhe houvesse
30 Num gesto de esperança olhou para a acontecido.
árvore da ciência do bem e do mal, mas em 5 Aliviado, Adão voltou a sorrir, corres-
pranto reconheceu a triste condenação. pondendo aos afetos de sua companheira.
31 Cheio de tristeza contemplou sua espo- 6 Rendia-se às mais doces emoções, longe
sa, mas não encontrou palavras para despertá- de saber que era o inimigo quem o envolvia
la para tão amarga realidade. naqueles abraços.
32 Em completo desespero ergueu a voz 7 Nesse momento de enlevo, Eva come-
numa dolorosa exclamação: çou a falar-lhe de sua experiência com a
33 "Eva, Eva, o que você está fazendo!". ciência do bem e do mal.
34 Ao comer do fruto proibido, a mulher 8 Falou-lhe dos tesouros da sabedoria que
foi tomada por emoções que a fizeram imagi- lhe haviam sido abertos.
nar haver alcançado uma esfera superior de 9 Em seu novo reino, viveria muito feliz.
vida. 10 Entretanto, essa felicidade seria in-
35 Ao ouvir a voz de seu esposo, ainda completa sem a participação de seu esposo.
tomada pelas ilusórias emoções, ergueu a 11 Falou-lhe da impossibilidade de
22 MELQUISEDEQUE, 37

retroceder em seus passos, e insistiu para que 29 Satanás, com brados de triunfo, deixou
ele a seguisse. o paraíso, voando rapidamente para junto de
12 Depois de falar-lhe de sua decisão, suas inumeráveis hostes, que aguardavam
Eva, com um doce sorriso, estendeu-lhe as ansiosas o resultado de tão arriscada tentativa.
mãos contendo um fruto, pedindo-lhe que o 30 Ao saberem da desgraça humana, uni-
comesse numa demonstração de seu amor por ram-se numa estrondosa festa.
ela. 31 Sentiam-se seguros.
13 Com a voz tentadora em seus ouvidos, 32 Sião agora lhes pertencia por direito,
Adão assentou-se no gramado em profunda podendo lá estabelecer um reino eterno, ja-
reflexão. mais sendo molestados pelas leis do Eterno.
14 Sua face tornou-se novamente pálida e
suas mãos trêmulas. A angustia do anjos da luz
15 Temia rebelar-se contra o Criador, mas
ao mesmo tempo compreendia que não con-
seguiria viver separado de sua companheira, a
quem amava com infinito amor.
37 EM todo o Universo os filhos da luz
sofriam e pranteavam a derrota.
2 Nunca houvera tanta tristeza e horror
16 Eva era carne de sua carne, a extensão ante o futuro.
de seu ser. 3 As vozes que viviam a entoar louvores
17 Sentia-se angustiado ao ter de tomar ao Criador proferiam agora lamentações.
uma decisão tão séria. 4 O Eterno, que vencido por infinita dor
18 A palidez do rosto de Adão refletiu-se prostrara-Se em pranto ante a queda do ho-
no semblante de todos os fiéis ao Eterno. mem, não fora, contudo, surpreendido.
19 Ouviram a insinuação do inimigo e 5 Pois, antes mesmo de criar o Universo
perceberam com horror a vacilação do ho- já havia previsto esse triunfo da rebeldia e, em
mem. Sua sabedoria e amor, idealizara um plano de
20 A indecisão de Adão deixava-os de- resgate que O envolveria num imenso sacrifí-
sesperados. cio.
21 Se obedecesse ele àquela proposta de 6 Enxugando as lágrimas de Seu pranto,
Satanás, toda felicidade seria eternamente pôs-Se a agir poderosamente em favor de
banida. Seus fiéis aflitos, impedindo-os de caírem nas
22 Na decisão do ser humano estava o mãos dos inimigos.
destino de todo o Universo. 7 Nessa misteriosa intervenção que apa-
23 Atenderia ele ao apelo de Satanás? rentemente depunha contra a justiça, o Eterno
24 Depois de intensa luta íntima, Adão ordenou que Seus mais poderosos anjos cir-
olhou para sua companheira; a ela unira-se em cundassem imediatamente o jardim do Éden,
promessas de uma eterna entrega. impedindo que Satanás tomasse posse do
25 Não a deixaria só agora. monte Sião.
26 Partilharia com ela os resultados da re- 8 Consoladas ante a manifestação divina,
belião. as potentes criaturas, em pronta obediência,
27 Tomou então das mãos de Eva um fru- romperam o espaço infinito, circundando em
to e, num gesto apressado, levou-o à boca. instantes o paraíso, no seio do qual o ser
28 Procurando abafar a voz de sua cons- humano, já transtornado pelo pecado, vivia o
ciência, que lhe falava de uma eterna perdi- negror de uma noite que seria longa e cruel.
ção, Adão lançou-se nos braços de sua esposa, 9 Sendo a autoridade do Eterno funda-
desfrutando o alto preço de sua rebelião. mentada na justiça, de que maneira poderia
MELQUISEDEQUE, 37 23

justificar Suas ações diante dos inimigos? 22 Mas farei cair toda a condenação sobre
10 Não entregara por Sua vontade o reino um Redentor que surgirá na descendência
ao homem, e esse por livre escolha não o humana.
submetera a Satanás? 23 Esse Homem não trará em suas mãos
11 Enquanto surpresas as criaturas racio- as algemas da morte, sendo inocente e incon-
nais consideravam as ações decisivas de taminado em Sua natureza.
Deus, ouviram Sua potente voz que, repercu- 24 Como representante da raça humana,
tindo por toda a criação, trazia a revelação do enfrentará Satanás e o vencerá.
grande mistério; revelação tão maravilhosa 25 Após triunfar nessa batalha, provando
que a partir daquele momento, por toda a que o amor é mais forte que o egoísmo, que a
eternidade, ocuparia a mente dos fiéis, sendo verdade é mais forte que a mentira, que a
tema para as mais doces meditações. humildade é mais poderosa que o orgulho, o
12 O Eterno falou primeiramente sobre a fiel Redentor erguerá as mãos vitoriosas não
terrível condenação que pendia sobre o ho- para saudar a grande conquista, mas para
mem e toda a criação. tomar das mãos da humanidade escravizada à
13 Disse que, ao se desligar da Fonte da taça de sua condenação.
Vida, o homem havia se precipitado em tão 26 Sorverá assim, submisso, o cálice da
profundo abismo que não poderia ser alcan- eterna morte.
çado pelo Seu braço de justiça e poder. 27 Esse imenso sacrifício abrirá aos seres
14 Humilhado e torturado pelas garras do humanos uma oportunidade de serem redimi-
inimigo, não restava ao homem outra sorte dos, voltando aos braços do Criador, junta-
além da morte; fruto doloroso de sua espontâ- mente com o domínio perdido.
nea rebelião. 28 As hostes, surpresas ante a revelação
15 Considerando a situação humana, as do Eterno, indagaram a identidade d'Esse
hostes da luz não viam possibilidades de Redentor.
triunfo. 29 O Criador, com um sorriso amoroso,
16 Sabiam que só o homem poderia reto- disse-lhes:
mar o domínio do inimigo, devolvendo-o ao 30 Parte de Mim será esse Homem.
Criador. 31 O Meu Espírito repousará sobre uma
17 Mas o ser humano, eternamente escra- virgem, e nela será gerado um Filho Santo.
vizado em sua natureza, seria incapaz de tal 32 Esse menino será divino e humano.
vitória. 33 Em sua humanidade, ele será submisso
à divindade que n’Ele habitará.
Deus fala sobre o plano de salvação do ho- 34 Os remidos verão n'Ele o Pai da Eter-
mem nidade, o Criador e Redentor, o Rei dos reis.
35 O Seu nome será Jesus (Yoshua nome
18 Com voz melodiosa e cheia de ternura, hebraico que traduzido significa o Eterno
Deus revelou o plano da redenção, dizendo: salva).
19 Na verdade, o homem colherá o fruto 36 Assumindo a natureza humana, Deus
de sua rebelião numa terrível morte. poderia pagar o resgate, morrendo em lugar
20 Não posso, com o Meu poder, mudar- dos pecadores.
lhe a sorte. 37 As hostes da luz ficaram emudecidas
21 Se assim agisse, seria injusto diante de ao conhecer o plano do Criador.
meu decreto. 38 O pensamento de verem-No submeter-
Se a tão penoso sacrifício, a fim de redimir o
24 MELQUISEDEQUE, 38, 39

domínio perdido, era demais para suportarem. 15 Sua natureza já não era pura e santa,
39 Não havia, contudo, outra esperança de mas corrompida e cheia de rebeldia.
vitória, a não ser através dessa amorosa entre- 16 Tudo estava mudado.
ga. 17 Mesmo a brisa mansa que até ali os
havia banhado em carícias refrescantes, enre-
Adão e Eva entram em grande tristeza gelava agora o culposo par.
18 As árvores e os canteiros floridos, que

38 APÓS desfrutar o pecado, o jovem


casal sentiu-se mal.
2 Inicialmente sentiram um grande vazio
eram seu deleite, consistiam agora em empe-
cilhos ao caminharem sem rumo naquela
noite.
no coração, que logo foi preenchido pelo 19 O propósito de Satanás em encher o
remorso e pela tristeza. sábado de trevas parecia haver se cumprido.
3 Perceberam que, inspirados pela cobiça, 20 Naquela noite, não existia sequer o re-
haviam selado sua triste sorte e a de toda a flexo prateado do luar para falar-lhes de
criação. esperança.
4 Parecia-lhes ouvir ao longe o gemido de 21 As estrelas cintilantes, suspensas no
um Universo vencido. escuro céu, estavam ofuscadas pela dor.
5 O sol, que os enchera de vida e calor 22 Baixavam sobre o mundo as trevas de
naquele dia, ocultava-se no horizonte, anunci- uma longa noite de pecado; sombras sob as
ando-lhes uma negra noite. quais tantos se arrastariam sem esperança de
6 O arrebol, que até ali anunciara-lhes o um alvorecer.
feliz encontro com o Criador, parecia envol-
ve-los numa sentença de que jamais desperta- Adão e Eva fogem da presença do Eterno
riam para um novo dia.
7 Não ousavam sequer olhar para cima,
temendo ver cair sobre eles o raio do juízo
que os reduziria a pó.
39 A NOITE já ia alta e as trevas pare-
ciam envolver o triste casal em eter-
nas sombras.
8 Com o olhar voltado para o frio solo vi- 2 Nem sequer cogitavam em suas poucas
nha-lhes à lembrança a sentença: palavras, sufocadas pela agonia, de um alvo-
9 “No dia em que dela comerdes, certa- recer.
mente morrereis”. 3 Cabisbaixos, tateavam daqui para ali, na
10 Desesperadas lágrimas rolavam em expectativa do juízo iminente, que os redu-
seus rostos ao aguardarem o trágico fim. ziria ao frio pó, esquecido sob aquelas trevas
11 Ao considerar o motivo de sua rebe- sem fim.
lião, Adão começou a recriminar sua esposa 4 Quando surgiu repentinamente um bri-
por ter dado ouvidos à serpente. lho no céu, que ia aumentando à medida que
12 Eva, por sua vez, procurando descul- se aproximava da Terra.
par-se, lançou a culpa sobre o Criador, dizen- 5 O casal estremeceu, pois sabia que era o
do: Criador que vinha dar-lhes o castigo.
13 “Por que o Eterno permitiu que a ser- 6 Vencidos pelo pânico, puseram-se a
pente me enganasse?!” correr, distanciando-se do monte Sião, o lugar
14 O amor que reinava no coração huma- da vergonhosa queda.
no desaparecia, dando lugar ao orgulho e ao 7 Justamente para ali viram o Criador di-
egoísmo, que se fundiam em ressentimentos e rigir-Se.
ódio. 8 Eles, que sempre corriam ao encontro
MELQUISEDEQUE, 39 25

do amoroso Pai, atraídos por Sua luz, fugiam 26 Não podendo mais se ocultar de Deus,
agora desesperados em busca de lugares Adão ergueu-se juntamente com sua compa-
escuros, de densa floresta. nheira e, cabisbaixos, apresentaram-se ao
9 O Eterno, movido por infinito amor, Criador, prostrando-se trêmulos a Seus pés.
passou a seguir os passos do casal fugitivo. 27 Não conseguiram encará-Lo mais, de-
10 Enquanto caminhava, chorava ao lem- vido ao senso de culpa.
brar os momentos felizes que havia passado 28 O Criador, carinhosamente, tomou-os
junto a eles naquele paraíso. pelas mãos, erguendo-os do chão, e, com
11 Como tudo se transformara! expressão de tristeza no semblante, pergun-
12 Seus filhos não conseguiam mais ver tou-lhes:
n'Ele um Pai de amor, mas alguém que, irado, 29 “Por que vocês fugiram de Mim? Aca-
buscava castigá-los. so comeram do fruto da árvore da ciência do
13 Movido por forte anseio de abraçar bem e do mal?”.
Seus filhos humanos, Deus fez ecoar a voz 30 Adão, todo trêmulo, com voz entrecor-
numa indagação: tada de temor, respondeu:
14 “Adão, onde vocês se encontram?”. 31 “A mulher que me deste por compa-
15 Sua voz, ao soar em meio às trevas, nheira, ela deu-me o fruto e eu comi”.
trazia consigo somente um eco vazio que 32 Com esta resposta, Adão procurava
falava de ingratidão e rebeldia. desculpar-se, lançando a culpa sobre sua
16 Como desejava envolver o casal num companheira.
ardoroso abraço, e com palavras de carinho 33 Voltando-Se para Eva, o Eterno inda-
confessar-lhe que Seu amor era o mesmo! gou-lhe:
17 Ao ver Seus filhos fugindo de Sua pre- 34 “Por que você fez isso”?
sença, o Eterno foi tomado de grande dor. 35 Eva prontamente respondeu-Lhe:
18 Ante Seu olhar mareado de lágrimas 36 “Aquela serpente me enganou e eu
estendia-se o futuro da raça humana. comi”.
19 Quantos, enganados por Satanás, fugi- 37 Ambos não queriam reconhecer a cul-
riam de Sua presença no decorrer da longa pa, lançando-a sobre outrem.
noite de pecado, julgando-No um Senhor 38 Em suma, atribuíam ao Criador a res-
tirano, que vive buscando falhas e fraquezas ponsabilidade por todo o mal praticado e
nos pecadores, a fim de castigá-los! indagavam:
20 O Criador, todavia, não desistiria de 39 Por que concedera-lhes o livre-
procurá-los pelos vales sombrios do reino da arbítrio? Por que criara a mulher? Por que
morte, até conquistar um povo arrependido. criara a serpente?
21 Adão e Eva, exaustos pela pressurosa 40 Em silêncio, Deus observava Seus fi-
fuga, esconderam-se por entre a folhagem de lhos que, tímidos e desconcertados, permane-
um pé de figueira. ciam diante de Si.
22 Reconhecendo sua nudez procuraram 41 Com profunda tristeza, Ele previu que
fazer aventais cosendo aquelas folhas. essa seria a experiência de incontáveis seres
23 Vestidos assim julgaram poder livrar- humanos no decorrer da história.
se do sentimento de vergonha ante o Criador. 42 Quantos haveriam de se perder por não
24 O Eterno, aproximando-Se do local reconhecerem a própria culpa!
onde o casal se escondia, perguntou: 43 Quantos procurariam justificar-se, lan-
25 “Adão, onde estão vocês?”. çando seus erros sobre os outros e até mesmo
sobre o Criador!
26 MELQUISEDEQUE, 40

44 Com palavras brandas, o Eterno procu- 9 Cabisbaixos, Adão e Eva, em pranto,


rou fazê-los reconhecer sua culpa. seguiram o Criador em Seus passos de justiça,
45 Somente reconhecendo sua necessida- que encaminhavam-nos ao lugar da vergonho-
de, poderiam ser ajudados. sa queda, onde supunham encontrar o doloro-
46 Olhando para as frágeis vestes tecidas so fim.
por mãos pecadoras, disse ao casal: 10 Nessa dolorosa caminhada soluçaram
47 “Filhos, essas vestes são insuficientes, ao lembrar seu passado de glória desfeito pela
logo secando se desfarão”. ingratidão.
48 Vocês precisam de vestes duradouras, 11 Como doía-lhes na alma a terrível ex-
que possam cobrir vossa nudez, livrando-vos pectativa de serem reduzidos, juntamente com
da condenação. a criação, a frias cinzas sob a escuridão da-
49 Se vocês quiserem, Eu posso dar-lhes quela noite de pecado!
essa veste. 12 Enquanto caminhavam, contemplavam
50 Ante as palavras bondosas do Criador, através das lágrimas as belezas adormecidas
que traziam esperança, o casal prostrou-se banhadas pela luz de Deus.
arrependido, despindo-se de suas ilusórias 13 Viam os inocentes animais, que não ti-
vestes, símbolos de seu fracasso. nham consciência da grande dor súbita, o
51 Almejavam agora as vestes da salva- casal se deteve vencido por intenso pranto;
ção, prometidas pelo divino Pai. seus vacilantes passos os haviam levado para
junto de um cordeiro, o animalzinho mais
O arrependimento – O primeiro sacrifício querido.
14 Seus olhinhos de meiguice haveria

40 DEPOIS de contemplar Seus filhos


que, arrependidos, jaziam a Seus pés,
o Eterno tomou-os carinhosamente pelas
também de se apagar!
15 Enxugando-lhes as lágrimas, o Eterno
ordenou-lhes tomar nos braços o inocente
mãos e os levantou. cordeiro.
2 Alegrava-Se em poder revelar ao ho- 16 Envolvendo-o junto ao peito, acompa-
mem caído o plano da redenção. nharam silenciosamente os passos do Criador,
3 Com ternura, Deus passou a descerrar- até alcançarem o topo do monte Sião, lugar da
lhes primeiramente os amargos resultados de vergonhosa queda.
sua queda, dizendo: 17 Contemplando ali os restos dos aver-
4 “Filhos, vocês selaram o destino de toda melhados frutos, com ímpeto lhes veio à
a criação nas garras da morte”. mente a lembrança da sentença divina:
5 A desarmonia já permeia a natureza, 18 “No dia em que dela comerdes, certa-
procurando destruir nela todas as virtudes. mente morrereis”.
6 O abismo no qual vocês imergiram pela 19 O terrível momento chegara.
desobediência é por demais profundo para 20 O homem culpado deveria sorver o
que possam ser alcançados pelo meu podero- amargo cálice da morte, sucumbindo sem
so braço. esperança.
7 Assim, desligado da Fonte da Vida, não 21 Consciente de sua perdição, o casal
resta mais ao ser humano outra sorte além da percebeu, com horror, que as mãos que os
morte. trouxeram para a vida empunhavam agora um
8 Depois de proferir estas palavras que cutelo pontiagudo de pedra.
revelavam uma triste sorte, o Eterno convidou 22 Trêmulos prostraram-se e esperaram
o casal a segui-Lo. pelo cumprimento da justa sentença.
MELQUISEDEQUE, 41 27

23 Enquanto emudecidos pelo medo, 43 Adão e Eva, embora compreendessem


Adão e Eva aguardavam o golpe que os redu- aquela realidade física, estavam longe de
ziria a pó, sentiram o toque macio das mãos entender o significado daquele acontecimento.
divinas que os erguiam para uma nova vida. 44 A eles o Criador revelaria o mistério
24 A condenação, contudo, haveria de re- do divino amor.
cair sobre um Redentor.
25 Colocando nas mãos de Adão o cutelo, Deus promete mandar um Redentor para
o Criador lhe disse: salvar o homem
26 O cordeiro morrerá em lugar de vocês.
27 Adão deveria sacrificá-lo.
28 Assustado ante a ordem de Deus, o ca-
sal, em pranto, pôs-se a clamar:
41 COM expressão de infinita miseri-
córdia, Deus passou a revelar ao ser
humano o sentido daquele doloroso sacrifício,
29 Senhor, o cordeirinho não, ele é ino- dizendo:
cente! 2 O inocente cordeirinho, que hoje pade-
30 Com expressão de justiça, o Eterno ceu, simboliza um homem que haverá de
acrescentou: nascer.
31 Se ele não morrer vocês não poderão 3 Em seus olhos haverá a mesma meigui-
ter as vestes das quais falei. ce, o mesmo amor.
32 Ante a insistência do Criador, Adão 4 Revestido por uma vida justa, como a
todo tremulo, num esforço doloroso, cravou branca lã que cobria o cordeiro, esse homem
no peito do cordeirinho aquela aguda pedra. crescerá como um renovo sobre a Terra, não
33 O golpe foi fatal, e o animalzinho, ver- tendo nas mãos as algemas do pecado.
tendo seu precioso sangue, mergulhou nas 5 Em sua aparência, esse homem não trará
trevas de uma noite sem fim. a pompa de um rei, por isso será desprezado
34 Contemplando o cordeirinho inerte so- por muitos.
bre a relva ensanguentada, o casal ergueu a 6 Será um homem de dores, pois cairá so-
voz e chorou. bre si o peso de todas as provações.
35 Começavam a compreender a enormi- 7 Em sua fidelidade ao reino da luz, esse
dade de sua tragédia. homem lutará contra o inimigo usurpador,
36 Quão terrível era a morte! vencendo-o finalmente.
37 Ela, em seu poder, apagara toda a luz 8 Após triunfar em suas lutas, tomará so-
dos olhos do inocente animal. bre si o fardo de vossa condenação que lhe
38 Inclinando-Se silenciosamente sobre o causará uma terrível morte.
corpo inerte do cordeiro, o Eterno tirou-lhe a 9 Ele será traspassado por causa da vossa
pele revestida de branca lã e com ela fez rebelião e moído pelas vossas iniquidades.
túnicas para cobrir a nudez do casal. 10 Será oprimido e humilhado, mas não
39 Após vesti-los perguntou-lhes com ca- abrirá a sua boca, como o cordeirinho que
rinho: hoje entregou-se pacificamente.
40 Vocês entenderam o sentido de tudo 11 Sucumbindo na morte, ele vos conce-
isto? derá os méritos de sua vitória.
41 Em profunda reflexão, por entre solu- 12 Envolvidos por suas vestes de justiça
ços de reconhecimento e gratidão, o casal estareis livres da condenação.
exclamou: 13 A vida eterna alcançareis assim, medi-
42 Ele morreu em nosso lugar, para dar- ante o sacrifício desse homem justo que have-
nos suas vestes! rá de nascer.
28 MELQUISEDEQUE, 42

14 Adão e Eva, que num misto de grati- 30 Viveremos assim para sempre, num
dão e dor ouviram a revelação de tão grande reino de perfeita harmonia e paz.
salvação, indagaram reverentes a respeito
desse homem especial que em sua descendên- A saída de Adão e Eva do jardim do Éden
cia haveria de surgir, a fim de cumprir tão
imenso sacrifício.
15 O Criador, olhando-os ternamente,
movido por um amor que supera mesmo a
42 O CRIADOR, que acompanhado
pelo casal permanecia ainda sobre o
monte Sião, concluiu Suas revelações dizen-
morte, os envolveu num carinhoso abraço e do:
revelou: 2 O jardim do Éden ficará agora vazio.
16 “De Meu sofrimento surgirá este Ho- 3 O homem, durante a longa noite de pe-
mem!”. cado, vagueará em seu exílio.
17 Surpresos ante a declaração do Eterno, 4 Não andará, contudo, sozinho, pois
Adão e Eva ficaram imóveis, enquanto con- Eterno, também peregrinará e trilhará com o
templavam o Seu meigo semblante. homem toda a estrada espinhosa, até poderem
18 Compreendendo o significado do tre- juntos galgar o monte perdido, triunfando
mendo sacrifício, prostraram-se a Seus pés e gloriosamente sobre o reino da morte.
com lágrimas clamaram: 5 A árvore da ciência do bem e do mal
19 Nós somos merecedores da morte Se- monumento da rebeldia será então desfeita,
nhor, mas Tu és inocente e não deves sofrer dando lugar a uma árvore gloriosa que, unin-
em nosso lugar! do sua copa à árvore da vida, se tornará no
20 Enxugando-lhes as lágrimas, o Eterno arco comemorativo da grande vitória.
com ternura lhes falou: 6 Sobre o santo monte redimido, repousa-
21 “Meus filhos, Eu os amo com um eter- rá então para sempre o torno universal, que
no amor”. pelos fiéis triunfantes será nomeado: o trono
22 Eu morrerei no lugar de vocês. de Deus e do Cordeiro”.
23 Ante esta confirmação, o casal ergueu 7 Adão e sua companheira, após ouvirem
a voz numa lamentação dolorosa. Diziam: palavras tão confortadoras e cheias de espe-
24 Nós matamos o Criador! Nós matamos rança, ergueram a voz num cântico de grati-
o Criador! dão e louvor.
25 Mas Deus passou a consolar o casal 8 Conheciam agora o infinito amor de seu
com palavras de esperança, dizendo: Criador e estavam dispostos a servi-Lo.
26 Após sorver o cálice da eterna morte, 9 Depois de consolar o casal, Deus levou-
Este Homem retomará a vida e subirá ao céu. os para fora do Éden.
27 Intercederei ali pelo homem perdido, 10 Não lhes foram fácil se despedir da-
concedendo a todos aqueles que, arrependi- quele precioso lar; ali haviam despertado para
dos, aceitarem meu sacrifício, as vestes de a vida nos braços do Eterno; ali desfrutaram
minha vitória. momentos de pura felicidade, em companhia
28 Juntos, triunfaremos finalmente sobre do Criador, dos anjos e dos dóceis animais.
o reino do pecado que se desfará em cinzas 11 Uma saudade infinita parecia envolver
sob nossos pés. o casal em seus passos de abandono.
29 Criarei então um novo Céu e uma nova
Terra, onde unicamente a justiça e o amor
reinarão.
MELQUISEDEQUE, 43, 44, 45 29

Satanás fica irado com a promessa de Deus os seus trinos, voavam agora distantes, fazen-
para com o homem do soar tão tristes cantos!
3 Tudo estava mudado na natureza.

43 FOI com espanto que Satanás e seus


súditos presenciaram a intervenção
do Eterno.
4 A ciência do bem e do mal não trouxera
nenhum bem ao Universo, mas um intenso
conflito espiritual e físico.
2 Ficaram abalados ante a surpreendente 5 Ante as consequências devastadoras de
revelação do plano de resgate. sua queda, o casal, vencido por uma indizível
3 Com raivosa frustração, compreende- tristeza, prostrou-se arrependido e chorou
ram que, se de fato a promessa divina se amargamente.
concretizasse, não restaria nenhuma esperan- 6 Deus, que também compungido pela dor
ça. contemplava o cenário desolador, procurou,
4 Depois de refletir sobre tudo o que com palavras de esperança, confortá-los.
acontecera, uma grande ira apossou-se de seu 7 Falou-lhes sobre o novo Céu e a nova
coração. Terra que um dia criaria, onde a paz e o amor
5 Não estava disposto a reconhecer a re- voltariam a reinar em cada coração.
denção do ser humano. 8 Ali viveriam sempre juntos, não trazen-
6 Faria todos os esforços para retê-lo, jun- do na fronte as marcas da tristeza, mas coroas
tamente com o reino que lhe fora entregue. de eterna vitória.
7 Quando o casal, acompanhado pelo Cri- 9 Ali enxugaria as lágrimas de suas faces
ador, alcançou o vale ferido pela morte, ama- e essas jamais voltariam a umedecer os seus
nhecia. olhos.
8 Ali Satanás os enfrentou com fúria, nu-
ma tentativa de se apossar novamente do ser Deus leva o casal para uma nova morada
humano.
9 O casal ficou trêmulo em face do inimi-
go, mas as mãos protetoras de Deus os acal-
maram.
45 AMPARANDO Adão e Eva em seus
passos, o Criador conduziu-os atra-
vés de um vale ferido, até alcançarem o sopé
10 Expressando no semblante a firmeza de uma colina.
de uma justiça que é eterna, o Eterno silenci- 2 Galgaram-na em lentos passos, enquan-
ou as ameaças do inimigo com as seguintes to trocavam palavras de ânimo e esperança.
palavras: 3 Seus pés alcançaram finalmente a relva
11 “O homem Me pertence, pois Eu o macia que cobria o topo espaçoso daquela
comprei com o meu sangue”. colina.
4 Era sobre aquele lugar que o casal via a
Toda criação sofre com o pecado do homem cada dia o sol declinar, banhando o céu e os
vales de um vermelho vivo, como o sangue

44 AO caminharem junto ao Criador,


Adão e Eva observavam com tristeza
os sinais da morte estampados naquela natu-
que jorrara do peito do cordeiro.
5 Voltando-se para o lado oriental, o ca-
sal, num misto de dor e saudade, contemplou
reza antes tão cheia de vida. ao longe as paisagens que os envolveram
2 As belas flores, que haviam desabro- naquele passado tão feliz.
chado para exalar aromas eternos, pendiam 6 Ao divisarem o monte Sião, que majes-
agora murchas; os passarinhos, que com toso erguia-se no meio do Éden, choraram ao
alegria os saudavam em cada alvorecer com lembrar da queda.
30 MELQUISEDEQUE, 46

7 Quão fracos tinham sido! temer, pois Eu permanecerei ao lado de vo-


8 O sol declinava em sua jornada, anunci- cês”.
ando a chegada de mais uma triste noite - a 21 Serei um companheiro amigo nesta
primeira fora do paraíso. jornada; levarei sobre os meus ombros suas
9 Num calmo gesto, o Eterno, mostrando- dores, seus anseios, suas lutas.
lhes o vale sobranceiro à colina, falou-lhes 22 Quando, tentados pelo inimigo, estive-
com carinho: rem a ponto de ceder, poderão encontrar
10 “Aqui será vossa provisória morada”. abrigo em meus braços, que sempre estarão
11 Daqui podereis contemplar o paraíso estendidos para salvá-los;
que por algum tempo permanecerá na Terra, 23 E, se algum dia vocês não resistirem, e
até ser recolhido ao seu lugar de origem, no pela fúria do inimigo forem arrastados para as
seio da Jerusalém Celeste. profundezas do abismo;
12 Ali, protegido pela justiça, aguardará o 24 Não se desesperem julgando não haver
alvorecer da vitória. esperança, pois Eu estarei ali para acudi-los
13 “Quando esse grande dia chegar, re- com o meu perdão e força.
tornaremos juntos a Sião, onde seremos coro- 25 Tenham sempre em mente o significa-
ados em glória, num reino de eterna felicidade do das vestes recebidas das minhas mãos, pois
e paz”. elas falam da redenção que ao homem perten-
14 Depois de dizer estas palavras, Deus ce.
ordenou ao casal que construísse naquele 26 ”Descansem filhos meus, nos meus
lugar um altar de pedras, sobre o qual a cada braços de amor”.
semana, na noite que antecede o sábado, 27 Depois de consolar o casal com estas
deveriam imolar um cordeiro, pela memória promessas, o Criador, vendo que estavam
de Seu sacrifício. sonolentos pelo cansaço, os fez reclinar no
15 Como sinal de Sua presença, e para a Seu colo e, como de costume, acariciou-os
certeza de que seus pecados seriam perdoa- docemente até adormecerem.
dos, Ele acenderia um fogo sobre o altar, o 28 Ao vê-los esquecidos em seu sono,
qual duraria toda a noite, até consumir por Deus chorou ao prever o sofrimento que
completo a oferta do sacrifício. experimentariam ao acordar.
16 Para que o ser humano pudesse firmar
sua fé sobre as verdades reveladas, e não na Deus deixa o casal em sua nova morada e se
manifestação visível da pessoa do Criador, torna invisível para o homem
Ele haveria de permanecer invisível daquele
momento em diante.
17 Somente em ocasiões especiais, quan-
do se fizesse necessário Sua aparição ou a de
46 COM o coração partido pela dor
causada por aquela separação física,
o Criador deixou o casal adormecido sobre a
anjos para novas revelações e advertências, relva, depois de beijar-lhes as faces já marca-
isto ocorreria. das pelo sofrimento.
18 Contemplando os Seus filhos entriste- 2 Sua luz dissipou-se ao tornar-Se invisí-
cidos naquele momento em que seriam deixa- vel, dando lugar às trevas daquela primeira
dos aparentemente sozinhos. noite fora do paraíso.
19 O Eterno disse-lhes com amor: 3 No subconsciente do casal começaram a
20 “Filhos, embora vocês tenham de per- desfilar sonhos coloridos de um passado feliz.
manecer neste ambiente hostil, não precisam 4 Encontravam-se mais uma vez em meio
às belezas do Éden, saciados pôr uma alegria
MELQUISEDEQUE, 47, 48, 49 31

eterna. 8 Contra esses escolhidos, o inimigo arre-


5 Agradecidos pela vida, corriam pelos gimentaria todas as forças procurando fazê-
campos floridos, brincando com os animais. los cair.
6 Com felicidade uniam as vozes aos an- 9 Em sua visão do futuro, o Criador con-
jos nos harmoniosos cânticos em louvor ao templou com alegria o triunfo final dos redi-
Criador. midos.
7 Tantas cenas lindas desfilavam em seu 10 Haviam sido extremamente provados,
subconsciente, mas esses sonhos tornaram-se mas em tudo foram mais do que vencedores
pesadelos, fazendo-os reviver sua tragédia. por meio d’Aquele que os redimiu das trevas
8 Agonizantes despertaram em meio à es- para o reino da luz.
curidão daquela primeira noite no exílio.
9 Não conseguindo conciliar o sono, o ca-
sal permaneceu em pranto até ser consolado
pelo alvorecer que revelou-lhes ao longe o
48 DEPOIS de antever os sofrimentos
que adviriam da grande luta, o Eter-
no estendeu o olhar pelas planícies cativas,
saudoso paraíso. contemplando ali as hostes rebeldes dispostas
10 Deus, ainda que invisível, permanecia para a luta.
ao lado de Adão e Eva ali na colina. 2 O objetivo desses exércitos, era apossar-
11 O sofrimento deles era o Seu sofrimen- se novamente do ser humano, no qual estava
to, como também a esperança de um dia selado o direito de domínio sobre o Universo.
retornarem vitoriosos a Sião. 3 Contrária à natureza do Criador é a
guerra, mas para defesa de Seus filhos, estava
Deus antevê o sofrimento do homem mas a disposto a empregar o Seu poder.
vitória dada pelas mãos do Messias 4 Sua força, contudo, somente seria em-
pregada com justiça.

47 ANTE o olhar contemplativo do


Criador, revelava-se o futuro som-
brio da humanidade.
5 Se o ser humano recusasse essa prote-
ção oferecida mediante o sacrifício do Messi-
as, Deus nada poderia fazer para impedir que
2 Com pesar, via incontáveis criaturas pe- o mesmo perecesse nas garras do inimigo.
recendo sem salvação, por rejeitarem o Seu 6 Adão e Eva, contudo, haviam se arre-
amor. pendido de seu grande pecado, recebendo pela
3 Lágrimas molharam a Sua face, ao an- misericórdia de Deus vestes de salvação,
tever o inimigo empregando toda astúcia a simbolizadas pelas peles do cordeiro sacrifi-
fim de reter os seres humanos sob seu domí- cado.
nio.
4 Longa seria a noite do pecado, e renhida Deus convoca seus exércitos celestiais para
a batalha pela reconquista do reino perdido. guardarem o homem das hostes rebeldes
5 O triunfo da luz requereria da parte de
Deus um sacrifício imenso.
6 Na pessoa do Messias, a seu tempo, ele
nasceria entre os homens, com a missão de
49 JUSTIFICADO pela entrega do
casal, o Eterno convocou Seus pode-
rosos exércitos para a peleja.
pagar o preço do resgate. 2 Em pronta obediência as hostes da luz
7 Por meio d’Ele muitos seriam libertos irromperam pelo espaço sideral em direção a
das garras do inimigo: todos aqueles que O Terra, circundando uma forte muralha a coli-
aceitassem como Salvador e Rei. na, portadora daquele tesouro redimido pelo
sangue do divino Rei.
32 MELQUISEDEQUE, 50, 51

3 Ao ser humano fora conferido no Éden 2 Desejosos de conhecer as paisagens de


o dever de cuidar da natureza: preparavam seu novo lar, Adão e Eva, animados pela
canteiros para as flores; colhiam frutos para esperança, saíram a passear.
mantimento; dirigiam os animais em seu 3 Seus passos conduziram-nos por cami-
inocente viver, adestrando-os para que lhes nhos de sorrisos e de lágrimas; de encantos e
fossem úteis. desilusões; de flores que desabrochavam
4 Essas ocupações tinham sido para eles delicadas, banhadas em perfume, e de flores
fontes de desenvolvimento e prazer. despetaladas, tombadas murchas e sem chei-
5 Agora, apesar das adversidades, deveri- ro; de animais ainda dóceis e submissos e de
am continuar realizando esse dever. animais inimigos, ferozes e ameaçadores.
6 O trabalho em si, realizado segundo as 4 O casal discernia em seu passeio as di-
ordens do Criador, já anularia muitos ataques visas de dois mundos: o da luz e o das trevas;
do inimigo. do amor e do egoísmo; da esperança e do
7 As primeiras ocupações do casal naque- desespero; da harmonia e da desarmonia; da
la manhã, trouxeram-lhes revelações do gran- vida e da morte.
de amor de Deus, até então desconhecidas. 5 Essa visão encheu-lhes de tristeza e
8 Ao reunirem as pedras para construção choraram longamente.
do altar experimentaram a dor de feridas que 6 Essa tristeza aumentaria ainda mais no
jorram sangue, como também a fadiga que faz futuro, quando descobrissem o aprofunda-
minar suor. mento dessas divisas no seio de sua descen-
9 Sentindo e contemplando tudo na pró- dência.
pria carne, amaram mais o Salvador, para
quem o altar construído prefigurava feridas O casal reflete nas promessas do Eterno
maiores, que verteriam todo o Seu sangue,
como também fadigas que minariam toda a
seiva de Sua vida.
10 O olhar de saudade e de esperança do
51 SEIS arrebóis já haviam colorido os
céus anunciando ao casal as noites
escuras e frias que com seu manto de trevas
casal de agora em diante, jamais pousaria no desfazia todas as imagens vivas, menos a
Éden distante, sem discernir primeiro o altar esperança de revê-las coloridas no alvorecer
dos sacrifícios. de luz.
11 Esse altar, com suas manchas de suor e 2 Aproximava-se agora a hora do sacrifí-
sangue, permaneceria como uma lembrança cio, quando o rude altar, abrasado em sua
da dor e do sofrimento que, depois de umede- justiça clamaria pôr sangue.
cer os lábios dos seres humanos, transbordaria 3 Se não lhe oferecessem a oferta, explo-
na taça do Criador. diria com certeza, envolvendo todo o mundo
com suas chamas;
O casal comtempla a criação e como ficara 4 Já não haveria então alvorecer, nem es-
por meio de seu pecado perança de Éden a florir.
5 Quão precioso é o sangue! Sangue é vi-

50 APÓS contemplar por longo tempo o


paraíso da eterna vida que estendia-
se muito além daquele altar escuro de morte,
da; vida é luz!
6 Para um ser aquela noite tornar-se-ia
eterna, sem alvorecer!
o casal experimentou o doce alívio do descan- 7 Esse ser deveria assumir a culpa de todo
so. o mundo, dando o seu sangue ao rude altar.
8 Quem se ofereceria?
MELQUISEDEQUE, 52 33

9 Quem verteria a seiva da vida, até ver a mas protegido e guiado pelo Eterno prosse-
última estrela apagar-se em seu céu?! guia em sua missão.
10 Adão e Eva depois de refletirem por 7 Quando as sombras do anoitecer come-
longo tempo, contemplando o berço da morte çaram a envolver a colina, o casal que vivia
construído pôr suas mãos, entreolharam-se tão dura prova de fé, discerniu um pontinho
inquietos com essa questão decisiva: branco que saltitava no gramado vindo em
11 Quem se oferecerá? direção deles.
12 Essa indagação nascida de sua culpa, 8 À medida em que se aproximava, aquele
fez vibrar no profundo de suas lembranças a vulto parecia falar de esperança, de vida e
voz do bendito Criador em Sua revelação de calor.
infinita bondade: 9 Ao verem que o grande milagre aconte-
13 “Eu os amo com um eterno amor; Eu cera, correram ao encontro do cordeiro, en-
morrerei em vosso lugar". volvendo-o nos braços.
14 Agradecido, o casal prostrou-se reve- 10 Ele estava fatigado, mas não descansa-
rentemente ante o sedento altar, vendo-o pela ria: daria descanso.
fé, saciado pelo dom do eterno amor. 11 Estava sedento, mas não beberia: daria
de beber ao altar que clamava por sangue.
Deus prova a fé do casal 12 Aquele cordeiro tinha vontade de viver
nos braços do homem, mas morreria, para que

52 NAQUELA tarde do sexto dia, Deus


submetia o ser humano a uma tre-
menda prova de fé.
esse pudesse viver nos braços de Deus.
13 Era um perfeito simbolismo do Reden-
tor que deixaria Sua glória, vindo em busca
2 Eles tinham diante de si o altar de pe- do pecador.
dras, construído conforme a ordem divina, 14 As trevas de mais uma noite baixaram
mas não havia nenhuma ovelha para o sacrifí- lentamente envolvendo toda a natureza em
cio. sua prisão.
3 Em seu anseio, lembravam-se do Éden, 15 Sua força, porém, seria quebrada dian-
onde havia muitos rebanhos. te do ser humano, pelo brilho de um fogo
4 Ao verem o sol tombar no horizonte, especial, aceso pelas mãos do divino perdão
Adão e Eva passaram a clamar a Deus por sobre o corpo sem vida do inocente cordeiro.
socorro, pois sabiam que somente um milagre 16 Tudo estava preparado para o doloroso
poderia providenciar-lhes, naquele derradeiro golpe: ato que apagaria daqueles olhinhos
momento, um cordeiro para o sacrifício. meigos a última estrela de vida, mergulhando-
5 Aos olhos dos habitantes do Universo, o os na fria escuridão de uma eterna noite:
grande milagre pelo qual o ser humano cla- escuridão que geraria luz; frio que geraria
mava, já se processava à quase uma semana: calor; morte que geraria vida - dons imereci-
Guiado pelo Criador, um imaculado cordeiro dos; frutos do divino amor oferecidos às mãos
deixara o Éden e seguira os rastros do casal pecadores, prestes a ferir.
em sua caminhada para o exílio. 17 Em meio à noite o altar clama; o ho-
mem triste exclama, enquanto o cordeiro,
Deus prepara o cordeiro para o sacrifício mudo, não reclama ao ser estendido para a
morte.
6 Em sua longa jornada, esse animalzinho 18 As mãos que construíram o altar er-
teve de enfrentar muitos desafios e perigos, guem-se agora, não para acariciar como
34 MELQUISEDEQUE, 53

outrora, mas para ferir, sangrando o preço do 2 Por várias vezes crescia em brilho, afu-
perdão. gentando para distante a fria escuridão, ba-
19 Só um gesto, nada mais, e a estrela se nhando a natureza com os seus raios de vida.
apagará para sempre dos olhos inocentes, 3 Por vezes, as trevas trazendo o seu ven-
fazendo brilhar na face culpada a luz da sal- to frio, quase bania por completo a chama.
vação. 4 Essa, todavia, num grande esforço ali-
20 Adão, trêmulo hesita em compaixão. mentava-se do sangue do cordeiro, lançando
21 No cordeirinho manso e submisso, ao alto sua ardente chama, inundando de luz e
pronto a morrer em seu lugar, vê o Salvador calor tudo aquilo que havia ao redor.
prometido. 5 O conflito entre a luz nascida do sacrifí-
22 Com o coração arrependido, num es- cio e as trevas naquela noite, descerravam aos
forço doloroso, crava o cutelo de pedra no fiéis do Universo muitas lições importantes -
peito do animalzinho que perece em suas verdades que ocupariam suas mentes por toda
mãos sem sequer dar um gemido. a eternidade.
23 O poder da noite imediatamente é que- 6 Naquela chama, ora ardente em seu bri-
brado pelo brilho do fogo da aceitação. lho, ora fustigada pelos ventos da noite, os
24 Sua luz revela ao ser humano sua trá- fiéis viam uma representação do conflito
gica condição: milenar entre o bem e o mal; conflito que sem
25 Vendo as mãos manchadas pelo san- trégua se estenderia até o alvorecer eternal.
gue inocente, o casal sente-se culpado por 7 O Eterno, no penhor de Seu futuro sa-
aquela morte. crifício, acendera em meio das trevas, a luz da
26 Em pranto ajoelham-se ante o altar que verdade, e essa seria mantida acesa no cora-
já não lhes reclama sangue, mas oferece luz, ção do ser humano, em virtude de Seu sangue
aceitando o imerecido perdão. que seria derramado para remissão da culpa.
27 Erguendo-se, o casal contempla demo- 8 Contra essa luz, o inimigo arremessaria
radamente o corpo ferido do pobre cordeiri- todos os ventos frios da maldade, banindo do
nho, sem poder agradecer-lhe pela riqueza coração de muitos o seu doce brilho.
concedida em troca de seu tão rude golpe. 9 Quantos jazeriam perdidos por recusa-
28 Banhados pela suave luz do sacrifício, rem a luz do perdão divino, ficando envoltos
Adão e sua companheira permanecem a medi- pelas trevas da escura noite!
tar, até serem vencidos por um profundo sono. 10 Depois de longas horas de combate
29 Recostando-se ao solo coberto de relva surge no céu os sinais do amanhecer.
macia adormecem docemente sob os cálidos 11 A escuridão que com ira havia lançado
raios do perdão, certos de que seu brilho e seus ventos sobre a imorredoura chama pro-
calor perdurariam até serem as trevas daquele curando bani-la, torna-se confusa ante os
sábado desvanecidas completamente pelo sinais do amanhecer.
fulgurante sol. 12 O céu tingido de um vermelho vivo,
faz lembrar o sangue que jorrara do peito do
O significado do sacrifício cordeiro para que a chama do perdão pudesse
iluminar a noite humana.

53 A LUZ do cordeiro, desde que fora


acesa sobre o altar naquela noite,
permanecia em constante guerra com as tre-
13 Em meio ao colorido de sangue surge
no horizonte o fulgurante sol, trazendo em
seus aquecidos raios o sabor da vitória, en-
vas. volvendo tudo com sua vida.
MELQUISEDEQUE, 54 35

14 O alvorecer em seu saudoso afeto, aca- 5 Tendo a natureza cativa, o inimigo, no


ricia o distante paraíso, levando de seu amado intento de bloquear a revelação da Eterna
seio em sua brisa matinal o aroma da saudade, Sabedoria, introduziu nela borrões de egoís-
numa mensagem de consolo e esperança às mo, destruição, infelicidade e morte.
criaturas sofredoras do vale da morte. 6 Não sabia que esses borrões fariam evi-
15 Banhados pelos cálidos raios e pela denciar na face da criação a profundidade da
brisa da esperança, o casal desperta em mais justiça e amor de Deus, levando os fiéis amá-
um sábado, cujo simbolismo aponta para o Lo e reverenciá-Lo ainda mais.
descanso no reino de Deus, ao culminar o 7 Para o casal, assim como para todos os
grande conflito entre a luz e as trevas. filhos da luz, a natureza ferida rompeu o seu
16 Para além daquele altar coberto de cin- véu, revelando novos aspectos da bondade do
zas, Adão e Eva contemplam demoradamente Criador ocultos até então.
o saudoso paraíso. 8 Adão e Eva que estavam acostumados
17 Ainda que distantes em seu exílio ale- às flores eternas no paraíso, aquelas que não
gram-se com a certeza de que o sacrifício do as viram desabrochar, viam-nas agora surgi-
Messias fará raiar para eles o sábado dos rem em tenros botões, em meio às ameaças de
sábados: espinhos prontos a ferirem.
18 Aquele de lágrimas para sempre bani- 9 Essas tenras flores, sem importarem-se
das; de sol sempre a brilhar num límpido céu; com os espinhos, exalavam perfumes suaves
de cordeiros sempre vivos a brincar pelo de louvor e gratidão, jamais se cansando de
gramado; dia sem anoitecer, quando não agradar o ambiente.
haverá mais altar coberto de sangue e cinzas. 10 Quando fustigada pelos ventos frios da
19 Suspiram por esse dia de glória, quan- noite, essas flores não se ressentiam, mas
do Deus Se fará eternamente visível, levando ofereciam seu aroma, que transformava a
nas mãos as marcas de Seu infinito amor fúria dos ventos em brisas perfumadas de um
pelos Seus filhos. alvorecer.
11 Movidos por profunda gratidão, o ca-
O adquire conhecimento sobre a criação e sal acompanhava atentamente o ministério de
seus significados amor daquelas flores que, jamais se cansavam
de abençoar, oferecendo sua beleza e perfume

54 ANTES da queda, o homem, assim


como a todas as hostes celestiais,
aprendia aos pés do Criador que com paciên-
como alívio para aqueles que eram feridos
pelos rudes espinhos.
12 Aquelas flores singelas e puras, depois
cia ensinava-lhes os tesouros da sabedoria de mostrar em sua curta vida que o perdão e o
contidos no vasto compêndio da natureza. amor são mais fortes que todos os ventos e
2 Tudo no Universo, desde o ínfimo áto- espinhos, num último esforço de comunicar
mo ao maior dos mundos, testificava em sua alegria, exalavam seu perfume, tombando
perfeita existência do caráter do divino Rei. murchas e sem vida sobre o solo frio.
3 Muitos ensinamentos, porém, permane- 13 Ali, esquecidas, transformavam-se em
ceram ocultos nas páginas desse grande livro insignificante pó que era espalhado pelo
no período que antecedeu à queda: vento.
4 Eram como as estrelas que, ocultas du- 14 A morte das flores, ainda que pareces-
rante o dia, revelam seu brilho ao baixarem as se fracasso, revelou ao casal o mistério do
sombras da noite. renascimento da vida:
36 MELQUISEDEQUE, 55

15 Morrendo, as flores davam vida aos 7 Entre os animais reunidos e domados


frutos que, por sua vez, depois de servirem de com amor, haviam muitas ovelhas.
alimento, doavam suas sementes cheias de 8 Adão e Eva não conseguiam pousar os
vida. olhos sobre esses dóceis animais destinados
16 Na morte dessas sementes renascia o ao sacrifício, sem provar no profundo da alma
milagre da vida, multiplicando as árvores com um misto de dor e gratidão.
suas flores prontas a repetir o ensinamento do 9 Na noite que antecedia cada sábado,
amor e do sacrifício. Adão tinha, por ordem do Criador, de repetir
17 A natureza, portanto, embora macula- o doloroso ato.
da pelo pecado, revelava o mistério oculto do 10 Quanta amargura e arrependimento
plano da redenção. sobrevinham ao casal ao baixarem as trevas
18 Cada flor a desabrochar em meio aos da noite do sacrifício!
espinhos, em sua curta vida de amor, era um 11 Quanto consolo lhes trazia a chama do
símbolo do Salvador que nasceria entre os perdão que jamais deixara de brilhar sobre o
espinhos da maldade, para com o seu perfume altar.
consolar o coração dos aflitos. 12 O decisivo valor do sacrifício, para que
19 Semelhante à flor, o Messias depois de a vida pudesse florescer sob a proteção divi-
provar que o amor e o perdão são mais fortes na, levou o casal a valorizar imensamente o
que todos os ventos do ódio; que a verdade e seu pequeno rebanho.
a justiça do reino de Deus são maiores que 13 Cada sexta-feira, contudo, passou a
todos os enganos e injustiças do reino do trazer consigo, além da dor, uma inquietação:
inimigo, verteria a seiva de sua vida, morren- 14 Quem doará seu sangue ao altar quan-
do para redimir os culpados. do a última ovelha perecer?
15 Aos olhos do casal maravilhado acon-
O amor ao Criador que nascia dentro de teceu enfim o milagre do amor, renovando-
Adão e Eva a cada sacrifício lhes a esperança de viverem outras semanas
sob o brilho da chama do perdão: uma ovelha,

55 CONSOLADOS pelas revelações da


natureza, Adão e sua companheira,
aprendiam a cada dia a amar mais o Salvador.
a mais gorda delas, passou a sangrar como em
sacrifício;
16 De sua dor nasceram-lhes quatro cor-
2 Cresciam em sabedoria, humildade e deirinhos.
santidade. 17 Cheios de alegria e gratidão, Adão e
3 Todas as virtudes destruídas pelo peca- Eva prostraram-se ante o Salvador invisível,
do, renasciam no coração. tendo nas mãos aquelas novas criaturinhas
4 Com ânimo o casal dedicava-se ao labor que traziam em seus olhos a mesma meiguice
edificante: plantavam jardins que pelo poder e disposição para o sacrifício.
de Deus enchiam-se de perfumadas flores e 18 Seguros de que novos milagres multi-
deliciosos frutos. plicariam seus dias, o casal uniu sua voz
5 Seu lar no exílio tornava-se num refúgio como outrora, num cântico de gratidão e
para os animais perseguidos dos vales. adoração ao Criador que, como os cordeiri-
6 A colina, sob a proteção dos anjos da nhos nasceria também da dor para cumprir em
luz, tornou-se numa miniatura do Éden distan- sua vida o maior de todos os sacrifícios, para
te. salvação da humanidade.
MELQUISEDEQUE, 56, 57 37

Satanás propõe aos rebeldes uma armadilha 13 Sabia o quanto Adão e sua companhei-
para acabar com o homem ra amavam aqueles cordeiros que, ao morre-
rem sobre o altar, ofereciam-lhes luz e calor.

56 O ETERNO, embora invisível aos


olhos de Seus filhos humanos, per-
manecia bem próximo, acompanhado por um
14 Facilmente poderiam ser induzidos a
vê-los como fontes de vida e luz, passando a
reverenciá-los.
exército de anjos, em incansável ministério de
cuidado e proteção. Adão e Eva sentem saudades de ver o Eterno,
2 O casal estava inconsciente de que a do- o qual aparece para eles
ce calma e paz reinantes naquela colina, bem
como toda a sua prosperidade, eram frutos de
tão intensa luta.
3 Se os seus olhos fossem abertos para as
57 MUITAS semanas já haviam passa-
do, trazendo consigo as noites de dor
e sacrifício, seguidas pelos dias de esperança
cenas que ocorriam invisíveis, ficariam toma- e saudade d’Aquele Pai carinhoso, o qual
dos de espanto; depois de fazer-lhes promessas e enxugar suas
4 Quão terrível era o inimigo e suas hos- lágrimas, tornara-Se invisível diante de seus
tes em suas constantes investidas com o pro- olhos.
pósito de arruinar o ser humano, arrebatando- 2 Cada dia que passava, trazia para o ca-
o das mãos do Criador. sal novo fardo de saudade, fazendo-os indagar
5 Vendo que o emprego da força não lhe a cada entardecer:
redundaria em vitória, o inimigo em sua 3 Quando beijaremos novamente Sua fa-
astúcia idealizou uma armadilha com a qual ce?
poderia enlaçar o casal. 4 Quando seremos envolvidos por Seus
6 Reunindo os seus exércitos, revelou- braços, caminhando sob a luz de Seu amor?!
lhes seus planos dizendo: 5 Quanta saudade sentiam daquelas noites
7 Ao ser humano foi ordenado sacrificar edênicas, quando adormeciam no colo macio
cordeiros, como símbolos do Salvador vin- de seu divino Pai!
douro. 6 Mais uma semana de trabalho e lições
8 Os tentaremos a olhar para esses símbo- aprendidas estava findando.
los como portadores de perdão e vida, fazen- 7 O sol em seu declinar anunciava outra
do-os aos poucos esquecer a realidade do noite de arrependimento e de sangue inocente
sacrifício prometido por Deus. a banhar o altar.
9 Será um processo lento, mas de segura 8 O silente casal estava longe de imaginar
vitória. que naquela noite, o doloroso golpe que sem-
10 O Criador conhecendo o perigo dessa pre era seguido pelo fogo, revelar-lhes-ia a
armadilha, entristeceu-se, pois ao olhar para o face bendita do Pai.
futuro, pode ver tantos filhos Seus sendo 9 Com as mãos trêmulas, Adão ergue o
desviados do caminho da salvação. cordeiro que, mudo, não faz nenhuma resis-
11 Quantos se apegariam aos símbolos tência ao ser deposto sobre o altar.
julgando encontrar neles virtude! 10 Lágrimas rolam em seu rosto ao pensar
12 Deus em seu amor e cuidado, não os que mais um inocente animal mergulhará nas
deixaria inconscientes do perigo que os amea- odiadas trevas da morte, para com seu sangue
çava. gerar a luz.
11 É doloroso sacrificar, mas não há outro
caminho de salvação.
38 MELQUISEDEQUE, 58

12 Unicamente através do sangue derra- encontrar neles a salvação, o casal recebeu a


mado do cordeiro poderão viver para contem- incumbência de transmitir essas orientações
plar no futuro a face do Pai. aos seus descendentes.
13 Num penoso esforço Adão faz cair
aquela pedra pontuda sobre o cordeirinho que, Deus promete um filho a Adão e Eva
num gemido de dor derrama o seu sangue.
14 Uma Luz gloriosa logo bane as trevas
inundando toda a colina com seus raios de
vida.
58 DEPOIS de advertir o ser humano, o
Criador pousando o olhar sobre as
ovelhas que jaziam adormecidas junto aos
15 Através das lágrimas o casal então seus filhotinhos, exclamou:
contempla em meio ao fogo do altar, o Cria- 2 Como são belos os cordeirinhos!
dor. 3 O casal, num misto de felicidade e dor
16 Num gesto de amor, Deus abre os Seus acrescentou:
braços como outrora, e com um sorriso cami- 4 Eles quando acordados saltam de pra-
nha para o tão almejado abraço. zer, esquecidos de que ao nascerem e ao
17 Sem encontrar palavras que expressem morrerem causam tanta dor!
sua imensa saudade, o casal lança-se ao Seu 5 Depois de contemplar os cordeirinhos,
peito e choram amargamente ao divino Pai, Deus fitou o casal com ternura, revelando-
comovido, também chora, mas procura conso- lhes algo que os surpreendeu e alegrou:
lar seus filhos, com seu doce sorriso. 6 Quando desses cordeiros, trinta e seis
18 Com emoção o casal contempla a face houverem subido ao altar, os vossos braços
do Pai, envolvendo-a com beijos e carinhos. envolverão o primeiro filho que, como eles
19 O amor deles por Ele fora intensifica- surgirá também da dor.
do pelo sofrimento. 7 Esse filho em sua infância lhes trará
20 Gratos e felizes caminham ao lado do alegria saltando como os cordeirinhos em
Criador, mostrando-lhe os jardins carregados vosso lar.
de flores e frutos. 8 Devereis instruí-lo com dedicação nas
21 Contam-lhe das lições aprendidas jun- leis da harmonia, mostrando-lhes o caminho
to à natureza; mostram-Lhe o rebanho doma- da redenção.
do pelo afeto. 9 Como vocês, ele será livre para escolher
22 Iluminados pela suave luz do Eterno o rumo a seguir.
Pai, o casal assenta-se aos Seus pés como 10 Aceitando o ensinamento, sua vida se-
outrora, para ouvir Seus ensinamentos. rá vitoriosa; rejeitando-o, caminhará para a
23 O Criador, olhando-os com ternura, derrota.
passa a adverti-los do perigo. 11 Adão e Eva ouviram com alegria a
24 Orienta-os a respeito dos sacrifícios de promessa divina, mas ao mesmo tempo expe-
cordeiros, que eram importantes no sentido de rimentaram no profundo do ser um temor ao
manterem sempre em mente a certeza de um conscientizar-se da responsabilidade que
Salvador vindouro que, como os cordeiros, teriam.
seria sacrificado para redenção dos pecadores. 12 Sabiam que Satanás faria todos os es-
25 Os cordeiros, contudo, não possuíam forços para levar a criança prometida à perdi-
em si poder para perdoar as culpas, pois ção.
consistiam apenas símbolos do Messias Rei. 13 Era noite alta quando o Criador, depois
26 Depois de serem conscientizados do de acariciar seus filhos, os deixou adormeci-
perigo de apegarem-se aos símbolos buscando dos sobre o gramado macio.
MELQUISEDEQUE, 59, 60 39

O nascimento de Caim 14 Trilhariam os seus pés o caminho as-


cendente que leva à vida, ou a estrada descen-

59 DEPOIS da promessa, cada cordeiri-


nho levado ao altar fazia pulsar mais
forte no ventre materno a esperança da alegria
dente que termina no abismo de uma eterna
morte?!
15 Vendo a criança esboçar o seu primei-
que em breve alcançariam. ro sorriso, o casal subitamente lembrou-se da
2 Trinta e seis finalmente baixaram às promessa do Criador que era confirmada em
trevas cumprindo o tempo determinado pelo cada sacrifício:
Criador em que a primeira criança receberia a 16 Ele nasceria da mulher como criança,
luz. com a missão de redimir a humanidade.
3 Com as mãos ainda manchadas pelo 17 Não seria Caim já o cumprimento da
sangue do sacrifício, Adão amparou sua promessa?
esposa que, aos pés do altar prostrou-se ven- 18 O infante com seus olhinhos brilhantes
cida pela dor que lhe trouxe o primeiro filho. de alegria se parecia tanto com os cordeiri-
4 A pequena criança não trazia na face a nhos que nasciam e cresciam com a missão de
alegria da liberdade, mas o choro de sua serem sacrificados!
prisão; 19 Considerando assim, o casal apertando
5 Esse pranto duraria a noite inteira, não o filhinho junto ao peito começou a chorar
fosse o brilho daquela chama aquecida de sem consolo.
esperança que, logo atraiu a atenção de seus 20 Quão terrível seria oferecer seu filhi-
olhinhos atentos. nho inocente ao rude altar!
6 Envolvendo-o com alegria, Eva conso- 21 Para o casal compungido pela dor sur-
lada de seu sofrimento, disse: giu em fim o brilhante sol fazendo reviver
7 "Alcancei do Senhor a promessa". com seus cálidos raios as promessas que
8 Deu-lhe então o nome de Caim. apontavam para um Salvador que, ainda no
9 Depois de envolver o filhinho com as futuro, nasceria também da dor para cumprir
peles macias de um cordeiro, o casal perma- o eterno plano de redenção.
neceu acordado a meditar.
10 Muitos eram os pensamentos que ocu-
pavam suas mentes: pensamentos de alegria,
de gratidão, de esperança e de anseio pelo
60 ABENÇOADA pelo Criador e en-
volvida pelo amor e cuidado dos
pais, a criança se desenvolvia em sua natureza
senso da responsabilidade que agora pesava física e mental, tornando-se a cada dia alvo
sobre seus ombros. maior de uma incansável batalha entre as
11 Acariciando com ternura a pequena hostes espirituais.
criança, o casal amadureceu em sua experiên- 2 Adão e Eva, ansiosos por fazê-lo com-
cia, compreendendo melhor o misterioso preender as verdades da salvação, tomavam-
amor de Deus que, para salvar Seus filhos, no nos braços a cada alvorecer e, à beira do
dispôs-Se a morrer em lugar deles. altar lhe apontavam o Éden distante, contando
12 Adão e Eva não estavam sozinhos em aquelas histórias de emoção as quais o peque-
suas reflexões: todos os seres inteligentes do no Caim ainda não conseguia compreender.
Universo consideravam com interesse sobre o 3 Qual foi a alegria daqueles pais, ao vê-
futuro daquele indefeso bebê que no íntimo lo numa manhã de sol, apontar com a mãozi-
trazia um reino de dimensões infinitas, a ser nha para o lar da saudade, pronunciando o
disputado pelos dois poderes em luta. nome sagrado do Criador.
13 Quem seria o Senhor de sua vida?! 4 Emocionados tomaram-no nos braços,
40 MELQUISEDEQUE, 61, 62, 63

pedindo-o para repetir esse sublime nome 2 Enquanto brincava no jardim, seus olhi-
que, qual chave de felicidade, sempre descer- nhos curiosos voltavam-se muitas vezes para
rava-lhes um paraíso de eterno amor. o sol que parecia acariciá-lo com um sorriso
5 Todas as hostes da luz inclinaram-se de esperança.
com alegria ao ouvir a pequena criança pro- 3 Vendo-o, porém, caminhar em direção
nunciar o nome do divino Rei. do ocidente, o pequeno correu para sua mãe,
perguntando-lhe:

61 AS SEMANAS iam se passando


trazendo consigo novos sacrifícios
para o altar, e o pequeno Caim, alvo da aten-
4 Mamãe, ele prometeu ficar?
5 Eva, tomando-o nos braços, sorriu-lhe
procurando fazê-lo compreender com pala-
ção e cuidado de Deus, das hostes da luz e vras simples, enquanto apontava-lhe o paraíso
daqueles amantes pais incansáveis na missão distante, a história da redenção.
de instruí-lo, agrupando suas poucas palavras, 6 O sol viria um dia para ficar.
sempre curiosos com tudo passou a interrogar. 7 Caim, insatisfeito com as palavras da
2 O dia declinava quando o menino, que mãe, demonstrou não ter paciência para
jazia ao colo de sua mãe, perguntou-lhe: aguardar esse dia que jazia em distante futuro.
3 Mamãe, por que o sol sempre vai-se 8 Repetia em pranto:
embora, deixando a gente no frio da escuri- 9 "Eu quero o sol hoje, amanhã não!"
dão? 10 Eva, pacientemente, procurou acalmar
4 Eva, surpresa contemplou seu filho, sem seu filho, falando sobre a luz de Deus, que
encontrar palavras para responder-lhe a inda- pode tornar a noite em dia.
gação que trouxe-lhe à lembrança o passado 11 Ele o amava e poderia encher seu co-
de felicidade destruído por sua culpa. raçãozinho de brilho, de alegria e paciência.
5 Após um momento de silêncio, beijando 12 Poderia assim, aguardar feliz o dia de
a face do pequeno Caim, disse-lhe: seus sonhos.
6 Filhinho, um dia o sol virá para ficar, 13 Balançando a cabecinha em rejeição ao
trazendo em seus raios um mundo só de har- consolo da mãe, Caim proferiu entre soluços:
monia; já não haverá animaizinhos a brigar, 14 "Eu quero o sol porque eu posso vê-lo,
nem cordeirinhos a morrerem sobre o altar. ao Eterno não".
7 O pequeno Caim desejando ver raiar lo- 15 Como uma seta dolorosa as palavras
go esse dia, disse para sua mãe: de rebeldia de Caim penetraram no coração de
8 “Mamãe, amanhã o sol nascerá no para- Eva, fazendo-a chorar amargamente.
íso; Pede para ele ficar! Assim poderei brin- 16 Os fiéis em todo o Universo uniram-se
car, brincar, e nunca mais dormir”. nesse pranto.
9 Ansioso em ver raiar o dia que não teria 17 Uma tristeza infinita pairava sobre o
fim, o pequenino Caim somente adormeceu coração do Criador rejeitado.
após fazer sua mãe prometer que pediria ao 18 Esboçavam-se nos gestos de Caim os
sol para permanecer . primeiros passos pelo caminho descendente
da rebeldia.
A rebeldia de Caim 19 Quantos o seguiriam rumo à morte!

62 UM novo dia de sol radiante a cami-


nhar pelo céu surgiu para Caim,
trazendo em seus raios alegria e calor.
63 INCONSCIENTE da tristeza que
abatera-se sobre o reino da luz,
Adão, ao ver o sol declinar no horizonte,
deixou seu trabalho no campo rumando-se
MELQUISEDEQUE, 64, 65 41

para casa. Satanás comemora a rebeldia de Caim


2 Tinha um cântico no coração ao cami-
nhar para mais um encontro com os seus.
3 Ao aproximar-se do altar, viu junto dele
sua companheira prostrada em pranto.
64 O INIMIGO e suas hostes, em sar-
casmo de maldade zombaram naque-
la noite do sofrimento de Deus e Seus fiéis.
4 O pequeno Caim jazia também ali a 2 Repetindo as palavras de rebeldia do
chorar. pequeno Caim, gloriara-se como vencedor.
5 Tomando-o nos braços, Adão pergun- 3 Num desafio ao Criador pronunciou:
tou-lhe com anseio: 4 Veja como esse meu pequeno escravo te
6 O que aconteceu meu filho? rejeita!
7 Caim tristemente respondeu: 5 O mesmo se dará com todos aqueles que
8 Mamãe deixou o sol ir embora. hão de nascer.
9 Amparando o filho com seu braço es- 6 Estou certo de que o direito de domínio
querdo, Adão pousou sua mão direita sobre o jamais sairá de minhas mãos.
ombro de Eva, mas não encontrou palavras 7 Todas as hostes rebeldes repetiram em
para consolá-la. eco as afrontas do enganador, humilhando os
10 A frase dita por seu filhinho, pareceu súditos da luz que sofriam do lado do Eterno.
rasgar-lhe o coração, fazendo-o reviver a 8 Com suas afrontas, o inimigo procurava
queda. fazer Deus desistir de Seu plano de redenção.
11 Depois de refletir, Adão sentindo-se 9 Se isso acontecesse, seu reino de trevas
culpado respondeu para Caim: se estenderia por toda a eternidade, suplan-
12 Foi o papai quem deixou o sol ir em- tando o domínio da luz.
bora meu filho! 10 Em resposta ao desafio do inimigo, o
13 Com soluços de grande tristeza, Adão Eterno afirmou solenemente:
uniu-se a eles no pranto. 11 Ainda que todos me rejeitem, Eu cum-
14 A lembrança do Salvador, contudo, o prirei a promessa.
consolou.
15 Enxugando suas lágrimas e as de seu
filhinho, disse-lhe com ternura:
16 Podemos nos alegrar filhinho, pois
65 O CRIADOR sofria com pensamento
de ver o pequeno Caim caminhar
para a perdição.
Deus prometeu fazer o sol para sempre brilhar 2 Por ele intercedia a cada dia, oferecendo
no céu; ele será como o fogo que surge no ante a justiça o Seu sangue que verteria.
altar, banindo as trevas da noite. 3 Anjos poderosos guardavam-no a cada
17 Com os olhinhos voltados para o últi- momento, espancando as trevas espirituais
mo clarão do arrebol, Caim permaneceu sem que o acercavam procurando torná-lo insensí-
consolo. vel aos benefícios da salvação, que eram
18 Naquele entardecer, não houve como ilustrados pelos símbolos.
de costume um alegre jantar. 4 Adão e Eva em seu incansável ministé-
19 A pequena família, entristecida, per- rio de amor, todos os dias ensinavam a Caim
maneceu a meditar por longas horas, até as lições espirituais ilustradas na natureza.
sonolentos adormecerem sob a luz das estre- 5 Em cada sábado procuravam firmar em
las. sua mente juvenil a esperança de uma vida
eterna, que seria fruto do sacrifício do Salva-
dor.
42 MELQUISEDEQUE, 66, 67, 68

6 Ele depois de viver uma vida sem peca- A incredulidade de Caim


do, morreria como um cordeiro, para poder
expulsar para sempre as trevas.
7 Caim comovia-se às vezes com os ensi-
namentos, mas quase sempre questionava
67 OS DIAS de lutas, intercessões e
sacrifícios pelo destino de Caim
foram se passando.
vacilante. 2 Oportunidades preciosas surgiam em
8 Revoltado perguntava: cada dia diante dele para se apegar ao Salva-
9 Por que Lúcifer foi se rebelar?! dor, mas a todas rejeitava, uma por uma.
10 Certa noite, recusando ouvir os conse- 3 Em sua incredulidade chegou a duvidar
lhos de seus pais, os acusou de todo o mal da existência de Deus, o qual jamais vira.
dizendo: 4 Aos pais que, aflitos mas sempre com
11 Se agora não temos um sol a brilhar, é paciência, procuravam livrá-lo da perdição
por culpa de vocês. para a qual estava caminhando, prometeu um
dia , após sorrir com ar de incredulidade, crer
Caim na sua rebeldia deseja entrar no jardim no Criador e em Seu plano de salvação, caso
do Éden Ele se tornasse visível na hora do sacrifício.
5 Com ardente fé, aqueles pais passaram a

66 A CONTEMPLAÇÃO do Éden
distante banhado em sol fez nascer
no coração juvenil de Caim pensamentos de
clamar ao Eterno.
6 Sua presença visível poderia, quem sa-
be, salvar aquele filho querido que a cada dia
aventura. tornava-se mais rebelde.
2 Ele começou a pensar:
3 Este paraíso não está tão longe como Deus aparece para Caim
afirmam papai e mamãe.
4 Por que esperar e sofrer tanto tempo?!
5 Ele é tão belo!
6 É dele que surge todos os dias o sol!
68 O CRIADOR ouviu o clamor dos
pais aflitos.
2 Embora soubesse que Sua aparição difi-
7 Se o conquistarmos será fácil deter a luz cilmente quebraria no coração do jovem Caim
em sua nascente; seu espírito rebelde, estava disposto a cumprir
8 Assim viveremos num paraíso de eterno o pedido.
sol. 3 Estenderia os braços amigos a Caim,
9 As ideias de aventura de Caim, enchiam procurando com amor conquistar-lhe o cora-
o coração de Adão e Eva de tristeza. ção.
10 Viam que seu interesse era somente 4 Como conhecia os seus anseios e so-
pelo tempo presente; ele sonhava com um nhos de aventura, facilmente poderia identifi-
paraíso de felicidade e luz conquistado por car-Se com ele, cativando-o, pois era também
sua força. Alguém que sempre carregara no peito sonhos
11 Em seus planos, não sentia necessida- de aventura;
de de um Salvador; 5 Não fora a criação do Universo uma
12 Para que, se era tão jovem, inteligente, grande aventura?!
cheio de vida e ideais?- dizia. 6 Não fora o Seu sonho vê-lo cravejado
de sóis fulgurantes, iluminando bilhões de
mundos com o seu brilho?!
7 Não era também o Seu maior sonho
atravessar o vale da morte, em busca da
MELQUISEDEQUE, 68 43

conquista do Éden distante, prendendo para trazia na face um brilho superior ao do sol,
sempre o Sol em seu céu?! mas não ofuscante.
8 Tinham muita coisa em comum! 26 Contemplando-O com admiração,
9 Caim estava curioso naquela sexta-feira. Caim exclamou:
10 Na face dos pais via ânimo e alegria, 27 Ele é jovem como eu, e se parece com
frutos de uma fé grandiosa. o Sol!
11 Incentivado por essa expressão de con- 28 Adão e Eva, comovidos pela grande
fiança, o jovem passou a ajudá-los nos prepa- saudade tinham vontade de saltar ao peito do
rativos para o santo sábado. Salvador e beijá-Lo, mas deixaram que Ele Se
12 O Sol finalmente esquivou-se rolando encontrasse primeiro com Caim.
para o poente, deixando como de costume seu 29 Com alegria viram o precioso filho en-
rastro de saudade que anunciava medo. volvido nos braços do grande amigo, que era
13 Em meio às trevas, Caim discerniu o parecido com o seu astro.
vulto branco do cordeiro sendo erguido para o 30 Depois de longo abraço, Deus abraçou
altar pelas mãos do pai; esse incansável sa- e beijou também o querido casal, companhei-
cerdote que sempre estava implorando ao ros no sofrimento.
Criador pela salvação de seu amado filho. 31 Com alegria saíram a passear pelos
14 Com a mão erguida, Adão preparava- jardins da colina. Ao centro iam o Criador e
se para o golpe que poderia, quem sabe, que- Caim, ladeados por Adão e sua companheira.
brar no coração de Caim sua incredulidade, 32 Quanta felicidade experimentavam
fazendo nascer num só momento a crença na nesses passos!
salvação. 33 Estavam completos.
15 De seus lábios escapa-se então o pedi- 34 Caim, conquistado pela afeição do Pai
do da fé: Eterno, mostrou-Lhe seus animais de estima-
16 Pai Eterno ouve o meu pedido; meu fi- ção e seu pequeno jardim carregado de lindas
lho precisa de Ti! flores.
17 Somente um olhar Teu poderá con- 35 Como estava encantado por vê-los co-
quistá-lo; Venha Senhor! loridos naquela noite desfeita pelo brilho do
18 Esta oração sincera caiu nos ouvidos Criador, como sob a luz do dia!
daquele filho comovendo-o. 36 Parecia até mesmo que o Sol baixara a
19 Somente a prece já seria suficiente pa- eles.
ra convencê-lo da existência real de um Sal- 37 Ao pensar no Sol, Caim como o amava
vador. muito, passou a falar sobre ele dizendo:
20 Enquanto enxuga as lágrimas da emo- 38 Como ele é belo e bom!
ção, Caim estremece ao ouvir o ruído do 39 Quando ele vai-se embora, deixa em
golpe da morte. suas lágrimas de sangue um sentimento de
21 Tudo era solene naquele momento; tristeza e temor.
22 Viria o Criador do mundo em resposta 40 Tudo desaparece em sua ausência: os
à oração do amor?! animais, o jardim; até os passarinhos silenci-
23 Como O encararia em sua incredulida- am os seus cantos!
de?! 41 Mas basta ele dizer que vai aparecer,
24 Um forte brilho envolveu logo toda a tudo se enche de encanto;
colina banhando também o vale oriental. 42 A natureza se desperta de mansinho,
25 Os olhos arregalados de Caim pousa- parecendo ainda temer as trevas, mas quando
ram então nos olhos amáveis do Criador, que as vê fugir, fica alerta e canta;
44 MELQUISEDEQUE, 69

43 Os animais, os passarinhos, o jardim, 60 Essa história não lhe dava prazer, pois
tudo volta a viver feliz! mostrava uma noite longa de sacrifícios sobre
44 Mas, esta felicidade sempre acaba!!! o altar, e de um Salvador a perecer em dor.
45 Após falar estas palavras, Caim fitando 61 Em realidade, Caim não via razões pa-
o Criador indagou curioso: ra tudo isso.
46 Papai sempre diz que foi você quem 62 Por que não banir logo o sofrimento
criou o Sol. É verdade? colorindo as trevas de luz?!
47 Com um sorriso de sinceridade Deus 63 Num esforço para conquistá-lo, o
respondeu-lhe que sim. Eterno com muito amor fitou aquele jovem
48 Quando Você o fez no princípio, con- insatisfeito, e disse-lhe que, somente o sangue
tinuou Caim, ele já fugia para o poente? de Seu sacrifício poderia fazer o Sol para
49 Ele nunca foge, respondeu o Eterno, é sempre brilhar, num reino de eterna felicidade
o mundo quem foge dele. e paz.
50 Ele fica triste com essa ingratidão! 64 Não havia outro caminho para essa
51 Mas como? Perguntou Caim, contem- conquista.
plando curioso Sua face de luz. 65 Por isso deveria ser paciente, descan-
52 Com palavras carinhosas, Deus passou sando-se sob o Seu cuidado.
a contar-lhe a história de Lúcifer que, em sua 66 Após conversar por longo tempo com
ingratidão baniu de seus olhos e dos olhos de Caim, na tentativa de fazê-lo reconhecer sua
uma multidão de criaturas, o brilho de Sua necessidade de salvação, o Eterno voltando-
face - o Verdadeiro Sol. Se para o casal, passou a consolá-los com a
53 Depois de assim agir, iludiu a muitos promessa do nascimento de outro filho.
dizendo que foi o Sol quem fugiu deles. 67 Mais trinta e seis sacrifícios seriam
54 Continuou o Criador dizendo: Com sua contados, e seus braços envolveriam o segun-
astúcia, o anjo rebelde procurou arrastar o ser do filho.
humano para as trevas, e conseguiu. 68 Nasceria também da dor, mas traria
55 O Sol naquele dia, chorou tantas lá- nos olhos o brilho e o consolo da salvação.
grimas de sangue, que banhou todo o céu. 69 O seu testemunho de fidelidade ficaria
56 Em seu último suspiro de luz, porém, perpetuado por todas as gerações, no símbolo
ele prometeu ao mundo já tomado pelas tre- de um altar coberto de sangue.
vas, voltar um dia a brilhar para sempre,
enchendo todo o seu seio de vida. Caim volta a rebelar-se
57 Após falar-lhe estas palavras, o Eterno
fitando aquele jovem, com expressão de
tristeza nos olhos concluiu dizendo:
58 Hoje, o anjo rebelde promete a seus
69 AS SEMANAS iam se passando,
trazendo ao casal novas de alegrias e
tristezas: de um coração cheio de vida a pul-
seguidores que irá com sua força deter o sol, sar no ventre de Eva, e de um vazio com
mas ele jamais conseguirá realizar esse plano, cheiro de morte a crescer no coração do jo-
pois não possui o laço que poderá detê-lo: o vem Caim.
amor. 2 Ainda que ele tenha ficado deslumbrado
59 Cabisbaixo, Caim ouviu dos lábios do ante a manifestação de Deus, em nada essa
Criador essa história de promessas, a qual já aparição mudou-lhe sua maneira arrogante de
se cansara de ouvir de seus pais. pensar sobre o sentido da vida.
3 Ele não via sentido nos sacrifícios ofe-
recidos no altar.
MELQUISEDEQUE, 70, 71 45

4 Nos dias que seguiram o seu encontro 5 Filhinho, o teu pai é Deus.
com o Criador, ele argumentava com os seus 6 Deu-lhe então o nome de Abel.
pais dizendo: 7 Quando no alvorecer Caim testemunhou
5 Se eu fosse poderoso como o Eterno, eu a alegria de seus pais pelo nascimento daquele
jamais me submeteria ao sacrifício para re- filho, foi possuído por sentimentos de ciúmes
conquistar o reino perdido. e mágoas.
6 Ele é forte, e brilha como o sol. 8 Com grande ira disse-lhes que, por sua
7 Ele poderia com uma só palavra expul- vida, somente os vira chorar.
sar todas as trevas, devolvendo-nos o paraíso 9 Seria esse pequeno intruso o único dig-
8 Para que tanto sofrimento?! no de suas alegrias?!
9 Com essa argumentação, Caim supu- 10 Adão e Eva com carinho procuraram
nha-se mais sábio que o Criador. mostrar a Caim o quanto o amavam, e que o
10 Quem sabe, num próximo encontro te- nascimento de Abel não devia entristecê-lo,
ria oportunidade de aconselhá-Lo. mas alegrá-lo pelo privilégio de ter um irmão
11 Dessa forma, o jovem Caim aprofun- que lhe seria amigo e companheiro;
dava-se cada vez mais no abismo do orgulho 11 Poderiam trabalhar unidos na trans-
e do egoísmo, lugar de ilusões para onde se ia, formação do mundo num paraíso de paz.
pensando estar caminhando para a vitória.
12 Não fora Lúcifer juntamente com um Abel crescia em esperança
terço das hostes celestes atraídos por essa
mesma ilusão?!
13 O bondoso Deus, todavia, não selaria o
destino de Caim sem antes procurar de todas
71
mental.
ABEL, envolvido pela graça divina
crescia em sua natureza física e

as formas salvá-lo da ruína eterna. 2 Ainda pequeno, passou a entender o


14 Essa graça imerecida, fruto do divino significado daqueles sangrentos sacrifícios.
amor, seria concedida a todo o ser humano 3 O pensamento de que o Criador do Uni-
que viesse a nascer neste mundo. verso haveria de tornar-se uma criança como
ele, com a missão de oferecer-se em sacrifício
O nascimento de Abel, e ciúmes de Caim como aqueles inocentes cordeiros, para re-
denção dos pecadores, emocionava-o até as

70 AS TRINTA e seis semanas anunci-


adas pelo Criador cumpriram-se,
trazendo a noite do santo sábado, na qual
lágrimas.
4 Como Caim, Abel amava a natureza
com seus jardins cheios de flores e frutos;
subiria ao altar o cordeiro da promessa - 5 Sentia-se também triste ao ver o sol
aquele que mergulhando nas trevas, faria tombar no horizonte, ferido pela escura noite.
brilhar nos olhos de Abel o consolo da luz. 6 Contudo, alimentava-se não de sonhos
2 Semelhante ao cordeiro, Eva sentia na- em aventura, mas de esperança e confiança
quela noite a dor de dar a luz. naquele que semelhante aos cordeiros se
3 Adão, com suas mãos ainda banhadas entregaria ao altar, para depois de aquecer
pelo sangue do sacrifício, envolveu o frágil com a luz de Sua verdade o coração do ho-
corpo daquela criança com as peles macias de mem em meio à noite de pecado, surgir como
uma ovelha - vestes que simbolizavam a o sol de sábado, trazendo consigo a eterna
justiça protetora do Salvador. vitória.
4 Contemplando-o acalentado em seus
braços, Adão disse-lhe com carinho:
46 MELQUISEDEQUE, 72, 73, 74

O nascimento das filhas de Adão que julgava necessária para detê-lo antes de
sua partida.

72 O CASAL, fecundado pelo amor


divino, gerou duas meninas que, por
sua vez, passaram a ser disputadas na grande
3 Movido pelos sonhos alimentados desde
a infância, preparava-se agora para uma via-
gem de aventuras:
batalha espiritual pelo destino do Universo. 4 Desceria ao desconhecido vale e cami-
2 Conscientes de sua responsabilidade, nharia em direção à casa do sol.
aqueles pais procuravam imprimir na mente 5 Não sabia por quantos dias se ausentaria
de suas filhas, as eternas verdades do reino da de seu lar, mas tinha a certeza de que seria
luz. vitorioso em sua missão.
3 Nesse esforço, eram auxiliados por 6 Cheio de entusiasmo, Caim revelou aos
Abel, para quem o plano da redenção era o seus familiares sua decisão de partir.
tema de suas mais doces meditações; 7 Todos ficaram preocupados, e procura-
4 Bastava olhar para um cordeiro, vinha- ram insistentemente fazê-lo desistir de seu
lhe à mente a doce lembrança da redenção plano.
prometida. 8 No vale, disseram-lhe os pais, habitam
5 Foi seu grande amor pelo Criador que animais ferozes, sempre prontos a devorar.
levou-o a tornar-se num pastor de ovelhas 9 Entre risos, Caim procurou convencê-
6 A influência de Caim, contudo, era ne- los falando de sua força.
gativa sobre aquelas meninas. 10 Dizia-lhes que em sua jornada, longe
7 Ele vivia falando de seus sonhos de de encontrar derrotas, encontraria o caminho
aventura. perdido que os conduziria à reconquista do
8 Apontando para o paraíso distante, ber- sonho desfeito pelo pecado.
ço do sol nascente, prometia conquistá-lo um 11 Abel, conhecedor do verdadeiro cami-
dia com suas forças. nho que leva à vitória, com lágrimas de com-
9 Não haveria mais noites, pois ele deteria paixão procurou detê-lo, falando-lhe do plano
o sol antes de sua partida. da redenção.
10 Em sua conquista transformaria os va- 12 Voltando-lhe as costas, Caim saiu con-
les sombrios em jardins floridos repletos de trariado.
paz. 13 Irava-se por não encontrar por parte de
11 Inspirado por esse ideal, Caim tornou- sua família, nenhum apoio para sua tão nobre
se lavrador. missão.
12 Plantava jardins que se carregavam de 14 Adão e Eva, acompanhados por Abel e
flores e frutos. as duas filhas, com tristeza seguiram-no
13 Lutava insistentemente contra espinhos implorando para ficar, mas ele adiantando-se
e cardos, os quais acreditava poder finalmente em seus passos desceu a colina, mergulhando
bani-los completamente com seus esforço. naquela ameaçadora selva que os separava do
14 Pobre Caim, escravo de uma ilusão! paraíso.

Caim sai de casa em direção ao Éden Caim sente medo em sua jornada

73 CAIM tornou-se finalmente em


estatura semelhante ao pai.
2 Trazia na face corada as marcas do sol
74 O ENTARDECER alcançou Caim já
distante do lar, naquela floresta
perigosa e hostil.
que tanto amava, e em seus músculos a força 2 As trevas trouxeram ao seu coração
MELQUISEDEQUE, 74 47

temor; 19 Com espanto contemplava por todos os


3 Já não era aquele corajoso lutador que lados ossos secos e restos de animais devora-
prometera vitória em todos os seus passos. dos com ferocidade.
4 Lembrou-se de casa e teve arrependi- 20 Aos seus ouvidos atentos, chegavam
mento da maneira ingrata como havia tratado uivos e gritos de feras ameaçadoras.
seus pais naquela manhã. 21 Embora banhado pelo sol, Caim come-
5 Ali no vale escuro, pela primeira vez çou a ficar com medo.
ansiou pelo fogo do sacrifício; 22 Imóvel, lembrou-se do lar, dos conse-
6 Contudo, ele jamais acreditara na re- lhos e rogos dos pais;
denção simbolizada pela morte do cordeiro! 23 Pensou nas constantes orações que fa-
7 Ele cria no poder de sua vida que, aque- ziam por ele;
cida pelo sol, crescia em força e esperança de 24 Estava certo de que não deixariam de
um dia poder detê-lo sobre um reino de eterna clamar por sua segurança ali naquela perigosa
paz e harmonia. floresta, apesar de sua ingratidão.
8 No lar, seus pais e irmãos não conse- 25 Tomado de espanto, viu finalmente o
guiam dormir. sol lentamente caminhar para a sua morte
9 Tinham vontade de ir em busca do ama- diária.
do Caim, mas onde encontrá-lo? 26 Se em sua presença tremia, o que lhe
10 Lembravam dos demônios cruéis que reservaria a escura noite?!
invisíveis infestavam o vale, atormentando os 27 Revivendo, contudo, os sonhos que ti-
animais que dia após dia iam tornando-se vera desde a infância, como um soldado que
mais ferozes. mesmo atingido por um golpe, se levanta num
11 Em agonia prostraram-se aos pés do último esforço de vencer, Caim alimentou-se
Criador invisível e clamaram fervorosamente de ânimo;
pela sua proteção. 28 Venceria o medo, e conquistaria toda a
12 Rogavam-Lhe que o trouxesse de volta selva, banindo dela todos os ossos secos e os
para o lar, pois sem ele, tudo era tão triste. sinais de morte.
13 O Eterno amava profundamente a 29 Revigorado pelos ilusórios planos, em
Caim e, jamais o deixaria sozinho naquela passos firmes prosseguiu sua jornada.
floresta. 30 Pobre Caim! O primeiro de uma mul-
14 Em resposta as orações daquela família tidão que, escravizada pelos mesmos sonhos
aflita, enviou Seus anjos para protegerem-no de progresso, caminharia para dentro da noite,
de todos os perigos. julgando encontrar o berço de toda a luz.
15 Caim, vencido pelas opressivas trevas
da noite que traziam consigo os ventos do Caim encontra-se com o querubim guardador
temor, tombou irresistente ao solo frio. do Éden
16 Ali permaneceu até ter sua coragem e
força restabelecidas pela luz do alvorecer. 31 Diante dos olhos de Caim que jamais
17 Animado pelo brilho da esperança con- podia imaginar que todo passo que dava o
tinuou seus passos de aventura rumo ao berço levava para mais longe daquele sol que alme-
do sol: paraíso com o qual sonhara desde sua java conquistar, brilhou distante por entre as
infância. ramagens uma fulgurante luz.
18 Seus pés conduziram-no naquele dia 32 Cheio de curiosidade apressou os pas-
através de um vale intensamente marcado sos, indagando silente:
pela morte. 33 Mas como, se eu o vejo declinar?!
48 MELQUISEDEQUE, 74

34 Seria outro astro que em seu berço 53 O querubim contemplava-o penaliza-


aguardava o momento de partida para aquele do, sem saber como convencê-lo daquela
suplício diário? ilusão alimentada durante tantos anos.
35 Com o coração pulsando forte pela 54 Após um momento de silêncio, o anjo
emoção adiantou-se em seus passos, julgando com ar de tristeza, procurando fazê-lo recor-
poder naquele novo dia detê-lo em sua parti- dar as palavras que o Criador lhe dissera
da; naquele encontro, perguntou:
36 Inauguraria assim um reino de luz, 55 Com que você irá detê-lo?
conquistado por sua força. 56 Confiante, Caim ergueu os braços em
37 Correndo para a luz, porém, a viu des- resposta.
vanecer quando já próxima; 57 Não construíra enormes jardins com
38 Seria vertigem? Não. eles?!
39 Desvanecera simplesmente para reve- 58 O anjo, num esforço de fazê-lo enten-
lar-se mais brilhante aos seus olhos. der que o sol é um símbolo do Salvador,
40 Observando o brilho intenso, Caim fi- disse-lhe:
cou perplexo ao ver que procedia da face de 59 Caim, nada poderá detê-lo a não ser o
um poderoso querubim protetor que, desde a amor.
queda de seus pais permanecera ali velando as 60 Quem ama, caminha na mesma dire-
divisas do Éden. ção.
41 Mudo, Caim contemplava a meiga face 61 Para onde você o vê caminhar todos os
daquele anjo que, expressiva de amor, fazia dias?
renascer em seu coração emoções da infância. 62 Não é para o ocidente?
42 Sentia-se agora esquecido de sua mis- 63 Segue então os seus passos e jamais o
são, revivendo em lembrança o encontro que verá chorar lágrimas de sangue.
tivera com o Criador naquela noite de sacrifí- 64 Acompanha-o em sua caminhada e ve-
cio. rá que o que você sempre chamou de morte,
43 O querubim era semelhante a Deus, consiste num alegre alvorecer para um conti-
tendo no rosto um brilho de sol. nente além, perdido nas trevas.
44 Estampando no semblante preocupa- 65 A afirmação do anjo fez Caim lem-
ção, o anjo depois de contemplá-lo demora- brar-se das últimas palavras ditas pelo Eterno
damente perguntou-lhe: naquela noite transformada em dia.
45 O que busca meu filho? 66 Ele dissera que somente o sangue de
46 Recordando o seu esquecido ideal, Seu sacrifício poderia fazer brilhar a luz que
Caim respondeu: triunfaria para sempre sobre as trevas.
47 Busco a fonte do dia, o berço do Sol. 67 Contrariado, Caim baixara a cabeça,
48 O anjo continuou perguntando: determinado a não segui-Lo nessa direção.
49 O que o leva a procurá-lo com tanto 68 Abalado, Caim encontrava-se agora
anseio”. diante de uma séria decisão que mudaria o
50 Caim respondeu: rumo de sua vida e de uma multidão que
51 Eu sou amante de sua luz que me faz poderia segui-lo.
ver em cada dia o fruto do meu labor. 69 Mudo e a tremer permanecia prostrado
52 Admiro-o desde a minha infância, por aos pés do anjo, enquanto renhida luta trava-
isso trago no peito o ideal de um dia detê-lo va-se em seu íntimo.
sobre o céu. 70 Desde a infância alimentara um ideal,
MELQUISEDEQUE, 75, 49

caminhando na direção de um paraíso o qual 2 Em seus anseios, não conseguiam ficar


julgava poder conquistar pela força. longe daquele altar, berço de lágrimas e san-
71 Agora o anjo apontava-lhe um cami- gue.
nho oposto, de amor e sacrifício: o mesmo 3 Ali junto a ele, Caim viera ao mundo,
ensinado pelos pais e pelo Criador. banhado pela luz do sacrifício;
72 Arrependido, Caim desejou retornar 4 Ali fora instruído no caminho da salva-
para casa, mas o inimigo se opunha inspiran- ção.
do-lhe vergonha; 5 Ali aguardariam com fé, até vê-lo retor-
73 Como encararia sua família, a quem nar arrependido.
prometera vitória pela sua força, ao retornar 6 Sob o sorriso do anjo, Caim vencido pe-
de mãos vazias?! lo cansaço de seus sonhos desfeitos, adorme-
74 Com o jovem Caim, prostrado aos seus ceu a um passo do paraíso de muralhas invisí-
pés, o anjo com voz de ternura instava: veis muralhas que somente poderiam ser
75 Filho volte ao lar! finalmente transportas pelo amor que sacrifi-
76 Não há caminho de vitória além do ca.
amor. 7 Uma brisa suave despertou-o naquela
77 Ele poderá ter espinhos e no trajeto um manhã, convidando-o a seguir o sol naquela
altar, mas é um caminho seguro, pois sempre jornada rumo ao altar.
leva o viajante aos braços de uma família 8 Como dois companheiros avançariam
amorosa que, com saudade espera o fruto de sobre os espinhos, quebrando-os com os seus
seu perdão. pés feridos;
78 Não será humilhante voltar; 9 Como guerreiros caminhariam rumo à
79 Não é esse o caminho do sol?! colina do entardecer, não para serem vencidos
80 O caminho do orgulho é sempre des- pela noite, mas para destruírem-na em sua
conhecido; fuga.
81 Em seu trajeto pode ter flores e a pro- 10 Nessa marcha de resgate tombariam
messa de que não haverá altar, mas o seu fim finalmente sobre o altar distante, não vencidos
é sempre dentro da noite, distante dos braços pela morte, mas conquistando a vida nascida
aquecidos pelo perdão. da luz.
82 Volte ao lar filho! Volte! 11 Com humildade, Caim deu os primei-
83 O anjo com seus amorosos conselhos ros passos no caminho do arrependimento,
conseguiu finalmente convencer Caim. caminho que logo após o altar, lhe descerraria
84 Ele estava resolvido a percorrer o ca- o seu lar de amor.
minho do amor, desfazendo os passos até ali 12 Eram passos movidos por fé, pois di-
movidos pelo egoísmo. ante de si não podia ver a face de seu compa-
85 Aguardaria agora o sol para com ele nheiro, o sol, mas tinha certeza de sua presen-
seguir humildemente rumo ao altar que, não ça, pois nos ombros podia sentir seu calor a
mais lhe falava de derrota, mas de triunfo acariciá-lo num terno abraço.
sobre a morte. 13 Eram companheiros de jornada pelo
caminho da vitória.
Caim arrepende-se e toma o caminho de volta

75
Caim.
NA COLINA distante, permanecia a
família rogando incessantemente por
50 MELQUISEDEQUE, 76, 77

A família de Caim prepara para o dia do 8 Eva, em passos lentos, cheia de tristeza,
sacrifício e vão rogar a Deus por ele seguiu seu esposo rumo ao altar, acompanha-
da por Abel e suas duas filhas.

76 ERA o sexto dia; na colina, a família,


ansiosa, encontrava-se reunida desde
a manhã ao redor do altar, inconsciente da
9 Sofriam muito naquela noite, pela au-
sência de Caim.
10 A esperança de revê-lo fora quase que
experiência de transformação vivida por Caim totalmente banida.
lá nas divisas do Éden. 11 Num doloroso esforço Adão ergueu o
2 Com lágrimas rogavam a Deus pelo cordeiro, deitando-o sobre o altar.
querido Caim, ansiando vê-lo retornar. 12 Quão doloroso era sacrificar, mas não
3 Como era o dia da preparação, uniram- havia outro caminho.
se no trabalho, deixando tudo em ordem para 13 Cabisbaixo em meio às trevas, Caim
receberem o santo sábado: limparam os jar- refletia.
dins, colheram alimento, prepararam as vestes 14 Todo o seu passado construído por ilu-
e separaram o cordeiro para o sacrifício. sórios sonhos o via em cacos.
4 Foi uma atividade muitas vezes inter- 15 Estava no limiar de uma nova vida,
rompida por idas ao altar, onde estendiam como uma criança recém nascida sob a luz do
demoradamente o olhar sobre o vale, na espe- altar.
rança verem surgir aquele a quem tanto ama- 16 Caim esforçava-se para identificar
vam. aquele dia especial, de sua conversão.
17 A lembrança do último sacrifício o
Caim tenta chega em casa antes do pôr do Sol conscientiza de ser véspera de sábado.
18 Havia saído de casa no quarto dia da

77 CAIM, embora cansado da longa


jornada, continuava avançando com
ligeiros passos, desejando alcançar o sopé da
semana, quando os seus passos conduziram-
no para dentro de uma noite escura e fria, na
qual temeu a morte.
colina antes da noite. 19 Refeito, ao amanhecer do quinto dia,
2 Podia divisá-la ainda distante, banhada prosseguiu rumo ao desconhecido, até deter-
pelo sol poente. se amedrontado no vale dos ossos, onde a
3 O entardecer que até o dia anterior fora tarde transformou-se em noite.
visto como a vitória das trevas sobre a luz, 20 Foi dali que contemplou o brilho do
processava-se diante de seus olhos. anjo que o atraiu com o seu amor.
4 Via agora o sol envolto por nuvens tin- 21 Detido em meio às trevas, Caim recor-
tas de um vermelho vivo, tombar como um dava com emoção os conselhos do anjo que o
herói vitorioso, prestes a libertar um continen- levaram a uma mudança de rumo.
te além, do poder da noite. 22 Lembra-se de seus passos de fé que
5 A escuridão envolveu o vale, e nele moveram-no durante todo aquele sexto dia
Caim que, com os olhos fitos no último clarão rumo ao lar.
a dissipar-se no horizonte, esforçava-se em 23 Caminhar sob o brilho do sol fora fá-
prosseguir em seus passos. cil, mas o que fazer agora, quando as trevas o
6 Na colina, o patriarca Adão, com o co- detinham nas selvas?!
ração a palpitar de saudade, anseio e dor, 24 Caim, porém, alegrou-se ao saber que
preparava-se para oferecer o sacrifício. a escuridão daquela noite seria em breve
7 Intercederia como nunca nessa noite pe- ferida pela luz do sacrifício.
lo seu filho, cuja ausência torturava sua alma. 25 Com anseio aguardava o momento de
MELQUISEDEQUE, 78 51

prosseguir sua jornada, orientado pelo fogo 11 Cheio de ânimo prosseguiu em seus
que lhe indicaria o rumo de seu lar. passos de fé.
12 Embora lhe fosse impossível enxergar
Adão roga a Deus por Caim e compreender todos os obstáculos que surgi-
am em seu caminho fazendo-o tropeçar,

78 MOVIDO pela dor da saudade e pelo


último raio de esperança em abraçar
o seu filho, Adão ergueu o cutelo para matar o
mantinha o olhar fixo no brilho do cordeiro
imolado, avançando sempre, com a certeza da
vitória.
cordeiro. 13 Os passos de Caim conduziram-no fi-
2 De seus trêmulos lábios, escapa-se en- nalmente para junto da colina, onde podia ver
tão uma aflitiva oração em favor de seu filho: sua família reunida sob a luz do altar.
3 Senhor, hoje eu compreendo o quanto 14 Com o coração pulsando forte pelo
sofres com a rebeldia de teus filhos rebeldes, cansaço e pela emoção galgou em ligeiros
que trocaram o teu amor e o calor de uma passos a colina, detendo-se junto ao altar.
família amorosa que vive no seio da luz, pelas 15 Sua família, com os olhos cerrados
trevas do vale, onde o desespero e a morte orava por ele.
atraem com ilusões de vitória. 16 Não conteve as lágrimas, ao ouvir seu
4 Neste momento minha mão está erguida pai clamar:
para ferir esta inocente ovelha que, com seu 17 Senhor! Meu Caim, meu Caim!
sangue precioso alimentará o fogo da espe- 18 Quando o envolverei em meus bra-
rança em abraçar o meu filho que se encontra ços?!
perdido. 19 Quisera voltar ao passado, quando com
5 Faça Senhor, com que o brilho desta prazer tomava-o no colo.
chama possa alcançar o meu Caim onde ele se 20 Ele era a minha alegria, e esperava tê-
encontra, fazendo-o voltar ao lar arrependido. lo sempre salvo junto a mim.
6 Todas os súditos do Eterno com emoção 21 Mas oh, Senhor! Ele foi crescendo e se
contemplavam a comovente cena de signifi- afastando, levado pelos seus sonhos de aven-
cado tão grandioso. tura.
7 Naquele pai tremente e aflito, pronto a 22 E hoje, já é o quarto dia sem o nosso
sacrificar em favor do filho errante, viam o Caim!
grande Pai que, para atrair Seus filhos huma- 23 Meu coração está partido pela sua au-
nos do vale da perdição, ofereceria o maior sência, e já não suporto viver sem ele!
sacrifício. 24 Se for possível Senhor, traga de volta o
8 Após sua angustiante oração, Adão imo- nosso Caim, e que ele seja feliz ao Teu lado.
lou o cordeiro. Amém.
9 O fogo da esperança ergueu-se imedia- 25 Terminada a oração, Adão abriu os
tamente em brilhante chama, expulsando as olhos para contemplar a chama do perdão que
trevas que envolviam aquela colina. poderia, quem sabe, atrair seu filho daquele
10 Caim que movido pela alegria de ser vale sombrio.
sábado erguera a fronte nas trevas na expecta-
tiva de contemplar o brilho da vitória, ergueu Caim chega a sua casa, e todos ficam
as mãos aos céus agradecido quando viu jubilosos de alegria
surgir no escurecido horizonte a estrela da
aceitação. 26 Seu olhar pousou de cheio em Caim
que jazia prostrado junto ao altar.
52 MELQUISEDEQUE, 79

27 Sem conter a alegria, Adão com um 2 Decidiram lançar sobre ele densas tre-
brado de vitória saltou para junto de seu filho, vas espirituais, causando angústia e desânimo
envolvendo-o em seus braços. em sua nova experiência.
28 Toda a família o acompanhou nesse 3 Estavam certos de que persistindo com
gesto carinhoso, festejando com risos e lágri- essa pressão, alcançariam vitória.
mas de emoção, o retorno daquele filho e 4 Conhecendo os planos de Satanás, o
irmão amado. Eterno ordenou Seus anjos a combaterem as
29 Sob a luz do altar, todos assentaram-se trevas que circundariam o jovem Caim.
finalmente, passando a ouvir com atenção a 5 Ainda que conhecesse o seu futuro de
experiência passada por Caim naquela densa rebeldia, o Criador faria todo o possível para
floresta. mantê-lo a salvo das garras do inimigo.
30 Ele contou do medo que sentiu naquela 6 Sobre a colina, naquele lar repleto de fe-
primeira noite fora de casa; falou do vale da licidade, Caim tornara-se após sua conversão
morte, onde viu tantos ossos de animais devo- no motivo principal dos louvores e comemo-
rados com ferocidade; contou da luz que rações.
surgira ao entardecer, fazendo-o apressar seus 7 Como uma criança, humilde e submissa,
passos julgando ser o surgimento de um sol. Caim andava entre os seus tendo na face o
31 Falou do brilhante anjo que o atraíra brilho do amor e da esperança, que eram
para as divisas do Éden, levando-o com seus nutridos sob a luz do altar.
conselhos e palavras de sabedoria e amor a 8 Com lágrimas de gratidão distinguia
uma mudança de rumo. agora em cada cordeirinho imolado o Reden-
32 Contou de seu retorno, das lutas e ten- tor vindouro que pereceria em dor para ofere-
tações que teve de enfrentar a cada passo. cer-lhes a luz da eterna vitória.
33 Concluiu contando da alegria que sen- 9 Com alegria, Caim testemunhava diante
tiu, ao ver naquela noite o surgimento do fogo de sua família e diante do vasto Universo, da
sobre o altar, que semelhante a uma estrela, paz que agora inundava sua alma agora renas-
guiou os seus passos através daquele vale cida;
tomado pelas trevas. 10 Jamais experimentara antes sensação
34 Para a família, consolada pelo retorno de tanta liberdade, de tanto amor.
de Caim, surgiu finalmente o alvorecer da 11 Sobre sua mente refrigerada, contudo,
alegre vitória, trazendo em sua brisa o aroma começou a baixar as sombras da provação que
dos verdejantes prados edênicos cobertos de se intensificaram até mergulharem-no em
eternas flores. escura noite.
35 Naquela manhã de sábado, uniram-se 12 Era assediado por tantas tentações que
em cânticos de gratidão ao Criador, pela vida, pareciam revigorar em seu coração os sonhos
pelo perdão, e pela certeza de que sua feliz ilusórios de seu passado.
união jamais seria maculada pelo pecado. 13 Vozes pareciam gritar em seus ouvidos
dizendo:
Caim trilha nos caminhos do Eterno, mas 14 Deixe esse caminho que não leva a ne-
Satanás lança sobre ele trevas espirituais nhuma vitória!
15 Chega desses sacrifícios sangrentos

79 DESDE o momento em que Caim


passara a trilhar pelo caminho da
salvação, Satanás e suas hostes cheios de ira
que enaltecem a morte!
16 Contemple os jardins que você plan-
tou, e veja como eles comemoram a vida.
passaram a fazer planos para reconquistá-lo. 17 Você é sábio e forte, e poderá construir
MELQUISEDEQUE, 80 53

um império de paz e prosperidade, colorido 31 Disse-lhes que através de sutil engano,


por extensos jardins que florescerão numa lograriam a vitória que dificilmente alcançari-
eterna primavera de sol. am pela força.
18 Sacudido por essa tempestade de ten- 32 Com isso, a paz voltou a reinar na
tações, Caim quase vacilando, deixou transpa- mente de Caim que, unido à família, cantava
recer em seu semblante a agonia que lhe louvores a O Eterno, o autor de sua salvação.
inundava a alma.
19 Assim, sua aflição foi logo percebida Satanás trama a queda de Caim
pela sua família que, preocupada procurou
saber dele as razões de sua angústia.
20 Temendo expor para sua família o que
lhe afligia, calou-se afirmando que era apenas
80 ENQUANTO aquela família com
alegria comemorava mais uma vitó-
ria alcançada na vida de Caim, as hostes das
um sentimento de pesar que logo passaria. trevas estavam reunidas tramando novos
21 Os pais ficaram aflitos, pois concluí- planos de ataque.
ram acertadamente, que era Satanás quem 2 Muitas ideias foram apresentadas, mas
estava pressionando-o com o objetivo de prevaleceram aquelas elaboradas por Lúcifer,
arrastá-lo novamente para a escravidão. arqui-enganador.
22 Com lágrimas, aqueles pais clamaram 3 Ele afirmou confiante:
ao Criador em favor daquele filho que, aflito, 4 Se tão nos aproximarmos de Caim como
caminhava de um lado para o outro procuran- amigos em sua jornada no caminho da salva-
do encontrar alívio. ção, inspirando pensamentos e sentimentos de
23 Anjos poderosos empenhavam-se in- fé no Redentor, não nos será difícil introduzir
sistentemente naquele conflito que travava-se com sutileza as sementes da rebeldia que,
invisível aos olhos humanos. germinarão uma a uma em seu coração confi-
24 Ainda que severamente provado, Caim ante, fazendo-o menosprezar finalmente os
não chegaria ao ponto de ser forçado pelo sacrifícios de sangue sobre o altar, com o
inimigo a render-se ao pecado. pensamento de não mais depender desse
25 Havia um exército ao seu lado para símbolo para ter em mente o Salvador vindou-
ampará-lo em seus passos de fidelidade. ro.
26 Todo o Universo estava atento para as 5 Quando iludido julgar haver alcançado
decisões de Caim, que poderiam influir na o amadurecimento espiritual, estará novamen-
experiência de incontáveis seres humanos que te no abismo.
seguiriam os seus passos. 6 Naquela colina, que era centro das aten-
27 Orientado pelo exemplo de seus pais, ções de todo o Universo, sucediam para a
Caim buscou na oração o refúgio para sua pequena família dias de alegria, prosperidade
alma torturada. e paz.
28 Com fervor implorava ao Criador que 7 Cresciam cada vez mais em sabedoria e
firmasse os seus passos. graça, trilhando no caminho da salvação.
29 Embora sentisse forte apelo para voltar 8 Por detrás dessa paz, porém, inconscien-
ao caminho da do orgulho e da aventura, te à família jubilosa, uma perigosa armadilha
estava decidido a continuar seus passos pelo se armava.
trilho acidentado do amor e do sacrifício. 9 O Eterno e Seus exércitos, preocupa-
30 Temendo não alcançar o seu objetivo vam-se com essa situação, pois sabiam que
sobre Caim, Satanás ordenou seus guerreiros seus inimigos poderiam causar com esse
a suspenderem aqueles desesperados ataques. disfarce, uma grande ruína à humanidade, na
54 MELQUISEDEQUE, 81

experiência da qual se processa a redenção do 5 Inspirando esses pensamentos, Satanás


Universo. ganhava a simpatia não somente de Caim,
10 Os guerreiros da luz agora, não teriam como também de toda aquela família.
de lutar contra as trevas, mas contra um falso 6 Todavia, Caim que aparentemente tor-
brilho. nava-se num eloquente mestre e pregador da
11 Envolvido por influências aparente- justiça e da verdade, iludido em sua falsa
mente positivas, as quais julgava proceder segurança, começou a menosprezar em seus
todas do Criador, Caim tornava-se aos poucos ensinos o sacrifício do cordeiro sobre o altar.
confiante e bem seguro da vitória prometida. 7 Argumentava que somente as ilustra-
12 Seu amor pelo Eterno parecia tornar-se ções da natureza e as instruções verbais, eram
imenso, e vibrava ao prever a perfeita felici- suficientes para gravarem na mente humana
dade que alcançaria no alvorecer do dia eter- as verdades da redenção.
nal. 8 Apelando às emoções da família, dizia
13 Satanás que atento o acompanhava em que o objetivo estabelecido pelo Criador por
sua experiência religiosa, viu haver chegado o meio daqueles sacrifícios, já havia sido alcan-
momento de atraí-lo com sua falsa luz, desvi- çado na vida deles; poderiam evitar agora essa
ando-o do caminho da justiça. dor, apresentando sobre o altar ofertas de
14 Orientou mais uma vez seus guerreiros flores e frutos, símbolos naturais da redenção.
a agirem com cautela e paciência, inspirando 9 Um grande laço armara-se sobre aquela
subtilmente pensamentos e sentimentos de família, levando-a à uma grande luta íntima.
aparente virtude que o levassem impercepti- 10 De um lado estava o caminho da dor e
velmente a negligenciar por fim o sacrifício do altar banhado em sangue, e do outro, a
de sangue sobre o altar, julgando haver alcan- alegria de uma aparente vitória, comemorada
çado em sua santificação um nível superior, por um altar coberto com flores e frutos.
no qual não se depende mais daquele doloroso 11 Caso aceitassem a proposta vinda atra-
rito. vés de Caim, cairiam sob o domínio do tenta-
dor.
Caim cai em tentação 12 Com a família em prova, Satanás insis-
tia por meio de Caim, procurando levá-los a

81 EM seu amor pelo saber, e apego a


toda a revelação, Caim começou ter
sua atenção voltada para o falso brilho que,
decidirem de seu lado, afirmando que o Eter-
no não Se importaria com essa mudança, que
expressava amadurecimento e gratidão pelo
inicialmente parecia tornar mais claro e segu- Seu sacrifício, também simbolizado pelas
ro o caminho da redenção. flores e frutos.
2 Com ânimo apresentava para seus fami- 13 Todo o Universo estava em comoção,
liares que, admirados reuniam-se aos seus diante da decisão que aquela família estava
pés, os pensamentos de aparente sabedoria e preste a manifestar.
graça, gerados pela sua nova experiência. 14 O que estava em jogo, era o trono do
3 Longe estavam de saber que aquelas Universo.
ideias tão belas e cativantes, eram originadas 15 Depois de renhida batalha espiritual,
por aquele que através da serpente conseguira conscientes do engano que se escondia nas
seduzir Eva. palavras de Caim, aqueles pais temendo
4 Em suas palavras e louvores, Caim pas- serem arrastados para distante do Salvador,
sou a exaltar o Salvador, bendizendo o Seu decidiram rejeitar aquela proposta.
futuro sacrifício. 16 Influenciados por essa decisão em
MELQUISEDEQUE, 82, 83 55

favor da verdade revelada por o Eterno, Abel maculado por um culto diferente daquele
e sua irmã mais nova colocaram-se ao lado estabelecido pelo Criador.
dos pais. 5 O ideal foi crescendo no coração daque-
17 Somente a irmã mais velha, que culti- le jovem casal, trazendo sonhos de um lar
vava no íntimo grande admiração por Caim, repleto de crianças a brincar num paraíso
permaneceu indecisa, favorecendo seu irmão banhado em sol.
mais velho nas discussões que tiveram lugar. 6 Caim, o senhor e mestre daquela nova
18 Embora contassem com a queda de to- família, a guiaria numa caminhada de vitória,
da a família humana, as hostes inimigas da luz iluminados pelo brilho de um fogo mais
se alegraram em ter novamente Caim como brilhante que o do cordeiro, que se ergueria de
escravo. seu altar coberto de flores e frutos.
19 Batalhariam agora pela conquista da- 7 Semelhante a Caim, Abel que se tornara
quela jovem indecisa que, unida ao irmão, também adulto, enamorou-se de sua irmã
poderia se tornar mãe de uma geração pecado- mais nova - aquela que desde a infância esti-
ra, no seio da qual se fortificaria o reino das vera ligada a ele por laços de íntima afeição.
trevas. 8 Juntos caminhavam pelos campos,
20 Ao tomarem consciência da posição apascentando o rebanho, enquanto considera-
rebelde de Caim, Adão e Eva, seguidos por vam com interesse os ensinos de amor escri-
seus dois filhos fiéis, passaram a rogar-lhe tos na natureza.
com amor, tentando convencê-lo do erro. 9 Adão e Eva, bem como o Criador e suas
21 Aquele filho, contudo, mantinha sua hostes fiéis, encontravam consolo e esperança
posição sem ser agressivo. na experiência desses dois jovens que, jamais
22 Estava confiante de ter aprovação do deixaram de refletir nos olhos a chama aque-
Criador para suas ideias revolucionárias. cida daquele altar que indicava-lhes o cami-
nho sangrento da redenção.
Caim tem a ideia de formar sua própria
família e assim criar um novo tipo de sacrifí- Caim pede sua irmã em casamento à Adão, o
cio ao Criador qual aguarda uma resposta do Eterno

82 CAIM estava triste por não ter toda a


família a seu lado, mas animou-se
ante a manifestação de compreensão e apoio
83 CAIM, em seu anseio por constituir
um lar, unindo-se àquela a quem
amava, aproximou-se finalmente de seus pais,
por parte de sua irmã. pedindo-a em casamento.
2 A afinidade de suas ideias levava-os a 2 Adão compreendeu-lhe o anseio, e pe-
passar longas horas conversando sobre o diu-lhe que aguardasse a resposta do Eterno.
futuro. 3 Apresentaria a Ele o seu pedido, e espe-
3 Foi assim que nasceu entre eles a ideia rariam pela manifestação de Sua vontade.
da construção de um novo altar onde Caim, 4 Adão, o bondoso pai que a cada dia in-
como sacerdote, pudesse por em prática um tercedia junto ao altar pela sua família, e de
culto renovado, oferecendo em lugar de cor- uma maneira especial por aqueles filhos que
deiros, flores e frutos. se aventuravam em caminho de ilusões, apre-
4 Isso, evidentemente, significava a for- sentou com tristeza o pedido de Caim ao
mação de um novo lar, pois Adão como sa- Senhor da luz.
cerdote de um culto conservador, jamais 5 Aguardariam d’Ele a manifestação de
permitiria que o altar de sua família fosse Sua vontade sobre aquele passo tão
56 MELQUISEDEQUE, 84, 85

importante no seio da humanidade. do Messias, a seu tempo, Ele poderia casar-Se


6 Caim e sua irmã amada, aguardavam com a raça humana, numa eterna aliança de
agora ansiosamente pelo dia do sacrifício, paz.
quando poderiam com certeza ter um encon- 8 Portanto, Sua benção somente poderia
tro com Aquele que tudo criou. ser obtida por aqueles que Se submetessem ao
7 Estavam convictos de que Ele não recu- ritual simbólico.
saria a concretização de seu sonho, e manifes-
taria apoio ao seu ideal de culto. O Eterno aparece para Caim e Abel e dá-lhes
8 O sol declinou-se ao fim daquele sexto instruções sobre o casamento
dia, dando lugar às trevas de mais um sábado.
9 Toda a família reuniu-se reverente junto
ao altar, enquanto Adão preparava o cordeiro
para o sacrifício.
85 O CORDEIRO atado sobre o altar,
sentiu atravessar seu peito aquele
cutelo de pedra que, depois de causar-lhe
10 Viria o Criador em resposta ao anseio profunda dor mergulhou-o na escuridão da
daquele jovem casal?! morte.
11 Esta questão pesava sobre todos eles, e 2 Sobre o sangue que brotou de sua ago-
em especial sobre Caim e sua irmã compa- nia, nasceu imediatamente uma luz que tor-
nheira. nou-se intensa, até afugentar todas as trevas
que cobriam aquela colina.
O significado do casamento 3 Em meio ao brilho, a família reunida
pode distinguir a presença gloriosa do Cria-

84 O ETERNO ouvira o pedido de Caim


apresentado por meio de Adão, e
estava pronto a manifestar-Se em resposta a
dor, que mansamente inclinou-se sobre eles,
com o Seu sorriso amigo.
4 A felicidade daquele encontro era imen-
esse anseio. sa, pois já haviam passado muitos anos desde
2 Pesava sobre seu Ser, contudo, uma Sua última aparição, que ocorrera por ocasião
grande tristeza, pois não poderia abençoar do anúncio do nascimento de Abel.
aquele jovem casal com a plenitude de felici- 5 Para eles, portanto, aquele encontro era
dade e paz que almejavam obterem naquela muito especial.
união. 6 Depois de saudar afetuosamente aquela
3 Unicamente um verdadeiro casamento família, O Eterno comunicou-lhes as novas
poderia conferir-lhes essas virtudes. que poderiam ser de alegria.
4 O Criador estabelecera o matrimônio 7 Disse-lhes que ouvira o pedido de Caim,
como um santo legado, de significado eterno. que Lhe fora apresentado por Adão, e viera
5 A união do casal, sob a benção divina, com o propósito de orientá-los acerca dos
deveria simbolizar a união espiritual entre passos que deveriam dar para concretização
Deus e os ser humano. daquele sonho.
6 O casamento, portanto, perderia o seu 8 Conscientizou-os primeiramente da res-
sentido prefigurativo, para aqueles que me- ponsabilidade que assumiriam diante de d’Ele
nosprezassem o símbolo dessa união, que e de todo o Universo, pois em sua espontânea
encontrava, desde a queda do homem, o seu união, trariam ao mundo filhos, os quais
ápice no sacrifício do cordeiro. deveriam ser instruídos no caminho da salva-
7 O Eterno determinara ensinar por meio ção.
da cerimônia do casamento, a verdade funda- 9 Falou-lhes também das funções que de-
mental de que, unicamente mediante a morte sempenhariam em seu novo lar.
MELQUISEDEQUE, 86, 87 57

10 Caim, semelhante a Adão, seria sacer- Universo, sendo considerados a partir desse
dote e mestre; ato, uma só carne.
11 Deveriam, portanto, construir um altar, 7 Essa união, geradora de vida, consistiria
para sobre ele oferecer sacrifícios. num simbolismo perfeito da união do Eterno
12 Sua companheira, em semelhança de com o ser humano, em virtude do sacrifício
sua bondosa mãe, deveria ser submissa e do Salvador.
sempre pronta a auxiliá-lo nas lides diárias. 8 Com essas orientações e ordens do
13 Com alegria, Caim e sua companheira Eterno, tornou-se claro para aqueles jovens
ouviram de Deus essas palavras de orientação pretendentes ao matrimônio, que a única
e aprovação ao casamento. oferta aceitável, que poderia trazer a benção
14 Abel e sua companheira que aos pés do da verdadeira união, seria o sacrifício de um
Criador ouviam atentos Suas palavras de cordeiro.
aprovação ao casamento dos irmãos, entreo- 9 Em meio ao júbilo daquela família, a
lhavam-se movidos por um intenso desejo de luz de Deus dissipou-se finalmente, ocultan-
formarem também um lar, onde seguindo o do-O de seus olhos.
exemplo dos pais, poderiam desempenhar um 10 Sob a luz do altar, permaneceram ale-
ministério de amor. gres a conversar sobre aquele futuro de felici-
15 Lendo em seus olhos o desejo nascido dade que acenava-lhes agora tão próximo.
no coração, o Eterno com um sorriso os en- 11 O sol surgiu finalmente, trazendo em
volveu com Seus braços, e disse-lhes que seus cálidos raios um alvorecer de brisa man-
poderiam construir também o seu altar. sa a beijar-lhes a face com o aroma do Éden,
16 Com lágrimas de emoção, Abel e sua trazendo-lhes à lembrança as emoções daque-
irmã prostraram-se aos pés do Criador, agra- le primeiro sonho de Adão.
decendo-Lhe por conferir-lhes tão sagrado
dom. Caim e Abel demarcam suas terras e esco-
lhem um local para construírem seus altares
O Eterno instrui sobre oferta de sacrifício
para confirmação dos casamentos
87 CAMINHANDO pelos campos
férteis sobranceiros à colina, a pe-

86 O ETERNO passou a orientar aque-


les jovens com respeito à cerimônia
que os enlaçariam.
quena família, seguindo instruções do Eterno,
passou a traçar as divisas de seus lares.
2 Caim, sendo o primogênito, escolheu os
2 Ordenou-lhes mais uma vez a constru- campos floridos que estendiam-se à direita do
ção do altar. lar de seus pais;
3 Caim construiria o seu altar, e Abel o 3 Ali , muito em breve, ergueria o seu al-
seu. tar.
4 Preparariam cada um uma oferta especi- 4 Enquanto Caim e sua companheira per-
al, para oferecer em sacrifício, na noite que maneceram nos limites de seu futuro lar,
antecederia ao próximo alvorecer do sábado. traçando planos para seu futuro, Abel e sua
5 A aprovação e benção de Deus ao ca- irmã mais nova acompanharam os passos de
samento, se manifestaria na presença do fogo seus pais até alcançarem aos campos que
que surgiria sobre o altar. estendiam-se à esquerda do altar de Adão.
6 Iluminados pelo brilho da presença di- 5 Estavam contentes, pois em sua ocupa-
vina, sua união seria selada diante de todo o ção pastoril, encontrariam ali sempre verde-
jantes pastagens regadas por refrigerantes
58 MELQUISEDEQUE, 88, 89

mananciais. 4 Agora, eram observados por todos os


6 Depois de definirem o lugar sagrado do seres inteligentes do vasto Universo, naquele
altar, onde sob o calor da primeira chama dia de prova.
viveriam a mais íntima união, Abel e sua 5 Se atentassem para o caminho doloroso
companheira passearam felizes pelos seus do cordeiro, seriam unidos num casamento de
campos onde pastavam os cordeiros; significado solene; se rejeitassem segui-lo,
7 Ali adoraram o grande Deus que, para não alcançariam a aprovação, nem tão pouco
casar-se com a humanidade em eterna aliança a benção que desejavam receber.
de vida, Se faria cordeiro na pessoa do Messi- 6 Abel e sua irmã mais nova, caminharam
as, para verter Seu sangue em sacrifício remi- com alegria em direção ao rebanho, onde
dor. escolheram o mais bonito cordeiro, tomando-
8 O alvorecer do primeiro dia da semana o como oferta ao Senhor.
despertou enfim aqueles noivos para uma 7 Enquanto isso, Caim e sua companheira,
semana que seria de muitas atividades: com determinação dirigiram-se aos pomares,
9 Deveriam construir os altares e prepa- colhendo ali os mais belos frutos e flores, para
rar seus novos lares. oferecerem sobre o altar.
10 Com ânimo iniciaram o trabalho, aju- 8 O Eterno e seus súditos entristeciam-se
dados pelos pais. ante a atitude de Caim.
11 Depois de lavrarem e prepararem os 9 A oferta que preparavam, consistia nu-
lugares determinados reuniram as pedras com ma demonstração de rebeldia diante do plano
as quais construíram cuidadosamente os da redenção.
altares. 10 Rejeitando o sacrifício de sangue esta-
12 Prepararam em seguida suas moradas, vam menosprezando o único caminho pelo
plantando arbustos para servirem de muro qual o ser humano poderia retornar ao paraíso
protetor. da eterna vida.
13 Esses preparativos se estenderam até o
quinto dia.
14 Aguardavam agora o sexto dia, quando
preparariam a oferta para o altar - oferta que
89 O SOL finalmente tombou no hori-
zonte, trazendo em seu arrebol, como
num último apelo ao jovem Caim, a lembran-
em sua aceitação os uniriam em sagrado ça de seus passos naquele anoitecer em que
matrimônio. retornava ao lar.
2 Teria ficado retido na selva naquela noi-
Caim desobedece as ordens do Eterno te, não fosse a luz do cordeiro sacrificado.
3 Essa lembrança mergulhou-o em pro-

88 A LUZ do sexto dia finalmente


raiou, trazendo um dia significativo
para aquela família.
funda luta íntima.

tos?!
4 Seria aceita a sua oferta de flores e fru-

2 Caim e Abel, juntamente com suas 5 Não seria melhor retroceder em seus
companheiras, haviam sido instruídos desde à passos, tomando um cordeiro para o altar?!
infância sobre o caminho da obediência. 6 Invisíveis aos olhos de Caim, legiões de
3 Haviam também recebido orientações anjos procuravam influenciá-lo em sua solene
diretas do Eterno com respeito ao verdadeiro decisão.
sacrifício. 7 Em sua luta espiritual, chegou quase a
abandonar seus planos, mas seu orgulho
repeliu finalmente essa opção: seria
MELQUISEDEQUE, 90, 91 59

humilhante àquelas alturas, confessar diante alegria de estarem para sempre unidos ao
de sua irmã e de sua família, a inconsistência Redentor, o amante Esposo da alma humana.
de sua teologia. 9 A não aprovação da oferta, traria amar-
8 Enquanto contemplava no horizonte o ga decepção, pois além de não receberem a
último lampejo do arrebol, Caim rompendo benção do Criador, teriam consciência de
com o apelo do Espírito divino, reafirmou-se estarem trilhando por um caminho de rebel-
em sua decisão: dia, desligados do Autor da vida.
9 Ofereceria flores e frutos em lugar de 10 Foi com um misto de alegria e tristeza,
um cordeiro, inaugurando uma nova modali- que Adão e Eva dirigiram-se ao altar naquela
dade de culto pensando que, certamente, noite, depondo sobre o mesmo a ovelha para o
poderia ser aceita pelo Eterno. sacrifício.
11 Depois de tantos anos junto aos seus
Adão aconselha Caim a retroceder de sua filhos, nos quais por palavras e exemplo,
ignorância, mas ele não aceita procuraram mostrar o caminho da salvação,
colhiam agora respostas de obediência e

90 AS TREVAS baixaram lentamente


sobre aquela colina, até cobri-la em
semelhança de um espesso manto.
desobediência.
12 Estavam felizes por Abel, e tristes por
Caim.
2 O momento era muito importante, pois 13 O que mais poderiam fazer por aquele
decisões de vida e morte estavam por mani- filho rebelde?!
festar-se. 14 Numa última tentativa de fazê-lo reco-
3 O que estava em jogo no posicionamen- nhecer seu erro, Adão tomando nos braços
to humano, era o destino do Universo. sua oferta, tateou-se até avizinhar-se do altar
4 Nos passos rebeldes de Caim e sua de Caim.
companheira, viam os seguidores do Eterno 15 Ali, com lágrimas a banhar a face, ele
um grande perigo que poderia dificultar e por implorou para seu filho a tomar aquela ovelha
em perigo o triunfo do plano da redenção. para o sacrifício.
5 Tomavam consciência naquela noite, de 16 Se aceitasse os seus rogos, veria surgir
que Satanás e suas hostes, procurariam con- o fogo da benção divina, caso contrário,
duzir a humanidade para formas errôneas de permaneceria mergulhado nas trevas.
culto, baseadas em filosofias atraentes como 17 Caim com arrogância menosprezou a
aqueles frutos e flores colhidos por Caim, mas oferta de seu pai, afirmando que o seu altar
que em essência seria uma negação do único jamais seria maculados pelo sangue de ino-
caminho da salvação, representado pela morte centes animais.
do cordeiro. 18 Ferido pela rebeldia e ingratidão de
6 Naquela noite, dois novos casais, movi- seu filho, Adão retornou ao seu altar, onde
dos pelo mais profundo anseio, apresentavam- juntamente com Eva, continuaram interce-
se diante do Criador com suas ofertas. dendo pelo futuro de seus filhos.
7 A aceitação divina descerraria para eles
um caminho de felicidade, em resposta aos O Eterno recebe a oferta de Abel e a de Caim
seus mais acalentados sonhos. não por sua desobediência
8 Sua união sob a luz do altar, traria para
eles um vislumbre das glórias futuras - aque-
las que serão desfrutadas pelos redimidos - a 91 O MOMENTO da prova chegara;
todo o Universo estava atento.
60 MELQUISEDEQUE, 91

2 No coração de todos os filhos da Luz 17 A chama da aceitação imediatamente


havia um misto de alegria e tristeza: alegria iluminou-lhe a face marcada pelo pranto.
pela oferta de Abel, e tristeza pela confirma- 18 Consolado pelo brilho da chama que
ção de Caim no caminho da rebeldia. ardia sobre o altar de seu pai, Abel num es-
3 Semelhante a seu pai, Abel ergueu com forço doloroso ergueu a mão portadora do
mãos trêmulas o cordeiro que não opunha cutelo da morte - aquele que em sua queda
resistência. descerrar-lhes-ias a benção imerecida, após
4 Desde a infância se apegara a esses ino- causar a dor.
centes e puros animais, vendo neles um sím- 19 Enquanto trêmulo e pálido permanecia
bolo do Salvador. ainda hesitante em suas trevas, Caim do outro
5 Seu apego aos cordeirinhos, levara-o a lado da chama de perdão acesa no altar de seu
tornar-se pastor. pai, clamava pela luz divina.
6 Ele estremecia ante a ideia de ter de sa- 20 Confiante de estar agradando o Criador
crificar aquele animalzinho de estimação, mas com sua oferta, orava:
sabia que não haver outro caminho para se 21 Senhor, Criador e Rei Universal, Teu
aproximar do Eterno. reino é de luz e alegria; Tu és como o sol que
7 Unicamente a sua morte poderia descer- vitorioso percorre o céu, envolvendo toda a
rar a chama da aceitação, da benção para o natureza com o seu manto de luz, fazendo-a
seu casamento. despertar colorida, em pujante vida.
8 Presenciara desde à infância o doloroso 22 A Ti que com o Teu amor fazes brilhar
ato do sacrifício, mas agora, quando suas o dia, unindo sob teus raios toda a vida, trago
mãos deveriam desferir o golpe, hesitava. estas flores e frutos que são produtos dessa
9 Tomado por profunda angústia ante seu união.
dever, curvou a fronte em inconsolável pran- 23 Aceita-os como símbolos de nossa vi-
to. tória, e faça brilhar sobre nosso altar a chama
10 Caim, movido pelo anseio da união da eterna benção.
que seguiria à chama da vitória, ergueu as 24 Abel, movido por uma profunda dor,
mãos sobre as flores e frutos, invisíveis sobre cravou finalmente no peito do cordeiro aquele
aquele altar mergulhado na escuridão. instrumento de morte, fazendo-o adormecer
11 Seguro da aprovação divina voltou os para sempre.
olhos para o céu, e contemplou o fulgor das 25 No impulso do golpe, prostrou-se ao
estrelas. solo onde agonizante demorou, refletindo no
12 Alegrava-se por saber que em resposta significado daquele sacrifício.
à sua oferta, outra estrela surgiria para se unir 26 Podia agora compreender a agonia que
àquelas com seu brilho. seu pai experimentava em todas aquelas
13 Adão com a mão erguida chorava em noites de sacrifício.
sua prece, lamentando a perdição de Caim. 27 Caim que silente aguardava a resposta
14 Por que rejeitara o cordeiro?! de sua prece, inquietou-se pela demora.
15 O que poderia mais ter feito, para fazê- 28 Sua inquietação tornou-se finalmente
lo compreender que o seu caminho era de desespero, ao ver surgir além à chama da
pecado?! benção descendo sobre o altar de seu irmão.
16 Certo de que esgotara todos os meios 29 Tomado então por emoções de tristeza
para ajudá-lo, Adão tombou a cabeça, após e ira bradou aos céus:
desferir o golpe mortal. 30 Senhor, Senhor, não me ouves?! Não
me respondes?!
MELQUISEDEQUE, 92, 93 61

31 Seus rogos, porém, não trouxeram ne- 4 Impulsionados pelo orgulho, Caim e sua
nhuma resposta além de um eco vazio, perdi- irmã rejeitaram os conselhos dos pais que
do naquela noite. somente queriam a felicidade deles.
32 Vencido pela vergonha da tragédia, 5 Remoendo em lamúria sua amarga de-
Caim prostrou-se, revolvendo-se em inconso- cepção, Caim permaneceu o restante da noite
lável pranto. a revolver-se em insônia.
33 Satanás exultou ao testemunhar o de- 6 Em seus sentimentos e pensamentos,
sespero de Caim que, com gemidos maldizia sobrevinham agora as sombras do ódio e da
o Criador por não haver se manifestado sobre vingança.
o altar. 7 Estava irado contra o Criador, por haver
34 Festejava por ter conseguido através rejeitado sua oferta.
do engano levar Caim novamente a manifes- 8 Contemplando ao longe a chama da
tar diante do Universo sua rebeldia. aprovação, sob a qual Abel e sua companheira
35 Estava contente também em ver que viviam sua feliz união, Caim encheu-se de
Caim não estava sozinho em sua queda, mas indizível inveja que explodiu dentro dele num
tinha sua irmã a seguir-lhe os passos. furor sem limites.
36 Agora lutaria para mantê-los cativos 9 Lá estava o filho preferido - aquele a
sob o seu poder, tornando-os inimigos decla- quem não tolerara desde a infância.
rados do Eterno e de seus seguidores. 10 Por que seria ele mais digno?!
37 O Criador, embora entristecido pela 11 Por que poderia gozar maiores privilé-
desobediência de Caim, alegrava-se em poder gios?!
honrar diante do Universo aquele casal obedi- 12 Inspirado pelo espírito maligno, quan-
ente que, no cordeiro imolado, via a promessa do o sol já estava quase raiando, Caim come-
de um Redentor que no futuro nasceria para çou a maquinar um terrível crime.
redenção de todos os pecadores que o aceitas- 13 Disse para si:
sem. 14 Se eu não sou digno de viver sob a luz
38 Abel e sua companheira após consola- da benção divina, nem tão pouco o meu irmão
rem-se da dor do rude golpe, banhados pelos será;
raios aquecidos daquela chama, uniram-se em 15 Aguardarei o momento oportuno, para
sublime ato de amor, esse que poderia gerar apagar de seus olhos todo o brilho da felici-
vida. dade.

Caim maquina o mal contra Abel O Eterno aparece para Caim e pede para que
se arrependa

92 ADÃO e Eva que penalizados já


haviam previsto a dura decepção de
Caim e sua companheira, atraídos pelos seus 93 O SOL finalmente raiou revelando
com sua luz a face transtornada de
gemidos, apalparam-se nas trevas, até avizi- Caim.
nharem-se de seu altar sem vida. 2 Que mudança! Não brilhavam os seus
2 Ali, movidos por grande desejo de mu- olhos de felicidade ao entardecer?!
dar-lhes a sorte, procuraram convencê-los a 3 Todas as hostes da luz preocupavam-se
oferecerem um cordeiro; com a situação infeliz de Caim.
3 O tempo ainda lhes era oportuno e se 4 Sabiam que em sua decidida rebelião,
quisessem, poderiam buscar nas pastagens o Satanás o afundaria cada vez mais em maior
rebanho, tomando um cordeiro para o altar. desespero.
62 MELQUISEDEQUE, 94, 95

5 O Criador conhecendo os planos malig- 2 De um lado Satanás e seus exércitos es-


nos de Caim, manifestou-se a ele no alvore- forçavam-se em detê-lo em sua escravidão, do
cer, com o propósito de ajudá-lo a compreen- outro Deus e suas hostes, procuravam desper-
der sua necessidade. tar naquele coração em luta, o reconhecimen-
6 Invisível aos demais da família, o Eter- to do único caminho para a salvação.
no dirigiu-se a Caim e, estendendo sobre ele 3 Caim, agitado em seus pensamentos e
Sua mão amiga, perguntou-lhe: torturado pelo peso de responsabilidade que
7 Filho, por que você está tão irado?! repousava sobre si, pois seus passos seriam
8 Em resposta, Caim apontando para o al- seguidos por muitos outros, chegou, por
tar coberto de flores e frutos, respondeu: vezes, a pensar em render-se, tomando para si
9 Estou magoado por não teres aceito essa um cordeiro.
oferta que ofereci com tanta fé. 4 Mas esse pensamento, logo era banido,
10 Com palavras cheias de compaixão, o dando lugar a outro, de ódio e vingança.
Criador explicou-lhe novamente a necessida- 5 Em sua agonizante luta, quando o sol já
de humana da salvação, a qual somente pode- caminhava para o poente anunciando outra
ria ser alcançada mediante o Seu sacrifício, escura noite, Caim vencido pelo orgulho
que era simbolizado pela imolação do cordei- tomou trágica decisão:
ro. 6 Jamais aceitaria o plano da redenção
11 Disse-lhe que sua oferta de gratidão simbolizado pelo cordeiro sobre o altar.
somente poderia ser aceita, após o sacrifício 7 Essa decisão, qual seta dolorosa rasgou
de sangue. o coração do Eterno e de suas hostes, fazen-
12 Não conformado com as palavras do do-os prostrar em triste lamentação pela
Eterno, Caim procurou justificar-se. perdição daquele filho amado.
13 Suas palavras, contudo, que revelavam 8 Era terrível pensar que muitos no desen-
a grande mágoa de um orgulho ferido, foram rolar o grande conflito pelo trono do Univer-
finalmente interrompidas pelos conselhos so, haveriam de os passos de Caim!.
finais de Deus, que estendia-lhe uma única 9 Cessada a batalha, Caim ergueu-se com
oportunidade, para romper com sua escravi- um sorriso maldoso nos lábios.
dão espiritual: 10 Não teria mais conflitos em sua cons-
14 Somente há um caminho Caim , que é ciência!
de sacrifício. 11 Não seria mais perturbado pela ideia
15 Se você proceder conforme o seu ir- do sacrifício!
mão, será também aceito e abençoado com a 12 Lutaria agora, e construiria com sua
chama da benção; sabedoria e força, um paraíso de paz e prospe-
16 Se, todavia, proceder mal, terá selado o ridade.
seu destino das garras da morte.
17 Após afirmar solenemente essas pala- Caim planeja a morte de Abel
vras, o Eterno despediu-se de seu filho, tor-
nando-Se invisível.

Caim não se arrepende


95 MAIS uma noite surgiu, trazendo
com suas trevas a insônia de uma
sorte má, desumana e cruel, que agora era
planejada por Caim.

94
íntima.
AS PALAVRAS do Eterno mergu-
lharam Caim na mais terrível luta
2 Com o coração dominado pelo mal, di-
zia para si naquela noite, que era a primeira
da semana:
MELQUISEDEQUE, 95 63

3 Assim que raiar o dia, visitarei o lar de sangue de inocentes animais, mas cumpriria a
Abel. vontade divina, sacrificando um cordeiro para
4 Fingindo estar arrependido, pedirei dele alcançar a benção sobre o seu matrimônio,
um cordeiro para o meu altar. mas o faria distante, no campo.
5 Pedirei que ele me acompanhe até o re- 18 Após cumprir esse compromisso, re-
banho, que pernoita em pastagens distantes; tornaria para ela, e seriam a partir de então
6 Sei que ele de boa vontade me atenderá. uma só carne.
7 Quando em nossos passos, nos encon- 19 Abel alegrava-se naquela manhã ao la-
trarmos distantes de seu lar, eu o farei com- do de sua amada que, com um sorriso desper-
preender a dor sentida pelos cordeiros. tara como de um sonho, reclinada ao seu
8 Depois de matá-lo, o esconderei na flo- peito, onde pulsava um coração o qual não
resta, longe do alcance dos olhos de sua com- podia ela imaginar, enviaria naquele dia, num
panheira e de seus pais. último esforço, a seiva da vida, para não mais
9 Comemorarei então o seu fim, unindo- retornar.
me à minha companheira, como ele o fez após 20 Abel seria como um cordeiro sobre o
a morte do cordeiro. altar.
10 Quando surgir o entardecer - esse que 21 Depois de cingir-se com o instrumento
com seu arrebol não trará mais Abel para o da morte, Caim com passos movidos por uma
seu lar- fugirei com minha irmã para o vale de decisão que não seria revogada, ladeou a casa
onde regressei outrora, e de lá jamais voltarei de seus pais, aproximando-se do lar de Abel
a essa colina hostil, onde cordeiros perecem que, ainda aos pés do altar, permanecia com
sem culpa. sua companheira, trocando juras de um amor
11 Caminharemos assim até alcançarmos eterno.
o berço da luz, que estende-se nas campinas 22 O olhar de ternura de Abel, sob o bri-
do Éden. lho do alvorecer trouxe para aquela jovem
12 Ali, longe dos rogos e conselhos desse uma lembrança que a comoveu.
meu intolerável pai, oferecerei ao Senhor da 23 Acariciando sua face coberta pela bar-
luz, cultos de flores e frutos: produtos que ba macia qual lã, com os lábios trêmulos de
nascem sob seu brilho. emoção, sussurrou-lhe:
13 O sol em sua marcha oculta, anunciou 24 Querido, o seu olhar é para mim como
no horizonte distante os sinais do amanhecer, o olhar de um cordeiro: me traz segurança,
num clarão que, refletido por uma nuvem, paz e esperança.
tornava-a parecida a um manto banhado em 25 Sou grata por poder contemplar esses
sangue. olhos em que brilha o amor!
14 Caim que trazia nos olhos as marcas da 26 Tudo o que eu quero, é que eles jamais
insônia ocultou à sua companheira o motivo se fechem para mim!
que não o deixara dormir. 27 Com emoção Abel beijou sua compa-
15 Sorriu simplesmente após ver surgir o nheira depois de ouvir suas palavras de cari-
Sol, e saiu prometendo regressar assim que nho, e respondeu-lhe com um sorriso:
sacrificasse no campo um cordeiro. 28 Querida, somente a morte os poderá
16 Achando estranha sua atitude, sua irmã fechar; mas mesmo a morte não poderá serrá-
perguntou-lhe o porquê de não oferecer a los para sempre, serrá-los para sempre, pois
oferta sobre o altar. no alvorecer eternal, eles se abrirão para você
17 Ele desculpou-se dizendo que manteria com um brilho que jamais será desfeito por
seu propósito jamais macular o seu altar com essa sombra!
64 MELQUISEDEQUE, 95

29 Abel dizia essas palavras, quando os naquele lugar enquanto tomaria um cordeiro
passos de Caim se fizeram ouvir em aproxi- gordo para o seu altar.
mação. 43 Não ouvindo resposta de Caim, Abel
30 Ao ouvirem-no chamar por Abel, saí- olhou para traz, e surpreendeu-se ao ver que o
ram-lhe ao encontro, e ficaram felizes ao vê- semblante de Caim estava transtornado e seus
lo expressar sua decisão de sacrificar um olhos não expressavam gratidão, mas ira.
cordeiro.
31 Como não possuía rebanho, desejava Caim mata Abel
adquirir um de seu irmão.
32 Abel prontamente autorizou-o a tomar 44 Abel voltando-se para ele, perguntou-
de seu rebanho, não somente uma ovelha, mas lhe o porquê de sua infelicidade.
quantas precisasse, até que formasse o seu 45 Disse-lhe que Deus o amava, e visto
próprio rebanho. que estava decidido a oferecer-Lhe um cor-
33 Caim, com um sorriso agradeceu-lhe a deiro, o seu casamento seria abençoado e
dádiva, mas acrescentou: desfrutariam paz na alma.
34 Meu caro irmão, não aprecio abusar de 46 Em resposta às palavras amorosas de
sua bondade, mas eu gostaria imensamente Abel, Caim disse-lhe friamente:
que você me acompanhasse até o rebanho, 47 Você é o cordeiro que eu quero te sa-
pois as ovelhas certamente fugirão de mim crificar!
que não sou pastor. 48 Depois de fazer-lhe esta cruel declara-
35 Abel consentiu de boa vontade em ção, Caim tirou do interior de sua veste uma
acompanhá-lo. faca de pedra e avançou sobre o seu irmão
36 Abraçou então sua companheira, pro- que, pálido rogava-lhe, deferindo-lhe um
metendo logo regressar - promessa que em profundo golpe na face.
dor veria desfazer-se no seu corpo ferido e em 49 O sangue imediatamente jorrou como
seus olhos a escurecer em sangue, semelhante de um cordeiro, fazendo Abel estremecer de
ao triste arrebol que não o traria de volta para medo.
os braços de sua amada. 50 Teria já chegado o dia de depor a vi-
37 Abel alegrou-se ao saber que seu ir- da?!
mão tomara a decisão de sacrificar um cordei- 51 Enquanto com um gemido indagava,
ro. sentiu outro golpe que em sua violência o fez
38 Enquanto caminhavam rumo ao reba- tombar ao solo.
nho, conversavam sobre a experiência do 52 Em sua mente atordoada pela dor, num
casamento: benção alcançada mediante o último esforço de sua consciência, lembra-se
sangrento sacrifício. daquelas juras de amor trocadas no alvorecer.
39 Quando já estavam distantes de seus 53 Em seu delírio de morte parecia ouvir
lares, avistaram o rebanho que pastava sob o sua amada dizer-lhe com os lábios trêmulos
sol matinal. pela emoção:
40 Abel adiantou-se em seus passos fa- 54 Querido, o seu olhar é como o olhar de
zendo soar sua voz de pastor. um cordeiro;
41 As ovelhas de uma só vez ergueram a 55 Tudo o que eu espero, é que eles ja-
cabeça, olhando na direção do bom pastor. mais se fechem para mim!
42 Caminhando em direção ao rebanho, 56 Revive assim com esforço, seu último
Abel pediu a seu irmão que o aguardasse beijo acompanhado por sua promessa que a
fez sorrir:
MELQUISEDEQUE, 96 65

57 Somente a morte os poderá fechar; ção de seu crime, o qual pretendia para sem-
mas mesmo ela não os poderá serrar para pre ocultar de sua esposa.
sempre, pois no alvorecer do dia eternal eles
se abrirão para você com um brilho que ja- A esposa de Abel fica preocupada por não
mais será desfeito por essa sombra. aparecer
58 Após lembrar este juramento de amor,
Abel vencido por um golpe fatal, mergulhou
na inconsciente treva, seguro de que em breve
essa sombra seria banida de seus olhos, no dia
96 BANHADA pela luz do arrebol,
aquela jovem esposa sorria, certa de
que abraçaria o seu Abel antes da noite.
da ressurreição. 2 Contemplando o sol em seu declinar so-
bre as campinas de onde esperava vê-lo re-
Caim esconde o corpo de Abel e foge gressar, com saudade lembrava do alvorecer
que em sua luz revelara os olhos de seu espo-
59 Caim somente cessou de golpear seu so, compassivos como os de um cordeiro.
irmão, depois de certificar-se de que ele esta- 3 Emocionou-se ao lembrar do pedido que
va realmente sem vida. num sussurro lhe fizera:
60 Arrastou-o então até a floresta, dei- 4 Tudo o que eu quero é que seus olhos
xando-o ali coberto com folhagens de capim. jamais se fechem para mim.
61 Retornando para sua casa, Caim mos- 5 Lembra-se de sua resposta carinhosa:
trou à sua companheira as marcas de sangue 6 Querida, somente a morte poderá fechá-
em suas mãos, e disse que atendera ao pedido los; mas mesmo essa não poderá cerrá-los
divino, sacrificando um cordeiro. para sempre, pois no alvorecer eternal eles se
62 Agora estavam livres para se unir sob a abrirão para você com um brilho que jamais
benção do Senhor. será desfeito por essa sombra.
63 Vencidos pela paixão carnal uniram-se 7 Com essa lembrança, a jovem esposa
então sob o brilho daquele sol que já não viu enfim o sol mergulhar em seu túmulo de
brilhava para Abel. morte e vida, envolvendo com seu último
64 Quando o sol tingia o horizonte com clarão a campina vazia e seu coração que a
seu arrebol, Caim lembrando-se de seu crime pulsar com saudade, permaneceria também
levantou-se sobressaltado, e disse para a sua vazio.
companheira que em seu sacrifício, prometera 8 Franzindo a testa com preocupação,
ao Senhor da luz apresentar suas flores e aquela jovem indagava:
frutos como uma oferta de gratidão pela 9 Por que não vem o meu amado?!
benção alcançada. 10 Movida pelo anseio, correu até a casa
65 Essa oferta deveria ser oferecida nas de seus pais, onde imaginava o encontrar.
divisas do Éden por ocasião do alvorecer. 11 Chamando-o, porém, não ouviu ne-
66 Precisavam, portanto, partir imediata- nhuma resposta além do ruído dos passos de
mente. seus pais que, curiosos saíram-lhe ao encon-
67 Sem questionar a vontade de seu mari- tro, indagando:
do, aquela jovem reuniu apressadamente suas 12 Filha, você está procurando por Abel?
vestes e a oferta de gratidão, e partiram para Ele ainda não chegou?
dentro da noite. 13 Não, respondeu a filha, já com lágri-
68 Caim tinha pressa, pois sabia que a au- mas nos olhos, ele ainda não chegou!
sência de Abel naquela noite, traria a revela- 14 Embora preocupados aqueles pais
abraçaram a filha procurando consolá-la,
66 MELQUISEDEQUE, 97

dizendo que ele logo estaria em seus braços. 33 Ele cuidará dele, e o trará no alvore-
15 Em sua preocupação velada, pergunta- cer!
ram então à filha: 34 As palavras de consolo de Adão, con-
16 Já faz tempo que ele saiu? tudo, longe de suavizarem o pranto daquela
17 Logo após despertarmos, no alvorecer jovem, mergulhou-a em maior sofrimento,
- respondeu. fazendo-a reviver em lembranças as promes-
18 A esta resposta, seguiu um silêncio de sas de Abel proferidas naquela manhã;
inquietantes indagações, enquanto juntos 35 Ele havia dito que se algum dia os seus
tentavam divisar em vão seu vulto sob aquele olhos fossem apagados pela morte, eles se
prado banhado pelo último rastro de luz. abririam para ela no alvorecer do sábado
19 Suspirando profundo, Adão já suspei- eterno.
tando um possível mal, indagou de sua filha:
20 Ele saiu sozinho? Caim foge com sua companheira
21 Soluçando ela respondeu:
22 Caim nos despertou pela manhã, pe-
dindo um cordeiro, e Abel saiu com ele.
23 Preocupado, Adão saiu silencioso e di-
97 CAIM e sua companheira em seus
passos apressados de fuga, encontra-
ram-se finalmente distantes da colina, mergu-
rigiu-se à casa de Caim. lhados naquele vale de trevas que jamais
24 Chamando ali por ele, não ouviu ne- entregaria de volta àqueles pais sofredores
nhuma resposta. seus filhos rebeldes.
25 Rompeu então através das folhagens 2 Caim agora, ao lado de sua esposa, re-
para o interior daquela cabana, onde leu no gozijava-se zombando das trevas, prometendo
triste vazio um presságio doloroso de traição, desfazê-la em breve com sua força.
confirmado numa veste manchada de sangue, 3 Vencidos pelo cansaço, tombaram ao
apagando-se na penumbra. solo, onde adormecidos ficaram até serem
26 Vencido pela angústia, Adão caiu ao despertos pelo alvorecer.
solo rompendo-se em pranto; 4 Refeitos da fadiga, continuaram a jor-
27 Não querendo, contudo, revelar seu nada pelo caminho da aventura, em passos
desespero à sua filha e esposa que precisavam que faziam Caim se lembrar daquela cami-
de consolo para vencerem aquela triste noite, nhada interrompida pela incoerência.
Adão num esforço imenso enxugou as lágri- 5 Quão tolo havia sido, pensava, em dar
mas e firmou-se contra as emoções, ao ouvir ouvido a voz do anjo!
os passos delas em aproximação. 6 Se houvesse continuado em sua missão,
28 Do lado de fora, Eva e sua filha espe- possivelmente já teriam um paraíso banhado
rançosas de encontrarem ali Abel em visita a por uma eterna luz.
seu irmão, indagou: 7 Entardecia quando o casal fugitivo al-
29 Eles estão aí papai? cançou o vale de ossos, lugar em que Caim
30 A voz esperançosa de sua filha em outrora sentira grande medo.
meio àquela noite, foi qual seta a sangrar seu 8 Ao passar por aquele lugar, Caim es-
coração, e temia responder sua pergunta. tremeceu.
31 Finalmente caminhou na direção de 9 Temia agora não as trevas que lenta-
sua filha, e vendo-a sofrer pela ausência de mente baixavam sobre o vale, mas a luz.
seu companheiro, procurou consolá-la dizen- 10 Percebendo o seu temor, sua compa-
do: nheira perguntou-lhe:
32 Filha confie no poder do Criador. 11 Você está temendo as trevas?
MELQUISEDEQUE, 97 67

12 Estou temendo a luz, respondeu Caim. os seus olhos, revelou diante deles a face do
13 Aquela que me fez caminhar rumo à Eterno, mais brilhante que o sol.
morte. 29 Não sabendo como encará-Lo em Sua
14 Não entendendo o que ele queria dizer, luz de justiça, Caim temendo ser castigado
sua companheira insistiu para que ele esclare- pelo seu crime, curvou a cabeça entre as
cesse o mistério. mãos.
15 Com impaciência, Caim revelou que 30 O Criador indagou-lhe então com seri-
estavam nas divisas do Éden; lugar onde edade:
encontrou-se outrora com o anjo. 31 Onde está Abel o seu irmão?!
16 Tendo dito isto, apontou para a es- 32 Como insistisse nesta pergunta, Caim
querda acrescentando: envergonhado por ter de confessar o seu
17 Sigamos nesta direção, pois não quero terrível crime diante de sua companheira, de
encontrá-lo novamente. quem queria ocultar, respondeu simplesmen-
18 Tomando-a pelo braço, caminharam te:
rápidos, aproveitando a última luminosidade 33 Não sei. Sou eu o guardador de meu
do arrebol. irmão?!
34 Indignado por esta resposta de despre-
O Eterno aparece para Caim zo e irresponsabilidade, o Eterno disse-lhe
com firmeza:
19 Quando enfim seus passos não podiam 35 Que fizeste Caim! A voz do sangue do
ser dados sem dificuldades por causa das seu irmão clama a mim desde a terra.
trevas, contemplaram por entre as ramagens
um brilho que, mais intenso que o do sol, A maldição e o sinal de Caim
permaneceu por um momento, desvanecendo-
se. 36 Agora continuou Deus; maldito será
20 Imóvel ao lado de Caim, sua esposa, nesta terra que recebeu o sangue inocente de
curiosa indagou: seu irmão.
21 Você viu? 37 Com voz cheia de tristeza, o Eterno
22 Sim, respondeu Caim a tremer. continuou:
23 O que será? 38 Até este dia, o cobri de bênçãos, fa-
24 À essa indagação, Caim não respon- zendo prosperar o seu labor na terra, dando-
deu, simplesmente tomou-a pela mão e disse: lhe prazer nesta realização; desde agora, já
25 Voltemos, fujamos dessa luz que nos não poderei abençoá-lo, pois pela espontânea
poderá matar. rebeldia você cerrou os canais desta benção.
26 Sem compreender o mistério, a jovem 39 Por isso caminhará sempre vagabundo
esposa o seguiu em passos rápidos que, aqui e sobre esta terra amaldiçoada por sua culpa,
acolá, eram impedidos por tropeções que os fugitivo da luz desta face que sempre lhe
lançavam ao chão. sorriu perdão e salvação, até tombar vencido
27 Nessa fuga, porém, não conseguiram pela rebeldia dentro da eterna noite.
esquivar-se do brilho que surgiu-lhes mais 40 Depois de revelar sua triste e irremedi-
forte diante dos olhos. ável situação, o Criador ergueu a voz e chorou
28 Enquanto espantados tentavam num amargamente.
último esforço fugir noutra direção, foram 41 Duro Lhe era despedir para a morte
detidos por uma forte mão que, desvendando aquele filho amado que, pela insistente rebel-
dia selara seu destino eterno.
68 MELQUISEDEQUE, 98, 99

42 Caim todo trêmulo, tomado pelo medo rem o seu corpo dilacerado, sob aquele capim
e horror pela sua deplorável condição, com coberto de moscas.
desespero clamou a Deus: 7 Diante desta cena de terrível humilha-
43 Volta Senhor, volta! Conceda-me so- ção, ergueram as vozes em gritos de pavor,
mente uma benção! não suportando a dor da separação.
44 Movido pelo Seu infinito amor, o 8 Ali permaneceram em agonia, até verem
Eterno tornou-se para Caim que trêmulo Lhe o sol tombar em seu mais melancólico entar-
falou de seu temor: decer.
45 Tenho medo dos perigos da floresta, e 9 Quão dolorosa lhes era o pensamento de
daqueles que quererão no futuro procurar-me terem de regressar para casa, deixando ali o
para vingar o sangue de meu irmão que der- amado Abel a desfazer-se em sua fria noite.
ramei. 10 Lembrando de sua infância, quando
46 O Criador teve compaixão de Caim, em seu leito o cobriam com amor, prometen-
prometendo-lhe proteção. do despertá-lo no alvorecer com um beijo,
47 Como sinal dessa promessa, acariciou- aqueles pais com um doloroso esforço o
lhe a face, fazendo-lhe desaparecer a abun- cobriram novamente com aquele capim, com
dante barba. a certeza de que no alvorecer do dia eterno o
48 Depois deste gesto de pai amoroso que beijariam em seu em seu despertar feliz.
acaricia o filho mesmo na eterna partida, 11 Com dificuldade deixaram finalmente
Caim viu desaparecer diante de seus olhos o aquele lugar já tomado pela noite e apalpa-
brilho daquela face banhada pelas lágrimas, ram-se na direção daquelas casas vazias, cujas
produzidas por sua ingratidão. paredes floridas já não trariam para eles ale-
gria.
Adão e sua família encontra o corpo de Abel
A esposa de Caim teme a morte, devido o que

98 A NOITE de desespero e pranto foi


finalmente foi banida pelo brilho de
um novo alvorecer que com sua luz revelaria
ele fez com Abel, mas é consolada pela pro-
messa do Eterno para com Caim

uma tristeza ainda maior.


2 Antes mesmo que o sol mostrasse sua
face sobre o vale oriental, a jovem viúva
99 VENCIDA pelo horror da dura
revelação, a esposa de Caim prostra-
ra em desmaio, vindo a despertar pouco de-
juntamente com seus pais caminharam apres- pois da partida do Eterno.
sados pelos campos rumo às pastagens onde o 2 Ali em meio às trevas, lembrou-se da
rebanho pastava naqueles dias. terrível revelação de Deus, e ficou possuída
3 Com o coração ainda a palpitar esperan- por grande medo.
ça, avistaram ao longe o rebanho. 3 Temia não somente as trevas, mas prin-
4 Chamaram ali por Abel, mas suas vozes cipalmente a Caim.
não trouxeram nenhuma resposta além de um 4 Pensou em gritar por socorro; mas quem
eco vazio. a salvaria?!
5 Seus olhos discerniram então através 5 Dominada por esses sentimentos, ficou
das lágrimas, as marcas da dor, naquele gra- atenta, esperando pelo amanhecer que revelou
mado amassado e coberto de sangue. ao seu lado o corpo adormecido de alguém
6 Vencidos pela tristeza, seguiram doloro- que não se parecia com Caim.
samente as manchas de sangue, até encontra- 6 Assustada, temendo despertá-lo, afas-
tou-se alguns passos recostando-se num
MELQUISEDEQUE, 100 69

tronco de árvore, onde permaneceu até vê-lo 25 Ali construiriam um altar estabelecen-
levantar a face lisa, chamando por ela. do o seu novo lar.
7 Reconhecendo ser a voz de seu esposo,
moveu-se em sua direção, mas logo deteve-se Caim casa-se e constrói um altar para cultuar
dominada pelo receio. o sol
8 Indagando em seu coração sobre o mis-
tério de sua face agora lisa, disse-lhe:
9 Tenho medo de aproximar-me de você!
10 Depois de expressar o seu temor, reve-
100 CAIM e sua companheira alcan-
çaram finalmente em sua jornada
um vale que, coberto por densa floresta esten-
lou outro maior: dia-se ao oriente do paraíso.
11 Tenho também medo de fugir de você! 2 Ali naquele ambiente de aparência hos-
12 Erguendo-se com um sorriso, Caim til teriam temido, se não fosse a promessa
perguntou-lhe: assinalada na face de Caim.
13 Por que você me teme? 3 Almejando encontrar além um lugar
14 Porque temo a morte, respondeu aflita. melhor, construíram ali um altar provisório,
15 Eu também, até ontem era como você, onde no alvorecer do primeiro dia de uma
tinha medo da morte, disse-lhe Caim. nova semana, ofereceram ao Senhor revelado
16 Agora não a teme mais? Indagou-lhe na face do Sol, flores e frutos, símbolos de
sua esposa. fecundidade.
17 Não a temo, respondeu Caim, passan- 4 Sob a luz do alvorecer uniram-se nova-
do a mão no rosto liso. mente naquele ato comemorativo da vitória
18 Mas o que baniu-lhe o seu temor? Per- que julgavam haver encontrado.
guntou-lhe a jovem, temendo ainda aproxi- 5 Depois de unir-se à sua mulher, Caim
mar-se. ergueu-se ante o altar dedicando ao Senhor
19 Vê minha face agora lisa? Este é o si- representado pelo sol, o seu lar.
nal de uma promessa feita pelo Senhor. 6 Pediu que os tornassem fecundos para
20 Qual promessa? Perguntou-lhe sua darem a muitos filhos o direito de contemplar-
companheira, aproximando-se agora sem lhe a face de brilho.
receio. 7 Caim concluiu sua oração de consagra-
21 Caim falou-lhe então da benção pro- ção, com uma promessa confirmada por um
metida e confirmada naquele sinal, da qual sinal, dizendo:
partilharia também ela, se o seguisse em seus 8 Se atentares para a nossa súplica, tra-
passos. zendo em teu brilho fecundidade, construire-
22 Não encontraria segurança e vida, con- mos por onde andarmos altares em honra a ti,
tudo, ausentando-se dele. onde o adoraremos com ofertas de gratidão.
23 Consolada pela promessa de proteção 9 Como sinal de nossa fidelidade, consa-
garantida no rosto liso de seu esposo, aquela graremos para o teu culto, este dia que nos
jovem o seguiu numa longa caminhada em une sob tua luz, o qual chamaremos pelo teu
contorno ao Éden. nome: O Dia do Sol.
24 Planejavam contorná-lo, alcançando o
vale oriental que estendia-se para além de seu
impenetrável prado;