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Copyright © 1999 by Os Autores

Capa:
Moema Cavalcanti
Preparação:
Carlos Alberto Inada
Revisão:
Beatriz de Freitas Moreira
Ana Ma ria Ba rbosa

D a d o s Internacionais d e C a u l o g a ç á o na P u b l i c a ç ã o ( c i f )
( C â m a r a Brasileira d o Livro, sr, Brasil)

A Outra margem d o ocidente / oiganização Adauto


N o v a e s . — S à o P a u l o : C o m p a n h i a d a s Leiras, 1999.

Vários autores.
LSUN 05-7164-920-0

1. Brnsii — História 2. í n d i o s dst América do Sul —


Brasil — H i s i í i r à 3- P o v o s i n d í g e n a s — Brasil i. N o v a e s ,
Adauto.

99-2856 cwvSBO.-Sl

índices para c a t á l o g o ststem&lico:


1. Brasil : índios : História 980.41
2. Índios : Brasil : História 980.41

1999

Todos os direitos desta ediçào reservados à


EDITORA SCHWARCZ LTDA.
Rua Bandeira Paulista, 702, cj. 72
04532-002 — São Paulo — SP
Telefone: (011) 866-0801
Fax:(011)866-0814
e-maii: editora@companhiadasletras.com.br
ÍNDICE

A outra margem d o Ocidente — Adauto Novaes 7


Descobrindo os brancos — Davi Kopenawa Yanomami 15
O etemo retorno do encontro — Ailton Krenak 23
À espera do Outro — Frank Lestringant 33
Da tirania à tolerância — Carlos Frederico Marés 53
Itinerário de uma criança normanda — JacquesMeunier 83
Teatro sem palavras — Márcio Souza 93
A-selvageria culta — PbilippeDescola 107
O enigma das grandes cicfades — MicbaelHeckenberger 125
Entre memória e história — PatrickMenget 153
A política do espírito — Patrick Menget 167
O símio de Deus — Juan Carlos Estenssoro 181
Nossa Senhora, o fumo e a dança — Ronaldo Vainfas 201
Xamanismo e tradução — Manuela Carneiro da Cunha 223
Armas e armadilhas — John Manuel Monteiro 237
Da inimizade: forma e simbolismo da guerra indígena — Carlos
Fausto 251
O Renascimento ameríndio — Serge Gruzinski 283
A geometria do corpo — Peter Gow 299
O erotismo d o Divino Marquês da Ama2Ônia — Pascal Dibie 317
Essomericq, o venturoso carijó — Leyla Perrone-Moisés 335
A demarcação das terras e o futuro dos índios no Brasil — Carlos
Alberto Ricardo 351
Variações em torno da felicidade dos selvagens — Sérgio Cardoso ... 359
Cartas à segunda escolástica — AlcirPécora 373
O mito do bom selvagem — Sergio Paulo Rouanet 417
Céu de capricórnio e tristeza do Brasil — Olgãria Matos 441
FICHA CATALOCRÁF1CA ELABORADA PELA.
B I B L I O T E C A C E N T R A L DA U N I C A M P

T h o m p s o n , L P.
T372p A s peculiaridades d o s ingleses e outros artigos / E. P.
T h o m p s o n ; o r g a n i z a d o r e s : A n t o n i o Luigi N e g r o e Sergio
Silva, — C a m p i n a s , SP: Editora da U n i c a m p , 2001.

1. H i s t ó r i a social. 2. Inglaterra - História. 3. Classe média


( I n g l a t e r r a ) - H i s t ó r i a . 4. M o v i m e n t o o p e r á r i o . 5.
C o m u n i s m o . 6. S o c i a l i s m o . I. Negro, A n t o n i o Luigi. II.
Silva, Sergio. IV. Titulo.
CDD - 901 - 335.4
- 942 - 320.531
- 301.4410942
I S B N : 85-268-0535-5 - 322.20942

índices para catálogo sistemático:

1. História social 901


2. Inglaterra - História 942
3. Classe média (Inglaterra) - História 301.4410942
4. Movimento operário 322.20942
5. Comunismo 335.4
6. Socialismo 320.531

Copyright <§> by Editora da UNICAMP, 2002

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o u t r o s quaisquer sem autorização prévia d o editor.

Imagem de capa
William H o g a r t h , A campanha elàtoral: o triunfo do eleito, 1758. Soane's M i u e a m ,
Londres.

1* reimpressão

AnurTHfcj BnuOcúa de
gJíinfta Univoaãtáriax
E d w a r d T h o m p s o n era o historiador c o n t e m p o r â n e o britânico
mais conhecido fora da Inglaterra. S u a influência mundial so-
b r e o s e s t u d a n t e s d e h i s t ó r i a t e m s i d o i n c a l c u l á v e l . M a s ele n ã o
e r a i g u a l m e n t e a p r e c i a d o p e l o establishment histórico inglês: a
A c a d e m i a B r i t â n i c a t a r d o u c m e l e g ê - l o c o m o m e m b r o até 1 9 9 2 .
O q u e i r r i t a v a e r a o v a s t o s u c e s s o d e s e u g r a n d e 1 hito A forma-
ção da classe operária inglesa ( d e 1 9 6 3 ) , q u e f u n d o u o v a l o r d a
história a partir de baixo. C o m o Karl Marx, T h o m p s o n cami-
n h o u na contracorrente ao usar a literatura c o m o f o n t e para a
h i s t ó r i a s o c i a l c e c o n ô m i c a ; s e u p r i m e i r o livro f o i s o b r e W i l l i a m
M o r r i s . Q u e m — s e n ã o T h o m p s o n — citaria C h a u c e r , T r i s t r a m
Shandy, Wordsworth, Dickens e os poetas do século X V I I I
S t e p h e n D u c k e M a r y C o l l i e r e m u m a r t i g o s o b r e " T e m p o , dis-
c i p l i n a d e t r a b a l h o e c a p i t a l i s m o i n d u s t r i a l " ? E l e n ã o tinha p a -
ciência alguma c o m o determinismo d e m o g r á f i c o e estatístico
nem com termos enganosamente "neutros" como "moderni-
z a ç ã o " e " i n d u s t r i a l i z a ç ã o * * , u s a d o s c o m o f i t o de. e v i t a r o r u d e
t e r m o " c a p i t a l i s m o " . O m a r x i s m o d e T h o m p s o n era inteiramente
alheio a d o g m a s preconcebidos.

CHRISTOPHER HILL
NOTAS

N a I n g l a t e r r a , a o c o n t r á r i o d o q u e se p a s s a na F r a n ç a , os m o v i m e n t o s
r e v o l u c i o n á r i o s têm o r i g e m inicialmente plebéia e n ã o b u r g u e s a . A ar-
r a i a - m i ú d a , os artesãos q u a l i f i c a d o s e, d e p o i s , a partir de 1 8 1 7 - 1 8 2 0 , o
n o v o p r o l e t a r i a d o , o s t e c e l õ e s , os o p e r á r i o s d a s m a n u f a t u r a s , estão na
o r i g e m das primeiras m a n i f e s t a ç õ e s e organizações de m a s s a , recebendo
a c o l a b o r a ç ã o d c alguns porta-vozes e a l g u m a p o i o vindos d a burguesia
f u n d i á r i a e da classe m é d i a .
O s trabalhos d c G e o r g e R u d é s o b r e L o n d r e s p e r m i t e m observar sua in-
f l u ê n c i a . C f . Wilkes and liberty, a social study of 1763 to 1774. O x f o r d :
C l a r e n d o n P r e s s , 1 9 6 2 ; e Hanovcrian London, 1714-1780. Londres;
Socker and W a r b u r g , 1 9 7 1 .
I s s o t a m b é m p r o v i n h a , às vezes, de u m elemento de s i m p a t i a ativa pela
m u l t i d ã o , e s p e c i a l m e n t e q u a n d o a g e n t r y se sentia lesada pelo lucro que
os intermediários tiravam de seu trigo o u daquele de seus arrendatários.

226
FOLCLORE, ANTROPOLOGIA
E HISTÓRIA SOCIAL*

Antes de mais nada, quero m e apresentar c o n f e s s a n d o


ser, francamente, u m impostor. N o trabalho a q u e m e de-
diquei nos últimos dez anos, sobre a história social ingle-
sa do século X V I I I , é verdade que me deparei c o m proble-
m a s de recuperação e compreensão da cultura popular e d o
ritual, p r o b l e m a s possíveis de ser vistos, de m o d o m u i t o
geral, c o m o mais próximos às preocupações da antropolo-
gia social que da história econômica. E s p e r o explicar isso
mais adiante. T a m b é m é verdade que estou cada vez mais
propenso a dispor de materiais folclóricos. M a s , certamente,
n ã o p o s s o m e apresentar a vocês c o m o alguém qualificado
e m a n t r o p o l o g i a nem c o m o u m acadêmico convencional,
especialista em folclore; o m e u conhecimento da antropo-

* T r a d u ç ã o d c " F o l k l o r e , a n t h r o p o l o g y and social h i s t o r y " , The Indian


Historical Review > n a 2, 1 9 7 7 . E s t e artigo é u m a versão revista da pales-
tra d o autor no C o n g r e s s o de H i s t ó r i a da í n d i a , c m C a l i c u t e , K e r a l a ,
em 3 0 / 1 2 / 1 9 7 6 . T r a d u ç ã o : A n t o n i o L u i g i N e g r o .

227
l o g i a ocidental é intermitente e eclético e, n o q u e se refere
à a n t r o p o l o g i a e ao folclore indianos, n ã o é n e m m e s m o
r u d i m e n t a r . Muito do que tenho para dizer p o d e b e m s o a r
c o m o lugar-comum para vocês, algo assim d e s n e c e s s á r i o .
E n t r e t a n t o , talvez ainda haja a l g u m a c o i s a p e n d e n t e
entre os historiadores da tradição marxista ( d o L e s t e e d o
O e s t e ) , até agora muito relutantes em enfrentar determi-
n a d o s p r o b l e m a s . C o m o historiador dessa tradição, preten-
d o expor, na minha conclusão, alguns p o n t o s de autocrítica
m a r x i s t a . Porém, em primeiro lugar, g o s t a r i a de falar m a i s
a m p l a m e n t e aos colegas historiadores, f a z e n d o u m a defesa
d e s s e m e s m o ecletismo d o qual m e declarei c u l p a d o . N u m a
r e c e n t e discussão publicada n o Journal of Interdisciplinary
History ( 1 9 7 5 ) , Keith T h o m a s , autor de Keligião e declínio
da magia ( 1 9 7 1 ) , foi advertido por H i l d r e d G e e r t z exata-
m e n t e p o r causa desse pecado. 1 Geertz s u g e r i u q u e T h o m a s
p e g a r a e n f o q u e s e m p r e s t a d o s das m a i s d i s t a n t e s e s c o l a s
a n t r o p o l ó g i c a s , enquanto deveria ter se p o s i c i o n a d o , cla-
r a m e n t e , a favor de uma ou de outra. S e m u m a b a g a g e m
t e ó r i c a consistente, tais e m p r é s t i m o s a c u s a m o p o r t u n i s m o
e m p i r i s t a o u simplesmente a m a d o r i s m o . A bruxaria preci-
s a ser e l u c i d a d a de u m j e i t o ou d e o u t r o . N ã o p o d e m o s
j o g a r c o m diversas c a t e g o r i a s a l t e r n a t i v a s de e x p o s i ç ã o ,
d e r i v a d a s de teorias a n t r o p o l ó g i c a s i n c o m p a t í v e i s .
N e s s a controvérsia, eu n o e n t a n t o fecharia c o m T h o -
mas. E s t u d o s antropológicos sobre feitiçaria (ou sobre
o u t r a s crenças e rituais) nas s o c i e d a d e s p r i m i t i v a s , o u e m
s o c i e d a d e s africanas c o n t e m p o r â n e a s m a i s a v a n ç a d a s , não
p r e c i s a m n o s prover c o m t o d a s as c a t e g o r i a s explicativas
n e c e s s á r i a s para as crenças d e bruxaria n a I n g l a t e r r a elisa-
b e t a n a o u na índia d o século X V I I I , o n d e p o d e m o s encon-
trar s o c i e d a d e s mais c o m p l e x a s e p l u r a i s , c o m vários níveis

228
de credulidade, sofisticação e ceticismo. Categorias ou
" m o d e l o s " d e r i v a d o s de u m c o n t e x t o p r e c i s a m ser t e s t a d o s ,
r e f i n a d o s e, talvez, r e d e f i n i d o s n o c u r s o d a i n v e s t i g a ç ã o
h i s t ó r i c a . P o r o r a , d e v e m o s a b o r d á - l o s c o m u m a certa li-
cença. N a minha prática, s i g o T h o m a s e Natalie Z e m o n
D a v i s de m u i t o p e r t o . 2 Para n ó s , o e s t í m u l o a n t r o p o l ó g i -
c o se t r a d u z p r i m o r d i a l m e n t e n ã o na c o n s t r u ç ã o d o m o -
d e l o , m a s n a i d e n t i f i c a ç ã o de n o v o s p r o b l e m a s , n a visua-
lização de velhos p r o b l e m a s e m n o v a s f o r m a s , na ênfase e m
n o r m a s ( o u s i s t e m a s de v a l o r e s ) e e m r i t u a i s , a t e n t a n d o
p a r a as expressivas f u n ç õ e s das f o r m a s de a m o t i n a ç ã o e agi-
t a ç ã o , a s s i m c o m o para as e x p r e s s õ e s s i m b ó l i c a s d e autori-
d a d e , c o n t r o l e e h e g e m o n i a . T e m o s e m c o m u m o f a t o de
d e s c a r t a r m o s , r e s o l u t a m e n t e , tanto as c a t e g o r i a s de expli-
c a ç ã o p o s i t i v i s t a s o u utilitaristas q u a n t o s u a i n f i l t r a ç ã o na
t r a d i ç ã o e c o n o m i c i s t a d o m a r x i s m o . M a s este t r a b a l h o n ã o
e s t á c o n c l u í d o . C l a r a m e n t e , d i f e r e n ç a s de a c e n t u a ç ã o p o -
d e m ser d e t e c t a d a s d e s d e l o g o , as q u a i s a n t e c i p a m t o d o u m
d e b a t e , n o i n t e r i o r d a a n t r o p o l o g i a h i s t ó r i c a , e n t r e as
a b o r d a g e n s f u n c i o n a l i s t a , e s t r u t u r a l i s t a , s i m b o l i s t a e qual-
q u e r o u t r a q u e a p a r e ç a . M a s , n o m e u m o d o d e ver, tais
d i s c u s s õ e s p o d e m ser a d i a d a s até o m o m e n t o e m q u e , sem
p r e c i p i t a ç õ e s , as p e s q u i s a s ( i n c l u i n d o t r a b a l h o s c o m p a r a -
tivos entre diversas histórias n a c i o n a i s ) p e r m i t a m tirar u m a
conclusão.
P u i l e v a d o a esses p r o b l e m a s n o instante e m q u e en-
cerrei A formação da classe operária inglesa^ e m 1 9 6 3 , e de-
cidi o r i e n t a r as m i n h a s p e s q u i s a s p a r a t e m p o s a n t e r i o r e s ,
p a r a a c o n s c i ê n c i a plebéia e as f o r m a s d e p r o t e s t o d o sécu-
lo X V I I I , c o m o os m o t i n s d a f o m e . I s s o i m p l i c o u o aban-
d o n o d o território da R e v o l u ç ã o Industrial e m favor da
e x p l o r a ç ã o d o q u e é, p o r vezes, c h a m a d o de s o c i e d a d e " p r é -

229
industrial", u m termo insatisfatório. Pois a Grã-Bretanha
d o s é c u l o X V I I I , tal q u a l a í n d i a d o s é c u l o X V I I I , c o n t a v a
c o m u m a v i g o r o s a indústria m a n u f a t u r e i r a , n ã o o b s t a n t e f o s s e
p r e d o m i n a n t e m e n t e artesanal. M a s m o v e r - s e d a p r i m e i r a p a r a
a segunda sociedade significou mover-se de u m a sociedade
s u b m e t i d a a u m acelerado r i t m o d e m u d a n ç a p a r a u m a socie-
dade governada, numa extensão muito maior, pelo costume.
H a v i a práticas agrárias costumeiras, f o r m a s c o s t u m e i r a s de
i n i c i a ç ã o às a r t e s d e o f í c i o ( a p r e n d i z a g e m ) , e x p e c t a t i v a s c o s -
tumeiras q u a n t o a certos papéis ( d o m é s t i c o s o u sociais),
m o d o s de trabalho costumeiros e expectativas c o n s u e t u d i n á -
rias, b e m c o m o " d e s e j o s " o u " n e c e s s i d a d e s " .
A o considerarmos o c o s t u m e , s o m o s levados a proble-
mas impossíveis de ser a p r e c i a d o s d e n t r o da disciplina da
história econômica. T a m p o u c o as prescrições d o hábito, que
s ã o transmitidas o r a l m e n t e , p o d e m ser m a n e j a d a s c o m o
uma subseção da "história das idéias". A cata de fontes sobre
os costumes e suas significações, acabei m e v o l t a n d o para
as compilações dos folcloristas. A q u i e a g o r a , n ã o é preci-
s o insistir, esse material é a l t a m e n t e i n s a t i s f a t ó r i o . Fiquei
tão impressionado c o m isso — na v e r d a d e , preconceituo-
samente — que ( c o n f e s s o e n v e r g o n h a d o ) , q u a n d o escrevi
A formação da classe operária inglesa, a i n d a n ã o havia lido
as Observations on popular antiquities ( 1 7 7 7 ) , de J o h n Brand.
E s s e estudo fundamental d o folclore estabeleceu u m p a d r ã o
d e p o i s s e g u i d o pelos f o l c l o r i s t a s b r i t â n i c o s d u r a n t e t o d o
o século X I X — e ainda p o r a l g u n s o b s e r v a d o r e s britâni-
cos dos costumes indianos. C o m s u a o r g a n i z a ç ã o de acor-
d o c o m "calendário de c o s t u m e s " e c o s t u m e s relacionados
aos ritos de p a s s a g e m , sua influência p o d e ser n o t a d a , ain-
d a hoje, em s o f i s t i c a d o s e s t u d o s e t n o g r á f i c o s d o s n o s s o s
dois países. 3

230
D e valia, d e s d e q u e u t i l i z a d o c o m cautela, o material
descritivo recolhido pelos folcloristas oitocentistas ainda
p o d e ser útil. T o d a v i a , o c o s t u m e e o ritual f o r a m freqüen-
t e m e n t e e n c a r a d o s p e l o cavalheiro p a t e r n a l — e estrangei-
r o ( n o c a s o d a í n d i a ) — a partir d e c i m a e p o r c i m a de u m a
f r o n t e i r a d e c l a s s e , s e n d o a i n d a d i v o r c i a d o s de s u a situa-
ção o u contexto. As perguntas dos folcloristas raramente
p r o c u r a v a m saber d a s u a f u n ç ã o o u u s o corrente. A n t e s , os
c o s t u m e s e r a m vistos c o m o " r e l í q u i a s " de u m a a n t i g ü i d a -
d e r e m o t a e p e r d i d a , c o m o ruínas d e s m o r o n a d a s de forti-
ficações e p o v o a d o s antigos. Algumas vezes, foram toma-
d o s c o m o traços de u m a h e r a n ç a pré-crista, p a g ã o u aria-
na. A s f o r m a s f r a t u r a d a s s o b r e v i v i a m , e a g e n t e " i g n a r a " as
r e p e t i a m e c a n i c a m e n t e , c o m o s o n â m b u l o s , s e m n o ç ã o al-
g u m a d e s e u s i g n i f i c a d o , o u talvez, c o m o nos rituais deri-
vados d o s cultos de fertilidade, com u m a aceitação sub-
c o n s c i e n t e e intuitiva. S o b o i m p u l s o das p e s q u i s a s lingüís-
ticas de M a x Müller, a i s s o a c r e s c e n t o u - s e a idéia de averi-
g u a r a d i s p e r s ã o de raças e culturas m e d i a n t e a f e r r a m e n t a
d o f o l c l o r e . R e s e n h a n d o Kesearches into the early history of
mcinkindand the developwient of civilisation ( 1 8 6 5 ) , de
E d w a r d B u r n e t t Tylor, M ü l l e r a f i r m o u : " o e s q u e m a b a s e
d e u m a n o v a ciência foi d e l i n e a d o , e às relíquias e m peda-
ç o s d o a n t i g o f o l c l o r e d a f a m í l i a ariana f o r a m c o l h i d a s nas
c h o u p a n a s d a E s c ó c i a , n o s salões das f i a n d e i r a s da A l e m a -
nha, nos bazares de H e r a t e nos monastérios d o Ceilão".4
C o m o o b s e r v o u R o m i l a Thapar,5 esta idéia de u m a
h e r a n ç a i n d o - e u r o p é i a " a r i a n a " c o m u m p r o v o c o u u m a in-
clinação d e s i m p a t i a pela cultura indiana entre os e t n ó g r a f o s
e i n d ó l o g o s e u r o p e u s . M a s s u a s c o n s e q ü ê n c i a s f o r a m me-
n o s felizes p a r a os e s t u d o s f o l c l ó r i c o s . P o r q u e , p a r a Tylor
e s e u s s e g u i d o r e s , o interessante era d e s c o b r i r até o n d e o s

231
adivinhações, 8 0 0 provérbios e a l g u m a s s i m p a t i a s " . 1 1 Fico
roxo de inveja ao escrevê-lo, tal qual qualquer o u t r o cole-
cionador britânico ficaria, que p o d e se dar p o r s o r t u d o se,
ao longo de u m a n o , achar u m a canção popular original,
ou ainda algumas variantes de canções já conhecidas.
Portanto, o que temos a fazer na Inglaterra é reexaminar
o velho material há m u i t o recolhido e fazer novas pergun-
tas, procurando recuperar os costumes perdidos e as cren-
ças que os e m b a s a v a m . P o s s o ilustrar melhor o problema
se contornar a d i s c u s s ã o d o s materiais e do m é t o d o e en-
carar os tipos de q u e s t õ e s que têm de ser colocados. Q u a n -
do examinamos u m a cultura consuetudinária, tais pergun-
tas p o d e m , freqüentemente, referir-se m e n o s ao processo
e à lógica da m u d a n ç a e mais à reconstituição de estados
passados de consciência e à textura das relações domésticas
e sociais. Elas têm m e n o s a ver c o m o vir a ser e mais c o m
o ser. A m e d i d a que alguns atores principais da história —
políticos, p e n s a d o r e s , empresários, generais — retiram-se
da n o s s a atenção, u m i m e n s o elenco de s u p o r t e , que su-
p ú n h a m o s ser c o m p o s t o de simples f i g u r a n t e s , f o r ç a sua
entrada em cena. Se nos p r e o c u p a m o s apenas c o m o tor-
nar-se, e n t ã o há p e r í o d o s históricos inteiros e m que u m
sexo foi n e g l i g e n c i a d o p e l o historiador, pois as mulheres
são raramente vistas c o m o atores de primeira o r d e m na vida
política, militar o u m e s m o econômica. Se nos interessamos
peio ser, e n t ã o a exclusão das mulheres reduziria a história
à futilidade. N ã o p o d e m o s entender o sistema agrário dos
p e q u e n o s p r o d u t o r e s s e m investigar práticas hereditárias,
os dotes e, q u a n d o for o caso, o ciclo d o desenvolvimento
familiar. 1 2 P o r sua vez, essas práticas se a p o i a m nas obriga-
ções e r e c i p r o c i d a d e s d o p a r e n t e s c o , cuja m a n u t e n ç ã o e
observância serão f r e q ü e n t e m e n t e encontradas nos encar-

234
g o s particulares das mulheres. A " e c o n o m i a " s ó p o d e ser
entendida no contexto de u m a s o c i e d a d e u r d i d a assim. A
vida " p ú b l i c a " e m e r g e dc dentro das densas determinações
da vida " d o m é s t i c a " .
A t e n h o - m e , no m o m e n t o , à recuperação d e evidências
a respeito de n o r m a s e expectativas q u a n t o a relações se-
xuais e maritais na cultura dos u s o s e c o s t u m e s da Ingla-
terra d o século X V I I I , u m tema sobre o qual m u i t o se escre-
ve, mas de que p o u c o se sabe. C o m efeito, trata-se daque-
les aspectos de u m a s o c i e d a d e q u e a p a r e n t a m ser tão intei-
ramente " n a t u r a i s " aos seus c o n t e m p o r â n e o s q u e , usual-
m e n t e , acabam d e i x a n d o registros históricos i m p e r f e i t o s .
D a q u i a 2 0 0 a n o s , um historiador poderá facilmente ates-
tar c o m o os cidadãos industriais de hoje se ressentiam p o r
n ã o ter dinheiro suficiente — o u o que p e n s a v a m dos que
o p o s s u í a m em d e m a s i a — , mas lhe parecerá m u i t o mais
difícil reaver n o s s o s s e n t i m e n t o s s o b r e o dinheiro e m si
m e s m o , c o m o o m e d i a d o r universal de nossas relações so-
ciais, pois o p r e s s u p o m o s de m o d o tão arraigado que nem
sequer o e x p r e s s a m o s . Geralmente, u m m o d o de descobrir
n o r m a s s u r d a s é examinar u m e p i s ó d i o o u u m a s i t u a ç ã o
a t í p i c o s . U m m o t i m ilumina as n o r m a s d o s anos de tran-
qüilidade, e u m a repentina quebra de deferência nos permi-
te entender melhor os hábitos de c o n s i d e r a ç ã o q u e f o r a m
q u e b r a d o s . I s s o p o d e valer tanto para a c o n d u t a pública e
social q u a n t o para atitudes mais íntimas e d o m é s t i c a s . N o
seu trabalho de c a m p o , M . N . Srinivas n o t o u que, q u a n d o
as disputas n o vilarejo eram subitamente deflagradas, os "fa-
tos n o r m a l m e n t e escondidos e m e r g i a m na s u p e r f í c i e " :

A paixão acesa no calor da disputa induziu os opo-


nentes a dizer e fazer coisas, reveladoras das motiva-

235
ções e relações, c o m a m e s m a c l a r i d a d e d e u m r e l â m -
p a g o a iluminar, e m b o r a m o m e n t a n e a m e n t e , as cer-
canias em uma e s c u r i d ã o n o t u r n a [ . . ]- A s d i s p u t a s
despertaram a m e m ó r i a d o p o v o e o f i z e r a m m e n c i o -
nar e e x a m i n a r p r e c e d e n t e s [ . . . ] . A s d i s p u t a s [ . . . ]
f o r a m u m a rica m i n a d e i n f o r m a ç õ e s q u e o a n t r o -
p ó l o g o não p o d i a i g n o r a r . 1 3

Então, mesmo um ritual altamente atípico p o d e nos


abrir uma valiosa janela, de o n d e o b s e r v a r e m o s as normas.
H á uns dez anos, reparei no ritual de " v e n d a " d e esposas
na Inglaterra dos séculos X V I I I e XIX. Encontrada entre tra-
balhadores, fazendeiros e outros, essa prática não p o d e ser
tomada como típica de coisa alguma. N o entanto, achei u m
número satisfatório de casos (cerca de 3 0 0 ) e evidência su-
ficiente para mostrar seu r e c o n h e c i m e n t o universal pelas
"ordens baixas" e que os rituais eram e n d o s s a d o s pela co-
munidade operária como s i g n o de u m a transferência legíti-
m a de parceiros matrimoniais. M e s m o a s s i m , ainda resta
u m ritual insólito, razão de comentários e, na verdade, de
u m a certa sensação.
Este devia se desenrolar de a c o r d o c o m os c o n f o r m e s :
devia ter lugar num mercado público, era a n u n c i a d o c o m
antecedência, a mulher — c o m u m leiloeiro (normalmen-
te o marido) — adentrava o recinto c o m u m a coleira em
torno a seu pescoço ou cintura, as ofertas eram abertas a o
público e, finalmente, selava-se a venda c o m a transferência
da corda do vendedor para o c o m p r a d o r . M e u acervo de
episódios foi composto parte c o m pequenas notas de jor-
nal e parte com os registros d o s folcloristas. E d i t o r e s , jor-
nalistas e estudiosos consistiram, em regra, de espectado-
res externos, contemplando u m espetáculo cujo significa-
do extraíram de seus atributos f o r m a i s , lendo-o c o m o u m a

236
venda. U m a classe média ilustrada que, n o século X I X , bra-
dava contra a escravidão ficava p r o f u n d a m e n t e constrangida
a o deparar c o m esse b a r b a r i s m o em seu p r ó p r i o m e i o , n o
coração d a Inglaterra progressista. S e m maiores convicções,
uns p o u c o s folcloristas brincaram c o m a idéia de resíduos
anglo-saxões pré-cristãos; u m o u dois — e exceções assim
s ã o s e m p r e de importância para o historiador — até anali-
s a r a m a prática c o m a perspicácia da o b s e r v a ç ã o objetiva.
N o c o n j u n t o , p o r é m , condenaram-na c o m t e r m o s os mais
rígidos e moralistas. 1 4
E n t r e t a n t o , u m exame mais d e t i d o das evidências tem
p r o p i c i a d o enxergar a venda de esposas s o b o u t r o â n g u l o .
N a verdade, o ritual era u m a f o r m a de d i v ó r c i o , em u m a
é p o c a na qual o p o v o d a I n g l a t e r r a n ã o d i s p u n h a de ne-
n h u m a o u t r a f o r m a de desenlace m a t r i m o n i a l . E m q u a s e
t o d o s o s casos, a " v e n d a " se deu c o m o c o n s e n t i m e n t o d a
e s p o s a . N a m a i o r i a das vezes, o c a s a m e n t o precedente já
estava a r r u i n a d o , e p o d e - s e d e m o n s t r a r q u e o p r e g ã o ao
p ú b l i c o era fictício. O c o m p r a d o r d a e s p o s a já havia s i d o
c o m b i n a d o e, em m u i t o s casos, era a m a n t e dela.
M a i s ainda: o m a r i d o que vendia a c ô n j u g e — a qual,
a f e t i v a m e n t e , p e r d e r a — c o m p o r t a v a - s e c o m u m a gene-
rosidade mais h u m a n a que a encontrada nos atuais proces-
s o s de separação. A transação era desenrolada ante o olhar
da audiência, e o m a r i d o cobria a v e r g o n h a de ter p e r d i d o
a mulher, primeiro c o m a encenação de tê-la p o s t o à venda,
depois com u m ou outro gesto de liberalidade ou boa
v o n t a d e . C o m u m e n t e , ele destinava t o d a , o u q u a s e t o d a ,
a p e q u e n a s o m a angariada c o m a venda aos brindes à saú-
de d o n o v o casal, que eram oferecidos na taberna da praça
d o m e r c a d o . O c a s i o n a l m e n t e , o m a r i d o cedente m a n d a v a
tocar o s sinos da igreja, p a g a v a o c o c h e i r o de aluguel aos

237
r e c é m - c a s a d o s o u lhes d a v a u m a o f e r t a e m c o m i d a o u
vestes.
O ritual se revela, a s s i m , e m sua c o m p l e x i d a d e . A pri-
m e i r a vista, p a r e c e - n o s u m a f o r m a s o b r e v i v e n t e de preço-
d a - n o i v a {bridewealth), o u talvez u m s i m p l e s a t o de c o m -
pra e v e n d a d e b e n s . j C o m u m a coleira n o p e s c o ç o , vendi-
d a n o m e r c a d o d e a n i m a i s , a m u l h e r era vista c o m o u m a
p r o p r i e d a d e o u u m b i c h o . E i s o non plus ultra da o r d e m
m a s c u l i n a d o m i n a n t e . N u m s e g u n d o m o m e n t o , atraves-
s a n d o a f o r m a , q u a n d o o l h a m o s p a r a as verdadeiras rela-
ções expressas no conteúdo, a situação m u d a de figura.
Q u a l q u e r q u e seja s u a o r i g e m o u seu s i m b o l i s m o manifes-
t o , o ritual foi a d a p t a d o a o s n o v o s p r o p ó s i t o s da r e g u l a ç ã o
da troca de p a r c e i r o s , m u t u a m e n t e consensual. E m b o r a en-
c o n t r e m o s m a i o r e s evidências d e i g u a l d a d e sexual q u e o es-
p e r a d o n o p r i m e i r o m o m e n t o , a v e n d a de e s p o s a s a i n d a
m a n t é m a s u b o r d i n a ç ã o f e m i n i n a . S a l v o circunstâncias ex-
c e p c i o n a i s , as m u l h e r e s n ã o p u n h a m o m a r i d o à v e n d a . *
N e s s e s e n t i d o , o a t í p i c o p o d e s e r v i r p a r a s o n d a r as
n o r m a s . D u r a n t e a m i n h a p e s q u i s a , fui e n t r a n d o e m con-
tato c o m outras sutilezas a p r o p ó s i t o dos m o d o s pelos
q u a i s o c a s a m e n t o era p e r c e b i d o p e l o o p e r a r i a d o inglês.
Q u e u m ritual p ú b l i c o — e vexatório — era e m p r e g a d o para
l e g i t i m a r o d i v ó r c i o é, p a r a d o x a l m e n t e , u m a evidência de
q u e o m a t r i m ô n i o n ã o era a m p l a m e n t e d e s d e n h a d o . O sig-
n i f i c a d o de u m ritual s ó p o d e ser i n t e r p r e t a d o q u a n d o as
f o n t e s ( a l g u m a s delas c o l e t a d a s p o r f o l c l o r i s t a s ) d e i x a m d e
ser o l h a d a s c o m o f r a g m e n t o f o l c l ó r i c o , u m a " s o b r e v i v ê n -
c i a " , 1 5 e s ã o reinseridas n o s e u c o n t e x t o total.

* Para m a i o r e s detalhes, ver T h o m p s o n , "A v e n d a de e s p o s a s " , in Costu-


mei em comum. S ã o P a u l o : C o m p a n h i a das L e t r a s , 1 9 9 8 . ( N . d o T.)

238
N a t u r a l m e n t e , o ritual permeia a vida social e políti-
ca, assim c o m o a doméstica. U l t i m a m e n t e , os historiado-
res têm lançado n o v o s olhares s o b r e aspectos da vida nos-
s o s velhos c o n h e c i d o s : o calendário de rituais e festivida-
des n o c a m p o e na cidade, 1 6 o lugar d o s esportes na vida
s o c i a l , 1 7 o s d i f e r e n t e s r i t m o s de t r a b a l h o e lazer antes e
d e p o i s d a R e v o l u ç ã o Industrial, 1 8 a c a m b i a n t e p o s i ç ã o dos
adolescentes na c o m u n i d a d e , 1 9 o m e r c a d o o u o bazar (es-
p e c i a l m e n t e q u a n d o c o n s i d e r a d o m e n o s c o m o nexo c o m
o e c o n ô m i c o e m a i s c o m o elo c o m o s o c i a l : u m c e n t r o
a g l u t i n a n t e de notícias, f o f o c a s , r u m o r e s ) e o s i g n i f i c a d o
s i m b ó l i c o das f o r m a s de p r o t e s t o p o p u l a r . 2 0 O s historia-
dores da tradição marxista influenciados pelo conceito
g r a m s c i a n o de h e g e m o n i a t a m b é m t ê m i n v e s t i g a d o c o m
n o v o s o l h o s as f o r m a s de d o m i n a ç ã o e controle da classe
d o m i n a n t e . M u i t o raramente — e, neste caso, apenas por
p o u c o t e m p o — u m a classe d o m i n a n t e exerce, sem media-
ções, sua a u t o r i d a d e p o r m e i o da força militar e e c o n ô m i -
ca direta. As pessoas vêm ao m u n d o em u m a sociedade cujas
f o r m a s e relações parecem tão fixas e imutáveis q u a n t o o
céu q u e n o s p r o t e g e . O " s e n s o c o m u m " de u m a é p o c a se
f a z s a t u r a d o c o m u m a ensurdecedora p r o p a g a n d a d o status
quo, m a s o elemento mais forte dessa p r o p a g a n d a é simples-
m e n t e o f a t o da existência d o existente.
A o esmiuçar as f o r m a s desse controle no século X V I I I ,
p r o g r e s s i v a m e n t e m e vi a d e p t o da n o ç ã o de t e a t r o . E m
t o d a s as s o c i e d a d e s , n a t u r a l m e n t e , há u m d u p l o c o m p o -
nente essencial: o controle político e o p r o t e s t o , o u mes-
m o a rebelião. O s d o n o s d o p o d e r representam seu teatro
de m a j e s t a d e , superstição, poder, riqueza e justiça sublime.
O s p o b r e s encenam seu contrateatro, o c u p a n d o o cenário
das ruas d o s mercados e e m p r e g a n d o o s i m b o l i s m o d o pro-

239
testo e d o ridículo. Sugerir que o controle o u a d o m i n a -
ção p o d e m se revestir da r o u p a g e m teatral não significa
dizer (como já disse) que seja "imaterial, frágil demais para
ser analisada, sem substância": "definir o controle nos ter-
mos da hegemonia cultural não significa renunciar ao in-
tento da análise, mas arquitetá-la para os tópicos necessá-
rios: as imagens de poder e autoridade e as mentalidades
populares de subordinação". 2 1
N a Inglaterra d o século X V I I I , a lei o f e r e c e o m a i s
f o r m i d á v e l teatro de c o n t r o l e , e Tyburn e o u t r a s praças
públicas de execução, as m a i s d r a m á t i c a s o c a s i õ e s . Vale
a p o n t a r aqui o c o n t r a s t e entre m é t o d o s q u a n t i t a t i v o s e
qualitativos de análise d o crime, o u " v i o l ê n c i a " , e da re-
pressão. Os historiadores que têm a t u a d o nessa área, em-
p r e g a n d o técnicas estatísticas quantitativas a p r o p r i a d a s à
história e c o n ô m i c a , concentraram seus esforços e m conta-
bilizar as a g r e s s õ e s , os agressores (e por aí vai). E s f o r ç o s
consideráveis f o r a m , ainda mais, despendidos c o m a pole-
m i z a ç ã o das — u m tanto dúbias — q u a n t i d a d e s da. "vio-
lência" ou "desordem". Existem problemas bem grandes
aqui. Por exemplo, o das categorias legais d o " c r i m e " , que
m u d a m c o m o a p e r f e i ç o a m e n t o da eficácia policial. Claro,
o s m e l h o r e s e s t u d i o s o s s ã o c ô n s c i o s desses p r o b l e m a s e
d e s e n v o l v e m m e i o s para levar tais variáveis e m considera-
ção. Apesar disso, mesmo quando são manuseadas com
c u i d a d o , a c a b a m o s c o m u m c o n h e c i m e n t o m u i t o limita-
do. Pois a i m p o r t â n c i a simbólica da violência — tanto f a z
q u e seja a v i o l ê n c i a d o E s t a d o e da lei o u a violência d o
protesto — não necessariamente possui uma correlação
direta c o m q u a n t i d a d e s . C e m p e s s o a s p o d e m perder a vida
e m u m d e s a s t r e natural e o fato n ã o provocará nada além
de p i e d a d e ; u m h o m e m p o d e ser e s p a n c a d o até a m o r t e

240
n u m a delegacia policial e o f a t o d a r á o r i g e m a u m a o n d a
d e p r o t e s t o s q u e irá t r a n s f o r m a r a política de u m a n a ç ã o .
R e p a r e m o s nas c o n s e q ü ê n c i a s d o s " m a s s a c r e s " de P e t e r l o o
e d e Jallianwala B a g : nesses d o i s c a s o s , na perspectiva his-
tórica, o s e p i s ó d i o s a s s u m e m o caráter de u m a vitória das
vítimas. E m a m b o s , a subseqüente onda de indignação
p o p u l a r , h a b i l m e n t e e x p l o r a d a pelas vítimas (nos inquéri-
t o s , n o s j u l g a m e n t o s , nas i n v e s t i g a ç õ e s , e m a t o s de p r o -
t e s t o ) , r e s u l t o u e m u m c o n s e n s o q u e inibiu a r e p e t i ç ã o de
a ç õ e s repressivas similares, i n d u z i n d o , e m a c r é s c i m o , u m a
ligeira d i v i s ã o entre as a u t o r i d a d e s executivas. N e m o ter-
ror n e m o contraterror revelam seu s i g n i f i c a d o n u m a pes-
q u i s a p u r a m e n t e q u a n t i t a t i v a , p o i s as q u a n t i d a d e s d e v e m
ser vistas d e n t r o de u m c o n t e x t o total, e i s s o inclui o con-
texto s i m b ó l i c o , q u e atribui valores diferentes a t i p o s dis-
t i n t o s de violência.
P o r t a n t o , a a t e n ç ã o às f o r m a s e a o s g e s t o s d o ritual
p o d e fornecer significativas c o n t r i b u i ç õ e s a o c o n h e c i m e n -
t o h i s t ó r i c o . E certas f o r m a s s ó p o d e m ser i n t e i r a m e n t e
c o m p r e e n d i d a s se r e c u p e r a r m o s as crenças da cultura con-
s u e t u d i n á r i a . P o r i n t e r m é d i o d o terror d o exemplo, Tyburn,
o sítio central das execuções da L o n d r e s setecentista, é as-
s i m u m s u p r e m o e x e m p l o d o teatro d o c o n t r o l e d e classe.
N ã o há o m e n o r e x a g e r o m e t a f ó r i c o e m descrevê-lo c o m o
u m teatro. C l a r a m e n t e , era p e r c e b i d o a s s i m n o seu p r ó p r i o
t e m p o , e dava-se imensa atenção à c e r i m ô n i a d e e x e c u ç ã o
e à p u b l i c i d a d e a d v i n d a c o m os e x e m p l o s . 2 2 N e s s a é p o c a , a
publicidade dependia de recursos locais: das multidões
p r e s e n t e s à p r o c i s s ã o d o s c o n d e n a d o s até o p a t í b u l o , d o s
s u b s e q ü e n t e s d i s s e - q u e - d i s s e nos m e r c a d o s e nas o f i c i n a s ,
d a v e n d a d e f o l h e t o s c o m as " ú l t i m a s p a l a v r a s a n t e s d a
m o r t e " das v í t i m a s . C o m a a m p l i a ç ã o d o s m e i o s d e publi-

241
cidade centralizada n o século X X , então, q u e m s a b e até u m a
p e q u e n a a m o s t r a p o s s a r e d u n d a r e m efeito ainda m a i o r . Os
recursos da i m p r e n s a d e circulação de m a s s a s , d o r á d i o o u
da T V , m a g n i f i c a m o e v e n t o , a u m e n t a n d o o v o l u m e d o
controle d o terror. T o m e - s e c o m o e x e m p l o o extraordiná-
rio i m p a c t o , s o b r e t o d a u m a n a ç ã o , da e x e c u ç ã o de dois
i n d i v í d u o s : os R o s e n b e r g s .
P r i v a d o o E s t a d o d o s é c u l o X V I I I de m e i o s similares,
lançava-se m ã o d e m a n e i r a s de a g r a v a m e n t o d o terror con-
tra os t r a n s g r e s s o r e s . D u r a n t e m u i t o s s é c u l o s , a p u n i ç ã o
prevista p a r a certos delitos i m p l i c a v a n ã o s ó e x e c u ç ã o , m a s
t a m b é m a m u t i l a ç ã o post mortem. O c o r p o de c o n t r a b a n -
distas o u de s a l t e a d o r e s de estrada era p e n d u r a d o em cor-
rentes p r ó x i m a s aos locais d o crime até seus o s s o s branquea-
rem a o sol. P i r a t a s eram s u s p e n s o s nas d o c a s ; a c a b e ç a d o s
traidores era e s p e t a d a e m estacas a encimar os p o r t õ e s das
r u a s d e m a i o r m o v i m e n t o , e aí f i c a v a p o r a n o s e a n o s ;
depois, a d o t o u - s e o m é t o d o mais "racional" de confiar,
c o m o se p r e s a s f o s s e m , o c o r p o d o s a s s a s s i n o s e o u t r o s
m a l f e i t o r e s a c i r u r g i õ e s d i s s e c a d o r e s . C o n t r a esse t i p o de
pena a g r a v a n t e , Peter L i n e b a u g h d e m o n s t r o u q u e os ami-
g o s d o s c o n d e n a d o s a g i t a v a m as m a s s a s ao r e d o r d o patí-
b u l o . 2 3 M a s s ó p o d e m o s entender a i n d i g n a ç ã o p r o v o c a d a
p o r tal t i p o d e p e n a l i d a d e se e n t e n d e r m o s t a m b é m q u e a
m u t i l a ç ã o d o cadáver (a n e g a ç ã o de u m " s e p u l t a m e n t o cris-
t ã o " ) era, c e r t a m e n t e , terror e m d e m a s i a , u m a d e l i b e r a d a
r u p t u r a d a s a u t o r i d a d e s c o m os m a i s sensíveis t a b u s p o p u -
lares. Para e n t e n d e r a n a t u r e z a desses t a b u s — o respeito,
a r r a i g a d o e m s u p e r s t i ç õ e s , pela i n t e g r i d a d e d o s cadáveres
— , L i n e b a u g h extraiu evidências dos hábitos funerários
c o m p i l a d o s p e l o s f o l c l o r i s t a s . A o dar u m n o v o u s o a essas
e v i d ê n c i a s , ele, p o r s u a v e z , t r a n s f o r m o u d a d o s q u e e r a m

242
a p e n a s a n t i g ü i d a d e s inertes e m i n g r e d i e n t e ativo da histó-
ria social.
E s p e r o q u e n ã o seja m a i s n e c e s s á r i o sustentar a d e f e s a
e m f a v o r de u m a a t e n ç ã o r e n o v a d a pelas f o n t e s d o folclo-
re. N ã o se trata de usá-las a c r i t i c a m e n t e , m a s de e m p r e g á -
las s e l e t i v a m e n t e q u a n d o d o e x a m e d e q u e s t õ e s f r e q ü e n -
temente desconhecidas pelos antigos folcloristas. Contu-
d o , ao c o l o c a r m o s a história social n u m a relação c o m a
m u i t o mais sofisticada disciplina da antropologia, então
c l a r a m e n t e n o s d e p a r a m o s c o m d i f i c u l d a d e s teóricas ainda
m a i o r e s . S u p õ e - s e a l g u m a s vezes q u e a a n t r o p o l o g i a p o s s a
fazer d e s c o b e r t a s não a p e n a s acerca d e s o c i e d a d e s particu-
l a r e s , m a s s o b r e as s o c i e d a d e s e m g e r a l , q u e f u n ç õ e s o u
e s t r u t u r a s b á s i c a s t e n h a m s i d o reveladas e q u e , p o r m a i s
s o f i s t i c a d a s o u d i s f a r ç a d a s q u e p o s s a m estar nas s o c i e d a d e s
m o d e r n a s , a i n d a f u n d a m e n t e m as f o r m a s m o d e r n a s . E n t r e -
t a n t o , a h i s t ó r i a é u m a disciplina d o c o n t e x t o e d o p r o c e s -
so: todo significado é u m signiflcado-dentro-de-um-con-
t e x t o e, e n q u a n t o as estruturas m u d a m , velhas f o r m a s p o -
d e m expressar f u n ç õ e s n o v a s , e f u n ç õ e s velhas p o d e m achar
sua expressão em novas formas.24 C o m o o b s e r v o u M a r e
B l o c h , " p a r a o g r a n d e d e s e s p e r o d o s h i s t o r i a d o r e s , os ho-
m e n s d e i x a m de m u d a r s e u v o c a b u l á r i o t o d a vez q u e m u -
d a m seus c o s t u m e s " — e isso é verdadeiro t a m b é m para o
v o c a b u l á r i o das f o r m a s rituais. 2 5
V o u ilustrar o q u e d i g o t e c e n d o c o n s i d e r a ç õ e s a res-
peito de u m a passagem do trabalho de u m historiador que,
c o m o eu, escreve a partir da tradição marxista. E m u m
talentoso estudo sobre a periferia londrina no fim dos
O i t o c e n t o s , Outcast London G a r e t h S t e d m a n J o n e s apre-
s e n t a o c a p í t u l o c h a m a d o "A d e f o r m a ç ã o d o d o m " . Anali-
s a n d o as a t i t u d e s da classe m é d i a ante a p o b r e z a e a carida-

243
de, ele lança m ã o d e c o n c e i t o s de Weber e M a r e e i M a u s s ,
propiciando u m entendimento apropriado do "significa-
d o s o c i a l d a d o a ç ã o c a r i t a t i v a " : " e m t o d a s as s o c i e d a d e s
tradicionais conhecidas, o d o m tem desempenhado u m a
f u n ç ã o central na m a n u t e n ç ã o d o status. D o t r a b a l h o d e
s o c i ó l o g o s e a n t r o p ó l o g o s s o c i a i s , é p o s s í v e l i s o l a r três
traços estruturais inerentes, em maior o u menor medida,
a o ato da d o a ç ã o " .
O p r i m e i r o deles seria a idéia d o sacrifício — princi-
p a l m e n t e p a r a D e u s — , o u de u m a t o de graça d o d o a d o r .
D e p o i s , as d á d i v a s s ã o s í m b o l o s d e p r e s t í g i o , i m p l i c a n d o
a s u b o r d i n a ç ã o d o receptor. Por f i m , o d e s t i n a t á r i o é inse-
r i d o s o b u m a o b r i g a ç ã o — e a q u i o d o m " s e r v e c o m o mé-
t o d o d e c o n t r o l e s o c i a l " . U m a v e z " a d e q u a d a m e n t e enten-
d i d o s " , S t e d m a n J o n e s p a s s a a apresentar u m a análise d a s
a t i t u d e s r e l a c i o n a d a s à p o b r e z a (e d a i d e o l o g i a da C h a r i t y
O r g a n i s a t i o n S o c i e t y ) n o s t e r m o s da " d e f o r m a ç ã o da dá-
d i v a " , s u s c i t a d a pela " s e p a r a ç ã o das c l a s s e s " — as distâncias
social e g e o g r á f i c a entre ricos c p o b r e s — , a q u a l d e s t r u i u
a " i n t e g r i d a d e original da relação da dádiva", com seus
"elementos de prestígio, subordinação e obrigação".
G o s t a r i a d e e x a m i n a r e s s e r a c i o c í n i o b e m de p e r t o .
P r i m e i r o , há u m a s u g e s t ã o de u m a c o n s t a n t e e p r i m e i r a
relação — o " a t o d e d o a r " — , a q u a l , " e m t o d a s as socie-
d a d e s t r a d i c i o n a i s c o n h e c i d a s " , p o s s u i " t r ê s t r a ç o s estru-
t u r a i s " . O p r i m e i r o d e s t e s n ã o p a r e c e ser n a d a estrutural.
As noções tanto da caridade c o m o u m a graça quanto d o
s a c r o p e d i n t e ( n ã o e m si m e s m o , m a s d e a l g u é m cuja pre-
c i s ã o d á o r i g e m à g r a ç a d o d o a d o r ) r e v e s t e m - s e d e expres-
sões m u i t o diversas no interior de contextos religiosos e
ideológicos distintos, m e s m o nas sociedades tradicionais.
E s o b r e v i v e m n a s s o c i e d a d e s m o d e r n a s nas m a i s v a r i a d a s

244
f o r m a s ( p o r exemplo, católica, hindu o u budista). E m b o -
ra o p r o t e s t a n t i s m o seja, e m geral, resistente àquelas no-
ções (e sua " d e f o r m a ç ã o " , o u drástica limitação, p o s s a ser
coincidente c o m a ascendência capitalista), elas p o d e m rea-
parecer e m épocas relativamente recentes, c o m o n o caso d o
" V e l h o m e n d i g o de C u m b e r l a n d " , de Wordsworth.

E n q u a n t o , de porta em porta,
esse velho h o m e m se arrasta, os aldeões nele
enxergam u m testemunho que une
atos passados e encargos de caridade...*

E s t o u mais p r o p e n s o a ver o s o u t r o s dois traços em


t e r m o s estruturais, haja vista q u e prestígio, s u b o r d i n a ç ã o ,
o b r i g a ç ã o e c o n t r o l e social a c a r r e t a m u m a c o i n c i d ê n c i a
entre as relações envolvidas no " a t o de d o a r " e o contexto
de e s t r u t u r a s s o c i a i s particulares q u e , apesar de g r a n d e s
m u d a n ç a s , ainda p o d e r i a m conservar traços universais. N o
e n t a n t o , ainda d e v e m o s saber o m o t i v o de esses traços —
e apenas eles — serem tratados c o m p r i o r i d a d e heurística.
D e s e j a m o s , c o m isso, sugerir a existência de u m nível es-
trutural m a i s p r o f u n d o , revelado pelos a c h a d o s a n t r o p o -
l ó g i c o s no e s t u d o de sociedades " t r a d i c i o n a i s " e que pre-
cede qualquer f u n ç ã o a ser s u b s e q ü e n t e m e n t e descoberta?
Pois o u t r o s traços da ação da dádiva p o d e m ser facilmente
apresentados. D a í a descrição proposta ser " a partir de cima",
ao p a s s o que, " a partir de b a i x o " , pode-se desvendar outros
a s p e c t o s , m u i t o diferentes e m a i s calculados. O pedinte o u
o p o b r e p o d e m visar a extrair d o s ricos t u d o o q u e é p o s -

* While from door to d o o r / this old man creeps, the villagers in him/
behold a record which together binds/ past deeds and offices of charity...

245
sível; eles s a b e m q u e a r e c u s a d a d á d i v a p r o v o c a a culpa
em q u e m a n e g a e q u e esta é t e r r e n o fértil para s e m e a r li-
geiras i n s i n u a ç õ e s d e represálias físicas ou m á g i c a s . O be-
n e f i c i a d o c o m as o f e r t a s n ã o p r e c i s a sentir-se e m o b r i g a -
ção c o m o d o a d o r n e m reconhecer seu p r e s t í g i o (salvo os
t r i b u t o s n e c e s s á r i o s de u m a presumível deferência) — e o
grau de s u b o r d i n a ç ã o a s s e g u r a d o pela caridade p o d e depen-
der d e u m cálculo d a s v a n t a g e n s e m j o g o .
D a í q u e , ainda a s s i m , esses traços p a r e c e m ser consi-
d e r a d o s de m o d o n ã o dialético. A e s t r u t u r a , e m q u a l q u e r
relação entre ricos e p o b r e s , s e m p r e corre em m ã o d u p l a , e
essa m e s m a r e l a ç ã o , q u a n d o g i r a d a e vista e m perspectiva
inversa, p o d e e x p o r u m a heurística alternativa. C o n t u d o ,
se t e m o s e m m e n t e u m c o n t e x t o m o d e r n o d e f i n i d o — a
Inglaterra d o século X V I I I , por assim dizer — , o a t o de doar
ainda p o d e s u g e r i r o u t r o s a s p e c t o s . O p r e s t í g i o — a n o t o -
riedade da benevolência — segue sendo eminentemente
p r e s e n t e . P e n s e - s e nas e l a b o r a d a s o f e r e n d a s de c a r n e de
v e a d o (e o u t r a s caças) q u e os aristocratas a d m i n i s t r a d o r e s
de p a r q u e s d a v a m à gentry d e p e n d e n t e e ao clero. P o r é m
as d o a ç õ e s d o s ricos aos p o b r e s se t o r n a r a m e x t r e m a m e n t e
c o m p l e x a s . A l g u m a s d e l a s já e r a m m e d i a d a s p e l a s P o o r
L a w s , u m a arena p e r m a n e n t e de c o n f l i t o , disciplina e pro-
testo. P o d e m o s e n q u a d r a r em u m d o s três traços a r r o l a d o s
p o r S t e d m a n J o n e s o tão característico j o g o de e m p u r r a -
e m p u r r a de i n d i g e n t e s e m u l h e r e s p o b r e s g r á v i d a s entre os
s u p e r v i s o r e s de p a r ó q u i a s limítrofes? O u t r a s o f e r t a s , c o m o
as p r o p i n a s a o s eleitores, s ã o u m a f o r m a direta e transpa-
rente de c o m p r a d e i n f l u ê n c i a . P r e s e n t e s o u t r o s , c o m o o
p a g a m e n t o e m e s p é c i e d o s f a z e n d e i r o s a seus e m p r e g a d o s
braçais d i a r i s t a s , o u c o m o os " d o n a t i v o s " a o s s e r v o s ( i s t o
é, gratificar c o m r o u p a s , alimentos ou " g o r j e t a s " provenien-

246
tes dos visitantes da casa-grande), s ã o , igualmente, f o r m a s
diretas de redução d o p a g a m e n t o em m o e d a e de reforço
da dependência e s u b o r d i n a ç ã o . Q u e m sabe a mais impor-
tante d o a ç ã o de t o d a s — caridade e a l i m e n t o s u b s i d i a d o
e m t e m p o s de carestia — seja i m p o s t a ( c o m o já d e m o n s -
trei) 2 7 diretamente aos ricos pelos pobres, por meio de u m a
prática de a m o t i n a m e n t o e de ameaça de recurso a o m o -
tim altamente desenvolvida, d o t a d a de aspectos estruturais
p r ó p r i o s . Finalmente, há exemplos de generosidade desinte-
r e s s a d a relativos à m i n o r i t á r i a t r a d i ç ã o d o p a t e r n a l i s m o
benevolente que, e m b o r a p o s s a m ser referidos àqueles três
traços estruturais, não p o d e m ser, após u m exame detido,
inteiramente encaixados em seu interior. A s s i m , durante o
N a t a l e outras festas, o s vizinhos q u e d ã o de beber e co-
mer a seus p r ó x i m o s d e s a f o r t u n a d o s p o d e m ter e x p r e s s a d o
outras solidariedades comunitárias ( " e s t r u t u r a i s " ? ) que nos
levam a um c a m p o de análise diferente.
E m p o u c a s p a l a v r a s , s e há a l g u m a c o n s t a n t e — o
d o m — , d e v e m o s dizer q u e f o i t o t a l m e n t e " d e f o r m a d a "
p e l o s é c u l o X V I I I . A tese de S t e d m a n J o n e s s u g e r e u m a
c o n s t a n t e repentinamente f r a t u r a d a na L o n d r e s d o s a n o s
de 1 8 6 0 . L o g o , entre o u t r o s a s s u n t o s , p a s s a p o r cima da
d i s s o l u ç ã o das o b r a s de caridade da I g r e j a durante a é p o -
ca Tudor, das P o o r L a w s elisabetanas, da v e r g o n h o s a apro-
p r i a ç ã o das f u n d a ç õ e s caritativas pelos interesses privados
n o s é c u l o X V I I I , da c o m p l e x a relação estrutural entre ri-
cos e p o b r e s (evidenciada pelos m o t i n s da f o m e ) , da crise
nacional q u e se f e z a c o m p a n h a r da P o o r L a w de 1 8 3 4 , e
p o r aí vai. P o r é m , m e s m o se ele revisasse seu a r g u m e n t o
e t o r n a s s e o p r o c e s s o mais extenso, minha o b j e ç ã o central
s e m a n t e r i a de p é : n ã o existe essa c o n s t a n t e d o " a t o de
d o a r " , c o m caracteres c o n s t a n t e s , passível de i s o l a m e n t o

247
d o s c o n t e x t o s s o c i a i s p a r t i c u l a r e s . N a v e r d a d e , há de se
e n c o n t r a r a estrutura na p a r t i c u l a r i d a d e histórica d o "con-
junto de relações s o c i a i s " 2 8 e n ã o e m u m ritual o u e m u m a
f o r m a particulares isolados dessas relações. N a história,
n o v o s f e n ô m e n o s a c o n t e c e m , e sua o r g a n i z a ç ã o estrutural
d i a n t e d o c o n j u n t o m u d a à m e d i d a q u e m u d a a estrutura
das s o c i e d a d e s . E s s e m o d o de t r a n s p o r c o n c l u s õ e s da pes-
q u i s a a n t r o p o l ó g i c a para a histórica é e r r a d o .
S ó q u e , a o d i z e r i s s o , m i n h a crítica s o a p o u c o ge-
nerosa. N ã o a p e n a s p o r ter c o n f e r i d o u m p e s o i n d e v i d o a
u m a sugestiva p a s s a g e m de duas páginas, a qual jamais
p r e t e n d e u a r v o r a r - s e d e tal p e s o , m a s a i n d a p o r q u e , ao
i n t r o d u z i r u m m o d e l o s i n c r ô n i c o d o " a t o de d o a r " , Sted-
m a n J o n e s c o n s e g u i u c o m q u e v í s s e m o s , e m novas f o r m a s ,
a relação a d v i n d a c o m a c a r i d a d e d o s a n o s de 1 8 6 0 , esti-
m u l a n d o - n o s à ampla reflexão comparativa acerca das
funções da caridade em diferentes contextos históricos.
I n ú m e r a s histórias d a s caridades o u das P o o r L a w s t ê m s i d o
escritas s e m , d e f a t o , levantar as críticas q u e s t õ e s d o pres-
t í g i o , s u b o r d i n a ç ã o e c o n t r o l e social (ou controle d e classe,
de m i n h a p r e f e r ê n c i a ) . E m seus p i o r e s m o m e n t o s , apresen-
t a m os d o a d o r e s e x c l u s i v a m e n t e c o n f o r m e s e u s p r ó p r i o s
t e r m o s , n a s i n t e n ç õ e s q u e p r o f e s s a m , a u t o - i m a g e m e jus-
t i f i c a ç õ e s i d e o l ó g i c a s . S t e d m a n J o n e s p o d e ter apresenta-
d o u m a . e x p l i c a ç ã o u m t a n t o r í g i d a , m a s , i n d u z i n d o esse
t i p o d e r e f l e x ã o , a b r i u c a m i n h o a u m a análise séria e de
n o v o t i p o . P o r t a n t o , m i n h a crítica deve ser i n a d e q u a d a . S e
n ã o p o d e m o s t r a n s p o r r e s u l t a d o s sincrônicos desse j e i t o —
c o m o t i p o s ideais, f u n ç õ e s c o n s t a n t e s , estruturas universais
p r o f u n d a s — , m a l d e s c o b r i r e m o s o â m a g o de u m c o n t e x t o
p a r t i c u l a r s e m o r e c u r s o a u m a t i p o l o g i a d e s t a s , t a n t o para
t r a z ê - l o à t o n a q u a n t o p a r a discuti-lo.

248
V i - m e levado a refletir s o b r e i s s o n o m e u atual traba-
l h o a p r o p ó s i t o cia "rough music", o u charivari.29 Eis-me,
e n t ã o , e x a m i n a n d o o u t r o ritual " f r o n t e i r i ç o " q u e j o g a luz
s o b r e as n o r m a s . A s c e r i m ô n i a s e x p õ e m u m i n f r a t o r das
n o r m a s d a c o m u n i d a d e às f o r m a s m a i s p ú b l i c a s d e insul-
t o , h u m i l h a ç ã o e, a l g u m a s v e z e s , o s t r a c i s m o . C o n d u z i n d o
as v í t i m a s e m a s n o s o u f a z e n d o - a s m o n t a r e m v a r a s , quei-
m a n d o s u a e f í g i e , t o c a n d o " m ú s i c a " e s t r i d e n t e d i a n t e de
s u a s casas c o m chaleiras de lata, chifres de a n i m a i s e t u d o
o m a i s , a i n d a recitavam velhas rimas o b s c e n a s . T e n h o afir-
m a d o q u e essas f o r m a s t ê m a s u a i m p o r t â n c i a , n ã o c o m o ,
diferentemente das sugestões de Lévi-Strauss, estruturas
u n i v e r s a i s , m a s p a r t i c u l a r m e n t e p e l o f a t o de as f u n ç õ e s
i m e d i a t a s d o ritual s e r e m d i n â m i c a s . O s t i p o s de infrato-
res s u b m e t i d o s à rough music n a o s ã o os m e s m o s de u m país
p a r a o o u t r o , o u de u m s é c u l o p a r a o p r ó x i m o . D a í q u e ,
n o v a m e n t e , t e n h o d e o p o r - m e ao a c h a d o a n t r o p o l ó g i c o de
a p r e s e n t a r o charivari com uma função, ou significado,
c o n s t a n t e e transcultural. 3 0 P o r t a n t o , a i m p o r t â n c i a desses
rituais r e s i d e n o f a t o de q u e , i d e n t i f i c a d o s q u a i s t i p o s de
conduta (sexual, marital, pública) o f e n d e m a comunida-
d e , revelam-se t a m b é m as n o r m a s d e s s a c o m u n i d a d e .
T o d a v i a , m e s m o a s s i m , ainda careço, em m u i t o s assun-
t o s , d o n o r t e a m e n t o da a n t r o p o l o g i a social e m e r e s s i n t o ,
t a m b é m , d e d i s p o r de u m a d e s e n v o l t u r a n e s s a d i s c i p l i n a
m u i t o além da q u e p o s s u o . S e o q u e a c o n t e c e d e n t r o das
f o r m a s m u d a , estas c o n t i n u a m i m p o r t a n t e s , e elas p r ó p r i a s
informam o simbolismo derivado do sistema cognitivo
o c u l t o p e r t e n c e n t e a u m a c o m u n i d a d e . ( A e x p u l s ã o d o mal
o u d o " o u t r o " p o r m e i o de u m b a r u l h o estridente é u m d o s
m o d o s simbólicos mais antigos e mais constantes.) Assim
c o m o S t e d m a n J o n e s d e v e refletir s o b r e o " a t o de d o a r " ,

249
devo pensar sobre o ato d o ostracismo, a expulsão d o "ou-
t r o " , as maneiras pelas quais u m a n o r m a é delimitada. N e s s e
s e n t i d o , u m d i á l o g o c o m a a n t r o p o l o g i a se f a z insistente-
mente preciso.
N o s e x e m p l o s u t i l i z a d o s , d e v o p e d i r d e s c u l p a s por ter
r e c o r r i d o , q u a s e e x c l u s i v a m e n t e , a materiais i n g l e s e s . B u s -
car u m a t r a d u ç ã o p a r a os t e r m o s i n d i a n o s s ó revelaria mi-
nha p r ó p r i a i g n o r â n c i a . D e v o deixá-la a v o c ê s . Fui infor-
m a d o d a d i s s e m i n a ç ã o d o charivari no cotidiano dos
vilarejos i n d i a n o s e d a possível s o b r e v i v ê n c i a d o v e x a t ó r i o
ritual da m o n t a r i a d o a s n o em r e g i õ e s d o norte d a í n d i a .
N ã o t e n h o d ú v i d a s de q u e as antigas tradições de caridade
e d e m e n d i c â n c i a r i t u a l na í n d i a o f e r e c e m e x e m p l o s d e
m e d i a ç õ e s sociais q u e r e q u e r e m u m a r e c u p e r a ç ã o m a i s de-
licada e u m a análise m a i s sutil q u e a q u e t e n h o apresenta-
d o . N a t u r a l m e n t e , o t i p o de f o n t e s q u e d e v e m o s usar será
diverso. S u s p e i t o que tanto os historiadores britânicos
q u a n t o os i n d i a n o s se d e f r o n t a m c o m u m p r o b l e m a simi-
lar: a q u e l e s q u e p r o c e d e r a m a o r e g i s t r o das evidências q u e
d e v e m o s e m p r e g a r f r e q ü e n t e m e n t e n ã o c o n s e g u i a m aden-
trar o s i g n i f i c a d o d o q u e a n o t a v a m . A g r a n d e distância de
classe da gentry b r i t â n i c a d i a n t e de s e u p r ó p r i o p o v o , o u
de o u t r o s p a í s e s , n ã o r e q u e r m a i o r e s c o m e n t á r i o s . M a s
s u g e r e - s e f r e q ü e n t e m e n t e q u e a t r a d i ç ã o b r â m a n e , e m mui-
tas o c a s i õ e s , t a m b é m f r a c a s s o u em decifrar t o d o s os signi-
ficados da cultura d o indiano pobre.31 A o s administrado-
res b r i t â n i c o s , as d e f e s a s desses p o b r e s s o a r a m constante-
m e n t e c o m o p a s s i v i d a d e o u " f a t a l i s m o " . P o r é m , n o interior
d e s s e f a t a l i s m o , p o d i a existir u m a s a b e d o r i a de sobrevivên-
cia. C o m o diz o p r o v é r b i o chinês, " n ã o s u b a s na c a r r u a g e m
g r a n d e , s ó te c o b r i r á s d e p o e i r a " , o u , c o m o se d i z n o n o r t e
da í n d i a , " q u e m n o c é u c o s p e na b o c a c a i " . 3 2

250
Se necessitamos desse diálogo com a antropologia,
ainda há alguns p r o b l e m a s q u a n t o ao m o d o pelo qual deve
ser c o n d u z i d o . A equação v e m facilmente à cabeça: assim
c o m o a história e c o n ô m i c a p r e s s u p õ e a disciplina da eco-
n o m i a , a história social (no seu exame sistemático das nor-
m a s , expectativas e valores) deve p r e s s u p o r a disciplina da
a n t r o p o l o g i a social. N ã o p o d e m o s p e s q u i s a r rituais, cos-
t u m e s , relações de parentela s e m i n t e r r o m p e r o p r o c e s s o
h i s t ó r i c o de t e m p o s em t e m p o s , s u b m e t e n d o - o s a u m a
análise estrutural sincrônica e estática.
D i g a m o s que haja a l g o de verdadeiro nessa equação.
N o entanto, permanece fácil demais. A e c o n o m i a e a his-
tória econômica se desenvolveram em estreita parceria in-
telectual. C o n t u d o , mais recentemente, a uma história so-
cial e m e r g e n t e f o i oferecida ( o u , mais repetidamente, teve
de solicitar, diante de alguma indiferença) uma parceria com
disciplinas sociais que são, em parte, explicitamente anti-
históricas. Pense-se na influência de Durlcheim, Radcliffe-
B r o w n , Talcott P a r s o n s e L é v i - S t r a u s s . M a i s ainda, u m a
certa a n t r o p o l o g i a social é, igualmente, antieconômica, o u ,
para ser mais preciso, inocente de categorias e c o n ô m i c a s
avançadas. Q u e r dizer, e m b o r a leve em consideração a "vida
m a t e r i a l " p r o p o s t a por Fernand B r a u d e l , " seu tema tradi-
cional a deixa e m p o b r e c i d a e, por vezes, ativamente resis-
tente ao " e c o n ô m i c o " . M a s não devemos esperar u m "avan-
ç o " na história social sistemática f a z e n d o o u v i d o s m o u c o s
para a h i s t ó r i a e c o n ô m i c a . Por f i m , a h i s t ó r i a s o c i o e c o -
n ó m i c a já d i s p õ e de seus p r ó p r i o s conceitos e c a t e g o r i a s
— dentre estes, da maior importância na tradição marxis-
ta, os c o n c e i t o s de c a p i t a l i s m o , i d e o l o g i a e classe social,
q u e s ã o conceitos h i s t ó r i c o s , s u r g i d o s da análise de pro-
cessos diacrônicos, de c o m p o r t a m e n t o s regularmente repe-

251
titivos ao l o n g o d o t e m p o , os quais, p o r essa razão, s o f r e m
a resistência e m e s m o a total i n c o m p r e e n s ã o (no caso de
classe) das disciplinas sincrônicas.
Q u e r o c o m isso frisar que, e m b o r a a relação entre his-
tória a n t r o p o l ó g i c a social e história social deva ser enco-
rajada, n ã o p o d e ser de q u a l q u e r tipo. U m terceiro inte-
grante é necessário c o m o mediador e, geralmente, seu nome
é f i l o s o f i a . S e t e n t a r m o s f o r m a r pares c o m partes dessas
disciplinas arranjando encontros entre elas — apresentan-
do a história econométrica positivista ao estruturalismo
lévi-straussiano — , e n t ã o p o d e r e m o s estar certos de q u e
enlace a l g u m acontecerá.
C a d a v e z m a i s , isso vem s e n d o a p o n t a d o por pesqui-
sadores de a m b a s as disciplinas. Todavia, a essa altura, de-
v e m o s s u s p e n d e r a p r e t e n s ã o d e falar p e l o c o n j u n t o d a
nossa disciplina para apenas fazê-lo a partir da nossa posi-
ção específica. N o m e u c a s o , d e v o definir m i n h a relação
c o m a t r a d i ç ã o marxista. N ã o p o d e r i a m e valer de certos
conceitos sociológicos familiares a n ã o ser que, em primeiro
lugar, f o s s e m revestidos c o m u m a ambivalência dialética.
U m " a t o de d o a r " deve ser s i m u l t a n e a m e n t e visto c o m o
um " a t o de g a n h a r " ; o c o n s e n s o social, c o m o h e g e m o n i a
de classe^ o controle social ( m u i t o freqüentemente) c o m o
controle de classe; e a l g u m a s (ainda que nem t o d a s ) regras
c o m o necessidades. E n t r e t a n t o , o u t r o s s i m , se desejo efe-
tuar u m a j u n ç ã o n ã o apenas c o m a " a n t r o p o l o g i a s o c i a l "
mas t a m b é m c o m a a n t r o p o l o g i a marxista, estou conven-
cido de q u e devo a b a n d o n a r o conceito, curiosamente es-
tático, de " b a s e " e " s u p e r e s t r u t u r a " , pelo qual, na tradição
marxista d o m i n a n t e , a " b a s e " vem identificada c o m o "eco-
n ô m i c o " , a f i r m a n d o u m a p r i o r i d a d e heurística das neces-
sidades e c o m p o r t a m e n t o s e c o n ô m i c o s diante das n o r m a s

252
e s i s t e m a s de valores. N u m a s ó voz, p o d e m o s afirmar que
" o ser social determina a consciência s o c i a l " (uma assertiva
que ainda pede exame e qualificação escrupulosos). En-
q u a n t o i s s o , d e i x a m o s aberta, para u m a i n v e s t i g a ç ã o co-
m u m , a q u e s t ã o de s a b e r m o s q u a n t o é s i g n i f i c a t i v o , e m
q u a l q u e r s o c i e d a d e , descrever o " s e r s o c i a l " independen-
t e m e n t e t a n t o das n o r m a s e estruturas cognitivas primárias
q u a n t o das necessidades materiais em cujo entorno se orga-
niza a existência.
P o d e m o s concluir e x a m i n a n d o esse p r o b l e m a c o m u m
p o u c o m a i s de cuidado. E m geral, o materialismo histórico
a b r a ç o u u m m o d e l o subjacente de sociedade que, para fins
analíticos, p o d e ser encarado c o m o horizontalmente estru-
t u r a d o s e g u n d o u m a base e u m a superestrutura. O m é t o d o
m a r x i s t a t e m d i r i g i d o a atenção primeiro para o m o d o de
p r o d u ç ã o e suas conseqüentes relações de p r o d u ç ã o , s e n d o
i s s o c o m u m e n t e interpretado c o m o revelador de u m mar-
c a n t e d e t e r m i n i s m o " e c o n ô m i c o " . C o m g r a n d e sutileza,
esse m o d e l o tem sido incorporado a m i ú d e por historiadores
tementes a advertências tais c o m o as de Engels e m sua fa-
m o s a carta a Bloch. 3 4 N o s últimos anos, tem-se verificado
u m a ênfase renovada na interação recíproca da base c o m a
superestrutura, na " a u t o n o m i a relativa" de elementos da su-
perestrutura e na determinação econômica apenas " e m últi-
m a instância' 1 . E t a m b é m se verificaram u m refinamento e
u m a qualificação adicionais c o m a noção de "determinação".
O q u e está radicalmente errado, n o entanto, é a ana-
l o g i a , o u a m e t á f o r a , c o m q u e p r i n c i p i a m o s e, a i n d a , o
e m p r e g o de u m a categoria m u i t o limitada, o " e c o n ô m i c o " .
M e s m o M a r x n ã o se serviu dessa analogia de m o d o repeti-
d o , e m b o r a o tenha feito, u m a vez, em u m a síntese sensi-
v e l m e n t e i m p o r t a n t e de sua teoria, a qual se m o s t r o u in-

253
f l u e n t e . 3 5 M a s d e v e m o s n o s recordar q u e , em o u t r a s oca-
s i õ e s , ele l a n ç o u m ã o de a n a l o g i a s b e m diversas p a r a o pro-
c e s s o h i s t ó r i c o . N o s Grundrisse, ele escreveu: " e m t o d a s as
f o r m a s de s o c i e d a d e , é u m a d e t e r m i n a d a p r o d u ç ã o e suas
relações q u e a t r i b u e m p o s i ç ã o e influência a q u a l q u e r ou-
tra p r o d u ç ã o e s u a s relações. E u m a i l u m i n a ç ã o geral, em
q u e s ã o i m e r s a s t o d a s as cores e q u e m o d i f i c a s u a s tonali-
d a d e s particulares. É u m éter especial a definir a g r a v i d a d e
específica d e t u d o o q u e dele se d e s t a c a " . *
N o l u g a r d a n o ç ã o de p r i m a z i a d o " e c o n ô m i c o " ( m a i s
" r e a l " ) — c o m q u e as n o r m a s e a cultura s ã o vistas c o m o
reflexos s e c u n d á r i o s — , o q u e essa p a s s a g e m e n f a t i z a é a
s i m u l t a n e i d a d e d a m a n i f e s t a ç ã o d e relações p r o d u t i v a s par-
ticulares em todos os s i s t e m a s e áreas d a v i d a social. N ã o
e s t o u p o n d o e m d ú v i d a a c e n t r a l i d a d e d o m o d o de p r o -
d u ç ã o (e as s u b s e q ü e n t e s relações de p o d e r e p r o p r i e d a d e )
p a r a q u a l q u e r c o m p r e e n s ã o materialista d a história. E s t o u
c o l o c a n d o e m q u e s t ã o — e os m a r x i s t a s , se q u i s e r e m abrir
u m d i á l o g o h o n e s t o c o m os a n t r o p ó l o g o s , devem c o l o c a r
e m q u e s t ã o — a idéia de ser possível descrever u m m o d o
d e p r o d u ç ã o e m t e r m o s " e c o n ô m i c o s " p o n d o de l a d o ,
c o m o s e c u n d á r i a s ( m e n o s " r e a i s " ) , as n o r m a s , a cultura, os
d e c i s i v o s c o n c e i t o s s o b r e os q u a i s se o r g a n i z a u m m o d o de
p r o d u ç ã o . U m a divisão teórica arbitrária c o m o essa, de u m a
b a s e e c o n ô m i c a e u m a s u p e r e s t r u t u r a c u l t u r a l , p o d e ser
feita na c a b e ç a e b e m p o d e a s s e n t a r - s e n o p a p e l d u r a n t e

* Aparentemente, T h o m p s o n usa sua própria tradução. ( O texto cm por-


t u g u ê s a q u i a p r e s e n t a d o f o i t r a d u z i d o d e s s a p a s s a g e m . ) D e p o i s , ele
convida o leitor a consultar outra t r a d u ç ã o para o inglês, ligeiramente
diversa. M a r x , Grundrisse. Penguin, 1 9 7 3 , pp. 106-7. E m espanhol, ver
M a r 1 9 7 7 , primeira m e t a d e , p. 3 0 . ( N . d o T.)

254
a l g u n s m o m e n t o s . M a s não passa de u m a idéia na cabeça.
Q u a n d o p r o c e d e m o s ao exame de u m a s o c i e d a d e real, seja
q u a l for, r a p i d a m e n t e d e s c o b r i m o s ( o u pelo m e n o s deve-
r í a m o s descobrir) a inutilidade de se esboçar respeito a u m a
d i v i s ã o a s s i m . Incluídos o s marxistas, os a n t r o p ó l o g o s têm
i n s i s t i d o l o n g a m e n t e s o b r e a i m p o s s i b i l i d a d e de se descre-
ver a e c o n o m i a de sociedades primitivas independentemen-
te t a n t o d o s sistemas de parentesco s e g u n d o os quais estas
se e s t r u t u r a m q u a n t o das o b r i g a ç õ e s e r e c i p r o c i d a d e s de
p a r e n t e l a q u e s ã o tão e n d o s s a d a s q u a n t o i m p o s t a s pelas
n o r m a s e pelas necessidades. 3 6 M a s é i g u a l m e n t e verdade
q u e , nas s o c i e d a d e s m a i s a v a n ç a d a s , d i s t i n ç õ e s d a q u e l e
m e s m o tipo não s ã o válidas. M a l p o d e m o s começar a des-
crever as s o c i e d a d e s feudal o u capitalista em termos "eco-
n ô m i c o s " , i n d e p e n d e n t e m e n t e d a s r e l a ç õ e s de p o d e r e
d o m i n a ç ã o , dos conceitos de direito de u s o o u proprieda-
d e p r i v a d a (e leis c o r r e s p o n d e n t e s ) , das n o r m a s cultural-
m e n t e sancionadas e das necessidades culturalmente forma-
das características de u m m o d o de p r o d u ç ã o . N e n h u m sis-
t e m a a g r á r i o fica e m p é a p ó s u m dia s e m o s c o m p l e x o s
c o n c e i t o s de direito de u s o , de a c e s s o e de p r o p r i e d a d e .
O n d e d e v e m o s colocar esses c o n c e i t o s : na " b a s e " o u na
" s u p e r e s t r u t u r a " ? 3 7 O n d e h a v e r e m o s de colocar os costu-
m e s hereditários — patrilineares o u matrilineares, parce-
láveis o u indivisíveis — q u e são tenazmente transmitidos
de m a n e i r a s n ã o " e c o n ô m i c a s " e que, ainda assim, reper-
cutem p r o f u n d a m e n t e na história agrária? 3 8 O n d e colocar
o s r i t m o s habituais de trabalho e lazer ( o u festas) das so-
ciedades tradicionais, ritmos intrínsecos a o p r ó p r i o a t o de
p r o d u z i r e, n ã o o b s t a n t e , u s u a l m e n t e r i t u a l i z a d o s pelas
instituições religiosas e de a c o r d o c o m crenças religiosas,
seja na sociedade católica o u na hindu? N ã o há maneira em

255
q u e eu c o n s i g a achar possível descrever a disciplina de tra-
balho puritana o u m e t o d i s t a c o m o elemento da "superes-
t r u t u r a " e daí posicionar n a l g u m a " b a s e " o trabalho em si.
Por m a i s sofisticada que seja a idéia, por mais sutil que
tenha s i d o o seu e m p r e g o nas mais várias ocasiões, a ana-
logia " b a s e e s u p e r e s t r u t u r a " é radicalmente i n a d e q u a d a .
N ã o tem conserto. E s t á d o t a d a de u m a inerente tendência
a o r e d u c i o n i s m o o u ao d e t e r m i n i s m o e c o n ô m i c o vulgar,
classificando atividades e atributos h u m a n o s ao d i s p o r al-
g u n s destes na s u p e r e s t r u t u r a (lei, arte, religião, " m o r a -
l i d a d e " ) , o u t r o s na base (tecnologia, e c o n o m i a , as ciências
a p l i c a d a s ) , e d e i x a n d o o u t r o s ainda a flanar, d e s g r a ç a d a -
mente, no m e i o (lingüística, disciplina de trabalho). N e s -
se s e n t i d o , p o s s u i u m p e n d o r p a r a aliar-se c o m o pensa-
m e n t o positivista e utilitarista, isto é, c o m p o s i ç õ e s cen-
trais n ã o d o m a r x i s m o , mas da ideologia burguesa. A boa
sociedade p o d e ser s i m p l e s m e n t e criada (tal c o m o na teo-
ria stalinista) a partir da construção de u m a " b a s e " indus-
trial p e s a d a ; isso d a d o , u m a superestrutura cultural irá, de
algum m o d o , construir-se sozinha. N u m a variante mais
recente, a althusseriana, c o m sua ênfase na " a u t o n o m i a re-
l a t i v a " e na " d e t e r m i n a ç ã o e m última instância", os pro-
blemas d o m a t e r i a l i s m o histórico e cultural s ã o d e i x a d o s
sem s o l u ç ã o , assim c o m o e m b a r a l h a d o s e elididos. C o m o
a hora solitária da ú l t i m a instância n ã o s o a nunca, pode-
m o s , ao m e s m o t e m p o , prestar u m a pia reverência à teoria
e tomar a licença de ignorá-la e m n o s s a prática.
E v i d e n t e m e n t e , n ã o s o u o p r i m e i r o marxista a expres-
sar objeções assim. 3 9 N a verdade, as objeções ficaram a g o r a
tão aparentes q u e é de se esperar q u e u m o u o u t r o dos meus
c o l e g a s m a r x i s t a s , antes de farejar o ar em b u s c a da "he-
resia", a c o m p a n h e - n a s c u i d a d o s a m e n t e . S e a m a n u t e n ç ã o

256
de sua existência depende d a continuidade de u m a analogia
mal elaborada, um sistema vivo de p e n s a m e n t o político e
histórico está na iminência de entrar em crise. O p r o b l e m a
da categoria " e c o n o m i a " levanta, n o v a m e n t e , q u e s t õ e s adi-
cionais. T o d o s p e n s a m o s saber o q u e q u e r e m o s dizer c o m
o t e r m o , m a s o s historiadores n ã o p r e c i s a m d o l e m b r e t e
s o b r e sua evolução comparativamente recente. M e s m o
assim, na Inglaterra setecentista, "oeconomy" p o d i a ser uti-
l i z a d o para d e n o m i n a r a regulação e o ajuste de t o d o s o s
assuntos de u m a casa (e, analogamente, de u m E s t a d o ) , sem
particularmente se referir àqueles temas materiais e finan-
ceiros h o j e d e s i g n a d o r e s d o " e c o n ô m i c o " . S e nos voltar-
m o s para a história britânica antiga, o u para outras socieda-
des em vários estágios distintos de d e s e n v o l v i m e n t o , des-
c o b r i r e m o s q u e " e c o n o m i a " , na sua a c e p ç ã o m o d e r n a , é
u m a idéia para a qual não existe u m a palavra e que n ã o dis-
p õ e de u m c o n c e i t o c o r r e s p o n d e n t e preciso. A religião e
os imperativos morais permanecem inextricavelmente
imbricados com as necessidades econômicas. U m a das ofen-
sas c o n t r a a h u m a n i d a d e i m p l i c a d a s pela s o c i e d a d e de
mercado plenamente desenvolvido, e por sua ideologia,
t e m s i d o , exatamente, a de definir todas as relações sociais
coercitivas c o m o " e c o n ô m i c a s " e de substituir elos afetivos
pelos mais impessoais (mas não m e n o s c o m p u l s ó r i o s ) elos
do dinheiro.
D i s s o decorre que as categorias explicativas " e c o n ô m i -
c a s " , q u e p o d e m ser a d e q u a d a s para sociedades industria-
lizadas, s ã o freqüentemente m e n o s apropriadas para a com-
p r e e n s ã o de s o c i e d a d e s m a i s a n t i g a s . N a t u r a l m e n t e , isso
n ã o significa dizer que não haja espaço para u m a história
e c o n ô m i c a de s o c i e d a d e s pré-industriais o u pré-capitalis-
tas, m a s serve para nos recordar q u e as expectativas e m o -

257
tivações das p e s s o a s q u e viveram aquela época não p o d e m
ser e n t e n d i d a s em t e r m o s e c o n ô m i c o s a n a c r ô n i c o s . M a i s
s u t i l m e n t e , o m e s m o p r o b l e m a reaparece no interior d o
p r ó p r i o capitalismo industriai. Q u a n d o M a r x c o n t e s t o u a
e c o n o m i a política b u r g u e s a p r e d o m i n a n t e em seu t e m p o ,
assim c o m o sua tese g u i a s o b r e a natureza d o h o m e m eco-
n ô m i c o a q u i s i t i v o , ele c o n t r a p ô s a a m b a s o proletariado,
o u o h o m e m e c o n ô m i c o e x p l o r a d o , q u e estava d e s t i n a d o
a vir a ser o h o m e m revolucionário (via luta e c o n ô m i c a ) .
Porém, e m b o r a isso não seja senão u m a parte d o pensamen-
to de M a r x , carreou c o m u m e c o n o m i c í s m o p e s a d o as sub-
seqüentes teorias e estratégias dos p e n s a d o r e s e p a r t i d o s
marxistas. Estes geralmente se esqueceram da ofensa primei-
ra d o capitalismo, a de cotar todas as relações em termos
exclusivamente e c o n ô m i c o s . C o m efeito, m u i t o s d o s maio-
res m o v i m e n t o s p o p u l a r e s d o s séculos X I X e X X s ó p o d e m
ser entendidos c o m o u m a d e m a n d a dos explorados por u m a
h u m a n i d a d e ( s e j a s e u s d i r e i t o s e m lei, c o m o h o m e n s e
mulheres "livres", c o m o cidadãos, seja seus direitos de v o t o
e de associação, ou seus direitos à independência nacional,
seja ainda s u a c o n d i ç ã o e a u t o - e s t i m a no t r a b a l h o ) q u e
p e r p a s s a o s limites de q u a l q u e r definição e c o n ô m i c a me-
nos abrangente.
S e r e c u s o t a n t o a a n a l o g i a da b a s e e s u p e r e s t r u t u r a
q u a n t o a p r i o r i d a d e interpretativa atribuída ao e c o n ô m i -
co, e m que sentido me insiro na tradição marxistar 1 Somente,
eu t e m o , no s e n t i d o e m que K a r l M a r x , em si, inseria-se.
Pois n ã o há dificuldade em demonstrar q u a n t o as versões
reducionistas e economicistas d o m a r x i s m o estão distantes
d o p e n s a m e n t o de M a r x .
" S e m p r o d u ç ã o n ã o há história", insistiu R . S . S h a r m a
o p o r t u n a m e n t e . 4 0 M a s d e v e m o s dizer t a m b é m : " s e m cul-

258
t u r a n ã o há p r o d u ç ã o " . D o i s erros a r r a i g a d o s na t r a d i ç ã o
m a r x i s t a f o r a m c o n f u n d i r o t ã o i m p o r t a n t e c o n c e i t o de
m o d o de p r o d u ç ã o ( n o qual as relações de p r o d u ç ã o e s e u s
c o r r e s p o n d e n t e s c o n c e i t o s , n o r m a s e f o r m a s de p o d e r de-
v e m ser t o m a d o s c o m o u m t o d o ) c o m u m a a c e p ç ã o estrei-
ta de " e c o n ô m i c o " e o de, i d e n t i c a m e n t e , c o n f u n d i r as ins-
t i t u i ç õ e s , a i d e o l o g i a e a cultura f a c c i o n á r i a de u m a classe
d o m i n a n t e c o m toda c u l t u r a e " m o r a l i d a d e " . H á m o d o s
p e l o s q u a i s s u a cultura e i n s t i t u i ç õ e s p o d e m ser p r o v e i t o -
samente examinadas c o m o "superestruturais", mas esse
m é t o d o d e análise se t o r n a m u i t o m e n o s atrativo q u a n d o
n o s v o l t a m o s p a r a a cultura, as n o r m a s e o s rituais d o p o v o
s o b r e q u e m a q u e l a s classes e x e r c i a m s e u d o m í n i o , p o i s s ã o
c o m u m e n t e tidos c o m o intrínsecos a o m o d o de p r o d u ç ã o
e m si, à r e p r o d u ç ã o t a n t o da v i d a m e s m a q u a n t o d o s m e i o s
m a t e r i a i s d a vida.
E n t ã o , em que sentido ainda p o d e m o s sustentar que
" o ser s o c i a l d e t e r m i n a a c o n s c i ê n c i a s o c i a l " ? E , a l é m d o
m a i s , é v e r d a d e q u e p o d e m o s dizer q u e a d e t e r m i n a ç ã o se
mantém, " e m última instância", "econômica"? Se não po-
d e m o s descrever o ser social i n d e p e n d e n t e m e n t e d o s con-
ceitos e n o r m a s essenciais à existência, à r e p r o d u ç ã o da vida
e a o s m e i o s d e v i d a , c o m o p o d e m o s c l a s s i f i c a r o ser e a
c o n s c i ê n c i a e m d u a s c a t e g o r i a s diversas? S ó p o d e m o s fazê-
lo se d e s c a r t a r m o s a n o ç ã o d e e c o n ô m i c o e m s e u s e n t i d o
c o n t e m p o r â n e o l i m i t a d o e r e t o r n a r m o s à p l e n a a c e p ç ã o de
u m m o d o de p r o d u ç ã o . E s t e , q u e é o o b j e t o c e n t r a l d a
análise de M a r x , ainda n o s o f e r e c e as c o n s e q ü e n t e s relações
d e p r o d u ç ã o ( q u e t a m b é m s ã o r e l a ç õ e s de d o m i n a ç ã o e
s u b o r d i n a ç ã o ) nas quais h o m e n s e mulheres nascem o u
involuntariamente ingressam. Isso fornece a "iluminação
g e r a l , e m q u e s ã o imersas t o d a s as cores e q u e m o d i f i c a s u a s

259
t o n a l i d a d e s p a r t i c u l a r e s " . N a s s o c i e d a d e s m o d e r n a s , as re-
lações de p r o d u ç ã o e n c o n t r a m e x p r e s s ã o na f o r m a ç ã o e luta
( o c a s i o n a l m e n t e , n o equilíbrio) das classes. Entretanto,
classe n ã o é, c o m o g o s t a r i a m a l g u n s s o c i ó l o g o s , u m a cate-
g o r i a e s t á t i c a : tais e tais p e s s o a s s i t u a d a s nesta e naquela
relação c o m o s m e í o s de p r o d u ç ã o , m e n s u r á v e i s e m t e r m o s
p o s i t i v i s t a s o u q u a n t i t a t i v o s . C l a s s e , na t r a d i ç ã o m a r x i s t a ,
é ( o u d e v e ser) u m a c a t e g o r i a histórica descritiva de pes-
soas numa relação no decurso d o tempo e das maneiras
pelas q u a i s se t o r n a m c o n s c i e n t e s d e s u a s relações, c o m o
se s e p a r a m , u n e m , e n t r a m em c o n f l i t o , f o r m a m institui-
ções e t r a n s m i t e m v a l o r e s de m o d o classista. N e s s e senti-
d o , ciasse é u m a f o r m a ç ã o tão " e c o n ô m i c a " q u a n t o "cul-
tural"; é impossível favorecer um aspecto em detrimento
do outro, atribuindo-se uma prioridade teórica. D i s s o
decorre que a determinação " e m última instância" pode
abrir seu c a m i n h o i g u a l m e n t e t a n t o p o r f o r m a s culturais
c o m o por econômicas. O que m u d a , assim que o m o d o de
p r o d u ç ã o e as relações p r o d u t i v a s m u d a m , é a experiência
de h o m e n s e m u l h e r e s existentes. E essa experiência adqui-
re f e i ç õ e s classistas, na v i d a social e na consciência, n o con-
s e n s o , na resistência e nas escolhas d e h o m e n s e m u l h e r e s .
E s s a s q u e s t õ e s s ã o d i f í c e i s , e talvez f o s s e o c a s o d e
d i s c u t i - l a s c o m m a i s r i g o r e alento. E m p o u c a s p a l a v r a s ,
as relações entre o " s e r s o c i a l " e a " c o n s c i ê n c i a s o c i a l " se-
g u e m a g o r a : e m q u a l q u e r s o c i e d a d e cujas relações sociais
f o r a m d e l i n e a d a s e m t e r m o s classistas, há u m a o r g a n i z a ç ã o
cognitiva da vida correspondente ao m o d o de produção e
às f o r m a ç õ e s d e classe h i s t o r i c a m e n t e t r a n s c o r r i d a s . E s s e é
o " s e n s o c o m u m " d o poder, s a t u r a n d o a v i d a c o t i d i a n a e
se e x p r e s s a n d o — m a i s o u m e n o s c o n s c i e n t e m e n t e — n a
a b r a n g e n t e c ú p u l a de h e g e m o n i a da classe d o m i n a n t e e nas

260
suas f o r m a s de d o m i n a ç ã o i d e o l ó g i c a . O " t e a t r o " d o po-
der é apenas u m a f o r m a dessa d o m i n a ç ã o .
C o n t u d o , n o interior e p o r baixo desse arco, há u m
s e m - n ú m e r o de c o n t e x t o s e s i t u a ç õ e s e m q u e h o m e n s e
mulheres, ao se confrontar c o m as necessidades de sua exis-
tência, f o r m u l a m seus próprios valores e criam sua cultura
própria, intrínsecos ao seu m o d o de vida. Nesses contextos,
não se p o d e conceber o ser social à parte da consciência social
e das n o r m a s . N ã o há sentido a l g u m e m atribuir o preva-
lecimento de u m sobre o u t r o . O s historiadores p o d e m re-
construir os diferentes m o d o s de vida, seus valores corres-
pondentes, de g r u p o s e ocupações particulares: a "indepen-
dência" d o artesão, os diversos valores comunais d o aldeão,
d o couteiro, da c o m u n i d a d e dos tecelões. E m alguns mo-
m e n t o s , a cultura e os valores dessas c o m u n i d a d e s p o d e m
opor-se ao abarcante sistema de d o m i n a ç ã o e controle. N o
e n t a n t o , p o r l o n g o s p e r í o d o s , esse a n t a g o n i s m o p o d e ser
d e s a r t i c u l a d o e i n i b i d o . C o m f r e q ü ê n c i a , há esse tipo de
" c o r t e " : o aldeão tem sua autoridade reconhecida localmen-
te, mas aceita a inevitável o r g a n i z a ç ã o d o m u n d o exterior
nos m o l d e s da h e g e m o n i a d o s p o d e r o s o s . Ele se ressente
a m a r g a m e n t e d o proprietário de terras e d o usurário, mas
segue acreditando em u m rei justo ou na eqüidade do czar.
F a t o c o m u m , até o protesto p o d e vir a ser legitimado nos
t e r m o s d o sistema dominante apropriando-se de sua retóri-
ca e c h e g a n d o a conferir-lhe u m novo propósito. O s pode-
rosos são injustos o u descuidados, devem ser relembrados
de suas obrigações e devem intervir para impedir que subor-
dinados o u comerciantes de gêneros alimentícios explorem
o povo. S o m e n t e em circunstâncias excepcionais as pessoas
realmente v ã o além da sua experiência local, de seus valores
vividos e apresentam u m desafio mais amplo.

261
A pressão d o ser social sobre a consciência social se re-
vela, a g o r a , não tanto p o r m e i o da clivagem horizontal base
e superestrutura, m a s p o r m e i o de a) congruências ^ b) contra-
dição, c) mudança involuntária. Por congruências, entendo as
regras "necessárias", as expectativas e os valores s e g u n d o os
quais as p e s s o a s vivem relações produtivas particulares. N ã o
se p o d e passar a vida inteira p r o t e s t a n d o ; é necessário dissi-
mular e lidar c o m o status quo. Q u a l q u e r sistema de produ-
ção c o n f o r m a as expectativas s e g u n d o a linha da m e n o r resis-
tência, visando à c o n f o r m i d a d e c o m suas regras. Por contra-
dição q u e r o dizer, primeiro, o conflito entre o m o d o de vi-
ver e as n o r m a s da c o m u n i d a d e local e ocupacional daqueles
da s o c i e d a d e " e n v o l v e n t e " . E m s e g u n d o lugar, conflito s ã o
as maneiras pelas quais o caráter essencialmente explorador
das relações produtivas se torna u m a experiência vivida, dan-
d o o r i g e m à m a n i f e s t a ç ã o de valores a n t a g o n i s t a s e a u m a
a m p l a crítica d o " s e n s o c o m u m " d o p o d e r . Por m u d a n ç a
involuntária m e refiro às m u d a n ç a s ulteriores na tecnologia,
d e m o g r a f i a e p o r aí vai (a "vida material", s e g u n d o Braudel:
novas lavouras, novas rotas comerciais, a descoberta de no-
vas reservas de o u r o , m u d a n ç a s na incidência de epidemias,
novas invenções mecânicas), cujas involuntárias repercussões
afetam o m o d o de p r o d u ç ã o em si, alterando, perceptivelmen-
te, o equilíbrio das relações produtivas.
Possivelmente, i s s o ainda p o d e ser t o m a d o c o m o u m a
a l t e r a ç ã o na " b a s e " . P o r é m m u d a n ç a s i n v o l u n t á r i a s d e s s a
ordem jamais reestruturaram o u reorganizaram um m o d o
de p r o d u ç ã o a s s i m , e s p o n t a n e a m e n t e . T a l v e z i n t r o d u z a m
n o v a s f o r ç a s e m cena e m o d i f i q u e m a correlação d e p o d e r e
r i q u e z a entre classes sociais diversas. M a s a c o n s e q ü ê n c i a da
reestruturação das relações de poder, das f o r m a s de d o m i n a -
ç ã o e d a o r g a n i z a ç ã o social t e m s e m p r e s i d o u m d e s d o b r a -

262
m e n t o d o conflito. A t r a n s f o r m a ç ã o da v i d a material deter-
m i n a as c o n d i ç õ e s d e s s a luta e parte de seu caráter, m a s o
r e s u l t a d o e s p e c í f i c o é d e t e r m i n a d o a p e n a s p e l a luta em si
m e s m a . I s s o significa q u e a t r a n s f o r m a ç ã o histórica aconte-
ce n ã o p o r u m a d a d a " b a s e " ter d a d o vida a u m a "superes-
t r u t u r a " c o r r e s p o n d e n t e , m a s p e l o f a t o de as alterações nas
relações p r o d u t i v a s serem vivenciadas na vida social e cultu-
ral, de repercutirem nas idéias e valores h u m a n o s e de serem
q u e s t i o n a d a s nas ações, escolhas e crenças h u m a n a s .
N a minha própria atividade, descobri que nao p o s s o
lidar c o m as c o n g r u ê n c i a s e c o m as c o n t r a d i ç õ e s d o p r o -
c e s s o h i s t ó r i c o m a i s p r o f u n d o s e m o b s e r v a r os p r o b l e m a s
r e v e l a d o s p e l o s a n t r o p ó l o g o s . E s t o u b e m ciente d o f a t o de
outros historiadores terem chegado à mesma conclusão,
m u i t o a n t e s de m i m , s e m terem e n x e r g a d o a n e c e s s i d a d e
de justificar a ampliação dos métodos e fontes históricos
c o m e s s e t i p o de d i s s e r t a ç ã o teórica. A p e n a s a e s b o c e i de-
v i d o à m i n h a i m p r e s s ã o acerca da relutância d o s historia-
d o r e s d a t r a d i ç ã o m a r x i s t a e m acrescentar esse a l a r g a m e n -
t o n e c e s s á r i o , p a r e c e n d o - m e q u e essa resistência deriva d e
u m a c o n t r a r i e d a d e t e ó r i c a s u b t e r r â n e a , f u n d a m e n t a d a na
n o ç ã o a l t a m e n t e restritiva d o q u e seja " a e c o n o m i a " e n u m a
a n a l o g i a infeliz. S e ajudei a identificar o l u g a r o n d e m o r a
a dificuldade, então meu propósito foi alcançado. Se não,
v o c ê s e n t ã o m e p e r d o e m p o r pensar e m v o z alta.

263
NOTAS

K e i t h T h o m a s , Religião c declínio da magia. S a o P a u l o : C o m p a n h i a das


Letras, 1991.
N a t a l i e D a v i s , Culturas do povo. Sociedade c cultura no inicio da França
moderna. R i o de J a n e i r o : P a z e Terra, 1 9 9 0 . ( O r i g i n a l m e n t e p u b l i c a d o
em 1 9 7 5 . )
C o m m a i o r c o m o d i d a d e , é possível c o n s u l t a r o livro de B r a n d em suas
edições posteriores ( 1 8 1 3 , 1 8 4 9 etc.), revistas e ampliadas p o r sir H e n r y
Ellis. O rermo folklore não foi u s a d o antes de 1 8 4 6 , q u a n d o William John
T h o m s o a d o t o u . Para s u a t r a j e t ó r i a s u b s e q ü e n t e , ver M . D o r s o n , The
British folklorists. A history. L o n d r e s , 1 9 6 8 .
M a x Müller, " O n manners and c u s t o m s " , in Chips from, a German workshop.
L o n d r e s , 1 8 6 7 , vol. II, p. 2 6 0 .
R o m i i a T h a p a r , The past and the prejudice. Nova Déli, 1975.
Tylor, Researches into the early history of mankind, and the development of
civilization, p. 2 7 3 . E l e preferia " e t n ó l o g o " a folclorista.
Müller, o p . cit., p p . 2 6 5 - 7 0 . E n t r e t a n t o , Müller era u m forte crítico d o s
intentos i m p r e c i s o s e p o u c o eruditos de traçar analogias entre os costu-
m e s e m i t o s indianos e e u r o p e u s . Ver " F o l k - l o r e " , u m a resenha a t r o z de
Curiosities of Indo-European tradition and folk-lore, dc W. K . Kelly. L o n -
dres, 1 8 6 3 . N o lugar de c o m p a r a ç õ e s superficiais, Müller sustenta, deve-
s e s e g u i r a pista das n a r r a ç õ e s e m i t o s de c a d a continente até s u a f o n t e
original na antigüidade ariana, e, aí, " v e j a m o s c o m o a m e s m a c o n c e p ç ã o

264
e o s m e s m o s m i t o s se e x p a n d i r a m g r a d u a l m e n t e e se diversificaram s o b
o s brilhantes céus da í n d i a e nos b o s q u e s da A l e m a n h a " .
A s u s u a i s reservas d o s britânicos c o n t r a o f o l c l o r e f o r a m r e a f i r m a d a s ,
a n o n i m a m e n t e , e m " T h e s t u d y o f f o l k l o r e " , Times Literary Supplement,
16 set., 1 9 6 9 .
D i g o i n g l e s a s e n ã o b r i t â n i c a s p o r q u e as t r a d i ç õ e s n a c i o n a i s e celtas
t ê m r e c e b i d o , c o m o era de se e s p e r a r , c r e s c e n t e a t e n ç ã o nas universi-
d a d e s da E s c ó c i a , País de Gales e I r l a n d a , p o d e n d o - s e citar tanto as ati-
vidades da Escola de E s t u d o s E s c o c e s e s , na Universidade de E d i m b u r g o ,
q u a n t o a influência e m diversas universidades galesas dos estudos da vida
d o p o v o (folk-life), s o b a inspiração d o d o u t o r I o r w e r t h Peate.
O p i o n e i r o e s t u d o de G . C. H o m a n s , English villagers of the thirteenth
century ( N o v a York, 1 9 4 1 ) , não teve d e s d o b r a m e n t o s por m u i t a s déca-
das. R e c e n t e m e n t e , foi f o r m a d o o C e n t r e for F o l k - L i f e S t u d i e s , na U n i -
versidade de L e e d s . Sinais desse n o v o interesse se vêem em C. Phythian-
A d a m s , Local history and folklore ( S t a n d i n g Conference o f L o c a l History,
26 B e d f o r d S q u a r e , L o n d r e s , W C I , 1 9 7 5 ) .
S h a b L a i S r i v a s t r a v a , Folk culture and oral tradition. N o v a Déli, 1974,
p. 8.
Ver, inter alia, Jack Goody, " T h e evolution o f the family", in Peter Lasletr
e R i c h a r d Wall ( o r g s . ) , Household and family in past time. C a m b r i d g e ,
1 9 7 2 ; Jack Goody, "Inheritance, property and w o m e n : s o m e comparative
c o n s i d e r a t i o n s " , in J a c k G o o d y , J o h n T h r i s k e E . P. T h o m p s o n , Family
and inheritance. C a m b r i d g e , 1 9 7 6 ; L u t z Bcrkner, " T h e s t e m family and
the developmental cycic o f the peasant h o u s e h o l d " , The American Histo-
rical Review, 1 9 7 2 ; S. J. Tambiah, " D o w r y and bridewealth and property
rights o f w o m e n in S o u t h A s i a " , in Jack G o o d y e S. J. T a m b i a h , Bridew-
ealth and dowry. C a m b r i d g e , 1 9 7 3 .
3 M . N . Srinivas, The remembered village. N o v a D é l i , 1 9 7 6 , p. 4 2 .
4 Para u m interessante e x e m p l o de tal c o n d e n a ç ã o , ver Hostages to índia,
or the life story of the Anglo-Indian race. C a l c u t á , 1 9 3 6 , p p . 7 8 - 9 .
s C o m e f e i t o , o pleno ritual da venda pública de e s p o s a s n ã o era, p r o v a -
velmente, n e n h u m tipo de sobrevivência, mas p r ó p r i o d o século X V I I I ,
6 P h y t h i a n - A d a m s , " C e r e m o n y a n d the citizen: the c o m m u n a l year at
Coventry, 1 4 5 0 - 1 5 5 0 " , in Peter Clark e Paul Slack (orgs.), Crisis and order
in English towns, J500-1700. Londres, 1972.

265
17 R o b e r t M a l c o l m s o n , Popular recreations in English society, 1700-1850.
C a m b r i d g e , 1 9 7 3 . Ver t a m b é m o s u g e s t i v o a r t i g o de G e r a l d S i d e r ,
" C h r i s t m a s m u m m i n g and the N e w Year in o u t p o r t N e w f o u n d l a n d " , Past
and Present, m a i o , 1 9 7 6 .
,H K e i t h T h o m a s , " W o r k and leisure in p r e - i n d u s t r i a l s o c i e t i e s " , Past and
Present, d e z . , 1 9 6 4 ; C h r i s t o p h e r H i l l , " T h e uses o f s a b b a t a r i a n i s m " , in
Society andpuritanism in pre-revolutionary England. Londres, 1964- E.
P. T h o m p s o n , " T i m e , w o r k - d i s c i p l i n e and i n d u s t r i a l c a p i t a l i s m " , Past
and Present, dez., 1 9 6 7 ; D o u g l a s R e i d , " T h e decline o f S a i n t M o n d a y " ,
Past and Present, m a i o , 1 9 7 6 ; H e r b e r t G u t m a n , Work, culture and society
in industrializing America. N o v a York, 1 9 7 6 .
19 K e i t h T h o m a s , Rule and misrule in the schools of early modern England.
University of Reading, 1 9 7 6 .
20 Michelle Pe r rot, Les ouvriers en greve. Paris, 1 9 7 4 ; William R e d d y , " T h e
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