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Diários de aula: análise de diários de uma professora de um curso superior

de tecnologia de Porto Alegre, RS


Marcelo Oliveira da Silva1

RESUMO - O presente estudo busca aproximar a metodologia dos diários de aula (cf.
ZABALZA, 2004), da prática de uma docente de um curso superior de tecnologia em uma
faculdade da cidade de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, Brasil. Para tanto, analisamos
três aulas registradas pela professora. Buscou-se identificar padrões de escrita nas
anotações realizadas. Foram identificadas duas categorias principais; a primeira em relação
à preparação da aula e os materiais necessários; e a segunda aparece na adjetivação das
aulas, dos alunos e da própria professora. Os diários não deixam transparecer dúvidas,
inquietações ou dilemas, mas permitem identificar características das aulas e da prática da
docente.

Palavras-chave: Diário, Diários Pedagógicos, Curso Superior de Tecnologia.

CLASSROOM DIARIES: AN ANALYSIS OF THE DIARIES OF A LECTURER


FROM A COLLEGE OF TECHNOLOGY IN PORTO ALEGRE, BRAZIL

ABSTRACT - This study seeks to verify the applicability of classroom diary methodologies
(cf. ZABALZA, 2004) to the everyday practice of a lecturer at a college of technology in the
city of Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brazil. To do so, we analyze three classes
registered by the teacher in her classroom diary. We have attempted to identify patterns in
her written notes. We identified two main categories: the first regarding lesson
preparation and the materials required, and the second concerning the use of adjectives
related to classes, the students and the teacher herself. The teacher did not make use of her
diary to express doubts, concerns or dilemmas, but rather to identify the characteristics of
her classes and the practice of teaching.

Keywords: diary, classroom diaries, colleges of technology.

1
Professor da Faculdade Senac Porto Alegre e doutorando em Educação pelo Programa de Pós-Graduação
em Educação da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PPGE PUCRS). E-mail:
moliveiras@gmail.com

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Introdução promovida, em parte, pela ascensão do
A palavra “diário” é polissêmica. Protestantismo, levou à popularização da
No dicionário, a terceira acepção da prática da leitura silenciosa. Até então, a
palavra é “obra em que se registram leitura em voz alta ainda era a forma mais
diária ou quase diariamente comum de acesso aos livros. Por outro
acontecimentos, impressões e confissões” lado, a leitura silenciosa permitia que as
(FERREIRA, 1999 p. 677). No presente pessoas formassem sua própria
estudo, buscaremos entender os diários interpretação do texto. Dessa forma,
em suas relações com o exercício da tornando-se mais íntima e introspectiva.
docência. Os registros das aulas em A busca pelo autoconhecimento e
diários permitem que o professor conheça pela privacidade, somadas à prática da
aspectos da sua personalidade? Na leitura individual, levaram a um novo
perspectiva trazida por Zabaza (2004), a interesse pela escrita autobiográfica.
escrita de diários de aula pode servir para Nesse contexto, “são o diário íntimo, as
a reflexão posterior do próprio professor, cartas, as confissões de modo geral, a
servido como fonte de retroalimentação, literatura autógrafa que atesta os
ou seja, feedback constante sobre sua progressos da alfabetização e uma relação
prática em sala de aula. estabelecida entre leitura, escrita e
A escrita de diários é uma forma autoconhecimento [grifo do autor]”
de se isolar e “de se conhecer melhor (ARIÈS, 1991, p. 11). Essa é a principal
através da escrita” (ARIÈS, 1991, p. 11). característica atribuída ao diário ao longo
A busca do autoconhecimento pela da história: texto de caráter pessoal,
escrita é uma constante da história da secreto e íntimo. Os diários ajudam a
civilização. Ainda na Idade Média, Santo entender uma época e seus costumes, e
Agostinho escreveu suas Confissões, que também a personalidade e as inquietações
representam uma busca da comunhão de quem os escreve, bem como os
com Deus por meio do texto. Ao costumes e práticas de determinada
introduzir o volume da História da Vida época.
Privada que trata do período da Esses diários pessoais, íntimos e,
Renascença ao Século das Luzes, Ariès em muitos casos, literários, são os que
(1991) afirma que, a partir do século Zabalza descreve como de escrita
XVI, a busca pela privacidade, “criativa e poética”, na qual “a narração

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responde não apenas aos critérios de forma de diário, o objetivo do autoexame
refletir a realidade (como no modelo – com a vantagem do distanciamento
jornalístico) como à possibilidade de temporal que o texto nos proporciona –
imaginar ou recriar as situações que se está presente. Nas palavras do autor:
narram” (2004, p.15). No presente artigo, “[e]screver sobre si mesmo traz consigo a
debruçamos sobre os diários de aula na realização dos processos a que antes
perspectiva proposta por Zabalza (2004), referimos: racionaliza-se a vivência ao
para entender a prática de uma professora escrevê-la, [...] reconstrói[-se] a
de um curso superior de tecnologia. Os experiência, com isso dando a
mesmos dados serviram para análise possibilidade de distanciamento e de
anterior em comparação com os diários análise” (2004, p. 18).
de outros professores. Para tanto, Mello (2003, s/p),
traçamos algumas considerações sobre complementando essa ideia, entende que
diários de aula, apresentamos os o diário de aula é o instrumento que serve
caminhos metodológicos. Como principal para “expressar qual é o estado atual da
achado, podemos afirmar que os diários nossa investigação sobre o pensamento
analisados trazem aspectos formais do do aluno em formação, naquilo que se
andamento e clima da aula. Os diários refere à parcela específica do trabalho
não revelam dilemas, nem apresentam a desenvolvido em sala de aula”. Já na
escrita de forma catártica. visão de Alves (2004, p. 227), para
podermos trabalhar com diários, devemos
Diários de aula tomar posicionamento “face à sua
Todas as formas de diário utilização, com a requerida confiança na
permitem o autoexame e, portanto, o sua possibilidade de traduzirem, válida e
autoconhecimento. Zabalza (2004), em fielmente, o pensamento e experiências
sua obra, trata de um subgênero dos seus autores” [grifos do autor]. Nesse
específico: os “diários de aula”, que não entendimento, os diários de aula
são estritamente planos de aula, registros possibilitam a análise de quatro âmbitos:
de presença ou de conteúdos ministrados. o mundo pessoal, os dilemas, a avaliação
Entretanto, os dois aspectos – o pessoal e e o reajuste de processos, bem como
o do registro – estão conjugados na perceber o desenvolvimento profissional
proposta metodológica do autor. Nessa do professor.

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O exercício da docência é bastante sobre as decisões que o professor deve
solitário, mesmo que em uma sala de aula tomar, impasses enfrentados entre o ideal
tenhamos cinquenta alunos inquietos, por e o que é possível naquele momento: a
exemplo. O que acontece em sala de aula gestão prática da aula. No entendimento
dificilmente é registrado; em alguns do referido autor, é pela utilização do
casos, é compartilhado na sala de diário que o professor pode deixar claro
professores quando há oportunidade, em ou implícito quais dilemas o perturbam, e
geral, acontece quando o relato é mais de quais mecanismos dispõe para resolvê-
sério e merece ser dividido. Para Zabalza los. Esses dilemas perpassam, muitas
(2004, p. 17), “os diários permitem aos vezes, a dicotomia entre a vida pessoal e
professores revisar elementos de seu profissional. Não há como separar os
mundo pessoal que frequentemente dilemas pessoais daqueles vividos em
permanecem ocultos à sua própria sala de aula.
percepção, enquanto está envolvido nas A terceira análise aborda os
ações cotidianas de trabalho”. O diário diários como acesso à avaliação e ao
permite que, ao escrevermos sobre nossas reajuste de processos didáticos,
“vivências e emoções”, possamos permitindo ao docente um distanciamento
organizá-las, ter uma análise distanciada reflexivo da sua prática. Para Zabalza
e, talvez, dividi-las com nossos colegas. (2004, p. 24), os diários podem se tornar
Os diários também são uma forma “o registro mais ou menos sistemático do
de explicitar os nossos próprios dilemas que acontece nas nossas aulas”, de modo
em relação à atuação profissional como a extrair uma “espécie de radiografia de
docentes. Zabalza (2004) conceitua nossa docência”. Porlan (1987 apud
dilemas como: ZABALZA, 2004) estabelece um
conjunto de operações que podem
[...] constructos descritivos (isto é, auxiliar nessa reflexão: (a) acumular
identificam situações dialéticas e/ou
conflitantes que ocorrem nos processos informação significativa sobre o processo
dialéticos) e próximos à realidade: se
referem não a grandes esquemas ensino-aprendizagem; (b) acumular
conceituais, mas a atuações específicas
concernentes a situações problemáticas
informação histórica sobre a aula e seu
no desenvolvimento da aula entorno; (c) registrar momentos,
(ZABALZA, 2004, p.19).
identificar problemas e acompanhar
Os dilemas fazem parte da ação
temas de interesse; (d) analisar dados e
docente, pois são fruto das reflexões

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refletir; (e) buscar solução para divide mais facilmente experiências e
problemas; e (f) usar o próprio diário pode trabalhar de modo cooperativo; (e)
como objeto de pesquisa. pode usar seu texto em conjunto ou de
Os diários de aula podem se forma complementar a outras
constituir um recurso para o metodologias de trabalho. A partir dessas
desenvolvimento profissional considerações, podemos pensar nas
permanente, pois, após realizarmos as múltiplas possibilidades de utilização dos
etapas anteriores, estaremos, certamente, diários, sejam elas como mecanismo de
em melhores condições de entendermos e catarse dos dilemas, como registro da
revermos a nossa prática docente. Nesse prática docente que permita a reflexão, ou
sentido, Zabalza (2004) estabelece cinco ainda como mecanismo auxiliar na
etapas cíclicas: (1) tomada de consciência avaliação dos alunos e da turma.
dos seus próprios atos; (2) aproximação Em sua experiência, Zabalza
analítica com relação às práticas (2004) identificou três tipos de diários. O
profissionais; (3) aprofundamento da primeiro deles é aquele em que aparece a
compreensão do significado das ações; aula organizada em sua estrutura,
(4) tomada de decisões e de iniciativas de assemelhando-se, portanto, ao
melhorias; e (5) início de um novo ciclo planejamento de aula. O segundo tipo é o
de atuação profissional. Zabalza (2004, que apresenta descrição de tarefas, que
p.29) acredita que é “justamente assim podem ser minuciosas em alguns casos
que nos instalamos em um circuito ou apenas identificadas em outros. Nesse
permanente de melhoria da qualidade de tipo de diário, é comum aparecerem os
nossa atividade profissional”. Entretanto, objetivos estabelecidos pelo professor
esse processo reflexivo é penoso e nem com relação à determinada atividade, o
sempre o professor está disposto a inicia- que permite entender a dinâmica das
lo. aulas. A terceira e última vertente de
O mesmo autor acrescenta ainda diários identificada pelo autor é o diário
outros aspectos do uso dos diários: (a) o expressivo e autoexpressivo. Esses
sujeito se acostuma a refletir e retorna, diários estão centrados nas pessoas que
narrando o que aconteceu; (b) acostuma- participam do processo, como se
se a escrever; (c) encontra no texto percebem, como atuam, o que sentem.
feedback imediato e permanente; (d) Nesse caso, o “fator pessoal predomina

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sobre o fator tarefa” (p. 62). Encontramos práticas pedagógicas e seus resultados;
ainda diários mistos, que combinam (c) como método de intervenção na
características dos três grupos. realidade, por meio da pesquisa-ação.
No entendimento de Silva e O autor propõe outro tipo de
Duarte: diário – o “Diário Etnográfico Profano”,
que é “um registro feito no dia a dia, de
[...] para que tudo isto se torne possível, acontecimentos e eventos cotidianos,
o professor deve elaborar descrições dos
acontecimentos que ultrapassem o nível ordinários e extraordinários”, a partir “da
do simples relato e contemplem a análise
das causas que o motivaram e das suas observação participante da vida social
consequências. Mais, não deve apenas
problematizar a prática, mas procurar
dos grupos e instituições das quais os
hipóteses bem fundamentadas que ‘diaristas’ fazem parte integrante”
constituam alternativas de acção.
(SILVA; DUARTE, 2001, p. 74) (HAMMOUTI, 2002, p. 13). Os
Dessa forma, as autoras “diaristas” podem ser tanto professores
asseveram que o diário de aula deve ir quanto alunos, proporcionando uma
além da mera descrição de fatos e “autoanálise coletiva da instituição
comportamentos para poder aprofundar educativa ou do projeto institucional,
as questões emergentes da prática da sala pedagógico, político e social” (p. 17).
de aula. As autoras propõem que os
diários de aula sejam utilizados como Aspectos metodológicos
ferramenta na formação de professores e Para entendermos o contexto em
que, por meio deles, seja possibilitada a que está inserido o presente estudo,
reflexão e ação mais efetiva na prática do valem algumas considerações
professor. metodológicas. O autor trabalha em uma
Na percepção de Hammouti instituição de ensino superior, que
(2002), o diário pode ser utilizado de oferece majoritariamente cursos de
diversas formas: (a) como metodologia graduação tecnológica, dessa forma,
de pesquisa, na coleta de dados e como solicitou aos colegas que elaborassem
fonte de análise da subjetividade do diários de aula, como prática reflexiva.
escritor do diário; (b) como possibilidade Os dados aqui analisados foram
de formação continuada de professores, anteriormente publicados, com outro foco
desenvolvimento profissional e pessoal, – a escrita reflexiva desses professores
oportunidade de reflexão por meio das sujeitos da pesquisa. A análise realizada

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no presente artigo está direcionada aos aos padrões identificados no diário de
registros de uma das professoras que aula.
concordou em participar da pesquisa. A
professora, sujeito da pesquisa, entregou Análise de dados

o registro de três dias de aula. A professora, ora sujeito de

O presente estudo é fruto de pesquisa, leciona em um curso de

análise realizada posteriormente, com os graduação tecnológica, e disponibilizou

mesmos dados coletados. Decidimos três registros de suas aulas. Pela leitura

combinar a técnica de análise de dados flutuante, pudemos perceber que os

proposta por Bardin (1999) com a diários seguem um mesmo esquema em

proposta de análise de Zabalza (2004) aos sua organização: preparação das aulas,

diários entregues por uma das materiais que serão utilizados e prazos;

professoras. Seguimos o proposto por em seguida, estabelece os objetivos da

Zabalza (2004, p. 58-59) como aula; logo, há uma descrição de como os

metodologia: uma primeira “leitura alunos se comportaram; por fim,

exploratória” para evitar uma tipificação características da professora que

prematura; uma “segunda leitura, com influenciam o comprometimento dos

anotações à margem e seleção de alunos e o bom andamento das aulas.

afirmações e dados relevantes”. Nos diários, pouco encontramos

A segunda leitura deve seguir três dilemas, dúvidas, angústias ou

focos de atenção: (a) as pautas ou inquietações vivenciados pela professora.

patterns (padrões), que permitem uma Sua escrita é bastante direta, objetiva e,

caracterização descritiva da aula; (b) os portanto, pouco pessoal. Os diários

dilemas que professor apresenta, ou o analisados estão em desacordo com uma

conjunto de aspectos que o professor das possibilidades propostas por Zabalza

apresenta como problemáticos e que (2004) para o uso do diário de aula, que é

resultam em preocupações, incertezas ou a escrita como forma de reflexão da

reflexões; e (c) as tarefas realizadas em prática do professor, proporcionando o

aula, com relação às estratégias usadas autoconhecimento. O diário estimula a

pelo professor para cada aprendizagem autoinvestigação, o professor como seu

pretendida. Na análise, o foco se voltará próprio investigador.

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Os diários da docente revelam caso deste diário, a docente apresenta as
algumas práticas pedagógicas: tarefas e tece alguns comentários sobre o
planejamento, execução e percepção da desenvolvimento das mesmas. Dessa
aula. Entretanto, não se caracteriza como forma, vale o questionamento sobre as
escrita reflexiva. Um exemplo se possibilidades de reflexão, em um
encontra no seguinte registro da primeira registro que revela pouco sobre a
aula no diário: condição da professora em sala de aula,
suas inquietações e dilemas. Entretanto,
Objetivos alcançados (cfe previsto
p/aula inicial): levar ao conhecimento os diários apresentados são bastante
dos alunos...
1º - Apresentação dos professores reveladores da proposta pedagógica, da
(havia tb o professor que irá desenvolver
as ações práticas da U.E.[Unidade de
formatação da aula e da autoimagem da
estudo]) e acadêmicos. professora.
2º - Plano da U. E. – ementa e proposta
de competências; focos temáticos; Em um segundo momento da
estratégias de ensino e aprendizagem;
avaliação de processo; bibliografia análise, buscamos identificar padrões nos
básica e complementar.
3º - Fundamentos (conceitos iniciais) diários analisados e suas recorrências.
[...]
4º - Finalização da aula com entrega
Chamaram nossa atenção duas categorias
das cópias dos textos p/leitura e estudo principais na leitura dos diários. A
[...]. [grifos da docente]
primeira categoria apresenta o
Quando a docente estabelece os planejamento e o uso dos materiais
passos que foram seguidos nas aulas, didáticos; já a segunda identifica a
como em um plano de aula, já avisa de caracterização do clima da aula e do
antemão que os objetivos foram comportamento, além de atitudes dos
alcançados de forma satisfatória. Dessa alunos e as representações da própria
forma, não deixa margem para dúvidas – docente. A segunda categoria foi dividida
planejamento realizado, objetivos em quatro quadros, em que são
cumpridos, “ações que comprometem o apresentadas as qualidades atribuídas a
aluno e adquirem respeito e segurança cada uma das subcategorias.
pelo ensino a ser ministrado”. Nos outros A seguir, apresentamos o Quadro
diários analisados, a professora segue o 1, que resume a primeira categoria a ser
mesmo tipo de esquematização. Trata-se analisada.
do que Zabalza (2004, p. 61) chama de
“diário como descrição das tarefas”: no

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Quadro 1 – Planejamento e materiais a uma boa aula. Algumas dessas
Diário 1 Diário 2 Diário 3
orientações atribuições são frequentemente encaradas
padrões e
da --
orientações pelos professores como tarefas de menor
coordenação
normativas normativas normativas importância, até mesmo pelo seu caráter
da IES das IES das IES
antecedência burocrático. Entretanto, percebemos,
antecedência
(2)
conforme conforme pelos registros analisados, que a docente
--
cronograma cronograma
utilização entende o planejamento, agendamento de
utilização
adequada
-- adequada do
do material
materiais e execução do cronograma
quadro
e do quadro como questões fundamentais para as
entrega dos disponibilizar entrega dos
materiais e materiais e materiais e atividades em sala de aula. Dessa forma,
documentos documentos documentos
de apoio de apoio de apoio esses aspectos se refletem diretamente na
Fonte: do Autor do artigo
relação com a aprendizagem dos alunos,
Pelas recorrências identificadas segundo os registros analisados.
nos diários, podemos entender que a As aulas registradas em forma de
professora preza pelo cumprimento do diário seguem o mesmo padrão de escrita.
que é determinado pela instituição e das Em três diários, a professora repete a
orientações recebidas da coordenação de mesma frase em relação ao planejamento
curso. Como a organização parece ser da aula: “Utilização adequada do quadro
fundamental para a professora, o branco e canetas marcadores nas cores
planejamento com antecedência, que é preta, azul e vermelha”. Seguindo esse
exigido pela Instituição para raciocínio, a docente acredita que o “uso
agendamento de materiais, salas e adequado e correto do quadro branco
fotocópias, aparece duas vezes no com canetas de cores diversas é um ótimo
primeiro diário e uma no segundo. Nesse recurso para um ensino-aprendizagem de
planejamento, a professora estabelece um boa qualidade”. Em conversa posterior a
cronograma, que, ao menos nas aulas entrega dos diários, a professora relatou
descritas, foi seguido à risca. que seria interessante que houvesse um
O resultado de seguir as regras e formulário padrão para e escrita de
orientações, planejar e executar o diários. Dessa forma, contrariando a
cronograma, utilizar métodos e materiais proposta de uma escrita catártica e
de forma adequada e entregar materiais reflexiva dos diários de aula.
de apoio, leva, na percepção da docente,

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Um segundo padrão encontrado primeiro registro: “Este dia de aula foi
nos diários se encontra nas palavras gratificante”. Mesmo que não apareça em
utilizadas pela professora para descrever outros diários, mantivemos como
as aulas, os alunos e a si mesma. No caracterização da aula, pela relevância de
Quadro 2, apresentamos a caracterização ser a única expressão da docente em
realizada pela professora das suas aulas. relação a seus sentimentos.
A professora também retrata que
Quadro 2 – Caracterização das aulas os conteúdos ministrados permitem
Diário 1 Diário 2 Diário 3
gratificante -- -- “discussões de casos”, ou seja, a
clima e
clima e clima e professora e os alunos trazem exemplos
ambiente
ambiente ambiente
descontraído
descontraído descontraído que “ilustra[m] a aula”. Como estamos
e leve
discussões inseridos no contexto de um curso de
de casos [...]
-- -- tecnologia, é esperado que os alunos e os
ilustraram a
aula
[...] sempre professores estabeleçam ligações entre a
são motivo teoria com exemplos práticos, com a
-- --
de atenção
dos alunos realidade e com as experiências
ilustrar com
-- vídeos e -- vivenciadas. A professora acrescenta que
slides
Fonte: do Autor do artigo o uso de vídeos e slides são “boas
alternativas para o turno da noite”. Aqui,
Em relação às representações
podemos entender a prática docente no
sobre o espaço da sala de aula, a
contexto dos alunos do noturno, pois, em
professora identifica, nos três diários que
geral, chegam cansados, direto do
as aulas transcorreram em um “clima e
trabalho para a aula. O professor precisa
ambiente descontraído; no primeiro
utilizar métodos que os mantenham
diário, aparece ainda o adjetivo “leve”.
acordados, participativos e atentos.
Pela leitura dos diários, fica claro que há
Seguindo essa caracterização, a
uma preocupação da professora em
professora utiliza mais adjetivos para
relação ao ambiente de sala de aula e,
descrever a postura e comportamento dos
também, que percebe que o clima é
alunos do que para a própria aula.
amistoso e informal.
Elencamos essas representações no
Há apenas uma representação
Quadro 3 a seguir:
pessoal sobre o sentimento da professora
em relação à prática de sala de aula no

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trabalho e de seus familiares para que
Quadro 3 – Caracterização dos alunos
Diário 1 Diário 2 Diário 3 ilustrem a aula.
concentrados
concentrados Os alunos da Instituição estudada,
, interessados
,
e
interessados interessados e na sua maioria, vêm do mundo do
participativos
e participativos
; trabalho. Alguns, que apenas estudam,
participativo
demonstrara
s
m interesse logo conseguem estágio na área. Dessa
intervenções intervenções
Nihil forma, o comportamento atribuído pela
pertinentes pertinentes
experiências experiências
de vida dos alunos e
experiências professora aos alunos é comum na
de vida
(ilustrações) familiares Faculdade. Ressaltamos que não há
alunos
-- --
reflexivos registro de situações que possam
comprometido
-- -- interferir negativamente nas aulas
s
já estagiou
ou trabalha registradas. Nessa categoria, aparecem os
vivências em na área;
-- registros que Zabalza (2004, p. 62)
estágios experiências
de vida e do chama “de diários como expressão das
trabalho
Fonte: do Autor do artigo características dos alunos”. O autor

Nos diários analisados aparecem identifica uma característica forte nesse

características dos alunos relacionadas à tipo de diário: “o diário é uma constante

sua postura em sala de aula: “Alguns referência a nomes de alunos, ao que

alunos mostraram-se interessados e cada um deles faz, a como vão evoluindo,

participativos. Houve interesse dos a como o professor os vê”. Nos diários

alunos em saber quais medidas estudados, a referência aos alunos é

preventivas”. Nos outros dois diários, os sempre no coletivo (“os alunos”, “alguns

alunos são descritos como “concentrados, alunos”), e não há individualizações,

interessados e participativos”. No como na conceituação de Zabalza.

segundo registro do diário, os discentes Entretanto, podemos pensar na

aparecem como reflexivos sobre as suas realidade de um professor do ensino

próprias práticas e experiências, e superior, que tem várias turmas repletas

comprometidos com a aprendizagem. Os de alunos, atua em mais de uma

alunos realizam “intervenções instituição, em mais de um curso. No

pertinentes”, pois trazem suas caso do curso em que os diários foram

“experiências de vida”, de estágio e desenvolvidos, por se tratar de uma turma


de terceiro semestre, a média de alunos é

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de trinta por turno. A única pessoa que Entretanto, a docente recorre à
tem registro com nome e atitude é a autoexpressão ao descrever suas
assessora pedagógica da mantenedora, habilidades e competências. Retratamos a
que vista as aulas para avaliar a prática autoimagem da docente no Quadro 4:
docente. A observação da assessora foi
Quadro 4 – Autoimagem da professora
retratada da seguinte forma: “Devo Diário 1 Diário 2 Diário 3
registrar que nos dois últimos períodos pontualidade -- --
segurança
segurança segurança
recebi a visita da Prof. [nome suprimido], demonstrada
organização -- organização
que realizou a supervisão pedagógica de experiência;
-- conhecimento; --
minha conduta nesta aula, tendo recebido domínio;
ao final dos períodos a devolução da entrega dos disponibilizar entrega dos
materiais e materiais e materiais e
avaliação”. Nesse caso, a docente não documentos documentos documentos
de apoio de apoio de apoio
teceu comentários de como se sentiu, ou ilustrar com
-- --
vídeos e slides
qual foi o feedback recebido. Fonte: do Autor do artigo
Além disso, não há como saber se
a presença da assessora pedagógica Pela análise do Quadro 4,
interferiu no andamento da aula, ou no podemos perceber que algumas atitudes,
ambiente, ou nos sentimentos e ações da no entendimento da professora, levam ao
professora, exceto quando esta afirma: comprometimento do aluno:
“sendo que a participação e colaboração pontualidade, segurança, experiência,
dos alunos e da Prof. [nome suprimido] domínio de conteúdos e organização.
nas discussões de casos já identificados Aqui, o professor se torna um modelo a
ilustram sobremaneira a aula”. Como ser seguido pela turma – por exemplo, se
trabalho diretamente com a assessora o professor chega atrasado, não pode
pedagógica, pude ouvir vários relatos cobrar pontualidade dos alunos. A
dessa participação ativa na observação da proposta da professora parece ser a de um
aula – quando gosta da aula, empolga-se círculo virtuoso entre o modelo de
e participa ativamente como se fosse uma conduta adotado por ela e o exigido dos
aluna. Outros professores relataram de alunos.
maneira informal que sentiram certo Outra questão que aparece nos
desconforto com a presença de uma três diários analisados é o
pessoa que os estava avaliando. comprometimento em entregar aos alunos

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materiais (fotocópias, lista de da assessora pedagógica para efetuar uma
bibliografia, casos para estudo) com avaliação. Por mais experiência, reflexão
antecedência (tempo hábil para o acesso). e conteúdo que tenhamos acumulado em
Dessa maneira, a relevância conferida ao nossa vivência de sala de aula, sempre há
planejamento perpassa a descrição da novas situações que devemos enfrentar.
aula e da própria descrição da atuação da A experiência docente e suas relações
professora. Com esse entendimento, com os imprevistos valeria uma
poderíamos pensar que o planejamento investigação posterior.
evitaria possíveis percalços nas relações No relato inicial de Zabalza
estabelecidas entre professor e alunos e (2004, p. 09) sobre as primeiras
entre professor e instituição (coordenação experiências ao escrever um diário, o
de curso). autor relembra: “Naquela ocasião,
Complementando as ideias escrever um diário foi como travar uma
anteriormente trazidas, a professora espécie de diálogo comigo mesmo, tratar
enaltece suas próprias qualidades de de racionalizar ao acabar a jornada”
forma repetida em seu diário, como a [grifo do autor]. Haveria que investigar se
seguir: essa necessidade de catarse permanece
com o acúmulo de experiência, ou se o
A experiência e conhecimento prático da
professora, segurança e organização distanciamento proposto pelo diário de
demonstrada ao fundamentar o tema em
estudo e a entrega dos materiais e aula não se faz mais necessário. Outra
documentos de apoio instrucionais
necessários são essenciais para
inquietação que nos surge é em relação
desenvolver um estudo e ensino de boa ao “circulo de melhoria” identificado por
qualidade.
Zabalza (2004) como um dos principais
É claro que esses elementos resultados da escrita de diários. Esse
também instrumentalizam uma boa aula. círculo de melhoria é “capaz de nos
Nem sempre temos a possibilidade de introduzir em uma dinâmica de revisão e
trabalhar nas melhores condições físicas, enriquecimento da consciência” [grifo do
psíquicas e de infraestrutura institucional. autor] (p. 11). De modo, que essas
Problemas acontecem com certa reflexões não se encerram com a
frequência no fazer docente. Às vezes, elaboração deste artigo.
inclusive, não conseguimos controlar
interferências externas, como a presença

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Considerações finais pedagógicas em profundidade na sua
De modo a encerrar a reflexão escrita. Por outro lado, a professora está
proposta, apresentamos algumas sempre preocupada com o processo de
considerações. O estudo dos diários de ensino-aprendizagem, com o crescimento
aula pode ser tão fascinante quanto os dos alunos, e utiliza metodologias
relatos dos diários literários. Nos dois distintas (ao que tudo indica, bem
tipos, encontramos revelações de traços aplicadas a suas aulas).
da personalidade, inquietações e Zabalza (2004, p.142) acredita
idiossincrasias do “diarista”. que devemos escrever um diário “quando
Os professores, por meio de sua sentimos que estamos sendo muito
escrita, também revelam suas práticas e pressionados ou acumulando muita
aspectos de sua personalidade da mesma tensão interna.” Segue afirmando que “o
forma que na literatura. Nos diários, diário nos oferece um mecanismo de
aprendemos sobre os costumes de uma catarse protegida [grifo do autor]”. A
época (prática) e sobre as crenças de professora tem uma longa carreira na
quem registrou seus pensamentos. docência, e já foi coordenadora de curso,
Barcellos (2009, p.15), um pesquisador o que talvez tenha ligação direta com o
da área de História que estuda diários dos não aparecimento de dilemas em seus
mais diversos, admite que os “diaristas” diários. Por outro lado, é possível que
gostam “de ver a imagem que cada um tenha desenvolvido certo receio de fazer
faz de si”; dessa maneira, revelamos essa catarse e de se expor.
nossa autoimagem, como no caso Na obra Diários de aula,
estudado. encontramos frequentemente a
Cada relato pode ser interpretado preocupação do autor com a reflexão – o
de forma diferente pelos leitores. A diário serve para que o profissional tenha
autoimagem refletida no diário nem um distanciamento da sua própria prática,
sempre é a mesma do leitor. Nos diários e possa reavaliá-la. A velocidade, que nos
analisados, a professora ressalta a leva de semestre a semestre,
organização da instituição e da professora frequentemente não permite aos
como os fatores mais importantes para o professores a parada necessária para a
sucesso de uma aula. Os registros não reflexão sobre sua prática pedagógica. Se
apresentam dilemas ou reflexões não pararmos, ordenarmos nossos

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pensamentos e analisarmos nosso fazer entre a leitura escrita e a produção do
conhecimento. 14º congresso de leitura
docente, como seremos melhores
do Brasil. Anais. Jun. 2003. Disponível
professores? A prática do diário pode ser em:
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a resposta para alguns professores, que se
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