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O LIVRO DIDÁTICO DE MATEMÁTICA E OS TEMAS

TRANSVERSAIS/POLÍTICO-SOCIAIS: UM ESTUDO DOS CONTEÚDOS DE


GRANDEZAS E MEDIDAS PARA A QUINTA SÉRIE DO ENSINO
FUNDAMENTAL1

Fabiana Cezário de Almeida2 – Faculdade de Ciências – UNESP –


fabiceza@fc.unesp.br
Mara Sueli Simão Moraes3 – Faculdade de Ciências – UNESP – msmoraes@fc.unesp.br

Uma das preocupações do trabalho educativo além do processo de ensino e


aprendizagem dos conteúdos científicos historicamente acumulados pelos homens, trata
da formação para a cidadania. Essa preocupação encontra respaldo na Lei de Diretrizes
e Bases da Educação Nacional (LDB 9394/96), nas Diretrizes Curriculares Nacionais
para o Ensino Fundamental e nos Parâmetros Curriculares Nacionais, sendo estes
últimos, documentos de caráter não obrigatório.
As Diretrizes Curriculares Nacionais e a LDB 9394/96 dispõem que, para a
formação da cidadania, torna-se necessário que as propostas pedagógicas nas diferentes
escolas sejam complementadas por uma parte diversificada, além da base nacional
comum.
Essa parte diversificada visa a estabelecer relações entre a educação fundamental
e a vida cidadã nos seus diversos aspectos como: a saúde, a sexualidade, o meio
ambiente, a vida familiar e social, o trabalho, a ciência, a cultura e tecnologia e as
linguagens, bem como outros assuntos que forem julgados pertinentes nas diferentes
regiões brasileiras.
Pensando na formação para a cidadania que a Secretaria da Educação apresentou
os documentos PCN - Temas Transversais. Esses documentos propõem que sejam
trabalhadas, em sala de aula, questões sociais de urgência para a população nas
diferentes disciplinas curriculares, na busca por uma formação intelectual e social do
indivíduo.
1 Trabalho baseado na Dissertação de Mestrado em andamento “O Livro Didático de Matemática para o
Ensino Fundamental e o Temas Transversais: realidade ou utopia?”
2 Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Educação para a Ciência – UNESP – Campus de Bauru.
Membro do Grupo de Pesquisa - Pedagogia Histórico-Crítica e o Ensino e Aprendizagem de Matemática.
3 Professora Doutora do Departamento de Matemática e do Programa de Pós-Graduação em Educação
para a Ciência – UNESP – Campus de Bauru. Líder do Grupo de Pesquisa do CNPq - Pedagogia
Histórico-Crítica e o Ensino e Aprendizagem de Matemática.
2

Na Matemática, a preocupação se faz em articular seus conteúdos às outras áreas


do conhecimento, bem como proporcionar aos alunos o significado e aproximação dos
conteúdos na vida em seus diversos aspectos.
A partir dessa preocupação que surgem questões do tipo: Como um dos materiais
mais utilizados em sala de aula de Matemática, o Livro Didático, faz a articulação dos
conteúdos clássicos de Matemática com os conteúdos de caráter social? Essa articulação
é real, ou seja, os Livros Didáticos abordam os Temas Transversais?
Para o trabalho em sala de aula, Moraes (2002) defende uma nova articulação
dos conteúdos específicos e dos Temas Transversais. Esses últimos devem ser os eixos
estruturadores do currículo e as disciplinas que contêm os conteúdos específicos
perpassarem os mesmos. Essa autora sugere ainda que os Temas Transversais sejam
denominados como Temas Político-Sociais, pois:
[...] em última instância – são o caminho ideal para a
politização de nossos alunos, indo além do discurso dos PCN,
na consecução de uma sociedade igualitária. São eles que
permitem a apropriação de conceitos, mudanças de atitudes e
procedimentos onde cada aluno participará de forma autônoma
na construção e melhorias da comunidade em que se insere.
(MORAES, 2002, p.9).

De acordo com Moraes (2002), essa mudança não é apenas uma alteração de
nomenclatura, mas sim uma nova maneira de se trabalhar esses temas. O professor deve
assumir uma nova postura frente ao trabalho com os mesmos, uma postura que envolva
o aluno em uma reflexão crítica da realidade social brasileira, propiciando condições
para que trabalhe em prol da construção de uma sociedade emancipadora para todos.
A preocupação com a formação para a cidadania refletiu na forma de avaliar e
selecionar os Livros Didáticos, que passaram a ser avaliados pelo MEC de forma mais
detalhada, com critérios de avaliação da construção da mesma.
Neste trabalho, a preocupação é investigar como os Livros Didáticos articulam
os conteúdos específicos com os conteúdos político-sociais, entendendo-se que essa
articulação não seja apenas uma contextualização com o dia-a-dia dos alunos e sim com
a formação do cidadão do hoje e do amanhã, possibilitando o entendimento dos
conteúdos específicos da Matemática na vida além da esfera cotidiana, atentando-se a
3

idéia equivocada de contexto, para que os alunos não sejam prejudicados com
conteúdos descartados por serem julgados como não parte de sua realidade.
Essa preocupação de vinculação dos conteúdos específicos aos conteúdos
Transversais/Político-Sociais orientou essa pesquisa na perspectiva da Pedagogia
Histórico-Crítica (PHC), por entender que essa teoria vai ao encontro ao que se pretende
com a abordagem dos Temas Político-Sociais.
A PHC concilia-se com a abordagem dos Temas Político-Sociais de interesse da
sociedade, pois tem como fundamental preocupação articular a escola com os interesses
das camadas populares, proporcionando assim uma formação em que os indivíduos
tomem posse do saber elaborado, socialmente e culturalmente acumulado, além de
possibilitar a eles a formação de uma consciência crítica.
Dentre os diversos conteúdos da Matemática, este trabalho destacou os
referentes ao bloco de Grandezas e Medidas por serem conteúdos que além de
guardarem conexões com as outras áreas do conhecimento, são conteúdos de forte
relevância social, desempenham um papel de grande importância nos currículos,
possibilitam uma maior aproximação dos conhecimentos matemáticos com a vida social
e estão presentes em quase todas as atividades realizadas na vida dos alunos.
Portanto, este trabalho traz a análise sobre os Livros Didáticos de Matemática
para a 5ª série do Ensino Fundamental 3° ciclo; se contemplam os conteúdos de
Grandezas e Medidas articulando os mesmos aos Temas Político-Sociais bem como à
metodologia utilizada para essa articulação.
As coleções analisadas foram escolhidas de acordo com a avaliação do MEC
sobre obras avaliadas e recomendadas e por serem utilizadas em sala de aula. A pesquisa
tem como amostra as escolas da Diretoria Regional de Ensino de Bauru.

Alguns fundamentos Críticos para o estudo dos conteúdos matemáticos


apresentados ao Livro Didático
De acordo com os ideais da PHC, a educação escolar configura-se segundo
Saviani (2003) como um processo de transformação da realidade natural em uma
realidade humanizada e é responsável em transmitir aos indivíduos além dos conteúdos
4

“clássicos4 específico de cada disciplina”, conteúdos que tenha como finalidade a crítica
social.
Sendo assim, para esse autor, a tarefa da educação é a realização da troca do
senso comum pelo saber científico, devendo a escola ser a responsável e a mediadora
dessa troca.
Ai a importância do acesso ao saber escolar que deve ser possibilitado a todos os
indivíduos. Essa defesa é uma “bandeira de luta” por todos os educadores que se
identificam com a PHC, segundo Giardinetto (2006), que ressalta ainda que essa defesa
não é da escola que está ai, “o que se defende é a escola enquanto legado histórico que a
faz ser instituição formativa necessária e imprescindível a todo indivíduo”
(GIARDINETTO, 2006, p.88).
Na PHC, o contexto da aula deve partir da realidade social vista como prática
social. Esta deve ser o ponto de partida e de chegada no processo de ensino, porém
deve-se chegar a uma prática social renovada, pois o ensino deverá identificar,
equacionar e sugerir soluções para os problemas que são postos pela prática social
inicial. Portanto, os conteúdos que serão ensinados aos alunos deverão compreender
além de uma cultura erudita, a clássica, que possibilite a todos a aquisição da herança
histórica e cultural produzida pela humanidade, também, os temas de urgência da
sociedade.
Acreditamos que o trabalho com os Temas Transversais/Político-Sociais como
eixos norteadores do currículo torna possível a articulação dos conteúdos específicos da
Matemática com os conteúdos Político-Sociais de interesse da população.

Enfim, os Temas Transversais/Político-Sociais, ensinados-


aprendidos como eixos centrais do currículo, permitirão a
efetiva educação para a vida em comum, para a realização de
projetos em sociedade compartilhada e possibilitarão a gestão
dos conflitos de forma inteligente, eliminando,
progressivamente, as desigualdades econômicas, acompanhadas
da discriminação individual e social. (MORAES, 2002, p. 9).

4 O clássico não se confunde com o tradicional e também não se opõe, necessariamente, ao moderno e
muito menos ao atual. O clássico é aquilo que se firmou como fundamental, como essencial. Pode, pois,
constituir-se num critério útil para a seleção dos conteúdos de trabalho pedagógico (SAVIANI, 2003, p.
13-14).
5

Esse tipo de educação pretendida só terá efeito se os indivíduos puderem ter


acesso a esses conteúdos aliados aos conteúdos específicos, permitindo o início de um
pensar crítico e a busca de melhorias para a vida em sociedade.

O Livro Didático e os Conteúdos de Grandezas e Medidas

Os Livros Didáticos são materiais que no Brasil, de acordo com Romanatto


(2004), sempre foram considerados de qualidade duvidosa, não cumprindo seu papel de
apoio ao processo educacional, pois são autoritários e fechados, com exercícios que
pedem respostas padronizadas, não permitindo aos alunos e professores um debate
crítico e criativo.
Essas discussões e críticas acerca do Livro Didático não contribuem para que
esse material deixe de ser considerado como um instrumento que não pode faltar no
processo de escolarização, pois são auxiliares importantes da atividade docente.
Lopes (2000) defende que os Livros Didáticos de Matemática devem preocupar-
se com a questão crítico-social dos conteúdos, para que os conteúdos apresentados nos
Livros Didáticos possam conciliar os interesses e experiências dos alunos,
possibilitando a esses compreenderem a realidade. Dessa forma, segundo Lopes (2000),
há necessidade de incorporar novos contextos para que as reflexões sobre eles façam os
alunos progredirem tanto em nível de conteúdo, quanto em espírito crítico.
De acordo com os PCN-Matemática 3º e 4º ciclos (1998), no estudo dos
conteúdos relativos ao bloco de Grandezas e Medidas, deverá se destacar a importância
dos processos de medição e utilização das grandezas para descrever e comparar
fenômenos. Esses documentos destacam ainda que, são no terceiro e quarto ciclos que
os conteúdos deverão além de retomar as noções já vistas nos ciclos anteriores, também
se iniciar o estudo das medidas de ângulo, de volume e de unidades de informática,
utilizadas para medir capacidade de memória, como os kilobites.
O trabalho nesses ciclos deverá mostrar que o universo das Grandezas e Medidas
é amplo e o quanto se pode explorar e aprender estudando e conhecendo esses
conteúdos, permitindo o entendimento da evolução social e histórica do conhecimento
matemático.
O estudo desses conteúdos permite que os alunos refaçam o caminho feito pela
humanidade, ao perceberem que na medição de diferentes grandezas, muitas vezes a
unidade escolhida não cabe um número inteiro de vezes na grandeza que está sendo
6

medida, portanto, os números naturais, até então únicos conhecidos por eles, não são
suficientes para representar os valores dessas medidas, o que possibilita a abordagem
dos números racionais em suas formas fracionárias e decimais, atrelados aos conteúdos
de Grandezas e Medidas.
Portanto, em sala de aula local que o Livro Didático tem uma participação quase
que integral no processo de ensino-aprendizagem dos conteúdos e a educação escolar
visa à formação para a cidadania, cidadania essa defendida aqui como a formação do
cidadão crítico preocupado com uma sociedade emancipadora para todos. É importante
que os conteúdos referentes ao bloco de Grandezas e Medidas, que têm forte vinculação
com a vida social dos alunos devam ser articulados com eficácia aos conteúdos político-
sociais e sejam apresentados aos Livros Didáticos com essa articulação.

A análise
A primeira coleção5
A abordagem Transversal/Político-Social nos conteúdos de Grandezas e Medidas
do volume para a quinta série na primeira coleção

O volume para a quinta série desta coleção aborda os conteúdos de Grandezas e


Medidas distribuídos no decorrer de todo o livro por meio de atividades, o que
proporciona perceber o quanto esses conteúdos estão relacionados com os demais
blocos de conteúdos matemáticos, destacando-se a relação com os números racionais.
Não há nessa coleção a apresentação dos conteúdos de forma sistematizada, no sentido
de apresentara teoria no inicio de cada capítulo.
Os conteúdos e atividades propostos possibilitam que os alunos calculem áreas
de figuras planas utilizando-se de malhas e da fórmula convencional. Reconheçam
grandezas de comprimento, massa, temperatura, capacidade, tempo. Estabeleçam
conversões entre unidades de medida mais usuais. Indiquem o volume de um recipiente
em forma de paralelepípedo retângulo pela contagem de cubos. Reconheçam alguns
instrumentos de medidas como régua, balança e relógio. Possibilitam também que os
alunos entrem em contato e aprendam a importância das unidades padronizadas de
medidas. Reconheçam o metro como unidade principal da grandeza comprimento, bem

5 IMENES, L.M.; LELLIS.M. Matemática para Todos. São Paulo:Scipione, 2002


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como seus submúltiplos e que percebam o quanto as medidas das diferentes grandezas
estão relacionadas aos números racionais, estudando os mesmos em sua escrita decimal.
A coleção também apresenta textos no final de cada capítulo sobre a História da
Matemática referente ao estudo do assunto que cada conteúdo abordou.
As atividades apresentadas na sua maioria não são inovadoras, entendendo-se
aqui por atividades inovadoras, aquelas que procuram levar os alunos a compreenderem
o conteúdo a partir de exercícios de resolução de problemas que trabalham o raciocínio
e não uma mera aplicação de fórmulas, exercícios envolvendo a História da Matemática
e a construção do caminho utilizado pelos povos antigos no decorrer dos tempos para a
evolução nos métodos de medidas. Na maioria das vezes, as atividades utilizam a
aplicação do conteúdo visto, não requerendo um raciocínio elaborado, salvo em alguns
problemas e exercícios, porém o encadeamento das mesmas possibilita aos alunos a
aprendizagem dos conteúdos.
O trabalho com os números racionais e as Grandezas e Medidas merecem
destaque em mais de um capítulo desse volume. Essa articulação fica muito clara tanto
na apresentação dos conteúdos e atividades, quanto na exposição de textos no final dos
capítulos.
Os autores da coleção ressaltam que surgem várias oportunidades para o trabalho
com os Temas Transversais. Como exemplo sugerem que uma leitura sobre a História
da Matemática possibilita o entendimento do Tema Pluralidade Cultural.

A avaliação feita pelo MEC sobre essa coleção ressalta que “a contextualização
dos conteúdos é bem realizada e a preocupação em atribuir significados socioculturais à
Matemática, manifesta-se em todos os volumes”. (GUIA DO LIVRO DIDÁTICO,
2005, p.152). Porém, essa contextualização com questões socioculturais é feita com
apresentação de problemas utilizando o conteúdo de Grandezas e Medidas na solução de
problemas da vida das pessoas, focando problemas do dia-a-dia, em exercícios
corriqueiros, isto é, exercícios comuns que aparecem geralmente nos livros que tratam
desse conteúdo. Como por exemplo, temos que, quando se está estudando grandeza de
comprimento, os exercícios são em sua maioria para o cálculo de distância de uma
cidade a outra, ou a altura da sala de aula.

Nessas atividades o conteúdo de Grandezas e Medidas não se relaciona com os


problemas da vida real dos alunos de modo a permitir o entendimento das questões que
possibilite uma percepção crítica da sociedade. Podemos considerar essas atividades
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como atividades simplistas, pois não discutem as questões sociais e políticas vinculadas
a esses problemas e conteúdos de Grandezas e Medidas. As atividades utilizam apenas o
caráter prático-utilitário desse conteúdo matemático.

Percebemos nesse volume que a abordagem dos conteúdos


Transversais/Político-Sociais, de acordo com a teoria defendida por Moraes (2002), não
ocorre. Não encontramos problemas e discussões que tenham como ponto de partida a
prática social e ponto de chegada uma prática social renovada dos alunos, abordando de
forma simplista as conexões da Matemática com a vida cidadã.

A segunda coleção6
A abordagem Transversal/Político-Social nos conteúdos de Grandezas e Medidas
do volume para a quinta série na segunda coleção
A segunda coleção aborda os conteúdos de Grandezas e Medidas distribuídos em
capítulos próprios distinguidos pela cor vermelha no decorrer do livro e inicia a
apresentação dos conteúdos através de atividades e situações-problema. Não há nessa
coleção a apresentação do conteúdo de forma sistematizada no sentido de apresentar a
teoria no início de cada capítulo, porém os autores preocuparam-se em mostrar a
articulação dos conteúdos referentes ao bloco de Grandezas e Medidas com os demais
blocos e seus respectivos conteúdos no decorrer de todo o volume.
Os conteúdos e atividades propostos nesse volume possibilitam que os alunos
calculem área de superfícies através de malhas quadrangulares e retangulares,
compreendam o que é perímetro e calculem o mesmo utilizando a idéia de rodapé.
Utilizem os números racionais como números que expressam as medidas de
comprimento, bem como são apresentados a instrumentos utilizados para medir
comprimentos. Compreendam as medidas através de situações que são postas no dia-a-
dia e as unidades adequadas para as diferentes grandezas. Calculem área de quadrados e
retângulos através da multiplicação de seus lados, e áreas de figuras através da
composição e decomposição em figuras de área conhecida. Reconheçam o metro
quadrado como unidade principal de área e compreendam que um metro quadrado
representa um quadrado de um metro de lado, bem como reconheçam o centímetro
quadrado como uma unidade para medir áreas menores. Compreendam que qualquer

6 TOSATTO, C. M. Idéias e Relações. Curitiba: Positivo, 2005. vol.1 5ªsérie (Coleção Idéias e
Relações).
9

polígono, se decomposto, pode ser transformado em outro com mesma área e que
polígonos de mesma área pode ter perímetros diferentes e polígonos diferentes podem
ter áreas iguais. Compreendam que o volume de um prisma quadrangular pode ser
calculado contando-se o número de cubos menores utilizados para formar o prisma, bem
como compreendam também que se pode calcular o volume de qualquer prisma
quadrangular multiplicando a quantidade de cubos utilizada no comprimento, na altura e
na largura do cubo maior.
A maioria das atividades propostas no decorrer do livro em relação aos
conteúdos de Grandezas e Medidas são atividades que não necessitam de uma
elaboração maior de raciocínio; são, na maioria das vezes, repetitivas com o intuito de
os alunos apenas exercitarem a teoria vista anteriormente. Não há preocupação por parte
dos autores em apresentar fórmulas que aparecem no decorrer desse livro,
principalmente no cálculo de áreas e volumes. A preocupação maior para os autores
consiste em propiciar aos alunos o entendimento dos diferentes procedimentos para o
cálculo dessas grandezas.
As unidades não convencionais são utilizadas no decorrer de todo o conteúdo de
Grandezas e Medidas para que os alunos percebam a necessidade das unidades
padronizadas. Há ainda a apresentação do sistema métrico decimal.
Nessa coleção, embora os autores defendam que há uma preocupação com os
Temas Transversais, o que se encontra são contextualizações simplistas do cotidiano.
Diversas atividades apresentadas nesse volume propiciam a abordagem dos Temas
Político-Sociais, mas essa abordagem não ocorre e o estudo das Grandezas e Medidas
fica com um fim em si mesmo, sem que haja uma articulação com a vida social e
política dos alunos.
A avaliação dessa coleção feita pelo MEC, descrita no Guia do Livro Didático
(2005), ressalta que “a inclusão de temas que são relevantes às inter-relações da
Matemática com outras atividades humanas atuais contribui de forma significativa para
a construção da cidadania”. Porém, o modo de como esse volume busca contextualizar
os conteúdos de Grandezas e Medidas visando às inter-relações da Matemática com
outras atividades humanas é utilizando-se contextualizações simplistas e práticas-
utilitaria do conteúdo matemático com a vida cidadã, não possibilitando a formação de
uma consciência crítica que proporcione aos indivíduos preocuparem-se com a
sociedade ao qual estão inseridos.
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Um exemplo de contextualização prático-utilitária que aparece no volume para a


quinta série pode ser expresso na seguinte atividade apresentada junto ao conteúdo
“Área”. Essa atividade traz parte de um classificado de jornal, mostrando vendas de
casas e apartamentos, seus respectivos valores e a área total construída. O objetivo da
atividade é mostrar o metro quadrado em seu uso social. O exemplo, tratando-se de uma
aplicação prática do conteúdo matemático, está bem proposto, porém não explora outras
questões que abordam os Temas Transversais, como por exemplo, o consumo, o meio
ambiente e a pluralidade cultural. Questões do tipo “Faça uma comparação com o valor
do salário mínimo e os valores dos apartamentos e responda: Qual a possibilidade da
maioria da população em adquirir um apartamento como esses vistos nos
classificados?”, não são realizadas durante a apresentação dessa atividade, bem como
nas demais propostas no livro para a quinta série nos conteúdos de Grandezas e
Medidas.

A terceira coleção 7
A abordagem Transversal/Político-Social nos conteúdos de Grandezas e Medidas
do volume para a quinta série na Terceira coleção

A terceira coleção está dividida em unidades, sendo que cada unidade apresenta
tópicos para abordar de forma mais detalhada os conteúdos. A apresentação dos
conteúdos nessa coleção é realizada a partir da História da Matemática e em atividades
de forma alternada.
Nessa coleção, os conteúdos de Grandezas e Medidas são abordados com maior
ênfase nas últimas unidades, durante o estudo dos números decimais e o estudo de áreas,
porém também aparecem na unidade números naturais no subtópico que discute a
grandeza tempo.
Os conteúdos e atividades propostos nesse volume trazem as diferentes maneiras
de marcar o tempo por povos antigos, bem como a notação dessa grandeza nos
diferentes relógios hoje conhecidos e utilizam o cálculo mental para calcular horas e
minutos. Possibilitam que os alunos compreendam a padronização das medidas,
principalmente as medidas de comprimento. Reconheçam o termômetro como um
instrumento utilizado para marcar temperaturas, associando à leitura de diferentes
temperaturas aos números decimais, reconheçam também a leitura de medidas de outras
7 FRANÇA, E., et.al. Matemática na vida e na escola. São Paulo: Editora do Brasil, 1999.vol.1 5ª série.
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grandezas ressaltando a décima, centésima e milésima parte de um número, objetivando


a escrita dos números em sua forma decimal, bem como operações com os mesmos.
Calculem área de superfícies utilizando malhas, composição e decomposição em figuras
de áreas conhecidas e perímetros. Construam um metro quadrado com jornal e
reconheçam o centímetro quadrado como sendo uma unidade mais adequada para medir
áreas menores.

As atividades apresentadas nessa coleção, embora apresentem textos de História


da Matemática, estes não são utilizados para o desenvolvimento das mesmas. As
atividades em geral são simples aplicação do conteúdo visto anteriormente, salvo alguns
desafios que requerem um raciocínio mais elaborado para resolvê-los.

Nessa coleção, percebe-se que há uma grande preocupação em aproximar os


conteúdos estudados com a realidade dos alunos, ou seja, durante o estudo das
Grandezas e Medidas, fica claro o uso desses conteúdos no dia-a-dia dos alunos, como
por exemplo, a utilização dos números decimais no sistema monetário, nas grandezas de
massa e comprimento. Porém, essa vinculação com o dia-a-dia para por aí na vida
cotidiana em situações de compra e venda e de ladrilhagem de salas e outras. Não há
uma preocupação com questões que vão além do cotidiano diário dos alunos durante a
abordagem desses conteúdos. Como, por exemplo, Mariana comprou 1,2kg de batata,
ela utilizou para preparar um prato 500g, qual a massa de batata restante? Escreva o
resultado utilizando as unidades gramas e quilogramas.
A avaliação feita pelo ME em relação a essa coleção, no Guia do Livro Didático
(2005), ressalta que “as conexões estabelecidas entre o conhecimento matemático e as
questões sociais relevantes e atuais são um grande auxiliar para a formação do aluno
cidadão”. O volume apresenta textos que possibilitam essas conexões, como por
exemplo, textos de reportagens retiradas de revistas e jornais, porém esses textos são de
caráter apenas informativo, pois não são apresentadas questões vinculadas a eles para
discussão e reflexão dos temas apresentados. Um exemplo de atividade apresentada no
livro discute o que é escala Richter através de um noticiário que divulgou um terremoto
no México, mostrando uma tabela com os dados numéricos que indicam a intensidade
de cada terremoto de acordo com essa escala. Essa atividade além de interdisciplinar
favorece a discussão de assuntos como o meio ambiente, sem deixar de trabalhar o
conteúdo “números decimais”, porém não é realizada discussão dos temas que aparecem
no texto. A escala apresentada serve apenas como uma tabela de dados que os alunos
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irão consultar para responder questões do tipo: “escreva um valor da escala que
corresponda a um terremoto que não foi percebido”.
Sabe-se que a informação contribui para a formação da cidadania. É importante
que os alunos tenham acesso a textos que carreguem em si um gama de informações,
porém essas informações devem ser discutidas e interpretadas não somente
apresentadas. Ao se vincular uma informação a um determinado conteúdo, é importante
que esse conteúdo, bem como a informação, tenha significação para os alunos.
Os exercícios e atividades relativos aos conteúdos de Grandezas e Medidas,
sempre que possível, necessitam mostrar sua função social, além da vida cotidiana dos
alunos. É importante que eles percebam que esses conteúdos estão presentes nos mais
variados conteúdos da vida social, como por exemplo, na distribuição de rendas, no
cálculo do desmatamento e não apenas na medição ou ladrilhamento de uma sala.
Essa coleção como as demais, não retrata os conteúdos Transversais/Político-
Sociais de acordo com a teoria sobre os mesmos defendidos por Moraes (2002), não
possibilitando a formação do cidadão que almeja uma sociedade emancipadora para
todos.

Considerações Finais
O Livro Didático é um material considerado de muita importância no processo
de ensino-aprendizagem, dentro e fora da sala de aula. Embora críticas feitas sobre esse
material e a preocupação de que não seja o único referencial a ser utilizado no preparo e
condução das aulas, sua participação dentro e fora da sala de aula sempre foi e continua
sendo de grandes proporções.
A preocupação com a formação para a cidadania requer que seja feito em sala de
aula com os alunos estudos com questões que vão além dos conteúdos específicos que
cada disciplina de base nacional comum requer, desde os primeiros anos de
escolarização.
Portanto o Livro Didático de Matemática necessita que em seu corpo seja
apresentado além dos conteúdos matemáticos, conteúdos que discutam questões sociais
e políticas, visando a contribuir na formação para a cidadania dos alunos.
Entendendo-se que um cidadão é aquele que trabalha para a construção de uma
sociedade igualitária e justa para todos, tivemos a preocupação de verificar o quanto e
como os Livros Didáticos abordam questões Político-Sociais com a finalidade da
construção dessa cidadania, utilizando para essa análise os conteúdos de Grandezas e
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Medidas reservados para a quinta série do Ensino Fundamental, em três coleções


avaliadas e recomendadas pelo MEC.
O conteúdos relativos ao bloco de Grandezas e Medidas foram escolhidos pois:
Como as Medidas quantificam Grandezas no mundo físico e
são essenciais para a interpretação deste, as possibilidades de
integração com as outras áreas são bastante claras, como
Ciências Naturais (utilização de bússolas, e noções de
densidade, velocidade, temperatura, entre outras) e Geografia
(utilização de escalas, coordenadas geográficas, mapas etc.). As
medidas também são necessárias para melhor compreensão de
fenômenos sociais e políticos, como movimentos migratórios,
questões ambientais, distribuição de renda, políticas públicas de
saúde e educação, consumo, orçamento, ou seja, questões
relacionadas aos Temas Transversais. (PCN – MATEMÁTICA
3º e 4º ciclos, 1998, p.128).

Essa articulação com os Temas Transversais Político-Sociais é possível pelo fato


de as Grandezas e Medidas estarem presentes em quase todas as situações da vida nos
seus mais variados contextos, bem como nos demais conteúdos matemáticos.
Esta análise possibilitou perceber que embora os Livros Didáticos proponham o
trabalho com os Temas Transversais/Político-Sociais. Muitas vezes esse trabalho é
confundido com uma contextualização simplista, numa utilização prático-utilitária do
conteúdo matemático através de um problema ou outro, o que não contribui para a
formação integral dos alunos, formação esta que possibilite aos mesmos alcançarem
uma consciência crítica.

Apresentar uma situação-problema com um dado real da vida dos alunos, sem
partir da prática social e conseqüentemente ao final do processo de ensino dos
conteúdos matemáticos atrelados a essa realidade, não chegar à prática social renovada,
em uma formação para a cidadania, é uma contextualização artificial e simplista do
conteúdo específico.
Essas contextualizações artificiais e simplistas não possibilitam aos alunos
perceberem a utilização dos conteúdos clássicos específicos de Matemática na vida
além da escola, pois apenas retratam a utilização prática-utilitária dos conteúdos, o que
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muito pouco contribui para a formação plena da cidadania, cidadania essa empenhada
na busca por uma sociedade emancipadora e justa para todos. O vínculo com as
questões sociais nem sempre será possível em determinados conteúdos e não há como
contextualizar sempre com discussões de caráter social e político, porém quando
possível é necessário que as articulações avancem além da esfera cotidiana dos alunos.
A aquisição do saber dos conteúdos clássicos específicos de Matemática deve
ser tratado em sala de aula aliada aos conteúdos da vida dos alunos e sua comunidade,
porém não deve ser feita apenas uma ênfase aos conteúdos cotidianos momentâneos. Os
indivíduos necessitam da escola para a sua formação humanizadora, o que não pode ser
feito apenas com vista no saber cotidiano. É necessário que os indivíduos tenham o
acesso aos bens socialmente e culturalmente acumulados através dos conteúdos
científicos, sociais e políticos.

Os alunos necessitam perceber que esses conteúdos político-sociais poderão


auxiliá-los na formação de uma consciência crítica; é preciso que compreendam,
também, que as Grandezas e Medidas quantificam o mundo físico, e que além de
calcular áreas, perímetros, volumes, etc, poderão entender também questões
relacionadas à distribuição de renda, aplicação de recursos públicos, entre outros
assuntos.

A análise feita nas três coleções em relação aos conteúdos de Grandezas e


Medidas possibilitou perceber que os Livros Didáticos não vinculam os conteúdos
específicos aos conteúdos Político-Sociais de acordo com a teoria defendida por Moraes
(2002), o que não propicia a formação plena do cidadão.

REFERÊNCIAS
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de 29 de janeiro de 1998. Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino
Fundamental. 1998. Disponível em:
http://portal.mec.gov.br/cne/arquivos/pdf/PCB04_1998.pdf. Acesso em: 20 jul.2005

BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria da Educação Infantil e Fundamental. Guia


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BRASIL. Lei nº 9394 de 20 de dezembro de 1996. Diretrizes e Bases da Educação


Nacional. 1996. Disponível em:
http://www.planalto.gov.br/CCIVIL_03/LEIS/L9394.htm. Acesso em: 23 jul. 2005.

BRASIL. Ministério da Educação e do Desporto, Secretaria de Educação Fundamental.


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1999.

BRASIL. Resolução CEB Nº 2, de 7 de abril de 1998. Diretrizes Curriculares


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FRANÇA, E., et.al. Matemática na vida e na escola. São Paulo: Editora do Brasil,
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