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Ano XVII, n° 24, Junho/2005 107

Motrivivência Ano XVII, Nº 24, P. 107-117 Jun./2005

EDUCAÇÃO FÍSICA - Entre o biológico e o


social. Há conflito nisto?

Marco Aurélio Da Ros1


Ricardo Camargo Vieira2
Luiz Roberto Agea Cutolo3

Resumo Abstract
Este ensaio desenvolve, a partir de This trail develops, starting from
interrogações levantadas pelos autores, interrogations lifted by the authors, a
uma reflexão para os educadores físicos, reflection for the Physical Educators, in
em relação a questões epistemológicas relation to current epistemological
atuais, vinculadas ao setor saúde, tais subjects, linked to the section health, such
como: os estilos de pensar diferentes; a as: the different thinking styles; the
necessária ruptura com o positivismo; a necessary rupture with the positivism; the
integração entre o biológico e o social; o integration between the biological and
conceito de saúde/ promoção de saúde, the social; the concept of health / health
diferenciado do conceito de prevenção promotion, differentiated of the concept
de doença. Pretende, ainda, colaborar of disease prevention. It intends to
para um significado maior do papel do collaborate for a better meaning of the
educador físico para além de estimular Physical Educator’s paper, beyond the
pratica de exercícios. Propõe, finalmente, stimulation of the practices of exercises. It
uma visão ampliada do processo saúde- proposes, finally, an enlarged vision of the
doença, e de como se pode abrir para process health-disease, and how to open

1
Médico, Doutor em Educação - Departamento de Saúde Pública - UFSC
2
Médico, Mestrando em Saúde Pública. PPG - UFSC
3
Médico, Doutor em Educação. Mestrado em Saúde e Gestão do trabalho - UNIVALI
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novos estilos de pensamento em saúde for new thought styles in public health.
pública. Keywords: Physical Educator, Health
Palavras-chave: Educador físico; Promo- Promotion, Epistemology, Thought
ção de Saúde; Epistemologia, Estilos de Styles.
Pensamento.

Introdução profissional de doença, mesmo que


seja preventivo, mas de doença?
Temos nos deparado com Reproduz talvez o modelo biomé-
dico hegemônico?
um novo profissional para a área da
Há outras questões para
saúde, depois de vários anos, enfim
discutir a partir dessas dúvidas le-
reconhecido, como tal, o educador vantadas, tais como, a forma como
físico. Suas atividades estão previs- é construído um EP, qual é o concei-
tas tanto nas diretrizes curriculares, to de saúde que utilizamos, que
como agora, nos núcleos de aten- matriz utilizamos para caracterizar
ção integral, aprovados pelo Minis- saúde/doença? Matriz biologicista,
tério da Saúde em 4 de julho de ou mais ampla? Como vamos traba-
2005 (m-2005). Embora em algumas lhar com saúde? Como podemos tra-
ocasiões esbarre em conflitos balhar a integralidade da saúde,
“tribais”/corporativos, tão em vigên- pensando interdisciplinarmente?
cia nos últimos tempos, (tempos de (PINHEIRO, 2001) Que história exis-
“atos”), com os interesses, por exem- te por detrás do modelo biologicista,
plo, da Fisioterapia, em relação aos patologizante, negador do emocio-
limites de atividade para a área, é nal e do social? Porque a educação
uma profissão em franca expansão, física tem privilegiado as ciências
talvez atendendo alguns ditames da biológicas como fundamento de
moda. As lojas de materiais esporti- seus estudos? (CARVALHO, 2005)
vos... vão de vento em popa (NAHAS,
p. 124). Só na Região Sul, segundo Romper com a visão de que a do-
dados da Rede Unida, são 99 cursos ença não é uma fatalidade implica,
em linhas muito amplas, relacio-
(Rede Unida-2005).
nar-se com a natureza de modo não
Mas... estaria o educador
predatório, ou antiecológico; re-
físico sendo construído, em seu es-
formar as cidades e o modo de pro-
tilo de pensamento (EP) (Da ROS,
dução urbano e rural, e rever o
2000), para a saúde, como preconi- modo de relacionamento do ho-
zam as diretrizes curriculares, (Rede mem cosigo mesmo e com seus se-
Unida-2003) ou para ser mais um melhantes (LEFEVRE, 2004).
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Após as conferências inter- discutidas extensamente, e talvez o


nacionais de promoção de saúde, exemplo mais claro seja o de que,
desde 1986, em Ottawa, (CZERESNIA, quando vamos proceder a um tra-
2003) o conceito de promoção de balho com características qualitati-
saúde foi cada vez mais se vas (MINAYO, 1994) (portanto, sem
desvinculando dos níveis de preven- juízo a priori) sobre o que a popula-
ção de Leavell e Clark, (BUSS, 2003) ção entende sobre o processo saú-
para adotar uma associação/ identi- de-doença, ela se expresse claramen-
dade com termos como: cidadania, te mostrando que sim, tem algumas
justiça social, equidade, alegria, vida, coisas que não estão funcionando
solidariedade, etc... bem, ou queixas, ou algo que o
Estes termos não têm médico disse que era para tratar/
ligação direta com o biológico, em- tomar remédios, mas que tem saú-
bora não se possa negar, diale- de simultaneamente. E se referem a
ticamente, que logrando promover esta última de diversas maneiras:
saúde teremos menos doenças, ou estar feliz, poder ajudar os outros,
pelo menos mais longevidade com estar trabalhando, viver bem com a
melhor qualidade de vida. O que dei- família, ter amigos para repartir coi-
xou de fazer sentido é imputar res- sas e se divertir, ter projetos a reali-
ponsabilidade individual pelo proces- zar, fazer as coisas que gosta, comer
so saúde-doença (BAGRICHEVSKI, e dormir bem, não sentir muita dor
2003), bem como imaginar que se (LUZ, 2005). É claro que isto é in-
possa fazer promoção de saúde para compatível com o ideário da déca-
algum tipo de patologia. da de 50 de que saúde é o completo
Apesar das mudanças de bem estar físico mental e social
conceito dos últimos 15 anos, é co- (BUSS, 2003).
mum ouvirmos algo como, promover Não se trata, por outro
saúde bucal, ou programas de promo- lado, de negar medidas preventivas,
ção de saúde para hipertensos e dia- importantes para limitar patologias,
béticos, exercícios físicos para promo- ou mesmo evitar sua eclosão, mas
ver saúde em determinadas patologi- de caracterizar, que prevenção, sim,
as. Há, evidentemente uma confusão trata de doenças específicas. E su-
grande entre promover saúde e pre- blinhar que prevenir doenças não é
venir doenças. A começar pelo objeto sinônimo de promoção de saúde
de trabalho/ investigação. Um trata de (LEFEVRE, 2004).O assunto do qual
saúde, o outro de doença. trata a prevenção é doença. O que
Estas possibilidades mais se previne são doenças. .Promoção
amplas de entendimento têm sido trata de outro assunto, saúde, que
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não é o contrário de doença. E que maioria das pessoas já faz em ativi-


envolve o psicológico e o social, em- dades do cotidiano, como subir es-
bora não seja o completo bem-es- cadas, caminhar até o ponto de ôni-
tar. Promoção, portanto, é assunto bus, varrer a casa, etc... Há também
que transcende o biológico, para in- trabalhos que evidenciam correlações
serir-se definitivamente no social. com prazer no fazer o exercício, como
(RODRIGUEZ, 1994). fundamentais para liberação de
Lefevre (p. 43) diz, que o endorfinas, e, portanto capaz de evi-
modo de vida atual é gerador de doen- tar uma infinidade de doenças, e isto
ças. O problema se trata de pensar entraria em contradição com prescri-
de que forma pode ser entendida ções do tipo profissional dono da
uma alocução aparentemente tão verdade, que prescreve algo como -
simples como: o que é modo de “Tens que fazer exercício, dieta, se-
vida? Trata de entender a vida como não vais morrer de hipertensão,
inserida numa sociedade de consu- infarto ou diabetes”. Uma pedagogia
mo, neoliberal, predadora da natu- do susto. (Da ROS-2000).
reza, voltada para o individualismo, Trata-se, segundo Lefevre
com escassos direitos sociais, (2004), de um conflito entre repre-
“desempoderada”, desagregada em sentações sociais do processo saúde-
termos de relações humanas e de doença, onde o profissional de saú-
prazer ou, de outra forma, entender de (leia-se o educador físico, inclusi-
que modo de vida pode ser enten- ve) adota uma prática discursiva e
dido como hábitos de comporta- comportamental regida por relações
mento teoricamente modificáveis, assimétricas de mando/ obediência;
do tipo: comer alface e chuchu, ca- prescrição/cumprimento da prescri-
minhar trinta minutos, usar um tê- ção independentemente do fato des-
nis ergonômico, deixar de fumar, tas relações serem mais autoritárias
não beber bebidas alcoólicas, usar ou mais “gentis”, mais ou menos
camisinha. Estes últimos, sem dúvi- “participativas”, ou “educativas”, ou
da estão muito mais relacionados a, “cooperativas”, o que não muda em
no máximo, prevenção de doenças. nada sua natureza estruturalmente
O quanto de exercício físi- assimétrica (p.55).
co necessário para reduzir riscos de Ao invés de educar condu-
doenças cardiovasculares tem sido zindo, é preciso, pois, informar o
objeto de intensa discussão, haven- cidadão, de modo claro e transpa-
do evidências que duas sessões de rente, não escamoteando nenhum
30 minutos por dia são mais que aspecto do problema (LEFEVRE,
suficientes, e que isto, a imensa 2004). Mas não se trata de prescri-
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ções comportamentais, deve-se levar pelos coletivos, especialmente nos


em conta a vida REAL das pessoas. O círculos esotéricos (produtores do
profissional de saúde acredita ter conhecimento) por uma suave coer-
monopólio sobre os temas que en- ção do pensamento, onde se tem a
volvem saúde doença, que está re- mesma forma de ver, perceber, sen-
vestido de autoridade sanitária, e que tir os fenômenos científicos. Usa-se
ele é o técnico especialista (LEFE- a mesma bibliografia, estudam-se os
VRE,2004), o “dono da verdade”, mesmos autores, que consolidam a
garantido pela lógica flexneriana e sua “verdade”, e não cabe outro tipo
positivista. de pensamento, entendido como
Estamos, portanto, levan- instabilizador. Estes coletivos se
tando algumas situações insta- mantém hegemônicos por um tem-
bilizadoras (CUTOLO, 2001), com a po, deixam de ser, mas não deixam
intenção bem clara de parar para re- de existir. Sobrevivem em grupos
fletir sobre a questão biológico x so- que continuam fechados para per-
cial, na prática da educação física. ceber novas formas de pensar (Da
ROS, 2000; CUTOLO, 2001).
Algumas das questões a ser Na área da saúde o chama-
do modelo biomédico tem sua clara
aprofundadas: o referencial
hegemonia a partir do modelo
epistemológico Flexner, em 1910, que se caracteri-
zou por uma concepção positivista
A partir de um médico- do processo saúde-doença, pela
epistemólogo, Ludwik Fleck, temos fragmentação, pela negação do so-
o entendimento que saúde é um fe- cial e do psicológico, convertendo
nômeno complexo, que envolve pelo o humano em algo biológico somen-
menos: cultura, sociedade, psicolo- te, e aos pedaços, pelo hospi-
gia e biologia, não podendo, por- talocentrismo e a partir daí pela con-
tanto, ser entendida numa cepção de que fazer saúde era dita-
epistemologia própria para as cha- do pelos exames e medicamentos
madas ciências naturais, como a prescritos. Enfatizou o entendimen-
kuhniana ou popperiana (CUTOLO, to de que o profissional da saúde
2001). Fleck tem a compreensão a era o único sabedor, descarac-
partir de suas categorias chave: Es- terizando a relação que Freire carac-
tilos e Coletivos de Pensamento, de teriza como biunívoca, tornando-o
que uma forma de pensar é deter- um ditador de regras.
minada historicamente, tem uma Esta concepção começa a
tendência a persistência e é mantida ser colocada em cheque a partir das
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pesquisas de Sigerist ou Canguilhem, autores que comprovam o seu pon-


ainda na primeira metade do século to de vista? É isto que Fleck chama
XX, e pelas pesquisas da antropolo- de tendência à persistência. A intro-
gia médica a partir dos anos 70, es- dução em um novo EP significa uma
pecialmente em Escolas como rejeição ao estilo anterior e isto in-
Harvard, ou as Escolas européias comoda as pessoas. Por outro lado,
(OYARBIDE, 1991). as pessoas só mudam se sentirem
O chamado movimento desconfortáveis com o modelo an-
pela reforma sanitária, no Brasil, in- terior (CUTOLO, 2001). E, para evi-
corpora esses novos entendimentos, tar o desconforto, fecham os ouvi-
e somando-se a epidemiologia soci- dos para o EP que não fala o que
al de Jaime Breilh ou Asa Cristina querem ouvir. Portanto, a compre-
Laurell, pensadores da A. Latina, ou ensão de que a educação física trans-
G. Berlinguer, Boltanski, europeus, cende, em muito, os aspectos exclu-
passam a perceber a inequívoca de- sivamente biológicos, é um proble-
terminação social do processo saú- ma epistemológico, de estilo de pen-
de-doença e de como o biológico era samento, de tendência a persistên-
tão somente uma parte deste contex- cia, mas é também um problema
to - como potencialidade e desfecho. conceitual (que está contido na
A luta desse movimento vai fazer epistemologia), mas merece uma
surgir no Brasil, desde o SUS, ao PSF, reflexão em separado.
as residências multiprofissionais em
saúde da família, as novas diretrizes Um pouco mais de promo-
curriculares, as rodas de educação
ção de saúde, para entender
permanente, os grupos de promoção
de saúde. saúde: O Educador Físico
Mas Fleck dizia da dificul- promove saúde?
dade de mudança. O que fazer com
o pensamento de quem sempre O desafio atual que os pro-
prescreveu, por exemplo, um deter- fissionais de saúde enfrentam, e que
minado procedimento cirúrgico e consiste em melhorar as condições
que agora, com a chamada medici- de saúde da população em geral,
na baseada em evidências fica claro passa invariavelmente pelo entendi-
que o procedimento não só era ina- mento de saúde como conceito, pelo
dequado, como prejudicava seus entendimento da produção social da
pacientes? Será que é fácil a aceita- saúde e pela compreensão do que é
ção de que esteve errado, ou vai re- Promoção da Saúde. (Ministério da
sistir e tentar se defender usando Saúde, 2002)
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O conceito de Promoção da des dos indivíduos, mas, também,


Saúde aparece na década de 40, de das ações direcionadas para as mu-
forma latente, com Sigerist (1946), danças nas condições sociais,
que a define como uma das tarefas ambientais e econômicas, de for-
essenciais do campo da saúde; e vem ma a aliviar seu impacto sobre a
novamente à tona na década de 60, saúde pública e individual. A pro-
com o conceito positivo de doença, moção da saúde é o processo que
no sentido de incentivar a preven- possibilita às pessoas aumentar o
controle sobre determinantes da
ção das doenças, através do estímu-
saúde e dessa forma, melhorar sua
lo de hábitos e comportamentos
saúde (Carta de Ottawa, 1986),
saudáveis. (BUSS, 2003)
A concepção moderna de
Ter uma vida saudável é
Promoção da Saúde perpassa a com-
mais do que ter um corpo saudável.
preensão que se tem do processo
Entender vida saudável como estan-
“saúde-doença-saúde”, que por si só
do limitada a um corpo são é como
não é dicotômico ou define saúde e
acreditar que ter saúde é não estar
doença extremos de uma mesma ré-
doente. Sabemos que essa idéia de
gua (de medição do estado de saúde).
saúde associada exclusivamente ao
Seria um erro entender-
corpo foi, durante muito tempo, a
mos que para promover a saúde das
noção sobre a qual as profissões da
pessoas, estaríamos necessariamen-
saúde mais se apoiaram, para pro-
te tentando prevenir suas doenças
por suas ações e as suas modalida-
ou que a presença destas denotaria
des de intervenção. No entanto, essa
a falha de nossas tentativas de pro-
concepção foi incapaz de explicar as
mover a saúde.
muitas formas de adoecer e de man-
Ao analisarmos a defi-
ter-se saudável. (CZERESNIA, 2003)
nição de Promoção da Saúde da Or-
Se percebermos que, no
ganização Mundial da Saúde, enten-
momento que realizamos a preven-
deremos que os determinantes de
ção de doenças cardiovasculares, o
saúde das pessoas estão além da
controle do estresse, o incentivo aos
prevenção de suas doenças. (Minis-
exercícios físicos escolares, ou qual-
tério da Saúde, 2002):
quer atividade física, temos um pa-
pel mais importante para a vida das
A promoção da saúde representa
um amplo processo social e políti-
pessoas, de mais impacto na
co, ela não engloba apenas as longevidade e de maior interesse
ações dirigidas para o fortaleci- para a coletividade, então, entende-
mento das habilidades e capacida- remos a verdadeira importância dos
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profissionais de saúde, como o pro- quer: saúde. E não o fim, o alvo de


fissional de Educação física. Só, que nossos esforços.
este profissional pode ir ainda mui- Será que a saúde, o bem-
to mais longe se pensar em promo- estar ou a felicidade está no fato de
ver saúde ao invés de limitar-se a nos tornarmos ativos e exercitados,
prevenir doença (LEFEVRE, 2004). ou no contexto em que isto se dá?
A partir do momento em Através da busca pelo
que veste o uniforme de profissio- enfoque do trabalho do Educador
nal de Educação física, este deveria Físico na superação da superficialida-
se apropriar da magia e da impor- de e no aprofundamento da busca
tância de realmente ser um educa- pela real saúde, estaremos próximos
dor. E utilizar este papel de educa- daquilo que realmente queremos:
dor em saúde para a promoção da uma contribuição ao bem-estar, à
saúde, partindo de um principio que vida, à saúde. A Promoção da Saúde.
educar é totalmente diferente de
informar.
Afinal, onde queremos che-
Sendo um verdadeiro edu-
gar com tudo isto?
cador, o profissional de Educação fí-
Hoje, há um conflito esta-
sica entende que o seu melhor pa- belecido não só entre a concepção
pel não está na tentativa de se pro- saúde-doença entre os profissionais
mover o condicionamento físico das da área da saúde. O conflito se ex-
pessoas, de torná-las aptas para o pande também no que se refere ao
esporte, mas sim de respeitar o sa- papel de cada profissional; na respon-
ber popular para integrar, solidari- sabilidade social ou individual pelo
zar, conscientizar e tornar estas pes- processo S-D; no conceito do que sig-
soas agentes na melhoria das con- nifica educar; na relativização do co-
dições de suas próprias vidas. nhecimento; no modelo episte-
Ao utilizarmos estratégias mológico adotado. O que preconiza-
de Educação Popular em Saúde mos é que precisamos aprender a
(FREIRE, 1985), percebemos que o conviver com o diferente, a aceitar
despertar da autonomia, do espíri- estilos de pensamento conflitantes e
to de cooperação coletiva e da con- a entendê-los, ao invés de como ini-
vivência (BRICENO-LEON, 1996) é, migos, como instigantes para cons-
entre outros, o que torna as pesso- truir uma nova forma de pensar, cons-
as aptas a ter saúde. tantemente em movimento, como
Portanto, atividade físi- preconiza o construtivismo.
ca torna-se uma tática, um meio para Há hoje, uma extensa bi-
se alcançar aquilo que realmente se bliografia que coloca em grave ques-
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tionamento as verdades estabe- soa, ou mesmo de uma comunida-


lecidas pelo positivismo, leia-se ciên- de, estamos provavelmente transfe-
cias da área da saúde (CANESQUI, rindo para o inconsciente a necessi-
2000), e traz a necessidade de dade de encontrar outro caminho
permeabilização dos estilos. para se manifestar (SILVA, 2004). Es-
É necessário que as pesso- taria aí uma das causalidades para
as tenham informação completa, ou pensarmos a eclosão de novas doen-
o mais ampla possível, o que Fleck ças? A depressão que surge como
chama de princípio do conhecimen- epidemia nos últimos 20 anos? Com
to máximo, com as “verdades” e ela, a hipertensão e o diabetes. O
seus questionamentos, para que aparecimento da AIDS, o desapareci-
autonomamente tomem decisões, e mento simultâneo de uma porção de
não sejam obedientes a quem sabe outras (peste bubônica, poliomielite,
mais (tenho dúvida se realmente crises “histéricas”). Quem sabe ga-
sabem). Por exemplo, quando per- nharíamos muito mais conhecimen-
guntaram a Sek Yi, o mais longevo to e satisfação, inclusive pessoal, ten-
dos habitantes humanos da Terra, tando descobrir o que faz ou não as
com 122 anos, a que ele atribuía sua pessoas felizes e investindo nisto em
longevidade, ele respondia: ao ta- nossas relações, tanto pessoais,
baco e as orações. Fumou ao longo como profissionais (BOFF, 2002).
de toda sua vida e não morreu de ...Não é um processo curto,
câncer (DC, 21/10/03). Não podemos é sobre novas formas de relação com o
esquecer dessa informação quando poder... mudar processos de convivên-
quisermos convencer alguém a dei- cia (MERCER, 2003). É preciso en-
xar de fumar. Ou sobre a necessida- tão entender, que a proposta
de de fazer exercícios, mesmo que educativa (pensar aí o educador físi-
desprazerosos, lembrar que exercí- co) do tipo conducente, na promo-
cios podem matar (ROIZ, 2004). ção de saúde, deve ser abandonada
Além de tudo isto, há uma em favor de uma proposta informa-
questão levantada pela medicina tiva, porque as pessoas não querem
psicossomática que deve ser levada ser “educadas”, isto é, conduzidas
a sério pelos apologistas do exercí- mas, ao contrário, com ajuda e dia-
cio a qualquer preço. Entendemos logando com a técnica, conduzir a
muito pouco sobre as doenças. Sa- SUA vida (LEFEVRE, 2004).
bemos que elas têm uma influência Trata-se de pensar em po-
decisiva do social e psicológico. Nos der com, e não poder sobre. E isto
diz esta medicina: Quando alteramos implica em ruptura epistemológica,
um perfil de morbidade de uma pes- em novo estilo de pensamento. O
116

novo conceito de saúde talvez deva prática em Saúde Coletiva:


nascer disto, de colaborar com a ca- estudo sobre racionalidades
pacidade de reação das pessoas, na médicas e atividades corporais.
busca de uma vida mais prazerosa, 2 ed., revista. São Paulo: Hucitec,
com objetivos coletivos e solidári- 2005.
os, tentando colaborar para modifi- CZERESNIA, D; FREITAS, C. M.
car, de fato, a forma que as pessoas Promoção da saúde: conceitos,
estão se relacionando com a vida e reflexões, tendências. Rio de
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diabéticos e hipertensos - Trabalho
BOFF, L. Saber cuidar: ética do
de Conclusão de Curso de Medicina
humano – compaixão pela terra.
- 1º semestre 2005 - UFSC.
8 ed. Petrópolis: Vozes, 2002.
MERCER, H.; RUIZ, V. Quem não
BRICENO-LEÓN, R. Siete tesis sobre
sonha, não investe em mudança:
la educación sanitaria para la
perguntas e respostas sobre o
participación comunitaria.
impacto dos Projetos UNI nas
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Contatos: ros@ccs.ufsc.br

Recebido em: jun/2005


Aprovado em: jun/2005