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Os impasses da pobreza absoluta: a experiência da Ouvidoria

TEMAS LIVRES FREE THEMES


Coletiva na região da Leopoldina, Rio de Janeiro (RJ, Brasil)

The impasses of unconditional poverty: the experience


of Collective Ombudsman in the Leopoldina region,
Rio de Janeiro (RJ, Brazil)

Maria Beatriz Lisboa Guimarães 1


Carla Moura Lima 2
Elaine Amorim Savi 2
Eliane Cardoso 3
Victor Vincent Valla (in memoriam)
Eduardo Navarro Stotz 2
Alda Lacerda 4
Marta Sorvi Santos 5

Abstract The experience of Collective Ombuds- Resumo A experiência de Ouvidoria Coletiva


man developed in the Leopoldina region, city of desenvolvida na região da Leopoldina, na cidade
Rio de Janeiro, enlarges the traditional vision of do Rio de Janeiro, amplia a visão tradicional de
health vigilance and consists in organizing a sys- vigilância em saúde e objetiva organizar um siste-
tem of qualitative evaluation of the sanitary vigi- ma de vigilância capaz de identificar os problemas
lance able to identify the health problems of the de saúde da população e os recursos utilizados na
population and the methods utilized in the attempt tentativa de superá-los. Profissionais de saúde, lí-
to overcome these problems. Health professionals, deres comunitários e religiosos se reuniram em
religious and community leaders congregated in fóruns mensais para apresentar e discutir as con-
monthly forums to present and discuss living con- dições de vida percebidas nas comunidades em que
ditions perceived in the communities in which atuam. A partir do olhar das dimensões sociais
they carry on their activities. From the point of envolvidas nos processos de saúde-doença, este tra-
view of the social dimensions involved in the balho visa discutir de que forma a pobreza com-
1
Departamento de Ciências
health-illness processes, this work aims to discuss promete a saúde das classes populares, especialmen-
da Religião, Instituto de
Ciências Humanas, the way that poverty compromises the popular te no que se refere à saúde mental e ao “sofrimento
Universidade Federal de classes’ health, especially for the mental health and difuso”. A metodologia permitiu organizar, de modo
Juiz de Fora. Campus
the “diffuse suffering”. The methodology allowed us sistemático, a escuta e favoreceu o reconhecimen-
Universitário s/no, São
Pedro. 36036-900 Juiz de to organize, in a systematic way, the listening and to do saber local, construído a partir das experiên-
Fora MG. favored the recognition of local knowledge, con- cias de vida das pessoas que lidam com o sofrimen-
mblguima@hotmail.com
2
structed from the life experiences of the people who to, a doença e seus determinantes nas condições de
Departamento de
Endemias Samuel Pessoa, deal with the suffering, the illness and their deter- vida da população. A situação de pobreza absoluta
Escola Nacional de Saúde minants on the life conditions of the poor popula- de uma parcela significativa da população foi per-
Pública Sergio Arouca,
tion. The precarious living conditions for a signif- cebida como geradora de impasses para a resolu-
Fundação Oswaldo Cruz.
3
Centro de Saúde Escola icant part of the population were perceived as gen- ção de problemas de saúde. Os resultados confir-
Germano Sinval Faria, erating impasses in the resolution of their health mam a importância de se compreenderem as es-
Escola Nacional de Saúde
problems. The results point towards the impor- tratégias de enfrentamento da população e as pro-
Pública Sergio Arouca,
Fundação Oswaldo Cruz. tance of understanding the health problems of the postas para possíveis ações no campo da saúde.
4
Escola Politécnica de population, the resources utilized to face them and Palavras-chave Ouvidoria Coletiva, Vigilância
Saúde Joaquim Venâncio,
proposals for possible solutions in the field of health. em saúde, Classes populares, Sofrimento difuso
Fundação Oswaldo Cruz.
5
Instituto Oswaldo Cruz, Key words Collective Ombudsman, Health vigi-
Fundação Oswaldo Cruz. lance, Popular classes, Diffuse suffering
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Guimarães MBL et al.

Introdução A partir do olhar das dimensões sociais en-


volvidas nos processos de saúde-doença, este tra-
O campo da saúde vem sofrendo transforma- balho visa discutir de que forma a pobreza com-
ções importantes, nas últimas décadas, em de- promete a saúde dos integrantes das classes po-
corrência da nova conjuntura social determina- pulares, especialmente no que se refere à saúde
da pela política do capitalismo neoliberal globa- mental e em particular ao “sofrimento difuso”5.
lizado, cujos resultados evidenciam a distribui- Este termo tem sido definido por este grupo de
ção desigual de renda, a precarização das condi- pesquisa como um tipo de sofrimento psíquico
ções de trabalho, o aumento do desemprego e da mais leve, e que se encontra disseminado de for-
violência, a retração das redes sociais, entre ou- ma endêmica em toda a região pesquisada. É ca-
tros aspectos, intensificando a pobreza, a exclu- racterizado pela presença de múltiplos sintomas,
são e as desigualdades sociais1,2. Esses fatores que se expressam por meio de queixas somáticas
socioeconômicos e políticos contribuem para os inespecíficas, tais como: dores generalizadas,
agravos de saúde da população, formando as- medo, ansiedade, insônia, nervosismo, baixa es-
sim um ciclo vicioso de pobreza, isolamento e tima, perda da esperança de vida, entre outras
adoecimento3. manifestações.
Se, por um lado, a análise da conjuntura atual O sofrimento difuso se enquadra no que a
evoca um pessimismo diante da situação de po- epidemiologia denomina de transtornos mentais
breza absoluta e da dificuldade em erradicá-la, por comuns (TMC), que são responsáveis por uma
outro, cientistas como o professor Milton Santos parcela significativa da demanda por consultas
acreditam que a saída dessa crise passa justamen- médicas, chegando a atingir cerca de 56% de todo
te pelas classes populares. Esse professor fez a se- o atendimento realizado na atenção básica6. Por
guinte afirmação numa palestra na Fundação sua natureza, não é acolhido nos serviços públi-
Oswaldo Cruz em 1999: “Na reconstrução do Bra- cos de saúde, uma vez que as queixas não são
sil, cabe a crença de que o caminho a ser seguido comprovadas por meio de exames que utilizam
vai ser indicado pelas classes populares”. recursos tecnológicos, e ao mesmo tempo tais
Nesse contexto, este trabalho visa apresentar queixas não se ajustam às demandas prioritárias
e discutir as condições de vida e saúde das classes da saúde mental. Entretanto, essa clientela conti-
populares da região da Leopoldina (Rio de Janei- nua demandando atenção e cuidado em saúde, e
ro, RJ) e os recursos utilizados na tentativa de é responsável por uma parcela significativa dos
superar os problemas encontrados, identifica- gastos em saúde com consultas, exames, poten-
dos a partir da percepção de profissionais de saú- ciais hospitalizações, licenças médicas e aposen-
de, líderes comunitários e religiosos – ouvidores tadorias por problemas de saúde7.
naturais da população nas comunidades em que Nas discussões realizadas durante os fóruns
atuam – reunidos em fóruns mensais. Insere-se de Ouvidoria, foi constatada a existência de um
no âmbito da pesquisa Vigilância Civil da Saúde verdadeiro impasse provocado pela situação de
na Atenção Básica: uma proposta de Ouvidoria pobreza absoluta de uma parcela significativa da
Coletiva na AP 3.1, Rio de Janeiro, desenvolvida população que vive nos complexos de favelas pes-
na Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arou- quisadas. Uma situação em que a superação dos
ca, da Fiocruz. A metodologia da Ouvidoria Co- seus problemas de saúde e a afirmação de seus
letiva permitiu organizar, de modo sistemático, a direitos de cidadania parecem impossíveis. O im-
escuta e favoreceu o reconhecimento do saber passe tem sido compreendido por esse grupo de
local, construído a partir das experiências de vida pesquisa como uma importante categoria que sin-
das pessoas que lidam com o sofrimento, a do- tetiza uma série de fatos cotidianos que culmi-
ença e seus determinantes nas condições de vida nam na inação, advinda da própria ineficácia das
da população mais pobre. soluções encaminhadas ou da impossibilidade de
Esta pesquisa foi realizada na região da Leo- agir diante das circunstâncias apresentadas8.
poldina, área cujo território abrange em torno
de 10% da cidade do Rio de Janeiro4. A renda
média da região (três salários mínimos) é baixa, Metodologia
praticamente a metade da média da cidade. Co-
nhecida como uma das áreas mais violentas, abri- A metodologia desenvolvida neste estudo amplia
ga quatro complexos de favelas: Maré, Mangui- a concepção de ouvidoria tradicionalmente utili-
nhos, Alemão (inclui o complexo da Penha), além zada, pois envolve uma escuta ativa da popula-
de Vigário Geral. ção e conjuga elementos de ouvidoria com pes-
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quisa social qualitativa. Promove uma busca de tário de saúde, em razão de realizar visitas domi-
informações aprofundadas sobre as condições ciliares diariamente e, desse modo, conhecer os
de vida das comunidades, por meio da incorpo- problemas que as classes populares enfrentam
ração do olhar de atores sociais que não somente no seu cotidiano; duas lideranças de organiza-
vivenciam essa situação, mas também se consti- ções populares, pois têm experiências em lidar
tuem em porta-vozes – “ouvidores naturais” – com os problemas de saúde da população; duas
dos grupos que representam. Trata-se de uma lideranças de diferentes segmentos religiosos,
concepção que amplia a visão tradicional de vigi- devido à crescente busca das classes populares
lância à saúde, o que se torna relevante diante do por essas instituições, onde as queixas são fre-
adoecimento e sofrimento crescente da popula- quentemente expressas tanto em seus aspectos
ção e das dificuldades de acesso e resolutividade físicos quanto em relação ao sofrimento difuso.
dos serviços públicos de saúde. Além desses participantes, cada grupo contou com
Os fóruns da Ouvidoria Coletiva constituí- a presença de duas pesquisadoras, encarregadas
ram-se em espaços privilegiados de diálogo entre de coordenar os fóruns, registrar as informa-
os saberes científicos e os populares, tendo ela ções e elaborar os relatórios. Ao todo, participa-
sido concebida nos pressupostos do processo de ram como informantes da pesquisa três profis-
“Construção compartilhada do conhecimento”, sionais de saúde, três agentes comunitários de
metodologia sistematizada no âmbito da Ensp, saúde – que são, ao mesmo tempo, profissionais
em que a teoria é desenvolvida a partir da prática, e moradores do local onde trabalham – e doze
e na qual se procura promover a troca de saberes moradores/representantes das comunidades em
e o protagonismo popular. Baseia-se, na dimen- que moram/atuam.
são educativa, no construtivismo – em como nós Em cada uma das três regiões foi realizado
construímos o conhecimento a partir de nossas um fórum mensal ao longo de seis meses do ano
experiências, estruturas mentais e crenças – e na de 2004, totalizando dezoito fóruns. No último
educação popular de base freiriana9 – prática edu- fórum de cada região os pesquisadores apresen-
cativa que contribui para a construção de cidada- taram os resultados aos participantes da pesqui-
nia e acredita na capacidade dos sujeitos em ela- sa e, em conjunto, organizaram o seminário final,
borar critérios de análise próprios, por meio de garantindo assim maior representatividade deles.
experiências estimuladoras de autonomia e deci- Na busca de obter respostas mais espontâ-
são, no diálogo e na reflexão crítica10. neas e menos dirigidas, os temas foram aborda-
Para a discussão dos resultados foram utili- dos com perguntas abertas e incluíram: alimen-
zados elementos metodológicos do discurso do tação e nutrição, expressões do sofrimento, aces-
sujeito coletivo11, no que diz respeito tanto à or- so aos serviços de saúde, intensidade endêmica
ganização dos discursos por meio do destaque de determinadas doenças, frequência de morbi-
de expressões-chave referentes às categorias pré- mortalidade por questões externas, problemas
vias da pesquisa como à elaboração de uma sín- na atenção à saúde e iniciativas da população em
tese comentando descritivamente os dados obti- busca de solução para os seus problemas.
dos em cada tema abordado. Foi utilizada, tam- Além dos fóruns, realizamos dois seminári-
bém, a teoria das representações sociais na com- os: o primeiro no início do projeto para apresen-
preensão do processo dinâmico de construção tar a pesquisa à Coordenação da Área Progra-
da realidade, tomando as representações do sen- mática 3.1 e aos gestores das unidades de saúde
so comum não como verdades absolutas, mas pesquisadas, e outro no final para apresentar e
como teias de significados12, que produzem uma discutir os resultados com os participantes da
versão da realidade, e que se constituem em co- pesquisa, profissionais da área e coordenações
nhecimento legítimo e motor das transforma- de saúde das três esferas de governo: municipal,
ções sociais13. estadual e federal.
Com o intuito de garantir a representativida-
de dos interesses das classes populares, bem como
da Ouvidoria Coletiva proposta, cada grupo for- Resultados
mou uma comissão composta pelos seguintes
membros voluntários: um(a) profissional do Em seguida, serão apresentados os resultados
centro de saúde, em razão do caráter formal e desta pesquisa que procura mostrar como a po-
governamental da unidade de saúde, que nor- breza compromete a saúde, subdivididos em três
malmente recebe as primeiras demandas das clas- itens: em seus aspectos socioeconômicos, subje-
ses populares da região; um(a) agente comuni- tivos e em relação aos cuidados com a saúde. Os
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dados dizem respeito à percepção de uma parce- além da ineficácia das ações governamentais para
la da população que vive e convive com os mora- solucionar os problemas e oferecer serviços bási-
dores de complexos de favelas de uma determi- cos adequados16. A ideia de que há uma imensa
nada região do município do Rio de Janeiro. Não parcela da população que não será integrada de
podemos afirmar que essas percepções corres- forma satisfatória na economia moderna e de
pondam à totalidade das visões presentes atual- que a distribuição de alguns benefícios pelos go-
mente entre as camadas populares, mas pode- vernos pode não resolver a situação dessas pes-
mos aferir que possivelmente fazem parte das soas parece não ter sido suficientemente assimi-
representações sociais presentes em muitos es- lada pelas instâncias públicas17 e fica evidente nos
tratos da sociedade brasileira. fóruns de Ouvidoria.
Milton Santos14 afirma que a pobreza não
pode ser vista como um problema estritamente Pobreza socioeconômica
econômico; ela é, acima de tudo, um problema
social. Trata-se de uma categoria política, razão Em relação à pesquisa de Ouvidoria, consta-
pela qual sua definição deve ir além de uma aná- tou-se que a fome, um problema crônico e grave
lise baseada em indicadores socioeconômicos na região, foi apontada como um dos principais
como profissão, renda e escolaridade. fatores desencadeantes dos vários problemas que
Sonia Rocha15 sugere ser a pobreza um fenô- se apresentam no cotidiano das comunidades.
meno complexo. De forma genérica, a autora a Devido às precárias condições de habitação, es-
define “como a situação na qual as necessidades sas pessoas são obrigadas a disputar os alimen-
não são atendidas de forma adequada”; incor- tos com os ratos, como mostra o depoimento a
pora, portanto, outras necessidades humanas seguir, de uma agente de saúde: Outro dia, um
como educação, saneamento, habitação etc., além paciente meu falou que só tinha o arroz. De ma-
das necessidades de alimentação; e vincula a po- drugada ele acordou com a tampa da panela, que
breza à insuficiência de renda ou ao desprovi- caiu. Quando ele foi ver, era um rato dentro da
mento de necessidades básicas. A autora vê po- panela. Eu falei: “Como é que você fez?” “Eu es-
breza e desigualdade como duas faces de um pantei o rato e tampei a panela e guardei o meu
mesmo problema, relacionadas diretamente com arroz. Eu só tinha aquele.”
o contexto social no qual as pessoas estão inseri- As cestas básicas e outros auxílios oferecidos
das. “Em última instância, ser pobre significa não pelo governo não são suficientes para atender à
dispor de meios para operar adequadamente no população: a quantidade de alimentos não aten-
grupo social em que se vive”15. de à família durante todo o mês, e a qualidade
A ênfase no caráter “relativo” da noção de dos alimentos doados, em geral de baixo valor
pobreza parece mais adequada, segundo a auto- nutritivo, é um problema, pois favorece a desnu-
ra, pois implica a definição de necessidades a se- trição e a obesidade. Além disto, a população
rem satisfeitas em razão do modo de vida de cada aponta para o fato de que a quantidade de cestas
sociedade – o que difere da noção de “pobreza básicas é insuficiente diante da necessidade da
absoluta” que está vinculada à sobrevivência físi- população, e alguns participantes alegam que esse
ca, portanto ao não atendimento das necessida- processo perpetua a injustiça, pois uns recebem e
des vinculadas ao mínimo vital. outros não.
Ao se tratar da questão da pobreza, o que Identificar os mais necessitados é uma tarefa
está em jogo não são apenas os problemas de difícil. Algumas pessoas que vivem em situações
desenvolvimento e de recursos econômicos, mas muito precárias se escondem durante o dia por-
acima de tudo de interesses, níveis de prioridade, que têm vergonha, e saem somente à noite para
graus de (des)igualdade e de organização políti- catar restos nos lixos. Os entrevistados apontam
ca e social. Como consequências diretas desse sis- para a necessidade de rever os critérios de acesso
tema vemos ocorrer, por um lado, o desempre- aos benefícios. Durante os fóruns, foi sugerido
go, a desnutrição e a fome e, por outro, o apare- por um profissional de saúde que a identificação
cimento de novas doenças e o reaparecimento das famílias mais necessitadas fosse feita pelos
ou aumento de incidência de antigas9. agentes comunitários de saúde, que conhecem
Os impasses da população se agravam na bem as condições de cada família, em razão das
conjuntura atual de políticas neoliberais no Bra- visitas domiciliares.
sil que contribuem para aumentar a desigualda- Os representantes dos fóruns sinalizaram que
de social, o desemprego, a violência, a pobreza, a a proposta de oferecer programas como Bolsa
crise na área da saúde, entre outros aspectos, Família e Cheque Cidadão é insuficiente no con-
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texto em que vivem. Além disso, esse tipo de aju- direta entre pobreza e adoecimento, como mos-
da é apelidada como “bolsa-esmola” e “cheque- tra o depoimento a seguir, de uma liderança reli-
humilhação” para muitos sujeitos que lutam giosa: É a miséria que causa aquele tipo de doença.
para conseguir se inserir no mercado de traba- Não tem o que comer, ela fica fraca, fica fraca com
lho. Os participantes também fizeram referência depressão, da depressão aparece outra coisa, é tudo
ao fato de que os projetos sociais não têm conti- muito ligado. As pessoas assim em miséria extre-
nuidade e ficam à mercê do clientelismo político. ma, a doença vem tudo de uma vez.
Às vezes tem o alimento, mas não tem o gás pra
cozinhar. Conforme relatado por moradores Pobreza e subjetividade
durante os fóruns, em algumas comunidades esse
problema fica agravado em razão do monopólio Por que eu não tenho direito a tudo que a Glo-
do gás, exercido pelo narcotráfico; que determi- bo mostra? Eu sou diferente? Esta frase, dita por
na o aumento do preço e dificulta ainda mais o uma moradora da Maré, nos coloca diante de
acesso à compra do gás. uma situação algumas vezes pouco valorizada –
Cresce o número de pessoas morando em o desejo. Paulo Sabroza19 entende que a crise da
uma mesma casa, e novos barracos são constru- saúde pública, ainda atual, é também aquela vi-
ídos em lugares sem saneamento e nenhum tipo vida no cotidiano e se expressa pela generaliza-
de segurança. Em virtude do espaço reduzido das ção e banalização do mal-estar. Para este autor,
habitações, muitas com apenas um cômodo pe- um projeto de uma nova saúde pública dirigida
queno, as crianças dormem amontoadas e pró- a promover a saúde e não preferencialmente a
ximas do fogão. Em algumas casas, as famílias cuidar da doença deverá entender e trabalhar a
são obrigadas a dividir o espaço com ratazanas; premissa de que os homens não possuem ape-
aquelas que possuem berços precisam suspen- nas necessidades, mas também desejos e medos
dê-los no alto dos barracos para evitar que os e que o sofrimento precisa ser atendido.
bebês sejam mordidos enquanto dormem. Nem Um mundo fascinante que concretiza em ob-
todos têm acesso a banheiro; algumas famílias jetos de consumo valores como bem-estar, suces-
utilizam banheiro coletivo e outras improvisam so e poder penetra indistintamente em todas as
do lado de fora da casa. Em algumas moradias casas por meio da televisão – muitas vezes única
existem valas de esgoto abertas na entrada e no forma de lazer possível – gerando muitos proble-
seu interior, cobertas com tábuas. mas, principalmente onde não há, sequer, garan-
Muitos fatores apontados como determinan- tia de sobrevivência. Isso afeta principalmente os
tes do adoecimento foram relacionados, pelos jovens. As demandas produzidas por este modo
participantes, à precária situação de vida. A violên- de viver, que privilegia o “ter”, são fomentadas em
cia cotidiana, em suas diversas formas, foi consi- todos, mas o reconhecimento do outro como
derada como um fator de adoecimento das pes- sujeito de desejos, não. Tampouco o acesso a opor-
soas. A luta pela sobrevivência – que impõe bai- tunidades que possibilitam melhores condições
xos salários e mesmo falta de emprego –, a crimi- de vida está presente na vida de todas as pessoas.
nalidade, a dificuldade de acesso às escolas e aos Parece tratar-se de um cruel jogo de forças que,
serviços de saúde, as condições insalubres de ao mesmo tempo, inclui a todos como consumi-
moradia, o dilaceramento das relações familia- dores potenciais, mas exclui uma grande maioria
res, a falta de tempo para cuidar de si, entre ou- dos meios que possibilitam não apenas o consu-
tras expressões de violência, geram estresse, revol- mo amplo, mas também o acesso à satisfação
ta, raiva, depressão e diversos outros sintomas. das necessidades básicas20.
Porque assim, quando a gente trata de saúde, é Nas populações pobres, as dificuldades de
difícil você não falar de violência, você não falar de sobrevivência diária impõem um ritmo de tal
morte, não falar de condições de vida... Essas coisas forma exigente que torna difícil a renovação das
estão interligadas. Então a única saída pra saúde é energias tanto físicas quanto psíquicas. A depres-
melhorar a qualidade de vida, não é? (fala de uma são leve, a baixa estima de si, mal-estar, “proble-
liderança comunitária). ma de nervos”, que se expressam muitas vezes
As classes populares, como podemos cons- em dores generalizadas, insônia, encontram-se
tatar nesse depoimento, expressam uma visão disseminadas pela comunidade. Esse sofrimento
ampla e integral de saúde, próxima da “tradicio- foi relacionado, pelos moradores, a problemas
nal’, na medida em que não separam o corpo da como a falta de perspectiva de vida e de lazer, que
alma, o homem da natureza, entre outras con- limita sonhos e projetos, e percebido como o
cepções18. As falas apontam para uma relação problema de saúde mais visível no local: a gente
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não consegue ver o amanhã, não consegue olhar vem vem de uma família desestruturada22. De
assim... pra frente e ver o outro dia. Essa coisa da todo modo, a maternidade precoce continua sen-
perda de perspectiva é uma coisa que é muito séria do um impedimento para a melhoria da condi-
e é uma coisa que a gente sempre se defronta. ção educativa da mulher em todas as partes do
Pelos olhos da mídia, se veem como “pessoas mundo, e contribui para reduzir a qualidade de
que não valem a pena”, o que contribui para um vida da mulher e de seus filhos23.
sentimento de menos-valia. Suas lentes mostram De fato, o status dos bandidos exerce certo
a favela como lugar de bandido ou “de pessoas fascínio sobre os jovens e atrai as meninas. Entre-
miseráveis que servem pra nada”. Raramente fo- tanto, o poder dessa sedução encontra o limite
cam a luta cotidiana por uma vida digna, a cria- quando a violência se instala. O narcotráfico im-
tividade para superar os problemas, a alegria e põe suas leis através do terror. No caso do Com-
até mesmo a dor dos que vivem nesse espaço. Ao plexo da Maré, por exemplo, fronteiras invisíveis
contrário, as filmagens aéreas sinalizam que o demarcam as áreas de domínio de cada facção e
local é tão perigoso que não se pode andar pelas não podem ser ultrapassadas pelos moradores.
ruas; local de exclusão social19. O tráfico cerceia o direito de ir e vir dos cidadãos
Martins21 considera que a lógica da sociedade colocando-os em risco. A ausência do poder pú-
capitalista é de excluir para incluir de outro modo, blico nesses locais permite que os traficantes cri-
segundo suas próprias regras. O problema da em sua própria “política habitacional”, como de-
exclusão começou a se tornar mais visível, atual- monstra o depoimento a seguir, de uma agente
mente, em razão do longo tempo para a reinclu- comunitária: agora é ordem dos homens lá, dos do-
são, que frequentemente se dá à custa de certa nos da área, barraco fechado é pra quem está preci-
degradação. A inclusão ocorre, mesmo que de sando. “Estou precisando, eu não tenho casa onde
forma marginal, precária e instável. Esse proces- morar.” “Você anda por aí, vê o que está fechado
so cria uma sociedade paralela que é includente mais de três dias, você vem aqui e me avisa...”
do ponto de vista econômico e excludente do pon- Com a polícia, a relação também não é fácil.
to de vista social, moral e até político. Para jovens Embora sejam representantes do poder público
com pouca perspectiva de trabalho e de futuro, e com a função de proteger os cidadãos, poucos
invisíveis para a sociedade e moradores de um policiais, na visão dos participantes da pesquisa
local identificado como lócus da bandidagem, o – moradores dessas comunidades –, exercem tal
narcotráfico se oferece como uma possibilidade função. Em geral, entram na comunidade ati-
de saída. A visibilidade e a perspectiva de aquisi- rando, sem o menor cuidado com os transeun-
ção de poder ganham o imaginário de jovens, atra- tes, como se todos fossem bandidos, humilham
indo-os para o crime organizado como possibili- e aterrorizam os moradores. Além disso, segun-
dade de ascensão social e às vezes até para con- do vários relatos, muitas vezes recebem dinheiro
quistar a namorada: Ah, deixa estar! Quando eu do próprio narcotráfico, e às vezes até achacam
estiver no poder você vai me querer. De fato, algu- trabalhadores.
mas jovens adquirem status através de suas rela- Algumas vezes, a violência da luta pela sobre-
ções com os traficantes. Ainda muito novas en- vivência gera outras formas de violência. O vício,
gravidam e, segundo a fala de uma liderança co- muitas vezes, se constitui numa possível respos-
munitária, é como se fosse uma fábrica de sucessão. ta para pessoas que, em vão, buscam vínculos e
A gravidez na adolescência é um sério e com- o reconhecimento de que possuem valor, uma
plexo problema de saúde pública. Se, por um vida interior – como as pessoas de outras classes
lado, a gravidez indesejada coloca em risco a vida sociais – com sonhos, desejos e expectativas. En-
de algumas adolescentes ao provocarem o abor- tretanto, essa forma de responder aos anseios de
to, por outro, quando desejada, pode represen- visibilidade e inserção social acarreta mais vio-
tar a concretização de um projeto de vida ou a lência, em especial no âmbito das relações famili-
necessidade de compensar certas insatisfações, ares19. O alto índice de alcoolismo, inclusive entre
dada a crise econômica e a consequente falta de adolescentes, e o consumo de cocaína pelos jo-
oportunidades profissionais, que impossibilitam vens, aos quais tradicionalmente fica o encargo
outras formas de realização. Ao mesmo tempo, de cuidar das crianças, levantou, entre os partici-
assumir a maternidade representa para essas pantes da pesquisa, a hipótese de que algumas
adolescentes um exercício efetivo de controle so- crianças ficam sem assistência, já que os pais es-
bre seu corpo, sua fertilidade e seu poder de “ser tão trabalhando. No entanto, alguns casos fo-
mulher”. Pode ainda representar a construção de ram entendidos como abandono e omissão por
sua própria família, principalmente se essa jo- parte dos pais.
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Outro indício de grande sofrimento aponta- se agressivos. O aumento da demanda não é per-
do na pesquisa se refere às tentativas de suicídio, cebido por profissionais e pacientes como con-
principalmente entre os adolescentes. Os profis- sequência da violência.
sionais de saúde as veem como uma forma dra- A dificuldade de acesso ao atendimento em
mática de chamar a atenção. Entretanto, a falta saúde favorece a automedicação e a repetição de
de perspectiva de vida também acentua a desilu- prescrições antigas, que muitas vezes não são usa-
são dos jovens, gerando reações extremadas, das adequadamente e acarretam risco para a saú-
conforme relata uma profissional de saúde: Não de, tanto individual quanto coletiva. Este é o caso,
estuda, não tem emprego, não tem perspectiva de por exemplo, do uso indiscriminado de antibióti-
melhorar de vida. Aí perde um namorado ou outro cos, que tornam as bactérias mais resistentes.
acontecimento7. As doenças mais frequentes apontadas pelos
profissionais de saúde foram as respiratórias,
Cuidado à saúde principalmente asma, bronquite, pneumonia e
enfisema pulmonar; as cardiovasculares, tais
Quanto ao acesso aos serviços públicos de como hipertensão em diversas faixas etárias, in-
saúde, o que se percebe é que os serviços em geral clusive entre adolescentes; e o diabetes. Outras
não têm condições de atender a muitas deman- citadas foram a tuberculose e as doenças sexual-
das da população. Constata-se também que a mente transmissíveis, principalmente Aids, sífilis
dificuldade de acesso é crescente de acordo com e HPV. Em relação à tuberculose, foi lembrado o
o nível de complexidade da atenção. abandono do tratamento e a consequente recidi-
A maioria dos moradores destacou a falta de va da doença. Diarreia e desnutrição em crianças
profissionais nos hospitais e postos de saúde; as também estão presentes. Algumas doenças in-
filas são longas e nem todos conseguem ser aten- fantis, como pediculose, escabiose, piodermites e
didos, aumentando cada vez mais a demanda verminoses, acometem com frequência as crian-
reprimida. Existem dificuldades para marcação ças, como foi relatado no depoimento de uma
de consultas – principalmente com especialistas coordenadora de creche comunitária participante
– e exames. Muitos pacientes ficam aguardando dos fóruns de Ouvidoria. Entretanto, quando
agendamento durante um grande intervalo de chegam aos postos de saúde, em geral, essas do-
tempo. Os profissionais de alguns postos de saú- enças encontram-se em estágio avançado, segun-
de chegam a fazer grupos de orientação e estí- do informações dos profissionais de saúde.
mulo para que as pessoas não desistam de fazer Os moradores foram unânimes em assinalar
os exames e/ou o tratamento. Outra dificuldade que a maior frequência de mortalidade ou mor-
é conseguir vaga para internação nos hospitais bidade por questões externas refere-se aos aci-
públicos. Em alguns casos, o profissional sugere dentes ocasionados por tiro, tanto de pessoas
que o paciente se encaminhe para o setor de emer- inocentes quanto de envolvidas com o tráfico de
gência para conseguir a internação. drogas; em suas palavras: Tirando a doença, só
A Estratégia Saúde da Família foi apontada sobra tiro. Relataram também que as pessoas
pelos participantes como um importante recur- estão morrendo de susto, como demonstra o
so para minimizar os problemas da atenção bá- depoimento contundente de uma agente comu-
sica. Entretanto, as equipes também sofrem com nitária de saúde: Morre-se também do coração.
a alta rotatividade e com a falta de profissionais, Até por susto mesmo, porque do jeito que está ali
em particular o profissional médico, pois mui- meu filho, Deus que me perdoe, as pessoas estão
tos se recusam a trabalhar em área de risco, com acordando de madrugada de tiro... É doenças car-
medo da violência e da falta de segurança nas diovasculares, pressão alta, leva aquele susto, não
comunidades. é? Gente, é horrível! Igual eu estou falando, a gente
Mesmo nos serviços de saúde que funcionam sobe [o morro, para fazer visita domiciliar], quer
com um número adequado de profissionais, o dizer, às vezes você esteve com aquela pessoa uma
acirramento da violência acarreta um aumento semana antes, a pessoa estava bem, tranquilo, aí
da demanda e gera insatisfação e revolta. No dia você sobe, já verifica que ela está com a pressão
seguinte a uma noite de tiroteios, a fila do posto alta, entendeu? Já está nervosa, não é? As coisas
de saúde aumenta: idosos, hipertensos, grávidas acontecem ali na porta dela, elas não podem fazer
com sangramento, crianças com vômito e diar- nada, não pode falar nada, não pode gritar, ela tem
reia são os que mais procuram os serviços. Al- que ver e ficar quieta, quer dizer, na semana se-
guns usuários atribuem a demora no atendimen- guinte ela já está com os nervos... Já não tem para
to à incompetência dos profissionais, e tornam- onde ir, tem que ficar ali mesmo. Quer dizer, e só
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Guimarães MBL et al.

vendo violência, e aí a pessoa, de susto também blemas sociais envolvidos na gênese e nas atuali-
acaba morrendo. zações dessas perturbações nervosas, tanto para
Há também outros tipos de violência que os sujeitos envolvidos como para a sociedade, e
ocasionam risco de morte, como os espancamen- também para a formulação de práticas e políti-
tos, mutilações, brigas e práticas indiscrimina- cas de saúde. O recurso à medicalização não re-
das de aborto, entre outros. solve o problema individual e concorre para a
cronificação do doente, dependente desse tipo de
Os impasses medicação6.
Podemos citar ainda outros impasses que se
Ao longo da pesquisa, percebemos dificulda- referem à falta de medicamentos nos serviços
des sobrepostas e mesmo adjetivadas como in- públicos de saúde; diante da impossibilidade de
superáveis, denominadas pelo grupo de pesqui- comprá-los, os pacientes ficam sem tomar as
sa de impasses. Um dos principais impasses de- medicações, acarretando problemas de saúde que
tectados diz respeito ao fato de que, diante da poderiam ser evitados, como nos casos daqueles
complexidade dos problemas da população, o que sofrem de hipertensão arterial e diabetes.
sistema de saúde não consegue dar conta da sua Além disso, há muitos indivíduos diabéticos das
resolução, pois muitas vezes tais problemas ex- classes populares que não têm renda suficiente
trapolam as ações empreendidas no âmbito dos para fazer uma dieta adequada, e se alimentam
serviços. A fala a seguir de uma liderança ilustra “do que tem para comer”.
bem esse impasse: Essas questões fogem da resolu- Diante da impotência em lidar com as situa-
ção no sistema de saúde A questão é até apreciada, ções aqui descritas, muitos profissionais de saú-
não é? Mas não é resolvida, não tem como resolver. de têm adoecido com maior frequência, apre-
Foge. Ontem, ela comeu água com pé de galinha. sentando tuberculose pulmonar, hipertensão ar-
Hoje, de repente não tem nem isso, não tem nada terial, depressão, por exemplo, conforme relato
para comer, entendeu? Ontem ela teve pelo menos dos profissionais de saúde durante os fóruns.
alguma coisa. Hoje ela só bebe água, só teve água.
Então o problema é que a pessoa está doente, vai ao Alguns caminhos da população
médico, o médico passa os medicamentos, mas tem no enfrentamento dos problemas
o problema da alimentação, como é que você vai
tratar disso? Você não trata. Como é que você vai Para lidar com as situações de impasse, a po-
resolver? Não resolve. pulação busca diferentes caminhos – alguns dos
O atendimento nos postos de saúde para o quais acabam por aprofundar o impasse. A utili-
sofrimento difuso ocasiona outro impasse entre zação de benzodiazepínicos é uma forma de pro-
a atuação dos clínicos e a dos profissionais de porcionar um certo apaziguamento para as situa-
saúde mental, conforme relatado por uma pro- ções de sofrimento, mas não resolve o problema,
fissional de saúde: Tem uma discussão entre o psi- como já pontuamos. Outra forma a que, em geral,
quiatra e os clínicos. O psiquiatra fala: “Eu não os homens costumam recorrer é o consumo de
vou ficar recebendo paciente pra fazer desmame de bebida alcoólica. Nesse caso, o que é prazer, des-
diazepan.” E o clínico fala: “Mas como é que eu contração e alívio dos sintomas para os homens é,
não vou prescrever o diazepan pra uma criatura para as mulheres, motivo de preocupação, abor-
que mora lá no morro, que vive, passa as noites recimento e mesmo de desespero ao ter que lidar
embaixo da cama por conta dos tiros, então como com o marido que chega bêbado em casa.
é que eu posso não prescrever o calmante pra essa Outras formas parecem apontar caminhos
pessoa?” Então é um conflito muito grande. no sentido da construção de redes e práticas de
Isso acontece devido ao fato de que a pessoa apoio social que auxiliam no enfrentamento dos
com sofrimento difuso não faz parte da clientela problemas de saúde-doença. É o caso, por exem-
preferencial da saúde mental – estruturada para plo, da busca crescente pelas igrejas e por outros
o atendimento a transtornos mentais mais gra- centros religiosos. Em alguns desses espaços, a
ves – nem da clínica geral, uma vez que o sofri- dimensão do cuidado se faz presente, pois as pes-
mento é de ordem emocional. Entretanto, esse soas vão para desabafar os seus problemas, se
sofrimento é uma das mais importantes causas sentem acolhidas e saem de lá com uma certa
de morbidade na atenção básica. A resposta mais orientação para tentar resolver as dificuldades
imediata e a que tem sido mais utilizada nos ser- do cotidiano. A religião propicia outro senso de
viços públicos é a medicalização com benzodia- coerência ou um sentido para aquilo que aparece
zepínicos. Tal medida tende a acobertar os pro- desordenado em suas vidas. Os líderes religiosos
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Ciência & Saúde Coletiva, 16(1):291-300, 2011


procuram fortalecer a autoestima dos fiéis com tindo uma releitura dos problemas de saúde,
palavras de conforto e estímulo. Ademais, pos- mas também pela possibilidade de construção
suem uma visão ampla de saúde que incorpora de novas redes participativas e atuantes, pois as
os aspectos subjetivos. lideranças comunitárias, religiosas e os profissi-
Já se sabe que há uma crença das classes po- onais de saúde têm avaliado a Ouvidoria como
pulares de que os serviços públicos são impor- espaço de participação, aprendizado e articula-
tantes para a sua saúde, mas há também a per- ção de novas redes de apoio social. Para os gesto-
cepção de que muitos problemas de saúde não res, as informações sistematizadas e as discus-
podem ser resolvidos nesses serviços. O apoio sões desencadeadas nesse processo podem con-
social sistemático de um grupo de pessoas tem o tribuir para a reflexão acerca das políticas públi-
efeito de causar uma melhoria no estado de saú- cas de saúde na região e, consequentemente, aju-
de daqueles que se encontram envolvidos3. Nesse dar no planejamento da gestão dos serviços, de
sentido, o pertencimento a uma instituição reli- modo a permitir a criação de práticas de integra-
giosa propicia às pessoas relacionamentos fre- lidade em saúde – como pode ser percebido no
quentes e duradouros, saindo do isolamento exemplo citado, referente à reorganização na es-
existencial e social. colha das famílias mais necessitadas para receber
Existem outras formas de enfrentamento da os auxílios do governo.
situação de impasse que pelo menos amenizam a Para que possamos pensar em práticas de
situação imediata: a participação de mulheres no integralidade, faz-se necessária a compreensão
cuidado das crianças em creches comunitárias; a ampla da saúde como qualidade de vida. Isto
compra coletiva de botijão de gás por diversas nos leva a um olhar segundo o qual a produção
famílias; o chamado reforço escolar; encontros da saúde, na maior parte das vezes, está fora do
para enfrentar o problema da dependência quí- campo restrito das ações de governabilidade da
mica; a conquista de bolsas de estudo universitá- área da saúde, pois, além de biológica, a produ-
rio por associações de moradores; atividades ção da saúde é social. Neste sentido, se não levar-
organizadas por profissionais de saúde com hi- mos em conta as dimensões sociais e culturais
pertensos e diabéticos, por exemplo. Enfim, po- envolvidas nos processos de saúde-doença, e es-
demos perceber que essas diversas manifestações pecificamente os aspectos relacionados à redu-
têm em comum a busca de construção de víncu- ção da pobreza e à diminuição das desigualdades
los e de apoio social. sociais, com certeza continuaremos a nos depa-
rar com uma série de impasses que comprome-
tem a saúde dos indivíduos, elevando o nível do
Considerações finais seu sofrimento e o adoecimento da sociedade
como um todo.
A Ouvidoria Coletiva permitiu dar visibilidade a A compreensão de que a pobreza compro-
informações e práticas participativas, tecidas pela mete a saúde deve estar no horizonte de todos
sociedade civil, que se encontram muitas vezes in- aqueles que se dedicam à implementação e à ges-
visíveis para grande parte dos profissionais de saúde tão de políticas públicas. Isso implica maiores
e gestores. Nessa perspectiva, também é possível investimentos financeiros direcionados ao setor
desvelar os caminhos trilhados pelas classes popu- saúde para “tapar os buracos” deixados pela fal-
lares diante das precárias condições de vida. ta de condições de vida minimamente dignas.
Como metodologia, tem se mostrado eficaz Enfim, políticas de redução da pobreza fazem-se
não somente na sistematização de informações urgentes e necessárias na luta pela promoção da
que se encontram dispersas na sociedade, permi- saúde e garantia dos direitos de cidadania.
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Guimarães MBL et al.

Colaboradores nou o trabalho, definindo seu escopo, partici-


pou da coleta de dados e contribuiu na análise
MBL Guimarães coordenou e participou da co- dos dados; EN Stotz planejou e coordenou o tra-
leta e análise de dados, realizou pesquisa biblio- balho, contribuiu na análise dos dados e na revi-
gráfica, redação do relatório da pesquisa e redi- são do artigo; A Lacerda participou da coleta e
giu o artigo; CM Lima, EA Savi e E Cardoso par- análise de dados, da redação do relatório da pes-
ticiparam da coleta e análise de dados, pesquisa quisa e contribuiu na revisão do artigo; MS San-
bibliográfica, redação do relatório da pesquisa e tos participou da coleta e análise de dados e da
redação do artigo; VV Valla planejou e coorde- redação do relatório da pesquisa.

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