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VAZ, H. C. de Lima. Sentido e não sentido na crise da modernidade.

In Sístese
Nova Fase, Belo Horizonte, v.21, n°. 64, jan-mar, (1994):p. 5-14. Curso: Filosofia.
Disciplina: Metafísica. Série: 3°, 1° Semestre, 2019
Prof. Dr. Manuel Moreira da Silva. Acadêmico: Silvestre Francisco Grandal
Coelho Savino Junior
AUTOR LEITOR
1. O problema do Sentido apresenta- 1. Henrique Cláudio de Lima Vaz (1921 -
se aqui intimamente ligado ao 2002), um dos grandes filósofos
problema da linguagem e a atualidade brasileiros, busca com este artigo
de ambos se inscreve no espaço ideo- introduzir o debate acerca da noção de
histórico da modernidade no momento Sentido, que na modernidade tem sofrido
em que este alcança sua configuração grandes transformações. O conceito de
definitiva, tornando-se nele Sentido tem se tornado um dos um dos
plenamente visíveis as estruturas mais discutidos na contemporaneidade,
intelectuais profundas que o vieram fruto do ambiente moderno
modelando ao longo dos últimos Neste período, em que a Linguagem
séculos. (pag. 5) passa a ter papel fundamental nas áreas
de conhecimento, após a virada
linguística que influenciou intelectuais de
várias áreas do conhecimento, a noção
de Sentido acompanha esta mudança,
sendo muito importante nas questões de
definições novas, compondo as
estruturas que compõem as discussões.
Portanto, a crise provem da
transfiguração da noção do Ser para
figura de Representação, que está
intimamente ligada ao Sentido.
2. A solução desse problema 2. O autor demonstra, neste trecho, que
conhece diversas versões na filosofia o problema da Representação não surge
antiga, mas ele recebe um com a modernidade, já que a abertura do
insuspeitado e dramático mundo inteligível vem do período
aprofundamento quando, a partir de clássico, com a teoria platônica, e ela
Santo Agostinho, da presença tem grande influência no período
representada da Santíssima trindade medieval, do qual Santo Agostinho, um
na alma incorporou o tema dos grandes nomes do período, tem em
gnosiológico da representação, seja Platão, e alguns neoplatônicos, como
articulando-o à doutrina da iluminação norteadores de seu pensamento.
divina do intelecto criado, seja Agostinho, ao formular uma teoria que
integrando-o na dialética do trazia a noção de Imagem, semelhante a
mensurante e do mensurado e teoria platônica em que a noção de que
submetendo-o à norma última da o que vemos é uma representação do
Medida absoluta. (pag. 6) que encontra em um mundo ideal, onde
tal é semelhante ao que pode ser
conhecido da própria coisa.
3. Esses foram, na verdade, o intento 3. O conceito de Representação,
e o projeto que animaram a conjuntamente com o de Sentido,
extraordinária aventura da passam a ser a teoria dominante no
modernidade ocidental. (pág. 6) período da modernidade. Esta
passagem tem início em Duns Escoto,
filósofo do período de transição do
período medieval para o moderno,
quando, ao postular o Ser Objetivo, dá
início a uma nova forma de se entender
o Ser, sendo que para entende-lo
haveria a necessidade de um
transcendente na forma de
Representação, criando com isso uma
abstração
4. A tarefa de sistematizar essa 4. Essa forma abstrata de tratar o
primazia na forma de uma teoria na conhecimento, que foi adotada pela
forma de uma teoria do conhecimento, modernidade, acaba criando uma
assumida como preâmbulo grande laguna entre o Ser e as formas
necessário da atividade filosófica por de conhece-lo no mundo, porque esta
todo o pensamento moderno, nova estrutura acaba por tornar
representa, de fato, a iniciativa de uma inacessível as investigações filosóficas,
mudança profunda na estrutura do e contamina todas as formas de
conhecimento intelectual que vigora conhecimento do mundo ocidental, pois
desde os tempos platônicos- está nova forma de se encarar o Ser,
aristotélicos. (pag. 7) totalmente diferente da forma como os
antigos o tratavam, irá criar uma figura
de Verdade abstrata, que irá contribuir
para a crise do conhecimento como um
todo.
5. A representação deixa de ser 5. . Neste novo sistema de se relacionar
apenas o sinal formal que reenvia com o conhecimento, a teoria da
imediatamente ao objeto na sua Representação tem o papel central, pois
realidade extramental, para constituir- é dela que surge este novo sujeito de
se em termo imediato, em id quod da conhecimento, que conhece o objeto de
intenção cognoscitiva. (pag. 7) forma abstrata, recebendo outra
configuração na relação com o que se
pretende conhecer. Esta relação é mais
que uma simples representação, que
repassa uma informação sobre um
objeto ao sujeito de conhecimento, mas
uma relação imediata, onde a própria
relação se realiza a um passo somente,
em que se traça um limite, enquanto
medida, do que se pode conhecer do
objeto, sendo esta representação quem
delimita e traça o critério de
cognoscibilidade do objeto investigado.
6. As três grandes vertentes teóricas 6. Segundo o autor, há uma grande
da modernidade apoiam-se, desta mudança na divisão clássica de “formas”
sorte, sobre o fundamento da teoria da de conhecimento, passando da divisão
representação, interpretada de acordo teórico, prático e poiético, para uma nova
com a concepção poiética do objeto formulação, onde o conhecimento
do conhecimento. (pag. 8) poiético acaba exercendo regência
sobre as demais.
Esta relação entre o sujeito, que
atribui valores e finalidades com um viés
aberto ao subjetivo, e a representação,
que figura como definidor no teórico
(plano do conhecimento sobre o Ser) e o
prático (modo de agir), formam o núcleo
do que é chamado de metafisica do
subjetivo.
7. Ciência, Ética e política, Filosofia 7. O autor discorre que esta noção de
apresentam, no entanto, poiética, mesmo que tenha passado a
características diferentes na dominar a esfera do conhecimento, se
constituição do saber moderno. No apresenta de diferentes maneiras. Sobre
terreno do conhecimento da Natureza, as ciências que se ocupam de conhecer
o modelo poiético dá origem à ciência a natureza, ao seguir este novo sistema
físico-matemática regida pelo método de conhecimento moderno, tem sua
empírico-formal. (pag. 8) base de análise e pesquisa à ciência
físico-matemática, que está na base de
inúmeras áreas de conhecimento.
Esta nova ciência da natureza
produziu um grande avanço na
exploração da natureza, criando assim
um novo modo de vida, o da sociedade
ocidental contemporânea. .
8. Neste caso, porém, o conhecimento 8. Nas áreas de ciências humanas, onde
não tem diante de si no espaço da podemos alocar a Ética, Política e a
representação os fenômenos do Metafísica, onde o modelo poiético do
mundo físico oferecidos à conhecimento também é dominante,
experimentação, à medida e ao difere das áreas das ciências naturais,
cálculo. (pag. 8) porque a sua forma de representação é
outra. Os fenômenos nestas áreas,
diferente das ciências da natureza que
estão fixados a um sistema lógico
matemático que lhes dá garantias, não
são passiveis de observação, nem de
experimentação confiável, pois são
ações humanas, ligadas estritamente ao
universo dos valores e fins e também os
conceitos indemonstráveis.
9. No entanto, o nascimento da Razão 9.O conceito de Sentido é de extrema
ética nos tempos socráticos é importância, pois ao falar e pensar ele
acompanhado por outro evento nos dá Sentido, dá a noção do que a
espiritual de não menor significação. representação significa. O Sentido
Ele se configura como a sombra do expressa a verdade sobre algo, ele é
não-Sentido estendendo-se sobre a quem traduz o que o Ser possui de
questão do Sentido no momento verdadeiro, para que o sujeito consiga
mesmo em que a ilumina com a saber com certeza o que é. Ele
claridade do logos, irradiando do apresenta que todo o enunciado tem
ensinamento socrático. (pag. 9) relação com o Ser e correspondência
com sua verdade. Quanto ao seu
antagônico, o não-Sentido, tem domínio
sobre tudo o que dizemos de não
verdadeiro, afastado do domínio da
relação com o Sentido e o Ser, o que
impera no domínio da aparência.
10. Ao invés, o que prevalece nos 10. O mundo da abstração, da
tempos modernos é a ampla aparência, ao qual o não-Sentido impera
elaboração teórica da lógica da na modernidade, é diferente da dos
aparência, que recebe um estatuto tempos clássicos, porque passou a ser a
gnosiológico extremamente substância basilar na cultura moderna,
sofisticado nas diversas versões da tendo o modelo poiético como guia do
teoria da representação, e uma sujeito na construção da ciência, na
poderosa instrumentação reformulação de pressupostos e
epistemológica nas diversas formas avaliação dos antigos saberem. sendo
do modelo poiético do conhecimento. tratado como uma teoria da lógica da
(pag. 10-11) aparência. O sujeito, inflado com toda a
sua subjetividade, também passa a ter
um papel principal no conhecimento, e,
com isso, mais vai ficando fragmentado
o conhecimento nas áreas de ciências
humanas.
11. Ao ser arrastada, porém, na órbita 11. O sujeito, passível de conhecimento,
do modelo poiético do conhecimento, adquiri um papel de destaque, porque,
a liberdade, enquanto depois o cogito cartesiano, ele passa a
autodeterminação e poder de escolha der papel de suma importância no
que avoca a si o fazer o Sentido, período moderno, já que tem
torna-se, talvez, o traço mais subjetividade e liberdade.
característico da figura histórica do A subjetividade e a liberdade, que o
sujeito na modernidade. Ela constitui tornam um dos pilares do pensamento
o motivo temático fundamental de moderno, acaba por, com o avançar das
todos os grandes sistemas filosóficos ciências naturais, se desvincular de
a partir de Descartes e alimenta essa qualquer ordem de possibilidade de
forma de experiência do Ser-livre que conhecimento do Ser, já que a
marca com inconfundível Representação tomou conta deste, e da
originalidade a face doutrinal das noção de bem, que caiu em um
grandes revoluções modernas nos relativismo, pois vive somente de
campos da sociedade, da política e da aparências. A subjetividade se engana
cultura. (pag. 12) sobre o que é o não-Sentido, pois este
está transvestido, e aparenta ser o
Sentido, como o que acaba por ocorrer
com outros conceitos, que na malha
dessa noção subjetiva, acaba se
prendendo, em sem escapatória,
asfixiando. O mesmo ocorre com a
liberdade, presa ao arbítrio.
12. A lógica dessa crise aparece-nos, 12. Segundo o autor, a lógica dessa crise
depois de quatro séculos, como a é o reflexo do que vivemos na
própria lógica da liberdade contemporaneidade, um período de
antropocêntrica, e ela acaba por violência e de morte.
encarnar-se nas duas figuras Essa liberdade nos trouxe a um
históricas que são como que o período de violência, em que o medo
simulacro do absoluto no espaço da impera, todos tem receio de sofrerem
finitude onde se move a liberdade algum mal. O outro é sempre alguém que
humana: a violência e a morte (pag. devemos ter contato, nos afastar ou até
13) eliminar. A morte, este outro fenômeno,
que tem papel de destaque, seja como
expressão máxima da violência, ou
simplesmente pelo seu afastamento, na
tentativa de vivermos cada vez mais, por
ser uma das únicas certezas que temos,
que iremos morrer um dia, temos repulsa
a ela, ela nos limita. Estes dois
fenômenos também estão relacionados
ao niilismo, que é a perda de valores da
sociedade moderna, perda de Sentido.
13. É provável que tenhamos atingido 13. Outro fator importantíssimo para esta
aqui a raiz mais profunda, a raiz crise, que tem como o efeitos a violência,
propriamente espiritual da crise da morte e niilismo, também é, de certa
modernidade. Se voltarmos nossa forma, a crise religiosa. As grandes
atenção para as mil faces da violência religiões sofreram com o avanço das
num mundo onde o homem se ciências, que sepultaram todas as vias
glorifica de ter enfim instalado o seu transcendentes e de valores que estas
reino- esse reino da liberdade que pregavam. a Sociedade, que antes
perseguia o sonho da ilustração, de cultivava a esperança de entrar em outro
Kant, de Hegel ou de Marx- não reino, após a morte, ou os valores éticos
podemos conter nosso espanto ao ver que estas carregavam, agora se vê
subir uma tão poderosa vaga de não- perdida, num vazio espiritual.
Sentido desde esse abismo da Está sociedade não-religiosa, não
liberdade onde se pensava ter participa mais do Ser transcendente
descoberto finalmente a fonte do absoluto, que lhe dava a garantia de
Sentido. (pag. 13) valores, e sem mais a possibilidade de
uma alma eterna.
Os fenômenos como a violência e a
morte, agora são vazias e apavorantes,
e o homem moderno perde o seu Sentido
de existência, caindo em uma angustia e
niilismo.