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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS

FACULDADE DE EDUCAÇÃO

ESTER DE OLIVEIRA PRADO SOUZA

A ALFABETIZAÇÃO COMO MEIO DE


TRANSFORMAÇÃO SOCIAL

CAMPINAS
2006

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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS
FACULDADE DE EDUCAÇÃO

ESTER DE OLIVEIRA PRADO SOUZA

A ALFABETIZAÇÃO COMO MEIO DE


TRANSFORMAÇÃO SOCIAL

Memorial apresentado ao Curso de Pedagogia


-Programa Especial de formação de Professores
em exercício nos municípios da Região
Metropolitana de Campinas, da Faculdade de
Educação da Universidade Estadual de
Campinas, como um dos pré-requisitos para
conclusão da Licenciatura em Pedagogia.

CAMPINAS
2006
© by Ester de Oliveira Prado Souza, 2006.

Ficha catalográfica elaborada pela biblioteca


da Faculdade de Educação/UNICAMP

Souza, Ester de Oliveira Prado.


So89a A alfabetização como meio de transformação social : memorial de
formação / Ester de Oliveira Prado Souza. -- Campinas, SP :
[s.n.], 2006.

Trabalho de conclusão de curso (graduação) – Universidade Estadual de


Campinas, Faculdade de Educação, Programa Especial de Formação de
Professores em Exercício da Região Metropolitana de Campinas (PROESF).

1. Trabalho de conclusão de curso. 2 Memorial. 3 Experiência de vida.


4. Prática docente. 5. Formação de professores. I. Universidade Estadual de
Campinas. Faculdade de Educação. III. Título.

04-0489-BFE
A todos os meus amigos que
muito contribuíram para realização
deste memorial.
AGRADECIMENTOS

Agradeço a Deus,

... Que, incomparável a Sua infinita grandeza e bondade,

Por me sustentar e presentear com a vida.

A minha mãe, que tanto me incentivou.

Ao meu esposo e amigo Carlos, pela paciência, pelo carinho e amor e por nunca me

deixar desistir, ou mesmo fraquejar durante as árduas noites de estudo.

Ao meu filho Tiago, presente dos céus durante este curso.

A Gezi, minha amiga, pelo apoio, carinho e contribuição na realização deste memorial.

Aos meus vizinhos pelo carinho e apoio.


Não corra atrás das borboletas;
plante uma flor em seu jardim e
todas as borboletas virão até ela.
D. Elhers
SUMÁRIO

Apresentação....................................................................................................................6

Alfabetização como meio de transformação social..........................................................7

1. História da minha infância..........................................................................................7

2. Brincando de ensinar e aprender...............................................................................13

3. Em busca do sonho: ser professora...........................................................................15

4. Sendo professora.......................................................................................................16

5. As expectativas dentro da faculdade.........................................................................20

6. Conclusão..................................................................................................................23

Referências Bibliográficas..............................................................................................24
APRESENTAÇÃO

Este memorial vem comentar alguns dos meios que um indivíduo, num processo de
alfabetização, possa desenvolver sua aprendizagem como ser consciente, atuante,
transformador e participativo dento da sociedade e que esta ocorra de maneira afetiva,
criativa e responsável.
Nesse sentido, o papel do professor é essencial na formação desse processo, pois é
através do que ele estabelece com seus alunos que irá proporcionar reflexões, promovendo
compreensão de que são pessoas capazes de se expressar, questionar e participar do
processo histórico de sua vida e da sociedade.
Para o professor também é necessário continuar se atualizando, buscando sempre
inovações, possibilitando ajuda no processo de crescimento do conhecimento de seus
alunos.

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ALFABETIZACÃO COMO MEIO DE TRANSFORMACÃO SOCIAL

1. História da minha infância

No início deste memorial decidi escrever um pouco sobre os acontecimentos da minha


infância.
Nasci numa família de lavradores, onde os homens, as mulheres e as crianças
trabalhavam na plantação de cereais e vegetais, pois a situação econômica era difícil, então
era necessário o trabalho de todos. A família era grande e de pouco estudo, a maioria não
havia concluído a primeira série, mas meu avô gostava muito de ler. As crianças num
período trabalhavam na roça e no outro iam para a escola. Esta ficava longe e de difícil
acesso, precisavam andar muitos quilômetros para chegar até ela e acabavam desanimando,
deixando de comparecer as aulas, preferindo ficar trabalhando com seus pais na roça.
Analisando este assunto, ARANHA diz que:

“...nas sociedades em que existe desigual repartição de bens, o


que gera privilégios, a escola não atinge os objetivos de
universalização do saber. Basta estudarmos um pouco de história
da educação para constatarmos a exclusão, o não acesso ao saber
pela maioria”.(ARANHA 1993, p.224)

A transmissão de conhecimento era passada através do diálogo, das conversas, das


histórias contadas e das músicas cantadas quase todos os dias à noite, nestes momentos
todos podiam participar, inclusive as crianças. As histórias eram engraçadas, ou possuíam
um fundo moral, bíblico e algumas histórias relatadas eram das civilizações, geralmente
contadas ou lidas por meu avô, nós ficávamos escutando e criando as imagens em nossas
mentes. Os poucos livros que meu avô possuía eram guardados em uma caixa em cima do
guarda-roupa para que ninguém pudesse mexer.
Havia pouca participação social, mas todos sonhavam com condições melhores e com
as mudanças que pudessem ocorrer em suas vidas.
Em 1974 meus pais decidiram mudar-se do interior, para a cidade de Sumaré. Chegando
lá, enfrentaram muitas dificuldades em relação ao emprego, casa, doenças, etc. Porém

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fixaram residência, pois minha mãe sonhava que suas filhas estudassem para que tivessem
uma boa profissão e as condições econômicas melhorassem.
No bairro em que fomos morar não havia escola e a creche que tinha era somente para
os filhos de quem tinha uma condição econômica melhor, onde acabei ficando de fora, mas
meus olhos brilhavam quando passava em frente da casa que funcionava a creche e
às vezes ficava olhando no portão, olhando, ouvindo e até imaginando as coisas que
aconteciam lá dentro.
Nessa época minha mãe não trabalhava e todos os dias ela contava histórias,
como contos de fadas, causos que seus antepassados contavam, as engraçadas, tristes,
histórias da Bíblia. Nós já sabíamos as histórias de cor e quando mamãe fazia alguma
alteração, nós intervíamos, lembrando-a de que faltava “aquela fala”, ou, “não havia
acontecido isso da outra vez”. Também cantava muitas músicas.
Essas histórias eram contadas todos os dias antes de dormir, então comecei a ter
vontade de ler livros, de estar na escola e de ajudar meus pais.
Em 1980 termina de ser construída a escola no bairro em que morava, então é feita a
minha matricula e começo a estudar, iniciando assim o meu processo de alfabetização.
Meu pai conta que me perguntou no primeiro dia de aula sobre a profissão que
escolheria quando crescesse e respondi com convicção: professora.
Mas minha alfabetização não ocorreu muito fácil, pois meus pais pouco sabiam se
comunicar através da escrita. A professora que lecionava em minha sala era gestante e era
uma gestação de risco, sendo assim, ela precisou afastar-se e por minha sala passaram
muitos professores, por este motivo, não consigo recordar-me da professora que tive na
primeira série. Me lembro da escola, da diretora, dos amiguinhos de sala e lógico, da
cartilha “Caminho Suave”, que era usada na sala de aula e que eu a admirava, porém, pouco
me ajudou em minha alfabetização.A cartilha hierarquizava o conhecimento,
desconsiderava as variações lingüísticas e valorizava apenas a língua padrão, esta sendo de
domínio da classe mais favorecida. Suas atividades levavam os alunos| a um aprendizado
sem significado e acabava desconsiderando a variedade lingüística que o povo brasileiro
possui, dessa forma a língua ficava descontextualizada do processo de construção do
conhecimento.pois segundo o PCN de Língua Portuguesa (2001, p.23)

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“Um projeto educativo comprometido
com a democratização social e cultural
atribui à escola a função e a
responsabilidade de garantir a todos os seus
alunos o acesso aos saberes lingüísticos
necessários para o exercício da cidadania,
direito inalienável de todos”. ( PCN de
Língua Portuguesa 2001, p.23)

O método usado na alfabetização dessa época era o modelo tradicional que tinha o
professor como centro de todo o processo, transmissor e detentor dos conhecimentos e
informações. Os exercícios eram de fixação, memorização e repetição, as atividades
iniciadas na primeira série, visavam o treino motor, em que eram preenchidas várias folhas
do caderno com riscos, bolinhas, tracinhos, etc, que acabavam deixando os alunos cansados
e em algumas vezes acabava desestimulando. O aluno era considerado uma “sacola vazia”,
onde eram depositados os conteúdos necessários através dos exercícios de repetição e
memorização, o aluno receptor e o professor autoritário e detentor do conhecimento, não
havendo afetividade entre ambos. O ensino era todo fragmentado, pois se acreditava no
domínio dos códigos da escrita, na silabação e nas respostas corretas dos questionários, não
viam a alfabetização como um método onde pudesse haver a compreensão como uso de
transformação dentro da sociedade. Os alunos ficavam quietos, pois se houvesse conversa
na sala de aula, o castigo viria, servindo de “gozação” e brincadeiras de mau gosto fora da
sala de aula, que acabavam muitas vezes em brigas entre os próprios alunos. Não existia a
troca de idéias ou trabalhos em grupo, pois o ensino era todo sistematizado, desprezando o
conhecimento que trazia de casa, da comunidade onde vivia, das relações e experiências
vividas com a família e com os amigos. Não havia diálogo entre professor e aluno.
Falávamos somente quando éramos questionados, caso contrário deveria reinar o silêncio.
Estávamos sendo preparados apenas para um trabalho no qual visava o controle dos nossos
corpos e mente. Assim afirma Aranha, que a escola tradicional.

“... deve-se ao caráter excessivamente intelectualista


de seu projeto, que leva a considerar, inclusive, a
possibilidade do sentir e do querer, o que não deixa de ser
um exagerado otimismo quanto ao poder da educação.Por
outro lado, esse mesmo poder significa, sob certo ponto de
vista, a diminuição do campo de atuação livre do educando,

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o que nos levaria a indagar se tanto controle poderia ainda
tornar viável a passagem do governo para a disciplina...”
(ARANHA 1989, p.161),

Por este motivo aprendi apenas a decodificar os códigos da escrita na primeira série,
memorizei as lições da cartilha. Não interpretava os textos e nem os compreendia, como
também não escrevia. Portanto não fazia o uso social da escrita. Azenha afirma isto quando
diz que “as condutas escritas de um aprendiz não são um mero resultado daquilo que o
professor ensina. Existe um processo de construção deste conhecimento que nem sempre
coincide com o que está sendo ensinado”.(AZENHA 1998 ,p.43)
Pois se sabe que nesse ensino tradicional não se leva em conta a construção do
conhecimento e a função social que ele irá representar na vida do educando dentro da
sociedade. Assim continua afirmando Azenha,

“Para que se construa uma representação adequada


da linguagem que se escreve é preciso não destituí-la das
funções que ela exerce na sociedade. Sob o pretexto de
simplificar e facilitar a aprendizagem apaga-se da escrita
todo o seu conteúdo funcional. O que resta depois disto é
apenas o recurso ao ensino de letras e palavras fora do
contexto das funções de uso não escolar. A criança chega
com isto a ler, mas a alfabetização resultante é restrita e está
longe de se aproximar das práticas letradas”. (AZENHA
1998, p.43)

Fui alfabetizada na segunda série, pois a professora lia bastante para nós,
trabalhando com textos diversificados, incentivando as produções escritas de textos
coletivos e individuais, concedendo oportunidades para que falássemos sobre o que
pensávamos e nos levava muitas vezes a certas reflexões, respeitando nossos limites. Para
Leite,

“Pensar na alfabetização numa perspectiva de


letramento significa, portanto, desenvolver atividades e
experenciar situações que envolvam a leitura e a escrita
numa perspectiva crítica e não do ponto de vista adaptativo
de simples codificação e decodificação do código escrito. É
preciso promover a reflexão sobre a escrita para que ela
seja compreendida nos usos e nas funções social presentes
no cotidiano”. (LEITE 2001, p.70)

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Essa professora se preocupava com nossa participação na sociedade. Preparava suas
aulas preocupando-se com o futuro de seus alunos e buscava compreender que a
alfabetização é um processo que conduz a compreensão, a construção do conhecimento e
sua função social, visando não apenas a memorização ou a decodificação dos códigos da
escrita, mas o que irá transformar na vida do aluno. Segundo Leite,

“O papel que o processo de alfabetização,


sob uma perspectiva crítica, assume neste contexto é
o de, pelo desenvolvimento da consciência crítica,
ampliar a capacidade dos alunos de se relacionarem
e compreenderem o mundo político-social em que
vivem, para que se sintam capazes de, pela ação
efetiva, participar na mudança das relações que
julgarem necessárias”. (LEITE 2004, p.94)

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2. Brincando de ensinar e aprender

Quando estava cursando a quinta série, mudou para perto de nós uma vizinha que tinha
seus filhos que já haviam estudado e doou vários livros para nós, eu adorei, pois na minha
casa não havia quase livros, todos os dias me deliciava lendo as histórias dos livros embaixo
de um pé de limão que ficava no fundo do quintal. Nessa época comecei a brincar de
escolinha com a filha de uma outra vizinha, que tinha apenas seis anos. Brincávamos de
encontrar letras, de adivinhas, como encontrar letras e palavras nas embalagens, quem não
encontrasse “pagava mico” (andar agachado, pular de um pé só, dançar uma música, fazer
uma mímica, etc..). A brincadeira da amarelinha, era modificada, ora brincávamos com
números, ora colocávamos letras, nome de pessoas, de histórias, de músicas e quem errava
precisava contar um pedaço da história, ou cantar a música, etc... Nossas brincadeiras eram
muito divertidas. Assim, assinala Leite,

“...a questão da afetividade por estar presente nas


diferentes relações sociais observadas, por meio dos jogos, lembra
que a criança imita e inventa novas formas de ação: ela aprende
imitando, opondo-se ou apoiando-se em alguém”. (LEITE
2001,p.323)

Certo dia minha vizinha começou a escrever e ler, então passamos a ler tudo juntas,
às vezes brincávamos de quem conseguia ler mais rápido. Fiquei muito feliz e pude
aprender junto, brincando. Hoje reconheço que participei da alfabetização daquela criança,
que teve a oportunidade de construir seu conhecimento sem opressão, dor ou medo, mas de
maneira participativa e lúdica. Também construí meu próprio conhecimento num processo
enriquecedor. Segundo Leite,

“...no brinquedo, a criança vive a interação com seus pares


na troca,, no conflito e no surgimento de novas idéias, na
construção de novos significados, na interação e na conquista das
relações sociais, o que lhe possibilita a construção de
representações. Com isso, a criança –sujeito -concreto, social,
histórico e cultural- vai se constituindo como tal, num cenário que

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também é concreto, social, histórico e cultural” .( LEITE 2001,
p..320)

Na escola também brincávamos muito. As brincadeiras eram diversificadas e


geralmente aconteciam na hora do recreio, pois os professores não nos levavam para
brincar, eles achavam que era perca de tempo e que não iria acrescentar o nosso
conhecimento, além do conteúdo que ficaria defasado e eles teriam que se explicar com
nossos pais.

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3. Em busca do sonho: ser professora

Iniciei o curso de magistério cheio de expectativas, porém aconteceram muitos


conflitos, pois estava no auge o construtivismo. Lia muito sobre o assunto e também
discutíamos. Na sala havia um grande conflito entre alunos e professores, havia sempre o
questionamento que era baseado na divergência de teoria e prática. As aulas eram
tradicionais e as regências (aulas administradas pelos estagiários do curso do magistério)
deveriam ser preparadas no modelo construtivista, sendo exigido pelos professores. Estes
quando questionados sobre o método que usavam em seus ensinos, desconversavam e
tratavam logo de mudar o discurso, dizendo que esta era a proposta do curso, mas que eles
ainda não estavam preparados pra aplicá-lo conosco, e que no momento certo estaria
desenvolvendo.
Por ser um conhecimento novo, o construtivismo, com suas práticas que vão além de
pedagógicas, ainda deixa margem a muitas dúvidas e questionamentos e acabam refletindo
em nossa prática escolar. Como o professor poderia ser um mero observador, sem intervir
na aprendizagem de seu aluno? Ser professor seria valorizador?

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4. Sendo professora

Minha carreira como professora alfabetizadora, no início me causou espanto e medo,


pois eram muitos os alunos em sala de aula, a responsabilidade de estar auxiliando essas
crianças para estarem participarem com maior eficácia dentro da sociedade e as professoras
que já lecionavam escondia o que preparavam para suas aulas, tinham medo que a outra
descobrisse o que estava sendo feito, não havia diálogo entre os professores, “cada um por
si e Deus por todos”. Existia certa competitividade entre elas, pois necessitavam dos
elogios da diretora e como eu estava iniciando, os olhares não eram dos melhores, porém,
tudo me levou a questionar: “Qual será o processo de alfabetização que irá desenvolver no
meu aluno uma perspectiva de transformação e participação social?”
A esse respeito diz Zabala,

“Conseguir um clima de respeito mútuo, de


colaboração, de compromisso com um objetivo comum é condição
indispensável para que a atuação docente possa se adequar às
necessidades de uma formação que leve em conta as possibilidades
reais de cada menino e menina e o desenvolvimento de todas as
capacidades”.( ZABALA,1998,p.210)

Também percebi que precisava acontecer um processo de transformação entre nós


professores, por quanto, estávamos participando do processo de construção do
conhecimento do aluno, então precisaríamos nos transformar também, para que esse aluno
só tivesse a ganhar.
Segundo Leite,

“...a construção e o desenvolvimento das práticas pedagógicas em


sala de aula são tão importantes que não deveriam ficar restritos
às expectativas e decisões isoladas dos professores. O
planejamento e avaliação dessas práticas deveriam ser realizados
como parte do trabalho coletivo dos professores e coordenadores
pedagógicos, uma vez que tal condição possibilitaria a troca de
experiências, bem como o aprofundamento da análise das práticas

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desenvolvidas, num movimento dialético envolvendo a relação-
reflexão”.( LEITE,2001,p.39)

Em nossa escola a diretora percebeu que era necessário proporcionar uma união
entre nós professores e que não existia o melhor, mas sim os melhores. Propôs então, que
trocássemos nossas experiências, conversássemos sobre nossos alunos, utilizando-se de
dinâmicas nas reuniões que aconteciam à noite. Sob essa perspectiva, nossa equipe de
trabalho começou a trocar idéias, a se dialogarem, conversar sobre os problemas que
aconteciam dentro e fora da escola, pelos erros e acertos que aconteciam dentro da sala de
aula.
Nosso trabalho tornou-se mais criativo, participativo e prazeroso e levou-nos a um
processo de conscientização do nosso papel para com nossos alunos e dentro da sociedade,
transformando nossas relações e possibilitando um crescimento em nossa pratica educativa.
Nossa experiência se afirma no pensamento de Leite quando diz que,

“...o processo de conscientização que a alfabetização crítica


possibilita visa justamente ao desvelamento da realidade e ao
desmacaramento de pressupostos ideológicos”.
Nesse sentido, o professor tem um importante papel de
provocar a reflexão crítica de seus alunos a partir dos conflitos que
caracterizam as situações do cotidiano. Torna-se imprescindível sua
participação como problematizador, pois, através de seus
conhecimentos, possibilitará aos alunos uma relação mais ampla
com essa realidade. É a reflexão que levará o educando a superar
as falsas concepções ideológicas, a perceber o caráter histórico e
mutável das relações sociais e, portanto, reconhecer-se como sujeito
na construção de si mesmo e da realidade, bem como capaz de
participar na transformação das relações que julguem necessárias.”
( LEITE,2004,p.81)
.

Desse modo, buscamos proporcionar ao aluno um conhecimento que possibilite o


despertar da consciência quanto a sua participação e transformação dentro da sociedade.
Começamos a preparar então, atividades que contribuíssem no desenvolvimento da
oralidade, da reflexão, do questionamento entre si, a pesquisar, enfim, a ter curiosidade,
levando em consideração as suas experiências e limites, possibilitando a troca de
experiências. As atividades com músicas são muito interessantes, pois o aluno participar
sem ter “medo” de errar, esse é um tipo de texto que eles conhecem de cor e se sentem
estimulados para escrever, organizar e até ler sem ainda conhecer a escrita. Procuro
respeitar o ritmo de aprendizagem de cada aluno, fazendo com que desperte o interesse da

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criança. É importante ressaltar que a criança aprende com mais facilidade quando o
conteúdo a ser trabalhado faz parte do seu cotidiano tornando-se um elemento facilitador do
processo ensino-aprendizagem, desenvolvendo a sensibilidade, provocando reações de
entusiasmo e prendendo sua atenção.
O trabalho com música possibilita o aluno de compreender com mais facilidade a
função social da escrita, pois está lidando com o todo e não apenas com palavras ou frases
desconectadas.
Em minhas aulas procuro proporcionar situações que sejam significativas para as
crianças, respeitando seus conhecimentos, sua cultura, procurando relacionar com o
processo de leitura e escrita, tendo em vista sua função social.
Busco levar também novos interesses e novos conhecimentos, para que conheçam e haja
enriquecimento em suas aprendizagens. As crianças desde que nascem, tem contato com o
mundo letrado e é preciso que elas percebam a importância e a funcionalidade da escrita em
suas vidas. Para tanto apresento diversos gêneros de texto para que desde cedo ela possa
fazer uso da leitura, da escrita e da oralidade, produzindo momentos prazerosos.
Procuro apresentar dinâmicas de aula, as quais o aluno contribua com seus interesses,
questionamentos, críticas, se reportando à realidade, propondo vivências em grupos,
considerando o pensamento do aluno e sua atuação.
Segundo Leite,

O papel que o processo de alfabetização, sob uma


perspectiva crítica, assume neste contexto é o de, pelo
desenvolvimento da consciência crítica, ampliar a capacidade dos
alunos de se relacionarem e compreenderem o mundo político-social
em que vivem, para que se sintam capazes de, pela ação efetiva,
participar na mudança das relações que julgarem necessárias.(
LEITE,2004 p.94)

Há também a necessidade de desenvolver a oralidade dos alunos, para que


expressem seus sentimentos, pensamentos e conhecimentos de forma que possa fazer-
se compreender. Sabe-se que a fala é sinal de poder, pois saber expressar-se através da
fala é diferente também de escrever. Um indivíduo que sabe se comunicar bem, prende
a atenção daqueles que o escutam. Para tanto as atividades de leitura, dramatização,
debates, brincadeiras, etc, visam o desenvolvimento desse tipo de comunicação. A sala
de aula não é silenciosa, a aula torna-se um processo prazeroso. E de acordo com o PCN
de Língua Portuguesa,

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“Cabe à escola ensinar o aluno a utilizar a linguagem oral
nas diversas situações comunicativas, especialmente nas mais
formais: planejamento e realização de entrevistas, debates,
seminários, diálogos com autoridades, dramatizações, etc. Trata-
se de propor situações didáticas nas quais essas atividades façam
sentido de fato, pois seria descabido“treinar” o uso de escuta, em
contextos mais formais, dificilmente ocorrerá se a escola não
tomar para si a tarefa de promovê-la”.( PCN, Língua
Portuguesa,2001,p.32)

Procuro, no entanto, participar de cursos que permitam desenvolver no aluno sua


capacidade crítica de expressão oral e escrita, de maneira que ele possa sentir-se um
sujeito atuante e transformador da sociedade em que vive. Mas que também desenvolva
em mim, uma capacidade de me transformar, refletir e buscar um ensino que leva a
reflexão de um sujeito participativo e não alienado.

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5. AS EXPECTATIVAS DENTRO DA UNIVERSIDADE

Ao entrar no curso de Pedagogia do PROESF, pude presenciar momentos de grande


interação, debates e estudos que propiciaram a reflexão da minha prática pedagógica.
Foi durante as aulas de todas as disciplinas que senti que temos a grande
responsabilidade em proporcionar ao aluno uma aprendizagem que desenvolva o senso
crítico como indivíduo atuante, valorizador da cultura e consciente da sua ação dentro
da sociedade. Para isso, no entanto é preciso que o professor direcione seu olhar quanto
à prática pedagógica atuante em sala de aula, e construa dinâmicas que possibilitem o
desenvolvimento da oralidade e da escrita, respeitando as características de cada um,
seus limites, sua vivência e sua cultura. No entanto é preciso ter um novo olhar dentro
da educação, deixando de ser apenas mero expectador ou talvez uma simples marionete
dos governantes e do sistema capitalista que visa somente o bem estar social daqueles
que são considerados os privilegiados.
De acordo com Smolka e Laplane,

“...o professor se constitui em articulador da teoria e da


prática, na medida em que ao se utilizar os conhecimentos,
pressupostos teóricos e crenças de uma maneira particular, ele
destaca, a cada

instante, certos acontecimentos, constituindo-os como marcas


que funcionam como “pontes” e disparam a ação, orientando-a
numa determinada direção. É assim que se constrói um modo
único de interpretação entretecida pelas/nas inúmeras
possibilidades de ação e opção do professor”.( SMOLKA e
LAPLANE,cadernos ESE)

Surge a necessidade então de transformar, conhecer, saber, refletir, e procurar


meios que dêem alternativas que possibilitem o desenvolvimento da consciência quanto
a função de ser uma professora mediadora do conhecimento dentro de uma sociedade
capitalista que desrespeita as diferenças individuais e marginaliza a maioria da
população.
Posso afirmar que, diante de tudo o que foi pesquisado, diante das trocas de
experiências entre os colegas de sala de aula do PROESF que contribuíram para minha
prática pedagógica em sala de aula que, um processo de alfabetização que promova um
indivíduo capaz de transformar a sociedade é aquele que parte para o pressuposto de

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trocas de experiência entre os profissionais da educação, procurando valorizar aquilo
que o aluno já sabe dando oportunidades para que expressem através da linguagem oral,
gestual, da escrita e das representações cartográficas. Procurando trazer para as aulas
diversificados tipos de textos, valorizando o diálogo e a interação com os colegas, pois
atualmente vivemos em uma realidade social que não basta saber ler e escrever, mas
saber responder às exigências de leitura e de escrita que a sociedade faz continuamente,
segundo Soares,

“Já é possível notar uma diferença entre ser alfabetizado e


letrado, uma vez que alfabetizado nomeia aquele que apenas
aprendeu a ler e a escrever, não aquele que adquiriu o estado ou a
condição de quem se apropriou da leitura e da escrita,
incorporando as práticas sociais que as demandam. Essa diferença
já é percebida no modo de avaliação era feito apenas sob a visão
da presença ou ausência da“tecnologia” de saber ler e escrever,
tanto que se perguntava se a pessoa sabia assinar o nome. Hoje a
pergunta mudou, o que se quer saber é se o entrevistado é capaz de
escrever um bilhete simples. Países desenvolvidos não estão se
referindo a índices de alfabetização, mas a níveis de
letramento”.(SOARES,1998,p.24)

Também noto que as nossas crianças já vêm para a escola sabendo “ler”, pois
possuem contato com o mundo letrado. Ao dar livros de literatura infantil para que
leiam, fazem a leitura mediante as figuras e vão criando seus textos, muitas vezes, a
“leitura” até coincide com o que realmente está escrito. Isso acontece não somente com
as crianças, mas também com os adultos ditos “analfabetos”. Soares continua afirmando
que,

“...um indivíduo pode não saber ler e escrever, isto é, ser


analfabeto, mas ser, de certa forma, letrado (letramento). Assim,
um adulto pode ser analfabeto, mas vive em um meio que a leitura
e a escrita têm uma presença forte, por exemplo: ao ouvir leitura
de jornais, se recebe carta que outros lêem para ele, se dita cartas
para outros escreverem, esse analfabeto é,de certa forma, letrado,
porque faz uso da escrita, envolve-se em práticas sociais de leitura
e de escrita”.(SOARES,1998,p.24)

As aulas permitiram a reflexão diante da minha função como professora, sob um


novo olhar dentro da educação e da transformação social, pois através das discussões,
leituras e trocas de experiências passei a me tornar mais questionadora , observadora,
tendo como me colocar diante de certos assuntos dentro do ambiente de trabalho. Não

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aceitando tudo que é imposto pelas autoridades, que muitas vezes nem sabem o que
realmente se passa dentro do ambiente escolar, sendo assim passei a reconhecer e
valorizar mais meu papel dentro da sociedade, visando mais a participação e a
criticidade buscando também a solução de problemas que surgem dentro da escola. Para
tanto a universidade me proporcionou bases teóricas para que pudesse delinear meus
objetivos como cidadã, levando em consideração os projetos que puderam ser traçados
ao longo do curso.

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6. Conclusão

Escrever este texto não foi nada fácil, pois sabe-se que os professores pouco
escrevem por serem fruto de um processo mecânico de alfabetização, a sobrecarga de
trabalho, pelo fato do profissional da educação ser desvalorizado financeiramente e pelo
fato de estarmos inseridos em um sistema que não lhe interessa o papel de cidadãos
críticos e atuantes capazes de transformar a sociedade.
Também pelo pouco tempo que tive para escrever este memorial, pois como mãe
de um bebê de apenas seis meses e trabalhando em dois períodos, as poucas
oportunidades que tive procurei escrever. Nesse pouco tempo, minhas reflexões se
voltam para a importância que o professor têm dentro de sua sala de aula, partindo do
pressuposto de
possibilitar ao aluno a sua criticidade, oralidade e atuação dentro da sociedade. Essa
sociedade que visa à competitividade, a alienação e adestramento do indivíduo como
também a seletividade nesse mundo globalizado.
Portanto é necessário que o aluno esteja preparado para enfrentar os desafios
impostos pela sociedade, sabendo expressar de maneira que possa transformar-se e
transformar o mundo que o rodeia de maneira que possa refletir sobre seu papel não
como ser dominado, que aceita tudo que vem imposto, mas como ser pensante e ativo
que é.
O professor também precisa fiscalizar-se para que não caia diante das pressões
que lhe são impostas, mas procurar se impor, observando as intenções que vêm muitas
vezes “mascaradas” pelas ideologias da classe dominante,visando somente o bem estar
dos mesmos e seu crescimento enriquecedor, esquecendo-se que fazemos parte desta
sociedade e que também participamos de sua construção, transformação e de sua
história.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ARANHA, M. L. de A. “Filosofia da Educação”. 2 edição. São Paulo: Moderna, 1993.

AZENHA, Maria da Graça. “Construtivismo de Piaget a Emília Ferreiro”. 6 edição. São


Paulo: Ática, 1998.
BRASIL, Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais de
Língua Portuguesa .3 edição. Brasília. 2001.
LEITE, Sérgio Antônio da Silva (org) “Alfabetização e letramento: contribuições para
as práticas pedagógicas”. São Paulo: Komedi. Artes Escrita, 2001.

SMOLKA, Ana Luiza B. e LAPLANE, Adriana F. “O trabalho em sala de aula: teorias


para quê?. Cadernos ESSE.

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