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ENGENHARIA

DA ALMA

COMO O CONSUMO DE BONS FILMES


E SÉRIES PODE AJUDAR EM SEU
DESENVOLVIMENTO PESSOAL

1
Sumário
Cap. 1 | A arte vale mais que a guerra 3
Antes da batalha, o cinema 5
A sinfonia dos famintos 12
Engenheiros da Alma 20

Cap. 2 | Apeirokalia 21

Cap. 3 | Arte e Civilidade 27

Cap. 4 | Toda arte pode ser uma catedral 35

Cap. 5 | Conclusão 41
Cap. 1

A arte
vale Mais
que a guerra

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3
Dois episódios
históricos com dois
grandes artistas nos
provam a veracidade
incontestável do
título desse capítulo.
Comecemos pelo
primeiro.

4
Antes da
batalha,
o cinema

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5
U m general americano de alto
escalão entra em um cinema
com uma expressão de preocupação.
Estamos no ano de 1941 e faltam pou-
cas semanas para a entrada dos EUA
na Segunda Guerra Mundial, um dos
eventos mais impactantes da histó-
ria da humanidade. Uma cena como
essa poderia suscitar a desconfiança
de qualquer pessoa. O que um general
estaria fazendo em um cinema justa-
mente em um momento tão instável
politicamente? A nação americana
estava prestes a entrar em sua maior
batalha e isso exigiria o máximo de
concentração e foco de seus generais.
Mas era justamente por reconhecer
a dimensão da sua responsabilidade
que aquele general estava no cinema.
Ele sabia que a pior guerra do mundo
precisaria de algo além de soldados.
Precisaria de arte. Essa é uma histó-
ria real.

6
Projections of America

7
Uma das histórias mais marcantes da
Segunda Guerra Mundial foi quando
o Exército americano, preocupado
com a entrada dos EUA na guerra, se
aproximou de grandes artistas de ci-
nema para viabilizar um grande pro-
jeto de produções cinematográficas. A
ideia era produzir filmes sobre os EUA
que seriam exportados para a Europa
antes da entrada dos americanos no
continente. Os filmes contariam his-
tórias sobre a cultura americana, so-
bre a liberdade, sobre os valores de
seus povos, e ajudaria a sensibilizar e
contextualizar o povo europeu que já
estava bastante fragilizado pela guer-
ra. O projeto foi encabeçado pelo pro-
dutor e roteirista americano Robert
Riskin. A história desses filmes está
documentada no filme Projections of
America (2014) que conta toda epopeia
de generais e produtores para con-
seguir realizar esses filmes a tempo.
Em uma grande empreitada patrióti-
ca, artistas e militares se uniram para

8
dar cabo a um dos projetos de guerra
mais peculiares e importantes da his-
tória da humanidade.

O acontecimento é marcante e nos


leva a refletir sobre a importância
da arte mesmo em momentos de
extrema instabilidade política e so-
cial. Durante a hora mais sombria da
Segunda Guerra Mundial, uma equipe
de cineastas idealistas esperava que o
poder dos filmes pudesse melhorar o
mundo. Liderados por Robert Riskin,
os cineastas criaram vinte e seis do-
cumentários filmes sobre a vida ame-
ricana exibidos a milhões de pessoas
em todo o mundo. Os filmes contavam
histórias de vaqueiros, fazendeiros,
imigrantes e estudantes, captando o
otimismo e a diversidade da demo-
cracia americana. Os filmes mara-
vilhosamente criados eram versões
idealizadas do que a América poderia
ser.

9
Robert Riskin e
outros produtores
da série de filmes
Projections of America

10
Criados por cineastas politicamen-
te engajados que, enquanto lutavam
contra a tirania no exterior, queriam
também mudar fundamentalmente a
própria América.

“A história desses filmes


esquecidos é de uma
grande realização de altos
ideais e de uma audácia
de imaginar um mundo
melhor em meio ao
pior conflito da história
humana.”
— Peter Miller
Diretor de Projections of America

Mas, afinal, o que isso tem a ver com o


nosso tempo atual? Além disso, o que
isso tem a ver com a Lumine?

Tem tudo a ver e iremos descobrir isso


nas próximas páginas.

11
A SINFONIA
DOS

FAMINTOS

Karl Eliasberg como regente


em 9 de Agosto de 1942
A primeira história seria suficiente
para compreendermos a impor-
tância primordial das artes para a so-
ciedade. Mas existem muitas outras
histórias que provam isso e gostaria de
contar mais uma envolvendo um dos
maiores compositores de música eru-
dita do mundo: Dimitri Shostakovitch.

Vamos dar um salto. Da sociedade


americana altamente desenvolvi-
da, iremos adentrar agora na União
Soviética, mais precisamente em
São Petesburgo – na época chamada
Leningrado. O salto nos revira o es-
tômago. Ainda estamos na Segunda
Guerra Mundial e a cidade está com-
pletamente devastada. Sob o fogo cru-
zado entre o exército soviético e ale-
mão, a população não tem para onde
ir. A cidade que já estava previamente
prejudicada pela administração so-
cialista e agora durante a guerra pas-
sa pela sua fase mais devastadora.

13
Não há comida. Já existem
casos de pessoas se
alimentando de animais que
encontram na rua. Algumas
histórias remotas apontam a
possibilidade de canibalismo.
No meio da desumanidade
e do caos, do barulho de
sirenes e bombas, ao longe
ouvimos um som inesperado
e melancólico. Não é mais o
som de explosões e gritos, é o
som vagaroso de um violino.
Ele está sendo afinado.

14
Um minuto após sua afinação, ou-
vimos o som de mais quatro instru-
mentos de corda sendo afinados em
conjunto. É a tradicional afinação de
instrumentos que precede os con-
certos sinfônicos. São os músicos da
orquestra de São Petesburgo se pre-
parando para executar uma nova
composição de Dimitri Shostakovich,
junto de seu compositor que estava no
local. A plateia está repleta de famin-
tos esperando para ouvir execução da
obra. A sociedade russa ansiava por
algo que pudesse reconfortar suas
almas mais do que reconfortar seus
corpos. Mais do que ajuda humanitá-
ria, o que eles precisavam era de uma
sinfonia. E foi isso que Shostakovitch
ofereceu ao seu povo.

15
“Estavam todos
famintos, mas
estavam todos
vestidos de
gravata
borboleta.”

— Jason Caffrey
jornalista da BBC que publicou
uma matéria sobre o episódio
Foto de Amy Humphries

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Uma plateia de famintos escutou até
o final a execução da Sétima Sinfonia
de Shostakovitch sendo acompanha-
da pelo barulho das bombas e tiros ao
fundo. Os barulhos não subtraíram a
atenção do povo russo. Todos aplau-
diram no final, sabendo que sua pre-
sença naquele teatro era um protes-
to contra o caos. Por mais desumana
que fosse sua situação materialmente,
eles intuitivamente sabiam que a sen-
sibilidade poética e o vislumbre artís-
tico eram os elementos decisivos que
os distanciaria da bestialidade e os
aproximaria de uma experiência an-
gélica. Quando a morte parecia certa,
eles optaram por abraçar sua finitude
alimentando suas almas, aquilo que
para eles duraria mais do que seus
corpos. Ao invés de correr procuran-
do por comida, eles ficaram atentos à
música de uma orquestra.

17
A execução da Sétima Sinfonia de
Shostakovich foi um desses aconteci-
mentos que colocam em perspectiva
nossas escolhas pessoais. Os músicos
da orquestra executaram a sinfonia
tendo se alimentado somente de al-
gumas porções de arroz há semanas.
Suas roupas não cabiam mais em seus
corpos mirrados. A situação da plateia
era a mesma e ainda assim eles opta-
ram por estar juntos nesse momento
cultuando a beleza da música. A cena
toda pode ser resumida na constata-
ção de Ksenia Matus, uma das russas
que estava na plateia:

18
“Uma garota saiu da plateia
e foi até o palco com um
punhado de flores.
Ela deu as flores ao maestro.
Você consegue imaginar
flores novinhas em uma
cidade em barricadas?
Foi um momento
inexplicavelmente alegre.”
Foto de Annie Spratt

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19
ENGENHEIROS
DA ALMA
A arte tem esse poder de moldar
a alma humana. Ela é capaz de
alimentar algo para além dos nos-

A
sos próprios
arte temcorpos. Acontecimentos
esse poder de moldar
históricos
a almagrandiosos e nobres
humana. Ela como
é capaz de
esses que descrevemos
alimentar algo para alémsão possíveis
dos nos-
somente quando
sos próprios temos
corpos. a consciên-
Acontecimentos
cia do papel
históricos primordial
grandiosos da arte
e nobres em
como
nossas vidas.
esses que Isso nos leva
descrevemos são apossíveis
pensar:
com
somente o tipo detemos
qual quando conteúdo estamos
a consciên-
nos alimentando?
cia do Qual tipo
papel primordial de arte
da arte em
estamos consumindo
nossas vidas. Isso noscom
levanossas fa-
a pensar:
mílias
com quale amigos?
o tipo deQuem são os
conteúdo enge-
estamos
nheiros da nossa alma?
nos alimentando? Qual tipo de arte
estamos consumindo com nossas fa-
mílias e amigos? Quem são os enge-
nheiros da nossa alma?

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20
Cap. 2

Apeirokalia

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21
O filósofo Olavo de Carvalho tornou
o termo apeirokalia corrente entre
as discussões dos intelectuais bra-
sileiros. O próprio filósofo descreve
esse fenômeno perfeitamente:

“Os gregos chamavam-no apeirokalia.


Quer dizer simplesmente “falta de
experiência das coisas mais belas”.
Sob esse termo, entendia-se que o
indivíduo que fosse privado, durante
as etapas decisivas de sua formação,
de certas experiências interiores
que despertassem nele a ânsia
do belo, do bem e do verdadeiro,
jamais poderia compreender as
conversações dos sábios, por mais
que se adestrasse nas ciências, nas
letras e na retórica. Platão diria
que esse homem é o prisioneiro da
caverna.”
— Olavo de Carvalho

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22
Desde a Grécia antiga já se sabia da
importância primordial da experiên-
cia artística para a formação huma-
na. Hoje em dia, com o avanço da so-
ciologia e da psicologia, se tem cada
vez mais dados que corroboram com
essa percepção. Desde Aristóteles, os
educadores sérios sabem que a for-
mação humana começa pelos senti-
dos. É a partir da nossa sensibilidade
que criamos uma coleção de memó-
rias e referências estéticas que irão
modelar nossa capacidade cognitiva.
A experiência artística nos fornece
justamente isso: uma coleção de ima-
gens, histórias, narrativas e biografias
que, ao serem assimiladas em nos-
sa memória, serão usadas no futuro
como modelos de conduta e escolha
para nossas vidas. O próprio Olavo
de Carvalho nos oferece uma pista a
respeito do papel da arte na formação
humana:

23
“O teatro e a poesia também podem
abrir as almas a um influxo do alto.
À música — a certas músicas — não
se pode negar o poder de gerar efeito
semelhante. A simples contemplação
da natureza, um acaso providencial,
ou mesmo, nas almas sensíveis, certos
estados de arrebatamento amoroso,
quando associados a um forte apelo
moral (lembrem-se de Raskolnikov
diante de Sônia, em Crime e Castigo),
podem colocar a alma numa espécie
de êxtase que a liberte da caverna e da
apeirokalia.”

— Olavo de Carvalho
Foto de Allef Vinicius

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24
Se o teatro e a poesia, quando reali-
zados em maestria, são capazes de
“abrir as almas para o influxo do alto”,
podemos dizer que a linguagem artís-
tica do cinema não deixará a desejar
nessa missão. Especialmente quan-
do consideramos a teoria do maestro
e compositor Richard Wagner sobre
a ópera. Wagner dizia que a ópera é
a “arte total” – a linguagem artística
que abarca todas as artes: a música, a
narrativa, o teatro, a pintura (nos ce-
nários, por exemplo). Se Wagner dizia
isso da ópera que era encenada nos
palcos, é possível supor que o cinema
tem um papel ainda mais completo
como “arte total”. Um filme reúne de
maneira ainda mais integral todas as
linguagens artísticas, incluindo re-
presentações mais modernas como a
fotografia. Até mesmo Lênin, uma das
figuras mais monstruosas da história
da humanidade, cunhou a primazia
do cinema ao dizer:

25
“De todas as artes, o cinema é para
nós a mais importante.” Claro que ele
estava usando do cinema como fer-
ramenta na condução de uma revo-
lução, porém não se deve desprezar
a percepção que o tirano teve da arte
cinematográfica.

De tudo isso podemos concluir que o


consumo de bons filmes é fundamen-
tal para a formação humana. No cine-
ma vemos a união de todas as lingua-
gens artísticas e, portanto, temos uma
ferramenta muito poderosa para nos
educar e nos oferecer um vislumbre
da beleza, da verdade e da bondade. Se
isso não fosse o suficiente, temos ainda
outra pista da importância do cinema
para nossa alma: o próprio Vaticano
te uma lista de filmes recomendados
para todos católicos do mundo. A lis-
ta pode ser encontrada na internet e
os filmes nela apresentados são uma
excelente dica para formação do ima-
ginário.

26
Cap. 3

Arte e
civilidade

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27
É inegável que o brasileiro tem
uma tendência tribal de defender
fanaticamente seu próprio grupo so-
cial em detrimento de outros grupos
à sua volta. Convivendo com católicos
e cristãos eu noto que essa tendên-
cia é ainda mais acentuada nos gru-
pos que compõe a Igreja no Brasil. Eu
digo no Brasil porque eu até hoje não
notei um fanatismo tão grande em
outros lugares, principalmente entre
italianos e americanos com quem já
convivi. Por que dentro do grupo reli-
gioso que supostamente deveria con-
viver em maior harmonia notamos
uma tendência ao julgamento conde-
natório fanático? Não estou falando
de pessoas que estão competindo so-
cialmente ou que tem interesses an-
tagônicos. Grupos com interesses em
comum facilmente entram em confli-
to simplesmente por não concordar
com diferenças formais insignifican-
tes de outros grupos.

28
Eu atribuo essa dificuldade que o bra-
sileiro tem de lidar com a diferença à
baixíssima experiência que temos da
arte e da beleza. A arte trata funda-
mentalmente de diferenças formais.
As esculturas por exemplo se diferen-
ciam menos pela matéria de que são
constituídas do que pela forma que
foram construídas. Uma escultura
de Apolo pode ser feita de bronze, de
mármore ou de madeira e mesmo as-
sim terá poucas diferenças em termos
de representação simbólica. Ou seja,
a matéria, o conteúdo de que são fei-
tas as obras de arte é praticamente o
mesmo, o que as diferencia é a forma
como a matéria é modelada. O mesmo
vale para a pintura, cinema, arquitetu-
ra, música, etc. Basta pensar quantas
músicas diferentes foram compostas
até hoje somente com a escala penta-
tônica. As diferenças materiais não
comprometem tanto o resultado final
de uma obra. Esse resultado é deter-
minado pela sua concepção formal.

29
Foto de Sarah Shaffer

30
O indivíduo que consome arte com-
preende que existem infinitas manei-
ras de representar a beleza utilizando
a mesma matéria. Ou seja, dentro do
campo da beleza, existem inúmeras
formas de representar o que é subli-
me.

É possível perceber essa diferença com


muita facilidade no campo artístico
mas o mesmo se dá também dentro
do campo moral. Dentro das opções
moralmente viáveis, há inúmeras for-
mas de agir. Algumas formas de agir
são imorais, portanto estão fora das
possibilidades do campo moral. Mas
dentro do que é correto e bom de ser
feito, existem inúmeras possibilida-
des de ação. O que se nota é que no
Brasil as pessoas tem muita dificulda-
de de compreender esses nuances. Se
dentro de um objetivo bom e comum
existem diferenças formais, essas di-
ferenças não podem ser tratadas como
uma imoralidade ou um escândalo.

31
Santa Teresinha diz que um jardim
seria feio se todas as flores fossem
iguais. É preciso que exista diferen-
tes formas de expressão do bem para
que haja beleza e harmonia na socie-
dade. Mas o que notamos na maneira
como os brasileiros agem entre si é
que não há essa percepção. A ideia de
que grupos com interesse em comum
podem e devem agir de maneira dife-
rente para conquistar objetivos seme-
lhantes é inimaginável para nós. Isso
não acontece somente entre católicos.
Essa dificuldade de percepção está
espalhada por todos os meios. Dentro
de empresas isso é extremamente co-
mum. Mesmo sendo evidente que o
objetivo de uma empresa deveria ser
o mesmo para todos os funcionários
e colaboradores, muitas vezes vemos
a formação de pequenos grupos in-
ternos que criticam cegamente um ao
outro.

32
“Jesus aceitou instruir-me a respeito
desse mistério, pôs diante dos
meus olhos o livro da natureza, e
compreendi que todas as flores que
Ele criou são belas, que o brilho da
rosa e a alvura do lírio não impedem
o perfume da pequena violeta ou
a simplicidade encantadora da
margarida… Compreendi que se
todas as florzinhas quisessem ser
rosas a natureza perderia seu adorno
primaveril, os campos não seriam
mais salpicados de florzinhas…
Assim é no mundo das almas, o
jardim de Jesus.”
— Santa Teresinha
do Menino Jesus
Foto de Maja Petric

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O fanatismo tribal é fruto da falta de
civilidade. E o baixo nível de percep-
ção artística indica justamente essa
falta. Compreender que existem di-
ferenças de nuance, de hierarquia,
de delicadeza, de ênfase é próprio da
educação artística. Como a experiên-
cia estética no Brasil é muito pobre,
eu noto que as pessoas facilmente
adotam esse tipo de comportamento
fanático. A capacidade de discernir di-
ferenças formais é fundamental para
compreender as diferenças na escala
da hierarquia moral. E isso só a arte
pode fazer.

34
Cap. 4

Toda arte
pode ser
uma catedral
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35
O escritor e conferencista francês
Fabrice Hadjadj conta um epi-
sódio de sua vida que nos abre para
as possibilidades transcendentais da
arte. Conta o escritor que ao cami-
nhar na rua com um amigo ateu, eles
discutiam sobre a existência de Deus.
Passaram em frente a uma catedral e
Hadjadj ofereceu para que seu amigo
entrasse na igreja e contemplasse a
arquitetura do prédio. O amigo acei-
tou e entrou na catedral enquanto o
escritor esperava do lado de fora. Ao
voltar de dentro da catedral o amigo
de Hadjadj o olhou e disse: “eu creio”.

Quem já entrou em uma catedral, es-


pecialmente na França, reconhece que
esse episódio é pouco surpreendente.
A arquitetura gótica é tida como a re-
presentação arquitetônica essencial-
mente cristã.

36
É uma representação tão poderosa
que levou o arquiteto inglês Augustus
Pugin a dedicar toda sua vida para ten-
tar restaurar esse estilo no século XIX
na Inglaterra. Pugin acreditava que a
arquitetura gótica era a única capaz
de nos fazer lembrar da verdadeira
sacralidade de um templo. Todo estilo
neogótico que surgiu na Inglaterra foi
uma invenção de Pugin ao tentar res-
gatar o estilo medieval. Não nos resta
dúvidas de que o contato com uma ca-
tedral é decididamente curativo.

Um dos escultores mais importan-


tes da nossa história, Auguste Rodin,
dedicou uma vida inteira de estudos
do estilo gótico. Seu livro As Grandes
Catedrais apresenta uma série de re-
flexões que nos revelam a grandiosi-
dade do estilo gótico.

37
“Se conseguíssemos
compreender a arte
gótica, seríamos
irresistivelmente
levados de volta à
verdade” — Rodin
Foto de Valentin B. Kremer

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E o que isso tem a ver com o nosso en-
tretenimento atual baseado em filmes
e séries? Sim, uma construção gótica
tem tudo a ver com nosso entreteni-
mento. Quem nos prova isso é Robert
McKee, um dos maiores especialistas
em escrita criativa e roteiro cinema-
tográfico. O autor de inúmeros best-
-sellers costuma dizer que: “a arte da
escrita é como uma catedral no século
XXI”. Para McKee, o impacto dos filmes
e do entretenimento tem uma magni-
tude semelhante ao que as catedrais
tinham na Idade Média. Não só isso,
mas a estrutura de uma catedral sem-
pre inspirou a realização de grandes
obras de arte. Basta ver a semelhança
da Divina Comédia de Dante com a es-
trutura de uma catedral. A construção
de uma igreja gótica e a realização da
liturgia em seu interior é outro exem-
plo de “arte total” onde estão integra-
das todas as outras artes.

39
No período medieval, a igreja era ponto de en-
contro e de discussão para todos os habitantes
locais. Não podemos dizer algo parecido do nos-
so entretenimento hoje? Quantas de nossas con-
versas são pautadas pelo que vemos e ouvimos
na televisão e na internet? E o que estamos ven-
do e sobre o que estamos conversando? Essa são
perguntas pertinentes que todos nós devemos
nos fazer. Esse pequeno livro é um convite a uma
profunda reflexão sobre o tipo de conteúdo que
estamos consumindo.
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40
Cap. 5

conclusão

Foto de Mikhail Evstafiev

Durante a Guerra da Bósnia, o violoncelista


Vedran Smailovic toca Strauss dentro da
Biblioteca Nacional bombardeada
SARAIEVO, 12 DE SETEMBRO DE 1992

41
É notável que a maior parte das pla-
taformas de conteúdo e canais de
entretenimento não oferecem bons
conteúdos para um público preocu-
pado com valores espirituais e cultu-
rais tradicionais. Seja por afinidades
ideológicas escusas, desconhecimen-
to ou até mesmo desprezo, os atuais
canais de conteúdo negligenciam es-
ses temas e não oferecem produtos
de qualidade para quem compartilha
desses valores.  O fato é que essas pro-
duções já existem e ainda há espaço
para criar muitas outras. Porém, até
hoje não houve uma iniciativa focada
na criação de novas produções artísti-
cas e no resgate de filmes e séries que
tratam dos mesmos temas. É nessa
lacuna que a Lumine irá atuar, crian-
do novas produções e dando um novo
enfoque a produções já realizadas que
dividam desses valores.

42
Por isso, quero fazer um convite para você.

Dia 27 de julho faremos o lançamento da


plataforma Lumine onde teremos nossos
primeiros conteúdos: serão filmes, docu-
mentários, entrevistas e séries, além de
produções autorais, onde você poderá re-
pousar a sua alma ao encontro da bondade,
da beleza e da verdade.

Eu convido você a levar esse questiona-


mento ao maior número de pessoas possí-
vel: qual tipo de entretenimento estamos
consumindo e o que podemos fazer para
melhorar esse consumo? Quantas vezes
quisemos ter entretenimento de qualidade
para enriquecer as horas de lazer enquan-
to nos educa e propõe reflexões? Com que
frequência buscamos um bom filme para
logo ver nossos valores confrontados com
a trajetória das personagens e mensagens
principais?

43
Nós queremos que a Lumine seja uma alter-
nativa para todas pessoas que entendem a
importância de moldar a nossa alma com o
melhor conteúdo disponível. E queremos te
convidar a ser um dos primeiros membros
fundadores desse movimento de renovação
cultural. Por isso é muito importante que
essa mensagem chegue ao maior número de
pessoas possível. Podemos contar com você?

Imagem ilustrativa. Interface da plataforma sujeita a alterações


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TEXTO
Matheus Bazzo
FOTOS — EXCETO INDICADAS COM LEGENDA
Matheus Bazzo
DIREÇÃO DE ARTE
Vicente Pessôa

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Foto de Casey Horner

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