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INTRODUÇÃO

A disciplina Economia Empresarial é fundamental na formação


do administrador de empresas. Ao tomar decisões sobre investimentos e
gerenciamento dos projetos sob a sua responsabilidade, o administrador
deve, necessariamente, levar em consideração o ambiente econômico
vigente e as expectativas futuras. O que acontece na economia de uma
nação e também no resto do mundo repercute na vida das empresas e
dos cidadãos nos curto, médio e longo prazos. Certamente, esse
conhecimento acarretará um processo de tomada de decisões mais
consciente e com maior possibilidade de acerto.
Considerando esse contexto, a apostila Economia Empresarial
foi desenvolvida para ser utilizada como uma ferramenta valiosa na vida
profissional e particular do aluno. Sob esse foco, esta apostila foi
estruturada em oito módulos.
Nos três módulos iniciais, focaremos a microeconomia,
analisando as relações de consumidores e produtores em determinada
estrutura de mercado.
Nos quatro módulos seguintes, focaremos a macroeconomia e
investigaremos os fatores que impactam o desenvolvimento econômico
de um país como um todo.
Por fim, no último módulo, apresentaremos a Teoria do
Comércio e discutiremos acerca dos desafios da inserção da economia
brasileira no comércio internacional.
SUMÁRIO
MÓDULO I – CIÊNCIA ECONÔMICA E CURVA DE DEMANDA ............................................................. 9

O QUE É ECONOMIA? ........................................................................................................................ 9


Trade-off e custo de oportunidade ........................................................................................ 10
Princípios econômicos essenciais .................................................................................... 11
Agentes econômicos e alocação de recursos ...................................................................... 11
Escolha das famílias ........................................................................................................... 11
Escolha das empresas........................................................................................................ 12
Escolha do governo ............................................................................................................ 13
NÍVEIS DE ABORDAGEM DA ECONOMIA: MICROECONOMIA..................................................... 13
Estruturas de mercado ........................................................................................................... 13
Fatores que promovem a concorrência ............................................................................... 14
Concorrência perfeita ........................................................................................................ 14
Concorrência monopolística .................................................................................................. 15
LEI DA DEMANDA: PREÇO E DEMAIS DETERMINANTES .............................................................. 15
Elasticidade-preço da demanda ............................................................................................ 19
Demandas inelástica, elástica e unitária: exemplos ...................................................... 21

MÓDULO II – CURVA DE OFERTA E FORMAÇÃO DO PREÇO NOS MERCADOS COMPETITIVO E


MONOPOLISTA .................................................................................................................................... 25

LEI DA OFERTA: LADO DO PRODUTOR ......................................................................................... 25


Principais determinantes da oferta ....................................................................................... 26
Elasticidade-preço da oferta................................................................................................... 28
Ofertas elástica e inelástica: exemplos ........................................................................... 28
MERCADO: OS OPOSTOS SE ENCONTRAM ................................................................................... 30
O preço como bússola ............................................................................................................ 31
MAXIMIZAÇÃO DO LUCRO .............................................................................................................. 32
Equação do lucro ..................................................................................................................... 32
Lucro econômico versus lucro contábil ................................................................................. 33
FALHAS DE MERCADO ..................................................................................................................... 33
Monopólio ................................................................................................................................. 34
Tipos de monopólio ........................................................................................................... 36
Monopólio natural .............................................................................................................. 37
Papel do estado .................................................................................................................. 37

MÓDULO III – OLIGOPÓLIOS E FORMAÇÃO DE CARTÉIS ................................................................. 39

OLIGOPÓLIO ..................................................................................................................................... 39
Cartéis sob a ótica da Teoria dos Jogos ................................................................................ 40
Regulação do governo: o papel do Cade .............................................................................. 43
Caso da aquisição da Garoto pela Nestlé ....................................................................... 43
NOVA ECONOMIA ............................................................................................................................ 44
Schumpeter e a destruição criativa ....................................................................................... 45
REVOLUÇÕES INDUSTRIAIS ............................................................................................................ 45
Primeira Revolução Industrial ................................................................................................ 45
Segunda Revolução Industrial ................................................................................................ 46
Terceira Revolução Industrial ................................................................................................. 46
Quarta Revolução Industrial ................................................................................................... 47

MÓDULO IV – MACROMERCADOS, CONTROLE DA INFLAÇÃO E PIB .............................................. 49

MACROMERCADOS .......................................................................................................................... 49
Macromercados de bens e serviços ...................................................................................... 50
Macromercado de moeda ...................................................................................................... 50
Macromercado de câmbio...................................................................................................... 51
INFLAÇÃO E POLÍTICA MONETÁRIA ............................................................................................... 52
Como se mede a inflação? ...................................................................................................... 53
Hiperinflação brasileira e Plano Real .................................................................................... 54
Plano Real ............................................................................................................................ 55
Regime de metas da inflação ................................................................................................. 56
Regime de metas de inflação no Brasil ........................................................................... 57
Escolha do índice da inflação para o regime de metas no Brasil ................................ 57
Atuação do Banco Central na busca do cumprimento da meta .................................. 58
Papel das expectativas e autonomia do Banco Central ................................................ 59
MENSURAÇÃO DA ATIVIDADE ECONÔMICA ................................................................................. 60
Produto interno bruto (PIB) .................................................................................................... 60
PIB nominal e PIB real........................................................................................................ 61
Produto nacional bruto (PNB)........................................................................................... 61

MÓDULO V – CRESCIMENTO ECONÔMICO, PRODUTIVIDADE E SUSTENTABILIDADE DAS CONTAS


PÚBLICAS .............................................................................................................................................. 63

DIAGRAMA DO FLUXO CIRCULAR DE RENDA ............................................................................... 63


PIB pela ótica da despesa ....................................................................................................... 65
PRODUTIVIDADE E CRESCIMENTO DE LONGO PRAZO ............................................................... 66
Fontes de aumento da produtividade .................................................................................. 66
Poupança e investimento ....................................................................................................... 67
Fontes de poupança e papel do governo........................................................................ 68
POLÍTICA FISCAL E SUSTENTABILIDADE DAS CONTAS PÚBLICAS ............................................. 69
Agências de risco e grau de investimento ............................................................................ 70

MÓDULO VI – INSTRUMENTOS DE POLÍTICA MONETÁRIA E SPREAD BANCÁRIO.......................... 73

BREVE HISTÓRICO DAS CONTAS PÚBLICAS BRASILEIRAS .......................................................... 73


Case: A crise grega ................................................................................................................... 75
DE VOLTA À POLÍTICA MONETÁRIA ............................................................................................... 77
Moeda........................................................................................................................................ 77
Funções da moeda ............................................................................................................. 78
Política monetária .................................................................................................................... 79
Redesconto .......................................................................................................................... 79
Depósito compulsório ....................................................................................................... 80
Operações de mercado aberto (open market) ................................................................ 80
Corridas bancárias ............................................................................................................. 81
SPREAD BANCÁRIO ........................................................................................................................... 81
COOPERATIVAS DE CRÉDITO .......................................................................................................... 82

MÓDULO VII – CICLOS ECONÔMICOS E POLÍTICAS CAMBIAIS ........................................................ 85

CICLOS ECONÔMICOS ..................................................................................................................... 85


Flutuações ................................................................................................................................. 86
Origem das flutuações ....................................................................................................... 87
Lidando com as flutuações no curto prazo .................................................................... 88
Exemplos de flutuações econômicas e reações de governos ...................................... 90
MERCADO DE CÂMBIO .................................................................................................................... 91
Regimes cambiais .................................................................................................................... 91
Euro............................................................................................................................................ 92
Ataque especulativo à moeda ................................................................................................ 93

MÓDULO VIII – SETOR EXTERNO E TEORIA DO COMÉRCIO INTERNACIONAL ............................... 95

SETOR EXTERNO ............................................................................................................................... 95


Balanço de pagamentos ......................................................................................................... 95
COMÉRCIO INTERNACIONAL .......................................................................................................... 99
Teoria das Vantagens Comparativas ..................................................................................... 99
Ganhos decorrentes do comércio ................................................................................. 101
Como surgiu a Teoria das Vantagens Comparativas .................................................. 102
Sobre perdedores e ganhadores ........................................................................................ 104
Formas de protecionismo .................................................................................................... 105
Tarifa sobre importações ............................................................................................... 105
Quota de importação ...................................................................................................... 105
Restrições voluntárias à exportação ............................................................................. 105
Outras barreiras não tarifárias ...................................................................................... 106
Grandes crises econômicas e políticas protecionistas .................................................... 106

BIBLIOGRAFIA .................................................................................................................................... 107

PROFESSORA-AUTORA ...................................................................................................................... 108


MÓDULO I – CIÊNCIA ECONÔMICA E
CURVA DE DEMANDA

Neste módulo, apresentaremos a economia como a ciência das escolhas, aquela que explica
a forma como os agentes econômicos alocam os seus recursos escassos. Para tanto, definiremos o
custo de oportunidade das decisões de um administrador de empresa, entenderemos as escolhas
dos agentes econômicos (famílias, empresas e governo) e buscaremos compreender a escolha das
famílias entre consumir ou poupar. Em seguida, determinaremos se um setor possui as
características de um mercado com concorrência e definiremos as principais estruturas de
mercado existentes: monopólio e oligopólio. Por fim, identificaremos os elementos que definem a
demanda e a oferta de um bem ou serviço, buscando compreender como, em determinado
mercado, tais elementos respondem às variações do preço.

O que é economia?
A Economia pode ser vista como uma ciência, dado que as suas teorias são formuladas a
partir de métodos científicos. Um físico, por exemplo, formula as suas teorias a partir da
observação da natureza. Depois de formulá-las, ele executa experiências para verificar se tais
teorias podem ser confirmadas ou não. De modo análogo, os economistas observam os
acontecimentos econômicos em diversos países para, dessa forma, formular as suas teorias. Por
exemplo, muito do que se conhece, atualmente, como parte das teorias econômicas consagradas é
resultado das observações e dos estudos realizados durante a Grande Depressão de 1930. Ao
observarem os acontecimentos pertinentes a esse momento histórico, os economistas puderam
responder a questões como:
Quais foram as causas e origens daquela catástrofe?
Por que se aprofundou tanto?
Por que foi tão longa?
Quais foram os principais equívocos dos governos?
Quais foram os motores que, finalmente, tiraram o mundo daquela terrível situação de
profundo desemprego e sofrimento?

O processo de observação e estudo por parte dos economistas é contínuo e pode modificar
as teorias originais quando a realidade as confronta.

Trade-off e custo de oportunidade


A ciência econômica estuda a escassez, e uma importante medida da evolução de uma
economia é o produto interno bruto (PIB). O PIB nada mais é do que o resultado da produção de
bens e serviços de uma economia em determinado período. Para que sejam produzidos bens e
serviços, são necessários fatores de produção, como tempo, capital e terra, e esses fatores não são
infinitos; muito pelo contrário, eles são limitados, escassos. Desse modo, os agentes econômicos
estão sempre escolhendo como alocar os seus recursos limitados, enfrentando os chamados trade-
offs, que ocorrem quando têm de abrir mão de algo para obter outra coisa.
Imaginemos que um empresário, fornecedor de insumos para a construção civil, tenha obtido
lucro na sua empresa nos últimos tempos. Ele aplicou esse lucro em um banco e está sendo
remunerado, após o pagamento de impostos, com 10% a.a. de juros. Como está otimista, o
empresário está cogitando utilizar esse capital para implementar um projeto de ampliação de
capacidade produtiva na sua empresa. No entanto, caso opte pelo projeto, ele abrirá mão da
rentabilidade que está auferindo na aplicação financeira. Dizemos que a rentabilidade sobre o
capital de 10% a.a. que o empresário não mais obterá, caso opte pelo projeto, é o custo de
oportunidade do projeto. Por outro lado, caso opte por não executar o projeto, mantendo então o
dinheiro aplicado no banco, o empresário deixará de ganhar a rentabilidade que o projeto lhe daria
sobre o capital aplicado. Esse é o custo de oportunidade de deixar o dinheiro aplicado no banco.
O custo de oportunidade de uma escolha é o que se abre mão de obter nas opções não
escolhidas. Como o capital desse empresário não é, obviamente, infinito, ele terá de fazer uma
escolha, ou seja, precisará enfrentar um trade-off: deixar o dinheiro no banco ou realizar o projeto?
Para decidir, ele precisará comparar os custos de oportunidade: o que ele deixará de ganhar do
banco caso escolha o projeto e vice-versa?

Os agentes econômicos estão sempre enfrentando trade-offs


na alocação dos seus recursos.

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Princípios econômicos essenciais
Há dois princípios extremamente importantes na Economia. São eles:
a) Uma pessoa racional pensa na margem:
O conceito do termo “marginal” é fundamental em Economia. Podemos compreendê-lo
melhor por meio de um exemplo: suponhamos que um empresário opere a sua empresa
lucrativamente e esteja decidindo se deve ou não aumentar a sua produção em 10%. A decisão deve
ser tomada verificando se a receita marginal, ou seja, a receita a mais que esse acréscimo de produção
proporcionará, superará o custo marginal, que é o custo de ampliar a produção em 10%.

b) As pessoas respondem a incentivo:


Uma loja que oferece um expressivo desconto aos clientes que comprarem a vista, ao invés
de pagarem com cartão de crédito, está incentivando os consumidores a escolherem aquela
modalidade de pagamento. Da mesma forma, as altas multas aplicadas aos donos de veículos que
ultrapassam a velocidade permitida em uma estrada incentivam os motoristas a serem mais
cuidadosos na direção.

Agentes econômicos e alocação de recursos


Existem três tipos de agente na economia:
as famílias;
as empresas (o empresário) e
o governo – em todos os níveis (municipal, estadual e federal).

Cada um desses agentes econômicos deve decidir como alocar os seus recursos escassos. A
seguir, analisaremos como se dá essa escolha com mais detalhes.

Escolha das famílias


O recurso limitado da família é a sua renda (salários, lucros, aluguéis). A família escolherá
então consumir uma combinação de bens e serviços que maximize a utilidade da sua renda,
considerando as suas necessidades e preferências. Além disso, partindo do princípio de que os
indivíduos gastam o seu dinheiro de modo racional, pensando nas opções existentes, também é
válida a decisão de poupar.
Vamos imaginar que uma pessoa chamada Maria aufere uma renda mensal de x reais e
precisa decidir o quanto vai gastar e consumir hoje e o quanto vai poupar. Maria está, portanto,
diante de uma escolha, um trade-off, intertemporal. Ao decidir poupar uma parte da sua renda
hoje, Maria estará postergando o consumo, mas poderá aumentar a quantidade de bens
consumidos no futuro, pois a poupança lhe renderá juros. O custo dessa decisão é, portanto, o

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tempo que Maria terá de esperar para poder usufruir desse aumento de consumo. Suponhamos
que os juros anuais das aplicações de Maria sejam de 10% a.a. Isso significa que cada real
poupado por Maria hoje lhe renderá 1,10 reais daqui a um ano. Dizemos então que o preço
relativo do consumo hoje e do consumo daqui a um ano é de 1,10. O custo de oportunidade do
consumo hoje é o consumo futuro a mais a que ela terá de renunciar.

Importante!

Neste ponto, precisamos fazer três observações importantes:

1. a palavra poupança, em Economia, não significa o dinheiro aplicado na caderneta de


poupança, mas a parte da renda de uma pessoa que não foi utilizada para o consumo ou
pagamento de impostos;

2. o consumo futuro que Maria obterá um ano depois, se decidir poupar parte da sua renda
hoje, não depende somente dos juros anuais da aplicação financeira mas também da
inflação nesse ano – se os preços dos bens subirem, em média, 10% durante esse ano, o
consumo futuro de Maria não será maior no final desse período e se a inflação no ano for
superior a 10%, Maria perderá poder aquisitivo. O consumo de Maria só será maior um ano
depois se a taxa de juros obtida superar a inflação no período e

3. os juros obtidos na aplicação são chamados de taxa de juros nominal – a taxa de juros que
importa para a decisão de Maria entre consumir ou poupar é a taxa de juros real, que
consiste na diferença entre os juros obtidos, descontada a inflação no período.

Escolha das empresas


O recurso limitado das empresas é o capital. A empresa escolherá como alocar o seu capital
sempre visando à maximização do seu lucro.
O lucro de uma empresa é o resultado da sua receita total – custo total. Maximizar o
lucro significa que o empresário deve escolher a quantidade a ser produzida e o preço que será
praticado para que esse resultado seja máximo. Essa escolha naturalmente dependerá da estrutura
de mercado em que a empresa está inserida. A maximização de lucro por parte da empresa em
cada estrutura de mercado será vista com mais detalhes nos módulos 2 e 3.

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Escolha do governo
O recurso limitado do governo é a carga tributária que a sociedade lhe transfere. Ele deve
escolher, portanto, como irá alocar esse recurso: se em serviços públicos, como segurança, saúde e
educação, em programas sociais ou mesmo na construção de um novo porto ou estrada. Cada vez
que o governo resolve alocar capital em uma dessas importantes finalidades, esse capital não está
mais disponível para as outras finalidades também importantes. O critério utilizado pelo governo
para escolher como vai alocar os recursos que recebe da sociedade prevê uma combinação de
finalidades que maximize o bem-estar social.
Neste ponto, chegamos a um impasse: é verdade que o governo visa maximizar o bem-estar
social, mas, no mundo democrático, ele também visa ganhar apoio político e votos.
Frequentemente, portanto, a decisão mais eficiente de alocar recursos para construir o bem-estar
social nos médio e longo prazos não é a mais eficiente para obter apoio político no curto prazo.
Conflitos como esse são inerentes à situação básica da Economia, que, como vimos, é a
ciência das escolhas. Por isso mesmo, a opinião unânime entre os economistas jamais é alcançada.
Essa impossibilidade de alcançar unanimidade se reflete nas infindáveis discussões entre
economistas de diferentes linhas de pensamento econômico.

Níveis de abordagem da economia: microeconomia


A ciência econômica é abordada em dois níveis:
microeconomia – estudo de como as famílias e empresas tomam as suas decisões quanto
à alocação de recursos e como interagem nas diversas estruturas de mercado e
macroeconomia – estudo da economia como um todo, considerando o crescimento
econômico, a inflação, a taxa de desemprego, a dívida pública, etc.

Começaremos analisando a disciplina pela ótica da microeconomia.

Estruturas de mercado
As estruturas de mercado são as seguintes:
concorrência perfeita;
concorrência monopolística;
monopólios e
oligopólios.

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A teoria econômica define as características de cada estrutura. Na vida real, é natural que
sintamos dificuldade ao tentar determinar se dado mercado está operando em uma ou outra
estrutura. É para isso que serve a teoria. Por meio dela, podemos verificar se os mercados
apresentam ou não determinadas condições que os aproximem de uma ou outra estrutura.
Basicamente, o número de empresas operando em um mercado é o que determina a
estrutura vigente, determinando também o nível de competitividade. Existem, contudo,
características e nuances em cada caso. O esquema apresentado a seguir nos auxilia no
mapeamento das características de cada estrutura. Vejamos:

Figura 1 – Estruturas de mercado

Fatores que promovem a concorrência

Concorrência perfeita
Um mercado nada mais é que um grupo de compradores e vendedores de determinado bem
ou serviço. Em um mercado competitivo, o número de compradores e vendedores é grande o
suficiente para que nenhum deles consiga impactar individualmente o preço praticado nesse
mercado. Dizemos que, nesse mercado, cada participante é um price taker (tomador de preço).
Isso significa que cada vendedor ou comprador negocia o bem ou serviço ao preço que o mercado
como um todo pratica, não conseguindo nele interferir.
Para que ocorra uma concorrência perfeita:
os compradores e vendedores devem ser tão numerosos que nenhum comprador ou
vendedor pode influenciar no preço de mercado;
os produtos devem ser idênticos;
a entrada e saída do mercado deve ser livre e
a assimetria de informação não deve existir.

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Veremos, mais adiante, que as barreiras à entrada de novos participantes são um fator-chave
para que a concorrência não aconteça. Voltaremos a tratar desse assunto quando verificarmos as
condições do monopólio.
Quanto à assimetria de informações, participantes que tivessem informações privilegiadas
acerca das condições do mercado em que atuam não estariam competindo em igualdade de
condições. Informações privilegiadas são, via de regra, uma fonte de lucro diferenciado para quem
as possui. Em um mercado cuja concorrência é perfeita, todos os participantes devem possuir,
portanto, o mesmo nível de informação.

Concorrência monopolística
No mercado que opera em uma estrutura de concorrência monopolística, o número de
ofertantes e demandantes é elevado. No entanto, cada empresa detém identidade própria, o que
pode advir da sua marca, grife ou patente. Isso dá a cada ofertante uma certa autonomia para
determinar o preço do seu bem ou serviço. Essa autonomia é, contudo, reduzida devido à
concorrência de outras marcas de produtos similares.
Apesar da diferenciação dos produtos ou serviços de cada empresa, os consumidores os
percebem como substitutos próximos. São exemplos: produtos eletroeletrônicos, redes de fast-
food, restaurantes de chefes renomados, provedores de acesso à internet, produtos de beleza,
academias de ginástica, lojas de café gourmet, etc.

Importante!

Ao observamos o mundo real, encontramos uma diversidade de níveis de competitividade nos


mercados. No entanto, o que conseguiremos apreender estudando como se forma a oferta, a
demanda e, consequentemente, o preço em um mercado cuja concorrência é perfeita será de
extrema utilidade para a análise das outras estruturas de mercado. Dessa forma, começaremos
o nosso estudo das estruturas de mercado analisando como funciona um mercado no qual
estão presentes as condições já listadas para que ocorra a concorrência perfeita.

Lei da demanda: preço e demais determinantes


Imagine que você vá ao supermercado e, na sua lista, esteja incluso o item “sorvete”.
Suponhamos que, no supermercado, você encontre potes de sorvete de creme da marca Kibon. A
sua decisão quanto a comprar ou não esse sorvete e quanto à quantidade de potes que vai adquirir
será baseada em diversos fatores, como:
gostar ou não desse sorvete;
estar ou não fazendo calor;

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estar ou não de dieta;
possuir ou não um freezer para armazenar o produto;
ter dinheiro ou não para comprar esse sorvete e
o preço do sorvete (talvez o mais importante desses fatores).

Digamos que um pote básico de sorvete de creme custe, em média, R$ 20,00 em um


supermercado. A maioria das pessoas que encontrasse o produto sendo vendido por R$ 100,00
deixaria, portanto, de comprá-lo. Por outro lado, se o supermercado fizesse uma promoção e
oferecesse o mesmo sorvete por R$ 5,00, muitos consumidores aproveitariam a oportunidade para
adquirir mais de um pote.
Essa relação pode ser observada na curva de demanda de um bem ou serviço, que nos
informa, a cada preço, a quantidade demandada pelos consumidores, como podemos observar no
gráfico a seguir.

Figura 2 – Curva da demanda

Em uma curva da demanda, cada ponto é uma combinação ( , ) entre determinado preço
do bem ou serviço ( ) e determinada quantidade demandada desse bem ou serviço ( ).
No gráfico apresentado, se o preço do produto for , a quantidade demandada pelos
consumidores será . Os consumidores que demandam esse produto ao preço são todos
aqueles que estão dispostos a pagar por esse bem ou serviço de para cima. Se o preço ficar
abaixo de , a quantidade demandada aumentará, dado que, a um preço inferior, mais
consumidores estarão dispostos a demandar o produto. Se o preço ficar acima de , ocorrerá o
contrário, ou seja, a quantidade demandada diminuirá, já que alguns consumidores desistirão de
demandar o produto.

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Além do preço, podemos listar alguns outros fatores importantes na determinação da
demanda por um bem ou serviço. Vejamos:

a) Renda:
Se, em um país, o crescimento da economia tem sido consistente e a renda real (variação da
renda descontada da inflação) das famílias tem se expandido, a demanda pela maioria dos
produtos aumentará. Caso o país esteja passando por uma recessão, acontecerá o contrário. A
gráfico a seguir mostra como a expansão e a contração de renda afetam a curva de demanda.

Figura 3 – Reflexos da expansão ou contração da renda na curva da demanda

No gráfico apresentado, suponhamos que a renda média da população seja R1 e a curva de


demanda seja D1. Se o preço do produto for R$ 15,00, a quantidade demandada será 50. Se a
renda se expandir para R2, maior que R1, a curva de demanda se deslocará para fora, sendo
representada por D2. Ao mesmo preço de R$ 15,00, a quantidade demandada passará a 65. Caso
a renda encolha para o nível R3, menor que R1, a curva de demanda se deslocará para dentro,
representada por D3, o que significa que, ao mesmo preço de R$ 15,00, a quantidade demandada
cairá para 35. Isso é o que acontece com a demanda da expressiva maioria de produtos, que são
denominados bens normais.
Existem, no entanto, bens e serviços para os quais a lógica que acabamos de analisar se dá
de modo inverso: eles são mais demandados quando a renda da população encolhe e menos
demandados quando essa renda se expande. Um exemplo seria o serviço de sapateiro, que é mais
procurado quando a população demanda menos sapatos novos porque a sua renda encolheu. A
compra de carne de segunda ou de ovos, produtos que substituem a carne de primeira quando
essa fica menos acessível, dada a redução de renda, também é um exemplo. Por apresentarem esse
comportamento, esses bens ou serviços são denominados bens inferiores.

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b) Disponibilidade de crédito:
Alguns produtos têm a sua demanda muito afetada pela disponibilidade de crédito, como:
eletrônicos, linha branca (geladeiras, máquinas de lavar e eletrodomésticos em geral), automóveis,
casas e apartamentos.
O advento do crédito consignado – regulamentado por lei desde 2003 no Brasil –, no qual
as parcelas do empréstimo são diretamente descontadas do salário ou da aposentadoria do
cidadão, reduziu o risco de inadimplência para as instituições financeiras, diminuindo os juros
pagos pelo consumidor e deslocando a curva de demanda para fora. Em outras palavras, a
demanda por esses produtos foi expandida por haver mais crédito a juros menores.

c) Gostos e preferências:
O fato de algum produto começar a ser, por conta de algum fenômeno mercadológico, da
preferência da população também causa deslocamentos na curva de demanda.

d) Expectativas:
As expectativas da população têm expressivas consequências na economia. Em períodos de
expansão econômica, com o aumento da taxa de emprego e da renda, as pessoas ficam mais
confiantes, com boas expectativas, e ousam consumir mais e realizar sonhos de consumo não só
com a renda corrente mas também com a expectativa de rendas futuras, comprando a crédito.
Esse cenário desloca as curvas de demanda por bens e serviços para fora. O maior consumo cria
mais empregos, reforçando as boas expectativas e a demanda.
Infelizmente, em um período de recessão, toda essa lógica se dá de modo inverso: o
consumidor fica menos confiante, as suas expectativas são ruins, e as curvas de demanda se
deslocam para dentro, reforçando essas más expectativas.

e) Bens ou serviços complementares:


Existem muitos bens e serviços que se complementam no consumo das pessoas e famílias.
Bens ou serviços complementares são aqueles que são consumidos em conjunto: quando
comprarmos um deles, ficamos propensos a comprar o outro também. Como exemplos de
complementaridade, podemos citar o arroz e o feijão, ou os seguros de automóveis e os
automóveis. O preço de passagens aéreas para o Rio de Janeiro e a demanda por hospedagem na
Cidade Maravilhosa também são um exemplo. Se o preço da passagem aérea para o Rio
aumentar, certamente a demanda por hotéis nessa cidade diminuirá.
Em geral, a demanda por um bem:
diminui se o preço de um bem complementar aumentar e
aumenta se o preço de um bem complementar diminuir.

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f) Bens ou serviços substitutos:
Quando acontecem variações de preço, os consumidores buscam substituir determinados
bens ou serviços por outros. Um bem ou serviço é um substituto perfeito de outro quando o
indivíduo troca um pelo outro, por menor que seja a variação relativa de preços, guardando o
mesmo nível de satisfação. Quando ocorre um aumento do preço da maçã, a demanda por peras
aumenta, pois são bens substitutos próximos, quase perfeitos. Certamente, se o preço da Coca-
Cola aumentar, a demanda por outros refrigerantes e similares aumentará.

Importante!

Vimos que, quando o preço de um bem e serviço varia, a quantidade demandada se move
sobre a curva de demanda. Os outros fatores, quando variam, deslocam a curva, como vimos
no caso de variação da renda. No entanto, para analisarmos como uma dessas variáveis afeta a
demanda, temos de isolar o efeito das outras.

Sempre que o preço de um bem ou serviço sobe, a quantidade demandada cai? Depende. Se,
ao mesmo tempo, a renda aumentar, não saberemos o resultado final dos dois efeitos.
Contudo, se imaginarmos que nada mais foi alterado, podemos afirmar que, se o preço subiu, a
quantidade demandada do bem ou serviço em questão caiu. Essa relação costuma ser definida
pelo termo ceteris paribus, que, em latim, significa “tudo o mais constante”, ou seja, a renda e
todos os outros fatores que afetam a demanda não mudaram.

Elasticidade-preço da demanda
Os compradores reagem, em termos das quantidades adquiridas, quando os preços são
alterados. Avaliar, quantitativamente, essa reação é fundamental para a tomada de decisão dos
empresários ou gerentes quanto aos preços. Como a receita total das vendas resulta da
multiplicação das quantidades adquiridas pelos preços de mercadorias e serviços, ( =
), a reação dos consumidores altera o faturamento da empresa. A medida dessas variações é
chamada de elasticidade-preço da demanda.

As elasticidades-preço da demanda quantificam a variação


das quantidades compradas pelos consumidores como
resposta às oscilações de preço.

A elasticidade-preço da demanda ( ) é definida como a razão entre a variação percentual


da quantidade demandada e a variação percentual do preço do bem ou serviço. É uma razão entre
a causa e o efeito, ambos medidos em termos percentuais, onde o efeito é o numerador da razão, e
a causa é o denominador. Dessa forma, temos:

19
∆%
=
∆%

Como a curva de demanda é uma relação inversa entre a quantidade demandada e o preço,
o sinal da elasticidade-preço da demanda encontrado será negativo. Como isso pode levar a erros
de interpretação, o sinal não costuma ser considerado, sendo comum apresentar a elasticidade-
preço da demanda por meio de um valor absoluto.
Embora os compradores sempre reajam às oscilações de preço, tais reações podem ser mais
ou menos intensas, dependendo das características do bem ou serviço em questão. A seguir,
analisaremos alguns fatores determinantes da elasticidade-preço da demanda. Vejamos:

a) Necessidades versus supérfluos:


Quando um bem ou serviço é necessário para um consumidor, ele tende a acomodá-lo
dentro do seu orçamento mesmo quando ocorre o aumento de preço. Por exemplo, a maioria das
pessoas deixaria de adquirir algum outro bem para continuar a comprar um remédio necessário,
apesar de ele estar mais caro. Dizemos então que o remédio tem uma demanda inelástica, o que
significa que a elasticidade-preço é menor que 1:

∆%
1
∆%

Nesse caso, a quantidade demandada cai percentualmente menos do que o aumento do preço.
Se, por outro lado, o bem ou serviço em questão for supérfluo, isto é, o consumidor puder
deixar de consumi-lo sem grandes prejuízos à sua qualidade de vida ou ao seu conforto,
provavelmente um aumento de preço terá como consequência uma queda na quantidade
demandada, que será percentualmente maior que o aumento de preço. Dizemos então que esse
bem ou serviço tem uma demanda elástica, o que significa que a elasticidade-preço é maior que 1:

∆%
1
∆%

b) Disponibilidade de substitutos próximos:


No exemplo que acabamos de ver, a existência de um genérico para o remédio em questão,
provavelmente, faria com que a sua elasticidade-preço aumentasse. Em outras palavras, quando o
consumidor tem outra opção, o aumento do preço do produto ou serviço gera uma queda na
quantidade demandada maior do que quando ele não tem outra opção.

20
c) Horizonte temporal:
A elasticidade dos bens tende a aumentar em horizontes de tempo mais longos. Se o preço
da gasolina aumentar consideravelmente, a demanda cairá pouco inicialmente, dado que esse é
um bem muito necessário. Com o passar do tempo, no entanto, os consumidores tenderão a
comprar carros mais econômicos, buscar trabalhar em locais mais próximos à sua moradia ou
morar mais perto do trabalho. Com isso, a demanda por gasolina cairá bem mais. Isto é, a reação
dos consumidores ao aumento de preço fará com que a resposta à quantidade demandada se
intensifique no horizonte de tempo. Isso aconteceu na década de 1970, nos choques de petróleo,
quando a organização de países exportadores de petróleo (Opep) restringiu a oferta, forçando uma
repentina e aguda alta de preço do produto.

d) Participação do bem no orçamento do consumidor:


Bens ou serviços que representam um percentual muito pequeno no orçamento do
consumidor tendem a ter a demanda mais inelástica do que bens que representem um percentual
maior. Por exemplo, se os preços da caixinha de fósforo e do filé mignon aumentarem 30%, a
demanda por caixinhas de fósforo cairá menos que a demanda por filé mignon.

Demandas inelástica, elástica e unitária: exemplos


Para melhor entendermos como se dá a relação entre preço e quantidade adquirida, a
seguir, veremos alguns exemplos:

a) Exemplo de demanda inelástica:


Suponhamos que o preço de certo bem aumente 20% ( % ), e a quantidade demandada
caia 5% ( % ). Qual será a elasticidade-preço? O que acontecerá com a receita de vendas e o
gasto do comprador quando o preço subir?
Utilizando a fórmula da elasticidade-preço da demanda, temos:

5
∆% 100 0,05
= = = = 0,25
∆% 20 0,20
100

Nesse caso, um aumento de preço de 1% levará à redução de 0,25% na quantidade


consumida. Esse aumento de preço resultará em um aumento na receita de vendas e no gasto do
consumidor. Provavelmente, o consumidor tem poucas opções para substituir esse bem. Dessa
forma, ele continuará comprando quase a mesma quantidade, apesar do aumento no preço. A
demanda é, portanto, inelástica.

21
Podemos observar que um bem que tenha uma demanda inelástica, como um remédio
muito específico, favorecerá o produtor em detrimento do consumidor.

b) Exemplo de demanda elástica:


Suponhamos, agora, que o preço de certo produto aumente 10% ( % ), e a quantidade
demandada caia 22% ( % ). Qual será a elasticidade-preço da demanda por esse produto?
Utilizando a fórmula da elasticidade-preço da demanda, temos:

22
∆% 100 0,22
= = = = 2,20
∆% 10 0,10
100

Nesse caso, para cada aumento de preço de 1%, ocorrerá uma queda de 2,2% na
quantidade demandada. Em outras palavras, se o preço subir, haverá uma queda percentual maior
ainda na quantidade comprada. Dessa forma, os gastos do consumidor e a receita de vendas
cairão. Para os consumidores, esse produto, provavelmente, não é essencial ou tem substitutos
próximos, pois há uma forte redução na sua demanda quando ocorre o aumento de preço. A
demanda é, portanto, elástica.
Podemos observar que um produto que tenha uma demanda elástica favorece o consumidor
em detrimento do produtor. Quanto maior for a flexibilidade de escolha existente para o
consumidor – seja porque o produto não é necessário ou porque existem bens substitutos
próximos –, mais elástica será a demanda.

c) Exemplo de demanda unitária:


Suponhamos, por fim, que o preço de certo bem aumente 10% ( % ), e a quantidade
demandada caia 10% ( % ). Qual será a elasticidade-preço da demanda por esse produto?
Vejamos:

10
∆% 100 0,10
= = = =1
∆% 10 0,10
100

Para cada aumento de preço de 1%, ocorrerá uma redução de 1% na quantidade comprada.
A decisão de aumentar os preços não irá modificar, portanto, o gasto do consumidor e a receita de
vendas. Em outras palavras, o consumidor reduzirá as quantidades demandadas na mesma
proporção que os preços subirem. Dizemos então que a demanda desse bem apresenta elasticidade
unitária.

22
Nos gráficos a seguir, estão representados os conceitos de elasticidade-preço da demanda
que acabamos de analisar.

Figura 4 – Gráficos: elasticidades-preço da demanda

No gráfico A, vemos que, quando o bem tem demanda inelástica, a curva é mais vertical,
pois as variações das quantidades demandadas são menos intensas que as variações dos preços. No
gráfico B, vemos que, quanto maior for a elasticidade-preço, mais horizontal será a curva de
demanda, ou seja, as variações das quantidades serão mais que proporcionais às variações dos
preços. Por fim, no gráfico C, vemos que, se a elasticidade é unitária, as variações percentuais nas
quantidades compradas são iguais às dos preços.

23
MÓDULO II – CURVA DE OFERTA E FORMAÇÃO
DO PREÇO NOS MERCADOS COMPETITIVO E
MONOPOLISTA

Neste módulo, abordaremos o lado do produtor (aquele que faz a oferta) e o mercado, local
de encontro entre compradores e vendedores, e onde ocorre a formação de preços. Para tanto,
veremos como se forma o preço em um mercado cuja concorrência é perfeita e analisaremos o
papel fundamental do preço nas decisões dos agentes econômicos, que buscam sempre maximizar
o seu lucro. Apresentaremos também situações em que o mercado falha e, por isso, a competição
não acontece, o que leva ao monopólio.

Lei da oferta: lado do produtor


Imaginemos um produtor de maçãs e os diversos mercados em que ele pode ofertar o seu
produto. Imaginemos também que, em determinada feira, o quilo desse produto esteja sendo
negociado a R$ 8,00. Se, depois de fazer os seus cálculos, o produtor verificar que terá lucro a esse
preço, provavelmente, ele colocará as suas maçãs para serem vendidas nessa feira. Caso contrário,
procurará outro local para vender o seu produto.
Ainda pensando no exemplo da maçã, se o preço desse produto subir, a quantidade ofertada
tenderá a subir, já que isso incentivará novos produtores a venderem o seu produto. Se, ao
contrário, o preço da maçã cair, alguns produtores sairão do mercado, e a quantidade ofertada
será reduzida.
Segundo a lei da oferta, ceteris paribus (tudo o mais constante), quanto maior for o preço,
maior será a quantidade ofertada, e, quanto menor for o preço, menor será a quantidade ofertada,
como podemos observar no gráfico a seguir.
Figura 5 – Lei da oferta

Cada ponto sobre a curva da oferta é uma combinação ( , ) de determinado preço do


bem ou serviço ( ) e determinada quantidade ofertada desse bem ou serviço ( ).
No gráfico apresentado, se o preço do produto for , a quantidade que os produtores
ofertarão desse produto será . Os produtores que ofertam esse produto ao preço são todos
aqueles que estão dispostos a vender esse bem ou serviço de para baixo. Se o preço ficar acima
de , a quantidade ofertada aumentará, dado que, a um preço superior, mais produtores estarão
dispostos a ofertar o produto. Se o preço ficar abaixo de , ocorrerá o contrário, ou seja, a
quantidade ofertada diminuirá, já que alguns produtores desistirão de ofertar o produto.

Principais determinantes da oferta


Além do preço, podemos listar alguns outros fatores que determinam a oferta de um bem
ou serviço. Vejamos:

a) Preço dos insumos:


Aumentos nos custos dos fatores de produção influenciam a oferta, pois reduzem a margem
de lucro e a viabilidade do negócio. As empresas são, portanto, desestimuladas a produzir.
Nesse caso, como demonstramos no gráfico a seguir, haverá uma redução nas quantidades
ofertadas e um consequente deslocamento da curva da oferta de OA para OB. Além disso, se o
preço se mantiver em R$ 15,00, haverá um deslocamento do ponto A para o ponto B.

26
Figura 6 – Relação entre preço e quantidade ofertada

b) Tecnologia:
Toda produção usa certa tecnologia específica, e as atualizações tecnológicas tornam os
processos mais eficazes, elevando a produtividade dos recursos usados, reduzindo os custos e
aumentando a oferta. As mudanças nos serviços de telefonia oferecidos nas últimas três décadas
são um bom exemplo de como a tecnologia influencia a oferta.

c) Expectativas:
Se as expectativas para determinado mercado forem boas, mais empresários decidirão
produzir o bem ou serviço, e a oferta aumentará. Se as expectativas forem ruins, empresários
abandonarão o setor, e a oferta diminuirá.

d) Preços de bens ou serviços concorrentes:


A oferta é influenciada pelos preços dos bens e serviços concorrentes. Se o preço do milho
aumentar, a oferta de soja tende a diminuir. Tal fato ocorre devido à migração do produtor da
cultura de soja para a de milho, pois este se tornou mais rentável. Dessa forma, quando os preços
dos bens concorrentes sobem, a produção de soja diminui, gerando um deslocamento da curva da
oferta de soja para a esquerda, na direção de menores quantidades.
A queda dos preços dos bens concorrentes leva ao deslocamento oposto.

27
Elasticidade-preço da oferta
Assim como acontece com as quantidades demandadas, as quantidades ofertadas variam
quando o preço do bem ou serviço se altera. A intensidade dessa reação depende do tempo de
resposta da produção da empresa. Na maioria das cadeias produtivas, a oferta tende a ser mais
elástica (mais sensível ao preço) no longo prazo. No curto prazo, podem ocorrer dificuldades no
fornecimento de matérias-primas e, sobretudo, de equipamentos, ou ainda dificuldades em
contratar mão de obra especializada, dependendo da especificidade do processo produtivo.

Ofertas elástica e inelástica: exemplos


Se a elasticidade-preço da oferta for maior que 1, teremos uma oferta elástica; se for menor
que 1, teremos uma oferta inelástica. Vejamos dois exemplos para melhor compreendermos as
ofertas elástica e inelástica:

a) Exemplo de oferta elástica:


Suponhamos que o preço de uma mercadoria aumente 15% ( % ), e a quantidade
ofertada aumente 20% ( % ). Nesse caso, temos:

20
∆% 100 0,20
= = = = 1,33
∆% 15 0,15
100

Dessa forma, para cada aumento de preço de 1%, ocorrerá uma elevação da quantidade
ofertada de 1,33%. Isso mostra que a estrutura produtiva dessa mercadoria tem poucas restrições
e é capaz de responder, prontamente, ao estímulo de preço.

b) Exemplo de oferta inelástica:


Suponhamos, agora, que o preço de outro bem aumente igualmente 15% ( % ), e a
quantidade ofertada aumente apenas 5% ( % ). Nesse caso, temos:

5
∆% 100 0,05
= = = = 0,33
∆% 15 0,15
100

Dessa forma, para cada aumento de preço de 1%, ocorrerá uma elevação da quantidade
ofertada de 0,33%. Isso mostra que a estrutura produtiva responde ao estímulo de preço com
dificuldade.

28
c) Exemplo de elasticidade – preço da oferta unitária:
Se o percentual da quantidade ofertada for igual ao percentual da variação de preço,
dizemos que a elasticidade-preço da oferta é unitária. No exemplo, tanto o preço quanto a
quantidade ofertada variam 5%.

5
∆% 100 0,05
= = = =1
∆% 5 0,05
100

Nos gráficos a seguir, estão representados os conceitos de elasticidade-preço da oferta que


acabamos de analisar.

Figura 7 – Gráficos: elasticidades-preço da oferta

Os gráficos apresentam três curvas com inclinações distintas, representando as curvas das
ofertas elástica, unitária e inelástica. A oferta representada pela curva OA do gráfico A é a mais
horizontal (elástica em relação aos preços) quando comparada às ofertas presentes nos gráficos B e
C. A reação da quantidade ofertada no gráfico A à variação do preço tende a ser maior que nos
gráficos B e C.

29
Mercado: os opostos se encontram
No gráfico a seguir, podemos ver, ao mesmo tempo, as curvas da demanda e da oferta.

Figura 8 – Equilíbrio de mercado

As duas curvas se cruzam em um ponto chamado equilíbrio de mercado. Ao preço de


equilíbrio, e somente a esse preço, a quantidade demandada pelos consumidores é igual à
quantidade ofertada pelos produtores. Esse equilíbrio funciona como um centro de gravidade para
o mercado. Isso quer dizer que, se o preço estiver fora do ponto de equilíbrio, ele se ajustará para
equilibrar a quantidade ofertada à quantidade demandada.
Se o preço estiver acima do ponto de equilíbrio, haverá um excesso de oferta no mercado.
Esse excesso de oferta fará o preço cair, diminuindo a quantidade ofertada e aumentando a
quantidade demandada. Nesse caso, o preço cairá até alcançar o preço de equilíbrio, quando o
excesso de oferta terá desaparecido. Essa situação está representada no gráfico a seguir.

Figura 9 – Excesso de oferta

Por outro lado, se o preço estiver abaixo do ponto de equilíbrio, haverá um excesso de
demanda no mercado. Esse excesso de demanda fará o preço subir, aumentando a quantidade
ofertada e diminuindo a quantidade demandada. Nesse caso, o preço subirá até alcançar o preço

30
de equilíbrio, quando o excesso de demanda terá desaparecido. Essa situação está representada no
gráfico a seguir.

Figura 10 – Excesso de demanda

O preço como bússola


Acabamos de observar um ponto importantíssimo para o funcionamento da economia: o
preço se ajusta para equilibrar o mercado. Para que a economia funcione, é preciso que os preços
sinalizem onde há abundância e onde há escassez, ou seja, indiquem o que está sobrando e o que
está faltando.

Os agentes econômicos tomam as suas decisões quanto à


alocação de recursos, ao consumo e à produção observando
o preço.

Quando o governo interfere no sistema de preços, ele faz com que os agentes econômicos
tomem as suas decisões com base em um preço que não foi definido pelo mercado, mas
artificialmente. Isso, via de regra, acaba criando distorções sérias na economia. Por exemplo,
quando o governo abaixa ou congela, por decreto, o preço da energia, ele cria problemas
financeiros para as empresas geradoras, que param de investir e de ampliar a capacidade de
fornecimento. Já o consumidor, ao observar o preço congelado pelo governo, não se preocupará
em racionar energia. Haverá, portanto, distorções de alocação de recursos tanto por parte do
produtor quanto por parte do consumidor, pois o preço não é o correto. No caso do mercado de
energia, teremos um cenário que, claramente, poderá levar a um apagão.

31
Maximização do lucro
Equação do lucro
Toda empresa aloca o seu capital visando maximizar o seu lucro. Inicialmente, podemos
dizer que o lucro é resultante da seguinte equação:

! = – !#

A receita total de uma empresa é resultante da multiplicação entre o preço do produto ( ) e


a quantidade ( ), ou seja:

Já os custos totais de uma empresa são resultantes da soma entre os custos fixos e os custos
variáveis:

!# = !# # $ # % !# # & á& #

Consideremos uma empresa fabricante de bolos vendidos nos supermercados: os custos


fixos dessa empresa independem da quantidade produzida. Para defini-los, vamos imaginar que o
empresário, por algum motivo, decida suspender a produção de bolos durante alguns poucos
meses. Nesse caso, diversas despesas, como as referentes a matéria-prima, embalagens e serviços
terceirizados desaparecerão dos custos da empresa. No entanto, alguns custos permanecerão,
como o aluguel da fábrica e os salários dos funcionários com carteira assinada. Esses custos, que
permanecem mesmo que a empresa não produza nada, são os seus custos fixos.
Já os custos variáveis dependem da quantidade produzida e de elementos como a matéria-
prima e a embalagem utilizada na confecção de cada bolo. Dizemos então que o custo variável é
função da quantidade produzida.
Retomando a equação do lucro de uma empresa, teremos:

! = ( ) !# # $ # % !# # & á& # * +,

O lucro depende, portanto, de duas variáveis: a quantidade vendida ( ) e o preço cobrado


por unidade vendida ( ). Para maximizar o lucro, o empresário escolhe a dupla ( , ) que mais
eleva o valor da equação do lucro. O preço que ele praticará vai depender da estrutura de mercado

32
em que a sua empresa está inserida. Isto é, vai depender, principalmente, da existência de
concorrência e do quão numerosa é essa concorrência.
Como vimos, no caso de concorrência perfeita, quando muitas empresas atuam no mesmo
segmento, o preço imposto pelo mercado é aquele em que prevalece o equilíbrio: o preço que faz a
quantidade demandada ser igual à quantidade ofertada.
Se o nosso fabricante de bolos sofrer a concorrência de muitas fábricas semelhantes à dele,
ele venderá os seus bolos ao preço que estiver sendo praticado pelo mercado, podendo somente
escolher a quantidade a ser vendida para maximizar o seu lucro. Isso é o que significa ser tomador
de preço (price taker).

Lucro econômico versus lucro contábil


Uma empresa tem custos explícitos que implicam desembolso de recursos, como a compra
de matéria-prima, e também custos implícitos (também denominados custos de oportunidade),
como a rentabilidade que seria obtida caso o capital da empresa fosse aplicado de outra forma (por
exemplo, em títulos públicos).
O conceito de lucro contábil, em geral, não leva em consideração os custos implícitos,
apenas os custos que geram efetivos desembolsos. Já o conceito de lucro econômico inclui todos
os custos, explícitos e implícitos.
Suponhamos que um empresário tenha aplicado, alternativamente, o capital investido na
sua firma em títulos públicos, obtendo uma rentabilidade de 10% a.a. Esse é o custo de
oportunidade do seu capital (o que ele obteria se aplicasse os seus recursos na melhor alternativa
possível). Nesse caso, se a sua empresa tiver uma rentabilidade sobre o capital de 7% a.a., ele terá
lucro contábil, mas prejuízo econômico. Por outro lado, se a rentabilidade for de 13% a.a., ele
terá lucro contábil e lucro econômico. Por fim, se a rentabilidade for de 10% a.a., ele terá lucro
contábil positivo, mas lucro econômico zero.

Falhas de mercado
No século XVIII, Adam Smith, autor do famoso livro A riqueza das nações, usou a imagem
da mão invisível do mercado para fazer referência àquilo que impulsionaria os indivíduos, ao
perseguirem os seus interesses individuais, a promoverem eficiência e bem-estar social. Dessa
forma, os recursos escassos da sociedade seriam utilizados do modo mais eficiente possível se os
mercados funcionassem em competição perfeita. No entanto, a realidade pode afastar-se desse
modelo de competição. Essas situações são denominadas falhas de mercado e justificariam a
atuação do governo em busca do aumento da eficiência na alocação dos recursos da sociedade e na
promoção do bem-estar social.

33
Um exemplo clássico de falha de mercado é o de uma fábrica cuja produção provoque a
poluição do ar ou de rios, prejudicando a saúde da população. Nesse caso, após realizar uma
fiscalização, o governo poderá aplicar uma multa à empresa ou, até mesmo, fechá-la. Essa eventual
multa ou punição induzirá a empresa a investir em tecnologias menos poluentes e a reparar os
danos causados ao ambiente.
A atuação do governo também é necessária quando os mercados que não acontecem, pois
não são lucrativos, não atraindo produtores. Uma cidade pode não ter o número suficiente de
habitantes para que uma empresa privada de ônibus ali se instale, deixando os seus moradores sem
esse serviço essencial. Normalmente, em casos como esse, o governo cria uma empresa estatal para
ofertar o serviço ou oferece algum subsídio ao setor privado.

Monopólio
Uma outra possibilidade de falha de mercado ocorre quando há somente um produtor de
determinado bem ou serviço, e não existe substituto próximo para esse bem. Dizemos então que
esse produtor é monopolista daquele bem ou serviço.
Uma empresa pode ser a única a fazer o trajeto de ônibus do Rio de Janeiro a Belo
Horizonte, e vice-versa. Há, contudo, a possibilidade de o consumidor ir de avião ou dirigindo o
seu próprio carro. Dessa forma, se a empresa aumentar muito o preço da passagem de ônibus,
certamente perderá clientes para o avião ou o carro particular.

Importante!

Um ponto importante a observar é que não existe curva da oferta no monopólio. Como vimos,
a curva da oferta de um mercado nos informa que, se o preço de um bem subir, novos
produtores ficarão dispostos a vendê-lo, e a quantidade ofertada aumentará. Por outro lado, se
o preço cair, alguns produtores desistirão de vender o bem, e a quantidade ofertada cairá.
Como estamos analisando um monopólio, somente um produtor existe e, consequentemente,
não faz sentido falar em curva da oferta.

Já a curva da demanda existe e é a mesma vigente no caso de um mercado em que há


concorrência. Como vimos, a curva da demanda depende da disposição dos consumidores de
comprar o bem a determinado preço, independentemente de o mercado ter muitos produtores
ou somente um. Ela nos informa, portanto, a quantidade demandada pelos consumidores a
cada preço.

O monopolista, como qualquer outro produtor, tem como objetivo maximizar o seu lucro.
No entanto, apesar do seu poder de mercado, o monopolista não pode vender o produto ao preço
que quiser. Se a curva de demanda de determinado produto indicar que, ao preço de R$ 100,00, a
quantidade demandada é de 10.000 unidades, mesmo sendo monopolista, o produtor não pode

34
decidir vender as 10.000 unidades ao preço de R$ 150,00, pois, a esse preço, haverá menos
consumidores dispostos a adquirir o produto.
Por outro lado, o monopolista tem mais liberdade que o produtor que atua em um
mercado em competição perfeita, pois ele pode escolher a melhor combinação preço-quantidade
para maximizar o seu lucro. Como vimos, o produtor em concorrência perfeita é um tomador de
preço e só escolhe a quantidade a ser comercializada, pois o preço é determinado pela interação da
demanda e da oferta no mercado como um todo.
O monopolista vai escolher, portanto, a combinação preço-quantidade ( , ), representada
por um ponto sobre a curva de demanda, que maximize o seu lucro que depende do preço e da
quantidade.

! = ( ) !# # $ # % !# # & á& # * +,

Quando o monopolista encontra, sobre a curva demanda, a combinação preço-quantidade


que maximiza o seu lucro, ele ajusta a produção para essa quantidade, de modo a poder cobrar
esse preço. Dessa forma, dizemos que o monopolista é um fazedor de preço (price maker).
Para o monopolista, esse é melhor dos mundos. No entanto, para a eficiência da alocação
dos recursos da sociedade, para o bem-estar social e, consequentemente, para o consumidor, essa
situação gera uma perda. Isso acontece porque o monopolista maximiza o seu lucro cobrando
mais caro e produzindo uma quantidade menor do que aquela que seria produzida em um
mercado de concorrência perfeita. Dessa forma, menos consumidores consomem o bem ou
serviço.

A perda de eficiência e bem-estar resultante do monopólio é


denominada peso morto do monopólio.

Nos gráficos a seguir, podemos observar, para determinado mercado, a combinação de


preço-quantidade que prevaleceria no caso de haver concorrência e no caso de haver monopólio.

35
Figura 11 – Competição perfeita versus monopólio

Tipos de monopólio
O monopólio acontece quando existe alguma barreira que impeça novas empresas de atuar
naquele segmento de mercado. Os principais tipos de barreira à entrada a novos produtores,
propiciando a manutenção dos monopólios, são os seguintes:

a) Monopólio legal:
O monopólio legal é aquele instituído por lei, como acontecia em diversos serviços de
utilidade pública no Brasil até alguns anos atrás.

b) Monopólio por concessão de patente:


A patente dá ao inventor de uma inovação tecnológica ou de um novo remédio, por
exemplo, o direito exclusivo de produção ou de venda da licença de produção durante
determinado tempo. Os inventores necessitam de incentivo para continuar inovando e, se o
governo não conceder e defender as patentes, a inovação dificilmente acontece.

c) Monopólio por propriedade exclusiva de insumo:


A propriedade exclusiva de um insumo essencial para algum setor impossibilita a entrada de
outra empresa.

d) Política de preços predatória:


Algumas empresas podem executar estratégias para barrar novos entrantes e manter o seu
poder de mercado. Uma estratégia possível é a política de preços predatória. Nesse caso, a empresa
já instalada trabalha, por algum tempo, com prejuízo, mantendo os preços baixos para
desencorajar novos entrantes.

36
Essa prática é considerada ilegal, sendo motivo de diversas ações judiciais. Alguns casos são
controversos, pois a empresa alega (e, às vezes, prova) que os preços baixos não são predatórios,
mas consequência das inovações tecnológicas ou da escala de produção.

e) Manutenção de capacidade ociosa:


Outra estratégia possível seria a empresa manter certo grau de capacidade ociosa,
sinalizando aos potenciais entrantes a sua habilidade de aumentar a produção e derrubar os
preços. Essa situação pode desencorajar os concorrentes.

Monopólio natural
O monopólio também pode ser resultante do tamanho do mercado e dos altos custos fixos
de um setor. Imaginemos uma pequena cidade onde se instale um hipermercado. Esse
estabelecimento, por operar em ampla escala e ter custos mais baixos, pode levar todos os
mercados tradicionais dessa cidade à falência. Na verdade, só há espaço para uma empresa de
porte naquela cidade, dado o número limitado de consumidores. Essa estrutura de mercado é
conhecida como monopólio natural.
Os serviços de distribuição de água ou de energia elétrica em uma cidade são casos típicos
de monopólio natural. Se mais de uma empresa atuasse em algum desses setores, os custos altos
decorrentes da escala menor de produção fariam com que, para que as empresas atuassem sem
prejuízo, o preço para o consumidor fosse mais caro do que se houvesse uma única empresa.

Papel do estado
O Estado deve atuar no caso do monopólio natural, principalmente nos casos de empresas
que ofereçam serviços públicos, como aeroportos, estradas, distribuição de energia e
fornecimento de água. Esses bens são essenciais e, pela sua estrutura de custos fixos altos, não
comportam concorrência.
A atuação do Estado pode ocorrer por meio da criação de empresas estatais que se ocupem
desses setores ou da realização de leilões de concessão do serviço ao setor privado. Nesse segundo
caso, o Estado atua como regulador, criando agências reguladoras para cada setor, como a Aneel
(Agência Nacional de Energia Elétrica) e a Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações).
Essas duas hipóteses de lidar com o monopólio natural são motivos de intermináveis
discussões entre os economistas. Alguns preferem as estatais, outros preferem as concessões ao
setor privado.
No caso das concessões, a regulação governamental deve ter o objetivo de fazer com que o
mercado sem competição, ou no qual a competição seja restrita, funcione o mais próximo
possível da situação de concorrência. As agências reguladoras devem preservar a rentabilidade do
capital investido pelo concessionário, zelar pela qualidade do serviço e atuar para que os

37
contratos sejam cumpridos adequadamente. Já as concessionárias têm obrigações com o nível de
qualidade dos serviços prestados ao público e prazos para realizar os investimentos definidos nos
contratos de concessão.
Alguns modelos de regulação dão garantia de retorno mínimo para o investimento da
empresa. No entanto, essa garantia de retorno pode induzir a investimentos maiores que o
necessário por parte da concessionária, que pode contabilizar um capital maior e, portanto,
aumentar o que recebe.
Outro modelo, utilizado nas privatizações das estradas brasileiras, é aquele em que o
governo define a tarifa máxima a ser paga pelos consumidores às empresas. Nesse caso, os
participantes do leilão oferecem descontos sobre essa tarifa. Quem oferecer o maior desconto
ganha a concessão.
Uma crítica comum feita à regulação consiste no fato de que os reguladores, indicados pelo
governo, podem distanciar-se do interesse da população, sendo cooptados pelas próprias empresas
que deveriam regular. Essa dificuldade é conhecida como “problema da captura”.
Como os investimentos em setores de infraestrutura são elevados, um país que necessite
atrair capital privado para a sua infraestrutura deve ter um ambiente regulatório previsível e
confiável. Para investir, o setor privado precisa ter confiança de que os contratos firmados serão
cumpridos. Enfim, o risco regulatório e o respeito aos contratos são pontos sensíveis nas decisões
de investimento do setor privado. Incertezas nessas áreas afugentam potenciais investidores.
A realidade é que temos exemplos tanto de eficiência e quanto de má gestão em casos de
concessões ao setor privado e de estatais. Por exemplo, as principais estradas francesas e alemãs
figuram entre as melhores do mundo: as francesas são privatizadas, e as alemãs são gerenciadas
pelo Estado. Ambas as soluções para lidar com o monopólio natural apresentam, portanto,
vantagens e desvantagens.

38
MÓDULO III – OLIGOPÓLIOS E FORMAÇÃO
DE CARTÉIS

Neste módulo, trataremos da situação do oligopólio, que ocorre quando poucas empresas
produzem determinado bem ou serviço. Analisaremos então a estratégia utilizada pelos setores
oligopolizados e compreenderemos como se formam os cartéis sob a ótica da Teoria dos Jogos.
Veremos também a teoria de Shumpeter, economista criador da expressão “destruição criativa”,
que tem relação com a nova economia e os impactos das novas tecnologias nos diversos mercados.

Oligopólio
Diversos mercados operam com poucas empresas (duas ou mais, mas não muitas). São os
oligopólios, estruturas de mercado em que, normalmente, também encontramos barreiras à
entrada. Existem dois tipos de oligopólio:
oligopólio homogêneo – ocorre quando o produto ofertado pelas empresas que operam
em oligopólio é bastante semelhante. Nesse caso, os preços das empresas não podem ser
muito diferentes, sob pena de a empresa que cobrar mais caro perder fatia de mercado e
oligopólio diferenciado – quando há uma diferenciação maior entre os produtos das
empresas.

A questão da estratégia se faz presente nessa estrutura de mercado, pois, devido ao porte das
poucas empresas, o que uma decide em relação à produção e aos preços afeta o resultado das
outras. Por exemplo, se a empresa A de transporte aéreo lançar promoções nos preços das suas
passagens, ela estará conquistando passageiros da empresa B. De modo a reagir à estratégia da
concorrente, a empresa B, possivelmente, lançará promoções semelhantes para não perder a sua
fatia de mercado. A concorrência entre os participantes do oligopólio é, portanto, benéfica para o
consumidor, pois gera quedas nos preços ou pode melhorar o produto ou serviço.
A concorrência, no entanto, nem sempre acontece. As empresas que formam o oligopólio
podem agir em conluio, formando um cartel. Nesse caso, essas empresas tomam a decisão de
ofertar uma quantidade em bloco, como se fossem um monopolista, combinando quanto cada
uma irá produzir. Essa situação é prejudicial ao consumidor e, por isso, a formação de cartel é
ilegal na maioria dos países, inclusive no Brasil.

Cartéis sob a ótica da Teoria dos Jogos


O cartel é lucrativo para as empresas que atuam em oligopólio, mas a própria cooperação
em si não é trivial. O matemático John Nash, criador da Teoria dos Jogos (1953), analisa essa
dificuldade de um cartel ser bem-sucedido. Segundo a teoria de Nash, para que um cartel
funcione, todos os participantes precisam combinar o que será feito e cumprir esse combinado. Se
apenas um participante cumprir o acordo, ele ficará em uma situação pior do que se também não
tivesse feito o combinado. Dessa forma, se não houver confiança entre os participantes, a
tendência é a de que todos quebrem o acordo, e isso será prejudicial para o grupo. Não à toa, em
inglês, a palavra utilizada para se referir a cartel é trust (confiança).

John Nash ganhou o prêmio Nobel de Economia pelo seu


trabalho, e a sua vida foi retratada no filme Uma mente
brilhante, que levou o Oscars de melhor filme, melhor
diretor, melhor atriz coadjuvante e melhor roteiro adaptado
em 2002.

A Teoria dos Jogos trata de situações nas quais a ação de cada agente envolvido afeta os
ganhos ou as perdas obtidas por ele e por todos os demais. No entanto, o seu uso não se limita à
análise da interação entre empresas. Por meio dessa teoria, é possível analisar outras situações,
como a interação entre as equipes de uma mesma empresa, entre negociadores de um contrato,
entre o conselho de administração e a diretoria executiva em uma sociedade anônima, entre países
que discutem a diminuição de barreiras alfandegárias, limitações no desenvolvimento de armas
nucleares, acordos de redução da emissão de gases para atenuar o efeito estufa, e assim por diante.
Para melhor entendermos os oligopólios usando a Teoria dos Jogos, consideraremos,
inicialmente, uma situação imaginária clássica, conhecida como “dilema dos prisioneiros”.
Suponhamos que duas pessoas tenham sido presas (prisioneiro A e prisioneiro B) e acusadas de
terem cometido um crime juntas. Cada uma é colocada em uma cela própria e precisa decidir se
confessa ou não o crime sem saber se o outro prisioneiro confessou ou vai confessar. As penas
aplicadas são as seguintes:

40
caso ambos os suspeitos confessem o crime, serão condenados a uma pena de três anos
de prisão cada um;
caso um confesse e o outro não, aquele que confessou será libertado imediatamente
como prêmio e incentivo às confissões. O suspeito que não confessou será punido com
cinco anos de detenção e
caso nenhum dos dois confesse, eles permanecerão apenas um ano na prisão, durante as
investigações, pois, sem confissões, as provas para condená-los a uma pena maior são
insuficientes.

A tabela a seguir resume o dilema dos prisioneiros. Os números entre parênteses


representam as penas aplicadas em cada caso. Os sinais negativos indicam que cada ano na prisão
é um custo (uma perda).

Tabela 1 – Dilema dos prisioneiros

prisioneiro B

confessa não confessa

confessa (-3; -3) (0; -5)


prisioneiro A
não confessa (-5; 0) (-1; -1)

A tabela apresentada nos mostra que, para os dois prisioneiros, a cooperação é a opção que
trará o melhor resultado. Se nenhum deles confessar, ambos receberão a menor pena: um ano de
prisão para cada um. A pena total dos dois seria de dois anos, menor que em qualquer outra
opção. No entanto, nenhum deles pode ter certeza absoluta daquilo que o outro vai fazer (mesmo
que tenham combinado, mutuamente, não confessar antes de entrar nas suas celas separadas).
Além disso, individualmente, ser o único a não confessar levará um dos prisioneiros à pior opção:
ficar cinco anos na prisão. Dessa forma, se nenhum prisioneiro tem certeza do que o outro vai
fazer, um deles pode preferir confessar, usando a chamada estratégia dominante.

A estratégia dominante é aquela em que um jogador


escolhe a melhor opção independentemente das estratégias
escolhidas pelo outro jogador.

Imagine o prisioneiro A, sozinho na sua cela, decidindo se confessa ou não. Ele sabe que o
resultado final depende do que ele e o prisioneiro B decidirem. Suponha que ele raciocine do
seguinte modo: “Não tenho certeza do que B fará. Mas, se ele confessar, o melhor para mim será

41
confessar também, pois fico três anos preso, em vez dos cinco anos, se eu não confessar. E se ele
não confessar? O melhor para mim também será confessar, pois serei libertado imediatamente, em
vez de ficar preso um ano, o que ocorreria se eu não confessasse.”
Considerando esses possíveis comportamentos de B, seria então melhor para A confessar.
Como a tabela é simétrica, o mesmo raciocínio, com os mesmos resultados, pode ser realizado
para o prisioneiro B. Confessar é, portanto, uma estratégia dominante para cada jogador
individualmente, e é o que pode acabar acontecendo. Dessa forma, apesar de a cooperação ser
melhor para os prisioneiros, como não há garantias, as ações individuais independentes levam a
um resultado pior para ambos.
Para utilizarmos o dilema dos prisioneiros na análise dos oligopólios, imagine um mercado
no qual existam apenas duas empresas, A e B, produzindo um bem padronizado. Elas devem
decidir a quantidade a ser produzida. Suponha também que essas empresas possam escolher
apenas entre dois níveis de produção: 1 e 2, ou seja, cada uma tem duas estratégias possíveis. Os
resultados, em termos de lucros, estão resumidos na tabela a seguir.

Tabela 2 – Lucro das empresas A e B (em R$ milhões)

empresa B

nível 1 nível 2

nível 1 (9; 9) (13; 6)


empresa A
nível 2 (6; 13) (12; 12)

O nível 1 de produção é o nível mais elevado. Se ambas produzissem no nível 1, obteriam


R$ 9 milhões de lucro cada uma, pois uma maior produção resultaria em uma maior oferta, e o
preço de venda do produto cairia. O nível 2 de produção é menor. Nesse caso, as empresas
poderiam formar um cartel e combinar de produzir nesse nível, restringindo a oferta e cobrando
mais caro. As duas empresas obteriam então o lucro de R$ 12 milhões cada uma (se formassem
um cartel, comportando-se como um monopólio único, obteriam um lucro total de R$ 24
milhões). No entanto, seria necessário que ambas cumprissem o combinado. Se não houver
maneira de verificar e obrigar que ambas cumpram o combinado – como no dilema dos
prisioneiros –, as empresas são tentadas a desrespeitar o acordo. A empresa A, por exemplo,
pensaria que, se B respeitasse o acordo, produzindo no nível 2 (de menor oferta), seria melhor
para ela produzir no nível 1, pois obteria um lucro de R$ 13 milhões. Além disso, se B
desrespeitasse o combinado, produzindo no nível 1 (de maior oferta), também seria melhor para
A que produzisse no nível 1, pois o lucro de R$ 9 milhões é maior que o de R$ 6 milhões.

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O mesmo raciocínio vale para a empresa B, por simetria. Dessa forma, a estratégia de produzir
no nível 1, não cumprindo o combinado, é uma estratégia dominante para ambas as empresas.
O pior dos mundos para um participante de cartel seria ver-se como o único a fazer o
combinado. Notemos que, se A não cumprir o combinado e B cumprir, A obtém o melhor
resultado, R$ 13 milhões, e B lucra somente R$ 6 milhões. A tendência desse jogo é,
portanto, a de que ambas as empresas quebrem o acordo e produzam no maior nível, obtendo
o resultado de R$ 9 milhões cada. Esse não é o melhor resultado para a dupla, mas é,
certamente, bom para o consumidor.
Apesar dessa dificuldade de cooperação entre as empresas que operam na estrutura de
oligopólio, ainda se formam cartéis bem-sucedidos em diversos setores da economia. Isso
acontece, possivelmente, porque as empresas conseguem verificar o cumprimento dos acordos
feitos ou porque esses acordos são de longo prazo. Um dos motivos para a cooperação prevalecer é
que um oligopolista, geralmente, permanece no mercado muitos anos. Isso significa que o jogo
vai repetir-se várias vezes, e cada empresa sabe que pode esperar retaliação das outras, sofrendo
prejuízos se não cumprir o combinado. Desse modo, a melhor estratégia passa a ser a de
cooperação. Em alguns casos, pode existir uma organização que zele pelo cartel e aplique uma
punição à empresa que não cooperar, como no clássico caso do cartel de postos de gasolina em
algumas cidades.

Regulação do governo: o papel do Cade


Assim como os monopólios, os oligopólios geram ineficiência na economia e prejudicam os
consumidores, pois cobram preços superiores ao custo marginal de produção. Além do possível
conluio de oligopolistas, práticas restritivas como acordos de exclusividade, vendas casadas e
criação injustificada de dificuldades de licenciamento inibem a concorrência, criando ineficiências
na economia. As fusões e aquisições, por exemplo, ganharam impulso nas últimas décadas e, com
a formação de grandes grupos econômicos, tendem a distanciar a economia de uma estrutura de
concorrência perfeita, com muitas empresas independentes.
Nesses casos, além das agências reguladoras, há outros órgãos públicos, como o Cade
(Conselho Administrativo de Defesa Econômica), que têm a tarefa de zelar pela defesa da
concorrência, inibindo a concentração de poder de mercado e de práticas restritivas.

Caso da aquisição da Garoto pela Nestlé


Como exemplo da atuação do Cade nos atos de concentração, temos o caso da aquisição da
Garoto pela Nestlé.
Em fevereiro de 2002, a empresa Nestlé submeteu à análise do Cade a intenção de
aquisição da empresa Garoto.

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Após o recebimento dos pareceres da Secretaria de Desenvolvimento Econômico e a análise
de concorrentes e clientes, com fundamento na Lei 8.884/94 e no Guia para Análise Econômica
de Atos de Concentração, o Cade concluiu que essa fusão geraria uma grande concentração no
mercado relevante de chocolates de consumo imediato, caixas de bombons e ovos de páscoa, bem
como geraria um monopólio no mercado de coberturas de chocolate líquidas, pois somente a
Nestlé e a Garoto oferecem esse produto no mercado. Isso poderia ocasionar um aumento no
preço dos produtos, não dando opção ao consumidor.
Na análise feita pela Secretaria de Desenvolvimento Econômico, foi elaborado um quadro
comparativo para mostrar que esse ato geraria uma grande barreira às empresas que pretendessem
entrar nesse mercado, bem como àquelas que já se encontram nele, como a Lacta, pois seria
impossível concorrer com a Nestlé. Além disso, a fusão também geraria um impacto social
negativo, pois levaria ao risco de fechamento da fábrica da Garoto em Vila Velha (ES), o que
causaria o desemprego de muitas pessoas.

Nova economia
Atualmente, os meios de comunicação estão repletos de histórias sobre a nova economia.
Novas tecnologias estão modificando tudo: podemos adquirir grande parte do que consumimos
pela internet, a pesquisa de preços pode ser feita em qualquer lugar do planeta e de modo
instantâneo, os nossos meios de comunicação foram totalmente modificados, as campanhas
eleitorais utilizam, fortemente, as redes sociais; tudo isso por conta da revolução da informática,
que está transformando a vida dos cidadãos em todo o planeta.
Em 1999, foram incluídos no índice da bolsa de valores americana Dow Jones a Microsoft
(produtora do sistema operacional Windows para computadores) e a Intel (grande produtora de
microprocessadores para computadores). Em 2018, o valor de mercado da Amazon ultrapassou
um trilhão de dólares.
As inovações tecnológicas estão mudando não só os hábitos dos consumidores mas também
o funcionamento das empresas. Agora, as linhas de montagem são apoiadas por robôs controlados
por computadores. Além disso, a relação das pessoas com as empresas está evoluindo, o que gera
mais competição nos mercados.
Considerando esse contexto, será que as teorias econômicas desenvolvidas a partir de Adam
Smith, em 1776, quando a industrialização ainda estava engatinhando e a economia da maioria
dos países ainda era baseada na agricultura, conseguem dar conta da transformação que estamos
vivenciando? Segundo os economistas Carl Shapiro e Hal Varian, da Universidade da Califórnia,
sim. Na segunda página do livro Information rules (2003), os autores afirmam que, apesar de a
tecnologia mudar, as leis econômicas não mudam. Em outras palavras, as ideias básicas que
estudamos na teoria econômica continuam a lançar luz ao entendimento dos novos mercados.

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Schumpeter e a destruição criativa
A competição em mercados em que inovação é importante pode não atingir o ideal da
concorrência perfeita que discutimos anteriormente, mas ainda assim é intensa. Nesse caso, a
concorrência se concentra tanto em introduzir novos produtos quanto em vender produtos
antigos a preço mais baixos. Esse tipo de concorrência é, muitas vezes, chamado de competição
Schumpeteriana, em referência ao grande economista Joseph Schumpeter.
Schumpeter começou a sua carreira na primavera de 1919, na Áustria, como ministro das
finanças do Império Austro Húngaro, e terminou como professor emérito de Economia da
Universidade de Harvard. A sua visão da economia era nitidamente diferente daquela presente no
modelo de equilíbrio em concorrência perfeita. O economista questionava a própria noção de
equilíbrio, pois, para ele, a economia sempre estará em movimento, e o papel do economista é
entender as forças que impulsionam esse movimento.
Segundo Schumpeter, a economia se caracteriza por um processo de destruição criadora. Isso
quer dizer que uma empresa inovadora pode, por meio do seu novo produto ou de custos de
produção mais baixos, adquirir uma posição dominante no mercado. No entanto, eventualmente,
tal produção dominante será destruída por uma nova empresa inovadora, que tomará o seu lugar. A
preocupação de Schumpeter era a de que as corporações gigantescas que estavam surgindo
sufocassem a inovação criadora e acabassem com o processo de destruição criativa. Até agora,
felizmente, os seus temores foram infundados. Na verdade, muitas dessas firmas gigantescas, como a
IBM, conseguiram gerenciar o processo inovador de modo a acompanhar os demais novatos.
Economistas schumpeterianos de hoje voltam-se, com frequência, para a Biologia ao
buscarem compreender o processo de mudança, descrevendo-o como evolucionário: algo lento e
com muitos elementos aleatórios. Nesse processo, sobressaem-se as firmas mais aptas e que, por
sorte ou habilidade, conseguem descobrir novos produtos ou novos modos de fazer negócios em
dado ambiente melhores que os dos rivais. Essas firmas difundem as suas práticas às outras firmas.

À medida que o respeito e a compreensão da importância


da inovação aumentaram, o número de economistas que se
consideram shumpeterianos também aumentou.

Revoluções industriais
Primeira Revolução Industrial
A Inglaterra foi o primeiro país a deixar de ser uma economia primordialmente agrícola e
foi palco da Primeira Revolução Industrial ocorrida durante o século XVIII e o início do século
XIX. A cidade de Manchester é o símbolo dessa Primeira Revolução Industrial, pois foi lá que os

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teares manuais foram substituídos pelos primeiros teares mecânicos. Nessa esteira, surgem as
indústrias do aço, as primeiras ferrovias e os barcos a vapor que facilitam a formação e a conexão
de mercados. O carvão é a principal fonte de energia dessa época.
A maior produtividade dos teares mecânicos assustou os trabalhadores que vislumbraram o
encolhimento do seu mercado de trabalho. A palavra sabotagem vem de sabot que, em francês,
significa tamanco. Os trabalhadores colocavam os seus tamancos entre as peças das novas
máquinas visando destruí-las com a finalidade de preservarem os seus empregos. Atualmente,
sabemos que a maior produtividade dos teares mecânicos criou mais riqueza, mais renda, mais
mercados e a expansão de outros mercados de trabalho.
Essa revolução, iniciada na Inglaterra, algumas décadas depois aconteceu na Europa
continental e também nos Estados Unidos da América.

Segunda Revolução Industrial


A segunda Revolução Industrial, ocorrida a partir do final do século XIX, ganhou corpo
durante a primeira metade do século XX, com invenções tecnológicas ocorridas em decorrência da
Primeira e da Segunda Guerra Mundial. O desenvolvimento acelerado de metalúrgicas, da
indústria química, do motor a explosão utilizando derivados de petróleo, assim como a geração de
energia elétrica são referências dessa época.
A modificação do método de produção característica da Segunda Revolução Industrial foi
idealizada por Henri Ford, em 1920, inicialmente na indústria automobilística, nos EUA. Ford
modificou totalmente a produção de um automóvel ao inventar a linha de produção na qual cada
funcionário é especializado em uma parte do produto e não mais pelo o produto interior, como
anteriormente. Essa nova situação do trabalhador foi ironizada no filme de Charles Chaplin,
Tempos Modernos, no qual o operário aperta uma porca o dia inteiro e não consegue parar de fazer
o movimento após o expediente.
Nesse período, aparece a figura do engenheiro que controla a produção como um todo. A
linha de produção, que foi reproduzida nos outros setores da economia, mudou as relações de
trabalho e aumentou significativamente a produtividade. O custo de um automóvel, por exemplo,
despencou e a classe média teve acesso a esse produto, abandonando o uso de charretes. Diversos
empregos deixaram de existir em vários setores, como no setor de produção de charretes, mas
novos empregos foram criados em setores mais modernos, gerando renda e inclusão social.

Terceira Revolução Industrial


Na segunda metade do século XX (1970), entramos na Revolução da Alta Tecnologia (High
Tech), que tem como principais símbolos o computador e a internet.
O trabalho tornou-se mais dependente da criatividade e da multifuncionalidade das pessoas,
e menos da especialização caracterizada na Revolução anterior. Esse novo paradigma da produção

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foi desenvolvido na fábrica de automóveis Toyota, no Japão, e utiliza a flexibilidade do
trabalhador, não a especialização. A produção torna-se mais horizontalizada diferente da
verticalização característica da Era Fordiana.
O desenvolvimento das telecomunicações e da internet permitiu que trabalhos sejam feitos
a distância, possibilitando que diferentes equipes em diferentes lugares cooperem para a produção.
O computador é facilmente reprogramável por um novo software que atualiza o meio de
produção. Essa nova tecnologia permite uma maior integração da produção em diversos países,
acelerando o que denominamos de globalização. A tecnologia da informação confere mais poder
ao consumidor, que consegue fazer pesquisa de preços instantaneamente com o seu celular. As
compras pela internet revolucionaram o varejo.

Quarta Revolução Industrial


Para melhor entendermos a Quarta Revolução Industrial, vejamos um trecho da
reportagem de Valeria Perasso, jornalista da BBC, que trata do assunto:

O que é a 4ª Revolução Industrial – e como ela deve afetar nossas vidas

Valeria Perasso

[...]

“A Quarta Revolução Industrial não é definida por um conjunto de tecnologias emergentes, mas
pela transição em direção a novos sistemas que foram construídos sobre a infraestrutura da
revolução digital (anterior)", diz Schwab, diretor executivo do Fórum Econômico Mundial e um
dos principais entusiastas da "revolução".

"Há três razões pelas quais as transformações atuais não representam uma extensão da
terceira revolução industrial, mas a chegada de uma diferente: a velocidade, o alcance e o
impacto nos sistemas. A velocidade dos avanços atuais não tem precedentes na história e está
interferindo quase todas as indústrias de todos os países", diz o Fórum.

Também chamada de 4.0, a revolução acontece após três processos históricos


transformadores. A primeira marcou o ritmo da produção manual à mecanizada, entre 1760 e
1830. A segunda, por volta de 1850, trouxe a eletricidade e permitiu a manufatura em massa. E
a terceira aconteceu em meados do século 20, com a chegada da eletrônica, da tecnologia da
informação e das telecomunicações. Agora, a quarta mudança traz consigo uma tendência à
automatização total das fábricas - seu nome vem, na verdade, de um projeto de estratégia de
alta tecnologia do governo da Alemanha, trabalhado desde 2013 para levar sua produção a
uma total independência da obra humana.

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A automatização acontece através de sistemas ciberfísicos, que foram possíveis graças à
internet das coisas e à computação na nuvem.

Os sistemas ciberfísicos, que combinam máquinas com processos digitais, são capazes de
tomar decisões descentralizadas e de cooperar - entre eles e com humanos - mediante a
internet das coisas

O que vem por aí, dizem os teóricos, é uma "fábrica inteligente". Verdadeiramente inteligente.
O princípio básico é que as empresas poderão criar redes inteligentes que poderão controlar a
si mesmas.

No Fórum Mundial de Davos, em janeiro de 2016, houve uma antecipação do que os


acadêmicos mais entusiastas têm na cabeça quando falam de Revolução 4.0: nanotecnologias,
neurotecnologias, robôs, inteligência artificial, biotecnologia, sistemas de armazenamento de
energia, drones e impressoras 3D.

Mas esses também serão os causadores da parte mais controversa da quarta revolução: ela
pode acabar com cinco milhões de vagas de trabalho nos 15 países mais industrializados do
mundo.

[...]

Fonte: PERASSO, Valeria. O que é a 4ª Revolução Industrial – e como ela deve afetar nossas vidas. BBC Brasil, 22 out. 2016.
Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/geral-37658309>. Acesso em: jan. 2019.

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MÓDULO IV – MACROMERCADOS,
CONTROLE DA INFLAÇÃO E PIB

Neste módulo, iniciaremos o estudo da macroeconomia e apresentaremos os três


macromercados: o de bens e serviços, o de moeda e o de câmbio. Analisaremos também como se
dá o controle da inflação, dando destaque ao regime de metas vigente no Brasil e ao papel do
Banco Central nesse processo. Por fim, identificaremos os elementos do produto interno bruto
(PIB) e analisaremos a ligação entre a produtividade e o crescimento de longo prazo de um país.

Macromercados
A macroeconomia estuda a economia como um todo. Apesar de não estarmos focando um
mercado específico, continuaremos a lidar com a demanda, a oferta e a formação de preços, agora
nos três macromercados de uma economia:
o macromercado de bens e serviços;
o macromercado de moeda e
o macromercado de câmbio.

Como em qualquer mercado, cada um desses tem os seus compradores (demanda), os seus
vendedores (oferta) e a formação do preço.
O padrão de atuação do governo em cada um desses macromercados é denominado,
respectivamente, política fiscal, monetária e cambial, e o conjunto dessas políticas forma o tripé
macroeconômico do País.
Macromercados de bens e serviços
Os bens e serviços demandados e ofertados em uma economia são considerados produtos.
Os compradores (demandantes) de bens e serviços de uma economia são: as famílias, as
empresas, o governo (municipais, estaduais e federal) e o resto do mundo (quando há exportações
de bens e serviços). O conjunto da demanda desses agentes econômicos é denominado demanda
agregada por bens e serviços.
Já os vendedores (ofertantes) de bens e serviços de uma economia são: as empresas, o
governo e o resto de mundo (quando há importações de bens e serviços). O conjunto da oferta
desses agentes econômicos é denominado oferta agregada de bens e serviços.
Vimos, nos módulos sobre microeconomia, que, quando a demanda supera a oferta em um
dado mercado, o preço é ajustado para cima, de modo a equilibrar a quantidade ofertada e
demandada. Se o contrário acontece, ou seja, a oferta supera a demanda, o preço é ajustado para
baixo, sempre buscando o equilíbrio.
Em um macromercado de bens e serviços, quando a demanda agregada supera a oferta
agregada de bens e serviços, os preços sobem, e isso se reflete nos índices de inflação.
O governo está presente tanto do lado da demanda quanto do lado da oferta agregada e
pode atuar aumentando ou contraindo os seus gastos, ou mesmo cortando impostos para
incentivar o consumo das famílias. Como exemplo dessa atuação, podemos citar o corte do IPI
(imposto sobre produtos industrializados) sobre carros e eletrônicos que ocorreu em 2008, após
uma forte contração da demanda das famílias, como resposta à crise mundial deflagrada pela
falência do então terceiro maior banco de investimentos dos Estados Unidos, o Lehman Brothers.

Ao variar os seus gastos ou impostos, o governo está


interferindo no seu orçamento seja do lado da receita
(impostos) ou do lado da despesa (gastos). Essa atuação,
que responde a decisões do Ministério da Fazenda, é
denominada política fiscal.

Macromercado de moeda
Em uma economia, atuam os agentes econômicos que ofertam e demandam moeda.
Quando pensamos nos ofertantes de moeda em uma economia, é comum nos lembrarmos
dos bancos. No entanto, os bancos atuam, principalmente, como intermediários. Os principais
ofertantes de moeda em uma economia são, na verdade, as famílias que poupam. É importante
salientar que, quando mencionamos a poupança das famílias não estamo-nos referindo à
caderneta de poupança. A poupança de uma família é o que resta da sua renda após os gastos com
consumo e pagamentos de impostos. Ao aplicar esse dinheiro no mercado financeiro, seja
comprando um certificado de depósito bancário (CDB) de um banco ou um título público,

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aplicando em um fundo de investimentos ou mesmo na caderneta de poupança, essa família está
ofertando moeda. Se agregarmos o que todas as famílias que possuem poupança aplicam, temos a
oferta de moeda das famílias.
Assim como as famílias, as empresas que estão com dinheiro em caixa acima da sua
necessidade de capital de giro também aplicam esse excesso no mercado financeiro, ofertando
moeda. O governo também oferta moeda por meio, por exemplo, dos empréstimos concedidos
pelo BNDES ou dos financiamentos do programa Minha Casa, Minha Vida, concedidos pela
Caixa Econômica Federal. Os poupadores do exterior também podem ingressar com capital no
País, ofertando moeda no mercado financeiro interno.
Já as famílias que recorrem ao mercado financeiro buscando crédito para financiar o seu
consumo ou mesmo o investimento em uma casa ou apartamento são demandantes de moeda. As
empresas também buscam financiamento para os seus projetos no mercado financeiro ou em
bancos. O governo, geralmente, gasta mais do que arrecada e busca suprir esse déficit de receita
pedindo emprestado por meio do lançamento de títulos da dívida pública no mercado financeiro.
Os juros pagos ou recebidos são o preço desse mercado de moeda e formam-se nas diversas
modalidades de financiamento em uma economia. O governo, por meio da atuação do Banco
Central (Bacen), interfere nesse mercado definindo a taxa básica de juros do País (Selic) nas
reuniões periódicas do Comitê de Política Monetária (Copom).

A atuação do Banco Central no mercado de moeda é


denominada política monetária.

Macromercado de câmbio
No Brasil, o mercado de câmbio é o ambiente em que se realizam as operações de câmbio
entre os agentes autorizados pelo Banco Central e entre estes e os seus clientes. O mercado de
câmbio é regulamentado e fiscalizado pelo Banco Central e compreende as operações de compra e
venda de moeda estrangeira, tendo como referência o dólar americano. A cotação do dólar é
determinada pelo equilíbrio da quantidade transacionada pelos ofertantes e demandantes.
Os principais ofertantes do macromercado de câmbio são os agentes econômicos que
trazem dólares para o País. Por exemplo:
empresas brasileiras exportadoras que recebem em dólar o valor das exportações;
investidores residentes no exterior que ingressam com capital para aplicar no mercado
financeiro brasileiro;
empresas que ingressam com capital para montar ou comprar uma empresa no Brasil
(esse tipo de ingresso é denominado investimento direto);
empresas brasileiras que captam empréstimos no exterior;
residentes no exterior pagando pacotes turísticos no Brasil e
especuladores que vendem dólares apostando em uma queda da cotação.

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Já os principais demandantes são os agentes econômicos que saem com dólares, como:
importadores que compram dólares para quitar as suas dívidas no exterior;
investidores residentes no exterior que estão com capital aplicado no mercado financeiro
do País e decidem retornar com esse capital para o exterior;
empresas multinacionais que remetem lucro para o exterior;
empresas brasileiras pagando principal e juros devidos ao exterior;
residentes no país pagando viagens internacionais e pacotes turísticos no exterior e
especuladores que compram dólares apostando em uma alta da cotação.

O preço que se forma nesse mercado é a cotação do dólar. Como em outros mercados, o
preço será aquele que equilibra a quantidade ofertada e a quantidade demandada de dólares. O
Banco Central pode atuar nesse mercado comprando ou vendendo dólares e, consequentemente,
interferindo no valor da moeda.

O padrão de atuação do Banco Central no mercado de


câmbio é a política cambial do País.

As três políticas que formam o tripé macroeconômico serão o objeto do nosso estudo de
macroeconomia e, como observaremos, a atuação do governo em cada um desses mercados tem
consequências nos outros dois.

Inflação e política monetária


No século XX, diversos países sofreram processos agudos de inflação, denominados
hiperinflação. Na Alemanha, por exemplo, um jornal que custava 30 centavos de marco em 1922
passou a custar 70 milhões de marcos em 1924, apenas dois anos depois.
Frequentemente, as pessoas argumentam que a taxa de inflação declarada pelo governo não
é verdadeira, pois o seu custo de vida tem aumentado acima da taxa divulgada. Isso ocorre porque
a cesta de bens e serviços consumida por uma família não é idêntica à consumida por outras
famílias. No entanto, para a mensuração da variação contínua dos preços, é preciso definir uma
cesta de bens e serviços que represente a média do consumo das famílias de certa região, por faixa
de renda.
Sendo assim, a percepção da variação dos preços tem estreita relação com os itens da cesta
de bens e serviços que uma pessoa ou família consome todos os meses. Um exemplo seria a
inflação sentida pela terceira idade (medida pela FGV), que sofre uma importante influência dos
preços dos medicamentos em geral.
Em especial, as pessoas que pertencem a diversas faixas de renda não percebem a mesma
inflação, pois a cesta de bens e serviços consumida por pessoas de nível de renda diferentes não é

52
igual. Em um período em que os alimentos são os bens que mais sobem de preço, as classes D e E
sentem uma inflação maior que as classes A e B, pois os alimentos têm um peso maior na cesta
consumida por pessoas com menor renda. Quando serviços sofrem uma maior variação de preços,
acontece o contrário. Serviços estão muito mais presentes nas classes A e B e representam um peso
maior na cesta consumida por essas classes.

Como se mede a inflação?


A inflação é medida por meio de um índice de preços. Para criar esse índice de preços, deve-
se definir o conjunto ou a cesta de bens e serviços e as suas proporções na composição de tal cesta.
Existem vários índices de preço, e cada um deles mede a variação de determinado conjunto (cesta)
de bens ou serviços.
Qualquer pessoa ou entidade pode criar um índice que reflita a variação ocorrida em um
conjunto de bens ou serviços do seu interesse. Na tabela a seguir, mostramos os principais índices
de preço utilizados no Brasil.

Tabela 3 – Principais índices de preço utilizados no Brasil

ano de início da
área geográfica
faixa de renda

data de coleta
componentes

em salários-
responsável

divulgação
míni mos

data de
índice

série
IPCA-15 dia 15 até dia 25 2000
1 a 40 SM 11 Regiões
IBGE IPCA não há
Metropolitanas dia 30 até dia 15 1979
INPC 1 a 6 SM

IPA-10
IGP-10 IPC-10 dia 10 até dia 20 1994
O IPC da FGV é
INCC-10
calculado em 12

IPA-M O IPC da FGV é regiões até dia 30,


calculado para metropolitanas (além com prévias
FGV IGP-M IPC-M dia 21 1989
a faixa entre 1 das 11 pesquisadas nos dias 10
INCC-M e 33 SM. pelo IBGE, inclui e 20
também
IPA-DI
Florianópolis).
IGP-DI IPC-DI dia 30 até dia 10 1944
INCC-DI

Fipe-
IPC-Fipe não há 1 a 20 SM cidade de São Paulo dia 30 até dia 10 1939
USP

53
A Fundação Getulio Vargas (FGV) é um dos órgãos mais tradicionais do Brasil no
levantamento de toda uma série de indicadores econômicos. Ela é responsável pelo cálculo dos
Índices Gerais de Preços (IGPs). O mais antigo deles é o Índice Geral de Preços –
Disponibilidade Interna (IGP-DI), cuja série surgiu em 1944 como parte dos esforços do governo
brasileiro para gerar indicadores com base em metodologias padronizadas internacionalmente. Por
seguir normas internacionais, IGP-DI brasileiro pode ser comparado aos IGPs de outros países.
Esse índice é encontrado a partir da média ponderada de outros três:
o Índice de Preços no Atacado (IPA), com ponderação de 60%;
o Índice de Preços ao Consumidor – Brasil (IPC-Br), com 30% de peso e
o Índice Nacional de Custos da Construção (INCC), com 10% de peso.

Essas ponderações são padronizadas em todo o mundo no cálculo dos IGPs.


O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) é responsável pelo cálculo dos dois
principais indicadores de inflação no varejo: INPC e IPCA. Como esses índices refletem a inflação
sentida pelos consumidores ao gastarem a sua renda no dia a dia, eles são geralmente usados como
base nas reivindicações dos sindicatos para a reposição das perdas salariais frente à inflação.
O Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) mede a inflação com base nos hábitos
de consumo de famílias com renda mensal entre um e seis salários-mínimos. O levantamento de
preços é realizado em 11 regiões metropolitanas: São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte,
Porto Alegre, Curitiba, Salvador, Recife, Fortaleza, Belém, Goiânia e Brasília. Depois de calcular
o indicador em cada uma dessas regiões, o INPC é gerado ponderando-se cada cidade pelo peso
da sua população na faixa de renda considerada.
O Índice de Preço ao Consumidor Amplo (IPCA) também é calculado pelo IBGE. Ele
reflete a inflação baseada no padrão de consumo das famílias com renda entre um e 40 salários-
mínimos, e a pesquisa também é feita nas mesmas regiões-alvo da pesquisa do INPC.

Hiperinflação brasileira e Plano Real


No Brasil, entre julho de 1964 e julho de 1994, os preços medidos pelo IGP-DI da FGV
subiram inacreditáveis 1.302.442.989.947.180,00%. Isso significa mais de 1 quatrilhão e 302
trilhões por cento de inflação em três décadas.
A inflação começou a subir especialmente durante a década de 1970 e, em 1986, os
governos militares deixaram para o governo Sarney, primeiro governo civil desde 1964, uma
inflação que alcançava 20% ao mês. O novo governo implementou, ainda em 1986, o primeiro
plano de estabilização da economia, conhecido como Plano Cruzado. A moeda mudou de
Cruzeiro para Cruzado, e 1.000 cruzeiros passaram a valer um cruzado. Isto é, cortaram-se três
zeros de todos os preços e valores. O ponto mais importante do plano foi o congelamento de
preços. Era proibido subir qualquer preço. Inicialmente, a inflação caiu bastante, mas, com o

54
tempo, o congelamento mostrou-se insustentável, pois houve desabastecimento em diversos
setores da economia. Quando o congelamento foi cancelado, a inflação voltou ainda mais forte do
que antes.
Entre 1986 e 1994, houve diversas tentativas de domar a inflação, como o Plano Collor,
que, em 1990, bloqueou a maior parte do dinheiro da população depositada nos bancos. Como
podemos observar no gráfico a seguir, cada plano funcionava por um curto período e, quando
falhava, a inflação reaparecia com mais força. Em julho de 1994, finalmente, o Plano Real
conseguiu trazer a inflação para padrões bem menores.

Figura 12 – Inflação (1969-2002)

Plano Real
Em julho de 1994, o Governo Itamar Franco, tendo Fernando Henrique Cardoso como
Ministro da Fazenda, fez uma nova tentativa de controlar a hiperinflação, dessa vez com sucesso.
O Plano Real, diferentemente dos planos que o precederam e falharam, não tentou congelar
preços ou segurar o dinheiro da população. Ele agiu na origem do problema.
Invariavelmente, se formos procurar a origem de um processo hiperinflacionário,
encontraremos um governo que gasta muito mais do que arrecada e, para cobrir essa diferença,
emite moeda. A hiperinflação faz a moeda não valer nada. E o que não vale nada? O que existe em
demasia. Se, em determinado ano, acontecer uma supersafra de maçã, o preço dessa fruta
despencará devido ao excesso de oferta. Da mesma forma, se houver excesso de moeda em
circulação, esta não valerá muito, e o poder aquisitivo será corroído pela inflação descontrolada. A
origem da hiperinflação alemã pós-Primeira Guerra, mencionada anteriormente, foi justamente a
emissão desenfreada de moeda para financiamento da guerra e do pós-guerra.

55
Em 1993, ano que precedeu o Plano Real, o governo aumentou os impostos e a
arrecadação, e vendeu estatais para não necessitar mais emitir dinheiro para financiar-se. Isso não
ocorreu nos planos anteriores, que, invariavelmente, voltavam à emissão desenfreada e,
consequentemente, à inflação.
Outro fator importante do Plano Real foi a utilização do que chamamos de âncora cambial
para a inflação. O real nasceu no dia 1º de julho de 1994, valendo US$ 1,00, e o governo, por
meio do Banco Central, comprometia-se a manter esse valor fixo.
O câmbio fixo auxilia no controle da inflação porque todos os preços cotados em dólar,
como insumos, produtos finais ou mesmo commodities – que são cotadas em dólares, como soja –,
terão os seus preços estáveis em moeda nacional (no caso brasileiro, em reais). Se um
supermercado importar uma manteiga dinamarquesa por US$ 4,00, e a cotação do dólar ficar fixa
em R$ 1,00, o preço da manteiga ficará estacionado em R$ 4,00.

Quanto mais uma economia for integrada ao comércio


internacional, mais efeito terá o câmbio fixo no controle da
inflação.

Para manter a cotação fixa, o Banco Central do Brasil necessitava ter reservas razoáveis de
dólares. Qualquer movimento dos investidores ou agentes econômicos em geral, buscando
comprar dólares, exigia que a autoridade monetária (Banco Central) vendesse dólares para
equilibrar o mercado e não permitir o aumento da cotação, o que traria mais inflação via aumento
dos preços dos importados ou cotados em dólar.
No início de 1999, depois de muitas crises externas e internas que enfraqueceram as
reservas de dólares brasileiras, o Banco Central desistiu de manter a cotação da moeda americana e
parou de vender dólares. A cotação do dólar dobrou rapidamente, pressionando a inflação via
aumento dos importados, bens e serviços cotados na moeda americana. O Brasil precisava de uma
nova ferramenta para o controle do aumento dos preços e foi então implementado o regime de
metas de inflação.

Regime de metas da inflação


Segundo a definição do próprio Banco Central, o regime de metas de inflação é um regime
monetário por meio do qual essa instituição se compromete a atuar de forma a garantir que a
inflação esteja em linha com uma meta preestabelecida, anunciada publicamente.
Esse regime, que foi utilizado pela primeira vez pela Nova Zelândia, em 1989, caracteriza-se
por quatro elementos básicos:
conhecimento público da meta de médio prazo para a inflação;
comprometimento do Banco Central com a estabilidade de preços, que é o objetivo
primordial da política monetária;

56
comunicação da estratégia de atuação do Banco Central de forma transparente e clara ao
público e
uso dos mecanismos que tornam as autoridades monetárias (Banco Central) responsáveis
pelo cumprimento das metas de inflação.

Como podemos observar, o regime de metas de inflação é mais do que o anúncio público das
metas, envolvendo também transparência de atuação e prestação de contas regulares à sociedade.

Regime de metas de inflação no Brasil


No início de 1999, o real sofreu uma forte desvalorização. Isso significava não contar mais
com o câmbio fixo que, desde a implementação do Plano Real, em julho de 1994, atuava como
uma âncora cambial para a inflação. O forte aumento do dólar provocou pressão nos preços
internos, via aumento dos preços dos importados e de outros preços cotados na moeda americana, e
contração de importações. Em março de 1999, o governo brasileiro anunciou então a intenção de
passar a conduzir a política monetária com base nas características do regime de metas de inflação.
Os vários anos de hiperinflação levaram a um quase consenso na sociedade brasileira sobre
as vantagens da estabilidade de preços, que passou a ser considerada uma condição necessária para
o crescimento econômico. Os brasileiros aprenderam, de uma maneira dolorosa, que uma maior
inflação não gera um maior crescimento; pelo contrário, desestimula investimentos e penaliza as
camadas mais pobres da sociedade, promovendo concentração de renda.
As camadas mais ricas da população possuem instrumentos para se defender da inflação e,
frequentemente, lucram com ela por meio de aplicações no mercado financeiro. Esses
instrumentos não estão ao alcance das camadas menos favorecidas, que veem, diariamente, os
preços subirem e corroerem o seu poder aquisitivo.

Segundo estudos da Fundação Getulio Vargas, o sucesso do


Plano Real reduziu em 18% a extrema pobreza no País.

Escolha do índice da inflação para o regime de metas no Brasil


No Brasil, a meta para a inflação é definida em termos da variação anual do Índice de
Preços ao Consumidor do país (IPCA). A maioria dos países que utiliza o regime de metas adota
um índice ao consumidor, pois essa é a medida mais adequada para avaliar a evolução do poder
aquisitivo da população.
Na maioria dos países que utiliza esse regime, a meta é definida pelo Banco Central. No
Brasil, essa definição é feita pelo Conselho Monetário Nacional, composto do Ministro da
Fazenda – que preside o conselho –, do Presidente do Banco Central e do Ministro do
Planejamento.

57
Dentro do conjunto de índices de preços ao consumidor, o IPCA foi escolhido por ser o de
maior abrangência: ele mede a inflação para domicílios com renda entre um a 40 salários-
mínimos em 13 cidades ou regiões metropolitanas.
A meta definida para a inflação medida pelo índice escolhido pode ser pontual ou utilizar
um intervalo. No caso de a meta ser definida por um intervalo ou banda, existe ainda a alternativa
de haver ou não a meta central. No Brasil, foi escolhida a modalidade que utiliza uma meta
central dentro de uma banda de tolerância. Por exemplo, em 2014, a meta era de 4,5% de
inflação, com um intervalo de tolerância de 2% para cima (6,5%) e para baixo (2,5%).
Os motivos que justificam a existência desse intervalo de tolerância são os seguintes:

a) Nenhum Banco Central tem total controle sobre a variação de preços:


O que o Banco Central faz é, principalmente, mover a taxa de juros básica da economia (a
Selic, no caso brasileiro), que afeta, por vários mecanismos indiretos, a evolução dos preços. A
inflação é afetada por vários fatores que não estão sob domínio da autoridade monetária, e os
próprios mecanismos que ela utiliza possuem uma defasagem quanto à sua eficácia;

b) A existência de intervalos de tolerância permite ao Banco Central acomodar,


parcialmente, eventuais choques inflacionários:
Uma quebra severa de safra ou um aumento expressivo no preço do petróleo, decorrentes
de problemas climáticos ou crises internacionais, criariam pressões inflacionárias. Mesmo com a
pronta resposta do Banco Central ao choque, haverá um aumento da inflação no curto prazo.
Por outro lado, uma banda de tolerância muito ampla pode criar uma sensação de falta de
comprometimento com a meta. A utilização do intervalo de tolerância deve seguir um critério de
parcimônia. Caso isso não aconteça, existe o risco de o regime de metas perder a credibilidade,
deteriorando as expectativas de inflação.

c) O horizonte temporal, em regimes de metas para a inflação, é a especificação do período


em que se verificará o cumprimento da meta:
No Brasil, utilizamos o ano-calendário que vai de janeiro a dezembro.

Atuação do Banco Central na busca do cumprimento da meta


A maior parte dos bancos centrais utiliza a taxa de juros de curto prazo como instrumento
principal de política monetária. O regime brasileiro de metas de inflação utiliza a taxa Selic. A
taxa Selic é a taxa de juros média que incide sobre os financiamentos diários do mercado
interbancário (empréstimos entre bancos), com prazo de um dia útil (overnight), lastreados por
títulos públicos, no Sistema Especial de Liquidação e Custódia (Selic). Isso significa que a taxa
Selic é a taxa que equilibra o mercado de reserva bancárias.

58
O Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) estabelece, em reuniões pré-
agendadas que acontecem de seis em seis semanas, a meta para a taxa Selic. O Banco Central, se
necessário, intervém no mercado interbancário, para manter a taxa Selic diária próxima à meta.
A taxa básica de juros-Selic atua na inflação, e os principais mecanismos para isso são a
atuação:
na demanda agregada, com ênfase no consumo das famílias e em investimentos que
respondam ao custo dos créditos e financiamentos;
na taxa de câmbio, já que a entrada de capital do exterior responde ao diferencial da taxa
de juros interna e externa (o valor do dólar, por sua vez, atua sobre a inflação) e
sobre as expectativas dos agentes econômicos. Por exemplo, ao elevar a taxa de juros de
curto prazo para evitar o surgimento da inflação, o Banco Central pode restabelecer a
confiança no desempenho futuro da economia. A queda da taxa de juros durante uma
recessão pode significar que tempos melhores virão, estimulando o consumo da
população.

Quando a meta não é cumprida, o que, no caso brasileiro, significa a inflação ficar fora do
intervalo de confiança, o presidente do Banco Central publica uma carta aberta, no seu site,
dirigida ao Ministro da Fazenda, que preside o Conselho Monetário. Nessa carta, são explicitadas
as razões para o descumprimento da meta e as providências tomadas para o retorno à trajetória
que leva à meta. No Brasil, desde 1999, cartas foram escritas em 2001, 2002, 2003 e 2015, anos
em que o limite superior de tolerância foi rompido.
Em 2017, pela primeira vez desde que o Brasil adotou o regime de metas de inflação, o
IPCA registrou uma inflação abaixo do limite inferior de tolerância definido pelo Conselho
Monetário. Nesse ano, uma carta foi publicada no site do Banco Central dando as devidas
explicações à sociedade.

Papel das expectativas e autonomia do Banco Central


O regime de metas de inflação tem como objetivo central ancorar as expectativas do
mercado. A comunicação transparente da estratégia utilizada para o controle da inflação, por parte
da autoridade monetária, é um fator de suma importância para o seu sucesso. Os movimentos da
política monetária passam a ser mais previsíveis no médio prazo, atuando na formação das
expectativas de inflação. A credibilidade dessa política é essencial para que os reajustes de preços
tendam a ser próximos da meta estabelecida e divulgada.
Para que essa credibilidade ocorra, é necessário que os agentes econômicos tenham a
percepção de que o Banco Central deve ter autonomia operacional para gerenciar a política
monetária e perseguir a meta. Na esmagadora maioria dos países que utilizam o regime de metas,
a autonomia da autoridade monetária é garantida por lei. Esse não é o caso do Brasil, mas a

59
percepção da necessidade de autonomia do Banco Central nos governos Fernando Henrique
Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva foi bastante consistente. Durante o Governo Dilma Rousseff,
no entanto, a percepção de autonomia do Banco Central foi debilitada, gerando consequências
nos resultados da inflação, principalmente entre 2012 e 2015. Durante esse período, podemos
dizer que as expectativas dos agentes econômicos quanto à inflação foram desancoradas da meta
anunciada. Isso quer dizer que a meta tornou-se menos crível.
No gráfico a seguir, mostramos a evolução da inflação medida pelo IPCA e a Selic entre
2000 e 2015.

Figura 13 – Séries históricas – Taxa Selic e IPCA acumulado 12 meses

Mensuração da atividade econômica


Como avaliamos o sucesso da economia, cujo objetivo é melhorar o padrão de vida do
cidadão? Não existe uma única medida, mas tudo começa medindo a produção total da
economia: o produto interno bruto (PIB).

Produto interno bruto (PIB)


Em uma economia, são produzidos, literalmente, milhões de bens e serviços diferentes.
Necessitamos de uma medida que sintetize toda essa produção. Mas como somar sapatos, aulas de
Economia, carros, soja, sorvete, consultas médicas, etc.? Na primeira aula de Matemática da vida
de qualquer criança, ela aprende que não se somam coisas diferentes. Obtemos então essa síntese
somando o valor monetário dos bens e serviços finais produzidos.

60
O PIB é o valor monetário total de todos os bens e serviços
finais produzidos dentro das fronteiras nacionais durante
certo período – geralmente, um ano.

A tarefa de medir a produção de uma economia não é trivial, e um dos problemas é a


diferenciação entre bens e serviços intermediários e finais. Se um cidadão consome um suco de
laranja industrializado, o que entra na medida do PIB é o produto final, que é o suco.
Logicamente, ao tomar o suco, ele está consumindo a laranja, mas o valor monetário da laranja já
está incluso no valor do produto final, que é o suco industrializado. Se incluíssemos o suco e a
laranja no PIB, estaríamos contando a laranja duas vezes. Agora, se o cidadão consumir apenas
laranja, e não o suco, o que entra na medida do PIB é o valor da laranja.
Desse modo, no cálculo do PIB, serão somados os valores monetários dos bens e serviços
produzidos segundo os seus usuários finais. Se um carro é produzido, o que entra na medida do
PIB é, portanto, o valor adicionado de todos os componentes (bens e serviços) que entraram na
fabricação do carro e compõem o preço final para o consumidor.

PIB nominal e PIB real


Outro problema que surge ao medirmos a evolução do PIB de um ano para o outro é a
variação de preços. Normalmente, os bens e serviços ficam mais caros de um ano para o outro.
Cortes de cabelo, chocolates, carros e pães sobem, frequentemente, de preço de um ano para o
outro. Quando medimos o PIB, estamos medindo os bens e serviços a preços vigentes ou
correntes. O valor encontrado, nesse caso, é denominado PIB nominal.
A variação do valor do PIB nominal de um ano para o outro retrata o efeito da variação de
produção de bens e serviços, e o efeito da variação de preços. O que importa e queremos medir é a
variação de produção. Dessa forma, precisamos descontar a inflação de um período para o outro.
O resultado que obtemos ao fazer isso é o PIB real. Sempre que a mídia fala sobre o crescimento
do PIB, ela está se referindo ao PIB real, mesmo que isso não esteja explícito no comunicado.

Os economistas dizem que o PIB real é o PIB nominal


deflacionado.

Produto nacional bruto (PNB)


Como vimos, o PIB mede o valor monetário dos bens e serviços produzidos dentro do
território nacional. Sendo assim, o que uma empresa multinacional produz no Brasil é PIB
brasileiro. Por exemplo, a BMW, alemã montou uma fábrica para produzir carros em Santa
Catarina. O valor dessa produção é incluído no PIB brasileiro. Já a Vale, brasileira, possui

61
operações de mineração de níquel no Canadá. O valor da produção de níquel é contabilizado no
valor do PIB do Canadá.
Uma parcela de lucro da operação dessas multinacionais fora dos seus países de origem pode
ser enviada aos seus acionistas. A BMW pode então enviar o lucro da operação realizada no Brasil
para a Alemanha, e a Vale pode enviar o lucro resultante da operação no Canadá para o Brasil.
Nesse caso, a BMW estaria enviando um pouquinho do valor do PIB brasileiro para a Alemanha,
e a Vale estaria enviando um pouquinho do valor do PIB canadense para o Brasil.
O produto nacional bruto (PNB) leva em conta tanto a renda que foi enviada ao exterior
quanto a que foi recebida do exterior no período:

PNB = PIB – renda enviada ao exterior + renda recebida do exterior

62
MÓDULO V – CRESCIMENTO ECONÔMICO,
PRODUTIVIDADE E SUSTENTABILIDADE DAS
CONTAS PÚBLICAS

Neste módulo, abordaremos a mensuração da atividade econômica, dando destaque aos


elementos do PIB e aos principais fatores que aumentam a produtividade de um país.
Demonstraremos então que o resultado do crescimento econômico de longo prazo depende do
investimento, que sempre é financiado pela poupança. Analisaremos também o papel do governo
na implementação da política fiscal e na sustentabilidade das contas públicas no longo prazo.

Diagrama do fluxo circular de renda


O PIB de uma economia mede, simultaneamente, a sua renda total e a sua despesa total.
Na verdade, esses são dois lados de uma mesma moeda: sempre que uma pessoa compra, outra
pessoa recebe, e vice-versa. Essa equivalência fica evidente no modelo denominado diagrama do
fluxo circular de renda, que parte de duas hipóteses simplificadoras:
essa economia é fechada, isto é, não se comunica com o resto do mundo e
somente dois dos três agentes econômicos atuam nessa economia – famílias e empresas.
Isso significa que essa economia não tem governo.

As empresas dessa economia (considerando um profissional liberal, como um dentista ou


uma empresa) produzem e ofertam bens e serviços no mercado de bens e serviços. As famílias
demandam bens e serviços nesse mercado. Para produzir bens e serviços, as empresas necessitam
adquirir fatores de produção no mercado de fatores de produção. Esses fatores são trabalho,
capital e terra.
Quem fornece esses fatores de produção às empresas são as famílias. Os membros das
famílias de uma economia trabalham nas empresas em troca de salário. Os acionistas, donos e
credores investem capital nas empresas em troca de lucro ou juros. Finalmente, as famílias alugam
terra (o local onde a empresa se instala) para as empresas, em troca de aluguel. Nessa economia,
como demonstrado na figura a seguir, a moeda flui das famílias para as empresas e das empresas
para as famílias.

Figura 14 – Fluxo circular de renda

Obviamente, a realidade é mais complicada do que esse modelo mostra, pois:


as famílias poupam parte da sua renda para investimentos e gastos futuros;
parte da renda das famílias vai para o governo em forma de impostos e
o governo e as empresas compram parte dos bens e serviços.

Tudo isso não invalida, no entanto, o fato de que, em qualquer transação e qualquer que
seja o comprador ou vendedor de bens e serviços, um deles paga e o outro recebe. Podemos
afirmar então que, na economia como um todo, despesa e renda são sempre iguais.
O PIB de uma economia pode ser calculado sob a ótica da despesa ou da renda. Neste
conteúdo, para estudarmos o crescimento da economia, o PIB pela ótica da despesa será
especialmente importante.

64
PIB pela ótica da despesa
Consideraremos, agora, uma economia completa (com famílias, empresas e governo) que
transaciona com o resto do mundo. Quais são os elementos responsáveis pela compra de bens e
serviços nessa economia? Vejamos:
a) O consumo das famílias *-+:
As famílias adquirem bens e serviços para o seu consumo.

b) Os investimentos das empresas ). /01 ,:


Empresas adquirem equipamentos, máquinas, novas fábricas, estoques, etc. Além disso,
moradias novas também são incluídas no investimento privado, e não no consumo das famílias.

c) Os investimentos do governo *.2 1 +:


Todas as obras de infraestrutura adquiridas pelos governos federal, estaduais e municipais.

d) As aquisições do governo *3+:


Todas as aquisições de bens e serviços realizadas pelo governo, excluindo-se os
investimentos em infraestrutura que estão incluídos no investimento.

e) As exportações líquidas *4 – 5+:


As exportações líquidas são resultantes das exportações *4+ de bens e serviços menos as
importações *5+ de bens e serviços *4 – 5+.

Pela ótica da despesa, o PIB é, portanto, calculado por meio da seguinte fórmula:

.6 = - % . /01 % .2 1 % 3 % 4 ( 5

Uma parte dos bens e serviços que uma economia produz é demandada pelo exterior, assim
como parte do que é adquirido dentro de uma economia é ofertada pelo exterior. Se uma família
adquire um carro produzido no Brasil por R$ 60.000,00, esse valor aparecerá no item -
(consumo das famílias). Vamos supor que R$ 20.000,00 do preço desse carro seja de peças
importadas. Essa parte do valor do carro não foi produzida em território nacional e, portanto, não
faz parte do PIB do Brasil. Esses R$ 20.000,00 aparecerão então no item 5, que representa as
importações, e serão subtraídos da equação.

65
Produtividade e crescimento de longo prazo
Se compararmos o padrão de vida médio de um cidadão americano no final século XIX e de
um cidadão atual, encontraremos diferenças marcantes. Em 1900, por exemplo, a expectativa de
vida e o consumo médio do cidadão eram bem inferiores aos atuais. Muito bens e serviços
disponíveis atualmente, como celulares, computadores e internet, simplesmente não existiam.
Essa melhora de vida é consequência do crescimento econômico, ou seja, vivemos melhor porque
conseguimos produzir mais bens e serviços que nos proporcionam padrões de vida superiores e
mais conforto. O crescimento econômico deriva de um aumento de estoque de capital na
economia (máquinas e instalações), do aumento da força de trabalho e de inovações tecnológicas
que modificam e tornam mais eficientes o modo como produzimos bem e serviços.
A taxa de crescimento do produto total de uma economia é a soma de dois fatores: taxa de
aumento das horas trabalhadas e a taxa de aumento do produto por hora trabalhada.
O aumento do número de horas trabalhadas é o resultado do aumento da força de trabalho,
seja por um aumento da taxa de natalidade, por imigração ou por um aumento da jornada de
trabalho média (horas de trabalho por dia). O aumento do produto por hora de trabalho, que
chamamos de produtividade, é o mapa do tesouro para o aumento do padrão de vida.

Fontes de aumento da produtividade


Mede-se a produtividade de uma economia pela divisão entre o PIB e a população
economicamente ativa dessa economia (PEA). Chega-se assim ao valor médio da produção
por trabalhador.
Os fatores que aumentam a produtividade de uma economia são:
a) Capital físico:
Trabalhadores produzirão mais por hora trabalhada quando tiverem mais equipamentos e
melhores estruturas utilizadas na produção de bens e serviços.

b) Capital humano:
Trabalhadores produzirão mais por hora trabalhada quando possuírem mais conhecimentos
e habilidades adquiridos por meio do ensino, do treinamento e da experiência.

c) Recursos naturais:
Insumos fornecidos pela natureza como terra fértil, água e jazidas minerais. Esses recursos
podem ser renováveis, como uma floresta, ou não renováveis, como uma jazida de minério de
ferro.

66
d) Conhecimentos tecnológicos:
Melhores e mais eficientes formas de produzir bem e serviços. Um exemplo de como a
tecnologia afeta a produtividade seria a enorme revolução que as inovações desenvolvidas pela
Embrapa produziram no setor agrícola brasileiro nas décadas recentes.

Poupança e investimento
O crescimento de longo prazo de uma economia depende do aumento da produtividade.
Para que ocorra o aumento da produtividade, são necessários investimentos em:
capital físico;
capital humano e
inovações tecnológicas.

No entanto, todo investimento precisa ser financiado. Os recursos disponíveis para o


financiamento de investimentos são a poupança.
Geralmente, quando falamos em poupança, pensamos na caderneta de poupança. Em um
curso de Economia, a poupança refere-se, normalmente, ao que sobra da renda de uma família
após os seus gastos com consumo e pagamento de impostos. Eventualmente, essa família pode
aplicar a sua poupança na caderneta de poupança, mas ela tem diversas outras opções.
Imaginemos uma médica que possui um consultório próprio. Ela obtém, mensalmente, uma
renda média bruta de R$ 30.000,00 por meio das suas consultas. A médica despende R$ 15.000,00
por mês em consumo. Os impostos pagos ao governo consomem outros R$ 5.000,00. O valor
restante (R$ 10.000,00) é a sua poupança.
Imaginemos que essa médica queira ampliar a sua renda investindo em um aparelho de raio-X
que lhe permitirá prestar outros serviços além das consultas. Ela usa os R$ 10.000,00 que poupou
para dar entrada no aparelho. Nesse caso, ela financiará o seu investimento com a sua própria
poupança, ou seja, será, ao mesmo tempo, o investidor e o poupador. Uma boa parcela dos
investimentos das empresas é financiada pelos próprios sócios que reinvestem parte dos lucros.
Imaginemos, agora, que essa mesma médica não esteja interessada em comprar o aparelho,
mas decida aplicar a sua poupança comprando ações no lançamento de uma companhia aérea (os
famosos IPOs – initial public offerings). Nesse caso, a poupança da médica estará financiando o
crescimento da produção da companhia aérea lançadora das ações. Ao comprar essas ações, ela
passará a ser sócia da empresa.
Outro modo de financiar uma empresa é por meio da compra de títulos emitidos por essa
empresa. Nesse caso, a médica do nosso exemplo estaria emprestando a sua poupança à empresa, e
não virando sócia. Ao comprar títulos, ela passaria então a ser credora da empresa.
Uma terceira hipótese seria a nossa médica aplicar os R$ 10.000,00 em um Certificado de
Depósito Bancário (CDB) de um banco. O CDB é um título emitido por um banco. Nesse caso,

67
a médica estaria emprestando dinheiro ao banco, que poderia, por sua vez, utilizar esse dinheiro
para financiar o investimento de uma empresa.
O mercado financeiro, com as suas diversas modalidades, faz o meio-campo entre
poupadores e investidores em uma economia. É um mercado em que o produto que está sendo
negociado é a moeda, os ofertantes são os poupadores na economia e os demandantes são os que
buscam crédito ou financiamento para investimentos em capacidade produtiva. Nesse mercado, o
preço que se forma são os juros, cobrados em todas as modalidades de financiamento.

Fontes de poupança e papel do governo


A poupança disponível para financiar o investimento de uma economia tem três origens:
poupança do setor privado da economia – as famílias que consomem e pagam impostos
em um valor inferior ao da sua renda;
poupança externa – uma pessoa residente no exterior pode entrar com capital no país
com a finalidade de montar ou comprar uma empresa (investimento direto), ou investir
em títulos ou ações (investimento de portfólio) e
poupança do governo – o governo pode gastar menos do que arrecada e também
financiar o investimento.

Via de regra, os governos gastam mais do arrecadam e necessitam financiar esse déficit,
denominado déficit fiscal. Para isso, lançam no mercado financeiro os títulos da dívida pública.
A médica do nosso exemplo anterior pode comprar títulos públicos com a sua poupança,
tornando-se credora do governo. No entanto, se ela decidir pelos títulos públicos, a sua
poupança não estará mais disponível para financiar empresas do setor privado. Isso quer dizer
que o governo está, constantemente, disputando a poupança disponível com o setor privado e
ele tem uma vantagem nessa disputa: é comum a percepção de que financiar o governo é mais
seguro que financiar uma empresa.
Se o governo tiver uma necessidade de financiamento do seu déficit que consuma a maior
parte da poupança disponível, restará bem menos volume de recursos para financiar as empresas.
Essa escassez de capital se refletirá em juros mais altos para o setor privado, que investirá pouco.
Isso prejudicará o crescimento de longo prazo do país, principalmente se o déficit do governo
tiver como origem gastos de custeio, e não investimentos.
Quando o governo impede o investimento do setor privado, consumindo a maior parte da
poupança disponível, diz-se que ele está expulsando o setor privado. O termo usado para
expressão essa situação é crowding out (expulsando, em inglês).

68
Política fiscal e sustentabilidade das contas públicas
Como vimos, quando o governo gasta mais do que arrecada, ele necessita financiar essa
diferença, denominada déficit fiscal. Uma maneira perversa de o governo financiar o seu déficit é
por meio da emissão de moeda. O Banco Central emite moeda para financiar o governo e, nessa
situação, dizemos que ele é fiscalmente dominado. Esse fato fará com que haja mais dinheiro em
circulação e, portanto, a demanda agregada se elevará continuamente, causando um aumento no
nível de preços (inflação).
O outro modo de o governo financiar seu déficit é pedir emprestado por meio da venda de
títulos públicos no mercado financeiro. Se o governo brasileiro lançar títulos no mercado
mundial, em moeda estrangeira (principalmente, dólares), ele captará dólares e ficará devendo em
dólares. Esses títulos fazem parte da dívida externa do País. Existe também a possibilidade de
lançamento de títulos em reais. Nesse caso, o governo captará reais e ficará devendo em reais.
Esses títulos compõem a dívida interna do País.

A dívida pública é resultante da soma entre a dívida externa


e a dívida interna.

Normalmente, os governos têm déficits anuais e ofertam títulos no mercado financeiro para
financiá-los, formando a dívida pública. Geralmente, o estoque de títulos devidos cresce em valor
no tempo. Os investidores externos ou internos que adquirem os títulos públicos estão sempre
atentos à sustentabilidade dessa dívida. Isso quer dizer que os investidores estão atentos à
possibilidade de essa dívida tornar-se impagável e de eles levarem um calote.
í10 8 %
9:;
O principal indicador de solvência da dívida pública é a relação , em que o
numerador é o valor de todos os títulos do país a pagar no futuro, e o denominador é o PIB, que é
o valor da renda produzida pelo país anualmente.
Quando falamos de qualquer conta pública, o que importa não é o seu valor monetário, mas
o quanto ela representa em percentual do PIB. Suponhamos que um indivíduo deva R$ 30.000,00.
Não é possível analisar a sua situação financeira somente com essa informação. Para sabermos se há
o risco de ele não conseguir pagar essa dívida, precisamos saber, por exemplo, qual é a sua renda
mensal. Se a sua renda mensal for de R$ 50.000,00, a dívida será paga facilmente; se, por outro
lado, a sua renda for de R$ 1.500,00 por mês, a chance de tornar-se inadimplente é altíssima.
O crescimento da dívida pública não é o problema. O problema existe quando essa dívida
começa a crescer em um ritmo bem maior que o PIB, entrando no que os economistas chamam
de trajetória explosiva, que pode levar ao calote. Essa trajetória fará com que, cada vez que o país
precise colocar novos títulos no mercado para se financiar, menos investidores (externos e
internos) queiram correr o risco. Isso significa que o país terá de pagar juros mais altos para atrair
capital e também que os seus títulos precisarão ter prazos mais curtos para serem aceitos. Juros

69
mais altos farão a dívida crescer ainda mais, acelerando a deterioração financeira do país, em um
processo que se realimenta.
O pequeno poupador compra títulos públicos, financiando o governo, quando realiza, por
exemplo, aplicações em fundos de renda fixa. O regulamento desses fundos – o qual o poupador,
normalmente, não lê – diz, explicitamente, que a maior parte do dinheiro aplicado ali tem como
destino a compra de títulos públicos, ou seja, será emprestada ao governo. Outro caminho para o
pequeno poupador comprar títulos públicos é o Tesouro Direto. Nesse caso, o cidadão compra
ou vende títulos pela internet, negociando diretamente com o Tesouro Nacional (a instituição
que lida com o dinheiro do Governo Federal ou, simplesmente, o caixa do governo). Dessa
forma, todo pequeno poupador deveria estar bastante interessado na solvência do setor público,
í10 8 %
9:;
isto é, na trajetória da relação , ao longo do tempo.

Agências de risco e grau de investimento


Os investidores que adquirem títulos da dívida de países (denominados títulos soberanos)
ou títulos de dívidas de empresas buscam orientação para conhecer o risco que estão correndo.
Um sinalizador importante é a avaliação feita pelas agências de risco ou empresas de rating. Essas
agências têm a função básica de atribuir notas que determinam em que classe de risco o país ou a
empresa se encontra. Para tanto, analisam a situação dos países ou das empresas, verificando a
confiança que possuem no compromisso de pagar as suas dívidas no prazo acordado.
As agências mais famosas e respeitadas nessa área são: Moody’s, Fitch Ratings e Standard &
Poor’s. Cada uma dessas agências de rating possui seu próprio método de avaliação e classificação de
notas, de acordo com o resultado da apuração financeira do país ou da empresa. Essas avaliações são
realizadas principalmente em bancos, grandes empresas e países. Nos dois primeiros, são estipulas
notas para as emissões de dívidas da empresa, que é quando uma empresa precisa de dinheiro e
emite títulos de dívidas (debêntures) a fim de arrecadar esse dinheiro. As empresas de rating ou
agências de risco calculam então qual é o risco de um comprador desse título receber o pagamento
no final do prazo acordado com os juros estabelecidos na emissão da dívida. Já para países, a
classificação é realizada para mensurar qual o risco de um país não honrar os seus pagamentos de
títulos lançados nos mercados interno e externo. Nesse caso, o principal indicador examinado é a
í10 8 %
9:;
trajetória da relação , que sinaliza a qualidade de solvência do país.
As notas se dividem em dois grupos:
grau de investimento – sinalizando os títulos mais seguros e
grau especulativo – indicando o grupo de títulos que representa maior risco. Dentro de
cada grupo, as notas mais altas representam menor risco.

70
A tabela a seguir mostra as notas de risco concedidas pelas três principais agências. A linha
pontilhada que aparece na tabela separa as notas inferiores, consideradas grau especulativo, das
notas superiores, consideradas grau de investimento.

Tabela 4 – Notas de risco

escala de longo prazo


risco
Fitch Moody’s S&P

AAA Aaa AAA melhor avaliação/menor risco

AA+ Aa1 AA+

AA Aa2 AA avaliação alta/risco baixo

AA- Aa3 AA-

A+ A1 A+

A A2 A avaliação ótima/risco médio-baixo

A- A3 A-

BBB+ Baa1 BBB+

BBB Baa2 BBB avaliação média/risco médio

BBB- Baa3 BBB-

BB+ Ba1 BB+ avaliação baixa/risco médio-alto

BB Ba2 BB
avaliação bem baixa/cap. especulativo
BB- Ba3 BB-

B+ B1 B+

B B2 B avaliação muito baixa/altamente especulativo

B- B3 B-

Caa1 CCC+
avaliação extremamente baixa/altamente
Caa2 CCC
especulativo
CCC Caa3 CCC-

CC
Ca mais baixa avaliação/altamente especulativo
C

DDD C D falência

Depois de ter ascendido, em 2008, ao grupo com grau de investimento, o descontrole das
contas públicas brasileiras, ocorrido a partir de 2013, fez com que, em 2015, as três principais
agências rebaixassem a nota do Brasil para a segunda nota mais alta do grupo especulativo.

71
Ao perder o grau de investimento, o país deixa de receber os investimentos dos grandes
fundos de pensão do mundo, cujos estatutos proíbem aplicar em países que não possuem grau de
investimento. A menor oferta de dinheiro obriga então o país a pagar juros mais altos e a
comprometer-se com prazos mais curtos para a quitação dos títulos. O custo mais alto para
financiar a sua dívida deteriora, cada vez mais, a condição financeira do país, em um processo
perverso que se realimenta.
í10 8 %
9:;
O gráfico a seguir mostra a evolução da bruta do País. A deterioração da dívida e as
projeções de piora desse indicador estão no centro da perda de credibilidade e da profunda crise
econômica vivida pelo País a partir de 2014. Os valores dos anos de 2019 e 2020 são projeções
realizadas em 2018.

Figura 15 – Brasil: Evolução da dívida bruta %/PIB

72
MÓDULO VI – INSTRUMENTOS DE POLÍTICA
MONETÁRIA E SPREAD BANCÁRIO

Neste módulo, apresentaremos um pequeno histórico das contas brasileiras a partir do


Plano Real. Retornamos então à política monetária, para descrever as funções da moeda e detalhar
os três instrumentos utilizados pelo Banco Central para injetar ou retirar moeda do mercado
financeiro. Abordaremos também o conceito de spread, que, no Brasil, reflete o alto custo para
empreender. Por fim, apresentaremos uma modalidade de instituição financeira que vem
crescendo no Brasil: as cooperativas de crédito.

Breve histórico das contas públicas brasileiras


Toda vez que o total de gastos do setor público supera a arrecadação tributária, dizemos que
o governo possui um déficit no seu orçamento. A dívida pública (externa + interna) se forma a
partir do financiamento dos déficits públicos anuais. É como uma pessoa que todo mês gasta mais
do que arrecada e vai financiando essa diferença tomando empréstimos, formando então uma
dívida. Essa pessoa se tornará insolvente se o crescimento dessa dívida superar o crescimento da
sua renda. No caso de um país, a sua solvência se deteriora se, para financiar o seu déficit anual, o
país se endividar em um ritmo que supere o crescimento do PIB.
O problema que leva à eventual insolvência de uma nação, como ocorreu recentemente
com a Grécia, não é a existência de um déficit, mas o tamanho excessivo do rombo que
impulsiona o crescimento da dívida em um ritmo incompatível com o crescimento da riqueza
produzida pelo país: o PIB.
Antes de adotarem a moeda comum, os países da Zona do Euro assinaram um acordo
segundo o qual cada participante teria um déficit anual no orçamento de, no máximo, 3% do
í10 8 %
9:;
PIB. A obediência desse limite garantiria a estabilidade da relação de cada participante.
Quando a Grécia, após a crise de 2008, tornou-se insolvente, verificou-se que o seu déficit fiscal
desse país em uma trajetória explosiva.
í10 8 %
9:;
superava 13% do PIB, o que colocou a relação
Dois conceitos diferentes de déficit são utilizados quando tratamos do resultado das contas
públicas: o resultado fiscal nominal e o resultado fiscal primário. Vejamos:

a) Resultado nominal:
A receita anual do governo (o que ele tem para gastar) é a arrecadação tributária, que
chamaremos de <. As despesas do governo são: os investimentos do governo (.2 1 ), os gastos de
custeio e os gastos financeiros do governo (3), e os juros sobre a dívida pública (=). O resultado
nominal das contas públicas compara a arrecadação com todas as despesas1. Dessa forma, temos:

< ( *.2 1 % 3 % =+

b) Resultado primário:
O resultado primário das contas públicas compara a arrecadação com todas as despesas,
exceto os gastos financeiros (=). Desse modo, temos:

< ( *.2 1 % 3+

Durante o primeiro Governo FHC (1995-1998), as contas públicas apresentaram déficit


primário. Isso significa que, mesmo antes de pagar os juros sobre a sua dívida, o governo já tinha
í10 8 %
9:;
necessidade de se financiar. Esse fato fez com que a relação se deteriorasse rapidamente,
minando a credibilidade do País junto aos investidores.
Em 1998, durante a crise da Rússia, as reservas brasileiras de dólar chegaram a um ponto
criticamente baixo, e o País precisou recorrer ao Fundo Monetário Internacional (FMI). O Brasil
obteve, na ocasião, um empréstimo de US$ 40 bilhões, e o Fundo exigiu como contrapartida um
ajuste fiscal: o governo brasileiro deveria apresentar um superávit primário anual de 3,75% do
í10 8 %
9:;
PIB nas suas contas, com a finalidade de reverter a tendência de crescimento da relação e
recuperar a credibilidade do País.
Esse ajuste foi realizado por meio do corte de gastos, de algumas privatizações e,
principalmente, do aumento de impostos. Essas medidas de austeridade fiscal prosseguiram no
primeiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva. A consequente e expressiva queda da relação

1
É importante observarmos que, quando falamos das contas de um país, estamo-nos referindo às contas consolidadas
de todas as esferas governamentais: federal, estadual e municipal.

74
í10 8 %
9:;
aumentou a credibilidade do País, que recebeu o grau de investimentos das principais
agências de risco em 2008.
Em 2014, o Brasil voltou a apresentar déficits primários, e as agências de risco retiraram o
grau de investimento do País, levando à necessidade de medidas de austeridade e reformas para,
novamente, controlar o crescimento explosivo da dívida.
Em 2017, no governo de Michel Temer, foi aprovada a PEC (Proposta de Emenda da
Constituição) do Teto de Gastos, cuja intenção é fazer com que o País volte a apresentar
superávits primários a partir do início da próxima década e retome a credibilidade junto a
investidores.
Para melhor entendermos as consequências do endividamento descontrolado de um país,
veremos, a seguir, o caso da crise grega.

Case: A crise grega


Em 2009, quando a profunda crise econômica grega eclodiu, muitas vozes de intelectuais se
levantaram buscando culpados externos, como a União Europeia e o FMI, pelo sofrimento dos
cidadãos daquele país. A Grécia passou a, basicamente, ser vista como vítima por diversas
correntes. No entanto, foram os próprios gregos que trilharam, com determinação, o caminho
para essa difícil situação em que se encontram. E essa caminhada rumo ao abismo começou há
algumas décadas atrás.
Entre 1929 a 1980, a Grécia viveu um período político extremamente conturbado, com
golpes de estado, ditadores de direita e esquerda que governaram por curto prazo e um impacto
severo da Segunda Guerra Mundial. Contudo, mesmo com todo esse quadro adverso, o PIB
grego se expandiu nesse período a uma espantosa média anual de 5,2%, superando inclusive a
média japonesa nos mesmos anos, que foi de 4,9%.
Em 1981, a Grécia foi aceita na União Europeia (European Community – EC) e, no mesmo
ano, subiu ao poder o partido socialista Pasok, que pregava, entre outras coisas, a saída do país da
União Europeia (o que não ocorreu de fato). Com o novo governo, o ambiente econômico grego
mudou rapidamente, e a triste situação de 2009 tem as suas raízes nessa guinada.
A política econômica do partido no poder criou um estado de bem-estar social (welfare state)
inflado e ineficiente, com excesso de regulação e intervenção restritiva no setor privado. Visando ao
apoio eleitoral, essas políticas foram imitadas pelo partido mais conservador (Nova Democracia),
que tem-se alternado no poder com outros partidos que também atuam na mesma linha.
Essa disputa pelo voto criou um ambiente em que o dinheiro público passou a ser usado
para comprar apoio político de setores poderosos e para promover programas de bem-estar de
cunho populista, acompanhados de uma estatização predatória da economia.
Desde 1974, mesmo antes de o Pasok chegar ao poder, partidos ditos mais conservadores
haviam nacionalizado bancos e corporações, subsidiado empresas e expandido os programas de

75
bem-estar social. Depois de 1981, o governo levou essa política ao extremo, e a intervenção do
Estado na economia, sem levar em conta a meritocracia, virou regra na economia grega.
O aumento dos gastos em programas de bem-estar social angariava apoio político e votos,
enquanto subsídios a setores escolhidos asseguravam o apoio dos mais poderosos. Qualquer
político que não seguisse essa cartilha, simplesmente não era eleito.
A pergunta que não quer calar é: de onde veio o dinheiro para financiar essa gastança, com
o agravante de que a Grécia tem uma das maiores taxas de evasão de impostos do planeta? A
resposta é: o país recebeu transferências da União Europeia e endividou-se a juros baixos,
principalmente junto aos seus pares da Zona do Euro. Essa política populista e irresponsável
prosseguiu até 2009, quando a crise internacional interrompeu o fluxo de empréstimos baratos
para a Grécia e a realidade chegou: o país estava quebrado. Mais cedo ou mais tarde, a realidade
sempre chega!
Ao contrário de uma família que, quando se endivida, sabe que quem pagará é ela e
programa-se para isso, os políticos no poder pedem emprestado em nome da população (a dívida
pública é da população). Beneficiam-se assim dos votos e do apoio político angariados com os
gastos públicos sabendo que, quando essa dívida tiver de ser paga (ou não puder ser paga, por ser
grande demais, levando à bancarrota do país), eles não estarão mais no governo. O cidadão que
está recebendo os benefícios acha que é o governo quem o paga, sem se dar conta de que o
dinheiro sai do seu bolso (ou do bolso de outro cidadão), por meio dos impostos pagos.
O ponto crítico no caso grego é que o dinheiro tomado emprestado por três décadas foi
usado para financiar o consumo, e não o investimento, a infraestrutura e o desenvolvimento
econômico. Esse subsídio ao consumo dos gregos iludiu a população, que achava que esse bem-
estar, financiado com o dinheiro dos outros, duraria para sempre. A renda média dos gregos
(obtida, principalmente, por transferências do governo) chegou a subir mais que a dos seus pares
da Zona do Euro. No entanto, a dívida grega também subia muito mais rápido. Isso acontecia
porque a renda do povo grego tinha origem, na sua maior parte, em dinheiro emprestado, e não
na produção.
O retrato que emergiu dessas últimas décadas de populismo na economia grega não é
bonito. A Grécia exibe a maior ineficiência, a maior burocratização e o mais alto
intervencionismo estatal da Zona do Euro. Essas características levaram ao aumento intolerável da
corrupção. Tudo isso deságua no maior nível de economia informal da região.
Ensinaram ao cidadão grego a considerar todos os benefícios e transferências recebidas do
governo como seus direitos sociais. O cidadão não se pergunta de onde vem o dinheiro que
financia esses direitos. Em 2012, o governo grego gastava € 10.600,00 por cidadão em benefícios
sociais, mas só tinha receitas de € 8.300,00 por cidadão em impostos, o que significa € 2.300,00
de déficit por pessoa. Esse rombo foi então coberto com o endividamento.
Os funcionários públicos (a Grécia exibe o maior percentual sobre a população de
funcionários públicos da Zona do Euro) receberam aumentos generosos, acima da inflação, de

76
1996 a 2009. Após trabalharem por 35 anos, esses funcionários tinham o direito de aposentar-se
aos 58 anos. Se fossem mulheres, mais cedo ainda. O alemão se aposenta aos 67 anos (funcionário
público ou não), e, atualmente, a Alemanha estuda ampliar essa idade de aposentadoria para 69
anos em 2040.
Apesar dos imensos gastos sociais, o ensino gratuito grego é de péssima qualidade, e as
famílias têm de gastar em ensino privado se quiserem dar uma educação razoável aos filhos. A
mesma coisa ocorre com a saúde.
Com a crise de 2009, no auge da crise internacional, o dinheiro fácil e barato sumiu. Os
gregos se viram falidos, tendo de recorrer ao FMI e à União Europeia para sobreviver. Essa ajuda,
obviamente, veio junto com exigências duras de mudança na condução da economia do país. As
exigências necessárias de cortes nessa abundância de gastos públicos são politicamente muito
difíceis e dolorosas. As aposentadorias já concedidas tiveram de ser reduzidas, e a nova geração
grega está desempregada, pagando pelos excessos dos seus pais e avós.

De volta à política monetária


No módulo IV, vimos como funciona o regime de metas de inflação e a atuação do Banco
Central, que, ao perseguir a meta estabelecida, define a taxa básica de juros (Selic) nas reuniões
periódicas do Comitê de Política Monetária (Copom). No entanto, o Banco Central possui
outros instrumentos para intervir no mercado financeiro e na oferta de moeda na economia.
Analisaremos, a seguir, esses instrumentos.

Moeda
Quando uma pessoa vai a uma loja e compra uma bolsa de couro, ela obtém algo de valor.
Para pagar por esse produto, essa pessoa pode dar ao dono da loja vários pedaços de papel
decorados com símbolos, prédios do governo, retratos de pessoas famosas já falecidas, ou mesmo
animais. A pessoa também pode entregar um pedaço de papel com o nome de um banco e a sua
assinatura, ou, por meio de um cartão de plástico, transferir um número para a conta da loja. O
proprietário da loja fica feliz por receber esses papéis ou números em troca do seu produto. Essa
aceitação vem da confiança de que, futuramente, uma terceira pessoa aceite os papéis ou números
em troca de algo que tem valor para ele.
O uso social da moeda nas transações é extremamente útil em sociedades grandes e
complexas. Imagine, por um instante, que não existisse qualquer item na economia que fosse
aceito amplamente em troca de bens e serviços. Para comprar uma bolsa, a pessoa deveria então
oferecer à loja algo em troca, como uma aula de Matemática. E se o dono da loja não estivesse
interessado em aprender Matemática? Não haveria negócio. Essa seria uma economia que
dependeria do escambo e teria enormes dificuldades para alocar eficientemente os seus recursos

77
escassos. Exatamente pelo fato de o valor do dinheiro estar associado à confiança que as pessoas
têm nele – e não aos valores intrínsecos, como é o caso de metais preciosos como o ouro – é que
se diz que o sistema financeiro é composto de moeda fiduciária (fé).

Funções da moeda
A moeda exerce quatro funções essenciais:
meio de troca;
unidade de conta ou padrão de referência;
reserva de valor e
liquidez.

Vejamos cada uma dessas funções com mais detalhes:


a) Meio de troca:
É aquilo que os compradores dão aos vendedores em troca de bens e serviço.

b) Unidade de conta ou padrão de referência:


São instrumentos que as pessoas usam para anunciar preços e registrar débitos. Quando
vai às compras, você pode observar que uma camisa custa R$ 150,00 e um hambúrguer custa
R$ 15,00. Mesmo sabendo que é exato dizer que uma camisa custa 10 hambúrgueres, você
também sabe que os preços nunca são cotados desse modo. Da mesma forma, quando você
toma um empréstimo no banco, o montante das suas prestações futuras será medido em reais, e
não em quantidade de bens e serviços.

c) Reserva de valor:
É aquilo que as pessoas podem usar para transferir poder aquisitivo do presente para o
futuro. Quando aceita moeda hoje, em troca de um bem ou serviço, o vendedor pode guardar o
dinheiro e tornar-se comprador de outro bem ou serviço mais adiante.
Obviamente, a moeda não é a única reserva de valor da economia. Uma pessoa também
pode transferir poder aquisitivo do presente para o futuro guardando títulos, ações, objetos de
arte, etc.

d) Liquidez:
É um termo utilizado para descrever a facilidade com que um ativo pode ser convertido no
meio de troca da economia. Como a moeda é o meio de troca da economia, ela é o mais líquido
dos ativos disponíveis. Outros ativos variam amplamente quanto à liquidez. Muitos títulos e ações
podem ser vendidos rapidamente, com pequeno custo, de modo que são ativos relativamente
líquidos. Já a venda de uma casa, um quadro ou uma joia exige mais tempo e esforço.

78
A moeda é o ativo mais líquido, mas é uma reserva de valor
imperfeita.

Quando os preços sobem, o valor da moeda cai. Essa relação entre o nível de preços e o
valor da moeda é importante para entender como a moeda afeta a economia. A inflação
descontrolada destrói o valor da moeda, pois impede que esta cumpra as suas funções.
Durante o período de hiperinflação ocorrido no País, pudemos observar alguns fatos:
qualquer cidadão que guardasse moeda na sua conta-corrente ou carteira corria o risco
de, em pouco tempo, não conseguir comprar mais nada. A moeda perdia, rapidamente,
a capacidade de transferir consumo no tempo (ser reserva de valor);
para se ter noção do que se gastava em uma compra mensal de supermercado, era
necessário “dolarizar” o dispêndio. A moeda nacional se desvalorizava tão rapidamente
que não conseguia mais ser referência de valor (unidade de conta);
a moeda, em geral, perde credibilidade e pode ser rejeitada como meio de troca nos
processos agudos de inflação. No caso brasileiro, como havia as aplicações no overnight,
que corrigiam monetariamente o dinheiro, a moeda não foi rejeitada. A população mais
pobre, que não tinha acesso a esse tipo de aplicação, tinha como única defesa contra a
desvalorização acelerada fazer assuas compras de supermercado imediatamente após
receber o seu salário e
o Banco Central é o guardião da moeda, isso significa que ele deve manter a moeda do
país capaz de cumprir as suas funções.

Política monetária
A seguir, veremos os instrumentos de controle da oferta de moeda na economia, ou seja,
veremos como se dá a política monetária.

Redesconto
Diariamente, as instituições financeiras emprestam reservas entre si no mercado interbancário.
Se, por acaso, algum banco não conseguir se financiar com os seus pares, ele recorrerá ao Banco
Central para realizar uma operação de antecipação de títulos públicos de propriedade do banco. O
Banco Central cobrará então uma taxa de juros por essa antecipação: a chamada taxa de redesconto.
O Banco Central atua, portanto, como emprestador de última instância.

79
Depósito compulsório
Os bancos comerciais mantêm reservas fracionárias. Isso significa que, a cada depósito dos
seus correntistas, os bancos deixam como reserva um percentual, utilizando o restante na oferta de
crédito na economia. Os bancos podem fazer isso porque enquanto alguns correntistas estão
fazendo retiradas, outros estão realizando depósitos. As instituições utilizam então os depósitos
destes para honrar as retiradas daqueles.
Essas operações fazem surgir recursos nas contas desses tomadores de crédito, “criando
moeda”. As instituições nas quais esses tomadores de crédito têm conta, novamente, vão manter
como reserva uma fração desses recursos e emprestar o restante, o que gera um processo em
cadeia. Esse aumento de quantidade de moeda (escritural) em circulação se chama multiplicador
bancário. Para controlar a quantidade de moeda “criada” nesse processo, cabe ao Banco Central
determinar qual o percentual que os bancos devem deixar como reserva. Esse percentual se chama
depósito compulsório.
Durante um processo de aceleração da inflação, o Banco Central pode, além de aumentar a
taxa básica de juros da economia, aumentar o percentual de depósito compulsório, restringindo a
oferta de crédito pelo sistema financeiro. Isso aumentaria os juros nas diversas modalidades de
financiamento, restringindo a demanda agregada e, consequentemente, ajudando no controle da
inflação. Por outro lado, em um processo de recessão e aumento de desemprego, o Banco Central
pode, além de baixar a taxa básica de juros da economia, diminuir o percentual do depósito
compulsório, ampliando e barateando a oferta de crédito, e impulsionando a demanda agregada.

Operações de mercado aberto (open market)


Ao determinar a taxa de juros básica da economia (a Selic, no caso brasileiro), o Banco
Central está fornecendo uma referência para a taxa de juros utilizada pelas instituições financeiras
para se financiarem no mercado interbancário. O Banco Central atua nesse mercado de modo que
a taxa utilizada pelos bancos nos empréstimos entre si mantenha-se bem próxima ao valor da Selic
definido pelo Copom. Para isso, a autoridade monetária utiliza as operações de mercado aberto
(operações de open market).
Nesse caso, o Banco Central realiza leilões de compra e venda de títulos públicos, injetando
ou retirando dinheiro do mercado interbancário. A mesa de open market monitora, diariamente, o
mercado interbancário. Se a taxa de juros desse mercado começar a subir acima da Selic, isso
sinaliza para a mesa que falta liquidez no mercado, ou seja, o volume demandado de moeda está
maior que o volume ofertado. A mesa realiza então um leilão de recompra de títulos públicos em
poder dos bancos, injetando moeda no mercado e fazendo com que os juros do interbancário
baixem até o valor da Selic, quando o leilão é interrompido. Se, ao contrário, a mesa verifica que
os juros do interbancário estão caindo abaixo da Selic, isso sinaliza para os operadores que está
havendo um excesso de liquidez no mercado, ou seja, o volume de oferta de moeda está

80
superando a demanda, puxando os juros para baixo. A mesa de open market realiza então um
leilão de oferta de títulos públicos, retirando moeda do mercado, até que os juros do interbancário
fiquem, novamente, próximos do valor da Selic.

Corridas bancárias
Os bancos trabalham com reservas fracionárias. Isso significa que nenhum banco suportaria
que a maioria dos seus correntistas resolvesse retirar os seus depósitos simultaneamente. Se um
boato maldoso espalhasse a notícia de que algum banco está insolvente, isso poderia levar a
instituição, mesmo saudável, à falência. É o que chamamos de boato autorrealizável. Se essa
corrida se tornasse generalizada, a oferta de moeda na economia encolheria rapidamente, já que o
multiplicador bancário deixaria de funcionar.
Em 1933, após diversas corridas bancárias ocorridas durante a Grande Depressão, o
governo americano criou o Federal Deposit Insurence Corporation (FDIC), um fundo que garante
aos correntistas os seus depósitos até determinado valor (atualmente, US$ 250.000,00). No
Brasil, temos o Fundo Garantidor de Crédito, que garante os depósitos em conta-corrente,
caderneta de poupança, certificados de depósitos bancários, letras de crédito imobiliárias e letras
de crédito agrárias em um montante, atualmente, de R$ 250.000,00 por CPF.
Como os depósitos têm garantia até esse valor, a probabilidade de ocorrerem corridas
bancárias originárias de boatos diminui.

Spread bancário
Spread é um termo, em inglês, que significa diferença. Spread bancário é a diferença entre a
remuneração que o banco paga ao aplicador para captar um recurso e o quanto esse banco cobra
para emprestar o mesmo dinheiro. O cliente que deposita dinheiro no banco, na poupança ou em
outra aplicação, está, de fato, fazendo um empréstimo ao banco.
O spread bancário refere-se à diferença entre a remuneração obtida por um investidor que
aplica o seu dinheiro em um banco – comprando, por exemplo, um CDB – e o quanto o banco
cobra nas diversas modalidades de crédito que disponibiliza para financiamento de empresas e
pessoas físicas.
O spread bancário brasileiro situa-se entre os maiores do mundo. Por conta do alto custo
financeiro, o pequeno e o médio empresário têm muita dificuldade de viabilizar algum projeto.
Esse é, certamente, um importante fator que dificulta o desenvolvimento econômico do País.

81
Mas porque que o spread bancário é tão grande no Brasil? Vejamos algumas fontes de spread
bancário existentes no País:
os bancos cobram um diferencial de juros para cobrir os seus custos administrativos;
o Banco Central retém um percentual das reservas dos bancos, não deixando que eles
utilizem essa parte retida para conceder crédito. Esse percentual se chama depósito
compulsório. No Brasil, esse percentual costuma ser bem mais alto do que na maioria
dos países. Para compensar a parte que fica retida no Banco Central, os bancos
aumentam os juros sobre a parte que podem utilizar para conceder crédito;
os impostos diretos são altos;
os bancos têm risco nos empréstimos que concedem. Para gerenciar esse risco, eles
monitoram a inadimplência e, quando essa inadimplência sobe, eles aumentam a taxa de
juros cobrada nos seus financiamentos. Desse modo, os devedores que estão honrando os
seus compromissos com o banco compensam as perdas com os caloteiros.
a concentração bancária no Brasil é muito grande. Existe muito pouca concorrência no
mercado e, como vimos, a pouca concorrência prejudica o consumidor, que, no caso, é o
tomador de empréstimo e
o fato de o governo ser um grande tomador de empréstimo (o déficit público é muito
grande) faz com que ele dispute a disponibilidade de crédito no país com o setor
privado, pressionando o custo de financiamento das empresas e pessoas físicas.

Importante!

A questão do risco do banco é sempre um fator muito importante para os juros cobrados nos
financiamentos. Os juros de um financiamento de um carro, por exemplo, costumam ser mais
baixos porque o banco tem uma garantia real. Se o tomador do empréstimo não honrar as
prestações, o banco pode retomar o veículo. Já no financiamento do cartão de crédito, o banco
não tem nenhuma garantia. Se o cliente resolver não pagar a dívida, tudo que o banco pode
fazer é enviar o nome e CPF desse cliente para cadastros de maus pagadores, como o Serasa ou
o SPC. É exatamente por esse motivo que os juros de financiamento pelo cartão de crédito são
os mais altos do sistema financeiro.

Cooperativas de crédito
Uma cooperativa é uma associação de pessoas que se unem voluntariamente e tornam-se
sócias, passando a fazer as suas movimentações financeiras por meio dessa associação, e não mais
junto aos bancos tradicionais. Esses sócios passam a ser donos da cooperativa, juntamente com
centenas ou milhares de outras pessoas. Na maioria das instituições financeiras cooperativas

82
existentes no País, o capital social exigido para ingressar como sócio é bastante baixo, cerca de R$
100,00. Esse capital pode ser resgatado quando e se a pessoa decidir sair da cooperativa.
As cooperativas não têm fins lucrativos, o que significa que, normalmente, os seus preços
são mais acessíveis e competitivos que os dos bancos tradicionais. Além disso, todos os anos, após
apuradas as sobras do exercício, as cooperativas convocam os seus sócios para comparecer a uma
assembleia geral. Nesse momento, é decidida a destinação a ser dada às sobras financeiras.
Costumeiramente, a maior parte das sobras é devolvida aos sócios, na proporção da
movimentação que cada um realizou durante aquele exercício. Desse modo, são valorizados os
mais fidelizados, que realizam as suas operações com a cooperativa.
Uma pesquisa do Banco Central do Brasil realizada há poucos anos apontou que 42% dos
sócios de cooperativas são 100% fidelizados, ou seja, não possuem movimentação em nenhuma
outra instituição financeira. Isso comprova que as cooperativas oferecem todos os produtos e
serviços dos bancos tradicionais, como aplicações, empréstimos, seguros, consórcios, cartão de
crédito e de débito, etc.
Além disso, as cooperativas são geridas democraticamente. Nas assembleias, os sócios
elegem as pessoas que serão responsáveis pela gestão da cooperativa: os chamados conselheiros de
administração. Esses conselheiros terão de dar conta das suas ações nas próprias assembleias.
Um dos grandes diferenciais de uma cooperativa é que todos são sócios, não existindo
pessoas que sejam apenas clientes. Essa é uma exigência legal do Banco Central para que as
pessoas possam operar com uma cooperativa de crédito.
Essas instituições bancárias têm como característica ser de propriedade de um pequeno
número de pessoas (os donos ou sócios), que buscam obter, como qualquer empresário, o maior
retorno possível sobre o capital investido. Esse lucro é obtido por meio das movimentações
financeiras realizadas pelos clientes, pessoas que não possuem nenhum poder de decisão sobre a
forma de atuação do banco com o qual operam, apenas usufruindo dos produtos e serviços que
utilizam por meio do pagamento do preço estabelecido.
Talvez por mero desconhecimento, a quase totalidade dos brasileiros realiza as suas
operações financeiras com os bancos tradicionais. Ainda são poucos – menos de 10 milhões de
pessoas – os que descobriram que ser cliente não é a única opção existente e que é possível ser
dono da sua própria instituição financeira, organizada em forma de cooperativa.
Em julho de 2018, o Brasil apresentava 967 cooperativas de crédito com 1.037 pontos de
atendimento. Comparado ao resto do mundo, o Brasil ainda engatinha no setor. Nos Estados
Unidos, 30% da população é cooperada e na Alemanha 22%. Por aqui, somente 4% dos
brasileiros são associados a uma cooperativa.
Na contramão da crise, as cooperativas ofereceram os mesmos produtos e serviços dos bancos
a taxas mais baratas e, nos últimos cinco anos, ampliaram em 20% ao ano as suas operações. Em um
país no qual o spread bancário é tão expressivo, o crescimento dessa modalidade de instituição
financeira e de financiamento para os empreendedores é muito bem-vindo.

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MÓDULO VII – CICLOS ECONÔMICOS E
POLÍTICAS CAMBIAIS

Neste módulo, abordaremos os ciclos econômicos – expansão e contração da atividade


econômica – e os instrumentos que o governo possui para lidar com essas flutuações. Também
analisaremos os aspectos do mercado cambial e a formação do preço da moeda estrangeira,
apresentando os possíveis meios de atuação do Banco Central nesse setor.

Ciclos econômicos
A atividade econômica flutua de um ano para o outro. Geralmente, ela se expande devido
ao aumento da força de trabalho, aos investimentos em bens de capital e em novas tecnologias.
Nesse caso, a economia produz mais. No entanto, há anos em que isso não acontece. A demanda
por bens e serviços encolhe, as empresas diminuem a produção dos bens e serviços por terem
menos clientes, os trabalhadores são demitidos, as firmas trabalham com ociosidade e a renda
encolhe. Esses períodos de queda de renda e aumento de desemprego são denominados recessões,
quando são relativamente moderados, e depressões, quando são mais intensos, como em 1930.
O Brasil, entre 2014 e 2016, passou pela pior recessão em mais de um século, com chances
de entrar para a história como uma depressão. O número de trabalhadores desempregados
alcançou a marca de 12 milhões no final de 2016.
A maioria dos economistas analisa a demanda e a oferta agregada para entender as causas
dessas flutuações. O fato é que elas sempre ocorrem.
Flutuações
As flutuações econômicas são irregulares. Por também serem chamadas de ciclos de negócio,
frequentemente as pessoas têm a errônea ideia de que as flutuações do PIB são regulares e
previsíveis, como os ciclos da Lua. Isso não é verdade. O gráfico a seguir nos mostra a evolução da
economia americana (PIB real) nas três últimas décadas do século XX. As faixas escuras
representam os períodos de recessão. Podemos observar que esses períodos têm durações
diferentes e ocorrem em espaçamentos irregulares.

Figura 16 – Evolução da economia americana (1965-1995)

Diversas variáveis econômicas, como a renda das famílias, a despesa ou a produção, flutuam
praticamente em conjunto. Há, contudo, algumas variáveis que apresentam ritmos diferentes de
flutuação. Normalmente, o investimento das empresas encolhe rapidamente no início de uma
recessão e é um dos últimos a recuperar-se. Isso acontece porque as empresas precisam ter certeza
da recuperação da economia para retomar os seus projetos de investimento. Já o desemprego
demora a aumentar, pois os custos das demissões são geralmente altos. Contudo, uma recessão
profunda e longa, como a que ocorreu no Brasil entre 2014 e 2016, acaba resultando em um forte
aumento de desemprego, o que aprofunda ainda mais a crise econômica. Normalmente, a
recuperação desses postos de trabalho se dá muito lentamente.

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Origem das flutuações
Vejamos, a seguir, a origem dos diferentes tipos de flutuação econômica:

a) Flutuações da demanda agregada:


A equação do PIB pelo lado da despesa representa a demanda agregada:

.6 = - % . /01 % .2 1 % 3 % 4 ( 5

A demanda agregada flutua quando os seus elementos flutuam.

b) Flutuações do consumo das famílias (C):


Em 2008, em decorrência da crise que atingiu em cheio os preços dos imóveis nos EUA, o
consumo das famílias encolheu rapidamente. A família americana, altamente consumidora e
endividada, viu a sua principal referência de riqueza, os imóveis, desvalorizar-se. Para recompor a
sua situação financeira, ela aumentou a sua taxa de poupança e, consequentemente, encolheu o
consumo. Olhando do ponto de vista de uma família em particular, essa atitude é perfeita. No
entanto, quando a maioria das famílias de um país passa a consumir menos, as empresas não
vendem, empregos são perdidos e a economia afunda em uma recessão. Essa situação se mostra
mais dramática quando lembramos que o consumo das famílias americanas responde pela
demanda de 70% do PIB do país.
Como os Estados Unidos são a maior economia do mundo e um grande importador de
bens e serviços de outras economias, uma recessão nesse país contamina as outras economias via
encolhimento das suas importações. Uma melhora das expectativas da família americana ou
mesmo um corte nos impostos tende a impulsionar o seu consumo com efeito relevante na
economia tanto local quanto mundial.

c) Flutuações de investimento do setor privado:


Qualquer situação que interfira na disposição de as empresas investirem terá efeito na
demanda agregada. Se as empresas estão pessimistas ou inseguras quanto às condições da
economia futuras, elas adiam investimentos. Por outro lado, uma onda de novas inovações
tecnológicas e boas expectativas quanto ao futuro da economia pode levar o setor privado a
investir mais.

d) Flutuações de gastos e investimentos do governo:


A redução ou expansão dos gastos de custeio e investimentos do governo têm um impacto
importante nas flutuações econômicas. O aumento ou não no número de concursos públicos, a

87
decisão de investir ou não em obras de infraestrutura e os gastos sociais têm reflexo direto na
demanda de bens e serviços.

e) Flutuações das exportações líquidas (exportações menos importações de bens e serviços):


Quando os Estados Unidos entram em uma recessão, a economia americana importa
menos, e isso afeta as exportações líquidas mexicanas negativamente. Quando a economia
americana se expande, ocorre o oposto.

f) Flutuações da oferta agregada


A oferta agregada é a quantidade de bens e serviços que as empresas vendem a determinado
nível de preço.

g) Flutuações decorrentes da força de trabalho:


Uma economia que registrasse uma entrada massiva de imigrantes teria uma expansão na
produção e na oferta de bens e serviços, pois o número de trabalhadores aumentaria. A peste
negra (peste bubônica), que dizimou grande parte da população da Europa na Idade Média, gerou
o efeito inverso, contraindo a oferta de bens.

h) Flutuações decorrentes da variação de bens de capital:


Um aumento do estoque de máquinas, fábricas e infraestrutura aumenta a produtividade da
economia e, por consequência, a oferta de bens e serviços.

i) Flutuações decorrentes da variação de recursos naturais:


A produção de uma economia depende de recursos naturais. A descoberta do petróleo no
pré-sal ou de uma nova jazida de minério tem efeito direto na oferta de bens e serviços. Uma
modificação no clima afeta a produtividade do setor agrícola.

j) Flutuações decorrentes da variação de inovações tecnológicas:


As inovações da Embrapa revolucionaram a produtividade do setor agrícola brasileiro,
expandindo a oferta de grãos. O desenvolvimento da tecnologia de informação revolucionou a
produtividade de, praticamente, todos os setores da economia mundial.

Lidando com as flutuações no curto prazo


O gráfico a seguir representa o PIB de uma economia hipotética crescendo no tempo. A
linha reta representa a expansão do PIB potencial dessa economia (o que essa economia tem
capacidade de produzir), que, como vimos, depende do aumento da produtividade, que, por sua

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vez, depende da taxa de investimento. A linha sinuosa representa o PIB verificado no tempo, que
não necessariamente é igual ao PIB potencial.

Figura 17 – Crescimento do PIB

As flutuações de curto prazo fazem com que a economia alterne entre:


períodos de ociosidade – trabalhando abaixo do seu potencial com o aumento do
desemprego) e
períodos em que a demanda agregada começa a ultrapassar a oferta agregada – fazendo
com que a economia trabalhe acima do seu potencial com pressões inflacionárias.

O governo deve atuar no curto prazo para suavizar essas flutuações, o que pode ser feito de
diversas formas. Vejamos:

a) PIB abaixo do potencial – pressão por desemprego:


O Governo deve implementar políticas expansionistas da demanda agregada.

b) Política fiscal expansionista (decisões do Ministério da Fazenda):


Aumento de gastos públicos ou corte de impostos. Isso faria com que as famílias
ampliassem o seu consumo e ampliaria também a demanda por bens e serviços na economia,
aproximando o PIB verificado do PIB potencial.

c) Política monetária expansionista (decisões do Banco Central):


O Banco Central pode promover cortes na taxa básica de juros da economia (a Selic, no
Brasil) e diminuir o percentual do depósito compulsório dos bancos comerciais, diminuindo
os juros dos créditos e financiamentos para ampliar o consumo das famílias e os investimentos
das empresas.

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d) PIB acima do potencial – pressão inflacionária:
O Governo deve implementar políticas contracionistas da demanda agregada.

Exemplos de flutuações econômicas e reações de governos


Depois dos ataques terroristas de 11 setembro de 2001, muitos políticos notáveis
americanos, tanto democratas quanto republicanos, fizeram discursos apelando para que a nação
em choque mostrasse força e continuasse comprando bens de consumo.
“Faça seus negócios no país inteiro. Tome o avião e divirta-se nos grandes destinos de
viagens da América”, conclamou o presidente Bush. “Vá fazer compras”, disse o ex-presidente
Clinton. Essas palavras eram bem diferentes das pronunciadas pelo primeiro Ministro Britânico
Winston Churchill na famosa declaração de 1940. Diante da iminente invasão do Reino Unido
pelos nazistas, Churchill disse aos britânicos que ele não tinha nada a oferecer senão “sangue,
suor e lágrimas”. Mas havia uma razão para que os políticos de ambos os partidos nos Estados
Unidos apelassem por gastos, e não sacrifícios. Como a economia americana já estava contraída,
principalmente por causa de uma queda de 14% no gasto de investimento, um mergulho no
gasto do consumo das famílias, assustadas com o ataque, teria aprofundado muito recessão.
Além disso, como sabemos, o aprofundamento de uma crise nos EUA teria efeito na economia
do mundo inteiro. Felizmente, isso não aconteceu. O consumidor americano comprou menos
certos bens e serviços, como viagens aéreas, mas comprou mais outros, sustentando a demanda
agregada da economia.
Situação semelhante aconteceu no Brasil em 2008, após a quebra do Lehman Brothers. O
presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse a famosa frase “Vai ser uma marolinha”, querendo dizer
que o tsunami econômico que atingira o mundo todo mal atingiria o Brasil. A intenção do
presidente era a de que a família brasileira, assustada com as terríveis notícias econômicas que
dominavam a mídia, continuasse a consumir para que a demanda agregada não sofresse quedas
violentas, colocando o país em uma recessão. No entanto, não foi o que ocorreu. A família
brasileira diminuiu muito as suas compras, e a economia despencou. O governo então cortou,
imediatamente, os impostos de diversos setores, como o de automóveis e o de eletrônicos, e
aumentou os seus gastos. O Banco Central cortou, expressivamente, a taxa de juros e diminuiu o
compulsório dos bancos, ampliando a oferta de crédito. A resposta de economia brasileira a essas
políticas expansionistas foi muito positiva e, no final de 2009, o Brasil já tinha saído da recessão.

90
Mercado de câmbio
A cotação do dólar se forma no mercado cambial em que atuam ofertantes e demandantes
da moeda americana – referência mundial desde 1944. A cotação, obviamente, obedece a lei da
oferta e da demanda, subindo quando a demanda supera a oferta e caindo quando a oferta supera
a demanda
Diversos fatores afetam o mercado de câmbio. Vejamos alguns exemplos:
se o PIB brasileiro cresce mais rapidamente, a demanda por dólares é ampliada, pois o
país importará mais insumos para crescer;
se há uma crise de confiança sobre a sustentabilidade da dívida brasileira, o investidor
que trouxe dólares para cá, ofertou no mercado e aplicou reais em títulos brasileiros ou
em ações vai tirar o seu capital do país, comprando dólares;
se a China cresce mais fortemente e, consequentemente, os preços dos grãos e do
minério de ferro sobem no mercado internacional, o volume e valor das exportações
brasileiras crescem, refletindo-se em maior oferta de dólares no mercado de câmbio e
o diferencial de juros pagos pelos títulos da dívida interna brasileira (a Selic) e dos juros
pagos por títulos de outros países (principalmente, os juros americanos) também
influencia o mercado de câmbio. A oferta tende a aumentar quando esse diferencial
aumenta. Já a demanda tende a aumentar quando esse diferencial encolhe.

Regimes cambiais
Além dos compradores e vendedores de moeda estrangeira, o Banco Central também pode
atuar no mercado de câmbio, ofertando ou demandando reservas e interferindo na cotação.
O Banco Central pode querer, por exemplo, conter uma alta ou uma baixa excessiva da
cotação do dólar: quando o real se desvaloriza (a cotação do dólar sobe), as importações de bens e
serviços e tudo o que é cotado em dólares fica mais caro em reais, gerando impactos
inflacionários. Por outro lado, quando o real se valoriza, os bens e serviços brasileiros ficam mais
baratos em dólar, beneficiando a balança comercial do País.
O Banco Central também pode querer tentar suavizar uma forte volatilidade do valor do
câmbio: quando o real se valoriza (a cotação do dólar cai), as importações de bens e serviços e
tudo o que é cotado em dólares fica mais barato em reais, ajudando no controle da inflação. Por
outro lado, quando acontece a valorização do real, os bens e serviços brasileiros ficam mais caros
em dólar, prejudicando a balança comercial do país.
O padrão de comportamento do Banco Central no mercado de câmbio durante
determinado período é denominado regime cambial do país. O dólar é a moeda reserva do
mundo, e a cotação das moedas é dada em relação à moeda americana.

91
Vejamos, a seguir, as características principais dos diversos regimes:

a) Regime de câmbio flutuante puro:


No regime de câmbio flutuante puro, o Banco Central não interfere no mercado de
câmbio, e a cotação da moeda estrangeira (dólar) é dada puramente pelo equilíbrio das forças de
mercado. Na prática, os bancos centrais das moedas consideradas mais fortes, como o euro, a libra
inglesa e o yen japonês raramente interferem no mercado de câmbio. Podemos dizer que, nessas
economias, o mercado de câmbio opera, praticamente, o tempo todo no regime de câmbio
flutuante puro.

b) Regime de câmbio flutuante sujo (dirty floating):


No regime de câmbio flutuação sujo, o Banco Central deixa o mercado flutuar e, quando
considera necessário, atua interferindo na cotação. É importante salientarmos, porém, que o
Banco Central não define nenhuma regra de atuação no mercado. Ele age totalmente ao seu
critério e não dá explicações sobre as suas ações. Nos mercados de câmbio dos países emergentes,
como o brasileiro, a flutuação costuma ser suja.

c) Regime de câmbio fixo:


No regime de câmbio fixo, o Banco Central fixa uma cotação e atua no mercado para
mantê-la. Isso quer dizer que, para evitar a queda da cotação, o Banco Central compra a moeda
estrangeira (dólares) quando há excesso de oferta no mercado e vende a moeda estrangeira, para
evitar a alta da cotação, quando há excesso de demanda no mercado.
Uma variante desse regime é a banda cambial. Nesse caso, o Banco Central se compromete
a manter a cotação da moeda estrangeira dentro de um intervalo fixado. Esse era o regime quando
o Plano Real foi implementado no Brasil. Inicialmente, era uma cotação e, mais tarde, evolui para
uma banda cambial.
O regime de câmbio fixo é conhecido como uma âncora cambial para a inflação. No Plano
Real, a cotação fixa tornava os preços de importados e bens serviços cotados em dólares estáveis
em reais.

Euro
Quando o euro foi criado, em 1999, os países da então União Europeia enfrentavam um
dilema: aderir ou não à moeda única. Até então, os preços do menu de um bistrô francês eram
listados em francos, os de um restaurante alemão eram listados em marcos e os de uma tratoria
italiana, em liras. A partir de então, os menus dos restaurantes dos três países passaram a mostrar
os seus preços em euros.

92
O euro nasceu no dia 1º de janeiro de 1999. A França, a Alemanha, a Itália e a maioria dos
seus vizinhos renunciaram à sua moeda nacional em favor do euro. A então nova Zona do Euro
ostentava um PIB combinado quase tão grande quanto o da zona do dólar, mais conhecida como
Estados Unidos da América. Mas nem toda União Europeia aderiu ao euro. À época, a ausência
mais sentida foi a da Grã-Bretanha. Por que a terra de Shakespeare e do Beatles decidiu manter a
sua moeda nacional, a libra?
Parte da resposta está no orgulho nacional. Ao adotar o euro, a Grã-Bretanha desistiria da libra
esterlina, que tinha sido a principal moeda mundial até a Primeira guerra e que ostentava o retrato da
rainha. Existiam também sérias preocupações econômicas e, como sempre, havia um trade-off: os
economistas britânicos que eram a favor da adoção do euro argumentavam que, se a Grã-Bretanha
utilizasse a mesma moeda que os seus vizinhos, o comércio internacional do país se expandiria e a sua
economia se tornaria mais produtiva. Já os economistas que eram contra a adoção, afirmavam que, ao
adotar o euro, a Grã-Bretanha não teria mais autonomia para implementar a sua própria política
monetária (deixaria, por exemplo, de implementar a sua taxa de juros), pois teria de seguir o que o
Banco Centra Europeu (Banco Central da Zona Euro) decidisse. Uma forte oposicionista à adoção do
euro foi a própria primeira ministra Margaret Thatcher.
Apesar de participarem da União Europeia, a Inglaterra e outros países, como a Dinamarca,
também não adotaram o euro. Em outubro de 2016, os britânicos optaram, em plebiscito, por
não fazer mais parte da União Europeia. As negociações dessa saída complicada ainda estão em
curso em 2019, e só o futuro mostrará quais serão as consequências dessa polêmica decisão para a
economia britânica. Por enquanto, só podemos afirmar que, certamente, trará ônus e bônus.

Ataque especulativo à moeda


Se o Banco Central se compromete a vender moeda estrangeira para impedir a alta da
cotação, é imprescindível que o país tenha reservas robustas de moeda estrangeira (dólares). Caso
haja a percepção de que as reservas cambiais não são suficientes para que o Banco Central seja
capaz de manter a cotação fixada, o país pode sofrer um ataque especulativo à moeda.
Como isso acontece? Os investidores percebem que o Banco Central não tem reservas
cambiais suficientes para impedir a desvalorização da moeda nacional. Acontece então uma forte
pressão de compra de dólares que enfraquece ainda mais as reservas e, eventualmente, obriga o
Bacen a deixar a moeda nacional se desvalorizar. Isso traz lucros para aqueles que compraram
dólares antes da desvalorização da moeda nacional (no caso brasileiro, o real).

93
O Brasil sofreu um ataque especulativo à sua moeda em janeiro de 1999. O Banco Central foi
então obrigado a abandonar o câmbio fixo, que vigorava desde julho de 1994, adotando a partir
dessa data o regime de câmbio flutuante sujo. Na ocasião, em apenas um dia, a moeda americana
dobrou de cotação, trazendo fortes prejuízos a todos os que detinham dívidas em dólares.

A partir do estudo do mercado de câmbio, analisamos a


terceira perna do tripé macroeconômico: a política cambial
do país.

94
MÓDULO VIII – SETOR EXTERNO E
TEORIA DO COMÉRCIO INTERNACIONAL

Neste módulo, discutiremos a relação entre economias. Abordaremos então o balanço de


pagamentos, que nada mais é do que a contabilidade das transações comerciais e financeiras entre
um país e o resto do mundo. Apresentaremos também os fundamentos de Teoria do Comércio
entre as nações, analisando o impacto de uma maior abertura econômica para as empresas e os
consumidores brasileiros.

Setor externo
Balanço de pagamentos

As relações econômicas de um país com o resto do mundo envolvem um conjunto muito


grande e variado de transações. O estudo dessas relações torna-se muito mais fácil quando
utilizamos a ferramenta contábil adequada: o balanço de pagamentos.
Quando um país se comunica com o resto do mundo, ele o faz por dois canais:

a) Canal comercial:
Pelo canal comercial, ocorrem a compra e a venda de bens e serviços.
Também chamados esse canal de transações correntes, pois, quando um país exporta,
envia mercadorias para o exterior e recebe um pagamento que é registrado, positivamente, na
sua conta-corrente.
b) Canal de capital e financeiro:
Também chamado de conta capital financeira, pois, quando uma empresa estrangeira
decide instalar uma filial no país, esse investimento é registrado, positivamente, na conta de
capitais.

O balanço de pagamentos é o registro contábil e sistemático


de todas as transações econômicas de um país com o
exterior, sejam elas comerciais, financeiras ou de qualquer
outra natureza.

Esse registro é feito em dólares pelo Banco Central. O que traz dólares para o país é lançado
a crédito, e o que faz com que saiam dólares do país é lançado a débito. Vejamos como esses
registros são realizados:

a) Balança comercial:
Na balança comercial são registras as:
exportações de bens (crédito) e
importações de bens (débito).

Notemos que somente o valor dos bens importados e exportados deve ser contabilizado na
balança comercial. Nenhum tipo de serviço (tal como fretes marítimos) deve ser incluído. Esses
serão lançados na balança de serviços.

b) Balança de serviços:
Na balança de serviços são registrados valores com transportes, viagens, fretes, seguros,
construção civil, financeiros governamentais (como embaixadas), manutenção e reparos, aluguéis
de equipamentos, propriedade intelectual (marcas, patentes, royalties), advocatícios, culturais,
telecomunicação, computação e informações, audiovisuais, saúde, etc.

c) Balança de rendas:
Na balança de rendas, os valores são registrados com base na seguinte subdivisão:
balança de rendas primária – são registrados salários, ordenados (diplomatas,
burocráticos), honorários, remessas de lucros, dividendos, juros, etc. e
balança de renda secundária (transferências unilaterais) – são registrados valores
advindos dos governos (bolsas de estudos), donativos, ajudas humanitárias,
transferências pessoas físicas, etc.

96
d) Conta capital-financeira:
Na conta capital-financeira, os valores também são registrados com base em uma
subdivisão:
conta de capital – são registrados ativos não financeiros, passes de atletas, direitos
sobre recursos naturais, marcas, logotipos, domínios, etc. e
conta financeira – são registrados investimentos diretos no exterior e no país,
empréstimos, financiamentos, créditos, ações negociadas em bolsas de valores do país
e do exterior, aplicações em títulos públicos e privados, amortizações de
compromissos externos, fundos de investimentos, etc.

A seguir, apresentamos alguns exemplos de transações entre residentes no exterior e


residentes no Brasil:
1. Um residente no exterior compra uma fábrica de um residente no Brasil. O residente
no exterior obtém um título de propriedade transferido do residente no Brasil. Tal
transação é registrada na conta de capital do balanço de pagamentos brasileiro como
uma entrada de capital.
2. Um residente no exterior compra, de residentes no Brasil, ações de uma empresa, ou
empresta recursos financeiros a essa empresa, ou compra uma debênture emitida por
ela, ou compra um título público emitido pelo governo brasileiro. O comprador (ou
emprestador) recebe um documento que estabelece o direito que adquiriu de residente
no Brasil. O registro dessa transação se dá na conta financeira do balanço de
pagamentos brasileiro, como entrada de capital.
3. Uma empresa russa compra grãos de produtores brasileiros na Alemanha para
beneficiamento. A empresa levou a mercadoria, e a transação se encerrou. Os russos não
adquiriram direitos no Brasil, nem os produtores brasileiros ficaram com qualquer
obrigação futura. No Brasil, a transação deve ser registrada na conta transações
correntes do balanço de pagamentos, como uma exportação. Já no balanço de
pagamentos da Rússia, deve ser registrada como uma importação.
4. Um turista residente no exterior vem para as Olimpíadas no Rio de Janeiro e incorre
em gastos no Brasil: hospedagem, alimentação, entradas para os jogos, passeios,
presentes para a família, etc. Ele recebeu, diretamente, as mercadorias (alimentos,
presentes) e os serviços (hospedagem, concertos musicais, passeios), e não adquiriu
direitos de futuros recebimentos sobre residentes no Brasil. Dessa forma, o que gastou
deve ser registrado na conta transações correntes do balanço de pagamentos brasileiro,
na rubrica “viagens”, como ingresso de divisas estrangeiras.
5. Uma empresa residente no Brasil envia pagamentos de juros a um banco no exterior
que lhe havia concedido um financiamento. Esses juros são considerados pagamentos
pelos serviços do capital emprestado e, em consequência, devem ser registrados na conta

97
transações correntes do balanço de pagamentos, como pagamento pela importação de
serviços. O mesmo acontece com a remessa de lucros e dividendos para o exterior, e
também com os pagamentos de royalties, seguros, fretes, aluguéis, etc.: todos
correspondem a serviços importados e devem ser registrados na conta transações
correntes do balanço de pagamentos.
6. Uma empresa residente no Brasil amortiza parte da sua dívida com um banco no
exterior. Nesse caso, a empresa não pagou pelos serviços do capital financeiro, mas
pagou parte do próprio valor que tomou emprestado, ou seja, comprou de volta o título
ou o direito que o banco possuía. A transação é então registrada na conta financeira do
balanço de pagamentos, como saída de capital do Brasil. O mesmo aconteceria se a
empresa recomprasse as suas próprias ações ou cotas em mãos de estrangeiros: o registro
seria feito na conta financeira do balanço de pagamentos.
7. As doações que um residente no exterior faz a um residente no Brasil – denominadas
“rendas” – também são registradas na conta transações correntes do balanço de
pagamentos, pois, em princípio, não geram obrigações futuras do residente do Brasil
com o doador. O residente no exterior não adquire direitos a serem cobrados no futuro.
Por exemplo, muitos brasileiros que moram e trabalham no exterior remetem recursos
financeiros aos seus familiares no Brasil. Os descendentes de japoneses que vivem em
São Paulo e vão trabalhar no Japão também enviam dinheiro ao Brasil. Essas
transferências são registradas na conta transações correntes do balanço de pagamentos,
na rubrica “rendas secundárias”, também conhecida como “transferências unilaterais
para residentes no Brasil”.

Quando somamos o resultado anual dos dois canais – as transações correntes e a conta
capital-financeira –, temos o resultado do balanço de pagamentos. Se o balanço de pagamentos
for deficitário, significa que, naquele período, saíram mais dólares do que entraram, e o país tende
a perder reservas internacionais que estavam à disposição do seu Banco Central. Se, por outro
lado, o país tiver um balanço de pagamentos superavitário, ele acumulará reservas.
Países que não dispõem de reservas para “fechar” o balanço de pagamentos podem recorrer a
organismos internacionais como o FMI. Foi o caso do Brasil em 1998, que obteve, na ocasião, um
empréstimo de US$ 40 bilhões do FMI e do governo americano. Os aportes desses organismos são,
por convenção, registrados fora da conta de capitais, em contas que aparecem lado a lado com a
conta de reservas. Isso é feito porque, caso esses aportes fossem registrados na conta de capitais,
poderíamos ter a impressão (errada) de que o balanço de pagamentos está em equilíbrio.
Se um país não obtém apoio dos organismos internacionais para “fechar” o balanço de
pagamentos e as reservas internacionais atingem um nível muito reduzido, ele pode entrar em
moratória. Em 1986, o Brasil se viu com reservas muito baixas, mas não conseguiu aporte do
FMI. Isto é, o país precisou dar calote na sua dívida em moeda estrangeira. Essas dívidas foram

98
posteriormente renegociadas e pagas. No final de 2018, o Brasil possuía reservas em nível
confortável (cerca de US$ 380 bilhões em dezembro de 2018). A expectativa é a de que essas
reservas cheguem a US$ 400 bilhões em 2019 ou 2020.

Comércio internacional
O comércio internacional é um tema de grande importância no mundo atual, pois o custo de
transporte de mercadorias e pessoas, e o custo de comunicação entre as pessoas em diferentes países
têm sofrido reduções extraordinárias. Em consequência, a taxa de crescimento real do comércio
internacional tem sido substancialmente maior que a taxa de crescimento dos PIBs reais dos diversos
países, desde o fim da Segunda Guerra Mundial. O mundo está se tornando, em termos de
comunicação, uma “aldeia global” (usando uma expressão de McLuhan) e as cadeias produtivas
internacionais – a mundialização dos mercados, inclusive o varejista – é uma tendência marcante.
Abordaremos então a Teoria das Vantagens Comparativas, pedra fundamental da
Teoria do Comércio Internacional, analisando aspectos da evolução da interdependência
econômica das nações. O conceito de vantagem comparativa está ligado, visceralmente, ao de
custo de oportunidade. Como vimos, a cada escolha que fazemos, estamos abrindo mão de
algo. O valor da melhor alternativa à escolha feita é o custo de oportunidade dessa escolha.
Esse conceito é fundamental para o entendimento das teorias do comércio internacional e das
vantagens comparativas.

Teoria das Vantagens Comparativas


Com frequência, deparamo-nos, na imprensa especializada, com argumentos contra a
abertura e ampliação do comércio exterior do nosso país, os quais enfatizam que não há
possibilidade de ganhos decorrentes do comércio internacional para países mais atrasados. Isso os
países menos desenvolvidos – que têm, em praticamente todos os setores, menor produtividade
do que as economias avançadas – sairiam perdendo com a abertura das trocas internacionais.
Esse argumento, no entanto, confunde o conceito de vantagem absoluta com o de
vantagem comparativa:
ter vantagem absoluta na produção de algum bem ou serviço é ter maior produtividade e
ter vantagem comparativa na produção de algum bem ou serviço é ter menor custo de
oportunidade.

99
Para explicar o assunto, imaginemos, por exemplo, dois países que chamaremos de A e B, os
quais produzem dois bens: tecido e vinho. Utilizando como único recurso o tempo da sua mão de
obra para a produção, suponhamos que:
os trabalhadores do país A necessitem de 1 hora de trabalho para produzir 1.000 metros
de tecido e 8 horas para produzir 1.000 litros de vinho e
os trabalhadores do país B necessitem de 20 horas de trabalho para produzir 1.000
metros de tecido e 10 horas para produzir 1000 litros de vinho.

Os trabalhadores do país A têm maior produtividade nos dois produtos, pois produzem
mais vinho e tecido por hora de trabalho. Dizemos então que o país A possui vantagem absoluta
na produção de vinho e na produção de tecido.
E quanto à vantagem comparativa? Para sabermos quem tem vantagem comparativa em
cada produto (tecido ou vinho), precisamos calcular o custo de oportunidade da produção de
tecido e de vinho em cada país.
No caso, o custo de oportunidade é o que se deixa de produzir de certo bem quando
optamos por alocar o recurso disponível (no nosso exemplo, horas de trabalho) na produção do
outro bem. Dessa forma, considerando o custo de oportunidade na produção de 1.000 metros de
tecido, temos:

a) No país A:
Para produzir 1.000 metros de tecido, o país A utiliza uma hora. Como A gasta oito horas
para produzir 1.000 litros de vinho, nessa uma hora utilizada na produção de tecido, ele estaria
deixando de produzir 125 litros de vinho. Desse modo, o custo de oportunidade para o país A na
produção de 1.000 metros de tecido é de 125 litros de vinho;

b) No país B:
Para produzir 1.000 metros de tecido, o país B utiliza 20 horas. Como B gasta 10 horas
para produzir 1.000 litros de vinho, nessas 20 horas utilizadas na produção de tecido, ele estaria
deixando de produzir 2.000 litros de vinho. Desse modo, o custo de oportunidade para o país B
na produção de 1.000 metros de tecido é de 2.000 litros de vinho.

Chegamos então à conclusão de que o país A tem menor custo


de oportunidade que B na produção de tecido, ou seja, o país
A possui vantagem comparativa na produção de tecido.

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Vamos considerar, agora, o custo de oportunidade na produção de 1.000 litros de vinho:

a) No país A:
Para produzir 1.000 litros de vinho, o país A utiliza oito horas de trabalho. Como A gasta
uma hora para produzir 1.000 metros de tecido, nessas oito horas utilizadas na produção de
vinho, ele estaria deixando de produzir 8.000 metros de tecido. Desse modo, o custo de
oportunidade para o país A na produção de 1.000 litros de vinho é de 8.000 metros de tecido.

b) No país B:
Para produzir 1.000 litros de vinho, o país B utiliza 10 horas de trabalho. Como B gasta 20
horas para produzir 1.000 metros de tecido, nessas 10 horas utilizadas na produção de vinho, ele
estaria deixando de produzir 500 metros de tecido. Desse modo, o custo de oportunidade para o
país B na produção de 1.000 litros de vinho é de 500 metros de tecido.

Chegamos então à conclusão de que o país B tem menor


custo de oportunidade que o país A na produção de vinho,
ou seja, o país B possui vantagem comparativa na produção
de vinho.

Apesar de A possuir vantagem absoluta nos dois produtos, A possui vantagem comparativa
na produção de tecido, e B possui vantagem comparativa na produção de vinho. Sempre que um
país tiver menor custo de oportunidade na produção de um bem ou serviço, isso leva o outro país
a ter menor custo de oportunidade no outro. É praticamente impossível que um país tenha
vantagem comparativa em todos os produtos.
Enfim, chegamos à seguinte conclusão final:

Haverá ganhos com a especialização na produção e nas


trocas voluntárias de tecido e vinho entre os dois países. Os
países devem especializar-se na produção do bem no qual
têm vantagem comparativa e obter o outro bem, para o seu
consumo, por meio de trocas (comércio internacional).

Ganhos decorrentes do comércio


Imaginemos uma negociação comercial na qual o país A envia 3.000 metros de tecido ao país
B, em troca de 1.000 litros de vinho. Será que os dois países estão obtendo ganhos com essa troca?
Para verificar se acontecem ganhos com o comércio, suponhamos que os países não
negociem e ambos produzam os dois produtos, não havendo trocas.

101
Se o país A resolver produzir os 1.000 litros de vinho, utilizará oito horas de trabalho. Com
essas oito horas, ele poderia produzir 8.000 metros de tecido. Desse modo, é mais conveniente
utilizar essas oito horas para produzir os 8.000 metros de tecido e trocar 3.000 metros pelos 1.000
litros de vinho. Nesse caso, o comércio permitiria ao país A ficar com 5.000 metros de tecido e
1.000 litros de vinho, claramente um resultado superior ao que ocorreria se não houvesse trocas.
Poderíamos dizer que isso acontece porque o país A tem mais produtividade nos dois
produtos. No entanto, devemos analisar a situação do país B.
Se o país B resolver produzir os 3.000 metros de tecido, utilizará 60 horas. Com essas 60
horas, ele poderia produzir 6.000 litros de vinho. Desse modo, é mais conveniente utilizar essas
60 horas para produzir os 6.000 litros de vinho e trocar 1.000 litros pelos 3.000 metros de tecido.
Nesse caso, o comércio permitiria que o país B ficasse com 5.000 litros de vinho e 3.000 metros
de tecido, claramente um resultado superior ao que ocorreria caso não houvesse trocas.
No exemplo que acabamos de ver, o país B, que possui menor produtividade em ambos os
produtos, obteve ganhos com o comércio, o que contradiz os argumentos contra o comércio, os
quais focam, erroneamente, as vantagens absolutas, e não as vantagens comparativas.

Como surgiu a Teoria das Vantagens Comparativas


A Teoria do Livre Comércio e a Teoria das Vantagens Comparativas têm origem nos
trabalhos de Adam Smith e David Ricardo respectivamente.
Como vimos, o economista escocês Adam Smith escreveu o livro A riqueza das nações em
1776, no limiar da revolução industrial inglesa. A sua obra é apontada como um marco na análise
do comércio e da interdependência econômica. Muitos economistas consideram Adam Smith o
fundador da moderna ciência econômica. No livro Introdução à economia, de Mankiw (2014),
encontramos a seguinte afirmação do autor Adam Smith:

“Eis uma máxima que todo chefe de família prudente deve seguir: nunca
tentar fazer em casa aquilo que seja mais caro fazer do que comprar. O
alfaiate não tenta fabricar seus sapatos, mas os compra do sapateiro. Este
não gráficoenta confeccionar seu traje, mas recorre ao alfaiate. O
agricultor não tenta fazer nem um nem outro, mas se vale desses artesãos.
Todos consideram que é mais interessante usar suas capacidades naquilo
que têm vantagem sobre seus vizinhos e comprar, com parte do resultado
de suas atividades, aquilo que venham a precisar” (SMITH apud
MANKIW, 2014, p. 54).

102
Já David Ricardo é o autor do ensaio econômico A Teoria das Vantagens Comparativas,
apresentado ao parlamento inglês em 1817. O autor usou o seu modelo para defender o livre
comércio, particularmente o fim de tarifas que restringiam as importações de alimentos na
Inglaterra. A conjuntura político-econômica em que David Ricardo apresentou o seu modelo é
apresentada a seguir.
Desde o início da Revolução Francesa, em 1789, até a derrota de Napoleão em Waterloo,
em 1815, a Inglaterra esteve, quase continuamente, em guerra com a França. Após conquistar os
principais países da Europa continental, Napoleão impôs um bloqueio continental ao comércio
com a Inglaterra: corsários (piratas financiados pelo governo francês) atacavam e invadiam
embarcações, bloqueando os bens ingleses. A longa guerra interferiu nas trocas.
Dado que a Inglaterra, primeiro país a industrializar-se, era exportadora de produtos
manufaturados e importadora de produtos agrícolas, essa limitação ao comércio encolheu a oferta
de alimentos na Inglaterra, aumentando o preço de produtos agrícolas e valorizando as terras
inglesas. Os proprietários de terra prosperaram durante o longo período de guerra e, mesmo
sendo ingleses, foram bastante beneficiados pelo “protecionismo” decorrente do bloqueio
continental de Napoleão. Já as manufaturas inglesas foram prejudicadas, ficando somente com o
mercado interno para ofertar os seus produtos, que tiveram os seus preços depreciados.
Após a guerra, o comércio se restabeleceu, fazendo com que os preços dos alimentos na
Inglaterra caíssem. Para evitar a diminuição dos lucros, os proprietários de terra, politicamente
influentes, apoiaram a promulgação de leis que estabeleceriam tarifas sobre a importação de grãos
(corn laws) no parlamento inglês. Essa barreira tarifária substituiria a proteção à agricultura inglesa
proporcionada pelo bloqueio de Napoleão.
Como membro do parlamento, David Ricardo argumentou contra as corn laws no
parlamento inglês. Ele estava ciente de que a não adoção das tarifas favoreceria a indústria e
prejudicaria a agricultura, inclusive os influentes proprietários de terra. Ricardo convenceu então
os seus pares a votarem contra as tarifas e por uma maior abertura da economia inglesa,
apresentando o modelo das vantagens comparativas que vimos anteriormente. Ele, certamente,
representava os interesses dos industriais e operários das manufaturas, mas enfatizava, na sua
teoria, os ganhos da nação como um todo. Essa estratégia de Ricardo, certamente, justifica o uso
da expressão “economia política” para descrever os argumentos econômicos utilizados como base
das políticas do governo.
O modelo das vantagens comparativas é considerado um dos mais brilhantes ensaios da
Economia. No exemplo que vimos anteriormente, a única razão para as vantagens comparativas é
o diferencial de produtividade entre os trabalhadores dos dois países. No entanto, as mais
modernas teorias de comércio nacional estabeleceram, teórica e empiricamente, que as vantagens
comparativas entre os países podem decorrer de outras razões, tais como: diferenças na
disponibilidade de recursos naturais, na abundância relativa de capital, acesso à mão de obra
qualificada e não qualificada, acesso à tecnologia, acesso a mercados, assim como poder de
mercado e de economias de escala na produção.

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Sobre perdedores e ganhadores
Se o livre comércio traz benefícios para a nação como um todo, por que vemos tantos
protestos contra a abertura da economia e presenciamos uma guerra aparentemente infindável
entre os que preferem o livre comércio e os que defendem o protecionismo?
O principal motivo é o seguinte: apesar do ganho como um todo para o país, a abertura de
uma economia gera, internamente, perdedores e ganhadores. A abertura ao comércio altera o
preço relativo dos diversos bens da economia, aumentando o preço dos bens que são exportados e
reduzindo o preço dos bens que também são importados. Dessa forma, os fatores de produção
utilizados mais intensivamente nos setores exportadores têm a sua remuneração aumentada com a
abertura comercial, e os fatores de produção utilizados mais intensivamente nos setores
importadores perdem em relação à situação sem comércio.

A abertura da economia para o comércio distribui renda em


favor dos fatores de produção utilizados nos setores em que
aquela economia possui vantagens comparativas.

Os donos de terra e os trabalhadores rurais da época de David Ricardo não devem ter
ficado felizes com a revogação das corn laws, mesmo que isso fosse benéfico para a Inglaterra
como um todo. Os indivíduos visam, geralmente, o bem-estar próprio. Desse modo, os
empresários e os trabalhadores de setores que se sentem prejudicados pela concorrência de bens
ou serviços importados de outros países, via de regra, protestam e usam a sua influência política
buscando protecionismo.
De fato, as restrições às importações aumentam os ganhos dos empresários e dos
trabalhadores dos setores protegidos. Já os consumidores dos bens e serviços produzidos por esses
setores pagam mais caro do que se houvesse maior oferta de importados. Se o setor protegido
fornece máquinas, equipamentos e tecnologia, outros setores verão o seu desenvolvimento e
produtividade restringidos pelo aumento do preço desses itens e, em casos extremos, pela
impossibilidade de acesso ao produto estrangeiro.
No Brasil, a Lei de Informática, que restringia o acesso de empresas e cidadãos brasileiros a
computadores e outros bens e serviços de tecnologia de informação de outros países, criou um sério
obstáculo à competitividade brasileira em vários setores. Recentemente, a produção de petróleo no
Brasil, realizada pela Petrobras e por outras empresas do setor, também se viu prejudicada pelas
restrições à importação de equipamentos estrangeiros necessários à extração do produto.

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Formas de protecionismo
Atualmente, muitos economistas defendem o livre comércio. No entanto, os governos,
embora normalmente proíbam o protecionismo entre os diversos estados, províncias e regiões do
próprio país (esse é o caso do Brasil), procurando alcançar a máxima eficiência de produção
dentro do país, tornam-se protecionistas em relação aos produtos estrangeiros. Provavelmente,
fazem isso em busca do apoio de grupos internos poderosos.
A seguir, examinaremos as políticas protecionistas mais utilizadas e as principais razões que
levam os países a adotá-las.

Tarifa sobre importações


Uma tarifa funciona como um imposto sobre a venda do produto importado. Por exemplo,
o governo brasileiro pode criar uma tarifa sobre sapatos importados da China, encarecendo assim
o produto e desencorajando a importação. Dessa forma, a oferta interna encolhe, favorecendo os
produtores nacionais, que podem cobrar mais caro. Nesse caso, ganham os produtores nacionais e
os trabalhadores do setor. O governo também arrecada mais ao impor a tarifa. No entanto, a
população em geral, isto é, os consumidores de sapatos brasileiros, perdem.

Quota de importação
Uma quota de importação é a quantidade máxima de importação de um bem ou serviço
definida por lei. Essa restrição é, normalmente, criada por meio de emissões de licenças de
importação. Assim como na tarifa, a quantidade total do produto ofertado internamente será
menor do que a quantidade em condições de livre comércio, levando a um preço mais alto.
Novamente, ganham os produtores nacionais e os trabalhadores do setor, mas perdem os
consumidores nacionais.
Aqueles que conseguirem as licenças para importar dentro da quota serão privilegiados com
preços mais baixos, podendo revender no mercado interno mais caro. Esse lucro dos detentores
das licenças é denominado renda das quotas e pode ser muito vultoso. Ao contrário da barreira
criada por tarifas, o governo não arrecada com as quotas, pois as distribui gratuitamente.

Restrições voluntárias à exportação


Na década de 1980, o Japão foi persuadido pelos Estados Unidos a limitar,
voluntariamente, as exportações de carros para o mercado americano. Os produtores japoneses
não ficaram tristes com essa limitação, dado que os preços dos carros subiram e as perdas recaíram
sobre os consumidores americanos. Na verdade, a limitação funcionou, para os produtores de
carros japoneses e americanos, como um cartel estabelecido e legalizado pelo governo.

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Outras barreiras não tarifárias
À medida em que as tarifas diminuíram, nas últimas décadas do século XX, foram sendo
criadas barreiras não tarifárias, como exigências sanitárias, sociais, ecológicas, etc.
Atualmente, essas barreiras são muito usadas contra os produtos chineses.

Grandes crises econômicas e políticas protecionistas


Durante as crises econômicas mais severas e de âmbito mundial, como a Grande
Depressão iniciada em 1929, a questão do protecionismo torna-se crítica e muito relevante. As
altas taxas de desemprego e a ociosidade nas indústrias fazem com que a pressão de setores da
economia em busca de barreiras às importações aumente. Cada vez que um cidadão consome
um produto importado, ele está criando empregos no exterior e deixando de criar empregos no
seu país. Nesse ambiente de desemprego, é muito difícil um governo negar o fornecimento de
alguma proteção aos produtos nacionais, principalmente se outros governos estiverem
protegendo os seus mercados internos.
Esse movimento, de levantar barreiras à entrada de produtos estrangeiros visando manter os
empregos é conhecido como a política de empobrecer o vizinho. Um exemplo muito conhecido e
drástico ocorreu em 1930, nos Estados Unidos, com a adoção da Lei de Tarifas Hawley Smoot,
que aumentou as tarifas a um nível proibitivo para importações
O erro implícito nesse raciocínio, aparentemente lógico, consiste no fato de não se levar em
conta que, se todas as nações adotarem a mesma política de proteção, irão empobrecer mutuamente.
A reação de outros países de peso no comércio exterior, como Inglaterra, França e
Alemanha, ao aumento das tarifas de importação americanas foi a de criar as suas próprias
barreiras ao comércio exterior, visando manter os seus empregos. Em resumo, durante a década da
Grande Depressão, a economia mundial desintegrou-se em várias economias isoladas e
autossuficientes. Em outras palavras, todos perderam.
Os países estariam melhores em um ambiente da cooperação internacional, no qual o
comércio fluísse mais livremente. O problema é que o comércio é um jogo não cooperativo: um
país só abre o seu mercado a produtos de outros países se o inverso também ocorrer. Devido às
pressões internas comentadas anteriormente, essa cooperação torna-se extremamente difícil
durante as crises mundiais.
Não por mera coincidência, o reconhecimento da necessidade de cooperação serviu como
inspiração ao acordo de Bretton Woods (1944), por meio do qual começou a ser desenhado o
GATT (General Agreement on Tarifs and Trade), que evoluiria, mais ao final do século, para a
OMC (Organização Mundial do Comércio).

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BIBLIOGRAFIA
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MANKIW, N. Gregory. Introdução à economia: princípios de micro e macro economia. Rio de


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STIGLITZ, Joseph; WALSH, Carl. Introdução à microeconomia. Rio de Janeiro: Elsevier, 2015.

STIGLITZ, Joseph; WALSH, Carl. Introdução à macroeconomia. Rio de Janeiro: Elsevier, 2015.

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PROFESSORA-AUTORA
Nora Raquel Zygielszyper é mestre em Economia e Engenheira Eletricista pela Pontifícia
Universidade Católica do Rio de Janeiro. Atuou como consultora e pesquisadora do Instituto de
Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), onde participou da montagem do banco de dados Ipeadata.
Atua, desde 2001, como professora dos cursos da Escola de Pós-Graduação de Economia da
Fundação Getulio Vargas (EPGE/FGV-RJ), lecioando cadeiras de Economia e Finanças.
Atualmente, é sócia-diretora da Zygel Cursos e Treinamentos Ltda., que presta serviços de
treinamento e consultoria empresarial na área de finanças e avaliação de cenários
macroeconômicos.
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