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Afonso Rosa Soares – Ciências sociais

HARVEY, D. A justiça social e os sistemas espaciais. In: HARVEY, D. A justiça social


e a cidade. São Paulo: Hucitec, 1980. p. 81-100.

No capítulo III do livro “A Justiça social e a cidade”, Harvey discute sobre a justiça
social no âmbito da produção e da distribuição das riquezas, algo que antes, na visão
do geógrafo, era ignorado pelos geógrafos. Harvey analisa as questões que dificultam
uma noção de distribuição justa. Primeiramente, devem-se entender as consequências
de transferir um benefício de um território para outro (o autor cita o “Ótimo de Pareto”,
conceito da economia que se aplica a uma situação que não pode ser melhorada sem
a degradação de outra situação), e em segundo lugar, deve-se ter a noção do que
deve ser distribuído, pois existem preferências individuais que distorcem a
singularidade da distribuição, o que torna o objeto a ser distribuído algo mais complexo
de ser entendido. Com isso, o autor exemplifica o objeto a ser distribuído como a
distribuição de renda, sendo renda o “domínio sobre os recursos escassos da
sociedade”, nas palavras de Harvey sobre uma definição de Titmuss.

Seguidamente, Harvey coloca diversos e diferentes critérios para a distribuição de


renda, são eles, nas palavras dele: “Desigualdade intrínseca (todos os indivíduos
possuem o direito aos benefícios, independentemente de sua contribuição)”,
“Valorização de serviços em termos de oferta e demanda” (indivíduos detentores de
recursos escassos e cruciais terão mais benefícios que os demais), “Necessidade”
(quantidades iguais de benefícios para todos, sem considerar as necessidades
individuais de cada pessoa), “Direitos herdados” (benefícios concedidos por gerações
passadas dos indivíduos), “Mérito” (meritocracia baseada no grau de dificuldade da
contribuição, por exemplo, no nível de qualificação ou riscos necessários para o
contribuinte), “Contribuição ao bem comum” (indivíduos que beneficiam mais pessoas
têm maior reivindicação de benefícios), “Contribuição produtiva atual” (benefícios são
dados de acordo com a produção do indivíduo, se produz mais, recebe mais) e por
fim, os “Esforços e sacrifícios” (indivíduos que fazem grande esforço ou requerem
sacrifícios devido a sua capacidade inata devem receber mais benefícios do que os
que não necessitam dispor de sacrifícios). O geógrafo destaca a importância de três
destes critérios, em ordem crescente de importância: o “mérito”, a “contribuição ao
bem” comum e, por fim, a mais importante sendo a “necessidade”. Em seguida,
Harvey formula uma noção de justiça distributiva territorial que dialoga com os critérios
antes definidos, ou seja, as necessidades, as contribuições ao bem comum e os
méritos impostos pelo território.

A necessidade apresenta um problema quanto a sua relatividade. O que é necessário


para um poder não ser necessário para outro, além de que as necessidades podem
variar de acordo com tempo (o que hoje é necessário pode não ser amanhã). Por isso,
Harvey elenca nove necessidades constantes no tempo, sendo elas: alimento,
habitação, cuidados médicos, educação, serviço social e ambiental, bens de consumo,
oportunidades de lazer, amenidades de vizinhança e facilidades de transporte.
Existem diversas formas de prover estas necessidades, porém, elas devem estar de
acordo com as normas sociais da sociedade. Harvey cita o exemplo de que “a
necessidade de habitação pode ser resolvida de numerosas maneiras, mas
atualmente ela não incluiria [...] viver em barracos, choupanas, tendas, casas
improvisadas e similares”. Isso implica em subcategorias que podem ser descartadas
de acordo com as normais sociais de cada sociedade. Ele exemplifica também os
serviços de saúde, que englobam diversas áreas da saúde, sendo uma delas, a
cosmética cirúrgica, e que, em nossa sociedade, é julgada como não essencial. Com
isso, coloca que há métodos para definir a necessidade de tais subcategorias, sendo
eles: necessidade pela demanda de mercado (maior demanda implica uma maior
necessidade), a demanda latente (indivíduos que não possuíssem tal subcategoria
fossem privados caso não recebessem serviços específicos), demanda potencial
(fatores que geram problemas de saúde particulares como migração, idade, etc.), a
consulta de especialistas que determinariam a necessidade de forma científica e
baseada na escassez de tal serviço. Estes métodos devem ser utilizados buscando a
justiça social, e o autor especifica situações em que tal método é mais indicado do que
outro, como a exclusão da demanda de mercado no caso da saúde.

Quanto à contribuição ao bem comum, Harvey comenta que “a tecnologia existente


deveria ser usada para aumentar nosso conhecimento das transferências de renda
inter-regionais, ligações inter-regionais, efeitos de expansão territorial, etc.”, e o autor
propõe que seja feita uma reforma da maneira que se dão estas transferências ou uma
reestruturação da forma como as transferências são feitas, buscando uma forma de
organização espacial que visará o bem comum.

Por fim, o “Mérito” é um benefício dado a grupos que vivam em áreas de risco e que
não possuam condições de sair destas áreas, ou seja, o Mérito é baseado no grau de
dificuldade que o individuo tem para contribuir para o bem comum.
Em seguida, Harvey discute sobre a distribuição justa. Ambos os espectros políticos
buscam a distribuição justa da renda para toda a sociedade, a diferença se encontra
nos meios socialmente justos em que cada um tem sua própria perspectiva. Libertários
propõem que o mercado leva a uma distribuição socialmente justa. O Marxismo
entende que os meios de produção e distribuição são a chave para a distribuição da
renda. O argumento do cientista político John Rawls (autor de Uma Teoria da Justiça)
que diz que “O problema fundamental da justiça distributiva refere-se às diferenças de
perspectivas de vida que definem esse modo”, reforçando a ideia de Harvey de que a
problematização da distribuição justa está nas diferenças entre os indivíduos e suas
necessidades. Os Marxistas apresentam a solução colocando a palavra final nas mãos
dos “menos afortunados”, nas palavras de Harvey. Já Rawls, como um liberal, propõe
que as necessidades mínimas sejam satisfeitas por meio da distribuição justa, e, com
a igualdade de oportunidade dada pela educação para todos, a distribuição final será
justa. Raws propõe quatro instituições do governo que mantenham as condições para
que todos possuam iguais condições e a distribuição se dê de forma eficaz: Uma
agência de alocação que manterá o mercado ativo, competitivo e sem falhas, uma
agência responsável por manter o pleno emprego, uma agência de transferência para
que necessidades do indivíduo sejam asseguradas, e por fim, uma agência de
distribuição de bens públicos que evitará concentrações de poder e riqueza. Harvey
coloca que, tanto os mecanismos do socialismo pós-guerra na Inglaterra quanto os
programas liberais estado-unidenses não obtiveram êxito, pois buscavam alterar a
estrutura da produção de renda e riquezas do capitalismo.

Ao final do capítulo, conclui-se a respeito da justiça social territorial, e se definem


passos para alcança-la: a compreensão das necessidades da população dentro de
cada território (que variam de acordo com o território), recursos alocados para um
efeito multiplicador inter-territorial (Efeito multiplicador é um conceito da economia
onde uma variável interior se modifica de acordo com uma variável exterior, buscando
a maximização dos recursos alocados) e também que os recursos extras fossem
utilizados para a correção de especificidades que podem vir a surgir no meio físico e
social. Também coloca que o território menos favorecido necessita de uma atenção
especial. Dessa forma e com estes mecanismos, dá-se a compreensão das
necessidades de cada população de acordo com o território em que vivem nas suas
condições físicas, sociais, políticas e econômicas, e entendendo estas características
e que cada território possui sua singularidade, a distribuição justa deve ser feita de
acordo com a singularidade de cada população e território.