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ISSN: 2448-2900

I SEMINÁRIO REGIONAL DE PESQUISA E


INOVAÇÃO EM SEGURANÇA PÚBLICA

ISSN: 2448-2900
Seminário Regional de Pesquisa e Inovação em Segurança Pública (1.: 2015: Florianópolis, SC).
Anais do I Seminário Regional de Pesquisa e Inovação em Segurança Pública, 20 e 21 out.
em Florianópolis, SC. / coordenação Jorge Eduardo Tasca, Augusto César da Silva, Elaine
Aparecida Teixeira Pereira, Florianópolis, PMSC, 2015.
ISSN: 2448-2900
1. Segurança pública.  2. Pesquisa.  3. Inovação.  4. Polícia Militar (SC).  I. Tasca, Jorge
Eduardo  II. Silva, Augusto César da.  III. Pereira, Elaine Aparecida Teixeira.  IV. Título.
CDD – 363.2

Ficha catalográfica elaborada por Inez Helena Garcia – CRB – 14/950


Biblioteca do CEPM (Cap. Oscar Romão da Silva)

Como referenciar esta publicação:


Seminário Regional de pesquisa e inovação em segurança pública. I. , 2015, Florianópolis. Anais...
Florianópolis: PMSC, 2015, 102 p.
Governador do Estado de Santa Catarina
João Raimundo Colombo

Vice-Governador do Estado de Santa Catarina


Eduardo Pinho Moreira

Secretário de Estado da Segurança Pública de Santa Catarina


César Augusto Grubba

Comandante Geral da Polícia Militar de Santa Catarina


Coronel PM Paulo Henrique Hemm

Diretor de Instrução e Ensino da Polícia Militar de Santa Catarina


Coronel PM José Aroldo Schlichting

Comandante da Academia de Polícia Militar da Trindade


Tenente-coronel PM Marcos Vieira

Comandante do Centro de Formação e Aperfeiçoamento de Praças


Tenente-coronel PM Renato José de Souza

Diretor do Colégio Policial Militar Feliciano Nunes Pires


Tenente-coronel PM João Carlos Neves Júnior

COMITÊ CIENTÍFICO

Ana Luiza Rosa (CFNP/CEPM)

Ana Paula Knaul (CED/UFSC)

Arlene Sousa da Silva Villela (DivE/CEPM)

Dilva Páscoa De Marco Fazzioni (DivE/CEPM)

Dionei Tonet (DivE/CEPM)

Gabriel Souto (CFAP/CEPM)

Inez Helena Garcia (DivE/CEPM)

João Artur de Souza (PPGEGC/UFSC)

Miguel Ângelo Silveira (CFNP/CEPM)

Paula Cabral (UFSC)

Sandra Aparecida Machado dos Reis (DivE/CEPM)

Úrsula Blattmann (PGCIN/UFSC)

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EQUIPE DE TRABALHO DO ISEMINÁRIO REGIONAL DE PESQUISA E INOVAÇÃO
EM SEGURANÇA PÚBLICA: OS 50 ANOS DO CENTRO DE ENSINO DA POLÍCIA
MILITAR DE SANTA CATARINA

COORDENAÇÃO DO EVENTO

Major PM Jorge Eduardo Tasca


(Estado Maior/PM)

Capitão PM Augusto César da Silva


(Divisão de Ensino)

Elaine Aparecida Teixeira Pereira, pedagoga


(Divisão de Ensino)

ORGANIZAÇÃO DO EVENTO

Tenente-coronel PM Dionei Tonet


(Divisão de Ensino)

Major PM Arlene Sousa da Silva Villela


(Divisão de Ensino)

Major PM Gabriel Souto


(Centro de Formação e Aperfeiçoamento de Praças)

Capitão PM Thiago Matias Fonseca


(Centro de Formação e Aperfeiçoamento de Praças)

Primeiro-sargento PM Marcio Luiz Drumond Moutinho


(Divisão de Ensino)

Soldado PM Juliano Pedro Nascimento


(Centro de Formação e Aperfeiçoamento de Praças)

Inez Helena Garcia, bibliotecária


(Divisão de Ensino)

Dilva Páscoa De Marco Fazzioni, bibliotecária


(Divisão de Ensino)

Sandra Aparecida Machado dos Reis, pedagoga


(Divisão de Ensino)

Agente temporário PM Amanda Barbosa Corrêa da Silva


(Divisão de Ensino)

ARTE DO MATERIAL DE DIVULGAÇÃO

Cadete PM Nicolas Vasconcelos Marques


(Academia de Polícia Militar da Trindade)

Cadete PM Waldir Navarro Bezerra Junior


(Academia de Polícia Militar da Trindade)

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SUMÁRIO

ATENÇÃO AO DIRIGIR: DETERMINAÇÃO LEGAL OU OPÇÃO PELA VIDA?............................... 7


José Onildo Truppel Filho
Silvio Serafim da Luz Filho

O EMPREGO DA ARMA DE FOGO NA ABORDAGEM POLICIAL............................................... 19


Miguel Ângelo Silveira
Giovani de Paula

A ANDRAGOGIA NO APRIMORAMENTO DIDÁTICO DAS INSTRUÇÕES POLICIAIS


MILITARES........................................................................................................................................ 30
Iloir Adur de Oliveira Junior

CONSTRUINDO COMUNIDADES SEGURAS: ESTRATÉGIAS PARA UMA INTERVENÇÃO


TÉCNICA DA POLÍCIA MILITAR EM ESPAÇOS URBANOS.......................................................... 41
Eduardo Moraes Rieger
Jorge Eduardo Tasca

A MEDIAÇÃO POLICIAL NAS AÇÕES DE REINTEGRAÇÃO DE POSSE: O CASO PROJETO


HABITACIONAL FLORESTA I E II.................................................................................................... 54
Marcelo Victor Duarte Corrêa
Wagner Luiz de Menezes

PROCESSOS DE INOVAÇÃO: ESTUDO DE CASO NA POLÍCIA RODOVIÁRIA FEDERAL........ 65


Rodrigo Kraemer
João Artur de Souza

VEÍCULOS AÉREOS NÃO TRIPULADOS: POSSIBILIDADES DE EMPREGO NO CORPO DE


BOMBEIROS MILITAR DE SANTA CATARINA............................................................................... 74
Pedro Cabral Reis da Silva
Alexandre Corrêa Dutra

AVALIAÇÃO DO CURSO DE APERFEIÇOAMENTO DE SARGENTOS 2014 -1


MODALIDADE EAD COM O CURSO 2013-1 MODALIDADE PRESENCIAL.............................. 86
Márcia Maria Constantino Sálvio

GEOTECNOLOGIAS COMO FERRAMENTAS AUXILIARES NA FISCALIZAÇÃO


AMBIENTAL...................................................................................................................................96
Camile Sothe

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ATENÇÃO AO DIRIGIR: DETERMINAÇÃO LEGAL
OU OPÇÃO PELA VIDA?

José Onildo Truppel Filho1


Silvio Serafim da Luz Filho2

RESUMO: Segundo o IPEA (BRASIL, 2015, p. 11), mais de 32% dos acidentes
de trânsito ocorridos nas rodovias federais brasileiras têm como causa a
falta de atenção. Este trabalho visa alertar os órgãos e os condutores sobre a
importância de se analisar as causas das ocorrências de acidentes, podendo
melhor direcionar esforços estatais. O estudo foi dividido em: introdução,
dados estatísticos, classificação dos acidentes, causa dos acidentes, análise e
considerações finais. Verificou-se a necessidade de desenvolver campanhas
educativas voltadas à condução atenciosa de veículos automotores, bem como
maior fiscalização para que os ditames legais afetos à área sejam obedecidos.
Estudar os acidentes de trânsito permite identificar pontos a serem abordados
em ações dos órgãos de trânsito, promovendo a tão almejada segurança viária.

Palavras-chave: Trânsito. Acidentes. Falta de atenção.

1 INTRODUÇÃO
Há anos, os estudiosos que se dedicam à área de trânsito vêm afirmando que a expres-
siva maioria dos acidentes de trânsito no Brasil ocorre por conta das ações irresponsáveis do
homem, quando na direção de veículo automotor. Rozestratem (1988, p. 8) afirmava: “peça de
maior importância no sistema de trânsito, o homem é o subsistema mais complexo, no qual há
muitos fatores em jogo. Por isso é a maior fonte de acidentes”.
O autor Waldyr de Abreu (1989, p. 9) indica essa (ir)responsabilidade com percentuais:
“as melhores estatísticas estão demonstrando que mais de 60 a 80% dos acidentes de trânsito
ocorrem por conta de erros dos motoristas, embora não raro em concurso com a estrada e o
veículo inseguros”.

1  Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Engenharia e Gestão do Conhecimento – EGC/UFSC. Graduado


em Direito (Univali) e Formação de Oficiais (PMSC). Especialista em Direito e Gestão de Trânsito (Cesusc) e em
Gestão de Segurança Pública (Unisul). Professor do Curso Superior de Tecnologia em Segurança no Trânsito da
Unisul e na APMT/PMSC. Major da PMSC. E-mail: jose.truppel@gmail.com
2  Graduado em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná – PUC/PR. Mestre em Administração
(UFRGS). Doutor em Educação pela Universidade de São Paulo – USP. Professor visitante na UFSC, no Programa
de Pós-Graduação em Engenharia e Gestão do Conhecimento da Universidade Federal de Santa Catarina – EGC/
UFSC. E-mail: silvioserafim@bol.com.br

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A atenção é fundamental para quem se encontra no trânsito, como vemos nas pala-
vras de Rozestraten (1988, p. 22): “tanto o motorista quanto o pedestre devem estar atentos ou
vigilantes e em busca de estímulos que podem ser importantes para seu comportamento no
trânsito”.
A necessidade da atenção no trânsito é reforçada por Santos (2007, p. 15), quando com-
para a condução nos mais diversos tipos de transporte:

O condutor de um veículo motorizado, o motorista, tem que se manter em estado de


alerta constante durante cada segundo em que se encontra ao volante e consciente
de que está sempre correndo risco de um possível acidente, pois se perde a vida em
questão de segundo.

O autor faz a afirmação quando observa que em todos os outros meios de transporte –
trem, avião e navios – existem outras pessoas, equipes e mesmo sistemas de monitoramento que
auxiliam na condução, enquanto a condução do veículo automotor em vias terrestres abertas à
circulação é feita somente pelo motorista.
O mais interessante nesse contexto é que mesmo o condutor sabendo que está no trân-
sito com parcos recursos para lhe auxiliar, ainda ignora alguns dos elementos de ajuda, como a
sinalização de trânsito, a qual deixa de dispensara atenção necessária para vê-la, interpretá-la e
aplicá-la na condução de seu veículo.
Biavattie Martins (2007, p. 36) apontam para a necessidade de as pessoas passarem a
assumir a responsabilidade pelo trânsito e pelos transtornos que causam:

Em vez de continuar dizendo que todo acidente é “um acidente”, a gente deveria
começar a ir atrás das responsabilidades, ou das irresponsabilidades, de cada um. E
descobriríamos que o tal acidente não teve uma causa apenas. Pelo contrário, a maior
parte dos acidentes nas cidades e estradas acontece pela combinação de várias coisas
em um momento decisivo, e muitas delas estão ligadas a uma ação humana.

Nesse contexto, no qual se juntam informações da necessidade de atenção ao trânsito


é que se pretende analisar as ocorrências de acidente de trânsito nas rodovias federais de Santa
Catarina, nos primeiros trimestres dos anos de 2014 e 2015, bem como demonstrar a responsa-
bilidade do homem nos acidentes de trânsito, enquanto dirige com “falta de atenção”.
E para bem discutir o assunto proposto, o estudo partiu de um questionário aplicado
à 8ª Superintendência de Polícia Rodoviária Federal, responsável pelo patrulhamento das ro-
dovias federais de Santa Catarina, que forneceu os dados estatísticos. Em seguida, passou-se ao
debate destes dados e das intercorrências de estímulos havidas na direção veicular, a partir de
conceitos definidos. Assim, como metodologia, tem-se então uma análise documental realizada
a partir de dados estatísticos de órgão público oficial.

2 DADOS ESTATÍSTICOS
A Polícia Rodoviária Federal – PRF – cataloga as informações de acidentes de trânsito
ocorridos nas rodovias federais de todo o território nacional. Porém, para que seja possível uma
análise mais aproximada, entende-se por bem promover a busca de informações referentes ao
Estado de Santa Catarina.
Além dessa delimitação do escopo, ainda se junta à necessidade da determinação tem-
poral da busca. Para isso, utilizaram-se dados dos meses de janeiro, fevereiro e março dos anos

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de 2014 e de 2015, período no qual o fluxo de veículos no território catarinense aumenta con-
sideravelmente, em virtude da temporada de verão e da presença de turistas de diversas regiões
brasileiras, bem como de países vizinhos, como Argentina, Uruguai, Paraguai e Chile. Na mes-
ma esteira, foram utilizados dados de dois anos diversos e consecutivos para determinar que são
constantes ou que ocorrem com periodicidade.
Assim, apresentam-se dois quadros com as primeiras informações estatísticas:
Tabela 1: Total de Acidentes ocorridos em Santa Catarina – 1º trimestre

Total de Acidentes em SC 1º trimestre 2014 1º trimestre 2015


Acidentes 4.831 4.274
Feridos 2.755 2.581
Mortos 132 116

Fonte: Adaptado pelo autor (BRASIL; PRF, 2015b)

Tabela 2: Acidentes ocorridos por Falta de Atenção em Santa Catarina – 1º trimestre

Acidentes por Falta de Atenção 1º trimestre 2014 1º trimestre 2015


Acidentes 1.994 1.757
Feridos 988 909
Mortos 24 19

Fonte: Adaptado pelo autor (BRASIL; PRF, 2015b)

Porém, antes de se iniciar qualquer tipo de análise para se identificar a quantidade e o


quão significante são esses números, é importante que seja esclarecido como a Polícia Rodoviá-
ria Federal catalogou esses dados.
Para isso, será utilizado como fonte de consulta o Manual de atendimentos de acidentes
daquele órgão, cuja última versão é de 2015, tendo as definições e os conceitos bem atualizados.
Nesse momento, é importante identificar o que seja um acidente de trânsito: “3. ACI-
DENTE DE TRÂNSITO: a Polícia Rodoviária Federal entende como acidente de trânsito todo
acontecimento não premeditado do qual resulte em danos materiais e/ou pessoais, envolvendo
veículo na via pública”. (BRASIL, PRF, 2015a, p. 5).
Para a Associação Brasileira de Normas Técnicas – ABNT (1989, p. 1) tem-se a seguinte
definição:

3.1.1 Acidentes de Trânsito


Todo evento não premeditado que resulte dano em veículo ou na sua carga e/ou lesões
em pessoas e/ou animais, em que pelo menos uma das partes está em movimento
nas vias terrestres ou áreas abertas ao público. Pode originar-se, terminar ou envolver
veículo parcialmente na via pública.

Ranvier Feitosa Aragão (2011, p. 106) tem definição um pouco diversa para caracteri-
zar um acidente de trânsito ou de tráfego:

[...] é acontecimento involuntário, inevitável e imprevisível, ou inevitável mas


previsível, ou ainda, imprevisível mas evitável, do qual participam, pelo menos, um
veículo em movimento, pedestres e obstáculos fixos, que ocorre de forma isolada ou
conjunta numa via terrestre, resultando danos ao patrimônio, lesões físicas ou morte.

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Essa última definição é um pouco mais complexa, porém, talvez seja a mais interes-
sante para o presente estudo, pois bem caracteriza um acidente de trânsito e algumas de suas
nuances, já que leva em consideração que um acidente pode ser previsível, muito embora seja
inevitável do ponto de vista da segurança imposta pelos órgãos de trânsito.
Ocorrido o acidente, há necessidade de se realizar o levantamento do local, para que
possam ser registradas todas as informações referentes ao evento. Assim, temos:

6. ATENDIMENTO DE ACIDENTE: conjunto de atos realizados pelo PRF no local


do acidente, com a finalidade de auxiliar os usuários diretamente envolvidos na
ocorrência e garantir a segurança destes e dos demais usuários da via. Inclui-se no
atendimento a coleta das informações necessárias a subsidiar qual tipo de registro que
a ocorrência demandará (BAT ou e-DAT). (BRASIL, PRF, 2015a, p. 5).

Aqui surge uma informação que pode ser importante para o presente estudo, uma vez
que nem todos os acidentes são devidamente registrados junto aos órgãos de trânsito, existindo
a chamada subnotificação, ou seja, aqueles acidentes que sequer chegam ao conhecimento das
autoridades. Nas palavras de Biavatti e Martins (2007, p. 35), “um carro que bate em outro num
cruzamento, mas só quebra um farol, não é contado como acidente, porque raramente alguém
registra isso”.
Não há como se precisar o quantitativo dessa subnotificação. Dessa feita, fica ainda
mais claro o alcance da pesquisa, pois serão considerados os atendimentos de ocorrências de
acidente de trânsito que foram devidamente registrados pela Polícia Rodoviária Federal.

2.1 CLASSIFICAÇÃO DOS ACIDENTES


Para que se possa melhor identificar e separar os acidentes por semelhanças, a Polícia
Rodoviária Federal elencou algumas classificações que melhor se adaptaram ao seu cotidiano.
É interessante registrar que essa classificação dos tipos de acidentes é particularmente
utilizada pela PRF, já que até encontra algumas semelhanças com a disponível na NBR 10.697,
mas não é a mesma. A classificação a ser apresentada também não encontra amparo no Manual
de Procedimentos do Sistema Nacional de Estatísticas de Acidentes de Trânsito – SINET (BRA-
SIL, DENATRAN, 2000, p. 8), que foi instituído pelo Denatran.
Assim, temos:
Tabela 3: Classificação dos Acidentes

PRF NBR 10.697 SINET


Tipos Tipos Natureza do acidente
Fatores Contribuintes Fatores Geradores de Acidentes - -*
Causas presumíveis - -* - -*

*A normatização não apresentou a classificação indicada


Fonte: Adaptado pelo autor (ABNT, 1989; BRASIL; DENATRAN, 2000)

Assim, temos os tipos de acidentes, os quais, segundo a PRF (BRASIL, PRF, 2015a, p.
11), podem ser:

- Atropelamento de pessoas ou animais;


- Capotamento;

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- Tombamento;
- Colisão:
Transversal;
Com objeto estático;
Com objeto móvel;
Frontal;
Lateral;
Traseira;
- Engavetamento;
- Derramamento de carga;
- Incêndio;
- Queda de ocupante de veículo;
- Saída de pista;
- Danos eventuais.

Como se vê, a lista é grande e tenta deixar bem claro o tipo de acidente ocorrido, divi-
dindo aqueles que são considerados mais comuns, ou seja, aqueles que mais ocorrem, de uma
forma que facilite a sua identificação logo pelo nome.
Mas como é que o Policial Rodoviário Federal, na ocasião do atendimento da ocorrên-
cia de acidente de trânsito define o tipo de acidente? Essa determinação vem descrita no próprio
manual, quando determina:

38. O tipo será determinado conforme a dinâmica do acidente. O policial deverá colher
todas as informações referentes ao caso: as diretamente acessíveis no local, as recebidas
dos participantes e das testemunhas, se houver, e as decorrentes dos vestígios materiais
encontrados. Ele deverá também observar detalhadamente as sedes de impacto das
unidades de tráfego envolvidas, a conformação dos danos e orientação das avarias,
quanto às direções longitudinal e transversal (BRASIL, PRF, 2015a, p. 11).

Não obstante a classificação apresentada como tipo de acidente, o Manual da Polícia


Rodoviária Federal apresenta uma outra classificação para os acidentes, que são os Fatores Con-
tribuintes para a ocorrência do Acidente de Trânsito:

- Fator Humano;
- Fator Veículo;
- Fator Via;
- Fator Meio Ambiente (BRASIL, PRF, 2015a, p. 13).

Essa informação, segundo consta no Manual da PRF, servirá apenas para fins estatísti-
cos, não sendo apresentado no Boletim do Acidente de Trânsito, que é entregue aos envolvidos
em acidente. No entanto, segue aqui mais uma forma de se fazer juntar acidentes pelas seme-
lhanças dos prováveis fatores que contribuíram para o acidente de trânsito.
Já no Capítulo IV do Manual da PRF (BRASIL, PRF, 2015a, p. 14) temos relacionadas
as Causas Presumíveis dos acidentes de trânsito, como sendo:

- Animais na Pista;
- Defeito mecânico em veículo;

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- Defeito na Via;
- Desobediência à sinalização;
- Dormindo;
- Falta de atenção à condução;
- Falta de atenção do pedestre;
- Ingestão de álcool;
- Ingestão de substâncias psicoativas;
- Não guardar distância de segurança;
- Ultrapassagem indevida;
- Velocidade incompatível;
- Pista escorregadia;
- Obstáculo estático sobre a via;
- Carga mal acondicionada;
- Avaria no pneu;
- Deficiência ou não acionamento do sistema de iluminação/ sinalização do veículo;
- Sinalização insuficiente ou inadequada na via;
- Restrição de visibilidade;
- Fenômenos da natureza;
- Mal súbito.

Da mesma forma que a informação anterior (Fatores Contribuintes para o acidente de


trânsito), essas informações selecionadas pelo Policial Rodoviário Federal na ocasião do preen-
chimento do Boletim de Acidente de Trânsito como “causa presumível” da ocorrência servem
apenas para fins estatísticos, não sendo impressa no documento final, que é entregue aos inte-
ressados (BRASIL, PRF, 2015a, p. 16).
Ao atender o acidente de trânsito, ou seja, ao efetivar o levantamento do local do aci-
dente, o Policial Rodoviário Federal deve definir qual causa levou ao acontecimento de trânsito.
Entre as diversas causas que já se elencou, uma se encaixa exatamente no que se estuda, “a falta
de atenção à condução”.
Mais uma vez se recorre ao manual da PRF para saber em quais ocasiões o Policial Ro-
doviário Federal deve definir como sendo essa a causa presumível, senão vejamos:

69. FALTA DE ATENÇÃO À CONDUÇÃO: decorre do comportamento desatento do


condutor em razão de fatores distrativos ou não, que o levem à percepção retardada do
perigo, tais como: falar ao celular, manusear equipamentos, conversar com passageiros,
não observar os retrovisores, errar percurso, realizar manobras inadequadas, manuseio
errôneo do veículo, etc. (BRASIL, PRF, 2015a, p. 14).

Com isso entende-se que fica clara a forma como são catalogadas as informações refe-
rentes aos acidentes de trânsito por parte dos integrantes da Polícia Rodoviária Federal, órgão
que faz parte do Sistema Nacional de Trânsito, segundo consta no art. 7º, V combinado com o
art. 20, ambos do Código de Trânsito Brasileiro (BRASIL, 1997).
Registre-se que esse é o órgão que atende aos acidentes em todas as rodovias federais,
sejam elas da administração própria do Governo Federal ou mesmo aquelas que se encontram
sob concessão.

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2.2 CAUSA DO ACIDENTE


Determinar a causa de cada um dos acidentes é fator preponderante para que as auto-
ridades possam dedicar seus esforços para debelá-las e, com isso, dar mais segurança ao trânsito
de veículos e de pessoas nas vias terrestres.
Assim, cada vez que se inventaria um acidente de trânsito e se consegue determinar a
causa, as informações são ainda mais importantes para as autoridades, principalmente as diri-
gentes dos órgãos de trânsito. Os envolvidos normalmente o discutem judicialmente, cuja auto-
ridade judiciária poderá, à luz do que for apresentado nos autos e do direito, decidir de maneira
diversa.
Lino Leite de Almeida (2011, p. 269) afirma que o acidente de trânsito “é um fenômeno
complexo”, em virtude de existirem várias interfaces envolvidas, sejam elas humanas, da física,
do ambiente, entre outras que poderiam ser aqui citadas.
Por conta disso, o autor afirma a importância de se determinar a causa do acidente de
trânsito: “Para entender o acidente de trânsito e buscar uma solução para cada tipo de ocorrência,
ou seja, buscar a causa determinante, faz-se necessário que se entenda o fenômeno como o con-
junto de fatores que contribuíram para que o evento tenha ocorrido” (ALMEIDA, 2011, p. 269).
E continua: “dentre os fatores que contribuem para que o acidente de trânsito ocorra,
sempre haverá pelo menos um fator que é a causa determinante do acidente” (ALMEIDA, 2011,
p. 269).
Aragão (2011, p. 12) entende que causa “[...] é o evento primeiro na corrente dos acon-
tecimentos, sem o qual o acidente não ocorreria”.
Já Almeida (2011, p. 270) entende que “causa é o evento principal na corrente dos acon-
tecimentos, sem o qual o acidente não ocorreria”. Esse autor descreve que seu conceito é uma
adaptação ao determinado por Aragão, quando escreveu sobre a causa do acidente de trânsito,
ou seja, é uma adaptação daquele.
E Almeida ainda explica um pouco mais sobre a causa do acidente:

A causa determinante do acidente é aquela que produziu o efeito direto, ou seja,


aquela que produz o acidente efetivamente. O liame entre a causa e o efeito deve ser
consistente, de tal modo que se possa argumentar que o fator que produziu o acidente,
se retirado, o acidente não ocorreria. Aqui não se consideram efeitos secundários ou
efeitos posteriores ao acidente em si, que não se pode relacionar à causa principal do
acidente (ALMEIDA, 2011, p. 270).

Como se vê, determinar a causa do acidente não é ação simples. Trata-se de um exer-
cício bastante complexo que, além do conhecimento técnico, é necessária a preparação prática
do agente que efetivamente estará no local do acidente, para que possa verificar e interpretar as
marcas e “rastros” deixados no local.

3 ANÁLISE
Fazer uma avaliação dos dados disponibilizados pela Polícia Rodoviária Federal é im-
prescindível para que se possa entender a importância do estudo, bem como enfatizar o quanto
o fator humano, no que diz respeito à necessidade de atenção, interfere e dá causa aos acidentes
de trânsito.

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Assim, voltar-se-á aos dados dos acidentes de trânsito, só que agora de uma forma mais
complexa, para que possam ficar mais claras essas premissas.
Tabela 4: Acidentes ocorridos em Santa Catarina por tipo – 1º trimestre

Acidentes por Tipo em SC 1º trimestre 2014 1º trimestre 2015


Animais na Pista 31 0,6% 25 0,6%
Defeito mecânico em veículo 193 4,0% 161 3,8%
Defeito na via 37 0,8% 50 1,2%
Desobediência à sinalização 327 6,8% 296 6,9%
Dormindo 102 2,1% 79 1,8%
Falta de atenção 1.994 41,3% 1.757 41,1%
Ingestão de álcool 235 4,9% 214 5,0%
Não guardar distância 616 12,8% 560 13,1%
Outras 675 14,0% 642 15,0%
Ultrapassagem indevida 121 2,5% 95 2,2%
Velocidade incompatível 500 10,3% 395 9,2%
Total 4.831 100% 4.274 100%

Fonte: Adaptado pelo autor (BRASIL; PRF, 2015b)

Em um primeiro momento, pode-se constatar pelo número de acidentes ocorrido nos


dois períodos – 1º trimestre de 2014 e 2015 – sob análise, que o total de acidentes teve uma sig-
nificativa redução, de 4.831 para 4.274. Isso significa uma diminuição, em números absolutos, de
557 acidentes, que significa 11,5% de acidentes a menos em relação ao período do ano anterior.
Com esses números totais reduzidos de um período em análise para o outro, também
se pode verificar que o número de ocorrências de acidentes de trânsito cuja causa foi a falta de
atenção reduziu. No primeiro trimestre de 2014 houve 1.994 e no primeiro trimestre de 2015
esse número ficou em 1.757. Em números absolutos são 237 acidentes a menos, ou seja, uma
diminuição de 11,9% de um ano para o outro.
É de se registrar, porém, que o percentual de acidentes de trânsito que ocorrem por
conta da falta de atenção permanece o mesmo. Muito embora tenha havido uma redução nomi-
nal no número de acidentes por esse motivo, houve a manutenção no percentual de acidentes
que ocorreram pela falta de atenção em relação ao total de acidentes:
- No primeiro trimestre de 2014 foram 4.831 acidentes de trânsito nas rodovias federais
de Santa Catarina. Desses, 1.994 ocorreram pela falta de atenção dos condutores. Isso significa
que 41,3% desses acidentes ocorreram por essa específica desídia do condutor.
- Em 2015, quando se analisa o mesmo período, temos a ocorrência de um total de
4.274 acidentes. Desse total, 1.757 também ocorreram pela falta de atenção dos condutores dos
veículos. O percentual de acidentes específicos analisados pela pesquisa se manteve em patamar
muito parecido, ou seja, 41,1% deles tiveram a mesma causa.
Isso significa dizer que muito embora tenha havido uma redução no número absoluto
dos acidentes de trânsito, houve uma manutenção no percentual de acidentes cuja causa foi a
falta de atenção, tendo como base o total de acidentes.

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I SEMINÁRIO REGIONAL DE PESQUISA E INOVAÇÃO EM SEGURANÇA PÚBLICA

A pesquisa feita junto à Polícia Rodoviária Federal de Santa Catarina nos dois períodos
de estudos enumerou as dez principais causas de acidentes de trânsito, e numa décima primeira
colocou as “outras”, de menos importância em termos de número.
A segunda ocorrência de maior volume é a de “não guardar distância de segurança”,
sendo essa responsável por 616 (12,8% do total) acidentes no primeiro trimestre de 2014 e por
560 (13,1% do total), no mesmo período de 2015. Da mesma forma que a anterior, manteve os
percentuais do total de acidentes em valores muito parecidos.
A terceira maior causa de acidentes de trânsito nas rodovias federais que cortam o
território catarinense é a “velocidade incompatível”. No primeiro trimestre de 2014 foram 500
(10,3% do total) acidentes e no mesmo período de 2015 foram 395, ou seja, 9,2% do total das
ocorrências. Essa causa teve uma redução um pouco mais significativa.
Isso significa dizer que somente a causa “falta de atenção” é responsável por quase a
metade do total de acidentes de trânsito ocorridos nas rodovias federais de Santa Catarina nos
períodos sob análise. A soma de todas as demais nove causas (foi excluída a causa ‘outras’ por
ser indeterminada e ser a soma de várias) de acidentes de trânsito, enumeradas pela PRF de SC
no levantamento estatístico efetuado dá conta de 43,9% do total de acidentes em 2014 e 44,8%
em 2015.
Esse percentual não é diferente dos dados estatísticos apresentados pelo IPEA (BRA-
SIL, IPEA, 2015, p. 11), em recente pesquisa divulgada, quando aponta que a principal causa
desses acidentes, apurada pela PRF em todo o Brasil no ano de 2014, foi a “falta de atenção”,
sendo responsável por 32,6% do total registrado em todas as rodovias federais, como pode ser
verificado no gráfico abaixo.
Gráfico 1: Causa dos acidentes de trânsito no Brasil no ano de 2014 (em %)

Fonte: Adaptado pelo autor (IPEA; BRASIL, 2015, p. 11 )

É certo apontar que Santa Catarina está um pouco acima da média nacional, uma vez
que registrou 41,3% dos acidentes como sendo pela “falta de atenção à condução”, enquanto a
média nacional ficou em 32,6% do total de acidentes.
Não há como se ignorar os números apresentados, uma vez que demonstram o quanto
os condutores estão faltando com a atenção ao dirigir seus veículos.

15
I SEMINÁRIO REGIONAL DE PESQUISA E INOVAÇÃO EM SEGURANÇA PÚBLICA

Mas voltemos um pouco no conceito que o Manual da Polícia Rodoviária Federal


aponta como sendo falta de atenção, tentando conceituar a ação: “decorre do comportamento
desatento do condutor em razão de fatores distrativos ou não, que o levem à percepção retarda-
da do perigo [...]” (BRASIL, PRF, 2015a, p. 14).
Como já apontado anteriormente, o comportamento do condutor deve ser de atenção
às suas ações, permitindo que consiga antever os problemas e reagir a tempo de evitar os aci-
dentes.
Dispor dessa atenção ao trânsito é fator imprescindível, pois o ambiente em que está
inserido o trânsito é fonte de muitas informações, como se observa nas fontes de estímulos pro-
postas por Rozestraten, em sua obra Psicologia do trânsito.
Tabela 5: Fonte de informações no trânsito

Estímulo ou Situação Exemplos


Ambiente geral O céu, as casas, os edifícios, as árvores, os anúncios, as luzes etc.
Ambiente do trânsito Rua – compreendendo a pista e o passeio –, sinalização, automóveis,
motocicletas, bicicletas, pedestres, buzinas etc.
Ambiente do carro Volante, comandos – manuais, pedais e mostradores –, retrovisores,
bancos, passageiros etc.
Ambiente corporal Cansaço (fadiga), mal-estar, dor, estresse, preocupações etc.

Fonte: Adaptado pelo autor (ROZESTRATEN, 1998, p. 18-19)

Esses estímulos acionam grande parte dos sentidos do homem, como: visão, audição,
tato, sentido estado-cinestésico e a cinestesia. (ROZESTRATEN, 1988, p. 18 e 19).
Como se vê, o condutor de veículos possui uma enorme gama de estímulos para que
possa conduzir com segurança.
Além disso, esse condutor passa a juntar outras fontes de informações à sua condução,
como sugere o próprio manual da Polícia Rodoviária Federal (2015a, p. 14), passando a falar ao
celular, manuseando equipamentos que não estão ligados à necessidade de condução veicular,
conversando com passageiros, realizando manobras inadequadas, manuseio errôneo do veículo
ou até mesmo de não observar os retrovisores, errar percurso, entre vários outros que poderiam
aqui ser elencados.
Isso leva a compreender que o condutor de veículo não pode acrescentar mais fontes de
informações e mais equipamentos ao veículo, os quais possam gerar estímulos distrativos para
o ato de dirigir.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
O estudo visou a levantar dados estatísticos junto à 8ª Superintendência de Polícia Ro-
doviária Federal, que tem como área de atuação o Estado de Santa Catarina. Neste estudo, veri-
ficou-se que a causa responsável por mais de 40% dos acidentes de trânsito em Santa Catarina,
no primeiro trimestre de 2014 e de 2015, é a “falta de atenção à condução” de veículo automotor.
Com base no Manual de Atendimentos de Acidentes da PRF, foram mostrados os con-
ceitos e definições utilizados para se chegar aos dados apresentados, convalidando assim os
números apresentados e permitindo uma análise mais acurada, chegando-se às seguintes con-
clusões:

16
I SEMINÁRIO REGIONAL DE PESQUISA E INOVAÇÃO EM SEGURANÇA PÚBLICA

- A falta de atenção é a maior responsável pelo número de acidentes de trânsito nas


rodovias federais de SC;
- O condutor de veículo automotor já tem elementos suficientes de estímulo ao dirigir
o veículo, não podendo acrescentar mais nenhum aos já existentes;
- Necessidade de medidas urgentes de educação e fiscalização. Primeiramente, por in-
termédio de uma forte campanha de educação para o trânsito, conscientizar os condutores de
veículos dos riscos que correm e da necessidade que existe de dedicar atenção ao trânsito, já
que pode ser a própria vítima desse acidente. A segunda diz respeito à necessidade de maior
fiscalização por parte dos órgãos de trânsito. Os agentes de trânsito, assim entendidos aqueles
que efetivamente desenvolvem a fiscalização de trânsito, devem ser orientados e capacitados a
desenvolver uma fiscalização voltada às infrações ligadas à falta de atenção.
Com tudo isso, pressupõe-se que dedicar atenção à condução do veículo automotor é
muito mais do que uma obrigação determinada por lei, é, na verdade, uma escolha pela seguran-
ça viária, pela sua vida e daqueles com os quais divide esse espaço chamado trânsito.

REFERÊNCIAS
ABREU, Waldyr de. Direção defensiva integral: a segurança ao seu alcance – motorista,
motociclista, ciclista ou pedestre. 2. ed. Rio de Janeiro – RJ: Interciência, 1989.

ALMEIDA, Lino Leite. Manual de perícias em acidentes de trânsito. Campinas – SP:


Millennium, 2011.

ARAGÃO, Ranvier Feitosa. Acidentes de trânsito: análise da prova pericial. 5. ed. Campinas –
SP: Millennium, 2011.

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS – ABNT. NBR10.697: Pesquisa de


acidente de trânsito – terminologia. Rio de Janeiro – RJ: ABNT, 1989.

BIAVATI, Eduardo; MARTINS, Heloisa. Rota de colisão: a cidade, o trânsito e você. São Paulo
– SP: Berlendis&Vetecchia, 2007.

BRASIL. Lei nº 9.503, de 23 de setembro de 1997 – Código de Trânsito Brasileiro. Brasília,


1997. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L9503.htm>. Acesso em: 17
abr. 2016.

______. Ministério da Justiça. Polícia Rodoviária Federal. Manual de atendimentos de


acidentes. Brasília – DF, 2015a.

______. Ministério da Justiça. Polícia Rodoviária Federal. 8ª Superintendência de Polícia


Rodoviária Federal. Dados estatísticos de acidentes. Florianópolis–SC, 2015b.

______. Departamento Nacional de Trânsito – DENATRAN. Manual de Procedimentos


do Sistema Nacional de Estatísticas de Acidentes de Trânsito – SINET. Brasília – DF:
DENATRAN, 2000. Disponível em: <http://www.vias-seguras.com/os_acidentes/estatisticas/
procedimentos_de_estatisticas_de_acidentes/manual_de_procedimentos_do_sinet_denatran_
setembro_2000>. Acesso em: 09 out. 2015.

17
I SEMINÁRIO REGIONAL DE PESQUISA E INOVAÇÃO EM SEGURANÇA PÚBLICA

______. Secretaria de Assuntos Estratégicos daPresidência da República. Instituto de Pesquisa


Econômica Aplicada – IPEA. Acidentes de trânsito nas Rodovias Federais Brasileiras –
Caracterização, tendências e custos para a sociedade. Brasília – DF, 2015. Disponível em: <http://
www.ipea.gov.br/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=26284>. Acesso
em: 13 out. 2015.

ROZESTRATEN, Reinier J. A. Psicologia do trânsito: conceitos e processos básicos. São Paulo


– SP: EPU e EDUSP, 1988.

SANTOS, Cirlano Martins dos. Não se envolva em acidentes de trânsito. Brasília – DF: ASOF,
2007.

18
O EMPREGO DA ARMA DE FOGO NA
ABORDAGEM POLICIAL

Miguel Ângelo Silveira1


Giovani de Paula2

RESUMO: São constantes os questionamentos em relação aos


constrangimentos ou abusos de autoridade sofridos pelos cidadãos na
abordagem policial militar. Diante dessa realidade o presente artigo tem como
objetivo analisar a necessidade do uso da arma em punho na abordagem
policial militar. Para isso, foi realizado um aprofundamento bibliográfico para
identificar justificativas doutrinárias, legais e técnicas para o procedimento
em questão. Além disso, foram realizados testes práticos com policiais
militares para verificar a capacidade de defesa letal em um ataque letal, com
o uso da arma no coldre e em punho. A pesquisa fundamentou-se no método
indutivo associado à técnica bibliográfica e à pesquisa exploratória. Concluiu-
se que a capacidade de defesa poderá variar de acordo com cada contexto da
abordagem policial. Porém, nos casos de legítima defesa, os testes indicaram
que a arma em punho apresenta uma probabilidade maior de proteção à vida
e à integridade física na missão policial.

Palavras Chaves: Segurança. Abordagem Policial. Arma de Fogo.

1 INTRODUÇÃO
A Polícia Militar, como órgão de Segurança Pública, é a instituição responsável pelo
cumprimento da missão constitucional de preservação da ordem pública, tendo seus efetivos
empregados para promover a proteção da sociedade, sendo submetidos, frequentemente, ao
enfrentamento físico, psicológico e bélico contra a criminalidade que segue crescente em nossa
sociedade.
Nesta missão diária, poderá haver situações extremas em que a agressão sofrida pelo
policial militar, somente poderá ser neutralizada por intermédio do emprego da força letal. Pe-
rante esse risco, realizam-se abordagens utilizando a arma em punho.
É nesse quesito que se delineia a situação problema do presente artigo, pautada nos
seguintes questionamentos: o emprego da arma em punho durante a abordagem policial militar

1  Major da PMSC, Bel. Em Segurança Pública, Esp. em Gestão de Segurança Pública (UDESC), Mestre Eng. Civil
(UFSC), Doutorando em Arquitetura e Urbanismo (UFSC). Contato: miguel.pmsc@gmail.com
2  Cel. PMSC, Doutor em Direito pela UNISUL. Contato: depaula.giovani@gmail.com

19
I SEMINÁRIO REGIONAL DE PESQUISA E INOVAÇÃO EM SEGURANÇA PÚBLICA

é realmente necessário, sendo uma questão de legítima defesa, amparado pela técnica e pela lei?
Ou esse emprego é uma praxe anacrônica, que estaria infringindo a lei sendo na verdade um
constrangimento ilegal e de abuso de autoridade?
Diante das perguntas de pesquisa expostas, têm-se como objetivo geral, verificar a ne-
cessidade e a real justificativa para o emprego da arma em punho durante a abordagem policial
militar. Para isso, foram realizados testes no sentido de comparar o emprego da arma no coldre
ao seu uso em punho.
As polícias devem assegurar o exercício pleno dos direitos e da cidadania e, para isso,
existem situações restritas que as leis autorizam o uso legal da força pela polícia. O emprego da
força, contudo, em nenhum momento poderá exceder os limites previstos, devendo respeitar os
princípios da legalidade, proporcionalidade, conveniência e necessidade. Os encarregados da
aplicação da lei somente recorrerão ao uso da força quando todos os outros meios para atingir
o objetivo legítimo tenham falhado, podendo ser o uso da força justificado quando comparado
ao objetivo legítimo.
Tendo em vista que as resistências e agressões existem nas mais variadas formas e graus
de intensidade, o policial terá que adequar a sua reação de forma proporcional e necessária, até
que cesse a agressão à vítima, não podendo em momento algum valer-se da força desproporcional
ou ilegítima. Observa-se o quanto complexa é a conduta policial, que como medida extrema e em
nome de uma vida, o policial poderá retirar a vida de outrem, através do emprego da força letal

2 A CONDUTA POLICIAL
Nas últimas décadas a atividade policial ficou cada vez mais difícil, entre outras razões
à profissionalização dos marginais, que cada vez mais contam com armas e equipamentos de
ponta, mais sofisticados que os da própria polícia.O aumento da violência, o desrespeito cres-
cente pela vida humana e a desestruturação familiar, tem tornado a atividade policial cada vez
mais arriscada, elevando-se o potencial de uso da força letal. (PAIXÃO, 2006).
O emprego de armas de fogo é uma medida grave em virtude de seus efeitos, contudo,
devem ser utilizados pelos agentes encarregados de aplicar a lei somente quando a circunstância
o exigir, para que possam manter ou restabelecer a ordem pública violada. (ROSA, 2006).
Segundo o autor, a utilização de armas de fogo exige dos policiais preparo técnico e
profissional, evitando-se assim, que pessoas inocentes sejam vítimas da repressão do Estado, que
deve estar voltada apenas contra àqueles que se dedicam à prática de delitos.
Nas palavras de Rosa (2006):

Os agentes responsáveis pela segurança pública, devem atuar com cautela ao utilizarem
a força representada pelo uso de arma de fogo ou outros instrumentos destinados à
preservação da ordem e de uso restrito das forças policiais. O uso das armas contra
as pessoas por parte dos agentes do Estado ou das entidades públicas constitui a mais
grave das medidas de coação direta, tanto por seus efeitos virtuais, normalmente
irreparáveis se não é por via indenizatória, como pelo grande problema de limites que
suscita dentro de um Estado que proclama entre seus direitos fundamentais, isto é,
fundamento da ordem política e da paz social, o direito de todos à vida e à integridade
física e moral. (p. 01).

Sírio (2007, p. 23) afirma ser abuso de autoridade qualquer ato de poder que atente
contra:

20
I SEMINÁRIO REGIONAL DE PESQUISA E INOVAÇÃO EM SEGURANÇA PÚBLICA

[...] os direitos e garantias individuais do homem, inerentes à sua liberdade de


locomoção, inviolabilidade do seu domicílio, sigilo de correspondência, liberdade de
consciência e crença, livre exercício do culto religioso, liberdade de associação, direitos
e garantias legais assegurados ao exercício do voto, direito de reunião, incolumidade
física do indivíduo e direitos e garantias legais assegurados ao exercício profissional.

O autor afirma ainda que autoridade é toda pessoa que exerce cargo, emprego ou fun-
ção pública de natureza civil ou militar, mesmo que transitoriamente e sem remuneração.
Não obstante, a lei expressamente se refere a abuso de autoridade, do que abuso de
poder. Neste sentido Santos (2003, p. 17) afirma que:

[...] a doutrina, de um modo geral, reconhece uma impropriedade nessa denominação,


porque quando se tem por base uma relação de direito público ou função pública na
qual se cometem abusos, correto seria falar-se não em abuso de autoridade, mas abuso
de poder. A expressão abuso de autoridade melhor guarida encontraria nos casos de
abusos, excessos ou desvios no campo das relações privadas. Na realidade, a expressão
correta seria “abuso de poder”, pois nem todo funcionário público exerce uma função
de autoridade. Não é só quem detém um cargo de autoridade que pode ser sujeito ativo
deste crime; basta ver o conceito legal de funcionário público. Também os funcionários
públicos que não são considerados autoridade pública podem ser sujeito ativo.

Dessa forma, no tocante a atividade policial, ao fazer o uso da arma de fogo de forma
descabida, ilegal ou até ameaçadora, tolhendo direitos, incorreria na prática do policial militar
o ato abusivo ou de abuso de poder.
No Brasil, a violência policial é um tipo relativamente raro no universo dos casos de
violência e um acontecimento relativamente raro no universo das interações entre policiais e
não-policiais. A violência policial, principalmente quando os responsáveis não são identificados
e punidos, é percebida como um sintoma de problemas graves de organização e funcionamen-
to das polícias. Esses problemas, se não forem solucionados particularmente em democracias
emergentes como o Brasil, podem gerar problemas políticos, sociais e econômicos sérios e po-
dendo contribuir para a desestabilização de governos e de regimes democráticos.
Também, não podemos deixar de citar o estrito cumprimento de dever legal, que só
será “estrito” se corresponder à real vontade da ordem jurídica, o que pressupõe a observância
dos direitos fundamentais, tanto pelo legislador quanto por quem executa o dever imposto em
lei. Assim, por estrito cumprimento de dever legal é preciso entender a qualidade do compor-
tamento que corresponde não ao mero sentido formal ou literal da lei, mas à sua interpretação
conformada aos princípios e fundamentos do sistema constitucional.
A pessoa investida do dever legal de agir tem que verificar, em primeiro lugar, qual
o verdadeiro comando que lhe cabe executar, conjugado a lei que o prevê com o conjunto da
ordem normativa e, em especial, os preceitos constitucionais consagradores dos direitos funda-
mentais do homem. Em segundo lugar, deve atuar utilizando-se apenas dos meios compatíveis
com o resguardo daquele núcleo de direitos invioláveis.
De acordo com o Art. 25 do Código Penal Brasileiro “entende-se em legítima defesa
quem, usando moderadamente dos meios necessários, repele injusta agressão, atual ou iminen-
te, a direito seu ou de outrem”. (BRASIL, 2007).
Relativamente ao fundamento da legítima defesa, Capez (2004, p. 270), afirma que “o
Estado não tem condições de oferecer proteção aos cidadãos em todos os lugares e momentos,
logo, permite que se defendam quando não houver outro meio”.

21
I SEMINÁRIO REGIONAL DE PESQUISA E INOVAÇÃO EM SEGURANÇA PÚBLICA

Segundo Rover (2005), encontra-se esculpido no artigo 3º, da Declaração Universal


dos Direitos Humanos (1948), que todos têm direito à vida. O mencionado direito é reiterado
pelo artigo 6º, inciso I, do Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos, estipulando
que: “o direito à vida é inerente à pessoa humana. Este direito deve ser protegido pela lei. Nin-
guém pode ser arbitrariamente privado da vida”.
Referente à legislação nacional, a Constituição da República Federativa do Brasil (BRA-
SIL, 2007), no caput do Art. 5º, em relação ao direito à vida, faz a seguinte afirmação:

Art. 5º – Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-
se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no país a inviolabilidade do direito à
vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade.

Lima (2005) destaca que o emprego da força, com fins de atingir os objetivos legítimos
de aplicação da lei, deve ser considerado uma medida extrema. De acordo com o artigo 9º dos
Princípios Básicos sobre a Utilização da Força e de Armas de Fogo (ONU, 2007), os encarrega-
dos de aplicar a lei não usarão força letal contra indivíduos, exceto:

Art. 9 – [...] em caso de legítima defesa, defesa de terceiros contra perigo iminente
de morte ou lesão grave, para prevenir um crime particularmente grave que ameace
vidas humanas, para proceder à detenção de pessoa que represente essa ameaça e
que resista à autoridade, ou impedir a sua fuga, e somente quando medidas menos
extremas se mostrem insuficientes para alcançarem aqueles objetivos. Em qualquer
caso, só devem recorrer intencionalmente à utilização letal de armas de fogo quando
isso seja estritamente indispensável para proteger vidas humanas.

De acordo com o artigo exposto acima e com base nos ensinamentos de Lima (2006),
percebe-se que o uso letal intencional de força, somente poderá ser realizado em situações em
que forem estritamente inevitáveis para proteção a vida.
O policial, ao julgar necessário o emprego de arma fogo, de acordo com o artigo 10 dos
Princípios Básicos sobre a Utilização da Força e de Armas de Fogo (ONU, 2007), deverá respei-
tar certos procedimentos, sendo eles:

Art. 10 – [...] identificar-se como tal e fazer uma advertência clara da sua intenção
de utilizarem armas de fogo, deixando um prazo suficiente para que o aviso possa
ser respeitado, exceto se esse modo de proceder colocar indevidamente em risco a
segurança daqueles responsáveis, implicar um perigo de morte ou lesão grave para
outras pessoas ou se mostrar manifestamente inadequado ou inútil, tendo em conta as
circunstâncias do caso.

Conforme Rover (2005) e com fundamento no artigo 5º dos Princípios Básicos sobre
a Utilização da Força e de Armas de Fogo, sempre que o uso legítimo da força ou de armas de
fogo for indispensável, os funcionários responsáveis pela aplicação da lei devem, entre outras
medidas, (ONU, 2007):

Art. 5º - [...] a) Utilizá-las com moderação e a sua ação deve ser proporcional à
gravidade da infração e ao objetivo legítimo a alcançar; b) Esforçar-se por reduzirem
ao mínimo os danos e lesões e respeitarem e preservarem a vida humana; c) Assegurar
a prestação de assistência e socorros médicos às pessoas feridas ou afetadas, tão
rapidamente quanto possível; d) Assegurar a comunicação da ocorrência à família ou
pessoas próximas da pessoa ferida ou afetada, tão rapidamente quanto possível.

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I SEMINÁRIO REGIONAL DE PESQUISA E INOVAÇÃO EM SEGURANÇA PÚBLICA

3 METODOLOGIA
O presente estudo relativo ao emprego da arma de fogo em punho durante as aborda-
gens policial militar fundamentou-se no método indutivo associado à técnica bibliográfica e
ao método de pesquisa exploratória. Essa pesquisa tem abordagem quantitativa, devido ao fato
de ter sido mapeado o perfil de um grupo de pessoas, baseando-se em características que elas
têm em comum, em específico, a relação entre distância e eficiência da reação do policial, para
realização da análise de dados.
A análise dos dados se dá de forma descritiva, visando a identificação, registro e análise
das características, bem como a verificação dos fatores ou variáveis que relacionam-se com o
fenômeno, para uma posterior apresentação das causas e efeitos do objeto de estudo em questão.
Para a realização desta pesquisa foi aplicado um teste prático, organizado em dois mo-
mentos com o público-alvo, para medir a relação entre a distância de um ataque de arma branca
e a reação efetiva do policial militar, qualificando-a entre “sobreviveu”, “morreu”, ou “ferido”.
No primeiro momento o policia deveria estar com a arma travada no coldre, e por conseguinte,
com o mesmo travado. Em um segundo momento a estratégia era utilizar a arma na posição de
pronto-baixa (em punho). Escolheu-se pela arma branca devido a sua fácil disponibilidade e ao
mesmo tempo, letalidade.

3.1 AMOSTRAGEM
Considerando que o efetivo total da Polícia Militar de Santa Catarina é de aproximada-
mente 10.800 policiais militares, a amostra escolhida para realização da pesquisa foi de X% do
total com base no referencial X que aborda. Desejando-se um nível de confiabilidade em torno
de 98% (noventa e oito por centro), aceitando erro máximo de 5% (cinco por cento). Resulta
que o tamanho da população amostra mínima é de 517 Policiais Militares. (CAMPOS, 2014).

3.1.1 CÁLCULO SIMPLES DA DIMENSÃO DA AMOSTRA


A representatividade de uma amostra é determinada pelo método de amostragem.
Existem várias fórmulas para calcular a dimensão da amostra e programas informáticos como
o EpiInfo (na secção STATCALC) que permitem efetuar o cálculo da dimensão da amostra, que
podem ser utilizadas quando os investigadores têm alguns conhecimentos dos dados, tais como
heterogeneidade dos dados, dimensão da população, nível de confiança pretendido e frequência
da variável a estudar na população.
Considerando que a PMSC possui 10.800 pessoas, para se aplicar o teste, realizamos
uma amostragem simples que resultasse em um nível de confiabilidade de 98% e aceitando uma
margem de erro de 5%, necessita-se de uma população amostra de no mínimo 517 policiais
militares.
A polícia Militar divide o território em Regiões Policiais Militares (RPM), conforme
será demonstrado na imagem a seguir, em que cada região é composta por um batalhão que, por
sua vez, é composto por Companhias e Pelotões.

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I SEMINÁRIO REGIONAL DE PESQUISA E INOVAÇÃO EM SEGURANÇA PÚBLICA

Figura 1: Mapa das Regiões Policiais Militares de Santa Catarina.

Fonte: PM3 Comando Geral da PMSC, 2014.

Diante disso, foi selecionado 5% (cinco por cento) do efetivo da cada RPM, de forma
que tivéssemos uma amostra equitativa e homogênea de cada região do estado, o que, por fim,
resultou em um total de 561 Policiais Militares pesquisados.

3.2 ISOLAMENTO DE VARIÁVEIS


Considerando as grandes variações e complexidade que existem na atividade policial,
foi necessário isolar as variáveis, para que fosse possível a realização do teste. Dessa forma ado-
taram-se os seguintes procedimentos:
1) Que o tiro defensivo realizado pelo policial seria 1 (um) tiro letal;
2) Que o toque realizado com o simulacro de arma branca, ao ser tocado no peito do policial, seria um
golpe letal;
3) Posição da arma no coldre foi no padrão PMSC, que prevê que durante o policiamento ostensivo pre-
ventivo, a arma deverá estar carregada, porém, travada no coldre, e o mesmo, por conseguinte, travado;
4) A Posição da arma em punho foi utilizada no padrão das abordagens já prevista no Manual de Técnica
de Policiamento Ostensivo da PMSC, com: arma carregada, destravada, em punho ou nas mãos, sendo
apontada para o chão em frente aos pés do abordado;
5) Foram necessárias para a mensuração da empregabilidade da arma de fogo, serem realizadas sucessivas
simulações de agressão, com arma branca, iniciando de 10 metros e finalizando em 1 metro, com o
inicio do “ataque” sincronizado com apito. Nesses ataques, serão quantificados quantos policiais conse-
guirão sobreviver aos supostos ataques.
6) Situação de ferido, era quando a arma branca atingia região não letal, como o braço, por exemplo, quan-
do o policial não obteve êxito no uso da arma de fogo.

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I SEMINÁRIO REGIONAL DE PESQUISA E INOVAÇÃO EM SEGURANÇA PÚBLICA

4 ANÁLISE
Para realizar a análise dos dados obtidos com o teste prático organizou-se as distâncias
obtidas com a simulação de um ataque de arma branca e reação efetiva do policial militar em
um quadro, conforme apresentado a seguir:
Quadro 1: Relação entre distância X ataque de arma branca e reação efetiva do policial militar.

POSIÇÃO ARMA NO COLDRE ARMA EM PUNHO


DISTANCIA MORTE FERIDO VIVO MORTE FERIDO VIVO
01 Metro 561 00 00 301 47 213
02 Metros 506 20 35 179 36 346
03 Metros 431 49 81 46 27 488
04 Metros 337 38 186 11 07 543
05 Metros 203 23 335 00 00 561
06 Metros 139 14 408 00 00 561
07 Metros 94 03 464 00 00 561
08 Metros 52 00 509 00 00 561
09 Metros 32 00 529 00 00 561
10 Metros 26 00 535 00 00 561

Fonte: Produção dos autores, (2014).

Para facilitar a compreensão, elencamos duas categorias para análise: a primeira com o
emprego da arma no coldre em relação a reação policial militar e o uso da arma em punho e seu
respectivo efeito na ação militar.

4.1 REAÇÃO POLICIAL COM O EMPREGO DA ARMA DE FOGO NO COLDRE


A partir dos dados obtidos na atuação com a arma de fogo no coldre em relação a
reação policial, relacionada à distância entre os sujeitos, policial militar e agressor, o Gráfico 1
a seguir apresenta o acentuado número de mortes a partir de 5 metros. Por incrível que pareça
mesmo na distância de 10 metros, 4.63% de policiais testados morreram.

25
I SEMINÁRIO REGIONAL DE PESQUISA E INOVAÇÃO EM SEGURANÇA PÚBLICA

Gráfico 1: Arma no Coldre e reação policial militar.

Fonte: Produção dos autores, ( 2014).

Na distância de 4 metros, houve 60% de mortes. Índice que sedimenta ser esta a distân-
cia limite em que mais da metade dos policiais militares possui a maior probabilidade de morrer,
logo a distância letal é de 4,5 metros.
Temos na distancia de 3 metros, uma situação onde ¾ dos policiais morreram. Situação
crítica, inclusive por ser esta a distância da maioria das abordagens policiais.
Na distância de 2 metros o quadro apresenta-se ainda pior, pois cerca de de 90% dos
policiais testados morreram.
A distância de 1 metro apresenta o triste quadro de 100% de mortes. Isso significa que
nesta distância, nenhum dos policiais pesquisados tem probabilidade de sobreviver a um ataque
letal com arma branca, estando ele com arma no coldre.

4.2 REAÇÃO POLICIAL COM O EMPREGO DA ARMA DE FOGO EM PUNHO


Comparando o emprego da arma de fogo no coldre com o seu uso em punho, é possível
perceber uma grande diferença estatística em relação ao número de mortes, conforme pode-se
verificar no Gráfico 2, a seguir.

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I SEMINÁRIO REGIONAL DE PESQUISA E INOVAÇÃO EM SEGURANÇA PÚBLICA

Gráfico 2: Arma em Punho e reação policial militar.

Fonte: Produção dos autores. (2014).

Nesse gráfico com o porte da arma em punho, em que o policial reage a uma agressão
letal com arma branca, é bem diferente do gráfico no qual ele está com a arma no coldre.
De imediato percebe-se que entre 5 a 10 metros não houve mortes de policiais milita-
res, pois ela ocorria apena até a distância de 4 metros.
Em 3 metros percebe-se que em torno de 8% dos policiais morreram em decorrência
da suposta agressão ao policial. Trata-se de uma distância crítica, pois, é basicamente nessa dis-
tância que realizamos a abordagem, iniciando pela verbalização.
Por fim, ao comparar o uso da arma no coldre e da arma em punho na abordagem
policial militar, constata-se que a proximidade na distância de 1 metro apresentou aproxima-
damente 54% de mortes com a arma em punho, já com a arma no coldre resultou em 100% das
mortes. Logo, a arma em punho alcançou uma probabilidade muito maior de vida.

5 CONCLUSÃO
O poder de polícia apresenta como um de seus atributos a coercibilidade, caracterizada
por legalizar o uso da força pelo policial em situações em que o cidadão infrator agredir fisica-
mente ou ameaçar a vida da vítima ou do policial militar. Para tanto, torna-se fundamental que
a ação policial esteja dentro dos limites legais, respeitando-se os princípios delimitadores do uso
da força, quais sejam: legalidade, necessidade, oportunidade e conveniência, agindo de forma
proporcional ao objetivo almejado, atentando-se para o emprego escalonado da força.
Por muito tempo, o termo Direitos Humanos foi considerado antagônico ao termo
Segurança Pública, contudo, cada vez mais se percebe a necessidade da atividade policial nor-
tear-se pelos princípios dos Direitos Humanos, valorizando-se a vida, a dignidade humana e a
harmonia individual e coletiva. Os Direitos Humanos constituem-se em ferramentas indispen-
sáveis para o bom funcionamento das polícias, desenvolvendo-se, por meios dos seus princí-

27
I SEMINÁRIO REGIONAL DE PESQUISA E INOVAÇÃO EM SEGURANÇA PÚBLICA

pios, um modelo padrão de polícia, voltada ao atendimento das necessidades básicas do cidadão
agressor, cidadão vítima e do próprio policial militar.
Apesar da maioria das ocorrências serem resolvidas com base na verbalização, pode-
rão surgir situações em que o policial utilizará da força representada pelo emprego de armas de
fogo para o restabelecimento da ordem e da paz social, constituindo em uma medida grave em
virtude dos efeitos causados.
Nesse sentido, o uso de armas de fogo nunca deve ser considerado uma rotina, sendo
autorizado somente quando todos os demais recursos tiverem falhado, objetivando-se exclu-
sivamente a proteção de vidas. Cabe ao policial a decisão extrema de disparar a arma, consti-
tuindo-se em uma escolha pessoal, decorrente da avaliação do grau de risco e da intensidade da
agressão. Não é uma escolha fácil de ser adotada, surgindo inúmeras dúvidas referentes ao que
é certo e errado, atirar ou não atirar.
Com relação aos testes realizados na presente pesquisa, Nessa análise foi realizado um
tratamento estatístico verificado de modo descritivo, em relação às porcentagens, médias e pro-
porções, com o objetivo de elaborar uma curva de letalidade. A partir desta curva, buscamos
identificar quando a arma branca ultrapassa a probabilidade não letal e atinge a probabilidade
de letalidade, justificando, assim, o emprego de força letal na atuação policial. Destaca-se o dado
referente à distância de 1 metro, no qual 100% dos policias que estavam com a arma no coldre
morreram. Quando comparado ao teste em que os policiais estavam à 1 metro do agressor, com
a arma em punho, o resultado de mortes foi de 53,65%, sendo inferior em relação à arma no
coldre. O que apresenta uma probabilidade de legítima defesa bastante relevante.
Outra informação importante que foi encontrada com os testes está relacionada à dis-
tância entre 4 e 5 metros. Nessa distância há uma probabilidade de 50 % de morte dos policiais,
ou seja, mais de 50% dos policiais possuem a probabilidade de ser uma vítima de agressão letal
com arma branca. Logo, a distância letal é de 4,5 metros. Trata-se de uma informação importan-
te, pois é a distância na qual se inicia a maioria das abordagens policiais militares.
Cabe destacar que as armas brancas, podem ser letais. Logo, quando caracterizado o
potencial de letalidade nos casos de legítima defesa, caberá o uso de arma de fogo como ato
extremo por parte do policial militar, que dentro do critério proporcionalidade seria o correlato
letal do policial ao instrumento letal utilizado pelo agressor.
Apesar deste grau de letalidade depender de alguns fatores, os testes realizados nesta pes-
quisa apresentam que na distância de 4,5 metros existe uma probabilidade acima de 50% de chan-
ce dos policias morrerem, se estiverem com arma no coldre e se foram agredidos de forma letal.
Em análise ao exposto na presente pesquisa, concluiu-se que sempre irá depender da
situação e do contexto da abordagem policial. Porém, nos casos de legítima defesa, os testes
indicaram que a arma em punho apresenta uma probabilidade maior de proteção da vida e da
integridade física na execução da missão policial.
Por fim, visto a letalidade da agressão da arma branca, nas distâncias inferiores à 5
metros, reforça-se ainda mais a necessidade da abordagem policial, mesmo nas ocorrências de
arma branca, ser realizadas com o emprego da arma em punho.

REFERÊNCIAS
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www.planalto.gov.br/CCIVIL/Decreto-Lei/Del2848compilado.htm>. Acesso em: 03 maio. 2007.

28
I SEMINÁRIO REGIONAL DE PESQUISA E INOVAÇÃO EM SEGURANÇA PÚBLICA

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www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituiçao67.htm>. Acesso em: 25 mar. 2007.

CAMPOS, Siqueira. Acessado em: 09 de Maio de 2014. Disponível em <http://www.


siqueiracampos.com/esta_aplic.asp> Acesso em: 03 mai 2014.

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2006.

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www.recantodasletras.uol.com.br/textosjuridicos/512007>. Acesso em: 10 de ago. 2006.

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determinante para o policial. Monografia apresentada ao Curso de Aperfeiçoamento de
Oficiais – CAO. Ceará, 2003.

SÍRIO, Antônio Iram Coelho. Abuso de Autoridade (Lei Nº 4.898/65). Ministério


Público do Estado do Ceará, 2007. Disponível em: <http://www.mp.ce.gov.br/artigos/print.
asp?iCodigo=39>. Acesso em: 17 mai 2007.

29
A ANDRAGOGIA NO APRIMORAMENTO
DIDÁTICO DAS INSTRUÇÕES POLICIAIS
MILITARES

Iloir Adur de Oliveira Junior1

RESUMO: Este artigo aborda o tema andragogia, delimitado para o


aprimoramento didático das instruções na Polícia Militar do Estado de Santa
Catarina. Tem-se como objetivo geral analisar os mecanismos da educação
andragógica voltados às instruções aplicadas aos policiais militares. Justifica-
se a pesquisa ao fato de que a atividade policial militar necessita de capacitação
técnica contínua, consequentemente a didática educacional utilizada no
desenvolvimento das instruções deve estar em constante atualização.
Assim, busca-se contextualizar a andragogia na formação do policial como
ferramenta de ensino continuado, permitindo o incremento do aprendizado,
bem como a autogestão e o incentivo à criatividade do aluno. Observa-se
que os meios de ensino utilizados alinhados aos métodos andragógicos de
educação maximizam a aprendizagem, fortalecem o aperfeiçoamento e,
consequentemente, o aprimoramento profissional do policial.

PALAVRAS-CHAVE: Andragogia. Aprimoramento. Instrução.

1 INTRODUÇÃO
A Polícia Militar do Estado de Santa Catarina vem ao longo dos anos formando e apri-
morando seus profissionais com currículos que atendam às diretrizes emanadas da Secretaria
Nacional de Segurança Pública. E diante da atual conjuntura social é primordial entender a res-
ponsabilidade de atualizar e contextualizar o policial militar em sua formação, especialização ou
revitalização em um ensino dinâmico e sistemático, abrangente em seus objetivos, conectando
às diferentes realidades socioculturais, sendo multifacetado em seus métodos e processos.
Neste sentido, entende-se que a instrução tradicionalmente aplicada e excessivamente
ortodoxa, pode não atender, em sua plenitude, às constantes necessidades de conhecimento
para enfrentamento da realidade profissional a qual o policial militar vivencia.
Considerando que as instruções nas instituições policias militares, possuem como ca-
racterística primordial o ensino voltado ao adulto, aborda-se nesta pesquisa, o tema andragogia,
delimitado para o aprimoramento didático voltado à instrução policial militar, adotando a Polí-

1  Major da Polícia Militar do Estado de Santa Catarina.


E-mail: oliveira2103@gmail.com

30
I SEMINÁRIO REGIONAL DE PESQUISA E INOVAÇÃO EM SEGURANÇA PÚBLICA

cia Militar de Santa Catarina como referência de estudo, visando a valorização dos conhecimen-
tos profissionais e uma melhor interação ao contexto social atual.
Tem-se como objetivo geral analisar os mecanismos de aprimoramento didático da
educação andragógica, especificamente voltados às instruções aplicadas aos policiais militares,
estejam eles em formação, revitalização ou aperfeiçoamento ao longo da carreira. Para isso,
verificam-se as didáticas atualmente utilizadas na corporação, juntamente com a análise de apli-
cação da educação andragógica e sua contribuição para o aprimoramento das instruções volta-
das aos adultos, averiguando a adequação da metodologia ao aperfeiçoamento profissional do
professor policial militar.

2 METODOLOGIA
No desenvolvimento do presente estudo adotou-se uma abordagem dedutiva, com a
finalidade de desenvolver uma pesquisa pura; tendo seu nível de pesquisa classificado como
explicativo e utilizando como procedimento para a coleta de dados a pesquisa bibliográfica.
O método de abordagem dedutivo, de acordo com Severino (2007), é o método no qual
através da observação de um princípio geral são deduzidos os fatos singulares, ou seja, partindo
de uma visão geral para uma premissa específica.
A partir do método desenvolveu-se uma pesquisa pura, de ordem intelectual que per-
mite uma visão ampla para o aprimoramento das instruções policiais militares a partir da meto-
dologia andragógica. Como nível de pesquisa utilizada o explicativo, aquele que procura expli-
car a razão da realidade, ou seja, identificar os fatores (GIL, 2007).
Visando atingir o objetivo do estudo, para o desenvolvimento teórico utilizamos como
procedimentos para a coleta de dados a pesquisa bibliográfica “desenvolvida com base em mate-
rial já elaborado, constituído principalmente de livros e artigos científicos”, conforme conceitua
Gil (1996).

3 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
Na literatura pesquisada para o desenvolvimento deste artigo, há uma grande profu-
são a respeito de conceitos de educação, andragogia, treinamento e instrução. A interpretação
conceitual dos temas, principalmente quando inter-relacionados, é bastante diversificada, não
existindo uma doutrina filosófica única, mas uma vasta orientação calçada em experiências na
área, propulsadas por autores e especialistas dos temas. Buscamos, neste sentido, definições con-
ceituais cotidianas que facilitam uma interpretação mais clara sobre os temas.
Torna-se evidente que “as transformações contemporâneas contribuíram para consoli-
dar o entendimento da educação como fenômeno plurifacetado, ocorrendo em muitos lugares,
institucionalizado ou não, sob várias modalidades”. (LIBÂNEO, 1998, p. 18). Para o autor “o
processo educativo afirma que o ser humano se desenvolve tanto biológica como psiquicamente
na interação com o ambiente numa inter-relação constante entre fatores internos e externos”.
(Ibid., p. 69).
Neste sentido, Brandão (1998) defende o valor da relação ensino e aprendizagem no
desenvolvimento pessoal do indivíduo e, como resultado, o desenvolvimento social, afinal o
homem está conexo ao meio ao seu redor e é capaz de modificá-lo. Segundo o autor:

31
I SEMINÁRIO REGIONAL DE PESQUISA E INOVAÇÃO EM SEGURANÇA PÚBLICA

Não há uma forma única nem um único modelo de educação; a escola não é o único
lugar em que ela acontece e talvez nem seja o melhor; o ensino escolar não é a única
prática, e o professor profissional não é seu único praticante (BRANDÃO, 1998, p. 7-9).

A esse respeito Nérici (1972, p. 36) defende o ensino como:

o processo adquirido no dia a dia, perceptível por todos, alterando nossas ideias,
sentimentos, comportamentos e pensamentos. O ensino poderá ser adquirido, ou
não, através da educação, que possui características formais e positivas dentro de um
contexto metodológico (NÉRICI, 1972, p. 36).

Por tal motivo, é relevante destacar o ensino como prática social específica, que aconte-
ce a partir do processo de educação tanto de maneira informal ou formal, segundo Rios (2005).
Na compreensão de Boog (1994), a educação refere-se ao processo pelo qual o indi-
víduo adquire compreensão do mundo, bem como capacidade para lidar com problemas. En-
quanto instrução define os processos formais institucionalizados através dos quais a educação
é ministrada até a adoção de uma profissão, o treinamento indica a educação específica, que,
conduzida na escola ou não, antes ou durante o trabalho, ajuda a pessoa a desempenhar bem
suas atividades profissionais.
O treinamento de forma geral possui o mesmo significado de adestramento, mas tec-
nicamente existe uma diferenciação no que tange a adestramento, termo técnico utilizado por
instituições policiais, e treinamento utilizado pelas corporações em geral.
Na doutrina policial militar adestramento (BRASIL, 1983, Dec. Fed. n° 88.777) é a ati-
vidade designada a exercitar o policial militar, individualmente e em equipe, desenvolvendo
lhe a habilidade para o desempenho de tarefas para as quais já recebeu a adequada instrução,
objetivando seu emprego individual ou enquadrado e propiciando ampliar a operacionalidade
da corporação.
Treinamento (BOOG, 1994, p. 02) “é o procedimento que tem como objetivo específico
a padronização de tarefas e melhorar a performance profissional”. O treinamento proporciona
às pessoas a ampliação da capacidade de adquirir novos conhecimentos, tornando-as hábeis nas
suas funções, conscientes daquilo que venham a fazer, resolutos nos objetos a serem atingidos.
Nas corporações policiais militares, o treinamento ajuda a manter padrões de qualida-
de, pois envolve uma mudança de comportamento no policial militar, permitindo o desenvolvi-
mento e a renovação do potencial humano, com o propósito de levá-lo a alcançar seus objetivos.
Podemos afirmar que as atividades de treinamento objetivam não só uma transmissão
de informações, mas também modificações de atitudes comportamentais além do desenvolvi-
mento de habilidades, visando habilitar o profissional ao melhor desempenho de sua função;
obtendo por fim um desenvolvimento conceitual que visa a obter conhecimento de contextos
institucionais e gerais, propiciando desenvolver a compreensão do que está fazendo e sua parti-
cipação no contexto geral.
A orientação da aprendizagem, de acordo com Turra (1993, p. 124) tem como “propó-
sito fundamental, modificar o comportamento do aluno. Tal propósito leva, necessariamente,
a uma tomada de decisão sobre a natureza da mudança que se pretende realizada” e a figura
do professor é responsável pela organização, direção e controle das condições do processo de
aprendizagem.
Além disto, Turra afirma que os alunos diferem entre si:

32
I SEMINÁRIO REGIONAL DE PESQUISA E INOVAÇÃO EM SEGURANÇA PÚBLICA

Por isso, necessitam de diferentes tipos de aprendizagem para seu próprio


desenvolvimento. Para que se obtenha uma aprendizagem eficaz é indispensável,
portanto, que se considere as capacidades de cada um ao selecionar e organizar os
procedimentos de ensino (Ibid., p. 124).

A instrução é o processo permanente de ensino-aprendizagem que propicia ao indiví-


duo ser orientado e atualizado constantemente; seja de caráter social ou profissional.
Para a PMESP (2001) a instrução policial militar consiste no conjunto de procedimen-
to formais que a corporação utiliza para propiciar a aquisição de conhecimentos, atitudes e
habilidades que otimizem a qualificação do policial militar de forma que sua conduta resultante
contribua para a busca da excelência do serviço prestado pela Polícia Militar.
Podemos entender a instrução e o treinamento na Polícia Militar como o conjunto de
procedimentos que a corporação utiliza para proporcionar a constante e adequada qualificação
do policial militar, de maneira que sua conduta resultante contribua para a consecução das mis-
sões da Polícia Militar.
O desenvolvimento da instrução assume fundamental importância para a operaciona-
lidade da corporação face aos aspectos de que a execução das atividades de instrução é responsa-
bilidade do Comandante, Diretor ou Chefe, que deverá envidar todos os esforços para o desen-
volvimento satisfatório das atividades, bem como instituir procedimentos visando proporcionar
meios eficazes para uma melhor qualificação do policial militar.
Sob tal perspectiva, a instrução torna-se um valioso meio de comunicação, pois fa-
vorece um contato estreito entre comandantes e comandados, em qualquer nível, possibilitan-
do a correção de atitudes, a interpretação correta de ordens emanadas pelo escalão superior, a
atualização de informações, o estreitamento de laços e o aperfeiçoamento do espírito de corpo,
desenvolvendo a confiança e lealdade entre profissionais da corporação.
Desta maneira, compreendemos que as atividades de instrução devem efetivar condi-
ções que busquem a padronização de procedimentos e com a mesma doutrina e filosofia, tão
indispensáveis para a organização visando o desenvolvimento e o aprimoramento dos profissio-
nais, bem como da instituição.
O processo de ensino exige um trabalho bilateral, abrangente, continuado, dinâmico
e integrado entre o educador e o aprendente, como afirma Mariotti (1999, p. 24), a educação é
um termo que “deriva do latim ex + ducere, que significa conduzir para fora os valores que já
existem nas pessoas em forma de potencial. O comportamento dos indivíduos é fundamental-
mente orientado por esses valores”. Notamos que, no entendimento do autor, a conceituação de
educação, o ato de ensinar transpõe o próprio saber.

Trata-se de um caminho de mão dupla. Ensinar é ensinar a ensinar e aprender é


aprender a aprender. Não estamos falando, portanto, numa simples transmissão de
conhecimento, na expectativa de sua aceitação passiva. Até porque, sendo a educação
um componente da cultura, seu surgimento e evolução implicam mudança. Trata-
se, portanto, de um fluxo contínuo, que não mais se limita à chamada educação
intencional. Num sentido mais amplo, o processo é espontâneo e não admite fronteiras
(MARIOTTI, 1999, p. 24).

Buscando a compreensão dos conceitos apresentados, delineando a conceituação refe-


rente à educação andragógica, temos em Hamze (2008 apud CARVALHO et al., 2010) a impor-
tância do adulto no caminho educacional que reflete um somatório de trocas de conhecimento

33
I SEMINÁRIO REGIONAL DE PESQUISA E INOVAÇÃO EM SEGURANÇA PÚBLICA

entre o facilitador e o aluno, estabelecendo, neste sentido, a andragogia no processo de aprender


fazendo.
A educação andragógica, “é uma ciência de abordagem diferenciada em educação, que
valoriza os detalhes das relações intra e interpessoais, às vezes, imperceptíveis à mente menos
atenta e inquiridora” (OLIVEIRA, 2011, p. 10). Enquanto para Bellan (2005, p. 20), “a andrago-
gia é a ciência que estuda como os adultos aprendem”.
Na compreensão de Morais (2007), a andragogia é a arte de ensinar aprendizes dota-
dos de experiências, ou seja, o aprendiz adulto. E Knowles foi o responsável pela socialização
do conceito andragogia como a arte e a ciência de ajudar o adulto a aprender. (WAAL; TELLES
2004 apud MORAIS, 2007).
No entendimento de Ferraz et al. (2004 apud MORAIS, 2007), a andragogia é a arte e a
ciência de ajudar os adultos a aprender, diferenciando-se da pedagogia. Contudo, o autor afirma
que as técnicas andragógicas quando aplicadas às crianças também são eficazes. Neste sentido,
observa-se a complementaridade entre as metodologias pedagógicas e andragógicas.
Enquanto Osório (2003) defende a metodologia andragógica como ciência e arte para
auxiliar o adulto aprendente, mas por oposição aos métodos pedagógicos. Neste sentido, o autor
apresenta as diferenças entre tais metodologias conforme o quadro seguinte:
Quadro 1: Postulados do modelo pedagógico e as contra-hipóteses andragógicas

Pedagogia Andragogia
Necessidade de Os aprendentes apenas necessitam de Os adultos têm necessidade de conhecer o
Saber saber que devem aprender aquilo que motivo pelo qual devem aprender antes de se
o professor lhes ensina comprometerem com a aprendizagem
Conceito de O professor tem do aprendente a Conscientização, por parte do adulto, da
Si imagem de um ser dependente. É esta responsabilidade de suas decisões e de sua vida.
dependência que marca, também, a Torna-se necessário que sejam encarados como
autoimagem daquele que aprende indivíduos capazes de se auto gerirem
Papel da A experiência do aprendente é Adultos portadores de experiências que os
experiência considerada de pouca utilidade. distingue das crianças e jovens. A educação
Dá-se a importância da experiência de adultos deve centrar-se nos processos de
do professor ou dos materiais aprendizagem face aos processos mais coletivos
pedagógicos de outras etapas evolutivas
Vontade de A disposição para aprender aquilo Os adultos têm a intenção de iniciar o processo
Aprender que o professor ensina tem como de aprendizagem desde que compreendam a sua
fundamento critérios e objetivos utilidade para determinadas situações da vida
internos à lógica escolar, isto é, a
finalidade de obter êxito e progredir,
em termos escolares
Orientação da Aprendizagem encarada com Aprendizagem encarada como resolução de
aprendizagem um processo de aquisição de problemas e tarefas da vida cotidiana
conhecimentos. Lógica centrada nos
conteúdos
Motivação Motivação para aprendizagem Motivação para a aprendizagem também
extrínseca ao sujeito (classificações extrínseca (promoção profissional, melhor salário,
escolares, pressões familiares, etc.), mas principalmente intrínseca (autoestima,
apreciações do professor) satisfação profissional, qualidade de vida)

Fonte: www.repositorio.ul.pt

34
I SEMINÁRIO REGIONAL DE PESQUISA E INOVAÇÃO EM SEGURANÇA PÚBLICA

Observamos que ao avaliar as diferenças entre os métodos pedagógicos e andragógicos


o autor destaca com primazia a participação do adulto aprendiz no processo de ensino. Neste
processo de aprendizagem, o adulto tem a necessidade de reconhecer os motivos para a aprendi-
zagem e sua responsabilidade na tomada de decisão; relacionar o ensino às práticas de vida e re-
solução de problemas; e a motivação para a aprendizagem ocorre em especial a partir dos anseios
intrínsecos do aprendente como: autoestima, satisfação profissional e melhor qualidade de vida.
O objetivo da andragogia é a aquisição de conhecimentos baseados em conteúdos dis-
ciplinares para o desenvolvimento de competências, de acordo com Osório (2003). Portanto, é
necessário avaliar qualitativamente o estudo, a compreensão e a prática da educação de adultos.
A metodologia de ensino andragógico apresenta suas peculiaridades, segundo No-
gueira (2004), e por tal motivo o autor procura elencar as principais diferenças no processo de
aprendizagem entre pedagogia e andragogia, enfatizando o papel primordial do educador neste
processo.
Quadro 2: Processo de (ensino) aprendizagem

Processo de (ensino) Perspectiva


aprendizagem Pedagogia Andragogia
Elaboração do plano - pelo professor - pelo auxiliador de aprendizagem e pelo
de aprendizagem aprendente
Diagnóstico de - pelo professor - pelo auxiliador de aprendizagem e pelo
necessidades aprendente
Estabelecimento de - pelo professor - através de negociação mútua
objetivos
Tipologias de plano de - planos de conteúdos organizados de - diversos planos de aprendizagem (e.g.
aprendizagem acordo com uma sequência lógica contratos de aprendizagem, projetos de
aprendizagem) sequenciados pela prontidão
dos aprendentes
Técnicas de (ensino) - técnicas transmissivas - técnicas ativas e experiências
aprendizagem
Avaliação - pelo professor - pelo aprendente
- referência a normas - referência a critérios
- através de pontuação, notas - através da validação dos companheiros,
facilitador de aprendizagem e peritos na área

Fonte: www.periodicos.udesc.br

Verificamos, ao analisar os apontamentos do autor, na pedagogia um processo de ensi-


no-aprendizagem sistemático, intencional e organizado pelo professor, enquanto que no méto-
do andragógico o professor assume papel de facilitador no ensino; neste o aprendiz é coautor da
sua aprendizagem, em uma relação mútua de planejamento de ensino. Desta forma, Nogueira
(2004, texto digital) afirma que “enquanto que o pedagogo o aplica escrupulosamente, o an-
dragogo procura que os aprendentes se responsabilizem, progressivamente, pelas suas próprias
aprendizagens”.

A Andragogia é a ciência e a arte que, sendo parte a Antropologia e estando imersa


na Educação permanente, se desenvolve através de uma prática fundamentada nos
princípios da Participação e da Horizontalidade, cujo processo, orientado com
características sinérgicas pelo Facilitador do aprendizado, permite incrementar o
pensamento, a autogestão, a qualidade de vida e a criatividade do participante adulto,

35
I SEMINÁRIO REGIONAL DE PESQUISA E INOVAÇÃO EM SEGURANÇA PÚBLICA

com o propósito de proporcionar uma oportunidade para que se atinja a autorrealização


(ALCALÁ, 1999, apud CAMPOS, 2009, p. 13).

Analisando a conceituação do modelo andragógico podemos certificar que esta ciência


vem preencher as lacunas existente ao ensino de adultos, sendo perfeitamente aplicável aos trei-
namentos e instruções policiais militares.
A andragogia por estudar o adulto por completo, facilita a interpretação das necessida-
des em sua vida, trabalho; sentimentos e habilidades, permitindo ainda analisar seus conceitos,
gostos, até comportamento; enfim, tudo que está relacionado com o seu ser.
Percebemos assim, que o processo de educação andragógica encontra consonância
com as atividades educacionais nas instruções policiais, onde, as adequações se apresentam jus-
tas e perfeitas.
Entendemos que o ensino deve buscar não somente a fixação de conhecimentos por
repetição de ações, mas a preparação do policial militar com a criação de ações instintivas, de-
senvolvendo qualidades e aptidões indispensáveis ao bom desempenho de suas missões.
Segundo Berger e Luckman (1978, p. 209) “há na educação militar, por isso, uma mu-
dança de mundo, uma socialização secundária, uma intensa concentração de toda interação
significante dentro do grupo”.
Diante da complexidade das instruções militares por parte do agente de segurança
pública, acreditamos ser extremamente necessário, atentar para a qualidade de capacitação do
agente instrutor que irá transmitir os conhecimentos inerentes à profissão.
Paulo Freire (2010) destaca o conceito de ensinar não como uma prática de transferir
conhecimento, mas sim, a criação de possibilidades para a própria produção ou construção do
conhecimento. Relata que não há docência sem discência, pois “quem forma se forma e re-for-
ma ao formar e quem é formado forma-se e forma ao ser formado” (FREIRE, 2010, p. 23).

É por isso que, do ponto de vista gramatical, o verbo ensinar é um verbo transitivo-
relativo. Verbo que pede um objeto direto e um objeto indireto. Do ponto de vista
democrático [...], ensinar é algo mais que um verbo transitivo-relativo. Ensinar
inexiste sem aprender e vice-versa e foi aprendendo socialmente que, historicamente,
mulheres e homens descobriram que era possível ensinar (FREIRE, 2010, p. 23-24).

Tratando especificamente do ensino aplicado pelos órgãos de formação, especialização


e aperfeiçoamento da Policial Militar de Santa Catarina, entendemos que devido ao fato de seus
integrantes serem exclusivamente adultos, o ensino deve estar formatado dentro de uma con-
cepção andragógica, pois esta trata do conhecimento específico do indivíduo adulto, e como já
apresentado exigem formas distintas de aprendizagem.
No quadro apresentado abaixo observamos as diferenças entre o aprendiz no modelo
pedagógico e no modelo andragógico:

36
I SEMINÁRIO REGIONAL DE PESQUISA E INOVAÇÃO EM SEGURANÇA PÚBLICA

Quadro 3: Diferenças do aprendiz no modelo pedagógico e no modelo andragógico

Modelo Pedagógico Modelo Andragógico


Papel da A experiência daquele que aprende é Os adultos são portadores de uma experiência
experiência considerada de pouca utilidade. O que é que os distingue das crianças e dos jovens.
importante, pelo contrário, é a experiência do Em numerosas situações de formação, são os
professor. próprios adultos com a sua experiência que
constituem o recurso mais rico para as suas
próprias aprendizagens.
Vontade de A disposição para aprender aquilo que o Os adultos estão dispostos a iniciar um
aprender professor ensina tem como fundamento processo de aprendizagem desde que
critérios e objetivos internos à lógica escolar, compreendam a sua utilidade para melhor
ou seja, a finalidade de obter êxito e progredir afrontar problemas reais da sua vida pessoal
em termos escolares. e profissional.
Orientação da A aprendizagem é encarada como um Nos adultos a aprendizagem é orientada
aprendizagem processo de conhecimento sobre determinado para a resolução de problemas e tarefas com
tema. Isto significa que é dominante a lógica que se confrontam na sua vida cotidiana (o
centrada nos conteúdos, e não nos problemas. que desaconselha uma lógica centrada nos
conteúdos).
Motivação A motivação para a aprendizagem é Os adultos são sensíveis a estímulos da
fundamentalmente resultado de estímulos natureza externa (notas etc), mas são os
externos ao sujeito, como é o caso das fatores de ordem interna que motivam o
classificações escolares e das apreciações do adulto para a aprendizagem (satisfação,
professor. autoestima, qualidade de vida, etc).

Fonte: www.andragogia.com.br

Observam-se a partir do quadro apresentado, as diferenças do aluno quando criança e


na fase adulta. O aprendiz é dotado de uma bagagem de vida, a qual influência sobremaneira seu
processo de ensino-aprendizagem, é predisposto a aprender quando compreende a importância
do ensino e os benefícios deste para a resolução de problemas cotidianos, enquanto no processo
do modelo pedagógico de ensino a experiência do aluno é pouco considerada, a disposição para
aprender é relacionada ao desenvolvimento nas grades escolares, a orientação para a aprendiza-
gem é centrada no conteúdo e a motivação adota por base fatores do ambiente escolar, como a
aprovação por exemplo.
Segundo estudos, são cinco os pressupostos-chave para a educação de adultos que Lin-
deman (1926 apud MORAIS, 2007) identificou:

1. Adultos são motivados a aprender na medida em que experimentam que suas


necessidades e interesses serão satisfeitos. Por isto estes são os pontos mais apropriados
para se iniciar a organização das atividades de aprendizagem do adulto.

2. A orientação de aprendizagem do adulto está centrada na vida; por isto as unidades


apropriadas para se organizar seu programa de aprendizagem são as situações de vida
e não disciplinas.

3. A experiência é a mais rica fonte para o adulto aprender; por isto, o centro da
metodologia da educação do adulto é a análise das experiências.

4. Adultos têm uma profunda necessidade de serem autodirigidos; por isto, o papel do
professor é engajar-se no processo de mútua investigação com os alunos e não apenas
transmitir-lhes seu conhecimento e depois avaliá-los.

37
I SEMINÁRIO REGIONAL DE PESQUISA E INOVAÇÃO EM SEGURANÇA PÚBLICA

5. As diferenças individuais entre pessoas crescem com a idade; por isto, a educação de
adultos deve considerar as diferenças de estilo, tempo, lugar e ritmo de aprendizagem
(LINDEMAN, 1926, apud MORAIS, 2007).

O ensino policial militar tem como diferencial possuir disciplinas que tenham o refe-
rencial teórico, mas que necessitam de simulações práticas para consolidar os conhecimentos,
os erros devem ser cometidos durante as instruções, sejam elas treinamentos específicos ou na
própria instrução geral de tropa. Nestas, o policial aluno deve ter clareza do que o professor está
repassando e compartilhar sua bagagem de experiências. O processo consiste numa via de mão
dupla de ensinamentos.
A partir desta óptica, Garcia nos remete a eficiência no ensinamento:

A eficiência é o meio: baseia-se no método, na rotina e no caminho para se chegar a


alguma coisa. Quando se tem um bom método, uma boa rotina terá a premissa de
um aumento de eficiência. Poderemos, entretanto, encontrar uma equipe altamente
eficiente, porém pouco eficaz (GARCIA, 1994, p. 90).

Em congruência ao conceito, Garcia complementa (1994, p. 90):

O treinamento segue uma rotina que propicia a toda a organização, melhoria


na qualidade dos produtos/serviços prestados. Apesar das dificuldades para o
estabelecimento de definições padrões do que venha a ser qualidade, alguns conceitos
têm sido aceitos e consagrados: “Qualidade é a adequação ao uso (Joseph Juran),
“Qualidade = zero defeito” (Philip Crosby) (GARCIA, 1994, p. 90).

É esta inter-relação entre o educador e o educando acima apresentada que demostra a


real necessidade de professores capacitados dentro da didática da educação andragógica, pois,
para melhor aproveitamento dos recursos humanos numa relação de ensino-aprendizagem,
a educação deve simular sistemas que integrem o aluno a situações mais próximas possíveis
da realidade e consequentemente consigam desenvolver suas aptidões, alcançando a máxima
aprendizagem do aprendente. (BOOG, 1994).
Permanecendo às particularidades do ensino policial militar utilizaremos os conceitos
andragógicos para aprimoramento do modelo de ensino, pois a instrução na Polícia Militar do
Estado de Santa Catarina é a atividade desenvolvida, com a finalidade de proporcionar ao seu
público interno, o policial militar, a necessária habilitação técnico-profissional, criando senso
de respeito às leis, dedicação ao cumprimento do dever, de responsabilidade e interesse pela
comunidade.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Com o crescimento dos índices de violência, a sociedade anseia por investimentos em
Segurança Pública, dentre eles a relevância na formação dos seus agentes. Por tal motivo, é ne-
cessário entender a responsabilidade de atualizar e contextualizar o policial militar, bem como
reconhecer a importância do processo de ensino nos cursos policiais, pautado em uma didática
adequada.
A partir dessa premissa, o desenvolvimento desse estudo adotou como tema a andra-
gogia, com o intuito de analisar os mecanismos de aprimoramento didático das instruções no
âmbito da Polícia Militar de Santa Catarina, fazendo uso da metodologia andragógica como
ferramenta de aprendizagem.

38
I SEMINÁRIO REGIONAL DE PESQUISA E INOVAÇÃO EM SEGURANÇA PÚBLICA

Diante dos conceitos apresentados e das peculiaridades de ensino, formação, treina-


mento e atuação dos profissionais da Polícia Militar, percebe-se a necessidade do uso de uma
didática que atenda as demandas da instituição. Tanto na formação dos formadores desta cor-
poração, como para a formação dos seus profissionais, os policiais militares.
A didática defendida neste estudo é o modelo andragógico de aprendizagem, pois pos-
sibilitará a construção de cenários favoráveis para a formação, capacitação, treinamento e apren-
dizagem contínua destes profissionais adultos.
A andragogia aborda o aprendiz adulto valorizando questões interpessoais, facilitan-
do a interpretação das necessidades desse indivíduo. Sob tal perspectiva torna-se uma valiosa
ferramenta de ensino, pois favorece um contato estreito entre o educador e o educando, em que
o processo de aprendizagem exprime características bilaterais, abrangentes, continuadas, dinâ-
micas e integradas.
A formação dos profissionais na Polícia Militar do Estado de Santa Catarina apresenta
como característica primordial o adulto aprendente, dotado de uma leitura própria do mundo,
que requer a autogestão e o incentivo à criatividade. Observa-se então na andragogia a perfeita
sintonia para o estreitamento da relação ensino-aprendizagem entre o professor e o aluno.
Verifica-se que os meios de ensino alinhados aos métodos andragógicos de educação
maximizam a aprendizagem, fortalecem o aperfeiçoamento e consequentemente o aprimora-
mento profissional do aprendente.
Por fim, conclui-se que didática andragógica atende as demandas da instituição Policial
Militar catarinense, tanto na formação dos formadores da corporação, como na capacitação de
seus aprendentes, os policiais militares, pois possibilita a construção de cenários favoráveis para
a formação, capacitação, treinamento e aprendizagem contínua destes profissionais adultos.

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40
CONSTRUINDO COMUNIDADES SEGURAS:
ESTRATÉGIAS PARA UMA INTERVENÇÃO
TÉCNICA DA POLÍCIA MILITAR EM ESPAÇOS
URBANOS

Eduardo Moraes Rieger1


Jorge Eduardo Tasca2

RESUMO: A criminalidade urbana e o sentimento de insegurança são


temas em voga na atualidade. A Polícia Militar, órgão constitucionalmente
instituído para a preservação da ordem pública, deve contribuir efetivamente
para a contenção da criminalidade e o aumento da percepção de segurança,
perfazendo a intervenção técnica no espaço urbano instrumento hábil e
efetivo para cumprir tal função. Diante desse contexto, emerge a questão de
como a Polícia Militar pode influenciar na construção de espaços urbanos
mais seguros. A partir desse questionamento este estudo objetiva apresentar
estratégias de intervenção policial militar no espaço urbano para mitigação
do sentimento de insegurança e diminuição da criminalidade. Para a
construção do presente trabalho utilizou-se o método dedutivo, valendo-se
ainda da pesquisa exploratória e da técnica bibliográfica. Como resultados da
pesquisa, foram tecidas três estratégias de intervenção: a intervenção policial
no planejamento urbanístico, as possibilidades decorrentes de atividades
interativas e a intervenção decorrente de legislação municipal.

Palavras-chave: Ambiente. Prevenção. Criminalidade.

1 INTRODUÇÃO
A violência encontra-se presente na contemporaneidade. A necessidade de proteção tem
refletido nas diversas formas de utilização do espaço e transformando todo o desenho urbano.
Sobressalta-se que, até o presente momento, um modelo incompleto de prevenção à
criminalidade urbana, sem se considerar as chagas trazidas pelo atual desenho urbano, princi-

1  2º Tenente da Polícia Militar de Santa Catarina. Bacharel em Direito pela Universidade Estadual do Oeste do
Paraná – UNIOESTE. Especialista em Ciências Criminais pela Universidade Uniderp – Anhanguera.
2 Major da Polícia Militar do Estado de Santa Catarina. Graduado no Curso de Formação de Oficiais pela
Academia da Polícia Militar de Santa Catarina - APMT. Especialista em Administração de Segurança Pública pela
Universidade do Sul de Santa Catarina – UNISUL. Mestre e Doutor em Engenharia de Produção pela Universidade
Federal de Santa Catarina – UFSC.

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I SEMINÁRIO REGIONAL DE PESQUISA E INOVAÇÃO EM SEGURANÇA PÚBLICA

palmente em ambientes periféricos onde a desorganização social e o crescimento desordenado


conduzem a distúrbios sociais e elevados índices de violência. Assim, percebe-se que não há
um modelo de arquitetura e urbanismo que promove a segurança pública, fato que deveria ser
primordial na reconstrução dos modelos arquitetônicos urbanos.
Por outro lado, a atuação da Polícia Militar, enquanto polícia administrativa geral, toca
sensivelmente as atividades concernentes à construção de um espaço urbano seguro, sobretudo
no viés de polícia preventiva e na atuação da integralidade das fases do poder de polícia (ordem,
consentimento, fiscalização e sanção), decorrência do artigo 144, § 5º, da Constituição da Repú-
blica Federativa do Brasil de 1988 (CRFB).
Diante desse contexto, emerge o seguinte questionamento: de que maneira a Polícia
Militar pode influenciar na construção de espaços urbanos mais seguros?
Destarte, o objetivo geral deste estudo é apresentar estratégias de intervenção policial
militar no espaço urbano para mitigação do sentimento de insegurança e diminuição da crimi-
nalidade.
Por sua vez, os objetivos específicos são: verificar a influência do espaço urbano no
aumento do sentimento de insegurança e na prática de crimes; descrever a extensividade das
ações de polícia administrativa com foco na intervenção das definições do espaço urbano nos
municípios; e, elencar estratégias de intervenção efetiva da Polícia Militar no espaço urbano,
com vistas a promover o aumento do sentimento de segurança e a redução da criminalidade.
Justifica-se a pesquisa pela necessidade de se ampliar as áreas de intervenção técnica da
Polícia Militar nos aspectos concernentes à ordem pública, sobretudo em área tão basilar como
o desenho urbano constituído e seus desvios. Ademais, parece não estarem esclarecidas as hipó-
teses de intervenção e a extensão da atuação policial militar em atividades decorrentes do poder
de polícia administrativa e, por conseguinte, de intervenção no desenho urbano.
O artigo foi construído através de pesquisa aplicada, utilizando-se o método dedutivo, à
medida que se parte de uma visão geral fundamentada em estudos já consolidados e na legislação,
para uma visão mais específica sobre o objeto pesquisado. Ao mesmo tempo, utilizou-se como
método a pesquisa exploratória e um aprofundamento bibliográfico na temática em questão.

2 DESENVOLVIMENTO
Construir um labor policial capaz de abarcar aspectos e situações que, aliados as téc-
nicas já consolidadas, se tornem instrumentos efetivos no enfrentamento à criminalidade é um
clamor eminente.
A busca incessante em alicerçar uma ação mais completa e consciente sobre as causas
da criminalidade e desordem, inovar e oportunizar o planejamento de espaços construídos,
relevar necessidades e modificar a percepção da prevenção criminal, são primordiais na cons-
trução do ideal de segurança pública. Assim, alguns conceitos e técnicas acerca da prevenção do
crime através do desenho urbano passarão a ser analisados.

2.1 ESPAÇOS URBANOS E CRIMINALIDADE


O crime tornou-se um problema social. O sentimento de insegurança que permeia a
sociedade moderna é latente e promove profundas mudanças nos hábitos das pessoas. Muros
altos, grades, alarmes, sistemas de monitoramento, tornaram-se uma constante na vida social

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I SEMINÁRIO REGIONAL DE PESQUISA E INOVAÇÃO EM SEGURANÇA PÚBLICA

contemporânea, produzindo um sentimento de ineficácia do sistema de segurança pública bra-


sileiro e a falência do modelo de intervenção policial repressivo. (SIQUEIRA, 2013).
Para resolução de um problema tão complexo torna-se fundamental o desenvolvimen-
to de estudos interdisciplinares que considerem o maior contingente de aspectos a influencia-
rem nos desvios sociais causadores desta mazela. (CARPANEDA, 2008).
A prevenção do crime através da arquitetura ambiental começou a ser balizada pelos
estudos desenvolvidos na década de 60 nos Estados Unidos, com Timothy Crowe, no livro Cri-
me Prevention Through Environmental Design. Também nesse país, a antropóloga Jane Jacobs
publicou o livro Vida e Morte das Grandes Cidades em 1961, no qual destaca a importância da
identidade territorial dos bairros e da vigilância natural. (AMARO, 2005).
Jane Jacobs (2011) defendia essencialmente a vida nas ruas, tendo em vista que, pes-
soas ocupando o espaço público, zelando por ele, vigiando e combatendo atitudes antissociais,
proporcionam segurança. Essa ocupação de espaços públicos deveria passar por um desenho
urbano adequado, que estimule a diversidade de atividades, garantindo o movimento em todos
os horários do dia e da noite, de maneira a proporcionar que as pessoas se apropriem destes
espaços. Estudos ambientais apontam o tipo de rua, a utilização do espaço público e a vigilância
pessoal como fatores sensíveis nas ocorrências.
Em 1971, na Obra Criminal behavior and the physical environment (O comportamento
criminal e o ambiente físico), o Dr. C. Ray Jeffery firmou a sigla CPTED − Crime Prevention
Through Environmental Design (prevenção do crime através do desenho ambiental), afirmando
ser possível impedir ou reduzir significativamente o crime alterando o ambiente externo. Para
Jeffery (1971) dois elementos tornam-se fundamentais para a prevenção criminal através da
intervenção no espaço: o lugar onde ocorre o crime e a pessoa que o comete. (AMARO, 2005).
Newman em 1972, com o CPTED, deu início a uma série de teorias voltadas a esta
problemática, a principal delas nominou como Teoria do Espaço Defensável. O conceito de
Espaço Defensável caracteriza-se pelo conjunto de estratégias capazes de reestruturar os espa-
ços residenciais das cidades, tornando-os controlados pela comunidade que os partilha. Essas
estratégias englobam barreiras simbólicas ou reais, áreas de influência fortemente definidas e
o aumento das oportunidades de vigilância, tudo articulado para criar um espaço capaz de ser
controlado pelos seus residentes. (NEWMAN, 1996).
Em 1999, Crowe aperfeiçoou o conceito de Crime Prevention Through Environmental
Design (CPTED). O autor incorporou ao problema a dimensão social, de forma a assegurar que
o espaço se torne defensável pelos seus residentes, e, por outro lado, inseriu a preocupação com
a criação de atividades sociais positivas e diversificadas para encorajar os moradores a se apro-
priarem do espaço e retirar proveito da vigilância natural. (COZENS; SAVILLE; HILLER, 2005).

2.1.1 DESENHO URBANO CONTRA O CRIME


No Brasil surgem as expressões “desenho urbano contra o crime”, “prevenção do crime
através da arquitetura ambiental”, “arquitetura contra o crime” entre outras, para referir-se a te-
mática, entendida como o ramo da arquitetura que através de intervenções no desenho urbano
contribui para a prevenção de crimes, promovendo ações e medidas para diminuir a probabili-
dade de ocorrência de eventos criminosos. (AMARO, 2005).
A abordagem da arquitetura contra o crime traz consigo quatro estratégias básicas,
cujo desempenho contribui para a criação de espaços seguros, sendo elas: o reforço territorial,

43
I SEMINÁRIO REGIONAL DE PESQUISA E INOVAÇÃO EM SEGURANÇA PÚBLICA

a vigilância natural, o controle natural de acessos e a manutenção do espaço. (SOUZA; COM-


PANS, 2009).
A estratégia do reforço territorial funda-se no fato de que as pessoas venham a vigiar
e coibir posturas antissociais no entorno de suas residências, ou, ao vislumbrarem ameaça nos
invasores, informem as forças policiais para intervenção ostensiva. Assim, o objetivo é evitar o
abandono da área e extinguir os riscos da invasão, pois uma edificação sem uso e com a qual
ninguém se preocupa leva fatalmente a sua decadência, devido à falta desse controle. Reforçar o
sentimento da preservação por parte dos habitantes contribui na destinação e utilização salutar
do espaço. (AMARO, 2005).
A vigilância natural traz consigo a lógica do ver e ser visto. Objetiva a visibilidade dos
ambientes, procurando limitar a ação criminosa através da percepção de vigilância. Muito em-
bora as pessoas que observam o criminoso não oferecem resistência à sua atividade, geralmente
ele tem suas atitudes inibidas em tal contexto. (BONDARUK, 2007).
No mesmo sentido, as pessoas sentem-se mais seguras e protegidas quando outras as
observam, mesmo não sendo policiais. Para tanto, é fundamental salientar a importância de
fazer com que edificações privadas estejam organizadas para a observação e controle do espaço
público, em vez de resguardarem-se em si mesmas, isoladas e individualmente. (COZENS; SA-
VILLE; HILLER, 2005).
A vigilância natural pode ser mecânica (quando se utiliza, por exemplo, de lâmpadas e
câmeras), natural (permite a visualização através de janelas, vidros e espaços vazios) ou organi-
zada (se destina pessoas para esse fim, como nas patrulhas policiais). (AMARO, 2005).
O controle natural de acessos contribui para a segurança individual haja vista impossi-
bilitar o acesso de uma pessoa desconhecida a um determinado ambiente sem que seja notada.
Tem o viés de restringir a ação do criminoso a seu objetivo precípuo, conduzindo-lhe a percep-
ção de risco para a prática da atividade criminosa. (BONDARUK, 2007).
Assim sendo, o controle natural do acesso pode ser mecânico (aposição de trancas,
correntes ou congêneres), natural (o próprio espaço) ou organizado (por exemplo, quando se
alocam vigilantes ou porteiros). (AMARO, 2005).
A manutenção do espaço é vital para a prevenção sustentável, relacionada com o sen-
timento de pertencimento ou apropriação e zelo que os utilizadores demonstram com o espaço,
como, por exemplo, a forma que os moradores de um bairro residencial cuidam das áreas co-
muns. O que também está ligado com o reforço territorial, pois quanto mais degradada estiver
uma área, mais apelativa poderá ser para o desenvolvimento de atividades não desejadas. (CAR-
PANEDA, 2008).
Assim, a manutenção e a imagem de um lugar podem ter um impacto significativo na
forma como será escolhido para desenvolver atividades não desejadas, evitando a ocorrência da
chamada Teoria das Janelas Quebradas ou Broken Windows Theory, teoria consistente na com-
preensão de que espaços degradados vão se ampliando de maneira a tornarem-se cada vez mais
insalubres e inseguros. (SIQUEIRA, 2013).

2.1.2 ACESSIBILIDADE E A PREVENÇÃO URBANA


A presença de acessibilidade remete a possibilidade de supervisão e monitoramento,
sendo possível somente pela presença de uma estrutura urbana razoável.

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I SEMINÁRIO REGIONAL DE PESQUISA E INOVAÇÃO EM SEGURANÇA PÚBLICA

Vale a ressalva de que hoje não se fala somente em acessibilidade, mas em mobilidade,
pois a movimentação de pessoas deve traduzir qualidade, levando as pessoas a se relacionarem
de maneira a estreitarem relações e, de igual modo, zelarem pelas vias de acesso urbano. (OLI-
VEIRA; SILVEIRA, 2012).
Para Amaro (2005), a acessibilidade é medida pelo grau de iluminação e pelo grau de
visibilidade presentes no ambiente. Nessa linha de raciocínio, a iluminação é a grande protago-
nista. Um ambiente bem iluminado é fundamental para realizar as atividades cotidianas e com
segurança. Desse modo, a presença de luz artificial à noite traz consigo a percepção de segu-
rança, já que propicia ampla visualização, inibindo a ação do delinquente, facilitando ainda as
relações interpessoais. Fato esse, imprescindível no novo conceito de mobilidade urbana, tendo
em vista os baixos índices de criminalidade onde a iluminação está presente.
Cores e temperatura também são questões determinantes, pois tratam de fatores que
alteram o comportamento humano, na própria maneira de agir e na percepção que circunda na
mente das pessoas. Como, por exemplo, luzes vermelhas que inquietam as pessoas e as excitam
a realizar mais atividades, pois se entende que o vermelho age inconscientemente aumentando
pressão sanguínea, a respiração e o piscar de olhos. Já o azul teria efeito contrário, trazendo
consigo a percepção de paz e tranquilidade. O calor potencializa a agressividade, sendo que o
ambiente mais frio tende a agir inversamente, acalentando os exaltados. (AMARO, 2005).
A visibilidade, de igual modo, interfere diretamente na atividade criminosa e essen-
cialmente na decisão do criminoso. A ausência de visibilidade torna um alvo extremamente
vulnerável, haja vista o efeito de ocultação da atividade delitiva. (BONDARUK, 2007).
O paisagismo também é útil para o reforço territorial, delimitando as áreas de lazer,
como passeios e pontos turísticos, aumentando a vigilância natural, podendo ser constituído
como barreira natural ou como um complemento às barreiras artificiais existentes. Vale ressaltar,
entretanto, que o mau uso desse cria um aspecto de ausência de manutenção do espaço, provo-
cando o aglomero de desordeiros e servindo de “habitat” para delinquentes, quando combinado
a pouca iluminação, acaba por facilitar a ocultação da prática criminosa. (SIQUEIRA, 2013).

2.1.3 O PLANO DIRETOR E A PREVENÇÃO CRIMINAL


Em determinados lugares as características negativas do desenho urbano são mais la-
tentes, sobretudo nas periferias das grandes cidades. Assim, é necessário atentar para tais espa-
ços, valorá-los com políticas públicas, na perspectiva de uma infraestrutura condizente imbuin-
do os residentes do zelo por sua manutenção e melhora. (CARPANEDA, 2008).
Ocorre que a própria população deve engajar-se na revitalização e na manutenção de
espaços ditos comuns, sendo que tal situação somente se constrói através do direcionamento
do poder público. Nesse aspecto, o Estatuto da Cidade (Lei Federal n.º 10.257, de 10 de julho
de 2001) define o plano diretor municipal como norteador da infraestrutura e delimitação de
áreas. A confecção do plano diretor clama por coordenar as diversas áreas da cidade, bem como
orientar a destinação adequada dos espaços. (BRASIL, 2001).
Veja-se, o uso presente e o planejamento dos espaços são delineados no plano diretor.
Deste modo, quando mais claro e bem delimitado ele for, elaborado com vistas a preservar e
valorar princípios de segurança, maiores serão as chances de permitir à população controlar e
aferir se há a destinação correta do espaço.

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I SEMINÁRIO REGIONAL DE PESQUISA E INOVAÇÃO EM SEGURANÇA PÚBLICA

Com a organização municipal é possível reduzir desigualdades, promover acessibili-


dade e garantir condições adequadas para o desenvolvimento sustentável, relevando a função
social da propriedade. Sobre essa questão, destaca-se que são cabíveis firmar ações de desin-
tegração de imóveis, regrar a manutenção das propriedades privadas, bem como estabelecer
prestações públicas adequadas. (OLIVEIRA; SILVEIRA, 2012).
Diante dessas medidas o plano diretor precisa contemplar o zoneamento, a destinação
de cada área, a preservação de patrimônio cultural, projetos de revitalização modificando carac-
terísticas negativas de determinadas regiões e, diferentes projetos ecológicos. (CARPANEDA,
2008).
Os espaços públicos deteriorados e deficitários geram a insalubridade, distanciam ci-
dadãos com maior renda de tais ambientes, conduzindo espaços mais estruturados a cobiças
imobiliárias, a grandes congestionamentos e assaltos. Reflexamente, tais ambientes provocam a
exclusão social, revolta e sentimento de exclusão nos moradores. (MISSE, 2010).
Por tais razões, a intervenção contra o crime deve partir da definição genética da ci-
dade, readequando espaços e ordenando todo o território do município, sob pena de tornar-se
insustentável. (OLIVEIRA; SILVEIRA, 2012).

2.1.4 USO MISTO DO SOLO NO COMBATE A CRIMINALIDADE


Inserido no contexto do plano diretor, o uso misto do solo é de suma importância para
a segurança, abarcando em um único território áreas comerciais, escritórios e prédios residen-
ciais, onde haja fluxo de pessoas em período quase integral, além de proporcionarem benefícios
lógicos para seus habitantes, como acesso amplo ao comércio próximo a residência, possibilida-
de de caminhadas e passeios, entre outros, interferem diretamente na segurança do ambiente,
vez que todos estão preocupados em melhorar as condições, vigiando, coibindo e combatendo
atitudes antissociais. Com a realização de solos mistos, Jacobs (2011) verifica uma melhora con-
siderável na ordem pública.
Para o autor, existem quatro condições indispensáveis para gerar uma diversidade efi-
caz na organização das ruas e distritos, sendo elas: a) quadras curtas, proporcionando mudança
rápida de cenários e ampla visualização; b) funções combinadas entre o distrito, garantindo
assim, a presença de pessoas que utilizem um local em horários diferentes, ocupando em todos
os momentos do dia grande parte da estrutura; c) combinação de edifícios antigos e novos e, por
fim, d) a concentração de pessoas suficientes, independente dos propósitos.
Não obstante, há alguns anos, uma modificação na visão dos planejamentos urbanos
buscou separar as diversas modalidades de uso do solo, colocando áreas residenciais em um
setor da cidade e áreas comerciais em outro, conceito que urge revisão, pensando nos índices
de criminalidade contemporâneos. Pois, uma área que possua condomínios, escritórios, restau-
rantes, habitações regulares e até mesmo órgãos públicos, estará constantemente ocupada e, por
conseguinte, vigiada; firmando-se o princípio da vigilância natural. (GAETE, 2013).
Um estudo realizado pela Universidade da Pennsylvania em 2011 trouxe dados con-
cretos da influência do tema para a prevenção do crime, em que foram examinados oito bairros
com índice elevado de criminalidade na cidade de Los Angeles, nos Estados Unidos, sendo
considerados entre eles os bairros de ocupação mista do solo. Como conclusão da pesquisa
constatou-se que em áreas de destinação exclusiva ao comércio os índices de delinquência eram
45% maiores do que em áreas semelhantes que só abarcavam residências. Já nos bairros que pos-

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I SEMINÁRIO REGIONAL DE PESQUISA E INOVAÇÃO EM SEGURANÇA PÚBLICA

suíam alternatividade entre residências e comércio obtiveram a redução de 7% na criminalidade


em relação aos estritamente residenciais, sobretudo nos crimes de roubo. (GAETE, 2013).
Diante do exposto, a previsão no plano diretor de ocupação mista do solo, é um im-
portante instrumento de prevenção criminal, possibilitando o constante movimento de pessoas
nas ruas.

2.2 POLÍCIA ADMINISTRATIVA E POLÍCIA DE ORDEM PÚBLICA


Perpassado os aspectos concernentes a influência do ambiente na criminalidade, anali-
sa-se agora o papel da Polícia Militar enquanto polícia administrativa geral para sua intervenção
no viés da prevenção.
Segundo o texto constitucional (BRASIL, 1988) a atividade policial está voltada à “pre-
servação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio”. As instituições
policiais receberam suas missões através de uma divisão muito mais ligada ao aspecto funcional
do que o territorial, puro e simples. (HIPÓLITO; TASCA, 2012).
À Polícia Militar, foram atribuídas as missões de preservação da ordem pública e a ati-
vidade de polícia ostensiva, sendo essa última a viga mestre do entendimento doravante expos-
to, que apesar de ter um aspecto singelo é dotada de ampla complexidade em sua conceituação
e mensuração das atividades por ela abrangidas.
A legitimidade da Polícia Militar como órgão adstrito a todos os aspectos da ordem
pública encontra respaldo no artigo 144, § 5º, da CRFB, que expressa sua competência de pre-
servação da ordem pública e de polícia ostensiva. (MOREIRA NETO, 2009).
A preservação da ordem pública compreende tanto a sua manutenção, através da po-
lícia preventiva, como no seu reestabelecimento por atividades de polícia repressiva. Assim,
ocorrida desordem, cabe à Polícia Militar restabelecê-la, bem como, em situação de normalida-
de, tem o dever de preservá-la, criando mecanismos para coibir toda manifestação que visa sua
quebra. (LAZZARINI, 2004).
A primeira fase, de ordem de polícia, está contida num preceito legal, conforme artigo
5º, II, da Carta Magna de 1988. Assim, o poder e o limite de atuação da Administração Pública
são ditados pela legislação. (MOREIRA NETO, 2009).
A fase do consentimento de polícia remete à anuência do Estado para o exercício de ati-
vidade privada ou utilização da propriedade particular, sempre que atendido o interesse público
e satisfeitos os condicionamentos legais exigidos. O consentimento de polícia materializa-se, via
de regra, por intermédio de um documento denominado alvará, que pode ser concedido por
licença ou autorização ao particular. (MOREIRA NETO, 2009).
Já a fiscalização de polícia, segundo o mesmo autor, é a fase na qual se objetiva verificar
o cumprimento das ordens de polícia, a fim de certificar a incidência de abuso ou excesso na uti-
lização de bens e nas atividades autorizadas pela administração pública. A fiscalização de polícia
pode ser preventiva ou repressiva e iniciada de oficio mediante provocação de um particular, ou
por ato voluntário do próprio Poder Público.
A quarta fase do poder de polícia, a sanção de polícia, trata-se da sujeição coercitiva
do infrator a medidas proibidoras ou dissuasoras impostas pela Administração Pública, quando
constatada a incidência de infrações às ordens de polícia (MOREIRA NETO, 2009).

47
I SEMINÁRIO REGIONAL DE PESQUISA E INOVAÇÃO EM SEGURANÇA PÚBLICA

Verifica-se que o policiamento ostensivo realizado pela Polícia Militar corresponde


apenas à fiscalização, terceira fase do poder de polícia. Ocorre que a Polícia Militar não deve
limitar-se às atividades de fiscalização inerentes ao “policiamento ostensivo” a pretexto de aban-
donar sua missão constitucional de “polícia ostensiva”, pois esta compreende a atuação na inte-
gralidade das fases do exercício do poder de polícia.
Por sua vez, o policiamento ostensivo, previsto no artigo 2º do Decreto n. 88777/83 (R-
200), implica na “ação policial, exclusiva das Polícias Militares, em cujo emprego o homem ou a
fração de tropa engajados sejam identificados de relance, quer pela farda, quer pelo equipamen-
to, ou viatura, objetivando a manutenção da ordem pública”. (BRASIL, 1983).
Enquanto o policiamento ostensivo limita-se a uma das fases do poder de polícia, a
fiscalização, a polícia ostensiva compreende o exercício de todas as fases do poder de polícia,
tratando-se, portanto, de uma atividade muito mais abrangente e que se destina, sobretudo, a
preservação da ordem pública.
Conclui-se, portanto, que a Polícia Militar deve atuar na completude das fases do exer-
cício do poder de polícia, influenciando diretamente no desenho urbano para a busca da pre-
servação da ordem pública.

2.3 PERSPECTIVAS PARA UMA INTERVENÇÃO POLICIAL NO DESENHO URBANO


Cumprido o conhecimento basilar, passa-se a análise das estratégias de intervenção
policial militar no desenho urbano e as nuances que se desdobram dessa aplicação.
Diante disso, conforme veremos a seguir, foram tecidos três níveis de estratégias: Inter-
venção policial no planejamento urbanístico; Possibilidades decorrentes de atividades interati-
vas; e Intervenção decorrente de legislação municipal.

2.3.1 INTERVENÇÃO POLICIAL NO PLANEJAMENTO URBANÍSTICO


Fato ainda não consagrado na legislação, pensado em termos estratégicos, o primeiro
viés de atuação tem como objetivo de ocorrer por intermédio de legislação estadual, tornando
a Policia Militar órgão regulador, através da polícia administrativa, definindo as bases da inter-
venção da instituição policial no planejamento urbanístico, de modo que o desenho e a organi-
zação espacial beneficiassem uma leitura e atuação técnico-policial.
A intervenção tem por objetivo antecipar-se a possíveis impactos negativos do tecido
edificado sobre a segurança pública, quer na fase de licenciamento, quer nas fases subsequentes
relacionadas à fiscalização (acompanhamento) e organização da segurança (relacionada com
medidas de proteção e planos de prevenção). Estudos prévios de impacto social, com caráter
consultivo ou, eventualmente, vinculativo, de projetos de urbanização também compõem a pri-
meira intervenção.
Ainda nessa estratégia, passar-se-ia a reconhecer à Polícia Militar a capacidade para
a elaboração de pareceres recomendados para mitigação de riscos identificados em específicos
contextos (edifícios, espaços públicos, etc.).
Nesse sentido, a presente intervenção tem o intuito de influenciar a constituição de
espaços urbanos e dotá-los de características mitigadoras de situações de desordem e criminali-
dade. Modificar as concepções de espaços, sua forma de utilização e designação, bem como im-

48
I SEMINÁRIO REGIONAL DE PESQUISA E INOVAÇÃO EM SEGURANÇA PÚBLICA

pedir bolsões de criminalidade e desordens sociais sobre espaços urbanos constituídos, torna-se
primordial para o enfrentamento do problema, até então, considerado insolúvel.

2.3.2 POSSIBILIDADES DECORRENTES DE ATIVIDADES INTERATIVAS


Existem possibilidades de intervenção que, embora independam de meios impositivos
para sua execução, são extremamente efetivas e, sobretudo, aplicáveis, conforme apresenta-se a
seguir:

a) Guia de prevenção criminal urbanística e folders educativos

Atualmente as pessoas clamam por maneiras de garantir sua segurança. O desconhe-


cimento de que pequenas atitudes podem modificar um cenário propício ao cometimento de
crimes faz com que índices criminais, sobretudo patrimoniais, atinjam indicadores cada vez
maiores e se tornem perniciosos ao sentimento de segurança social.
A veiculação de informações sobre simples maneiras de influenciar no cometimento
de delitos e no sentimento de segurança são anseios da sociedade que vive refém do medo. So-
mente o conhecimento técnico, transmitido pelo órgão responsável por proteger pessoas e bens,
é legítimo para impactar e conduzir pessoas a tomarem tais atitudes.
Uma maneira simples, porém efetiva de informar e comunicar situações relevantes são
aquelas realizadas mediante folders e encartes que possam comunicar de maneira simplificada e
individualizada sobre a prevenção à criminalidade em residências, comércios e outras edifica-
ções que influenciam diretamente no desenho urbano.
Algumas práticas têm sido utilizadas em determinados CONSEG’s (Conselhos Comu-
nitários de Segurança), conforme o exemplo3 do CONSEG pertencente ao Centro de Florianó-
polis – SC, em que boas práticas em estabelecimentos comerciais são difundidas por intermédio
de folders influenciando positivamente a segurança dos locais de trabalho.
Outra possibilidade4, crescentemente difundida em países europeus, perfaz-se em um
manual de informações que retrata problemas urbanos sensíveis, concernentes aos princípios
do desenho urbanístico (CTPED) buscando promover segurança.

b) Selo de certificação de segurança

Semelhante ao modelo desenvolvido na Holanda pode-se citar o selo de certificação de


segurança como importante instrumento para a influência direta da Polícia Militar em ambien-
tes urbanos inseguros. (RICARDO; SIQUEIRA; MARQUES, 2013).
Destarte, a concessão de um selo oficial da Polícia Militar teria o condão de agregar va-
lor a edificações, loteamentos e serviços prestados na área, conferindo-lhes a indicação de local
de baixo risco para cometimento de delitos.

3  Folheto sobre prevenção criminal através do desenho urbano em comércio foi desenvolvido pelo Conseg-Centro
da Cidade de Florianópolis em parceria com diversas entidades e o patrocínio da Secretaria de Segurança Pública
- https://drive.google.com/file/d/0B_egqlNitj_JTjhpZDNPX1h3RHM/view.
4  Versão portuguesa foi traduzida em 18/02/2013 sendo-lhe concedida a nomenclatura de “Prevenção Criminal
Através do Espaço Construído - Guia de Boas Práticas” - http://www.veilig-ontwerp-beheer.nl/publicaties/cpted-
prevencao-criminal-atraves-do-espaco-construido-guia-de-boas-praticas.

49
I SEMINÁRIO REGIONAL DE PESQUISA E INOVAÇÃO EM SEGURANÇA PÚBLICA

O “selo verde”, indicando a aplicação de princípios da arquitetura contra o crime, con-


teria o Brasão da Polícia Militar e se daria após análise técnica de adequações do projeto arqui-
tetônico, ou, em se tratando de profissional ligado a área, após conclusão de minicurso a ser
realizado sob a supervisão de policial militar com conhecimento na área.

2.3.3 INTERVENÇÃO DECORRENTE DE LEGISLAÇÃO MUNICIPAL


A derradeira e mais efetiva intervenção a curto e médio prazo seria a intervenção de-
corrente de legislação municipal. Dispõe o artigo 30, inciso VIII, da CRFB/88, que cabe aos
municípios “promover, adequado ordenamento territorial, mediante planejamento e controle
do uso, do parcelamento e da ocupação do solo.” (BRASIL, 1988).
Concomitantemente, o artigo 182 da mesma Carta Constitucional afirma que a política
de desenvolvimento urbano deve ser executada pelo poder público municipal, mediante dire-
trizes gerais fixadas em lei, com a finalidade de ordenar o pleno desenvolvimento das funções
sociais da cidade e garantir o bem-estar de seus habitantes.
Como se observa, o principal interesse do constituinte é que os espaços urbanos pos-
sam cumprir com suas funções sociais, garantindo o bem-estar de toda a população ali residen-
te. O que se encontra pendente é a maneira como ocorre o cumprimento da função social da
propriedade urbana. Não obstante, o próprio artigo 182, em seu § 2º, resolve a celeuma à medida
que cumpre com sua função, quando atende às exigências fundamentais de ordenação da cidade
expressas no plano diretor. (BRASIL, 1988).
Pormenorizando o debate, Édis Milaré (2004) aponta o plano diretor como instrumen-
to básico da política urbana, sendo ele quem concebe os rumos ao desenvolvimento saudável e
sustentável da comunidade municipal.
Quanto à aprovação do plano diretor, o poder público municipal poderá corrigir uma
série de distorções de ordem urbanística presentes no espaço territorial do município, muitas
destas históricas, além de planejar futuras ocupações e seus múltiplos usos. Assim, basta que
sobre área incluída no plano diretor, e mediante lei específica, exija-se, nos termos do artigo 82,
§4º, inciso I, II e III, do Estatuto das Cidades, de proprietários de solo urbano não edificado,
subutilizado ou não utilizado, que promova seu adequado aproveitamento, sob pena, sucessiva-
mente, de: 1) parcelamento e edificação compulsórios; 2) imposto sobre a propriedade predial e
territorial urbana progressivo no tempo; e 3) desapropriação com pagamento mediante títulos
da dívida pública. (BRASIL, 2001).
De imediato, o plano diretor reveste-se de valor imensurável na ordenação territorial
e, reflexamente, no desenho urbano contra o crime. Com isso, a Polícia Militar deve tornar-se
órgão consultivo no momento da confecção da lei do plano diretor, concedendo-lhe uma leitura
técnico-policial no que diz respeito ao ordenamento urbano.
Num segundo momento, em análise específica, percebe-se que, muito embora o Esta-
tuto das Cidades permita ao poder público municipal intervir e até desapropriar áreas subutili-
zadas e não utilizadas, muitas vezes tal fato não se materializa por questões inerentes a ausência
de fiscalização ou, quiçá, por não compreensão de quão pernicioso à segurança pública e a pró-
pria estética local redundam as desordens causadas por tais propriedades.
Prostrado aos motivos ora expostos, inafastável à intervenção policial militar no con-
trole e aplicabilidade do plano diretor e de seu Código de Posturas, agrega-se, ainda, uma segun-

50
I SEMINÁRIO REGIONAL DE PESQUISA E INOVAÇÃO EM SEGURANÇA PÚBLICA

da hipótese, decorrente de aplicação de multas em espaços privados desordenados e a elabora-


ção de pareceres aos órgãos incumbidos pela administração dos espaços públicos.
Contudo, a construção de um espaço urbano seguro, com a intervenção em atividades
comerciais e empresariais que dependam de outorga do poder público municipal, mediante a
concessão de alvarás, utilizando-se de princípios do CTPED e de técnicas de prevenção ambien-
tal, torna-se extremamente valiosa. Dependendo assim, da concessão de alvarás de “ambiente
seguro” pela Polícia Militar para a construção de um espaço urbano seguro.
Deste modo, torna-se a Polícia Militar órgão de ordenação, quanto ao auxílio de ela-
boração da lei do plano diretor para o consentimento, mediante a concessão de alvarás de “am-
biente seguro”, fiscalizador e sancionador, através de aplicabilidade de multas em convênio com
prefeituras municipais.

3 CONCLUSÃO
A arquitetura contra o crime se desvela como estratégia importante para atingir tais
objetivos, realizada de maneira integrada com a comunidade na busca pela solução efetiva dos
problemas de segurança pública.
Nesse sentido, a missão constitucional da polícia ostensiva e de preservação da ordem
pública demanda da Polícia Militar uma atuação preventiva contra desordens urbanas que le-
vam a criminalidade.
Diante do exposto nesse trabalho, a Polícia Militar torna-se apta a influenciar direta-
mente no desenho urbano. Obtém-se o reconhecimento institucional na questão, bem como há
um aumento da discricionariedade na atuação policial militar, visando uma melhor resolução dos
problemas de insegurança e desordens, que hoje fogem do campo de intervenção da Instituição.
Estratégias já consolidadas de policiamento ostensivo, empregadas de forma isolada,
têm demonstrado alcance limitado, não atendendo a crescente demanda criminal existente,
logo, novas estratégias no enfrentamento do crime devem ser criadas, sempre na busca eficaz da
ordem pública.
O desenho urbano contra o crime torna-se ferramenta relevante e efetiva para a cons-
trução desse ideário de segurança pública, sendo sua aplicabilidade prática construída nas três
estratégias de intervenção propostas neste trabalho, indeléveis para aplicação desta técnica de
prevenção criminal.

REFERÊNCIAS
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da Arquitetura Ambiental. Rio de Janeiro: [s.n.], 2005.

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2007.

BRASIL. Advocacia-Geral da União. Parecer GM-25. As Forças Armadas, sua atuação,


emergencial, temporária, na preservação da ordem pública. Aspectos relevantes e norteadores
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51
I SEMINÁRIO REGIONAL DE PESQUISA E INOVAÇÃO EM SEGURANÇA PÚBLICA

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53
A MEDIAÇÃO POLICIAL NAS AÇÕES DE
REINTEGRAÇÃO DE POSSE: O CASO PROJETO
HABITACIONAL FLORESTA I E II

Marcelo Victor Duarte Corrêa1


Wagner Luiz de Menezes2

RESUMO: O presente trabalho apresenta um estudo sobre técnicas de


mediação de conflitos, que surgem por conta das relações de diferentes
atores sociais, através das disputas por espaços decisórios, pelas riquezas
urbanas, posses de espaços entre outras. Nesse contexto surge o conflito – em
ambiente urbano ou rural – que envolva pelo menos dois atores coletivos e/ou
institucionais (inclusive o Estado) e se manifeste em espaço público. Pesquisa
fundamentada em autores consagrados, legislação e documentos oficiais,
apresentando aspectos relevantes onde a aplicação da negociação se apresenta
como a melhor opção. Investigação bibliográfica descritiva, com análise de
case. A análise dos dados foi obtida a partir da mediação realizada em 2014,
pela Polícia Militar do Estado de Rondônia, com análise das possibilidades,
procedimentos empregados e resultados obtidos. As Considerações Finais
sinalizam na mediação a melhor solução quando requisitada. Recomenda-
se sua manutenção a cargo da Polícia Militar, promovendo integração com a
população e manutenção da ordem pública sem a necessidade de intervenções
mais severas.

Palavras-chave: Conflitos e manifestações sociais. Mediação de


conflitos urbanos. Polícia Militar de Rondônia. Projeto Habitacional Floresta
I e II. Reintegração de posse.

1 INTRODUÇÃO
O foco das Polícias Militares no Brasil, com a recente discriminação da filosofia de
Polícia Comunitária traz em seu escopo como principal objetivo a proximidade da comunidade
com a polícia, aumentando o índice de credibilidade da instituição principalmente quanto à
expectativa de aumento da sensação de segurança por parte da sociedade.

1  Cap PMRO. Especialista em Segurança Pública e Direitos Humanos (UNIR). Gabinete do Vice-Governador,
Casa Militar do Governo do Estado de Rondônia. E-mail: marcelopmro@hotmail.com.
2  Oficial CSLI. Professor Doutor Programa de Especialização em Educação, Pobreza e Desigualdade Social (DEEE/
CCE/UFSC). Union Corps Saint Lazarus International. E-mail: wagnerluiz@mandic.com.br.

54
I SEMINÁRIO REGIONAL DE PESQUISA E INOVAÇÃO EM SEGURANÇA PÚBLICA

Dentro deste contexto a figura do Policial Militar como elo entre a sociedade e o estado
reveste-se de especial importância, uma vez que é o responsável, em grande parte, pelo sucesso
de políticas públicas de segurança a partir de sua capacidade de liderança, iniciativa e interação
com a comunidade.
A prática da mediação policial requer daqueles incumbidos desse processo, uma capa-
cidade impar de diálogo, carisma, credibilidade e o apoio do comando para que as negociações
que as negociações tenham êxito.
A mediação que trata este trabalho se refere a uma invasão de terras do município de
Porto Velho – RO, cuja comunidade é formada por uma população extremamente carente em
todos os aspectos. Nela foram encontradas famílias numa total miséria, comerciantes oportunis-
tas lado a lado com delinquentes profissionais, indiferentes à problemática social o que por si só
já é um estopim para desencadear um conflito com perdas irreparáveis.

2 MEDIAÇÃO DE CONFLITOS
É possível afirmar que a mediação é uma das formas possíveis de se lidar com um
conflito, por meio da qual um terceiro, mediador ou mediadora, a partir do momento em que
as partes solicitam ou aceitam a intervenção, ajuda as pessoas a se comunicarem melhor, a ne-
gociarem e, se possível, a chegarem a um acordo.
Em seu livro “Mediação Familiar”, a psicóloga Stella Breitman e a advogada Alice Porto
fazem uma interessante análise sobre os diversos conceitos de mediação. Uma das definições
mais abrangentes é de Almeida (1998) citada por Breitman e Porto (2001, p. 46):

A mediação é um processo orientado a conferir às pessoas nele envolvidas a autoria


de suas próprias decisões, convidando-as à reflexão e ampliando alternativas. É um
processo não adversarial dirigido à desconstrução dos impasses que imobilizam a
negociação, transformando um contexto de confronto em contexto colaborativo. É um
processo confidencial e voluntário no qual um terceiro imparcial facilita a negociação
entre duas ou mais partes onde um acordo mutuamente aceitável pode ser um dos
desfechos possíveis (BREITMAN & PORTO, 2001, p. 46).

Na fala de Vasconcelos (2008, p. 106) mediação é um meio geralmente não hierarqui-


zado de solução de disputas em que duas ou mais pessoas, com a colaboração de um terceiro, o
mediador.
Este por sua vez deve ser apto, imparcial, independente e livremente escolhido ou acei-
to – exposto o problema, são escutadas e questionadas possíveis soluções, dialogam construti-
vamente e procuram identificar os interesses comuns, opções e, eventualmente, firmar o acordo.
Já para Ribeiro (2005, p. 59) por ser a Mediação um instituto democrático, voluntário
e pacificador, seus resultados são de muita eficácia, pois se baseia no relacionamento entre as
pessoas físicas ou jurídicas, com base no entendimento comum, na busca das melhores soluções
para as partes.
Holanda (2005, p. 29) complementa que a Mediação, como método autocompositivo
de resolução de conflitos, é largamente utilizada em muitos países, e, que em alguns é ensinado
como método de desenvolvimento em convívio social desde o primeiro contato da criança com
a escola. A definição do processo de mediação de conflitos está diretamente relacionada à orien-
tação teórica de sua autoria.

55
I SEMINÁRIO REGIONAL DE PESQUISA E INOVAÇÃO EM SEGURANÇA PÚBLICA

Percebeu-se em leituras realizadas para a elaboração deste texto que existem teóricos
que enfatizam a resolução de conflitos, então, a mediação seria uma forma de resolução de
conflitos, a proposta de ajustes entre as partes, de tal forma que a mediação teria como objetivo
principal o acordo.
Existem ainda autores que ressaltam a comunicação; logo, a Mediação seria um meio
de proporcionar uma melhor comunicação entre as pessoas em conflito, outros salientam a
transformação, de maneira que a mediação transformativa é mais enfatizada, não importando
se as pessoas chegam a um acordo ou não.
É possível perceber-se que o processo de mediação é complexo, podendo comportar os
conceitos de “resolução de conflitos” (ou gestão de conflitos), “acordo”, “comunicação”, “transfor-
mação” etc. e não deve ser visto, porém, de forma simplista, atado a apenas um desses conceitos.
No Brasil a Lei que regulamenta o uso de alternativa de resolução de conflitos é a de
número 9307/96 (BRASIL, 1996), também conhecida como Lei Marco Maciel. onde prevê, entre
outras, a atuação de uma terceira pessoa como Mediador, que tem o papel de estabelecer um
clima favorável devendo agir de maneira imparcial.
Percebe-se na leitura do documento a recomendação, de modo enfático, que o mediador
deve ser qualificado para conduzir o processo de forma sigilosa, permitindo aos conflitantes to-
mar decisões por si mesmo para que encontrem uma solução duradoura e mutuamente aceitável.

2.1 CONTROLE DE DISTÚRBIOS


Para entender os conceitos de Distúrbios Civis, se faz necessário um breve resumo
sobre a abordagem da Psicologia das Massas, na Europa, o interesse pelo estudo das massas
nasceu no contexto marcado pelas transformações políticas e tecnológicas decorrentes da Re-
volução Francesa e da Revolução Industrial. Como desdobramento desses processos históricos,
surgiram as aglomerações urbanas, as fábricas, os movimentos operários e um novo tipo de
comportamento: o coletivo, mobilizando multidões (CHAVES, 2003, p. 44).
É claro que há muitas teorias, diferentes concepções e distintos pontos de vista sobre o
comportamento social coletivo, passando por teóricos conceituados como Freud, Gabriel Tarde
e chegando aos psicólogos sociais, sociólogos e antropólogos contemporâneos.
A visão tradicional de controle de distúrbios deve ser renovada considerando as pecu-
liaridades de cada situação que se apresente e seus preconceitos revistos. Assim sendo, é neces-
sário que se esteja permanentemente atualizado também quando se trata de procedimentos que
sejam utilizados nas práticas policiais usuais para este tipo de abordagem.
Os militares das Forças Armadas, e os policiais, militares e civis, envolvidos em Opera-
ções de Controle de Distúrbios e Controle de Distúrbios Civis, respaldam-se, fundamentalmen-
te, nos comandos constitucionais de preservação da ordem pública e materializam o exercício de
um dos poderes administrativos do Estado, o Poder de Polícia, que recebe uma definição precisa
no Código Tributário Nacional (BRASIL, 1966).

2.2 POLICIA COMUNITÁRIA E MEDIAÇÃO POLICIAL


Entre as medidas que estão sendo adotadas para diminuir os índices de violência e au-
mentar a segurança, destaca-se a proposta da polícia comunitária, que é uma filosofia de trabalho
que apresenta uma polícia preventiva e que objetiva aproximar os policiais da população e forta-
lecer a confiança da sociedade nas instituições policiais do Estado (MARCINEIRO, 2009, p. 91).
56
I SEMINÁRIO REGIONAL DE PESQUISA E INOVAÇÃO EM SEGURANÇA PÚBLICA

A polícia comunitária é uma nova parceria entre a população e a polícia, buscando, aci-
ma de tudo, uma conscientização popular acerca da responsabilidade social de cada indivíduo e
ainda do comprometimento de ambas as partes na solução de problemas e na busca de melhoria
da qualidade de vida da comunidade.
O modelo adotado na prestação de serviços de polícia comunitária objetiva assegurar
maior legitimidade social para o desenvolvimento do seu trabalho e a adesão da população
como parceira na prevenção de delitos (MARCINEIRO, 2009, p. 104).
Aliado à proposta de aproximar os agentes de segurança pública e a população, os
centros de mediação nasceram destinados a auxiliar a resolução de conflitos sociais frutos da
convivência de pessoas que têm vínculos afetivos e relações continuadas (familiares, vizinhos,
amigos) e que, quando mal administrados, podem gerar atos de violência e crime.
Nossa sociedade está acostumada a resolver os conflitos de maneira adversária, ou seja,
vendo o outro como um oponente, um adversário, por tanto sempre se procura formas de reso-
lução do conflito com esse cenário de adversidade.
A ideia da mediação ligada aos agentes da segurança pública é inovadora porque, além
de contribuir para aproximá-los da população, contribui para as atividades do policiamento
comunitário, na medida em que pode bem administrar diversos conflitos sociais e auxiliar no
desenvolvimento da cultura da paz.
Geralmente os policiais se encontram ante ao conflito em um grau bastante elevado,
ocorrendo na maioria das vezes agressões físicas e verbais – situação esta enfrentada diversas
vezes no cotidiano profissional deste pesquisador. A mediação é uma alternativa para se buscar a
satisfação dos dois lados conflitantes, apontando valores diferentes dentro de um diálogo aberto.
O caminho não é eliminar o conflito, mas percebê-lo como uma oportunidade de me-
lhorar – o mundo de hoje necessita dos conflitos, pois são eles que revelam as situações injustas
de nossa sociedade. A missão não é eliminá-lo, mas transformar a maneira com que o resol-
vemos. Deve-se coibir as soluções destrutivas e violentas, buscando orientar os envolvidos de
maneira positiva e construtiva, utilizando as ferramentas da mediação.

2.2.1 POLÍCIA COMUNITÁRIA NO ESTADO DE RONDÔNIA


O Estado de Rondônia já esteve em destaque nacional a partir de um projeto de Polícia
Comunitária desenvolvida na cidade de Cacoal, quando tal projeto apresentou índices de redu-
ção de conflitos geradores de violência determinantes ao aumento de sensação de segurança por
parte da população local.
A polícia, como uma entidade participante da vida ativa dos cidadãos, pretende que a
sociedade abandone a imagem de uma polícia repressora e sancionadora; despertando respeito
e confiança, e que provoque proteção, segurança, simpatia, familiarização, confiança, tanto na
atenção que o cidadão a de receber como na resolução dos problemas que podem surgir (SA-
LES, 2009, p. 67).

3 MODELOS DE MEDIAÇÃO DE CONFLITOS E SUA APLICABILIDADE


Existem dois modelos de mediação diferentes, um focado na relação e outro focado
no acordo, conforme Vasconcelos (2008 apud SALES, 2009, p. 36-37) o primeiro prioriza a
mudança no processo de relação como um todo, por meio da comunicação da apropriação e

57
I SEMINÁRIO REGIONAL DE PESQUISA E INOVAÇÃO EM SEGURANÇA PÚBLICA

do reconhecimento, enquanto o último enfatiza o problema concreto em busca de um acordo,


desconsiderando a relação entre as partes após o processo de mediação.
Para Vasconcelos (2008 apud SALES, 2009, p. 37) a mediação focada na relação é dire-
cionada principalmente aos conflitos entre pessoas que mantem relações permanentes ou con-
tinuadas. Ela propõe uma mudança de atitude em relação ao conflito por sua natureza transfor-
mativa, buscando primeiramente a restauração da relação e, só depois, a construção de algum
acordo.
O autor (2008 apud SALES, 2009, p. 39) destaca quatro tipos de Mediação de Conflitos,
entre pessoas que convivam, habitem, trabalhem ou estudam em um mesmo ambiente.
Seriam elas a mediação familiar para os conflitos no âmbito das famílias ou domésticos
e a mediação comunitária para as divergências entre vizinhos ou membros de uma determinada
comunidade – mesmo que sem um conflito mais inflamado, de caráter litigioso, por exemplo,
conforme afirma Castells (2000, p. 22-23).
Em seu texto Vasconcelos (2008 apud SALES, 2009, p. 39) também aponta casos de
mediação escolar especificamente para as instituições educacionais, inclusive quando praticada
para os conflitos entre os próprios alunos, e a mediação corporativa para os conflitos no âmbito
empresarial.

3.1 CONFLITOS URBANOS


No contexto de disputas, surge uma noção de conflito urbano que pode ser conceitua-
do como todo e qualquer conflito (confronto ou litígio) relativo à infraestrutura, serviços ou
condições de vida urbana, que envolvam pelo menos dois atores coletivos e/ou institucionais
(inclusive o estado) e se manifestam no espaço público sem necessariamente haver o uso da
violência (CASTELLS, 2000, p. 22-23).
Para uma melhor definição de conflitos urbanos se faz necessário discorrer sobre al-
guns dos tipos de conflitos, pois no sentido literal da expressão pode-se considerar conflito ur-
bano como sendo qualquer dos já citados, familiar, comunitários, escolares ou corporativos que
aconteça em perímetro urbano, quando em verdade a expressão se refere a conflitos onde haja
a representatividade da massa.

3.1.1 CONFLITOS EM VIA PÚBLICA


Quando há a ocupação, bloqueio ou interrupção do fluxo de qualquer via pública por
manifestantes, dentro do contexto de reinvindicação, mesmo que não haja o uso da violência,
uma vez que frustre o direito de ir e vir dos cidadãos que não participam do manifesto (VAS-
CONCELOS 2008 apud SALES, 2009, p. 39-40).
Comumente utilizados por manifestantes uma vez que sua repercussão acaba gerando
a atenção da mídia e por consequência uma pressão maior nas autoridades responsáveis em
atender as reinvindicações.

3.1.2 CONFLITOS COM OCUPAÇÃO DE EDIFICAÇÕES


Comum nos casos de invasão por sem tetos, a ocupação de edificações se alastra pelas
grandes cidades do país, sendo alvo de críticas as políticas públicas de habitação e desenvolvi-
mento urbano, gerando conflitos entre proprietários e invasores.

58
I SEMINÁRIO REGIONAL DE PESQUISA E INOVAÇÃO EM SEGURANÇA PÚBLICA

Em muitos casos recorre-se ao emprego do poder de polícia do estado para o cumpri-


mento de determinações judiciais, a partir de confrontos diretos entre policiais e moradores
com resultados catastróficos (AMORETTI & CARLET, 2012, p. 12 e VASCONCELOS 2008
apud SALES, 2009, p. 40-41).
Cabe ainda ressaltar que se considera também neste caso a ocupação temporária de
qualquer edificação pública ou privada como forma de protesto como é o caso dos professores
que invadam uma determinada prefeitura, resistindo em sair do local até que suas reinvindica-
ções sejam atendidas.

3.1.2.1 CONFLITOS COM OCUPAÇÃO DE IMÓVEIS PÚBLICOS


Quando necessariamente haja a ocupação, independente do objetivo, seja para mora-
dia ou apenas despertar a atenção midiática à alguma questão específica, de imóveis públicos
ou sob a administração pública, como o caso de invasão de repartições públicas, ou imóveis
ainda em processo de construção, escolas, hospitais, entre outros (VASCONCELOS, 2008 apud
SALES, 2009, p. 39).

3.1.2.2 CONFLITOS COM OCUPAÇÃO DE IMÓVEIS RESIDENCIAIS


Este tipo de conflito é comum em grandes cidades que apresentam problemas de in-
fraestrutura urbana e de moradia, por exemplo, quando um residencial, que fora construído
com a finalidade de ser distribuídos a famílias desabrigadas, é invadido e tomado de forma
indiscriminada com ou sem o uso da violência, antes do processo de distribuição e apropriação
de novos moradores (AMORETTI & CARLET, 2012, p. 13).

3.1.2.3 CONFLITOS COM OCUPAÇÃO DE PONTOS SENSÍVEIS


Entende-se por pontos sensíveis aqueles que devem ter a segurança priorizada por di-
versos fatores que lhe conferem características importantes ou muito importantes. Pode ser con-
siderado, por exemplo, como ponto sensível, uma via que é o único ou mais rápido acesso a um
hospital de urgência e emergência, ou uma ponte que possui a mesma característica ou é acesso
único de um bairro ou uma cidade, cuja sua obstrução poderá gerar prejuízos financeiros ou até
custar a vida de pessoas (CHAVES, 2003, p. 73; AMORETTI & CARLET, 2012, p. 13).
Em manifestações urbanas parte-se do princípio de quanto mais sensível for o ponto
do conflito maior será a eficiência dos responsáveis em solucionar a questão, pois haverá uma
comoção popular por parte dos que não participam da manifestação ou protesto, porém na
maioria das vezes não se mensuram os riscos e os futuros prejuízos que podem advir desta ação.

3.2 CONFLITOS AGRÁRIOS


A concentração fundiária no Brasil esconde uma faceta excludente e destrutiva nos
aspectos econômicos, culturais e ambientais. O país está entre os países com a maior concentra-
ção fundiária do mundo. A concentração de terras nas mãos de poucos e grandes proprietários
acompanhada da receita das transnacionais se contrapõe à realidade da maioria dos habitantes
pobres e sem terra do campo.
Não por acaso, buscando fazer frente a esta realidade trabalhadores do meio rural pas-
saram, especialmente a partir da década de 1980, de acordo com Chaves (2003, p. 75), em busca
de se organizar na constituição dos chamados movimentos sociais de luta pela terra, a exemplo

59
I SEMINÁRIO REGIONAL DE PESQUISA E INOVAÇÃO EM SEGURANÇA PÚBLICA

do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), do Movimento dos Pequenos Agri-
cultores (MPA), do Movimento das Mulheres Camponesas (MMC) e do Movimento de Liber-
tação dos Sem-Terra (MLST).
Há de se considerar que, em meio a famílias sérias que buscam um pedaço de terra para
sua subsistência, existem oportunistas, que vêm no movimento uma possibilidade para se tirar
proveito da situação.
Esta manifestação pode ser percebida, por exemplo, em diversos casos como quando
logo após a conquista do lote, acontece a venda e o retorno ao movimento em busca de um novo,
seja pela manipulação das massas por políticos, transformando o movimento em uma força
política utilizada sempre que houver o interesse particular deste ou daquele partido (FERNAN-
DES, 2006, p. 45).
O caso mais contundente em Rondônia, um conflito armado sem precedentes no esta-
do, conhecido como “O Massacre de Corumbiara”, ocorrido em nove de agosto de 1995, na área
da fazenda Santa Elina no município de Corumbiara, vitimou policiais militares e trabalhadores
sem terra, gerando um cenário de violência que desencadeia sequelas até os dias de hoje.
Existem atualmente centenas de pontos de conflitos agrários espalhados pelo país, en-
volvendo uma infinidade de agentes e de seus interesses, são terras indígenas invadidas por
posseiros, grileiros, garimpeiros e madeireiros, fazendas, produtivas e improdutivas invadidas
por famílias sem terra e uma série de assentamentos nas estradas próximos a propriedades que
podem ser invadidas a qualquer momento gerando a tensão de um confronto iminente (STÉ-
DILE, 1997, p. 91).

3.2.1 CONFLITOS COM OCUPAÇÃO DE TERRAS OCIOSAS


A Constituição Federal, em seu artigo 185, afirma que a propriedade produtiva não
será desapropriada para fins de reforma agrária. Complementa, em seu parágrafo único, afir-
mando que ela terá tratamento especial, isso coloca as propriedades rurais improdutivas na mira
dos movimentos que buscam a reforma agrária (ARANHA, 2011).
A terra é por excelência um bem de produção, porque tem como utilidade natural a
produção de bens necessários à sobrevivência humana. Logo, se ela é mantida inerte ou inapro-
veitável não exerce sua função econômica, não gerando bens à sociedade, por isso mesmo é que
possui uma destinação social e uma função econômica tão importante que a sua utilização deve
ser subordinada em regime especial.

3.2.2 CONFLITOS COM OCUPAÇÃO DE TERRAS PRODUTIVAS


Não cabe nesta pesquisa um estudo aprofundado nas questões agrárias uma vez ser um
assunto de inesgotáveis divergências entre os estudiosos do tema, restando apenas uma sucinta
explicação para a compreensão básica de uma definição, o que realmente importa para este es-
tudo são os conflitos gerados a partir das ocupações sejam elas.

3.2.2.1 CONFLITOS COM OCUPAÇÃO DE CAMPOS EXPERIMENTAIS DE PESQUISA


Normalmente as invasões destes locais buscam chamar a atenção da mídia para as
questões agrárias, mesmo por que não se tratam de grandes latifúndios. Frequentemente os
campos de pesquisa ocupam uma área pequena, não comportando a subsistência de várias famí-

60
I SEMINÁRIO REGIONAL DE PESQUISA E INOVAÇÃO EM SEGURANÇA PÚBLICA

lias, porém sua ocupação gera uma cobertura expressiva por parte da mídia dando “holofotes”
aos manifestantes.

4 MEDIAÇÃO POLICIAL NAS AÇÕES DE REINTEGRAÇÃO DE POSSE: CASO


PROJETO HABITACIONAL FLORESTA I E II, RUA TRÊS E MEIO – PORTO VELHO
Passemos a análise da ação de Mediação Policial no Projeto Habitacional Floresta I e
II, localizado na Rua Três e Meio na Cidade de Porto Velho – Rondônia. Antes, porém de se
diagnosticar a ação de Mediação Policial no local, será necessária realizar uma análise de como
surgiu à ocupação do Estado de Rondônia e da cidade de Porto Velho.

4.1 OCUPAÇÃO DE RONDONIA E PORTO VELHO


A ocupação do Estado de Rondônia ocorreu em decorrência do processo de integração
da Amazônia, quando o governo fomentava a ocupação das terras Rondonienses para o desen-
volvimento agrícola e a exploração de madeira, onde as reservas de florestas substituídas por
lavouras e pastos (NASCIMENTO, 2012, 104).
No início da ocupação do estado havia apenas pequenos grupos no norte e noroeste
do estado por ocasião da construção da Madeira-Mamoré, após a construção da estrada co-
meçaram a surgir pequenos grupos ao longo da BR 364, principal rodovia que corta o Estado.
Essas cidades que hoje margeiam a rodovia surgiram em decorrência dos postos telegráficos que
foram instalados a época (NASCIMENTO, 2012).
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE (BRASIL, 2010) no
ano 2000, Porto Velho era a cidade mais populosa do estado com população de 273.496 habitan-
tes, sendo 18.26% na zona rural.
Em 2010 a população saltou para 391.014 habitantes sendo apenas 9% na zona rural. A
época os projetos de colonização agrícola constituíram-se na principal atividade na ocupação do
estado e a urbanização está relacionada ao crescimento da atividade industrial (BRASIL, 2010).
Com a chegada das indústrias houve o estímulo à construção civil e a demanda trou-
xe junto a necessidade de obras públicas para atender o crescimento da população, com isso a
lotação de servidores públicos para ocuparem os órgãos. Estima-se que atualmente exista uma
população de 500.000 pessoas, considerando as obras das usinas de Jirau e Santo Antônio (NAS-
CIMENTO, 2012).
Foi possível identificar-se que o processo de ocupação do Estado de Rondônia se deu
por fases, e que cidades não tinham estruturas para atender a grande migração da população
que veio para a região, em especial na capital, Porto Velho, a cidade que mais sofreu com a mi-
gração principalmente no período posterior ao início das construções das usinas hidroelétricas.

4.2 CASO PROJETO HABITACIONAL FLORESTA I E II


Revisando em anais do Arquivo Histórico da Polícia Militar do Estado de Rondônia,
foi possível obter as informações a seguir, sendo que estas constituem de um relato deste pes-
quisador, fundamentado na consulta a documentos oficiais, e documentos de registro policial,
sintetizados para a elaboração deste trabalho. Pesquisa do tipo bibliográfica no caso específico
do conflito que originou o presente texto.

61
I SEMINÁRIO REGIONAL DE PESQUISA E INOVAÇÃO EM SEGURANÇA PÚBLICA

No mês de setembro de 2014 a Polícia Militar foi requisitada para auxiliar o oficial de jus-
tiça no cumprimento de mandado de reintegração de posse, cumprindo liminar nº. 208741/2014
expedida pela Juíza de Direito Inês Moreira da Costa da 1ª Vara de Fazenda Pública.
Tal pedido foi encaminhado ao Coordenador Regional de Policiamento I que despa-
chou ao comandante do 1º Batalhão da Capital para que iniciasse os procedimentos de levanta-
mentos para o devido cumprimento, levando em conta a existência de 250 famílias ocupantes.
Durante os levantamentos foi solicitada a participação da Companhia de Operações
Especiais (COE) para prestar apoio na ação, atuando como tropa de reserva em ações de choque
durante a reintegração. O oficial de Operações daquela unidade buscou fundamentação sobre as
questões sociais envolvidas no cumprimento do mandado, passando a uma visão humanista de
atendimento aos preceitos constitucionais de preservação da ordem pública e reconhecimento
da mediação como forma de resolução pacífica de conflitos.
Uma vez de posse das informações básicas que acercavam da operação, o Oficial pas-
sou a atuar por ordem verbal do Comandante Geral da Polícia Militar em reuniões e audiências
sempre contando com a participação de representantes de vários órgãos.
Entre eles pode-se destacar com maior frequência o executivo Municipal e Estadual
(Secretarias de Assistência Social Estadual (SEAS) e Municipal (SEMAS), Secretaria Municipal
de Urbanismo e Defesa Civil), Defensoria Pública Estadual e Ministério Público Federal.
Todos os órgãos oficiais citados estavam envolvidos no processo de reintegração de
posse dos empreendimentos Floresta I e II e, posteriormente, abasteceram de informações a
Juíza da 1ª Vara da Fazenda Pública, juíza titular da ação, oferecendo subsídios para a elaboração
do documento final em busca da resolução do conflito.

4.2.1 ANÁLISE DA MEDIAÇÃO REALIZADA


O papel do mediador policial demonstra a eficiência de uma polícia atuante nas ques-
tões pertinentes da comunidade, assumindo um papel diferente do tradicional, com vistas à
redução da violência, atingindo grandes e valorosos resultados e seguindo os novos objetivos
sociais.
Após a análise de toda mediação, concluímos que durante as fases de desenvolvimento
da mediação policial o número de famílias foi reduzindo drasticamente, iniciando com 250 fa-
mílias e no momento em que o Estado passou a atuar, na fase de levantamento pela Secretária
Municipal de Assistência Social (SEMAS), havia 166 famílias.
Na fase de verificação para deferimento dos pedidos de pagamento de auxilio aluguel
havia 95 famílias e, finalmente na ação de reintegração de posse, realizado no dia 03 de fevereiro
aproximadamente 50 famílias, às quais saíram voluntariamente sem o uso da força policial.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Pode-se observar neste trabalho que uma atitude eficaz no início do conflito tende a
evitar uma situação de violência. Através da Mediação Policial, propõe-se adotar práticas de
conversação nas atividades do dia a dia, preservando a Ordem Pública da Polícia Militar, onde
esta instituição deve ter a Mediação como foco.
O Governo do Estado de Rondônia, em busca da promoção da paz, investiu na capaci-
tação de seus Policiais Militares e demais profissionais da Segurança Pública através do curso de

62
I SEMINÁRIO REGIONAL DE PESQUISA E INOVAÇÃO EM SEGURANÇA PÚBLICA

Mediação Policial, realizado em 2014 na cidade de Villa Real, na Espanha, onde os profissionais
atuaram na mediação com a comunidade e a primeira experiência para a aplicação da Mediação
Policial foi o caso Projeto Habitacional Floresta I e II.
A aplicação da mediação permitirá a possibilidade de melhor compreensão e trata-
mento dos conflitos sociais a fim de evitar um método mais agressivo, além de promover um
novo conceito de segurança pública, priorizando o diálogo e a democracia nos conflitos, e não
o sistema penal.
Assim, a população que almeja paz social na Polícia Militar terá suas necessidades
atendidas através dessas ações proativas, inovando as técnicas de controle social com modelos
de preservação da dignidade e direitos humanos.
Este trabalho sinaliza para a figura do mediador como um agente promotor da paz,
dialogando com as partes do conflito de forma neutra e oferecendo espaço para cada um exercer
a cidadania de forma igualitária.
Mostrou-se necessária a intervenção da Polícia Militar neste processo, para conheci-
mento e conclusões das causas e acontecimentos dos fatos que chegaram ao seu conhecimento,
dando poder ao cidadão de se apropriar de seus direitos e de sua condição de responsável pela
solução do conflito existente.
Por meio da Mediação Policial, espera-se que diminuam os casos de incidência crimi-
nal. Proporcionar o diálogo entre as partes, antes de gerar uma ocorrência dos conflitos, traz
benefícios futuros ao Estado, como economia de gastos públicos e redução da violência.
Conclui-se assim, a necessidade de capacitar os profissionais da Polícia Militar com
tecnologias para a constituição da paz social. Valorizá-los e aliá-los a novas técnicas de resolução
de conflitos é fundamental para atender todas as demandas da Polícia Militar, ultrapassando os
desafios e implantando a justiça social, colaborando para toda a segurança pública.
De acordo com os objetivos do presente trabalho, ficou nítido que a mediação policial
é um método essencial para construção da paz social, diminuindo a criminalidade, bem como
os gastos, preservando a sociedade e permitindo maior comunicação entre a comunidade e a
Polícia Militar.

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64
PROCESSOS DE INOVAÇÃO: ESTUDO DE CASO
NA POLÍCIA RODOVIÁRIA FEDERAL

Rodrigo Kraemer
João Artur de Souza

Resumo: Os estudos em inovação apontam para a necessidade de melhora


em processos, produtos e estruturas. As dificuldades de implementação
aumentam em organizações públicas e mais ainda em instituições de
segurança pública. Analisando a percepção dos gestores sobre a inovação, o
estudo foca na Polícia Rodoviária Federal, que passou por um momento de
grandes mudanças no início da década de 2010, podendo ter provocado um
ambiente favorável a mudanças mais profundas e propício à inovação. Foram
realizadas entrevistas para verificar a percepção de gestores sobre os processos
inovativos e no processo de análise foram detectadas barreiras e como os
processos tem evoluído e como poderiam ser mais dinâmicos e inovadores.
Ficou evidenciado a influência percebida das lideranças no andamento
dos processos e evidencia-se a tecnologia como ponto a ser destinado mais
atenção, exigindo confrontação com a formação de competências necessárias
para promover gestão adequada para a inovação.

Palavras-chave: Inovação. Mudança organizacional. Gestão do


Conhecimento. Polícia Rodoviária Federal.

1 INTRODUÇÃO
Além dos conceitos formais de inovação, os estudos apontam diversas formas de enten-
dimento e abordagens. Embora seja recorrente a necessidade das organizações de implementa-
rem inovação para melhorar processos, produtos e estruturas, as dificuldades de implementação
aumentam quando se procura estabelecer em organizações públicas e mais ainda em institui-
ções muito avessas à mudança, como é o caso das instituições de segurança pública.
O artigo pretende evidenciar o entendimento de gestores sobre os processos inovativos
que ocorreram dentro de uma instituição policial brasileira. Essa instituição passou por um mo-
mento de grande mudança no início da década de 2010, com a mudança da direção-geral que
provocou uma alteração na maioria das chefias do nível estratégico e na totalidade das chefias
de nível tático. Essas mudanças alteraram o rumo que a instituição estava tomando e podem ter
provocado um ambiente favorável a mudanças mais profundas e propício à inovação.
Para realizar o estudo, foram feitas entrevistas para verificar a percepção de gestores so-
bre os processos que estão relacionados a tecnologia, estrutura e processos internos, financeiro,

65
I SEMINÁRIO REGIONAL DE PESQUISA E INOVAÇÃO EM SEGURANÇA PÚBLICA

ambiente externo, gestão do conhecimento, talentos humanos e liderança. As entrevistas foram


realizadas nos três níveis de gestão, estratégico, tático e operacional. Com uma análise do mate-
rial obtido, pode ser configurado as percepções e ações que poderiam ser indicadas para agilizar
os processos e provocar inovações aparentes e necessárias apontadas pelos entrevistados.

2 DISCUSSÃO TEÓRICA
O conceito de inovação é usualmente apresentado de forma ampla e diversa, engloban-
do vários aspectos, mas, em geral, é associado diretamente à inovação tecnológica. Schumpeter
(1988, p.62) informa que a inovação, diferentemente da invenção, está intimamente associada à
ideia de aplicação. Assim, se a invenção é algo mais teórica ou abstrata, a inovação se utiliza da
invenção e a coloca em prática, criando um novo produto, processo ou serviço.
A inovação é apresentada no Manual de Oslo através de quatro tipos: inovação de pro-
duto, inovação de processo, inovação de marketing e inovação organizacional (OCDE, 2005,
p.23). A inovação pode ser vista como a implementação de um novo produto ou serviço, mas
também pode ser vista como um “processo de várias etapas por meio do qual as organizações
transformam ideias em produtos novos/melhorados, serviços ou processos, a fim de avançar,
competir e diferenciar-se com sucesso em seu mercado” (BAREGHEH et al., 2009, p. 1334).
Para Tidd et al. (2008, p.55) a inovação é um processo e enquanto processo deve ser gerido, ou
seja, deve haver pensamento estratégico baseado em ações organizacionais para que alcance
resultados inovadores.
A inovação é analisada como objeto de estudo no setor privado, mas quando se traba-
lha com o setor público, algumas características precisam ser consideradas. Segundo Andrade e
Klering (2006, p. 82), a inovação no setor público possui um caráter muito mais amplo e diverso,
pois “a inovação não envolveria apenas o contexto econômico, ditado pelo mercado, mas tam-
bém um contexto político-institucional no qual deve ser considerada a capacidade de ação dos
atores envolvidos”. Assim, um dos fatores dificultadores para a inovação em organizações são
as mentalidades voltadas para manutenção do status quo e da estabilidade, comum em grandes
corporações, especialmente as públicas (MICHAELIDES, 2011, p.117)
Se inovar no setor público envolve outras peculiaridades, essa questão se torna ainda
mais desafiadora quando se envolve instituições de segurança pública. De acordo com Rolim
(2007, p. 33),

Em poucas áreas, como nas políticas de segurança pública, os espaços para a inovação
são tão estreitos e o apego à tradição tão consolidado. Lidamos, então, especificamente
nesta área, com uma resistência incomum à inovação, que constitui, em si mesma,
parte do problema a ser enfrentado.

Nesse sentido, estando em uma área com apego à tradição tão consolidado, a inovação
pode não encontrar um ambiente favorável à sua implementação. As barreiras internas podem
ser de diferentes naturezas, mas um ambiente com apego à tradição, a cultura organizacional
pode influenciar negativamente, necessitando recorrer a mudanças mais amplas para possibili-
tar a inovação, pois de acordo com Andrade; Klering (2006, p.84),

[...] inovações no setor público devem considerar e incorporar, tanto quanto possível,
mudanças de caráter estratégico, estrutural, tecnológico, humano, cultural, político e
de controle, visando desta forma produzir impactos e desenvolvimentos sociais mais
fortes e mais amplos.

66
I SEMINÁRIO REGIONAL DE PESQUISA E INOVAÇÃO EM SEGURANÇA PÚBLICA

As mudanças podem ocorrer devido a vários fatores e o conceito de mudança organi-


zacional pode ser entendido como

[...] qualquer alteração, planejada ou não, nos componentes organizacionais - pessoas,


trabalho, estrutura formal, cultura - ou nas relações entre a organização e seu
ambiente, que possam ter consequências relevantes, de natureza positiva ou negativa,
para eficiência, eficácia e/ou sustentabilidade organizacional (LIMA; BRESSAN, 2003,
p.25)

Assim, mudança organizacional não pode ser considerada uma inovação, mas pode
trazer consequências relevantes, como criar um ambiente propício para a inovação. Mesmo que
algo novo já tenha sido utilizado em outro local, a partir do momento que começa a utilizar
isso torna uma inovação para a instituição, pois a inovação está nos olhos de quem vê (TIDD;
BESSANT; PAVITT, 2008, p. 32). Dentro desse viés e para entender melhor esse processo é ne-
cessário conhecer as percepções dos agentes que estão presentes nesse campo.

3 METODOLOGIA
A instituição analisada foi a Polícia Rodoviária Federal - PRF, administração direta do
Poder Executivo vinculada ao Ministério da Justiça, com a missão de garantir segurança com ci-
dadania nas rodovias federais e áreas de interesse da União (PRF, 2014). Com a sede em Brasília,
possui cerca de 10 mil policiais, 26 Superintendências nos estados e 151 delegacias espalhadas
pelo Brasil. Possui ainda mais de 400 Unidades Operacionais e abrange mais de 70 mil quilôme-
tros de rodovias sob circunscrição. A PRF possui uma estrutura de cargos única, o que propicia
uma alternância de poder não presente em outras instituições policiais, que são divididas em ao
menos duas classes de servidores, seja entre agentes e delegados nas polícias civis ou federal ou
entre praças e oficiais nas polícias militares (SOARES, 2013, p.3).
Para realizar o estudo, foram realizadas entrevistas com gestores sobre os processos que
estão relacionados a inovação nos três níveis de gestão, estratégico, tático e operacional. O entre-
vistado do nível estratégico é um gestor do Escritório de Projetos Estratégicos, o entrevistado do
nível tático é um servidor que já assumiu o cargo de Superintendente, e o entrevistado do nível
operacional é um servidor que já chefiou grupos operacionais e equipes especializadas.
O questionário encontra-se em anexo, foi adaptado de Costa (2015) e foi respondido
presencialmente (nível tático e operacional) e a distância (nível estratégico). Em todos os casos
foram explicados o motivo do estudo, ao que se propunha, e realizadas perguntas através dos
seguintes eixos: tecnologia, estrutura e processos internos, financeiro, ambiente externo, gestão
do conhecimento, talentos humanos e liderança. O material obtido foi analisado buscando con-
figurar percepções das ações implementadas e ações que poderiam ser desenvolvidas.

4 RESULTADOS
A análise das respostas trouxe as seguintes percepções, divididas em grandes eixos:

Tecnologia

A instituição identifica regularmente tecnologias relevantes para os serviços desenvol-


vidos, há uma boa infraestrutura de tecnologia de informação e utiliza muitos desses recursos
em seus processos internos. Por muito tempo a tecnologia foi estruturada de forma indepen-
dente e trazia projetos estanques que não conversavam entre si, gerando uma gama de sistemas

67
I SEMINÁRIO REGIONAL DE PESQUISA E INOVAÇÃO EM SEGURANÇA PÚBLICA

que não se interligavam. Esse cenário teria mudado com algumas conexões, mas ainda há muito
passivo para se alterar.

Estrutura e Processos internos

Existem processos instituídos e bem disseminados como a metodologia de gestão de


projetos própria, desenvolvida pela instituição e a alta gestão é responsável pela gestão de pro-
jetos estratégicos através de uma área específica criada em 2012, o Escritório de Projetos Estra-
tégicos – EPE, vinculado ao gabinete da Direção-Geral. Também existe a intenção de se criar
escritórios de projetos regionais em cada Superintendência, mas esse processo está andando em
passos lentos, com poucas iniciativas locais. Embora haja o Escritório, uma metodologia própria
de gerenciamento de projetos e um modelo de operação bem definido, ainda não existem pro-
cessos bem instituídos de estímulos para a inovação implantados.

Financeiro

Existe um registro e acompanhamento dos projetos inovadores através do EPE, porém,


o investimento em inovação é ainda aquém do necessário. Normalmente é tentado encontrar
outros meios que não o orçamento geral, como recursos disponíveis para temas estratégicos bra-
sileiros, como é o caso da Estratégia Nacional de Fronteiras – ENAFRON, os grandes eventos e
o Plano Nacional de Redução de Acidentes. Porém, em épocas de crise os recursos são cortados
e não há outras fontes de financiamento, como instituições de fomento à pesquisa, por exemplo.

Ambiente externo

Com relação aos relacionamentos externos, existem parcerias com Universidades, mas
ainda é de forma incipiente e para projetos bem específicos. Foi mostrado como exemplo a par-
ceria coma UFRN para o desenvolvimento de sistemas de gestão e com o IFSC para a instituição
de um curso específico, além da parceira com o SENAI para o desenvolvimento de tecidos para
um novo padrão de uniformes. No geral, parceiros externos contribuem pouco com a inovação.
A instituição escuta seus clientes principalmente pela ouvidoria e redes sociais, mas também
realiza uma pesquisa nacional de percepção de segurança nas rodovias federais.

Gestão do conhecimento

A gestão do conhecimento ainda é realizada de forma setorial e o ambiente não é pla-


nejado de forma sistêmica para permitir o compartilhamento entre as áreas. Embora exista um
portal (chamado Painel PRF) com informações centralizadas sobre as áreas da PRF, ele ainda
é frouxamente estruturado e não concentra todas as informações necessárias, além de possuir
uma indexação confusa. Foi apontado o fato da instituição estar espalhada pelo território na-
cional como um fator inibidor das trocas informacionais. Existe uma troca de informações com
parceiros e há alguns mecanismos formais para aprender com clientes, como a ouvidoria e pá-
ginas em redes sociais, que precisam, porém, ser amadurecidos.

Talentos Humanos

A entrada de servidores na instituição é realizada por concursos públicos, o que provo-


ca que a entrada seja avaliada apenas pelo conhecimento não possibilitando aferir competências
como criatividade ou perfil inovador. Há uma forte preocupação em estabelecer uma gestão
participativa, que é inclusive um dos objetivos estratégicos do órgão referenciado no plano es-

68
I SEMINÁRIO REGIONAL DE PESQUISA E INOVAÇÃO EM SEGURANÇA PÚBLICA

tratégico (PRF, 2014). Foi afirmado em todos os níveis que existe uma grande liberdade para
o efetivo opinar sobre as estratégias utilizadas pela instituição, e existem vários mecanismos
informais de troca, como redes sociais e aplicativos de troca de mensagens, onde são instituí-
dos grupos sobre assuntos diversos que conversam entre si. Foi observado que existem vários
exemplos de projetos estratégicos que nasceram de forma emergente (botton-up), porém não
há recompensas à inovação aos servidores que propõe projetos ou ideias inovadoras. Apesar de
existir uma Academia Nacional que promove a educação corporativa, os cursos promovidos não
focam no desenvolvimento de competências necessárias à inovação.

Liderança

A inovação está presente no discurso das lideranças que a contempla como um de seus
valores principais, e está presente também em ações, como o EPE e o planejamento de implan-
tação de uma área específica sobre inovação em um futuro próximo. Foi apontado também que
o serviço público possui obstáculos estruturais à inovação e não estimula a flexibilidade, sendo
referenciado que o direito administrativo brasileiro possui barreiras que desestimulam a inova-
ção devido aos riscos inerentes que esse processo possui e, quando há riscos, estes precisam ser
meticulosamente calculados. O estilo de gestão estimula a criatividade, porém essa afirmação
foi maior quanto maior foi o nível de gestão do entrevistado.

5 DISCUSSÃO
As mudanças ocorridas na instituição promoveram um ambiente propício à inovação,
possibilitando a introdução de elementos necessários que incentivam esse processo, como a
gestão de novos projetos e o desenvolvimento de uma boa infraestrutura tecnológica, apesar de
essa não ser adequadamente direcionada à inovação e ao compartilhamento de conhecimento.
A criação do EPE propiciou maior controle pela alta gestão sobre os custos, prazos e
entregas, possibilitando uma gestão mais madura dos projetos. Esse modelo deve se espalhar
também para o nível tático ao se estabelecer nas Superintendências, propiciando um amadure-
cimento nos projetos locais.
A utilização de recursos provenientes de outras fontes que não o orçamento geral in-
dica que a instituição começou a procurar outras fontes de financiar a inovação, porém ainda
não estabeleceu o caminho do dinheiro com instituições públicas de fomento ou mesmo com
parcerias com a iniciativa privada.
Se existem parcerias com universidades, estas são realizadas com objeto muito especí-
fico e ainda não de forma sistêmica. No geral os parceiros contribuem pouco com a inovação.
O conhecimento é gerido de forma setorial e, embora tenha sido criado um portal in-
terno de informações, ele é ainda pouco estruturado para o compartilhamento e disseminação
do conhecimento. O fato apresentado da instituição ser espalhada pelo território e a distância
dos servidores não deveria ser um fato inibidor pelo fato da TI estar bem desenvolvida na insti-
tuição. Se o problema não está na tecnologia, ele deve estar na gestão do conhecimento, faltando
ainda observar melhor os principais processos de gestão do conhecimento organizacional como
a criação, armazenamento/recuperação, transferência e aplicação de conhecimentos, direcio-
nando a TI e a utilizando com ferramenta para a gestão.
Há, também, muita troca de informações através de aplicativos e sistemas externos à
instituição, como redes sociais e sistemas de mensagens, criando redes informais de colabora-

69
I SEMINÁRIO REGIONAL DE PESQUISA E INOVAÇÃO EM SEGURANÇA PÚBLICA

ção. Porém, devido a utilização de informações sigilosas em uma instituição policial, deve haver
uma preocupação com o sigilo das informações, pois não há muito controle quando utilizado
em sistemas externos e gratuitos.
Embora o concurso público provoque um engessamento na seleção, o perfil do servi-
dor poderia ser melhor trabalhado na busca de um perfil mais inovador e criativo, valorizando,
por exemplo, a experiência anterior. Porém, o perfil da instituição, com carreira civil e estrutura
funcional de cargo única propicia uma horizontalidade que facilita a criatividade, a discussão
e exposição de ideias e críticas. Isso pode ser observado na afirmação de que vários projetos
estratégicos iniciaram de forma emergente (botton-up), faltando apenas instituir uma forma
de recompensar a proposição de inovações. A gestão participativa que está presente no plano
estratégico da instituição parece funcionar, mesmo sem ter definição clara dos procedimentos
dessa participação. Mas o estilo de gestão estimula a criatividade somente nos níveis mais altos
de gestão, evidenciando que há entraves não identificados nos níveis mais baixos.
O discurso sobre mudanças está fortemente presente nas lideranças e é incentivado
apesar das barreiras provenientes do direito administrativo. A criação do EPE parece ser o gran-
de fator que propiciou maior da profissionalização da gestão de projetos inovadores.

6 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Neste processo de análise, foram detectadas as barreiras apontadas, assim como obs-
táculos e como os processos tem evoluído e como poderiam se tornar mais dinâmicos e ino-
vadores. Ficou evidenciada a influência percebida das lideranças no andamento dos processos
inovativos e como essas atitudes tem evoluído os trabalhos realizados. Ainda, evidencia-se a
tecnologia como ponto a ser destinado mais atenção, pois a atuação exige confrontação com a
formação de competências necessárias para promover gestão adequada conjuntamente com a
inovação e sustentabilidade.
Como resultado final, a percepção observada indica que mudanças ocorreram e que
propiciaram a criação de um ambiente favorável à inovação. Esse é um passo importante, pois
mostra que uma cultura de inovação está sendo gerida em um processo que é de longo prazo.

REFERÊNCIAS
ANDRADE, J. A.; KLERING, L. R. Inovação na Gestão Pública: compreensão do conceito a
partir da teoria e da prática. In: JACOBI, Pedro Roberto; PINHO, José Antonio (Org.). Inovação
no campo da gestão pública local: novos desafios, novos patamares. Rio de Janeiro: FGV
Editora, 2006.

BAREGHEH, A.; ROWLEY, J.; SAMBROOK, S. Towards a multidisciplinary definition of

innovation. Management Decision, v. 47, n. 8, p. 1323-1339, 2009.

COSTA, E. M. Gestão da Inovação na prática das empresas. 12 de março a 21 de maio de


2015. Disciplina do Programa de Pós-graduação em Engenharia e Gestão do Conhecimento –
PPEGC/UFSC. Notas de aula

LIMA, S. M. V.; BRESSAN, C. L. Mudança organizacional: uma introdução. In: LIMA, S. M. V.


(Org.). Mudança Organizacional: teoria e gestão. Rio de Janeiro: FGV, 2003.

70
I SEMINÁRIO REGIONAL DE PESQUISA E INOVAÇÃO EM SEGURANÇA PÚBLICA

MICHAELIDES, D. The art of innovation in the public sector. International Journal of


Innovation Science, v.3, n.3, p. 117-125, 2011

OCDE - Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico. Manual de Oslo:


diretrizes para coleta e interpretação de dados sobre inovação. 3. ed. Brasil: Ministério da Ciência
e Tecnologia. FINEP, 2005.

PRF – Polícia Rodoviária Federal (BRASIL). Portaria nº 28, de 12 de fevereiro de 2014. Institui
o Plano Estratégico da Polícia Rodoviária Federal para o período 2013-2020. Brasília, 2014.

________. Portaria nº 270, de 03 de setembro de 2014. Institui o Portfólio de Programas e


Projetos Estratégicos da Polícia Rodoviária Federal para o período de 2014 e 2015 e dá outras
providências. Brasília, 2014

________. Portaria nº 179, de 03 de maio de 2015. Altera a Portaria nº 270, de 03 de setembro


de 2014 dá outras providências. Brasília, 2015

ROLIM, M. Caminhos para a inovação em segurança pública no Brasil. Revista Brasileira de


Segurança Pública. São Paulo, ano 1, n. 1, 2007.

TIDD, J.; BESSANT, J.; PAVITT, K. Gestão da Inovação. 3. Ed. – Porto Alegre: Bookman, 2008.

SOARES, L. E. PEC-51: Revolução na arquitetura institucional da segurança pública. Boletim


do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais, nº 252, novembro de 2013.

SCHUMPETER, J. A. Teoria do Desenvolvimento Econômico. Rio de Janeiro: Nova Cultural,


1988.

ANEXO
Questionário guia realizado nas entrevistas adaptado de Costa (2015)

Tecnologia

A instituição identifica regularmente tecnologias relevantes e acompanha a sua evolu-


ção para gerar inovações nos seus serviços?
A instituição tem infraestrutura e pessoal para o desenvolvimento de tecnologias cen-
trais para a sua missão?
A instituição utiliza outras tecnologias inovadoras em seus processos, procurando es-
tar sempre um passo à frente?
A instituição busca parcerias com fornecedores para o desenvolvimento/adaptação de
tecnologias das quais ainda não dispõe em seus processos, produtos e serviços?
A instituição utiliza adequadamente todos os modernos recursos das tecnologias da
informação e comunicação, incluindo infraestrutura de informática e Internet, uso das redes
sociais, comunicações móveis etc.?

Estrutura e Processos Internos

71
I SEMINÁRIO REGIONAL DE PESQUISA E INOVAÇÃO EM SEGURANÇA PÚBLICA

Existem processos instituídos e bem disseminados que estimulam a inovação incre-


mental, a inovação adjacente e a inovação transformadora?
A alta gestão é responsável por identificar necessidades e promover a gestão da inova-
ção?
Há infraestrutura adequada para atividades de P&D&I além das necessidades normais
do seu funcionamento?
Há incentivo ao empreendedorismo inovador (novas ideias, alternativas, implementa-
ção de protótipos)?
Os processos de estímulo à inovação estão disseminados entre todos os servidores?

Financeiro

É realizado o registro, acompanhamento e avaliação (e tem indicadores específicos)


dos projetos de inovação em andamento?
A proporção de investimento anual em inovação em relação ao orçamento geral é ade-
quada para a promoção da inovação?
Há uma busca sistemática de recursos para atividades de P&D?
Os recursos para inovação são sistematicamente cortados em tempos difíceis?
Há consciência da importância da inovação para o futuro da instituição?

Ambiente Externo

A instituição participa de projetos de inovação em conjunto com instituições parceiras?


Os relacionamentos externos contribuem para o seu processo de inovação?
A instituição monitora as necessidades e anseios de seus clientes através dos mecanis-
mos de comunicação da Internet, tais como as redes sociais?
Existem relacionamentos e vínculos contratuais com institutos de pesquisa e universi-
dades?

Gestão do Conhecimento

O ambiente é planejado para promover o compartilhamento do conhecimento entre as


equipes no processo da inovação?
Existe uma base armazenada de conhecimento sobre os seus setores de atuação e seto-
res correlatos para facilitar o acesso à informação?
A instituição troca informações com seus parceiros e reconhece o valor deste compar-
tilhamento?
A instituição é reconhecida como uma fonte de informação sobre seus serviços?
Existem mecanismos formais e informais bem estabelecidos para o aprendizado orga-
nizacional?

Talentos Humanos

72
I SEMINÁRIO REGIONAL DE PESQUISA E INOVAÇÃO EM SEGURANÇA PÚBLICA

A cultura prevalecente valoriza o perfil inovador e criativo na entrada de novos servi-


dores?
Os colaboradores têm liberdade para opinar, dar ideias e questionar direcionamentos
no intuito de promover a inovação?
Os servidores que contribuem com projetos e ideias que levam à inovação são contem-
plados com estímulos conhecidos de recompensa e reconhecimento?
O programa de capacitação contempla o desenvolvimento da criatividade e a inovação
como fatores–chave de sucesso?
O ambiente de trabalho é estimulante e propício ao desenvolvimento de novas ideias e
inovações?

Liderança

O discurso dos dirigentes contempla a inovação como um dos seus valores principais?
O estilo de gestão estimula a criatividade?
A liderança facilita o processo de inovação mesmo que tenha que remover obstáculos
gerenciais?
A liderança reconhece e pratica o fato que ser inovador significa poder mudar (ser fle-
xível) quando surgem novas informações e oportunidades?
A liderança tem consciência que o processo de inovação possui riscos e mesmo assim
está disposta a incentivá-lo?

73
VEÍCULOS AÉREOS NÃO TRIPULADOS:
POSSIBILIDADES DE EMPREGO NO CORPO DE
BOMBEIROS MILITAR DE SANTA CATARINA

Pedro Cabral Reis da Silva1


Alexandre Corrêa Dutra2

Resumo: O presente trabalho investigou o emprego de Veículos Aéreos


Não Tripulados (VANTs) no Brasil e em outros países, com análises das áreas
de atuação do Corpo de Bombeiros Militar de Santa Catarina (CBMSC),
na perspectiva de avaliar as possibilidades de emprego a fim de melhorar a
prestação de serviços da corporação. A pesquisa é descritiva com abordagem
qualitativa e utiliza como procedimento metodológico a revisão bibliográfica.
Este artigo é um recorte de um Trabalho de Conclusão do Curso de Formação
de Oficiais do CBMSC, defendido em 2015. A intenção dessa investigação foi
a de aproximar as possibilidades de uso dessa tecnologia nas áreas de atuação e
atividades desempenhadas pelo CBMSC. Dentre os resultados, constata-se que
os VANTs podem melhorar a prestação de serviços por parte dos bombeiros
militares, nas mais diversas áreas, à sociedade com menores custos.

Palavras-chave: Inovação tecnológica. Veículos Aéreos Não Tripulados.


VANT. Bombeiros. Corpo de Bombeiros Militar de Santa Catarina.

1 INTRODUÇÃO
Despontando no cenário mundial, surge o Veículo Aéreo Não Tripulado (VANT), em
inglês Unmanned Aerial Vehicle (UAV), uma aeronave que não necessita de profissional embar-
cado para pilotá-la com modo de operação remoto, autônomo ou com uma combinação dos
dois (DE PAULA, 2012). Este é um equipamento com múltiplas capacidades que teve sua ori-
gem no meio militar, entretanto, vem sendo empregado de modo bastante abrangente no meio
civil. Segundo Gomes et al. (2014), o uso de um VANT está cada vez mais comum devido ao seu
baixo custo e pela possibilidade da realização de tarefas onde a presença humana poderia ser
dispensável, arriscada ou até mesmo impossível.

1  Corpo de Bombeiros Militar de Santa Catarina. Aspirante-a-Oficial. Especialista.


E-mail: reis.s@cbm.sc.gov.br
2  Corpo de Bombeiros Militar de Santa Catarina. Tenente Coronel. Especialista.
E-mail: correa@cbm.sc.gov.br

74
I SEMINÁRIO REGIONAL DE PESQUISA E INOVAÇÃO EM SEGURANÇA PÚBLICA

Para Chaves (2012), de acordo com Departamento de Defesa Americano, VANT é uma
aeronave que não transporta um operador humano e é capaz de voar por controle remoto ou de
forma autônoma. Oliveira (2005) complementa que o VANT é uma plataforma de baixo custo
operacional e que pode ter controle remoto ou seguir um plano de vôo já previamente estabe-
lecido, sendo capaz de executar diversas atividades, como monitoramento, vigilância, reconhe-
cimento tático, mapeamento dentre outras, conforme os tipos de equipamentos instalados no
VANT.
Revelam-se, portanto, como ideais para operações longas que expõem a tripulação a
fadiga extrema ou em que há risco para o piloto, tanto à saúde quanto risco de morte – no
caso, caracterizadas como operações 3D: dull (enfadonhas), dirty (sujas) e dangerous (perigosas)
(MENDES; FADEL, 2009). Entre essa operações 3D estão: os sobrevôos em áreas radioativas,
de baixa altitude, principalmente de noite e operações que requerem muitas horas de duração
(CHAVES, 2012).
O tema inovação tecnológica se articula intimamente com a atividade de bombeiros,
pois existem inúmeros equipamentos que surgiram e revolucionaram a forma como os bom-
beiros desempenham suas missões no atendimento as pessoas, possibilitando mais eficiência e
melhoria nos atendimentos e seus tempos de resposta. Nesse contexto, vem ganhando destaque
um dos segmentos de atuação dos Veículos Aéreos Não Tripulados (VANTs), aqueles específicos
para combate a incêndios, especialmente, na Espanha (ADDATI; LANCE, 2014).
Diante do exposto, essa investigação sobre o uso dos VANTs no Brasil e em outros paí-
ses, busca analisar em que áreas de atuação do Corpo de Bombeiros Militar de Santa Catarina
(CBMSC) eles poderão ser empregados a fim de melhorar a prestação de serviços à sociedade.
Essa pesquisa é descritiva de cunho bibliográfico e baseia-se em revisão de materiais científicos
publicados na área, como livros, artigos, monografias, dissertações, teses etc. Também fazem
parte das fontes de consulta algumas notícias importantes veiculadas em meios de comunicação.
Diante da problemática exposta, buscou-se uma abordagem qualitativa, pois segundo Minayo
(2007), esta responde a questões particulares tendo um nível de realidade que não se pode ou
não se deveria quantificar. Nesse caso, o objeto da pesquisa qualitativa dificilmente pode ser
traduzido em números e indicadores quantitativos.

2 RESULTADOS
As principais áreas de emprego dos VANTs atualmente buscam a obtenção de imagens
e vídeos aéreos, monitoramento e vigilância, inspeção de estruturas, busca e resgate, gestão de
emergências e mapeamento de terrenos (ADDATI; LANCE, 2014).
Austin (2010), no livro Unmanned Aircraft Systems: UAV Design, Development and
Deployment, elenca como áreas de utilização de VANT e possíveis agentes utilizadores: Polí-
cia, Guarda Costeira, Bombeiros (em incêndios, procura de pessoas perdidas, busca e resgate,
monitoramento de áreas, gerenciamento de eventos, monitoramento e vigilância de enchentes,
fotografia aérea), filmagens e vídeos, vigilância, serviços meteorológicos, investigação etc.
Nos Estados Unidos (EUA) os VANTs já foram empregados em ações de busca e sal-
vamento, por exemplo, dos sobreviventes na cidade de Nova Orleans, destruída pelo furacão
Katrina em agosto de 2005. Nessa oportunidade, os VANTs estavam equipados com câmeras,
GPS e sensores infravermelhos que permitiram o monitoramento das áreas devastadas pelo fe-
nômeno, possibilitando a orientação das equipes de salvamento por meio dos destroços (SAN-
TOS apud ALMEIDA; MIRANDA NETO, 2009).

75
I SEMINÁRIO REGIONAL DE PESQUISA E INOVAÇÃO EM SEGURANÇA PÚBLICA

Segundo a National Aeronautics And Space Administration - NASA (2004), VANTs já


são utilizados em ocorrências de incêndios florestais, com o intuito de acessar a área para fazer
o mapeamento e saber qual a magnitude do evento, para melhorar a comunicação no terreno
que muitas vezes é de difícil acesso e apresenta problemas de transmissão, também já foram
utilizados para a aplicação de retardantes na vegetação e, por fim, para avaliação final dos danos
causados pelo incêndio.
No exterior, os VANTs são já empregados por diversos departamentos de bombeiros
tais como o da cidade de Bedford, nos EUA, onde são utilizados para realizar operações de busca
e resgate e, ainda, para rápida localização de focos de incêndios. (DRONE, 2015).
O VANT pode ser empregado em diversas áreas de atuação dos Bombeiros e, mais es-
pecificamente, no Corpo de Bombeiros Militar de Santa Catarina.
Tais constatações permitem vislumbrar o emprego do VANT em diversas áreas de atua-
ção dos Bombeiros e, mais especificamente, no Corpo de Bombeiros Militar de Santa Catarina,
que tem sua existência amparada pela CRFB/88 com suas missões institucionais elencadas na
Carta Magna, a seguir:

Art. 108. O Corpo de Bombeiros Militar, órgão permanente, força auxiliar, reserva
do Exército, organizada com base na hierarquia e na disciplina, subordinada ao
Governador do Estado, cabe, nos limites de sua competência, além das outras
atribuições estabelecidas em lei:

I – realizar os serviços de prevenção de sinistros ou catástrofes, de combate a incêndio


e de busca e salvamento de pessoas e bens e o atendimento pré-hospitalar;

II – estabelecer normas relativas à segurança das pessoas e de seus bens contra


incêndio, catástrofe ou produtos perigosos;

III – analisar, previamente, os projetos de segurança contra incêndio em edificações,


contra sinistros em áreas de risco e de armazenagem, manipulação e transporte
de produtos perigosos, acompanhar e fiscalizar sua execução, e impor sanções
administrativas estabelecidas em lei.

IV – realizar perícias de incêndio e de áreas sinistradas no limite de sua competência;

V – colaborar com órgãos da defesa civil;

[...] (SANTA CATARINA, 1989).

Dentre essas áreas, destacam-se: combate a incêndios florestais, incêndios estruturais,


atendimento pré-hospitalar, na atividade técnica para vistoria de estruturas, salvamento aquá-
tico, busca e salvamento, em ocorrências envolvendo produtos perigosos, resgate em espaço
confinado, atuações em desastres entre outras ocorrências.
Nas ocorrências vinculadas às áreas acima o CBMSC geralmente utiliza o apoio aéreo
da aeronave Arcanjo, um helicóptero, entretanto, ele poderia atuar com o apoio de um VANT.
Em primeiro lugar, pelo menor custo operacional do VANT, cerca de R$60 (sessenta reais) a
hora vôo dele (SANTOS, 2011), em segundo, por ser ideal para as missões 3D ou, ainda, em
ocorrências de menor porte.

76
I SEMINÁRIO REGIONAL DE PESQUISA E INOVAÇÃO EM SEGURANÇA PÚBLICA

2.1 COMBATE A INCÊNDIOS FLORESTAIS E ESTRUTURAIS


Os incêndios florestais são, em alguns países, causa de preocupações pelas proporções
dos danos que podem causar Aqui no Brasil alguns estados também sofrem com os incêndios
florestais de diversas magnitudes, dentre eles o estado de Santa Catarina.
Dentro desse contexto, um VANT poderia servir no como combate direto ou monito-
ramento. Um VANT de grande porte, como o helicóptero K-Max dos Estados Unidos, poderia
ser utilizado para combate direto (MARTIN, 2014) da mesma maneira que o helicóptero Ar-
canjo 01 faz hoje em dia, mas trata-se de uma aeronave de custo parecido com os helicópteros
tripulados. Já um VANT de pequeno porte, como um quadricóptero, pode ser usado para, ini-
cialmente, fazer o dimensionamento da cena a fim de subsidiar a tomada de decisão e definição
das estratégias de combate, e, depois, poderia ser utilizado para controlar e monitorar o incên-
dio (INSTITUTO TECNOLÓGICO DEL FUOCO, 2013).
Segundo Wimmer (2014), a utilização de VANTs em incêndios florestais resulta em
uma melhoria no gerenciamento dessas ocorrências, salvando mais vidas e revertendo a perda
da vida selvagem do local, pois possibilitam saber exatamente onde estão as equipes de combate
no terreno, observar o avanço do fogo, as áreas no entorno que podem estar sob ameaça, assim
como confirmar informações meteorológicas recebidas, tais como ocorrência de chuva em de-
terminado ponto ou mudança de ventos.
Se o VANT vier equipado com câmeras de imagem térmicas também auxiliarão na
localização de incêndios, novos focos ou, ainda, para saber em que ponto do incêndio está a
maior temperatura, facilitando, assim, o combate às chamas. De modo geral, os VANTs seriam
diretamente responsáveis por diminuir os impactos financeiros em uma região por ele afetada
por proporcionarem a detecção antecipada de focos e melhor localização e dimensionamento
dele quando equipados com câmeras térmicas (FLYSPANSYSTEMS, 2014).
Com incêndios estruturais, sejam eles em meio urbano ou rural, não são diferentes os
benefícios que um VANT pode apresentar. Com ele é possível identificar toda a magnitude de
um incêndio estrutural, seja por meio de câmera de imagem térmica ou câmera de vídeo nor-
mal, permitindo qualificar a gestão da ocorrência e na tomada de decisão, como por exemplo,
definir se uma equipe pode adentrar na edificação ou onde se encontra o foco do incêndio.
Ele pode ser empregado para fazer avaliação estrutural e também o constante monito-
ramento da estrutura, bastando programar sua rota de vôo (AGOSTINHO, 2012), dessa forma
possibilita que as guarnições atuem no local e tendo toda a estrutura e os focos de incêndios mo-
nitorados. Nessa linha, é dada grande ênfase ao melhoramento da gestão que um VANT propor-
ciona para um comandante na cena de um incêndio urbano estrutural (SUASNews, 2013), pois
em algumas ocasiões o apoio aéreo não é solicitado em função do elevado custo operacional.

2.2 ATENDIMENTO PRÉ-HOSPITALAR


Na área do atendimento pré-hospitalar (APH) existem algumas ideias de aplicação de
VANTs inovadoras, que prometem revolucionar o modo como esses serviços são prestados pelo
mundo. O primeiro protótipo é do estudante holandês Alec Momont da Universidade de Tec-
nologia de Delft, que desenvolveu um VANT quadricóptero de 4kg equipado com sistema de
navegação com GPS, câmera com conexão via internet, alto-falantes, capacidade de transporte de
carga útil de até 4kg e possui também um desfibrilador. O sistema funciona, primeiramente, com
o acionamento da central de emergências pelo solicitante, então o atendente da central, com as

77
I SEMINÁRIO REGIONAL DE PESQUISA E INOVAÇÃO EM SEGURANÇA PÚBLICA

informações preliminares e com a suspeita de um possível ataque cardíaco, despacha tanto uma
unidade de atendimento como o VANT com o desfibrilador até o local (DELFT, 2014).
Ao chegar primeiro no local o VANT, a central informa da sua chegada ao solicitante
que pega o VANT e leva ele até o paciente, então, através de uma câmera no equipamento com
conexão pela internet o atendente da central de informações analisa o que está acontecendo no
local e explica, pelo alto-falante do VANT, ao solicitante o que ele deve fazer como, por exemplo,
abrir a camisa do paciente, colocar os eletrodos e deixar o equipamento fazer o resto. Minutos
depois, com a chegada da equipe de atendimento no local, esta faz os demais procedimentos
necessários e o transporte do paciente até uma unidade hospitalar (DELFT, 2014).
De acordo com os estudos realizados pelos idealizadores da Delft, o VANT pode levar
o desfibrilador em até um minuto a cada 12km percorridos, ou seja, é capaz de prover um aten-
dimento dentro de 10 minutos (percorrendo aproximadamente 100km de distância) e, assim,
aumentar as chances de sobrevivência do paciente que sofreu ataque cardíaco de 8% (oito por
cento) até 80% (oitenta por cento) (DELFT, 2014). Outro destaque desse VANT é que, pela in-
formação de localização, a central traça a rota de vôo e faz com que chegue de forma autônoma
até o local. Ele possui também um alto-falante, o atendente da central pode acalmar as pessoas
ao redor, o que auxiliará a criar um clima de tranquilidade naquele espaço. E, ainda, com a capa-
cidade de transportar uma carga útil de até 4kg, poderá levar itens de assistência médica, como
para primeiros socorros (DELFT, 2014).
Outro modelo de VANT, já em utilização nos EUA, é o SkyProwler, que foi projetado
para transportar e fazer a entrega de kits de emergências médicas ou qualquer outro tipo de
carga. Com o custo de $50 (cinquenta dólares), o VANT, que pode atingir uma velocidade de
100km/h, leva metade do tempo resposta de uma ambulância, e pode acessar locais isolados que
uma viatura terrestre normal não conseguiria chegar, com autonomia para voar até 64 quilôme-
tros de distância (KROSSBLADE, 2015). É um modelo que combina asa fixa com asas giratórias,
usando estas para pousos e decolagens verticais e as fixas para voar em velocidades mais rápidas.
Também é equipado com câmeras e com um compartimento de carga onde se transporta o que
for necessário para o atendimento de pessoas, sejam suprimentos médicos, alimentares ou o
que for necessário (KROSSBLADE, 2015). Esses são apenas 2 (dois) exemplos de VANTs, mas
existem outros protótipos e modelos no mercado, com essas funcionalidades.

2.3 ATIVIDADE TÉCNICA


Importante salientar que também na atividade técnica é possível vislumbrar aplicações
aos VANTs, como, por exemplo, a sua utilização para a avaliação externa de estruturas. Ainda,
pode-se utilizá-lo para fazer o monitoramento de determinadas edificações sem a necessidade
da ida do técnico no local, isto é, basta programar uma rota de vôo no VANT que ele realiza este
vôo, captura imagens e estas vão para um banco de dados que o analista poderá consultar sem-
pre que necessário (AGOSTINHO, 2012). Um VANT poderá, da mesma maneira, ser utilizado
na realização de vistorias para conferência das partes externas de um edifício que o vistoriador
não consiga acesso, permitindo que ele verifique e avalie se todos os requisitos exigidos por lei
estão presentes e corretamente instalados na estrutura.

2.4 SALVAMENTO AQUÁTICO


Em relação ao salvamento aquático existem VANTs já em utilização nessa área, com
comprovadas melhorias no serviço, pois reduzem mais da metade o tempo resposta de um guar-

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I SEMINÁRIO REGIONAL DE PESQUISA E INOVAÇÃO EM SEGURANÇA PÚBLICA

da-vidas quando iniciam o deslocamento para efetivarem um resgate (CROWE, 2015). Existem
diversos modelos, do tipo multirrotor, carregam diferentes tipos de boias e quantidade diferente
delas também. Ressalta-se, todavia, que os VANTs para salvamento aquático devem ser utili-
zados em conjunto com o serviço de guarda-vidas, uma vez que o VANT pode levar de forma
rápida à vítima um instrumento de flutuação, acalmando-a até que o guarda-vidas chegue para
efetuar o restante do resgate, com o devido atendimento pré-hospitalar.

2.5 BUSCA E SALVAMENTO


As operações de busca e salvamento – sigla em inglês SAR (Search and Rescue), são mis-
sões que têm por objetivo localizar e resgatar pessoas em condições difíceis, isso pode ser feito feita
a olho nu ou com auxílio de algum equipamento eletrônico. São, ainda, definidas pelo Departa-
mento de Defesa americano como a utilização de aeronaves, veículos de superfície, submarinos,
equipes de resgate e equipamentos especializados para buscar e resgatar pessoas que estejam em
situação perigo, em terra ou mar, num ambiente de difícil sobrevivência (CHAVES, 2012).
Os VANTs possuem grande velocidade de deslocamento e também têm facilidade de
sobrevoar locais cujo acesso é difícil, tornando mais rápida a localização de pessoas perdidas e
consequentemente a notificação para as equipes médicas, podendo ser a diferença entre a vida e
a morte de uma vítima perdida (DRONE, 2015)
Chaves (2012), afirma que a segurança do território nacional envolve operações de
emergência, em que se enquadram as operações de busca e salvamento, tendo destaque as ati-
vidades de buscas propriamente ditas. O autor ressalta que, no Brasil, as operações de busca e
salvamento estão sob a competência militar da Divisão de Busca e Salvamento (D-SAR) do De-
partamento de Controle do Espaço Aéreo (DECEA). Para ele, sobrevoar encostas de montanhas
ou regiões de alto mar, em uma baixa altitude, constitui por si só uma atividade de risco e que
exige atenção redobrada de toda a tripulação.
Nessa linha o autor salienta que os VANTs podem sobrevoar ininterruptamente de-
terminadas áreas, de forma autônoma (rotas pré-estabelecidas), por muito mais tempo do que
poderia fazer uma aeronave tripulada, isso devido ao fato de que não há a necessidade de des-
canso de pilotos e, também, por serem mais leve e com um menor consumo de combustível,
aumentando, consequentemente, a autonomia de vôo.
O Manual Internacional Aeronáutico e Marítimo de Busca e Salvamento (IAMSAR),
de 2015, da Organização Marítima Internacional (OMI) e da Organização da Aviação Civil
Internacional (OACI), ambas agências da Organização das Nações Unidas (ONU), aconselha
o uso de todos os recursos disponíveis para otimização de uma operação porque, além de se
contribuir para aumentar a probabilidade de salvar vidas pela redução do tempo de resposta,
as operações de buscas são muito caras e, por diversas vezes, colocam em uma situação de alto
risco às equipes (CHAVES, 2012).
Tendo em vista o barateamento das tecnologias de controle e de comunicação dos
VANTs, sua utilização hoje em dia torna-se muito mais viável e atrativa, pois dessa maneira o
vôo tripulado passa a não ser mais a única opção, e, ainda, evita o desgaste e a fadiga da tripula-
ção que poderia comprometer o sucesso de toda a missão. (CHAVES, 2012).
Um acessório muito importante que alguns VANTs possuem é a câmera de imagem
térmica que, no caso de operações de busca e salvamento, podem ter grande utilidade, o que se
legitima pelo uso por alguns departamentos de bombeiros em todo o mundo, como o da cidade
de Melbourne na Austrália, que o utiliza tanto para localizar focos de incêndios como para locali-

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I SEMINÁRIO REGIONAL DE PESQUISA E INOVAÇÃO EM SEGURANÇA PÚBLICA

zar pessoas perdidas (MORTIMER, 2011). O referido VANT tem a capacidade de identificar, por
exemplo, silhuetas humanas embaixo de copas densas de árvores ou em florestas, o que o torna
um grande aliado para a gestão e coordenação de operações de emergência (MORTIMER, 2011).
Existe, ainda, um VANT denominado Gimball, da empresa Flyability, que foi desen-
volvido especialmente para conseguir adentrar em espaços confinados e voar muito próximo
de pessoas sem risco de ferimentos, já se demonstrando altamente eficaz em missões de resgate.
Este protótipo ganhou, inclusive, o prêmio de um milhão de dólares por suas características
inovadores e por apresentar benefícios para a humanidade. Seu funcionamento é simples, o
VANT é envolto em uma espécie de jaula protetora, em forma circular, que protege a aeronave
e permite, também, que ela possa colidir com obstáculos sem perder a estabilidade de seu vôo
(DRONESFORGOOD, 2015).

2.6 PRODUTOS PERIGOSOS


Com relação a ocorrências com produtos perigosos, Longhitano (2010) afirma que
estas podem causar vários impactos ambientais, como contaminação do solo, das águas, da ve-
getação e prejuízos econômicos. Assim, as estratégias de ação e combate serão diferentes, depen-
dendo da magnitude, local ou tipo do produto, portanto, a obtenção célere de dados auxiliará na
eficácia e eficiência no atendimento da ocorrência.
Alves et al. apud Longhitano (2010) informa que o tipo de transporte de produtos peri-
gosos pode ser por via aérea, marítima, fluvial ou terrestre, pois justamente durante o transporte
a exposição ao risco de acidentes é maior, tendo em vista o contato deles com fatores externos
como sinalização das vias, clima, geometria, irregularidade nos veículos, falhas humanas, docu-
mentos fraudados, inadequada formação dos motoristas, entre outros.
Bartholmai e Neumann (2010), ao discorrerem sobre a utilização de VANTs para fazer
a medição dos níveis de gases e cenários com produtos perigosos, afirmam que o principal ob-
jetivo para se controlar uma emissão de gases e adotar estratégias de ações é a correta identifica-
ção e quantificação das concentrações de gases presentes em determinados locais. As vantagens
oferecidas na utilização de um VANT nesses cenários são destacadas pelos autores, pois reduzirá
os riscos, na medida em que viabiliza o acesso a locais pouco ou não acessíveis pelas equipes,
em menor tempo, para contenção mais eficaz dos vazamentos e conseqüente redução de conse-
quências para os seres humanos e o meio ambiente.
Para identificar e quantificar os impactos ambientais provocados por acidentes com
produtos perigosos, Sánchez (2008 apud Longhitano 2010) define que se configuram como
qualquer alteração da qualidade ambiental resultante de uma modificação por processos natu-
rais ou sociais provocados pela ação humana. Assim, trata-se de um grande desafio identificar
o produto e quantificar os impactos, o que exige equipamentos adequados. Nesse sentido, Cra-
wford (2015) exemplifica que, na Universidade do Colorado nos EUA, já foi criado um sistema
que pode ser instalado em qualquer drone e que permite o monitoramento em tempo real da
quantidade de gases emitidos, com sensor de simples design e baixo peso, possibilitando e faci-
litando sua instalação nos VANTs.
Dessa maneira, o uso de um VANT para acidentes com produtos perigosos apresenta
vantagens. Deve ser feita, inicialmente, uma avaliação da ocorrência para identificar suas carac-
terísticas e, então, definir as estratégias de gerenciamento, ação e combate que serão empregadas
em uma situação como essa haja vista que elas variam de acordo com o produto envolvido, as
características do acidente em si e também do local atingido (LONGHITANO, 2010).

80
I SEMINÁRIO REGIONAL DE PESQUISA E INOVAÇÃO EM SEGURANÇA PÚBLICA

2.7 DESASTRES
Os VANTs são equipamentos capazes de realizar monitoramento e mapeamento de
grandes áreas de forma mais rápida e precisa, inclusive é capaz de antever possíveis desastres
(AVAIRFILMS, 2013). Doherty e Rudol (2007) afirmam que encontrar vítimas em um cenário
pós-desastre é um dos principais objetivos das operações desenvolvidas nesses cenários e que o
uso de robôs, como os VANTs, pode auxiliar no progresso dessas ações de exploração dos locais
devastados. Longhitano (2010) destaca também que a maioria dos acidentes necessita de uma
vistoria inicial emergencial que, podem trazer riscos e dificuldades à equipe envolvida no aten-
dimento, por isso os VANTs teriam papel fundamental e poderiam acessar locais de acesso com-
plexo, obtendo imagens e vídeos que ajudariam na avaliação do cenário de forma breve e segura.
Devido à importância desse tema, já em 2013 foram realizados testes com VANTs no
cenário de desastre da região de Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, que havia sofrido com
deslizamentos e enchentes. Com base nisso se verificou que os VANTs foram os únicos a atingir
todos os pontos de interesse estipulados pelo centro de comando, pois em certas áreas nenhuma
equipe conseguiu acesso, mesmo após a estiagem das chuvas fortes.
Constatou-se que os melhores modelos para serem utilizados em desastres seriam os
de asas giratórias (multirrotores), pois são mais fáceis de manusear, tem boa autonomia e velo-
cidade de voo, não necessitam de pista para decolar e aterrizar, sendo mais práticos e versáteis.
Como acessórios de vôo, utilizou-se uma bússola digital, controlador de altitude, GPS, sistema
de piloto automático para voo com rotas programadas e câmera (ALBUQUERQUE; LUCENA;
CAMPOS, 2014).
Faria e Costa (2015), afirmam que a tecnologia dos VANTs multirrotores possuem es-
pecificações apropriadas para o sucesso em uma operação de fiscalização de danos ambientais,
o que serve para redução do tempo de elaboração do planejamento operacional da gestão do de-
sastre e suas missões. Também ressaltam o baixo custo do equipamento e de sua utilização, sen-
do uma ferramenta eficaz e eficiente. Os autores destacam que seria uma ferramenta de auxílio
na gestão dos recursos humanos, pois possibilitaria melhor utilização de equipes e identificaria
as prioridades de atendimento.
Como acessórios básicos para cumprimento de missões em cenários de desastre, se-
ria apenas necessário um computador de bordo, um GPS e uma câmera de alta definição que
obteria imagens e vídeos armazenados no sistema da aeronave, assim, posteriormente, no seu
retorno para a base, as informações seriam analisadas e processadas oferecendo referências para
o planejamento das ações (FARIA; COSTA, 2015).
Percebe-se que, já no Brasil, o uso ou a intenção de se usar VANTs em desastre já existe,
entretanto, os órgãos e agências têm muito que investir e avançar, pois no exterior, o VANT já
tem larga utilização nesses ambientes, como se observou nas recentes inundações de 2015 que
atingiram o estado americano do Texas (MCFARLAN, 2015) e nas de 2013 que atingiram a re-
gião de Uttarakhand na Índia (DRONESFORGOOD, 2014).

3 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao estudar as diferentes formas pelas quais um VANT pode ser utilizado ao redor do
mundo, verificou-se que essa tecnologia já é amplamente utilizada por bombeiros em outros
países, inclusive por alguns bombeiros brasileiros em situações ainda pontuais, como no Espí-
rito Santo e Rio de Janeiro. Pode-se notar, portanto, uma vasta aplicabilidade dos VANTs nas

81
I SEMINÁRIO REGIONAL DE PESQUISA E INOVAÇÃO EM SEGURANÇA PÚBLICA

diversas áreas de atuação do CBMSC, baseado em aeronaves já existentes e utilizadas para tais
finalidades, sendo esta uma ferramenta de grande destaque tendo em vista as inovações e con-
tribuições para a melhoria dos serviços prestados em situações de emergências.
Conclui-se que os VANTs têm conquistado reconhecimento mundial, diante das ino-
vações e melhorias conferidas nos serviços prestados pelos bombeiros. Nesse sentido, conforme
benefícios de seu emprego comprovados por outras corporações, identifica-se sua aplicabilidade
para o corpo de bombeiros, principalmente no cumprimento das missões 3D. Portanto, essa
tecnologia qualificaria o desempenho da atividade das instituições, assim como responderia
demandas sociais vinculadas com as áreas de atuação do CBMSC.

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85
AVALIAÇÃO DO CURSO DE APERFEIÇOAMENTO
DE SARGENTOS 2014 -1 MODALIDADE
EAD COM O CURSO 2013-1 MODALIDADE
PRESENCIAL

Márcia Maria Constantino Sálvio¹

Resumo: No presente estudo serão apresentados os resultados da avaliação


curricular do Curso de Aperfeiçoamento de Sargentos (CAS) – 2014-1 na
modalidade EaD. Pretende-se, aqui, apresentar uma investigação avaliativa
acerca da grade curricular do CAS 2014-1, comparando-o com o CAS 2013-1
presencial e mostrando que é possível tornar o CAS uma pós-graduação latu
sensu. Além da comparação curricular, serão apresentados o desenvolvimento
da educação na PMSC e o crescimento dos cursos na modalidade de
Educação a Distância – EaD. Numa comparação do CAS na modalidade a
Distância com a modalidade presencial, serão mostradas as desvantagens
que este último apresenta em relação ao primeiro, quais sejam: o alto custo
da educação tradicional; as limitações geográficas; a importância crescente
da aprendizagem continuada. Para o desenvolver deste trabalho, buscou-se a
história da educação na Polícia e o estudo da legislação no âmbito da Educação
a Distância.

Palavras-Chave: Educação a distância na PMSC. Curso de


Aperfeiçoamento de Sargentos EaD. Ensino a distância. Educação corporativa.

1 INTRODUÇÃO
O interesse por este tema deve-se ao fato de que o curso de Aperfeiçoamento de Sar-
gentos na PMSC têm um número elevado de horas/aulas e não traz nenhuma titulação acadê-
mica ao policial que o conclui. Outro assunto importante é o crescimento dos cursos na mo-
dalidade da Educação a Distância – EaD nas organizações da PMSC. Estes cursos vêm sendo
potencializados por diversos fatores: economia, comparado com tradicional; não há limitações
geográficas; e a importância crescente da aprendizagem continuada. O curso de aperfeiçoamen-
to de Sargentos (CAS), que é um requisito para a progressão na carreira de um 2º Sargento da
Polícia Militar de Santa Catarina, passou a ser online a partir de 2013. A metodologia utilizada
na investigação foi o estudo de caso, delineando-se, assim, uma pesquisa quanti-qualitativa,
respeitando-se os princípios científicos que as orientam. Como instrumento de coleta de dados,
utilizou-se os planos de ensino dos CAS. Para tanto, realizou-se um levantamento do desenvol-

86
I SEMINÁRIO REGIONAL DE PESQUISA E INOVAÇÃO EM SEGURANÇA PÚBLICA

vimento do ensino nos cursos de Aperfeiçoamento de Praças e um estudo sobre a evolução da


EaD na PMSC.

2 O DESENVOLVIMENTO DOS CURSOS NA POLÍCIA MILITAR DE SANTA


CATARINA
Segundo Fernandes (2013), em 12 de dezembro, de 1965 foi criado o Centro de Ins-
trução Policial Militar (CIPM), no Sub-Distrito da Trindade, em Florianópolis, que reuniu os
Cursos de Formação Técnico-Profissional. No mesmo ano, ocorreu a implantação do Curso de
Formação de Oficiais Intendentes.
No ano de 1967 foi aprovado o Regulamento da Escola de Formação de Oficiais.
Com o Decreto nº 66.862, de 8 de julho de 1970, passou a ser exigido o “ginásio com-
pleto” para seguir nas forças armadas, essa exigência foi repassada à PMSC somente na década
de 80.
O CAS foi criado em 1970, segundo o Decreto n.º GE 10.010. Em 1971 foi realizado o
Primeiro (CAS), cuja origem legal é a Lei nº 3.222, de 21 de junho de 1957, a Lei nº 5.176, de 1º
de dezembro de 1966 e o Decreto nº 66.862, de 8 de julho de 1970. Assim, inicialmente o CAS
daria condições aos Subtenentes e 1º Sargentos cursarem, no Exército e nas Polícias Militares, o
curso de Oficial Administrativo ou cursos semelhantes.
Em 1º de julho de 1983, por meio do Decreto nº 19.295, de 15 de abril de 1983, foi cria-
do o Centro de Ensino da Polícia Militar (CEPM).
Em 2002, segundo Fernandes (2013), o Curso de Formação de Soldados e Sargentos
teve seu currículo alterado, adequando-se às exigências do Ministério da Justiça.
Em 2006, com a Lei Complementar nº 318, aconteceram modificações nos cursos: de
Formação de Cabos (somente Soldados de 1º Classe pelo critério de antiguidade, ou provenien-
tes do quadro especial e por ato de bravura) com duração de nove semanas. Já para o curso de
Formação de Sargentos (somente para Cabos pelo critério de antiguidade ou provenientes de
quadro especial e por ato de bravura) com duração de seis meses.
Em 2009 passou a ser exigido nível superior para ingressar na PMSC, através da Lei
Complementar nº 454.
Segundo Fernandes (2013) em 2011 é criado o Setor de Pesquisa e Extensão da Dire-
toria de Ensino – DIE.
Em 2012 foram desenvolvidas as Normas Gerais de Ensino – NGE
No dia 11 de dezembro de 2012, o Conselho Estadual de Educação (CEE) reconheceu o
Centro de Ensino da Polícia Militar de Santa Catarina (CEPM) como uma instituição de ensino
superior, juntamente com o credenciamento de dois Cursos, o de Bacharelado em Ciências Po-
liciais para oficiais, e o de Superior Tecnológico em Segurança Pública, para os soldados.
Já no ano de 2014 tem-se a abertura da primeira turma do CAS, na modalidade EaD,
para 120 sargentos.

87
I SEMINÁRIO REGIONAL DE PESQUISA E INOVAÇÃO EM SEGURANÇA PÚBLICA

2.1 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA NA POLÍCIA MILITAR DE SC


A Modalidade Educação a Distância – EaD na Polícia Militar de Santa Catarina iniciou-
se em 2012. Na ocasião, teve início o primeiro curso de Formação de Cabos com a participação
de 800 Soldados, na modalidade EaD. Já em 2013, o curso foi desenvolvido com 625 soldados.
Em 2014 o curso foi desenvolvido para 150 soldados. No ano de 2015, formou-se uma turma
no dia 28 de abril e a previsão sé de abertura de um edital com 300 vagas para soldados e cabos.
O curso de cabo é uma exigência para a progressão na carreira, segundo a Lei Comple-
mentar nº. 318 de 17 de janeiro de 2006, como cita o artigo 3º: “O Militar estadual aprovado no
Curso de Formação de Cabo ou de Sargento será promovido à respectiva graduação”. “II – para
os promovidos à graduação de Cabo, a aprovação no Curso de Formação de Cabo”.
O CAS é requisito para progressão na carreira de 2º Sargento, conforme a Lei Comple-
mentar nº. 318 de 17 de janeiro de 2006, como cita o artigo 10:

Art. 10. Por qualquer dos critérios, ressalvados os casos previstos em lei, a promoção
a 2º Sargento, 1º Sargento e Subtenente, somente poderá ser processada quando o
candidato satisfizer os seguintes requisitos:

§ 3º A frequência e aprovação no Curso de Aperfeiçoamento de Sargentos - CAS - é


requisito para a promoção a 1º Sargento, além dos demais estabelecidos neste artigo.”

Até 2013 o CAS era ministrado na modalidade presencial. O aluno tinha que se deslo-
car até Florianópolis, no CEPM, para realizar o Curso, que tinha duração de quatro meses. Este
deslocamento gerava muito transtorno e despesas para o policial realizar o curso.
Com o advento do CAS na modalidade EaD, no ano de 2014, a situação passa a gerar
menos transtorno e despesas para os alunos. Com exceção da primeira semana, que é presen-
cial, o aluno do CAS não precisa se ausentar de sua Organização Policial Militar (OPM) nem
sofrer mais por ter que se separar de sua família. Com isso, percebe-se que há um ganho para a
corporação e para o policial.
Há que ressaltar que na modalidade a distância, os policiais precisam de um alto grau
de maturidade, autonomia, objetivos claros e pontuais. Paralelamente a isso, a instituição, para
atuar com a Educação a Distância, também precisa de clareza no que diz respeito a alguns as-
pectos tais como a missão, as metas e os objetivos a serem atingidos. É aí que entra em cena o
planejamento e a gestão estratégica.

2.2 LEGISLAÇÃO NO ENSINO A DISTÂNCIA


A Educação a Distância no Brasil foi incentivada pelo governo por meio da Lei de Di-
retrizes e Bases da Educação – Lei 9.394/96 – 20 de dezembro de 1996, conforme se apresenta
no seu artigo 80:

O poder Público incentivará o desenvolvimento e a veiculação de programas de ensino


a distância, em todos os níveis e modalidades de ensino, e de educação continuada e
no parágrafo 2º: a união regulamentará os requisitos para a realização de exames e
registro de diplomas relativos a cursos de educação a distância.

O artigo 80 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira - LDB foi regulamen-


tado pelo Decreto Nº 2.944, de 10 de fevereiro de1998, desta forma formulada em seu artigo 1º:

88
I SEMINÁRIO REGIONAL DE PESQUISA E INOVAÇÃO EM SEGURANÇA PÚBLICA

Educação a Distância é uma forma de ensino que possibilita a autoaprendizagem,


com a mediação de recursos didáticos sistematicamente organizados, apresentados
e, diferentes suportes de informação, utilizados isoladamente ou combinados, e
veiculados pelos diversos meios de comunicação. Parágrafo Único –Os cursos
ministrados sob forma de educação a distância serão organizados em regime especial,
com flexibilidade de requisitos para admissão, horários e duração, sem prejuízo,
quando for o caso, dos objetivos e das diretrizes fixadas nacionalmente.

A Portaria n° 4.059, de 10 de dezembro de 2004, regulamenta os cursos a distância de


graduação e pós-graduação nas Instituições de Ensino Superior (IESs), permitindo desta forma,
que as Instituições de Ensino Superior que tenham seus cursos superiores reconhecidos, possam
introduzir disciplinas integrantes do currículo na modalidade semipresencial.
Na Resolução nº 151 do Conselho Estadual de Educação de Santa Catarina, estabelece-
se em seu artigo 1º :

Educação a Distância - EAD é uma forma de ensino que amplia a dimensão espaço-
temporal da escola, democratiza o acesso à educação e possibilita a autoaprendizagem,
com a mediação de recursos didáticos sistematicamente organizados, apresentados
em diferentes suportes de informação, utilizados isoladamente ou combinados, e
veiculados por diferentes meios de comunicação.

Em suma, os documentos citados acima regulamentam a atividade EaD e mostram que


atuar com Educação a Distância é um grande desafio e exige habilidades gerenciais específicas.
Segundo as “Referênciais de Qualidade para Educação Superior a Distância” (BRASIL/
MEC, 2007), elaborado pelo MEC e SEED, tem-se que a instituição que pretende atuar com qua-
lidade na EaD precisa prever um sistema que permita gerenciar serviços básicos como:

a) a administração e controle do processo de tutoria, especificando procedimentos


logísticos para os momentos presenciais e a distância; b) controle da produção e
distribuição de material didático; c) o acompanhamento da avaliação de aprendizagem;
d) o cadastro de estudantes, professores coordenadores, tutores, e outros envolvidos;
e) o cadastro de equipamentos e ferramentas educacionais do sistema; f) os atos
acadêmicos; g) os resultados de todas as avaliações e atividades realizadas pelo
estudante; h) a elaboração, inserção e gerenciamento de seu conteúdo por parte do
docente.

Assim, segundo Lévy (1999) a educação a distância online é um fenômeno mundial,


que está associado aos avanços sócio-técnico que coloca o computador online como canal privi-
legiado de comunicação e de aprendizagem em nosso tempo, entendendo-se como cibercultura
ou sociedade da informação. Todavia, falta desenvolver qualidade em docência e conscientiza-
ção dos alunos, para que sejam capazes de acompanhar as exigências específicas da aprendiza-
gem de um ambiente online.

2.3 AVALIAÇÃO DO CAS PRESENCIAL 2013


Segundo o Plano de Ensino nº. 078/DIE/2012, atualmente os 1º Sargentos e Subtenen-
tes exercem as seguintes atividades: Sgt Adjunto, Comandante da Guarda do Quartel, Auxiliar
das Seções Administrativas (P1, P2, P3, P4, P5 e outras), Instrutor, Comandante de Destaca-
mento PM, Posto – PMRv, Sgt Ronda (Atividade Operacional-Fiscalização e Coordenação),
Operador da CRE 190, Guarda de Estabelecimentos Prisionais, Monitor de Cursos de Formação

89
I SEMINÁRIO REGIONAL DE PESQUISA E INOVAÇÃO EM SEGURANÇA PÚBLICA

e Aperfeiçoamento de Praças, Escrivão de Inquérito Policial Militar, Sindicância e Inquérito


Técnico e Encarregado de Processos Administrativos (PAD).
Para que possa exercer essas atividades de forma condizente, é necessário que o for-
mando apresente ao final do Curso o seguinte perfil:

Liderança: a fim de estimular, orientar e fiscalizar as ações de seus subordinados nas


atividades pertinentes a Segurança Pública, bem como, a preocupação com a vida social e fami-
liar de seus subordinados, visando propiciar equilíbrio para que o mesmo possa melhor exercer
suas atividades.

Iniciativa e postura pró-ativa: visando a solução de conflitos e a resolução de proble-


mas, seja de forma isolada ou em conjunto com seus superiores e subordinados;

Adaptabilidade: para poder facilmente gerenciar situações inusitadas e complexas;

Ética: ter uma postura que respeite os valores definidos pela instituição e pela socieda-
de, sendo um referencial para seus subordinados;

Senso de Responsabilidade: ter consciência do impacto de que suas ações e compor-


tamento, diante da representatividade social, terão influencia tanto no âmbito interno como
externo.

Capacidade de Comunicação: saber se expressar, tanto na forma oral como escrita,


com clareza e objetividade.
Referente à avaliação da organização curricular, realizadas pelos alunos, foi observado
que contemplou disciplinas importantes que possibilitaram novas aprendizagens aos discentes,
mas ainda foi observado que é necessário redefinir alguns objetivos da formação, no intuito de
possibilitar a qualificação dos sargentos da corporação. Outro aspecto observado foi a aborda-
gem de conteúdos já ministrados durante o Curso de Formação de Sargento (CFS) em 2005,
tornando o curso repetitivo.
Já o planejamento do curso atendeu à dinâmica do CAS, pois foi apresentado com
antecedência e possibilitou flexibilizações conforme as necessidades apresentadas, mas conside-
raram necessário rever a programação de 5h/a sequenciais das disciplinas e que fossem estabe-
lecidos prazos para a entrega das notas pelos professores (feedback).
Desta forma, percebe-se a necessidade de mudanças no tocante ao planejamento do
curso. Um item a ser observado é que seria importante usar da experiência dos alunos do CAS
para a confecção de seu artigo de conclusão de curso. Como temos sargentos provenientes de
todas as cidades do Estado e das mais diversas funções, temos um arcabouço de conhecimento
que não está sendo registrado e, assim, deixado de servir de conhecimento para os demais.
Segue abaixo a grade curricular, algumas disciplinas são repetidas do curso de Forma-
ção de Sargentos 2004/2005. Neste tocando, os alunos acreditam que possa existir uma diminui-
ção da carga horária em consequência da repetição das disciplinas.

90
I SEMINÁRIO REGIONAL DE PESQUISA E INOVAÇÃO EM SEGURANÇA PÚBLICA

Tabela 1: Grade Curricular Cas Presencial 2013

DISCIPLINAS Carga horária


Direitos Humanos na Atividade Policial 15
Ordem Unida 15
Doutrina de Polícia 30
Abordagem Sócio-Psicológica da Violência e do Crime 15
Preparação p/ Prevenção às Drogas e à Violência 18
Legislação Institucional 30
Tópicos de Direito Penal 30
Tópicos de Direito Militar 30
Direito Administrativo 30
Documentação Operacional 30
Gestão Logística 30
Gestão em Recursos Humanos 30
Chefia e Liderança 15
Armamento/Munição e Tiro Policial 45
Técnicas e Operações de Polícia Ostensiva 45
Legislação e Operações de Trânsito 30
Gerenciamento de Crise e Negociação 15
Mediação de Conflitos 15
Gerenciamento de Estresse 15
Saúde e Atividade Física 30
TOTAL 535h/a

Fonte: Plano de Ensino nº164/DIE/2014

Além do número elevado de disciplinas que se repete com as disciplinas do curso de


Formação de Sargentos, tem-se uma quantidade elevada de hora/aula. Neste sentido, volta-se ao
fato de que poderíamos incluir neste curso a titulação de especialista.

2.4 AVALIAÇÃO DO CAS EAD 2014-I


De maneira geral os Sargentos-alunos mostraram-se satisfeitos tanto com o curso
como com o ambiente virtual. O curso atendeu às expectativas e o ambiente virtual favoreceu
a comunicação entre os docentes e tutores. Como exemplo ratificando esta satisfação seguem
trechos da pesquisa aplicada na avaliação do CAS:
Expresse sua opinião a respeito do curso, levando em consideração os seguintes aspec-
tos: organização curricular, planejamento (QTS), processos de avaliação, infraestrutura, dentre
outros.

91
I SEMINÁRIO REGIONAL DE PESQUISA E INOVAÇÃO EM SEGURANÇA PÚBLICA

“Os alunos até meio do curso estiveram perdidos, pois seus questionamentos
dificilmente eram respondidos, disciplinas e notas sumiram da tela deixando todos
apavorados, mas do meio do curso em diante tivemos um melhor rendimento do
planejamento inicial”.

“Gostei da forma que foi disponibilizado porem deveria haver alguns ajustes como por
exemplo as matérias já encerradas deveriam ser dispostas separado das em andamento
pois misturadas como estão confundem podendo o acadêmico por descuido deixar
passar uma prova, e se estiver separado tem-se a certeza do que foi feito e do que esta
pendente”.

“No âmbito geral foi muito bom, mas tenho certeza que pode melhorar principalmente
no que tange a plataforma propriamente dita e suas ferramentas.O sistema travou
várias vezes e ficamos esperando a solução técnica.Fora isso, os outros quesitos estão
dentro do aceitável para um curso E.A.D.”.

“Acredito que o CAS na modalidade EAD é um avanço para PMSC. Diferentemente do


que ouvi falar no CAS passado, acredito que este CAS superou expectativas em termos
de organização, planejamento e infraestrutura, e acredito que para o CAS vindouro,
problemas apresentados aqui, serão com certeza corrigidos”.

“Melhor o cursos nestes mondem, pois o policial participa do curso e não sai do seu
local de trabalho”.

“Os alunos até meio do curso estiveram perdidos pois seus questionamentos
dificilmente eram respondidos, disciplinas e notas sumiram da tela deixando todos
apavorados, mas do meio do curso em diante tivemos um melhor rendimento do
planejamento inicial”.

“Gostei da forma que foi disponibilizado porem deveria haver alguns ajustes como por
exemplo as matérias já encerradas deveriam ser dispostas separado das em andamento
pois misturadas como estão confundem podendo o acadêmico por descuido deixar
passar uma prova, e se estiver separado tem-se a certeza do que foi feito e do que esta
pendente”.

“Acredito que o CAS na modalidade EAD é um avanço para PMSC. Diferentemente do


que ouvi falar no CAS passado, acredito que este CAS superou expectativas em termos
de organização, planejamento e infraestrutura, e acredito que para o CAS vindouro,
problemas apresentados aqui, serão com certeza corrigidos”.

“O curso é uma inovação no modelo que foi apresentado (EaD). Acredito ser
importante essa modalidade. No geral o curso foi bem organizado e planejado, porém
o contato com o secretário e monitor do curso ficou prejudicado. Parece que durante
o curso foi concedido férias ao secretário e não foi deixado ninguém nessa função
durante esse período”.

Com relação aos relatos dos Sargentos-alunos na questão acima, extrai-se que num
primeiro momento, no início do curso, ocorreram alguns problemas técnicos na inserção de
disciplinas e notas, porém no decorrer do curso os ajustes foram realizados.
Outro relato interessante é que o CAS na modalidade EaD é um avanço para a PMSC e
superou as expectativas. Além de ser uma inovação, trouxe o benefício de o aluno não precisar
ausentar-se de sua OPM nem afastar-se de sua família.

92
I SEMINÁRIO REGIONAL DE PESQUISA E INOVAÇÃO EM SEGURANÇA PÚBLICA

Outro importante dado é o fato de que o Centro de Ensino da Policia Militar (CEPM)
é uma Instituição de Ensino Superior (IES), nesse sentido o Curso de Aperfeiçoamento de Sar-
gentos (CAS) poderia dar a titulação de pós-graduação em segurança pública.
Segue abaixo a grade curricular do CAS EaD, comparando com o CAS Presencial ob-
serva-se uma grande mudança com relação a quantidade de disciplinas e também com a carga
horária.
Tabela 2: Grade Curricular Cas Ead 2014

DISCIPLINAS Carga horária


Direitos Humanos na Atividade Policial 20
Programas Institucionais 20
Metodologia de EaD 20
Tópicos de Direito 40
Legislação Institucional 40
Documentação Operacional 20
Gestão Logística 40
Gestão em Recursos Humanos 40
Técnicas e Operações de Polícia Ostensiva 30
Gerenciamento de Crise e Negociação 15
Mediação de Conflitos 15
Gerenciamento de Estresse 15
A Disposição da Direção 05
TOTAL 325h/a

Fonte: Plano de Ensino n.º 078/DIE/2012

Nesta tabela observa-se que ocorreu uma diminuição da quantidade de hora/ aula se
comparada com a grade curricular do CAS Presencial. Percebe-se então, uma melhoria no pla-
nejamento do curso que para dar continuidade na ideia da titulação de especialista precisaria
passar por alguns ajustes no tocante às disciplinas e um aumento na carga horária, pois como já
foi relatado anteriormente por lei são necessárias 360h/a.

3 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Segundo o desenvolvimento da educação na PMSC, o CAS teve início no ano de 1970.
Em 2012 o Curso de Formação de Soldados, adequa-se às exigências do Ministério da Justiça.
Continuando no desenvolvimento, outro passo importante foi dado em 2009 quando, através da
Lei Complementar nº 454, passou a ser exigido nível superior para ingressar na PMSC. Em 2012
são desenvolvidas as Normas Gerais de Ensino – NGE. Após 40 anos de evolução chegamos ao
ponto de exigir nível superior para ingressar na carreira militar, e neste viés, em 2012 o Con-
selho Estadual de Educação (CEE) reconheceu o Centro de Ensino da Polícia Militar de Santa
Catarina (CEPM) como uma instituição de ensino superior, juntamente com o credenciamento

93
I SEMINÁRIO REGIONAL DE PESQUISA E INOVAÇÃO EM SEGURANÇA PÚBLICA

de dois Cursos, o de Bacharelado em Ciências Policiais para oficiais, e o de Superior Tecnológico


em Segurança Pública, para os soldados.
Ora, nossa entidade já é reconhecida como Instituição de Ensino Superior, possuímos
dois cursos em nível de graduação, faltam-nos, então, ajustes para inserir o CAS com a titulação
de pós-graduação.
A modalidade EaD foi inserida na PMSC no ano de 2012 com o primeiro curso de For-
mação de Cabos, tendo a participação de 800 Soldados. Já no ano de 2014 tem-se a abertura de
120 para a primeira turma do CAS na modalidade da Educação a Distância, para 120 sargentos.
Além da avaliação dos cursos e da evolução, observa-se que este curso poderia trazer
para o Sargento a titulação de pós-graduação latu sensu, pois são 325 h/a, no modelo atual, sen-
do necessários alguns ajustes conforme o Conselho Estadual de Educação.
Após analise do CAS presencial 2013, tem-se que é necessário redefinir alguns obje-
tivos da formação, no intuito de possibilitar a qualificação dos sargentos da corporação. Outro
aspecto observado foi a abordagem de conteúdos já ministrados durante cursos anteriores, o
que torna a formação repetitiva. Aqui nesta analise percebe-se a necessidade de mudanças que
possam levar o policial a demonstrar o seu potencial e conhecimento, utilizando as experiências
dos alunos do CAS para a confecção de seu artigo de conclusão de curso.
Observando o desenvolvimento do primeiro CAS EaD em 2014, os alunos mostraram-
se satisfeitos, apesar de que, num primeiro momento, no início do curso, ocorreram alguns
problemas técnicos na inserção de disciplinas e notas, porém no decorrer do curso os ajustes
foram realizados.
Outro relato interessante é que o CAS na modalidade a Distância“é um avanço para a
PMSC e superou as expectativas”. Além de ser uma inovação, trouxe o benefício de o aluno não
precisar ausentar-se de sua OPM nem afastar-se de sua família. Sob um aspecto de um modelo
de aprendizagem mais dinâmico, podemos ter maior motivação por parte do policial militar,
bem como um número maior de produção científica.
Hoje temos as Normas Gerais de Ensino – NGE, que no seu artigo 1º: A Polícia Militar
manterá um sistema de ensino que compreende a educação básica e o ensino profissional de
formação básica e complementar. No anexo “O” da NGE/2013 trata da norma específica para a
aplicação da Educação a Distância na PMSC.
Percebemos então, que muito já evoluímos, porém acreditamos que podemos mais.
Além da NGE, poderemos dispor de uma Lei que trata exclusivamente do ensino na Polícia
Militar de Santa Catarina, bem como a criação da coordenadoria da Educação a Distância, que
conduza o CAS EaD com a titulação de pós-graduação em Segurança Pública.
Para finalizar, fica o questionamento: se o policial com 20 anos de serviço, após realizar
o Curso de Formação de Soldado, Curso Formação de Cabo, Curso de Formação de Sargento
e Curso de Aperfeiçoamento de Sargento, totalizando aproximadamente cinco mil horas/aulas,
ainda não é o especialista em Segurança Pública, quem será?

94
I SEMINÁRIO REGIONAL DE PESQUISA E INOVAÇÃO EM SEGURANÇA PÚBLICA

REFERÊNCIA
BELLONI, Maria Luiza. Educação a distância. 2. ed. Campinas, SP: Autores Associados, 2001.

BRASIL/MEC. Indicadores de qualidade para cursos de graduação a distância. Brasília: MEC/


Secretaria de Educação a Distância, 2007. Disponível em:http://portal.mec.gov.br/seed/arquivos/
pdf/PADR%C3%83%C2%A5ES%20DE%20QUALIDADE.pdf . Acesso em: jun. 2015.

BRASIL, Ministério da Educação, Decreto nº 2.944de 10/02/1998. http://portal.mec.gov.br/


seed/arquivos/pdf/tvescola/leis/D2494.pdf. Acesso em: jun. 2015

BRASIL, Ministério da Educação, Lei nº 9.394 de 20/12/1996. Disponível em http://portal.mec.


gov.br/arquivos/pdf/ldb.pdf. Acesso em: jun. 2015

BRASIL, Ministério da Educação, Portaria nº 4.059de 10/12/2004. http://portal.mec.gov.br/


sesu/arquivos/pdf/nova/acs_portaria4059.pdf. Acesso em: jun. 2015

Lei Complementar nº 318, de 17/01/2006. Disponível em http://www.aprasc.org.br/index2.


php?id_conteudo=6. Acesso em: jun. 2015.

LÉVY, Pierre. A conexão planetária: o mercado, o ciberespaço, a consciência. São Paulo: Editora
34, 2001.

FERNADES, Andrei Francisco. Polícia Militar de Santa Catarina Origens e Evoluções:


Hierarquia, Fardamentos, Inclusões, Promoções e Ensino. Florianópolis: Editora Papa Livro,
2013.

SANTOS, Edméa.O.; SILVA, Marco ( Org.). Avaliação da aprendizagem em educação online:


Fundamentos, Interfaces e dispositivos e relatos de experiências. São Paulo: Edições Loyola,2014.

95
GEOTECNOLOGIAS COMO FERRAMENTAS
AUXILIARES NA FISCALIZAÇÃO AMBIENTAL

Camile Sothe1

Resumo: O uso de geotecnologias na tarefa da fiscalização ambiental tem


se apresentado como alternativa viável para reduzir os custos e tempo gasto
com trabalhos em campo, otimizando o período hábil de fiscalização do
cumprimento da legislação ambiental. O objetivo deste trabalho foi mostrar
três formas de como geotecnologias podem auxiliar no trabalho da Polícia
Militar Ambiental (PMA). Para isso, utilizou-se o software livre Google
Earth e o Sistema de Informação Geográfica QGIS, aliados a dados de GPS
coletados em campo. Para o primeiro caso, foram utilizadas imagens Google
Earth e o QGIS para levantar uma ocupação irregular de área de preservação
permanente. Para a segunda situação, foi mostrada a análise multitemporal
de local de crime ambiental de desmatamento, com intuito de verificar
cumprimento do Termo de Compromisso. No terceiro caso, foi elaborado
um mapa de cluster para verificar os locais com maior incidência de crimes
ambientais na unidade da PMA de Tijucas.

Palavras-chave: Crimes Ambientais. Polícia Ambiental. Sistema de


Informações Geográficas.

1 INTRODUÇÃO
A preocupação com o meio ambiente na sociedade contemporânea é crescente. A cons-
cientização a respeito da necessidade de repensar a relação dos seres humanos com o planeta
tem se refletido na elaboração de ordenamentos jurídicos cada vez mais complexos, que buscam
não só reparar erros passados, mas prevenir erros futuros. Um exemplo disto no ordenamento
jurídico brasileiro é o artigo 225 da Constituição Federal e a Lei Federal n° 9.605/1998 (Lei dos
Crimes Ambientais). A fiscalização e combate a crimes e infrações ambientais, previstos neste
arcabouço legal, é uma das missões constitucionais da Polícia Militar Ambiental.
Neste contexto, metodologias embasadas na aplicação de geotecnologias têm se apre-
sentado como alternativa viável para reduzir os custos e tempo gasto com trabalhos em campo,
otimizando o período hábil de fiscalização do cumprimento da legislação ambiental. O avanço
tecnológico sem precedentes, a enorme disponibilidade de dados de sensores remotos, bases

1  Mestra em Engenharia Florestal pela UDESC, soldado na Polícia Militar Ambiental de Tijucas: Rua Coronel
Conceição, nº 870, Centro, Tijucas-SC. E-mail: camilesothe@yahoo.com.br

96
I SEMINÁRIO REGIONAL DE PESQUISA E INOVAÇÃO EM SEGURANÇA PÚBLICA

cartográficas e softwares livres, possibilitam cada vez mais reunir, processar e entender melhor
as informações ambientais de forma integrada.
Muitos trabalhos mostram como geotecnologias podem auxiliar no trabalho de órgãos
ambientais, em atividades de fiscalização, monitoramento, análise histórica dos fatos, planeja-
mento das atividades operacionais, dentre outros. No âmbito internacional, Kelly e Kelly (2014)
fazem uma revisão de 61 estudos que utilizaram Sensoriamento Remoto na identificação de
crimes, dentre eles, os crimes ambientais. Brilis et al. (2000), forneceram uma visão geral do
uso de fotografia aérea, mapeamento topográfico e fotogrametria em ações de fiscalização am-
biental da Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos da América (EUA). Segundo
eles, a visualização das relações espaciais entre características naturais e antrópicas pode ser o
escopo da investigação ambiental e fornece registros históricos de mudanças das condições de
determinado local. Brilis (2000) mostrou a importância do Sistema de Informação Geográfica
(SIG) e do Sistema de Posicionamento Global (GPS) na Agência de Proteção Ambiental dos
EUA. Segundo o autor, o SIG apresenta diversas aplicações para a Agência, como mensurações
remotas (comprimento e área, por exemplo), reclassificação de atributos (combinando informa-
ções de dados de diferentes camadas para determinar, por exemplo, tipos de solo em parcelas de
terra adquiridas por diferentes pessoas), cobertura topológica (para determinar fronteiras em
comum ou subdividir unidades de mapas baseados em feições de outras camadas), operações
de conectividade (para determinar a rota mais curta ao longo de uma rede de trabalho) e análise
de superfície.
No Brasil, Caldas et al. (2009) descrevem três exemplos do uso de Sensoriamento Re-
moto com imagens dos satélites CBERS e Landsat na perícia criminal federal no estado do Pa-
raná: determinação da época de ocorrência de desmatamento, incêndios florestais no Parque
Nacional da Ilha Grande e constatação de cumprimento de Termo de Ajustamento de Conduta.
Da mesma forma, Alves e Russo (2011), mostraram uma análise multitemporal de imagens
Landsat-5 como ferramenta para a elaboração de laudo pericial em desflorestamento, incêndio
florestal e implantação de pastagens, próximo à divisa entre os estados de Rondônia, Amazonas
e Mato Grosso, no Parque Nacional dos Campos Amazônicos. Caixeta (2009) utilizou imagens
de satélite e ferramentas SIG para monitorar Área de Preservação Permanente (APP) ao longo
do Ribeirão Anicuns em Goiânia. Segundo o autor, na maioria dos casos, é possível determinar
os locais onde as APPs não estão sendo respeitadas, reduzindo custos e dando maior agilidade
ao serviço dos órgãos ambientais.
No âmbito estadual, Trauczinsky (2013) afirmou que a maioria dos exames periciais
relativos a crimes ambientais no estado de Santa Catarina (SC) utiliza produtos ópticos de sen-
soriamento remoto (fotografias aéreas e imagens orbitais) como ferramenta para ilustrar, qua-
lificar, mensurar e situar o dano dentro de um contexto histórico. Lima (2013), concluiu que as
medições remotas realizadas sobre a ortoimagens oriundas do levantamento aerofotogramé-
trico de SC e de imagens do satélite GeoEye ortorretificadas são equivalentes as medições rea-
lizadas em campo. Sothe (2015) mostrou cinco metodologias, utilizando diferentes softwares
livres, para classificação digital automática de ortoimagens, com intuito de classificar o estádio
sucessional da vegetação do estado. O objetivo foi mostrar formas alternativas de fazer a classi-
ficação da vegetação de forma a otimizar os dispendiosos inventários florestais em campo feitos
pela PMA.
O uso efetivo de alguns dados, como as imagens de satélite, na fiscalização de crimes
ambientais em SC encontra algumas limitações, como a resolução espacial das imagens. Dife-
rente do Bioma Amazônia, por exemplo, em que ocorrem desmatamentos em extensas áreas,
possíveis de serem detectados em imagens de menor resolução espacial, SC possui intervenções

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pontuais, oriundas da construção civil ou atividades de aterro e terraplanagem. Desta forma, as


imagens de alta resolução espacial são mais eficazes na fiscalização ambiental no âmbito estadual.
Por esse motivo, o software livre Google Earth, ainda é um dos mais utilizados pelos
agentes ambientais. Este software apresenta, para quase todo o estado, imagens de alta resolução
espacial. Apesar da precisão deste programa ser questionada, alguns estudos, como Lima et al.
(2009) e Lopes (2009), concluíram que o Google Earth é uma opção viável quando se busca pra-
ticidade e disponibilidade sem custo financeiro, em aplicações onde o modelo SIG não demanda
uma grande precisão geográfica. Na PMA de SC é comum a utilização desta ferramenta, porém,
sempre aliadas a levantamentos em campo.
O uso de geotecnologias vem ganhando espaço no trabalho da PMA-SC. Primeiramen-
te, o órgão utilizava ferramentas oriundas somente de fontes diretas, como o GPS, que visava
situar a ocorrência ambiental no espaço geográfico. Atualmente utilizam-se também dados de
outras fontes, como imagens aéreas e de satélite, aliadas a fontes externas de dados vetoriais
e matriciais disponíveis. Neste contexto, o estudo visa mostrar o potencial de geotecnologias,
como Google Earth e Sistemas de Informações Geográficas (SIG), na fiscalização de crimes am-
bientais. Para isso, serão mostrados três casos de uso dessas ferramentas: levantamento de uma
ocupação irregular de APP em Balneário Camboriú; análise multitemporal de área atingida por
supressão de vegetação nativa em Camboriú; e geração de mapas de cluster para verificar locais
de maior incidência de crimes ambientais.

2 MATERIAL E MÉTODOS
Utilizaram-se imagens disponíveis no software Google Earth, versão Pro, que, desde 2015,
também é gratuito. As imagens das duas áreas de estudo foram georreferenciadas no software livre
QGIS 2.8.2, utilizando-se como base cartográfica o arquivo shape de municípios do IBGE.
O primeiro caso apresentado foi o levantamento do número de construções provenien-
tes de uma ocupação irregular de APP, margem de um curso d’água com 2 m de largura, em
Balneário Camboriú. Primeiramente, foi percorrida a área afetada com um GPS portátil, mar-
cando-se as coordenadas de cada edificação do local e do percurso do curso d’água. Estes pontos
foram lançados no QGIS 2.8.2. Neste aplicativo, usou-se a ferramenta buffer2 para estabelecer
uma faixa de 30 m ao lado norte do curso d’água, e, desta forma, verificar quais das edificações
estavam dentro da faixa de APP.
O segundo caso envolve a fiscalização de um local alguns anos após o crime ambiental
de desmatamento. Como procedimento de praxe dentro da PMA-SC, o Auto de Infração Am-
biental (AIA) lavrado gera um procedimento administrativo. Após algum tempo, é solicitado
ao agente ambiental autuante retornar ao local, a fim de verificar se o infrator cumpriu o que
foi acordado no Termo de Compromisso (esfera administrativa). Como exemplo do uso das
geotecnologias neste contexto, foi verificado a situação atual de uma área de 3 ha desmatada
em 2011 no município de Camboriú, buscando-se as coordenadas geográficas da ocorrência no
processo administrativo. As coordenadas foram colocadas no Google Earth e, através da opção
“visualizar imagens históricas”, foi possível verificar o estado atual da vegetação no local.
O terceiro caso compreendeu a verificação dos locais de maior incidência de crimes
ambientais na região da unidade da PMA de Tijucas. Esta unidade abrange os municípios de
duas Mesorregiões de SC: Vale do Itajaí (Balneário Camboriú, Camboriú, Itapema, Porto Belo

2  Designação de uma faixa de distância em volta de um ponto, de uma linha ou de um polígono.

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e Bombinhas) e Grande Florianópolis (Canelinha, Major Gercino, Nova Trento, Porto Belo, São
João Batista e Tijucas).
No sistema de Gestão de Acompanhamento de Infrações Ambientais (GAIA), foram
levantadas as coordenadas geográficas dos locais em que foram lavrados os AIAs entre os anos
de 2010 e 2014. Para análise espacial dos dados, a planilha do Excel foi importada no Sistema
de Informação Geográfica QGIS 2.8.2. Com o campo relativo às coordenadas geodésicas, foi
possível plotar os locais de infração para o mapa usado como referência. Para a visualização dos
principais locais de ocorrência de crimes ambientais, as denominadas “zonas quentes”, foram
elaborados mapas de densidade do tipo cluster (agrupamento). A análise de cluster depende da
proximidade dos pontos que representam os incidentes. Em geral, primeiramente o programa
estabelece um ponto de partida arbitrário, definido como “semente”. O sistema encontra o dado
estatisticamente mais afastado da semente e faz dele a segunda semente, dividindo os dados em
dois grupos. São então calculadas as distâncias a partir de cada semente até outros pontos, e os
clusters baseados na nova semente são desenvolvidos de modo que as somas das distâncias den-
tro do cluster sejam minimizadas. Atribuiu-se um raio de 20 km para elaboração dos clusters, ou
seja, foram agregados os pontos que estivessem na proximidade de até 20 km do ponto central
do cluster.

3 RESULTADOS E DISCUSSÃO
A Figura 1 mostra uma ocorrência ambiental de ocupação irregular de APP no mu-
nicípio de Balneário Camboriú. Em um período de três meses várias construções foram feitas
na margem de um curso d’água. Foi possível constatar que, das 135 edificações construídas
recentemente no local, 55 estavam dentro da APP. Destaca-se que se trata de área urbana não
consolidada conforme a legislação vigente, tendo em vista a intervenção ter ocorrido após 22 de
julho de 2008.

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Figura 1. Visualização de construções irregulares em APP com imagens Google Earth


georreferenciadas e QGIS: imagem de 07/02/2014 (a); imagem 15/01/2015 (b).

A Figura 2 mostra a evolução temporal das imagens de uma área autuada por supressão
de vegetação nativa no ano de 2011, no município de Camboriú. Consta no processo adminis-
trativo do caso que o autuado destruiu o local com intuito de realizar plantio de espécie exótica,
eucalipto. Verificando-se as imagens posteriores a data da autuação, percebe-se que não foi rea-
lizada a recuperação do local com vegetação nativa, conforme esperado, mas sim, o plantio de
eucalipto, que era a intenção inicial do autuado.
Figura 2. Monitoramento de local após desmatamento, com imagens Google Earth: an-
tes do dano em 2010 (a); logo após o dano em 2011 (b); imagem de 2015, com o eucalipto esta-
belecido na área afetada (c).
O mapa de cluster (Figura 3) mostra os focos das infrações ambientais constatadas no
período estudado na unidade da PMA de Tijucas. Percebe-se que o maior número de ocorrên-
cias concentradas (em vermelho) está nos municípios de Camboriú, Nova Trento e São João
Batista. Um dos focos de ocorrências no município de Porto Belo refere-se ao atendimento da
requisição do Ministério Público Estadual no ano de 2013, que gerou 23 AIAs lavrados em um
único dia.
Este tipo de mapeamento permite a análise espacial das ocorrências criminais poden-
do-se direcionar o foco de atuação do órgão para as chamadas “zonas quentes”, ou seja, nos
locais em que os crimes ambientais são mais frequentes. Segundo Lang e Blaschke (2009), a aná-
lise espacial apoiada em SIG objetiva fundamentalmente gerar novas informações, o que se dá
por meio da manipulação e integração com camadas de dados já existentes. Essa nova geração
de informações serve para tomar decisões referentes a áreas.

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Figura 3. Mapa de cluster com a distribuição das ocorrências ambientais no período


2010 a 2014 na unidade da PMA de Tijucas-SC.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este trabalho apresentou sucintamente três formas de como o Google Earth e o QGIS
podem auxiliar nas atividades de fiscalização da PMA. Estes programas auxiliaram a levantar o
número de construções irregulares em APP, monitoramento temporal de área objeto de autua-
ção, o que possibilita a verificação do cumprimento do Termo de Compromisso pelo autuado,
além da geração de mapas de incidência criminal. Essas informações são de extrema importân-
cia na tipificação e cominação das penas ao fim do processo administrativo, além de possibilitar
direcionar o foco de atuação da Polícia Ambiental.
O uso de geotecnologias só tende a aumentar. Farias e Costa (2015), apresentaram um
estudo sobre as aplicabilidades de Veículos Aéreos Não Tripulados (VANT- drones) no trabalho
da PMA. Dentre elas, os autores citaram o policiamento ostensivo preventivo de baixo custo
operacional, já que evitaria que patrulhas terrestres e/ou aquáticas se deslocassem por áreas de
difícil acesso; a capacidade de resistência às intempéries climáticas, fatores que muitas das vezes
limitam a atuação do convencional monitoramento aéreo realizado pelas aeronaves do Batalhão
de Aviação da Polícia Militar; além dos sobrevoos milimetricamente precisos, gerando mapas
georreferenciados do local monitorado.
Ressalta-se, no entanto, a importância do trabalho de campo executado com a finali-
dade de verificar informações interpretadas nas imagens de satélite, e obter maior precisão na
localização dos fatos verificados.

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I SEMINÁRIO REGIONAL DE PESQUISA E INOVAÇÃO EM SEGURANÇA PÚBLICA

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