Você está na página 1de 6

SERVIÇO PÚBLICO FEDERAL

UNIVERSIDADE FEDERAL DE GOIÁS


REGIONAL JATAÍ

ESTAGIO SUPERVISIONADO I
Docente: Prof. Me. Robson Pereira Da Silva.
Discente: Lázaro Luciano Di Franco lima e Souza.

Resenha do texto teatral “A Aurora da minha vida” de Naum Alves de Souza

Um pouco sobre o autor: Naum Alves de Souza nasceu Pirajuí, São Paulo, em
1942 – e faleceu em São Paulo, capital, em 2016. Foi diretor, autor, cenógrafo e
figurinista. Homem de teatro ligado a múltiplas atividades, não apenas no campo do
teatro como também da televisão, cinema e ópera.
Mudou-se para São Paulo aos 18 anos de idade, onde, pouco depois, começa a
dar aulas de educação artística e iniciação às artes plásticas para crianças e
adolescentes. Abre o Pod Minoga Studio, um centro de pesquisas de linguagem
cênica que, nos anos 1970, causa furor e torna-se um fenômeno cult.
Sua estréia profissional se dá como cenógrafo e figurinista de El Grande de Coca-
Cola, musical americano dirigido por Luiz Sérgio Person (1936-1976) no Auditório
Augusta, em 1974. Logo a seguir, executa os bonecos de Vila Sésamo, programa
infantil da TV Cultura de enorme sucesso. Aos poucos vai se desdobrando em
múltiplas atividades. Escreve e dirige Maratona, 1977; No Natal a Gente Vem Te
Buscar, 1979; A Aurora da Minha Vida, 1981; Um Beijo, um Abraço, um Aperto de
Mão, 1984, alem de outros tão importantes quanto.
Como diretor, além de encenar seus próprios textos, destaca-se nas montagens
de Cenas de Outono, de Yukio Mishima, tendo Marieta Severo (1946) à frente do
elenco, em 1987; Lulu, de Frank Wedekind, com Maria Padilha (1960) no papel
central, em 1989; Longa Jornada de Um Dia Noite Adentro, de Eugene O'Neill,
com Sergio Britto (1923-2011) e Cleyde Yáconis (1923-2013), em 2002. No ano
seguinte, dirige A Flor do Meu Bem Querer, de Juca de Oliveira (1935),
superprodução sobre corrupção política no Brasil, em 2003. Colaborou para
inúmeros espetáculos alheios, na direção, roteirização, cenografia e figurinos. Foi
destaque na área da ópera e da dança.
Sobre o texto teatral “A Aurora da Minha Vida”

A obra em destaque foi escrita no ano de 1981, foi e continua sendo


encenada e reencenada por variadas vezes, não somente se destacando no
âmbito da dramaturgia, mas também para o exigente leitor, fazendo-o rememorar
sentimentos, angústias, choros, alegrias, dramas, sorrisos, sempre com pitadas de
nostalgia.
O autor inicia o texto destacando o elenco, composto por quatro atores e
quatro atrizes, revezando-se entre os vários personagens. Em seguida elenca as
personagens, distribuindo-os conforme o caso.
Todas as cenas se passam no interior de uma escola, com salas de aula,
carteiras enfileiradas, professores, diretor, merendeira, alunos uniformizados,
enfim, apresenta inúmeras passagens textuais muito bem expostas, sendo que
através das falas dos personagens, nota-se contradições sociais, culturais,
religiosas e, inclusive, fica nítido o momento histórico da produção da obra –
regime militar.
Logo no primeiro ato da peça o autor apresenta a escola através de um
personagem (um dos antigos alunos), que descreve seu corpo administrativo e
suas condições estruturais, diretor, servente, inspetor de alunos, secretaria,
professores, salas, corredor, banheiro, pátio, barzinho. Na frente uma placa com os
dizeres “educa a criança no caminho que deve andar e ela nunca se desviará dele”.
Com efeito, observa-se que a tendência religiosa da escola posta pelo autor,
quando faz a citação bíblica conforme provérbios 22, versículo 6.
Ainda no intróito textual, um dialogo entre dois personagens (a velha
professora e o visitante), revelando fragmentos de uma época cujo regime era de
repressão e vigilância: a velha professora pergunta ao visitante se ele gostava dos
professores, sendo-lhe respondido que não sabia ao certo, ou se era o dever de
gostar da pátria, da família e que contaram muita historia mentirosa que não
correspondia com a verdade. A velha professora então completa alegando que não
sabia de toda a verdade e que a verdade era proibida conforme a lei. O visitante
replica dizendo que não havia liberdade para nada, sendo os professores decidindo
a vida dos alunos, os diretores sobre os professores, e alguém sobre os diretores.
A professora diz que precisava haver ordem e disciplina. Com efeito, esse recorte
nos remete ao positivismo, alunos sentados nas suas respectivas cadeiras,
enfileiradas, uma atrás da outra, ninguém fora do lugar, totalmente organizados,
inclusive a mesa da professora, com material também em seus devidos lugares,
passando informações como se fosse a única detentora do conhecimento.
Mais adiante menciona que o professor antigamente podia bater em aluno,
“os pais até gostavam”, “o aluno respeitava a gente. E aprendia”. Nesta citação
podemos verificar uma abordagem de uma tendência pedagógica “tradicional”, em
que o processo ensino-aprendizagem era totalmente centrado no professor, com
objetivo principal de formar o aluno ideal, sendo refutados seus próprios interesses.
Neste sentido Mizukami (1986, p.12), traz que quanto mais rígido o ambiente
escolar, mais concentrado e voltado para a aprendizagem o aluno se mantinha,
sendo que o professor era visto como mero repassador de conteúdo e o aluno
apenas um ser passivo no processo, abarcando habilidades meramente de
memorização e repetição.
Ainda assim, nota-se que as mudanças estariam ocorrendo no processo de
aprendizagem, mesmo minimamente, rompendo as barreiras impostas pelo poder
do Estado e sua força de dominação, dos micro-poderes inseridos na sociedade.
Neste sentido, faz jus citar Margareth Rago (1993), num dialogo com Michel
Foucault, assevera que somos parte de uma imensa rede de relações que,
paulatinamente, recobriu e conformou a sociedade disciplinar, rede essa que
sustenta a representação do Estado como força repressiva e máquina exclusiva da
dominação.
Neste viés, quanto a formação do cidadão para a polis, Terezinha Azeredo
Rios, cita a dimensão ética do trabalho docente, que transmite saber acumulado e
leva novos saberes. Conteúdos e técnicas selecionados, transmitidos e
transformados, de acordo com o papel político da educação, que se revela na
medida em que se cumprem as perspectivas de determinados interesses. Com
isso, a escola forma cidadão dócil e operário. Portanto, necessário refletir e buscar
caminhos para uma transformação.
Sobre a função da escola, Hannah Arendt no texto “A crise na educação”,
contextualiza que "a função da escola é ensinar às crianças como o mundo é, e
não instruí-las na arte de viver". Por seus argumentos, mostra-se a favor da
autoridade em sala de aula e apresenta uma visão educativa conservadora. Não
que ela defenda um professor autoritário, nem ser favorável a uma escola como um
agente da manutenção da ordem estabelecida. Pelo contrário, acredita que o aluno
deve ser apresentado ao mundo e estimulado a mudá-lo.
No decorrer das cenas, observa-se que o ambiente escolar é realmente de
contradições, alunos de diferentes origens sociais, culturais, oriundos de lares e
“famílias” diversas, confirmando que o espaço escolar é da contradição, da
diversidade e, diante disso, vislumbra-se uma dificuldade de trabalhar essas
diferenças, sendo possível notar discussões entre os alunos, entre alunos e
professores, entre alunos e direção. Conforme Candau (2011), a institucionalização
da escola pública trouxe consigo as dificuldades de trabalhar com as diferenças,
uma vez que essa escola buscava criar indivíduos considerados iguais perante a
lei, desconsiderando as diferenças socioculturais, tudo no afã de nivelar igualdade
à homogeneidade, com indivíduos legalmente tidos como iguais, sendo a escola
colaboradora na geração desses indivíduos, homogeneizando as crianças, sem
considerar suas origens diferentes, se incumbindo de igualar os sujeitos que dela
participam.
Tal citação pode ser confirmada quando o diretor traz passagem acerca do
“Primeiro Aluno” contextualizando que: “Esse menino é um santo! Muito estudioso,
obediente, religioso, decora tudo fácil, não é respondão...” (...) “E é limpo, educado,
pontual, muito educadinho!”
O ambiente escolar nessa peça teatral também apresenta aula de ensino
religioso, em que o professor (padre) inicia a aula rezando com a turma. Num dado
momento, um determinado aluno (personagem) pede ao padre pra sair, pois se diz
crente.
Sobre ensino religioso, salientamos que a sala de aula abarca diferenças, e
sendo assim, este ensino se torna desafiador, uma vez que exige dos professores
uma postura no sentido de garantir liberdade de opinião no âmbito das diferentes
religiões que fazem parte da vivencia e cultura dos alunos. Neste sentido, como
pensa Candau (2000, p. 130),
A diversidade ao estar inserida no processo educativo, vai resultar num
estimulo à busca de um pluralismo universalista que contemple as
variações da cultura, isto vai requerer tanto de alunos como de
professores, mudanças importantes de mentalidade e fortalecimento de
atitudes de respeito entre todos e com todos.
Ainda sobre o tema religião, o historiador Oliver Thomson, de Cambridge, na
obra a assustadora história da maldade, ele analisa a influência das religiões para
o surgimento de códigos morais que tinham o objetivo regular/controlar a vida em
sociedade. Assim, os princípios morais religiosos partiam do pressuposto de que
sem a existência de códigos de conduta, a sociedade viveria um estado de
selvageria, tornando impossível a vida. Sobre o assunto Thomson discorre que:
Embora fundamentalistas de muitas religiões ainda possam afirmar que
seus códigos resultam de decretos divinos, provavelmente é correto dizer
que agora a maioria das pessoas reconhece que os códigos morais são
inventados pelo homem: trata-se de regras de comportamento elaboradas
por grupos de pessoas ou indivíduos para tornar a existência mais
agradável para a maioria. Essa artificialidade não significa que a
moralidade seja antinatural ou que o homem sem código moral seja
necessariamente mau. (THOMSON, 2002 p. 21).

Continua o historiador sobre o desdobramento histórico dos códigos


(padrões morais) defendidos pelas mais antigas religiões:
O que é incontestável é que a maioria das sociedades precisou de alguma
forma de um código moral como base da vida em comunidade, e, portanto,
a criou. Talvez nem todos concordem com as regras escolhidas ou as
considerem particularmente morais, mas um padrão de controle
comportamental parece sempre surgir, mesmo se em certas ocasiões em
nível aparentemente mais baixo que em outras. Em sociedades maiores
também encontramos toda uma série de subsistemas morais, códigos
distintos para guerreiros, sacerdotes, mães e inúmeros grupos pequenos.
Numa comunidade moderna, não existem apenas padrões gerais para
toda uma nação ou grupo de nações, mas há códigos no comércio, em
hospitais, escolas, no exército, em sindicatos, nos esportes e até mesmo
entre criminosos (THOMSON. 2002 p.21).

Noutro momento do texto, nos deparamos com o exame de matemática


(prova oral), deixando os alunos aflitos e preocupados, corrobora com a lição do
filosofo francês Michel Foucault (1999, p.143), acerca do “olhar hierárquico, a
sanção normalizadora e sua combinação num procedimento que lhe é especifico, o
exame”.
Com efeito, ressaltamos a importância do estudo desses pequenos
fragmentos retirados da peça em epigrafe, que nos mostrou a diversidade de
personagens, seus aspectos sócio/culturais, situações divertidas, cômicas,
dramáticas e traumáticas, especialmente para “personagens” que sofreram
discriminação, buliing, pressões e angústias de toda sorte.
De modo que as inúmeras cenas perpassadas no ambiente escolar, servem
de referência para que possamos pensar uma escola realmente plural, inclusiva,
acessível, e principalmente que promova uma educação de qualidade social “tendo
em vista a construção de uma sociedade mais justa e igualitária” LIBANEO (2003,
p.40).

Bibliografia

ARENDT, Hannah. A crise na educação. In:_______. Entre o passado e o


futuro. São Paulo: Perspectiva, 2016.
CANDAU, Vera Maria. Diferenças culturais, cotidiano escolar e práticas
pedagógicas. Currículo sem Fronteiras, v. 11, n. 2, p. 240-255, 2011.
CANDAU, Vera Maria. Reinventar a escola. Petrópolis. RJ: Vozes, 2000.
FOUCAULT, M. Vigiar e punir: nascimento da prisão. 21. ed. Petrópolis: Vozes,
1999.
LIBÂNEO, José Carlos; OLIVEIRA, João Ferreira de; TOSCHI, Mirza
Seabra. Educação Escolar: políticas, estrutura e organização. São Paulo: Cortez,
2003. 40 p.
MIZUKAMI, M da G. N. Ensino: as abordagens do processo. São Paulo: EPU,
1986.
NAUM Alves de Souza. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura
Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em:
<http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra64138/naum-alves-de-souza>. Acesso
em: 19 de Abril 2019. Verbete da Enciclopédia.
ISBN: 978-85-7979-060-7
RAGO, Margareth. (1993) As marcas da pantera: Foucault para historiadores.
Resgate, Campinas, nº 5, Centro de Memória da UNICAMP.
RIOS, Terezinha Azerêdo. Ética e competência. 20. ed., São Paulo: Cortez, 2011.
THOMSON, Oliver. A assustadora História da Maldade. Ed. Prestígio, 2002.

Você também pode gostar