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Revista da EDUCAÇÃO FÍSICA 7/UEM(1):19-23,1996.

O JOGO COMO MEDIAÇÃO DO PROCESSO


ENSINO-APRENDIZAGEM EM CLAPARÈDE

Dalva Marim Beltrami*

RESUMO. O objetivo deste trabalho foi o de resgatar a contribuiçãode Edouard Claparède para a compreensão da
importância do jogo na relação ensino-aprendizagem. Para tanto, fez um estudo sobre o livro "A educação Funcional",
de sua autoria. Buscou-se destacar, embora não exaustivamente, as implicações metodológicas do jogo na formação da
criança. Ao estudar a relação de aprendizagem entre o aluno e o professor, Claparède defende o processo educativo pela
ótica da natureza da criança e não pela ótica do pedagogo.
Palavras chave: criança, jogo, processo educativo.

THE GAME AS MEDIATING THE TEACHING-LEARNIG


PROCESS IN CLAPARÈDE

ABSTRACT. The aim of the present work was to recuperate Edovard Claparède’s contribuition to the understanding of
the importance of the game in the teaching-learning relationship. It consisted of na analysis of Claparède’s book The
Functional Education, in which the methodological implication of the game in the child’s formation where stressed.
When discussing the learning process relatioship between the student and the teacher, Claparéde advocates that
education should be processed from the point of view of the child and not of the educator.
Key words: child, game, learning process.

Claparède se recusa a "considerar a A questão central para Claparède está em


educação uma espécie de divindade explicar que é sobre a base biológica que se ergue
com direito a culto, a qual se devam a vida inteligente e que a base psicológica e a vida
sacrificar crianças para que o rito se mental têm seus fundamentos na base biológica.
cumpra. (p. 222). No lugar de perguntar para que serve a inteligência
ele formula outra questão: "Quais são as
Houve um tempo em que Claparède1
circunstâncias que determinam a intervenão da
ocupou espaço nos programas de disciplinas nos
inteligência?"
cursos de graduação em Educação Física. Hoje ele
São essas circunstâncias que procuraremos
é quase um desconhecido entre nossos alunos.
abordar neste trabalho para compreender a
Entretanto, intensificou-se, nas últimas décadas, os
importância que o jogo vai exercer nessa
estudos sobre o jogo, mas principalmente jogo e
intervenção.
Educação Física. Ocorre que não se pode pensar
Claparède busca entender o que ocorre ao
essa relação sem passar por Claparède. O objetivo
sujeito quando precisa responder a determinada
deste estudo é recolocá-lo em discussão.
*
Professora do Departamento de Educação Física da Universidade Estadual de Maringá, Mestre em Educação e doutoranda
na mesma área na PUCSP
1 Edouard Claparède nasceu em 1983 e morreu em 1940. Era biólogo e médico, foi o protagonista da Psicologia Funcional, e
como ele mesmo dizia empiricista e pragmatista. Foi professor da Universidade de Genebra. Em 1912, abriu uma Escola das
ciências da educação que ele deu o nome de Institut J. J. Rousseau. Em 1918, neste instituto foi criado um centro de orientação
profissional. Foi aos educadores que dirigiu praticamente todas as suas obras a partir de meados de sua carreira. Publicou
“Psicologia da criança e pedagogia experimental”, reeditada nove vezes até 1920.
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questão que não esteja inscrita em suas funções determinadas por certos desejos.(Claparède, 1958,
biológicas. Ele coloca o instinto e o hábito como p.151).
instrumento de adaptação. Frente a um problema Claparède está reagindo às teorias da
novo a resolver, quando o instinto e o hábito não disciplina mental de Herbart, que são hegemônicas
respondem, é a inteligência que entra em cena no processo de constituição do ensino. A base
como instrumento de adaptação. O que dessas concepções está no dualismo corpo-alma,
desencadeia a inteligência é a necessidade de pedagogia da disciplina mental. Ou seja, no âmbito
adaptação frente a situações novas que precisam da mente, os exercícios ou a disciplinarização
ser resolvidas. A função da inteligência está em devem ser feitas de forma intercambiável. O
encontrar meios de resolvê-las. conteúdo não tem importância, o importante é
exercitar a mente. Nas faculdades mentais, a
A inteligência é uma maneira de ser
essência do homem está dada desde sempre. O que
dos processos psíquicos adaptados
o homem é‚ é um produto do próprio
com bom êxito a situações novas; seu
desenvolvimento do homem.
adjetivo é, então, ‘inteligente’. Se
A vida psíquica para Herbart são os conteúdos
considerarmos essa maneira de ser não
que chama de massa aperceptiva. Explica o
como simples qualidade, mas como
processo mental como vida cognoscente. Educar
capacidade, podemos dizer que a
para ele é fundamentalmente saber lidar com a
inteligência é a capacidade de resolver
vida mental. Não dá para educar se não selecionar
problemas novos por meio do
os conteúdos a ensinar. A filosofia moral, segundo
pensamento. (Claparède, 1958, p.148).
ele, indica à pedagogia o fim a atingir, mas é a
O pensamento, segundo o autor é apenas psicologia que lhe fornece os meios.
utensílio da inteligência. Claparède, em sua crítica, afirma que a
A partir de seus estudos em neurologia clínica psicologia das faculdades insiste em que a
e psicologia animal constrói a psicologia aplicada inteligência implica uma seleção fazendo dela um
à educação e a partir daí, apresenta uma concepção poder absoluto, místico. Da mesma forma o
funcional da educação. associacionismo, doutrina introduzida por Locke,
A educação funcional se propõe a desenvolver proscreve os poderes absolutos e místicos, mas
os processos mentais considerando sua signifição não leva em conta, absolutamente, a seleção que
biológica, seu papel, sua utilidade para a ação se opera entre as associações diz Claparède
presente e futura, para a vida. Neste sentido, a (1958, p.100). Afirma que ambos, a psicologia das
educação funcional é para Claparède a alavanca faculdades mentais e o associacionismo, Têm o
para as atividades que se deseja despertar na mesmo defeito: São especulações, e não se
criança tomando suas necessidades, seus interesses baseiam nos fatos e ignoram a vida. Em oposição a
em atingir um fim. Para ele a psicologia funcional eles afirma que a psicologia da inteligência não
não é‚ um ramo, não é uma teoria psicológica, é deve recorrer a m‚todo que não seja o
um método, a que chamou de método funcional. experimental, a observação e a experimentação
O princípio funcional tem na ação a função de (Claparède, 1958, p.100). Assim, em relação ao
satisfazer uma necessidade, orgânica ou método funcional que defende, afirma que:
intelectual, portanto um significado biológico do
A investigação funcional nos mostra
saber e dos conhecimentos adquiridos. O valor do
(ao contrário de Herbart) que o saber
saber, para o autor, está na medida em que serve
é sempre, apenas um meio e,
para ajustar a ação e permitir que atinja do
portanto, apresentá-lo isoladamente,
melhor modo possível o objetivo, a satisfação do
sem ligá-lo a um fim, que ele deve
desejo que a suscitou.(Claparède, 1958, p.148).
auxiliar a atingir, é desrespeitar a
Para desempenhar sua função de forma mais
natureza. A pedagogia baseada na
adequada a escola deve inspirar-se em uma
psicologia funcional, apresentando,
concepção funcional da educação e do ensino. Isto
sempre, o saber em função do
significa colocar a criança no centro dos
programas e dos métodos escolares e considerar a pensamento − o saber como
própria educação como adaptação progressiva subordinado ao pensamento − é pois,
dos processos mentais a certas ações muito mais eficaz porque se adapta à
O jogo como mediação em Claparède 21

realidade natural dos fatos, porque dificuldades se a primeira fase for desencadeada
não inverte as relações funcionais adequadamente.
naturais, porque não trabalha a
contrapelo. (Claparède, 1958, p. 35).
Se desejarmos que o ensino seja
Claparède condena o fato de um aluno ser proveitoso é preciso que seja tão
punido por um problema não resolvido por não ter interessante que o aluno se consagre
apelado para as faculdades mentais inteiramente a ele e não o toque
adequadamente. Isso exime de responsabilidades o apenas com a ponta do cérebro (se me
pedagogo. Claparède atribui ao pedagogo um permite a expressão), como se tocam
papel relevante na sua proposta educacional. Por as pontas dos dedos as coisas
isso é que para ele a questão não está no apelo às repugnantes. (Claparède, 1958, p.137).
faculdades do aluno e sim em despertar o interesse
Uma vez que a criança tenha interesse em
e atenção dele e isso cabe ao pedagogo.
resolver um problema, os meios, as técnicas que
Na concepção funcional proposta por
deverá empregar para executar o trabalho, serão
Claparède a memória, a imaginação, a razão
naturalmente despertados. A curiosidade faz parte
tornam-se instrumentos de ação que têm a função
da criança, ela está sempre em busca do novo. Por
de satisfazer as necessidades do momento. É
isso é preciso criar para a criança sempre um novo
preciso criar um desejo, despertar uma
interesse.
necessidade. Neste caso cabe ao professor:
Questão difícil a de criar uma necessidade
Apelar para as tendências inatas da diante de tantas que são exigidas em um aluno.
criança, afim de nelas enxertar tudo Claparède responde por uma negação. Não se pode
quanto lhe querem ensinar. Também criar necessidades que não correspondam aos
eles devem, para contar com uma interesses naturais da criança.
clientela de trabalhadores que
Eis aqui, porém, o princípio:
empreguem no trabalho todo o zelo e
procurar relacionar o que se quiser
energia de que são capazes, criar
ensinar a criança, ou o que se quiser
necessidades, despertar desejos.
que ela faça, com os seus móveis
(Claparède, 1958, p. 4).
naturais de atenção ou de ação. A
Para Claparède não basta dizer à criança criança é um ser pleno de
"preste atenção". Para ele é preciso criar na curiosidade e possui muitos impulsos
criança a necessidade de prestar atenção. que a levam à conquista do novo.
A criança precisa sentir que deseja resolver o (Claparede, 1958, p. 137).
problema, só assim a atenção será despertada e
Este é o princípio da escola ativa de Claparède.
assim persistirá enquanto permanecer a
Fundada na lei da necessidade ou de interesse.
necessidade, o desejo de solução. Neste processo
Escola ativa é a atividade nela realizada suscitada por
não cabe punição ou recompensa. A motivação é
uma necessidade. A necessidade está ligada à
interior e não exterior. A necessidade é dela e não
natureza, que está ligada à vida. Por isso diz:
de outro. Nesta perspectiva a força pedagógica
advinda da necessidade de quem busca resolver Um ato que não seja direta ou
problemas é mais eficiente do que o exercício da indiretamente ligado a uma
sedução externa. necessidade é uma coisa contra a
A vida escolar deveria ser, para Claparède, natureza... É a necessidade que
uma sucessão de necessidades a serem resolvidas. mobiliza os indivíduos, os animais, os
O ato escolar é o meio pelo qual o aluno satisfaz homens; é ela a mola da atividade. É
um desejo. A ação pedagógica é criar, despertar o o que se verifica sempre e por toda
desejo no aluno. Estes são apenas elementos do parte − salvo nas escolas, é verdade,
primeiro passo. O segundo, que é a ação porque as escolas estão à margem da
prática/técnica/perfeita da solução, é aspecto vida. (Claparède, 1958, p. 145-6).
posterior que dever ser encaminhado sem
Como Claparède propõe a operacionalização
dessa necessidade na escola? Como desencadear o
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desejo nas crianças para aprender temas Claparède defende essa prática nos diferentes
diferenciados? níveis de ensino. Dá uma razão para isso: afirma
A estratégia principal para despertar esse que o trabalho escolar não tem sentido imediato
desejo vai ser encontrada no jogo. É através do para o aluno. É necessário, portanto, colocá-lo em
jogo que Claparède procura uma conciliação entre sintonia com esse trabalho da escola. O jogo é que
vida e escola. Através do jogo procura levar a vida faz essa mediação estimulando no aluno desejos
para dentro da escola, porque o jogo é parte necessários para despertar sua inteligência frente
essencial das necessidades da natureza da criança. às questões colocadas pela escola.
Façamos por que as atividades que O jogo não se distingue
reclamamos da criança sejam mais essencialmente do trabalho. Há, sem
do círculo de suas preocupações dúvida, entre certas espécies de jogo
naturais. A criançaé um ser feito e de trabalho, uma distância
para brincar. O jogo, eis aí o artificio considerável; por outro lado,
que a natureza encontrou para levar encontram-se intermediárias entre
a criança a empregar uma atividade uma e outra dessas formas de
considerável, atividade útil a seu atividade e, de tal modo, que se pode
desenvolvimento físico e mental. (...) passar do jogo ao trabalho, por uma
fazer de seus instintos naturais gradação insensível. (Claparède,
aliados e, não, inimigos. E, para isso, 1958 p. 219).
não separemos a instrução da ação.
Claparède, entretanto, destaca uma relação
Não esqueçamos que a inteligência, a
importante que poderíamos colocar da seguinte
atenção não passam de instrumentos
maneira: mesmo sendo o jogo um meio
destinados a preparar a ação; é essa
fundamental para o processo educativo, como se
função própria. (...) Habituando a
deve proceder para construir dentro do jogo, que é
criança a trabalhar somente sob
atividade natural da criança, a situação do real e do
ordens e sem que se lhe tenha feito
concreto da vida? Em outras palavras, como se dá
compreender a significação de seu
a relação jogo/trabalho? Há um momento em que
trabalho, sem que se lhe tenha
jogo e trabalho se fundem e há o momento em que
adquirido o consentimento interior
se separam, segundo suas explicações sobre um e
para o esforço que dela se reclama,
outro. Mas, para o processo educativo, ou
sem que se tenha estabelecido em seu
momento escolar, o que interessa a Claparède é o
espírito um laço racional ou afetivo
momento em que jogo e trabalho se fundem
entre esse esforço e certo fim que ela
porque para o aluno o horizonte de sua
deseje atingir, dissociamos as
compreensão está no presente. Fora do momento
engrenagens cuja união é
escolar o sujeito adulto já terá aprendido a lidar
indispensável ao bom funcionamento
com sua inteligência para resolver as necessidades,
da máquina humana, fazemos da
interesses e desejos do mundo externo, da vida
criança um autômato que sabe,
social. Mas enquanto estiver na vida escolar o
talvez, obedecer, mas já não sabe
aluno não precisa ser esse adulto tão cedo. O
querer.(Claparède, 1958, p. 138).
processo deve ser gradativo, pois, segundo sua
Aqui, o autor mostra como a inteligência passa teoria, se assim não for a criança perder , muito
a ser estimulada pelo jogo construído através do cedo, o que ela tem de mais significativo para
que entende por instinto natural da criança. estimular sua aprendizagem: a curiosidade.
O conhecimento estimulado pela inteligência passa Por isso, para Claparède, a didática tem um
a ser a brincadeira no âmbito da escola. Mas esse papel fundamental na atividade escolar. A
jogo tem o sentido didático de despertar o desejo, atividade escolar baseada no caráter natural da
de resolver uma necessidade. Faz parte da escola criança pelo uso do jogo não deve falsear a
ativa. não se trata de uma ação vulgarizada, um realidade, mas também não ‚é seu papel construir,
passa-tempo. É a razão de ser do despertar da a partir da realidade e da vida concreta, problemas
inteligência para a satisfação/solução de novas fora do alcance de solução para a criança. Esta não
necessidades: o conhecimento. Nesse sentido, pode ser punida pela inadequada atuação dos
O jogo como mediação em Claparède 23

pedagogos. Por isso a psicologia estrutural de Retomar as propostas de Claparède não


Herbart não responde a essas questões, porque visa significa aceitá-las mas sim reconhecê-las nas
o processo educativo pela ótica do pedagogo e não entrelinhas e nas práticas das atividades didáticas
pela ótica da natureza da criança. em debate na atualidade, principalmente na
Enfim, a idéia de jogo e a forma de utilização Educação Física. Até mesmo as propostas
proposta por Claparède não deixa de ser fascinante colocadas como inovadoras ou contestadoras no
tendo em vista as fontes sobre as quais fundou o âmbito da Educação Escolar não podem se furtar
seu pensamento psicológico da educação. A de tê-lo como referência2.
neurologia e o instinto natural eram questões
muito próximas à época em que desenvolveu seu
trabalho. Sua concepção de ciência baseada na BIBLIOGRAFIA
observação e na experiência encontrava eco entre
PENNA, J. B. D. et al. Grandes educadores. Rio de Janeiro :
seus pares, principalmente, nos E.U.A. Travou Globo, 1949.
debates intensos com seus interlocutores cujos
CLAPARÈDE, E. A Escola sob medida. Rio de Janeiro :
pensamentos se opunham aos dele. Mas sua Fundo de Cultura, 1951.
contribuição permanece presente em muitas CLAPARÈDE, E. A educação funcional. São Paulo : Cia
propostas didáticas que chegaram até nós ainda Editora Nacional, 1958.
que seu nome sequer seja constado nas WARDE, M. J. Educação escolar: abordagens psicológicas
bibliografias. e sociais. São Paulo: [s.n], 1994. (mimeo)

2
Jean Piaget foi um dos pensadores que sofreu a influência de Claparède, segundo suas próprias colocações em: “A
psicologia de Claparède” in: CLAPARÈDE, E. A Escola sob medida. Estudos complementares de Piaget, Mylan e Bovet.
Rio de Janeiro: Fundo de Cultura. s.d.