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Especialização em EAD

Didática do Ensino Superior

Marília Godinho Hokama


UNIDADE 1 - A EDUCAÇÃO ESCOLAR NUM NOVO CENÁRIO...................6
1.1 A relação escola e sociedade ........................................................................7
1.2 Atividade ....................................................................................................11
1.3 Reflexão ......................................................................................................12
1.4 Leituras Recomendadas: .............................................................................12
1.5 Referências Bibliográficas ..........................................................................13
1.6 Na próxima unidade....................................................................................13
UNIDADE 2 - DIDÁTICA: DEFINIÇÕES E CONCEITOS ................................14
2.1 A evolução da Didática...............................................................................15
2.2 Atividade ....................................................................................................23
2.3 Reflexão ......................................................................................................23
2.4 Leitura Recomendada: ................................................................................24
2.5 Referências Bibliográficas ..........................................................................24
2.6 Na próxima unidade....................................................................................25
UNIDADE 3 - UMA NOVA DIDÁTICA PARA UMA NOVA EDUCAÇÃO ....26
3.1 Da didática instrumental à didática fundamental ........................................27
3.2 Atividades ...................................................................................................32
3.3 Reflexão ......................................................................................................33
3.4 Leitura Recomendada: ................................................................................33
3.5 Referências Bibliográficas ..........................................................................33
3.6 Na próxima unidade....................................................................................34
UNIDADE 4 - A DIDÁTICA E AS ABORDAGENS DO ENSINO NA
EDUCAÇÃO ESCOLAR .................................................................................35
4.1 As tendências pedagógicas na prática escolar ............................................36
4.2 Atividades ...................................................................................................40
4.3 Reflexão ......................................................................................................40
4.4 Leitura Recomendada .................................................................................40
4.5 Referências Bibliográficas ..........................................................................41
4.6 Na próxima unidade....................................................................................41
UNIDADE 5 - O PROCESSO DE ENSINO E APRENDIZAGEM .....................42
5.1 Aprendizagem e Ensino ..............................................................................43
5.2 Atividades ...................................................................................................48
5.3 Reflexão ......................................................................................................49
5.4 Leitura Recomendada .................................................................................49
5.5 Referência Bibliográfica .............................................................................50
5.6 Na próxima unidade...................................................................................51
UNIDADE 6 - FORMAÇÃO DOCENTE .............................................................52
6.1 A formação profissional do professor.........................................................53
6.2 A Formação do docente para o nível Superior .........................................56
6.3 Atividade ....................................................................................................60
6.4 Reflexão ......................................................................................................60
6.5 Leitura recomendada ..................................................................................61
6.6 Referências Bibliográficas .........................................................................62
6.7 Na próxima unidade....................................................................................62
UNIDADE 7 - PLANEJAMENTO DO ENSINO..................................................63
7.1 Planejamento do trabalho pedagógico ........................................................64
7.1.1 Planejando em vários níveis ......................................................................66
7.1.2 O registro do planejamento .......................................................................67
7.2 Elaboração de um plano de ensino ............................................................69
7.3 Atividades ...................................................................................................71
7.4 Reflexão ......................................................................................................72
7.5 Leituras recomendadas ...............................................................................73
7.6 Referências Bibliográficas ..........................................................................73
7.7 Na próxima unidade....................................................................................74
UNIDADE 8 - AVALIAÇÃO................................................................................75
8.1 O sentido da avaliação escolar ....................................................................76
8.2 Atividades ...................................................................................................79
8.3 Reflexão ......................................................................................................80
8.4 Leitura Recomendada .................................................................................80
8.5 Referências Bibliográficas ..........................................................................80
A educação é um processo
múltiplo e variado, do qual emergem
desafios e compromissos cada vez mais
complexos e urgentes, que precisam ser
defrontados com conhecimentos, competência
profissional, decisão, vontade e criatividade. A busca de
respostas alternativas inovadoras, que contribuam para o
desenvolvimento da pessoa de um modo integral, com a
formação de competências de diferentes tipos, adequadas às
necessidades e expectativas educativas existentes na comunidade,
é um dos grandes desafios dos educadores, no contexto de uma
sociedade globalizada. Parte desses desafios diz respeito ao
crescimento do ensino superior no Brasil. Uma vez que o corpo
discente, nesse nível de ensino, é composto por jovens e adultos,
prevaleceu por muito tempo à crença de que não é necessário uma
atuação docente especializada, muito menos um preparo adequado para
este professor. Hoje, porém, a demanda por estes cursos vem exigindo
um outro posicionamento dos professores, diante das dificuldades
percebidas no cotidiano destas salas de aula. A Didática, como
disciplina que se propõe a realizar uma reflexão sistemática sobre a
atividade de ensinar e aprender, buscando alternativas para
melhorar a prática educacional, pode trazer uma grande
contribuição aos docentes do ensino superior.
A EDUCAÇÃO
ESCOLAR NUM NOVO
CENÁRIO

Por que uma didática do ensino superior?


Nosso estudo deveria começar com este
questionamento, afinal, este é o tema que vocês estão
aguardando para conhecer melhor. Mas, antes, é importante
que possamos refletir sobre a necessidade de repensar a
educação, suas finalidades, objetivos e metodologias, em vista de
um novo cenário social. Uma sociedade em mudança exige uma
educação assentada em novas bases, adequada para as exigências e
demandas do contexto atual. Mas, que contexto é esse? Vamos
conversar um pouco sobre isso?

Objetivos da sua aprendizagem


Reconhecer que a escola está inserida num amplo contexto social,
em constante interação com os elementos que compõem este contexto.
Identificar os elementos de transformação da sociedade atual e
analisar sua influência sobre as concepções e práticas educativas.

Você se lembra?
Como era a escola onde você iniciou sua educação
básica? Com certeza, muitas mudanças aconteceram,
mas você acha que as mudanças foram maiores na
escola ou na sociedade? Vamos pensar sobre isto?
Educação Didática do Ensino Superior – Unidade 1

1.1 A relação escola e sociedade

A escola é a instituição por meio da qual é transmitida, de forma


intencional, a herança social. É, ao mesmo tempo, instituição responsável
pelo desenvolvimento de novos conhecimentos. É ainda local de
encontro e de convivência entre educadores e educandos: grupo que se
reúne e trabalha para que ocorram as condições favoráveis ao
desenvolvimento humano em diferentes áreas: cognitiva, afetivo-
emocional, motora, social e profissional (portanto, intencional).
A instituição escolar é o espaço socialmente aceito e designado
para o desenvolvimento global do educando, motivando-o e capacitando-
o para um bom desempenho social.
A escola surge
historicamente como fruto da
necessidade de se preservar e
reproduzir a cultura e os
conhecimentos da humanidade,
crenças, valores e conquistas
sociais, concepções de vida e de
mundo, de grupos ou de classes.
Ela permaneceu e se modernizou à
medida que foi capaz de se tornar
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instrumento poderoso na produção BIN_IMAGEM_JPEG_0103034001194256915-205.JPEG& X=228

de novos valores e crenças, na difusão e socialização de conquistas


sociais, econômicas e culturais desses grupos ou classes.
Mas a escola não é uma instituição neutra, abstrata. Ao contrário,
está inserida num contexto social determinado (num universo
existencial), onde interagem aspectos políticos, econômicos e culturais.

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Educação Didática do Ensino Superior – Unidade 1

Ela é, na realidade, um fenômeno social. Isto significa que a prática


educativa e o trabalho docente estão determinados por fins e exigências
sociais, políticas e ideológicas.
Tradicionalmente a escola tenta responder às questões da
demanda social. Os educadores tem se dedicado, ao longo os tempos, a
buscar formas eficientes de cumprir os objetivos que são atribuídos à
escola. As questões que tem permeado esta busca são: quais são as
demandas sociais? Que finalidades, objetivos e metas a sociedade espera
que a escola cumpra?
Estas são as questões que ainda permanecem como diretrizes do
questionamento dos educadores na atualidade. O diferencial, segundo os
estudiosos contemporâneos, é que a crise atual da educação não vem
especificamente da forma “deficiente” como ela cumpre estes objetivos
sociais, mas do fato de não sabermos mais que finalidades, que objetivos
a escola deve cumprir e para onde deve orientar suas ações.
O ponto de partida para enfrentarmos esta crise, segundo Tedesco
(1998), é aceitar que vivemos num processo de profunda transformação
social. Não se trata mais de uma das crises do modelo capitalista de
desenvolvimento, mas do surgimento de novas formas de organização
social, econômica e política, de uma nova estrutura social. Nas palavras
de Tedesco, trata-se de uma revolução global.
De acordo com este autor, processos importantes e radicais de
mudança podem ser observados em três áreas:
Modo de produção
Tecnologias da comunicação
Democracia política

Vamos entender um pouco melhor:

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Educação Didática do Ensino Superior – Unidade 1

Modo de produção => A partir da segunda metade do século XX


presenciamos a passagem do modo de produção para o consumo de
massas a um sistema de produção para um consumo diversificado, ou
seja, para a produção de pequenas quantidades de artigos adaptados às
diferentes clientelas. Ou que se tem chamado de fabrica flexível. Este
modelo valoriza-se a capacidade da pessoa para trabalhar em equipe e
adaptar-se à mudança. Ocorre aí, uma distribuição diferente da
inteligência. Não mais a organização hierarquizada do trabalho, em
forma de pirâmide, onde a criatividade e a inteligência concentram-se na
cúpula, enquanto o restante das pessoas executa mecanicamente as
instruções recebidas, mas uma organização mais
plana, com poderes de decisão distribuídos
de forma mais homogênea. Inovação e Conexão:
O filme FormiguinhaZ discute esta
melhoria contínua passam a ser uma transformação, através de um divertido
desenho animado. A formiguinha “Z” não se
necessidade das organizações adapta ao modelo rígido, mecânico e
hierarquizado de administração do
modernas e o conhecimento e a formigueiro, propondo, ao final de uma série
de aventuras, um modelo colaborativo,
informação tem um papel de destaque envolvente e coletivo. A produção é do
estúdio:DreamWorks SKG / Pacific Data
na produção e no consumo de bens e Images, distribuidora:DreamWorks
Distribution L.L.C. / UIP. Confira no site
serviços. oficial:http://www.pepsi.com/antz

Novas tecnologias da comunicação => A introdução das novas


tecnologias da comunicação em todos os setores da sociedade vem

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Educação Didática do Ensino Superior – Unidade 1

causando um forte impacto na produção de bens e serviços e também nas


relações sociais. Nesta área, há um grande potencial de transformação
social, devido não só ao acumulo de informações acessível às pessoas de
um modo geral, bem como à velocidade acelerada com que são
veiculadas as informações. Estes fatores vêm exigindo de todos nós a
superação das limitações espaciais até então conhecidas, modificando
conceitos básicos como tempo, espaço e realidade. Com a utilização
simultânea de multimeios na produção e disseminação das informações,
o que se percebe é uma modificação nas bases de uma cultura baseada,
até então, na leitura, na palavra escrita.

HTTP://WWW .LERPARAVER.COM/FILES/IMAGENS/LITERACIA_DIGITAL.JPG

Democracia política => Presenciamos atualmente novas


discussões sobre as formas de participação cidadã. Com a globalização,
as fronteiras nacionais se diluem e os espaços nos quais se exerce a
cidadania tendem a ampliar-se para uma cidadania sem fronteiras ou a
reduzir-se ao âmbito local.
Com estas profundas transformações em desenvolvimento na
sociedade, a educação ganha maior ênfase e a importância do
conhecimento é indiscutível. O que está em evidência nas discussões
atuais é uma disputa pela apropriação dos lugares onde se produz e se
distribui o conhecimento socialmente significativo, ou seja, onde se
educa o cidadão?

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Educação Didática do Ensino Superior – Unidade 1

As novas questões que permeiam os debates na área educacional


são, dentre muitos outros:
Que conhecimentos são socialmente significativos?
Que conteúdos devem ser selecionados?
Como utilizar os conhecimentos científicos?
As reflexões sobre o papel educação na sociedade e em seu
desenvolvimento implicam abordar dois pontos fundamentais. O de
definir os conhecimentos e capacidades que a formação do cidadão exige
e a forma institucional pela qual este processo de formação deve ocorrer.
Hoje é preciso nos perguntarmos se a escola será a instituição
socializadora do futuro e se a formação das gerações futuras exigirá esse
mesmo desenho institucional.
Algumas propostas para superar esta crise vêm dos defensores da
escola cidadã, que, segundo Tedesco (1998.), é a escola pública (para
todos), estatal (na forma do seu financiamento) e democrática e
comunitária (na sua gestão). A escola cidadã é voltada, em suas
finalidades e métodos, para a transformação social mais do que para a
transmissão cultural.
É para esta nova sociedade que se exige uma nova educação, com
novos objetivos, novos métodos, novas concepções e reflexões e críticas,
enfim, com uma nova didática.

1.2 Atividade

1) Releia o material desta aula e atente para a relação entre a


escola e o contexto social. Leia mais sobre o assunto, busque
novas informações e elabore um texto acerca do papel da
escola na sociedade atual.

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Educação Didática do Ensino Superior – Unidade 1

2) Nesta unidade estudamos um pouco das mudanças radicais


que ocorreram em três aspectos da sociedade. Que mudanças
são estas? De que forma elas afetam a educação?

1.3 Reflexão

As transformações que têm ocorrido nas sociedades em geral, nas


últimas décadas, vêm redesenhando o papel da escola, impulsionando
para que as modificações sejam realizadas de forma eficaz no que diz
respeito aos seus processos de ensino e aprendizagem. Em uma sociedade
dominada por um grande volume de informações e pela superficialidade
do conhecimento, a educação tem um papel importantíssimo de formar
cidadãos e pessoas comprometidas com a construção de uma sociedade
mais justa e democrática.

1.4 Leituras recomendadas

TEDESCO, J. C. O novo pacto educativo: educação,


competitividade e cidadania na sociedade moderna. São Paulo: Ática,
1998.
Trata-se de um livro, proveniente de pesquisas bibliográficas e
opiniões do autor quanto à própria visão sobre a "revolução" pela qual
passamos hoje. O livro retrata os dias de hoje na educação, afirmando
que, uma vez que após grandes evoluções, temos também, ainda,
grandes desafios, revelando, com intensidade, a crise gerada através da
popularização de aparelhos de TV, por exemplo, e frisando valores do
tipo família, socialização e democracia.

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Educação Didática do Ensino Superior – Unidade 1

TAVARES, W. R. Gestão Pedagógica: gerindo escolas para a


cidadania crítica. Rio de Janeiro:Wak editora,2009.
O livro mostra que a educação não deve ser padronizada nem
limitada a compêndios traduzidos em planos de ação. Os vários artigos
trazem conceitos importantes que contribuem para alavancar uma
educação para o protagonismo de seus agentes.

1.5 Referências bibliográficas

CANDAU, V. M. (org). Rumo a uma nova didática. Petrópolis: Vozes,


2002.

COMENIUS. A Didática magna. São Paulo: Martins, 1997.

LIBÂNEO, J. C. Didática. São Paulo: Cortez, 28ª ed. 1990.

MASETO, M. Didática: a aula como centro. São Paulo: FTD, 1997.

TEDESCO, J. C. O novo pacto educativo: educação, competitividade e


cidadania na sociedade moderna. São Paulo: Ática, 1998.

1.6 Na próxima unidade

Na próxima unidade, você vai conhecer um pouco mais sobre o


conceito de didática através de uma retrospectiva histórica da disciplina,
evidenciando seu surgimento e seus principais teóricos.

13
DIDÁTICA:
DEFINIÇÕES E
CONCEITOS

Nesta unidade, vamos estudar o conceito de


didática e suas características principais. Vamos refletir
sobre o que é didática, de que assuntos ela trata e que
contribuições vocês esperam dela para a sua formação. Para
isto, vamos analisar o desenvolvimento histórico da Didática,
contextualizando as ideias pedagógicas que marcaram esse
desenvolvimento e influenciam, ainda hoje, as práticas escolares.

Objetivos da sua aprendizagem


Você conhecerá o desenvolvimento do conceito e das definições
de didática ao longo do tempo. Poderá refletir sobre a contribuição que a
didática pode dar à sua formação docente.

Você se Lembra?
Certamente a expressão: “aquele professor não tem didática!”, é
familiar para todos nós, não é? Você já parou para pensar em seu real
significado? Já refletiu sobre a importância da didática para a
prática docente? Vamos estudar sobre isto nesta unidade.
Educação Didática do Ensino Superior – Unidade 2

2.1 A evolução da didática

Conexão:
De alguma forma, com maior ou menor Esta é a perspectiva que vamos
adotar aqui também, ou seja, a
aprofundamento, é sabido que a didática vai Didática como reflexão sobre a
prática educativa. A Didática como
tratar do ensino. Mas, na realidade, sua reflexão sistemática é o estudo
das teorias de ensino e de
compreensão é muito mais complexa e há aprendizagem aplicadas ao
processo educativo que se realiza
diferentes concepções de didática. na escola, bem como dos
resultados obtidos.
Resumidamente:
a) O termo “didática” é conhecido desde a Grécia
antiga e lá significava “ensinar, instruir, fazer aprender”.
b) Em 1633, Comênio, um educador tcheco, escreveu um livro chamado
Didática Magna, no qual definia Didática como sendo a arte de
ensinar tudo a todos.
c) O minidicionário Aurélio apresenta o verbete “didática” como sendo
a técnica de dirigir e orientar a aprendizagem.
d) Muitos compreendem a Didática como um compêndio de técnicas ou
um receituário para um bom ensino.
e) No decorrer do tempo, a Didática passou a reunir os conhecimentos
que cada época valoriza sobre o processo de ensinar.
f) Para Vera Maria Ferrão Candau, educadora da PUC do Rio de
Janeiro, a Didática pode ser entendida como uma reflexão sistemática
e busca de alternativas para os problemas da prática pedagógica.

Portanto, o objeto de estudo da


didática é o processo de ensino, mas é
imprescindível fazermos uma ressalva
neste momento para considerar que o
ensino não pode ser tratado como HTTP://MEDIA.PHOTOBUCKET.COM/IMAGE/IM

AGENS%20ESCOLAS/IFTK2/EN/JULIA-LIVROS_1024X768.JPG

15
Educação Didática do Ensino Superior – Unidade 2

atividade restrita à sala de aula, como nos lembra Libâneo (1990). Para
ele:
o trabalho docente é uma das modalidades específicas da prática
educativa mais ampla que ocorre na sociedade. Para
compreendermos a importância do ensino na formação humana, é
preciso considerá-lo no conjunto das tarefas educativas exigidas
pela vida em sociedade. (LIBÂNEO, 1990, p.16).

A pedagogia é a ciência que estuda a teoria e a prática da educação


nos seus vínculos com a sociedade. Para estudar a educação nos seus
aspectos mais amplos, sociais, políticos, econômicos, psicológicos, a
Pedagogia conta com a contribuição de outras áreas do conhecimento que
pesquisam o desenvolvimento humano, como a Filosofia, a Sociologia, a
Psicologia, a Antropologia, a História, as Teorias da Comunicação, entre
outras.
A Didática é a disciplina que estuda os objetivos, os conteúdos, os
meios e as condições do processo de ensino tendo em vista as finalidades
educacionais, que são sempre sociais. Com a contribuição daqueles
conhecimentos é que se vai refletir
sobre questões relacionadas à
educação e à sala de aula, como
por exemplo:
Como os alunos aprendem?
Como é a atividade do
professor em sala de aula?
HTTP://3.BP.BLOGSPOT.COM/_9JO0IPJKPP

E/R9W3Z2KOQII/AAAAAAAAASI/HTFP
Como os alunos se RNXPDN0/S320/IN_DE_KLAS.JPG

relacionam entre si e com o professor?


Qual a influência dos governos e da sociedade sobre a escola?
Como motivar os alunos? Etc.

16
Educação Didática do Ensino Superior – Unidade 2

Portanto, como já vimos, há muito tempo a Didática


vem pesquisando questões relacionadas a esta prática, Conexão:
A Didática é uma
organizando e sistematizando conhecimentos e usando- reflexão sistemática
sobre a atividade de
os para desenvolver a atividade pedagógica nas ensinar e aprender,
buscando alternativas
escolas. No entanto, a Didática não pretende ficar para melhorar a prática
educacional.
apenas nas teorias. Ela aplica os conhecimentos que
produz para resolver problemas e questões que surgem no dia a dia das
escolas e do espaço de aula.
Em nossa atividade docente diária costumamos ter uma série de
dúvidas:
 Como fazer com que os alunos se interessem pela matéria?
 Como motivar os alunos para que eles estudem?
 Como resolver os casos de indisciplina ou descontentamento?
 Como avaliar os alunos?
 Como preparar bem uma aula?
 Como utilizar as novas fontes de informação?

Essas são apenas algumas das muitas e diferentes perguntas que


nos fazemos cotidianamente. Como já dissemos anteriormente, elas não
são novas e, ao mesmo tempo, continuam bastante atuais. Sobre elas,
muitos estudos e pesquisas já foram e continuam sendo realizados. Os
professores devem se colocar numa atitude reflexiva e questionadora,
verificando se os resultados e sugestões que vem sendo apresentados
respondem às suas indagações.
De acordo com Maseto (1997):

a Didática nos oferece sugestões de como realizar o planejamento


de um curso com a participação dos alunos; como envolver co-
responsavelmente os alunos nessa atividade levando em conta os

17
Educação Didática do Ensino Superior – Unidade 2

interesse deles e o programa da matéria a ser ensinada; como


selecionar assuntos interessantes; como variar as técnicas das aulas
a fim de que facilitem a participação dos alunos, a aprendizagem e
a integração do grupo; como fazer a ligação entre a teoria e a
prática, entre os conhecimentos científicos e a realidade do dia-adia
do aluno; como fazer para que o processo de avaliação deixe de ser
apenas amedrontador para o aluno, transformando-se em incentivo
ao seu desenvolvimento, e assim por diante .(MASETO, 1997,p...).

Além destas, novas temáticas, relacionadas ao contexto atual da


sociedade, tem motivado estudiosos da educação a pesquisar e
desenvolver novas experiências, como por exemplo, a
interdisciplinaridade, as descobertas acerca do modo como os alunos
aprendem, métodos alternativos de alfabetização, arte-educação, a
diversidade e o multiculturalismo, questões de gênero, entre outros.
Ainda de acordo com o autor, deve-se considerar que um outro
aspecto importante na atividade docente é que ela deve ser seja
gratificante para os educadores, ajudando-os a alcançar resultados
positivos no trabalho educativo e nisso a contribuição da didática é
fundamental, pois ela pode:
 Colocar ao alcance do professor as pesquisas e os conhecimentos
produzidos.
 Incentivar os professores a pesquisarem a novidade dos problemas
que afetam sua atividade.
 Criar oportunidades para os professores trocarem entre si e com
especialistas suas experiências, sucessos ou fracassos.

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Educação Didática do Ensino Superior – Unidade 2

 Orientar os professores a despertar o interesse dos alunos,


contribuindo para uma aprendizagem eficaz.

O termo didática tem origem na


Para alcançar este estágio, a Didática palavra grega didaktiké, que significa
a arte de ensinar. Porém, sua
passou por longo processo de debates, utilização como teoria de
sistematização das formas de ensinar
aprofundamentos, polêmicas e só vai se dar a partir do século XVII,
mais especificamente, a partir da
construção de uma nova compreensão de publicação, em 1657, da obra Didática
Magna ou Tratado da Arte Universal
seu papel. de Ensinar Tudo A Todos, do pastor
protestante e educador Tcheco, João
Comênio afirmava que a finalidade Amós Comênio (1592-1670).

da educação é conduzir á felicidade eterna com


Deus. Para ele, o homem conserva a imagem do
criador, ainda que corrompida. “sementes de saber, virtude e piedade”
encontram-se em todos os indivíduos normais e podem ser cultivados.
Ela acreditava, portanto, no poder da educação de salvar a humanidade
e fazê-la retomar a sua divindade original.
Afirmava ainda que:
• O homem deve ser educado de acordo com o seu
desenvolvimento natural, considerando a idade e as capacidades
individuais para o conhecimento. Assim, a tarefa da Didática seria
a de estudar as características individuais e os métodos de ensino
correspondentes, de acordo com a ordem natural das coisas.
• A assimilação dos conhecimentos não se dá
instantaneamente. Pelo contrário, os
Este é chamado método
conhecimentos devem ser adquiridos pela intuitivo, que consiste,
primeiramente, na
observação direta das coisas e dos observação direta das
coisas pelo uso dos órgãos
fenômenos, através da utilização dos dos sentidos, para que
ocorra o registro das
órgãos dos sentidos. impressões na mente do
aluno.

19
Educação Didática do Ensino Superior – Unidade 2

Decorre daí, que o


planejamento do ensino deve
obedecer o processo natural da
criança, com o ensino de uma
coisa por vez, partindo do
conhecido para o
desconhecido.
HTTP://WWW .HOTELFAZENDASOLARDASANDORINHAS.COM/IMAGENS/
Apesar das novidades
GALERIA_DE_FOTOS/HOTEL_FAZENDA_ESCOLA9.JPG

de suas ideias,
principalmente para uma época em que predominava Conexão:
no site a seguir você encontrará
uma educação intelectualista, verbalística e uma resenha sobre o obra
“Primeiras Lições de coisas” do
dogmática, baseada na memorização e na professor norte-americano
Norman Allison Calkins”,
repetição mecânica dos ensinamentos, as publicada pela primeira vez em
1861, que apresenta o método
propostas do grande educador não fugiram às intuitivohttp://www.educaremrevis
ta.ufpr.br/arquivos_21/resenha_gl
crenças comuns à época. De acordo com Libâneo: adys.pdf
Embora partindo da observação e da experiência
sensorial, mantinha-se o caráter transmissor do ensino; embora
procurando adaptar o ensino às fases do desenvolvimento infantil,
mantinha-se o método único e o ensino simultâneo a todos.
(LIBÂNEO, 1990, p.59).

Neste período, ocorreram mudanças nas formas de produção, com


o desenvolvimento da ciência e da cultura. Isto contribuiu para diminuir
o enorme poder que o clero exercia na sociedade, ao mesmo tempo em
que reforçou o poder da burguesia, que passou a disputar o poder
econômico e político com a nobreza. A burguesia introduz nesse contexto
novas exigências educacionais, reivindicando um ensino mais ligado às
questões do mundo dos negócios e da produção e que privilegiasse o
desenvolvimento das capacidades e interesses individuais dos alunos.

20
Educação Didática do Ensino Superior – Unidade 2

Jean Jacques Rousseau vai ser o educador que melhor sintetiza,


naquele momento, as novas aspirações, por meio da formulação de uma
concepção de ensino baseada nas necessidades e interesses imediatos dos
alunos.
Para Rousseau:
o A educação é um processo natural que se fundamenta no
desenvolvimento interno do aluno. Os verdadeiros
professores das crianças são a natureza, a experiência e os
sentimentos.
o A criança deve ser preparada não para a vida futura, mas
devem ser atendidas suas necessidades e seus interesses
no estágio atual em que ela se encontra.
As ideias pedagógicas de Rousseau foram colocadas em prática
pelo pedagogo suíço Henrique Pestalozzi (1746-1827). O educador, que
se dedicava ás crianças pobres, valorizava o método intuitivo e a
utilização dos fundamentos da psicologia na educação da criança, como
fonte de desenvolvimento do ensino. Pestalozzi acreditava que a relação
entre professor e aluno é baseada no amor e no respeito mútuo e que a
finalidade da educação é favorecer o desenvolvimento físico, intelectual
e moral no educando.
As concepções e propostas destes educadores influenciaram o
pedagogo alemão, John Friedrich Herbart (1766-1842), que exerceu
grande influência na Didática e na prática docente e suas ideias são ainda
muito presentes nas salas de aulas brasileiras, como aponta Libâneo
(1990). Herbart formulou um método de ensino, em conformidade com
as leis psicológicas do conhecimento, que pode ser expresso em quatro
passos didáticos, a serem seguidos rigorosamente pelos professores:
• Preparação e apresentação da matéria com clareza;

21
Educação Didática do Ensino Superior – Unidade 2

• Associação entre as ideias antigas e as novas;


• Sistematização dos conhecimentos, tendo em vista a
generalização;
• Aplicação dos conhecimentos adquiridos através de exercícios.

Segundo Libâneo, os Herbatianos, discípulos ou


Pedagogia Tradicional: em
seguidores de Herbart, ampliaram sua proposta suas várias correntes,
predomina a visão de uma
para cinco passos: preparação, apresentação, educação com ênfase no
papel do professor como
assimilação, generalização e aplicação, “fórmula transmissor de um saber
constituído na tradição e nas
esta que ainda é utilizada pela maioria dos nossos grandes verdades
acumuladas pela
professores.” (LIBÂNEO, 1990, p.61). humanidade.

As concepções e propostas destes teóricos foram


o principal suporte pedagógico para a atividade docente na Europa,
durante o século XIX e se difundiram pelo mundo, definindo as
concepções pedagógicas conhecidas como Tradicional e Renovada.
Pedagogia Renovada: correntes que se opõem à
Pedagogia tradicional, preconizando a renovação da escola
através de novas metodologias que colocam o aluno como sujeito da sua
aprendizagem e agente do seu desenvolvimento, entre outras
características.
Os movimentos em torno da renovação da escola se espalham pela
Europa e na América no início do século XX. Um de seus maiores
representantes é o filósofo norte-americano John Dewey (1859-1952),
que se opôs à concepção Herbatiana, de educação pela instrução,
defendendo a educação pela ação. Um de seus conceitos centrais é a
experiência, que impulsiona e dirige o conhecimento.
A pedagogia de Dewey pode ser considerada inovadora, pois
ressaltou a necessidade de se criar, nas escolas, as condições e os meios

22
Educação Didática do Ensino Superior – Unidade 2

para estimular o pensamento e a reflexão crítica nos alunos. Dewey


enfatiza ainda a importância de se fazer da escola um lugar de vivência
das tarefas exigidas para a vida em sociedade. Desta forma, o aluno e o
grupo passam a ser o centro do trabalho escolar.
A partir daí, mais especificamente entre as décadas de 1950 a 1970,
predominou na Didática um enfoque instrumental, com ênfase nos
métodos e técnicas de ensino, para garantir a eficiência da aprendizagem
dos alunos. Nos anos de 1980, Candau (2002) afirma a necessidade de
superação desse modelo para uma Didática fundamental, aquela que deve
assumir a multidimensionalidade do processo ensino-aprendizagem,
como veremos mais detalhadamente a seguir.

2.2 Atividade

1) Por que a Didática é importante para o professor?

2) Para reforçar seu estudo, sintetize as ideias dos teóricos da


educação apresentadas nesta unidade.

2.3 Reflexão

Dos primórdios da Didática ao presente contexto, podemos


perceber a evolução do desenvolvimento do conceito, embora isto não
signifique necessariamente, uma mudança qualitativa nas práticas
educativas que se realizam no cotidiano das escolas. O debate sobre a
necessidade de ressignificação da Didática vem se intensificando,
especialmente em decorrência dos novos desafios impostos pela

23
Educação Didática do Ensino Superior – Unidade 2

sociedade contemporânea para a escola. Você está convidado para


participar mais efetivamente deste debate.

2.4 Leitura recomendada

LIBÂNEO, J. C. Didática. São Paulo: Cortez, 28ª ed.1990.


O livro apresenta a Didática como ramo de estudo da Pedagogia,
partindo dos vínculos entre finalidades sócio-politicas e pedagógicas e as
bases técnicas da direção do processo de ensino e aprendizagem.

VALDEMARIN, V. T. Estudando as lições de coisas: análise dos


fundamentos filosóficos do Método de Ensino Intuitivo. São Paulo:
Autores Associados, 2004.
O livro dedica-se à análise dos fundamentos filosóficos do Método
de Ensino Intuitivo, creditando ao Empirismo a influência determinante
sobre os procedimentos didáticos e atividades de ensino produzidos e
vulgarizados no século XIX sob a denominação de lições de coisas.
Apoio Fapesp.

2.5 Referências bibliográficas

CANDAU, V. M. (org). Rumo a uma nova didática. Petrópolis: Vozes,


2002.

COMENIUS. A Didática magna. São Paulo: Martins, 1997.

LIBÂNEO, J. C. Didática. São Paulo: Cortez, 28ª ed.1990.

24
Educação Didática do Ensino Superior – Unidade 2

VEIGA, I. P. A. (coord.) Repensando a Didática. Campinas, SP:


Papirus, 2004.

2.6 Na próxima unidade

Na próxima unidade você vai conhecer um pouco mais sobre a


proposta de uma nova didática, a Didática fundamental, que emerge
como tentativa de superação da Didática instrumental.

25
UMA NOVA
DIDÁTICA PARA UMA
NOVA EDUCAÇÃO

Até o final do século XX, a Didática era


fundamentada nos conhecimentos filosóficos. A partir
desta época, com as transformações decorridas da
Revolução Industrial, e mais recentemente, no contexto da
pós-moderndade, o quadro sócio-político-cultural das
sociedades foi significativamente alterado, exigindo da escola
novas abordagens, num novo contexto de atuação. Da didática
espera-se, agora, uma abordagem mais crítica e reflexiva e menos
tecnicista. É o que vamos estudar nesta unidade.

Objetivos da sua aprendizagem


Você saberá diferenciar a concepção instrumental da Didática e a
Didática fundamental e perceberá os indícios de persistência e de
mudança de algumas questões relacionadas à Didática.
Educação Didática do Ensino Superior – Unidade 3

3.1 Da didática instrumental à didática fundamental

Interessa à Didática tudo o que o aluno aprende na relação com o


professor e com o grupo-classe, bem como o processo de aprendizagem
através do qual isto ocorre.
O processo de aprendizagem se
desenvolve em três dimensões: Por aprendizagem aqui estamos
entendendo o desenvolvimento da
Humana, político-social e técnica. pessoa como um todo: inteligência;
afetividade; padrões de
comportamento moral;
relacionamento com a família, com o
Dimensão humana bairro, com a cidade e com o país;
desenvolvimento da coordenação
O processo de aprendizagem se motora; capacidades artísticas;
comunicação, etc. O aluno está em
realiza através do relacionamento contínua evolução e fazendo parte da
historia de seu povo, de sua nação.
interpessoal muito forte entre alunos e
professores, alunos e alunos, professores e
professores, enfim, entre alunos, professores e direção. Cria-se, assim,
um clima afetivo, responsável, em muitos aspectos, pelo sucesso (ou
fracasso) do processo da aprendizagem. Esta dimensão humana do
processo da aprendizagem interessa muito de perto à Didática,
mesmo que em alguns momentos de sua história esta
dimensão tenha sido completamente esquecida.

Dimensão político-social
O ensino-aprendizagem
de que estamos falando
acontece numa escola que está
situada em um local
determinado, numa certa época
histórica, que segue HTTP://WWW .MARAVILHA.SC.GOV.BR/IMG/NOTICIAS/DIVERSAS%20FOTOS%20035.JPG

27
Educação Didática do Ensino Superior – Unidade 3

orientações e diretrizes de profissionais da Educação e das políticas


governamentais. Estas últimas têm uma influência muito grande através
da legislação e normas que afetam a escola. Além disso, grande parte dos
estabelecimentos de ensino básico está diretamente subordinada ao
Estado.
Sabemos que professores, diretores, alunos, pais, técnicos,
funcionários, autores de livros didáticos, editores que produzem material
pedagógico são pessoas reais, que vivem num tempo e numa cultura
específica. Têm posições políticas e sociais que são transmitidas em seus
trabalhos e nas suas relações com a escola.
Esta pretende que as crianças, os jovens e os adultos se eduquem
para serem membros participantes da sociedade, contribuindo para seu
progresso e desenvolvimento. Daí o caráter político-social que a Didática
assume quando considera os elementos que influenciam a aprendizagem
do aluno.

Dimensão técnica
Por último, a aprendizagem é um processo intencional, isto é,
orientado por objetivos a serem alcançados por seus participantes.
Interessa a esse processo que os alunos consigam aprender bem o que se
propõe, através da organização de condições apropriadas.
Aspectos como definição de objetivos, seleção de conteúdos,
técnicas e recursos de ensino, organização do processo de avaliação e
escolha de técnicas avaliativas, planejamento de curso e de aulas
constituem o núcleo da dimensão técnica do processo de aprendizagem.
Esta é a terceira dimensão sobre a qual a Didática se debruça ao tratar do
processo de ensino-aprendizagem que acontece na escola e na aula em
particular.

28
Educação Didática do Ensino Superior – Unidade 3

Estas dimensões, articuladas e integradas entre si, compõem a


Didática fundamental, que na visão de Candau (2002), é a concepção que
expressa às mudanças que estão ocorrendo na compreensão e nas práticas
escolares, desde o final dos anos de 1970, com as críticas à Didática
instrumental.
Até este período, ou seja, entre os anos de 1950 e 1970, como
vimos na unidade anterior, setores conservadores da educação faziam a
defesa da neutralidade científica da didática, apoiados no tecnicismo
pedagógico fortemente presente na legislação educacional vigente e no
cotidiano das salas de aula. Os planos de ensino, a formulação de
objetivos, a seleção de conteúdos, as técnicas de exposição e de condução
de trabalhos em grupo e a utilização das tecnologias nas atividades
educativas ganham relevância nesse cenário.
Neste enfoque instrumental, o processo de ensino e aprendizagem é
desenvolvido a partir de uma visão reducionista e neutra. Esta Didática
Instrumental é definida por Candau como:

um conjunto de conhecimentos técnicos sobre o “como fazer”


pedagógico, conhecimentos estes apresentados de forma universal
e, consequentemente, desvinculados dos problemas relativos ao
sentido e aos fins da educação, dos
conteúdos específicos, assim como
do contexto sociocultural concreto
em que foram gerados.
(Candau,2002, p.13-14).

A Didática instrumental sofre


inúmeras criticas a partir da década de
HTTP://CENFOPMATEMATICASIGNIFICATIVA.FILES.WORDPRESS
1970. Nesta ótica, a Didática é vista de uma .COM/2010/06/IMAGEM.JPG

29
Educação Didática do Ensino Superior – Unidade 3

forma global, sem vínculos com as questões que fazem parte dos sentidos
e dos fins educacionais. Seus críticos defendem a necessidade de se
definir um projeto de sociedade que contemple uma concepção de escola
transformadora da realidade onde ela se insere.
Em seus estudos, no início dos anos de 1980, Candau (2002) afirma
a necessidade da superação desse modelo instrumental e coloca a
urgência da adoção de um modelo mais crítico, que ela denomina de
Didática fundamental. Em sua proposta, a Didática fundamental deve
assumir a multidimensionalidade do processo ensino-aprendizagem e
promover uma articulação entre as dimensões humana, técnica e político-
social, vistas no início desta unidade.
Enquanto a Didática instrumental concebe a Didática como
conjunto de instrumentos e técnicas para um ensino eficiente, a Didática
fundamental preocupa-se com a compreensão do processo ensino-
aprendizagem e as formas de intervenção pedagógica, articulando o
“fazer” com o sentido ético e político do projeto educativo como um
todo. (CANDAU, 2002, p. 74).
Atualmente há um consenso de que a Didática, como área de
estudo, focaliza quatro pressupostos, de acordo com Veiga (2004, p.49):

• A educação como prática social é um processo construtivo e


permanente de emancipação humana;
• Compromisso com a democratização da escola pública e,
consequentemente, com o ensino de melhor qualidade voltado
para os interesses das classes populares;
• O professor, como agente social, que procura colocar em questão
a lógica modernizadora;

30
Educação Didática do Ensino Superior – Unidade 3

• A metodologia de pesquisa como modo de apropriação ativa de


conhecimento, bem como o desenvolvimento de habilidades
básicas de investigação.

Muito embora estes estudos recentes demonstrem os avanços na


compreensão da Didática, Veiga diz que algumas questões ainda
permanecem, como a variedade de conceitos de didática, evidenciando
que não há um conceito que satisfaça a todos, assim como não há um
consenso sobre seu objeto de estudo, que pode ser apontado tanto como o
processo ensino-aprendizagem ou o ensino, como a aula, a prática
pedagógica ou o trabalho docente. (idem, p.52).
Apesar disto, são muitos os indícios de mudança, ainda de acordo
com a pesquisadora (2004, p.52):

• Ampliação dos debates em torno da questão da didática, buscando


alternativas mais condizentes com a realidade educacional
brasileira;
• Envolvimento crescente de interessados no debate sobre a
formação de professores e o papel nela desempenhado pela
Didática;
• Perspectiva metodológica para o desenvolvimento da pesquisa em
Didática, apresentando novos rumos no sentido de empregar uma
abordagem mais qualitativa, utilizando-se a etnografia, o estudo
de caso, a pesquisa-ação;
• Preocupação maior com a formação dos professores de didática;
• Tentativas de construção da didática baseada no cotidiano
escolar;

31
Educação Didática do Ensino Superior – Unidade 3

• Preocupação com novos temas mobilizadores, emergentes e


abertos à reflexão didática;
• Compreensão do ensino como processo complexo e
multirreferencial.

3.2 Atividades

1) Leia com atenção o trecho abaixo e depois esboce uma


reflexão sobre a necessidade de uma nova didática para uma
nova sociedade.

“Vê-se que a responsabilidade social da escola e dos professores é


muito grande, pois cabe-lhe escolher qual concepção de vida e de
sociedade deve ser trazida à consideração dos alunos e quais
conteúdos e métodos lhes propiciam o domínio dos conhecimentos
e a capacidade de raciocínio necessários à compreensão da
realidade social e á atividade prática na profissão, na política, nos
movimentos sociais. Tal como a educação, também o ensino é
determinado socialmente..Ao mesmo tempo que cumpre objetivos
e exigências da sociedade conforme interesses de grupos e classes
sociais que a constituem, o ensino cria condições metodológicas e
organizativas para o processo de transmissão e assimilação de
conhecimentos e desenvolvimento das capacidades intelectuais e
processos mentais dos alunos tendo em vista o entendimento
crítico dos problemas sociais”. (LIBÂNEO, 1990, p. 22).

2) Defina a Didática instrumental e a Didática fundamental.

32
Educação Didática do Ensino Superior – Unidade 3

3.3 Reflexão

Podemos concluir que o momento de crítica ao tecnicismo didático


foi importante como marco inicial da elaboração de novas reflexões e
propostas para uma Didática mais crítica, condizente com as perspectivas
atuais de formação de educadores mais engajados e preocupados com
uma prática docente consciente, politizada e responsável.

3.4 Leitura recomendada

VEIGA, I. P. A. (coord.). Repensando a Didática. Campinas, SP:


Papirus, 2004.
O livro, com uma série de artigos de renomados educadores da
contemporaneidade que tem se dedicado aos estudos na área, propõe-se a
repensar o papel da Didática na formação de professores do ensino
fundamental e do ensino médio, contribuindo para ampliar e aprofundar
as reflexões acerca da proposta de uma Didática voltada para a efetivação
da prática pedagógica crítica.

3.5 Referências bibliográficas

CANDAU, V. M. A. revisão da didática. In: CANDAU, V. M. (org.).


Rumo a uma nova Didática. 13. Ed. Petrópolis: Ed Vozes, 2002.

_____________ Da didática fundamental ao fundamental da didática. In:


ANDRÉ, M. E. D. A; OLIVEIRA, M. R. N. S. (orgs.). Alternativas no
ensino de Didátca. 5. Ed. São Paulo: Papirus, 2003.

33
Educação Didática do Ensino Superior – Unidade 3

VEIGA, I. P. A. Didática: uma retrospectiva histórica. In: VEIGA, I. P.


A. (coord.). Repensando a Didática. Campinas, SP: Papirus, 2004.

NETO, J.M. S. A eficácia da Didática no ensino superior. Disponível


em <HTTP://www.meuartigo.brasilescola.com/educacao/a-eficacia-
didatica-ensino-superior>>

3.6 Na próxima unidade

Nossas ações são sempre embasadas em concepções, ideias ou


teorias, embora nem sempre isto esteja claro para nós. Na educação
também é assim. Na próxima unidade vamos explicitar as tendências
pedagógicas que fundamentam as práticas dos professores no dia a dia
das escolas.

34
A DIDÁTICA E AS
ABORDAGENS DO
ENSINO NA EDUCAÇÃO
ESCOLAR

Nesta unidade você vai estudar as diferentes


abordagens pedagógicas que norteiam a ação docente nas
escolas. Conhecer estas perspectivas de ensino e
aprendizagem que fundamentam a prática educativa é muito
importante para a elaboração ou reelaboração da sua concepção de
educação e construção de uma prática coerente e coesa.

Objetivo da sua aprendizagem


Você vai conhecer as principais abordagens pedagógicas e suas
implicações para as ações desenvolvidas pelos professores nas escolas.

Você se lembra?
Você se lembra dos professores que marcaram sua formação
escolar? Alguns podem ter deixado uma boa lembrança, outros, nem
tanto. As atitudes dos professores estão relacionadas às abordagens
de ensino que fundamentam suas práticas.
Educação Didática do Ensino Superior – Unidade 4

4.1 As tendências pedagógicas na prática escolar

As concepções das práticas dos educadores estão intimamente


relacionadas com o conhecimento e a reflexão sobre as abordagens
pedagógicas que norteiam essas práticas no cotidiano das nossas escolas.
Diversos estudos têm sido realizados acerca da Didática e suas relações
com estas abordagens pedagógicas, que representam as concepções que
os educadores têm a respeito do ensino. Em geral, os autores concordam
em classificá-las em dois grandes grupos, como pode ser encontrado em
Libâneo (1990):

Corrente Liberal Corrente Progressista

Pedagogia tradicional Pedagogia Libertadora

Pedagogia renovada Pedagogia crítico-social dos


conteúdos

Tecnicismo pedagógico

Mizukami (1986) apresenta uma classificação diferente, dividindo


as concepções em cinco abordagens: tradicional, comportamentalista,
humanista, cognitivista, sociocultural. Consideramos que esta divisão
ganhando destaque, em função das modificações no contexto sócio-
político pedagógico.
Este é um tema bastante complexo que necessita de
aprofundamento e crítica, mas, vamos analisar, ainda que, brevemente, a
classificação de Mizukami:

36
Educação Didática do Ensino Superior – Unidade 4

Abordagem Tradicional
• A ênfase é a sala de aula. Os alunos são instruídos pelo professor,
os conteúdos e as informações devem ser adquiridos e os
modelos, imitados;
• A preocupação maior é com a quantidade de noções, conceitos e
informações, do que com o desenvolvimento da capacidade
reflexiva do aluno;
• O ensino é predominantemente verbal e ao aluno cabe a
memorização do conteúdo verbalizado;
• Os conteúdos são apresentados de forma acabada e as tarefas são
padronizadas;
• Enfim, a abordagem tradicional enfatiza a transmissão de
conceitos e a imitação de modelos aprendidos.

Abordagem Comportamentalista
• Ênfase no arranjo de condições
externas que podem levar a aluno
a aprender. O professor é o
responsável pela aquisição de HTTP://DIARIODONORDESTE.GLOBO.COM/IMAGEM.ASP ?IMAGEM=425852

conhecimentos do aluno;
• Os comportamentos esperados dos alunos são instalados e
mantidos por condicionantes e reforços arbitrários, como elogios,
notas, prêmios, ou mesmo, o diploma, as vantagens da futura
profissão, possibilidade de ascensão social, etc.;
• A aprendizagem é garantida pelo programa estabelecido. Os
elementos do processo ensino e aprendizagem são o aluno, um
objeto de aprendizagem e um plano para alcançar o objetivo
proposto;

37
Educação Didática do Ensino Superior – Unidade 4

• A abordagem comportamentalista visa, então, a obtenção de um


comportamento que deve ser mantido.

Abordagem Humanista
• O ensino é centrado na pessoa, o que implica orientá-la na sua
experiência para que ela possa estruturar-se e agir;
• A atitude básica a ser desenvolvida é a de confiança e de respeito
ao aluno;
• A aprendizagem tem a qualidade de um envolvimento pessoal. A
pessoa é considerada em sua sensibilidade e sob o aspecto
cognitivo é incluída de fato na aprendizagem. O sentido da
descoberta vem de dentro, mesmo que o estímulo venha de fora;
• A aprendizagem é significativa, suscita mudanças no
comportamento e nas atitudes e é avaliada pelo aluno, que
aprende a buscar suas necessidades;
• Portanto, nesta abordagem, a pessoa está incluída no processo de
ensino-aprendizagem.

Abordagem Cognitivista
• Enfatiza a forma de organização do conhecimento, do
processamento das informações e dos comportamentos relativos à
tomada de decisões;
• A ênfase está, assim, na capacidade do aluno de integrar
informações e processá-las. O que é priorizado são as atividades
do sujeito, considerando-o inserido numa situação social;
• O ensino é baseado na tentativa e erro, na pesquisa e investigação,
na busca da solução de problemas pelo aluno, para desenvolver o

38
Educação Didática do Ensino Superior – Unidade 4

raciocínio, e não no ensino de fatos. A ênfase é nos processos e


não no produto;
• A aprendizagem se realiza quando o aluno elabora seu
conhecimento, porque para conhecer um objeto é preciso agir
sobe ele;
• Não existem currículos fixos, pelo contrário, os alunos devem ser
colocados frente situações desafiadoras e novas, como os jogos,
visitas, excursões, trabalhos em grupo, teatros, etc.

Abordagem sociocultural
• A relação de ensino-
aprendizagem deve procurar
a superação da relação
opressor-oprimido através
de atitudes como a de se
colocar no lugar do outro,
HTTP://3.BP.BLOGSPOT.COM/_VXBEQRLPTW U/S8NK7N1PUAI/AAAAAAAAAL

bem como a de transformar 4/TK9T_GHCDEY/S1600/IMAGEM+237.JPG

a situação geradora de opressão;


• A educação deve ser problematizadora, buscando o
desenvolvimento da consciência crítica e da liberdade como
meios de superar as contradições da educação tradicional;
• Educador e educando são sujeitos do mesmo processo;
• A educação representa um esforço permanente de perceber
criticamente o mundo, levando o indivíduo a assumir seu papel de
sujeito criador.

39
Educação Didática do Ensino Superior – Unidade 4

4.2 Atividades

1) Faça uma pesquisa bibliográfica para compreender melhor as


características das abordagens pedagógicas, principalmente em
relação aos seguintes aspectos: o que é aprender? O que é ensinar?
Como conceber os métodos e técnicas de ensino?

4.3 Reflexão

O fenômeno educativo pode ser concebido de diferentes formas,


uma vez que ele é multidimensional. Assim, não há uma única teoria que
possa explicá-lo de forma absoluta. Por isto, é importante considerar as
diversas perspectivas, abordagens ou tendências apresentadas como
tentativas de compreensão deste complexo fenômeno que é a educação.
Elas permitem um aprofundamento de aspectos relevantes, relacionados
diretamente a pratica educativa, contribuindo para a construção de uma
ação docente mais crítica e coerente com os fundamentos teóricos que a
sustentam.

4.4 Leitura recomendada

MIZUKAMI, M. G. N. Ensino: As abordagens do processo. São


Paulo: EPU, 1986.
O livro analisa conceitos básicos de cinco abordagens do processo
de ensino-aprendizagem a partir de categorias como: homem, mundo,
sociedade/cultura, conhecimento, educação, escola, ensino-
aprendizagem, professor-aluno, metodologia e avaliação.

40
Educação Didática do Ensino Superior – Unidade 4

FREIRE, P. Pedagogia do Oprimido. São Paulo: Paz e Terra, 1885.


A obra é vista por muitos intelectuais como sendo a obra-prima
freireana. O tema central da referida obra diz respeito à ideia de que deve
existir um intercâmbio contínuo de saber entre educadores e educandos,
com o escopo de que os últimos não se limitem a repetir mecanicamente
o conhecimento transmitido pelos primeiros. Por meio do diálogo entre
professores e alunos, estabelecem-se possibilidades comunicativas em
cujo cerne está a transformação do educando em sujeito de sua própria
história, traduzida em diferentes idiomas, a Pedagogia do Oprimido
revela que a educação conscientiza os indivíduos sobre as diversas
contradições e disparidades do mundo, de modo a incutir-lhes a demanda
por mudanças na realidade social.

4.5 Referências bibliográficas

MAZETO, M. Didática: a aula como centro. São Paulo: FTD, 1997.

MIZUKAMI, M. G. N. Ensino: as abordagens do processo. São Paulo:


EPU, 1986.

LIBÂNEO, J. C. Didática. São Paulo: Cortez, 1990.

4.6 Na próxima unidade

A partir deste resumo sobre as abordagens de ensino apresentadas


por Mizukami, poderemos refletir, na próxima unidade sobre algumas
ideias importantes acerca do processo de ensino e aprendizagem.

41
O PROCESSO DE
ENSINO E
APRENDIZAGEM

Necessitar de aprendizado para desenvolver


capacidades que lhes são próprias é uma característica
especificamente humana. Este aprendizado pode se dar de
várias formas, mas nos interessa aqui o aprendizado escolar,
dada a sua intencionalidade

Você se lembra?
Na sua infância, quais eram os seus modelos de imitação? Você,
com certeza, já observou como as crianças imitam o adulto, não é? Elas
imitam para aprender, pois necessitamos de aprendizado para nos
tornarmos pessoa humana.
Educação Didática do Ensino Superior – Unidade 5

5.1 Aprendizagem e ensino

O ser humano, como uma entre as várias espécies animais sobe a


Terra, também desenvolveu formas de convivência, reprodução,
acasalamento e defesa. Mas, além desses processos, desenvolveu
capacidades que dependem do aprendizado, e que, ao contrário das outras
espécies, não são transmitidas aos seus descendentes por carga genética,
mas por processos educativos.
Essa característica especificamente humana de necessitar de
aprendizado para atividades que lhes são próprias, só se tornou possível
porque o ser humano é capaz de criar símbolos, como a linguagem,
através dos quais dá significado às suas experiências e as transmite a seus
semelhantes.
Sem desconsiderar as diversas formas ou modalidades através dos
quais esses processos educativos podem se dar, como a família, os meios
de comunicação de massa, os grupos religiosos e políticos, etc., vamos
enfatizar aqui a instituição escolar, pela sua expressa intencionalidade na
concretização deste fim.
Ou seja, “é através da sua capacidade de aprender que o aluno se
desenvolve como ser humano e como cidadão”, como afirma Mazeto
(1987, p.45). De acordo com ele, a escola e o professor trabalham com a
perspectiva de uma aprendizagem permanente do aluno, um processo que
não termina. “Aprende-se e sempre” (idem, p.45).
Aprender envolve ações como: buscar informações, rever a
própria experiência, adquirir conhecimentos, desenvolver habilidades,
adaptar-se a mudanças, mudar comportamentos, descobrir o sentido das
coisas, dos fatos, dos acontecimentos, ações enfim, relacionadas para o

43
Educação Didática do Ensino Superior – Unidade 5

aluno enquanto agente responsável pela sua aprendizagem, ainda


segundo Mazeto.
Ensinar, por sua vez, está relacionado a ações como: instruir,
fazer saber, comunicar conhecimentos, mostrar, guiar, orientar, dirigir,
desenvolver habilidades, apontado para o professor como agente
responsável pelo ensino. Estas ações, no entanto, são indissociáveis,
porque o ensinar se define em função do aprender.
Para Veiga, porém, este processo é mais amplo e envolve outras
dimensões. Para ela:
O processo didático tem por
objetivo dar respostas a uma
necessidade: ensinar. O resultado
do ensinar é dar resposta a uma
outra necessidade: a do aluno que
procura aprender. Ensinar e
aprender envolvem o pesquisar. E HTTP://PEREGRINACULTURAL.FILES.WORDPRESS.COM/2009/

10/PROFESSORA-ENSINANDO-FRACOES.JPG
essas três dimensões necessitam do
avaliar. Esse processo não se faz de forma isolada. Implica
interação entre sujeito ou entre sujeitos e objetos. (VEIGA,
2008,p.13).

Ainda de acordo com a autora, uma das tarefas mais


representativas do processo didático é o ensino e para compreender um
pouco melhor esta tarefa, vamos nos basear num trabalho desta autora,
que diz respeito a uma pesquisa realizada por ela, em diferentes
momentos de participação sua em eventos educacionais promovidos por
secretarias estaduais e municipais de educação e instituições de educação
superior, sobre as concepções de professores sobre o ensino.

44
Educação Didática do Ensino Superior – Unidade 5

Veiga registrou e agrupou os diferentes significados de ensinar


apresentados pelos docentes nos seguintes enunciados, conforme está em
seu texto “Ensinar: uma atividade complexa e laboriosa” (VEIGA, 2008
p.13-33):
• Ensinar é um ato intencional;
• Ensinar significa interagir e compartilhar;
• Ensinar exprime afetividade;
• Ensinar pressupõe construção de conhecimento e rigor
metodológico;
• Ensinar exige planejamento didático.

Ensinar é um ato intencional


O ato de ensinar é carregado de intencionalidade. O ensino exige
uma direção, um norte que remeta a uma diversidade de objetivos mais
detalhados e complexos, que se refletem na tríplice dimensionalidade das
finalidades da educação brasileira: pleno desenvolvimento do educando,
seu preparo para a cidadania e sua qualificação para o trabalho (LDBEN
9394/96, art. 2º). Esta intencionalidade ocorre no âmbito de uma
organização escolar que é, muitas vezes, burocrática e fragmentada, e por
outro lado, não é também, independente do contexto social, exigindo uma
reflexão constante sobre o lugar do educando na instituição e na
sociedade, nas relações entre os seres humanos.
Para buscar a qualidade do ensino, é preciso ter em mente os
objetivos socioculturais da educação e questionar-se: Que tipo de
sociedade queremos? Que tipo de homem pretendemos formar? Que
concepções de cidadania e de trabalho permeia nossa ação docente? Os
professores devem, assim, ter clareza dos fins e objetivos que pretendem
atingir com seu trabalho.

45
Educação Didática do Ensino Superior – Unidade 5

Ensinar significa interagir, compartilhar


A ideia que permeou muitas respostas é a de que ensinar significa
trabalhar com seres humanos, sobre seres humanos, para seres humanos.
É um ato que implica interações variadas com os alunos, com professores
e outros profissionais, interações concretas entre pessoas. As respostas
dos professores apontam que o ensino é uma das dimensões
representativas do processo didático.

Ensinar exprime afetividade


O ensino se expressa por meio da afetividade, que favorece as
trocas entre professor e os alunos. Permear o ensino com afetividade é
fortalecer o processo de conquista para despertar o interesse do aluno. O
professor precisa contar com a colaboração e a confiança dos alunos para
consolidar o sucesso de educar. A afetividade não é isolada da dimensão
cognitiva, propiciando uma disposição do aluno para problematizar,
conhecer, buscar, investigar, encontrar solução, dedicar-se com atenção,
afeto, prazer e alegria. Para aprender, a aluno precisa ter desenvolvido
não somente sua capacidade de pensar, mas também sua capacidade de
perceber e sentir suas emoções, seus conflitos, suas alegrias, seus
bloqueios afetivos. Ensinar envolve, portanto, disponibilidade para lidar
com o outro. Envolve gosto e identificação com a docência.

Ensinar pressupõe construção de conhecimento e rigor


metodológico
A construção do conhecimento não é apenas do aluno, pois o
conhecimento se constrói por meio da mediação social que pode estar
mais ou menos presente. Por isso, na situação de ensino há necessidade
da ação mediada pelo professor para articular as relações que compõem o

46
Educação Didática do Ensino Superior – Unidade 5

objeto de estudo e o caminho para sua descoberta ou redescoberta,


articulando também o conhecimento a ser trabalhado com a realidade
social em que ele se originou. Além disso, é preciso que o professor
proponha atividades estratégicas didáticas necessárias a esta construção e
que o processo possa ser adequadamente acompanhado e avaliado. Os
relatos permitem à autora afirmar que o papel do conhecimento é
colaborar na formação do aluno na sua globalidade: como pessoa, como
cidadão crítico e criativo e como futuro trabalhador. E o papel do
professor é provocar a mediação entre aluno, conhecimento e realidade.
Ensinar exige, assim, a determinação do como, do método a ser utilizado
para o desenvolvimento do aluno.

Ensinar exige planejamento didático


Ensinar é um trabalho planejado no contexto de uma organização
escolar, significando pensar sobre algumas questões: Por que, para que e
como ensinar? Quem ensina? Quem aprende? Quais os resultados do
ensino? Mas não se pode conceber o planejamento como uma ação
técnica e linear. Cabe ao professor a responsabilidade de planejar o
ensino de forma participativa, considerando as outras dimensões do
processo didático e as orientações do projeto pedagógico da escola.

A autora apresentou os
eixos estruturais do ato de
ensinar na ótica dos
professores, mas ela nos
lembra que há muitas outras
maneiras de compreender o
ensino, ressaltando que é uma HTTP://1.BP.BLOGSPOT.COM/_KRIZIU2A6VM/SDPRK_FBTDI/AAAAAAAAAFE/_Y0QCIU

DGZA/S400/DSC01065.JPG

47
Educação Didática do Ensino Superior – Unidade 5

prática social que se realiza não só através do professor, mas também


pela compreensão de contextos sociais mais amplos, situando o ensino
para além da sala de aula. Ao professor cabe, então, sensibilizar-se com
as demandas sociais, dialogar coma realidade, buscando formas
alternativas para o desenvolvimento de temas e estimulando o aluno com
questionamentos, para ajudá-lo a chegar ás suas próprias elaborações.
Mais do que isso, é desenvolver as potencialidades de uma pessoa.

É uma atividade profissional laboriosa, que exige preparo,


compromisso e responsabilidade do professor para instrumentalizar
política e tecnicamente o aluno, ajudando-o a constituir-se como
sujeito social. (VEIGA, 2008, p.29).

5.2 Atividades

1) Leia o livro “Pedagogia da autonomia!”, do educador Paulo


Freire, recomendado como leitura complementar nesta unidade, e
sintetize suas ideias, destacando as exigências do ensino que você
considera mais relevantes, de acordo com as proposições do autor
na obra.

2) Leia o texto de Ilma Passos Veiga, “Ensinar: uma atividade


complexa e laboriosa”, utilizado como referência para esta
unidade e explique porque, segundo ela, o ensino é uma atividade
formativa?

48
Educação Didática do Ensino Superior – Unidade 5

5.3 Reflexão

A complexidade da tarefa de ensinar exige um esforço na


constituição de um marco teórico que se apresente indagador e rigoroso,
que investigue os fundamentos e as práticas formativas. Desta maneira, o
ensino deve estabelecer relações com o contexto social mais amplo,
refletindo sobre os valores da sociedade em geral, bem como sobre os
valores, interesses e necessidades da comunidade local onde as unidas
escolares estão inseridas. Se o ensino passar a ser concebido desta
maneira, de acordo com Veiga, estará respondendo a três desafios:
1- É uma tarefa humana;
2- Tem o desafio da dimensão afetiva, do compartilhamento, da
interação;
3- Tem o desafio de seu papel cognitivo, pelo fato de permitir que
cada aluno construa seu conhecimento graças ao emprego de uma
diversidade metodológica e tecnológica.
E, finalizando com a autora:
“O ensino é carregado de razão e emoção, é o espaço para a vida,
para a vivência das relações entre professores e alunos, para ampliação
da convivência socioafetiva e cultural dos alunos.” (idem, p.32).

5.4 Leitura recomendada

FREIRE, P. Pedagogia da Autonomia. Saberes necessários à


prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 24ª edição, 2002.
Nesse livro, Paulo Freire reflete sobre saberes necessários a uma
prática educativa crítica, fundamentados nua ética pedagógica e numa

49
Educação Didática do Ensino Superior – Unidade 5

visão de mundo alicerçadas em rigorosidade, pesquisa, criticidade, risco,


humildade, bom senso, tolerância, alegria, etc.

VEIGA, I. P. A. Ensinar: uma atividade complexa e laboriosa. In:


VEIGA, I. P. A. (org.). Lições de Didática. Campinas: São Paulo. 3ª
Edição, 2008, p.13 -33.
No artigo a autora apresenta uma síntese de algumas concepções
sobre o ensino, apresentando uma revisão das teorias de ensino, seus
fundamentos e suas características básicas. Em seguida, a autora discute
os dados de sua pesquisa com professores a respeito do significado do
ensino para eles.

5.5 Referência bibliográfica

MAZETO, M. Didática: a aula como centro. São Paulo: FTD, 1997.

VEIGA, I. P. A. (org.). Lições de Didática. Campinas: São Paulo. 3ª


Edição, 2008.

HOKAMA, M. G. Pensando (bem) na escola: o lugar das habilidades de


pensamento no planejamento das atividades de ensino e aprendizagem.
Dissertação de mestrado. Universidade Estadual Paulista Julio de
Mesquita Filho. UNESP/Araraquara, 2000.

50
Educação Didática do Ensino Superior – Unidade 5

5.6 Na próxima unidade

As ideias de Veiga e dos autores estudados nesta unidade nos


remetem à necessidade do aprofundamento a respeito da formação
docente, tema que será analisado na próxima unidade.

51
FORMAÇÃO
DOCENTE

A formação de professores está passando


por um momento de profunda revisão no Brasil.
Entre outras questões, os pontos impulsionadores desta
revisão se relacionam ao questionamento do papel exercido
pela educação na sociedade, a falta de clareza sobre a função
do educador e a redefinição dos cursos de licenciaturas em geral.
A formação para a docência no nível superior é mais um dos
grandes desafios que se fazem urgentes nesse momento e que
analisaremos nesta unidade.

Objetivos da sua aprendizagem


Você irá refletir sobre a formação do professor, seus pressupostos
e os novos desafios para uma atuação docente competente,
especialmente no nível da docência para o ensino superior.

Você se lembra?
Durante a sua graduação, algum professor marcou a sua
trajetória? Você diria que aquele professor tinha uma boa
didática? Reflita sobre isto.
Educação Didática do Ensino Superior – Unidade 6

6.1 A formação profissional do professor

A formação profissional do professor é composta por um conjunto


de disciplinas coordenadas e articuladas entre si e seus objetivos e
conteúdos devem estar voltados para possibilitar uma unidade teórico-
metodológica do curso, qualquer que seja o nível de ensino para o qual
este professor está se preparando para atuar. Ela é um processo
pedagógico, intencional e organizado, de preparação teórico-científica e
técnica do professor para dirigir competentemente o processo de ensino,
como afirma Libâneo ( 1990, p. 27).
Sendo assim, de acordo com o autor, a formação do professor
abrange as dimensões teórico-científica, incluindo aí a formação
acadêmica específica nas disciplinas em que o docente irá se
especializar-se e a formação pedagógica – conhecimentos da Filosofia,
Sociologia, História da Educação e da Pedagogia, que contribuem par o
esclarecimento do fenômeno educativo no contexto histórico-social: e a
formação técnico-prática, que visa à preparação profissional específica
para a docência – Didática, as metodologias das matérias, Psicologia da
Educação, Pesquisa educacional, etc.
Esta maneira de organizar os conteúdos da formação de
professores, em aspectos teóricos e práticos, não significa sua separação
ou isolamento. Ao contrário, eles devem estar integrados e articulados.
As disciplinas teórico-científicas referem-se à prática escolar e seus
estudos, realizados no âmbito da formação acadêmica, devem estar em
consonância com aqueles de formação pedagógica que tratam das
finalidades da educação e dos condicionantes históricos, sociais e
políticos da escola. Os conteúdos das disciplinas específicas também

53
Educação Didática do Ensino Superior – Unidade 6

precisam estar relacionados com as exigências metodológicas dessas


áreas.
Com relação à formação técnico-prática, é importante enfatizar que
seus conteúdos não podem ser reduzidos ao domínio de técnicas e regras,
os aspectos teóricos devem ser considerados, ao mesmo tempo em que
fornecem à teoria os problemas e desafios da prática. Como afirma
Libâneo:
A formação profissional do professor implica, pois, uma contínua
interpenetração entre teoria e prática, a teoria vinculada aos
problemas reais postos pela experiência prática e a ação prática
orientada teoricamente. (LIBÂNEO, 1990, p.28).

Para Candau (2005), esta interpenetração não ocorre e, aliada à


saturação do mercado de trabalho e à falta de uma formação cultural
geral consistente, entre outras questões, tem nos colocado diante de uma
crise e da necessidade urgente de redefinição dos sistemas de formação
docente, em todos os níveis. Para chegar a esta afirmação, a autora
analisou a bibliografia sobre a formação docente e agrupou os estudos em
quatro perspectivas: centrados na norma; centrados na dimensão técnica;
centrados na dimensão humana; centrados no contexto.
Centrados na norma: Partem da legislação vigente e analisam a
adequação da realidade aos instrumentos legais, sem uma reflexão crítica
e questionadora desses instrumentos. A ênfase recai sobre a verificação
das dificuldades ou entraves para o cumprimento do estipulado e a
proposição de medidas que superem os problemas encontrados. O
educador é visto como o responsável pela observância da norma, muitas
vezes de caráter formal.
Centrados na dimensão técnica: A atenção é para a organização e
operacionalização dos componentes do processo de ensino-

54
Educação Didática do Ensino Superior – Unidade 6

aprendizagem: objetivos, seleção de conteúdos, estratégias e ensino,


avaliação, etc. Estes estudam analisam a prática educativa, propondo
experimentos comparando metodologias e verificando seus resultados na
aprendizagem. São privilegiadas as variáveis processuais de natureza
técnica. O educador é visto como um organizador de condições de
ensino-aprendizagem que devem ser rigorosamente planejadas para
garantir resultados “ótimos”. É um enfoque tecnicista de formação
docente.
Centrados na dimensão humana: Estes são os estudos que
enfatizam a relação interpessoal dos processos formativos. O foco é nas
condições que devem estar presentes para possibilitar a comunicação,
direta ou indireta para que ela seja facilitadora da aprendizagem. São
privilegiadas também as variáveis processuais, porém, mais
especificamente os componentes relativos á interação humana. O
processo de formação prioriza a aquisição das atitudes necessárias para
mobilizar a capacidade humana de autoaprendizagem, que possibilite o
desenvolvimento pleno, intelectual e emocional.
Centrados no contexto: Nestes estudos centralizam a preocupação
com o contexto socioeconômico e político em que se situa a formação de
educadores. É uma perspectiva crítica em relação às anteriores, que
minimizam esta análise. Nesta perspectiva, a educação é vista como uma
prática social diretamente relacionada com as questões do sistema social
na qual ela se insere. Neste enfoque, a prática educativa nunca é neutra,
está a serviço da manutenção do “status quo” ou da sua transformação,
sendo esta uma questão central, ou seja, construir uma prática educativa
transformadora.
Candau afirma que a formação de professores a partir das
perspectivas apresentadas nestes estudos, parece privilegiar determinados

55
Educação Didática do Ensino Superior – Unidade 6

aspectos, ou processuais ou contextuais, ou ainda alguma das dimensões


técnica, humana ou contextual, e acaba tendendo a um reducionismo.
Para ela, a educação é um processo muldimensional, que apresenta as
dimensões técnica, humana e político-social de forma articulada e
coerente. O desafio é justamente construir esta visão, que parta da
perspectiva da educação como prática social inserida num contexto
determinado, sem deixar de lado os aspectos processuais.

A formação de educadores adquire assim uma perspectiva


multidimensional. Trabalhar nesta perspectiva e traduzi-la em
termos de currículos e dinâmica de formação, eis, para nós, o
grande desafio do momento. (CANDAU, 2005, p.55).

6.2 A formação do docente para o nível superior

Reestruturar a formação de professores numa perspectiva


multidimensional é também um dos grandes desafios do ensino no nível
superior, como não poderia deixar de ser. A preocupação com a formação
deste profissional do ensino pode ser constatada, de forma mais
contundente nos últimos anos, não só no Brasil, como em diversos
países, especialmente aqueles com notável desenvolvimento econômico.
A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional admite uma variedade
de instituições de ensino superior.
Universidade: Instituições de ensino superior que se caracterizam
pela autonomia didática, administrativa e financeira e pelo objetivo
tríplice de oferecer ensino, pesquisa e extensão à comunidade,
necessitando para isto de um número considerável de mestres e doutores
no seu quadro de docentes.

56
Educação Didática do Ensino Superior – Unidade 6

Centro Universitário: Estas instituições atuam em uma ou mais


áreas de formação superior, com autônoma para abrir ou fechar cursos e
vagas de graduação e ensino de excelência.
Faculdades Integradas: É a reunião de instituições de diferentes
áreas do conhecimento que oferecem ensino superior, podendo oferecer
também, extensão e pesquisa.
Institutos ou Escolas Superiores: Oferecem ensino superior em
áreas específicas do conhecimento, podendo fazer pesquisas. Dependem
do Conselho Nacional de Educação para a criação de novos cursos.

A expansão da educação superior


traz em seu bojo, a necessidade de maior
qualificação do seu pessoal docente. A
preocupação com a qualidade dos
resultados do ensino superior, sobretudo

HTTP://WWW .INSTITUTOINEC.COM.BR/SITE_V2/PHP/IMX_IMA
na graduação, demonstra a importância
GEM.PHP?W =280&FOTO=../IMG/BLOG/COTA.JPG

da preparação desses docentes no campo


específico e no campo pedagógico.
Durante muito tempo permaneceu a crença de que um professor
universitário necessitava apenas dos conhecimentos práticos e teóricos
referentes à sua área de atuação e uma boa comunicação. Até
recentemente não se verificava uma preocupação dos órgãos
governamentais com a formação docente em nível superior, a não ser
com relação á formação do pesquisador.
As novas demandas sociais, no entanto, vêm mudando estas
percepções. O aprendizado está tomando novas dimensões no que diz
respeito à pedagogia, enquanto ciência da educação e à Didática,
enquanto arte de ensinar. Exige-se do professor universitário, hoje, além

57
Educação Didática do Ensino Superior – Unidade 6

dos conhecimentos específicos, o domínio dos saberes pedagógicos


necessários para tornar o ensino eficaz, além de uma
formação geral ampla, que lhe possibilite um
A palavra Pedagogia tem
maior conhecimento de mundo, do ser origem na Grécia, paidós
(criança) e agogé (condução). O
humano, de ciência e de educação. termo pedagogo, surgiu na
Grécia Clássica, com o
Para alguns estudiosos, a preparação significado de preceptor,
mestre, guia, aquele que
deste profissional está mais relacionada à conduz; era o escravo que
conduzia os meninos até o
andragogia do que à pedagogia. A pedagogia, paedagogium .,

na sua origem, refere-se à condução de crianças.

Os alunos dos cursos universitários estão


numa faixa etária mais próxima dos adultos do
que das crianças, por isto, para estes
estudiosos, os cursos desta natureza
não atendem às necessidades desta formação e sim
os cursos que se fundamentam nos princípios da
andragogia, que se refere à arte e a ciência de
conduzir adultos ao aprendizado.
HTTP://PT.WIKIPEDIA.ORG/WIKI/PEDAGOGIA

Princípios da Andragogia:
Conceito de aprendente:
alternativa ao conceito de aluno ou Em 1970 , Malcom Knowles publicou a
obra “The Adult Learner - A Neglected
formando. O aprendente é responsável Species" (1973), introduzindo e
definindo o termo Andragogia - A Arte e
pela sua aprendizagem e estabelece e Ciência de Orientar Adultos a Aprender.
Daí em diante, muitos educadores
delimita o seu percurso educacional. passaram a se dedicar ao tema,
surgindo ampla literatura sobre o
Necessidade de conhecimento: assunto. (http://www.rau-
tu.unicamp.br/nou-
O adulto, ao contrário da criança, sabe rau/ead/document/?view=2

58
Educação Didática do Ensino Superior – Unidade 6

da importância e da necessidade de conhecer, por isto ele se


responsabiliza pela sua aprendizagem.
Motivação para aprender: Além das motivações externas, são
consideradas as motivações internas, relacionadas com sua própria
vontade de crescimento, reconhecimento, autoconfiança e atualização das
potencialidades pessoais.
Papel da experiência: Os adultos trazem para os cursos uma gama
de experiências diversificadas que devem ser aproveitadas, valorizadas e
partilhadas, servindo de base para a formação acadêmica.
Prontidão para o aprendizado: O adulto
estará pronto para aprender aquilo que ele decidir Conexão:
No texto “Andragogia: A
aprender. Ele se torna disponível para o Aprendizagem nos Adultos” do
prof Roberto de Albuquerqe
aprendizado quando pretende melhorar seu Cavalcanti você encontra mais
informações sobre este conceito e
desempenho em relação a determinado aspecto sua utilização no ensino superior.
Ela está disponível em
de sua vida. A retenção deste aprendizado http://www.rau-tu.unicamp.br/nou-
rau/ead/document/?view=2
decresce quando ele percebe que sua aplicação
não é imediata.

Uma educação baseada nos princípios da andragogia requer:


• Elaboração de diagnósticos de necessidades e interesses dos
estudantes;
• Definição de objetivos e planejamento das tarefas com
participação dos estudantes;
• Estabelecimento de um clima cooperativo, informal e de suporte a
aprendizagem;
• Seleção de conteúdos significativos para os estudantes;
• Definição de contratos e projetos de aprendizagem;

59
Educação Didática do Ensino Superior – Unidade 6

• Aprendizagem orientada para tarefas ou centrada na resolução de


problemas;
• Uso de projetos de investigação, estudos independentes e técnicas
vivenciais;
• Valorização da discussão e da solução de problemas em grupo;
• Utilização de procedimentos de avaliação diretamente
relacionados à aprendizagem.
A adoção destes princípios, independentemente da origem do
conceito, pode ser de grande valia para o professor universitário.

6.3 Atividade

1) Comente sobre cada um das perspectivas de formação docente


no Brasil, bem como a proposta de Candau e reflita: Estas perspectivas
tem contribuído para que tipo de prática docente nas nossas escolas? No
nível superior, você percebe o predomínio de algumas delas? Comente.

2) Qual a contribuição dos princípios da andragogia para o


professor universitário?

6.4 Reflexão

Uma grande parte dos questionamentos feitos aos docentes


universitários diz respeito à relação entre ensino e aprendizagem. Muitos
destes professores se colocam a frente das salas de aula como
especialistas na disciplina que ministram, cuidando para que os alunos
tenham conhecimento do conteúdo, reproduzindo os processos pelos
quais eles mesmos passaram em sua formação. Ou seja, o aluno recebe as

60
Educação Didática do Ensino Superior – Unidade 6

informações, passadas coletivamente, e demonstra a assimilação através


das tarefas ou avaliações individuais, que na grande maioria das vezes,
ainda em um caráter quantitativo e classificatório. Há, entretanto,
educadores que enxergam os alunos como agentes do processo educativo,
considerando suas aptidões, suas necessidades e interesses, incentivando-
os para que possam buscar as informações que lhes sejam de maior
utilidade e que contribuam para o desenvolvimento de suas habilidades,
bem como na modificação de atitudes e comportamentos e na construção
de novos significados. Estes educadores estão centrados no aluno, em
suas capacidades e possibilidades para aprender, atuando como agentes
responsáveis pela condução do processo de ensino e aprendizagem, e
comprometidos com uma educação para a mudança, como indica a nova
perspectiva da Didática.

6.5 Leitura recomendada

BRANDÃO, J. E. A. A evolução do ensino superior brasileiro: uma


abordagem histórica abreviada. In: MOREIRA, D. A. (org.). Didática do
ensino superior: técnicas e tendências. São Paulo: Pioneira, 1997, p. 3-
58.
O artigo apresenta um panorama histórico da evolução do ensino
superior no Brasil, lançando as bases para um entendimento das
características, das disfunções e fragilidades do ensino superior
brasileiro.

61
Educação Didática do Ensino Superior – Unidade 6

6.6 Referências bibliográficas

CANDAU, V. M. A. formação de educadores: uma perspectiva


muldimensional. In: CANDAU, V. M. Rumo a uma nova didática. São
Paulo, Vozes, 2005, p 49-56.

LIBÂNEO, J. C. Didática. São Paulo:Cortez, 1990

MOREIRA, D. A. (org.). Didática do ensino superior: técnicas e


tendências. São Paulo: Pioneira, 1997.

NETO, J. M. S. A eficácia da Didática no ensino superior. Disponível em


<HTTP://www.meuartigo.brasilescola.com/educacao/a-eficacia-didatica-
ensino-superior>>

VEIGA, I. P A. (coord.). Repensando a didática. Campinas, SP:


Papirus, 2004.

6.7 Na próxima unidade

Depois de refletir sobre a formação docente, vamos analisar alguns


aspectos do trabalho do professor nas unidades seguintes, como o
planejamento, tema da nossa próxima conversa.

62
PLANEJAMENTO
DO ENSINO

O trabalho docente é uma atividade


consciente e sistemática, voltada para a
aprendizagem dos alunos. Já estudamos que esta é uma
atividade complexa que não se restringe à sala de aula, ao
contrário, relaciona-se com as demandas e realidades sociais,
bem como às experiências vividas pelos alunos. É um processo
que necessita, então, de organização, de coordenação de ações,
enfim, de planejamento, para que haja efetivamente a articulação da
atividade escolar com o contexto social.

Objetivos da sua aprendizagem


Você irá refletir sobre o planejamento escolar, em seus vários
níveis e aspectos, reconhecer sua importância para o trabalho
pedagógico e conhecer suas especificidades.

Você se lembra?
Você gosta de provérbios e frases poéticas? Lembra-se desta:
se você não sabe aonde quer chegar, não importa o caminho a
seguir. Ele nos faz pensar sobre a importância do
planejamento.
Educação Didática do Ensino Superior – Unidade 7

7.1 Planejamento do trabalho pedagógico

Na escola, planejar é prever e organizar ações tendo como


referência as metas e objetivos da escola onde atuamos, o aluno real com
quem trabalhamos, suas necessidades e expectativas, o contexto geral do
mundo em que vivemos. Mas, para conversarmos sobre este
e assunto, é
importantíssimo partirmos deste ponto: planejamento não é
improvisação, nem “obrigação a ser cumprida”.
Planejar poderia ser um momento de reencontro de pessoas que se
dedicam a educar e instruir. Um momento agradável, de partilha de
sonhos, opiniões. Transformar a realidade que se tem, criar algo de novo
através do trabalho que se pode fazer na escola supõe conhecer bem as
condições reais e enxergar um pouco à frente, estabelecendo o que se
pretende atingir com os alunos.
É preciso juntar objetividade e
sonho, para ver o aluno com um
olhar novo, como alguém que tem o
direitoo de adquirir, na escola, as
ferramentas que o ajudem no
processo de compreensão do mundo.
Dentro dos limites da escola, cada HTTP://4.BP.BLOGSPOT.COM/_YYBBBI5U8US/S7JESW QAVZI/AA

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educador tem alguma contribuição
para esse processo. Assim, todos devem participar da decisão sobre os
rumos do trabalho. Na reflexão
xão coletiva, será possível prever e organizar
o principal da ação, ou seja, realizar o planejamento do trabalho escolar,
de uma forma viva.

64
Educação Didática do Ensino Superior – Unidade 7

NÃO HÁ RECEITAS de planejamento, mas há aspectos


importantes que não podem ser esquecidos:

• ter clareza de onde se quer chegar: as grandes metas da escola ;


• conhecer a situação da escola: alunos, comunidade, recursos internos
e externos existentes etc.;
• priorizar necessidades ou problemas que sejam assumidos como
desafios por um determinado tempo;
• decidir e preparar ações que serão executadas com acompanhamento
e avaliação constante.

AS AÇÕES ASSUMIDAS COLETIVAMENTE são escolhidas


para concretizar o melhor atendimento escolar aos alunos.

O planejamento participativo deve ser um dos princípios


fundamentais da escola. De acordo com Lopes (2004):

No contexto escolar o planejamento participativo caracteriza-se


pela busca da integração efetiva entre a escola e a realidade
histórico-social, primando pelo inter-relacionamento entre a teoria
e a prática. A participação de professores, alunos, pessoal técnico-
pedagógico e administrativo, bem como dos pais dos alunos, seria
o ponto de convergência das ações voltadas para a produção de
novos conhecimentos a serem propiciados na escola, tendo como
referencial a realidade histórico-social. (LOPES, 2004, p. 59).

65
Educação Didática do Ensino Superior – Unidade 7

7.1.1 Planejando em vários níveis

Quando a equipe escolar se reúne para organizar a ação geral da


escola, o planejamento está voltado para o funcionamento das atividades
de formação do pessoal, das relações intra e extraescolares, das
atividades gerais com os alunos. Ou seja, todos estarão refletindo sobre a
maneira de concretizar as grandes metas da escola, tendo a aprendizagem
dos alunos como pano de fundo.

Nesse processo de reflexão e tomada de decisões gerais, cada


participante do trabalho escolar colhe informações para organizar
detalhadamente seus próprios serviços (atividade administrativa, apoio
pedagógico, processo de ensino-aprendizagem).

Ao assumir sua classe, cada professor deve se apoiar nessa reflexão


coletiva para se organizar, fazendo do planejamento um instrumento
efetivo de trabalho. Nesse nível individual, o professor também precisa
coletar dados, definir metas e organizar-se:

1 – Conhecer bem seus alunos, quanto à história escolar, nível de


aprendizagem, interesse, aptidões e dificuldades.
As informações sobre os alunos servem de base para definir pontos
de partida na aprendizagem dos conteúdos; planejar materiais a serem
oferecidos; agrupar crianças nas diferentes atividades; propor normas
para organizar os trabalhos em classe; estabelecer expectativas e
orientação necessárias.
2 – Definir suas metas e os conteúdos de ensino.

66
Educação Didática do Ensino Superior – Unidade 7

A partir dos objetivos definidos coletivamente para o curso,


apoiado nas características de seus alunos, o professor formula metas e
conteúdos coerentes com a evolução do processo de aprendizagem dos
alunos.
3 – Conhecer os recursos disponíveis na escola e na comunidade.
Conhecendo-os, poderá utilizar materiais e locais para apoiar e
enriquecer o trabalho e, também, criar vínculos e enraizar o programa na
realidade dos alunos.
4 – Preparar as atividades e o aproveitamento do tempo dos
alunos na escola.
É importante levar em conta os vários aspectos da aprendizagem
escolar e as diferentes dimensões pessoais envolvidas. Quem vai
aprender – conceitos, habilidades, atitudes – é um aluno que não fica só
sentado, quieto, pensando e escrevendo. É importante, pois, dosar,
alternar tarefas – simples e complexas, de expressão e de reflexão,
dirigidas e livres etc. – dosando também a atuação do aluno, prevendo
trabalhos individuais, em grupos, ou para a classe como um todo.

Esse preparo das ações pode ser pensado com frequências


diferentes. Há professores que planejam suas aulas diariamente, outros
preferem o planejamento semanal. De qualquer forma, o que foi
planejado deve ser registrado no PLANO DE ENSINO.

7.1.2 O registro do planejamento

Quando se pensa em registrar o planejamento, vem logo à cabeça o


antigo modelo: objetivos gerais, específicos, conteúdos, métodos,
processos, estratégias, recursos materiais, avaliação...

67
Educação Didática do Ensino Superior – Unidade 7

3) Bem, o importante no registro é que


ele comunique e permita
Os registros são também chamados
acompanhar o que se de PLANOS. Sua composição vai
variar de acordo com a abrangência
planejou. Ou seja, que do que se planejou, o número de
pessoas envolvidas na execução e
expresse os pontos de acompanhamento das ações e a
necessidade de maior ou menor
chegada, as ações e seus detalhamento de cada ação. Qualquer
que seja o tipo de plano, o importante
responsáveis, a duração é que seja completo, preciso e, ao
mesmo tempo, fácil de consultar.
prevista para cada uma e os
resultados esperados; e que permita
verificar se as ações estão indo na direção
planejada, ou se será preciso replanejá-las.
O PLANO DA ESCOLA – É o planejamento geral da escola e
dessa forma, deve conter as atividades que serão desenvolvidas tanto
pelos que exercerão atividades pedagógicas quanto
administrativas. Indica as grandes metas da escola, os
pontos principais em torno dos quais a equipe decidiu atuar, a linha
metodológica, o processo de avaliação, as atividades gerais para todas as
séries. Ele é fruto da reflexão geral e orienta o planejamento de cada
professor, por isto é importante que ele tenha sido elaborado com a
participação de toda a comunidade escolar.

O PLANO DE ENSINO – é parte constituinte do Plano da escola,


por isto deve estar integrado a ele. É um roteiro organizado das unidades
didáticas para um ano ou semestre. É o instrumento pessoal de
organização de cada professor, a partir das metas gerais. Deve conter os
aspectos essenciais do trabalho a ser desenvolvido com os alunos: o que,
para que e como ensinar, além de indicar como o processo será
acompanhado. Pode apresentar de forma detalhada o que será trabalhado

68
Educação Didática do Ensino Superior – Unidade 7

ou ser mais resumido, como um conjunto de lembretes ou ideias-chaves.


O modelo, o tamanho e o detalhamento não são as questões mais
importantes do Plano de Ensino. O fundamental é que, ao elaborá-lo, o
professor tenha clareza da situação em que vai agir, em relação às
características dos alunos e aos recursos de que dispõe; e que faça do
plano seu roteiro flexível e articulado ao planejamento mais geral da
escola.
PLANO DE AULA – É o detalhamento do plano de ensino. As
unidades e subunidades que foram previstas no plano de ensino,
em linhas gerais, são detalhadas e sistematizadas para uma
situação real. É a organização sequencial do que será
desenvolvido pelo professor no
período escolar diário. Este
planejamento é indispensável e
deve ser considerado, como uma
tarefa que servirá para orientar
as ações docentes, como para a
revisão e o aprimoramento a
HTTP://WWW .POTDOMINGOSZARDO.SEED.PR.GOV.BR/REDE

cada ano. ESCOLA/ESCOLAS/27/1810/180/ARQUIVOS/IMAGE/CALE.JPG

7.2 Elaboração de um plano de ensino

FASES DO PLANEJAMENTO
1ª FASE:
Fazer um planejamento inicial, partindo das informações prévias que o
professor dispõe (classe, alunos), antes de entrar na sala de aula.
2ª FASE:

69
Educação Didática do Ensino Superior – Unidade 7

Adequação do plano aos alunos que cursarão aquela série, ou semestre,


ou período, conforme estipulado. Isto acontecerá nos primeiros encontros
entre o professor e os alunos. Nessa fase é preciso tentar identificar as
expectativas e necessidades dos alunos, o que conhecem das disciplinas
que serão lecionadas...

3ª FASE:
Avaliação da execução do plano de ensino. Essa avaliação deve ser feita
periodicamente, a fim de verificar se o planejamento está sendo eficiente
e tendo seus objetivos alcançados.

ELEMENTOS ou COMPONENTES DE UM PLANO DE ENSINO


1– IDENTIFICAÇÃO DO PROFESSOR E DA ESCOLA
2 – CURSO
3 – DISCIPLINA
4 – SEMESTRE/ANO
5 – CARGA HORÁRIA
6 – EMENTA
7 – OBJETIVOS – concretos e bem delimitados
8 – CONTEÙDOS - o tema ou temas da aula. Gerais: Fio condutor da
disciplina. Específicos: Desdobramento do objetivo geral
9 – ESTRATÉGIAS – as atividades que serão desenvolvidas
10 – AVALIAÇÃO – instrumentos ou meios para verificar se os
objetivos pretendidos serão alcançados
11 – REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

EMENTA: É uma descrição que resume o conteúdo de uma disciplina.


Características:

70
Educação Didática do Ensino Superior – Unidade 7

Os tópicos essenciais da matéria são apresentados sob a forma de frases


nominais (sem verbos);
A redação dos tópicos deve ser contínua.
Exemplos de expressões: “estude de...”, “pesquisas de...”, “demonstração
de...”, “orientação sobre...”, “explicitação de...”, “busca de compreensão
de...”, “definição de...”, “exame de questões sobre...”, “reflexão sobre...”
EXEMPLO:
Didática: Análise dos efeitos das mudanças culturais, científicos e
tecnológicas na educação e na Didática. Estudo da interdependência dos
elementos constitutivos das situações de ensino e de aprendizagem.
Estudo dos objetivos educacionais como norteadores da ação educativa.

• Pensar: O QUE vai propor


COMO vai propor
DO QUE VAI PRECISAR para propor

7.3 Atividades

1) Visite uma escola da sua cidade e conheça o plano escolar.


Observe sua estrutura, sua apresentação, as concepções
presentes, as propostas. Converse com alguns professores e peça
para ver o seu planejamento pessoal. Observe as diferenças, as
especificidades da disciplina, da turma e a individualidade
presente na forma de expressar as propostas de trabalho. Reflita e
elabore sobre a importância do planejamento para o trabalho
docente.

2) Elabore um plano de ensino.

71
Educação Didática do Ensino Superior – Unidade 7

7.4 Reflexão

O planejamento de ensino tem sido bastante questionado hoje,


principalmente quanto ao seu papel de orientador de práticas que
contribuam para a melhoria da qualidade do trabalho realizado
nas escolas. Há muitas queixas com relação ao distanciamento
dos objetivos propostos nos currículos dos cursos com a realidade
social, os conteúdos são trabalhos de forma autoritária, sem a
contribuição dos professores para a sua elaboração, deixando de
ser um elo com as experiências de vida dos alunos, predominam
ainda atividades com ênfase na transmissão de conhecimentos,
com pouco espaço para a discussão e o diálogo, entre muitos
outros desacertos percebidos. Dessa forma, o planejamento tem
sido realizado de uma forma desvinculada do todo, do social, ao
qual ele deveria estar integrado, dissociando-se do que se espera
de uma perspectiva crítica da educação. Percebe-se, claramente,
que o planejamento precisa ser repensado nas escolas. Se
queremos uma educação transformadora, devemos utilizá-lo como
arma fundamental para alcançar esta meta, adotando-o segundo os
princípios da participação, da análise crítica e global do processo
de ensino-aprendizagem, integrado dialeticamente ao concreto do
educando, buscando sua transformação.

72
Educação Didática do Ensino Superior – Unidade 7

7.5 Leituras recomendadas

LOPES, A. O. Planejamento do ensino numa perspectiva crítica de


educação. In: VEIGA, I. P. A Repensando a didática. Campinas, SP:
Papirus, 2004, p.55-64.
O artigo discute questões fundamentais sobre o planejamento nas
escolas, não numa perspectiva instrumental, mas numa perspectiva
crítica, como aponta no título, evidenciando a necessidade de se repensar
sua prática e de se ampliar e aprofundar a discussão sobre o tema.

LUCK, H. A. aplicação do Planejamento Estratégico na escola


Revista Gestão em Rede, n 19, abril 2000, p. 8-13.
No artigo a autora discute a importância do planejamento na escola,
ressaltando o seu significado e seu papel como elemento fundamental
para subsidiar as ações docentes em vista dos objetivos almejados.

7.6 Referências bibliográficas

BRASIL, Ministério da Educação e do Desporto. Raízes e Asas: projeto


de escola, vol. 4. CENPEC- Centro de Estudos e Pesquisas em Educação,
Cultura e ação Comunitária.

LIBÂNEO, J. C. Didática. São Paulo: Cortez, 1990

LOPES, A. O Planejamento do ensino numa perspectiva crítica de


educação. In: VEIGA, I. P. A Repensando a didática. Campinas, SP:
Papirus, 2004, p.55-64.

73
Educação Didática do Ensino Superior – Unidade 7

MAZETTO, M. DIDÁTICA: a aula como centro; São Paulo, FTD.

7.7 Na próxima unidade

Na próxima unidade vamos estudar a avaliação escolar, buscando


seus pressupostos e analisando as diferentes concepções e tipos. A
avaliação é um item fundamental no processo de ensino-aprendizagem.

74
AVALIAÇÃO

Avaliar é uma tarefa complexa, que


não se restringe à quantificação e valoração dos
resultados obtidos pelos alunos. É uma tarefa didática
necessária e permanente, e não pontual, como muitas
vezes se apresenta. Ao contrário, ela deve acompanhar todo
o processo de ensino e aprendizagem, para que, por meio dela,
se possa constatar os progressos, as dificuldades e as
reorientações que se mostrarem necessárias. Neste sentido é que
afirmamos que ela é uma atividade essencialmente reflexiva, pois
pode possibilitar um salto na qualidade da educação que se pretende
oferecer.

Você se lembra?
Você se lembra das avaliações escolares que fazia durante os anos
da educação básica? Você acha que elas estavam relacionadas com o
currículo apresentado para vocês, alunos? Se a avaliação não estiver
integrada ao currículo escolar, ela perde seu significado.
Educação Didática do Ensino Superior – Unidade 8

8.1 O sentido da avaliação escolar

Quando se pensa em avaliação, em geral, ela aparece relacionada


ao ato de “medir”, ou quantificar os resultados obtidos pelos alunos, com
a finalidade de selecionar e classificar. O sistema educacional apoia-se
na avaliação classificatória com a pretensão de verificar aprendizagem ou
competências através de medidas, de quantificações. Este tipo de
avaliação pressupõe que as pessoas aprendem do mesmo modo, nos
mesmos momentos e tenta evidenciar competências isoladas.
Infelizmente esta ainda costuma ser a referência para os gestores da
educação, professores, pais e os próprios alunos. Como afirma Zabala
(1998):
Basicamente, a avaliação é considerada como um instrumento
sancionador e qualificador, em que o sujeito da avaliação é o aluno
e somente o aluno, e o objeto da avaliação são as aprendizagens
realizadas segundo certos objetivos mínimos para todos.
(ZABALA, 1998, p.195).

Esta visão se apoia numa trajetória histórica da educação, em que


os processos avaliativos vêm servindo muito mais como instrumento de
exclusão do que de inclusão do aluno na escola. Novos estudos na área e
as declarações de princípios das reformas educacionais empreendidas em
diferentes países e por educadores preocupados e envolvidos com as
transformações que se mostram necessárias na educação, propõem
formas de entender a avaliação sob outra perspectiva. A legislação
vigente, expressa nas propostas curriculares diversas, tem se referido à
importância da avaliação da aprendizagem escolar, reiterando que ela
deve ser contínua, formativa e personalizada, devendo ser compreendida
como mais um elemento do processo de ensino aprendizagem, o qual nos

76
Educação Didática do Ensino Superior – Unidade 8

permite conhecer o resultado de nossas ações didáticas


para promover a melhoria da qualidade destas ações.
Conexão:
Nesta ótima mais recente, o processo Conheça as diretrizes da
LDBEN 9394/96 sobre a
seguido pelos alunos, o progresso pessoal, o avaliação na educação básica
. BRASIL. Senado Federal. Lei
processo coletivo de ensino-aprendizagem, etc., n° 9.394 de 20 de dezembro
de 1996. Estabelece as
aparecem como elementos ou dimensões da Diretrizes e Bases da
Educação Nacional.
avaliação, ainda de acordo com Zabala. Brasília/DF, 1997.

A avaliação é um instrumento que ajuda o


professor a tomar decisões sobre o seu trabalho, o que implica mudanças
fundamentais, especialmente nos conteúdos e nos processos avaliativos.
Os conhecimentos que já adquirimos sobre como se produzem as
aprendizagens revela a singularidade destes processos, impossibilitando o
estabelecimento de propostas universais, principalmente se levarmos em
conta o fato de que as experiências individuais são o valor básico de
qualquer aprendizagem. Estas experiências devem ser o eixo dos
processos avaliativos.
Desta forma, o que se propõe é uma reestruturação interna na
escola quanto à sua forma de avaliação. É preciso considerar a urgência,
no cotidiano das escolas, de uma avaliação contínua, formativa, na
perspectiva do desenvolvimento integral do aluno. É primordial que se
estabeleça um diagnóstico correto para cada aluno para que se identifique
as possíveis causas de seus fracassos e/ou dificuldades visando uma
maior qualificação e não somente uma quantificação da aprendizagem.

Portanto, é necessário que o educador se questione:


O que os meus alunos sabem em relação ao que quero ensinar?
Que experiências tiveram?
O que são capazes de aprender?

77
Educação Didática do Ensino Superior – Unidade 8

Quais são seus interesses?


Quais são seus estilos de aprendizagem?

De acordo com Zabala


(idem, p.199), a avaliação,
nesta perspectiva formativa,
compreende algumas fases:
Avaliação inicial:
consiste em conhecer o que
o aluno sabe, sabe fazer e, o
que pode chegar a saber, HTTP://4.BP.BLOGSPOT.COM/_CM2L6Y3ULGG/SVKQJ4JNUUI/AAAAAAAABIW /J2XTW6QMB2

Y/S320/AVALIACAO.JPG
saber fazer ou ser, e como
aprendê-lo. Este é o ponto de partida que deve servir de referencia para a
elaboração de atividades e tarefas que poderão favorecer a aprendizagem.
No processo de aplicação das atividades pensadas anteriormente, será
necessário adequar à realidade do aluno e da classe, ao conteúdo, ao
tempo, ás formas de agrupamento, etc. Esta é a avaliação reguladora.
Avaliação Reguladora: enquanto se desenvolve o plano previsto e
de acordo com as respostas dos alunos, existe a necessidade de se
introduzir novas atividades, gradativamente mais desafiadoras, assim
como ir promovendo uma intervenção mais contingencial. Para a
Avaliação Reguladora ou Formativa, é fundamental o conhecimento de
como cada aluno aprende ao longo do processo de ensino-aprendizagem,
para se adaptar ás novas necessidades que se colocam (idem, p.200).
Avaliação Final ou Somativa: Para conhecer a situação de cada
aluno e tomar as medidas educativas pertinentes, é preciso sistematizar o
conhecimento do progresso seguido, o que requer apurar os resultados e

78
Educação Didática do Ensino Superior – Unidade 8

analisar o processo e a progressão que cada aluno seguiu, para continuar


sua formação.
É preciso cuidado na utilização conjunta dos dois termos. O
conhecimento dos resultados está mais diretamente associado a avaliação
final e a análise dos resultados à avaliação somativa, que desta forma, é
entendida como integradora, pois:

A partir do conhecimento inicial (avaliação inicial), manifesta a


trajetória seguida pelo aluno,as medidas específicas que foram
tomadas, o resultado final de todo o processo e, especialmente, a
partir deste conhecimento,as previsões sobre o que é necessário
continuar fazer de novo. (ZABALA, 1998, p.201).

O aperfeiçoamento deste processo é urgente, uma vez que ele visa


o aperfeiçoamento do próprio trabalho educativo, que é o objetivo de
cada educador. Conhecer e avaliar a intervenção pedagógica é uma das
tarefas de todos que se preocupam com o oferecimento de uma educação
de qualidade pra toda a população.

8.2 Atividades

1) Releia com atenção o material desta aula, pesquise em outras


fontes e elabore uma redação com o tema: A importância da
avaliação no processo de formação do aluno.

2) Para reforçar seu estude, explique os conceitos estudados aqui


sobre as fases da avaliação.

79
Educação Didática do Ensino Superior – Unidade 8

8.3 Reflexão

Você já pensou nas reais finalidades da avaliação? Para que


avaliamos? De que forma podemos construir um instrumento que
possibilite acompanhar o desenvolvimento do aluno e permitir a ele o seu
progresso, intelectual, moral, afetivo e cognitivo? São muitos os
questionamentos que surgem quando nos propomos a analisar a avaliação
numa perspectiva formativa. Cabe ao professor realizar cotidianamente
as reflexões sobre sua prática educativa e analisar os diferentes fatores
que estão relacionados com esta problemática, na tentativa de melhorar
os conhecimentos sobre a avaliação e sua utilização como elemento que
pode auxiliá-lo o desenvolvimento de sua função pedagógica e social.

8.4 Leitura recomendada

LUCKESI, C. C. Avaliação da Aprendizagem Escolar São Paulo:


Cortez, 14ª edição, 2002.
No livro são apresentados estudos críticos sobre a avaliação da
aprendizagem escolar e proposições para torná-la mais viável construtiva,
numa abordagem sociológica, política e pedagógica.

8.5 Referências bibliográficas

LIBANEO, J. C. Didática. São Paulo: Cortez.

ZABALA, A. A. prática educativa: como ensinar. São Paulo: artmed,


1998.

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