Você está na página 1de 4

Aluna: Ananda Ananias Felisberto

Orientador:

Resumo

A prisão moderna — surgida entre os séculos XV e XVII — é, hoje, uma das tantas
instituições sociais contestáveis, seja quando atua como sustentadora dessa sociedade, seja quando expõe suas
contradições. Detentora de uma arquitetura penitenciária própria, o cárcere já foi analisado de diversas
perspectivas que procuram compreender os efeitos que a busca pela “reformulação” desse ambiente alega
exercer.

Um dos pontos relevantes nesse prisma analítico é o da educação prisional no Brasil, junto à suas
contradições, proposições e limites. A educação no sistema penitenciário começou a ser oferecida na década
de 1950, como um dos programas de tratamento e requalificação dos sujeitos que estivessem em situação de
cárcere. Dessa maneira, à educação foi visto como precaução indispensável para que o processo de
reformulação e ressocialização pudessem gerar bons resultados.

No Brasil, existe ainda a possibilidade de indivíduos infanto-juvenis, ao cometerem atos


infracionais realizarem medidas socioeducativas. Elas foram criadas com base na Doutrina de Proteção
Integral, dos Direitos Humanos e da Constituição da República Federativa do Brasil, bem como da lei nº
8069/90. Dessa forma, pode-se ser indicado métodos variados — que vão desde advertência até a internação
em estabelecimento educacional—, dentro de uma concepção de reabilitação e educação, a depender das
circunstâncias e gravidade do ocorrido.

Os jovens e as jovens, entretanto, que são encaminhadas para cumprir medidas socioeducativas,
esbarram em diversos fatores contraditórios do que são hoje as cadeias no Brasil do século XXI, muitas vezes
marcadas pela ausência dos direitos humanos básicos e pela presença constante da violência em diversos
níveis: a do abuso de poder até à vida em condições de insalubridade. Observa-se, também, que ao se realizar
o recorte de gênero e raça dentro do sistema prisional brasileiro, novas questões surgem, e que, muitas vezes,
vão aprofundar as desigualdades, violências e ausências desse espaço.

Tendo esse cenário em mente é que algumas questões, derivadas do cotidiano e realidade práticas das
prisões, ainda precisam ser compreendidas e analisadas, por exemplo, por qual o percurso formativo as
meninas em medida socioeducativa optam? Existe essa possibilidade? Há orientação pedagógica ou
vocacional? As egressas da medida preventiva continuam os estudos? Qual as taxas de permanência e evasão?
Existe pertinência para criação de um projeto integrado e multidisciplinar de ciências para as meninas
cumprindo medidas socioeducativas?
Essas são algumas das questões norteadoras da pesquisa que se propõem realizar, tendo como campus
de estudo o Centro de Atendimento Socioeducativo ao Adolescente Chiquinha Gonzaga, localizada no Bom
Retiro, Em São Paulo - capital.

Objetivos

O presente projeto de pesquisa tem como proposição observar as adolescentes e suas vivências no
Centro de Atendimento Socioeducativo ao Adolescente Chiquinha Gonzaga observando, sobretudo, três
aspectos:

i) A existência e oferta de percursos formativos na instituição, e, se existente, qual a maior


parte das jovens optam por seguir. Avaliando, também, a pertinência de criação de um
projeto integrado e multidisciplinar de ciências a ser oferecido;
ii) A existência e oferta de orientação pedagógico ou vocacional dentro dessa instituição; e
iii) As taxas de permanência e evasão escolar das egressas do Centro de Atendimento
Socioeducativo.

Compreende-se, também, que é importante para o desenvolvimento da pesquisa, compreender como é


organizado o sistema prisional brasileiro, o desenvolvimento da concepção e oferta de educação nas prisões,
como está pensada a reeducação par ameninas e como está organizada a socioeducação de jovens. Afinal,
essas são questões orbitárias do objeto central de estudo, e que sem a compreensão delas não se conseguiria
realizar a observação, levantamento de situações e reflexões sobre o contexto de meninas em medidas
socioeducativas plenamente.

Problemas e justificativas

A existência de sujeitos e sujeitas com suas liberdades restritas e a criação de Centros de Atendimento
Socioeducativo como uma das possibilidades de medida para integração e ressocialização coloca novas
problemáticas para a pedagogia e seus profissionais. Que caráter tem essa educação? Como é garantida? O
que se espera dela? Essas poderiam ser algumas questões levantadas, sobretudo pela perspectiva de que hoje,
no Brasil, o sistema penitenciário descumpre diversos Direitos Humanos, ignorando e negando o bem-estar e
a dignidade humana, ou seja, gerando mais danos para o processo de reinserção social do que benefícios.

A educação de meninas e jovens mulheres tem sido, ao menos tempo, pauta das instituições escolares
como um todo, seja pela necessidade de repensar e garantir maior equidade de oportunidades dentro da escola,
seja porque reconhece-se hoje especificidades de gênero relacionadas às trajetórias escolares das nascidas no
sexo feminino. Portanto, pensar a realidade das jovens cumprindo medidas socioeducativas é importantíssimo,
porque contribui para pensar a igualdade entre os gêneros, mas, sobretudo por trazer novos questionamentos
e reflexões ao debate.
Além disso, tendo a Universidade em seu tripé a proposição da pesquisa e extensão, essas duas
conseguem se articular no presente projeto de estudo ao realizar um trabalho diretamente com uma instituição
moderna chave para compreender os problemas e saídas do Brasil atual, com sujeitos em situação de grande
vulnerabilidade.

Optou-se, também em construir e propor, um projeto integrado e multidisciplinar de ciências, por


compreender que, atualmente, o acesso, debate e compreensão do que é ciência no país e Mundo tornou-se
uma das chaves produtivas para a autonomia e dignidade humanas, evitando que fanatismos, ou misticismos
dominem a subjetividade e vivência prática dos sujeitos, permitindo desmistificar algumas noções populares
no que diz respeito à ciência, seu acesso, produção e utilidade.

Esses seriam os principais pontos de problemáticas e justificativas para a presente pesquisa, que se
pretende observar, em um espaço, tempo e faixa limitada, compreender parte do processo de educação das
jovens em instituições socioeducativas.

Aspectos éticos

As pesquisas envolvendo seres humanos devem prezar pela ética, seguindo as orientações gerais no
que diz respeito às sistematizações e parâmetros já existentes sobre o tema. Dessa maneira, a presente pesquisa
leva em conta os princípios norteadores apresentados pelo Código de Ética da USP e pelos princípios da
Resolução do Conselho Nacional de Saúde, que tem como tripé: o direito de buscar conhecimento até onde a
procura da verdade possa conduzir, tolerar opiniões divergentes e a liberdade em face de qualquer interferência
política e a obrigação de promover os princípios de liberdade, dignidade humana e solidariedade.

Buscou-se utilizar métodos adequados e compatíveis com as normas éticas, bem como publicizar os
objetivos e resultados da pesquisa e apresentar a conclusão de dados e créditos a colaboradores e outros
pesquisadores e trabalhos que se relacionem com a pesquisa em pauta.

Para tanto, foram estabelecidos que os indivíduos-alvo devem consentir livremente e de forma
esclarecida participarem da pesquisa, e que o processo de pesquisa deve se balizar sempre pela ponderação de
riscos e benefícios, individuais e coletivos, buscando o mínimo de danos e riscos, garantindo que danos
previsíveis serão evitados. Além disso, preza-se pela relevância social do objetivo analisado, garantindo
consideração pelos interesses dos envolvidos e garantindo a destinação sócio humanitária.

Metodologia

A metodologia de pesquisa que se propõe adotar é de caráter descritivo, procurando realizar uma
análise da situação das meninas residentes no Centro de Atendimento Socioeducativo ao Adolescente
Chiquinha Gonzaga, no que diz respeito ao acesso e permanência no universo escolar e dos percursos que eles
permitem.
Além disso, optou-se por utilizar a análise qualitativa, como forma de levantar e comprovar hipóteses
por meio da percepção do meio, entrevistas e uso de questionários, procurando traduzir a realidade material
observada.

Também estão previstas a análise bibliográfica e de documentos, como forma de compreender o


cenário geral pesquisado, bem como conhecer e buscar referenciais teóricos dentro da fortuna crítica já
produzida sobre o tema da educação de meninas cumprindo medidas socioeducativas.

Cronograma de atividades

Referências bibliográficas