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colcçao

ATCMPORAIS

GIOVANNI PASCOLI

O MENININHO
P E N S A M E N T O S SOBRE A ARTE

Prefácio
RAÚLANTELO

Posfácio e Tradução
PATRÍCIA P E T E R L E
© 2 0 1 $ Rafael Zamperetti C o p e t t i Editor L t d a .
Nesta edição respeitou-se o estabelecido no Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de
ippo, adotado pelo Brasil em zoop.

Título originai
Sumário i j \
// fanciulUno
Traduzido a partir da edição de 1 9 1 4 de Pensieri e discorsi, de G i o v a n n i Pascoli,
.„lt
publicada em Bolonha pela editora Zanicheíli.
^ ^ ^ í t A \'
Título e m português
O menininho: pensamentos sobre a arte

I m ^ e m da capa
Detalhe de Escapando de la crítica, 1 8 7 4 .
Prefácio
Óleo sobre tela, Pere BorreU dei C a s o , 1 8 3 5 - 1 9 1 0 .
A voz humana
C o n s e l h o editorial Raúl Antelo 1
Andrea Santurbano | U F S C | ; Andréia Guerini | U F S C | ; Annatcrcsa Fabris jECA/uspj;
Aurora Bernardini jusp); Dirce Waltrick do Amarante |uFSc|;
Flávia Tronca | A R T I S T A P L Á S T I C A ] : Giorgio D e Marchis I U N I V E R S I T À D E G L I S T U D I
R O M A T R E ( ; Lúcia S á [ U N Í V E R S I T Y O F M A N C H E S T E R ) ; Luciene L c h m k u h l I U F P B ) ;
O menininho: pensamentos sobre a arte
M a m e d e Mustafa Jarouche juspj; Marcos Tognon | U N I C A M P | ;
Giovanni Pascoli 9
Maria Lúcia de Barros Camargo j u F S c j ; Mariarosaria Fabris |USP|;
Paulo Knauss j u F F ) ; Pedro Heliodoro Tavares lusp]; R i t a Marnoto | U N I V E R S ] D A D E D E
C O I M B R A ] ; Tânia Regina de L u c a | U N E S P / A S S I S |
Posfácio
E d i t o r Rafael Zamperetti Copetti
Diretores da coleçáo Rafael Zamperetti Copetti \ Peterle Estranhamento e experiência do pensamento
Coordenador editorial Luciano Pereira Alves
Assistente editorial Vitor Livramento
Patrícia Peterle 71
C a p a e projeto gráfico SGuerra Design
Prefácio Raúl Antelo
Posíacio e tradução Patrícia Peterle Notas 77
Preparação dos originais Juliana Queiroz
Revisão de provas Rafael Zamperetti Copetti

Nota à tradução 85
2015 I Série ] Edição [ CoLEÇÂO A T E M P O R A I S j V O L . 0 4

Proibida a reprodução total ou parcial desta obra por qualquer meio


salvo mediante expressa autorização por escrito da editora.

Todos os direitos reservados para todos os países à


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Impresso no Brasil ] Printcd in Braz.il
A voz humana

H á d e n t r o de nós u m m e n i n i n h o , nos diz


Pascoli, cuja voz, na infância, confunde-
-se com a nossa, mas que, c o m o crescimento,
enquanto engrossamos e enferrujamos a própria,
a dele, p o r é m , se m a n t é m sempre c o m o " u m a
ténue vibração de u m sino". A voz é a dimensão
ontológica fundamental do h o m e m e c o n s t i t u i
para ele uma imagem do indizível porque, presa à
negatividade, ela está, entretanto, absolutamente
inserida na temporalidade, que se manifesta na e
através da enunciação, tal como a psicanálise e a
desconstruçáo conseguiram ver e mostrar.

Contudo, se o significante é primordial em nossa


cultura, náo é menos verdade que a metafísica náo
é apenas supremacia da voz sobre a escrita, mas voz
sempre barrada, suprimida, portanto. Voz (sistema,
abstração) e náo voz (contingência, materialidade).
Nessa cogitatio secundum vocem solam, como diz
Gaunilo de M a r m o u t i e r s , abriga-se a experiência
de algo que já náo é u m puro som, mas ainda náo
e u m significado. D i z , portanto, Pascoli, pensando
nas origens:

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RAÚL ANTELO A voz HUMANA

O poeta, se é e quando é realmente poeta, vale dizer, aquele ela passará inadvertida, o u será mesmo esque-

que só expressa o que o menino lhe dita dentro, consegue ser cida. N a verdade, se for repetida c o m frequên-

inspirador de bons e civis costumes de amor pátrio, familiar e cia, se fundirá com o tempo, tal como se dá c o m o

humano. Daqui a crença e o fato de que o som da cítara unisse gorjeio das andorinhas, que depois de ser ouvido

as pedras para fazer o muro da cidade, animasse as plantas, por u m tempo, já náo se escuta mais... A experiência

amansasse as feras da selva primordial, e que os cantores guias- da escuta se anestesia e se torna inaudível, invisível.

sem e educassem os povos. As pedras, as plantas, as feras, os Amarra-se, neste p o n t o , a experiência da voz e
primeiros povos seguiam a voz do eterno menino, de um deus a do elemento sacer da nossa cultura, justamente
jovenzinho, do menor e do mais tenro que estivesse na tribo porque a voz é o que define a linguagem como
dos homens selváticos. negatividade. T a n t o a voz q u a n t o o sacer sáo,
com efeito, condições ambivalentes que i m p l i c a m

N â o existe, a rigor, uma voz para a linguagem, uma exclusão, mas t a m b é m u m a f u n d a m e n t a l

porque ela é, desde o início, vestígio infinito. Ana- negatividade de toda práxis bumana. N á o bá açáo

lisando, contudo, o problema da voz em Hegel, do bomem que esteja naturalmente fundada. Ele
Agamben nos diz que a voz só aparece para o Escla- deverá construí-la e atribuí-la a si próprio, daí que
recimento quando a memória se torna linguagem esse ato náo exclua nunca a violência, mas, antes, a
e permite a manifestação da consciência. A pura pressuponha. Essa violência sagrada é aquilo que o
voz animal, náo-articulada (o som das vogais), ao sacrifício instaura e reitera na estrutura, com o qual
ser articulada, no b o m e m , às consoantes, permite se evidencia que a violência nada tem de espontânea
a emergência dos nomes. E com ela, a linguagem ou natural: ela é sempre uma construção histórica.
bumana, enquanto suspensão e articulação o u con- Carente de f u n d a m e n t o , o b o m e m dissemina,
servação desse traço evanescente, torna-se túmulo então, fundações das quais entretanto náo pode se
da voz animal, que custodia e, consequentemente, proclamar fundador, porque seu valor náo depende
conserva aquilo que tem de mais intransferível: o de u m epos pretérito, mas de uma concatenada açáo
M o r t o . " A voz decorre de in-vocaçáo e de apelo. de equivalências. A Voz e o elemento sacer sáo, na
Pascoli ainda imagina que, uma vez m o r t o o po- verdade, e em consonância náo só com a própria
eta, se a sua voz foi pura, se foi a voz da alma e praxis social, mas também com a fala bumana,
das coisas, e nâo apenas o eco de uma voz albeia. completamente transparentes.

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RAÚL ANTELO A voz HUMANA

U m a fundação completa da humanidade em si Kxiste uma voz que seja voz do homem como o fretenir é a
mesma deveria, em vez disso, significar a definitiva voz da cigarra ou o zurro é a voz do jumento? E , caso exista,
eliminação do mitologema sacrificial e das ideias de é esta voz a linguagem? Qual a relaçáo entre voz e linguagem,
natureza e de cultura, de indizível e de dizível que entre phoné e logost E se algo como uma voz humana não
nele se fundam. Até mesmo a sacralização da vida existe, em que sentido o homem pode ainda ser definido
deriva, de fato, do sacrifício: deste ponto de vista, como o vivente que possui linguagem? Tais questões, que
ela nada faz além de abandonar a vida nua natural aqui formulamos, delimitam uma interrogação filosófica.
à própria violência e à própria indizibilidade para Segundo uma antiga tradição, o problema da voz e de sua
fundar, então, sobre estas, toda regulamentação articulação era, na realidade, um problema filosófico por
cultural e toda linguagem. O rjOoç, o próprio do excelência. De voeis nemo magis quam philosophi tractant,
b o m e m , náo é u m indizível, u m sacer que deve lé-se em Sérvio e, para os E s t ó i c o s , que deram o impulso
permanecer náo dito em toda práxis e em toda decisivo à reflexão ocidental sobre a linguagem, a voz era a
palavra bumana. Ele náo é nem mesmo u m nada, archéàd. dialética. Entretanto, a filosofia quase nunca colocou
cuja nulidade funda a arbitrariedade e a violência tematicamente o problema da voz...'
do fazer social. Ele é, antes, a própria práxis social
e a própria palavra bumana tornadas transparentes Mas, em outros textos dos anos 80, como "Voca-
a si mesmas.^ ção e voz" (1980), Agamben antecipa algumas ideias
Essas ideias de Agamben atravessam Infância e que retornarão também em "Ideia da linguagem"
história (1977) tA linguagem e a morte (1982). Mas, (1984), vale dizer que associa o conceito de voz à
diga-se de passagem, que, entre 1981 e 1982, o filó- Istimmung, que tal como Stimme, voz, pertence, de
sofo também começa a analisar a obra de Giovanni início, à esfera acústico-musical, mas equivale àquilo
Pascoli,^ em particular a questão da voz,"* e, como que os gregos chamavam de harmonia, e, assim, i n -
confessa no prefácio à edição francesa de Infância e daga as consequências desse conceito em Heidegger.
história (1989), intitulado "Experimentum linguae", Desse modo, a Stimmung da angústia só se torna
conserva, entre seus papéis daquela época, o projeto compreensível se referida a uma lautlose Stimme,
de u m livro, de algum modo inspirado em Pascoli, uma voz sem som, que nos ajusta [stimmt] ao terror
que se chamaria A voz humana. N u m a das folhas do abismo, diz Heidegger, em O que é a metafisical.
avulsas desse livro inédito, Agamben perguntava-se: ó^gamben, por sua vez, pergunta-se, então, em poucas

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RAÚL ANTELO A voz HUMANA

palavras, se a Stimmung, tornada Stimme, pode dar à equilíbrio que guardam, por exemplo, os silentes, o u
linguagem u m lugar. Pode haver voz para a vocação defuntos). E a morte entra aqui náo como algo que
histórica do homem? O u , invertendo a questão, pode deva ser reverenciado, para mantê-lo à distância, mas
a história vir a ser a autêntica natureza do homem? algo que, disseminado, nos atravessa constantemente.
O niilismo do filósofo tende a pensar que o homem Como se vê, este livro de Pascoli suscitou uma das
é colocado perante a sua ausência de voz, e é a partir mais poderosas reflexões contemporâneas sobre a arte
dessa situação, de visceral afonia, que ele compreen- c a morte. Náo é o menor de seus méritos, e ele certa-
de, enfim, estar diante da linguagem como quem se mente funciona como credencial para novos leitores.
posiciona perante a morte.
Mas caberia, ainda, arbitrar que esse modelo da RAÚL ANTELO

Stimmung irriga uma compreensão da democracia


como harmonia, que se opõe, no cenário contem-
porâneo, à versão dominante da democracia como
autonomia. A harmonia náo é dada, mas conquista-
da, construída, donde poderíamos pensar que a voz
joga papel decisivo na construção de uma democracia
náo necessariamente deliberativa o u representativa,
mas atuada, vivida, agonística, porque tão o u mais
importante do que o poder falar é, para o bomem,
o poder náo falar, a steresis. C o m o afirma Kalpana
Sesbadri, "man is tbe living being wbose logos is
cbaracterized first and foremost as always i n poten-
tial (as tbe power to tbink) and i n exbaustible i n tbe
act".^ A o ser potencial e revelar uma potência (e náo
necessariamente u m poder) de pensamento, a ausên-
cia de voz, no bomem, náo é bem uma questão de
tacere (o mutismo dos independentes de toda relação
histórica), mas é, antes, uma questão de silere (do

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o menininho: pensamentos sobre a artí H á dentro de nós u m menininho" que náo somen-
te tem arrepios, como acreditava Cebete Teba-
no, o primeiro a descobri-lo em si mesmo, mas que
também tem lágrimas e alegrias próprias. Contudo,
quando a nossa idade é tenra, a sua voz se confunde
com a nossa, e das duas crianças que brincam, brigam
e, sempre juntas, temem, esperam, gozam e choram,
sente-se uma só palpitação, u m único gritar e ganir.
Então, crescemos e ele permanece pequeno. Nos
nossos olhos se acende u m novo desejo, e ele conserva
fixa a sua antiga e serena maravilha. Engrossamos e
enferrujamos a nossa voz, enquanto a dele se mantém
sempre como uma ténue vibração de u m sino. Esse
tinido secreto náo percebemos tão claramente na
juventude, como depois na idade madura, porque,
ocupados em brigar e advogar pela causa de nossa
vida, nos importamos menos com o lado da alma
onde ele ressoa. Além disso, o invisível menininho
se acanha mais quando está perto do jovem do que
quando está ao lado do bomem já feito ou do velho,
porque descobre mais diferenças com o primeiro do
que com os demais. O jovem, na realidade, m u i t o
GiCfwtNNi PASCOU
O MENININHO: PENSAMENTOS SOBRE A ARTE

raramente e de forma fugaz, se entretém com o mais ver, entáo, o velho vê somente com aqueles gran-
m e n i n i n h o . Despreza a conversa, como quem se des olhos que estáo no seu interior, e náo tem diante
envergonha de u m passado ainda demasiado recente. de si outra coisa a náo ser a visáo que teve quando
O homem maduro, ao contrário, ama falar com ele, menino, que é normalmente a mesma de todas as
ouvir a sua tagarelice e responde-lhe com o mesmo crianças. Se alguém tivesse que descrever Homero,
t o m e seriedade. A q u i , a harmonia dessas vozes é táo deveria traçá-lo velho e cego, conduzido pela máo
doce de se escutar como u m rouxinol que gorjeia por um menininho que falasse sempre observando
perto de u m riacho que murmura. tudo ao seu redor. Por u m menininho ou por uma
O u ainda próximo do velho mar cinza, que fati- menina — por u m deus ou por uma deusa — pelo
gado pela ânsia da vida, se cobre de brancas espumas deus que semeou no interior de Fêmio as muitas
e agoniza na praia. Porém, entre uma onda e outra canções, ou pela deusa a quem se dirige o cego aedo
tocam as notas do rouxinol, ora soluçadas como u m de Aquiles e de Ulisses.'
lamento, ora distanciadas como u m júbilo, ora pon-
teadas como uma pergunta. O rouxinol é pequeno, o
mar é grande: u m é jovem, o outro é velho. Velho II
o aedo, e jovem é a sua ode. Váinámôinen é antigo,
e novo é o seu canto.^ Q u e m pode imaginar, senáo
velho, o aedo e o bardo? Vyàsa envelheceu na penitên-
cia e conhece todas as coisas sacras e profanas. Velho;
M as, o gárrulo guri ou a virgem vogal estavam
invisíveis dentro dele, eram sua própria me-
ninice, conservada no coração, por meio da vida, e
é Ossian, velhos muitos dos skaldi (escaldo). O aedo renascida para lembrar e cantar, depois do grande
é o bomem que v i u {oide) e por isso sabe e, talvez, ei rumorejar dos sentidos. Por isso, sua meninice falava
alguns momentos, náo vê mais. E o vidente {aoidós) mais de Aquiles do que de Helena, e se entretinha
que faz surgir o seu canto.^ mais com Ciclope do que com Calypso. Náo sáo os
Náo é a idade madura que impede de se escutar a amores nem as mulheres, por mais belas e deusas que
vozinha da criança interior, aliás, talvez a convida '^jam, que sáo caras aos meninos, sáo, sim, as bastes
estimula a escutá-la na penumbra da alma, quando o e bronze e os carros de guerra, as longas viagens e as
ruído da juventude já foi embora.'' E se os olhos, co grandes travessias. Assim, essas coisas eram narradas
os quais miramos para fora de nós, náo consegue velho Homero, pelo seu menininho, mais do que

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GIOVANNI PASCOU
O MENININHO: PENSAMENTOS SOBRE A ARTE

raramente e de forma fugaz, se entretém com o mais ver, entáo, o velho vê somente com aqueles gran-
m e n i n i n h o . Despreza a conversa, como quem se des olhos que estáo no seu interior, e náo tem diante
envergonha de u m passado ainda demasiado recente. de si outra coisa a náo ser a visáo que teve quando
O homem maduro, ao contrário, ama falar com ele, menino, que é normalmente a mesma de todas as
ouvir a sua tagarelice e responde-lhe com o mesmo crianças. Se alguém tivesse que descrever Homero,
t o m e seriedade. A q u i , a harmonia dessas vozes é táo deveria traçá-lo velho e cego, conduzido pela máo
doce de se escutar como u m rouxinol que gorjeia por u m menininho que falasse sempre observando
perto de u m riacho que murmura. tudo ao seu redor. Por u m menininho ou por uma
O u ainda próximo do velho mar cinza, que fati- menina — por u m deus ou por uma deusa — pelo
gado pela ânsia da vida, se cobre de brancas espumas deus que semeou no interior de Fêmio as muitas
e agoniza na praia. Porém, entre uma onda e outra canções, ou pela deusa a quem se dirige o cego aedo
tocam as notas do rouxinol, ora soluçadas como u m de Aquiles e de Ulisses.'
lamento, ora distanciadas como u m júbilo, ora p o n -
teadas como uma pergunta. O rouxinol é pequeno, o
mar é grande: u m é jovem, o outro é velho. Velho é li
o aedo, e jovem é a sua ode. Váinámôinen é antigo,
e novo é o seu canto.^ Q u e m pode imaginar, senáo
velho, o aedo e o bardo? Vyàsa envelheceu na penitên-
cia e conhece todas as coisas sacras e profanas. Velho
M as, o gárrulo guri ou a virgem vogal estavam
invisíveis dentro dele, eram sua própria me-
ninice, conservada no coração, por meio da vida, e
é Ossian, velhos muitos dos skaldi (escaldo). O aedo renascida para lembrar e cantar, depois do grande
é o bomem que v i u {oide) e por isso sabe e, talvez, e m rumorejar dos sentidos. Por isso, sua meninice falava
alguns momentos, náo vê mais. É o vidente {aoidós) mais de Aquiles do que de Helena, e se entretinha
que faz surgir o seu canto.' mais com Ciclope do que com Calypso. Não sáo os
Náo é a idade madura que impede de se escutar a amores nem as mulheres, por mais belas e deusas que
vozinha da criança interior, aliás, talvez a convida e 'ejam, que sáo caras aos meninos, sáo, sim, as bastes
estimula a escutá-la na penumbra da alma, quando o de bronze e os carros de guerra, as longas viagens e as
ruído da juventude já foi embora.'* E se os olhos, com grandes travessias. Assim, essas coisas eram narradas
os quais miramos para fora de nós, náo conseguem ao Velho Homero, pelo seu menininho, mais do que

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GIOVANNI PASCCLI O MENININHO: PENSAMENTOS SOBRE A ARTE

as belezas daTindáride e os prazeres da deusa da noite boca: "obedeçam, porque obedecer... é melhor",
e da filba do s o l / E narrava-as com a sua peculiar, só eu devo ficar sem regalos, náo é justo". A clareza
linguagem infantil. unca é demais: "Os pintinhos eram oito, nove com
Retornava de países talvez táo distantes como mãe, que os tinha feito", "Aias, o menor, náo táo
poderia ser a aldeia, que está mais perto dos pasto- rande como o outro, bem menor: era pequenino...",
res do que a montanha. C o n t u d o , falava disso com 'guinas vezes, sem querer, o resultado era sublime:
outros meninos que nunca tinham estado ali. Falava ulava uns pormenores para chegar no que mais
longamente, com ardor, alinhavando u m detalhe após nteressava e que era mais sensível. U m arqueiro
o outro, sem esquecer de nenhum, nem mesmo, por 'ivino atirava o arco "e em todo lugar se viam pilhas
exemplo, de que os galhos a serem queimados eram e lenha acesas para queimar os mortos". O deus
sem folhas. Pois, tudo o que tinha visto lá lhe parecia upremo movimentou as sobrancelhas e mexeu os
novo e belo e acreditava que deveria transparecer 'belos, "e sacudiu o O l i m p o , que é táo grande",
do mesmo modo aos ouvintes. As palavras "belo" esse sentido, sobretudo, para fazer entender todo
e "grande" eram recorrentes no seu contar, e ele seu pensamento, n u m fato ou espetáculo novo e es-
encaixava sempre na sua fala uma nota, com a qual tranho, engenhava-se com comparações a partir do
seria possível reconhecer a coisa. Dizia que os navios que ele mesmo e seus ouvintes tinham debaixo dos
eram pretos, que tinham a proa pintada, que boia- olhos ou no ouvido. Para tal, utilizava dois métodos
vam porque estavam bem balanceados, que tinham oncrários: ora lembrava de u m fato pequeno para
belos instrumentos e belos bancos, que o mar era de fazer entender u m maior, ora de u m grande para fazer

muitas cores, que se movia incessantemente e que ntender outro menor. Assim, representava u m mar

era salgado e espumejante. Os guerreiros? T i n h a m os agitado que, com grandes ondas espumantes, se joga

cabelos longos. Os capacetes? T i n h a m penachos que contra a praia, estrepitando e trovejando, para dar a

se movimentavam com o caminhar. E as lanças? Fa- ideia de

ziam uma longa sombra. Para náo ser mal entendido, uma multidão de homens que acorrem para

repetia o mesmo pensamento de outra forma: dizia um lugar, e descrevia u m enxame de moscas ao redor
•^c jarras repletas de leite, para expressar o confuso
" u m pouquinho, náo m u i t o ! " , "viver, náo morrer!", e
c vasto aglomerar-se de u m exército de guerreiros.
também "falou e disse", "reuniram-se e foram todos
Esse era seu único artifício, se é possível cha-
para u m lugar". E náo faltavam explicações de calar
mar de artifício o que ele fazia táo ingenuamente.
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O MENININHO: PENSAMENTOS SOBRE A ARTE
GIOVANNI PASCOLI

a meu ver, seriam tamanhas a miséria e a solidão. Náo


De modo que, com a sua comparação, frequenteme
teria dentro de si o seio côncavo, do qual ressoar as
te, por mais que ficasse mais clara, a coisa acabava p
vozes dos outros homens, e nenhuma nota de sua
parecer menor. Por exemplo, quando aproximava
alma chegaria à alma de seus próximos. Estaria unido
fluido falar de alguns velhos sábios ao incessante ch'
à humanidade somente pelas correntes da lei, que
tear das cigarras, ou, ainda, a resistência de u m gran
sacudiria tragicamente sendo u m escravo, u m rebelde
herói à indiferença de u m burro que insiste em com
pela novidade, ou seria conduzido levemente por elas,
capim do prado de onde algumas crianças quere
como u m indiferente, devido ao hábito. Porque os
tirá-lo com bastonadas. N á o , náo: o menininho d
homens náo se sentem irmãos entre si, crescem dife-
cego náo queria fazer as honras para si, queria, si
rentes e diversamente se armam, armando-se todos
ser entendido. N á o exagerava, porque os fatos q
para a batalha da vida. N a verdade, sáo os meninos
contava já lhe pareciam, por si sós, muito admiráve'
que estáo neles, os quais, por cada porção de ágio e
E ele sabia, por vê-los daquela forma e náo por out
trégua a ser-lhes dada, correm u m ao encontro do
motivação, que admiráveis deveriam também parec
outro e se abraçam brincando.
às outras crianças, como ele, que estavam na alma d
todos os seus ouvintes. Os quais, agora como dant Todavia, realmente, há quem diga que sejam

continuam escutando maravilhados. E isso náo ser' dois os tipos de géneros humanos, mesmo se náo se
percebe que sáo dois. U m atravessa o outro, sempre
razoável para as coisas que, depois de trinta século
separado e sempre indistinto, como uma corrente
náo parecem mais verossímeis. Co n t ud o , apesar dc
doce atravessa o mar amargo. V i v e m até no seio da
trinta séculos, os homens náo nascem com t r i n '
mesma família, sob os olhos da mesma mãe, vivendo,
anos e, mesmo depois dos trinta anos, parcialmente
'Aparentemente, a mesma vida, germinada por uma
permanecem crianças.
semente idêntica, em u m único sulco. Porém, apesar
•lisso, sáo estranhos u m ao outro, náo por u m só pe-

Ill daço de céu e de terra, mas por toda a humanidade e


por toda a natureza. Chamam-se pelo nome e náo se
eonhecem, nem nunca se conhecerão. Ora, se isso é

O menino músico existe realmente em todos? N á


poderia acreditar que em uma pessoa náo exis
nem dito por outros nem dito por ela mesma, já qu
•herdade, só uma causa poderia explicar: uns têm den-
"^""o de si o eterno menino, e os outros náo, infelizes!

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GIOVANNI PASCOLI
O MENININHO: PENSAMENTOS SOBRE A ARTE

C o n t u d o , não gostaria de acreditar em tan


homem pacífico faz ecoar estridentes fanfarrices de
desventura! E m alguns, parece náo existir, outros n '
trombetas e gaitas. E em quem náo acredita, n u m ca-
acreditam que ele esteja neles, talvez seja aparênc' dinho da alma, perfuma de incenso o altarzinho que
e crença falsa. E provável que os homens esper a criança ainda conserva. Ele nos faz perder tempo
dele, quem sabe quais mirabolantes demonstraçó quando estamos preocupados com as nossas coisas,
e operações e, por náo as identificarem nos outros porque ora quer escutar o canto do chapim-real,
em si, julgam que ele náo exista. Na verdade, os sin- ora quer colher a fior que perfuma e, enfim, ora
da sua presença e as manifestações da sua vida quer tocar o sílex que reluz. E, no entanto, continua
simples e humildes. Entáo, ele é quem tem medo a tagarelar sem nunca se aquietar. Porém, sem ele,
escuro, porque no escuro vê ou acredita ver. É que náo só não veríamos tantas coisas com as quais náo
na luz, sonha ou parece sonhar, lembrando cois nos preocupamos normalmente, mas também náo
nunca antes vistas. É quem fala aos animais, com poderíamos sequer pensá-las e dizê-las, já que ele é o
árvores, as pedras, as nuvens, as estrelas, quem pov Adáo, que dá nome a tudo o que vê e sente. Descobre
a sombra de fantasmas e o céu de deuses.^ E ele que nas coisas semelhanças e relações mais engenhosas.
chora e r i sem motivo, de coisas que escapam a Adapta o nome da coisa maior à menor, e vice versa.
nossos sentidos e à nossa razão. É ele quem, na m o " E a tudo isso é conduzido mais pelo estupor do que
dos seres amados, consegue dizer uma particularida pela
pueril que nos faz derreter em lágrimas e nos sal" ignorância, mais pela curiosidade do que pela
E quem, no meio da mais louca alegria, pronun loquacidade; d i m i n u i para poder ver, aumenta para
sem pensar, a palavra sábia que nos freia. E quem poder admirar. E a sua linguagem náo é imperfeita
com que seja tolerável a felicidade e a desvent como a de quem diz coisas pela metade, aliás é pródi-

temperando-as com pitadas amargas e doces, fazen ga, como a de quem expressa dois pensamentos com
lima só palavra. De qualquer forma, nos dá u m sinal,
delas duas coisas igualmente suaves à lembrança,
Um som, uma cor, com o qual reconhecer sempre o
faz humano o amor, porque o acaricia como u
fiue viu uma vez.
irmã (oh! o murmúrio dos dois meninos entre
H'
bramido das feras!), acaricia e consola a menina q"
a, entáo, alguém que nunca sentiu nada de tudo
vive na mulher. Dentro do homem sério, é que
^'o- Talvez o menino se cale em você, professor, por-
escuta e admira as fábulas e as lendas, e dentro
fiue tem u m ar arrogante. Você, oh! banqueiro, náo
a, envolvido nos invisíveis e perpétuos cálculos.
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GIOVANNI PASCOLI
O MENININHO: PENSAMENTOS SOBRE A ARTE

Amua-se em você, oh! camponês, que enxadand


p e toda forma, falo frequentemente com ele, como
cavando a terra não pode parar u m pouco para o l h
-le fala, algumas vezes, comigo, e digo-lhe: M e n i n o ,
Dorme com os punhos fechados em você, operár'
que só sabe raciocinar do seu jeito, u m jeito de meni-
que tem de ficar o dia inteiro fechado na ofici
no, que se chama profundo, porque de repente, sem
barulhenta e sem sol. Talvez seja assim.
os fazer descer u m a u m os degraus do pensamento,
Mas, quero acreditar que existe em todos.
os transporta no abismo da verdade...
Quer sejam operários, agricultores, banqueiros
Oh! não acredito que venham de você, simples
professores numa igreja, para uma cerimónia. Q i
cnino, certas tramas dc silogismos, apesar de se-
se encontrem pobres e ricos, esgotados e entediad
m expostas numa linguagem semelhante à sua e
n u m teatro com boa música. Eis todos seus meni
-postas segundo os ritmos que sáo os seus! Talvez
nhos na janela da alma, iluminados por u m sorriso
es ritmos nos façam seguir melhor os fios, e essa
aspergidos por uma lágrima, que brilham nos o l h
inguagcm nos faça entender melhor o raciocínio,
de seus hóspedes inconscientes. Eis os m e n i n i n h
u talvez não, porque uma ofuscando nos distrai,
que se reconhecem nas aberturas das sacadas de se
os outros embalando nos desviam. De modo que
tugúrios e de seus palácios, contemplando uma le
fim de quem raciocina náo se obtém sem aquelas
brança e u m sonho c o m u m .
mugens e sem aquela cadência. Porém, mesmo se
upormos que seja dessa forma, náo vou acreditar
ue seu objetivo seja: você me convenceu de algo
IV ue não estava no meu pensamento. E m u i t o menos
Sí-e outro: persuadiu-me a fazer algo alheio à minha

S e está em todos, também está em m i m . Porq


desde quando éramos meninos, eu náo tive uri
vida em que a dor, que foi tanta, desse relevânc'
"utade. A sua pretensão náo é táo grande, oh! me-
uio. Você diz com seu jeito direto e simples coisas
e ve e sente com seu modo límpido e imediato,
e nunca o perdi de vista ou deixei de escutá-lo. I j i" recompensado quando quem o escuta exclama:
verdade, náo tendo mudado os meus primeiros afet
u também vejo agora, agora sinto o que diz, que
às vezes, me pergunto se realmente vivi ou náo. D i
"res estava, sem dúvida, dentro e fora de m i m , e
que sim, porque há mais vida onde há menos m or
u. realmente, não sabia, ou, pelo menos, náo como
e outros dizem que náo, porque crêem no contrári
Somente isso você deseja, embora deseja algo

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O MENININHO: PENSAMENTOS SOBRE A ARTE
GIOVANNI PASCOLI

sua. Por isso, me refiro a você com mais seriedade


do deleite exterior, que você mesmo possa tirar
o que o habitual, e queria ouvir uma resposta sua
quela visáo c daquele sentimento. E como p o d
enos... como poderia dizer? infantil?... poética, do
aspirar a operações táo grandes com táo peque
ue aquelas que costuma dar.
instrumentos? Porque você náo se deve deixar sed'
pela semelhança existente entre, por exemplo, a
linguagem e a dos oradores. Sim, eles também V
oradores, engrandecem e d i m i n u e m a seu bel-pr

S
e usam, quando convém, uma palavra que pint
abe que amo você. O h ! meu íntimo benfeitor!
lugar de outra que indique. Contudo, a diferença
Oh! invisível copeiro do fármaco nepenthés e
no fato de eles fazerem isso quando e do que quer •holon, contra a dor e a ira! O h ! descobridor e guar-
Você náo, menino. Você sempre diz o que vê, co d o de u m tesouro secreto de lágrimas e sorrisos! E
vê. Eles fazem com malícia! Você náo saberia d i áo acredito que você seja u m menino táo irracional,
de outra maneira, enquanto eles dizem com em acho perda de tempo escutar sua voz dentro de
forma diferente, mesmo sabendo como se diz. im. A h , há muita diferença! Se bem que algumas
ilumina a coisa, eles ofuscam os olhos. Você quer es, ao ver as ladainhas isossilábicas e homote-
se veja melhor, eles querem que náo se veja mais eutas (náo se assuste! é a mesma coisa que "versos
linguagem deles é, em suma, artificial, de b o m rimados") com as quais algumas pessoas com b o m
astutos, que se propõem a roubar a vontade de ou uvido querem fazer acreditar que fazem a sua arte,
homens náo menos astutos. Por outro lado, a t i também corro o risco de pensar, como muitos, que
é uma linguagem nativa, de menino ingénuo q se lalar cadenciado e sonoro náo seja nem natural
tripudiando o u lamentando, fala a outros ingên liem razoável. Porém, é só u m momento, e esqueço
meninos. ladainhas. Digo a você que naquele instante me
N á o é assim? olh a entre assustado e descontente, com os olhos que
Entáo, menino, posto que só sabe pensar do eem com maravilha:
jeito, dizendo de vez em quando sentenças Nao, não é preciso temer. Você é o eterno menino,
comuns e mais sublimes, mais claras e mais ines fitie vê tudo com maravilha, tudo como se fosse a
radas, você também pode, por aquilo que o env" primeira vez. O homem náo vê as coisas interiores e
em primeira pessoa, entender a minha razáo e d"
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GIOVANNI PASCOU

O MENININHO: PENSAMENTOS SOBKE A AKTE


exteriores como você as vê. Ele sabe tantos det
que você ignora, estudou e aproveitou do estud suas qualidades, o peso e o timbre do metal, o som
outros. De modo que o homem dos nossos tem com o qual, em princípio, rompiam os lábios, que se
sabe mais do que o dos tempos passados, e, na me entreabriam, e o som com o qual, no final, zumbiam
em que avança no tempo, saberá mais e mais. nos ouvidos abertos. Entáo, menino, você faz como
primeiros homens náo sabiam nada; sabiam o eles, porque você é como eles.
você, menino, sabe. Faz como todas as crianças que brincam e pulam
Sem dúvida, se pareciam com você, porque n com algumas cantorias bem rimadas, náo só quando
menino íntimo se fundia, por assim dizer, com t já caminham u m pouquinho, mas, também, quando
o homem que ele era. Extasiavam-se com tudo, ainda estão mamando, fazem suas melodias bucólicas,
todo o seu ser indistinto, já que tudo era realm com medida e cadência, balbuciando para si mesmas
novo, tanto para o menino quanto para o b o m as fileiras de papai e ma mãe.
Extasiavam-se com sentimentos mistos, ora de E, nisso, está a razáo por ser natural. Você está,
gria, ora de tristeza, ora de esperança, ora de m ainda, na presença de u m m u n d o novo, e para
Se, depois, desejavam expressar tais comoções significá-lo usa uma nova palavra. O mundo nasce
si ou para outros, tiravam da sua aljava, para para cada u m que nele nasce. E nisso está o mistério
como você, certas preciosas e numerosas flechas tia sua essência e da sua função. Você é antiquíssimo,
náo deviam ser desperdiçadas. oh! menino!, e é velhíssimo o m u n d o que vê de novo!
Os primeiros homens pronunciavam, com 1 Primitivo é o ritmo (náo esse ou aquele, mas o r i t m o
ti dáo uniforme, com balanceada seriedade, a d i «Oi geral) com o qual, de certa forma, o embala e
palavra que lhes surpreendia, voando, respland ^'^Ça! Como sáo tolos os que querem se rebelar a
do e tocando, que fosse deles e se tornasse alh ou a outra dessas duas necessidades, que parecem

deixando no ar a alma de quem a tivesse emiti * chocar: ver tudo novo e ver tudo como antigo,

depois de uma longa e silenciosa meditação, cr o que nunca foi dito e dizê-lo como sempre

náo as jogavam como coisas vis que abundam, 'sse e se dirá! Uns se rebelam com repugnância e

palavras mesmo novas, ligadas com os mais sutis i 8^105 pedantes: Essa metáfora náo é em... (e aqui o

assinaladas com as mais novas marcas, trabalha ^ rue de u m poeta cada vez mais recente). Os outros

com os mais engenhosos nielos! Calculavam toe ^^'Nosos ares de inovadores: isso náo é m u i t o
'lo e inaudível. Os primeiros sáo, geralmente,
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GIOVANNI PASCOLI O MENININHO: PENSAMENTOS SOBRE A ARTE

os velhos que na velhice crêem bem protegida t q entre eu... Mas, para nos entendermos de vez, em
autoridade. Os demais correspondem aos jovens, (| relação a isso náo lhe atribuo grande louvor, porque
imaginam implícitas todas as forças na juventude, a náo vejo grande mérito. Como? Espere e seja paciente,
mais chatos, porque se gabam com impertinênq porque me convém ir devagar. E, antes de mais nada,
enquanto os velhos o fazem com certa tristeza. ,j gostaria dc fazer uma pergunta. Você tem u m objetivo?
uns, por senil surdez, já náo escutam mais a arg- Além, c claro, de dizer ou ditar? Poderia me dizer qual?
tagarelice do menino, os outros ainda náo a comp Preciso sabê-lo. Náo responde? Pensa? Vacila? Duvida?
endem, pela confusão, miseravelmente orgulho Imagino que esse objetivo náo seja, por exemplo, o de
que fazem e que está sempre ao redor do próp dar um pouco de ajuda, de prover u m pouco de ouro
eu jovem. Na realidade, náo sáo jovens, porque ao seu \o hóspede, que tanto necessita dessas coisas.
fossem náo perceberiam. Algumas vezes, é possí Imagino, aliás, sei que você náo conhece outro ouro a

se dar conta da velhice, entáo, veste-se, pinta-se náo ser o merafórico, ou seja, o que náo se gasta. Ri?

põe-se a gritar como u m jovem. Talvez seja ess Entcndamo-nos. Sei, ao certo, que você náo acredita

caso de vocês, velhotes.' que mc esteja dando, diretamente, u m material útil,


mas suspeito que ache que me dê indiretamentc. De
De toda forma, paz. Saibam que, para a poesia
modo que, náo sei qual favor acrescentaria à minha
juventude náo basta. É necessária a infância!
pobre pessoa e qual qualidade às minhas humildes vir-
tudes para que eu pudesse lucrar u m pouco mais com a

VI profissão que exerço. Pois bem, você se enganaria. Saiba


fiue e o contrário e que é razoável que seja assim. Você

V ocê é sábio, e isso me satisfaz. Náo quer te


o que já foi dito nem encontrar o indizível,
mesma forma, náo deseja ser uma nulidade nem
um menino. Ora, nem todos sabem distinguir você,
^riança, de m i m , velho, e por me ouvirem e me verem
rincar, algumas vezes, acreditam, de bom grado, que
vaidade. Quer o novo, apesar de saber que o novo ° Nça sempre, mesmo quando trabalho seriamente paia.
nas coisas só para quem sabe vê-lo, e náo se fon ganhar a vida. Por isso, apreciam menos os trabalhos
a encontrá-lo, nem por meio da manipulação e n ^i^rios e, consequentemente, ganho menos. Enganam-
por meio da sofisticação. O novo náo se inventa, ^^uipre? Não, náo sempre. Por exemplo, têm razáo
descobre. Satisfaço-me em dizer entre nós, vale "Ião falo s5 m i m , mas também de muitos outros)

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O MENININHO; PENSAMENTOS SOBRE A ARTE
GIOVANNI PASCOLI
Fntáo, volto a nós, oh! menino, nenhuma vanta-
quando entre os meus pensamentos, que dev n direta ou indireta. Mesmo que diga o contrário,
ser sempre certos e claros, percebem seus sorr- ihuma. Na verdade, qual seria? Fale!
seus gritos. Veja, os pardais sáo graciosos passari,
(também eles, por que náo?), mas os agricultores
querem vê-los nos campos semeados, mesmo s
graciosos. Os gladíolos sáo flores lindíssimas,
plantação de trigo seria melhor náo tê-los. N o en 0 menino
fazem táo bem aos olhos! Náo nego que possam Náo tenho p'ra t i nem gema nem
dar, contudo, náo deleitam quem espera ganhar a ouro, ó doce hóspede, entenda;
com aquela plantação. Entende? Mesmo tendo al mas busco que as flores te bastem
que goste do bater de asas e dos seus relampejos, que recolhes na verde senda,
a maioria, no meio de u m raciocínio que deveria no muro, nas úmidas brechas,
sério, só pode ser desagradável. E sabe o que acont nas ásperas cercas.
Eles, vendo-o táo fora de lugar, náo acreditam que
o menino da voz argentina, mas acreditam escutar Não levo à tua mesa a porção
você o homem rouco, o homem que fala para en fumcanre de gorda vitela;
E gritam: Retóricd Agora, para evitar essa troca nias busco que ames o almeirão
você e tal dano para m i m , náo seria uma má i E" um pouco da sua pimpinela,
que, quando estou envolvido com as minhas co' i^ttm o ovo que de manhãzinha
você pudesse estar bem longe e dormir nos profu fí-' cantou a galinha.
bosques de Idália, no aromático arbusto de manje
Se você conhecesse Platão, eu lhe diria que, como 1 ra m i m t u náo aras, poeta,
tem razáo em querer que os poetas façam myth nem vinhas pedrosas, nem massa
náo logous, fábulas e náo raciocínios, náo estou e e^e pousios; mas diga-me já
vocado em pretender que os pensadores façam 'e deles mais se aproveita
e náo mythous? Mas, infelizmente, é difícil encon n obscuro senhor, ou o pássaro
quem se contente em fazer só o que deve fazer. E gárrulo e tu!
Platão... Mas, ele era Platão.
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O MENININHO: PENSAMENTOS SOBRE A ARTE

N á o as frágeis copas da China,


mais escondida e menos c o m u m , à qual porém, a
a lâmpada d o u r o te incensa,
consciência de todos responde com rápido consen-
mas t u a tua rude cantina
rimento. Qual? Essa, a de que a poesia sem adjetivo,
t u amas e a farta dispensa;
enquanto é poesia, tem uma suprema utilidade moral
a chama que lustra, t u amas,
c social. E você nem precisou pensar para me revelar
nas nítidas ramas.
o seu objetivo. Disse o que vê e escuta e, dizendo
isso, tenha talvez expresso o fim peculiar da poesia.
Náo tens do teu olhar quem dependa,
A^ora, cabe a m i m refietir sobre isso. Q u e m examina
nem pajem nem bela criada;
atentamente, compreende que é o sentimento poético
mas feliz, mas grata remenda
que faz o pastor considerar-se recompensado por ter
p'ra t i a tua irmá táo amada;
a sua cabana, o simples burguês, o seu apartamento-
que põe máo no avental e o tira;
zinho mobiliado, mesmo sem gosto mas com muita
sorri e suspira
paciência e diligência, e assim sucessivamente. O u é
9 contrário? Seriam o pastor, que cuidando de suas
contigo... E assim leito de morte,
ovelhas, sonha com uma loja recém montada no
que a todos é táo duro e grave,
vilarejo vizinho, e o burguês, que sonha com u m
o que guardo p'ra t i , náo crês?
J>rédio na cidade grande e barulhenta, os verdadeiros
Ó! Rosas como leito de morte,
etas sonhadores e fantasiosos, e os outros náo?
caídas do espinho, a suave
• m i m , uma coisa é o sentimento poético, e ou-
dolor que se fez!
• é a fantasia, a qual pode ser, sim, movimentada
*n»naada por esse sentimento, mas isso náo é uma
ndição sine qua non. Poesia significa encontrar nas
íisas -
como posso dizer? — o sorriso delas e as

M
lágrimas delas, e isso se faz com dois olhos infantis
uito bem! Você cantou e disse, cantou est
K ^^'^"^ simplesmente e serenamente por entre o
e disse verdades. E me vem na cabeça que!
^ '""^^Ro da nossa alma.
dessas verdades, digamos assim, usuais, das quais
1'ezes, nao reconhecendo nada de luminoso e
sua testemunha, exista sob o seu dizer uma ver
• ° nas coisas que os circundam, se fecham para
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GIOVANNI PASCOLI O MENININHO: PENSAMENTOS SOBRE A ARTE

sonhar e buscar n u m espaço longínquo. Porém outro lugar. Esse sentimento é m u i t o benéfico, pois
provável que o que buscavam estivesse naquelas coi póe um suave e leve freio ao incansável desejo, que
mais próximas, e náo ter encontrado foi u m defe nos faz perpetuamente correr, c o m a infeliz ânsia,
náo de poesia nas coisas, mas de visáo. Vocês d i pela via da felicidade. O h ! quem soubesse reforçá-
(náo me refiro a você, agora, oh! menino, e sir -io naqueles que o têm, fixá-lo nos que estáo para
esses meninóes) que o sentimento poético abur perdê-lo e insinuá-lo para os que náo têm, náo faria
mais em quem, desviando ou levantando os olhos para toda humanidade obra mais útil e engenhosa
realidade presente, acredite serem só belas e dig do que qualquer outro inventor de comodidades c
de seu canto as fiores das agaves americanas o u medicinas? E não sei dizer o quanto a comunidade
quem admire e faça admirar também os pequeni dos homens se teria beneficiado, especialmente, em
pompons acinzentados das pimpinelas no penha tempos como esses, em que a corrida para a impos-
onde está sentado? Náo quero dizer que, no prime' sível felicidade é feita com instantâneo desprezo por
náo abunde esse sentimento e que náo esteja u n ' quem está na frente e com desesperada inveja por
a outras virtudes, de ciência e fantasia, que o f a ' .quem fica para trás. J á em outros tempos, u m Poeta
justamente admiráveis. Embora emocione mais (náo sou digno nem de pronunciar o seu santo nome,
cilmente, entedia com o mesmo r i t m o o leitor, »h! Panhenias^) viu rolar as quadrilhas vertiginosas
toda forma, posto que todos se maravilham com elo vazio círculo da paixão. Naqueles tempos que
coisas ausentes ou com as jamais vistas, ele faz co i parecidos com esses, relampejava no horizonte

o homem que pretende alegrar com suas anedo 'conflagração do mundo em uma guerra de todos

o ouvinte que, mesmo escutando, bebeu uma antra todos e de cada u m contra cada u m . E esse

quantidade do v i n h o reanimador. Ele talvez J^^""i' fiiJe. sobre as feras e os monstros, a lira

arguto e brincalhão, porém, quem alegra com a • Drfeu tinha ainda mais poder do que a clava de

palavra direta, sem necessidade de cálices, tem es. Fez poesia, sem pensar em outra coisa, sem

mérito maior. ' ^'"''"^'^•' ares de conciliador, de admoestador,


^ « a do bem e do mal augúrio. Cantou por
Entáo, intenso é o sentimento poético em q u
c não sei mensurar qual foi o efeito de seu
encontra poesia no que está ao seu redor e no q
.'-«tamente, foi grande, já que dura até os
os outros tendem a descartar. E náo em quem n "
oje, vibrando com doçura em nossas almas
encontrando ali, deve se esforçar para procurá-la

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O MENININHO: PENSAMENTOS SOBRE A ARTE
GIOVANNI PASCOLI

pater famílias o que deve falar e fazer, quando


inquietas. O h ! rimadores de frases tribunícias, v ao
chega em casa, conclui: "Venda o azeite, se se vende
sificadores de teorias sociais, que excluem da h
bem; o vin ho, o trigo que sobre, venda-os. Os bois
presente toda poesia que náo seja a de vocês,
decrépitos, as vacas máes náo mais úteis, e também as
seja, excluem a POESIA. Digam-me: estava o u
ovelhas, a lá, as peles, uma carroça velha, ferramentas
estava no seu lugar, no século de Augusto, o can
gastas, um escravo envelhecido ou enfermo e tudo
das Geórgicasi Sim, náo é verdade? Ele ensinav o que houver a mais, venda. U m pai de família deve
amar a vida, na qual náo existisse nem o espetác procurar vender, náo comprar"."" Esses escravos, entre
doloroso da miséria nem o invejoso da riqueza, ferramentas velhas e outras coisas restantes, produ-
queria abolir a luta entre as classes e a guerra e ; zem em nós certa impressão, apesar disso, era natural
os povos. O que querem, oh! poetas socialistas, que fossem nomeados nesse ponto. De fato, Varráo
dizem coisas táo diversas e as dizem de uma man í trata dessa elegante distinção das coisas com as quais
táo diferente da dele? |o campo é cultivado: "Outros as dividem em três
|gêneros: instrumento vocal, semivocal, e mudo. A o
l pertencem os escravos, ao semivocal, os bois, e
W • mudo, as carroças"." É natural, pressupõe-se, que
irgílio escrevendo propositalmente sobre agricultu-

V ocês diráo que a filosofia conduziu os d


fraternos poetas da época de Augusto (po:
náo se pode falar de Virgílio sem falar de Horá
. em versos, sim, mas náo com fantasia e depois de
estudado o assunto nos livros dos outros, falasse
'todo momento, além dos plaustros e dos bois, do
a essa razáo sá e pia de ver a sociedade e a vida. idamental instrumento de cultivo que eram os
náo, foi o menininho quem os conduziu pela Nós, por exemplo, devemos esperar que
dizendo: direi onde está, ao mesmo tempo, a p; •niesmo modo que se ensina qual ração de cevada,
e a virtude. E m todo caso, foi o menininho que 1 em flor e forragem, dar ao potro de raça'^ e aos
que escolhessem atentamente entre as opiniões I _ -nquanto sáo domados, erva, folhagem
filósofos as que confirmavam os seus sentiment ' " i e grama de pântano, além de plantinhas
Considerem isso. Catáo e Varráo escreveram logo que b r o t a m " — , se ensine ao b o m
bre agricultura antes de Virgílio. Eram homen 'ditador sobre pão e conduto, vinho e vesti-
m u i t o juízo e saber. Por exemplo, Catáo, sugeri
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GIOVANNI PASCOLI
O MENININHO; PENSAMENTOS SOBRE A ARTE
menta, com que deve prover à família. A propósi
de azeitonas, é claro que ele pensará nopulmentari é pronunciada pela boca de seu Títiro: L I B E R T A S . "
familiae. Catáo, grande mestre, também diz: " A d Os agricultores de Virgílio náo sáo escravos nem
quanto mais puder, as azeitonas inúteis e, da mes mercenários, sáo aqueles de quem fala V a r r á o , " que
forma, as boas, que náo dáo m u i t o azeite, adoce- cultivam a terra sozinhos, como tantos pequenos

e faça uma grande economia, para que durem o proprietários ajudados pelos filhos. É neles que pensa

possível. Quando tiverem comido as azeitonas, Virgílio, quando exclama que seriam táo felizes se

allec e vinagre".'^ Era interessante, parece-me, d tivessem consciência da sua felicidade, rodeados de

correr sobre essas azeitonas reservadas aos escrav tanta paz, com muitos frutos e entre tanta beleza, sem

e o mesmo vale para as vestimentas que, a propósi que fossem corroídos pela miséria ou pela soberba

da lá, cai como uma luva fazer a seguinte observaç- alheia, trabalhando na estaçáo apropriada e desfru-
tando, em casa, da família, e, fora, das agradáveis
"Quando para u m escravo se dá uma túnica ou
festas.'" Náo há rastros de gente que trabalhe para
gabáo novo, primeiro se retira o velho, para fs
outrem. O ideal do poeta é aquele velhinho Cilíce,
casacas remendadas (centones)". Enfim, essas e out
transplantado da sua pátria nos arredores de Taranto.
providências semelhantes eram boas para se col
Possuíra uns poucos palmos de terra náo cultivável
em belos versos com toda a graça do poeta, que s
para o trigo, nem para o pasto e nem para a vinha,
falar com solenidade e seriedade de coisas h u m i l d
uma terra cheia de grilos, inculta, u m areal. Pois bem,
O h ! sim! N â o existem escravos para Virgílio,
o esperto velhinho ali havia feito uma horta, com
seus poemas náo há nunca a palavra servus. H'
couves, e também lírios e rosas, árvores frutíferas,
termo serva usado somente duas vezes, quando
colmeias de abelhas e viveiros de plantas.^" Sim, o
refere a outros tempos e costumes," em que o pc
que c pouco e pequeno era o sonho dos dois grandes
vê reis servidos por muitos escravos, mas os cha
poetas fraternos. Virgílio dizia: Celebre os grandes
famuli e ministri, e náo servi. E seus campos, os <
oanipos e fique com os pequenos.^' E Horácio: Esse
ensinava a cultivar, os que arava e semeava com s
o nieu desejo, u m campo pequeno, náo m u i t o
doces versos, náo têm gente acorrentada o u curva
grande, com uma horta, u m a fonte e, ainda, u m
O poeta que, na primeira das éclogas pastorais, c o l :
Potiquiuho de mato.^^ Q u e m é que náo iria preferir
a si mesmo como u m escravo liberto, proclam
^campo grande ao pequeno, sem ter a obrigação de
nos campos itálicos a palavra que, com tanta én
i"iá-lo pessoalmente.' Contudo, esse pensamento
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GIOVANNI PASCOLI O MENININHO: PENSAMENTOS SOBRE A ARTE

tão simples náo se apresentava aos dois poetas, q profeta essa lei de liberdade? Náo. Talvez ele mesmo
do eram poetas. O u , melhor dizendo, o menino q fosse inconsciente dessa liberdade que proclamava.
estava neles preferia, como todos os meninos, o q| Era a sua poesia que abolia a servidão, porque a ser-
é da ordem do pequeno: o cavalinho, a carrocin vidão não era poética. Náo era poética, e o divino
jardineirazinha. O h ! H á quem tenha reprovado menino, que só vê o que é poético, náo a via. Tanto
rácio; esse amor pela mediocridade! Porém, ser é assim que, se náo tivéssemos outras testemunhas
da mediocridade, na verdade, náo quer dizer ser p dos tempos de Virgílio, a náo ser ele, teríamos de
medíocre. Aliás, o contrário é que é verdade, náo acreditar que naquela época náo havia essa miséria e
quem diz amar u m harém de mulheres. N á o é p vergonha, que náo cessou nem nos nossos tempos.
quem náo se fixa numa visáo que seus olhos p Oh! Deveríamos acreditar que Cristo, ainda náo
medir. E as coisas grandes, as ricas, as sublimes 7 nascido, inspirasse ao poeta camponês da Espéria o
resultam poéticas, se náo forem vistas, sentid vaticínio da sua vinda, bem como o pressentimento
expressas pela pessoa que se maravilha diante de da grande fraternidade humana! N á o há escravidão
justamente por ser ele pequenino, pobre e h u m i l na Itália virgiliana, e tampouco há o assalariado e o
O poeta é o pobrezinho da humanidade, m u i arrendatário.
vezes, até cego e velho. E se náo tem tal aparên
se é, ao contrário, u m grande senhor, jovem e fi
isso quer dizer que, se ele é rico, o menininho l
está nele é pauperculus, ou seja, conservou-se pol
por assim dizer, menino. Porque, pobrezinha é si essa forma, o verdadeiro poeta, sem fazê-lo de
pre a criança que, apesar de ter nascido em berç propósito, sem ir embora levando consigo, para
ouro, estende sempre a máo a todos e a tudo co: "Acordar Dante, o lume atrás, ou melhor, dentro da sua
se nada tivesse, deseja o pedaço de páo duro do querida alma, o esplendor e o ardor da lâmpada que é a
colega abatido e gostaria de fazer o pesado trab ^ ^sia, e, como se diz hoje, socialista, ou como deveria
de seu colega aflito. É por isso que, náo precisame ^ "er, humano. Assim, a poesia, entoada como tal,
Virgílio, mas o menino que ele tinha em seu cora dela'^'^ ^ regenera a humanidade, excluindo
náo queria escravos nos campos. Diremos que V i j - ^ ^ '^j^° '-onscientemente o mal, mas, naturalmente, o
lio tirasse dos livros de algum filósofo ou de alg etzco. Hoje, é corrente a crença de que impoético é

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O MENININHO: PENSAMENTOS SOBRE A ARTE
GIOVANNI PASCOLI
)}ie dita dentro, consegue ser inspirador de bons e
o que a moral reconhece como r u i m e o que a est civis costumes de amor pátrio, familiar e humano.
proclama como feio. Contudo, no nosso caso, Daqui a crença e o fato de que o som da cítara unisse
o barbudo filósofo que julga o que é r u i m e feio as pedras para fazer o muro da cidade, animasse as
menino interior quem o rejeita. O qual, ao nar- plantas, amansasse as feras da selva primordial, e que
aventuras de seus heróis, dizendo tudo sobre eles, os cantores guiassem e educassem os povos. As pe-
das batalhas e os discursos, as comidas e os sonf dras, as plantas, as feras, os primeiros povos seguiam
nos figurando, por exemplo, seus cavalos, repe' a voz do eterno menino, de u m deus jovenzinho,
que pastavam, suavam, espumavam, náo diz ja do menor e do mais tenro que estivesse na tribo
(como vê, faço o possível para que náo faça dos homens selváticos. Esses, na verdade, se faziam
nojo), náo diz jamais, que estrumam. De tal m gentis contemplando e escutando a própria infância.
da nossa alma só conta o que é b o m , e da nossa Assim, Homero, em tempos ferozes, nos apresenta
só lembra do que é belo. Pois, para cantar o m no mais feroz dos heróis, no mais real e poético, em
necessário fazer u m esforço contínuo sobre si mes uiles, u m tipo de tal perfeição moral, que pôde
ao menos que náo se trate de loucura. E, nesse c ~r de modelo para Sócrates, quando preferia a
loucura está justamente em pensar como pessoas orte ao mal. Dessa forma, Virgílio, em tempos mais

e cantar como pessoas maldosas. tis, tendo como mira só o poético, nos mostra o

Assim, caro menino, erram m u i t o os que ulo táo antecipado — ai de m i m ! — de uma


idade boa e feliz, dedicada ao trabalho e à pura
buem, para o que você vê de b o m , algum méri
i dos filhos, sem guerras e sem escravos. Parecia
bondade àquele que lhe hospeda. Este pode a"^
naquele tempo, os homens tivessem implorado
u m desonesto e ter dentro de si u m menino q t
cjo ainda náo concretizado dos nossos operários
cante as delícias da paz e da inocência, a casa ond
ouo horas de trabalho para cada oito horas
deve mais repousar e a igreja onde náo sabe mais
sono e outras oito de repouso. — O h ! algumas
_o agricultor une a noite ao dia! — Sim, mas

11 j u r a de trabalho entre o homem que, com a


f forma de espiga aos ramos de pinho, que

O
as. e a mulher que tece ou mexe a panela de
poeta, se é e quando é realmente poeta,
dizer, aquele que só expressa o que o m
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38
GIOVANNI PASCOU
O MENININHO: PENSAMENTOS SOBRE A ARTE

cobre cantando/' E na Eneida, Virgílio canta guer


as couves-flores em belos pratos, com apetitosos
e batalhas, mas, mesmo assim, todo o significa
molhos, e náo é u m florista, que entrelaça as flores
da maravilhosa epopeia está no gorjeio matinal,
em pequenos maços e guirlandas. Ele só sabe tirar da
andorinhas e dos pardais, que acorda Evandro na s
couve umas folhas podres e machucadas e amarrar,
cabana, lá onde deviam surgir os palácios imperi
como pode, as flores com u m ramo de salgueiro, que
de Roma!^^
arranca naquele momento. Seria como dizer que une
C o n t u d o , nem H o m e r o nem Virgílio fazi
seus pensamentos com ritmo nativo, que está na alma
isso conscientemente. Mas, o poeta náo deve fazê-
da criança que mama e do garoto que brinca.
premeditadamente. O poeta é poeta, náo é orac
Agora, será o poeta, ao contrário, u m autor de
ou predicador, nem filósofo, nem historiador, n
açóes civis e sociais? Se for o caso, sem se dar conta.
maestro, nem tampouco tribuno, demagogo, b o m
Encontra-se no meio da multidão e vê passar as
de Estado ou de corte. N e m sequer é, seja dito co
bandeiras e tocar as trombetas. Lança sua palavra
permissão do mestre, u m artesão que molda espa_
que, uma vez pronunciada, faz que todos os outros
escudos e relhas. E também náo é, agora com a j
sintam ser aquela que pronunciariam. A i n d a está
missão de tantos outros, u m artista que esmalte
entre a multidão, vê jogarem na rua os pertences de
cinzele o ouro que outros lhe presenteiam. N a co
urna família pobre e diz a palavra que imediatamente
tituiçáo do poeta, pesa, infinitamente, mais seu sen
está embebida com as lágrimas de todos.
mento e sua visáo do que o modo como transmite
outros o primeiro ou a segunda. Contudo, quan O poeta é quem exprime a palavra que todos

os transmite, mesmo estando diante de u m públi tinham nos lábios e que ninguém teria dito. Porém,

fala mais consigo mesmo do que com os que es f ão é ele quem sobe numa cadeira ou numa mesa

à sua frente, parecendo náo se dar conta deste. F P'Ua uma arenga. Ele náo arrasta, é arrastado; náo

forte (nem tanto!), mais para se escutar melhor do q Pi tsuade, é persuadido.

para se fazer entender. Para usar imagens que ago Para que ele pense na pátria e na sociedade, é

estáo presentes no meu espírito, ele é, mesmo sen fiesmo necessário que seja u m momento em que

desagradável dizer, u m hortaliceiro ou u m jardin ludos ao seu redor também estejam pensando nesses

ro, que faz nascer e crescer flores ou couves-flor '"Tectos. Se náo for assim, é u m grande problema. O
a feto
materno é o mais suave dos afetos. Mas, o que
Sabem o que náo é.' Náo é u m cozinheiro, que se
''"cês diriam de alguém que fizesse a crónica diária
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41
O MENININHO: PENSAMENTOS SOBRE A ARTE
GIOVANNI PASCOLI

César. Os corvos, como os tinha chamado Píndaro,


da própria máe? Esta manhã se levantou, a queri
laiiçaram-se crocitando sobre o imenso campo de
máe! Olhei para ela, pobre mãe! Deu-me café co
b.ualha, náo para bicar os olhos dos mortos, mas as
leite, pobre mãezinha querida! Q u e m age assim
sementes de poesia. O que faziam? Narravam u m fato
u m imbecil, quando nâo é u m fingidor que preci
iiistórico, u m dos últimos, o condimentavam com
simular que ama quem é táo fácil de se amar! O h !
declamações, exclamações, maldições e o punham em
máe está doente, a máe está longe, a máe morreu! E'
hexâmetros. Todavia, eles também entendiam que
entáo, que se pensa na máe com o coração partid
os versos náo eram suficientes para fazer poesia, por
O u , ainda, a máe tem u m grande alívio, e nos se
isso, colocavam uma moldura na história versificada
timos mais do que aliviados, nos sentimos tomad
c declamada por eles, uma descrição de alvorada e
por u m ímpeto de canto. A mesma coisa vale pa
(Ultra de crepúsculo. Assim, o poema estava feito.^'
a pátria. N á o nos damos conta dela, a náo ser e
l is Júlio M o n t a n o , u m poeta como tantos outros.
dias de festa dedicados a ela e nas suas — nossas
He trecho em trecho inseria alvoradas e crepúsculos.
desgraças. E, entáo, irrompe também do coração
No entanto, uma pessoa, cansada de ouvi-lo recitar
menino o grito de alegria e o grito de dor, grito q u
uni inteiro dia, dizia que náo se deveria mais i r aos
imediatamente, tem m i l ecos. Mas, a criança náo
reus recitais. Nata Pinário exclamou: " O h ! poderia
uma criança que se ponha a dar aulas diárias de am "isT cu mais condescendente com ele? Estou disposto a
pátrio ou de amor paterno e materno a seus irmão vscutá-lo desde a alvorada até o entardecer!". O b o m
nhos, nem a seus tios e avós. Q u e m pretende que e hlata queria dizer que a chatice duraria pouco, e que,
faça isso, deseja que o vivaz pequeno vire u m velh hvpois de dois ou três versos, ele poderia retomar
chato. Deseja, enfim, que náo exista poesia. Porq • "•^ seus afazeres.^^ É inútil. J á Horácio advertia que
a poesia, obrigada a ser poesia social, poesia civ' •A ao eram suficientes as descriçóezinhas, as pequenas
poesia patriótica, entristece sobre os livros, murch ^figressões e os belos remendos vermelhos e amarelos
no ar fechado da escola e, finalmente, enferma pAAi a fazer poesia da prosa.^"' É preciso que o fato his-
retórica, morre. E temos em abundância esse t i p "orico, se dele se quer fazer poesia, seja filtrado pela
de pseudopoesia, desde que, morto Virgílio e env 'AAaravilha e ingenuidade da nossa alma de menino, se
lhecendo Horácio, se encerrou a grande revolução 'Aiiida a conservamos. É preciso afastar o fato que está
iniciada, e pode-se dizer terminada, com a morte d Pi ' to, afastando-nos dele.^* E m se tratando do género
duas mulheres, Júlia e Cleópatra, a filha e a amante d
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GIOVANNI PASCOLI O MENININHO: PENSAMENTOS SOBRE A ARTE

histórico, querem uma prova para distinguir a p .^ua ocupação como a mais nobre. Se, pelos menos,
da pseudopoesia? Se a narração, que o versifica fizessem seus instrumentos, mas náo, só os "julgam"
faz, comove menos do que a mesma feita em pr e os "colecionam". Esse ócio, agora, chamamos de
pelo historiador ou pelo cronista, pode-se dizer crítica e história literária. E todos podem ver que há
o versificador traduziu mal, náo poetou. Perdeu, coisas m u i t o mais úteis e belas para fazer, vale dizer
tempo e nos fez perder o nosso. cultivar e semear. Porém, há, ainda, entre as muitas
ramificações da literatura, a poesia que está por si,

\\\
que compreende em si tudo o que se diz e se escreve
por deleite, amargo ou doce, próprio o u alheio. A
poesia náo está para as ciências como u m instrumen-

M as na Itália a pseudopoesia é desejada, pe


e exigida. N a Itália, somos vítimas da his'
literária! Na verdade, náo é só na Itália, parece
to para seu objetivo. Digamos que ela também seja
um cultivo, mas de outra ordem e espécie. Digamos,
assim, que é o cultivo, realmente nativo, da psique
que das letras se gerou u m falso conceito. As primordial e perene. C o n t u d o , a colocamos j u n t o
sáo os instrumentos das ideias que, por sua com a outra literatura " i n s t r u m e n t a l " , e pensamos
formam vários grupos chamados de ciências, em ambas da mesma forma. D i v i d i m o s por séculos
fixados nos instrumentos, acabamos por esqu e escolas, chamamos de arcádia, romântica, clássica,
os objetivos. Somos agricultores que só pen realista, naturalista, idealista, e assim por diante.
nas pás e só falam de arados, e mais de suas be Afirmamos que progride, decai, nasce, morre, que
artificiais do que de suas utilidades. N á o nos ressurge e morre novamente. N a verdade, a poesia é
cupamos mais c o m as sementes, a terra e o ad irrna tal maravilha que se fizerem agora uma verda-
Entáo, acontece que como temos físicos, filós eira poesia, ela será da mesma qualidade que uma
historiadores e matemáticos, também temo ^^rdadeira poesia de quatro m i l anos atrás. C o m o
literatos. U m modo de dizer. E, como cultivad Jso é possível? Bem, o h o m e m aprende a falar táo
de cânhamo, de v i n h o , de trigo, de azeitonas ^ erente e táo melhor, de ano em ano, de século em
mos também grandes peritos em pás e arados, tod^ ° rnilénio em milénio, porém começa, em
não fazem outra coisa e acreditam que náo se ^^os os tempos e lugares, com os mesmos vagidos e
fazer mais nada. Eles consideram, pelo que vej ^ substância psíquica é igual nos meninos de

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GlOVAíIM PASC»U O MENININHO: PENSAMENTOS SOBRE A ARTE

todos os povos. U m menino é sempre u m m e n i ^ u n i árcade. E também se outro, n u m a verdadeira


do mesmo m o d o , em todos os lugares. Portan*' poesia, exalta extraordinariamente uma aparência,
não há nem poesia arcádica, romântica, clássi puiclamam que peque por "seiscentismo". N o final,
nem poesia italiana, grega, sânscrita, mas poesi os entendidos, ao mesmo tempo, falam asneiras e
só, somente poesia, e... náo poesia. Sim, també pedanteiam. Qualquer sujeito pode ser contem-
existe a contrafaçáo, a sofisticação, a imitação
plado pelos olhos profundos do menino interior:
poesia, que possui tantos nomes. H á pessoas q
liialquer ténue coisa pode parecer enorme diante
i m i t a m os passarinhos e, ao assobiarem, parece
daqueles olhos.
passarinhos. C o n t u d o , na realidade, náo sáo pass
Vocês só devem julgar (se tiverem essa mania de
rinhos, sáo caçadores de passarinhos. Bem, eu n
julgar), se foram aqueles os olhos que viram, e deixar
saberia dizer quanta vaidade haja na história desí
du lado o Seiscentos e a Arcádia. A poesia náo evolui
ócios. Ei-la, em poucas palavras. U m poeta e m i
c retrocede, náo cresce ou d i m i n u i . É uma luz ou u m
u m doce canto. Por u m século, mais ou menos, m
logo que é sempre aquela luz e aquele fogo, os quais,
outros repetem-no, floreando-o e desgastando-
tjuando aparecem, i l u m i n a m e esquentam agora
até entediar. Entáo, outro poeta ressoa outro bel
a i m o dantes, do mesmo modo.
canto. E por u m século, mais o u menos, m i l o u t r *
Só é preciso dizer que aparecem raramente. Sim,
fazem variações a partir desse canto. Algumas veze
a poesia, dita e escrita, é rara. Realmente, rara é a
o canto inicial náo é nem belo nem doce, e, aí,
pura poesia. Mas, existe a poesia "aplicada". Essa
pior do que nunca! Mas, na Itália e em outros l u
v a dos grandes poemas, dos grandes dramas e dos
gares, náo estamos satisfeitos com esse compêndio
grandes romances. E claro que falta m u i t o para que
Raciocinamos e d i s t i n g u i m o s demasiadamente)
todos esses sejam poesia por inteiro. Imaginem que
Aquela escola era melhor, essa é pior. À q u e l a é
cada u m deles seja u m grande mar. As pérolas estáo
preciso voltar e a essa renunciar. N á o , as escolas d_,
no mar, mas quantas? M u i t o poucas, mais em uns e
poesia sáo todas ruins e náo é necessário se ajustar
nienos em outros. Também ocorre dizer que nesses
a nenhuma delas. N á o existe poesia que nâo seja
poemas, dramas e romances, a poesia pura raramente
a poesia. Q u a n t o aos entendidos, por exemplo, se
se encontra pura. V ou dar u m exemplo. U m a dessas
alguém faz uma verdadeira poesia sobre u m rebanho
pérolas, no grande oceano perolado que é a divina
de ovelhas, declaram que aquele verdadeiro poeta
Comédia, é o sino da tarde.

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GIOVANNI PASCOLI O MENININHO: PENSAMENTOS SOBRE A ARTE

Era già Tora che volge il disio contudo, parece chorar e que também o dia parece
ai naviganti, e intenerisce il core morrer e náo morre.""
lo di ch'han detto ai dolci amici addio;

e che Io nuovo peregrin d'amore 1111


punge, se ode squilla di lontano

che paia il giorno pianger che si m u o r e ã '

Nessa representação, que de mais poética não


A poesia benéfica por si é a que nos faz amar
melhor a pátria, a família, a humanidade e é,
portanto, a poesia pura, que raramente se encontra.
pode encontrar (Dante nos representa a hora em q i Na Itália, que é a minha pátria (náo a sua, oh! menino,
voltamos, por u m momento, a ser meninos!), o toqu você é do mundo, náo é do agora, é do sempre), é mais
mais poético é o final. É o último, apesar de o sin rara do que em outros lugares. Na verdade, a poesia
longínquo chorar o dia que morre, ser u m daquel elementar e espontânea nunca foi amada por nós.
toques que nós, versificadores, deixamos chegar lèm geral, a nossa literatura, como também a nossa
exaustão, devido à repetição. Desse modo, esse toqu poesia, sempre teve modelos. Espelhamos o nosso
pode ser apagado ou enfraquecido por alguém, qu estilo na arte latina, assim como os latinos fizeram
já ensurdeceu com tantos duplos. Pois bem, o poet eom os gregos. Isso pode ter contribuído para dar mais
teve de colocar, por exigência da arte, u m pouco d majestade e concretude às nossas escrituras, porém, no
liga no seu ouro puro. Qual? Teve de colocar aquel que toca à poesia, a sufocou. A poesia náo se faz sobre

"paia" [verso 3, da segunda estrofe] por contar u m os livros. Ademais, amamos muito a ornamentação e

sentimento poético outrem, que também é o seu. demonstramos esse gosto especialmente no que menos

Assim, disse que o sino parece chorar, náo que chor o comporta, na poesia. O menininho itálico só brinca

realmente. N u m certo momento, o menino (aqui u m bem vestido e bem penteado, e as nozes com as quais

pouco, muito em outras partes, muito em outros), no joga a trilha devem estar recobertas de folha de ouro

meio do caminho, se dá conta e parece se envergonhar e prata. Queremos nos dar sempre bem, e em vez de
oos preocuparmos com o jogo, nos preocupamos com
de ser menino, do falar infantil, e se corrige. "Parece,
oós mesmos, nos escutamos e piscamos para a nossa
náo é, entendamo-nos". Porém, querido pequenino,
própria sombra. E ainda mais do que conosco, nos
já sabíamos por nós mesmos que o sino náo chora.

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GIOVANNI PASCOLI O MENININHO: PENSAMENTOS SOBRE A ARTE

preocupamos com o público, olhamos de rabo de o escolhe cantando, as flores que parecem despontar
os grandes que nos observam, e, assim, fazemos t u diante de seus pés. Sem insistir no valor moral do
sem delicadeza e desenvoltura. E levando em con mito, táo exaro e belo, e interpretando o poeta
deração que, particularmente, nos dias de hoje, tud pelo respeito artístico, digo que o estudo deve mais
entre nós, se dá por concurso, tudo se abate em leil tirar do que acrescentar. Tirar a grande quantidade
e, enfim, tudo se conclui com atribuição e premiaç- de ferrugem que o tempo depositou sobre a nossa
parece que o nosso único objetivo é passar por ci alma, de modo que possamos voltar a nos espelhar
do outro e conquistar com uma pequena graça o fav iia limpidez de antes e estar sós entre nós mesmos.
dos juízes. A astúcia, que é algo dos mais velhos, es O estudo deve tirar as escórias do puro cristal que
muito presente nos jogos dos nossos meninos. S encontramos quase casualmente e que, mesmo com
espertos demais e tentam ser os primeiros, em vez as escórias, vale mais do que u m vidro que dilatamos
serem eles mesmos. É por isso que a nossa poesia (p c moldamos assoprando. E n f i m , o estudo deve nos
chamá-la assim) é mais de imitação, aliás de coleçáo, tornar novamente ingénuos, tal qual Dante represen-
tem sabor mais de lampião do que de orvalho ou rei ta a si mesmo diante de Beatriz ou de Matelda. Se a
fresca. Estudamos demais para poetar, e é supérflu primeira o repreende, o faz chorar e sentir vergonha,
acrescentar que estudamos demasiadamente pou como uma criança castigada, a segunda o pega, o
para saber. Colocamos o estudo onde náo deveríamt mergulha na água, como uma criança, que náo quer
Como? O estudo náo está relacionado com ou náo pode fazer por si só, e a leva para beber na
poetar? Sim, mas com o objetivo que Dante mostrou fonte. O estudo deve descortinar os artifícios e nos
Virgílio, que é o estudo, conduz Dante a M a t e l d dar naturalidade. É o que diz Dante. A sua arte está
que é, em geral e sobretudo, a arte. A arte de Dante personificada em Matelda, que é a natureza humana,
é, justamente, a poesia. Logo, o estudo conduzi primordialmente, livre, feliz e inocente.
Dante à poesia. Pois bem, Matelda, ou a poesia, está,
no j a r d i m da inocência, escolhe cantando o melhor,
tem os olhos brilhantes, purifica nos rios do esque-
cimento e da boa vontade. O u seja, o poeta, graças
m
ao estudo, conseguiu reencontrar a sua meninice e,
puro como é, enxerga bem e escolhe sem esforço. P orém, nós italianos somos, no fundo, demasia-
damente sérios e espertos para sermos poetas.

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GIOVANNI PASCOU O MENININHO: PENSAMENTOS SOBRE A AKTE

Imitamos demais. É claro que, estudando, deve parece que os italianos (julgando por aqueles que
aprender a fazer de forma diferente, mas, náo ig' escrevem em versos) nada mais têm do que a amiga,
E nós queremos fazer o mesmo e fazer acreditar a em alguns casos, e a máe, em outros. Os verdadeiros
outros, ou nos fazer acreditar, que fazemos melh poetas estáo cheios do afeto contrário, isto é, náo
Por isso, normalmente, parece que descobrimos querem ser incluídos no rebanho do realismo, nem do
até fizemos a pedra, quando encastramos uma ger idealismo e nem do simbolismo. Tais preocupações
alheia num anel nosso ou quando imaginamos, m ' os deixam demasiadamente circunspectos, indecisos e
frequentemente, que dourando a estátua de bron forçados. E Matelda se distancia deles, fazendo ecoar,
ela se torne náo só mais bonita, mas t a m b é m u ' cada vez mais longe, seu doce salmo, que acaba por se
obra nossa. confundir com o farfalhar das folhas e com o jorrar
N á o lançamos mais o martelo contra os blc do riacho, até, finalmente, morrer.
de mármore, nos contentamos em limpar e lustr Além disso, para a verdadeira poesia, falta-nos,
as estátuas já belas e prontas. No m á x i m o , fazem ou parece faltar, a língua.
a arte de Giovanni da Udine, os elegantes estuqu A poesia consiste na visáo de um particular inad-
Contudo, não nos lembramos do que Giovanni diss" vertido, fora e dentro de nós.
se náo me engano, a Pietro Aretino, que o admirav- Observem os meninos quando se divertem sérios,
Pretendem ser bonecos! muito sérios. Eles têm sempre em mãos algo encon-
E as escolas nos prendem. As escolas sáo fit trado no chão, na rua onde moram, que só a eles
muito sutis de ferro, estendidos entre os verdes ra: interessa, e, justamente por isso, só eles parecem ver
mos da floresta de Matelda, e tememos, fazendo as conchinhas, os ossinhos e as pedrinhas. O poeta
fiores, tropeçar e cair a qualquer momento. J á diss iáz o mesmo. Contudo, como chamar essas pedrinhas
antes que se uma pessoa se deixa levar pelas delícias ideais, esses veados voadores da sua alma? O nome
do campo, teme ser chamada de árcade. Se outra deles náo é feito, ou náo é divulgado, ou náo é co-
se vê diante de uma antítese e está entre o sim e O: mum em todo o território nacional ou em todas as
náo teme ser chamada de "seiscentista". Enquanto- classes do povo. Pensem nas fiores e nos passarinhos,
o rebanho dos imitadores segue desordenadamente que sáo a maior e também a mais comum alegria
um carneiro maior, e todos se p õ e m a balir e mugir das crianças. Que nome têm? Normalmente, diz-se
da mesma forma. De modo que, em certos tempos, sempre passarinhos, tanto para os que cantam tottaví

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GIOVANNI PASCOLI O MENININHO: PENSAMENTOS SCBRE A ARTE

quanto para os que dizem crocroi Basta dizer flor- deixar de lado tantos rabiscos, táo fáceis de se fazer,
ou florezinhas, quem sabe, acrescentar vermelh tantas belezas aparentes, agradáveis à vista, tantos
e amarelas, sem fazer distinção entre um penhasc banhos de ouro que d á o a ideia da própria riqueza.
coberto de margaridas e um prado repleto de ct" Isso é renúncia. Deve manter muitas coisas brutas
cos? Agora, se tentarem dizer o nome próprio, e' c imperfeitas. O h ! como é necessária a imperfeição
entáo que o nome de Lineu náo é válido por muit para ser perfeitos! Marcial sabia disso e ridicularizava
razões, pois o nome popular, quando existe, vari- Matáo, pelo fato de ele querer dizer que tudo era
de região para região, de comarca em comarca. Se belo. Diga, ele exclama, algumas vezes somente bem,
povo italiano se importasse com essas coisas, flore outras nem bem nem mal e, até, mal! A elegância
plantas, passarinhos, insetos, répteis que formam, contínua é extremamente enfadonha. É como o al-
sua maioria, a poesia do campo, o nome que ess' moço descrito por De Amicis, em Marrocos, em que
coisas têm em uma região acabaria por prevalec tudo tinha gosto de pomada. Tal beleza em tudo e
sobre o dominante em outras. Mas os italianos para tudo é, totalmente, antipoética, porque poesia
ofuscados principalmente pela luz do elmo de C i é ingenuidade. E o menino que tudo faz e tudo diz,
pião, náo seguem normalmente o variável e vacilant faz sem espontaneidade e com caras e bocas, e diz
movimento das libélulas. Assim, o poeta, se desej tudo com palavras exageradas e adocicadas; quantos
poetar, precisa, às vezes, se deixar dizer: " O que é isso cascudos chama para si o menino, consciente da sua
Que quer dizer? O h ! poeta que sabe tudo e chato!"; meninice!
E ainda assim, ele deve se comportar dessa forma
deixar dizer, esperando, pelo menos, que os poet
futuros se aproveitem dele, poetas que encontrará líV
divulgados tantos nomes antes desconhecidos e, po^
isso mesmo, chamados de obscuros. Na verdade, n á c
é ele, o Adáo, que nomeia pela primeira vez? É dess ^
forma que deve operar, fazendo, a todo momento,
O que espera com tudo isso? Que objetivos tem?
Retomo, como vê, o que dizia no início. Ser-me
útil? N á o , já foi dito. Beneficiar os outros? J á foi dito
alguma renúncia a seu amor próprio. Porque a arte que se acontecer náo é de forma intencional, náo é
do poeta é sempre uma renúncia. J á disse que deve seu objetivo. Deleitar a si mesmo? Se esse fosse o
tirar e náo acrescentar, e isso significa renunciar. Deve seu fim, fecharia dentro de si a sua visão e gozaria

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GIOVANNI PASCOLI O MENININHO: PENSAMENTOS SC»RE A ARTE

dela comigo, sem todos os tormentos existentes p de espreitar as plantas do vizinho, nos remoer por ele
comunicar a visão aos outros. O u , entáo.' rer papoulas maiores e girassóis mais vistosos, lançar
A gloriazinha... um mau-olhado e, contra o dele, ter muita arruda e
O h ! pobre menino! estar atento para que náo seque.
Pensa, oh! menino, quantas outras coisas eu Porém, você dirá que o tempo também se recolhe!
deria fazer que corresponderiam melhor a esse fi Bem, falemos de outra coisa. Só colhe quem se incli-
desde conduzir um exército a voar de bicicleta, tud na. Agora, no caso da gloriazinha, inclina-se demais,
ou quase tudo, leva de forma mais eficaz à meta por ser táo humilde a plantazinha, e inclina-se muito
vitória e da glória. Todavia, suponhamos que també frequentemente por serem muitas. Quero dizer que a
seja possível alcançá-la "com as asas do canto". Qi nossa alma (alma, entende!) se deforma, fica corcun-
desgraça seria se colocar nesse caminho, para você da, como sáo as costas dos pobres agricultores que se
para mim! Antes de mais nada, iria requerer muit curvam para o trigo. E você tem de ser reta, serena,
tempo. A gloriazinha requer serviços mútuos. Tenh simples, oh! alma minha! Talvez náo haja sentimento
de conversar, por meio da escrita e da fala, com no mundo, nem a avidez do lucro, que seja táo con-
que cultivam idênticos campos, pedir e ter notíci trário à ingenuidade do poeta, quanto essa ganância
sobre a eficácia de um adubo que usamos, dar-lhes de glória, que se resolve num desejo de passar por
receber deles felicitações e congratulações por u " cima de todos! Quando se sentir contagiado por esse
boa colheita que esperamos ter ou tivemos. Fa
mal, você (mas, entáo, náo se trata de você), eu, nâo
o mesmo com os que se encarregam de fornecer a J
busco o poético, o bom e o belo, e, sim, o sonante e o
plantazinhas, as sementes, os adubos químicos, oa
ofuscante. O h ! náo procuro as pedrinhas, as conchas,
instrumentos agrícolas, manuais e a vapor. Quantcl
as fiores na minha rua, mas fico atento, inquieto,
estudo, diligência e paciência sáo necessários para unfl
espiando os cadernos alheios, quem sabe lendo, pelas
tal cultivo! É preciso recolher todos os cacos de barroj
costas do escritor, o que ele escreve. Entáo, paro o
como fazem os agricultores, para semear e transplan-
tneu verso e me dedico a fazer versos alheios, como
tar as várias plantazinhas, apanhamos, também,
u m melro chato que canta, nesse entretempo, náo
braseiros quebrados e os vasos, onde crescia o cravo de
as suas árias matinais do bosque, mas a ritirata. Por
Geva camponesinha. É preciso, ainda, estar sempre
ciue, só por causa da vontade de gloriazinha no seu
ali, regando, tirando os marinhos e podando. Além
amo e talvez nele? O h ! melro do bico amarelo, quis

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GIOVANNI PASCOLI O MENININHO: PENSAMENTOS SOBRE A ARTE

ser demasiadamente esperto! Como pode crer qi deveriam pensar e dizer: "Ah! como é verdade!, e eu
seu "Io ti vedo!"7'^ que ressoava ao cair do orval. nem tinha pensado nisso". Porém, essa aprovação
seja pior que este insuportável "Ritirati cappellonl\ nfu) é dada sempre e náo é, t a m b é m , muito frequen-
Mas, é mesmo verdade que "melro" quer dizer rani K. Hoje, os olhos das pessoas estáo táo fixados no
astuto como o seu contrário. O u também, insisti próprio umbigo que náo conseguem ver além. E por
demais em um nosso verso, motivo, modo ou gêi terem as luzes veladas pela catalepsia de seu próprio
ro, que tenha uma vez agradado, e, no final, somi egoísmo, dizem que você é obscuro. Pode descrever,
enjoativos, como se n á o bastasse, nos tornamí quantas vezes desejar, uma manhã, por exemplo, no
falsos. Imitamos nós mesmos com o vidro de campo, contudo, quem nunca viu o sol nascer, no
copo, o diamante puro que uma vez encontramo| campo ou na cidade, náo entende e náo aprova nada
E constantemente, pensando ou escrevendo, som<Í tio que diz. É, ainda, considerado obscuro, muitas
distraídos pela preocupação do efeito. O que dirá(| \, por outra razáo, porque você é claro. Hoje, os
Vencerei, com isso, o tal ou o tal outro? E a sua graçá leitores estáo muito habituados aos rodeios, ao ir e
que náo é graça se náo for espontânea, se perde pari \, às tramas dos pensamentos e dos sentimentos.
sempre. Você náo vê mais com exatidáo e limpidez^ i'orquc os autores, captando dos livros esses ou
aliás, náo enxerga mais. Embora, como disse, o qiri aqueles, usam engenhosamente estuque e ouro para
seria pior, você náo olha nos outros e náo escamtri ciar um novo aspecto, ou fazem como as lebres que,
roupas e, talvez, a alma, com os que considere oii para esconderem seus rastros dos caçadores, d á o
acredite serem mais valiosos do que você. \ voltas e pisam em cima deles. Os leitores estáo táo
acostumados aos mistérios e truques dos autores, os
quais, acomodados demais, querem constantemente
IVI que se entenda mais pelos outros o que eles náo se
deram ao trabalho de pensar. Assim, quando você

N áo pense na gloriazinha, menino, ela náo


para você. Ela é difícil demais, ou fácil, de
alcançar. Difícil, já náo lhe disse o quanto é raro
fala, com seu jeito simples, suas simples coisas, eis
que nâo mais entendem. Eles procuram em você o
que náo há, e por náo encontrarem ficam mal. E
que entendam a sua fala? Você só descobre o novo mesmo que o entendam — quer dizer, se entendem
no velho. O s outros, seus leitores e ouvintes, s ó que o que diz é exatamente o que quer diz — , você

58 59
GIOVANNI PASCOLI O MENININHO: PENSAMENTOS SOBRE A ARTE

náo subentende nada e náo tem a pretensão, absur ãqucles poucos, muitos se absterão de lhe fazer elo-
e comum, de que o sentido nas suas coisas seja çrios, para garantir os próprios. E a sua glorizinha ou
locado pelos leitores, a maioria náo o aprecia. P- não nascerá ou definhará, logo que nascer.
uma grande parte parece que o belo está nos orn
mentos e o poético no ímpeto da oratória. Enfi
como quer que quase todos escutem o farfalhar M
folhas, o m u r m ú r i o do riacho, o canto do rouxin
ou o som da sua gaita, se próximo deles está a ban
do vilarejo que ensurdece o campo com trombou
e o bater dos bumbos?
E , ainda assim, aceitaria essa gloriazinha? Sabe
como ela nasce? Nasce, geralmente, da sua
própria afirmação. E um pensamento justíssimo o
N á o , náo, menino. A glória ou a gloriazinha do nosso Leopardi: "A via talvez mais direta para se
consegue com a aprovação de muitos, e você só adquirir a fama é afirmar, com segurança e pertinácia,
ouvido, escutado e aprovado por poucos. É verdadi cm todos os modos possíveis, tê-la adquirida".'^ E, ain-
que se dirige a todos, mas, lembre-se, náo propri da, num outro fragmento: "Rara, no nosso século, é,
mente aos homens, e sim aos meninos, como v geralmente, aquela pessoa elogiada, cujos elogios náo
que existem nos homens. Agora, posto que ess saíram da própria boca... Quem quer se elevar, apesar
meninos náo faltam a ninguém, sáo poucos os qui^ da virtude verdadeira, que dê bola para a m o d é s t i a " . "
lhe d á o ouvido. E sabe quais sáo esses poucos? Sád H você, menino, pretende que eu, de uma cadeira ou

geralmente poetas, ou seja, o menino deles escuta o de um palco, ponha-me a gritar suas qualidades ou

porque ele também canta e deseja saber se você can afirmar sua fama? "Esse garoto é um garoto milagro-

melhor ou pior do que ele, ou escutando a sua v so... conhecido no mundo inteiro...". Dessa forma,

acaba também por cantar. E o que acontece? Acont a gloriazinha seria fácil. Mas você náo, náo gostaria

que, um dia ou outro, começa a fazer o seu verso disso. Mesmo assim, os homens nunca acreditarão

Num primeiro momento, só algumas notas, depois que um mérito seja grande, se náo for suficientemente
grande para vencer até a modéstia de quem o possui.
uns compassos, e, enfim, toda a música. E , entáo?
Se a sua modéstia é grande, se contente com uma
Entáo, se torna um seu imitador. E daí? D a í que o
grandeza muito modesta. Será considerado um poeta
imitador é um devedor, e o devedor, cedo ou tarde,
medíocre e, como o poeta náo deve ser medíocre, seta
falará mal do credor. Portanto, mesmo em relaçáo

60 61
GIOVANNI PASCOLI O MENININHO: PENSAMENTOS SOBRE A ARTE

proclamado náo poeta. O u , ainda, náo acredita de classificações e premiaçóes. A maior diversão dada

na amarga consideração de Leopardi, irá esperar q' pelos homens a si mesmos é a de julgar. E m Atenas,

a aprovação venha da boca alheia? Para que esse 1 cm outros tempos, houve uma mania parecida, de se

vor seja suficiente para criar uma verdadeira fama;) sentar na Helieia e depositar cada um as suas pedri-

preciso que se propague entre um grande núm~' nhas. Hoje, náo há mais só um ou outro louco, sáo

de pessoas, que elogiarão sem conhecê-lo, sem tê tnuitos, e náo julgam cães e gatos de casa, por falta

ouvido, sem tê-lo lido! Irão fazer um elogio graç de outras coisas, julgam escritores e poetas de dentro

uma "sugestão". O h ! que péssimo destino seria o ; c de fora de casa. Julgam e classificam, dizendo esse

Tudo o que fizesse seria igualmente louvado, e o q' é o primeiro, aquele o segundo, o outro o terceiro, e

considerasse o seu melhor seria colocado no mes" assim por diante. Ai! menino, faça seu discursinho,

patamar do que considerasse o pior. Inclusive, exprima seu sentimento, exponha seu pensamento,

coisa que náo tivesse sido feita por você, mas se apa mostre um sorriso, verse uma lágrima, com esponta-

cesse com seu nome, seria elevada às estrelas e preferi neidade, sem saber o motivo, pode-se dizer, sem um

às outras feitas por você mesmo, consideradas boas porquê. Ao primeiro que chegar, abrindo o coração,

belas! O que faria com tal gloriazinha? quase fora de si, no meio de suas palavras, de seu sor-

Ainda mais, é preciso ver de onde veio esse el riso, de seu choro, você se dá conta de que seu ouvinte

gio inicial, que originou todos os demais. A que toma notas, pesa as frases que diz, desenha, com o

deve? A qualquer outra coisa mais apta do que polegar no ar, a linha do seu sorriso, examina a água

demais a cegar, a inebriar e a fazer delirar as pesso e o cristal da sua lágrima. E , enfim, murmura: "Nada

A política, por exemplo, ao partido ou à seita. Fiq- mal! Mais ou menos! Bem! Muito bem! Porém, pior

atento, pequeno. É, justamente, o caso de alguém q- do que o tal! Mas, também, melhor do que aquele

quer ganhar popularidade, colocando uma tornei outro! Primeiro! Segundo! Terceiro! Poeta maior!

no barril para que todos bebam. O grande barril Poeta menor!". Assim, se você náo é presuntuoso ou

a política, o vinho que cada um bebe é o própri chorão, desmancha o sorriso, coloca as lágrimas para

sentimento que se esquenta no barril comum, e dentro e vai embora. Naquele momento, talvez, jure

esbórnia geral é a sua glória! que náo se mostrará mais para outros, e que, uma

O h ! gloriazinha indigna do seu desejo! E é ainc outra vez, irá gozar ou chorar sozinho. Contudo, você

amarga. Sabe que estamos em tempos de concursos; é um menino e retorna sempre ao início, achando.

62 63
GIOVANNI PASCOLI o MENININHO: PENSAMENTOS SOBRE A ARTE

todas as vezes, que nâo há mais lugar nesse mun todos contemplam por um bom tempo. Mas, depois,
para os meninos! O fato é que, além do tédio de os enfeites sáo jogados fora e se come só o panforte.
sentir sempre comparado, como se fizesse um Mesmo assim, náo se esqueça, por meio desse exem-
cicio escolar, você pode provar a amargura de plo infantil do panforte enfeitado com flores, de que,
posposto, com um julgamento apressado e malign normalmente, se admira e se elogia o que está por
E , também, anteposto àqueles que náo sonha seq cima e náo o que está por baixo. Lembre-se de que
emular, a quem sequer tinha pensado ou a quem a verdadeira poesia faz bater, quando faz, o coração
devia e náo podia pensar, absorto como estava no; e náo as mãos.
prazer ou na sua dor. Iráo compará-lo com os out"
e também com você mesmo. Contarão os anos e
rugas nos olhos, os cabelos brancos, e náo veem UVill
hora de dizer que está decaindo, se apatetando e q'"
morre. Bela caridade! E um belo dia, injustamen'
o jogarão num canto, esquecendo-o. Injustament
porque o que fez de bom náo deve ser anulado
E ntáo..., entendo. N á o almeja a gloriazinha,
e sim a glória. Desse modo, diferencia como
se a primeira estivesse entre os vivos e a segunda
aquilo que depois venha fazer de pior, ou també após a morte. N á o quero dizer (aprecio muito suas
porque náo pode nascer nunca um portento tal, ilusões), n á o quero dizer que depois da morte náo
paz de fazer esquecer os que antes dele encontra- escutaremos nada do que se diz a nosso respeito.
uma migalha que seja de poesia. Por mais que sej| Escutarei e, ao menos, escutará, mas n á o se tur-
grande o poeta que entra no cânone, ele deve sent ve. Escutará coisas belas? Eis a questão. Antes de
numa só cadeira, digamos, num trono, náo tem ne ' qualquer coisa, diráo algo? Nos nossos dias, tem-se
necessidade de duas ou de todas, nem a de que pressa de viver, e as visitas aos cemitérios sáo perdas
ou todos se levantem e váo embora. de tempo. Ficamos surdos, nos nossos dias, com a
A gloriazinha náo é para você, menino! A poesi nossa vida, e n á o é possível ouvir o leve rangido das
pura, quando se lê, faz com que o leitor vulgar diga| sombras. O s mortos, nos dias de hoje, n á o contam

Como seria possível fazer melhor e mais! É verdad mais nada. U m poeta disse que o dia da morte era o

que essa é uma ilusão dc ornamentador... E eu pens dia do louvor, mas esse dito poucos anos depois de

nos panfortf''^ com flores que sáo táo lindos, e qu pronunciado j á n á o era mais verdade. E o próprio

64 65
GIOVANNI PASCOLI O MENININHO: PENSAMENTOS SOBRE A ARTE

Prati sabe, se no sepulcro, alguma coisa se sa^ juízes passam entre si, mensageiros que estáo eter-
E esse esquecimento que atinge rapidamente namente parados, as tochas de seus juízos.
mortos náo é, no que concerne aos literatos, se' N á o quer julgamentos, quer c o m o ç ã o , con-
razáo e sem justiça. N ó s , literatos, queremos ocup sentimentos e amor, n â o para si, mas para a sua
demasiadamente, em vida, o mundo com a no" poesia. Pois bem, uma vez morto, se a sua voz foi
presença. Se ficássemos no nosso cantinho, se n pura, se foi a voz da alma e das coisas, e n á o o eco
gesticulássemos tanto no meio das pessoas, se n " de uma voz alheia, mais fraca ou mais forte, ela
vozeássemos tanto, náo haveria essa compensar passará inadvertida, quando n á o será esquecida.
de silêncio depois da morte. E n t á o , náo diráo n a ' Na verdade, se é repetida com frequência, como,
de você? E , se sim, diráo bem e justo? O u , ent talvez, deva ser, se fundirá com o tempo, n á o sei
acredita que a mania da classificação irá acabar, se no silêncio ou no rumor circunstante, como se
artifício da sugestão, a cegueira do partido e da sei' dá com o trinar das andorinhas debaixo da sua
Veja, frequentemente, os mortos sáo perturbad" calha, que, depois de se escutar por um tempo,
durante o repouso e chamados para atrapalhar náo se escuta mais...
vivos. Muito frequentemente. Você sabe como Quer falar? Espera, ainda náo acabei.
inveja é exercida no mais das vezes. Você d á a De qualquer forma, por que deveria ser de outro
g u é m o devido elogio, na presença de uma out modo? O que faz você, realmente, que seja digno de
pessoa. Ela confirma brevemente, contudo, depoi louvor e de glória? R i , chora, que mérito há nisso?
se vira e se delonga a elogiar um outro, que Se achar que tem mérito é sinal de que ri e chora de
ser inferior ou superior ao seu elogiado e que qua propósito. E se o faz de forma premeditada, náo é
sempre j á está morto. Agora, menino, você gosta' poesia o que faz. E se náo é poesia, nâo tem direito
de ser desenterrado para esse fim? Sabendo que se ao louvor. Você descobre, já foi dito, náo inventa,
uma sombra, teria o prazer em ser usado para : e o que descobre havia antes de você e continuará
sombra a um qualquer bom e robusto menino, q existindo sem você. Gostaria de gravar seu nome?
viva e cante? N á o gostaria disso, é melhor dormi Fica irritado porque querem julgá-lo e premiá-lo por
esquecido. E melhor estar totalmente morto d aquilo que já é a sua natureza e a sua manifestação
que continuar aparecendo diante dos tribunais pa de vida. Portanto, que importância tem o nome
ser julgado e classificado, especialmente porque para você?

66 67
GIOVANNI PASCOU O MENININHO: PENSAMENTOS SOBRE A ARTE

M que irradie os confortos


para o velar dos pobres mortos.

O menino
O nome? O nome? A alma eu semeio, E u tudo quero, mesmo nada: ampliar

o que há de branco no caroço, de outro ponto os mundos da V i a Láctea,

que em terra se perde, no céu infinito,

mas nasce a bela árvore verde. doar nova doçura ao grito.

N á o quero louro nem bronze, mas viver, Quero a vida minha deixar, suspensa
e vida é o sangue, rio que flutua em cada haste, sobre cada pétala,
sem outro rumor, um orvalho feito
um batido, só, do interior. que, do sono, caia de jeito

No interior, que fique um meu ruído, na nossa alvorada breve. C o m a íris


sem outro orgulho que o de um frémito de mil de suas gotas, no sol único,
que, nas águas, treme, s'anula e aurora...
faz pedra no fimdo perene. deixando mais vida que outrora.

No ar, que permaneça um meu gemido:


se o mocho gemer desejo estar M
perto do rio bem
eu também, nas trevas, eu também.

Se os sinos choram e ainda choram,


M uito bem! Entáo, resumo, como homem sério
que sou. A poesia, por ser poesia, sem ser
poesia moral, civil, patriótica, social, faz bem à mo-
eu, nas opacas noites, invisível ralidade, à civilidade, à pátria, à sociedade. O poeta
quero estar na hora
náo deve ter, náo tem, outro fim (náo falo de riqueza,
junto àquele que ao pranto chora.
nem de gloriazinha e nem de glória) a náo ser o de se
confundir novamente com a natureza, de onde saiu,
E u pouco quero, mesmo muito: ligar
sobre os túmulos mudos a lâmpada deixando nela um sinal, um raio, uma palpitação
nova, eterna, sua. Os poetas embeleceram, diante dos

68 69
GIOVANNI PASCOU

olhos, da memória e do pensamento dos homens,


rerra, o mar, o céu, o amor, a dor, a virtude. Porém, EstraiLhainento e experiência
homens não sabem os nomes deles. Porque os nor do pensamento
que dizem e se orgulham são sempre, ou quase semp
de epígonos, de engenhosos repetidores, de limpado"
elegantes, quando nâo é o caso de serem nomes
sujeito. Quando florescia a verdadeira poesia, q
dizer, a que se encontra e náo se faz, se descobre e I IfanciulUno, agora traduzido como O menininho:
pensamentos sobre a arte, é um texto clássico do
início do século xx, sobre o qual Giovanni Pascoli
se inventa, a preocupação era com a poesia. N á o
olhava para o poeta, no intuito de saber se era ve' ( i 8 5 5 - i 9 i 2 ) s e debruçou mais de uma vez. O início

ou jovem, bonito ou feio, calvo ou cabeludo, go" da sua escrita data de 17 de janeiro 1897, quando é

ou magro. Enfim, náo importava saber onde tir publicada uma primeira parte na revista florentina II

nascido, como havia crescido e quando tinha morric Marzocco. Mgans anos depois, em 1903, uma primeira

Tais ninharias sobre a vida do poeta começaram a; versão desses pequenos textos reunidos sai no volume

narradas, estudadas e indagadas quando ele mesr Miei pensieri di varia umanità, editado por Vincenzo

quis chamar para si a atenção e a admiração que só Muglia. E dez anos depois da publicação inicial em II
Marzocco, em 1907, Pascoli retoma novamente esses
deve à poesia. E isso foi um mal. E esse mal aumen
fragmentos na coletânea de artigos Pensieri e discorsi)
cada vez mais. Os poetas dos nossos tempos parec
Nessa tradução, em especial, foi inserido um subtítulo,
procurar e encontrar náo as gemas que apontei, e si
"Pensamentos sobre a arte", com o intuito de fornecer
a vaidade que está neles. O que náo faziam os pc
desde a capa indícios e pistas sobre as problemáticas
de outros tempos. E você, oh! menino, gostaria
debatidas nessas páginas, que tanto chamam a atenção
fazer o que fizeram estes, com a mesma recompe
de poetas, escritores e filósofos no século xx.
que eles tiveram? Recompensa reputada grande
você, pois, mesmo que náo nomeados, os verdadei" Pascoli é, talvez, o maior poeta italiano de sua
poetas vivem nas coisas que eles fizeram para n ó s . " geração, que náo deixa de dialogar com a produção
É assim? poética do século xx. Para Pascoli, o "sentimento po-
ético" deriva da esfera íntima, talvez primitiva, ligada
Sim. úo cotidiano, e daqui é possível pensar na dimensão

70 71
PATEiaA PETERLE ESTRANHAMENTO E EXPERiÊNaA DO PENSAMENTO

"infantil" e na profundidade que lhe é dada, ao lado pascoliano", j á que o poeta é consciente e sabe que
experimentação linguística que permeia grande ] a morte faz parte de todo e qualquer percurso.'^ Será
da sua poética, abrindo outros rumos no novo sécul outro grande crítico, Gianfranco Contini,' num texto
A relaçáo do que é (ou está na esfera do) famili de 1970, a dizer que Pascoli restitui a vida aos objetos
normalmente vivenciada de forma tranquila, p poéticos que foram vivos, e que a sua determinação
sofrer e sofre desequilíbrios e desorienta. De fa- se dá sempre sobre um fundo de indeterminação.^
a sensação de estranhamento, ou melhor dizendo, Dois pontos podem ser assinalados: i ) esse meni-
"estética do estranhamento", é um dos pontos d ninho (a arte) náo tem uma íúnçáo pragmática, utili-
texto pascoliano, que é, por um lado, datado no tária, preestabelecida; z) o olhar do menininho, mais
tempo e contexto, mas, por outro, é mais do q do que olhar para o alto, para as coisas já tidas como
contemporâneo. O adulto, mais velho, j á madt belas, procura a "beleza" onde ela aparenta náo estar.
com toda a sua bagagem de vida, aqui é capaz de Com efeito, esses sáo dois elementos centrais para uma
surpreender, de repente, com o que lhe está m- melhor compreensão da distinção entre "gloriazinha" e
próximo, pertencente a um cotidiano, que mui "glória", discutida por Pascoli no final dessas p^inas.
vezes náo consegue enxergar ou, simplesmente, (f omo aponta Cesare Carboli, na introdução que íàz a
apagou". Contra esse "breu", sáo necessários algu Ilfanciullino, tal tema já era uma preocupação do poeta
desvios, inclusive o do olhar: ver no que é m ' de Myricae desde 1896, ano em que se dedica a tuna
comum e simples algo que antes náo se via. A id fala sobre o célebre poema "II sabato dei viUa^io", de
do menino é, sem dúvida, um modo dc escutar Giacomo Leopardi, que também dedica no seu Zibal-
que náo se escuta, buscar as vozes mudas, que já i done considerações sobre esse ser "fanciuUo" (termo
podem mais falar, que permitem um outro tipo que se repete mais de 140 vezes). U m fragmento desse
comportamento e atuaçáo no mundo. A tensão i emblemático texto para se pensar os movimentos da arte
aos poucos se vai delineando é entre o jovem, o vel c: "Ver e escutar: outra coisa náo deve íàzer o poeta",
maduro, e o menino que há dentro deles, provocad afirmação que coloca em diálogo esses dois monumen-
de descobertas e sensações. Assim, Pascoli, ne tos da literatura italiana, mesmo considerando as suas
páginas, interroga esse menino com o intuito diferenças. É o detalhe que interessa a Pascoli.
tentar descobrir o mistério do seu "segredo", a
A matéria prima da arte, da poesia, inscrita nessas
sência" enigmática da arte. Uma dimensão moderna
paginas, náo está numa transcendência, num sublime,
identificada pelo crítico Renato Serra no "desencan
luas está ao redor do próprio poeta, que deve simples-

72 73
PATRiaA PETERLE
ESTRANHAMENTO E EXPERIÊNCIA DO PENSAMENTO

mente (não é um gesto em nada simplório) obser


voz/língua morta e letra/língua viva. O poeta, segun-
Todavia, olhar com atenção, ver e enxergar são ii
do Pascoli, enfim se move e opera com e no enigma.
bricados procedimentos que levam a um comple
Na visáo do filósofo, que já havia perpassado por
processo, processo também de coisas arcaicas e sobr
Pascoli em outros textos como "Notas sobre o gesto"
ventes. Os cinco sentidos mediam o entendimento <
ou "Ideia da cesura", o menino que dita náo passa de
mundos externo e interno. Para esse poeta, sucessor j
uma voz morta (potência), capaz de fazer operar a
Giosuè Carducci na cátedra de Literatura Italiana 1
linguagem com a sua pura vontade de dizer. Assim,
Universidade de Bolonha, as cores e os cheiros j
para o autor dos Canti di Castelvecchio, a linguagem
um espaço especial, a lembrança do que já foi, ná
humana se aproxima da linguagem que náo mais sai
mais, porém está ali, talvez muda: morte-vida.
dos lábios de quem vive, como ele mesmo coloca num
L m poucas palavras: "A poesia consiste na v l
outro texto, " U n poeta di lingua morta".
de um particular inadvertido, fora e dentro de :
U m exemplo dessa experiência que proporciona
Como dirá Mário Luzi, para Pascoli, trata-se de >
a morte está no poema " L a tessitrice" [A tecelã], em
retorno ao mundo dos afetos e dos sentidos. A vidai
que o pressuposto diálogo entre o poeta e a tecelã é,
poesia depende, justamente, desse "particular inady|
na realidade, um m o n ó l o g o — a voz do poeta — ,
tido", capaz de surpreender. L a sua morte fatal -
já que ela só vive em seu coração. O termo "mudo",
nas amarras da chamada "gloriazinha", que des
repetido algumas vezes, caracteriza a fala dessa mulher
poeta e o faz se perder e parar de escutar o meu
e o som silencioso que sai do tear. A virgem vocal (a
que tem dentro de si. Para Pascoli, que poderia jj
musa) é som em negativo, que, segundo Agamben
considerado o último expoente do século xix e o ]
em II fanciulUno, ainda se encontra velada. A lem-
meiro do século xx, o poeta náo inventa, ele desço
brança dos mortos, "a língua morta", é um elemento
Uma descoberta que está na própria língua, no esf
fundamental na poética pascoliana, à qual retornaram
do vazio, uma língua em negativo, uma língua mC
poetas importantes da segunda metade do século xx,
— um dissolver — , que potencializa a voz, por i
como Lugenio Montale, Giorgio Caproni e Vitto-
da experiência com a letra.' A letra e a voz. (^
rio Sereni,^ sem falar de Giuseppe Ungaretti.* Mas
Para Giorgio Agamben, em "Pascoli e il pensM
também Pier Paolo PasolinP olha para os poemas
delia voce",'' Pascoli realiza o mitologema da voz> l
c propostas de Pascoli, as onomatopeias, as línguas
sua morte e da sua memorial conservação na le
tnortas, enfim, a "língua que náo se sabe mais",'"
Uma espécie de entrelugar, espaço de fratura er
para lembrar um famoso verso do poeta, em "Addio".
74
75
PATRÍCIA PETERLE

Contudo, t a m b é m é verdade que nem sempw


Pasolini concorda com as soluções formais de Pa Notas
porém, ao longo de sua vida, manteve por meio i
A voz humana
textos uma relaçáo "fraterna e humana".
1 Giorgio Agamben, A linguagem e a morte. Um seminário sobre o lugar
U m saber que é, justamente, o náo-saber. O da negatividade, ttad. Henrique Burigo, Belo Horizonte, Editora
está em jogo é um possível falar, pensar e escrever | U F M G , 2 0 0 6 , p. 67.

além da letra e da morte da língua. A linguagem cor 2 Idem, ibidem, p. 143.


um espaço híbrido, do que já foi vivo e do que age 3 Idem, "Pascoli, esperienza delia lettera", in Alfabeta, n. 20, Milano,
está "morto", passível de tornar à vida — cinzas e fo Cooperativa Intraptesa, jan. 1981, pp. 7-8.

Questões que norteiam o pensamento de Pascoli de 4 Idem, "Pascoli e il pensiero delia voce", prefácio a Giovanni Pascoli, //
1896. Na leitura da conferência "II ritorno", proferidi fanciulUno, Milano, Feltrinelli, 1982, pp. 5-22, mais tarde incluído
em Categorie italiane: studi di poética, Venezia, Marsilio, 1996, pp.
em ocasiáo do cargo de titular de Gramática Gregal 67-78.
Latina na Universidade de Bolonha, ele pergimta (ã
5 Idem, Infância e história, ttad. Henrique Burigo, Belo Horizonte,
pergunta): a língua da poesia náo é sempre uma língul Editora U F M G , zoo 5, p. 10.

morta? L ainda afirma ser algo bastante inusitado 6 Kalpana Sesbadri, "^amben, rhe rhoughr of Steresis-, an introducrion
fato de ser uma língua morta a usada para dar vida a â roTwo Essays", Criticai Inquiry, v. 40, n. 1, inverno 2014, p. 479.

pensamento.'' Operar a poesia é também operar a pm


lavra, portanto, a experiência da poesia é experiência < 0 menininho: pensamentos sobre a arte
palavra que, por sua vez, é experiência do pensamentoi| 1 Piarão, Fédon, 77. E . E Cebete, com um sorriso: "Faze de conta,
Sócrates, observou, que estamos com medo, e procura convencer-
-nos. O u melhor: será preferível admitires, não que remos medo,
Você diz com seu jeito franco e simples coisas que vê e sente con
mas que talvez haja dentro de nós uma criança que se assusta com
seu modo límpido e imediato. E sente-se recompensado quandril essas coisas. Trata, por conseguinte, de convencê-la a não ter medo
da morre como do bicho-papão.". Faz-se referência à tradução de
quem o escuta exclama: E u também vejo agora, agora sinto (n
Carlos Alberto Nunes. Platão, Diálogos, vol. rv, trad. Carlos Alberro
que diz, que antes estava dentro e fora de mim, e eu, realmence,| Nunes, Belém, E D U F P A , 1980, pp. 314-315. [ N . T . ]

náo o sabia, ou pelo menos não como agora! 2 Homero não declara expressamente que Fêmio seja velho, mas o faz
indirecamente com o epítetopericlytós {Odisseia, 1,3^5). comum ao
outro aedo Demódoco (Odisseia, 8, 521, ea/.), e, especialmente, com
PATRÍCIA P E T E R L E Í o que o próprio Fêmio afirma sobre si (Odisseia, 22, 347);
Génova, agosto de 2014. ; "Fiz-me por mim, tão-somente, que um deus em minha alma ditou-rae
muitas canções [...]".

77
76
NOTAS NOTAS

o que é consoante com o que diz Penélope dele {Odisseia, i, 337): 4 Lembro que tudo leva a crer que a Comédia foi iniciada pelo poeta
no ano quadragésimo oitavo da sua idade, ou até mais tarde. E este
"Fêmio, canções diferentes tu sabes, que os homens encantam é o poema da contemplação, oposta à vida ariva.
gestas de heróis e de deuses...".
5 Assim, na verdade, o representou Manzoni com as Musas (basta-
E o velho Fêmio com a canção mais nova ou mais jovem {Odisi va uma) que o acompanham "la mal fida con le desrre vocali or
I. 351): mareggendo"

"Pois entre o povo recebe mais altos louvores o canto que para 6 Não só os poetas modernos, tão fixados no amor e na mulher, mas
os ouvintes mais novos lhe soam, de faros recentes". também os antigos poetas trágicos e até os poetas corais que se su-
cederam, imediatamente, à poesia épica, começaram a dar cores ao
Faz-se referência à tradução de Carlos Alberto Nunes, Odisseia e III
elemento feminino e erótico dos poemas homéricos. E as mulheres
publicada pela Nova Fronteira em 2015. [N.T.] Quanto a Váinãmõir
delineadas e mencionadas nesses poemas não foram suficientes, e
lembro-me do maravilhoso fragmento traduzido graças ao meu P. \
foram criadas outras novas. Isso aumentou o interesse dramático do
Pavolini {Sul limitare, pp. 75.):
ciclo, mas marca a diminuição da essência poética. Assim, Orlando
Mantico e verace Váinámôinen enamorado e furioso por amor é mais dramático, mas menos poético
do que Roland na Canção.
Quindi, Vantico Váinámôinen
7 Augusto Conti conta de uma sua menina: "Quando mirava a lua ou as
quando udirono il nuovo canto, estrelas, lançava vozes de alegria e as indicava para mim, chamando-as
senrirono il dolce suono. como se fossem coisas vivas; oferecia-lhes o que rinha nas máos, até
as vestes". Perpasso com o pensamento todas as poesias que li, não
encontro uma mais poesia do que essa!
3 Homero, Odisseia, 8, 499;phaine d'aoindén. N ã o é minha inren;
afirmar o étimo de aeidein de a privativo e vid-vedere (ver). N á 8 Tal é o exemplo de Andrômaca, que chora sobre Heitor (11, 22, 510):
pretendo asseverar que esse étimo estava presente nos anrigr Nudo, e si che di vesti ce nhai ne la casa riposte,
cantores. É possível comparar os dois versos da Odisseia, i , 3 3 7 ' )
Morbide e graziose, lavoro di mani di donne!
que terminam o primeiro com oidas e o segundo com aoidoi. Qu
se reflira sobre o 64 de 8: Dos olhos, sim, o privou, mas lhe dava
9 Platão, Fédon, iii B .
suave aoidén. Que se repense a expressão referida acima: mostrav
a aoidén. Até, ouso dizer, convém observar, em relação à ceguefc 10 Catão, Deagri cultura, z,j. Armenta delicula, oves deliculas. (Traduzo
de Polifemo, comedor de homens e bebedor de vinho, que pol) assim, distanciando-me de Kcil. Cf. para o significado de "armenta",
mos, além de ser o nome do terrível Ciclope, ê epíteto do aoid Virgilio, Geórgicas, 3, 129).
Fêmio ( z 2 , 376), Phémios, cujo nome se parece, no mais, com o (
Polyphemos. F o ciclope que mostra na Odisseia a sua musicalidad 11 Varráo, Rerum rusticarum 1,17.
só quando (9, 315):
12 Virgílio, Geórgicas, 3, izóss.
"Com assobios levou para os montes o gordo rebanho",
13 Idem, ibidem, 174SS.
musicalidade que no mais está no seu nome, e este vale, como enl
14 Carão, a. c, 58, e leia-se 56, 57 e 59.
2, 150, "pleno di sussurri o di voei", o Ciclope é para Teócriro un
doce cantor de amor, e nenhum dos Ciclopes sabe tocar a gaiti 15 Virgilio, Eneida, 5, 284; c dada como prémio a Sergesro, Foloe, uma
como ele (Teócriro, 11). cretense especializada em tecer, com dois gemeozinhos nos seios. E

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NOTAS
NOTAS

é imitação de Homero, Ilíada, 2 3 , 2 6 3 . Também é serva, em 9 , 54,


29 Na tradução de Cristiano Martins: "Era a hora em que a saudade
Licínia, que deu ao rei dos Lidios um filho, Eleanor. E isso ramb
malferida / ensombra o coração do navegante, / no dia da magoada
é homérico. Além disso, Andrômaca dã a luz a servitio: Eneida, 3
despedida; // e em que mais punge o ocasional viajante / pena de
3 2 7 . E hã a ideia e a palavra servitium, a propósito dos jovens 1
amor, aofimda tarde, quando / ouve um sino pianger, triste e dis-
Geórgicas, 3 , r 6 8 , ede si mesmo, isto é de Tirito, nasÉglogas, i , 41'
tante.". Dante Alighieri, Divina comédia, trad. e noras de Cristiano
16 Idem, ibidem, i , 7 0 1 S S . , 7 0 5 ; 5, 3 9 1 ; 8 , 4 1 1 , 5 8 4 .
Martins, Belo Horizonte, Itatiaia, 1991, p. 3 7 4 . [ N . T . ]

17 Virgílio, Eglogas, i , 2 8 . 30 É supérfluo acrescenrar que, por mais que nem tudo na Comédia
seja poesia e nem roda poesia que nela hã seja pura, essa obra é, na
18 Varráo, op. cit. 1 , 1 7 : ipsi colunt, ut plerique pauperculi cum . sua concepção geral, a mais "poética" dos poemas que estão e estarão
progénie. no mundo. Nada é mais próprio da infância da nossa alma do que a
contemplação do invisível, a peregrinação pelo mistério, o conversar,
19 Virgílio, Geórgicas, 2 , 4 5 8 e ss.; i , 3 0 0 e ss. e em outras partes. o chorar, o ressentir-se e o fruir com os morros.

20 Idem, ibidem, 4 , 125SS. 31 Essa expressão, cujo significado literal é "eu te vejo", está presente em
ourros textos de Giovanni Pascoli, como no último verso de "Neila
21 Idem, ibidem, 2 , 412SS.
macchia", um dos poemas de Myricae (1903). [N.T.]
22 Horácio, Sermões, 2 , 6, tss.
32 Giacomo Leopardi, Pensiero LX.
23 Vhaáa, Apologia de Sócrates, 2 8 B.ss.Virgílio, Geórgicas, i, zgiss.
33 Idem, Pensiero xxiv.
24 Virgílio, Eneida, 8 , 155SS.
34 "Panforte" é um típico doce de Siena, tradicional no período do
25 Séneca, Epístolas, 122,11: cf. Apocalipse. 2. Natal, feiro com farinha, açúcar, especiarias, amêndoas, avelãs e
frutas cristalizadas, [N.T.]
26 Idem, ibidem, 1 2 2 , 1 1 . E continua a ler o relato que segue. Mont;
logo começou com uma alvorada: "Febo começa a colocar para fo' 35 O leitor já viu, por si só, mas também não é inútil que eu o faça
suas ardentes chamas, o dia avermelhado a se espalhar pela terra e 4 notar melhor, que esses pensamentos sobre poesia, mais do que uma
andorinha triste já começa a levar alimento para os estridentes ninho confissão, que às vezes seria orgulhosa e vaidosa, são verdadeiras e
com um assíduo vai e vem, subministrando e dividindo-o com seU reais advertências para mim mesmo, que estou bem longe de fazer o
delicado bico". Um tal Varo exclama: "Já é hora de Buta ir para camsitf que acredito que se deve fazer!
Porque Bura fugia da luz, só amava a luz dos lampiões, enfim, (
um que fazia da noite dia". Pouco depois, Montano declamava: "Os
pastores já guardaram no estábulo os rebanhos, a noite já começava;
Estranhamento e experiência do pensamento
a dar o negro silêncio às terras adormecidas". E Varo: " O que diz? J í
é noite. Vou dar a saudação matinal a Buta". 1 Para maiores detalhes sobre as modificações e versões de Ilfanciullino,
V. Giovanni Pascoli, Poesie e prose scelte, org., introdução e comen-
27 Horácio, Arte poética, 1555. tários de Cesare Garboli, col. I Meridiani, v. 11, Milano, Arnoldo
Mondadori, zooz, pp. 9 3 5 - 9 8 9 .
28 Têm um binóculo? Aponrem-no para o campo, na direção de uma ;
casa, de um vilarejo. Olhem pelo lado direito: eis a prosa. Olhem-; 2 "[...] 1'uomooggiè vivo, madomanisarà vecchioesaràmorto. Come
pelo lado contrário: eis a poesia. Mais detalhes na primeira e mais si può vivere ed esser felici sapendo quesro? La religione scioglieva il
distintos. Mais visão na segunda e mais... poesia. Experimentem! problema eterno, togliendo via uno dei rermini: sopprimeva la morte.
Ma il Pascoli .sa e sente che la morte non si può rogliere via; e turro è

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81
NOTAS
NOTAS

8 Sobre a relaçáo de Pascoli com o século xx, a bibliografia é longa,


fumo e nebula fiiggitiva e illusione di bimbi, fuor questo solo; io che
mas como referência inicial é interessante a publicação Pascoli e la
vivo e mi muovo; io pur debbo morire". Renato Serra, "Giovanni Pas-
cultura dei Novecento, Venezia, Marsilio, 2007, fruto do homónimo
coli", in Giuseppe de Roberti e A. Grilli (orgs.), Scritti, v. i, Firenze,
congresso realizado em setembro de 2005.
Le Monnier, 1958, p. 30. Sobre o rema da morre em Pascoli, veja-se
ainda M. Pazzaglia, Pascoli, la storia, la morte, Firenze, La Nuova 9 O próprio Pasolini dedicou, em 1945, uma importante monografia
Itália, 1999 e M . Pazzaglia, Pascoli. Roma, Salerno Edirrice, 2002. a Pascoli para a conclusão do curso universitário, publicada poste-
riormente: Antologia delia lirica pascoliana: introduzione e commenti,
3 A propósito da leitura de Gianfranco Contini sobre a questão 1
organizada por Marco A. Bazzocchi, Torino, Einaudi, 1993.
língua, Giorgio Caproni observa, no programado rãdio "Antologia"
em 24 de janeiro 198 8, que o crítico possuía razáo ao dizer que Pa 10 Sobre a questão da lingua morta, ver também o capitulo xxii cm
tinha em suas mão a "dinamite", mas não rinha se dado conta. Ne Elio Gioanola, Giovanni Pascoli — Sentimentifilialidi un parricida,
transmissão radiofónica, Caproni afirma também que o poeta de " Milano, Jaca Book, zooo.
Tessitrice" — que pode lembrar a "La Ricamarrice", em llseme •
piangere — foi o primeiro a semear a semente do desassossego : 11 Giovanni Pascoli, Poesie eprose scelte, projeto editorial, introdução
palavra. Se em Carducci ela é marcada por uma impenerrabilid e comentários de Cesare Garboli, v. i, zooz, p. 1086.
uma precisão e por uma dureza marmórea, com Pascoli a palav
começa a assumir ourros significados mais esgarçados e plurais,
propósito da figura feminina diante de um tear, não se pode de'
de mencionar "A Silvia", de Giacomo Leopardi.

4 Gianfranco Contini, Varianti e altra lingusitica, Torino, Ein


1979, p. 240.

5 E m relação à dissolução, ao negativo, motivos importantes da;


no século X X , podem ser lembrados alguns versos de "Aila come
Halley", publicados inicialmente em II Marzocco, em 9 de ja
de 1910: "[...] Gli si frangean, col croscio di ruine, / bolidi into
in polvere lucenre/ ridorro il cosmo gli pioveva sul crine.// [...
Nienre o il Turro: un raggio, un punro, l'Uno." Giovanni .
Poesie eprose scelte, v. 11, projeto editorial, introdução e comen
de Cesare Garboli, 2002, p. 1337.

6 Giorgio Agamben, "Pascoli e il pensiero delia voce", in Ufanei


org. e introdução de Giorgio Agamben, Milano, Feltrinelli, I
Depois publicado em Categorie italiane. Venezia, Marsilio, 1996-
2012, esse ensaio foi republicado junto com o texto //fanem
Pacoli, pela editora romana Nottempo. Ver também de Aga
Pascoli, esperienza delia lettera, m Alfabeta, n. 20, Milano, Coo"
Intrapresa, gennaio 1981, p. 7-8.

7 Nesse sentido, vale ressaltar a modernidade dos Poemi co


páginas permeadas pela consciência do sentimento de
formas e de amar um povo de mortos.

83
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Nota à tradução

A tradução de um texto de Giovanni Pascoli nâo é


nada fácil e propõe ao tradutor muitos desafios.
Mesmo sendo Ilfanciullino um texto em prosa, um
ensaio-poético, náo deixa de ter alegorias, metáforas,
paralelismos, além dos jogos de palavras que sáo
típicos da poesia. Nessas páginas, que tratam do
enigma da arte e da poesia, a linguagem de Pascoli
náo deixa de ser enigmática; há muitas repetições, que
na tradução para o português tiveram de ser revistas e
repensadas. É comum, por exemplo, a interrupção de
uma frase e no período seguinte a sua continuação,
que traz e nomeia novamente o sujeito. Nesses casos,
para a leitura fluir, optou-se por unir os dois períodos
em um único. Outro aspecto a ser mencionado é a
escolha de traduzir a segunda pessoa do singular, tu,
em italiano, por você, em português, o que deixa o
texto muito mais leve e aprazível. C o m exceçáo, por
razões õbvias, nos dois poemas.

E m relaçáo às citações feitas pelo autor, a maioria


foi traduzida para o português e sõ algumas poucas
ficaram em língua italiana. Uma dessas encontra-se no
parágrafo xii, e refere-se aos versos iniciais do Canto
VIII, do Purgatõrio. A escolha por náo inserir no corpo
do texto a tradução de Cristiano Martins, considera-
da uma das melhores, deve-se ao fato de ela náo ter

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NOTA À TRADUÇÃO

mantido o verbo "paia" [parece], que é, justamente, Giovanni Pascoli


Nasceu em San Mauro, Itália, em 1885 e faleceu em Bologna em 191Z. A
elemento que interessa a Pascoli na discussão.
partir de seu experimentalismo linguístico tornou-se um dos nomes mais
Náo se pode, ainda, deixar de fazer uma obse' importantes da revolução poética do Novecento, destacando-se, sobretudo
com o ensaio O menininho e a coletânea de poemas Myricae, entre aqueles
çáo aos dois poemas, que são a fala do m e n i n i n h que buscavam livrar a literatura e a arte italianas do peso da tradição.
respectivamente nos parágrafos v i i e x i x . E m am'
as composições a estrutura métrica é essencial e co Raúl Antelo
tante, acompanhada de rimas. N o primeiro, tem É professor titular de Literatura Brasileira na Universidade Federai de Santa
Catarina [uFsc]. Dentre as muitas obras de sua autoria, citamos Maria
seis estrofes que seguem o modelo da ode clássi com Mareei: Duchamp nos trópicos [Editora da U F M G , 2010], Algaravia:
com estrofe, antístrofe, épodo. Cada estrofe é fo discursos de nação [Editora da U F S C , 2010], Potências da imagem [Argos,
2004], Antonio Candidoy los estúdios latinoamericanos [Instituto Interna-
da por seis versos, com métrica e rimas bem mar- cional de Literatura Iberoamericana, 2001] e Obra Completa de Oíiverio
N o segundo, tem-se, também, uma estrutura que, Girondo [ A L L C A X X / U N E S C O , 1999]- Atou como professor visitante em
diversas universidades brasileiras e estrangeiras, entre elas as universidades
repete, desta vez de nove estrofes, cada uma d de Leiden [Holanda] e Yale [Estados Unidos]. Foi também pesquisador
composta por quatro versos. N e m sempre é Guggenbeim Feliow junto à Jobn Simon Guggenbeim Memorial Foun-
dation, nos Estados Unidos.
manter o r i t m o e a estrutura na língua para a qual
está traduzindo, contudo, aqui, tentou-se respei
Patrícia Peterle
na medida do possível, as escolhas de Pascoli. É professora adjunta de literatura italiana na Universidade Federal de Santa
"A tarefa do tradutor", para retomar u m t Catarina [uFSc]. É crítica literária, tradutora e colaboradora do Jornal
Rascunho. Trabalha principalmente com categorias do contemporâneo e
fundamental no âmbito dos estudos da tradu do quotidiano, Biopolítica, Políticas do (In)comum, arqueologia e poesia
nem sempre é uma "atividade" fácil e tranquila.' italiana. Traduziu, entre outros. Enrico Testa, Giorgio Agamben, Giovanni
Pascoli e Umberto Boccioni. É organizadora da antologia O homem e os
sobretudo, u m arriscar-se, u m jogo entre morte-' ^ animais: contemporaneidade em Umberto Saba [ E D U S F C , Z014].
impossibilidade-necessidade.
U m agradecimento especial a Alessandra
n i , pela cumplicidade e ajuda na revisão, a A n
Santurbano, por aceitar o desafio de traduzir em
junto os dois poemas, e a Alessandro Mantovani,
disponibilidade e pelos longos e criativos deba'

PATRÍCIA P E

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