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TORREFAÇÃO DE MADEIRA DE BRACATINGA (Mimosa scrabella)

Matheus Moraes e Silva (ICV-UNICENTRO), Gilmara de Oliveira Machado


(Orientadora), e-mail: matheusmoraess@hotmail.com

Universidade Estadual do Centro-Oeste, Setor de Ciências Agrárias, Departamento


de Engenharia Florestal, Irati, Paraná.

Palavras-chave: Biomassa, energia, pirólise, rendimento gravimétrico.

Resumo

Devido à preocupação com o meio ambiente e visando uma diminuição na geração


de resíduos e gases poluentes provenientes da combustão dos combustíveis
fósseis, as pesquisas atuais vêm buscando alternativas viáveis na geração de
energia. O processo de torrefação de biomassa apresenta-se como uma delas. Pelo
processo de torrefação da madeira de Bracatinga no tempo de 30 e 60 minutos e na
temperatura de 220 e 250ºC essa pesquisa tem como objetivo verificar as condições
de torrefação mais adequadas por meio do rendimento gravimétrico.

Introdução

Atualmente a preocupação com a qualidade do meio ambiente é cada vez


maior, sendo que uma das principais causas das emissões de gases na atmosfera é
devido à queima de combustíveis fósseis para a geração de energia. Como
alternativa, busca-se utilizar energias renováveis e pouco poluentes, como a
biomassa vegetal. Devido à crescente demanda por energia e a natureza não
renovável dos combustíveis fósseis, surgem várias proposições para a utilização de
novas formas de energias, trazendo à tona as vantagens de utilizar biomassa. Frente
a isso, a biomassa florestal possui um grande potencial de aproveitamento para a
utilização como energia (BOAS, 2010).
Apesar da ampla disponibilidade de espécies florestais presentes no Brasil,
dentre elas, espécies nativas e plantadas, uma destaca-se devido às suas
características, as quais refletem na qualidade e quantidade de energia liberada na
combustão. Segundo ROTTA & OLIVEIRA (1981), a Bracatinga (Mimosa scabrella
Benth.) é uma espécie heliófita, da família das leguminosas e ocorre naturalmente
no Brasil, em áreas de altitude entre 500 a 1.500 m e em clima do tipo Cfb.
Algumas características da madeira justificam a sua utilização para geração
de energia. A madeira possui massa específica aparente entre 0,65 e 0,81g/cm³,
aproximadamente 15% de umidade; a densidade básica varia de 0,51 a 0,61 g/cm³.
Jankowsky (1990) define a madeira de Bracatinga como moderadamente densa. A
madeira serrada ou roliça pode ser usada para vigamentos e escoras na construção
civil, caixotaria, embalagens leves, compensados, laminados e aglomerados
(Lorenzi, 1992). Contudo, o principal uso é para energia, pois a madeira de
bracatinga fornece lenha e carvão de excelente qualidade.
O processo de torrefação ocorre em temperaturas menores que no processo

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de carbonização. Enquanto a carbonização da biomassa ocorre em temperatura
acima de 300ºC, o processo de torrefação de biomassa ocorre num intervalo de
temperaturas entre 220 e 280ºC, e esse por sua vez pode ser considerado como um
processo de pré-carbonização ou pirólise da madeira (Felfli, 2003). Segundo Doat
(1985) apud Felfli (2003), o objetivo fundamental da torrefação é concentrar a
energia da biomassa em um produto formado em curto tempo, que permite reter os
voláteis de alto teor energético, proporcionando o maior poder calorífico do produto.
A madeira torrefeita apresenta maior poder calorífico que a madeira e menor que o
carvão vegetal, com valores entre 23 e 24 MJ/KG.

Material e Métodos

Caracterização da área de estudo


A cidade está localizada no segundo planalto paranaense. O clima do
município é classificado como do tipo “Cfb” (método de Köppen), clima subtropical
úmido mesotérmico, não apresentando estação seca.
O experimento foi realizado no Laboratório de Tecnologia de Produtos
Florestais do curso de Engenharia Florestal – UNICENTRO, campus de Irati. Foram
testadas a influencia de duas temperaturas na torrefação em madeira de Bracatinga
em diferentes períodos de tempo, 30 e 60 min. A madeira selecionada foi
proveniente do Colégio Florestal localizado na cidade de Irati, Estado do Paraná.

Determinação dos corpos de prova


As amostras foram obtidas de um disco retirado na altura referente à altura do
peito, a 1,30 metro em relação ao nível do solo. Deste disco foram obtidos os
corpos-de-prova para serem utilizados na análise. Os corpos-de-prova possuíam
dimensões de 2x3x5 centímetros.

Obtenção do teor de umidade


Inicialmente foi obtido o peso úmido das amostras e posteriormente colocadas
em estufa a 105ºC durante 24 horas para obter o peso seco. Com esses dados foi
possível calcular o teor de umidade (TU%) do material analisado, utilizando a
seguinte formula: TU% = [(Peso seco – Peso úmido) / Peso seco] x 100.

Determinação dos ensaios experimentais


Os corpos de prova foram submetidos aos seguintes ensaios de torrefação:
30min a 220ºc; 60min a 220ºC; 30 min a 250ºC e 60min a 250ºC.

Determinação do Rendimento gravimétrico


Após resfriamento, o material torrificado foi pesado e determinado o
rendimento gravimétrico com o emprego da seguinte equação: Rg = (Mc/Mn)100%.
Em que: Rg = Rendimento gravimétrico (%); Mc = Massa da amostra torrificada (g) e
Mn = Massa de madeira seca (g).

Resultados e Discussão

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Os resultados obtidos a partir das diversas análises realizadas sobre o
material torrificado permitem avaliar os efeitos do processo de torrefação nas
propriedades da biomassa.

Teor de Umidade
O teor de umidade dos corpos-de-prova foi determinado após a secagem em
estufa de circulação durante 24 horas em temperatura de 105ºC. A primeira
verificação foi feita cinco horas após os corpos-de-prova serem depositados na
estufa, além de outras duas em intervalos de tempos irregulares. Porém, concluiu-se
que após 12 horas os pesos dos corpos de prova tornaram-se constantes e nestas
condições determinou-se o teor de umidade das amostras.
Os baixos valores de desvio padrão e coeficiente de variação indicam que o
tempo de secagem para os corpos-de-prova de Bracatinga foi suficiente para o
equilíbrio do teor de umidade e indica que o processo de secagem foi homogêneo
para todos os corpos-de-prova (Tabela 1).

Tabela 1 – Teor de umidade dos corpos de prova de bracatinga (Mimosa scabrella)

Corpos-de-prova TU médio (%) Desvio Padrão Coeficiente de Variação (%)


16 12,3 0,35 2,83

Rendimento Gravimétrico
Na Tabela 2 são apresentados os resultados obtidos para o rendimento gravimétrico
nos tratamentos analisados nas temperaturas de 220º e 250º. O rendimento
gravimétrico expressa a relação entre a massa seca e a massa da madeira
torrificada, onde essa variável indica o quanto de biomassa foi convertida em
material torrificado. Os baixos valores de coeficiente de variação demonstram a
homogeneidade e reprodutilibidade do processo de torrefação.

Tabela 2 – Rendimento gravimétrico das amostras de bracatinga.

Temperatura Tempo (min) Rendimento Desvio Padrão Coeficiente de


(ºC) Gravimétrico médio variação médio
médio (%) (%)
220 30 98,78 0,23 0,23
220 60 94,40 4,29 4,54
250 30 70,36 20,9 29,68
250 60 76,94 9,78 12,72

Rodrigues (2009) encontrou para Eucalyptus grandis, rendimentos gravimétricos


semelhantes, onde três tratamentos apresentaram 96,39%, 88,27% e 80,15%,
respectivamente para, 220º, 250º e 280ºC. Bergman e Kiel (2005) apud Rodrigues
(2009), relatam valores típicos de 80% para rendimentos em massa. Para briquetes
de madeira tratados durante uma hora em temperaturas de 220º, 250º e 270ºC, Felfli
et al. (2005), encontraram rendimentos gravimétricos que variaram entre 43% e
94%. Desta forma, as amostras torrefeitas apresentaram rendimento gravimétrico

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dentro do esperado, o que demonstra a eficiência da conversão térmica.

Conclusões

A torrefação é um processo térmico eficaz para tornar o combustível madeira


mais homogêneo, devido às alterações causadas sobre as propriedades da madeira,
em função do tempo e temperatura. De um modo geral, pôde-se observar que para a
madeira de Bracatinga o tempo necessário para torrefação é de 30 minutos a uma
temperatura de 220ºC, o qual proporcionou maior rendimento gravimétrico no
processo de torrefação, seguido pelo tratamento de 60 minutos a 220ºC.
Analisando as características do processo, pode concluir-se que a
torrefação apresenta boas perspectivas como processo alternativo à
carbonização ou utilização direta da madeira. Em comparação a sistemas
que utilizam biomassa natural, a madeira torrificada apresenta maior
poder calorífico e menor emissão de materiais voláteis.

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Referências

BOAS, M. A. V.; CARNEIRO, A. de C. O.; VITAL, B. R.; CARVALHO, A. M. M. L.;


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na produção de carvão vegetal. Scientia Forestalis, Piracicaba, v. 38, n. 87, p. 481-
490, 2010.

FELFLI, F. E. F.; LUENGO, C. A.; BEATÓN P. A; SOLER P. B. Torrefação de


Biomassa: Características, Aplicações e Perspectivas. In: Encontro de Energia no
Meio Rural – AGRENER 2000. Anais ...2000, 5p.

FELFLI, F.F. LUENGO C.A, SUÁREZ J.A, BEATÓN P.A. Wood briquette torrefaction.
Energy for Sustainable Development. Volume IX No.3. September 2005,p 19-22

JANKOWSKY, I.P.; CHIMELO, J.P.; CAVANCANTE, A. de A.; GALINA, I.C.M.;


NAGAMURA, J.C.S. Madeiras brasileiras. Caxias do Sul: Spectrum, 1990. 172p.

LORENZI, H. Árvores brasileiras: manual de identificação e cultivo de plantas


arbóreas nativas do Brasil. Nova Odessa: Plantarum, 1992. 352p.

RODRIGUES, T. O. Efeitos da torrefação no condicionamento da biomassa para


fins energéticos. Disponível em
<<http://repositorio.bce.unb.br/bitstream/10482/4392/1/2009_ThiagoOliveiraRodrigue
s.pdf>>; ultimo acesso 03 de julho de 2011.

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