Você está na página 1de 239

JULES

MICHELET

tradução: Luiz Fernando Serra Moura Correia


HISTÓRIA
DA FRANÇA

TOMO III - Livros V e VI



(anos 1270 a 1380)






1ª edição
Rio de Janeiro - 2014
Luiz Fernando Serra Moura Correia
HISTÓRIA DA FRANÇA
TOMO TERCEIRO - LIVROS V e VI
(Paris – 1837)

Por Monsieur Michelet,
Professor Suplente à Faculdade de Letras, Professor
à Escola Normal, Chefe da Seção Histórica
dos Arquivos do Reino
*
Tradução: Luiz Fernando Serra Moura Correia
(Rio de Janeiro – 2014)

MICHELET, Jules (1798-1874)
Editor: Luiz Fernando Serra Moura Correia (Prefixo editorial 915812)
Ilustradores: Rodolfo Guilherme P. Moura Correia e Maria Fernanda P. Moura Correia
Capa: Eduardo III da Inglaterra presta homenagem a Filipe VI em 1329. Iluminura extraída das Grandes Crônicas de Jean de Froissart.

Assunto: História da Europa (código ISBN 940)
Idioma: português
Suporte: e-book
Formato: azw3
1ª edição – 2014 – Rio de Janeiro
ISBN 978-85-915812-4-5

Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução, transmissão de partes ou da totalidade deste livro, armazenamento, através de quaisquer meios, sem prévia autorização
por escrito do editor. Direitos exclusivos desta edição reservados por Luiz Fernando Serra M oura Correia. Permitida a disponibilização para venda pela Amazon em formato
digital, consoante termos e condições do KDP.
NOTA DO TRADUTOR - EDITOR

Sobre este volume, escreveu o Autor, em seu prefácio no Tomo I:

“A Idade Moderna começa com Felipe, o Belo, com o rebaixamento do papado, com o tapa em Bonifácio VIII”.

Este Tomo III se ocupará, dentre outros temas, do importante reinado de Filipe o Belo, a concentração dos poderes na “nova
divindade” que é a realeza, a luta contra o Papado e a consequente dissolução da Ordem do Templo, o rebaixamento da nobreza feudal e a
paulatina conquista de liberdades pelas cidades que nutrem e fazem crescer a burguesia.

E entenderemos porque Michelet afirmou:

“A tirania, na Idade Média, começou pela liberdade. Tudo começa por ela”.

Este Tomo também vai se ocupar dos primeiros anos da Guerra dos Cem Anos.

Como é de domínio daqueles que puderam ler os dois Tomos precedentes, mantive a sistemática de inserção de Notas do Tradutor
(NT), as ilustrações feitas pelos meus filhos Rodolfo e Maria Fernanda, o emprego das segundas pessoas do singular e plural. Como antes,
para a vasta maioria das passagens em latim e grego, fui buscar sua tradução em fontes não originais, isto é, em traduções feitas
majoritariamente em inglês[1], francês ou português.

Uma novidade, porém: ao contrário dos Tomos I e II, não removi os hiperlinks das referências às fontes de informação que citei.

Agradeço o interesse da Profª Drª Amélia Polónia, Diretora do Departamento de História e de Estudos Políticos e Internacionais
(DHEPI) da Universidade do Porto, Portugal, que buscou me auxiliar em uma ou outra dúvida quanto à existência de institutos jurídicos no
Direito Medieval português.

Menção legal: a obra original em francês encontra-se em domínio público, tanto sob a legislação da República Francesa (Código de
Propriedade Intelectual, artigo L. 123-1: L'auteur jouit, sa vie durant, du droit exclusif d'exploiter son œuvre sous quelque forme que
ce soit et d'en tirer un profit pécuniaire. Au décès de l'auteur, ce droit persiste au bénéfice de ses ayants droit pendant l'année civile
en cours et les soixante-dix années qui suivent), quanto a da República Federativa do Brasil (art. 41, lei nº 9.610/98: Os direitos
patrimoniais do autor perduram por setenta anos contados de 1° de janeiro do ano subseqüente ao de seu falecimento, obedecida a
ordem sucessória da lei civil), sendo considerada, portanto, obra nova (artigos 7º, inciso XI, 14 e 41 da lei nº 9.610/98).

Rio de Janeiro, verão-outono de 2014.



Luiz Fernando Serra Moura Correia
Tradutor e Editor
(editor_luizfernando@hotmail.com)









TÁBUA DE MATÉRIAS

LIVRO V

Capítulo I – Vésperas Sicilianas

1270-1282. Filipe o Ousado
Carlos d’Anjou , chefe da Casa da França.
Esforços dos Papas para escapar ao jugo francês
João de Prócida.
Ele passa da Espanha à Sicília e à Constantinopla.
1282. Massacre dos Franceses na Sicília
D. Pedro, rei de Aragão, socorre os Sicilianos.
1285. Morte de Carlos d’Anjou.
Filipe o Ousado morre na Espanha
1299. A Sicília fica para o rei Frederico, Nápoles para os descendentes de Carlos d’Anjou.


Capítulo II – Filipe o Belo. Bonifácio VIII. 1285 a 1304.

1285. FILIPE O BELO.
Administração.
1288-1291. Parlamento
Centralização monárquica. Juristas.
Fiscalidade.
1293-1300. O dinheiro e a astúcia.
Filipe chamado pelos Flamengos.
O conde de Flandres e sua filha detidos em Paris.
Expulsão dos Judeus, alteração das moedas; maltôte.
1295-1304. Disputas entre Bonifácio VIII e Filipe o Belo.
1300. O Jubileu
O Papa favorece os inimigos da França; represálias de Filipe.
Ruptura a respeito do Languedoc.
1301. Filipe manda raptar o bispo de Pamiers.
1302. Bula fictícia; queimada em Paris.
Filipe apoiado pelos Estados-Gerais.
Revolta dos Flamengos.
Derrota de Courtrai.
1303. Sequência da luta contra o Papa.
Nogaret em Anagni.
Retorno do Papa à Roma; sua morte.
Bento XI morre subitamente.
1304. Vitórias de Zierikzee e de Mons-en-Puelle.
Miséria do povo.


Capítulo III – O ouro. O Fisco. Os Templários.

O Ouro.
O Fisco.
A Alquimia.
A Feitiçaria.
O Judeu.
1305. Bertrand de Gott (Clemente V).
1306. Perseguições contra Bonifácio VIII.
O Templo.
Poderio, privilégios do Templo.
Cerimônias.
Acusações dirigidas contra essa Ordem.
Riqueza dos Templários.
Eles fazem a guerra aos cristãos.
Razões da Casa da França.
Filipe o Belo arruinado ataca os Templários.
Os monges e os nobres os abandonam.
Eles se recusam a se reunir aos Hospitalários.
Os chefes da Ordem presos em Paris.
1307. Instrução do processo.


Capítulo IV – (Sequência) Destruição da Ordem do Templo. 1307 a 1314.

1307. Oposição do Papa
A instrução continua.
1307. Confissões obtidas sob torturas.
1308. Adesão dos Estados do Reino da França às perseguições.
Dificuldades suscitadas pelo Papa.
O Papa se refugia em Avignon.
Concessões mútuas.
1309. Comissão Pontifícia. Fraqueza do Grão-Mestre.
1310. Perseguições contra a memória de Bonifácio.
Defesa dos Templários impedida.
Protesto dos Templários.
Interesse que eles provocam.
Consulta do Papa em favor deles.
Concílio provincial ocorrido em Paris.
Suplício de cinquenta e quatro Templários.
1311. A Ordem do Templo suprimida em toda a cristandade.
Compromissos entre o Papa e o Rei.
1312. Concílio de Viena.
Condenação dos místicos beguinos e franciscanos.
Abolição do Templo.
Fim do processo de Bonifácio VIII.
1314. Execução dos chefes da Ordem.
Causas da queda do Templo.


Capítulo V – Sequência do reinado de Filipe o Belo. Seus três filhos. Processos. Instituições. 1314 a 1328.

O diabo.
Processos atrozes.
1314. Morte de Filipe o Belo.
Atividade e educação de Filipe o Belo.
Ele lida com a Universidade.
Instituições.
Ordenações contraditórias.
Hipocrisia desse governo.
Ataques contra a nobreza.
Confederação da nobreza do norte e do leste.
Luís X; reação feudal.
Luta dos barões e dos juristas.
1315. Novas leis sobre as moedas.
Ordenação para a libertação dos servos.
1316- FILIPE O LONGO
Aplicação da Lei Sálica.
As cidades armam-se.
Tentativa de reforma dos pesos e das medidas.
Regramentos de finanças.
1316-1322. O Parlamento se constitui.
A Monarquia se constitui.
1320. Pastores.
Os Judeus e os leprosos.
1322-1328 - CARLOS IV, o Belo.
Eduardo II, rei da Inglaterra, destronado por sua mulher, Isabela da França.
1328. Morte de Carlos IV.


LIVRO VI


Capítulo I – A Inglaterra. Filipe de Valois. 1328 a 1349.

1328. Coroação de FILIPE DE VALOIS.
A Inglaterra sob Eduardo III.
Flandres, Inglaterra: espírito mercantil.
Rotas do comércio depois das Cruzadas.
Comércio da Inglaterra.
Caráter guerreiro e mercantil do século XIV.
Caráter oposto da França.
Primeiros anos do reino de FILIPE VI.
Guerra de Flandres. Batalha de Cassel.
1329. Processo de Roberto do Artois.
1332. Roberto foge para Flandres; depois, para a Inglaterra.
1333. Perseguições contra sua família.
1336. Ordenações sobre os impostos e sobre as mercadorias.
Relação de Filipe VI com o Papa.
Descontentamento geral.
Eduardo III põe de pé sua autoridade.
Guerra indireta entre a França e a Inglaterra.
Emigração dos operários flamengos para a Inglaterra.
1337. Revolta dos Gantenses. Jacquemart Artevelde.
Ordens e preparativos de Eduardo III.
Exército feudal e mercenário de Filipe VI.
1338. Os Ingleses em Flandres.
Eduardo III, vigário imperial.
1339. Os Ingleses na França.
Eduardo III, rei da França.
1340. Batalha da Eclusa.
A guerra de Flandres sem resultados.
1341. Guerra da Bretanha. Blois e Montfort.
1342. Filipe VI apoia Carlos de Blois; Eduardo III apoia João de Montfort.
1345. Eduardo III perde Montfort e Artevelde de uma só vez.
1346. Eduardo III ataca a Normandia.
Os Ingleses queimam Saint-Germain, Saint-Cloud, Boulogne.
Filipe VI os persegue.
Batalha de Crécy.
Cerco de Calais.
Persistência de Eduardo III; seus sucessos na Escócia e na Bretanha.
Tentativas de Filipe para levantar o cerco de Calais.
1347. Tomada de Calais; dedicação de seis burgueses.
Calais povoada por Ingleses.
Os mercenários, os infantes substituem as tropas feudais.
Humilhação do Papa, do Imperador, do rei e da nobreza.
Abatimento moral; espera pelo fim do mundo; mortalidade.
1348. A Peste negra.
Mistiscimo da Alemanha; os Flagelantes.
Boccaccio; prólogo do Decameron.
Sequência da peste.
1349-1350. O rei torna a se casar; ele adquire Montpellier e o Delfinado.
Bodas e festas.
1350. Morte de Filipe VI.


Capítulo II – João. Batalha de Poitiers. 1350 a 1356.

Laura, Petrarca.
O século XIV obstina-se na sua fidelidade ao passado.
1350. Coroação de JOÃO.
Criação da Ordem da Estrela.
Carlos da Espanha, Carlos de Navarra.
1350-1359. Rápidas variações das moedas.
Estados-Gerais sob Filipe de Valois e sob João.
1355. Gabela votada pelos Estados. Resistência da Normandia e do conde Harcourt.
O conde de Harcourt é decapitado.
1356. O Príncipe de Gales devasta o sul.
Batalha de Poitiers.
O rei prisioneiro.


Capítulo III – (Sequência) Estados-Gerais. Paris. Jaqueria. 1356 a 1364.

1356. O delfim Carlos. O preboste dos comercerciantes, Étienne Marcel.
Paris.
1357. Estados-Gerais.
Estados-Provinciais.
Roberto Le Coq e Étienne Marcel.
Desastres da França.
Carlos o Mau em Paris.
1358. Novos Estados; o delfim regente do Reino.
Revolta de Paris.
Assassinato dos marechais de Champagne e da Normandia.
Reino de Marcel.
A Champagne, o Vermandense pelo delfim.
Estados da Língua d'Oil em Compiègne.
Sofrimentos do camponês.
Jaqueria.
Carlos o Mau, capitão de Paris.
Marcel se apoia em Carlos o Mau e tenta entregar-lhe Paris.
Marcel assassinado.
1359. O delfim entra em Paris.
Negociações com os Ingleses.
Suas propostas rejeitadas pelos Estados.
Eduardo III na França.
Os Ingleses às portas de Paris.
1360. Tratado de Bretigny.
Desolação das províncias cedidas.
Resgate do rei.
O rei em liberdade; suas primeiras ordens.
Ordenação em favor dos Judeus.
1360-1363. Miséria, devastação, mortalidade.
Os Tard-Venus.
1362. João reúne a Borgonha e a Champagne ao domínio da Coroa.
1363. Ele vai pregar a cruzada na Inglaterra.
1364. Morte do rei João em Londres.


Capítulo IV – Carlos V. 1364 a 1380. Expulsão dos Ingleses.

1364. CARLOS V, o Sábio.
O Inglês, o Navarrense, as Companhias.
Bertrand Duguesclin.
Batalha de Cocherel.
1365. Batalha de Auray; morte de Carlos de Blois.
Ordenações de Carlos V.
Guerra de Don Enrique de Transtâmara contra seu irmão Don Pedro o Cruel.
1366. Duguesclin à testa das Companhias.
O Papa extorquido em Avignon.
Don Pedro deixa a Espanha; é restabelecido pelos Ingleses.
1367. Batalha de Najara; Duguesclin prisioneiro.
As Companhias, mal pagas, lançam-se sobre a França.
Duguesclin recupera a liberdade.
1368. O Midi descontente com os Ingleses.
1369. Defecções.
O príncipe de Gales é citado pela Corte dos Pares.
Duguesclin recoloca Don Enrique sobre o trono de Castela; Don Pedro derrotado na batalha de Montiel.
Carlos V confisca a Aquitânia.
1370. Os Ingleses cruzam a França; morte de João Chandos.
Carlos V se reconcilia com o rei de Navarra e o rei da Escócia.
O príncipe de Gales toma Limoges de assalto.
Duguesclin condestável.
O duque da Bretanha toma o partido dos Ingleses; ele é expulso pelos Bretões.
1370-1373. O rei de Castela envia uma frota para Carlos V.
Tomada de La Rochelle.
Os Ingleses derrotados em todos os lugares.
O duque de Lancaster cruza de novo a França.
1374. Os Gascões se entregam à França.
1376. A Inglaterra deseja a paz; o bom parlamento.
Morte do príncipe de Gales.
1377. Morte de Eduardo III; Alice Perrers.
Carlos V casa seu irmão, o duque da Borgonha, com a herdeira de Flandres.
1378. O rei de Navarra trata com os Ingleses; Carlos V o previne.
A França reerguida na opinião da Europa.
Monumentos de Carlos V. Bastilha, Hôtel Saint-Paul.
Vida privada de Carlos V.
Astrólogos.
Sabedoria de Carlos V; sua previdência.
Mau estado das finanças do rei; poderio dos Judeus.
Riqueza, jurisdição do clero.
Regalias, anattum, reservas.
Corrupção da Igreja.
Grande cisma. Urbano VI, Clemente VII.
Carlos V não consegue fazer seu Papa ser reconhecido pela cristandade.
1379. Revoltas do Languedoc.
Revoltas de Flandres.
Revoltas da Bretanha.
1380. Morte de Duguesclin.
Morte de Carlos V.
Seu governo
Caráter prosaico do século XIV.
Froissart. João, o bom pastor etc.
Situação difícil e contraditória na qual se encontra a cristandande. Loucura de Carlos VI e da maioria dos príncipes desta
época.

A era nacional da França é o século XIV. Os Estados-Gerais, o Parlamento, todas as nossas


grandes instituições, começam ou se regularizam. A burguesia aparece na revolução de Marcel, o
camponês na Jaqueria, a própria França na guerra dos Ingleses.

Esta locução: Um bom Francês, data do décimo-quarto século.

Até aqui, a França era menos França que cristandade. Dominada, assim como todos os outros
estados, pela feudalidade e pela Igreja, ela permanecia obscura e como que perdida nessas grandes
sombras... O dia, vindo pouco a pouco, ela própria começa a se entrever.

Mal saída dessa poética noite da Idade Média, ela já é aquilo que vedes: povo, prosa, espírito
crítico, anti-simbólica.

Aos padres e aos cavaleiros sucedem-se os juristas; depois da fé, a lei.

O neto de São Luís deita a mão sobre o Papa e destrói o Templo. A cavalaria, esta outra religião,
morre em Courtrai, em Crécy, em Poitiers.

A crônica sucede à epopéia. Uma literatura se forma, já moderna e prosaica, mas verdadeiramente
francesa: sem símbolos, poucas imagens; não é senão graça e movimento.

Nosso velho Direito possuía alguns símbolos, algumas fórmulas poéticas. Esta poesia não
comparece impunemente ao tribunal dos juristas. O Parlamento, este grande prosador, a traduz, a
interpreta e a mata.

De resto, o Direito francês fora, em todo tempo, menos dominado pelo simbolismo que aquele de
qualquer outro povo. Esta verdade, por ser negativa na forma, nem por isso é menos fecunda. Não temos
nenhum pesar ao longo do caminho pelo qual a isso chegamos. Para apreciar o gênio austero e a
maturidade precoce de nosso Direito, bastou-nos colocar à sua face o direito poético das nações
diversas, opor a França ao mundo.

Desta vez, então, o simbólico do Direito. – Nele procuraremos o movimento, a dialética, enquanto
nosso drama nacional será melhor atado. Aguardemos o século XVI.

LIVRO V

--------------------
Capítulo I
Vésperas Sicilianas

--------------------

O filho de São Luís, Filipe o Ousado, voltando desta triste cruzada de Túnis, depositou cinco
ataúdes nos jazigos de Saint-Denis[2]. Fraco, ele próprio moribundo, via-se herdeiro de quase toda sua
família. Sem falar do Valois, que lhe vinha pela morte de seu irmão João Tristão, seu tio Alphonse
legava-lhe todo um reino no sul da França (Poitou, Auvérnia, Toulouse, Rouergue, Albigense, Quercy,
Agenês, Condado Venaissino). Enfim, a morte do conde de Champagne, rei de Navarra, que não tinha
senão uma filha, colocou esta rica herdeira entre as mãos de Filipe que a fez desposar seu filho.

Através de Toulouse e Navarra, através do Venaissino, este grande poder olhava na direção do
sul, na direção da Itália e da Espanha. Mas, todo poderoso que fosse, o filho de São Luís não era o
verdadeiro chefe da Casa da França. O cabeça desta Casa era o irmão de São Luís, Carlos d’Anjou. A
história da França, nesta época, é aquela do rei de Nápoles e da Sicília. A de seu sobrinho, Filipe III (o
Ousado), não passa de uma dependência.

Carlos usara e abusara de uma fortuna inaudita. Caçula (cadete, cadet) da França, ele se fizera
conde da Provença, rei de Nápoles, da Sicília e de Jerusalém; mais que rei, senhor e dominador dos
Papas. Podia ser-lhe dirigida a palavra que foi dita ao famoso Ugolino. “Que me falta?”, perguntava o
tirano de Pisa. “Nada além da cólera de Deus”[3].

Vimos como ele enganara a piedosa simploriedade de seu irmão para desviar a cruzada de seu
objetivo, a fim de colocar um pé na África e tornar Túnis vassala. Ele foi o primeiro a retornar desta
expedição realizada por sua sugestão e em seu favor; e conseguiu voltar a tempo para lucrar com a
tempestade que destruiu os navios dos cruzados, o que lhe permitiu recolher os destroços sobre os
rochedos da Calábria, as armas, as vestes, as provisões. Ele friamente exerceu contra seus companheiros,
seus irmãos da cruzada, o direito de destroço (NT: vide Tomo II, Livro III, sobre a Bretanha), que dava
ao senhor dos baixios tudo aquilo que o mar aí lançasse.

Foi assim que ele recolhera o grande naufrágio do Império e da Igreja. Durante quase três anos,
ele agiu, na Itália, como se fosse o Papa, não admitindo que um outro fosse nomeado após Clemente IV
que, por vinte mil moedas de ouro de renda que os Franceses lhe prometeram, entregara não somente as
Duas Sicílias, mas a Itália inteira. Carlos fizera com que o nomeassem senador de Roma e vigário
imperial na Toscana. Piacenza (Placência), Cremona, Parma, Modena, Ferrara, Reggio e mesmo,
posteriormente, Milão, o haviam aceito por senhor, assim como diversas cidades e vilas do Piemonte e
da Romanha (Romagna). Toda a Toscana o escolhera como pacificador. “Matai-os todos”, dizia esse
pacificador aos Guelfos de Florença, quando perguntavam-lhe o que deveria ser feito dos Gibelinos
prisioneiros[4].

Mas a Itália era por demais pequena. Ele não se encontrava satisfeito. De Siracusa, ele mirava a
África e de Otranto, o império grego. Já ele concedera a mão de sua filha ao pretendente latino de
Constantinopla, ao jovem Filipe, imperador sem império.

Os Papas tinham motivos para se arrependerem de sua própria vitória sobre a Casa da Suábia. O
vingador deles, seu caríssimo filho, assentara-se entre eles e sobre eles. Tratava-se, daí para frente, de
saber como poderiam escapar desta terrível amizade. Eles sentiam, com pavor, a força irresistível, a
atração maligna que a França exercia sobre si. Eles desejavam, um pouco tarde, despertar os laços de
afeição da Itália e reuni-la a si. Gregório X tentava acalmar as facções que seus antecessores haviam
instigado tão cuidadosamente; ele pedia que se suprimisse os nomes de Guelfos e de Gibelinos. Os Papas
sempre haviam combatido os imperadores da Alemanha e de Constantinopla; Gregório declarou-se amigo
dos dois impérios: ele proclamou a reconciliação da igreja grega e conseguiu dar fim ao grande
interregno da Alemanha, mandando, ao menos, nomear um imperador tal e qual, um simples cavaleiro
cuja magra e calva figura com cotovelos proeminentes deixavam os príncipes-eleitores mais seguros
contra esse título de Imperador, outrora tão formidável. Esse pobre imperador foi, portanto, Rodolfo de
Habsburgo; sua Casa foi a Casa da Áustria, fundada pelos Papas contra a Casa da França.

O plano de Gregório X era o de conduzir, ele próprio, a Europa à cruzada, acompanhado de seu
novo Imperador, de reerguer, desta forma, o Império e o Papado. Nicolau III, romano e da Casa de
Orsini, tinha um outro projeto: ele desejava fundar, em favor dos seus, um reino central da Itália. Ele
colheu o momento quando Rodolfo vinha de obter sua grande vitória sobre o rei da Boêmia fazendo com
que Carlos se sentisse intimidado por Rodolfo. O rei de Nápoles, que não sonhava senão com
Constantinopla, sacrificou o título de senador de Roma e de vigário imperial e, neste ínterim, Nicolau
assinava secretamente com Aragão e os Gregos uma liga para derrubá-lo.

Conjuração de fora, conjuração de dentro. Os Italianos acreditavam-se mestres nesse gênero.


Eles sempre conspiraram, raramente obtiveram sucesso; mas, para esse povo artista, uma tal empresa era
uma obra de arte com a qual se deleitavam, um drama sem ficção, uma tragédia real. Eles aí procuravam
o efeito do drama. Eram necessários numerosos espectadores, uma ocasião solene, uma grande festa, por
exemplo; o teatro sempre fora um templo, o momento, aquele da Consagração (da hóstia)[5].

A conjuração, da qual falaremos, foi algo bem diferente daquela dos Pazzi, dos Olgiati. Não se
tratava de desferir uma punhalada e de se fazer matar matando um homem, o que, ademais, jamais serve
para alguma coisa. Era necessário revolver o mundo e a Sicília, conspirar e negociar, encorajar uma pela
outra, a liga e a insurreição; era mister sublevar um povo e contê-lo, organizar toda uma guerra sem que
parecesse que se a estivesse organizando. Esta empresa, tão difícil, também era, de todas, a mais justa:
tratava-se de expulsar o estrangeiro.

A cabeça dura que concebeu esta coisa grandiosa e a conduziu a seu objetivo, uma cabeça
friamente ardorosa, duramente teimosa e astuciosa, tal como se encontra no Midi da França, foi a de um
Calabrês, um médico[6]. Este médico era um senhor da corte de Frederico II e senhor da ilha de Procida
e, como médico, ele fora amigo e confidente de Frederico e de Manfredo. Para agradar a esses livres
pensadores do século XIII, era necessário ser médico, árabe ou judeu. Ia-se a eles pela escola de Salerno
melhor do que pela Igreja. Verdadeiramente, essa escola ensinava a seus adeptos algo além das inocentes
prescrições que ela nos legou nos seus versos leoninos[7].

Após a ruína de Manfredo, Procida se refugiou na Espanha. Examinemos qual era a situação dos
diversos reinos espanhóis, o que deles se poderia esperar contra a Casa da França.

Inicialmente, a Navarra, o pequeno e venerável berço da Espanha cristã, estava sob a mão de
Filipe III. O último rei nacional chamara os Mouros contra os Castelhanos e, depois, os Franceses. Seu
sobrinho, Henrique, conde de Champagne, não possuindo senão uma filha, recomendou, quando nos
estertores da morte, esta criança ao rei da França que, como dissemos, a deu a seu filho. Filipe III, que
vinha de herdar Toulouse, encontrava-se bem próximo da Espanha. Ele não tinha, aparentemente, senão
que descer dos portos dos Pirineus[8], na sua cidade de Pamplona, e tomar o caminho de Burgos.

Mas a experiência provara que não se toma a Espanha assim. Ela guarda mal a sua porta; porém,
pior para aquele que entra. O velho rei de Castela, Alfonso X, sogro e cunhado do rei da França, desejou
em vão deixar seu reino aos filhos de seu primogênito que, pelo lado materno, eram descendentes de São
Luís. Alfonso não possuía boa reputação entre seu povo, nem como Espanhol, nem como cristão. Grande
sábio, entregue às más ciências da alquimia e da astrologia, ele sempre se trancava com seus judeus[9]
para falsificar moeda (Ferreras, anno 1281, t. IV, p. 323 da trad.) ou leis, de modo a alterar, com uma
pitada romana, o direito gótico[10]. Ele não amava a Espanha; sua mania era a de se fazer Imperador. E a
Espanha deu-lhe o troco. Os Castelhanos deram-se a si próprios para rei, conforme o direito dos Godos,
o segundo filho de Alfonso, Sancho o Bravo, o Cid daqueles tempos[11]. Deserdado por seu pai,
ameaçado pelos Franceses e pelos Mouros ao mesmo tempo, excomungado pelo Papa por ter desposado
uma parente, Sancho fez frente a tudo e guardou sua mulher e seu reino. O rei da França fez grandes
ameaças, reuniu um grande exército, tomou a oriflama, entrou na Espanha até Salvatierra quando, então,
deu-se conta que não possuía nem víveres, nem munições, e não pôde avançar. A crônica (da abadia) de
São Maglório, após ter contado a morte de São Luís, opõe-lhe a de seu triste filho: “En Espagne et à
Sauveterre, Alla son fils folie querre” (1276)[12].

Era uma época gloriosa para a Espanha. O rei de Aragão, D. Jaime, filho do rei trovador que
morreu em Muret defendendo o conde de Toulouse, vinha de conquistar dos Mouros os reinos de Maiorca
e de Valência. D. Jaime tinha, tal é a ênfase espanhola, ganho trinta e três batalhas, fundado ou retomado
duas mil igrejas. Mas, contava-se que ele tinha ainda mais amantes que igrejas. Ele recusava ao Papa o
tributo prometido por seus predecessores e ousara casar seu filho D. Pedro com a própria filha de
Manfredo, o último rebento da Casa da Suábia.

Os reis de Aragão, sempre guerreando contra Mouros ou cristãos, tinham necessidade de serem
amados por seus homens e, de fato, o eram. Lede o retrato que deles traçou o bravo e ingênuo Ramón
Muntaner, historiador soldado, como eles faziam correta justiça, como aceitavam os convites de seus
súditos, como comiam em público perante todo mundo, aceitando, diz Ramón, o que lhes era oferecido,
frutas, vinho ou outra coisa, e não opondo dificuldades para tudo saborear[13]. Muntaner esquece uma
coisa: é que esses reis tão populares não eram renomados por sua lealdade. Eram montanheses matreiros
de Aragão, verdadeiros Almogávares, semi-Mouros, pilhando amigos e inimigos.

Foi inicialmente para o jovem rei D. Pedro que se apresentou o fiel servidor da Casa da Suábia,
ao lado da filha de seus senhores, a rainha Constância. O Aragonês recebeu Procida bem, deu-lhe terras e
senhorias. Mas ele acolheu friamente seus conselhos contra a Casa da França; as forças eram por assaz
desproporcionais. O ódio da cristandade contra esta Casa tinha necessidade de aumentar mais. Ele
preferiu recusar e aguardar, deixando o aventureiro agir, mas sem se comprometer. Para evitar qualquer
suspeita de conivência, Procida vendeu seus bens da Espanha e desapareceu. Não se soube o que lhe
ocorrera.

Ele havia partido secretamente, em hábito de franciscano. Este humilde disfarce também era o
mais seguro, pois esses monges corriam o mundo: eles pediam, mas viviam de pouco e, em todos os
lugares, eram bem recebidos. Gente de espírito, de ardil, de facúndia, eram discretamente encarregados
de muitas comissões mundanas. A Europa estava repleta de sua atividade. Mensageiros e pregadores, por
vezes diplomatas, eles eram, então, o que hoje são os correios e a imprensa. Procida assim tomou o
imundo traje dos Mendicantes e se foi humildemente ao mundo, pés nus, procurar inimigos contra Carlos
d’Anjou.

Os inimigos não faltavam. O difícil era colocá-los de acordo, fazê-los agir de concerto e a
tempo. Inicialmente, ele vai para a Sicília, para o próprio vulcão da revolução, vê, escuta e observa. Os
sinais da erupção próxima eram visíveis, raiva concentrada, efervescência surda e o murmúrio e o
silêncio. Carlos esgotava esse infeliz povo para poder subjugar outro. Tudo estava pleno de preparativos
e de ameaças contra os Gregos. Procida passa à Constantinopla, adverte Paléologo, fornece-lhe informes
precisos. O rei de Nápoles já fizera passar três mil homens a Dirráquio (NT: Durrës, na Albânia). Ele
seguiria com cem galeras e quinhentos meios de transporte. O sucesso do acontecimento era certo, eis
que Veneza não temia dele participar. Ela dava quarenta galeras com seu Doge, que ainda era Dandolo. A
quarta cruzada seria renovada. Paleólogo, desorientado, não sabia o que fazer. “O que fazer? Dai-me
dinheiro que vos encontrarei um defensor que não tem dinheiro mas que tem armas” (Ferretus vicentinus,
apud Muratori, IX, 952).

Procida levou consigo um secretário de Paleológo, o conduziu à Sicília, mostrou-o aos barões
sicilianos, depois ao Papa, a quem secretamente viu no castelo de Soriano. O imperador grego desejava,
antes de tudo, a assinatura do Papa com o qual estava novamente reconciliado. Mas Nicolau hesitava em
embarcar numa empreitada tão grande. Procida deu-lhe dinheiro. Segundo outros, bastou-lhe lembrar a
este pontífice, Romano e Orsini de nascimento, uma palavra de Carlos d’Anjou. Quando o Papa desejou
dar sua sobrinha Orsini ao filho de Carlos d’Anjou, este dissera: “Ele acredita que por ter meias-calças
púrpuras o sangue dos seus Orsini pode se misturar ao sangue da França?” (G. Villani, p. 270).

Nicolau assinou, mas logo morreu. Toda a obra parecia rompida e destruída. Carlos se
encontrava mais poderoso que nunca. Ele conseguiu ter um Papa para si. Ele expulsou do conclave os
cardeais gibelinos e fez nomear um Francês, um antigo cônego de Tours, servil e trêmula criatura de sua
Casa. Era fazer-se Papa ele mesmo. Ele tornou a ser senador de Roma; dispôs todas as suas guarnições
nas propriedades da Igreja. Desta vez, o Papa não podia lhe escapar e o guardava consigo em Viterbo,
jamais perdendo-o de vista. Quandos os infelizes Sicilianos vieram implorar a intervenção do Papa junto
a seu rei, viram seu inimigo próximo de seu juiz, o rei sentando-se ao lado do Papa. Os deputados da
Sicília, que entretanto eram um bispo e um monge, foram, em resposta, jogados numa masmorra.

A Sicília não tinha a aguardar qualquer piedade de Carlos d’Anjou. Esta ilha, metade árabe,
apoiara teimosamente os amigos dos Árabes, Manfredo e sua Casa. Todo insulto que os vencedores
pudessem fazer contra o povo Siciliano não lhes parecia senão represálias. Conhece-se a petulância dos
Provençais, sua brutal jovialidade. Se apenas ainda houvesse antipatia nacional e insolência da
conquista, o mal poderia ter diminuído. Mas o que ameaçava aumentar, pesar cada dia mais, era um
primeiro, um inábil ensaio de administração, a invasão da fiscalidade, a aparição da finança no mundo da
Odisséia e da Enêida. Esse povo de trabalhadores e de pastores guardara, sob toda dominação
estrangeira, alguma coisa da antiga independência. Até aí, houvera isolamento nas montanhas, liberdades
no deserto. Mas eis que o Fisco explora toda a ilha. Curioso viajante, ele mensura o vale, escala a rocha,
estima o pico inacessível. O coletor monta sua mesa sob o castanheiro da montanha ou persegue e
registra o guardador de cabras errante nas cornijas das rochas, entre as lavas e as neves.

Tratemos de desemaranhar a queixa da Sícilia nesta floresta de barbarismos e de solecismos


através da qual a caudalosa eloquência do cronista Bartolomeo di Neocastro espuma e se precipita: “O
que dizer de suas invenções inauditas? de seus decretos sobre as florestas? da absurda interdição da
costa? do exagero inconcebível do produto dos rebanhos? Quando tudo perecia de languidez sob o
pesado calor do outono; não importa, o ano sempre fora bom, a colheita abundante... Ele repentinamente
cunhava uma moeda de prata pura e, por um denário siciliano fazia-se pagar trinta... Nós acreditávamos
ter recebido um rei do Pai dos Pais, mas recebemos o Anti-Cristo”[14].

“Era obrigatório”, diz um outro, “apresentar o mesmo número de cabeças no rebanho, ao final do
ano; e, no outro, mais jovens que o rebanho poderia produzir. Os pobres trabalhadores choravam. Era um
terror universal entre os vaqueiros, os cabreiros, entre todos os pastores. Eram responsabilizados por
suas abelhas, mesmo do enxame que o vento carregara. Era-lhes proibida a caça e, depois, iam, em
segredo, colocar peles de cervos e de gamos em suas choças a fim de terem o direito de confiscar. Todas
as vezes que agradasse ao rei bater moeda nova, soava-se a trombeta em todas as ruas; e, de porta em
porta, era necessário entregar o dinheiro...” (Nic. Specialis, apud Muratori).

Eis a sorte da Sicília depois de tantos séculos. Foi sempre a vaca nutriz esgotada do leite e do
sangue extraídos por um senhor estrangeiro. Ela não teve independência e vida forte senão sob o domínio
de seus tiranos, os Dionísios e os Gélons. Apenas eles a tornaram formidável para o estrangeiro. Depois,
sempre escrava... E, de início, era nela que se decidiam todas as querelas do mundo antigo: Atenas e
Siracusa, a Grécia e Cartago, Cartago e Roma; enfim, as guerras servis. Todas essas batalhas solenes do
gênero humano foram combatidas à vista do Etna, como um julgamento de Deus perante o altar. Depois,
vêm os Bárbaros, Árabes, Normandos, Alemães[15]. A cada vez, a Sicília espera e deseja; a cada vez,
ela sofre; ela vira e se revira como Encélado sob o vulcão. Fraqueza, desarmonia incurável de um povo
de vinte raças sobre quem pesa, tão pesadamente, uma dupla fatalidade de história e de clima.

Tudo isso não se mostra melhor senão através da bela e indolente lamentação com a qual
Falcando começa sua história[16]: “Eu gostaria, meu amigo, agora que o rude inverno cedeu a um sopro
mais suave, eu gostaria de te escrever e te dirigir alguma coisa amável, como premissas da primavera.
Mas a lúgubre notícia me faz prever novas tempestades; meus cantos se transformam em lástimas. Em vão
o céu sorri, em vão os jardins e os bosquedos me inspiram uma alegria inoportuna, e o concerto renovado
dos pássaros me obriga a retomar o meu. Não posso ver sem lágrimas a próxima desolação de minha boa
ama-de-leite, a Sicília... – A qual abraçarão com o jugo ou com a honra! Procuro em silêncio e não sei o
que escolher... – Vejo que, na desordem de um tal momento, nossos Sarracenos são oprimidos. Não vão
eles secundar o inimigo? ... ó, se todos, Cristãos e Sarracenos, se acordassem para eleger um rei!... –
Que, a oriente da ilha, nossos salteadores sicilianos em boa hora combatessem os bárbaros entre o fogo e
as lavas do Etna. São eles também de fogo e sílex. Mas o interior da Sicília, mas o grotão que honra
nossa bela Palermo, seria coisa ímpia, monstruosa, que ela fosse maculada com o aspecto dos bárbaros...
Nada espero dos Apulianos (Puglia), que amam apenas a novidade. Mas tu, Messina, cidade poderosa e
nobre, pensas então em te defender, em repelir o estrangeiro do estreito? Desgraça a ti, Catânia! Nunca, à
força de calamidades, tu pudeste satisfazer e dobrar a fortuna. Guerra, peste, torrentes inflamadas do
Etna, tremores de terra e ruínas; não te falta senão a servidão. Adiante, Siracusa, sacode a paz, se
puderes; esta eloquência com a qual te enfeitas, emprega-a para reerguer a coragem dos teus. De que te
serve teres te libertado dos Dionísios... Ah! Quem nos devolverá nossos tiranos!... Dirijo-me agora a ti, ó
Palermo, cabeça da Sicília! Como te passas em silêncio e como te louvar dignamente!...”. Mas, depois
que Falcando evocou a bela Palermo, ele não pensou mais em outra coisa, esqueceu os bárbaros e todos
os seus temores. Ei-lo, então, a descrever insaciavelmente a voluptuosa cidade, seus palácios fantásticos,
seu porto, seus maravilhosos jardins, sedosas amoreiras, laranjeiras, limoeiros, canas-de-açúcar. Ei-lo
perdido nos frutos e nas flores. A natureza o absorve, ele sonha, ele esqueceu tudo. Creio ouvir na sua
prosa o eco da poesia preguiçosa, sensual e melancólica do idílio grego: “Eu cantarei na gruta, tendo-te
em meus braços e olhando os rebanhos que vão passando sobre as margens do mar da Sicília”[17].

Era segunda-feira, 30 de março de 1282, a segunda-feira de Páscoa. Na Sicília, já era verão e,


como diríamos entre nós, dia de São João, quando o calor já é pesado e a terra úmida e quente
desaparece sob a erva e a erva sob as flores. A Páscoa é um sensual momento nessas terras. Finda a
Quaresma, finda está a abstinência; a sensualidade desperta ardente e rude, aguçada pela devoção. Deus
teve sua parte; os sentidos, agora, reclamam a sua. A mudança é brusca: cada flor desabrocha da terra,
toda beleza brilha. É uma triunfante erupção de vida, uma revanche da sensualidade, uma insurreição da
natureza.

Neste dia, então, nesta segunda-feira de Páscoa, todos e todas subiam, pela bela colina, de
Palermo a Monreale, para ouvir as vésperas. Os estrangeiros estavam lá para estragar a festa. Uma
aglomeração tão grande de homens não deixava de inquietá-los. O vice-rei proibira os Sicilianos de
portarem armas e com elas se exercitarem, como era o costume naqueles dias. Talvez, ele tivesse notado
a afluência dos nobres; em efeito, Procida tivera a destreza de reuni-los em Palermo, mas era necessária
a ocasião. Um Francês a forneceu melhor que Procida pudesse desejar: esse homem chamado Drouet[18]
detém uma bela jovem da nobreza que seu noivo e toda sua família escoltavam à igreja. Ele revista o
noivo e não encontra armas; depois, ele desconfia que a jovem as tivesse debaixo de seu vestido e enfia a
mão por baixo dele. Ela desmaia de susto. O Francês foi, no mesmo instante, desarmado e morto com sua
própria espada. Um brado se ergue: “À morte, à morte, os Franceses!”[19]. Em todos os lugares, eles são
degolados. Conta-se que as casas francesas estavam previamente assinaladas[20]. Aquele que não
conseguisse pronunciar o “c” ou “ch” italiano (ceci, ciceri) era morto no mesmo instante[21].
Desnudou-se as mulheres sicilianas para procurar em seu seio uma criança francesa.

Foi necessário um mês inteiro para que as outras cidades, seguras pela impunidade de Palermo,
imitassem seu exemplo. A opressão igualmente pesara. Igual foi também a vingança e, às vezes, houve no
povo uma caprichosa magnanimidade[22]. Mesmo em Palermo, o vice-rei, surpreendido em sua casa,
fora ultrajado, mas não assassinado; desejava-se devolvê-lo a Aigues-Mortes. Em Catalafimi-Segesta, os
habitantes pouparam seu governador, o honesto Porcelet[23], e o deixaram partir com sua família. Talvez
fosse já o temor das vinganças de Carlos d’Anjou. O povo já havia resfriado e desencorajado, tal é a
volubilidade meridional. Os habitantes de Palermo enviaram ao Papa dois religiosos para rogar graça.
Esses deputados de Palermo não ousaram dizer outra coisa que não fossem essas palavras das litanias:
“Agnus Dei, qui tollis peccata mundi, miserere nobis” (NT: Cordeiro de Deus que tirai os pecados do
mundo, tende piedade de nós). E eles as repetiram por três vezes. O Papa respondeu pronunciando,
também por três vezes, esse versículo da Paixão: “Ave, rex Judæorum, et dabant ei alapam” (NT: Salve
rei dos Judeus, e deram-lhe um tapa). Messina não teve melhor sucesso junto a Carlos d’Anjou. Ele
respondeu a seus enviados que todos eram traidores da Igreja e da Coroa e aconselhou-os a bem se
defenderem, como pudessem[24].

A gente de Messina se apressou em aproveitar do aviso. Tudo foi preparado para opor uma
resistência desesperada. Homens, mulheres e crianças, todos carregavam pedras e conseguiram erguer
uma muralha em três dias, repelindo, bravamente, os primeiros ataques. Deste acontecimento, resta uma
cançãozinha: “Ah! não é um grande dó das mulheres de Messina, vê-las descabeladas e carregando
pedras e cal?... Quem desejar destruir Messina, que Deus lhe dê moléstia e trabalho”[25].

Era, porém, tempo do Aragonês chegar. O príncipe matreiro inicialmente mantivera-se


observando, deixando os riscos aos Sicilianos. Estes, irrevogavelmente comprometidos pelos massacres,
D. Pedro desejava ver como iriam sustentar esses atos irrefletidos. Não obstante, ele se mantinha na
África, na companhia de um exército, e fazia frouxamente a guerra aos infiéis. Esse exército causara
inquietação ao rei da França e ao Papa, mas D. Pedro deixou o primeiro tranquilo, pretextando a guerra
contra os Mouros e, para melhor enganá-lo, tomou-lhe dinheiro emprestado; mesmo de Carlos d’Anjou
ele obteve empréstimo (G. Villani, 59, p. 277). Os barões do soberano de Aragão não puderam abrir,
senão no mar, as ordens seladas que ele lhes dera, e nelas mencionava-se apenas a guerra na África[26].
Foi apenas ao cabo de alguns meses, quando recebeu duas embaixadas dos Sicilianos, que ele se decidiu
e passou à Sicília[27].

O Aragonês lançou seu desafio a Carlos d’Anjou na frente de Messina, mas não se apressou em
se colocar face a face com seu terrível inimigo. Como bom toureador, ele picou, mas iludiu o touro.
Somente despachou, para segurança da cidade, alguns de seus salteadores almogávares, lestos e sóbrios
pedestres que, em três dias, fizeram os seis de distância entre Palermo e Messina[28]. A esquadra catalã,
sob o comando do calabrês Rogério de Lauria (Ruggero di Lauria) era um seguro ainda mais eficaz. Ela
devia ocupar o estreito, esfaimar Carlos d’Anjou, fechar-lhe o retorno. O rei de Nápoles desconfiava,
com razão, das suas forças marítimas. Ele cruzou o estreito à noite, sem poder levar nem suas tendas, nem
suas provisões. Pela manhã, os Messinenses, maravilhados, não viram mais inimigos. E não tiveram outra
a coisa fazer senão pilhar o campo inimigo abandonado às pressas.

A se acreditar em Muntaner, os Catalães não possuíam senão vinte e duas galeras contra as
noventa de Carlos d’Anjou. Destas, havia dez de Pisa, que foram as primeiras a fugir, quinze de Gênova,
que as seguiram. Os Provençais, súditos de Carlos, possuíam vinte, que não se comportaram de outra
forma. As quarenta e cinco restantes pertenciam a Nápoles e à Calábria; elas se acreditaram perdidas e
lançaram-se à costa. Mas os Catalães as perseguiram, as tomaram e aí mataram seis mil homens. Os
vencedores, afastados pela tempestade, encontraram-se, ao raiar do Sol, à frente do farol de Messina.

“Quando o dia chegou, eles se apresentaram à frente da torrezinha. As pessoas da cidade, vendo
um grande número de velas, exclamaram assustadas: ‘Ah, Senhor! Ah, meu Deus! O que é isso? É a frota
do rei Carlos que, depois de ter pego as galeras do rei de Aragão, vem contra nós”.

“O rei estava de pé, pois se levantava constantemente ao alvorecer do dia, seja no verão ou no
inverno; ele ouviu o barulho e perguntou a causa: ‘Por que esses gritos em toda a cidade?’ – ‘Senhor, é a
frota do rei Carlos que retorna ainda mais considerável por ter tomado nossas galeras”.

“O rei ordenou um cavalo e saiu do palácio seguido de apenas dez pessoas. Ele correu ao longo
da costa, onde encontrou uma multidão de homens, mulheres e crianças desesperadas. Ele a todos
encorajou, dizendo: ‘Boa gente, nada temei! São nossas galeras que trazem a frota do rei Carlos’. E
repetia essas palavras correndo sobre a praia do mar; e toda essa gente exclamava: ‘Queira Deus seja
assim!’. O que mais poderia dizer-vos enfim? Todos os homens, mulheres e crianças de Messina corriam
para perto dele e o exército de Messina também o seguia. Chegando na Fonte de Ouro, o rei, vendo se
aproximar uma tão grande quantidade de velas insufladas pelo vento das montanhas, refletiu um momento
e disse para si mesmo: ‘Deus, que para cá me conduziu, não me abandonará, e nem a esse infeliz povo;
graças sejam-Lhe dadas!”.

“Enquanto vagava nesses pensamentos, um vaso armado, empavesado com as armas do senhor
rei de Aragão e conduzido por En Cortada, veio na direção do rei, que o via abaixo da Fonte de Ouro, as
flâmulas à frente da cavalaria. Se todos aqueles que lá estavam com o rei foram transportados pelo júbilo
ao perceberem esse vaso com seu pavilhão, é coisa que não se precisa perguntar. O vaso fez terra, En
Cortada desembarcou e disse ao rei: ‘Senhor, eis vossas galeras; elas vos trazem aquelas de vossos
inimigos. Nicotera foi tomada, queimada e destruída e nela morreram mais de duzentos cavaleiros
franceses’. Ante essas palavras, o rei apeou do cavalo e se ajoelhou. Todo mundo seguiu seu exemplo.
Eles começaram a entoar, todos juntos, o Salve Regina. Eles louvaram Deus e deram-Lhe graças por esta
vitória, pois ela não pertencia a eles, mas apenas a Deus. Enfim, o rei respondeu a En Cortada: ‘Sede
bem vindo’. Ele, em seguida, disse-lhe para voltar sobre seus passos e dizer àqueles que se encontravam
à frente da aduana para se aproximarem louvando a Deus, no que foi obedecido; então, as vinte e duas
galeras entraram primeiro, arrastando, atrás de si, mais de quinze galeras, barcos ou transportes; e foi
assim que fizeram sua entrada em Messina, empavesadas, o estandarte hasteado, e arrastando sobre o mar
os estandartes inimigos. Jamais fomos testemunha de uma alegria parelha. Dir-se-ia que o céu e a terra
haviam se confundido; e, ao meio de todos esses gritos, escutava-se os louvores a Deus, à Senhora Santa
Maria e à toda a corte celeste. Quando fomos à aduana, à frente do palácio do rei, lançamos brados de
júbilo; e a gente do mar e a gente da terra a eles responderam, mas com uma força tamanha que, podeis
acreditar em mim, podia-se ouvir da Calábria” (Ramón Muntaner, c. 63, trad. de M. Buchon).

Carlos d’Anjou, da praia, viu o desastre da sua frota. Ele viu incendiarem, sem poder defendê-
los, esses vasos outrora construídos para a conquista de Constantinopla. Conta-se que ele mordia de
raiva o cetro que tinha à mão; e que repetia a palavra que já antes dissera quando tomou conhecimento
dos primeiros massacres: “Ah, Sire Dieu, moult m’avez offert à surmonter! Puisqu’il Vous plaît de me
faire fortune mauvaise, qu’il Vous plaise aussi que la descente se fasse à petits pas e doucement” (NT:Ah,
Senhor Deus, muito me ofertastes para superar! Pois que Vos apraz fazer-me má fortuna, que também
Vos agrade que a descida se faça a pequenos passos e vagarosamente)[29].

Mas logo o orgulho levou embora esta resignação. Carlos d’Anjou, já velho e pesado, propôs ao
jovem rei de Aragão decidir a querela por um combate singular, no qual tomariam parte cem cavaleiros
dos dois reinos. O Aragonês aceitou uma proposta tão favorável ao mais fraco e que lhe dava tempo[30].
Os dois reis providenciaram se encontrar em Bordeaux, no dia 15 de maio de 1283, onde combateriam
sob a proteção do rei da Inglaterra. Na época indicada, D. Pedro, viajando em boa montaria à noite e
guiado por um comerciante de cavalos que conhecia todas as estradas e todos os portos (pors) dos
Pirineus, chegou, ele e mais dois, a Bordeaux, no próprio dia da batalha, e protestou, perante um notário,
que o rei da França, estando próximo de Bordeaux com suas tropas, não havia segurança para si.
Enquanto o notário escrevia, o rei fez o percurso do torneio, depois esporeou seu cavalo, e fez, sem
parar, quase cem milhas sobre a estrada de Aragão.

Carlos d’Anjou, assim zombado, preparou um novo exército na Provença. Mas, antes que
estivesse de volta a Nápoles, o almirante Rogério de Lauria dera-lhe o golpe mais sensível. Ele veio
desfilar, com quarenta e cinco galeras, à frente do porto de Nápoles, para afrontar Carlos o Coxo, o filho
de Carlos d’Anjou. O jovem príncipe e seus cavaleiros não suportaram tamanho ultraje e saíram com
trinta e cinco galeras que possuíam no porto. Ao primeiro choque, foram derrotados e presos. Carlos
d’Anjou chegou no dia seguinte. “Por que ele não está morto?”, exclamou quando relataram-lhe o
cativeiro de seu filho[31]. Ele se deu, a título de consolação, o enforcamento de cento e cinquenta
Napolitanos.

O rei de Nápoles fora rudemente batido com este último golpe. Sua atividade o abandonava. Ele
perdeu o verão a negociar, por intermédio do Papa, um acordo com os Sicilianos. No inverno, ele fez
novos preparativos que, entretanto, não lhe serviram. A vida escapava-lhe, assim como a esperança da
vingança. Ele morreu com a piedade e o sentimento de segurança de um santo, dando-se por testemunho
que não fizera a conquista do reino da Sicília senão para a glória da Igreja (7 de janeiro de 1285).

Entrementes, o Papa, completamente Francês de nascença e de coração, declarara D. Pedro


destituído de seu reino de Aragão (1283), assegurando as indulgências da cruzada a quem quer que o
enxotasse. No ano seguinte, ele adjudicou esse reino ao jovem Carlos de Valois, segundo filho de Filipe
o Ousado, rei da França. Foi, de fato, uma verdadeira cruzada. A França não guerreava há muito tempo.
Todo mundo desejou dela participar, inclusive a própria rainha e muitas damas nobres. O exército viu-se
o mais forte que jamais saíra da França desde Godofredo de Bouillon. Os Italianos o estimaram em vinte
mil cavaleiros e quatro mil infantes. As frotas de Gênova, de Marselha, de Aigues-Mortes e de
Narbonne, deviam seguir as praias da Catalunha e secundar as tropas terrestres. Tudo prometia um
sucesso fácil. D. Pedro encontrava-se abandonado de seu aliado, o rei de Castela, e de seu próprio
irmão, o rei de Maiorca. Seus súditos vinham de formar uma irmandade contra si. Ele se viu reduzido a
alguns almogávares, com os quais ocupava as posições inatacáveis, observando e inquietando o inimigo.
A vila de Elna opôs alguma resistência e tudo foi aí cruelmente massacrado. Girona resistiu mais. O rei
da França, que fizera voto de tomá-la, obstinou-se e aí perdeu um precioso tempo. Pouco a pouco, o
clima começou a fazer sua influência maléfica. Febres eclodiram no exército. O desencorajamento
aumentou pela derrota do exército naval; o almirante vencedor, Rogério de Lauria, praticou crueldades
medonhas sobre os prisioneiros. Era necessário considerar a retirada, mas todo mundo estava doente; os
soldados acreditavam-se perseguidos pelos santos cujos túmulos haviam ultrajado e violado. Todas as
passagens estavam ocupadas. Os almogávares, atraídos pelo butim, cresciam em número a olhos vistos.
O rei retornava moribundo sobre uma padiola, entre seus cavaleiros debilitados. A chuva caía em
torrentes sobre este exército de doentes. A maior parte ficou pela estrada. O rei atingiu Perpignan, mas
para morrer. Não mais lhe restava uma polegada de terra na Espanha.

O novo rei, Filipe o Belo, encontrou uma maneira de armar o rei de Castela contra seu aliado de
Aragão. O filho de Carlos d’Anjou obteve sua liberdade graças a um perjúrio. A Sicília e seus novos
reis, cadetes (caçulas) da Casa de Aragão, viram-se abandonados pelo ramo primogênito que, inclusive,
tomou armas contra si. Entretanto, o neto de Carlos d’Anjou, filho de Carlos o Coxo, foi aprisionado
pelos Sicilianos, assim como seu pai o fora. Um tratado se seguiu (1299), segundo o qual o rei Frederico
devia manter a ilha durante sua vida; mas seus descendentes a guardaram durante mais de um século.

Essa monarquia de Nápoles, tão mal obtida, não foi de todo derrubada mas, ao menos, mutilada
e humilhada. Houve alguma reparação pelos mortos. Escreveu um cronista que morreu por volta de 1300:
“O piedoso Carlos (o filho), hoje reinando, construiu uma igreja Carmelita sobre os túmulos de
Conradino e daqueles que com este morreram” (Ricobald. Ferrar. sub. finem, apud Muratori, IX).


Capítulo II

Filipe o Belo. Bonifácio VIII.
1285 a 1304.


--------------------

“Eu fui a raiz da má planta que cobre toda a cristandade com sua sombra. De planta má, mau
fruto...

“Tive por nome Hugo Capeto. De mim nasceram esses Luíses, esses Filipes, que desde há pouco
reinam na França.

“Eu era filho de um açougueiro de Paris[32], mas quando os antigos reis faltaram, menos um,
que tomou o hábito cinza[33], encontrei-me a segurar as rédeas; e eu tinha tantos amigos e tamanha força,
que a coroa viúva caiu para meu filho[34]. Dele saiu essa raça na qual os mortos se tornam relíquias[35].

“Tanto quanto o grande dote provençal não os privava da vergonha, pouco valiam; aos menos,
faziam eles pouco mal”[36].

“Mas, desde então, eles avançaram por força e por mentira e, depois, por penitência, tomaram a
Normandia e a Gasconha”.

“Carlos passou na Itália e, depois, por penitência, degolou Conradino. – Ainda por penitência,
ele mandou São Tomás para o céu”.

“Um outro Carlos logo sairá da França. Sem armas, salvo a lança do perjúrio, a lança de Judas,
ele sai. E com ela golpeia Florença no ventre”[37].

“O outro, cativo no mar, faz tráfico e mercado de sua filha; o corsário, ao menos, não vende
senão o estrangeiro”[38].

“Mas eis quem apaga o mal feito e a fazer... Eu o vejo entrar em Anagni, coroado com a flor-de-
lis!... Vejo o Cristo cativo na pessoa de seu vigário; vejo-o zombado uma segunda vez; sua sede é
novamente saciada com fel e vinagre. Ele é posto à morte entre bandidos”[39].

Esta furiosa invectiva gibelina, repleta de verdades e de calúnias, é a reclamação do velho


mundo moribundo contra esse jovem mundo feio que o sucede. Este começa por volta de 1300: abre-se
pela França, pela odiosa figura de Filipe o Belo.

Quando a monarquia francesa fundada por Filipe Augusto e Filipe o Belo findou em Luís XVI,
ela, ao menos, teve um consolo em sua morte: pereceu na glória imensa de uma jovem república que, no
seu primeiro ensaio de força, venceu toda a Europa e a renovou. Mas esta pobre Idade Média, Papado,
Cavalaria, Feudalidade, sob qual mão pereceram? Sob a mão do procurador, do bancarroteiro, do
falsário de moeda.
A reclamação é escusável: esse novo mundo é feio. Se é mais legítimo que aquele a quem
substituiu, que olho, ainda que fosse o de Dante, poderia descobri-lo naquela época? Ele nasce sob as
rugas do velho Direito Romano, da antiga fiscalidade imperial. Ele nasce advogado, usurário; ele nasce
gascão, lombardo e judeu.

Neste sistema moderno, o que mais nos irrita contra a França, sua primeira representante, é sua
perpétua contradição, sua duplicidade de instinto, a hipocrisia ingênua, se posso dizer, com a qual vai
testemunhando e, vez por vez, alternando seus dois princípios, romano e feudal. A França é, então, um
jurista em armadura, um procurador coberto de ferro; ela emprega a força feudal para executar as
sentenças dos Direitos Romano e Canônico.

Filha obediente da Igreja, ela se apodera da Itália, da própria Igreja; se golpeia a Igreja, o faz
como sua filha, como que obrigada, em consciência, a corrigir sua mãe.

O primeiro ato do neto de São Luís fora o de excluir os sacerdotes da administração da justiça,
de proibir-lhes todo tribunal, não somente no parlamento do rei e em seus domínios, mas também nos dos
senhores (1287). “Foi ordenado, pelo conselho do senhor rei, que os duques, condes, barões, arcebispos
e bispos, abades, capítulos, colégios, cavaleiros (milites) e, em geral, todos aqueles que possuam
jurisdição temporal na França, escolham laicos para os cargos de bailios (magistrados, juízes),
prebostes e oficiais de justiça; que, de forma alguma, nomeiem clérigos para essas funções, a fim de que,
se faltarem (delinquirem) em qualquer coisa, seus superiores possam puni-los severamente (com
sevícias). Se houver clérigos nos supramencionados ofícios, que deles sejam afastados. – Idem, foi
ordenado que todos aqueles que, após o presente parlamento, tenham ou tiverem causa na corte do senhor
rei, e perante os juízes seculares do reino, constituam procuradores laicos. Registrado neste dia, no
parlamento de Todos-os-Santos, ano do Senhor 1287”[40].

Filipe o Belo tornou o parlamento completamente laico. É a primeira separação expressa das
ordens civil e eclesiástica; digamos melhor: é a fundação da ordem civil.

Os sacerdotes não se conformaram. Parece que tentaram forçar o parlamento para retomarem seu
assento. Em 1289, o rei proíbe “a Filipe e a João, porteiros do parlamento, deixarem entrar qualquer dos
prelados na câmara sem o prévio consentimento dos mestres (presidentes)”.

Constituído pela exclusão do elemento estrangeiro, este corpo se organizou (1291) pela divisão
do trabalho, pela repartição das funções diversas. Uns deveriam receber os requerimentos e despachá-
los, outros tiveram o encargo dos inquéritos. Os dias de sessão foram fixados, as rejeições determinadas,
assim como as funções dos oficiais do rei. Um grande passo se fez na direção da centralização judiciária.
O parlamento de Toulouse foi suprimido, os apelos e embargos do Languedoc foram doravante levados a
Paris (D. Vaissette, ‘Hist. du Languedoc’, liv. XXVIII, c. 21, p. 72); as grandes causas deviam ser
decididas com mais calma, longe dessa terra passional que carregava as marcas de tantas e tantas
revoluções.

O parlamento rejeitou os sacerdotes. Ele não tarda a agir contra os mesmos. Em 1288, o rei
proíbe que qualquer judeu seja detido à vista de requisição de um padre ou monge, sem que antes se
tenha informado o senescal ou o bailio acerca do motivo da detenção e sem que ao detido seja
apresentada cópia do mandado que a determinou. Ele modera a tirania religiosa sob a qual gemia o Midi:
ele proíbe ao senescal de Carcassonne aprisionar quem quer que seja em razão do só pedido dos
inquisidores (Ordenações, p. 317, 322). Sem dúvida, essas concessões eram interesseiras: o judeu era
coisa do rei; o herético, seu súdito, seu talhável[41], não poderia ser extorquido por ele se já o tivesse
sido pela Inquisição. Mas não nos prendamos tão estritamente ao motivo. A Ordenação parece honorável
àquele que a assinou. Nela entrevê-se, com prazer, a primeira luz da tolerância e da eqüidade religiosa.

No mesmo ano de 1291, o rei desferiu na Igreja um golpe mais ousado. Ele limitou, enfraqueceu,
este terrível poder de absorção que, pouco a pouco, teria feito passar todas as terras do reino às pessoas
de mãos-mortas[42]. Mortas, de fato, para vender ou doar, as mãos dos padres e dos monges eram bem
abertas para receber e tomar. Ele aumentou para três, quatro ou seis vezes a renda que devia pagar o
adquirente eclesiástico em compensação dos direitos de transmissão que o estado perdia: assim, toda
doação de imóveis feita às igrejas aproveitou, desde então, ao rei. O Rei, esse novo Deus do mundo
civil, entrou na partilha das doações pias junto com Jesus Cristo, com Nossa Senhora e os santos.

Eis para a Igreja. A feudalidade, completamente armada e guerreira que era, nem por isso foi
menos atacada. Dela própria se desprende o princípio que deve arruiná-la. Este princípio é a realeza
como suzerania feudal. São Luís diz expressamente nos seus Assentamentos (Établissements), livro II, c.
27: “Se aucun se plaint en la court le roy de son saignieur de dete que son saignieur li doie, ou de
promesses, ou de convenances que il li ait fetes, li sires n’aura mie la cour: car nus sires ne doit estre
juges, ne dire droit en sa propre querelle, selonc droit escrit en Code, Ne quis in suâ causâ judicet, en la
loi unique qui commence Generali; el rouge, et el noir, etc.” (NT: Se alguém, na Corte do Rei, reclama
contra seu senhor de dívida que lhe deve seu senhor, ou de promessas, ou de acordos que ele lhe tenha
feito, seu senhor não terá lugar na corte: pois nenhum senhor deve ser juiz, nem administrar o direito
em sua própria causa, de acordo com o que está escrito no Código: ‘Ninguém julgará em sua própria
causa’, na lei única que começa em Generalli, em vermelho e em preto etc..”). Os Assentamentos de
São Luís foram feitos para os domínios do rei. Beaumanoir[43], nos Costumes do Beauvoisis, num livro
feito para os domínios de um dos filhos de São Luís, Roberto de Clermont, progenitor da Casa de
Bourbon, escreve, no reinado de Filipe o Belo, que o rei tem direito de baixar decretos, não somente
para os seus domínios, mas para todo o reino. É preciso ver, no próprio texto, com qual destreza ele
apresenta esta opinião escandalosa e paradoxal![44]

Filipe o Ousado facilitara aos plebeus a aquisição dos bens feudais. Ele ordenou às pessoas da
justiça “não molestar os não-nobres que adquirirão as coisas feudais”. O não-nobres, não podendo saldar
os serviços nobres vinculados aos feudos, era necessário o consentimento de todos os senhores feudais,
de grau em grau, até o rei. Filipe III reduziu a três o número de senhores mediatos cujo consentimento era
exigido.

A tendência desta legislação se explica facilmente quando se sabe quais foram os conselheiros
dos reis nos séculos XIII e XIV, quando se conhece a classe à qual pertenciam.

O camareiro (chambellan), o conselheiro de Filipe o Ousado, foi o barbeiro ou cirurgião de São


Luís, o turonense Pierre de la Brosse. Seu irmão, bispo de Bayeux, partilhou seu poder e, também, sua
ruína. De la Brosse acusara a segunda mulher de Filipe III de haver envenenado um filho do primeiro
casamento. O partido dos senhores, à cabeça do qual estava o conde do Artois, sustentou que o favorito
caluniava a rainha e que, além disso, vendia aos Castelhanos os segredos do rei (Guill. Nagiac., 532. –
Chron. de Saint-Denis, p. 107. – Mariana, XIV, p. 616; Sism. VIII, 277). De la Brosse convenceu o rei a
interrogar uma beguina ou mística de Flandres. A facção dos senhores opôs a ela os dominicanos,
geralmente inimigos dos místicos. Um dominicano levou ao rei uma caixinha onde se viu, ou se acreditou
ver, as provas da traição do camareiro. A instrução de seu processo foi feita secretamente e não houve
dificuldade em julgá-lo culpado. Os chefes do partido da nobreza, o conde do Artois, uma multidão de
senhores, quiseram assistir à sua execução.

À testa dos conselheiros de São Luís, coloquemos Pierre de Fontaines (ou Desfontaines), autor
do “Conselho a meu amigo”, livro em grande parte traduzido das leis romanas. De Fontaines, nativo do
Vermandois, era aí o bailio, no ano de 1253. Nós o vemos, em seguida, entre os Mestres do parlamento
de Paris. Nesta qualidade, ele pronuncia um julgamento em favor do rei contra o abade de Saint-Benoît-
sur-Loire (1260), depois um outro, e sempre favoráveis ao rei, contra os religiosos do bosque de
Vincennes. Nesses julgamentos, nós o encontramos assinando após o chanceler da França (Dupuy,
‘Différent de Boniface VIII’, p. 615). Ele se intitula Chevalier (Cavaleiro), o que, desde esta época, não
prova grande coisa. Essa turma da toga longa cedo tomou o título ridículo de Chévaliers-ès-lois
(Cavaleiros em Leis).

Nada também indica que Filipe de Beaumanoir, bailio de Senlis, autor deste grande livro dos
Costumes do Vermandois, tenha sido da grande nobreza. A Casa de mesmo nome é uma família bretã, e
não picarda, que aparece nas guerras dos Ingleses, no século XIV, mas que não consegue demonstrar sua
filiação além do século XV.

Os dois irmãos Marigny, tão poderosos no reinado de Filipe o Belo, tinham Le Portier como
verdadeiro nome de família (Dupuy, ‘Templiers’, 1751, p. 45, nota). Eles eram Normandos e compraram
em seu país a terra de Marigny. O mais célebre deles, camareiro e tesoureiro do rei, capitão da Torre do
Louvre, é chamado Coadjutor e governador de todo o reino da França. “Ele era”, disse um
contemporâneo, “como um segundo rei, e tudo se fazia de acordo com sua vontade”[45]. Não somos
tentados a suspeitar desse testemunho de exagero, quando sabemos que Marigny mandara colocar sua
estátua no Palácio de Justiça, ao lado daquela do rei (v. Félibien, ‘Histoire de Paris’).

Aos ministros de Filipe o Belo, é preciso acrescentar dois banqueiros florentinos, a quem, sem
dúvida, se deve em grande parte atribuir as violências fiscais desse reinado. Aqueles que conduziram os
grandes e cruéis processos de Filipe o Belo foram o chanceler Pierre Flotte, que teve a honra de ser
morto, tal e qual um cavaleiro, na batalha de Courtrai, da qual falaremos, e seus colegas ou sucessores
Plasian e Nogaret. Este último, que obteve uma celebridade tão trágica, nascera em Caraman, no
Lauraguês (Lauragais), no Languedoc. Seu avô, a se crer nas invectivas de seus inimigos, tinha sido
queimado vivo como herético. Nogaret foi inicialmente professor de Direito em Montpellier, depois juiz-
mor (juge-mage) de Nîmes. A família Nogaret, tão orgulhosa no século XVI sob o nome Épernon, não era
ainda nobre em 1372, nem de uma, nem da outra linhagem. Pouco após esta expedição ousada onde
Guilherme Nogaret foi deitar a mão sobre o Papa, ele se tornou chanceler e guarda dos selos. Filipe o
Longo revogou as doações que lhe haviam sido feitas por seu pai, Filipe o Belo; mas Nogaret não foi
envolvido na proscrição de Marigny. Temia-se, certamente, levar descrença aos seus atos judiciários,
que tinham uma enorme importância para a realeza.

Esses juristas, que haviam governado os reis ingleses desde o século XII e, no XIII, os
soberanos São Luís, Alfonso X e Frederico II, foram, no reinado do neto de São Luís, os tiranos da
França. Esses cavaleiros-em-direito, essas almas de chumbo e de ferro, os Plasian, os Nogaret, os
Marigny, procederam com uma horrível frieza em sua imitação servil do Direito Romano e da fiscalidade
imperial. Os Pandectas[46] eram sua Bíblia, seu Evangelho. Nada os perturbava desde que pudessem
responder, à torto ou à direita, ‘Scriptum est...” (NT: ‘Está escrito...’). Com textos, citações,
interpretações e falsificações, eles destruíram a Idade Média, o Pontificado, a feudalidade, a cavalaria.
Eles foram ousadamente realizar uma apreensão de corpo no Papa Bonifácio VIII; eles queimaram a
própria Cruzada nas pessoas dos Templários.
Esses cruéis demolidores da Idade Média são, custa confessá-lo, os fundadores da ordem civil
nos tempos modernos. Eles organizam a centralização monárquica. Lançam nas províncias os bailios, os
senescais, os prebostes, os auditores, os tabeliões, os procuradores do rei, os mestres e pesadores de
moeda. As florestas são invadidas pelos fiscais da mata (verdiers), os gruiers reais[47]. Toda essa gente
vai trapacear, desencorajar, destruir as jurisdições feudais. No centro desta vasta teia de aranha assenta-
se o conselho dos juristas sob o nome de Parlamento (fixado em Paris em 1302). Pouco a pouco, tudo
para aí virá se amortecer sob a autoridade real. Este direito laico é sobretudo o inimigo do direito
eclesiástico. Se necessário, os juristas chamarão a si os burgueses. Estes mesmos não são coisa melhor,
mesmo que mendiguem o enobrecimento, ainda que ao custo de perseguirem a nobreza.

Esta criação do governo custava muito caro. Não temos aqui os detalhes suficientes, mas
sabemos que os sargentos dos prebostes, quer dizer, os executores, os agentes desta administração tão
tirânica em seu nascimento, eram, inicialmente, o sargento a cavalo três soldos parisienses e, mais tarde,
seis soldos; o sargento a pé dezoito denários, etc.. Eis aí um exército judiciário e administrativo.
Oportunamente, virão as tropas mercenárias. Filipe de Valois terá, de uma só vez, vários milhares de
arbaleteiros genoveses. De onde tirar as somas enormes que tudo isso deve custar? A indústria ainda não
nascera. Esta sociedade nova se encontra já tomada do mal do qual morrera a sociedade antiga: ela
consome sem produzir. A indústria e a riqueza devem sair, a longo prazo, da ordem e da segurança. Mas
esta ordem é tão custosa de estabelecer, que se pode duvidar, durante muito tempo, se ela não aumenta as
misérias que devia curar.

Uma circunstância agrava infinitamente esses males. O senhor da Idade Média pagava seus
servidores em terras, em produtos da terra; grande e pequenos, eles tinham lugar à sua mesa. O soldo era
o repasto do dia. A imensa máquina do governo real que traz seu movimento complicado em substituição
aos mil movimentos naturais e simples do governo feudal, esta máquina, apenas o dinheiro sonante pode
dar-lhe a impulsão. Se este elemento vital faltar à nova realeza, ela vai perecer, a monarquia se
dissolverá, e todas as partes tornarão a cair no isolamento, na bárbarie do governo feudal.

Não é culpa desta forma de governo se ele é ávido e faminto. A fome é sua natureza, sua
necessidade, o próprio fundo de seu temperamento. Para satisfazê-la, é preciso que se empregue, vez por
vez, a astúcia e a força. Há, aqui, um único príncipe, como no velho romance, mestre Renard e mestre
Isengrin.

É justo reconhecer que este rei, por sua natureza, não gosta da guerra; ele prefere qualquer outro
meio para tomar: a compra, a usura. De início, ele trafica, ele troca, ele compra; o forte pode assim,
honestamente, esfolar os amigos fracos. Por exemplo: desde que se desesperou por não conseguir tomar a
Espanha com as bulas do Papa, ele, ao menos, comprou o patrimônio do ramo cadete de Aragão, a boa
cidade de Montpellier, a única que restara ao rei Jaime (‘Hist. du Languedoc’, liv. XXVIII, c. 30, p. 76).
O príncipe, distinto e bem instruído nas leis, não se fez escrúpulo em adquirir desta forma a última veste
de seu pródigo amigo, pobre arrimo de família que vendia seus bens peça a peça, e ao qual, sem dúvida,
acreditava poder tirar a direção em virtude da lei romana: Prodigus et furiosus.[48]

No norte, ele adquiriu Valenciennes, que a ele se deu (1293). E, sem dúvida, ainda houve
dinheiro envolvido nisto. Valenciennes o aproximava da rica Flandres, tão boa para tomar por ser rica e
por ser aliada dos Ingleses. Do lado da França inglesa, ele comprara do necessitado Eduardo I o Quercy,
terra medíocre, seca e montanhosa, mas de onde se descia para a Guiana. Eduardo, à ocasião,
encontrava-se atrapalhado nas guerras de Gales e da Escócia, onde não ganhava senão a glória. Seria
muito, é verdade, fundar a unidade britânica, fechar-se na ilha. Eduardo, para isso, fez esforços heróicos
e também cometeu incríveis barbáries. Mas em vão ele conseguiu quebrar as harpas de Gales, matar os
bardos, fazer perecer o rei David com o suplício dos traidores e transportar para Westminster o paládio
da Escócia, a famosa pedra de Scone[49]; ele não pôde nada terminar na ilha, nem no continente. Cada
vez que Eduardo olhava na direção da França e desejava a ela passar, tomava conhecimento de alguma
nova má notícia do Border escocês ou das Marchas de Gales, algum novo movimento de Llywelyn ou de
Wallace[50]. Este último, chefe heróico dos clãs[51], era encorajado por Filipe o Belo, o rei-procurador
que nada mais tinha a fazer senão ficar parado: bastava-lhe voltar a atiçar seus cães de caça da Escócia
contra Eduardo. Ele o deixava, com prazer, se imortalizar nos desertos de Gales de Northumberland,
instruía o processo contra ele à sua vontade e o condenava por abandono da causa.

Assim, quando Filipe o Belo o viu ocupado em conter a Escócia sob o reinado de João
Balliol[52], ele o citou para responder pelas piratarias dos seus Gascões sobre os nossos Normandos.
Ele citou esse rei, esse conquistador, para vir se explicar perante aquilo a que chamava de “o tribunal
dos pares”. Ele o ameaçou, depois o agradou, ofereceu-lhe uma princesa da França pelo preço de uma
submissão fictícia, de um penhor que tudo acomodaria. O arranjo foi que o Inglês abriu suas praças, que
Filipe as guardou e, então, este retirou suas ofertas. Esta grande província, este reino da Guiana, ele foi
escamoteado pela França.

Eduardo reclamou em vão. Ele pediu e obteve contra a Filipe a aliança do rei dos Romanos,
Adolfo de Nassau, a dos duques da Bretanha e do Brabant, dos condes de Flandres, de Bar e de
Gueldres. Ele humildemente escreveu aos seus súditos da Guiana, pedindo-lhes perdão por ter consentido
no penhor[53]. Mas, muito ocupado na Escócia, ele mesmo não foi à Guiana, e seu partido provou
reveses. Filipe tinha por si o Papa (Bonifácio VIII), que lhe devia a tiara e que, para dar-lhe um aliado,
desligou o rei da Escócia dos juramentos que prestara ao rei da Inglaterra. Enfim, ele agiu tão bem, que
os Flamengos, descontentes de seu conde, o chamaram em socorro (Oudegherst, ‘Chron. de Flandres’, c.
131, f. 214). Para sustentar a guerra, os dois reis contavam com Flandres. A gorda Flandres era a
tentação natural desses governos vorazes. Para todo esse mundo de barões, de cavaleiros, que os reis da
França desmamavam das cruzadas e das guerras privadas[54], Flandres era seu sonho, sua poesia, sua
Jerusalém. Todos estavam prontos para empreender uma jubilosa peregrinação às lojas de Flandres, às
especiarias de Bruges, aos finos tecidos de Ypres, às tapeçarias de Arras.

Parece que Deus fez esta boa Flandres, que a situou entre todos, para ser devorada por uns ou
outros. Antes que a Inglaterra fosse esta coisa colossal que hoje vemos, Flandres já era uma Inglaterra,
mas já quão inferior e mais incompleta! Tecelões sem lã, soldados sem cavalaria, mercadores sem
marinha. E, hoje, essas três coisas, rebanho, cavalos, marinha, são justamente o nervo da Inglaterra; são a
matéria, o veículo e a defesa de sua indústria.

Não é tudo. Esse nome, FLANDRES, não significa um povo, mas uma reunião de vários países
muito diferentes, uma coleção de tribos, de aldeias, de vilas. Nada pode ser menos homogêneo. Sem falar
da diferença de raça e de língua, sempre houve ódio de cidade à cidade, da cidade ao campo, ódio de
classes, ódio de ofícios, ódio entre o soberano e o povo[55]. Num país onde a mulher herdava e
comunicava a soberania, o soberano era frequentemente um marido estrangeiro. A sensualidade flamenga,
a materialidade desse povo de carne, aparece na precoce indulgência dos Costumes de Flandres para a
mulher e para o bastardo[56]. A mulher flamenga trouxe, assim, pelo casamento, senhores de todas as
nações, um Dinamarquês, um Alsaciano; depois, um vizinho do Hainaut, depois um príncipe de Portugal,
então Franceses de diversos ramos: Dampierre (Bourbon), Luís de Mâle (Capeto), Filipe o Ousado
(Valois); enfim, Áustria, Espanha, de novo Áustria. Eis agora (NT: 1837) Flandres sob o reinado de um
Saxão (Coburgo).

Flandres se queixava do conde francês, Gui Dampierre. Filipe se ofereceu como protetor aos
Flamengos. Gui se dirigiu aos Ingleses e quis conceder sua filha Filipa ao filho de Eduardo. Esse
casamento contra o rei da França não podia, segundo a lei feudal, ocorrer sem o assentimento do rei da
França, suzerano de Gui Dampierre. Filipe, entretanto, não reclamou; declarou hipocritamente que, sendo
padrinho da jovem, ele não poderia deixá-la cruzar o canal sem antes abraçá-la (Oudegherst, ‘Chron. de
Flandres’, c. 130, f. 218. Sism. VIII, 496). Recusar seria declarar a guerra cedo demais. Vir para a
França seria arriscar permanecer em Paris. Gui veio e, de fato, ficou. O pai e a filha foram detidos na
torre do Louvre. Filipe arrebatou de Eduardo seu aliado e sua mulher, como fizera com a Guiana. O
conde, na sequência, escapou, é verdade, mas a jovem morreu, para grande prejuízo de Filipe, que tinha
interesse em guardar tal refém e a quem se acusou da morte da mesma.

Eduardo acreditava ter amotinado todo o mundo contra seu desleal inimigo. O imperador Adolfo
de Nassau, pobre principezinho apesar de seu grande título, teria prazeirosamente guerreado às expensas
de Eduardo, como outrora Otto por João e, como mais tarde, Maximiliano por Henrique VIII, a cem
escudos por dia. Os condes de Savóia, de Auxerre, de Montbeliard, Neuchâtel, aqueles do Hainaut e de
Gueldres, o duque do Brabant, os bispos de Liége e de Utrecht, o arcebispo de Colônia, todos prometiam
atacar Filipe, todos recebiam o dinheiro inglês e todos permaneceram tranquilos, com exceção do conde
de Bar: Eduardo os pagava para agir, Filipe para se repousarem.

A guerra se fazia assim, sem ruído, nem batalha. Era uma luta de corrupção, uma batalha de
dinheiro, onde um aguardava a ruína do outro para ver quem primeiro seria arruinado. Era preciso dar
aos amigos, dar aos inimigos. Débeis e miseráveis eram os recursos dos reis de então para suportar tais
despesas. Eduardo e Filipe, é verdade, expulsaram os judeus e ficaram com seus bens[57]; mas o judeu é
escorregadio, ele não se deixa pegar. Ele se escoava da França e encontrava um jeito de levá-los. O rei
da França, que possuía banqueiros italianos como ministros, foi aconselhado, sem dúvida por eles, a
extorquir os Italianos, os Lombardos que exploravam a França e que eram como uma variedade da
espécie judia. Depois, para mais seguramente pegar todo aquele que comprava e que vendia, o rei tentou,
pela primeira vez, esse triste meio tão empregado no século XIV: a alteração da moeda (Leblanc, ‘Traité
des monnaies’, p. 202). Era um imposto fácil e tácito, uma bancarrota secreta, ao menos nos primeiros
momentos. Mas, logo, todos dela se aproveitavam: todos pagavam suas dívidas com moeda fraca. O rei
aí ganhava menos que a multidão de devedores sem fé. Enfim, recorreu-se a um meio mais direto, o
imposto universal da maltôte (Guill. Nangiac, ann. 1296, p. 51).

Este nome vil, encontrado pelo povo, foi desafiadoramente aceito pelo próprio rei. Era um
último meio, uma invenção pela qual, se restasse ainda alguma substância, algum pouco a sorver do
tutano do povo, podia-se daí sugá-lo[58]. Mas tinha-se dificuldade em apertar e torcer. O paciente estava
tão seco, que a nova máquina não podia espremer quase nada. O rei da Inglaterra também nada conseguia
tirar dos seus: sua angústia o desesperava; num dos seus parlamentos, ele foi visto a chorar.

Entre este rei esfaimado e este povo ético havia, entretanto, alguém rico. Este “alguém” era a
Igreja. Arcebispos e bispos, cônegos e monges, antigos monges de São Bento, monges novos ditos
mendicantes, todos eram ricos e rivalizavam em opulência. Todo este mundo tonsurado crescia com as
bençãos do céu e com a gordura da terra. Era um pequeno povo feliz, obeso e reluzente no meio do
grande povo esfomeado que começava a olhar aquele de través.

Os bispos alemães eram príncipes e recrutavam exércitos. A igreja da Inglaterra possuía, narra-
se, a metade das terras da ilha. Ela tinha, em 1337, setecentos e trinta mil marcos de renda. Hoje, é
verdade, o arcebispo de Canterbury não recebe, por ano, senão hum milhão e duzentos mil francos, e
aquele de York oitocentos mil. Quando a Restauração preparava a expedição da Espanha, em 1822,
soubemos que o arcebispo de Toledo mandava distribuir, todo dia, à porta de suas fazendas e de seus
palácios, dez mil sopas e o de Sevilha seis mil[59].

O confisco da Igreja foi o pensamento dos reis depois do século XIII, a causa principal das suas
lutas contra os papas; toda a diferença foi que os protestantes tomaram, enquanto os católicos se fizeram
dar. Henrique VIII empregou o cisma, Francisco I a Concordata.

Qual deles, então, no século XIV, o rei ou a Igreja, devia doravante explorar a França? essa era
a questão. Já quando Filipe impôs ao povo o terrível imposto da maltôte, quando alterou as moedas,
quando despojou os Lombardos, súditos ou banqueiros da Santa Sé, ele atingiu Roma direta ou
indiretamente; ele a arruinava, ele cortava seus víveres[60].

Bonifácio usou, enfim, de represálias. Em 1296, na sua bula Clericis Laicos[61], ele declara
excomungados de fato todo sacerdote que pagar, todo laico que exigir, subvenção, empréstimo ou doação,
sem a autorização da Santa Sé; e isto sem que qualquer ranque social ou qualquer privilégio pudesse
excepcioná-la. Ele assim anulava um privilégio importante de nossos reis que, totalmente excomungados
que estivessem como reis, podiam sempre, em sua capela, e a portas fechadas, atender à missa e
comungar.

No mesmo momento, sob pretexto da guerra da Inglaterra, Filipe proibia a exportação de ouro,
prata, armas, dinheiro etc. Era esbofetear Roma bem mais que a Inglaterra.

Nada de mais misticamente altivo, de mais paternalmente hostil, que a bula em resposta à
proibição de Filipe: “Na doçura de um inefável amor (Ineffabilis amoris dulcedine sponso suo), a
Igreja, unida ao Cristo, seu esposo, Dele recebeu os dons, as graças mais amplas, especialmente a dádiva
da liberdade. Ele desejou que a adorável esposa reinasse, como mãe, sobre os povos fiéis. Quem, então,
não temerá ofendê-la, provocá-la? Quem não sentirá que ofende o Esposo na pessoa da esposa? Quem
ousará atentar contra as liberdades eclesiásticas, contra seu Deus e seu Senhor? Sob qual escudo ele se
esconderá, para que o martelo do poder do alto não o reduza a pó e a cinza?... Ó, meu filho! Não fecha,
jamais, o ouvido à voz paternal, etc...”.

Ele, em seguida, incentiva o rei a bem examinar sua situação: “Tu não consideraste com
prudência as regiões e os reinos que circundam o teu, as vontades daqueles que os governam, nem, talvez,
os sentimentos dos teus súditos nas diversas partes dos teus estados. Ergue os olhos à tua volta, e vê, e
reflete. Considera que os reinos dos Romanos, dos Ingleses, da Espanha, te circundam de todos os lados;
considera o poder dos mesmos, sua bravura, a quantidade de seus habitantes, e tu claramente
reconhecerás que não era o tempo, que não era o dia de atacar, de ofender à nós e à Igreja por meio de
tais estocadas... Julga tu próprio quais devem ser as considerações da sé apostólica quando, nestes dias
mesmo em que estávamos ocupados do exame e da discussão dos milagres que são atribuídos a teu avô
de gloriosa memória, tu nos enviaste tais dádivas que provocam a cólera de Deus e merecem, não digo
apenas a nossa indignação, mas a da própria Igreja...”

“Em qual tempo teus ancestrais, e mesmo tu, recorrestes à ajuda desta Sé, sem que vossa petição
não houvesse sido ouvida? E se uma grave necessidade novamente ameaçasse teu reino, não somente a
Santa Sé te acordaria as subvenções dos prelados e das pessoas eclesiásticas mas, se o caso o exigisse,
te estenderia as mãos até aos cálices, até às cruzes e aos vasos sacros, ao invés de não defender
eficazmente um tal reino, que é tão caro à Santa Sé e que a esta foi, por muito tempo, devotado... Nós
então exortamos tua Serenidade Real, a rogamos e a engajamos a receber com respeito os remédios que
uma mão paternal te oferece, a aquiescer com os conselhos salutares para ti e para teu reino, a corrigir
teus erros, e a não deixar, de forma alguma, tua alma ser seduzida por um falso contágio. Conserva nossa
benquerença e aquela da Santa Sé, conserva um bom renome entre os homens, e não nos force a recorrer
a outros remédios, a remédios inusitados; mesmo quando a justiça a isso nos forçasse e nos fosse um
dever, nós não os ministraríamos senão com lamento e apesar de nós” (Dupuy, ‘Différ.’, p. 17-19).

Essas graves palavras, que misturam suavidade e ameaças, deviam causar impressão. Nenhum
pontífice jamais fora, até aí, mais parcial para nossos reis que Bonifácio. A Casa da França o fizera
Papa, é verdade; mas, em retorno, ele a fazia rainha, tanto quanto estivesse nele fazê-la. Ele chamara para
a Itália Carlos de Valois e, enquanto aguardava o advento do império latino de Constantinopla, ele o
criara Conde da Romagna, capitão do patrimônio de São Pedro, senhor da Marche de Ancona. Ele obteve
para os príncipes franceses o trono da Hungria; ele fez o que pôde para levá-los ao trono imperial e ao
de Castela. Em 1298, escolhido por árbitro entre os reis da França e da Inglaterra, ele tentou reaproximá-
los por casamentos e, por uma sentença provisória, adiou as restituições que Filipe devia ao Inglês.

O Papado, todo caduco que já fosse, ainda aparecia como árbitro do mundo. Bonifácio VIII fora
chamado para julgar entre a França e a Inglaterra, entre a Inglaterra e a Escócia, entre Nápoles e Aragão,
entre os imperadores Adolfo de Nassau e Alberto d’Áustria. Não era isso o suficiente para o Papa se
iludir a respeito de sua verdadeira força?

A enfatuação foi ao cúmulo quando, no ano de 1300, Bonifácio prometeu remissão dos pecados
a todos aqueles que viessem visitar, durante trinta dias, as igrejas dos Santos Apóstolos. Esse Jubileu
lembrava, de uma só vez, aquele dos Judeus e as festas seculares da Roma pagã. Sabe-se que o Jubileu
Moisaico, ocorrendo a cada cinquenta anos, devia levar a liberdade aos escravos, as terras alienadas ao
seu primeiro possuidor; ele, o Jubileu, devia anular a história e desfazer o tempo, por assim dizer, em
nome do só Eterno. A antiga Roma, sob um outro ponto de vista diferente, tomou emprestada dos Etruscos
a doutrina das Eras (‘Hist. Rom.’, I, 73, t.); mas não era para reconhecer a mobilidade desse mundo, a
mortalidade dos impérios. Roma se acreditava Deus, ela se julgava imortal e invencível e, no início de
cada século, solenizava sua eternidade.

No ano 1300, a fé ainda era grande. A turba foi prodigiosa em Roma[62]. Contava-se os
peregrinos por centenas de milhares e, logo, não havia mais como contar. Nem as casas, nem as igrejas,
foram suficientes para recebê-los; eles acamparam pelas ruas e praças, sob abrigos construídos às
pressas, sob telhados, sob tendas e sob a abóbada do céu. Poder-se-ia afirmar que o tempo, tendo
terminado, o gênero humano vinha perante seu Juiz no vale de Josafá.

Para que se possa avaliar o efeito desse prodigioso espetáculo, é preciso ver ainda Roma, toda
caída que é, é preciso vê-la durante a Semana Santa e na gloriosa festa de Páscoa. Quase se esquece,
nesses grandes dias, que essa é a triste Roma, a viúva de duas antiguidades.

Qualquer que tenha sido o motivo de Bonifácio VIII, fiscal ou político, eu não o quero mal por
esta bela invenção do Jubileu. Estou certo que milhares de homens devem ter-lhe agradecido de coração.
Quem não gostaria de poder, desta forma, colocar uma pedra sobre o caminho do tempo, encontrar um
ponto de parada em sua vida, entre os arrependimentos do passado e as esperanças de um futuro melhor
ou menos lamentável? Quem não gostaria de, por um momento, subindo por esta brutal escarpa, frear-se
um tempo e tomar um pouco de fôlego ao meio-dia, nel mezzo cammin di nostra vita[63]? Todos nós
temos grande necessidade de um repouso a meio caminho, precisamos todos de uma estação, de um
jubileu.

E por que deveríamos zombar dessas eras cândidas que acreditavam que se podia fugir do mal
mudando-se de lugar, viajar do pecado à santidade, deixar o diabo com a túnica que despimos para
tomarmos aquela do peregrino? E, então, não é alguma coisa poder escapar às influências dos lugares,
dos hábitos, de se apatriar, de se orientar para uma nova vida? Acaso não existe um poder maligno de
enfatuação e cegueira nesses lugares onde o coração se prende, sejam eles a Charmettes de Jean-Jacques,
ou a Pinada de Byron, ou este lago de Aachen no qual, segundo a tradição, Carlos Magno foi enfeitiçado?
[64]

Não nos espantemos se nossos avós tanto amaram as peregrinações, se atribuíram à visita de
santuários longínquos uma virtude de regeneração. “O ancião, todo branco e encanecido, se separa dos
lugares onde seguiu sua estrada e de sua família alarmada, que se vê privada de um pai querido. – Velho,
fraco e sem fôlego, ele se arrasta como pode, ajudado por sua boa-vontade, ainda que esteja
completamente alquebrado pelos anos, pela fadiga do caminho. – Ele vem à Roma para aí ver o
semblante Daquele que, lá do alto, ele muito aguarda rever no céu...” (Petrarca, sonn. 14).

Mas há os que não chegam, que ficam pelo caminho... A maioria dos nossos leitores aqui se
lembra do pequeno quadro de Robert, a peregrina romana sentada na campanha árida: ela nem vê seus
pés ensanguentados, nem seu rebento sobre seus joelhos, sedento e ofegante, enquanto mira a colina
abençoada que plana no horizonte distante: Monte di joia!...

E quando o fim da viagem é Roma, então! Quando, na renovação do século, no momento solene
em que soa uma hora da vida do mundo, alcançamos a grande cidade e que vemos esses monumentos,
essas velhas tumbas que, até então, delas somente se ouvira falar e celebrar, quando as vemos e as
tocamos, e que nos encontramos contemporâneos de todos os séculos, e dos cônsules e dos mártires,
vamos de estação em estação, do Coliseu ao Capitólio, do Panteão a São Pedro e, após termos revivido
toda a história, após termos visto toda morte e toda ruína, partimos em marcha de volta à pátria, de volta
ao túmulo natal, mas com menos arrependimentos e previamente consolados para morrer.

A Igreja, como esses milhares de homens que vinham visitá-la, encontrou neste Jubileu do ano
1300 o ponto sublime e culminante de sua vida histórica. A queda começou a partir daí. Nesta multidão
encontrava-se os homens temíveis que iriam abrir um mundo novo. Uns, frios e impiedosos políticos,
como o historiador Giovanni Villani; outros, tristonhos e soberbos, como Dante, que também estava
prestes a fazer seu próprio Jubileu: o Papa chamara a Roma todos os vivos; o poeta convocou, em sua
Commedia, todos os mortos, fez a revista do mundo findo, o separou e o julgou; a Idade Média, assim
como a antiguidade, compareceu à sua frente e nada lhe foi escondido. A palavra do santuário foi dita e
profanada. O selo foi arrebatado, quebrado: jamais foi novamente encontrado. A Idade Média vivera; a
vida é um mistério que perece assim que consegue se revelar. A revelação foi a Divina Commedia, a
catedral de Colônia, as pinturas do Campo Santo de Pisa. A arte vem, assim, terminar, fechar uma
civilização, coroá-la, enterrá-la gloriosamente no túmulo.

Não acusemos o Papa, este octogenário, velho advogado nutrido nas artimanhas e nas mais
prosaicas intrigas[65], por ter se deixado vencer pela grandeza da poesia desse momento, quando viu o
gênero humano reunido em Roma e de joelhos perante si... Há, além disso, um sombrio poder de vertigem
nesta cidade trágica. Os soberanos de Roma, seus Imperadores, frequentemente pareciam loucos. E,
mesmo no século XIV, Cola de Rienzo, o filho de uma lavadeira, tornando-se tribuno de Roma, não
girava sua espada para a três partes do globo senão dizendo: “Aqui e ali, também acolá, pertencem a
mim”[66].

Por mais forte razão, o Papa se achava o senhor do mundo. Quando Alberto d’Áustria se fez
Imperador pela morte de Adolfo de Nassau, Bonifácio, indignado, pôs a coroa sobre sua própria cabeça,
pegou uma espada e exclamou: “Sou eu quem é César, sou eu quem é o Imperador, sou eu quem
defenderei os direitos do Império”. No Jubileu de 1300, ele se mostrou a toda essa multidão de todas as
nações com as insígnias imperiais: ele mandou levarem à sua frente uma espada e o cetro sob o globo do
mundo, enquanto um arauto bradava: “Aqui há duas espadas: Pedro, tu vês aqui teu sucessor; e vós, ó
Cristo! olhai vosso vigário!”. Ele assim explicava as duas espadas que estavam no lugar onde Jesus
Cristo participou da Ceia com seus apóstolos.

Essa jactância pontifícia devia perpetuar a guerra dos dois poderes, eclesiástico e civil. A luta,
que parecia terminada com a Casa da Suábia, foi retomada por aquela da França. Guerra de idéias, não
de pessoas, de necessidade, não de vontade. O piedoso Luís IX a inicia, o sacrílego Filipe IV a continua.

“Reconhecer dois poderes e dois princípios”, diz Bonifácio na sua magnífica bula Unam
sanctam, “é ser herético e maniqueísta”. Mas o mundo nasceu maniqueísta e como tal morrerá; ele
sempre sentirá em si a luta dos dois princípios. Nós mui desejaríamos não acreditar nesta dualidade, mas
a encontramos em qualquer lugar, inclusive em nós mesmos... O que procuras tu? a paz. É sempre a
mesma palavra no mundo desde que, há seis ou oito mil anos, existe um mundo. Mas o homem é e sempre
será dúplice: ele sempre terá em si o Papa e o Imperador[67].

A paz! Ela está na harmonia, sem dúvida; mas, de época em época, ela foi procurada na unidade.
A partir do segundo século, Santo Ireneu escreveu, contra os Gnósticos, seu livro “Da unidade do
princípio do mundo”: De Monarchiâ. É também o título do livro de Dante: De Monarchiâ: Da unidade
do mundo social[68].

O livro de Dante é bizarro. Sua fórmula é a paz. Como condição do desenvolvimento, a paz sob
um monarca único. Este monarca, tudo possuindo, nada poderá desejar e, portanto, é impecável. O que
causa o mal é a concupiscência; onde não houver limite, o que desejar? qual concupiscência poderá daí
nascer?[69] Tal é a argumentação de Dante. Resta a provar que este ideal possa ser real, que este real
seja o povo romano, que, enfim, o povo romano[70] tenha transmitido sua soberania ao imperador da
Alemanha.

Este livro é um belo epitáfio gibelino para o Império Alemão, e este, em 1300, não é mais
exclusivamente a Alemanha mas, doravante, todo império, toda realeza; é o poder civil em qualquer
região, sobretudo na França. Os dois adversários agora são a Igreja e a filha primogênita da Igreja. Dos
dois lados, pretensões sem limites, dois infinitos que se encaram. O rei, se não for o único rei, é, ao
menos, o maior rei do mundo; desde São Luís, ele é o mais reverenciado. Filho primogênito da Igreja, ele
deseja ser mais velho que sua mãe: “Antes que houvesse clérigos”, diz, “o rei tinha a guarda do reino da
França”[71].

A briga já havia se iniciado à ocasião dos bens da Igreja. Mas havia outros motivos de irritação.
Bonifácio decidira entre Filipe e Eduardo, não como amigo e pessoa privada, mas como Papa. O conde
do Artois, indignado da parcialidade do pontífice pelos Flamengos, arrancou a bula papal das mãos do
legado e a jogou no fogo. Em represália, Bonifácio favoreceu Alberto d’Áustria contra Carlos de Valois,
que tinha pretensões em relação à coroa imperial. De seu lado, Filipe pôs a mão sobre os regalos de
Laon, de Poitiers e de Reims. Ele acolhia os inimigos mortais de Bonifácio, os Colonna, esses bravos
Gibelinos, esses chefes dos bandidos romanos contra os Papas.

A explosão teve lugar a respeito de um bem mal adquirido que, há um século, era objeto de
disputa entre o Papa e o rei. Eu falo desse despojo ensangüentado do Languedoc. Bonifácio VIII pagou
por Inocente III. A homenagem feudal de Narbonne, feita diretamente ao rei pelo visconde, era vivamente
reclamada pelo arcebispo (1300). O arcebispo quis chegar a bons termos com o rei, mas o Papa o
ameaçou de excomunhão se ele tratasse sem a permissão da Santa Sé. Ele citou o homem do rei perante a
corte papal e, mais, ameaçou Filipe se este não desistisse do condado de Melgueil, no qual os oficiais do
rei espoliavam a igreja de Maguelone (Dupuy, ‘Différ.’, p. 9).

Não foi tudo: o Papa, apesar de Filipe, criara, neste perigoso Languedoc, às portas do conde de
Foix e do rei de Aragão, um novo bispado tirado da diocese de Toulouse, o bispado de Pamiers. Ele
nomeara bispo um homem seu, Bernard de Saisset. Foi justamente esse Saisset quem o Papa enviou ao rei
para lembrá-lo de sua promessa de partir em cruzada, bem assim para intimá-lo a devolver à liberdade o
conde de Flandres e sua filha. Tais palavras não se diziam impunemente a Filipe o Belo.

Este Saisset, que falava tão ousadamente, já tivera sido apontado ao rei, pelo bispo de Toulouse,
como o autor de um vasto complô que tiraria todo o Midi dos Franceses. Saisset pertencia à família dos
antigos viscondes de Toulouse[72]. Ele era o amigo de todos os homens distintos, de toda a nobreza
municipal desta grande cidade[73]. Ele sonhava com a fundação de um reino do Languedoc[74] em
benefício do conde de Foix ou do conde de Comminges, que descendia dos Raimundos de Toulouse, tão
lamentados por seus antigos súditos[75].

Esses grandes senhores do Midi não tinham nem as forças, nem o amor do país, nem a altiva
coragem que uma tal empreitada demandava. O conde de Comminges persignou-se ao ouvir propostas tão
ousadas: “Este Saisset é antes um diabo que um homem”, ele disse[76]. O conde de Foix encenou um
papel mais odioso. Ele recebeu as confidência de Saisset para transmiti-las ao rei pelo bispo de
Toulouse[77]. Soube-se por ele que Saisset se encarregara de pedir para o filho do conde de Foix a filha
do rei de Aragão, o qual, dizia ele, era seu amigo (ibidem, primeira testemunha, p. 634). Ele também
dissera: “Os Franceses jamais farão bem mas, antes, muito mal ao país” (ibid., p. 645). Ele não desejava
terminar, com o conde de Foix, as disputas de seu bispado, a menos que este senhor se acordasse com os
condes de Armagnac e de Comminges e, assim, reunisse toda a região sob sua influência.

Atribuía-se a Saisset várias palavras picantes contra o rei: “Vosso rei da França”, ele dizia, “é
um falsificador de moedas. Seu dinheiro nada é senão excremento... Este Filipe o Belo não é nem homem,
nem mesmo um animal: é uma imagem e nada mais (Ibid., 22ª testemunha, p. 648 e 23ª, p. 649)... Os
pássaros, conta a fábula, tomaram o duque por rei, grande e belo pássaro, é verdade, mas o mais vil de
todos. A pega veio um dia se queixar ao rei do gavião e o rei nada respondeu (nisi quod flavit). Eis
vosso rei da França: é o mais belo homem que se pode ver, mas ele não sabe senão olhar as
pessoas[78]... O mundo, hoje, está como morto e destruído por causa da malícia dessa corte (ibid., 22ª
testemunha, p. 648)... Mas São Luís me disse, mais de uma vez, que a monarquia da França pereceria
naquele que fosse o décimo rei a partir de Hugo Capeto (ibid., p. 633 e 21ª testemunha, p. 648. Vide
também p. 651).

Dois comissários de Filipe, um laico e um padre, vindo ao Languedoc para iniciar uma instrução
contra Saisset, este compreendeu seu perigo e desejou se salvar em Roma. Mas os homens do rei não lhe
deram tempo, prendendo-o à noite em sua cama, e o carregaram para Paris com seus servidores, os quais
foram postos sob tortura. Ao mesmo tempo, o rei escreveu ao Papa, não para se justificar por ter violado
os privilégios da Igreja, mas para requerer a degradação do bispo antes de matá-lo. A carta do rei respira
uma estranha sede de sangue: “O rei requer ao soberano pontífice ministrar tal remédio, exercer seu
devido ofício, de tal sorte que este homem de morte (dictus vir mortis), cuja vida emporcalha inclusive o
lugar em que mora, que o prive de toda ordem, o despoje de todo privilégio clerical, e que o senhor rei
possa, deste traidor de Deus e dos homens, deste homem afundado na profundidade do mal, endurecido e
sem esperança de correção, que o rei possa, pela via da justiça, fazer um excelente sacrifício a Deus. Ele
é tão perverso, que todos os elementos devem-lhe faltar na morte, pois que ele ofende a Deus e a todas as
criaturas”[79].

O Papa reclamou o bispo de volta, declarou suspenso o privilégio que os reis da França tinham
de não serem excomungados e convocou o clero da França a Roma para o 1º de novembro do ano
seguinte. Enfim, dirigiu ao rei a bula Ausculta fili (NT: “Escuta, filho”): “Escuta, meu filho, os conselhos
de um pai terno”. O Papa começava por essas palavras irritantes, das quais seus adversários souberam
muito bem se aproveitar: “Deus nos constituiu, ainda que indignos, acima dos reis e dos reinos, impondo-
nos o jugo da servidão apostólica para arrancar, destruir, dispersar, dissipar e para edificar e plantar, sob
Seu nome e por Sua doutrina...” (‘Preuves du différend’, p. 48-52). De resto, a bula era, sob forma
paternal, uma recapitualação de todos as razões do Papa e da Igreja.

O chanceler Pierre Flotte se encarregou de levar a resposta ao Papa, segundo a qual o rei não
soltaria seu prisioneiro, que o enviaria apenas à guarda do arcebispo de Narbonne, que o ouro e o
dinheiro não mais sairiam da França e que os prelados não iriam, de forma alguma, a Roma. Foi um rude
insulto para o Papa, ainda triunfante de seu Jubileu, quando este pequeno advogado zarolho[80] veio
falar-lhe tão livremente. A altercação foi violenta. O Papa o olhou do alto: “Meu poder”, ele disse,
“encerra os dois”. Pierre Flotte respondeu por meio de um ácido distinguo: “Sim, mas vosso poder é
verbal, o do rei é real” (Dupuy, ‘Hist. du Différ.’, p. 11). O gascão Nogaret, que viera com Pierre Flotte,
não pôde se conter e falou, com a violência e o ímpeto meridional, sobre a própria conduta do Papa
(Ibidem). Eles assim saíram de Roma, enraivecidos em seu ódio de advogados contra os padres, tendo
ultrajado o Papa e seguros de morrer se não se prevenissem.

Para sublevar todo mundo contra Bonifácio, era necessário tirar algumas proposições bem
claras e bem chocantes da açucarada tagarelice onde a corte de Roma adorava afogar sua intenção. Eles,
então, entre si combinaram fabricar uma brutal pequena bula onde o Papa cruamente expressasse todas as
suas pretensões. Ao mesmo tempo, faziam correr uma falsa resposta à falsa bula, onde o rei falva ao Papa
com uma violência e uma grosseria populista. Esta resposta, bem entendido, não estava destinada a ser
enviada, mas devia ter dois efeitos: primeiro, ela degradava o poder sacrossanto contra o qual lançava-
se impunemente esta lama. Depois, ela indicava que o rei se sentia forte, o que é, de fato, o meio de sê-
lo.

“Bonifácio, bispo, servo dos servos de Deus, a Filipe, rei dos Francos: teme Deus e observa
Seus comandos. Nós queremos que saibas que tu nos é submisso no temporal, como no espiritual; que a
colação dos benefícios e das prebendas não pertence, de forma alguma, a ti; que, se tens a guarda dos
benefícios vacantes, é para seus frutos reservá-los aos sucessores. Que, se tu conferiste algum deles a
alguém, nós declaramos inválida esta colação e, se ela tiver sido executada, nós a revogamos, declarando
heréticos todos aqueles que pensam de outra maneira. Dado em Latrão, nas nonas de dezembro, no ano
VII de nosso pontificado”. É a data da bula Ausculta fili (Dupuy, ‘Preuves’, p. 44).
“Filipe, pela graça de Deus, rei dos Franceses, a Bonifácio, que se dá por Papa, pouca ou
nenhuma saudação. Que tua mui grande fatuidade saiba que não estamos submetidos a ninguém no
temporal; que a colação das igrejas e das prebendas vacantes nos pertence pelo direito real; que seus
frutos são a nós; que as colações, feitas e a fazer por nós, são válidas para o passado e para o porvir; que
manteremos a posse delas de todo nosso poder, e que temos por loucos e insensatos aqueles que
acreditarem de outra forma”.

Essas estranhas palavras, que teriam, um século antes, armado todo o reino contra o rei, foram
bem recebidas pela nobreza e pelo povo das cidades. Deu-se, então, um passo a mais: comprometeu-se a
nobreza contra o Papa. No dia 11 de fevereiro de 1302, na presença do rei e de uma multidão de senhores
e de cavaleiros, entre o povo de Paris, a pequena bula foi queimada e esta execução foi, na sequência,
alardeada ao som de trompas por toda a cidade[81]. Ainda faltam duzentos anos para que um monge
alemão venha a fazer, com sua autoridade privada, aquilo que Pierre Flotte e Nogaret agora fazem em
nome do rei da França.

Mas era necessário engajar todo o reino na querela. Fez-se, então, algo inusitado. O Papa
convocara os prelados a Roma para o 1º de novembro; o rei convocou os Estados para o 10 de abril; não
apenas os estados do clero e da nobreza, não mais os estados do sul, como São Luís reunira, mas o
estados do sul e do norte, os estados das três ordens, clero, nobreza e burguesia das cidades. Esses
Estados-Gerais de Filipe o Belo são a era nacional da França, sua certidão de nascimento. E ela foi,
assim, batizada na basílica de Notre-Dame, onde se reuniram esses primeiros Estados. Tal como a Santa
Sé, nos tempos de Gregório VII e de Alexandre III, se apoiara no povo, o inimigo da Santa Sé agora
chama o povo para si. Esses burgueses, prefeitos, administradores e magistrados municipais, cônsules
das cidades, sob qualquer forma humilde e servil que tenham vindo, de início, repetir as palavras do rei e
dos nobres, são, todavia, a primeira aparição do povo.

Pierre Flotte abriu os Estados (10 de abril de 1302) de uma forma hábil e ousada. Ele atacou as
primeiras palavras da bula Ausculta fili: “Deus nos constituiu acima dos reis e dos reinos...”. Depois, ele
perguntou se os Franceses podiam, sem covardia, se submeter a que seu reino, sempre livre e
independente, fosse assim colocado na vassalagem do Papa. Era confundir, engenhosamente, a
dependência política, tocar a fibra feudal, despertar o desprezo do homem de armas contra o sacerdote.
O fervente conde do Artois, que já antes, das mãos do legado papal, arrancara e rasgara a bula Ausculta,
tomou a palavra e disse que, se conviesse ao rei tolerar ou calar-se com as iniciativas do Papa, os
senhores não o fariam (Dupuy, ‘Hist. du Diff.’, p. 12). Essa bajulação brutal, sob forma de liberdade e de
ousadia, foi aplaudida pelos nobres. Ao mesmo tempo, fez-se com que assinassem e selassem uma carta
em língua vulgar, não ao Papa, mas aos cardeais. A carta, por certo, fora previamente escrita pelos
cuidados do chanceler, pois era datada de 10 de abril, o mesmo dia em que os Estados foram reunidos.
Nesta longa epístola, os senhores, após terem desejado aos cardeais “contínuo crescimento da caridade,
do amor e de todas as boas venturas que fossem de seu desejo”, declararam que, quanto aos males que
“aquele que, no presente, está no trono do governo da Igreja”, diz terem sido cometidos pelo rei, eles não
desejam, “nem eles, nem as universidades, nem o povo do reino, receberem nem correção, nem pena, por
outro foro que não seja o do nosso mencionado Sire, o Rei”. Eles acusam “aquele que, no presente, está
no trono do governo da Igreja” de extrair muito dinheiro da conferência e colação dos arcebispos, bispos
e outros benefíciários, com o que os próprios povos, que lhes são submissos, são gravados e extorquidos;
e nem os prelados podem dar seus benefícios aos nobres clérigos e a outros bem-nascidos e bem
instruídos de suas dioceses, por cujos antecessores as igrejas foram fundadas (idem, ‘Preuves’, p. 60-
62). Os senhores, certamente com toda a alegria de seus corações, assinaram essa última expressão, onde
o hábil redator insinuava que os benefícios, fundados em sua maioria por seus ancestrais, deviam ser
dados a seus caçulas (cadetes) ou às suas criaturas, assim como se fazia na Inglaterra, sobretudo depois
da Reforma. Era anexar à derrota do Papa a devolução de bens imensos dos quais os senhores, nas eras
de fervor religioso, se despojaram em favor da Igreja[82].

A carta dos burgueses foi calcada na dos nobres, se julgarmos pela resposta dos cardeais. Mas
ela não nos foi conservada, seja porque não foi digna de ser levada em conta, seja porque temeu-se que a
última das três ordens pudesse, mais tarde, tirar vantagem da linguagem ousada que se lhe permitiu usar
nesta ocasião.

A carta dos membros do clero é, bem ao contrário, moderada e suave. De início, ela é dirigida
ao Papa: Sanctissimo patri ac domino suo carissimo (NT: Santíssimo padre e senhor dos seus
caríssimos). Eles expõem as razões do rei e reclamam sua independência quanto ao temporal. Eles
alegam que fizeram tudo o que puderam para suavizá-lo e que suplicaram-lhe permitir que fossem
lançados aos pés da beatitude apostólica. Mas que a resposta vinda do rei e dos barões era a de que não
lhes seria permitido sair do reino. Eles diziam estar vinculados ao rei por seu juramento de fidelidade à
conservação de sua pessoa, de suas honras e liberdades, àquela dos direitos do reino, “sobretudo porque
vários de nós possuímos ducados, condados, baronias e outros feudos no dito Reino”[83]. Enfim, nesta
necessidade extrema, eles recorreram à providência de Sua Santidade, “com palavras repletas de
lágrimas e de soluços cheios de choro, implorando sua clemência paternal, etc.[84]

Esta última carta, tão diferente da outra, contém, entretanto, o grande motivo da nobreza: “Os
prelados não tem mais o quê dar, nem mesmo o quê devolver, aos nobres, cujos ancestrais fundaram as
igrejas”[85].

Enquanto a luta assim se encaminhava contra o Papa, uma grande e terrível notícia complicou o
embaraço. Os Estados haviam se reunido no dia 10 de abril. Mas, no dia 21 de março, o massacre das
Vésperas Sicilianas fora renovado em Bruges. Quatro mil Franceses foram degolados nesta cidade.

A nobreza estava reunida nos Estados. Bastava apenas fazê-la cavalgar na direção de Flandres,
completamente animada da cólera com a qual já se encontrava, toda inchada de orgulho feudal, e de
fazer-lhe ganhar uma batalha sobre os Flamengos que também fosse uma vitória sobre o Papa. Pierre
Flotte, tão envolvido nesta causa, não podia perder o rei de vista. Tão chanceler e homem de toga longa
que fosse, ainda assim montou a cavalo na companhia dos homens de armas.

Os Flamengos, que tinham chamado os Franceses, foram cruelmente punidos. A malquerença


mútua desabrochara desde o primeiro dia. Eduardo (rei da Inglaterra), tendo abandonado o conde às suas
próprias forças para fazer frente à William Wallace, os Franceses o empurraram de praça em praça e o
persuadiram a entregar-se a Filipe, que o trataria bem. O bom tratamento, no entanto, foi o de ingressar na
prisão do Louvre, onde já sua filha fora morta.

O rei dos Franceses não tinha nada mais a fazer senão tranquilamente tomar posse de Flandres.
Ele mesmo sequer suspeitava da importância de sua conquista. Quando ele trouxe a rainha consigo para
ver essas ricas e famosas cidades de Gant (Gand, Gent) e de Bruges, eles ficaram ofuscados, espantados,
mesmerizados. Os Flamengos foram à frente, em número grandioso, curiosos de ver um rei. Eles vieram
bem vestidos[86], grandes e gordos, carregados de pesadas correntes de ouro, acreditando prestar honras
e agradar ao seu novo senhor. Foi tudo ao contrário: a rainha não os perdoou por serem tão corajosos, às
mulheres menos ainda: “Aqui”, ela disse com desprezo, “não percebo senão rainhas”[87].
O governador real Châtillon cuidou de curá-los deste orgulho, desta riqueza insolente. Ele
negou-lhes suas eleições municipais e retirou-lhes a direção de seus próprios negócios: era o mesmo que
colocar os ricos contra si. Depois, ele golpeou os pobres, fazendo incidir um imposto de um quarto sobre
o salário quotidiano do trabalhador. O Francês, acostumado a vexar nossas pequenas comunas, não sabia
qual risco havia em colocar em movimento esses prodigiosos formigueiros, esses formidáveis zangões de
Flandres. O leão coroado de Gant, que dorme aos joelhos da Virgem, dormia mal e despertava com
frequência[88]. O sino de Rolando soava para o motim mais frequentemente que para o fogo. – Roland!
Roland! tintement, c’est incendie! volée, c’est soulèvement! (NT: Rolando! Rolando! tinido, é incêndio!
repicado, é sublevação)[89].

Não era difícil prever: o povo começava a falar baixo, a se reunir ao cair do dia[90]. Não havia
vinte anos que as Vésperas Sicilianas tinham ocorrido.

De início, trinta mestres de ofícios vieram se queixar, em Châtillon, que as obras ordenadas pelo
rei não estavam sendo pagas (Villani, l. VIII, c. 54, p. 82). O grande senhor, habituado aos direitos de
corvéia e de provisão, achou a reclamação insolente e os mandou prender. O povo em armas os libertou
e, para grande temor dos ricos que se declararam a favor da gente do rei, matou alguns homens. A questão
foi levada ao Parlamento: eis o parlamento de Paris que julga Flandres, como mui recentemente julgara o
rei da Inglaterra.

O parlamento decidiu que os mestres de ofícios deviam retornar à prisão. Entre os chefes
encontravam-se dois homens amados pelo povo: o deão dos açougueiros e aquele dos tecelões. Este
último, Peter Kœnig (Pedro o Rei) era um homem pobre e de péssima aparência, pequeno e zarolho, mas
um homem líder, um rude orador das ruas[91]. Ele arrastou o povo dos ofícios para fora de Bruges, fê-
los massacrar os Franceses nas cidades e castelos vizinhos. Então, à noite, retornaram para suas casas.
Correntes foram estendidas para impedir os Franceses de correrem a cidade; cada burguês encarregou-se
de furtar ao cavaleiro alojado em sua casa sua sela e suas rédeas. No dia 21 de março de 1302, toda a
gente do povo pôs-se a bater em seus caldeirões[92]; um açougueiro foi o primeiro a dar o golpe, os
Franceses foram, em todo lugar, atacados e massacrados. As mulheres eram as mais furiosas a lançá-los
pelas janelas; ou, então, eram conduzidos aos mercados, onde eram degolados. O massacre durou três
dias: mil e duzentos cavaleiros e dois mil sargentos a pé aí pereceram.

Após isso, era obrigatório vencer. O povo de Bruges marchou a princípio sobre a cidade de
Gant, na esperança que esta grande cidade se unisse a eles. Mas os Gantenses foram retidos pelos
grandes industriais[93], talvez, também, pela inveja de Gant contra Bruges. Os Brugenses não tiveram
por si senão os de sua própria terra e os de Ypres, Écluse, Newport, Berghes, Furnes e Gravelines, que
os seguiram voluntariamente ou por força. Eles puseram à testa de suas milícias um filho do conde de
Flandres; e um de seus netos, que era clérigo, desfez-se do hábito para bater-se com eles (Sism. IX, 96,
G. Villani, l. VIII, c. 55, p. 384).

Eles estavam em Courtrai, quando o exército francês veio acampar defronte. Esses artesãos, que
jamais haviam combatido em campo aberto, teriam, talvez, recuado com prazer. Mas a retirada era muito
perigosa numa grande planície e perante toda esta cavalaria. Eles então aguardaram corajosamente. Cada
homem pousara à sua frente, à terra, seu guttentag ou estaca ferrada. Sua divisa era bela: Scilt und
vriendt, “meu amigo e meu escudo”. Eles desejaram comungar juntos e mandaram dizer a missa. Mas
como não podiam todos receber a eucaristia, cada homem se abaixou, pegou um pouco de terra e a
colocou na boca[94]. Os poucos cavaleiros mandaram seus cavalos de volta e, ao mesmo tempo em que
assim se faziam infantes, eles tornaram cavaleiros os chefes dos ofícios. Todos sabiam que não havia
graça a esperar. Repetia-se que o governador Châtillon chegava com tonéis cheios de cordas para
estrangulá-los[95]. Dizia-se que a rainha recomendara aos Franceses que, quando matassem os porcos
flamengos, não poupassem as leitoas flamengas[96].

O condestável Raul de Nesle propunha contornar os Flamengos e isolá-los de Courtrai. Mas o


primo do rei, Roberto do Artois, que comandava o exército, disse-lhe brutalmente: “Tendes vós medo
desses coelhos ou tendes vós o pêlo deles?”. O condestával, que desposara uma filha do conde de
Flandres, sentiu o ultraje e orgulhosamente respondeu: “Sire, se vierdes para onde irei, ireis muito
depois!”. Ao mesmo tempo, ele se lançou às cegas à testa dos cavaleiros no meio de uma nuvem de
poeira de julho (11 de julho de 1302). Todos, esforçando-se em segui-lo e temendo ficar na retaguarda,
os últimos empurravam os primeiros que, por sua vez, ao se aproximarem dos Flamengos, encontraram o
que normalmente se encontra em qualquer canto desta região cortada por valas e canais: uma vala de
cinco braças de largura[97]. Os cavaleiros aí caíram, aí se amontoaram e, sendo a vala em forma de
meia-lua, não havia meio de escaparem pelos lados. Toda a cavalaria da França veio nela se enterrar:
Artois, Châtillon, Nesle, Brabant, Eu, Aumale, Dammartin, Dreux, Soissons, Tancarville, Viena, Melun,
um grande número de outros senhores e, também, o chanceler Pierre Flotte que, indubitavelmente, não
esperava perecer em tão gloriosa companhia.

Os Flamengos matavam como queriam esses cavaleiros atirados da sela; eles calmamente os
escolhiam na vala. Quando as couraças resistiam, eles as abalavam com malhos de chumbo ou ferro[98].
Eles tinham entre si um bom número de monges operários (Meyer, 77) que se encarregaram, em boa
consciência, deste fardo sangrento. Apenas um só desses monges pretendia ter esmagado quarenta
cavaleiros e 1400 infantes[99]; evidentemente, o monge se vangloriava. Quatro mil esporas douradas (um
outro diz setecentas) foram dependuradas na catedral de Courtrai. Triste despojo que levou desgraça à
cidade: oitenta anos depois, Carlos VI viu as esporas e mandou massacrar todos os habitantes.

Esta terrível derrota, que exterminara toda a vanguarda do exército da França, quer dizer, a
maioria dos grandes senhores, esta batalha que abria tantas sucessões, que fazia cair tantos feudos para
menores sob a tutela do rei, enfraqueceu sem dúvida, por um breve momento, seu poder militar, mas nada
retirou de seu vigor contra o Papa. Em um sentido, a realeza estava até mais fortificada: quem sabe se o
Papa não teria encontrado uma maneira de virar contra o rei alguns desses grandes feudatários que
haviam firmado, é verdade, a famosa carta, mas que, retornando da guerra de Flandres, voltando ricos e
vencedores, teriam menos a temer do monarca?

O Papa renunciava em confundir os dois poderes, como, até então, parecia fazê-lo. Mas, quando
se tomou conhecimento, em Roma, da derrota de Filipe em Courtrai, a corte pontifícia mudou de
linguagem: um cardeal escreveu ao duque da Borgonha que o rei estava excomungado por ter proibido os
prelados de irem a Roma, que o Papa não podia escrever a um excomungado, que era necessário, antes
de tudo, que o rei fizesse penitência. Neste ínterim, entretanto, os prelados, aderindo ao Papa pela
derrota do rei, partiram para Roma ao número de quarenta e cinco. Era como uma deserção em massa da
igreja galicana. O rei perdia, de uma só vez, todos os seus bispos, tal como vinha de perder quase todos
os seus barões em Courtrai[100].

Esse governo de indivíduos da lei exibiu um vigor e uma atividade extraordinários. No dia 23
de março, uma grande Ordenação muito popular foi proclamada para a reforma do reino. O rei nela
prometeu boa administração, justiça igual, repressão da venalidade, proteção aos eclesiásticos,
consideração aos privilégios baroniais, garantia das pessoas, dos bens, dos costumes (Ord., I, p. 354).
Ele prometia a suavidade e assegurava a força. Ele reergueu o Chatêlet[101] e sua polícia armada, seus
sargentos; sargentos a pé, sargentos a cavalo, sargentos comuns, sargentos-patrulha (Ord., I, p. 352).

Os dois adversários, prestes a se chocar, não quiseram deixar nada atrás de si. Eles sacrificaram
tudo no interesse desta grande luta. O Papa se acomodou com Alberto d’Áustria e o reconheceu como
Imperador: era-lhe necessário alguém para opor ao rei da França. O rei comprou a paz aos Ingleses pelo
enorme sacrifício da Guiana (20 de maio). Qual não deve ter sido sua dor quando lhe foi necessário
entregar a seu inimigo esta rica região, este reino de Bordeaux (Rymer, Act. Publ., II, p. 923, 934. Sism.,
IX, 107).

Mas é que se fazia preciso vencer ou morrer[102]. No dia 12 de março de 1303, o próprio
homem do rei, o sucessor de Pierre Flotte, este ousado gascão chamado Nogaret, leu e assinou um furioso
manifesto contra Bonifácio[103]:

“O glorioso príncipe dos apóstolos, o bem-aventurado Pedro, falando em espírito, nos disse
que, assim como nos tempos antigos, também no futuro, viriam falsos profetas que maculariam a estrada
da verdade e que, em sua avareza, em suas falaciosas palavras, nos negociariam, a exemplo desse Balaão
que amou o salário da iniqüidade. Balaão teve por corretivo e advertência um animal que, tomando a voz
humana, proclamou a tolice do falso profeta... Essas coisas anunciadas pelo Pai e Patriarca da Igreja, nós
as vemos, agora, realizadas ao pé da letra. De fato, na cadeira do bem-aventurado Pedro, senta-se este
mestre das mentiras que, embora Mal-fazendo de toda forma, se faz chamar Boni-fácio[104] Ele não
entrou pela porta no curral do Senhor, nem como pastor e obreiro mas, antes, como ladrão e salteador....
O verdadeiro marido ainda vivente (Celestino V), ele não temeu estuprar a Esposa com um abraço
criminoso. O verdadeiro marido, Celestino, não consentiu com este divórcio. Em efeito, como dizem as
leis humanas: nada mais contrário ao consentimento que o erro... Não se pode casar aquele que,
enquanto vive o marido digno, maculou um casamento com adultério. Ora, como aquilo que se perpetra
contra Deus é uma falta e uma injúria contra todos e que, em um crime tão grande, admite-se ao
testemunho o primeiro que comparece, mesmo a mulher, mesmo uma pessoa infame, Eu então, assim
como o animal que, pela virtude do Senhor, tomou a voz do homem perfeito para repreender a tolice do
falso profeta prestes a amaldiçoar o povo abençoado, eu vos dirijo minha súplica, ó mui excelente
Príncipe, senhor Filipe, rei da França pela graça de Deus, para que, a exemplo do anjo que apresentou a
espada nua a este amaldiçoador do povo de Deus, vós, que estais ungido para a execução da justiça,
oponhais a espada contra este outro e mais funesto Balaão e o impedi de consumar o mal que ele prepara
para o povo”.

Nada ficou decidido. O rei ainda tropegava. Ele permitiu a três bispos justificarem a proibição
que ele fizera aos prelados. O Papa enviou um legado, sem dúvida para sondar o clero da França, e ver
se o rei desejava mudar. Mas nada se moveu. O rei disse ao legado que tomaria por árbitros os duques da
Bretanha e da Borgonha: era o mesmo que lisonjear a nobreza e com ela se assegurar; de resto, ele nada
mais cedia. Então, o Papa dirigiu ao legado uma bula na qual declarava que o rei incorrera na
excomunhão por ter impedido os prelados de se apresentarem em Roma.

O legado deixou a bula e fugiu. O rei prendeu dois padres que lhe foram apresentados com o
legado e a bula, bem assim os eclesiásticos que a copiaram. A bula estava datada de 16 de abril. Dois
meses após (dia a dia), os dois advogados que sucederam à Pierre Flotte agiram contra Bonifácio:
Plasian acusou e Nogaret executou. O primeiro, na presença dos barões reunidos nos Estados, no Louvre,
requisitou a presença de Bonifácio no próximo encontro do conselho e apelou ao rei. Às acusações
precedentes, Plasian acrescentou a de heresia[105]. O rei subscreveu o apelo e Nogaret partiu para a
Itália.
Para sustentar esse passo, o rei não se contentou com o assentimento coletivo dos Estados. Ele
redigiu cartas individuais aos prelados, às igrejas, às cidades, às universidades; essas cartas foram
levadas, de província em província, pelo visconde de Narbonne e pelo próprio acusador, por
Plasian[106]. O rei roga e requer consentirem com o concílio: Nos requirentes consentire (Dupuy, ‘Pr.’,
p. 110). Não teria sido seguro recusar à face do rosto do acusador. Ele reuniu mais de setecentas adesões
(Dupuy, ‘Hist. du Diff.’, p. 19). Todo mundo subscrevera, mesmo aqueles que, no ano anterior, após a
derrota do rei na Batalha de Courtrai, tinham, apesar do rei, se apresentado perante o Papa: o sequestro
dos bens temporais dos quarenta e cinco bastou para convertê-los ao partido do rei. Salvo Cîteaux, que o
Papa ganhara por um favor recente (Dupuy, ‘Preuves’, p. 85) e que se dividiu, todos deram a Plasian
cartas de adesão ao concílio.

Os corpos mais favorecidos pelos Papas se declararam a favor do rei: a Universidade de Paris,
os dominicanos da mesma cidade, os menores[107] da Turânia. Alguns, como um prior de Cluny e um
Templário, aderiram, mas sub protestationibus (Dupuy, ‘Pr.’, p. 134-137).

O Papa ainda causava-lhes muito medo. Era preciso, em troca, que o rei escrevesse cartas pelas
quais ele, a rainha e os jovens príncipes comprometiam-se a proteger tal ou qual que aderisse ao concílio
(Ibid., p. 113-114). Era como uma segurança mútua que o rei e os corpos do reino prestavam-se neste
momento de perigo (vide todos esses atos em Dupuy, ‘Pr’, 112-180).

No dia 15 de outubro, Bonifácio declarou por uma bula que apenas ao Papa cabia convocar um
concílio. Ele respondeu às acusações de Plasian e de Nogaret, particularmente à censura de heresia.
Nesta ocasião, ele disse: “Quem nunca ouviu dizer que, não digo na nossa família, mas no nosso país
natal, na Campânia, não tenha existido um herético?[108]”. Era um ataque indireto a Plasian e a Nogaret,
que eram precisamente das regiões albigenses. Dizia-se, mesmo, que o avô de Nogaret havia sido
queimado.

Os dois acusadores sabiam muito bem tudo o que tinham a temer. O encarniçamento do Papa
contra Pierre Flotte devia ter-lhes demonstrado: antes da Batalha de Courtrai, Bonifácio havia, no
discurso aos cardeais, atribuído tudo a ele, anunciando que se reservava o direito de puni-lo espiritual e
temporalmente[109]. Significava abrir ao rei um espaço para terminar a querela através do sacrifício do
chanceler. Este perecera em Courtrai; porém, quão a mais seus dois sucessores não tinham a temer o pior,
após suas audaciosas acusações! Desta forma, desde o 7 de março, cinco dias antes da primeira
requisição dirigida a Bonifácio, Nogaret fizera com que o rei lhe desse poderes ilimitados, uma
verdadeira carta-branca (carte-blanche), para tratar e para fazer tudo o que fosse necessário[110]. Ele
partiu para a Itália com esta arma, pessoalmente interessado a dela se servir para destruir o Papa.
Rapidamente, dirigiu-se a Florença para encontrar o banqueiro do rei da França, o qual devia dar-lhe
todo o dinheiro que solicitasse. Nogaret tinha consigo o gibelino dos gibelinos, o proscrito e a vítima de
Bonifácio, um homem votado à danação pela morte do Papa, Sciarra Colonna, homem precioso para um
golpe. Este rei dos montanheses sabinos, dos banditi da campanha romana, tanto não tinha dúvidas sobre
o que o Papa teria feito de si que, uma vez, quando caíra nas mãos dos corsários, ele remou para os
mesmos durante vários anos, ao invés de dizer seu nome e correr o risco de ser vendido a Bonifácio
(Petrarca, Epist. 4, l. II, ad. famil., ap. Dupuy, ‘Hist. du Diff.’, p. 6).

Após a bula de 15 de agosto, devia-se acreditar que Bonifácio iria lançar a sentença que pusera
tantos reis para fora do trono e declarar os súditos de Filipe desvinculados de seus juramentos em
relação ao mesmo. Reconciliado com o Imperador Alberto d’Áustria, o Papa sabia muito bem a quem
destinar a França. Ele iria, talvez, renovar contra a Casa de Capeto a trágica história da Casa da Suábia.
A bula, efetivamente, estava pronta desde o dia 5 de setembro. Era necessário a ela antecipar-se e
enfraquecer esta arma que estava nas mãos papais, notificando-lhe o apelo ao concílio, notificação esta
que deveria ser feita em Anagni, na sua cidade natal, dentro da qual se refugiara com seus parentes,
amigos, ao meio de um povo que vinha de arrastar na lama o lírio (fleur-de-lys) e a bandeira da
França[111]. Nogaret não era homem de guerra, mas tinha dinheiro. Ele entrou em entendimentos em
Anagni e, por dez mil florins (nós temos o recibo de quitação – Dupuy, ‘Pr.’, 608-610), ele se assegurou
de Supino, capitão de Ferentino, cidade inimiga de Anagni. “Supino comprometeu-se pela vida ou morte
do mencionado Bonifácio”[112]. Então, Colonna e Supino, com trezentos cavaleiros e muitas pessoas a
pé, clientes ou soldados da França, introduziram Nogaret em Anagni aos brados de “Morra o Papa, viva
o Rei da França!” (“Muoia papa Bonifacio, è viva il Rè di Francia!”. Villani VIII, c. 63). A comuna fez
soar o sino, mas ela tomou por capitão exatamente um inimigo de Bonifácio[113], que deu a mão aos
assaltantes e pôs-se a pilhar os palácios dos cardeais, os quais, por sua vez, se salvaram pelas latrinas. O
povo de Anagni, não podendo impedir a pilhagem, pôs-se também a pilhar em conjunto. O Papa, prestes a
ser forçado em seu palácio, obteve um momento de trégua e mandou advertir a comuna que, então, se
desculpou. Então, esse homem tão orgulhoso dirigiu-se ao próprio Colonna. Mas este desejava que o
Papa abdicasse e se entregasse à sua discrição. “Ai de mim”, disse Bonifácio, “eis aí palavras
duras!”[114]. Neste ínterim, seus inimigos tinham queimado uma igreja que defendia o palácio. O
sobrinho do Papa abandonou seu tio e tratou os termos de rendição por si próprio. Este último golpe
quebrou o velho papa. Este homem de oitenta e seis anos pôs-se a chorar[115]. Neste momento, as portas
são arrebentadas, as janelas são quebradas, a turba penetra. Ameaça-se, ultraja-se o ancião. Ele nada
responde. Ele é pressionado a abdicar. “Eis meu pescoço, eis minha cabeça”, ele diz.

Segundo Villani, ele teria dito ante a aproximação de seus inimigos: “Traído como Jesus
morrerei, mas morrerei Papa”. E teria vestido o manto de São Pedro, posto a coroa de Constantino sobre
a cabeça e ocupado suas mãos com as chaves de Pedro e o báculo papal[116].

Conta-se que Colona bateu no rosto do ancião com sua manopla de ferro[117]. Nogaret dirigiu-
lhe palavras que valiam por um gládio: “Ó tu, débil Papa, confessa e conhece a bondade do meu senhor o
rei da França que, ainda que longe esteja do teu reino, te guarda e te protege por mim” (‘Chron. de S.
Denis’, ap. Dupuy, ‘Pr.’, p. 191). O Papa respondeu com coragem: “Tu és de família herética; é de ti que
eu aguardo o martírio” (Dupuy, ‘Hist. du Diff.’, p. 23).

Colonna teria, de boa vontade, assassinado Bonifácio; o homem da lei o impediu (Cartas
justificativas de Nogaret – “Lettres justificatives de Nogaret”. Dupuy, ‘Pr.’, p. 248). Esta brusca morte
muito o comprometeria. Era preciso que o prisioneiro não morresse entre suas mãos. Mas, por outro
lado, não era possível, de forma alguma, conduzi-lo até à França[118]. Bonifácio recusava-se a comer,
temendo ser envenenado. Essa recusa durou três dias, ao fim dos quais o povo de Anagni, dando-se conta
do pequeno número de estrangeiros, sublevou-se, expulsou os Franceses e libertou seu Papa.

Era muito tarde. O ancião fora mortalmente batido. Ele foi conduzido até à praça, chorando
como uma criança. “Ele agradeceu a Deus e ao povo a sua libertação, e disse: Boa gente, vistes como
meus inimigos arrebataram-me todos os meus bens e aqueles da Igreja. Eis-me, aqui, pobre como Jó.
Digo-vos, em verdade, que nada tenho para comer, nem para beber. Se houver alguma boa mulher que
deseje me fazer esmola de pão ou de vinho, ou de um pouco d’água à falta de vinho, darei a benção de
Deus e a minha. Quem quer que me traga a menor coisa para servir às minhas necessidades, eu o
absolverei de qualquer pecado... Todo o povo se pôs a gritar: Viva o Santo Padre! As mulheres correram
em turba para o palácio para levarem pão, vinho ou água; não encontrando jarras ou vasos, elas os
derramavam em grande quantidade numa arca, no quarto do Papa... Qualquer um podia entrar e falar com
o Papa, como com qualquer pobre”[119].

“O Papa concedeu ao povo a absolvição de todo pecado, salvo a pilhagem dos bens da Igreja e
dos cardeais. Quanto àquilo que era seu, ele não se importou. Foi-lhe devolvida, entretanto, alguma
coisa. Ele, em seguida, protestou, na frente de todos, que desejava fazer a paz com os Colonna e todos os
seus inimigos. Então, ele partiu para Roma com uma grande multidão de gente armada”. Mas quando
chegou a São Pedro e que não foi mais sustentado pelo sentimento do perigo, o medo e a fome com os
quais sofrera, a perda de seu dinheiro, a insolente vitória de seus inimigos, esta humilhação infinita de um
poder infinito, tudo isso voltou-lhe de uma só vez: sua cabeça octogenária não aguentou e ele perdeu o
ânimo e o espírito.

Ele se confiara aos Orsini como inimigos dos Colonna. Mas ele ainda foi, ou acreditou ter sido,
preso por aqueles, seja porque desejassem esconder do povo o escândalo de um papa herético, seja
porque se entendessem com os Colonna para mantê-lo prisioneiro, Bonifácio, tendo desejado sair para se
refugiar junto a outros barões, os dois cardeais Orsini barraram-lhe a passagem e o fizeram voltar. A
demência mental tornou-se raiva e, desde então, ele rejeitou qualquer alimento. Ele espumava e rilhava
os dentes. Enfim, um de seus amigos, Jacobo de Pisa, tendo-lhe dito “Santo Padre, recomendai-vos a
Deus, à Virgem Maria e recebei o corpo de Cristo”, Bonifácio deu-lhe um tapa e gritou, misturando as
duas línguas: ‘Allonta de Dio et de Sancta Maria, nolo, nolo’ (NT: ‘Afasta Deus e a Santa Maria, eu não,
eu não’). Ele expulsou dois irmãos menores que traziam-lhe o viático e, ao cabo de uma hora, expirou
sem comunhão, nem confissão. Desta forma, comprovava-se a frase que seu antecessor Celestino a ele
dissera: “Tu subiste como uma raposa, tu reinarás como um leão, tu morrerás como um cão” (Dupuy,
‘Pr.’, p. 196).

Foram encontrados outros detalhes, mas ainda mais suspeitos, numa peça onde se respira um
ódio furioso e que parece ter sido fabricada pelos Plasian e pelos Nogaret para que corresse entre o
povo, imediatamente após o evento: “A vida, estado e condição do Papa Malefácio, contados por
pessoas dignas de fé: no dia 9 de outubro, o Faraó, sabendo que sua hora se aproximava, confessou que
possuía demônios familiares que o obrigaram a cometer todos os seus crimes. O dia e a noite que se
seguiram, escutou-se tantos trovões, tantas horríveis tempesdades, viu-se uma tal quantidade de pássaros
negros que soltavam pavorosos crocitos, que todo o povo consternado gritava: ‘Senhor Jesus, tende
piedade, tende piedade, tende piedade de nós’. Todos afirmavam que eram os demônios do inferno que
vinham procurar a alma desse Faraó. No dia 10, como se lhe contassem o que se passara e o
aconselhassem a meditar sobre sua alma... ele, envolvido pelo demônio, furioso e rilhando os dentes,
lançou-se sobre o padre como que para devorá-lo. O padre fugiu a todas pernas até à igreja... Depois,
sem dizer palavra, ele se virou para o outro lado... Como era carregado até sua cadeira, ele foi visto a
lançar os olhos sobre a pedra de seu anel e a se lamentar: ‘Ó vós, espíritos malignos aprisionados nesta
pedra, vós que me seduzistes... por que me abandonais agora?’. E ele lançou longe seu anel. Seu mal e
sua raiva crescendo, endurecido na sua iniqüidade, ele confirmou todos os seus atos contra o rei da
França e seus servidores e os publicou novamente... Seus amigos, para acalmar suas dores e mágoas,
fizeram-lhe ser conduzido o filho do mestre Jacques de Pisa, que ele outrora adorava abraçar, como que
para se glorificar no pecado... mas, à vista da criança, ele lançou-se sobre ela e, se não fosse dali
retirado, ter-lhe-ia arrancado o nariz com os dentes. Finalmente, o mencionado Faraó, cingido de torturas
pela vingança divina, morreu no dia 12, sem confissão, sem marca de fé: e, neste dia, houve tantos
trovões, tempestades, dragões no ar vomitando chamas, tantos relâmpagos e prodígios, que o povo
romano acreditava que toda a cidade seria lançada no abismo”[120].
Dante Alighieri, malgrado sua violenta invectiva contra os carrascos do pontífice, indica-lhe seu
lugar no inferno. No canto XIX do Inferno, Nicolau II, mergulhado do pescoço para baixo nas chamas, o
escuta falar e exclama: “És tu, então, já em pé, caído de lá de cima? És tu, então, Bonifácio? Por muitos
anos, a sentença tem errado. Estás, então, suficientemente saciado daquilo que não temeste
criminosamente roubar da bela Esposa para nela fazer ruína?”[121].

O sucessor de Bonifácio, Bento XI, homem de baixa extração, mas de um grande mérito, que os
Orsini haviam feito virar Papa, não se sentia muito forte em sua entronização. Ele recebeu de boa graça
as felicitações do rei da França, as quais foram trazidas por Plasian, pelo próprio acusador do último
papa. Filipe sentia que seu inimigo não estava realmente morto que não pudesse desferir algum novo
golpe, conduzindo a guerra ao exagero: ele remeteu ao Papa um memorando contra Bonifácio, que podia
se passar por uma ácida sátira da corte de Roma[122]. Ele escreveu para si próprio, com a ajuda de seu
pessoal jurista, uma Súplica do povo da França ao Rei contra Bonifácio (Supplication du pueuble de
France au Roy contra Boniface). Este ato importante, redigido em língua vulgar, era mais um apelo do rei
ao povo que uma súplica do povo ao rei[123].

Bento, ao contrário, parece ter inicialmente desejado abafar esta grande questão, perdoando a
todos aqueles que nela estavam envolvidos, com exceção de Nogaret. Mas perdoá-los significaria
declará-los culpados. E esta clemente ofensiva mancharia o rei, os Colonna, os prelados que não se
renderam à intimação de Bonifácio.

Filipe, então acabado pela guerra de Flandres, tinha muito a temer. A melhor parte dos cardeais
se recusava a aderir à sua convocação para o concílio. O Papa tornava-se ameaçador. O rei desejava
receber a absolvição que inicialmente desdenhara. Tivesse ele pedido seriamente, seríamos tentados a
disso duvidar, quando se vê que a solicitação foi levada ao Papa por Plasian e Nogaret. Este último se
fizera provavelmente dar esta missão para romper um arranjo que não poderia ser feito senão em prejuízo
a si. A só escolha de um tal embaixador era sinistra. O Papa explodiu e lançou uma furiosa bula de
excomunhão: “Flagitiosum scelus et scelestum flagitium quod quidam sceleratissimi viri, summum
audentes nefas in personam bonæ memoriæ Bonifacii P. VIII...” (NT: Tanto mais chocante a maldade e o
amaldiçoado crime quanto foram perpetrados por certos homens amaldiçoados que, nefastamente,
ofenderam a pessoa e a boa memória do Papa Bonifácio VIII).

Esta bula parecia incluir o rei. Ela foi entregue no dia 7 de junho de 1304. No dia 4 de julho,
Bento estava morto. Conta-se que uma jovem de véu, que se dava por irmã laica do convento de Santa
Petronilha, em Perúgia, veio apresentar-lhe, à mesa, um cesto de figos-em-flor[124]. Ele os comeu sem
desconfiança, sentiu-se mal e morreu em alguns dias. Os cardeais, temendo mui facilmente encontrar o
culpado, não fizeram nenhuma investigação.

Esta morte veio no momento certo para Filipe. A guerra de Flandres o levara ao limite. Ele não
pudera impedir, em 1303, que os Flamengos invadissem a França, queimassem Térouanne e sitiassem
Tournai[125]. Não havia como salvar esta cidade senão pedindo uma trégua, pondo em liberdade o velho
Guy que, entretanto deveria retornar à prisão, se a paz não se fizesse e mantivesse. O ancião agradeceu
seus corajosos Flamengos, abençoou seus filhos e veio a morrer, com oitenta anos, na sua prisão de
Compiègne.

Em 1304, ao mesmo momento em que o Papa tão convenientemente morria, Filipe fazia um
esforço desesperado para terminar a guerra. Ele extorquira algum dinheiro vendendo privilégios,
sobretudo no Languedoc, favorecendo, assim, as comunas do Midi para esmagar aquelas do Norte. Ele
contratou Genoveses e, com suas galeras, ganhou uma batalha naval à frente de Zierikzee (agosto). Os
Flamengos nem por isso se sentiram abatidos. Eles se acreditavam ao número de sessenta mil. Era a
Flandres completa pela primeira vez; todas as milícias das cidades estavam reunidas, as de Gant e de
Bruges, aquelas de Ypres, de Lille e de Courtrai. À testa delas estavam três filhos do velho conde, seu
primo Guilherme de Juliers e vários barões dos Países-Baixos e da Alemanha. Filipe, tendo forçado a
passagem do rio Lys (rio Leie em holandês), os encontrou em Mons-en-Puelle, num formidável cinturão
de carruagens e carroças e contra eles enviou, não mais seus homens (gendarmerie), mas andarilhos
infantes Gascões (Meyer, folio, 104) que, durante todo o dia, sob um sol ardente, os mantiveram em
alerta, sem comer, nem beber; os víveres estavam dentro das carroças. Este jejum os exasperou, eles
perderam a paciência e, ao entardecer, lançaram-se, todos juntos, sobre os Franceses. Estes últimos já
nem mais pensavam nos Flamengos: o rei estava desarmado e dirigia-se à sua mesa. De início, essa carga
de javalis derrubou tudo. Mas, quando os Flamengos entraram nas tendas, e que viram tantas boas coisas
para tomar, não houve mais jeito que os fizesse permanecer juntos, pois todos queriam fazer a mão. Neste
ínterim, os Franceses se reagruparam: a cavalaria esmagou os saqueadores que aí deixaram seis mil
homens mortos.

O rei foi sitiar Lille, não duvidando da submissão dos Flamengos. Ele ficou muito espantado ao
ver os sessenta mil retornarem como se não houvessem perdido um só homem. “Chove Flamengos”, ele
dizia. Os grandes da França, que não se inquietavam em bater-se contra esses desesperados,
aconselharam o rei a tratar com eles. Era necessário entregar-lhes seu conde, filho do velho Guy, e
prometer ao neto o condado de Rethel, herança de sua mulher. Filipe guardava a Flandres francesa e
recebia duzentas mil libras.

Mas nada estava terminado: não fora especificado se ele a guardaria como penhor do tratado ou
como aquisição; quanto ao dinheiro, ele não o recebeu. Por outro lado, a questão com o Papa estava mais
estragada que arrumada. Era uma triste alegria a súbita morte de Bento XI[126].

Uma fome, um imprudente aumento do valor máximo dos cereais ou sua requisição, tudo isso
excitava o povo. Começava-se a falar. Um intelectual da universidade falou alto e foi enforcado. Uma
pobre beguina de Metz, que fundara uma ordem de religiosas, recebeu uma revelação dos castigos e
punições que o céu reservava aos reis maus. Carlos de Valois a mandou enforcar e, para obrigá-la a dizer
que essas profecias eram sopradas pelo diabo, fez com que queimassem seus pés (Contin. Nangii, p. 57).
Mas todo mundo acreditou na revelação quando viu-se, no ano seguinte, um cometa aparecer com um
brilho assustador[127].

Filipe o Belo retornava vencedor e arruinado. Ele se apresentou na catedral Notre-Dame, entre
o povo faminto e as maldições em voz baixa. Ele entrou a cavalo na igreja e, para agradecer a Deus por
ter escapado quando os Flamengos o surpreenderam, devotamente dedicou a Nossa Senhora sua efígie
equestre e armada com todos os paramentos. Ela podia ainda ser vista na Notre-Dame, pouco tempo antes
da Revolução, ao lado do colossal São Cristóvão.

Nogaret não se esqueceu de si próprio; ele também triunfou à sua maneira. Temos um recibo, por
ele assinado, provando que seus rendimentos foram elevados de quinhentas para oitocentas libras (D.
Vaissette, ‘Hist. du Languedoc’, t. IX, nota XI, p. 117).
Capítulo III

O ouro. O Fisco. Os Templários.

--------------------

“O ouro”, disse Cristóvão Colombo, “é uma coisa excelente. Com ouro, forma-se tesouros. Com
ouro, faz-se tudo o que se deseja neste mundo. Faz-se, inclusive, chegar as almas ao paraíso”[128].

A época onde chegamos deve ser considerada como a do advento do ouro. Ele é o Deus do
mundo novo no qual entramos. Filipe o Belo, mal tendo subido ao trono, exclui os sacerdotes dos seus
conselhos para neles fazer entrar os banqueiros[129].

Guardemo-nos de falar mal do ouro. Comparado à propriedade feudal, a terra, o ouro é uma
forma superior da riqueza. Coisa pequena, móvel, cambiável, divisível, fácil de manipular, fácil de
esconder, é já a riqueza sutilizada; eu ia dizer “espiritualizada”. Tanto quanto a riqueza foi imóvel, o
homem, por ela fixado à terra e como que enraizado, não possuía outra locomoção senão sobre a gleba na
qual rastejava. O proprietário era uma dependência do solo; a terra levava o homem. Hoje, é bem ao
contrário, ele conduz a terra, concentrada e resumida pelo ouro. O dócil metal serve a qualquer
transação; ele segue, fácil e fluido, toda circulação comercial, administrativa. O governo, obrigado a agir
longe, rapidamente, de mil maneiras, tem por meio principal de ação os metais preciosos. A súbita
criação de um governo, no início do século XV, cria uma necessidade imediata, infinita, de prata e de
ouro.

Sob Filipe o Belo, o fisco, este monstro, este gigante, nasce disforme, esfaimado, cheio de
dentes. Ele grita ao nascer, como o Gargântua de Rabelais: “Comida! Bebida!”. A criança terrível, cuja
fome atroz não pode ser saciada, comerá, em caso de necessidade, a carne e beberá o sangue. É o
cíclope, o ogro, a gárgula devoradora do Sena. A cabeça do monstro se chama Grão-Conselho (Grand-
Conseil), suas longas garras estão no Parlamento, o órgão digestivo é a Câmara de Contas. O único
alimento que pode apaziguá-lo é exatamente aquele que o povo não pode encontrar-lhe. Fisco e povo não
tem outro brado senão “ouro”.

Vede, em Aristófano, como o cego e inerte Pluto é perseguido por seus adoradores. Estes
provam-lhe que ele é o Deus dos Deuses. E todos os deuses a ele cedem. Júpiter confessa que morre de
fome sem ele[130], Mercúrio deixa seu ofício de deus, põe-se a serviço de Pluto, gira o espeto e lava sua
louça.

Esta entronização do ouro no lugar de Deus se renova no século XIV. A dificuldade é extrair
esse ouro preguiçoso dos redutos obscuros onde dorme. Esta história do thesausurus seria curiosa desde
o tempo onde se mantinha escondido sob o dragão de Cólquida, das Hespérides ou dos Nibelungos,
desde seu sono no templo de Delfos, no palácio de Persépolis. Alexandre, Cartago, Roma, o despertam e
o sacodem[131]. Na Idade Média, ele dorme já nas igrejas ou, para melhor repousar, toma a forma sacra
de cruzes, mantos, relicários. Quem será assaz ousado para tirá-lo de lá, assaz clarividente para percebê-
lo na terra para dentro da qual adora fugir? Qual mágico evocará, profanará, esta coisa sagrada que vale
todas as coisas, esse todo-poder cego que dá a natureza?

A Idade Média não podia tão cedo alcançar a grande idéia moderna: o homem sabe criar a
riqueza, ele transforma uma vil matéria em objeto precioso, dando-lhe a riqueza que ele tem em si,
aquela da forma, da arte, aquela de uma vontade inteligente. Ele inicialmente procurou a riqueza menos
na forma que na matéria. Ele se encarniçou sobre esta matéria, atormentou a natureza com um amor
furioso, pediu-lhe aquilo que se pede a quem se ama, a vida mesmo, a imortalidade[132]. Mas, malgrado
as maravilhosas fortunas dos Lúlio e dos Flamel[133], o ouro tantas vezes encontrado não aparecia senão
para fugir, sempre deixando o soprador sem fôlego; ele fugia, fundia impiedosamente e, consigo, a
substância do homem, sua alma, sua vida, deixadas no fundo do caldeirão[134].

Então, o desafortunado, cessando de esperar no poder humano, renegava a si mesmo, abdicava


todo bem, alma e Deus. Ele invocava o mal, o Diabo. Rei dos abismos subterrâneos, o Diabo era, sem
dúvida, o monarca do ouro. Vede, em Notre-Dame de Paris, e em tantas outras igrejas, a triste
representação do pobre homem que vende sua alma pelo ouro, que se enfeuda ao Diabo, se ajoelha
perante a Besta e beija sua garra aveludada...

O Diabo, perseguido com os Maniqueístas e os Albigenses, expulso, como eles, das cidades e
aldeias, vivia, então, no deserto. Ele cabalava sobre a pradaria com as feiticeiras de Macbeth. A
feitiçaria, aborto repugnante das velhas religiões vencidas, tinha isso, entretanto, de ser um chamado, não
somente à natureza, como era o caso da alquimia, mas já à vontade, à vontade maligna, ao diabo, é
verdade. Era um industrialismo doente que, não podendo tirar da vontade os tesouros que contém sua
aliança com a natureza, tentava ganhar, pela violência e pelo crime, aquilo que somente o trabalho, a
paciência, a inteligência, podem dar.

Na Idade Média, aquele que sabe onde está o ouro, o verdadeiro alquimista, o verdadeiro
feiticeiro, é o judeu; ou o semi-judeu, o Lombardo[135]. O judeu, o homem imundo, o homem que não
pode tocar nem comida e nem mulher sem que as mesmas não sejam queimadas, o homem do ultraje sobre
quem todo mundo escarra[136], é a ele que é preciso se dirigir.

Imunda e prolífica nação que, acima de todas as outras, teve a força multiplicadora, a força que
engendra, que fecunda à vontade as ovelhas de Jacó ou os sequins de Shylock[137]. Durante toda a Idade
Média, perseguidos, expulsos, novamente chamados, eles eram o indispensável intermediário entre o
Fisco e a vítima do Fisco, entre o agente e o paciente, bombeando o ouro de baixo para, com um feio
esgar de rosto, entregá-lo em cima, ao Rei... Mas sempre sobrava-lhes alguma coisa... Pacientes,
indestrutíveis, eles venceram pelo tempo[138]. Eles resolveram o problema de volatilizar a riqueza;
libertados pela letra de câmbio, eles agora são livres, eles são senhores; de bofetadas em bofetadas, ei-
los no trono do mundo[139].

Para que o pobre homem se dirija ao judeu, para que ele se aproxime dessa sombria casinha tão
mal afamada, para que fale a este homem que, segundo se diz, crucifica as criancinhas (vide as
‘Ballades’ publicadas por M. Francisque Michel), não é preciso nada além da horrível pressão do Fisco.
Entre o Fisco, que deseja sua moela e seu sangue, e o diabo, que quer sua alma, ele tomará o judeu por
meio.

Quando, então, ele tinha esgotado seus últimos recursos, quando seu leito fora vendido, quando
sua mulher e seus filhos deitados à terra tremiam de febre ou clamavam por pão, então, cabeça baixa e
mais curvado do que se carregasse troncos de madeira, ele se dirigia lentamente na direção da odiosa
casa e ficava na frente da porta, por muito tempo, antes de bater. O que dizia o cristão? “Pelo amor de
Deus?” O judeu O matou, teu Deus. “Por piedade?” Qual cristão jamais teve piedade do judeu? Não
bastam apenas palavras. É preciso uma garantia. E o que pode dar aquele que nada tem? O judeu dir-lhe-
á calmamente: Meu amigo, conformemente às ordenações do Rei, nosso Senhor, eu não posso emprestar
nem contra roupa ensaguentada, nem contra ferro de arado... (Ordonn. I, 36). Não. Como garantia, eu
nada mais quero além de vós mesmo. Eu não sou dos vossos, meu direito não é o direito cristão. É um
direito mais antigo (in partes secanto). Vossa carne responderá. Sangue por ouro, assim como vida por
vida. Uma libra da vossa carne, a qual vou alimentar com meu dinheiro, uma libra somente da vossa bela
carne![140]... O ouro que o assassino do Filho do Homem empresta não pode ser outra coisa que um ouro
homicida, anti-humano, antidivino ou, como se dizia naqueles tempos, Anti-Cristo. Eis aí o ouro
Anticristo, como antes nos mostrava Aristófano em Pluto, o Anti-Júpiter.

Este Anticristo, este Anti-Deus, deve despojar Deus, quer dizer, a Igreja; a igreja secular, os
padres, o Papa; a igreja regular, os monges, os Templários.

A morte escandalosamente repentina de Bento XI fez a Igreja cair nas mãos de Filipe o Belo; ela
o possibilitou, mesmo, fazer um Papa, tirar o papado de Roma e trazê-lo para a França para, nesta
masmorra, fazê-lo trabalhar em seu benefício, ditar-lhe bulas lucrativas, explorar a infalibilidade papal,
fazer do Espírito Santo o escriba e o cobrador para a Casa da França.

Após a morte de Bento XI, os cardeais se trancaram em conclave em Perúgia. Mas as duas
facções, a francesa e a anti-francesa, estavam tão bem equilibradas, que não havia meios de se chegar a
um resultado. Os habitantes da cidade, em sua impaciência, em sua fúria italiana de ver um Papa feito em
Perúgia, não encontraram outro remédio senão imporem a fome aos cardeais. Estes, então, concordaram
que uma das facções designaria três candidatos e que a outra escolheria. Coube ao partido francês
escolher e ele apontou um Gascão, Bertrand de Gott, arcebispo de Bordeaux. Bertrand se mostrara, até
aí, como inimigo do rei, mas sabia-se que ele era, antes de tudo, amigo de seus próprios interesses e, com
base nisso, esperava-se logo convertê-lo.

Filipe, instruído por seus cardeais e munido de suas cartas, deu encontro ao futuro eleito perto
de Saint-Jean-d’Angély, numa floresta. Bertrand para aí correu cheio de esperança. Villani fala dessa
entrevista secreta como se a tivesse presenciado. É preciso ler esta narrativa de uma maligna
ingenuidade:

“Eles ouviram a missa juntos e juraram-se segredo. Então, o rei começou a parlamentar, em
belas palavras, para reconciliá-lo com Carlos de Valois. Em seguida, ele lhe disse: ‘Vê, Arcebispo,
tenho em meu poder fazer-te Papa, se eu quiser; é por esta razão que vim a ti pois, se tu me prometeres
fazer seis graças que te pedirei, assegurar-te-ei esta dignidade; e vê aqui que te provarei ter tal poder’. E
o rei mostrou-lhe as cartas e delegações de um e do outro colégio. O Gascão, cheio de cobiça, vendo
assim, repentinamente, que dependia inteiramente do rei fazê-lo Papa, lançou-se, como tomado de júbilo,
aos pés de Filipe e disse: ‘Meu Senhor, vejo agora que tu me amas mais que qualquer outro homem que
vive, e que desejas me entregar o bem pelo mal. Tu deves ordenar e eu devo obedecer e, sempre, à tua
disposição estarei’. O rei o ergueu, beijou-lhe a boca em sinal de paz, e disse-lhe: ‘As seis graças
especiais que te peço são as seguintes: a primeira, que tu me reconcilies perfeitamente com a Igreja e que
me faças ser perdoado pelo malfeito que cometi ao prender o Papa Bonifácio. A segunda, que tu me dês a
comunhão, a mim e aos meus. A terceira, que tu me acordes os décimos do clero em meu reino, por cinco
anos, a fim de auxiliar nas despesas feitas na guerra de Flandres. A quarta, que tu destruas e anules a
memória do Papa Bonifácio. A quinta, que tu outorgues a dignidade de cardeal ao mestre (messer) Jacobo
e ao mestre Piero della Colonna, que tu os reintegres e que, com eles, tu nomeies cardeais alguns amigos
meus. Para a sexta graça e promessa, reservo-me falar em tempo e lugar, pois é coisa grande e secreta’.
O arcebispos prometeu tudo por juramento sobre o Corpus Domini (NT: o Corpo do Senhor, a hóstia
eucarística) e, ainda, deu por reféns seu irmão e dois de seus sobrinhos. O rei, de sua parte, prometeu e
jurou que o faria ser eleito Papa”[141].
O Papa de Filipe o Belo, confessando altivamente sua dependência, declarou que desejava ser
entronizado em Lyon (14 de novembro de 1305). Esta coroação, que iniciava o cativeiro da Igreja, foi
dignamente solenizada: no momento em que o cortejo passava, uma muralha repleta de espectadores
desmoronou, feriu o rei e matou o duque da Bretanha. O Papa foi derrubado, a tiara caiu e, oito dias
depois, durante um banquete do Papa, sua gente e aquela dos cardeais se desentenderam e um irmão do
Papa foi morto.

No entanto, a vergonha do mercado que se fez do papado tornava-se pública. Clemente[142]


pagava em moeda sonante, dando em pagamento aquilo que a si não pertencia, exigindo décimos do
clero: décimos para o rei da França, décimos para o conde de Flandres para que ele se quitasse com o
rei, décimos para Carlos de Valois para uma cruzada contra o império grego. O motivo da cruzada era
estranho: este pobre império, no entender do Papa, era débil e não protegia suficientemente a cristandade
contra os infiéis.

Clemente, tendo pago, acreditava estar quite e não ter mais nada a fazer além de usufruir como
adquirente e proprietário, usando e abusando. Assim como um barão fazia cavalgadas ao longo de suas
terras para exercer seu direito de hospitalidade e de provisão[143], Clemente pôs-se a viajar pela Igreja
da França. De Lyon, ele se encaminhou na direção de Bordeaux, mas por Mâcon, Bourges e Limoges a
fim de devorar mais regiões[144]. Ele ia, tomando e comendo, de bispado em bispado, com um exército
de familiares e servidores. Aonde quer que esta nuvem de gafanhotos se abatesse, o local ficava limpo.
Anterior arcebispo de Bordeaux, o rancoroso pontífice retirou de Bourges sua primazia sobre a capital
da Guiana. Ele se estabeleceu na casa de seu inimigo, o arcebispo de Bourges, como um coletor de
impostos (garnisaire) ou comedor de ofício (mangeur d’office)[145] e, de tal forma aí se hospedou, que
o deixou arruinado de cima a baixo: esse primaz das Aquitânias estaria morto de fome se não tivesse ido
à catedral, entre seus cônegos, receber das distribuições eclesiásticas a porção côngrua[146].

Nos roubos de Clemente, a melhor parte sempre era para uma mulher que extorquia o Papa,
como ele à Igreja. Ela era a verdadeira Jerusalém para onde ia o dinheiro da cruzada. A bela Brunissende
Talleyerand de Périgord[147] custava-lhe, segundo se dizia, mais que a Terra Santa.

Clemente logo seria cruelmente incomodado neste doce gozo dos bens da Igreja. Os décimos em
perspectiva não respondiam às necessidades reais do Fisco Real. O papa ganhou tempo dando-lhe os
judeus, autorizando o rei colhê-los. A operação se fez num único dia, com um segredo e uma tamanha
prontidão que muito fazem honra aos servidores fiscais do rei. Contava-se que nenhum judeu escapara.
Não contente de vender seus bens, o rei se encarregou de perseguir seus devedores, declarando que seus
lançamentos bastavam como títulos de crédito, que os apontamentos de um judeu eram, em sua opinião,
dignos de fé.

O judeu, não rendendo o suficiente, o rei caiu sobre o cristão. Ele também alterou as moedas,
aumentando o título e diminuindo o peso: com duas libras pagava-se oito. Mas, quando se tratava de
receber, ele não recebia sua própria moeda senão por um terço; duas bancarrotas em sentido inverso.
Todos os devedores lucraram com a ocasião. Essas moedas de diverso valor sob o mesmo título davam
causa a numerosas querelas. Ninguém se entendia, era uma Babel. A única coisa em que o todo o povo
estava de acordo (eis aí um povo!) era para a revolta. O rei conseguiu se salvar no Templo e o povo o
teria seguido, se não tivesse parado no caminho para se divertir pilhando a casa de Étienne Barbet, um
financista a quem se atribuía a alteração das moedas. O motim terminou assim. O rei mandou enforcar
centenas de homens nas árvores das estradas em torno de Paris e o temor o reaproximou dos nobres. Ele
devolveu-lhes o direito ao combate judiciário ou, melhor dito, a impunidade. Era uma derrota para o
governo real. O rei dos juristas abdicava a lei para reconhecer as decisões da força. Triste e dúbia
posição, tanto em legislação, como em finanças. Empurrado da igreja aos judeus, dos judeus às comunas,
das comunas flamengas ele voltava a cair sobre a igreja.

O melhor dos tesouros de Filipe, seu patrimônio a ser explorado, o fundo sobre o qual contava,
era seu Papa. Se ele o havia comprado, este Papa, se ele o empanturrava com roubos e pilhagens, não era
para que deixasse de se servir mas, ao contrário, para daí também tirar partido, para dele arrancar, como
o Judeu, uma libra de carne sobre o membro que mais lhe conviesse escolher.

Havia um meio infalível de apertar e pressionar o Papa, um poderoso espectro, a saber, o


processo de Bonifácio VIII. O que o rei pedia a Clemente era, nada mais, nada menos, que o suicídio do
papado: se Bonifácio fosse herético e falso papa, os cardeais que o haviam escolhido eram falsos
cardeais. Bento XI e Clemente, também eleitos por eles, seriam, por sua vez, falsos papas e sem direito;
e não somente eles, mas todos aqueles a quem tivessem confirmado ou outorgado as dignidades
eclesiásticas; não somente as escolhas que tivessem feito, mas os atos de qualquer espécie que tivessem
praticado. A Igreja encontrar-se-ia amarrada num encadeamento de ilegalidades sem fim. Por outro lado,
se Bonifácio tivesse sido verdadeiro papa, ele seria, como tal, infalível, suas sentenças subsistiriam e
Filipe o Belo restaria condenado.

À pena entronizado, Clemente teve de ouvir a áspera e imperiosa requisição de Nogaret, que
ordenava-lhe perseguir seu antecessor. Mal concluído o comércio, o Diabo exigia seu pagamento. A
servidão do homem vendido começava; esta alma, uma vez garroteada pelos liames da injustiça, tendo
recebido o arreio e o bridão, devia ser miseravelmente cavalgada até à danação.

Ao invés de, desta forma, matar o papado de direito, Clemente teria preferido abandoná-lo de
fato. De uma só vez, ele criou doze cardeais devotados ao rei da França, os dois Colonna e dez
Franceses ou Gascões. Estes doze, unidos ao que restava dos outros doze da mesma facção, de cuja
nomeação ficou surpreso Celestino, asseguravam eternamente, para o rei da França, a eleição dos papas
futuros. Clemente assim constituía o papado entre as mãos de Filipe; concessão enorme e que, entretanto,
não bastou.

Ele acreditou que dobraria seu senhor dando um passo a mais. Ele revogou a bula de Bonifácio,
a bula Clericis laicos, que fechava a bolsa do clero ao rei. A bula Unam sanctam continha a gloriosa e
sublime expressão da supremacia pontifícia. Clemente a sacrificou e, ainda assim, não foi o suficiente.

Ele estava em Poitiers, inquieto e doente de corpo e de espírito. Filipe o Belo veio encontrá-lo
com novas exigências. Era-lhe necessário um grande confisco, um confisco da mais rica das ordens
religiosas, da Ordem do Templo. O papa, cerrado entre esses dois perigos, tentou desviar Filipe
cobrindo-lhe de todos os favores que estivessem no poder da Santa Sé: ele ajudou seu filho Luís o
Turbulento (Louis Hutin) a se estabelecer em Navarra, ele declarou seu irmão Carlos de Valois chefe da
cruzada. Ele tratou, enfim, de se assegurar da proteção da Casa d’Anjou, liberando o rei de Nápoles de
uma dívida enorme com a Igreja, canonizando um de seus filhos, adjudicando a outro o trono da Hungria.

Filipe recebia sempre, mas não relaxava o abraço. Ele cercava o papa com acusações contra o
Templo. Ele encontrou, na própria casa de Clemente, um Templário que acusava a Ordem. Em 1306, o
rei, desejando-lhe enviar comissários para obter uma decisão, o desgraçado papa deu, para não recebê-
lo, a mais ridícula desculpa: “baseados no conselho dos médicos, nós iremos, no começo de setembro,
tomar algumas drogas preparatórias e, na seqüência, um purgativo que, segundo os supramencionados
médicos, deve, com a ajuda de Deus, nos ser muito útil”[148].

Essas lamentáveis tergiversações duraram muito tempo. E teriam durado para sempre, se o Papa
não tivesse subitamente tomado conhecimento que o rei mandava deter, em todo lugar, os Templários, e
que seu confessor, monge dominicano e grande inquisidor da França, procedia contra eles sem aguardar
autorização.

O que era então o Templo? Tentemos explicá-lo em poucas palavras:

Em Paris, o cinturão do Templo compreendia todo o grande quarteirão, triste e mal povoado,
que dele conservou o nome[149]. Correspondia a um terço da Paris de então. À sombra do Templo, e sob
sua poderosa proteção, vivia uma multidão de servidores, familiares, afiliados e, também, pessoas
condenadas, pois as casas da Ordem possuíam direito de asilo. O próprio Filipe o Belo o invocara
quando, em 1306, foi perseguido pelo povo sublevado. Restava, ainda, à época da Revolução, um
monumento desta ingratidão real, a larga torre com quatro torreões, construída em 1222, e que serviu de
prisão a Luís XVI[150].

O Templo de Paris era o centro da Ordem, seu tesouro; os capítulos gerais ocorriam aí. Desta
casa dependiam todas as províncias da Ordem: Portugal, Castela e Leão, Aragão, Maiorca, Alemanha,
Itália, Apúlia e Sicília, Inglaterra e Irlanda. No norte, a Ordem Teutônica[151] tivera sua origem no
Templo, assim como, na Espanha, outras ordens militares posteriormente se formaram de seus destroços.
A imensa maioria dos Templários era de Franceses, particularmente os Grãos-Mestres. Em várias
línguas, designava-se os cavaleiros por seu nome francês: Frieri del Tempio, φρεριοι του Τεμπλου
(Sismondi, ‘Rép. Italiennes’, IV, 265. ‘Pachymer. hist. Andronic.’, l. V, c. 12, t. XIII, p. 235).

O Templo, como todas as ordens militares, derivava de Cîteaux. O reformador de Cîteaux, São
Bernardo, com a mesma pluma que utilizava para comentar o Cântico dos Cânticos, deu aos cavaleiros
sua regra entusiasta e austera. Esta regra era o exílio e a guerra santa até à morte. Os Templários deviam
sempre aceitar o combate, fosse ele de um contra três, jamais pedir quartel (NT: misericórdia), de forma
alguma pagar resgate, nem um pedaço de muralha, nem uma polegada de terra. Eles não esperavam
repouso. Não se lhes permitia passar para ordens menos austeras (Dupuy, ‘Preuves’, p. 115).

“Ide felizes, ide em paz”, disse-lhes São Bernardo, “expulsai com um coração intrépido os
inimigos da cruz de Cristo e sede seguros que, nem a vida, nem a morte, poderão vos colocar fora do
amor de Deus que está em Jesus. Em todo perigo, tornai a dizer a vós mesmos a palavra: Vivos ou
mortos, nós somos ao Senhor... Gloriosos os vencedores, felizes os mártires”[152].

Eis o rude esboço que ele nos oferece da figura do Templário: “Cabelos tonsurados e
desgrenhados, sujos de poeira; enegrecido como ferro, enegrecido pelo clima e pelo sol... Eles amam os
cavalos fogosos e rápidos, mas não adornados, malhados ou caparados... O que encanta nesta turba, nesta
torrente que corre para a Terra Santa, é que não vedes senão celerados e ímpios. Cristo faz de um inimigo
o seu campeão; do perseguidor Saulo faz um São Paulo...”. Depois, num eloqüente itinerário, ele conduz
os guerreiros penitentes de Belém ao Calvário, de Nazaré ao Santo Sepulcro.

O soldado tem a glória, o monge o repouso. O Templário abjurava um e outro. Ele reunia o que
as duas vidas têm de mais duro: os perigos e as abstinências. A grande questão da Idade Média foi a
guerra santa, a Cruzada; o ideal da cruzada parecia realizado na Ordem do Templo: era a Cruzada
tornada fixa e permanente, a nobre representação desta cruzada espiritual, desta guerra mística que o
cristão sustenta, até à morte, contra o inimigo interior[153].

Associados aos Hospitalários[154] na defesa dos santos locais, deles diferiam porque a guerra
era mais particularmente o objetivo de sua instituição[155]. Uns e outros prestavam os maiores serviços.
Qual não devia ser a alegria do peregrino que viajava na estrada poeirenta de Jaffa a Jerusalém e que, a
todo momento, acreditava ver desabarem sobre si salteadores árabes, quando encontrava um cavaleiro e
reconhecia a caridosa cruz vermelha sobre o manto branco da Ordem do Templo! Em batalha, as duas
ordens forneciam, alternativamente, a vanguarda e a retaguarda. Colocava-se no meio os cruzados recém-
chegados e pouco habituados às guerras da Ásia: os cavaleiros os cercavam, os protegiam ‘como uma
mãe a seu filho’, no dizer orgulhoso de um deles[156]. Esses auxiliares passageiros (NT: duques,
condes, reis etc.) ordinariamente reconheciam assaz mal essa devoção, servindo menos os cavaleiros que
os atrapalhando. Orgulhosos e ardorosos em sua chegada, bem certos que um milagre se faria
propositadamente em seu favor, eles não deixavam de romper as tréguas; arrastavam os cavaleiros para
perigos inúteis, conseguiam bater-se e partiam, deixando-lhes o peso da guerra e os acusando de tê-los
mal apoiado. Os Templários formavam a vanguarda em Mançura (Almançora), no Egito, quando esse
jovem louco do conde do Artois teimou em perseguir os inimigos e, apesar dos conselhos dos
Templários, lançou-se para dentro da cidade; os cavaleiros o seguiram por honra e foram todos mortos
(NT: vide Capítulo VIII, Livro IV, Tomo II, da ‘História da França’, já por mim traduzido e publicado).

Acreditava-se, com razão, não ser jamais possível fazer o suficiente em favor de uma ordem
tão devota e útil. Os privilégios mais magníficos foram-lhe acordados. De início, eles não podiam ser
julgados senão pelo Papa; mas, um juiz colocado tão longe e tão alto não era nunca reclamado; assim, os
Templários eram juízes em suas próprias causas. Eles também podiam ser aí testemunhas, tamanha era a
fé que se tinha em sua lealdade. Era-lhes proibido conceder qualquer de suas comendadorias ante a
solicitação dos nobres ou dos reis. Não pagavam direitos, nem tributos, nem pedágios.

Todo mundo, naturalmente, desejava participar de tais privilégios. O próprio Inocente III
desejou ser afiliado à Ordem; Filipe o Belo pediu em vão...

Mas, não tivesse a Ordem esses grandes e magníficos privilégios, ainda assim a multidão teria a
ela se apresentado. Na imaginação das pessoas, o Templo tinha um atrativo de mistério e de vago terror.
As recepções ocorriam nas igrejas da Ordem, à noite e portas fechadas, e os membros inferiores eram
delas excluídos. Dizia-se que se o próprio rei da França lá penetrasse, dali não mais sairia.

A forma de recepção fora tomada de empréstimo dos ritos dramáticos e bizarros, dos mistérios
com os quais a igreja antiga não temia cercar as coisas santas. O recipiendário era inicialmente
apresentado como um pecador, um mau cristão, um renegado. A exemplo de São Pedro, ele negava; a
negação, nesta pantomima, expressava-se por um ato: cuspir na cruz[157]. A Ordem se encarregava de
reabilitar esse renegado, de erguê-lo tanto mais alto quanto mais profunda fosse sua queda, assim como,
na Festa dos Loucos ou Idiotas (fatuorum), o homem oferecia à Igreja, que devia regenerá-lo, a
homenagem mesmo de sua imbecilidade, de sua infâmia. Essas comédias sacras, cada dia menos
compreendidas, tornavam-se cada vez mais perigosas, mais aptas a escandalizar uma era prosaica, que
não via além da letra e perdia o sentido do símbolo.

Elas tinham aqui um outro perigo: o orgulho do Templo podia deixar nessas formas um equívoco
ímpio. O recipiendário podia acreditar que, para além do cristianismo vulgar, a Ordem revelar-lhe-ia
uma religião mais alta, abrir-lhe-ia um santuário por trás do santuário. Este nome do TEMPLO não era
sagrado somente para os cristãos. Se para estes expressava o Santo Sepulcro, ele lembrava aos judeus e
aos muçulmanos o Templo de Salomão[158]. A idéia do TEMPLO, mais elevada e mais geral que aquela
da própria Igreja, planava de alguma sorte por cima de qualquer religião: a Igreja é datada e o Templo
não. Contemporâneo de todas as eras, o Templo era como um símbolo da perpetuidade religiosa. Mesmo
após a destruição dos Templários, o Templo subsiste, ao menos como tradição, nos ensinos de uma
porção de sociedades secretas, até mesmo na dos Rosacruzes, até mesmo na dos Francos-
Maçons[159].

A Igreja é a casa do Cristo, o Templo aquela do Espírito Santo. Os gnósticos tinham como sua
grande festa não o Natal ou a Páscoa, mas o Pentecostes, o dia onde o Espírito desceu. Até que ponto
essas antigas seitas subsistiram até à Idade Média? Os Templários foram a elas afiliados? Tais questões,
malgrado as engenhosas conjecturas dos modernos, permanecerão para sempre obscuras, dada a
insuficiência de dados[160].

Essas doutrinas interiores do Templo parecem querer, ao mesmo tempo, se mostrar e se


esconder. Crê-se reconhecê-las seja nos emblemas estranhos esculpidos nos portais de algumas igrejas,
seja no último ciclo épico da Idade Média, nesses poemas onde a cavalaria depurada não é mais que uma
odisséia, uma viagem heróica e pia para a procura do Graal. Chamava-se assim o santo cálice que
recolheu o sangue do Salvador[161]. A simples visão deste cálice prolonga a vida em quinhentos anos.
Somente as crianças podem se aproximar dele sem morrer. Cercando o Templo que o guarda, velam, em
armas, os Templistas ou Cavaleiros do Graal[162].

Esta cavalaria mais que eclesiástica, este frio e puríssimo ideal que foi o fim da Idade Média e
seu último sonho, encontrava-se, por sua própria altivez, estranha à toda realidade, inacessível à toda
prática. O Templista permaneceu nos poemas, figura enevoada e quase divina. O Templário afundou na
brutalidade.

Eu não desejaria me associar aos perseguidores dessa grande Ordem. O inimigo dos Templários
os passou a limpo sem desejá-lo; as torturas pelas quais ele arrancou-lhes as confissões vexatórias
parecem, na verdade, uma presunção de inocência. Somos tentados a não acreditar nos desgraçados que
se acusam nas dificuldades. Se houve nódoas, somos tentados a não mais vê-las, carbonizadas que foram
pelas chamas das fogueiras.

Subsistem, entretanto, graves confissões obtidas sem a questão[163] e as torturas. Mesmo os


pontos que não foram provados, nem por isso são menos verossímeis para quem conhece a natureza
humana, para quem considera seriamente a situação da Ordem nos seus últimos tempos.

Era natural que o relaxamento se introduzisse entre os monges-guerreiros, entre os cadetes


(caçulas) da nobreza que corriam as aventuras distantes da cristandade, com frequência longe dos olhos
de seus chefes, entre os perigos de uma guerra de morte e as tentações de um clima fervente, de uma
região de escravos, da luxuriante Síria. O orgulho e a honra os sustentaram tanto quanto houve esperança
pela Terra Santa. Apreciemo-los por terem resistido por tanto tempo, quando, a cada cruzada, sua
esperança era tão tristemente desapontada, quando todo vaticínio mentia, que os milagres prometidos
sempre se adiavam. Não havia semana que o sino de Jerusalém não soasse a aparição dos Árabes na
planície desolada. Cabia sempre aos Templários, aos Hospitalários, montar a cavalo e sair das
muralhas... Por fim, eles perderam Jerusalém, depois São João d’Acre. Soldados desamparados,
sentinelas perdidas, devemos mesmo ficar espantados se, ao anoitecer desta batalha de dois séculos, seus
braços tombaram?
A queda é grave após grandes esforços. A alma, alçada tão ao alto no heroísmo e na santidade,
cai bem pesada à terra... Doente e amarga, ela mergulha no mal com uma fome selvagem, como para se
vingar por ter acreditado.

Tal parecia ter sido a queda do Templo. Tudo o que houvera de santo na Ordem tornou-se
pecado e nódoas. Após ter ido do homem a Deus, ela se virou de Deus para a Besta[164]. As piedosas
ágapes, as fraternidades heróicas, cobriram os monges de acusações de amores sujos[165]. Eles
esconderam a infâmia colocando-se mais à frente dela. E o orgulho também encontrava sua conta: este
povo eterno, sem família nem descendência carnal, recrutado pela eleição e pelo temperamento, fazia
questão de exibir seu desprezo pela mulher[166], bastando-se a si próprio e não amando nada que
estivesse fora de si.

Assim como se passavam sem mulheres, eles também se passavam sem padres, pecando e se
confessando entre si[167]. E também se passaram sem Deus. Eles tentaram as superstições orientais, a
magia sarracena. Inicialmente simbólica, a negação tornou-se real e abjuraram um Deus que não dava a
vitória, tratando-O como um aliado infiel que os traía, O ultrajaram e cuspiram sobre a cruz.

Seu verdadeiro deus, ao que parece, tornou-se a própria Ordem, e eles adoraram o Templo e os
Templários, seus chefes, como Templos vivos. Eles simbolizaram, pelas cerimônias mais imundas e mais
repugnantes, a devoção cega, o abandono completo da vontade. A Ordem, fechando-se assim, caiu numa
feroz religião de si mesma, num satânico egoísmo: o que há de soberanamente diabólico no diabo é o fato
dele adorar-se.

Eis aí, dir-se-á, apenas conjecturas. Mas elas jorraram mui naturalmente de um boa quantidade
de confissões obtidas sem recurso à tortura, particularmente na Inglaterra[168].

Que isso fosse o caráter geral da Ordem ou que os estatutos tenham se tornado expressamente
vergonhosos e ímpios, é algo que estou longe de afirmar. Tais coisas não se escrevem. A corrupção entra
numa Ordem por conivência mútua e tácita. As formas subsistem, mudando de sentido, e pervertidas por
uma má interpretação que ninguém confessa em alto som.

Mas, mesmo quando essas infâmias, essas impiedades, tivessem sido universais na Ordem, elas
não teriam bastado para levar à sua destruição. O clero as teria coberto e abafado, como tantas outras
desordens eclesiásticas. A causa da ruína do Templo foi que ele era muito rico e por demais poderoso.
Houve uma outra causa mais íntima, mas eu a contarei na hora apropriada.

À medida que o fervor das guerras santas diminuía na Europa, à medida que ia-se menos à
cruzada, doava-se ainda mais ao Templo para desencargo de consciência. Os afiliados da Ordem eram
inumeráveis. Bastava pagar dois ou três denários por ano. Muitas pessoas ofereciam todos os seus bens,
suas próprias pessoas. Dois condes da Provença desta forma se entregaram a ela. Um rei de Aragão
legou seu reino (Alfonso o Batalhador, 1131-1132), mas o reino não consentiu.

Pode-se julgar o número prodigioso das possessões do Templários pelo das terras, fazendas,
fortes e ruínas que, em nossas cidades ou nos nossos campos, ainda carregam o nome do Templo. Diz-se
que possuíam mais de nove mil mansões na cristandade[169]. Numa única província da Espanha, no reino
de Valença, eles tinham dezessete praças-fortes. Eles compraram, dinheiro sonante, o reino de Chipre,
que não puderam, é verdade, manter.
Com tamanhos privilégios, com tantas riquezas e tão extensas possessões, era muito difícil
permanecerem humildes[170]. Ricardo Coração de Leão, moribundo, disse: “Deixo minha avareza para
os monges de Cîteaux, minha luxúria para os monges cinza, minha soberba para os Templários”.

Ante a falta de muçulmanos, essa milícia inquieta e indomável guerreava contra os cristãos. Eles
fizeram a guerra ao rei de Chipre e ao príncipe de Antióquia. Destronaram o rei de Jerusalém Henrique II
e o duque da Croácia. Devastaram a Trácia e a Grécia. Todos os cruzados que retornavam da Síria não
falavam senão das traições dos Templários, de seus laços com os infiéis[171]. Eles estavam
notoriamente em relações com os Assassinos da Síria (vide Hammer, ‘Hist. des Assassins’, trad. por
MM. Hellert e Larounais); o povo observava com pavor a analogia de suas vestes com aquela dos
sectários do Velho da Montanha. Eles haviam acolhido o Sultão em suas casas, permitido o culto
maometano, advertido os infiéis da chegada de Frederico II (Dupuy, p. 5-6). Em suas rivalidades furiosas
contra os Hospitalários, eles chegaram mesmo a lançar flechas no Santo Sepulcro[172]. Assegurava-se
que haviam matado um chefe muçulmano que desejava se converter ao cristianismo para não mais pagar-
lhes tributo.

A Casa da França, particularmente, acreditava ter muito a reclamar dos Templários. Eles haviam
matado Roberto de Brienne em Atenas, se recusado a ajudar pagar o resgate de São Luís[173] e, em
último lugar, se declarado a favor da Casa de Aragão contra a de Anjou.

Entretanto, a Terra Santa fora definitivamente perdida em 1191 e a cruzada terminara. Os


cavaleiros retornavam inúteis, formidáveis, odiosos. Eles traziam consigo, para o centro desse reino
esgotado e sob os olhos de um rei famélico, um monstruoso tesouro de cento e cinquenta mil florins de
ouro e, em prata, a plena carga de dez mulas[174]. O que iriam fazer, em plena paz, com tantas forças e
riquezas? Não estariam eles tentados a criarem para si uma soberania no Ocidente, como os Cavaleiros
Teutônicos o fizeram na Prússia, os Hospitalários nas ilhas do Mediterrâneo e os Jesuítas no
Paraguai[175]? Se os Templários tivessem se unido aos Hospitalários, nenhum rei do mundo teria
conseguido resistir-lhes[176]. Não havia lugar onde não tivessem praças-fortes. Eles estavam aliados a
todas as famílias nobres. Eles não eram no total, é verdade, além de quinze mil cavaleiros; mas eram
homens aguerridos ao meio de um povo que não o era mais, desde a cessação das guerras privadas dos
senhores feudais. Eram cavaleiros admiráveis, os rivais dos Mamelucos, tão inteligentes, lestos e rápidos
quanto a maciça cavalaria feudal era pesada e inerte. Podiam ser vistos, em qualquer lugar, cavalgando
orgulhosamente seus admiráveis cavalos árabes, seguidos, cada um, de um escudeiro, de um pajem, de
um servo d’armas, sem contar os escravos negros. Eles não podiam variar suas vestimentas, mas
possuíam preciosas armas orientais com um aço de fina têmpera e ricamente damasquinadas.

Eles bem conheciam sua própria força. Os Templários da Inglaterra ousaram dizer ao rei
Henrique III: “Vós sereis rei, tanto quanto fordes justo”. Na boca deles, esta palavra era uma ameaça.
Tudo isso dava a pensar a Filipe o Belo.

Filipe não perdoara a muitos deles por não terem subscrito o apelo contra Bonifácio senão com
reserva, sub protestationibus. Eles recusaram o pedido de admissão do rei na Ordem: não só o haviam
recusado mas, dupla humilhação, o haviam servido. Filipe devia-lhes dinheiro[177]. O Templo era uma
espécie de banco, como frequentemente o eram os templos da antiguidade (vide Mitford, ‘The History of
Greece’). Quando, em 1306, Filipe encontrou um asilo junto aos Templários contra o povo sublevado,
esta foi para ele, sem dúvida alguma, uma ocasião para admirar esses tesouros da Ordem; os cavaleiros
eram muito confiantes, muito orgulhosos, para dele esconderem qualquer coisa.
A tentação era grande para o rei[178]. Sua vitória de Mons-en-Puelle o arruinara. Já obrigado a
entregar a Guiana, ele também o fora a largar a Flandres flamenga. Seu desgaste pecuniário era extremo
e, entretanto, era-lhe necessário extinguir um imposto contra o qual a Normandia se sublevara. O povo
encontrava-se já tão irritado, que se proibiu a reunião de mais de cinco pessoas. O rei não podia sair
desta situação desesperada senão por algum grande confisco. Ora, tendo os judeus sido expulsos, o golpe
não podia ser desferido senão sobre os sacerdotes ou sobre os nobres; ou, então, sobre uma ordem que
pertencesse a uns e a outros mas que, por isso mesmo, não pertencendo exclusivamente nem a estes, nem
àqueles, não seria defendida por ninguém. Longe de serem defendidos, os Templários foram antes
atacados por seus defensores naturais. Os monges os perseguiram. Os nobres, os maiores senhores da
França, deram por escrito sua adesão ao processo.

Filipe o Belo fora educado por um dominicano e tinha por confessor um dominicano. Durante
muito tempo, esses monges tinham sido amigos dos Templários, a ponto, mesmo, de se engajarem a
solicitar a cada moribundo que confessavam um legado para o Templo[179]. Mas, pouco a pouco, as
duas ordens tornaram-se rivais. Os Dominicanos possuíam uma ordem militar deles, os Cavalieri
Gaudenti[180], que não teve grande progresso. A esta rivalidade acidental deve-se adicionar uma causa
fundamental do ódio: os Templários eram nobres, os dominicanos, os Mendicantes, eram em grande parte
andarilhos, embora em suas Ordens Terceiras contassem com laicos ilustres e, mesmo, reis.

Tanto nos Mendicantes, como nos juristas conselheiros de Filipe o Belo, havia contra os nobres,
contra os homens d’armas, os cavaleiros, um fundo comum de malquerença, um levedo de ódio nivelador.
Os juristas deviam odiar os Templários como monges e os dominicanos os detestavam como homens
d’armas, como monges mundanos que reuniam os benefícios da santidade e o orgulho da vida militar. A
Ordem de São Dominique (ou São Domingos), inquisidora desde seus nascimento, podia ter se
acreditado obrigada em consciência a destruir, em seus rivais, os descrentes, duplamente perigosos pela
importação das superstições sarracenas e por suas ligações com os místicos ocidentais, os quais
desejavam apenas adorar o Espírito Santo.

O ataque não foi imprevisto, como querem alguns. Os Templários tiveram tempo de vê-lo
chegar[181]. Mas o orgulho os destruiu: eles sempre acreditaram que ninguém ousaria.

De fato, o rei hesitava. Ele tentara, inicialmente, meios indiretos. Por exemplo, ele solicitara ser
admitido à Ordem. Se tivesse sido aceito, ele teria se feito Grão-Mestre, a exemplo de Ferdinando o
Católico para as ordens militares da Espanha, aplicado os bens do Templo em seu interesse e a Ordem
teria sido conservada.

Desde a perda da Terra Santa, e mesmo anteriormente, deu-se a entender aos Templários que
seria urgente reuni-los aos Hospitalários[182]. Reunidos a uma ordem mais dócil, o Templo teria
apresentado pouca resistência aos reis.

Mas eles não quiseram ouvir. O Grão-Mestre Jacques de Molay, pobre cavaleiro da Borgonha,
mas velho e bravo soldado que vinha de se cobrir de honras no Oriente pelos últimos combates que os
cristãos aí ofereceram, respondeu, é verdade, que São Luís outrora propusera a reunião das duas ordens,
mas que o rei da Espanha não consentira; que para que os Hospitalários fossem reunidos aos Templários,
seria necessário que eles muito se emendassem; que os Templários tinham sido mais exclusivamente
fundados para a guerra[183]. Ele findou com essas palavras altivas: “Encontra-se muita gente que
desejaria retirar dos religiosos seus bens, ao invés de a eles doar... Mas se esta união das duas ordens for
feita, esta Religião será tão forte e tão poderosa, que bem poderá defender seus direitos contra qualquer
pessoa do mundo” (ibidem, p. 181).

Enquanto os Templários resistiam tão orgulhosamente a qualquer concessão, os maus boatos iam
se fortificando. Eles mesmos para isso contribuíram. Um cavaleiro dizia a Raul (Raoul) de Presles, um
dos homens mais graves do tempo: “Que no capítulo-geral da Ordem, havia uma coisa tão secreta que, se
para sua desgraça, alguém a visse, mesmo que fosse o rei da França, nenhum temor de tormento (tortura)
impediria os membros do capítulo de matá-lo, segundo seu poder”[184].

Um Templário recentemente admitido protestara contra a forma de recepção perante o oficial de


Paris[185]. Um outro foi disto se confessar a um franciscano que deu-lhe por penitência jejuar todas as
sextas-fetas, durante um ano, sem camisa (Ibid, p. 241). Um terceiro, enfim, que era da casa do Papa,
“ingenuamente confessou todo o mal que reconhecera em sua Ordem, na presença de um cardeal, primo
seu, o qual, no mesmo instante, escreveu o depoimento” (Dupuy, p. 13).

Ao mesmo tempo, fazia-se correr rumores sinistros sobre as prisões terríveis onde os chefes da
Ordem mergulhavam os membros recalcitrantes. Um dos cavaleiros declarou “que um de seus tios havia
entrado na Ordem são e alegre, com cães e falcões; ao cabo de três dias, estava morto”[186].

O povo acolhia avidamente esses rumores pois achava os Templários muito ricos e pouco
generosos[187]. Ainda que o Grão-Mestre, em seus interrogatórios, vanglorie a munificência da Ordem,
uma das acusações levantada contra esta opulenta corporação era “que as esmolas não se faziam como
convinha”[188].

As coisas estavam maduras. O rei convocou a Paris o Grão-Mestre e os chefes; ele os afagou, os
cobriu de gentilezas, os embalou. Eles vieram morder a linha como os protestantes no dia de São
Bartolomeu.

O rei tinha acabado de aumentar seus privilégios[189]. Ele rogara ao Grão-Mestre que aceitasse
ser padrinho de um de seus filhos. No dia 12 de outubro de 1307, Jacques de Molay, designado por ele
com outras nobres pessoas, segurara seu manto no enterro da cunhada de Filipe (Baluze, Pap. Aven., p.
590-1). No dia 13 (NT: uma sexta-feira), ele foi detido com os cento e quarenta Templários que estavam
em Paris. No mesmo dia, sessenta deles o foram no Beaucaire, além de uma multidão de outros por toda a
França. Procurou-se assegurar o assentimento do povo e da Universidade[190]. No dia mesmo da
detenção, os burgueses foram chamados pelas paróquias e pelas confrarias ao jardim do rei na Cité; os
monges aí pregaram. Pode-se julgar a violência dessas pregações populares pela contida na carta real
que correu por toda a França:

“Uma coisa amarga, uma coisa deplorável, uma coisa horrível de se pensar, terrível de escutar!
coisa execrável de perversidade, detestável de infâmia!... Um espírito dotado de razão se compadece e
se confunde em sua compaixão, vendo uma natureza que se auto-exila para fora dos limites da natureza,
que esquece seu princípio, que desconhece sua dignidade, que, pródiga de si, assimila-se aos animais
desprovidos de razão; o que digo? que ultrapassa a brutalidade dos próprios animais...” (Dupuy, p. 196-
197). Julgue-se com qual terror e arrebatação uma tal carta foi recebida por qualquer alma cristã. Era
como um som da trombeta do Juízo Final.

Seguia-se, então, a indicação sumária das acusações: negação, traição da cristandade em


benefício dos infiéis, iniciação desprezível, prostituição mútua; enfim, o cúmulo do horror: cuspir na
cruz[191]!
Tudo isso fora denunciado por Templários. Conta-se que dois cavaleiros, um Gascão e um
Italiano, ambos na prisão por seus malfeitos, teriam revelado todos os segredos da Ordem (Baluze, ‘Pap.
aven.’, p. 99-100).

O que mais instigava a imaginação eram os rumores estranhos que corriam sobre um ídolo que
os Templários teriam adorado. As narrativas variavam. Segundo alguns, era uma cabeça com barbas
longas; outros diziam tratar-se de uma cabeça com três faces. Ela ainda possuiria olhos brilhantes. De
acordo com uns, seria o crânio de um homem; outros o substituíam por um de gato[192].

Fossem ou não verdadeiros esses rumores, Filipe o Belo não perdeu tempo. No dia mesmo da
detenção, ele veio, de sua própria pessoa, se estabelecer no Templo com seu tesouro e seu Tesouro das
Cartas, com um exército de juristas para lavrar, registrar e inventariar. Esta bela colheita o fizera
subitamente rico.

Capítulo IV

(Sequência)

Destruição da Ordem do Templo.

1307 a 1314.

--------------------

O espanto do Papa foi extremo quando soube que o rei se passava dele na perseguição de uma
ordem que não podia ser julgada senão pela Santa Sé. A cólera fez-lhe esquecer sua servilidade
ordinária, sua posição precária e dependente no meio dos estados do rei. Ele suspendeu os poderes dos
juízes ordinários, arcebispos e bispos, aqueles mesmos dos inquisidores.

A resposta do rei é rude. Ele escreve ao Papa: que Deus detesta os tíbios, que esses vagares são
uma espécie de conivência com os crimes dos acusados, que o Papa deveria antes incentivar os bispos.
“Seria uma grave injúria aos prelados retirar-lhes o ministério que recebem de Deus. Eles não merecem
tal ultraje; eles não o suportarão; o rei não poderá tolerá-lo sem violar seu juramento... Santo Padre, qual
é o sacrilégio que ousará vos aconselhar menosprezar aqueles que Jesus Cristo envia ou, mesmo, o
próprio Jesus[193]? Se forem suspensos os inquisidores, a questão nunca terminará... O rei não tomou a
coisa em mãos como acusador, mas como campeão da fé e defensor da Igreja, do que deve prestar contas
a Deus”[194].

Filipe deixou o Papa acreditar que ia entregar-lhe os prisioneiros em mãos: ele apenas se
encarregava de guardar os bens para aplicá-los no serviço da Terra Santa (25 de dezembro de 1307). Seu
objetivo era obter que o Papa devolvesse aos bispos e aos inquisidores seus poderes, os quais haviam
sido por ele, Papa, suspensos. O rei enviou setenta e dois Templários a Poitiers e mandou partir de Paris
os principais da Ordem, mas não os deixou avançar além de Chinon. O Papa se contentou; ele obteve as
confissões daqueles de Poitiers. Ao mesmo tempo, ele levantou a suspensão dos juízes ordinários,
reservando-se somente o julgamento dos chefes da Ordem.

Este frouxo proceder não podia satisfazer o rei. Se a coisa se arrastasse assim, em voz baixa, se
fosse perdoada, como no confessionário, não haveria como manter os bens dos Templários. Desta forma,
enquanto o Papa imaginava tudo manter em suas mãos, o rei mandava proceder, em Paris, por seu
confessor, inquisidor-geral da França. Rapidamente foram obtidas cento e quarenta confissões por
torturas; o ferro e o fogo foram empregados[195]. Essas confissões, uma vez divulgadas, o Papa não
podia mais ajeitar a coisa. Ele enviou dois cardeais a Chinon para perguntar aos chefes, ao Grão-Mestre,
se tudo aquilo era verdade; os cardeais os persuadiram a confessar e eles a isso se resignaram[196]. O
Papa, em efeito, os reconciliou e os recomendou ao rei. Ele acreditava tê-los salvo.
Filipe o deixava falar e seguia seu caminho. No início de 1308, ele fez prender, por seu primo, o
rei de Napóles, todos os Templários da Provença[197]. Na Páscoa, os estados do reino foram reunidos
em Tours. O rei fez com que lhe fosse endereçado um discurso singularmente violento contra o clero: “O
povo do reino da França dirige ao rei urgentes... Que ele se lembre que o príncipe dos filhos de Israel,
Moisés, o amigo de Deus a quem o Senhor falava face a face, vendo a apostasia dos adoradores do
bezerro de ouro, disse: Que cada um tome o gládio e mate seu irmão...”. Ele não foi, para isto, pedir o
consentimento de seu irmão Aarão, feito sumo-sacerdote por ordem de Deus... Por que, então, o rei
cristianíssimo não procederia igualmente, mesmo contra todo o clero, se o clero assim errasse ou
apoiasse aqueles que erram?”[198]

Apoiando esse discurso, vinte e seis príncipes e senhores se constituíram acusadores e deram
procuração para agir contra os Templários perante o Papa e o Rei. A procuração é firmada pelos duques
da Borgonha e da Bretanha, pelos condes de Flandres, de Nevers e da Auvérnia, pelo visconde de
Narbonne, pelo conde Talleyrand de Périgord. Nogaret ousadamente assina entre Lusignan e Coucy
(Dupuy, p. 235).

Dupuy conta que, armado dessas adesões, o rei “foi a Poitiers, acompanhado de uma enorme
multidão de pessoas, que eram seus procuradores, e que mantivera ao seu lado para receber seus
pareceres a respeito de dificuldades que pudessem advir” (Dupuy, p. 31).

Chegando, ele humildemente beijou os pés do Papa. Mas este logo viu que nada obteria. Filipe
não podia aguardar nenhuma circunspecção. Era-lhe necessário tratar rigorosamente as pessoas para
poder manter os bens. O Papa, fora de si, desejava sair da cidade, escapar ao seu tirano; quem sabe se
não teria até fugido da França? Mas ele não era homem de partir sem seu dinheiro. Quando se apresentou
às portas com suas mulas, suas bagagens, suas bolsas, não pôde passar e viu que era, não menos que os
Templários, um prisioneiro do rei. Várias vezes, ele tentou fugir, sempre inutilmente. Parecia que seu
todo-poderoso mestre se divertia com os tormentos desta alma miserável que ainda se debatia.

Clemente então ficou e pareceu se conformar. Ele entregou, em 1º de outubro de 1308, uma bula
dirigida aos arcebispos e bispos. Esta peça é singularmente breve e precisa, contra o hábito da corte de
Roma. É evidente que o Papa escreveu contra sua vontade e que alguém segurou-lhe a mão. Alguns
bispos, segundo esta bula, haviam escrito que não sabiam como deviam ser tratados os acusados que se
obstinavam a negar e aqueles que se retrataram de suas confissões. Disse o Papa: “essas coisas não
foram deixadas sem solução pelo direito escrito (jura scripta), do qual sabemos que vários dentre vós
têm pleno conhecimento; para o presente, não entendemos necessário fazer um novo direito para este
caso, e desejamos, portanto, que vós procedeis segundo o exige o direito”.

Havia, aqui, uma perigoso dubiedade. Jura scripta deveria ser entendido como Direito Romano,
Direito Canônico ou regulamentos da Inquisição?

O perigo era tanto mais real, que o rei não se soltava dos prisioneiros para enviá-los ao Papa,
como o fizera esperar. Na entrevista, ele ainda o agradou e prometeu-lhe os bens para consolá-lo por não
ter recebido os prisioneiros; esses bens deviam ser reunidos àqueles que o Papa designaria[199]. Era
pegá-lo pelo seu ponto fraco; Clemente estava muito inquieto acerca do que seria feito desses bens[200].

O Papa devolvera (05 de julho de 1308) aos juízes ordinários, arcebispos e bispos, seus
poderes um instante suspensos. Ainda no dia 1º de agosto, ele escrevia que se podia seguir o Direito
comum. E, aos 12, ele remetia a questão a uma comissão. Os comissários deviam instruir o processo na
província de Sens, em Paris, bispado dependente de Sens. Outros comissários foram nomeados para fazer
outro tanto nas outras partes da Europa: para a Inglaterra, o arcebispo de Canterbury, para a Alemanha,
aqueles de Mainz, de Colônia e de Tréveris (Trier). O julgamento devia ser pronunciado no prazo de dois
anos, fora da França, em Viena, no Delfinado, em terras do Império.

A comissão, composta principalmente de bispos[201], era presidida por Gilles d’Aiscelin,


arcebispo de Narbonne, homem suave e fraco, de muitas letras e de pouca coragem. O rei e o Papa, cada
um por seu lado, acreditavam que este homem era a si. O Papa acreditou acalmar o descontentamento de
Filipe com mais segurança ao juntar à comissão o confessor do rei, monge dominicano e grande
inquisidor da França, aquele que começara o processo com tanta violência e audácia.

O rei não reclamou. Ele tinha necessidade do Papa. A morte do imperador Alberto d’Áustria (1º
de maio de 1308) oferecia à Casa da França uma alta perspectiva. O irmão de Filipe, Carlos (Charles)
de Valois, cujo destino era tudo pedir e nada ganhar, portou-se como candidato ao Império. Se tivesse
sido bem sucedido, o Papa para sempre se tornaria servidor e servo da Casa da França. Clemente
escreveu ostensivamente em favor de Carlos de Valois e, secretamente, contra o mesmo.

Desde então, não havia mais segurança para o Papa nas terras do rei. Ele conseguiu sair de
Poitiers e lançou-se para dentro de Avignon (março de 1309). Ele se comprometara a não deixar a França
e, desta forma, não violava, apenas iludia, sua promessa. Avignon era a França, mas não era a França.
Era uma fronteira, uma posição mista, uma espécie de asilo, como Genebra foi para Calvino e Ferney
para Voltaire. Avignon dependia de vários e de ninguém. Era terra do Império, um velho município, uma
república sob dois reis: o rei de Nápoles, como conde da Provença e o rei da França, como conde de
Toulouse, possuíam, cada um, uma metade de Avignon. Mas o Papa ia ser bem mais rei que ambos, ele,
cuja estadia atrairia muito dinheiro para esta pequena cidadezinha.

Clemente acreditava-se livre, mas arrastava sua corrente. O rei o prendia pelo processo de
Bonifácio. Mal estabelecido em Avignon, ele toma conhecimento que Filipe mandara-lhe levar, pelos
Alpes, um exército de testemunhas. À sua testa, marchava este capitão de Ferentino, este Reinaldo de
Supino que, no caso de Anagni, fora o braço direito de Nogaret. A três léguas de Avignon, as testemunhas
caíram numa embosca que lhes fora preparada. Reinado se salvou a duras penas em Nîmes e mandou
lavrar ato, pela gente do rei, dessa armadilha (Dupuy, ‘Differ.’, p. 288).

O Papa escreveu bem rápido para Carlos de Valois rogando-lhe acalmar seu irmão. Ele
escreveu ao próprio rei (23 de agosto de 1309) que, se as testemunhas foram retardadas em seu caminho,
não era sua culpa, mas do próprio pessoal do rei, que deveria ter provido a segurança delas (ibid, p. 295,
293-4). Filipe reprovava-lhe adiar indefinidamente o exame das testemunhas, velhas e doentes, e
aguardar que estivessem mortas. Contava-se que os partidários de Bonifácio tinham matado ou torturado
testemunhas; uma delas fora encontrada morta em seu próprio leito. O Papa respondeu que não sabia de
nada disso e que sabia apenas que, durante esse longo processo, as questões dos reis, dos prelados, do
mundo inteiro, dormiam e aguardavam. Uma das testemunhas, que diziam ter desaparecido, encontrava-se
precisamente na França e com Nogaret.

O rei imputara ao Papa certas cartas injuriosas. O Papa respondeu que elas eram, pelo latim e
pela ortografia, manifestamente indignas da corte de Roma e, então, as mandou queimar. Quanto à
persecução de seus autores, uma experiência recente provou que esses processos súbitos contra
personagens importantes têm uma triste e perigosa origem”[202].
Esta carta do Papa era, no entender do rei, uma humilde e tímida profissão de independência,
uma revolta de joelhos. A alusão aos Templários, que a finaliza, indica suficientemente a esperança que o
Papa coloca no embaraço no qual este processo devia jogar Filipe.

A comissão pontifícia, reunida no dia 07 de agosto de 1309, no bispado de Paris, fora entravada
por muito tempo. O rei tinha tanta vontade de ver os Templários justificados quanto o Papa de condenar
Bonifácio. As testemunhas de acusação contra Bonifácio eram maltratadas em Avignon, as testemunhas de
defesa, no caso dos Templários, eram torturadas em Paris. Os bispos em nada obedeciam à comissão
pontifícia e a esta não enviavam, de forma alguma, os prisioneiros[203]. Todo dia, a comissão assistia a
uma missa, depois se reunia; um meirinho gritava à porta da sala: “Se alguém desejar defender a ordem
da milícia do Templo, basta se apresentar”. Mas ninguém aí se apresentava. A comissão retornava no dia
seguinte, sempre inutilmente.

Enfim, tendo o Papa, por uma bula (13 de setembro de 1309), aberto a instrução do processo
contra Bonifácio, o rei permitiu, em novembro, que o Grão-Mestre do Templo fosse conduzido perante os
comissários[204]. O velho cavaleiro demonstrou, inicialmente, muita firmeza. Ele disse que a Ordem era
privilegiada da Santa Sé e que lhe parecia muito chocante que a igreja romana desejasse subitamente
proceder à sua destruição, quando ela, igreja, suspendera a deposição do imperador Frederico II durante
trinta e dois anos.

Ele ainda disse que estava pronto para a defesa da Ordem, segundo seu poder e capacidade; que
veria a si mesmo como um miserável, se não defendesse uma Ordem da qual recebera tanta honra e mais;
apenas, porém, temia não ter sabedoria e reflexão o suficiente para a questão; que era prisioneiro do rei e
do Papa e que não possuía senão quatro denários para dispender para a defesa e nenhum outro conselho
senão o de um irmão-servente[205]; que, de resto, a verdade se mostraria, não somente pelo testemunho
dos Templários, mas pelo dos reis, príncipes, prelados, duques, condes e barões, em todas as partes do
mundo.

Se o Grão-Mestre assim se colocasse como defensor da Ordem, ele emprestaria uma grande
força à defesa e, sem dúvida, comprometeria o rei. Os comissários o incentivaram a refletir de forma
mais madura e fizeram-lhe ler seu depoimento perante os cardeais. Este depoimento não provinha
diretamente dele mesmo; por pudor ou por algum outro motivo, ele remetera os cardeais a um irmão-
servente, a quem encarregara de falar por si (ibid, p. 242). Mas, desde que se encontrou perante a
comissão, e que o pessoal da igreja leu-lhe, em alto e bom som, essas tristes confissões, o idoso
cavaleiro não pôde ouvir com sangue frio tais coisas ditas à queima-roupa. Ele fez o sinal da cruz e disse
que, fossem os senhores comissários[206] do Papa outras pessoas, ele teria algo a mais a acrescentar-
lhes. Os comissários responderam que não eram pessoas a dispensar uma oferta de batalha. – “Não é isso
que quero dizer”, disse o Grão-Mestre, “mas que agradasse a Deus que, num tal caso, pudéssemos
observar contra os perversos os costumes dos Sarracenos e dos Tártaros, decapitando-lhes a cabeça ou
cortando-os ao meio”[207].

Esta resposta fez os comissários saírem de sua calma ordinária. Eles responderam com uma fria
dureza: “Aqueles que a Igreja considera heréticos, ela os julga heréticos e abandona os obstinados ao
tribunal secular”.

O homem de Filipe o Belo, Plasian, assistia à esta audiência sem ter sido para ela chamado.
Jacques de Molay, temeroso da impressão que suas palavras haviam produzido sobre esses sacerdotes,
acreditou que valia mais se confiar a um cavaleiro[208]. Ele pediu permissão para conferenciar com
Plasian; este o incentivou, como amigo, a não se deixar destruir e o convenceu a pedir um adiamento até à
sexta-feira seguinte. Os bispos concederam-lhe e, de bom coração, mais tempo dar-lhe-iam[209].

Na sexta-feira, Jacques de Molay reapareceu, mas completamente mudado. Sem dúvida, Plasian
o trabalhara em sua prisão. Quando lhe foi expressamente perguntado se desejava defender a Ordem, ele
respondeu que não e apenas rogou aos comissários escreverem ao Papa para que viesse, o quanto antes, à
sua presença. O Grão-Mestre acrescentou, com a ingenuidade da impaciência e do medo: “Eu sou mortal,
os outros também; não temos a nosso dispor senão o momento presente”[210].

O Grão-Mestre, abandonando assim a defesa, dela tirava a unidade e a força que ela poderia
receber de si. Ele pediu somente para dizer três palavras em favor da Ordem. Primeiro, que não havia
nula outra igreja onde o serviço divino se fizesse mais honradamente que naquelas dos Templários. Em
segundo lugar, que não tinha conhecimento de nenhuma outra Religião onde se fizesse mais caridade e
esmolas que a Religião do Templo; que aí se dava, três vezes por semana, esmola a qualquer um que
viesse. Por fim, que não era de seu conhecimento a existência de qualquer outra gente que tivesse vertido
mais sangue pela fé cristã e que fosse mais temida pelos infiéis; que, em Mançura, o conde do Artois os
pusera na vanguarda, e que se ele os tivesse ouvido...

Então, uma voz repentinamente se ergueu: “Sem a fé, tudo isso de nada serve à salvação”.

Nogaret, que lá se encontrava, tomou assim a palavra: “Eu ouvi dizer que, nas crônicas que
estão em Saint-Denis, foi escrito que, ao tempo do sultão da Babilônia, o Grão-Mestre de então e os
outros grandes da Ordem prestaram homenagem a Saladino, e que o mesmo Saladino, tomando
conhecimento de uma grande derrota dos cavaleiros do Templo, publicamente dissera que isto lhes
ocorrera como castigo por um vício infame e por sua prevaricação contra a sua própria Lei”.

O Grão-Mestre respondeu que jamais ouvira dizer coisa parelha; que sabia somente que o Grão-
Mestre de então mantivera as tréguas porque, de outra forma, não poderia guardar tal ou qual castelo.
Jacques de Molay findou por humildemente pedir aos comissários e ao chanceler Nogaret permitirem-lhe
ouvir a missa e ter sua capela e seus capelões. Eles lhe prometeram, louvando sua devoção.

Assim, começavam, ao mesmo tempo, os dois processos do Templo e de Bonifácio VIII. Eles
apresentavam o estranho espetáculo de uma guerra indireta do rei e do Papa. Este último, forçado pelo
rei a processar Bonifácio, era vingado pelos depoimentos dos Templários contra a barbárie com a qual
os servidores do rei haviam dirigido os primeiros procedimentos. O rei desonrava o Papado, o Papa
desonrava a realeza. Mas o rei tinha a força; ele impedia os bispos de enviar aos comissários do Papa os
Templários prisioneiros e, ao mesmo tempo, lançava sobre Avignon nuvens de testemunhas que eram
arrebanhadas na Itália. O Papa, de alguma sorte sitiado por elas, estava condenado a ouvir os mais
terríveis depoimentos contra a honra do Pontificado.

Várias testemunhas confessaram sua própria infâmia e detalhavam com extensão quais
abominações tinham em comum com Bonifácio (ibid. p. 525). Uma das confissões menos repugnantes, de
todas aquelas que podemos traduzir, é que Bonifácio mandara matar seu antecessor; ele teria dito a um
desses miseráveis: Não reapareça diante de mim sem que antes tenhas matado Celestino (ibid., p. 530). O
próprio Bonifácio teria organizado um sabat, um sacrifício ao diabo (ibid., p. 537). O que é mais
verossímil neste velho jurista italiano, neste compatriota de (Pietro) Aretino e de Maquiavel, é que fosse
incrédulo, ímpio e cínico em suas palavras... Algumas pessoas, tendo medo numa tempestade e dizendo
que era o fim do mundo, ele teria dito: O mundo sempre foi e sempre será. – Senhor, asseguram-nos que
haverá uma ressurreição? – Já vistes alguma vez alguém ressuscitar?

Um homem, tendo-lhe trazido figos da Sicília, dizia-lhe: “Se eu tivesse morrido na minha
viagem, Cristo teria tido piedade de mim”. Ao que Bonifácio teria respondido: “Vá! eu sou muito mais
poderoso que teu Cristo; eu posso dar reinos”[211].

Ele falava de todos os mistérios com um assustador sacrilégio. Ele dizia da Virgem: “Non credo
in Mariolâ, Mariolâ, Mariolâ” (NT: Não creio em Mariazinha, Mariazinha, Mariazinha[212]). E
também: “Não acreditamos, igualmente, nem na jumenta, nem no seu burrinho”[213].

Essas horríveis bufonarias não são bem provadas. O que o foi melhor, e que talvez tenha sido
mais funesta a Bonifácio, foi sua tolerância. Um inquisidor da Calábria dissera: “Creio que o Papa
favorece os heréticos, pois ele não nos permite mais exercer nosso ofício” (ibid. p. 546). – Em outro
caso, são os monges que fazem processar seu abade por heresia; ele é condenado pela inquisição. Mas o
Papa zomba disso: “Vós sois uns idiotas”, ele lhes diz, “vosso abade é um homem sábio e pensa melhor
que vós: ide e crede como ele crê” (ibid, p. 533).

Após todos esses testemunhos, era preciso que Clemente V suportasse, face à face, a insolência
de Nogaret (16 de março de 1310). Ele veio em pessoa a Avignon, mas acompanhado de Plasian e de
uma boa escolta de homens armados. Foi, para este pequeno Lutero do século XIV, seu triunfo, sua dieta
de Worms, com esta diferença que Nogaret, tendo por si o rei e a espada, era o opressor de seu julgador.

Nos numerosos factums (memoriais) que ele já lançara, encontra-se a substância daquilo que ele
podia dizer ao Papa: é uma mistura de humildade e de insolência, de servilismo monárquico e de
republicanismo clássico, de erudição pedantesca e de audácia revolucionária. Eu errei em compará-lo a
Lutero. A amargura de Nogaret não lembra as belas e ingênuas cóleras do bom homem de Wittemberg, no
qual havia, juntos, uma criança e um leão; é, antes, a bile amarga e requentada de Calvino, este ódio à
quarta potência...

No seu primeiro factum, Nogaret declarara que não o deixaria manter as coisas assim. A ação
contra a heresia, ele diz, não se extingue pela morte, morte non extinguitur. Ele pedia que Bonifácio
fosse exumado e queimado.

Em 1310, ele muito deseja se justificar; mas é que uma boa alma teme a falta, mesmo onde falta
não há; assim fizeram Jó, o apóstolo e Santo Agostinho... Em seguida, ele sabe de pessoas que, por
ignorância, estão escandalizadas por sua causa; ele teme, se não se justificar, que essas pessoas sofram a
danação se pensarem mal dele, Nogaret. Eis porque ele suplica, pede, postula e requer como de direito
(“requiert comme droit”), com lágrimas e gemidos, mãos juntas, joelhos à terra... Nesta humilde postura,
ele pronuncia, à guisa de justificativa, uma terrível invectiva contra Bonifácio: não há menos de sessenta
títulos de acusação.

“Bonifácio”, ele ainda afirma, “tendo declinado o julgamento e repelido a convocação do


concílio, era, por só isso, contumaz e condenado”. Nogaret não tinha um minuto a perder para cumprir
seu mandato. Ante a falta do poder eclesiástico ou civil, fazia-se assaz necessário que o corpo da Igreja
fosse defendido por um católico qualquer; “todo católico é obrigado a expor sua vida pela Igreja. Eu,
então, Guilherme (Guillaume) Nogaret, homem privado, e não apenas homem privado, mas cavaleiro,
obrigado, por dever de cavalaria, a defender a república, foi-me permitido, foi-me imposto, resistir ao
sobredito tirano pela verdade do Senhor – Idem, assim como deve ser que cada um seja obrigado a
defender sua pátria, a ponto de merecer recompensa se, nesta defesa, for necessário matar seu
pai[214], era-me legítimo, que digo?, era-me obrigatório defender minha pátria, o reino da França, que
tinha a temer a devastação, o gládio, etc.

Pois, então, porque Bonifácio seviciava a Igreja e a si mesmo more furiosi (NT: como um louco
furioso), foi extremamente necessário atar-lhe os pés e as mãos. Não era isso um ato inimigo, bem ao
contrário...

Mais eis quem é mais forte. Foi Nogaret quem salvou a vida de Bonifácio e ainda salvou a de
um de seus sobrinhos. Ele não deixou darem de comer ao Papa, senão por pessoas em quem este
confiasse. Assim, Bonifácio libertado, foi-lhe dada a absolvição. Em Anagni mesmo, Bonifácio pregou
para uma grande multidão que, tudo o que lhe ocorrera por meio de Nogaret ou seu pessoal, viera-lhe do
próprio Senhor”.

Neste ínterim, o processo dos Templários começara com grande barulho, apesar da deserção do
Grão-Mestre. No dia 28 de março de 1310, os comissários mandaram trazer, para o jardim do bispado,
os cavaleiros que declararam desejar defender a Ordem: a sala não poderia abrigar todos pois eram
quinhentos e quarenta e seis. A eles leu-se, em latim, os artigos de acusação. Desejou-se, em seguida, lê-
los em francês. Mas eles exclamaram que era o bastante tê-los ouvido em latim e que não se
preocupassem em traduzir tamanhas torpezas para a língua vulgar[215]. Como eram por demais
numerosos, para evitar o tumulto, foi-lhes dito para constituírem procuradores, para nomearem alguns
dentre si que falariam pelos outros. Todos teriam desejado falar, tanto haviam retomado a coragem. Eles
ironicamente exclamaram: “Nós também não deveríamos ser torturados senão por procuradores”[216].
Eles portanto constituíram dois deles, um cavaleiro, irmão Raynaud de Pruin, e um padre, irmão Pierre
de Boulogne, procuradores da Ordem junto à corte pontifícia. Alguns outros foram-lhes adjungidos.

Em seguida, os comissários mandaram colher, em todas as casas de Paris que serviam de prisão
aos Templários[217], os depoimentos daqueles que desejassem defender a Ordem. Foi uma luz tenebrosa
que penetrou nas prisões de Filipe o Belo. Dali saíram vozes estranhas: algumas orgulhosas e rudes,
outras piedosas, exaltadas, várias ingenuamente dolorosas. Um dos cavaleiros disse somente: “Eu não
pude, sozinho, eu mesmo, litigar contra o Papa e o rei da França”[218]. Alguns dão por depoimento uma
prece à Virgem Maria: “Maria, estrela dos mares, conduza-nos ao porto da salvação...”[219]. Mas a peça
mais curiosa é um protesto em língua vulgar onde, após ter sustentado a inocência da Ordem, os
cavaleiros nos dão a conhecer sua humilhante miséria, o triste cálculo de suas despesas[220]. Estranhos
detalhes e que fazem um cruel contraste com a soberba e a riqueza tão cantadas e decantadas desta
Ordem! ... Os infelizes, contra sua pobre paga de doze denários por dia, eram obrigados a pagar a
passagem d’água para irem sofrer seus interrogatórios na Cité (l’Île de la Cité) e, ainda, a também dar
dinheiro ao homem que abria ou trancava suas correntes.

Enfim, os defensores apresentaram um ato solene em nome da Ordem. Neste protesto


singularmente forte e ousado, eles declaram não poder se defender sem o Grão-Mestre ou perante
qualquer outra corte que não fosse o Conselho-Geral. Eles sustentam: “Que a Religião do Templo é santa,
pura e imaculada perante Deus e seu Pai[221]. A instituição regular, a observância salutar, sempre aí
estiveram e aí ainda estão em vigor. Todos os irmãos não têm senão uma profissão de fé que, em todo o
universo, foi e é sempre observada por todos, desde a fundação (da Ordem) até o dia presente. E quem
diz ou acredita de outra forma, erra totalmente, peca mortalmente”. Era uma afirmação bem ousada de
sustentar que todos tivessem permanecido fiéis às regras da fundação primitiva; que não havia nulo
desvio, nula corrupção. Mesmo quando o justo peca sete vezes por dia[222], esta Ordem soberba via-se
pura e sem pecado. Uma tal confiança dava calafrios.

Eles não pararam por aí. Pediam, ainda, que os irmãos apóstatas fossem postos sob boa guarda
até que se julgasse se eles haviam prestado um verdadeiro testemunho.

Eles também queriam que nenhum laico assistisse aos interrogatórios. Nenhuma dúvida, em
efeito, que a presença de um Plasian, de um Nogaret, não intimidasse os acusados e os juízes.

Eles findavam por dizer que a comissão pontifícia não podia ir mais avante: “Pois, enfim, não
estamos em lugar seguro; estamos e sempre estivemos sob o poder daqueles que sugerem coisas falsas ao
senhor rei. Todos os dias, por eles ou por outros, de viva voz, por cartas ou mensagens, nos advertem
para não nos retratarmos dos falsos testemunhos que nos foram extraídos pelo temor pois, do contrário,
seremos queimados”[223].

Alguns dias depois, novo protesto, mas ainda mais vigoroso, menos apologético que
ameaçador e acusador: “Este processo”, dizem, “foi repentino, violento, iníqüo e injusto; não é nada além
de violência atroz, intolerável erro... Nas prisões e nas torturas, muitos e muitos são mortos; outros
restarão enfermos pelo resto de suas vidas; vários foram constrangidos a mentir contra si mesmos e
contra sua Ordem. Essas violências e esses tormentos arrebataram totalmente o livre arbítrio, é dizer,
tudo o que o homem pode ter de bom. Quem perde o livre arbítrio, perde todo o bem, ciência, memória e
intelecto[224]... Para empurrá-los à mentira, ao falso testemunho, eram-lhes exibidas cartas donde
pendiam os selos do rei e que lhes garantiam a conservação de seus membros, da vida, da liberdade;
prometia-se prover cuidadosamente, de sorte que tivessem boas rendas pelo resto de suas vidas;
assegurava-se-lhes, ademais, que a Ordem estava condenada sem remédio...”.

Ainda que habituados estivessem, naquela época, à violência dos procedimentos inquisitoriais, à
imoralidade dos meios comumente empregados para fazer os acusados falarem, era impossível que tais
palavras não revoltassem os corações! Mas o que gritava mais que as palavras, era o compadecedor
aspecto dos prisioneiros, seus rostos pálidos e emagrecidos, as marcas hediondas das torturas... Um
deles, Humberto (Humbert) Dupuy, a décima-quarta testemunha, fora torturado três vezes, mantido por
trinta e seis semanas no fundo de uma torre infecta, à pão e água. Um outro fora pendurado pelos genitais.
O cavaleiro Bernardo (Bernard) Dugué (de Vado), cujos pés foram postos à frente de um fogo ardente,
exibia dois ossos que lhe tinham caído dos calcanhares[225].

Eram cruéis espetáculos. Os próprios juízes, completamente juristas que fossem, e sob seus
secos hábitos de sacerdotes, estavam comovidos e sofriam. Quão mais não sofria e não se comovia o
povo que, todo dia, via esses desgraçados atravessarem a água por barca a fim de se apresentarem na
Cité, no palácio episcopal, onde se reunia a comissão! A indignação crescia contra os acusadores, contra
os Templários apóstatas. Um dia, quatro destes últimos se apresentam perante a comissão, ainda
mantendo suas barbas, mas levando seus mantos à mão. Eles os jogam aos pés dos bispos e declaram que
renunciam ao hábito do Templo. Mas os juízes não os viram senão com desgosto e lhes disseram que,
doravante, fizessem o que bem desejassem[226].

O processo tomava um rumo incômodo para aqueles que o haviam iniciado com tanta
precipitação e violência. Os acusadores caíam, pouco a pouco, na situação dos acusados. Todo dia, os
depoimentos destes revelavam as barbáries e as torpezas da primeira instrução. A intenção do processo
tornava-se visível. Atormentara-se um acusado para obrigá-lo a dizer a quanto montava o tesouro trazido
da Terra Santa. Um tesouro, era ele um crime, um título de acusação?
Quando se pensa no imenso número de afiliados que o Templo possuía entre o povo, nas
relações dos cavaleiros com a nobreza da qual todos saíram, não se pode duvidar que o rei não estivesse
receoso de ter ido tão longe. O objetivo vergonhoso, os meios atrozes, tudo fora desmascarado. O povo,
perturbado e inquieto em sua crença desde a tragédia de Bonifácio VIII, não iria se sublevar? Na revolta
das moedas, o Templo fora suficientemente forte para proteger Filipe o Belo; hoje, todos os amigos do
Templo estavam contra ele...

O que agravava ainda mais o perigo, é que, nas outras regiões da Europa, as decisões dos
concílios eram favoráveis aos Templários[227]. Eles foram declarados inocentes, em 17 de junho de
1310, em Ravena, em 1º de julho em Mainz, em 21 de outubro em Salamanca. Desde o início do ano,
podia-se prever esses julgamentos e a perigosa reação que se seguiria em Paris. Era necessário preveni-
la, refugiar-se na audácia. Fazia-se imperativo, a qualquer preço, tomar o processo em mãos, apressá-lo,
asfixiá-lo.

No mês de fevereiro de 1310, o rei se arranjara com o Papa, declarando submeter-se a ele para
o julgamente de Bonifácio VIII (‘Différent, Preuves’, 296-9). Em abril, ele exigiu em troca que Clemente
nomeasse, para o arcebispado de Sens, o jovem Marigny, irmão do famoso Enguerrand, verdadeiro rei da
França no reinado de Filipe o Belo. No dia 10 de maio, o arcebispo de Sens reuniu, em Paris, um
concílio provincial e fez aí comparecerem os Templários. Eis, então, dois tribunais que julgam ao mesmo
tempo os mesmo acusados, em virtude de duas bulas do Papa. A comissão alegava que a bula atribuía-lhe
o julgamento[228]. O concílio se reportava à bula precedente, que devolvera aos juízes ordinários seus
poderes de início suspensos (Dupuy, p. 44, nota). Não resta ato algum deste concílio, nada além dos
nomes dos que o compunham e o nome daqueles que mandaram queimar seus registros.

Ainda no dia 10 de maio, domingo, dia quando a comissão estava reunida, os defensores da
Ordem se apresentaram diante do arcebispo de Narbonne e dos outros comissários pontifícios para levar
seu apelo. O arcebispo de Narbonne respondeu que um tal pedido não interessava nem a ele e nem a seus
colegas; que ele e os comissários não se imiscuiriam nisso, pois não era em seu tribunal que se devia
suplicar; que, se desejassem falar em defesa da Ordem, seriam escutados com prazer.

Os pobres cavaleiros suplicaram que, ao menos, fossem conduzidos ao concílio para entregarem
seu apelo, dando-lhes dois notários que lavrariam ato autêntico; eles rogaram à comissão, suplicaram,
mesmo, aos notários presentes. Em seu apelo, que leram em seguida, eles se punham sob a proteção do
Papa nos termos mais patéticos: “Pedimos aos santos Apóstolos, nós a ele pedimos ainda uma vez, e é
como última instância que nós a ele pedimos”[229].

Todo o socorro que lhes deu este Papa sobre o qual contavam e ao qual se recomendavam como
a Deus, foi uma tímida e frouxa consulta onde ele tentava de avanço interpretar a palavra relapso, para
saber se essa palavra devia ser aplicada àqueles que tivessem retratado suas confissões: “De alguma
sorte, parece contrário à razão julgar tais homens como relapsos... Nessas coisas duvidosas, é preciso
restringir e moderar as penas”[230].

Os comissários pontifícios não ousaram fazer valer esta consulta. Eles responderam, no
entardecer de domingo, que provavam grande compaixão pelos defensores da Ordem e pelos outros
irmãos, mas que a questão da qual se ocupava o arcebispo de Sens e seus sufragantes era uma outra que
não a deles; que não sabiam o que se fazia nesse concílio; que, se a comissão estava autorizada pela
Santa Sé, o arcebispo de Sens também o estava; que uma não tinha nenhuma autoridade sobre a outra;
que, à primeira vista (coup d’œil), eles nada tinham a objetar ao arcebispo de Sens; que, todavia,
deliberariam[231].

Enquanto os comissários deliberavam, eles tomaram conhecimento que cinquenta e quatro


Templários iam ser queimados: apenas e somente um dia bastou para que ficassem convencidos, de forma
exaustiva, o arcebispo de Sens e seus sufragantes. Sigamos, passo a passo, a narrativa dos notários da
comissão pontifícia, em sua simplicidade terrível.

“Na quarta-feira, 12, durante o interrrogatório do irmão João Bertaldi (Jean Bertaud)[232],
veio ao conhecimento dos comissários que cinquenta e quatro Templários iam ser queimados[233]. Eles
encarregaram o preboste da igreja de Poitiers e o arquidiácono de Orléans, clérigo do rei, de irem dizer
ao arcebispo de Sens e seus sufragantes para deliberaram maduramente e para adiar, visto que os irmãos
mortos na prisão afirmavam, contra risco de suas próprias almas (segundo diziam), que eram falsamente
acusados. Se esta execução tivesse lugar, ela impediria os comissários de procederem em seu ofício, vez
que os acusados, de tal forma apavorados, perderiam todo seu bom senso[234]. Em acréscimo, um dos
comissários os encarregou de intimar o arcebispo sobre o fato dos irmãos Raynaud de Pruin, Pierre de
Boulogne, padre, Guillaume de Chambonnet e Bertrand de Sartiges, cavaleiros, terem interposto um
recurso perante os comissários”.

Havia aí uma grave questão de jurisdição. Se o concílio e o arcebispo de Sens reconhecessem a


validade de um apelo levado perante a comissão papal, eles confessariam a superioridade deste último
colegiado e as liberdades da igreja galicana restariam comprometidas. Além disso, obviamente, as
ordens do rei pressionavam; o jovem Marigny, tornado súbita e propositadamente arcebispo, não tinha
tempo para disputas. Ele se ausentou para não receber os enviados da comissão; depois, alguém (não se
sabe quem) colocou em dúvida que os delegados falassem em nome da comissão; Marigny também
duvidou e tudo ficou como antes[235].

Os Templários conduzidos no domingo perante o concílio, tinham sido julgados na segunda-feira


(11 de maio); uns, que confessaram, eram postos em liberdade; outros, que sempre negaram, eram
aprisionados pelo resto da vida; aqueles que retratavam suas confissões, eram declarados relapsos. Estes
últimos, ao número de cinquenta e quatro, foram degradados no mesmo dia pelo bispo de Paris e
entregues ao braço secular. Na terça-feira (12 de maio), eles foram queimados vivos na porta Santo
Antônio (porte Saint-Antoine). Esses desgraçados haviam variado nas prisões, mas de forma alguma
variaram nas chamas: eles protestaram até o fim sua inocência. A multidão estava muda e como
imbecilizada de estupor[236].

Quem acreditaria que a comissão pontifícia teria coragem de se reunir no dia seguinte, de
continuar este inútil processo, de interrogar enquanto se queimava?

“Na quarta-feira, 13 de maio, perante os comissários, foi trazido o irmão Aimeri de Villars-le-
Duc, barba raspada, sem manto nem túnica do Templo, idoso, como dizia, de cinquenta anos, tendo
servido na Ordem por oito anos como irmão-servente e vinte anos como cavaleiro. Os senhores
comissários explicaram-lhe os artigos sobre os quais devia ser interrogado. Mas a mencionada
testemunha, pálida e completamente apavorada, depondo sob juramento e ao risco de sua alma, pedindo,
se mentisse, morrer subitamente, e ser, de alma e corpo, repentinamente engolido pelo inferno, batendo-se
no peito com os punhos, fletindo os joelhos e erguendo as mãos na direção do altar, disse que todos os
erros imputados à Ordem eram de completa falsidade, ainda que tivesse confessado alguns deles entre as
torturas às quais fora submetido por Guilherme (Guillaume) de Marcillac e Hugo (Hugues) de Celles,
cavaleiros do rei. Ele acrescentava, entretanto, que, tendo visto cinquenta e quatro cavaleiros serem
levados sobre carroças para serem queimados, os quais não tinham desejado confessar os mencionados
erros e, TENDO OUVIDO DIZER QUE ELES HAVIAM SIDO QUEIMADOS, ele, que temia, se fosse
queimado, não ter forças o suficiente e paciência, ele estava pronto a confessar e a jurar por temor,
perante os comissários ou outros, todos os erros imputados à Ordem, a inclusive dizer, se desejassem,
que ele matara Nosso Senhor[237]... Ele suplicava e conjurava os retromencionados comissários, e a
nós, notários presentes, a nada revelar ao pessoal do rei o que vinha de dizer, temendo, dizia ele, que se
disso tomassem conhecimento, ele fosse entregue ao mesmo suplício que os cinquenta e quatro
Templários... – Os comissários, vendo o perigo que ameaçava os depoentes se continuassem a ouvi-los
durante este terror[238] e, ainda, movidos por outras causa, resolveram suspender (a sessão) pelo
momento”.

A comissão parece ter ficado comovida com essa cena terrível. Apesar de enfraquecida pela
deserção de seu presidente, o arcebispo de Narbonne, e do bispo de Bayeux, que não vinham mais às
sessões, ela tentou salvar, se ainda fosse tempo, os três principais defensores.

“Na segunda-feira, 18 de maio, os comissários pontifícios encarregaram o preboste da igreja de


Poitiers e o arquidiácono de Orléans de irem encontrar, de sua parte, o venerável pai em Deus, o senhor
arcebispo de Sens e seus sufragantes, para reclamar os defensores Pierre de Boulogne, Guillaume de
Chambonnet e Bertrand de Sartiges, de sorte que pudessem ser trazidos, sob boa guarda, todas as vezes
que o pedissem para a defesa da Ordem”. Os comissários tiveram o cuidado de acrescentar: “Que não
desejam causar nenhum embaraço ao arcebispo de Sens e a seu concílio, mas somente desejam aliviar
suas consciências...”[239].

“Ao entardecer, os comissários se reuniram em Sainte-Geneviève (Santa Genoveva), na capela


de Santo Elói, e receberam os cônegos que vinham da parte do arcebispo de Sens. O arcebispo respondia
que havia dois anos[240] que o processo começara contra os cavaleiros acima nominados, como
membros particulares da Ordem; que ele desejava terminá-lo segundo a forma do mandato apostólico.
Que, de resto, ele compreendia não estar de forma alguma a embaraçar os comissários em seu
ofício”[241]. Gigantesca zombaria!

“Tendo os enviados do arcebispo de Sens se retirado, conduziu-se à frente dos comissários os


cavaleiros Raynaud de Pruin, Chambonnet e Sartiges, os quais anunciaram que Pierre de Boulougne havia
sido separado deles sem que soubessem o porquê, acrescentando que eram todos gente simples, sem
experiência, além disso, que estavam estupefatos e perturbados, de forma que não podiam nada falar ou
ditar para a defesa da Ordem sem o conselho do dito Pierre. Razão pela qual suplicavam aos comissários
fazê-lo vir, ouvi-lo e saber como e porque ele fora separado deles, e se ele desejava persistir na defesa
da Ordem ou abandoná-la. Os comissários ordenaram ao preboste de Poities e a Jehan de Teinville que,
no dia seguinte, trouxessem o retrocitado irmão à sua presença” (ibidem, 71, verso).

No dia seguinte, via-se que Pierre de Boulougne não comparecera. Mas uma turba de
Templários viera dizer que abandonava a defesa. No sábado, a comissão, também abandonada por um de
seus membros, adiou seus trabalhos para o dia 3 de novembro seguinte.

Na data aprazada, os comissários eram ainda menos, encontrando-se reduzidos a três. O


arcebispo de Narbonne deixara Paris para o serviço do rei. O bispo de Bayeux estava ao lado do Papa
da parte do rei. O arquiácono de Maguelone estava doente. O bispo de Limoges pusera-se a caminho
para vir, mas o rei mandara-lhe dizer que era preciso ainda adiar até o próximo parlamento[242]. Os
membros presentes mandaram, portanto, perguntar à porta da sala se alguém tinha alguma coisa a dizer a
favor da Ordem do Templo. Ninguém se apresentou.

No dia 27 de dezembro, os comissários retomaram os interrogatórios e novamente solicitaram


os dois principais defensores da Ordem. Mas o primeiro de todos, Pierre de Boulogne, desaparecera.
Seu colega, Raynaud de Pruin, não podia mais responder porque, segundo se alegava, fora degradado
pelo arcebispo de Sens. Vinte e seis cavaleiros, que já haviam antes prestado juramento para depor,
foram retidos pelo pessoal do rei e não puderam se apresentar.

É uma coisa admirável que, ao meio dessas violências e em um tal perigo, se tenha encontrado
um certo número de cavaleiros para sustentar a inocência da Ordem; mas essa coragem foi rara. A maior
parte estava sob a impressão de um profundo terror[243].

A destruição dos Templários era perseguida com encarniçamento em todos os lugares, nos
concílios provinciais[244]; nove cavaleiros também tinham acabado de ser queimados vivos em Senlis.
Os interrogatórios tinham lugar sob o terror das execuções. O processo era abafado nas chamas... A
comissão continuou suas sessões até o dia 11 de junho de 1311. O resultado de seus trabalhos foi
consignado num registro que findou com essas palavras: “Para acréscimo de precaução, nós guardamos o
mencionado Processo, redigido pelos notários em ato autêntico, no tesouro de Notre-Dame de Paris, de
modo a não ser exibido a ninguém, salvo contra apresentação de cartas especiais de Vossa
Santidade”[245].

Em todos os Estados da cristandade, suprimiu-se a Ordem como inútil ou perigosa. Os reis


tomaram os bens ou os deram a outras Ordens. Mas os indivíduos foram acomodados: o tratamento mais
severo que sofreram foi o de serem aprisionados em monastérios, com frequência em seus próprios
conventos. Foi a única pena à qual foram condenados, na Inglaterra, os chefes da Ordem que se
obstinavam em negar.

Os Templários foram condenados na Lombardia e na Toscana, justificados em Ravena e em


Bolonha[246]. Em Castela, foram considerados inocentes. Aqueles de Aragão, que possuíam praças-
fortes, para dentro delas se lançaram e opuseram resistência, principalmente em seu famoso forte de
Monzón[247]. O rei de Aragão tomou esses fortes e eles não foram mais maltratados. Criou-se a Ordem
de Montesa, onde eles ingressaram em multidão. Em Portugal, eles recrutaram as ordens de Avis e de
Cristo. Não era na Espanha, em face dos Mouros, na terra clássica da cruzada, que se podia sonhar em
proscrever os velhos defensores da cristandade[248].

A conduta dos outros príncipes em relação aos Templários era uma sátira à de Filipe o Belo. O
Papa condenou esta suavidade; ele reprovou aos reis da Inglaterra, de Castela, de Aragão e de Portugal
não terem empregado torturas. Filipe o endurecera, seja dando-lhe parte dos despojos, seja
abandonando-lhe o julgamento de Bonifácio. O rei da França decidira-se a ceder algum pouco sobre este
último ponto. Ele via tudo mudar à sua volta. Os estados sobre os quais ele estendia sua influência
pareciam perto de escapar. Os barões ingleses desejavam derrubar o governo dos favoritos de Eduardo
II, que os mantinha humilhados perante a França. Os Gibelinos da Itália chamavam o novo imperador,
Henrique de Luxemburgo, para destronar o neto de Carlos d’Anjou, o rei Roberto, grande douto e pobre
rei, que não era hábil senão em astrologia. A Casa da França arriscava perder sua ascendência na
cristandade. O Império, que se acreditava morto, ameaçava reviver. Dominado por esses temores, Filipe
permitiu a Clemente declarar que Bonifácio não era herético[249], assegurando, todavia, que o rei agira
sem malignidade, que ele mais tivera, como um outro Sem, escondido a vergonha, a nudez paternal... O
próprio Nogaret foi absolvido à condição de partir para a cruzada (se houver cruzada) e servir, por toda
a sua vida, na Terra Santa; aguardando que isso ocorra, ele fará tal ou qual peregrinação. O continuador
de Nangis malignamente acrescenta uma outra condição: que Nogaret fará do Papa o seu herdeiro
(Contin. Guill. de Nangis, ad. ann. 1311).

Ele estava assim comprometido. O rei, cedendo a respeito de Bonifácio, o Papa abandonou-lhe
os Templários. Ele entregava os vivos para salvar um morto. Mas este morto era o próprio papado.

Esses arranjos feitos em família, restava fazê-los serem aprovados pela Igreja. O concílio de
Viena abriu-se no dia 16 de outubro de 1312; concílio ecumênico para o qual se apresentaram mais de
trezentos bispos; mas ele foi ainda mais solene pela gravidade das matérias que pelo número de
assistentes.

De início, devia-se falar da libertação dos santos lugares. Todo concílio tratava disso, todo
príncipe tomava a cruz e todos permaneciam em casa. Não era nada além de um meio de extrair
dinheiro[250].

O concílio tinha a regrar duas grandes causas, aquela de Bonifácio e a outra do Templo. Desde o
mês de novembro, nove cavaleiros haviam se apresentado aos prelados oferecendo-se, corajosamente,
para defender a Ordem e declarando que mil e quinhentos ou dois mil dos seus estavam em Lyon ou nas
montanhas vizinhas, todos preparados para apoiá-los. Assustando-se com esta declaração ou, antes, com
os interesses que poderiam ser inspirados pela devoção dos nove, o Papa mandou prendê-los[251].

A partir de então, ele não mais ousou reunir o concílio, mantendo os bispos inativos durante todo
o inverno nesta cidade estrangeira, longe de seus países e de seus negócios, esperando, sem dúvida,
vencê-los pelo enfado e vencê-los um a um.

O concílio tinha ainda um objeto, a repressão aos místicos, beguinos e franciscanos espirituais.
Foi uma coisa muito triste ver perante o papa de Filipe o Belo, aos joelhos de Bertrand de Gott, o
piedoso e entusiasta Ubertino, o primeiro autor conhecido de uma Imitação de Jesus Cristo[252]. Toda a
graça que ele pedia para si e para seus irmãos, os Franciscanos reformados, era a de que não fossem
forçados a ingressar nos conventos pouco rigorosos, muito ricos, onde não se encontrassem pobres o
suficiente tal como desejavam.

A Imitação, para esses místicos, era a caridade e a pobreza. Na obra mais popular desse tempo,
na Lenda Dourada, um santo dá tudo o que tem, mesmo sua camisa; ele não guarda senão seu Evangelho.
Mas, chegando ainda um outro pobre, o santo também dá o Evangelho... Nesta lenda ousada, a religião
exibe-se imolada às obras, a fé à caridade[253].

A pobreza, irmã da caridade, era o amor e o ideal dos Franciscanos, seu sublime desejo[254].
Eles aspiravam a nada possuir. Mas isto não é tão fácil, como se crê. Eles mendigavam, eles recebiam; o
próprio pão de cada dia, não é isso uma posse? E quando os alimentos eram assimilados, misturados à
sua carne, podia-se dizer que não pertencessem a eles?... Vários se obstinavam em negar[255]. Bizarro
esfoço para escapar vivo às condições da vida, às servidões da matéria, para conquistar e antecipar aqui
embaixo a independência de um espírito puro.

Isto podia parecer ou sublime ou risível; mas, à primeira olhadela, não se via o perigo.
Entretanto, fazer da pobreza absoluta a lei do homem não significava condenar a propriedade?
precisamente como, na mesma época, as doutrinas da fraternidade ideal e do amor sem limite anulavam o
casamento, esta outra base da sociedade civil?

À medida que a autoridade se ia, que o padre tombava no espírito dos povos, a religião, não
estando mais contida nas formas, se propagava em misticismo[256]. O Cristianismo saíra do amor e, em
seu enfraquecimento, parecia doente de amor.

Os Pequenos Irmãos (fraticelli) punham em comum os bens e as mulheres. Eles diziam que, na
aurora da era da caridade, não se podia guardar nada para si mesmo. Na Itália, onde a imaginação é
impaciente, no Piemonte, região de energia, eles conseguiram fundar, sobre uma montanha, a primeira
cidade verdadeiramente fraternal[257]. Eles aí sustentaram um sítio, sob seu chefe, o bravo e eloquente
Dulcino. Sem dúvida, havia alguma coisa neste homem: quando foi preso e destrinchado com tenazes em
brasa, sua bela Margareta recusou todos os cavaleiros que desejavam salvá-la desposando-a e preferiu
partilhar este tenebroso suplício (ibidem).

As mulheres, nesta época, tinham um enorme lugar na história da religião. Os grandes santos são
mulheres: Santa Brigite (NT: ou Brígida da Suécia) e Santa Catarina de Siena. Os grandes heréticos são
também mulheres. Em 1310, em 1315, vemos mulheres da Alemanha ou dos Países-Baixos ensinarem que
a alma aniquilada no amor do Criador pode deixar o corpo para fazer o que desejar, sem se preocupar
(Cont. G. de Nangis, ap. Spicileg., III, 63). Já (1300) uma inglesa viera à França persuadida que era o
Espírito Santo encarnado para a redenção das mulheres; nela não se acreditava senão de boa-vontade; era
bela e de suaves palavras[258].

Qualquer que fosse a boa intenção dessas pregadoras, havia muita sensualidade em tudo isso.
Mas o amor só não é perigoso sob a forma voluptuosa? também não o é nas abstinências? O mistiscismo
mais puro dos Franciscanos não era menos alarmante[259]. O Papa, defensor da Igreja, da sociedade e
do senso comum, devia condenar sua sublime mas por demais rigorosa e absurda lógica, sua caridade,
sua pobreza absoluta. O ideal devia ser condenado, o ideal das virtudes cristãs!

Coisa dura e odiosa de dizer! Quão mais chocante então, quando a condenação partia da boca de
um Clemente V ou de um João XXII. Ainda que mortas estivessem as consciências desses Papas, eles
devem ter se perturbado e sofrido quando lhes foi necessário julgar e proscrever esses desgraçados
sectários, esta louca santidade cujo todo crime era querer ser pobre, jejuar, chorar de amor, ir-se, pés
nus, pelo mundo, encenar, inocentes comediantes, o drama tocante de Jesus[260].

A causa dos Templários foi retomada na primavera. O rei deitou a mão sobre Lyon, o asilo
deles. Os burgueses o haviam chamado contra seu arcebispo; esta cidade imperial era negligenciada pelo
Império e ela convinha muito bem ao rei, não somente como o nó dos rios Saône e Ródano, a ponta da
França no leste, a cabeça da estrada na direção dos Alpes ou da Provença mas, sobretudo, como asilo de
descontentes, como ninho de heréticos. Filipe aí manteve uma assembléia de notáveis. Depois, ele veio
ao Concílio com seus filhos, seus príncipes e um grande cortejo de soldados armados; ele se estabeleceu
ao lado do Papa, um pouco mais abaixo.

Até aí, os bispos haviam se mostrado muito pouco dóceis: eles insistiam em querer ouvir a
defesa dos Templários. Os prelados da Itália, menos um só, aqueles da Espanha, os da Alemanha e da
Dinamarca, os da Inglaterra, da Escócia e da Irlanda, os próprios Franceses, súditos de Filipe (salvo os
arcebispos de Reims, de Sens e de Rouen), declararam que não podiam condenar sem ouvir[261].

Foi preciso, portanto, que, após ter reunido o Concílio, o Papa dele se passasse. Ele reuniu seus
bispos mais seguros e alguns cardeais e, neste consistório, aboliu a ordem de sua autoridade
pontifícia[262]. A abolição foi em seguida pronunciada na presença do rei e do concílio. Nenhuma
reclamação se ouviu.

É preciso reconhecer que este processo era daqueles que não se podia julgar. Ele abraçava toda
a Europa; os depoimentos eram milhares, os documentos inumeráveis, os procedimentos haviam variado
nos diferentes Estados. A única coisa certa era que a Ordem tornara-se doravante inútil e, além do mais,
perigosa. Pouco honoráveis que tivessem sido os motivos secretos, o Papa agiu sensatamente. Ele
declara, em sua bula explicativa, que as informações não são suficientemente seguras, que não tem o
direito de julgar, mas que a Ordem é suspeita: ordinem valdè suspectum (NT: a ordem é muito suspeita)
[263]. Clemente XIV, séculos depois, não agiu diferentemente em relação aos Jesuítas.

Clemente V assim se esforçou em cobrir de honra a Igreja. Ele falsificou secretamente os


registros de Bonifácio[264], mas não revogou, perante o concílio, senão uma das bulas deste Papa, a
Clericis laïcos, aquela que em nada tocava a doutrina, mas que impedia o rei de tomar dinheiro
emprestado do clero.

Desta forma, essas grandes querelas de idéias e de princípios recaíram nas questões de dinheiro.
Os bens do Templo deviam ser empregados na libertação da Terra Santa e dados aos Hospitalários[265].
Acusou-se, mesmo, esta Ordem de ter comprado a abolição do Templo. Se o fez, ela foi bem enganada.
Um historiador assegura que ela foi antes empobrecida. João XXII lamentava-se, em 1316, que o rei se
ressarcia pela guarda dos Templários tomando os próprios bens dos Hospitalários[266]. Em 1317, os
Hospitalários ficaram muito felizes em dar a quitação final aos administradores reais dos bens do
Templo. O Papa se afligia, em 1309, por não ter recebido senão um pouco do mobiliário, nem mesmo o
suficiente para cobrir os custos de suas despesas. Mas, no final, ele não teve motivo algum para se
queixar[267].

Restava uma triste parte da sucessão do Templo, a mais embaraçosa de todas. Eu falo dos
prisioneiros que o rei guardava em Paris, particularmente do Grão-Mestre. Escutemos, sobre esse trágico
evento, a narrativa do historiador anônimo, do continuador de Guilherme de Nangis:

“O Grão-Mestre da ora em diante Ordem do Templo e três outros Templários, o Visitador da


França e os Mestres da Normandia e da Aquitânia, sobre os quais o Papa se reservara o direito de
pronunciamento definitivo[268], compareceram perante o arcebispo de Sens, e uma assembléia de outros
prelados e doutores em direito divino e em direito canônico foi convocada para Paris, sob a ordem do
Papa, pelo bispo de Albano e por dois outros cardeais legados, especialmente para este fim. Como os
quatro retromencionados confessassem, pública e solenemente, os crimes dos quais eram acusados e,
como perserverassem nessa confissão e parecessem desejar nela perseverar até o fim, após madura
deliberação do conselho, na praça do pátio de Notre-Dame, na segunda-feira após São Gregóro, eles
foram condenados a serem aprisionados para sempre e escondidos. Estando os cardeais a acreditar terem
posto fim à causa, eis que, repentinamente, sem que se pudesse aguardar, dois dos condenados, o Mestre
d’Ultramar e o Mestre da Normandia, defendendo-se obstinadamente contra o cardeal que acabara de
falar e contra o arcebispo de Sens, tornam a renegar suas confissões e todos os seus reconhecimentos
precedentes, sem guardar qualquer reserva, para grande espanto de todos. Os cardeais os enviaram ao
preboste de Paris, que se encontrava presente, para guardá-los até que pudessem melhor e mais
plenamente deliberarem no dia seguinte. Mas, desde que este rumor chegou aos ouvidos do rei, que então
estava em seu palácio real, tendo ele se comunicado com os seus, sem chamar os clérigos, mandou, por
um conselho prudente, no entardecer do mesmo dia, queimá-los vivos numa ilhazinha do Sena, entre o
Jardim Real e a Igreja dos Irmãos Hermitas de Santo Agostinho. Eles pareceram suportar as chamas com
tanta firmeza e resolução, que a constância de sua morte e suas negações finais encheram a multidão de
admiração e de estupor. Os dois outros foram trancafiados como determinavam suas sentenças”[269].

Esta execução, na opinião dos juízes, foi evidentemente um assassinato. O rei, que, em 1310,
tinha ao menos reunido um concílio para mandar matar os cinquenta e quatro, aqui desdenhou qualquer
aparência de direito e não empregou senão a força bruta. Não havia sequer a desculpa do perigo, da
razão de Estado (raison d’État), aquela do Salus Populi que ele inscrevia sobre suas moedas[270]. Não!
Ele considerou a negação do Grão-Mestre como um ultraje pessoal, um insulto à realeza tão
comprometida nesta causa. Ele o abateu, sem dúvida alguma, como “reum lesæ Majestatis” (NT: acusado
de lesa-majestade)[271]

Agora, como explicar as variações do Grão-Mestre e sua negação final? Não nos parece que,
por fidelidade cavaleiresca, por orgulho militar, ele tenha pago qualquer preço pela honra da Ordem?
que a soberba Ordem do Templo tenha despertado no derradeiro momento; que o velho cavaleiro
deixado sobre a brecha, como último defensor, tenha desejado, com perigo de sua alma, tornar para
sempre impossível o julgamento do porvir sobre esta obscura questão?

Pode-se dizer que os crimes reprovados à Ordem fossem particulares a tal província do Templo,
a qual Casa, e que a Ordem era inocente. Que Jacques de Molay, após ter confessado como homem, e por
humildade, pudesse negar como Grão-Mestre.

Mas há outra coisa a dizer. O principal título de acusação, a negação da Cruz, repousava sobre
um equívoco[272]. Eles podiam reconhecer que haviam negado sem serem efetivamente apóstatas. Esta
negação, vários o declaram, era simbólica; era uma imitação da negação de São Pedro, uma dessas
piedosas comédias com as quais a Igreja antiga cercava os atos mais sérios da religião, mas cuja tradição
começava a se perder no século XIV[273]. Que esta cerimônia possa ter sido, por vezes, executada com
uma leviandade culpável ou, mesmo, com uma derrisão ímpia, era o crime de alguns e não a regra da
Ordem.

Esta acusação foi, entretanto, o que destruiu o Templo. Não foi a infâmia dos hábitos e costumes:
ela não era geral; de outra forma, como supor que os Templários teriam feito ingressar na Ordem seus
parentes mais próximos? Não façamos uma tal injúria à natureza humana. Não foram a heresia e as
doutrinas gnósticas: verdadeiramente, os cavaleiros preocupavam-se muito pouco com os dogmas. A
verdadeira causa de sua ruína, aquela que pôs todo o povo contra eles, que não lhes deixou um só
defensor entre tantas famílias nobres às quais pertenciam, foi esta monstruosa acusação de terem
renegado e cuspido sobre a cruz. Esta acusação é justamente aquela que foi reconhecida e confessada
pela maioria esmagadora. A simples enunciação do fato distanciava deles todo o mundo: cada um se
persignava e não desejava escutar mais nada.

Assim, a Ordem que representara, no mais alto grau, o gênio simbólico da Idade Média, morreu
de um símbolo não compreendido. Este evento não é senão um episódio da guerra eterna que sustentam,
um contra o outro, a letra e o espírito, o espírito e a letra, a poesia e a prosa. Nada é mais cruel e ingrato
que a prosa no momento quando desconhece as vetustas e veneráveis formas poéticas dentro das quais
cresceu.

O simbolismo oculto e suspeito do Templo nada podia esperar à ocasião em que o simbolismo
pontifício, até então reverenciado no mundo inteiro, estava, ele mesmo, sem poder. A grande poesia
mística do Unam sanctam, que fizera vibrar todo o século XII, não dizia mais nada aos contemporâneos
de Pierre Flotte e de Nogaret. Nem a pomba, nem a arca, nem a túnica sem costura, todos esses
inocentes símbolos não podiam mais defender o papado[274]. O gládio espiritual estava gasto. Uma
idade prosaica e fria começava, que não sentia mais o corte[275].

O que há de trágico aqui, é que a Igreja foi morta pela Igreja. Bonifácio foi menos estapeado
pela manopla de Colonna que pela adesão dos galicanos ao chamado de Filipe o Belo. O Templo é
perseguido pelos inquisidores e abolido pelo Papa; os depoimentos mais graves contra os Templários
são os dos sacerdotes[276]. Nula dúvida que o poder de absolver que os chefes da Ordem usurpavam
tenha feito dos eclesiásticos seus irreconciliáveis inimigos[277].

Quais fossem sobre os homens de então as impressões desse grande suicídio da Igreja, as
inconsoláveis tristezas de Dante as cantam o bastante. Tudo que se acreditara e reverenciara, papado,
cavalaria, cruzada, tudo parecia findo. A Idade Média é já uma segunda antiguidade que é preciso, com
Dante, procurar entre os mortos. O último poeta da era simbólica viveu o suficiente para poder ler a
prosaica alegoria do Romance da Rosa. A alegoria mata o símbolo, a prosa a poesia.


Capítulo V

Sequência do reinado de Filipe o Belo.
Seus três filhos. Processos. Instituições.
1314 a 1328.

--------------------

O fim do processo do Templo foi o começo de vinte outros. Os primeiros anos do décimo-quarto
século não são senão um longo processo. Essas hediondas tragédias perturbaram as imaginações,
amedrontaram as almas. Houve como que uma epidemia de crimes. Suplícios atrozes, obscenos, que eram
eles próprios crimes, os puniam e os provocavam.

Mas, tivessem os crimes faltado, esse governo de toga longa, de julgadores, ainda assim não
poderia parar facilmente, uma vez que estava em plena ânsia de julgar. O humor militante do pessoal do
rei, tão terrivelmente despertado pelas campanhas contra Bonifácio e contra o Templo, não podia mais se
passar de guerras. Sua guerra, sua paixão, era um grande processo, um grande e terrível processo, de
crimes medonhos dignamente punidos por enormes suplícios. Nada nele faltava, se o culpado fosse uma
figura distinta. O popular então aprendia a reverenciar a toga; o burguês ensinava seus filhos a tirarem o
capuz perante os Messires[278], a desaparecerem ao virem sua mula quando, ao anoitecer, pelas
ruazinhas da Cité, eles retornavam atrasados de algum famoso julgamento[279].

As acusações vieram aos montes; eles não tiveram do quê se queixar: envenenamentos,
adultérios, falsidades, feitiçaria sobretudo. Esta última estava misturada a todas e era a atração e o
horror. O juiz vibrava sobre sua cadeira quando eram levadas ao tribunal as peças de convicção, filtros,
amuletos, sapos, gatos negros, imagens espetadas de agulhas... Havia nessas causas uma violenta
curiosidade, um acre prazer de vingança e de medo. Ninguém se saciava. Mais se queimava, mais
mandavam para queimar.

Acreditaríamos graciosamente que esse tempo era o do reino do Diabo, não fossem as belas
ordenações que apareciam por intervalos e fazem a parte de Deus... O homem é violentamente disputado
pelos dois poderes. Crê-se assitir ao drama de Bartolo: o homem perante Jesus, o Diabo acusador, a
Virgem defensora. O Diabo reclama o homem como coisa sua, alegando a imemorial posse. A Virgem
prova não haver prescrição e demonstra que o outro abusa da interpretação dos textos[280].

A Virgem tem forte parte nesta época. O Diabo é do século e reúne as características deste, as
pérfidas empreitadas: ele as possui do Judeu e do alquimista, do escolástico e do jurista.

A feitiçaria (diablerie), como ciência, tinha, desde então, pouco progresso a fazer. Ela se
apresenta como arte. A demonologia dava luz à bruxaria. Não era o bastante distinguir e classificar as
legiões de diabos, deles conhecer os nomes, as profissões, os temperamentos[281]; era necessário
aprender fazê-los servir às necessidades do homem. Até então, estudara-se os meios de expulsá-los;
doravante, procurava-se fazê-los vir. Este pavoroso povo de tentadores cresceu sem medida. Cada clã da
Escócia, cada grande Casa da França, da Alemanha, quase todo homem, tinha o seu. Eles acolhiam todos
os pedidos secretos que não se podia fazer a Deus, escutavam tudo aquilo que não se ousava dizer...
podia-se encontrá-los em qualquer lugar[282]. Seu vôo de morcego escurecia quase toda a luz e o dia de
Deus. Haviam sido vistos a agarrar, em pleno dia, um homem que acabara de comungar e que se fazia
proteger, círios acesos, por seus amigos[283].

O primeiro desses grosseiros processos de feitiçaria, onde não havia, dos dois lados, senão
pessoas desonestas, é aquele de Guichard, bispo de Troyes, acusado de ter, por engenho e malefício,
ocasionado a morte da mulher de Filipe o Belo. Esta pérfida mulher, que recomendara o degolamento dos
Flamengos (vide mais acima), é também aquela que, segundo uma tradição mais célebre que segura,
mandava levar, à noite, estudantes para a torre de Nesle, os quais eram lançados às águas do Sena após
ter deles se servido[284]. Rainha de direito da Navarra, condessa da Champagne, ela desejava mal ao
bispo que, numa questão financeira, salvara um homem a quem ela odiava. Ela fazia o que podia para
destruir Guichard. Inicialmente, ela conseguira expulsá-lo do Conselho e o forçara a residir na
Champagne (Arquivos, Secão Hist., J. 438). Depois, ela jurara que, ou perderia seu condado da
Champagne, ou ele seu bispado. Ela o perseguia por sabe-se lá qual reparação. Guichard então pediu a
uma bruxa um meio de se fazer amar pela rainha e, depois, um meio para fazê-la morrer. Ele foi à noite,
segundo se contou, à morada de um eremita para maleficiá-la e enfeitiçá-la com um filtro. Produziu-se,
com a assistência de uma parteira, uma rainha de cera que foi batizada Joana (Jeanne), tendo padrinho e
madrinha; então, a figura de cera foi espetada com agulhas. Entretanto, a verdadeira Joana não morria. O
bispo retornou mais de uma vez à ermida, esperando melhor sucesso. O eremita se apavorou, se salvou e
contou tudo. A rainha morreu pouco depois[285]. Mas, seja porque nada pôde ser provado, seja porque
Guichard tinha muitos amigos na Corte, seu processo se arrastou. Ele foi mantido na prisão[286].

O Diabo, entre outros ofícios, exercia aquele de alcoviteiro. Conta-se que um monge encontrou
uma forma de macular toda a Casa de Filipe o Belo. As três princesas, suas noras, esposas de seus três
filhos, foram denunciadas e presas[287]. Deteve-se, ao mesmo tempo, dois irmãos, dois cavaleiros
Normandos que estavam vinculados ao serviço das princesas. Estes dois desgraçados confessaram, sob
tortura, que já há três anos pecavam com suas jovens amantes, “inclusive nos mais santos dias”[288]. A
piedosa confiança da Idade Média, que não temia trancar uma grande dama com seus cavaleiros no
perímetro de um castelo, numa estreita torre, a vassalagem que obrigava os jovens rapazes a um dever
feudal de cuidados os mais doces e suaves, era uma perigosa provação para a natureza humana quando a
religião fraquejava[289]. O Petit Jehan de Saintré, este conto ou história do tempo de Carlos VI, não
relata senão muito bem tudo isso.

Fosse ou não verdadeira a falta, a punição foi atroz. Os dois cavaleiros, conduzidos à praça do
Martroi, próximo ao olmo Saint-Gervais[290], foram aí esfolados vivos, castrados, decapitados,
pendurados pelas axilas. Assim como os padres procuravam suplícios infinitos para vingar Deus, o rei,
este novo deus do mundo, jamais conseguia encontrar penas suficientemente majestosas para satisfazer
sua majestade ultrajada[291]. Duas vítimas não bastaram. Foram procurados cúmplices. Pegou-se um
porteiro real do palácio, depois muitos outros, homens e mulheres, nobres ou andarilhos; uns foram
lançados ao Sena, outros postos secretamente à morte.

Das três princesas, uma só escapou. Filipe o Longo, seu marido, não conseguia encontrá-la
culpada; ademais, ter-lhe-ia sido preciso devolver o Franco-Condado que ela trouxera em dote. Para as
duas outras, Margarida e Branca, esposas de Luís o Turbulento e de Carlos o Belo, as mesmas foram
vergonhosamente tonsuradas e jogadas numa fortaleza. Luís, quando de sua ascensão ao trono, mandou
estrangular a sua (15 de abril de 1315) a fim de poder se casar novamente. Branca, mantida só na prisão,
foi bem mais infeliz[292].

Uma vez nesta via de crimes, o ímpeto tendo sido dado às imaginações, qualquer morte é vista
como envenenamento ou malefício. A mulher do rei foi envenenada, sua irmã também. O imperador
Henrique VII o será pela hóstia. O conde de Flandres quase não escapou de sê-lo por seu próprio filho.
Conta-se que Filipe o Belo o foi por seus ministros, por aqueles que mais perdiam com sua morte; e não
somente Filipe, mas seu pai, morto trinta anos antes. Com muito gosto, remontar-se-ia mais acima a fim
de se encontrar outros crimes (Continuadores de Guil. de Nangis, anos 1304, 1308, 1313, 1315, 1320,
pgs. 68, 61, 67, 68, 70, 77, 78).

Todos esses rumores apavoravam o povo. Eles desejaram acalmar Deus e fazer penitência.
Entre as fomes e as bancarrotas das moedas, entre as vexações do diabo e os suplícios do rei, eles se iam
pelas cidades, chorando, urrando, em imundas procissões de penitentes nus, flagelantes obscenos;
pérfidas devoções que conduziam ao pecado[293].

Era este o triste estado do mundo quando Filipe e seu Papa partiram para, finalmente, encontrar
seus respectivos julgamentos. Narra-se que Jacques de Molay, de dentro de sua fogueira, adiara, pelo
prazo de um ano, o comparecimento de ambos perante Deus[294]. Clemente partiu primeiro. Pouco antes,
ele vira, em sonho, todo seu palácio em chamas. “Desde então”, conta seu biógrafo, “ele não foi mais
feliz e nem durou muito”[295].

Sete meses depois, foi a vez de Filipe. Ele morreu em sua casa de Fontainebleau e foi enterrado
ao lado de Monaldeschi, na igrejinha de Avon.

Alguns o fazem morrer numa caçada, derrubado por um javali. Dante, com sua verve de ódio,
não encontra palavras suficientemente baixas para dizer: “Ele morrerá duma pancada de porco, o
falsificador de moedas!”[296].

Mas o historiador francês contemporâneo nada fala desse acidente. Ele diz que Filipe extinguiu-
se sem febre, sem mal visível, para grande espanto dos médicos[297]. Nada indicava que fosse morrer
tão cedo; ele não tinha senão quarenta e seis anos. Esta bela e silenciosa figura exibia-se impassível ao
meio de tantos acontecimentos. Acreditava-se ele secretamente atingido pela maldição de Bonifácio ou
do Grão-Mestre? ou, então, o tivesse sido pela confederação dos nobres do reino que se formou contra si
no próprio ano de sua morte? Os barões e os nobres o haviam seguido às cegas contra o Papa; eles não
haviam escutado uma palavra em favor de seus irmãos, os cadetes da nobreza: eu falo dos Templários.
As medidas adotadas contra seus direitos de justiça e de cunhagem de moedas os fizeram perder a
paciência. No fundo, o rei dos juristas, o inimigo da feudalidade, não possuía outra força militar a se
opor a ele senão a própria força feudal. Era um círculo vicioso do qual não podia mais sair. A morte o
tirou dos negócios.

Qual parte ele realmente teve nos grandes acontecimentos de seu reino, ignora-se. Somente, ele é
visto a percorrer o reino sem cessar. Nada se faz de grande, para o bem ou para o mal, que ele não esteja
presente: em Courtrai e em Mons-en-Puelle (1302, 1304), em Saint-Jean-d’Angély, em Lyon (1305), em
Poitiers e em Viena (1308, 1313).

Este príncipe parece ter sido metódico e regular. Nenhum traço de despesas privadas. Ele se
sentava para contar com seu tesoureiro a cada vinte e cinco dias.

Filho de uma Espanhola, educado pelo dominicano Egidio de Roma (Egidio Romano ou Gilles
de Rome), da Casa de Colonna, ele tinha evidentemente alguma coisa do sóbrio espírito de São
Dominique, assim como São Luís possuía a suavidade mística da Ordem de São Francisco. Egidio
escrevera para seu aluno um livro, De Regimine Principum Doctrina (NT: Da Doutrina do Governo do
Príncipe), e não teve dificuldade para inculcar-lhe o dogma do direito ilimitado dos reis[298].

Filipe fizera-se traduzir a Consolação de Boécio[299], os livros de Vegécio sobre a arte


militar[300] e as cartas de Abelardo e Heloísa[301]. Os infortúnios universitários e amorosos deste
célebre professor, tão maltratado pelos sacerdotes, eram um texto popular no meio desta grande guerra do
rei contra o clero. Filipe o Belo apoiava-se na Universidade de Paris[302]; ele afagava esta turbulenta
república e ela o apoiava. Enquanto Bonifácio procurava se ligar aos Mendicantes (Bulæus, III, 511,
516, 595), a Universidade os perseguia através de seu famoso doutor João Pica-Asno (Pungens-asinum),
campeão do rei contra o Papa[303]. À ocasião em que os Templários foram presos, Nogaret reuniu todo
o povo universitário no Templo, mestres e colegiais, teólogos e artistas, para ler-lhes o ato de acusação.
Um tal corpo era uma grande força para se ter a favor; e dentro da capital. Assim, o rei nada sofreu
quando Clemente V elevou as escolas de Orléans para o nível de Universidade, criando, desta forma,
uma rival à sua Universidade de Paris[304].

Este reinado é a época de enraizamento para a Universidade. Nele se funda mais colégios que
em todo o século XIII e os mais célebres colégios[305]. A mulher de Filipe o Belo, malgrado sua
péssima reputação, funda o colégio de Navarra (1304), este seminário de galicanos donde saíram
d’Ailly, Gerson e Bossuet. Os conselheiros de Filipe o Belo, que também tinham muito a expiar,
constituem fundações semelhantes. O arcebispo Gilles d’Aiscelin, o débil e servil juiz dos Templários,
fundou este terrível colégio, a mais pobre e a mais democrática das escolas universitárias, este Monte-
Agudo, onde o espírito e os dentes, segundo o provérbio, eram igualmente pontudos[306]. Neste,
educava-se, sob a inspiração da fome, os pobres escolares, os pobres mestres[307], que tornaram ilustres
o nome de Capetos[308]; débil alimentação, mas amplos privilégios: não dependiam, para a confissão,
nem do bispo de Paris, nem mesmo do Papa (ibidem).

Que Filipe o Belo tenha sido ou não um homem maligno ou um péssimo rei, não se pode
desprezar, em seu reino, a grande era da ordem civil na França, a fundação da monarquia moderna. São
Luís é ainda um rei feudal. Pode-se mensurar por uma simples palavra todo o caminho que se fez de um a
outro. São Luís reuniu os deputados das cidades do sul, Filipe o Belo aqueles dos Estados da França. O
primeiro baixou regramentos para seus domínios, o segundo ordenações para o reino. Um colocou como
princípio a supremacia da justiça real sobre aquela dos senhores, o apelo ao rei, e tenta moderar as
guerras privadas pela quarentena (quarentaine) e pelo asseguramento ou garantia (asssurement)[309].
Sob Filipe o Belo, o apelo ao rei se encontra tão bem firmado, que o mais independente dos grandes
feudatários, o duque da Bretanha, solicita, como graça singular, ser isento dele (Ord., 1, p. 329). O
Parlamento de Paris escreve pelo rei ao mais distante dos barões, ao conde de Comminges, este pequeno
rei dos altos Pirineus, as seguintes palavras que, um século antes, não seriam sequer compreensíveis:
“Em todo o Reino, o conhecimento e a punição do porte d’armas não pertence senão a nós” (Olim.
Parliamenti, III, folio CXXXIV. Arquivos, Seção Judiciária).

No início desse reinado, a nova tendência se anuncia fortemente. O rei deseja excluir os
sacerdotes da justiça e dos cargos municipais[310]. Ele protege os judeus[311] e os heréticos, aumenta o
imposto real sobre as amortizações, sobre as aquisições de imóveis pelas igrejas[312]. Ele proíbe as
guerras privadas, os torneios. Esta proibição, motivada pela necessidade que o rei tem de seus homens
para a guerra de Flandres, é frequentemente reiterada[313]; uma vez, mesmo, o rei ordena a seus
prebostes prenderem aqueles que forem aos torneios[314]. A cada campanha, era-lhe necessário fazer a
prensa e reunir, apesar dela, esta indolente cavalaria que pouco se preocupava com as questões do rei e
do reino[315].

Este governo inimigo da feudalidade e dos sacerdotes não possuía outra força militar senão os
senhores, nem outro dinheiro senão pela Igreja. Daí, várias contradições, mais de um passo atrás.

Em 1287, o rei permite aos nobres perseguir seus servos fugitivos nas cidades. Talvez, de fato,
ele tivesse necessidade de cessar esse grande movimento do povo para as cidades, de impedir a
deserção dos campos[316]. As cidades teriam absorvido tudo e todos; a terra restaria deserta, como
aconteceu no Império Romano.

Em 1290, o clero arrancou ao rei uma carta exorbitante, inexeqüível, que teria matado a
monarquia. Os principais artigos eram que os prelados julgariam os testamentos, os legados, as
doações, que os bailios e a gente do rei não permaneceriam sobre as terras da Igreja, que os bispos
somente poderiam prender os eclesiásticos, que os clérigos não demandariam de forma alguma em corte
laica para as ações pessoais, ainda quando fossem a isso obrigados por cartas do rei (seria a impunidade
dos padres); que os prelados não pagariam (imposto) pelos bens adquiridos por suas igrejas; que os
juízes locais não conheceriam questões envolvendo os dízimos, quer dizer, que apenas o clero julgaria os
abusos fiscais do próprio clero[317].

Em 1291, Filipe o Belo atacara violentamente a tirania da Inquisição no sul (Hist. du Lang., l.
XXVIII, c. 22, p. 72). Em 1298, no início da guerra contra o Papa, ele secunda a intolerância dos bispos,
ordena aos senhores e aos juízes reais a eles entregarem os heréticos para que os condenassem e os
punissem sem direito a apelo[318]. No ano seguinte, ele promete que os bailios não vexarão mais as
igrejas com coletas violentas; eles não coletarão senão de um domicílio por vez[319], etc.

Era também necessário satisfazer os nobres. Ele lhes concedeu uma ordenação contra seus
credores, contra os usurários judeus[320]. Ele garantiu seus direitos de caça. Os coletores reais não
explorarão mais as sucessões dos bastardos e dos aubanos nas terras dos senhores que possuam a alta-
justiça (haut-justice): “A menos”, acrescenta prudentemente o rei, “que seja constatado por pessoa
idônea que nós temos bom direito em perceber”[321].

Em 1302, após a derrota de Courtrai, o rei ousou muito. Ele tomou, para cunhar moedas, a
metade de toda a louça de prata[322] (os bailios e pessoal do rei deviam dar tudo); ele tomou os bens
dos prelados que haviam partido para Roma[323]; enfim, ele se impôs sobre os nobres batidos e
humilhados em Courtrai: o momento era bom para fazê-los pagar (Ord., I, 330; fim de 1302).

Em 1303, durante a crise, quando Nogaret tinha acusado Bonifácio (12 de março), quando a
excomunhão podia, de um momento a outro, desabar sobre a cabeça do rei, ele promete tudo o que
desejavam. Em sua ordenação de reforma (fim de março), ele se comprometia com os nobres e prelados
a nada obter ou adquirir em suas terras[324]. Todavia, ainda aí, ele colocava uma reserva que anulava
tudo: “Salvo nos casos que tocam ao nosso direito real”[325] . Na mesma Ordenação, encontrava-se um
regramento relativo ao parlamento; entre os privilégios, a organização do corpo que devia destruir
privilégios e privilegiados[326].
Nos anos que se seguem, ele permite aos bispos ingressarem no Parlamento. Toulouse recupera
sua justiça municipal; os nobres da Auvérnia obtém que se respeite seus julgamentos, que os oficiais do
rei sejam reprimidos etc. Enfim, em 1306, quando a revolta das moedas força o rei, que não podia contar
com os burgueses, a procurar abrigo no Templo, ele devolve aos nobres a solução de batalha, a prova
pelo duelo à falta de testemunhas[327].

A grande causa dos Templários (1308-9) o força ainda a relaxar a mão. Ele renova as promessas
de 1303, regula a contabilidade dos bailios, promete não mais taxar os censitários (arrendatários) dos
nobres, põe ordem nas violências dos senhores, promete aos Parisienses moderar seu direito de presa
(droit de prise) e de provisão (droit de pourvoierie), aos Bretões, de cunhar boa moeda, aos Poitevinos,
de destruir os fornos dos falsificadores de moedas. Ele confirma os privilégios de Rouen.
Repentinamente caridoso e esmoler[328], ele desejava empregar o direito (droit) de chambellage para
casar as jovens nobres pobres[329]; ele doava liberalmente aos hospitais as palhas que eram utilizadas
para forrar os abrigos reais em suas frequentes viagens.

A hipocrisia deste governo não é mais notável senão nos casos das moedas. É curioso seguir, de
ano em ano, as mentiras, as tergiversações do real falsificador. Em 1295, ele alerta o povo que vai
cunhar uma moeda “na qual, talvez, faltará alguma coisa para o título ou o peso, mas que indenizará
aqueles que sofrerem perdas; sua querida esposa, a rainha Joana de Navarra, muito deseja que as rendas
da Normandia estejam vinculadas a este fim”[330]. Em 1305, ele manda anunciar pelas ruas, ao som de
trombetas, que sua nova moeda é tão boa quanto aquela de São Luís (Ord., I, 429). Ele várias vezes
mandara que os falsificadores de moedas mantivessem segredo das falsificações. Mais tarde, ele manda
espalhar que suas moedas haviam sido adulteradas por outros e ordena destruir os fornos nos quais se
cunhara falsa moeda (Ord. I, 451). Em 1310 e 1311, temendo a comparação com as moedas estrangeiras,
ele proibe sua importação. Em 1311, ele proibe pesar ou testar as moedas reais[331] (Ord. I, 481, 16 de
maio de 1311).

Nula dúvida que, em tudo isso, o rei não estivesse convencido de seu direito, que não
considerasse como um atributo de seu todo-poder aumentar, a seu bel-prazer, o valor das moedas. O
cômico é ver este todo-poderoso, esta divindade, obrigada a enganar a desconfiança do povo; a religião
nascente da Monarquia já possui seus incrédulos.

Enfim, a própria Realeza parece duvidar de si. Esta confiante potência, tendo chegado ao cabo
da violência e do ardil, faz uma confissão implícita de sua fraqueza; ela faz um apelo à liberdade. Viu-se
com quais palavras ousadas o rei se fez endereçar a famosa Súplica do povo da França ao Rei contra
Bonifácio e nos discursos dos deputados dos Estados de 1308. Mas nada é mais notável que os termos da
Ordenação pela qual ele confirma a libertação dos servos do Valois, concedida por seu irmão: “Visto que
toda criatura humana, que é formada à imagem de Nosso Senhor, deve geralmente ser livre por direito
natural, e que em nenhum país esta liberdade e privilégio devem ser apagados e obscurecidos pelo jugo
da servidão, que é tão odioso, que os homens e as mulheres que habitam nos mencionados países são
reputados mortos desde vivos e que, ao fim de suas dolorosas e reles existências estão tão estreitamente
atados e ligados, que os bens que Deus emprestou-lhes neste século, eles não podem, em suas últimas
vontades, dispor nem comandar...” (Ord. XII, 387, ann. 1311).

Essas palavras deviam soar mal aos ouvidos feudais. Elas pareciam um requisitório contra a
servidão, contra a tirania dos senhores. O lamento que jamais ousara se erguer, sequer em voz baixa, eis
que ele reluzia e caía de cima como uma condenação. O rei, tendo dado cabo de todos os seus inimigos
com a ajuda dos senhores, não demonstrava nenhuma deferência para estes. No dia 13 de junho de 1313,
o rei os proibiu de cunhar qualquer moeda até que obtivessem cartas reais que os autorizassem (Ord., I,
p. 5-22, art. 14).

Esta Ordenação foi o cúmulo. Qualquer que fosse o terror que o rei pudesse lhes inspirar após a
causa do Templo, os nobres decidiram-se a tudo arriscar e a tomar partido. A maioria dos senhores do
Norte e do Leste (Picardia, Artois, Ponthieu, Borgonha e Forez) formou uma confederação contra o rei:
“A todos aqueles que verão e ouvirão essas presentes cartas, os nobres e os comuns da Champagne, por
nós, pela região de Vermandois e pelos nossos aliados e coadjuvantes que estejam em todos os pontos
do reino da França, saudações! Saibam que, como o mui excelente e mui poderoso príncipe, nosso mui
estimado Sire, Filipe, pela graça de Deus, rei da França, criou e aumentou várias talhas, subvenções,
exações, mudanças de moedas, e várias outras coisas que foram feitas, pelas quais o nobres e os comuns
foram muito penalizados e empobrecidos... E não parece que elas tenham tornado em honra e proveito do
rei, nem do reino, nem em defesa do bem comum. A respeito de tais prejuízos, nós, várias vezes,
requeremos e, humilde e devotamente, suplicamos ao dito Sire rei que bem desejasse essas coisas
desfazer e abandonar; a respeito do que o rei nada fez. E, ainda neste presente ano corrente, no ano 1314,
o mencionado nosso Sire o rei fez imposições indevidas, não somente sobre os nobres, como também aos
comuns do reino, e subvenções pelas quais esforçou-se em cobrar; tal coisa não podemos sofrer nem
apoiar em boa consciência, pois assim perderíamos nossas honras, privilégios e liberdades; e nós, e
aqueles que após virão... Juramos e prometemos por nossos votos, lealmente e de boa-fé, por nós e
nossos herdeiros, aos condados de Auxerre e de Tonnere, aos nobres e aos comuns dos mencionados
condados, seus aliados e coadjuvantes, que nós, contra o que tange à subvenção do presente ano, e em
relação a todos os outros danos e novidades indevidamente feitos e a fazer, para o tempo presente e para
o porvir, que o rei da França, nossos senhores, ou outros que o desejarem fazer, nós os ajudaremos e os
socorreremos às nossas próprias expensas e custas...”[332].

Este ato parecia uma resposta às perigosas palavras do rei sobre os servos. O rei denunciava os
senhores, estes o rei. As duas forças que haviam se unido para despojar a Igreja, agora se acusavam uma
à outra perante o povo, que ainda não existia como povo, e que não podia responder.

O rei, sem defesas contra esta confederação, se dirigiu às cidades. Ele chamou seus deputados
para virem se consultar consigo sobre a questão das moedas (1314). Esses deputados, dóceis às
influências reais, pediram que o rei impedisse os barões, durante onze anos, de cunhar moeda, para que
ele próprio fabricasse a boa, sobre a qual nada ganharia[333].

Filipe o Belo morreu no meio desta crise (1314). A ascensão de seu filho, Luís X, tão
propriamente denominado Turbulento (Hutin – desordem, turbulência, tumulto), é uma reação violenta
do espírito feudal, local, provincial, que deseja quebrar a unidade ainda fraca, uma exigência de
desmembramento, uma reclamação do caos[334].

O duque da Bretanha deseja julgar sem apelo; também o Tesoureiro de Rouen. Amiens não quer
mais que os sargentos do rei façam aprazamentos nas terras dos senhores e nem que os presbotes tirem
qualquer prisioneiro de sua jurisdição. Borgonha e Nevers exigem que o rei respeite a justiça feudal, que
não mais erga seus pendões nas torres e nas barreiras dos senhores (Ord. I, 551 e 592, 561-567 e 625,
572).

O pedido comum dos barões é que o rei não tenha mais relação direta com seus homens. Os
nobres da Borgonha se encarregam de punir seus próprios oficiais. A Champagne e o Vermandois
proíbem ao rei mandar citar perante o tribunal os vassalos inferiores (Ord. I, 559, 8º; 574, 5º; 554, 2º).
As províncias mais distantes uma da outra, o Périgord, Nîmes e a Champagne se unem para
reclamar que o rei deseja taxar os arrendatários dos nobres (Ord. I, 562, 2º).

Amiens desejava que os bailios nem prendessem, nem tomassem, senão após condenação. A
Borgonha, Amiens, Champagne, pedem unanimemente o restabelecimento da solução de batalha, do
combate judiciário[335].

O rei não adquirirá mais nenhum feudo, nem clientes, nas terras dos senhores, na Borgonha, em
Tours e em Nevers, tanto quanto na Champagne (salvo em caso de sucessão ou confisco)[336].

O jovem rei outorga e assina tudo. Há apenas três pontos a respeito dos quais hesita e deseja
adiar. Os senhores da Borgonha reclamam contra o rei a jurisdição sobre as praias e margens, as estradas
e os lugares consagrados. Os da Champagne duvidam que o rei tenha o direito de conduzi-los à guerra
fora de suas províncias. Aqueles de Amiens, com a violência picarda, requerem sem volta que, todos os
nobres possam guerrear uns contra os outros, não se submeter a tréguas, mas cavalgar, ir, vir e estar
armados para a guerra, confiscar e indenizar uns aos outros... a essas exigências insolentes e absurdas,
o rei apenas responde: “Mandaremos ver os registros de Monsenhor São Luís e conceder aos
mencionados nobres duas pessoas honestas, tais como as nomearemos de nosso próprio juízo, para
saber e inquerir diligentemente da verdade do mencionado artigo”[337].

A resposta era suficientemente hábil. Pois eles, os nobres, exigiam que se voltasse aos bons
costumes de São Luís; mas se esqueciam que São Luís se esforçara para impedir as guerras privadas.
Todavia, por este nome de São Luís, eles não compreendiam outra coisa senão a antiga independência
feudal, o contrário do governo quase-legal, venal e chicaneiro de Filipe o Belo.

Os nobres destruíam, peça a peça, todo esse governo do falecido rei. Mas eles não o tinham por
morto até que conseguissem matar seu alter ego, seu prefeito do palácio, Enguerrand de Marigny, que,
nos últimos anos, fora coadjuvante e regente do reino, que se fizera erguer uma estátua no Palácio, ao
lado daquela do rei. Seu verdadeiro nome era Le Portier; mas ele adquiriu, junto com uma terra, o nome
de Marigny. Este Normando, personagem gracioso e cauteloso[338], mas aparementemente não menos
silencioso que seu senhor, não deixou nenhum ato seu; aparentemente, ele não escrevia e nem falava. Ele
fez com que os Templários fossem condenados por seu irmão, a quem fizera, propositadamente para isto,
Arcebispo de Sens. Sem dúvida, ele teve a parte principal nas querelas do rei com os Papas; mas nisso
ele se houve tão bem, que passou como responsável por ter deixado Clemente V escapar de
Poitiers[339]. O Papa, provavelmente, era-lhe grato; e, de outra parte, ele conseguiu convencer o rei que
o Papa ser-lhe-ia mais útil em Avignon, numa aparente independência, que num cativeiro que teria
revoltado o mundo cristão[340].

Foi no Templo, no lugar mesmo onde Marigny instalara seu amo para despojar os Templários,
que o jovem rei Luís o Turbulento veio escutar a acusação solene feita contra Marigny. O acusador era o
irmão de Filipe o Belo, este violento Carlos de Valois, homem tumultuoso e medíocre que se portava
como chefe dos barões[341]. Nascido tão próximo do trono da França, ele correra toda a Cristandade
para encontrar um para si, enquanto um insignificante cavaleiro da Normandia reinava ao lado de Filipe
o Belo. Não é de se espantar se Carlos estava tomado pelo ódio e pela raiva.

Não teria sido difícil para Marigny defender-se, caso se desejasse ouvi-lo. Ele nada fizera além
de ser o pensamento, a consciência de Filipe o Belo. Era, para o jovem rei, como se estivesse julgando a
alma de seu próprio pai. Assim, ele desejava apenas distanciar Marigny, relegá-lo à ilha de Chipre e
reconvocá-lo mais tarde. Para destruí-lo, era necessário que Carlos de Valois recorresse à grande
acusação da época, da qual ninguém conseguia se livrar: descobriu-se, ou supôs-se descobrir, que a
mulher ou a irmã de Marigny, para provocar sua libertação ou enfeitiçar o rei com malefícios, mandara
fazer, por um tal Jacques de Lor, determinados e pequenos bonecos: “O mencionado Jacques, jogado na
prisão, se enforca de desespero e, na sequência, sua mulher e as irmãs de Enguerrand são postas na
prisão; e o próprio Enguerrand, julgado na presença dos cavaleiros, é enforcado em Paris, no cadafalso
dos ladrões. Entretanto, ele não reconheceu nenhum dos retromencionados malefícios e apenas disse que,
a respeito das exações e alterações de moeda, não fora o único autor... eis porque sua morte, a respeito
da qual muitos não conceberam completamente as causas, foi objeto de grande admiração e estupor”.

“Pierre de Latilly, bispo de Châlons, suspeito da morte do rei da França Filipe e de seu
predecessor, foi, por ordem do rei, mantido em prisão em nome do arcebispo de Reims. Raul de Presles,
advogado-geral (advocatus præcipuus) junto ao Parlamento, igualmente suspeito e detido por semelhante
suspeita, foi trancafiado na prisão de Santa Genoveva (Sainte-Geneviève), em Paris, e torturado por
diversos suplícios. Como não se conseguia extrair de sua boca a confissão dos crimes dos quais era
acusado, ainda que tivesse resistido aos tormentos mais diversos e mais dolorosos, ele findou por ser
liberado; grande parte de seus bens, tanto móveis quanto imóveis, tinham sido dados, perdidos ou
pilhados”[342].

Foi como nada ter dependurado Marigny, encaixotado Raul de Presles e arruínado Nogaret,
como fizeram mais tarde. O jurista era mais vivaz que os barões podiam supor. Marigny reinava em todo
reino e sempre o matavam em vão. O velho sistema, abalado por safanões, esmaga um inimigo a cada vez
e não se torna mais forte. Toda a história dessa época está no combate de morte entre o jurista e o barão.

Cada elevação ao trono se apresenta como uma restauração dos bons e velhos usos e costumes
de São Luís, como uma expiação do reinado passado. O novo rei, companheiro e amigo dos príncipes e
dos barões, começa, como o primeiro dos barões, como bom e severo justiceiro, a mandar enforcar os
melhores servidores de seu predecessor. Um grande patíbulo é construído; o povo para aí segue, com
suas vaias, o homem do povo, o homem do rei, o pobre rei plebeu que leva para cada novo reinado os
pecados da realeza. Após São Luís, o barbeiro (médico) La Brosse; após Filipe o Belo, Marigny; após
Filipe o Longo, Gérard Guecte; após Carlos o Belo, o tesoureiro Remy... Ele morre ilegalmente, mas não
injustamente. Ele morre sujo das violências de um sistema imperfeito onde o mal ainda domina o bem.
Mas, morrendo, ele deixa para a realeza que o golpeia seus instrumentos de poder e, ao povo que o
maldiz, as instituições da Ordem e da Paz.

Poucos anos tinham decorrido, que o corpo de Marigny foi respeitosamente baixado de Mont-
Faucon e recebeu a sepultura cristã[343]. Luís o Turbulento legou dez mil libras aos filhos de Marigny.
Carlos de Valois, em sua última doença, acreditou, para o bem de sua alma, reabilitar sua vítima. Ele
mandou distribuir enormes esmolas, recomendando que fosse dito aos pobres: “Rogai a Deus por
Monsenhor Enguerrand de Marigny e por Monsenhor Carlos de Valois”[344].

A melhor vingança de Marigny foi que a monarquia, tão forte sob suas mãos, logo tombou,
depois que ele se foi, para a mais deplorável fraqueza. Luís o Turbulento, tendo necessidade de dinheiro
para a guerra de Flandres, tratou de igual para igual com a cidade de Paris. Os nobres da Champagne e
da Picardia se apressaram em aproveitar do direito de guerra privada que acabavam de reconquistar e
fizeram guerra à condessa do Artois, sem se inquietar com o que pensaria o rei que a ela adjudicara esse
feudo. Todos os barões voltaram a cunhar moeda; Carlos de Valois, tio do rei, deu-lhes o exemplo. Mas,
ao invés de a cunharem somente para suas terras, em conformidade com as Ordenações de Filipe o
Ousado e de Filipe o Belo, eles a fabricavam, falsa, à grande e a ela davam curso em todo o reino[345].

Fazia-se demasiadamente necessário que o rei despertasse e retornasse à forma de governo de


Marigny e de Filipe o Belo. Ele denunciou a cunhagem de moedas pelos barões (19 de novembro de
1315) e ordenou que as mesmas não teriam curso senão em suas próprias terras[346]. Oitenta senhores
tinham esse direito do tempo de São Luís.

O jovem rei feudal humanizado pela necessidade de dinheiro não desdenhou tratar com os
servos e com os judeus. A famosa Ordenação de Luís o Turbulento para a libertação dos servos de seus
domínios é inteiramente conforme àquela que acima citamos, de Filipe o Belo, para o Valois. “Como,
segundo o direito da natureza, todos devem nascer francos (livres); e embora usos e costumes de alta
antiguidade tenham sido introduzidos e observados até aqui em nosso reino, possivelmente por mau
julgamento de seus predecessores, muitas pessoas de nosso povo comum caíram nos laços da servidão de
diversas condições, o que muito nos desagrada: Nós, considerando que nosso reino é dito e chamado o
reino dos Francos (homens livres), e desejosos que, em realidade, a coisa seja de acordo com o nome, e
que a condição das pessoas seja corrigida por nós e por nosso novel governo; por deliberação de nosso
Grão-Conselho temos ordenado e ordenamos que, geralmente, por todo o nosso reino, e tanto quanto
possa vir a pertencer a nós e a nossos sucessores, tais servidões sejam conduzidas à franquia
(libertação), e que a todos aqueles que por origem, ou por antiguidade, ou por casamento, ou por
residência nos lugares de servil condição, tenham sido enlaçados ou possam vir a sê-lo pela servidão,
seja-lhes dada franquia em boas e convenientes condições”[347].

É curioso ver o filho de Filipe o Belo vangloriar a liberdade aos servos. Mas é causa perdida.
O mercador pode muito bem inflar a voz e valorizar o mérito de sua mercadoria, os pobres servos não a
desejam. Eles eram por demais pobres, por demais humildes, demasiadamente curvados sobre a terra.
Ainda que tivessem enterrado nesta terra alguma péssima moeda, eles tomariam cuidado para não
desencavá-la a fim de comprar sequer um pergaminho. Em vão o rei se irrita por vê-los desprezar uma tal
graça. Ele findou por ordenar aos comissários encarregados da libertação estimarem os bens dos servos
que preferiam “permanecer na miséria da servidão” e que, isto feito, os taxassem “tão suficientemente e
tão grandemente, conforme a condição e riqueza das pessoas possa suportar e a necessidade de nossa
guerra o requer”.

Foi, todavia, um grande espetáculo ver pronunciada, do alto do trono, a proclamação do direito
imprescritível de todo homem à liberdade. Os servos não compraram esse direito, mas lembrar-se-ão
desta lição real e do perigoso apelo que continha contra os senhores[348].

O reino curto e obscuro de Filipe o Longo não é nem por isso menos importante para o Direito
Público da França que aquele de Filipe o Belo.

Inicialmente, sua elevação à coroa coloca uma grande questão: Luís o Turbulento, deixando sua
mulher grávida ao morrer, seu irmão Filipe é regente curador-do-ventre. A criança morre ao nascer[349],
Filipe faz-se rei em prejuízo de uma filha de seu irmão[350]. A coisa parecia tanto mais surpreendente
quanto Filipe o Belo havia sustentado o direito das mulheres nas sucessões do Franco-Condado e do
Artois. Os barões teriam desejado que as filhas fossem excluídas dos feudos, mas que sucedessem à
coroa da França; o chefe deles, Carlos de Valois, favorecia sua sobrinha-neta contra Filipe, seu
sobrinho[351].

Filipe reuniu os Estados-Gerais e ganhou sua causa que, no fundo, era boa por razões absurdas.
Ele alegou em seu favor a vetusta lei alemã dos Francos que excluía as filhas da sucessão da terra
sálica. Ele sustentou que a coroa da França era um feudo por demais nobre para cair na roca de fiar,
argumento feudal cujo efeito foi, entretanto, o de arruinar a feudalidade. Enquanto o progresso da
equidade civil, a introdução do direito romano, abriam as sucessões às filhas, e que os feudos tornavam-
se femininos e passavam de família em família, a coroa não saiu da mesma Casa, imutável no meio da
mobilidade universal. A Casa da França recebia de fora a mulher, o elemento móvel e variável, mas
conservava na sequência dos varões o elemento fixo da família, a identidade do Pater Familias. A
mulher muda de nome e de lar. O homem, habitando a morada dos avós, reproduzindo seu nome, é levado
a seguir seus rastros. Esta transmissão invariável da coroa na linhagem masculina deu continuidade à
política de nossos reis, calibrando utilmente a leviandade de nossa esquecedora nação.

Rejeitando assim o direito das filhas no exato momento onde este triunfava pouco a pouco nos
feudos, a coroa tomava este caráter de sempre receber sem jamais dar. Na mesma época, uma revogação
ousada de toda doação feita desde São Luís[352] parece conter o princípio da inalienabilidade do
domínio. Infelizmente, o espírito feudal que retomou força sob os Valois em favor das guerras provocou
as funestas criações dos apanágios e fundou, em benefício dos ramos diversos da família real, uma
feudalidade principesca tão embaraçosa para Carlos VI e Luís XI quanto o fora para Filipe o Belo.

Esta sucessão contestada, esta má-vontade dos senhores, lança Filipe o Longo nas vias de Filipe
o Belo. Ele lisonjeia as cidades, Paris, a Universidade sobretudo, o grande poder de Paris. Ele obriga
que os nobres jurem fidelidade na presença dos mestres da Universidade que aprovam[353]. Ele deseja
que suas boas cidades sejam enfeitadas com brasões d’armas; que os burgueses tivessem armas em
lugares seguros; ele nomeia para os mesmos um capitão em cada jurisdição e em cada região (1316, 12
março – Ord., I, p. 635 e segs.). Senlis, Amiens e o Vermandois, Caen, Rouen, Gisors, o Cotentin e a
região de Caux, Orléans, Sens e Troyes são especialmente designadas.

Filipe o Longo teria desejado (com uma finalidade, é verdade, fiscal) estabelecer uma
uniformidade de pesos e medidas de moeda; mas este grande passo ainda não se podia fazer[354].

Ele faz alguns esforços para regularizar um pouco a contabilidade. Os recebedores devem, paga
toda despesa, remeter o resto ao Tesouro do rei, mas secretamente, e sem que ninguém saiba a hora e o
dia. Os bailios e senescais devem vir contar todos os anos em Paris. Os tesoureiros contarão duas vezes
por ano. Especificar-se-á em qual moeda os pagamentos devem ser feitos. Os julgadores das contas
julgarão em seguida... E o rei saberá quanto tem a receber (Ord. I, 713-4, 629, 659).

Entre os regulamentos de finanças, encontramos este artigo: “Todos os pagamentos dos castelos
que não estejam na fronteira, cessam doravante {‘Tous gages des chastiaux qui ne sont en frontière,
cessent des-ores-en-avant – Ord. I, p. 660 (27)}. Esta frase contém um acontecimento imenso: a paz
interior começa para a França, ao menos até às guerras dos Ingleses.

A garantia desta paz interior é a organização de um robusto poder judiciário. O Parlamento se


constitui. Uma Ordenação determina em qual proporção os clérigos e os laicos devem nele ingressar,
sendo a maioria assegurada aos laicos (Ord. I, 728-731). Quanto aos conselheiros estranhos ao corpo e
temporariamente convocados, Filipe o Longo repete a exclusão já pronunciada contra os prelados por
Filipe o Belo: “Não haverá qualquer Prelado deputado no Parlamento, pois o Rei faz consciência de não
atrapalhá-los no governo de sua espiritualidade (“Il n’aura nulz Prélaz députez en Parlement, car le
Roy fait conscience de eus empeschier au gouvernement de leurs experituautez – Ord., I, 702).
Caso se deseje saber com qual vigor agia o parlamento de Paris, é preciso ler, no Continuador
de Guilherme de Nangis, a história de Jordan de Lille, “senhor gascão famoso por seu elevado
nascimento, mas ignóbil por suas bandidagens...”. E, no entanto, ele obtivera a sobrinha do Papa e, pelo
Papa, o perdão do rei. Ele empregou essas vantagens “para acumular os crimes, assassinatos e estupros,
nutrindo bandos de assassinos, amigo dos ladrões, rebelde ao rei. Ele, talvez, teria ainda escapado. Um
homem do rei viera encontrá-lo; ele o matou com o próprio bastão onde estavam as armas do rei, insígnia
de seu ministério. Chamado em julgamento, ele vem a Paris seguido de um brilhante cortejo de condes e
de barões dos mais nobres da Aquitânia... Nem por isso deixou de ser menos lançado à prisão do
Châtelet e condenado à morte pelos Mestres do Parlamento e, na véspera da Trindade, arrastado à cauda
dos cavalos e enforcado no patíbulo comum” (Contin. de G. de Nang., anno 1323, p. 80).

O Parlamento, que tão vigorosamente defende a honra do rei, é ele mesmo um verdadeiro rei sob
o aspecto judiciário. Ele porta as vestes reais, a longa túnica, a púrpura e o arminho. Não é, como parece,
a sombra, a efígie do rei; é, antes, seu pensamento, sua vontade constante, imutável e verdadeiramente
real. O rei deseja que a justiça siga seu curso, “não obstante todas as concessões, Ordenações e cartas
reais em contrário” (“Non contrestant toutes concessions, ordonnances, et lettres royaux à ce
contraire”). Assim, o rei se desfaz do rei e melhor se reconhece em seu parlamento que em si mesmo. O
rei distingue em si um duplo caráter: ele se sente rei e se sente homem, e o rei ordena ao homem
desobedecer. Belíssima confissão do Homo duplex, respeitável inconsequência e verdadeiramente
humana que encerra todo o mistério de nossa antiga monarquia.

Muitos dos textos das Ordenações neste sentido honram a sabedoria dos conselheiros que os
ditaram. O rei busca pôr uma barreira à sua liberalidade. Ele expressa o temor de que se possa dele
extrair doações excessivas à sua fraqueza, à sua desatenção; confessa que, enquanto dorme ou repousa, o
privilégio e a usurpação não estão senão muito bem despertos[355].

Assim, em 1318, ele fala de certos direitos feudais “... os quais nos são com frequência
demandados e são de um valor maior que podemos crer, nós devemos estar atentos, se alguém nô-los
reclamar” {Ord., I, p. 661 (39)}.

Por vezes, ele recomenda aos recebedores não alertar ninguém das receitas extraordinárias ou
“montantes que nos caberão, os quais não poderíamos nos escusar de dá-los” {Ord., I, 713 (9)}.

Essas confissões de fraqueza e de ignorância que os conselheiros do rei faziam-lhe dar, por
serem tão ingênuas, nem por isso são menos respeitáveis. Parece que a novel realeza, repentinamente
transformada na providência de um povo, sente a desproporção entre seus meios e seus deveres. Este
contraste está marcado de uma forma bizarra na Ordenação de Filipe o Longo: Sur le gouvernement de
son hostel et le bien de son royaume (Sobre o governo de seu palácio e o bem de seu reino). Ele
estabelece, num nobre preâmbulo, que Messire Deus criou os reis sobre a terra para que, bem ordenados
em suas pessoas, eles ordenem e governem devidamente seus reinos. Em seguida, anuncia que atende à
missa todas as manhãs e proíbe que se lhe interrompam durante a mesma para lhe apresentarem
solicitações. Nenhuma pessoa poderá dirigir-se a ele na capela “se não for nosso confessor, o qual
poderá nos falar das coisas que toquem à nossa consciência” (Ord., I, 669). Ele então providencia a
guarda de sua real pessoa: “Que nula pessoa desconhecida, nem servente de baixa extração, entre em
nosso guarda-roupa, nem ponham a mão, nem que seja para fazer nosso leito, e que nele não coloque
roupas (de cama) de estranhos” (Que nulle personne mescongüe, ne garçon de petit estat, ne entre en
notre garde-robe, ne mettent main, ne soient à nostre lit faire, et qu’on n’i soffre mettre draps
estrangers”. O terror dos envenenamentos e dos malefícios é uma marca desta época.
Após esses detalhes de cuidado, vêm os regramentos sobre o Conselho, o Tesouro, os Domínios
etc. O estado aqui aparece como um simples apanágio real, o reino como um acessório do Hostel[356]. –
Em tudo, sente-se a pequena sabedoria das gentes do rei, esta honestidade burguesa, exata e escrupulosa
no miúdo e flexível no bocado. Nenhuma dúvida que esta Ordenação não nos dê o ideal da realeza,
segundo pensavam as pessoas de toga longa; o modelo que apresentavam ao rei feudal, para dele fazer
um verdadeiro rei, era tal e qual como o concebiam.

Essas estimadas tentativas de ordem e de governo nada mudavam aos sofrimentos do povo. Sob
Luís-Turbulento, conta-se que uma horrível mortalidade levara um terço da população do Norte (Cont. de
G. de Nang., p. 71). A guerra de Flandres esgotara os últimos recursos da região. Em 1320, era
extremamente necessário finalizar essa guerra. A França tinha muito a fazer em sua casa. O excesso da
miséria exaltava os espíritos, um grande movimento tinha lugar no povo. Como ao tempo de São Luís,
uma multidão de pobres, de camponeses, de pastores ou Pastoureaux[357], como eram chamados, se
reúne em tropas e diz que deseja partir além-mar, que é através deles que se deve recuperar a Terra
Santa. Seus chefes eram um padre degradado e um monge apóstata. Eles arrastaram muitas pessoas
simples, até mesmo crianças que fugiam da casa paterna[358]. Primeiro, eles pediram, depois tomaram.
Foram detidos, mas eles forçavam as prisões e libertavam os seus. No Châtelet, eles lançaram do alto
dos degraus o preboste que desejava proibir-lhes as portas; depois, eles se foram lançar à batalha no
Pré-aux-Clercs e saíram tranquilamente de Paris; procurou-se evitar impedi-los. Eles se foram na direção
do Midi, em todo canto chacinando os judeus que os soldados do rei tentavam em vão defender[359].
Enfim, em Toulouse, reúne-se a tropa e a mesma se funde sobre os Pastores que são enforcados por
vintenas e trintenas; o resto se dissipa[360].

Essas estranhas migrações do povo indicavam menos o fanatismo que o sofrimento e a miséria.
Os senhores, arruinados pelas más moedas, pressionados pelos usurários, voltavam a cair sobre o
paisano. Este não mais se encontrava ao tempo da Jaqueria; ele não era ousado o suficiente para se virar
contra seu senhor. Ele, então, fugia e massacrava os judeus. Estes eram tão detestados, que muitas
pessoas se escandalizavam ao ver os soldados do rei tomarem sua defesa. As cidades comerciantes do
Midi os invejavam cruelmente. Era precisamente a época quando, como financistas, coletores,
percebedores, os judeus começavam a reinar sobre a Espanha. Amados pelos reis por sua habilidade e
servilidade, eles se atreviam cada dia mais até começarem a tomar o título de Don. Desde a era de Luís o
Debonário, o bispo Agobart já escrevera um tratado: De insolentiâ Judæorum (A Insolência dos Judeus).
Sob Filipe Augusto, viu-se, com espanto, um judeu tornar-se bailio do rei. Em 1267, o Papa fora
obrigado a lançar uma bula contra os cristãos que se judaizavam[361].

Filipe o Belo os expulsara; mas eles haviam retornado de mansinho. Luís o Turbulento
assegurara-lhes uma permanência de doze anos. No termo de sua permissão, todos os seus privilégios, se
ainda fossem encontrados, ser-lhes-iam restituídos, assim como seus livros, suas sinagogas, seus
cemitérios; ou então, o rei os compraria. Dois auditores foram nomeados para levantarem os bens que
haviam sido vendidos pelos judeus, pela metade do preço, na precipitação de sua fuga. O rei a eles se
associou para ajudá-los na recuperação de seus créditos, dos quais ele, rei, tinha a receber dois terços
(Ord. I, p. 595). – Os nobres devedores, que tinham obtido de Filipe o Belo que se cessaria a procura
dos devedores dos judeus, viam-se de novo à sua mercê. Os lançamentos dos judeus tinham fé na justiça
e eles podiam, como quisessem, apontar suas vítimas para o fisco. O judeu, lacerado por tantas injúrias,
podia agora, em nome do Rei, exercer sua vingança.

O antigo ódio, estando assim irritado e encolerizado pelo temor, todos estavam preparados para
tudo fazer contra os judeus. Ao meio das grandes mortalidades produzidas pela miséria, espalha-se, de
repente, o rumor que os judeus e os leprosos haviam envenenado as fontes. O senhor de Parthenay
escreve ao rei que um grande leproso[362], encontrado em sua terra, confessou que um rico judeu deu-
lhe dinheiro e prescreveu-lhe certas drogas que eram compostas de sangue humano e urina, ao que se
acrescentava o corpo do Cristo; a mistura, seca e triturada, posta num sachê com um peso, era lançada
nas fontes ou nos poços[363]. Já, na Gasconha, vários leprosos haviam sido antecipadamente queimados.
O rei, temeroso com o novo movimento que se preparava, retornou precipitadamente do Poitou à França,
ordenando que os leprosos fossem, em todos os lugares, presos.

Ninguém duvidava desse horrível acordo entre os leprosos e os judeus. “Nós mesmos”, diz o
cronista da época, “no Poitou, num burgo de nossa vassalagem, vimos de nossos olhos um desses sachês.
Uma leprosa que passava, temendo ser presa, jogou para trás de si um tecido atado, que logo foi
apresentado à justiça, e nele se encontrou uma cabeça de cobra-d’água, patas de sapo e algo como
cabelos de mulher embebidos de um líquido negro e fedorento, coisa horrível de ver e de cheirar. Isto
tudo, posto numa grande fogueira, não pôde ser queimado, prova segura que se tratava de um violento
veneno[364]... Houve muita discussão, muitas opiniões. O mais provável é que o rei dos Mouros de
Granada, vendo-se dolorosa e tão frequentemente derrotado, imaginou vingar-se maquinando com os
judeus a destruição dos cristãos. Mas os judeus, eles mesmos por demais suspeitos, dirigiram-se aos
leprosos... Estes aqui, com a ajuda do Diabo, foram persuadidos pelos judeus. Os leprosos mais
importantes mantiveram quatro concílios, por assim dizer, e o diabo, por meio dos judeus, deu-lhes a
entender que, visto que os leprosos eram reputados pessoas tão abjetas e não valendo nada, seria bom
fazer com que todos os cristãos morressem ou se tornassem leprosos[365]. Isto a todos agradou; cada um,
por sua vez, repetiu para os outros... um grande número, logrado pelas falsas promessas de reinos,
condados e outros bens temporais, dizia e acreditava firmemente que a coisa se daria assim”.

A vingança do rei de Granada é, evidentemente, uma fábula. A culpabilidade dos judeus é


improvável; eles eram, então, favorecidos pelo rei e a usura lhes fornecia uma vingança mais útil. Quanto
aos leprosos, a narrativa não é tão estranha quanto a julgam os historiadores modernos. Loucuras
reprováveis podiam muito bem tombar no espírito desses tristes solitários. A acusação era, ao menos,
especiosa. Os judeus e os leprosos possuíam um traço comum ante os olhos do povo: sua sujeira, sua
vida à parte. A casa do leproso não era menos misteriosa e mal-afamada que aquela do judeu[366]. O
espírito desconfiado desse tempo se amedrontava com todo mistério, como uma criança que tem medo à
noite e que golpeia com tanto mais força aquilo que lhe cai às mãos.

A instituição dos leprosários, leprosarias, casas-de-lázaro e lazaretos, este imundo resíduo


trazido com as cruzadas, era mal visto, mal desejado, assim como a Ordem do Templo, depois que nada
mais havia a ser feito pela Terra Santa. Os próprios leprosos, desde então certamente negligenciados,
devem ter perdido a resignação religiosa que, nos séculos anteriores, os fazia aceitar com tranquilidade a
morte antecipada à qual eram condenados cá embaixo.

Os rituais para o isolamento dos leprosos pouco diferiam dos ofícios dos mortos. Sobre dois
estrados à frente do altar, estendia-se um pano negro, o leproso aspergido com água-benta se mantinha
ajoelhado e aí devotamente ouvia a missa. O padre, pegando um pouco de terra de seu manto, a jogava
sobre um dos pés do leproso[367]. Depois, ele o punha para fora da igreja, se não fizesse um tempo de
chuva forte; o conduzia ao seu casebre no meio dos campos e pronunciava-lhe as interdições: “Eu te
proíbo de entrares na igreja... nem na companhia das pessoas. Eu te proíbo que caminhes fora de tua casa
sem tua túnica de lázaro, etc...”. E, em seguida: “Recebe esta túnica e veste-a como símbolo de
humildade... Toma estas luvas... Recebe esta castanhola como símbolo de te ser proibido falar com as
pessoas, etc. Não te indignes por ser assim separado dos outros... E, quanto às tuas pequenas
necessidades, as pessoas de bem as providenciarão e Deus não te abandonará...” (Ibidem). Lê-se
também, num velho ritual dos leprosos, estas tristes palavras: “Quando ocorrer que o lazarento tenha se
finado deste mundo, ele deve ser enterrado no casebre e não no cemitério”[368].

Inicialmente, questionou-se se as mulheres podiam seguir seus maridos tornados leprosos ou


permanecerem no século e voltarem a se casar. A Igreja decidiu que o casamento era indissolúvel: ela
deu este imenso consolo àqueles desafortunados. Mas, o que, então, se tornava a morte simulada, a morte
simbólica? o que significava a mortalha negra? Eles viviam, amavam, se perpetuavam, formavam um
povo... Povo miserável, é verdade, invejoso e, no entanto, invejado... Ociosos e inúteis, eles pareciam
um encargo, fosse quando mendigavam, fosse quando gozavam das ricas fundações pias do século
precedente.

Acreditava-se de boa-vontade que eles eram culpados. O rei ordenou que aqueles que sofressem
uma condenação fossem queimados, salvo as leprosas grávidas cujo parto seria aguardado; os outros
leprosos deviam ser trancafiados nos leprosários.

Quanto aos judeus, foram queimados indistintamente, sobretudo no Midi. “Em Chinon, cavou-se,
em um dia, uma grande fossa, nela se tocou um fogo copioso e abrasante, e aí foram queimados cento e
sessenta, homens e mulheres misturados. Muitos deles e delas, cantando e como se estivessem num
casamento, saltavam para dentro da fossa[369]. Muitas viúvas, antes de se lançarem, jogaram seus filhos
para dentro das chamas, com medo de que fossem levados e batizados[370]. Em Paris, queimou-se
somente os culpados. Os outros foram banidos para sempre; alguns, mais ricos, foram reservados até que
fossem melhor conhecidos seus créditos e que fosse possível afetá-los ao Fisco Real com o restante de
seus bens. Para o rei, foram cento e cinquenta mil libras”.

“Assegura-se que, em Vitry, quarenta judeus, na prisão do rei, vendo bem que iam morrer, e não
desejando cair nas mãos dos incircuncisos, concordaram unanimemente em se fazerem matar por um de
seus anciãos, o qual passava por ser uma boa e santa pessoa e a quem chamavam ‘pai’[371]. Ele não
consentiu, a menos que um jovem o ajudasse. Todos os outros estando mortos e os dois permanecendo,
cada um desejava morrer pela mão do outro. O ancião ganhou a sorte e obteve a promessa, graças a
súplicas, que o jovem o mataria. Então, o jovem, vendo-se só, recolheu todo o ouro e a prata que
encontrou com os mortos, fez para si uma corda com as vestes deles, e deslizou do alto da torre. Mas a
corda era por demais curta, o peso do ouro era por demais pesado, e ele quebrou a perna, foi preso,
confessou e morreu ignominosamente”[372].

Filipe o Longo não gozou dos despojos dos leprosos e dos judeus por tempo maior que seu pai o
fizera com aqueles dos Templários. No mesmo ano de 1321, no mês de agosto, a febre o dominou sem
que os médicos pudessem descobrir a causa do mal; ele agonizou por cinco meses e morreu. “Alguns se
questionavam se ele não teria sido assim atingido por causa das maldições de seu povo, em virtude das
enormes extorsões incomuns, sem falar daquelas que preparava. Durante sua enfermidade, as exações
diminuíram sem, todavia, cessarem totalmente”.

Seu irmão Carlos (Charles) sucedeu-lhe sem se preocupar com os direitos da filha de Filipe,
tanto quanto Filipe não tivera a menor deferência por aqueles da filha de Luís-Turbulento.

A época de Carlos o Belo é tão pobre de feitos e acontecimentos para a França quanto é rica
para a Alemanha, Inglaterra e Flandres. Os Flamengos aprisionam seu conde. Os Alemães se dividem
entre Frederico d’Áustria (Frederico o Belo) e Luís da Baviera (Luís IV da Baviera), que faz seu rival
prisioneiro em Mühldorf. Nesta ruptura universal, a França parece forte por permanecer una. Carlos o
Belo intervém em favor do conde de Flandres, tenta, com a ajuda do Papa, fazer-se Imperador e sua irmã
Isabela (Isabeau) faz-se, efetivamente, rainha da Inglaterra com a morte de Eduardo II.

História terrível esta, a dos filhos de Filipe o Belo! O primogênito manda matar sua mulher. A
filha manda matar seu marido.

O rei da Inglaterra, Eduardo II, nascido entre as vitórias de seu pai e prometido aos Galeses
para ser seu Artur, não foi menos sempre derrotado. Na França, ele deixava lancetarem a Guiana e
prometia vir prestar homenagem. Na Inglaterra, ele era maltrado por Robert Bruce da Escócia; mas ele o
assediava na corte de Roma. Ele perguntara ao Papa se poderia, sem pecado, se untar com um óleo
maravilhoso que dava coragem. Sua mulher o desprezava. Mas Eduardo II não gostava de mulheres; ele
antes se consolava de sua desventuras na presença de belos rapazes. A rainha, por represália, entregara-
se ao barão Mortimer. Os barões, que detestavam os queridinhos (mignons) do rei, mataram-lhe
inicialmente seu brilhante Gaveston, ousado Gascão, belo cavaleiro que, nos torneios, divertia-se a
lançar à terra os mais circunspectos lords, os mais nobres senhores. Despenser, que sucedeu a Gaveston,
foi tão odiado quanto.

Encontrando-se a Inglaterra desarmada por essas discórdias, o rei da França colheu o momento
e se apoderou do Agenês (Agenois ou Agenais)[373]. Isabela veio à França com seu jovem filho para,
como dizia, reclamar. Mas foi contra seu marido que reclamou. Carlos o Belo, não desejando embarcar,
em seu próprio nome, numa causa tão arriscada quanto uma invasão da Inglaterra, proibiu seus cavaleiros
tomarem o partido da rainha[374]. Ele deu a acreditar que desejava inclusive detê-la e devolvê-la a seu
marido[375]. Em verdadeiro filho de Filipe o Belo, ele não deu a ela um exército, mas dinheiro para ter
um. Este dinheiro foi emprestado pelos Bardi, banqueiros florentinos. De outra parte, o rei da França
despachava suas tropas para a Guiana a fim de, como ele dizia, reprimir alguns aventureiros gascões.

O conde de Hainaut entregou sua filha em casamento ao jovem filho de Isabela e o irmão do
conde se encarregou de conduzir a pequena tropa que ela recrutara. Grandes forças não teriam senão
atrapalhado, alarmando os ingleses: Eduardo estava desarmado, entregue de avanço. Ele enviou sua frota
contra ela, mas a frota não conseguiu encontrá-la. Ele enviou Robert de Watteville com tropas que,
entretanto, se uniram a ela. Ele implorou aos soldados de Londres que, prudentemente, responderam que
“tinham o privilégio de não sair para a batalha; e que não recebiam estranhos, mas muito graciosamente o
rei, a rainha e o príncipe real”. Não menos prudentemente, a gente da Igreja acolhia a rainha em sua
chegada. O arcebispo de Canterbury pregou sobre este texto: “A voz do povo é a voz de Deus”[376]. O
bispo de Hereford sobre este outro: “Ai, a minha cabeça!” - – Caput meum doleo[377]. Enfim, o bispo
de Oxford tomou o texto do Gênese: “Eu porei inimizade entre ti e tua mulher, e ela te esmagará a
cabeça”. Profecia homicida que se verificou.

No entanto, a rainha avançava com seu filho e sua pequena tropa. Ela vinha como mulher infeliz
que apenas deseja distanciar de seu marido os pérfidos conselheiros que o arruínam. Era uma grande
compaixão vê-la tão dolorosa e lacrimosa. Todo mundo estava a seu favor e ela logo teve Eduardo e
Despenser entre suas mãos. Foi-lhe trazido esse Despenser a quem tanto odiava e ela mandou
arrancarem-lhe os olhos. Depois, à frente de seu palácio, sob as janelas da rainha, fizeram-lhe sofrer,
antes da morte, obscenas mutilações[378].
Pelo momento, ela não ousava fazer mais. Ela estava com medo, tateava o povo, se arranjava
com seu marido. Ela chorava e, sempre chorando, agia. Mas nada parecia ser feito por ela, senão tudo
por justiça e regularmente. Eduardo permanecera na posse da coroa real; isto parava tudo. Três condes,
dois barões, dois bispos e o procurador do Parlamento, Guilherme Trussel, foram ao castelo de
Kenilworth fazer com que o prisioneiro compreendesse que, se não se apressasse em deixar a coroa, ele
nada ganharia com isto; antes, ele arriscava fazer com que seu filho perdesse o trono, que o povo bem
poderia escolher um rei de fora da família real. Eduardo chorou, desmaiou e findou por abandonar a
coroa. Então, o procurador construiu e pronunciou a fórmula que foi guardada como bom precedente:
“Eu, Guilherme Trussel, procurador do Parlamento, em nome de todos os homens da Inglaterra, retiro a
homenagem que eu te fizera, a ti, Eduardo. De agora em diante, eu te desafio, eu te privo de todo poder
real. Doravante, não te obedeço mais como a um rei”[379].

Eduardo acreditava, ao menos, viver; nunca, ainda, se matara um rei. Sua mulher o lisonjeava
sempre. Ela escrevia-lhe coisas ternas e enviava-lhe belos trajes[380]. Entretanto, um rei deposto é uma
coisa muito embaraçosa. De um momento a outro, ele podia ser resgatado da prisão. Em sua ansiedade,
Isabela e Mortimer pediram conselho ao bispo de Hereford e dele não tiraram senão uma frase dúbia e
equívoca: Edwardum occidere nolite timere bonum est. Era responder sem responder. Conforme fosse
posicionada a vírgula, aqui ou lá, podia-se ler neste oráculo a vida ou a morte[381]. Eles leram a morte.
A rainha morria de medo enquanto seu marido vivia. Enviou-se à prisão um novo governador, John
Maltravers; nome sinistro, mas o homem era pior[382].

Maltravers fez que com que o prisioneiro longamente saboreasse os estertores da morte; ele com
isso se divertiu durante alguns dias, talvez na esperança de que Eduardo se matasse. Sua barba era feita
com água fria, coroavam-lhe com feno; enfim, como ele teimasse em viver, jogaram-lhe sobre as costas
uma pesada porta, pisotearam-na e o empalaram pelo ânus com um espeto em brasa. Conta-se que o ferro
tinha sido posto num tubo de chifre, de forma a matá-lo assado por dentro sem deixar vestígios. O
cadáver foi exposto aos olhos do povo, honradamente enterrado e uma missa celebrada. Ele não tinha
qualquer marca de ferimento, mas os gritos e os urros tinham sido ouvidos; a contração da face do
defunto denunciava a horrível invenção dos assassinos[383].

Carlos o Belo não lucrou com esta revolução. Ele mesmo morreu quase ao mesmo tempo que
Eduardo, não deixando senão uma filha. Um primo sucedeu[384]. Toda esta bela família de príncipes que
se sentara ao lado de seu pai, no Concílio de Viena, estava extinta, conformemente àquilo que se contava
das maldições de Bonifácio.



LIVRO VI


--------------------


Capítulo I

A Inglaterra. Filipe de Valois.
1328 a 1349.

--------------------

Esta época memorável, que põe a Inglaterra tão em baixo e a França tão no alto, apresenta
todavia, em ambos os países, dois acontecimentos análogos. Na Inglaterra, os barões derrubaram
Eduardo II. Na França, o partido feudal pôs sobre o trono o ramo feudal dos Valois.

O jovem rei da Inglaterra, neto de Filipe o Belo por sua mãe, após ter inicialmente reclamado,
vem prestar homenagem em Amiens. Mas a Inglaterra humilhada tem em si os elementos de sucesso que
logo vão fazer com que prevaleça sobre a França.

O novo governo inglês, intimamente unido com Flandres, chama a si os estrangeiros. Ele renova
a carta comercial que Eduardo I concedera aos mercadores de qualquer nação. A França, ao contrário,
não pôde tomar parte do novo movimento do comércio. Uma palavra sobre esta grande revolução: ela
explica, por si só, os grandes acontecimentos que seguirão. O segredo das batalhas de Crécy e de Poitiers
está no balcão dos mercadores de Londres, de Bordeaux e de Bruges.

Em 1291, a Terra Santa está perdida, a era das Cruzadas finda. Em 1298, o veneziano Marco
Polo, o Cristóvão Colombo da Ásia[385], narra os acontecimentos de uma viagem, de uma estadia de
vinte anos na China e no Japão[386]. Pela primeira vez, sabe-se que, a doze meses de marcha além-
Jerusalém, há reinos e nações bem organizados. Jerusalém não é mais o centro do mundo, nem aquele da
consciência humana. A Europa perde a Terra Santa, mas ela vê a Terra.

Em 1321, aparece a primeira obra de economia política e comercial: Secreta Fidelium


Crucis[387], escrita pelo veneziano Sanuto. – Título vetusto, pensamento novo. O autor propõe contra o
Egito, não uma cruzada mas, sim, um bloqueio comercial e marítimo. Este livro é bizarro na forma. A
passagem das idéias religiosas àquelas do comércio se realiza inabilmente. O Veneziano, que talvez não
deseje devolver a Veneza senão o que ela perdeu pelo retorno dos Gregos à Constantinopla, inicialmente
oferece todos os textos sacros que recomendam ao bom cristão a conquista de Jerusalém; depois, o
catálogo bem organizado das especiarias a respeito das quais a Terra Santa é o entreposto comercial:
pimenta, incenso, gengibre[388]; ele qualifica as provisões e informa, artigo por artigo, sua cotação. Ele
calcula, com uma precisão admirável, os custos de transporte etc[389].
De fato, uma grande cruzada começa no mundo, mas de um gênero totalmente novo. Esta, menos
poética, não vai em busca da Santa Lança, do Santo Graal, nem do império da Trebisonda. Se pararmos
um vaso marítimo, nele não mais encontraremos um cadete da Casa da França que procura um reino[390]
mas, sim, algun Genovês ou Veneziano que nos venderá, com muito prazer, açúcar e canela. Eis aí o herói
do mundo moderno, não menos herói que o outro; ele arriscará, para ganhar um sequin, tanto quanto
Ricardo Coração de Leão arriscou para tomar São João d’Acre. O cruzado do comércio tem sua cruzada
em qualquer lugar, sua Jerusalém está em todas as partes.

A nova religião da riqueza, a fé no ouro, tem seus peregrinos, seus monges, seus mártires. Estes
ousam e sofrem como os outros. Eles velam, jejuam, abstêm-se. Passam seus melhores anos sobre as
rotas perigosas, em balcões longínquos, em Tiro, em Londres, em Novgorod. Sós e celibatários,
trancafiados em quarteirões fortificados, eles dormem em armas sobre seus balcões, entre seus enormes
dogues[391]; quase sempre pilhados fora das cidades e, nas cidades, frequentemente massacrados.

Naquela época, comerciar não era uma coisa fácil. O mercador que navegara com felicidade de
Alexandria a Veneza, sem encontros ruins, nada ainda tinha feito. Era-lhe necessário, para vender com
bom lucro, mergulhar no Norte. Era preciso que a mercadoria se encaminhasse pelo Tirol, pelas margens
agrestes do Danúbio, na direção de Augsburg ou Viena; que ela descesse, sem soçobrar, pelas florestas
escuras e pelos sombrios castelos do Reno; que ela chegasse em Colônia, a cidade santa. Era aí, e apenas
aí, que o comerciante rendia graças a Deus (Ulmann, Stædtw. I, p. 337, 368, 386, 397). Neste lugar, o
Norte e o sul se encontravam, o pessoal da Hansa negociava com os Venezianos. – Ou, ainda, ele virava
à esquerda e penetrava na França, contando com a boa-fé do conde de Champagne. Ele desempacotava e
expunha nas antigas feiras de Troyes, naquelas de Lagny, de Bar-sur-Aube, de Provins (Grosley,
‘Éphémérides’, p. 104). Daí, em poucos dias, mas não sem riscos, ele podia alcançar Bruges, o grande
entreposto dos Países Baixos, a cidade das dezessete nações (Hallam, ‘L’Europe au Moyen Âge’, IV,
152).

Mas esta rota da França não foi mais suportável quando Filipe o Belo, tornado senhor da
Champagne por sua mulher, levou suas Ordenações contra os Lombardos, falsificou as moedas, meteu-se
a regrar os lucros que se ganhava nas feiras[392]. Depois, veio Luís-Turbulento, que impôs tributos sobre
tudo o que se podia comprar ou vender. Isto bastou para fechar os balcões de Troyes. Não havia mais
necessidade de proibir, como ele o fez, “qualquer transação com os Flamengos, Genoveses, Italianos e
Provençais”.

Mais tarde, o rei da França deu-se conta que matara sua galinha dos ovos de ouro. Ele reduziu
os tributos, tornou a chamar os mercadores[393]. Mas ele próprio os havia ensinado a tomar uma rota
diferente. Eles agora se dirigiam a Flandres via Alemanha ou por mar. Para Veneza, esta foi a ocasião
perfeita para uma navegação mais ousada, a qual, pelo Oceano, a colocou em contato direto com os
Flamengos e os Ingleses.

O reino da França, em sua grande dimensão, permanecia quase impenetrável ao comércio. As


estradas eram muito perigosas, os pedágios por demais numerosos. Os senhores pilhavam menos, mas os
agentes do Fisco Real os substituíram. “Pilhado como um mercador” tornou-se uma expressão
proverbial[394]. A mão real cobria tudo; mas ela não era sentida senão pelas garras do Fisco. Se vinha
ordem, era para a cobrança universal. O sal, a água, o ar, as margens, as florestas, os vaus, os
desfiladeiros, nada, absolutamente nada, escapava à ubiqüidade fiscal.

Enquanto as moedas variavam continuamente na França, elas pouco mudavam na Inglaterra. O


rei da França fracassara na tentativa de estabelecer a uniformidade dos pesos e medidas. Mas esta foi um
dos principais artigos da carta que o rei da Inglaterra concedeu aos estrangeiros. Nesta carta, o rei
declara sua grande solicitidude pelos mercadores que visitam ou vivem na Inglaterra; Alemães,
Franceses, Espanhóis, Portugueses, Navarrenses, Lombardos, Toscanos, Provençais, Catalães, Gascões,
Toulousenses, Cahorsinos, Flamengos, Brabanções e outros. O rei lhes assegura proteção, boa e rápida
justiça, peso justo, medidas corretas. Os juízes que cometerem erros em relação a um mercador serão
punidos, mesmo após terem-lhe indenizado. Os estrangeiros terão um juiz em Londres para fazer-lhes
justiça sumária. Nas causas onde forem interessados, o júri será composto metade de Ingleses e metade
com homens de sua nação[395].

Mesmo antes desta carta, os estrangeiros afluíam à Inglaterra. Quando se vê o ímpeto que o
comércio tomara desde o século XIII, fica-se muito pouco surpreso que, no século XIV, um mercador
inglês tenha convidado cinco reis para banquetes (Hallam, IV, p. 173). Os historiadores da Idade Média
falam do comércio inglês da mesma forma pela qual poderíamos hoje fazê-lo.

“Ó Inglaterra, os vasos de Tharsis, vangloriados nas Escrituras, poderiam eles ser comparados
aos teus?... Os aromáticos te chegam dos quatro climas do mundo. Pisanos, Genoveses e Venezianos te
entregam a safira e a esmeralda que rolam pelos rios do Paraíso. A Ásia, pela púrpura, a África, pelo
bálsamo, a Espanha, pelo ouro, a Alemanha, pela prata, todas são tuas humildes servas. Flandres, tua
fiadeira, teceu-te, da tua lã, trajes preciosos. A Gasconha verte-te seus vinhos. As ilhas, da Ursa às
Híades, todas elas te serviram... Mais feliz, todavia, por tua fecundidade: os flancos das nações a
abençoam, aquecidos com os tosões das tuas ovelhas”[396].

Lã e carne foram o que, primitivamente, fizeram a Inglaterra e a raça inglesa. Antes de para o
mundo ser a grande manufatura dos metais e dos tecidos, a Inglaterra foi uma manufatura de carne. É, de
tempo imemorial, um povo criador e pastor, uma raça alimentada de carne. Vem daí esse frescor de pele,
esta beleza, esta força. O seu maior homem, Shakespeare, foi, inicialmente, um açougueiro.

Que me seja permitido, nesta ocasião, expressar uma impressão pessoal.

Eu vi Londres e uma grande parte da Inglaterra e da Escócia: eu mais admirava que


compreendia. Somente ao voltar, indo de York a Manchester, cortando a ilha em sua largura, foi quando,
finalmente, tive uma verdadeira intuição da Inglaterra. Era de manhãzinha, um nevoeiro frio; ela me
aparecia não mais somente cercada, mas coberta, afogada pelo Oceano. Um sol pálido mal coloria
metade da paisagem. As casas novas, em tijolos vermelhos, contrastariam fortemente com o gramado
verde, se a bruma flutuante não tivesse se preocupado em harmonizar os matizes. Por cima dos pastos
cobertos de ovelhas, flamejavam as vermelhas chaminés das usinas. Pasto, lavoura, indústria: tudo estava
ali, num estreito espaço, um sobre o outro, alimentado um pelo outro; a erva vívida pelo orvalho, a
ovelha pela erva, o homem pelo sangue.

Sob este clima absorvente, o homem, sempre faminto, não pode viver senão pelo trabalho. A
natureza a isso o obriga. Mas ele devolve com juros e a faz também trabalhar; ele a subjuga pelo ferro e
pelo fogo. Toda a Inglaterra resfolega de combate. O homem aí está como amedrontado. Vede esta face
vermelha, este ar bizarro... Nós facilmente o acreditaríamos embriagado. Mas sua cabeça e suas mãos
são firmes. Ele não está inebriado senão de sangue e de força. Ele se trata como o faz à sua máquina a
vapor, a qual carrega e alimenta em excesso para dela tirar tudo o que a mesma pode fornecer de ação e
de velocidade.
Na Idade Média, o Inglês era mais ou menos o que hoje é: bem nutrido, levado à ação e
guerreiro à falta de indústria.

A Inglaterra, já agrícola, não fabricava ainda. Ela dava a matéria; outros a empregavam. A lã
estava de um lado do Canal, o operário do outro. O açougueiro inglês e o tecelão flamengo estavam
unidos, ao meio das querelas dos príncipes, por uma aliança indissolúvel. A França desejou rompê-la e
isto custou-lhe cem anos de guerra. Para o rei, tratava-se da sucessão da França; para o povo, da
liberdade de comércio, do livre mercado das lãs inglesas. Reunidas em volta do saco de lã, as comunas
barganhavam menos as demandas do rei, elas dedicavam-lhe, graciosamente, exércitos.

A mistura de industrialismo e de cavalaria dá um aspecto bizarro a toda esta história. Este


orgulhoso Eduardo III que, sobre a Távola redonda, jurou pela garça-real conquistar a França[397], esta
cavalaria gravemente tola que, em virtude de um voto, mantém um olho coberto com um pano
vermelho[398], eles não são, todavia, tão tolos a ponto de servirem às suas próprias custas. A piedosa
simplicidade das cruzadas não existe mais nesta época. Esses cavaleiros, no fundo, são os agentes
mercenários, os caixeiros-viajantes dos mercadores de Londres e de Gant. É preciso que Eduardo se
humanize, que rebaixe seu orgulho, que trate de agradar aos tecelões e fabricantes de tecidos, que dê a
mão a seu compadre, o cervejeiro Artavelde, que arengue o popular do alto do balcão de um açougueiro
(Froissart, éd. Buchon, t. I, p 214).

As nobres tragédias do século XIV têm seu lado cômico. Nos mais orgulhosos cavaleiros, há um
Falstaff[399]. Na França, na Itália, na Espanha, nos deliciosos climas do Midi, os Ingleses se mostram
não menos glutões que valentes. É o Hércules Bufágio (NT: bouphagos = comedor de gado). Eles
literalmente vêm comer o país. Mas, em represália, são vencidos pelas frutas e pelos vinhos. Seus
príncipes morrem de indigestão, seus exércitos de disenteria.

Lede isto em Froissart, este Walter Scott da Idade Média; segui, em suas eternas narrativas de
aventuras e de façanhas d’armas. Contemplai, em nossos museus, essas pesadas e reluzentes armaduras
do século XIV... Não parece que sejam os despojos de Renaud ou de Rolando?... Essas espessas couraças
entretanto, essas fortalezas movediças de aço, fazem sobretudo honra à prudência daqueles que nelas se
enfurnavam... Todas as vezes que a guerra se torna ofício e mercadoria, as armas defensivas se tornam
mais pesadas assim. Os mercadores de Cartago, aqueles de Palmira, não iam de outra forma à
guerra[400].

Eis o estranho caráter dessa época: guerreiro e mercantil. A história de então é epopéia e conto,
romance de Artur, farsa de Patelino. Toda a época é dúbia e opaca. Os contrastes dominam; em todo
lugar, prosa e poesia se desmentindo, se ridicularizando uma à outra. Os dois séculos de intervalo entre
os sonhos de Dante e os de Shakespeare são, eles mesmos, o efeito de um sonho. É o sonho de uma noite
de verão, onde o poeta mistura prazeirosamente os artesãos e os heróis; o nobre Teseu aí figura ao lado
do marceneiro Bottom, cujas belas orelhas de burro viram a cabeça de Titânia.

Enquanto o jovem Eduardo III começa tristemente seu reinado prestando homenagem à França,
Filipe de Valois abre o seu entre fanfarras. Homem feudal, filho do feudal Carlos (Charles) de Valois,
egresso deste ramo amigo dos senhores, ele é apoiado por estes. Tais senhores e o próprio Carlos de
Valois tinham, entretanto, apoiado o direito das mulheres quando da morte de Luís o Turbulento; eles
haviam então desejado que a coroa, tratada como um feudo feminino, passasse por casamento a diversas
famílias e que, assim, ela se enfraquecesse. Eles convenientemente esqueceram esta política quando o
direito dos varões conduziu ao trono um dos seus, o próprio filho de seu chefe, o filho de Carlos de
Valois. Os nobres muito contavam que ele fosse reparar as injustas violências dos reinados precedentes;
que fosse, por exemplo, entregar o Franco-Condado e o Artois àqueles que em vão os reclamavam há
muitos e muitos anos. Roberto do Artois, acreditando, finalmente, ter ganho sua causa contra sua tia,
ajudou poderosamente na ascensão de Filipe.

O novo rei se mostrou inicialmente bastante complacente com os senhores. Ele começou
dispensando-os de pagar suas dívidas[401]. Em sinal de graciosa elevação e de boa justiça, ele mandou
pendurar no patíbulo todo novo o tesoureiro de seu predecessor[402]. Era, como já o dissemos, o
costume daquele tempo. Mas, como um verdadeiro rei justiceiro é o protetor natural dos fracos e aflitos,
Filipe acolheu o conde de Flandres maltratado pelas pessoas de Bruges, tanto quanto Carlos o Belo havia
consolado sua irmã, a boa rainha Isabela.

Seria uma festa tocar a jovem realeza para uma guerra contra esses burgueses. De coração feliz,
a nobreza seguiu o rei. Entretanto, os burgueses de Bruges e de Ypres, embora abandonados pelos de
Gant, não se perturbaram. Bem armados e em boa ordem, eles vieram à frente, até Cassel, que eles
desejavam defender (23 de agosto). Sobre sua bandeira, os insolentes tinham posto um galo e esta divisa
trocista:
Quand ce coq icy chantera,
Le Roy trouvé cy entrera.

(Quando este galo aqui cantar,
O Rei encontrado cá entrará)[403]

Não foi coragem que lhes faltou para manter a palavra, mas persistência e paciência. Enquanto
os dois exércitos encontravam-se em presença e se observavam, os Flamengos sentiam que seus negócios
estavam em sofrimento, que os teares de Ypres não batiam, que os fardos permaneciam fechados no
balcão. Cada dia, ante a fumaça de suas cidades incendiadas, eles se punham a calcular o que perdiam e
o que deixavam de ganhar. Eles não aguentaram mais e desejaram findar tudo por uma batalha. Seu chefe,
Zanekin (Joãozinho) se veste de peixeiro e vai ver o campo francês. Ninguém aí esperava ver o inimigo.
Os senhores, em belas túnicas, conversavam, se convidavam, se faziam visitas. O rei jantava quando os
Flamengos desabaram sobre o campo francês, derrubando tudo e furando inclusive a tenda real[404].
Mesma precipitação dos Flamengos, tal como ocorrera em Mons-en-Puelle, mesma imprevidência do
lado dos Franceses. A coisa não ficou melhor para os primeiros. Esses enormes Flamengos, seja por
brutal orgulho de sua força, seja por prudência dos mercadores ou ostentação de riqueza, tinham se
cuidado em vestir, para combater a pé, pesadas armaduras de cavaleiros. Eles se encontravam bem
protegidos, é verdade, mas mal conseguiam se mover. Suas armaduras bastavam para sufocá-los. Treze
mil foram derrubados à terra e o conde, voltando ao seus estados, mandou matar dez mil em três
dias[405].

Era então, certamente, um grande rei, o rei da França. Ele acabava de recolocar Flandres sob
sua dependência. Ele recebera a homenagem do rei da Inglaterra em relação às suas províncias francesas.
Seus primos voltavam a ganhar em Nápoles e na Hungria. Ele protegia o rei da Escócia. Possuía, à sua
volta, uma corte de reis: Navarra, Maiorca, Boêmia, frequentemente o da Escócia. O famoso João da
Boêmia, da Casa de Luxemburgo, cujo filho foi imperador sob o nome de Carlos IV, declarava não poder
viver senão em Paris, a estadia mais cavaleiresca do mundo. Ele voltejava por toda a Europa, mas
sempre voltava para a corte do grande rei da França. Nela havia uma festa eterna, justas sempre,
torneios, a realização viva dos romances de cavalaria, o rei Artur e a távola redonda.
Para imaginar esta realeza, é preciso ver Vincennes, o Windsor dos Valois. É preciso vê-lo, não
como hoje se encontra, semidestruído, mas como ele era quando suas quatro torres, por suas pontes-
levadiças, vomitavam aos quatro ventos os esquadrões empenachados, brasonados, dos grandes exércitos
feudais; quando quatro reis, descendo em liça, justavam perante o rei mui-cristão; quando esta nobre cena
se emoldurava na majestade de uma floresta, com carvalhos seculares erguendo-se até às seteiras, cervos
à noite bramindo ao pé das torres-da-cerca, até que o dia e a corneta viessem expulsá-los para a
profundeza dos bosques... Vincennes não é mais nada e, entretanto, sem falar da torre-de-menagem, vejo
daqui a pequena torrezinha de relógio que não tem, ainda, menos de onze andares de ogivas.

Ao meio de toda esta pompa feudal que encantava os senhores, eles logo tiveram ocasião de
perceber que o filho de seu amigo Carlos de Valois não reinaria de forma diferente daquela do filho de
Filipe o Belo. Este reino cavaleiresco começou por um ignóbil processo; o castelo real logo foi uma
secretaria judicial onde se comparava as escrituras e se julgava as falsificações. O processo não serviria
senão para destruir e desonrar um dos grandes barões, um príncipe de sangue, aquele que mais
contribuíra para a elevação de Filipe, seu primo, seu cunhado, Roberto do Artois. Viu-se, neste processo,
o que havia de mais humilhante para os grandes senhores: um deles falsário e feiticeiro. Estes dois
crimes apropriadamente pertencem àquele século. Mas, até então, faltava encontrá-los num cavaleiro,
num homem desta posição social.

Roberto (Roberto III do Artois) reclamava, há vinte e seis anos, ter sido suplantado na posse do
Artois por Matilde (Mahaut), irmã caçula de seu pai, mulher do conde da Borgonha. Filipe o Belo
apoiara Matilde[406] e suas duas filhas (Joana e Branca), as quais haviam desposado seus filhos (Filipe
o Longo e Carlos o Belo), a eles trazendo este magnífico dote do Artois e do Franco-Condado. Quando
da morte de Luís-Turbulento, Roberto, aproveitando-se da reação feudal, se lançou sobre o Artois. Mas
foi necessário que ele largasse a presa pois Filipe o Longo marchou contra si. Ele então aguardou que
todos os filhos de Filipe o Belo estivessem mortos e que um filho de Carlos de Valois subisse ao trono.
Ninguém participou mais desta ascensão que Roberto[407]. Filipe de Valois, em reconhecimento,
confiou-lhe o comando da vanguarda na campanha de Flandres e deu o título de Par de França a seu
condado de Beaumont. Ele desposara a irmã do rei, Joana de Valois, e esta não se contentava em ser
apenas condessa de Beaumont: ela esperava que seu irmão entregasse o Artois a seu marido. Dizia ela
que o rei faria justiça a Roberto, se este pudesse produzir alguma nova prova, pequenininha que
fosse[408].

A condessa Matilde, alertada do perigo, apressou-se em partir para Paris. Mas ela morreu quase
chegando. Seus direitos passavam à sua filha (Joana II da Borgonha), viúva de Filipe o Longo. Esta
morreu três meses após sua mãe[409]. Roberto não tinha outro adversário senão Eudes IV, duque da
Borgonha, marido de Joana (III da Borgonha), filha de Filipe o Longo com Joana II e neta de Matilde. O
próprio duque era irmão da mulher do rei. O rei o admitiu no gozo do condado mas, ao mesmo tempo,
reservou a Roberto o direito de expor suas razões[410].

Nem as provas e nem as testemunhas faltaram a Roberto. A condessa Matilde tinha tido por
principal conselheiro o bispo de Arras. O bispo, estando morto e deixando muitos bens, a condessa
processou, buscando restituição, a amante do bispo, uma certa dama chamada Divion, mulher de um
cavaleiro[411]. Esta fugiu para Paris com seu marido. Mal ela chegara em Paris, que Joana de Valois,
esposa de Roberto, que sabia que Divion possuía todos os segredos do bispo de Arras, a pressionou para
entregar os papéis que ela pudesse ter guardado; a Divion acreditava, inclusive, que a princesa ameaçava
mandar afogá-la ou queimá-la[412]. A Divion não tinha nenhum documento; então, ela os produziu:
inicialmente, uma carta do bispo de Arras onde este pedia perdão a Roberto do Artois por ter-lhe
subtraídos os títulos. Depois, uma carta do avô de Roberto pela qual assegurava o Artois para seu pai.
Essas peças, e outras de apoio, foram fabricadas às pressas por um clérigo da Divion e ela aplicou
velhos selos nas mesmas[413]. Ela chegou a ter o cuidade de mandar perguntar na abadia de Saint-Denys
quais eram os Pares de França na época dos supostos atos[414]. Quanto a isto, não foram tomadas
grandes precauções. Os documentos que ainda existem no Tesouro das Cartas são visivelmente falsos
(Arquivos, Seção Hist. J, 439). Nesta época de caligrafia, os atos importantes eram escritos com um
outro tipo de cuidado[415].

Roberto fabricava, para apoio desses documentos, cinquenta e cinco testemunhas[416]. Vários
afirmavam que Enguerrand de Marigny, no caminho para o patíbulo e já na charrete, confessara sua
cumplicidade com o bispo de Arras na subtração dos títulos.

Roberto sustentou mal essa fábula. Indagado a declarar, pelo procurador do rei, na presença do
próprio rei, se contava fazer uso desses documentos equívocos, ele primeiro disse sim e, depois,
não[417]. A Divion confessou tudo, assim como as testemunhas[418]. Estas confissões são extremamente
ingênuas e detalhadas. Ela disse, entre outras coisas, que foi ao Palácio de Justiça para saber se era
possível contrafazer os selos, que a carta que forneceu os selos foi comprada a cem escudos de um
burguês; que os documentos foram escritos em sua mansão, praça Baudoyer, por um clérigo que tinha
muito medo e que, para disfarçar sua caligrafia, se serviu de uma pena de bronze, etc[419]. A infeliz em
vão repetiu que fora forçada por Madame Joana de Valois, mas nem por isso deixou de ser menos
queimada no mercado dos porcos, perto da porta Saint-Hononé[420]. Roberto, que também fora acusado
de ter envenenado Matilde e sua filha, não aguardou o julgamento (Mém. de l’Acad., X, 616-621). Ele se
salvou em Bruxelas[421], depois em Londres, ao lado do rei da Inglaterra. Sua mulher, irmã do rei, foi
como esquecida na Normandia. Sua irmã, condessa de Foix, foi acusada de impudicícia e Gascão, seu
filho, autorizado a trancafiá-la no castelo de Orthez. O rei acreditava tudo temer desta família. Roberto,
de fato, havia enviado assassinos para matar o duque da Borgonha, o Chanceler, o Grão-Tesoureiro e
alguns outros de seus inimigos[422]. Contra o assassinato, podia-se ao menos se proteger; mas o que
fazer contra a bruxaria? Roberto tentava enfeitiçar com filtros a rainha e seu filho[423].

Este encarniçamento do rei em perseguir um dos primeiros barões do reino, em cobri-lo de uma
vergonha que respingasse em todos os senhores, era de natureza a enfraquecer as boas disposições destes
em relação ao filho de Carlos de Valois. Os burgueses, os mercadores, deviam estar ainda mais
descontentes. O rei ordenara a seus bailios taxar nos mercados os produtos e os salários, de forma a fazê-
los cair pela metade. Ele assim desejava pagar todas as coisas a meio-preço, enquanto dobrava o
imposto, recusando-se a receber de outra forma que não fosse em moeda forte (Nov. 1330. Ord. II, p. 49,
50, 58).

Um dos súditos do rei da França, e talvez aquele que mais sofresse, era o Papa. O rei o tratava
menos como súdito que como escravo. Ele ameaçara João XXII de perseguição como herético pela
Universidade de Paris. Sua conduta em relação ao Imperador era singularmente maquiavélica; sempre
negociando com o mesmo, ele forçava o Papa a fazer-lhe uma guerra de bulas; ele desejava fazer-se
Imperador. Bento XII confessou, chorando aos embaixadores imperiais, que o rei da França o ameaçara
tratá-lo pior que a Bonifácio VIII, se viesse a absolver o Imperador[424]. O mesmo Papa mal se
defendeu contra um novo pedido de Filipe que teria assegurado seu todo-poder e o rebaixamento do
papado. Ele desejava que o Papa lhe desse, por três anos, a disposição de todos os benefícios da França
e, por dez, o direito de receber os dízimos da cruzada por toda a cristandade[425]. Tornado coletor deste
imposto universal, Filipe teria despachado seus agentes para todos os cantos e, talvez, envelopado toda a
Europa no quadro da administração e da fiscalidade francesa.

Em poucos anos, Filipe de Valois descontentara todo mundo: os senhores pela causa de Roberto
do Artois, os burgueses e mercadores pelo seu preço máximo e suas moedas, o Papa por suas ameaças, a
cristandade inteira por sua dubiedade em relação ao Imperador e por sua exigência de receber, em todos
os estados, os dízimos da cruzada.

Enquanto este grande poder minava a si mesmo, a Inglaterra se erguia. O jovem Eduardo III
vingara seu pai, mandado matar Mortimer e trancafiado sua mãe Isabela. Ele acolhera Roberto do Artois
e recusava-se a entregá-lo. Ele começava a trapacear sobre a homenagem que rendera à França. Os dois
poderes guerrearam primeiro na Escócia. Filipe ajudou os Escoceses que, nem por isso, deixaram de ser
batidos. Na Guiana, o ataque foi mais direto. O senescal do rei da França expulsou os Ingleses das
possessões contestadas.

Mas o grande movimento partiu de Flandres, da cidade de Gant. Os Flamengos então se


encontravam sob o governo de um conde completamente francês, Luís de Nevers, que não era conde
senão pela batalha de Cassel e pela humilhação de seu país. Luís não vivia em outro lugar que não fosse
Paris, na corte de Filipe de Valois. Sem consultar seus súditos, ele ordenou que os Ingleses fossem presos
em todas as cidades de Flandres. Eduardo mandou prender os Flamengos na Inglaterra[426]. O comércio,
sem o qual os dois países não podiam viver, encontrou-se repentinamente rompido.

Atacar os Ingleses pela Guiana e por Flandres era feri-los em seus flancos mais sensíveis,
negar-lhes o tecido e o vinho. Eles vendiam suas lãs em Bruges para comprar vinho em Bordeaux. Além
disso, sem lã inglesa, os Flamengos não sabiam o que fazer. Tendo Eduardo proibido a exportação das
lãs[427], Flandres foi levada ao desespero, forçando-a a jogar-se em seus braços[428].

De início, uma turba de operários flamengos passou à Inglaterra que os atraía a qualquer
preço[429]. Não havia espécie de lisonja e de cuidado que não fossem empregados em relação a eles. É
curioso ver, desde esta época, até onde este povo tão orgulhoso é capaz de se rebaixar quando seu
interesse exige. “As vestes deles serão belas”, escreviam os Ingleses em Flandres, “suas companhias de
leito ainda mais belas”[430]. Essas emigrações, que continuaram durante todo o século XIV, modificaram
singularmente, creio, o temperamento inglês. Antes que elas ocorressem, nada anunciava nos Ingleses esta
paciência industriosa que hoje vemos. O rei da França, esforçando-se em separar Flandres da Inglaterra,
não fez outra coisa senão provocar as emigrações flamengas e fundar a indústria inglesa.

Entretanto, Flandres não se resignou. As cidades explodiram. Elas detestavam o conde de longa
data, seja porque apoiasse os campos contra o monopólio das cidades (Meyer, p. 125, anno 1322), seja
porque admitisse os estrangeiros, os Franceses, na partilha de seu comércio[431].

Os Gantenses, que certamente se arrependiam de não terem apoiado aqueles de Ypres e de


Bruges que tomaram parte na batalha de Cassel, tomaram por chefe, em 1337, o cervejeiro Jacquemart
Artevelde[432]. Apoiado pelos corpos de ofícios, principalmente pelos pisoeiros e manufatureiros de
roupas, Artevelde organizou uma vigorosa tirania[433]. Em Gant, ele mandou reunir as pessoas de três
grandes cidades: “E demonstrou-lhes que, sem o rei da Inglaterra, eles não podiam viver. Pois toda a
Flandres estava fundada sobre a indústria do pano (têxtil) e, sem lã, não se podia fabricá-lo. E, por essa
razão, recomendava que tivessem o rei da Inglaterra por amigo”[434].
Eduardo era um príncipe muito pequeno para se opor a este grande poder de Filipe de Valois.
Mas tinha por si as promessas de Flandres e a unanimidade dos Ingleses. Os senhores, os vendedores de
lãs e os mercadores que a comercializavam, todos pediam a guerra. Para torná-la ainda mais popular, ele
mandou que fosse lida, nas paróquias, uma circular pela qual informava os prejuízos que sofrera contra
Filipe e os avanços que inutilmente fizera pela paz[435].

É interessante comparar a administração dos dois reis no início desta guerra. Os atos do rei da
Inglaterra se tornam então infinitamente numerosos. Ele ordena que todo homem tome as armas dos
dezesseis aos sessenta anos (Rymer, II, p. 916, ed. 1821). Para colocar o país ao abrigo das frotas
francesas e das incursões escocesas, ele organiza um sistema de sinais de fogo em toda a costa (‘signa
per ignem’. Ibid., p. 996; campanæ, ibid. p. 1066). Ele contrata Galeses e lhes dá um uniforme (Ibid., p.
993, ‘una secta vestiti’). Manda fabricar artilharia e é o primeiro a se aproveitar desta grande e terrível
invenção. Ele provê a marinha com víveres. Escreve ameaças contra os condes que devem preparar a
passagem e consolações e lisonjas ao arcebispo de Canterbury dirigidas ao povo: “O povo de nosso
reino, nós reconhecemos com dor, foi até aqui sobrecarregado com diversos fardos, talhas e imposições.
A necessidade de nossas causas nos impede de socorrê-lo. Que vossa graça, então, apoie este povo na
benignidade, na humildade e na paciência, etc...” (Rymer, II, p. 1025, ann. 1338).

O rei da França não tem, logo de início, tantas questões com as quais se preocupar. Para ele, a
guerra ainda é uma causa feudal. Os senhores do sul obtêm que ele lhes devolva o direito de guerra
privada e que respeite seus julgamentos (Ord. II, p. 61, ann. 1330, p. 95, ann. 1333). Mas, ao mesmo
tempo, os nobres desejam ser pagos para servir o rei: eles exigem um soldo, estendem o braço e abrem
as mãos, esses orgulhosos barões. O cavaleiro porta-bandeira terá vinte soldos por dia, o cavaleiro dez,
etc. (Ord. II, p. 120-130, ann. 1338). Era o pior dos sistemas, ao mesmo tempo feudal e mercenário, e
que reunia os incovenientes dos dois.

Enquanto o rei da Inglaterra ratifica a carta comercial que assegura a liberdade de negócio aos
mercadores estrangeiros, o rei da França ordena aos Lombardos irem às suas feiras da Champagne e
pretende traçar-lhes a rota pela qual irão (Aigues-Mortes, Carcassonne, Beaucaire, Mâcon. Ibid. p.
305).

Os Ingleses partiram cheios de esperança (1338), sentindo-se convocados por toda a


cristandade. Seus amigos dos Países-Baixos prometiam-lhes uma poderosa assistência. Os senhores lhes
eram favoráveis e Artevelde respondia-lhes por três grandes cidades. Os Ingleses, que sempre
acreditaram poder fazer tudo com dinheiro, mostraram-se, em sua chegada, magníficos e pródigos. “E não
poupavam nem ouro, nem prata, como se estes lhes chovessem das nuvens, e davam caras jóias aos
senhores e damas e senhoritas, para conquistar a boa-vontade destes e destas com os quais conversavam;
e tanto faziam, que se tornaram queridos por todos e todas, mesmo pelo povo comum, a quem nada
davam, pela só razão de serem magníficos” (Frois. I, 212).

Qualquer que fosse a admiração das pessoas dos Países-Baixos por seus grandes amigos da
Inglaterra, Eduardo neles encontrou mais hesitação que esperava. Os senhores primeiro disseram que
estavam prontos a secundá-lo, mas que era justo que o mais considerável de todos, o duque do Brabant,
primeiro se declarasse. O duque pediu um tempo e findou por concordar. Então, eles disseram ao rei da
Inglaterra que lhes era necessária apenas uma coisa para se decidirem: que o Imperador desafiasse o rei
da França pois, afinal de contas, diziam eles, “somos súditos do Império”. Mas, quanto a isto, o
Imperador tinha um justo e excelente motivo para a guerra, pois o Cambrésis, terra do Império, tinha sido
invadido por Filipe de Valois (Ibid., p. 198-203).
O imperador Luís da Baviera (NT: Luís IV do Sacro Império Romano-Germânico) tinha também
motivos pessoais para se declarar. Perseguido pelos papas franceses, ele não falava de outra coisa que
não fosse partir com um exército para se fazer absolver em Avignon. Eduardo foi encontrá-lo na dieta de
Coblença (Koblenz). Nesta grande assembléia, onde se via três arcebispos, quatro duques, trinta e sete
condes, uma turba de barões, o Inglês aprendeu às suas próprias custas o que eram a arrogância e a lenta
dignidade alemãs: para começar, o Imperador desejava conceder-lhe o favor e honra de deixá-lo beijar
seus pés. O rei da Inglatera, perante este supremo juiz, se posicionou como acusador de Filipe de Valois.
O Imperador, uma mão sobre o globo e a outra sobre o cetro, enquanto um cavaleiro mantinha sobre sua
cabeça uma espada nua, desafiou o rei da França, declarou-o decaído da proteção do Império e,
graciosamente, deu a Eduardo o diploma de vigário imperial sobre a margem esquerda do Reno. De
resto, isto foi tudo o que o Inglês conseguiu obter. O Imperador refletiu, teve seus escrúpulos e ao invés
de se engajar nesta perigosa guerra da França, encaminhou-se na direção da Itália. Mas Filipe de Valois
mandou prendê-lo, na passagem dos Alpes, por um filho do rei da Boêmia (Schmidt, ‘Hist. des
Allemands’, t. IV, l. VII, c. VII, p. 515).

Voltando com seu diploma, o rei da Inglaterra perguntou ao duque do Brabant onde poderia
exibi-lo aos senhores dos Países-Baixos. O duque designou a assembléia da cidadezinha de Herck, na
fronteira do Brabant. “Quando todos lá chegaram, sabei que a cidade foi totalmente ocupada por
senhores, cavaleiros, escudeiros e todos os outros tipos de pessoas; e o mercado da cidade, de tão pouco
valor, onde se vendia pão e carne, foi encortinado por belos lençóis como os do quarto do rei; e sentou-
se o rei inglês, coroa de ouro mui preciosa e nobre em sua cabeça, cinco pés mais alto que os outros, num
balcão de açougueiro, onde se cortava e se vendia a carne. Jamais antes um mercado merecera tamanha
honra” (Froiss., I, 214).

Enquanto todos os senhores rendiam homenagem ao novo vigário imperial que estava sobre este
balcão de açougueiro, o duque do Brabant mandava dizer ao rei da França para em nada acreditar do que
poderia ser dito contra si. Eduardo, tendo desafiado Filipe em seu nome e em nome dos senhores, o
duque declarou que preferia fazer à parte seu próprio desafio. Enfim, quando Eduardo pediu-lhe para
segui-lo até Cambrai, o duque assegurou-lhe que partiria assim que o soubesse à frente dessa cidade,
acompanhado de mil e duzentas boas lanças.

Durante o inverno, o dinheiro da França operou sobre os senhores dos Países-Baixos e da


Alemanha. A inércia deles aumentou também. Eduardo não pôde colocá-los em movimento antes do mês
de setembro (1339). Cambrai se encontrava melhor defendida do que se podia acreditar. A estação estava
avançada. Eduardo levantou o sítio e entrou na França. Mas, na fronteira, o conde de Hainaut disse que
não podia segui-lo além pois, possuindo feudos do Império e da França, ele o serviria espontaneamente
nas terras do Império mas, sobre as terras da França, ele devia obediência ao rei, seu suzerano, e que,
neste passo, a este se uniria para combater os Ingleses (ibid. p. 240).

Ao meio dessas atribulações, Eduardo avançava lentamente na direção do Oise, devastando toda
a região e mal retendo seus aliados descontentes e famintos. Era-lhe necessária uma bela batalha para
que pudesse se indenizar de tantos custos e aborrecimentos. E, durante um instante, ele acreditou obtê-la.
O próprio rei da França apareceu perto de La Capelle com um grande exército. “Nele contava-se”, diz
Froissart, “mil cento e vinte e sete estandartes, quinhentos e sessenta pendões, quatro reis (França,
Boêmia, Navarra, Escócia), seis duques, trinta e seis condes e mais de quatro mil cavaleiros e, das
comunas da França, mais de sessenta mil”. O próprio rei da França pediu-lhe batalha. Eduardo nada tinha
a fazer além de escolher o campo e a data, um dois de outubro, num belo lugar onde não houvesse nem
bosque, nem pântano, nem regato, que pudessem ser vantajosos para uma ou outra parte.

No dia aprazado, quando já Eduardo montado a um palafrém percorria seus batalhões e


encorajava os seus, os Franceses se deram conta, de acordo com as crônicas de Saint-Denis, que era
sexta-feira e, em seguida, que havia uma passagem difícil entre os dois exércitos (Chron. de Saint-Denis,
cap. XVII, ap. Froiss., I, 263). Segundo Froissart: “Eles não estavam de acordo, mas cada um dava sua
opinião, e por disputa diziam que seria uma grande vergonha e falta se o rei não combatesse, quando
sabia que seus inimigos estavam tão próximos de si, em seu país, alinhados em pleno campo e que os
seguira com a intenção de combatê-los. Outros diziam ao contrário, que seria uma grande loucura se ele
combatesse, pois não sabia o que cada um pensava, nem se havia algum ardil que desconhecesse: pois, se
a fortuna lhe fosse contrária, ele colocaria seu reino em risco de perda, mas que se derrotasse seus
inimigos, não estaria perto da Inglaterra, nem das terras dos senhores do Império, aliados do rei inglês, a
fim de poder conquistá-las. Assim, discutindo e debatendo sobre essas diversas opiniões, o dia passou
até o meia-dia. Por volta do início da tarde, uma lebre veio cruzando os campos e correu na direção dos
Franceses que, ao virem-na, começaram a gritar e a chamar e a fazer muitos haros; em razão disso,
aqueles que estavam atrás pensaram que os que estavam na frente combatiam; e vários que se
encontravam em batalhões alinhados pensaram o mesmo: puseram-se a vestir seus elmos em suas cabeças
e tomaram suas espadas. Neste momento, foram entitulados vários novos cavaleiros, e o conde de
Hainaut, em particular, nomeou quatorze, os quais foram depois chamados “os Cavaleiros da Lebre” - ...
Com tudo isso e os debates que tinham lugar no conselho do rei da França, foram levadas ao exército,
para o rei, cartas da parte do rei Roberto da Sicília, o qual era um grande astrônomo... e dizia ele que,
várias vezes examinara os destinos sobre o estado e os acontecimentos do rei da França e do rei da
Inglaterra e encontrara, na astrologia e por influência das estrelas, que se o rei da França combatesse o
rei da Inglaterra, o primeiro seria com certeza derrotado... Já de longa data, e mui preocupadamente,
Roberto da Sicília enviara cartas e epístolas ao rei Filipe para que nunca combatesse os Ingleses quando
Eduardo estivesse de corpo presente” (Froissart, I, 260-3).

Esta triste expedição esgotara as finanças de Eduardo. Seus amigos, muito desencorajados, o
aconselharam a dirigir-se a essas ricas comunas de Flandres, as quais somente poderiam ajudá-lo mais
do que todo o Império. Os Flamengos deliberaram longamente e findaram por declarar que sua
consciência não os permitia declarar guerra ao rei da França, seu suzerano: o escrúpulo era tanto mais
natural quando se sabe que haviam prometido pagar dois milhões de florins ao Papa, caso atacassem o
rei da França. Mas Artevelde encontrou remédio para isso. Para deixá-los protegidos contra a questão do
pecado e do dinheiro, ele imaginou fazer rei da França o rei da Inglaterra (idem, p. 265-7). Este, que
acabara de receber o título de vigário imperial para ganhar os senhores dos Países-Baixos, deixou-se
fazer rei da França para aliviar as consciências das comunas de Flandres. Filipe de Valois mandou
interditar seus padres pelo Papa; mas Eduardo despachou padres ingleses para confessá-los e absolvê-
los (Meyer, l. XII, f. 141).

A guerra se tornava direta. As duas partes equiparam grandes frotas para guardar e para forçar a
passagem. Relata-se que a dos Franceses, fortificada por galeras genovesas, contava com mais de cento e
quarentas enormes vasos que levavam quarenta mil homens; toda ela comandada por um cavaleiro e pelo
tesoureiro (Nicolas) Béhuchet, “que não sabia fazer outra coisa senão contar”. Este estranho almirante,
que tinha horror do mar, mantinha toda a sua frota comprimida no porto da Eclusa. Em vão o genovês
Barbanegra (Egidio Boccanegra ou Barbavera) se esforçava para fazê-lo compreender que era preciso
se fazer ao largo para poder manobrar. O Inglês os surpreendeu imóveis e os abordou. Foi uma batalha de
terra (NT: Batalha da Eclusa). Em seis horas, os arqueiros ingleses deram a vitória à Eduardo. A
aparição dos Flamengos, que vieram ocupar a margem, tirou qualquer esperança dos vencidos.
Barbanegra, que logo que pôde fez-se ao largo, escapou sozinho. Trinta mil homens do exército francês aí
pereceram. O incompetente Béhuchet foi enforcado no mastro de seu navio. O Inglês, que se dizia rei da
França, já começava a tratar o inimigo como súdito rebelde. A França podia encontrar outros trinta mil
homens, mas o resultado moral não fora menos funesto que aquele das batalhas navais de La Hougue (NT:
29 de maio de 1692) e de Trafalgar (NT: 21 de outubro de 1805). Os Franceses perderam a coragem no
mar. A passagem do estreito da Mancha ficou livre para os Ingleses durante vários séculos.

Tudo, enfim, parecia favorecer Eduardo. Artevelde, em sua ausência, trouxera sessenta mil
Flamengos para auxílio de seu aliado, o conde de Hainaut[436]. Este robusto exército finalmente lhe
dava alguma esperança de fazer algo. Ele conduziu todo este mundo, Ingleses, Flamengos, Brabanções, à
frente da forte cidade de Tournai. Este berço da monarquia fora, mais de uma vez, o boulevard. Carlos
VII reconheceu a devoção tantas vezes demonstrada por esta cidade dando-lhe por armas as próprias
armas da França[437].

Filipe de Valois veio em socorro; a cidade se defendeu. O sítio se arrastou. Neste impasse, os
Flamengos, não sabendo bem o que fazer, foram pilhar Arques, ao lado de Saint-Omer[438]. Mas eis que,
repentinamente, a guarnição desta cidade cai sobre eles, lanças apontadas, pendões à mostra e fortes
brados. Os Flamengos acharam melhor largar todo o butim, foram perseguidos por duas léguas, perderam
dezoito homens e levaram seu pavor para o exército. “Agora ocorreu uma ventura maravilhosa... Pois,
por volta da meia-noite, quando dormiam esses Flamengos em suas tendas, um grande pavor os tomou
dormindo que, de repente, todos se ergueram e guardaram tendas e pavilhões e jogaram tudo sobre suas
carroças, com tanta pressa que um não esperava o outro e fugiram todos desorganizadamente pela
estrada... Messire Roberto do Artois e Henrique de Flandres vieram à frente deles e disseram: Bons
senhores, dizei-nos que coisa faz com que fugis assim... Eles não prestaram contas, mas fugiram sempre
e cada um tomou o caminho de sua própria casa, o mais direto que puderam. Quando Messire Roberto do
Artois e Henrique de Flandres viram que não conseguiriam nada, mandaram embalar toda sua bagagem e
partiram para o sítio de Tournai. E recordaram o acontecimento dos Flamengos e disseram a vários que
eles foram apavorados por fantasmas” (Froiss., I, p. 394).

O Inglês trabalhava em vão. Toda esta grande guerra dos Países-Baixos, com a qual acreditava
acabar com a França, nada trazia às suas mãos. Os Flamengos não eram guerreiros por natureza, salvo
alguns momentos de cólera brutal; tudo o que desejavam era não pagar nada. Os senhores dos Países-
Baixos desejavam, além disso, ser pagos; eles o eram dos dois lados e ficavam em suas casas.

Felizmente para Eduardo, no momento em que Flandres se apagava, a Bretanha pegava


fogo[439]. Esta região era sempre inflamável. Mal se pode verdadeiramente dizer que, na Idade Média,
os Bretões tenham permanecido em paz. Quando não lutam entre si, é porque foram alugados para lutarem
alhures. Sob Filipe o Belo, e até à batalha de Cassel, eles seguiam de boa-vontade os exércitos de nossos
reis em Flandres, a fim de pilharem e devorarem este rico lugar. Mas, quando a França, ao contrário, foi
lancetada por Eduardo, quando os Bretões não tiveram senão uma guerra pobre para lutar, eles ficaram
em suas casas e voltaram a brigar entre si.

Esta guerra é o pingente daquelas da Escócia. Assim como Filipe o Belo encorajara Wallace e
Robert Bruce contra Eduardo I, Eduardo III apoiou Montfort contra Filipe de Valois. Não vai aqui
somente uma analogia histórica. Existe, como se sabe, parentesco de raça e de língua, semelhança
geográfica entre os dois torrões[440]. Na Escócia, como na Bretanha, a parte mais recuada é ocupada por
um povo céltico, a fronteira por uma população mista, encarregada de guardar o país. Ao triste border
escocês correspondem nossas charnecas do Maine e do Anjou, nossas florestas de Ille-et-Vilaine. Mas o
border é ainda mais deserto. Pode-se por ele viajar durante horas inteiras, no ritmo rápido de uma
diligência inglesa, sem nele encontrar nem árvore, nem casa; à pena vê-se algumas rugas de terreno onde
as pequenas ovelhas de Northumberland procuram pacientemente sua vida. Parece que tudo foi queimado
pelo cavalo de Hotspur[441]... Procura-se, atravessando esta região de baladas, quem as fez ou as
cantou. É preciso pouca coisa para fazer uma poesia. Não há necessidade dos loureiros-rosa de Eurotas;
basta um pouco da urze da Bretanha ou do cardo da Escócia, perante o qual o arado de Burns se
desviava[442].

Nesta rara e belicosa população, a Inglaterra encontrou um outlaw (fora-da-lei), um Robin Hood
eterno... O povo do border vivia nobremente dos bens do vizinho. Quando o butim da última expedição
fora comido, a senhora da casa servia a seu marido um prato no qual havia um par de esporas; ele partia
feliz[443]... eram guerras estranhas; a dificuldade para as duas partes era se encontrar. Em sua grande
expedição da Escócia, Eduardo II avançou vários dias, sob a chuva e entre o nevoeiro, sem ter visto
outro exército que não fosse cervos e gamos[444]. Era-lhe necessário prometer uma gorda soma a quem
lhe dissesse onde se encontrava o inimigo[445]. Os Escoceses reunidos, e então dispersos com a leveza
de um espírito, entravam na Inglaterra quando bem desejavam; eles tinham pouca cavalaria, mas nenhuma
bagagem[446]; cada homem carregava seu saquinho de grãos e um tijolinho (NT: prato de ferro?) para
assá-los.

Eles não se contentavam em guerrear apenas na Inglaterra. Eles, graciosamente, iam para longe.
É conhecida a história desse Douglas que, encarregado pelo rei moribundo de levar seu coração a
Jerusalém, encaminhou-se pela Espanha e, na batalha, lançou o coração contra os Mouros[447]. Mas a
cruzada natural deles era na França, quer dizer, onde podiam fazer mais danos aos Ingleses. Um Douglas
se tornou conde da Turânia. Conta-se que ainda existem Douglas no Bresse[448].

Nossa Bretanha teve seu border como a Escócia e, sem dúvida, também suas baladas[449].
Talvez a vida de soldado mercenário, que foi durante muito tempo aquela dos Bretões, tenha asfixiado
este gênio poético.

Mas a só história da Bretanha é uma poesia. Uma tal memória de lutas tão diversas e tão
obstinadas não se extingue. Esta raça de aríetes sempre esteve golpeando, sem nunca encontrar nada de
mais duro que si mesma. Ela enfrenta, vez por vez, a França e os inimigos da França. Ela repeliu nossos
reis sob Noménoé e sob Montfort; ela repeliu os Northmans (vikings) sob Alain Barbatorta (Alain II da
Bretanha) e os Ingleses sob Duguesclin.

Foi no border bretão, nos pântanos do Anjou, que Roberto o Forte foi morto pelos Northmans e
ganhou o trono para os Capetos. Aí também, os futuros reis da Inglaterra tomaram o nome de Plante-
Genêts (Plantagenetas). Esses arbustos, como aquele de Macbeth, saudaram as duas realezas[450].

A longa narrativa das guerras bretãs que iluminam (“renluminent”) tão bem a crônica de
Froissart[451], essas aventuras de todos os tipos, entremeadas de incidentes romanescos, fazem pensar
em certas paisagens abruptas da Bretanha, bruscamente variadas, pobres, pedregosas, semeadas, entre a
rocha, de tristes flores. Mas existe mais de uma parte nesta história que o cronista elegante e cavaleiresco
não retrata o selvagem horror. Não se sente bem a história da Bretanha senão no próprio teatro desses
eventos, nos rochedos de Auray, nas praias de Quiberon, de Saint Michel-en-Grève, onde o duque
fratricida encontrou o monge negro[452].
As belas aventuras das amazonas que agradam Froissart, essas proezas de Joana (Jehanne) de
Montfort, que teve a coragem do homem e o coração do leão, esses bravos discursos de Joana de
Clisson, de Joana de Blois, não dizem tudo sobre a guerra da Bretanha. Esta guerra é também aquela de
Clisson o açougueiro, do devoto e conscientemente cruel Carlos (Charles) de Blois.

O duque João III (da Bretanha), morto sem filhos, deixava uma sobrinha e um irmão. A sobrinha,
filha de um irmão mais velho, casara-se com Carlos de Blois, princípe de sangue, e ela tinha o rei a seu
favor; a nobreza da Bretanha também lhe era muito favorável[453]. O irmão cadete, Montfort, tinha a seu
favor os Bretões bretonantes e chamou os ingleses[454]. O rei da Inglaterra, que, na França, apoiava o
direito das mulheres, apoiou, na Bretanha, o dos varões. O rei da França foi incoerente em sentido
oposto.

Singular destino o dos Montfort. Nós já o observamos antes. Um Montfort aconselhara Luís o
Gordo a armar as comunas da França. Um Montfort liderou a cruzada dos Albigenses e anulou as
liberdades das cidades do sul. Um Montfort introduziu no parlamento inglês os deputados das comunas.
Eis aqui um outro, no século XIV, cujo nome congraça os Bretões em sua guerra contra a França.

O adversário de Montfort, Carlos de Blois, não era nada menos que um santo, o segundo que
teve a Casa da França. Ele se confessava de manhã e ao anoitecer, atendia a quatro ou cinco missas por
dia. Ele apenas viajava na companhia de um confessor que num pote levava pão, vinho, água e fogo para
poder dizer a missa em rota[455]. Se visse passar um padre, desmontava do cavalo na lama. Várias vezes
ele fez, pés nus na neve, a peregrinação de Santo Ivo (saint Yves, Yves Hélory de Kermartin), o grande
santo bretão. Carlos de Blois punha pedrinhas em seus calçados, proibia que se tirasse os parasitas de
seu cilício[456], amarrava-se com três cordas que lhe entravam na carne, ‘de dar dó’, disse uma
testemunha. Quando orava a Deus, ele se batia o peito até empalidecer e se tornar ‘verde’[457].

Um dia, ele parou a dois passos do inimigo, e em grande perigo, para ouvir a missa. No cerco de
Quimper, seus soldados iam ser pegos pela maré: ‘Se for a vontade de Deus’, ele disse, ‘a maré nada nos
fará’. A cidade foi de fato tomada e uma multidão de habitantes degolada. Carlos de Blois primeiro
acorrera até à catedral para agradecer a Deus. Depois, ele parou o massacre.

Este terrível santo não tinha piedade nem de si e nem dos outros. Ele se acreditava obrigado a
punir seus adversários como rebeldes. Quando começou a guerra sitiando Montfort em Nantes (1342), ele
lançou-lhe para dentro da cidade as cabeças de trinta cavaleiros. Montfort se rendeu, foi despachado
para o rei que, contra a capitulação, o encarcerou na torre do Louvre[458]. “A condessa de Montfort, que
muito tinha a coragem do homem e o coração do leão, estava na cidade de Rennes quando ouviu dizer que
seu senhor estava preso, tal como vós ouvistes; e apesar de toda a dor e abalo que sentia, tal como se
pode supor, ela achava que teria sido melhor que seu senhor estivesse morto do que na prisão; e, ainda
que possuísse como um luto no coração, ela não se fez uma mulher desesperada e desamparada, mas agiu
como homem confiante e ousado, reconfortando valentemente seus amigos e soldados; e mostrava-lhes
um menininho que tivera, o qual se chamava João, assim como seu pai, e dizia-lhes: “Eia, senhores! Não
vos desconforteis e nem vos espanteis pelo monsenhor que perdemos! Não era nada além de um homem:
vede aqui meu filhinho que será, se Deus quiser, seu restaurador (vingador), e que vos fará muito ricos
também”. Sitiada em Hennebont por Carlos de Blois, ela queimou, numa sortida, as tendas dos Franceses
e, não podendo entrar na cidade, ganhou o castelo de Auray; mas logo reunindo quinhentos homens, ela
novamente franqueou o campo dos Franceses e entrou em Hennebont “sob grande júbilo e barulhentos
toques de trombetas e tímbales!”. Era tempo dela chegar: os senhores negociavam na frente da própria
condessa quando esta viu chegar o socorro que já há muito tempo aguardava da Inglaterra. “Quem, então,
viu a condessa descer do castelo em grande animação e beijar messire Gautier de Mauny e seus
companheiros, uns após os outros, duas ou três vezes, pode mui apropriadamente dizer que era uma dama
valente” (Froissart, I, p. 73-87).

O próprio rei da Inglaterra veio em pessoa, por volta do fim daquele ano (1342), em auxílio da
Bretanha. O rei da França se aproximou com um exército; parecia que esta pequena guerra da Bretanha ia
se tornar grande. Mas nada se fez de importante: a penúria dos dois reis os condenou a uma trégüa, na
qual estavam compreendidos os seus aliados; somente os Bretões permaneciam livres para guerrear.

O cativeiro de Montfort fortificara seu partido. Filipe de Valois cuidou também de reavivá-lo,
mandando matar quinze senhores bretões, os quais acreditava serem favoráveis aos Ingleses. Um deles,
Clisson, prisioneiro na Inglaterra, aí fora bem tratado. Conta-se que o conde de Salisbury, para se vingar
de Eduardo que fizera com que sua bela condessa o abandonasse, denunciou ao rei da França o tratado
secreto de seu senhor e de Clisson (Chron. de Flandre, p. 173, 174 apud Froissart, II, p. 168)[459]. Os
Bretões, convidados a um torneio, foram aprisionados e postos à morte sem julgamento. O irmão de um
deles, que era padre, não foi supliciado, mas exposto sobre uma escada, onde o povo o lapidou.

Pouco após, o rei também mandou matar, sem julgamento, três senhores da Normandia. Ele
também teria desejado ter o conde de Harcourt entre suas mãos. Mas este escapou e foi tão útil aos
Ingleses quanto Roberto do Artois.

Até então, os senhores tinham poucos escrúpulos em tratar com o estrangeiro. O homem feudal
ainda se considerava como um soberano que podia negociar à parte. O parentesco das duas nobrezas,
francesa e inglesa, a comunidade de línguas (os nobres ingleses ainda falavam francês), tudo favorecia
essas aproximações. A morte de Clisson ergueu uma barreira entre os dois reinos.

Em um único ano, o Inglês perdeu Montfort e Artevelde. Este último se tornara totalmente Inglês.
Sentindo Flandres escapar-lhe, ele desejou dá-la ao príncipe de Gales. Já Eduardo estava em Eclusa e
apresentava seu filho aos burgomestres de Gant, de Bruges e de Ypres. Artevelde foi assassinado.

Com toda sua popularidade, esse rei de Flandres não era, no fundo, senão o chefe das grandes
cidades, o defensor de seus respectivos monopólios. Elas proibiam aos pequenos a fabricação da lã.
Uma revolta ocorreu a este respeito numa dessas cidades. Dentro do próprio perímetro de Gant, os dois
corpos de tecelões faziam-se guerra. Os pisoeiros exigiam dos tecelões e dos fabricantes de tecidos um
aumento de salário. Estes últimos, recusando-o, as partes se entregaram a um furioso combate e não havia
meio de separar esses dogues. Em vão os padres carregaram o corpo de Nosso Senhor para o campo de
batalha. Os fabricantes, apoiados por Artevelde, massacraram os operários (1345)[460].

Artevelde, que não se fiava nem em uns e nem nos outros, desejava sair de sua perigosa posição,
ceder o que não podia manter, ou ainda reinar sob um senhor que tivesse necessidade de si e que o
apoisasse. Chamar os Franceses, ele sequer considerava. Ele então convidou o Inglês e correu Bruges e
Ypres para negociar, discursar. Durante este tempo, Gant escapou-lhe.

Quando voltou a entrar nesta última cidade, o povo já estava amotinado. A turba dizia que ele
mandava passar para a Inglaterra o dinheiro de Flandres. Ninguém o cumprimentou. Ele se salvou em seu
palácio e, de sua janela de púlpito, tentou em vão dobrar o povo. As portas foram forçadas, Artevelde foi
morto precisamente como o tribuno Rienzi o seria em Roma dois anos depois[461].
Eduardo perdera Flandres tanto quanto a Bretanha. Seus ataques em dois flancos não foram bem
sucedidos; ele fez um ao centro. Este, liderado por um Normando, Godofredo (Godefroi) d’Harcourt, foi
muito mais fatal à França.

Filipe de Valois reunira todas as suas forças em um enorme exército para retomar dos Ingleses
suas conquistas do sul. Este exército que, conta-se, era forte de cem mil homens, de fato retomou
Angoulême e foi se esgotar à frente da pequena praça de Aiguillon, onde os Ingleses se defenderam tanto
melhor quanto o filho do rei, que liderava os Franceses, não lhes dera quartel nos outros lugares[462].

De acordo com a improvável narrativa de Froissart, o rei da Inglaterra teria partido para
socorrer a Guiana. Depois, conduzido por vento contrário, ele teria dado ouvidos aos conselhos de
Godofredo d’Harcourt que o teria encorajado a atacar a Normandia indefesa[463].

O conselho não era outra coisa senão excelente. Toda a região estava desarmada: era obra dos
próprios reis que tinham proibido as guerras privadas. A população se tornara completamente pacífica,
complementamente ocupada do campo ou dos ofícios. A paz trouxera seus frutos[464]. O estado
florescente e próspero no qual os Ingleses encontraram a região deve nos fazer rebater tudo aquilo que os
historiadores disseram contra a administração real no século XIV.

O coração sangra quando se vê, em Froissart, esta selvagem aparição da guerra num grotão
pacífico, já rico e industrial, cujo ímpeto ia ser detido por vários séculos. O exército mercenário de
Eduardo, esses pilhadores Galeses, Irlandenses, tombaram sobre uma população sem defesa; eles
encontraram as ovelhas nos campos, as fazendas e granjas cheias, as cidades abertas[465]. Da pilhagem
de Caen, eles tiveram com o que carregar vários navios[466]. Eles encontraram Saint-Lô[467] e
Louviers abarrotadas de tecidos[468].

Para animar ainda mais o seu pessoal, Eduardo descobriu, em Caen, muito oportunamente, um
ato pelo qual os Normandos ofereciam a Filipe de Valois conquistar a Inglaterra às suas próprias
expensas, à condição que ela fosse posteriormente partilhada entre os mesmos, tal como ela antes o fora
entre os companheiros de Guilherme o Conquistador[469]. Este ato, escrito no penoso francês que então
se falava na corte da Inglaterra (Rymer,III, pars I, p. 76, ed. 1346), é provavelmente falso. Ele foi, por
ordem de Eduardo, traduzido para o inglês e lido, em toda a Inglaterra, do púlpito das igrejas. Antes de
partir, o rei encarregara os pregadores do povo, os dominicanos, de pregar a guerra, expondo-lhe as
causas. Pouco após (1361), Eduardo suprimiu o francês nos atos públicos. Não houve, então, senão uma
língua, senão um único povo inglês. Os descendentes dos conquistadores normandos e aqueles dos
Saxões se encontraram reconciliados pelo ódio aos novos Normandos.

Tendo os Ingleses encontrado as pontes destruídas em Rouen, eles subiram pela margem
esquerda, queimando, na passagem, Vernon, Verneuil e Pont-de-l’Arche. Eduardo parou em Poissy para
aí construir uma ponte e celebrar a Assunção da Virgem Maria, enquanto seu pessoal partia para queimar
Saint-Germain, Bourg-la-Reine, Saint-Cloud e, mesmo, Boulogne, tão próxima de Paris.

Todo o socorro que o rei da França deu à Normandia foi o de enviar à Caen o condestável e o
conde de Tancarville, que acabaram presos. Seu exército estava no Midi, a cento e cinquenta léguas. Ele
acreditou que seria mais rápido chamar seus aliados da Alemanha e dos Países-Baixos. O rei tinha
acabado de fazer eleger imperador o jovem Carlos IV, filho de João da Boêmia. Mas os Alemães
expulsaram o imperador eleito, o qual se pusera a soldo do rei. Sua chegada, aquela do rei da Boêmia,
do duque da Lorena e de outros senhores alemães, fez que os Ingleses já refletissem.
Eram demais as bravatas e a audácia. Eles, os Ingleses, se encontravam engajados numa luta no
coração de um grande reino, entre cidades carbonizadas, províncias devastadas, populações
desesperadas. As forças do rei da França engrossavam a cada dia. Ele tinha pressa em punir os Ingleses
que lhe haviam faltado com o respeito a ponto de se aproximarem de sua capital. Os burgueses de Paris,
excelentes pessoas até então, já começavam a murmurar. O rei, tendo desejado demolir as casas que
tocavam o perímetro da cidade, houve quase uma sublevação.

Eduardo tentou ir pela Picardia, se aproximar dos Flamengos que vinham de sitiar Béthune, de
atravessar o Ponthieu, herança de sua mãe. Mas era necessário cruzar o rio Somme. Filipe mandava
guardar e proteger todas as pontes e seguia o inimigo de perto; de tão perto que, em Airaines, encontrou a
mesa de Eduardo servida e comeu o jantar deste.

Eduardo mandara procurar um vau; seu pessoal procurou e nada encontrou. Ele estava muito
pensativo quando um menino de Blanquetache se encarregou de mostrar-lhe o vau que leva este
nome[470]. Filipe nele posicionara uns mil homens, mas os Ingleses, que se sentiam perdidos se não o
atravessassem, fizeram um grande esforço e o cruzaram. Filipe chegou logo depois: não havia mais jeito
de persegui-los pois a maré fazia subir o fluxo do Somme; o mar protegeu os Ingleses.

A situação de Eduardo não era boa. Seu exército estava faminto, molhado, esfalfado. As pessoas
que tinham tomado e esbanjado tanto butim pareciam, agora, mendigas. Esta retirada rápida e vergonhosa
seria tão funesta quanto uma batalha perdida. Eduardo, então, arriscou a batalha.

Além disso, tendo chegado em Ponthieu, ele se sentia mais forte; ao menos este condado era bem
a seu favor: “Tomemos posição aqui”, ele disse, “pois não irei mais adiante se tiver visto nossos
inimigos; e há boa causa para que eu os aguarde aqui, pois estou no exercício do direito de herança da
senhora minha mãe, a quem esta terra foi dada em casamento; aqui desejo defender e combater contra
meu adversário Filipe de Valois” (Froiss., II, p. 345).

Isto disto, Eduardo entrou em seu oratório, fez devotamente suas preces, deitou-se e, no dia
seguinte, ouviu a missa. Ele dividiu seu exército em três batalhões e mandou seus cavaleiros porem os
pés à terra. Os Ingleses comeram, beberam uma taça, depois se sentaram, armas à frente, aguardando o
inimigo.

Neste momento, chegava com grande alarido a imensa multidão do exército francês[471].
Aconselhara-se ao rei da França deixar suas tropas repousarem e ele consentiu. Mas os grandes senhores,
impelidos pelo ponto de honra feudal, avançavam sempre para saber quem estaria no primeiro ranque da
vanguarda.

O próprio rei, quando chegou e que viu os Ingleses, “o sangue ferveu-lhe, pois ele os odiava... e
disse aos seus marechais: ‘fazei passar nossos Genoveses à frente e iniciai a batalha, em nome de Deus e
de meu senhor São Denis”.

Não era sem grandes custos que o rei há muito tempo mantinha tropas mercenárias. Mas julgava-
se, com razão, que os arqueiros Genoveses eram indispensáveis contra os arqueiros ingleses. A pronta
retirada de Barbanegra na batalha da Eclusa tinha, naturalmente, aumentado a desconfiança contra esses
estrangeiros. Os mercenários da Itália estavam habituados a se poupar nas batalhas. Estes, no momento
de combater, declararam que as cordas de seus arcos estavam molhadas e não podiam servir[472]. Eles
poderiam tê-las escondido sob seus chapelões como o fizeram os arqueiros Ingleses.
O conde d’Alençon exclamou: “Temos que lidar com esta canalha que falha na necessidade”. Os
Genoveses não podiam fazer grande coisa, os Ingleses os crivavam de flechas e de balas de ferro
lançadas por bombardas. “Crer-se-ia”, diz um contemporâneo, “ouvir Deus trovejar” (Villani, l. XII, c.
65, p. 948). Foi o primeiro emprego da artilharia numa batalha em campo aberto[473].

O rei da França, fora de si, gritou para seus cavaleiros: “Ora, vamos! Matai toda esta corja pois
eles nos impedem o caminho sem razão”. Mas para passar sobre os corpos dos Genoveses, a infantaria
rompia suas fileiras. Os Ingleses disparavam tiros certos nesta cambada, sem temer perder um só
disparo. Os cavalos se assustavam, disparavam. A desordem aumentava a cada momento.

O rei da Boêmia, idoso e cego, mantinha-se, todavia, montado entre seus cavaleiros. Quando lhe
disseram o que ocorria, ele bem julgou que a batalha estava perdida. Este bravo príncipe, que passara
sua vida na domesticidade da Casa da França e que queria bem ao reino, deu o exemplo como vassalo e
como cavaleiro. E disse aos seus: “Eu vos rogo e solicito mui especialmente que me conduzis tão à frente
que eu possa desferir um golpe de espada”. Eles o obedeceram, ataram seus cavalos ao dele, e todos se
lançaram às cegas na batalha. Foram todos encontrados no dia seguinte, jazendo em volta de seu senhor e
ainda atados[474].

Os grandes senhores da França também agiram tão nobremente. O conde d’Alençon, irmão do
rei, os condes de Blois, d’Harcourt, d’Aumale, d’Auxerre, de Sancerre, de Saint-Pol, todos
magnificamente armados e brasonados, atravessaram, a grande galope, as linhas inimigas. Eles fenderam
as linhas dos arqueiros e, sempre empurrando e desdenhando esses pedestres, chegaram à pequena tropa
de cavaleiros ingleses. Aí se encontrava o filho de Eduardo, treze anos de idade, que seu pai pusera à
testa de uma divisão. A segunda divisão veio apoiá-lo e o conde Warwick, que temia pelo pequeno
príncipe, mandava pedir ao rei que enviasse a terceira divisão em socorro. Eduardo respondeu que
desejava deixar o adolescente ganhar suas próprias esporas e que o dia a ele pertencesse.

O rei da Inglaterra, que dominava toda a batalha da elevação de um moinho, bem notava que os
Franceses iam ser massacrados[475]. Uns haviam tropeçado na primeira desordem entre os Genoveses,
os outros, penetrando no coração do exército inglês, encontravam-se cercados. A pesadíssima armadura
que, então, começava-se a trajar, não permitia aos cavaleiros, uma vez caídos, se levantar. Os
coutilliers[476] de Gales e das Cornualhas vinham, com suas facas, e os matavam sem piedade, grandes
e nobres senhores que fossem. Filipe de Valois foi testemunha desta carnificina. Seu cavalo fora morto.
Ele não tinha senão sessenta homens à sua volta e não podia escapar do campo de batalha. Os Ingleses,
surpresos com sua própria vitória, não davam um passo; tivessem dado, teriam capturado o rei da França.
Enfim, João de Hainaut pegou o cavalo do rei pelas rédeas e o conduziu.

Os Ingleses, fazendo a revista do campo de batalha e a contagem dos mortos, encontraram onze
príncipes, oitenta senhores brasonados, mil e duzentos cavaleiros, trinta mil soldados. Enquanto
contavam, chegaram as comunas de Rouen e do Beauvais, as tropas do arcebispo de Rouen e do Grão-
Prior da França. Essa pobre gente, que nada sabia acerca da batalha, vinha ainda aumentar o número dos
mortos[477].

Esta imensa desgraça não fez senão preparar uma maior. O Inglês se assentou na França. As
cidades marítimas da Inglaterra, exasperadas pelos nossos corsários de Calais, imediatamente ofertaram
uma frota a Eduardo. Dover, Bristol, Winchelsea, Shoreham, Sandwich, Weymouth e Plymouth
forneceram, cada uma, de vinte a trinta vasos, Yarmouth sozinha deu quarenta e três[478]. Os mercadores
ingleses, a quem esta guerra arruinava, tinham feito um último e prodigioso esforço para se colocar na
posse do Canal. Eduardo veio sitiar Calais e aí estabeleceu seu posto fixo para viver ou morrer. Após os
sacrifícios que tinham sido feitos para esta expedição, ele não podia reaparecer perante as comunas da
Inglaterra senão tendo chegado ao cabo de sua empreitada. Em volta da cidade de Calais, ele construiu
uma vila, ruas, casas em alvenaria, bem fechadas, bem cobertas, para aí permanecer verão e
inverno[479]. “E havia, nesta nova vila do rei, todas as coisas necessárias para um exército e ainda mais,
e praça organizada para ter um mercado (feira) às quartas-feiras e aos sábados; e aí encontrava-se
mercadorias, açougues, lojas de roupas e de pão e todas as outras necessidades, e tudo podia ser
facilmente comprado com dinheiro, e tudo isso vinha-lhe por mar, todos os dias, da Inglaterra e também
de Flandres...”.

O Inglês, bem assentado e em abundância, deixou aqueles de fora e os de dentro fazerem tudo o
que desejassem, não lhes concedendo sequer um combate. Ele preferia fazê-los morrer de fome.
Quinhentas pessoas, homens, mulheres e crianças, postos para fora da cidade pelo governador (de
Calais), morreram de miséria e de frio, entre a cidade e o campo. Tal é, ao menos, a narrativa do
historiador inglês[480].

Eduardo enraizara-se à frente de Calais. A mediação do Papa não era capaz de arrancá-lo daí.
Vieram dizer-lhe que os Escoceses iam invadir a Inglaterra. Ele não se mexeu. Sua perseverança foi
recompensada: logo tomou conhecimento que suas tropas, encorajadas pela rainha, tinham feito
prisioneiro o rei da Escócia. No ano seguinte, Carlos de Blois foi também preso sitiando La Roche-
Derrien. Eduardo podia cruzar os braços: a fortuna trabalhava para si.

Havia, para o rei da França, uma grande e urgente necessidade de socorrer Calais[481]. Mas a
penúria era tão grande, esta monarquia semi-feudal tão inerte e tão atrapalhada, que ele não conseguiu se
colocar em movimento senão ao cabo de dez meses de sítio, quando os Ingleses estavam fortificados,
entrincheirados, cobertos por paliçadas, cercados por fossos profundos. Tendo juntado algum dinheiro
via alteração das moedas (Ord. II, p. 254, 256, 263), pela gabela, pelos dízimos eclesiásticos, pelo
confisco dos bens dos Lombardos, ele se encaminhou enfim, com um grande e pesado exército, como
aquele que fora batido em Crécy. Não se podia chegar em Calais senão pelos mangues ou pelas dunas.
Enfiar-se nos mangues era perecer; todas as passagens estavam cortadas, guardadas; entretanto, os
soldados de Tournai tomaram bravamente uma torre, sem máquinas de sítio e à força de seus próprios
braços[482].

As dunas do lado de Boulogne (Boulogne-sur-Mer) estavam sob o fogo de uma frota inglesa. Do
lado de Gravelines, elas eram guardadas pelos Flamengos, que o rei não pôde ganhar. Ele ofereceu-lhes
montanhas de ouro, render-lhes Lille, Béthune e Douai; ele desejava enriquecer seus burgomestres,
nomear cavaleiros os seus jovens, fazer senhores[483]. Nada os moveu. Eles muito temiam o retorno de
seu conde que, após uma falsa reconciliação, conseguira se salvar de suas mãos[484]. Filipe nada podia
fazer. Ele negociou, ele lançou desafios. Eduardo permaneceu tranquilo[485].

Foi um terrível desespero para a cidade faminta, quando viu todos esses pendões da França,
todo este grande exército que se distanciava e a abandonava. Não restava nada mais ao povo de Calais,
se desejasse misericórdia, senão render-se ao inimigo. Mas os Ingleses os detestavam mortalmente e
como marinheiros e como corsários[486]. Para saber tudo o que há de irritação nas hostilidades
quotidianas de uma tal vizinhança, neste oblíquo e colérigo olhar que os dois lados lançam um ao outro, é
preciso ler as guerras de Luís XIV, os fatos e gestos de Jean Bart[487], a lamentável demolição do porto
de Dunquerque, o fechamento das bacias da Antuérpia.
Era deveras provável que o rei da Inglaterra, que tanto se aborrecera perante Calais, que à sua
frente permanecera durante um ano, que dispendera, numa só campanha, a soma, então monstruosa, de
quase dez milhões de nossa moeda, desse a si mesmo a satisfação de passar seus habitantes a fio de
espada, com o que, certamente, muito agradaria os mercadores ingleses. Mas os cavaleiros de Eduardo
disseram-lhe claramente que, se ele assim tratasse os sitiados, seus soldados não mais ousariam se
enfurnar em praças fechadas e que teriam medo de represálias. Ele cedeu e bem desejou receber a cidade
à sua mercê, desde que alguns dos principais burgueses viessem, segundo o costume, apresentar-lhe as
chaves da cidade, cabeças descobertas, pés nus e a corda em volta do pescoço.

Havia perigo para os primeiros que aparecessem perante o rei. Mas essas populações das
costas, que todos os dias enfrentam a cólera do Oceano, não têm medo daquela de um só homem.
Encontrou-se imediatamente, nesta pequena cidade despovoada pela fome, seis homens de boa-vontade
para salvar os outros. Isto ocorre todos os dias, em situações parelhas ou piores de mau tempo, para
salvar um barco em perigo. Esta grande ação, estou certo, deu-se de forma simples e não com remorsos,
lágrimas e discursos longos tal como a imaginou o capelão Froissart[488].

Foram necessárias, entretanto, as súplicas da rainha e dos cavaleiros para impedir Eduardo de
mandar enforcar esses bravos homens[489]. Fez-se com que ele compreendesse que essas pessoas
haviam se batido por sua cidade e seu comércio muito mais que pelo rei ou reino da França. Ele
repovoou a cidade de Ingleses, mas admitiu entre estes os Calesenses, os quais viraram Ingleses, entre
outros Eustache de Saint-Pierre, o primeiro daquele grupo de seis que entregara as chaves a
Eduardo[490].

Essas chaves eram aquelas da França. Calais, tornada inglesa, foi, durante dois séculos, uma
porta aberta ao estrangeiro. A Inglaterra estava como reunida ao continente. Não havia mais o estreito da
Mancha.

Retornemos a esses tristes acontecimentos. Procuremos-lhe o verdadeiro significado. Nós aí


encontraremos algum consolo.

A batalha de Crécy não é apenas uma batalha; a tomada de Calais não é apenas uma simples
tomada de cidade; esses dois eventos contêm uma grande revolução social. A cavalaria completa do
povo mais cavaleiro fora exterminada por um bando de infantes. As vitórias dos Suíços sobre a cavalaria
austríaca em Morgarten, em Laupen, apresentavam um fato análogo, mas não tiveram a mesma
importância, a mesma ressonância na cristandade. Uma nova tática saía de um novo estado da sociedade;
e não era obra de gênio ou de reflexão. Eduardo III não era nem um Gustavo Adolfo, nem um Frederico.
Ele empregara os infantes à falta de cavaleiros. Nas primeiras expedições, seus exércitos se compunham
de cavaleiros, de nobres e de servidores dos nobres. Mas os nobres haviam se cansado dessas longas
campanhas. Não se conseguia manter por muito tempo, sob a bandeira, um exército feudal. Os Ingleses,
com seu gosto pela emigração, amavam todavia o home. Era necessário que o barão retornasse, ao cabo
de alguns meses, ao baronial hall, que revisse seu gado, seus cães, que caçasse a raposa[491]. O
soldado mercenário, tanto quanto não fosse rico, tanto quanto estivesse sem meiões e calçados, como
esses Irlandeses e Galeses que Eduardo alugava, tinha menos convicção quanto à necessidade de retorno.
Seu home, seu lar, era o país inimigo. Ele persistia de bom coração numa boa guerra que o alimentava, o
vestia, sem contar os lucros que dela podia extrair. Isto explica porque o exército inglês viu-se, pouco a
pouco, quase todo formado por mercenários que eram infantes.

A batalha de Crécy revelou um segredo do qual ninguém desconfiava: a impotência militar desse
mundo feudal que se acreditava o único mundo militar. As guerras privadas dos barões, de cantão em
cantão, no isolamento primitivo da Idade Média, não compreenderam isso; os nobres não eram vencidos
senão por outros nobres. Dois séculos de derrotas durante as Cruzadas não fizeram mal algum à sua
reputação. A Cristandade inteira estava interessada em dissimular para si própria as vitórias dos infiéis.
Além disso, as guerras ocorriam muito longe, de sorte que sempre havia meio de encontrar escusas para
os reveses; o heroísmo de um Godofredo, de um Coração-de-Leão, redimia todo o resto. No século XIII,
quando os pendões feudais foram habituados a seguir aquele do rei, quando das tantas cortes senhoriais
fez-se apenas uma, brilhante para além de todas as ficções dos romances, os nobres, subtraídos em poder,
somaram em orgulho; rebaixados em si mesmos, ele se sentiram crescer em seu rei. Eles se avaliaram
mais ou menos segundo a frequência com que participavam das festas reais. O cavaleiro mais aplaudido
nos torneios era tido, e ele próprio assim se considerava, como o mais valente nas batalhas. Fanfarras,
olhares do rei, olhadelas das belas damas, tudo isso inebriava mais que uma verdadeira vitória. A
embriaguez foi tal, que eles abandonaram a Filipe o Belo, sem dizer palavra, seus irmãos, os Templários;
estes cavaleiros, como já foi dito, eram geralmente os cadetes (caçulas) da nobreza. Esta fez bom
mercado dos monges-cavaleiros, assim como dos outros monges ou padres. Sempre, ela ajudou os reis
contra os Papas. Desses dízimos arrancados ao clero, sob aparência de cruzada ou outro pretexto, os
nobres receberam boa parte[492]. Chegara o tempo, porém, onde o nobre, após ter ajudado o rei a
devorar o padre, poderia ter o seu troco.

Em Courtrai, os nobres alegaram seu heróico estouvamento, o fosso dos Flamengos. Em Mons-
en-Puelle e em Cassel, dois fáceis massacres recuperaram sua reputação. Durante vários anos, eles
acusaram o rei que lhes proibia de vencer. Em Crécy, eles podiam provar o contrário: toda a cavalaria lá
estava reunida, todas as armas heráldicas flutuavam ao vento, esses orgulhosos brasões, leões, águias,
torres, besantes das cruzadas, todo o soberbo simbolismo dos escudos d’armas. Em face, salvo três mil
cavaleiros, estavam os pés descalços das comunas inglesas, os rudes montanheses de Gales, os
cuidadores de porcos da Irlanda, raças cegas e selvagens que não conheciam nem francês, nem inglês,
nem cavalaria[493]. Nem por isso deixaram de visar menos as nobres flâmulas e não as mataram senão
com mais ardor. Não havia uma língua comum para implorar ou negociar. O Welsh ou o Irishman não
compreendia o barão derrubado que oferecia fazê-lo rico; aquele respondia com a faca.

Malgrado a romanesca bravura de João da Boêmia e de muitas outras, as resplandescentes


flâmulas foram manchadas nesse dia. Por terem sido arrastadas, não pela nobre manopla do senhor, mas
pelas mãos calejadas, ficou difícil lavá-las. A religião da nobreza teve, desde então, mais de um
incrédulo. O simbolismo armorial perdeu todo seu efeito. Começou-se a duvidar que esses leões
mordessem, que esses dragões vomitassem fogo e chamas. A vaca da Suíça e a vaca de Gales pareceram
também excelentes símbolos heráldicos.

Para que o povo se convencesse de tudo isso, foram necessários tempo e também muitas
derrotas. Crécy não bastou, nem mesmo Poitiers. Esta reprovação aos nobres, que se ergueu ousadamente
após a batalha de Azincourt, ela ainda está muda e respeitosa sob Filipe de Valois. Não há lamento e nem
revolta, mas sofrimento, languidez, torpor sob as misérias. Pouca esperança sobre a terra, pouca em outro
lugar. A fé está abalada; a feudalidade, esta outra fé, muito mais. A Idade Média tinha sua vida em dois
ideais, o imperador e o papa. O Império caiu nas mãos de um servidor do rei da França; o Papa foi
degradado, de Roma a Avignon, um mero valete do rei; este rei vencido, a nobreza humilhada.

Ninguém dizia essas coisas, nem mesmo delas se dava conta. O pensamento humano estava
menos revoltado que desencorajado, abatido e apagado. Esperava-se, novamente, o fim do mundo; alguns
o fixavam para o ano 1365. O que restava, de fato, senão morrer?

As épocas de abatimento moral são aquelas de grande mortalidade. Assim deve ser e é a glória
do homem que assim o seja. Ele deixa a vida caminhar, desde que esta cessa de parecer-lhe grande e
divina... Insontes peperer manus, vitamque perosi Projecere animas (NT: inocentes, elas se mataram e
rejeitaram a vida por medo da luz)[494]... a depopulação foi rápida nos últimos anos de Filipe de
Valois. A miséria, os sofrimentos físicos, não bastariam para explicar; eles ainda não tinham chegado ao
ponto onde posteriormente chegaram. Todavia, para citar apenas um exemplo, a partir do ano 1339, a
população de uma só cidade, Narbonne, diminuíra, em quatro ou cinco anos, de quinhentas
famílias[495].

Por cima desta depopulação bem lenta, vem o extermínio, a grande peste negra que, de um só
golpe, multiplicou as mortes por toda a cristandade. Ela começou na Provença, no dia de Todos os Santos
de 1347, aí durou por dezesseis meses e carregou dois terços dos habitantes. Deu-se o mesmo no
Languedoc. Em Montpellier, dos doze cônsules, dez morreram. Em Narbonne, pereceram trinta mil
pessoas. Em vários locais, restou apenas um décimo dos moradores (‘Hist. de Langued.’, IV). O
despreocupado Froissart não diz senão uma palavra desta pavorosa calamidade e, ainda assim,
incidentalmente: “...pois, nessa época, por todo o mundo, corria de forma geral uma doença à qual
chamavam epidemia e da qual uma terça parte do mundo morreu”.

O mal só começou no norte no mês de agosto de 1348, inicialmente em Paris e em Saint-Denis.


Ele foi tão terrível em Paris, que aí morriam oitocentas pessoas por dia; segundo outras, quinhentas[496].
“Era”, diz o continuador de Guilherme de Nangis, “uma medonha mortalidade de homens e de mulheres,
mais de jovens que de anciãos, a ponto que mal podiam ser enterrados; raramente ficavam mais de dois
ou três dias doentes, e morriam como de morte súbita, em plena saúde. Um tal, hoje, portava-se bem que,
amanhã, era carregado ao buraco: via-se formar, repentinamente, um inchaço na virilha ou sob as axilas e
isto era o sinal infalível da morte... a peste e a morte se transmitiam por imaginação e por contágio.
Quando se visitava um doente, raramente escapava-se à morte. Assim, em várias cidades e vilas,
pequenas e grandes, os padres se distanciavam, deixando a alguns religiosos ousados o cuidado de
administrar os doentes... As santas irmãs da Casa de Deus (Hôtel-Dieu), rejeitando o temor da morte e as
preocupações humanas, na sua doçura e humildade, os tocavam, os manipulavam. Constantemente
revonadas pela morte de outras, elas repousam, assim devemos piedosamente crer, na paz de Cristo”
(Cont. de G. de Nangis, p. 110).

“Como então não havia nem fome, nem falta de víveres, mas, ao contrário, uma grande
abundância, dizia-se que esta peste vinha de uma infecção do ar e das águas. Acusou-se de novo os
judeus; o mundo se sublevou cruelmente contra eles, sobretudo na Alemanha. Matou-se, massacrou-se,
queimou-se milhares de judeus sem distinção...” (Contin. de G. de Nangis, p. 110).

A peste encontrou a Alemanha num de seus mais sombrios acessos de misticismo. A maior parte
deste pobre povo estava, já há muito tempo, privada dos santos sacramentos da Igreja. Nossos Papas de
Avignon, para agradarem ao rei, friamente e por maldade de coração, tinham feito a Alemanha mergulhar
no desespero. Todos os países que reconhecessem Luís da Baviera eram fustigados pelo interdito papal.
Várias cidades, particularmente Estrasburgo, permaneciam fiéis ao seu Imperador, mesmo após sua
morte, e sempre sofriam os efeitos da sentença pontifícia. Nenhuma missa, nenhum viático. A peste
matou, em Estrasburgo, dezesseis mil homens que se acreditaram condenados[497]. Os dominicanos que
persistiram algum tempo na consecução do serviço divino findaram, como os outros, por também partir.
Três homens somente, três místicos, não se importaram com o interdito e persistiram na assistência aos
agonizantes: o dominicano Tauler, o agostinho Thomas de Estrasburgo e o cartuxo Ludolpho[498]. Era a
grande época dos místicos. Ludolpho escrevia sua Vida do Cristo, Tauler sua Imitação da pobre vida de
Jesus, Suso seu livro dos Nove Rochedos[499]. O grande Tauler ia pessoalmente consultar, na floresta de
Soigne, próxima a Louvain, o velho Ruysbroek, o doutor extático[500].

Mas o êxtase, no povo, era furor. No abandono no qual a Igreja os deixava, em seu desprezo
pelos padres (Johannes Vitoduranus, p. 49, apud Giescler, II, 2, p. 65), eles se passavam dos
sacramentos; eles os substituíam por mortificações sangrentas, corridas desenfreadas. Populações
inteiras partiram, foram sem saber para onde, como impelidas pelo vento da cólera divina. Eles
carregavam cruzes vermelhas, seminus pelos lugares, golpeavam-se com chicotes armados de pontas de
ferro, entoando cânticos que nunca antes tinham sido ouvidos[501]. Eles não permaneciam nas cidades e
vilas senão por um dia e uma noite e se flagelavam duas vezes por dia; isto feito durante trinta e três dias
e meio, eles se acreditavam puros como no dia do batismo (manuscritos das Crônicas de Saint-Denis,
mencionado por M. Mazure em sua dissertação).

Os flagelantes foram inicialmente para a Alemanha e para os Países-Baixos. Depois, esta febre
ganhou a França, por Flandres, pela Picardia. Ela não passou em Reims. O Papa os condenou; o rei
ordenou enxotá-los. No Natal de 1349, eles não eram menos de oitocentos mil (ibidem). E não era
somente o povo, mas nobres, grandes senhores. As nobres damas punham-se a fazer o mesmo (Contin. de
G. de Nangis, II, 111).

Não houve qualquer flagelante na Itália. Este sombrio entusiasmo da Alemanha e da França do
norte, esta guerra declarada contra a carne, muito contrasta com a pintura que Boccacio nos deixou dos
costumes italianos da mesma época.

O prólogo do Decameron é a principal testemunha histórica que temos sobre a grande peste
negra de 1348. Boccacio pretende que somente em Florença houve cem mil mortos. O contágio era
espantosamente rápido. Ele diz: “Vi, com meus olhos, dois porcos que, na rua, sacudiram com seus
focinhos os andrajos de um morto; uma mísera hora depois, eles giraram, giraram e caíram: estavam
mortos... Não eram mais os amigos que sobre seus ombros carregavam os corpos à igreja indicada pelo
moribundo. Pobres companheiros, miseráveis gatos-pingados carregavam rapidamente o corpo à igreja
mais próxima... Muitos morriam na rua; outros, completamente sós, em suas casas, mas era possível
farejar as casas dos mortos... Com frequência colocava-se sobre a mesma padiola a mulher e o marido, o
filho e o pai... Cavara-se grandes fossas onde sepultava-se os corpos às centenas, como as mercadorias
num navio... Todos carregavam à mão ervas de odor forte. O ar não era senão fedor de mortos e doentes
ou de remédios infectos... Oh! Quantas belas casas ficaram vazias! Quantas fortunas sem herdeiros!
Quantas lindas damas, amáveis jovens, tomaram o desjejum da manhã com seus amigos que, à noite,
foram cear com seus avós!...”[502].

Há, em toda a narrativa de Boccacio, alguma coisa ainda mais triste que a morte: é o glacial
egoísmo que é aí confessado. Vários, ele diz, se trancavam, se alimentavam com uma extrema temperança
dos alimentos mais requintados e dos melhores vinhos, sem querer ouvir nenhuma notícia dos doentes,
divertindo-se com músicas ou outras coisas, sem luxúria todavia. Outros, ao contrário, asseguravam que
o melhor remédio era beber, ir-se cantando e zombar de tudo. Eles o faziam tal como o diziam, indo,
noite e dia, de casa em casa; e isto tanto mais claramente quanto não mais esperassem viver, deixando ao
abandono tudo o que possuíam, assim como a si mesmos; as casas haviam se tornado comuns. A
autoridade das leis divinas e humanas estava perdida e dissolvida, não havendo mais ninguém para fazê-
las ser observadas... Vários, por um pensamento cruel, e talvez mais prudente[503], diziam que não
havia remédio outro senão fugir; não se inquietando com ninguém mais além de si mesmos, deixavam
suas cidades, suas casas, seus pais; iam-se pelos campos, como se a cólera de Deus não pudesse tê-los
precedido... As pessoas do campo, aguardando a morte e pouco preocupadas com o porvir, se
esforçavam e pensavam meios de consumir tudo que possuíam. Os bois, os burros, as cabras, mesmo os
cães abandonados, iam-se pelos campos, onde os frutos da terra permaneciam no pé e, como criaturas
racionais, quando se haviam saciado, voltavam à noitinha, sem serem pastoreados, para casa[504]... Na
cidade, os parentes não mais se visitavam. O temor era tão forte no coração dos homens, que a irmã
abandonava o irmão, a mulher o marido; coisa quase inacreditável, os pais e mães evitavam cuidar dos
filhos. Este número infinito de doentes não tinha outros recursos senão a piedade de seus amigos (e, de
tais amigos, não havia nenhuma), ou então a avareza dos servidores; estes últimos, também, eram gente
tão rude e grosseira, pouco habituada a um tal serviço, e que não era bom de se ver senão quando o
doente já estava morto. Deste abandono universal resultou uma coisa inaudita: uma mulher doente, ainda
que fosse bela, jovem, nobre e graciosa, não temia fazer-se servir por um homem, mesmo jovem, e nem
se envergonhava em deixá-lo ver, se a necessidade da doença a obrigasse, tudo aquilo que teria mostrado
somente a uma outra mulher; isto certamente causou a diminuição de honestidade naquelas que se
curaram[505].

Pela maligna bonomia, tanto quanto pela despreocupação, Boccacio é o verdadeiro irmão de
Froissart. Mas, aqui, o contista diz mais que o historiador. O Decameron, em sua forma mesmo, na
passagem do trágico ao divertido, não representa senão bem demais os gozos egoístas que se seguem às
grandes calamidades[506]. Seu prólogo nos conduz do fúnebre vestíbulo da peste de Florença aos
deliciosos jardins de Pampinea, a esta vida de riso, de fare niente (fazer nada) e de oblívio calculado
que levam seus adeptos perto de suas belas amantes, numa sóbria e discreta higiene... Maquiavel, em seu
livro sobre a peste de 1527, tem menos reservas. Em nenhum outro lugar o autor do Príncipe me parece
mais friamente cruel. Ele se toma de amores e dispara galantes propostas numa igreja em luto. Seus
protagonistas se encontram com surpresa, como aprazíveis um ao outro, resolvem, de boa vontade, viver,
e se divertem. A alcoviteira é a morte.

Segundo o Continuador de Guilherme de Nangis: “Aqueles que permaneciam, homens e


mulheres, casavam-se em turba. Os sobreviventes concebiam loucamente. Não havia, entre eles, quem
fosse estéril. Não se via, aqui e acolá, senão mulheres grávidas. Elas davam à luz duas ou três crianças
por vez”[507].

Foi, como após todo grande flagelo, como após a peste de Marselha, como após o Terror, um
gozo selvagem de viver, uma orgia de herdeiros (Matteo Villani, apud Muratori, XIV, p. 15). O rei,
viúvo e livre, ia casar seu filho com sua prima Branca; mas, quando ele viu a jovem, a achou bela demais
para seu filho e a guardou para si (Matteo Villani, t. XIV, l. I, p. 35). Ele tinha cinquenta e oito anos, ela
dezoito. O filho casou-se com uma viúva que tinha apenas vinte e quatro, a herdeira de Boulogne e da
Auvérnia que, além disso, dava-lhe, com a tutela de seu filho pequeno, a administração das duas
Borgonhas. O reino sofria, mas se arredondava. O rei vinha de comprar Montpellier e o Delfinado (‘Hist.
de Langued’., l. XXX, c. 89; ‘Hist. du Dauphiné’, ‘Preuves’, c. 136, p. 346)). O neto do rei desposou a
filha do duque de Bourbon, o conde de Flandres aquela do duque de Brabant. Não havia outra coisa
senão bodas e festas.

Essas festas derivaram para um bizarro esplendor das novas modas que se haviam introduzido,
após alguns anos, na França e na Inglaterra. Os cortesãos, talvez para mais se distinguirem dos
Cavaleiros em Leis (chévaliers-ès-lois), dos homens de toga longa, tinham adotado vestes fechadas,
frequentemente bipartidas em duas cores; seus cabelos eram presos em cauda, sua barba cerrada, seus
monstruosos sapatos com polainas, cujas pontas subiam curvando-se, tudo dava a eles um ar bizarro,
alguma coisa do diabo ou do escorpião. As mulheres punham sobre suas cabeças uma mitra enorme, em
forma de cone, da qual tremulavam panos, como as flâmulas de um mastro. Elas não desejavam mais
palafréns, mas fogosos destriers[508]. Elas portavam duas adagas à cintura (Chaucer, 198. Gaguin, apud
Spouc. 488. Lingard, ann. 1350, t. IV, p. 106-7 da trad.). – A Igreja pregava em vão contra esses modos
orgulhosos e indecentes. O severo cronista a eles se refere de forma rude: “Eles se puseram a deixar a
barba longa e túnicas curtas, tão curtas que suas nádegas apareciam... O que causou entre o populacho um
escárnio não pequeno; eles ficaram, como os acontecimentos frequentemente provaram, ainda mais aptos
para fugir perante o inimigo” (“ad fugiendum coràm inimicis magis apti’; Contin. de G. de Nangis, p.
105).

Essas mudanças anunciavam outras. O mundo ia mudar de atores como de roupas. Essas
loucuras entre as desgraças, essas bodas precipitadas no dia seguinte ao da peste, deviam também ter
seus mortos. O velho Filipe de Valois não tardou a languescer perto de sua jovem rainha e deixou a coroa
a seu filho (1350).
Capítulo II


João. Batalha de Poitiers.
1350 a 1356.

--------------------

A peste de 1348 levou, entre outras personagens, o historiador Giovanni Villani e a bela Laura
de Sade, aquela que, viva ou morta, foi o objeto das canções de Petrarca[509].

Laura, filha de messire Audibert, síndico do burgo de Noves, próximo de Avignon, desposara
Hugo (Hugues) de Sade, originário de uma antiga família municipal desta cidade. Ela viveu
honradamente em Avignon com seu marido, do qual teve doze filhos. Esta união pura e fiel, esta bela
imagem da família ao meio de uma cidade tão desacreditada por seus costumes, foi, sem dúvida, o que
emocionou Petrarca. Foi no dia 6 de abril de 1327 que Laura apareceu pela primeira vez ao jovem
florentino exilado, uma sexta-feira da semana santa, numa igreja, cercada, como é provável, por seu
marido e seus filhos. Desde então, esta nobre imagem da jovem mulher ficou em seu espírito.

Que não nos seja reprovada como uma digressão o pouco que nos permitimos falar de uma
Francesa que inspirou uma tão durável paixão no maior poeta do século. A história dos costumes é
sobretudo aquela da mulher. Falamos de Heloísa e de Beatriz. Laura não é, como Heloísa, a mulher que
ama e que se entrega. Não é também a Beatriz (Béatrix) de Dante, na qual o ideal domina e que finda por
se confundir com a eterna beleza. Ela não morre jovem e não tem a gloriosa transfiguração da morte. Ela
cumpre todo o seu destino na terra. Foi esposa, mãe, envelheceu, sempre adorada[510]. Uma paixão tão
fiel e tão desinteressada, numa época de sensualidade grosseira, muito merecia permanecer entre as mais
tocantes lembranças do século XIV. Ama-se ver, nesses tempos de morte, uma alma viva, um amor
verdadeiro e puro que foi o bastante para uma inspiração de trinta anos. Rejuvenescemos ao ver esta bela
e imortal juventude de alma.

Ele a viu, pela última vez, em setembro de 1347. Foi no meio de um círculo de mulheres. Ela
estava séria e pensativa, sem pérolas, sem guirlandas. Tudo já estava pleno do terror do contágio. O
poeta, emocionado, retirou-se para não chorar... A notícia de sua morte chegou-lhe no ano seguinte, em
Verona. Aí, ele escreveu a emocionada nota que ainda se lê sobre seu Virgílio e observa que ela morreu
no mesmo mês, no mesmo dia e na mesma hora quando a viu trinta anos antes pela primeira vez[511].

O poeta vira morrer, em alguns anos, todas as suas esperanças, todos os sonhos de sua
vida[512]. Jovem, ele aguardara que a cristandade se reconciliasse e encontrasse a paz interior numa
bela guerra contra os infiéis. Ele escrevera a célebre canzone: O aspettata in ciel beata e bella[513]...
mas qual era o Papa que pregava a Cruzada? João XXII, o filho de um sapateiro de Cahors, advogado
antes de ser Papa, cahorsino[514] e ele mesmo usurário, que embolsava milhões e queimava aqueles que
falassem de amor puro e de pobreza.

A Itália, sobre a qual Petrarca pôs em seguida suas esperanças, não respondeu melhor. Os
príncipes lisonjeavam Petrarca, diziam-se seus amigos, mas nenhum o escutava. Quais amigos para o
crédulo poeta senão esses ferozes e ardilosos Visconti de Milão?... Nápoles valia mais, aparentemente. O
sábio rei Roberto quisera pessoalmente dar a Petrarca a coroa do Capitólio. Mas quando ele chegou em
Nápoles, Roberto não mais vivia. A rainha Joana (Joana I, neta de Roberto) sucedera a este[515]. O
poeta, mal tendo chegado, viu com horror os combates dos gladiadores renovados nesta corte por uma
nobre sanguinária[516]. Ele previu a catástrofe do jovem marido de Joana, estrangulado pouco após
pelos amantes de sua mulher. Ele mesmo escreveu de Nápoles: “Heu! fuge crudeles terras, fuge littus
avarum! (NT: Ai! Foge desta terra cruel, foge desta costa avara!).

No entanto, falava-se da restauração da liberdade romana pelo tribuno Rienzi. Petrarca não
duvidou em nada da reunião próxima da Itália, do mundo, sob o bom estado. Ele cantou adiantadamente
as virtudes do libertador e a glória da nova Roma. Todavia, Rienzi ameaçava de morte os amigos de
Petrarca, os Colonna. Ele recusou-se a acreditar nisto por muito tempo e escreveu ao tribuno uma carta
triste e inquieta, na qual rogava-lhe desmentir esses pérfidos rumores[517].

A queda do tribuno, tirando-lhe a esperança que a Itália pudesse ser erguer por si própria, ele
transportou seu fácil entusiasmo para o imperador Carlos IV que então entrava na Itália. Petrarca
encontrou-se sobre sua passagem e ofertou-lhe as medalhas de ouro de Trajano e de Augusto; ele o
admoestou a sempre se lembrar destes grandes imperadores. Esse novo Trajano, esse novo Augusto,
passara os Alpes com duzentos ou trezentos cavaleiros. Ele acabara de vender os direitos do Império na
Itália ao invés de sacrificá-los na Alemanha em sua bula de ouro. O pacífico e ecônomo imperador, com
seu cortejo mal ajambrado, era comparado pelos Italianos a um vendedor ambulante que vai à feira[518].

O triste Petrarca, tantas vezes enganado[519], refugiou-se cada vez mais na longínqua
antiguidade. Ele se pôs, já velho, a aprender a língua de Homero e a soletrar a Ilíada. Era preciso ver
quais foram seus transes quando, pela primeira vez, tocou o precioso manuscrito que não podia ler[520].

Ele assim errou, nos seus últimos anos, sobrevivendo, como Dante, à tudo o que amava. Não era
Dante mas, antes, sua sombra, mais pálida e mais suave, sempre conduzida por Virgílio, e para si fazendo
da poesia antiga seu Elísio. Por volta do fim, inquieto pelos preciosos manuscritos que arrastava consigo
para todos os lugares, ele os legou à república de Veneza e depositou seu Homero e seu Virgílio na
própria biblioteca de São Marco, atrás dos famosos cavalos de Corinto, onde foram encontrados
trezentos anos depois, meio enterrados na poeira. Veneza, este inviolável asilo no meio dos mares, era,
então, o único lugar seguro que a piedosa mão do poeta podia confiar, ao morrer, os deuses errantes da
antiguidade.

Quanto a ele, cumprido este dever, partiu para esquentar sua velhice ao sol de Arquà, onde
morreu em sua biblioteca, a cabeça sobre um livro[521].

Esses vãos lamentos, esta fidelidade obstinada ao passado que, durante toda a vida do poeta, fê-
lo perseguir as sombras, que fez com que depositasse uma crédula esperança no tribuno Rienzi, no
imperador, não foi um erro de Petrarca, mas de todo o seu século. A própria França, que parecia ter tão
violentamente rompido com a Idade Média pela imolação dos Templários e de Bonifácio, a ela retorna,
apesar de si mesma e após esse esforço, e nela se embota. A derrota dos exércitos feudais, a grande lição
de Crécy, que deveria fazê-la compreender que um outro mundo começara, não serviu senão para fazê-la
lamentar e sentir pela cavalaria. Os arqueiros ingleses não a instruíram suficientemente. Ela não entendeu
de forma alguma o gênio moderno que a fulminou em Crécy com a artilharia de Eduardo.

O filho de Filipe de Valois (VI da França), o rei João II, é o rei dos cavaleiros e dos nobres.
Mais cavaleiresco ainda e mais desastrado que seu pai, ele toma por modelo o cego João da Boêmia, que
combateu atado em Crécy. Não menos cego que seu modelo, o rei João, na batalha de Poitiers, desmontou
ao solo para aguardar os soldados a cavalo. Mas, ao contrário de João da Boêmia, ele não teve a
felicidade de ser morto.
Desde sua ascensão, João o Bom, para agradar aos nobres, ordenou uma suspensão do
pagamento das dívidas [Ord., II, p. 391 (30 de março 1351) e 447 (setembro)]. Ele criou para esses uma
nova ordem, a Ordem da Estrela (l’Ordre de l’Étoile), que assegurava um local de retiro para seus
membros: era como os Inválidos (les Invalides) da cavalaria. Já uma suntuosa casa começa a ser erguida
para este fim na planície de Saint-Denis. Ela não foi terminada[522]. Os membros desta Ordem faziam
juramento de não recuar senão quatro arpentes, se não fossem mortos ou aprisionados. De fato, eles
foram presos.

Este príncipe, tão cavaleiresco, começa brutalmente por matar, por uma suspeita, o condestável
d’Eu, principal conselheiro de seu pai. Ele joga tudo para um favorito, homem do sul, hábil e ávido,
Carlos da Espanha (Charles d’Espagne), por quem tinha um “amor desordenado”[523]. O favorito se faz
condestável e também se faz dar um condado que pertencia ao jovem rei de Navarra, Carlos II, de quem
João já havia anteriormente despojado a Champagne[524]. Carlos (o rei), descendente de uma filha de
Luís o Turbulento, acreditava-se, assim como Eduardo III, despojado da coroa da França. Ele assassinou
o favorito e desejou matar João. Este último o aprisionou e fez que lhe pedisse perdão de joelhos
(Froiss., append., t. III, c. 335, p. 427-489, e Secousse, ‘Hist. de Charles-le-Mauvais’, I, p. 35). Este
homem fletido será o demônio da França. Ele é cognominado o Mau. João mata o condestável, mata
d’Harcourt e outros também; mas é chamado de João o Bom.

O Bom quer aqui dizer “o confiante”, “o aturdido”, “o pródigo”. Nulo príncipe, de fato, até
então jamais desperdiçara tão nobremente o dinheiro do povo. Ele ia, como o homem de Rabelais,
comendo sua uva em botão, seu trigo em erva. Ele fazia dinheiro de tudo, destruindo o presente e
comprometendo o futuro. Dizia-se que ele previa não permanecer por muito tempo na França.

Sua grande fonte era a alteração das moedas[525]. Filipe o Belo, seus filhos e Filipe de Valois
tinham usado largamente desta forma de bancarrota. João fez com que fossem esquecidos, assim como
ultrapassou toda e qualquer bancarrota real ou nacional que pudesse um dia ocorrer. Acredita-se estar
sonhando quando se lê as bruscas e contraditórias Ordenações que este príncipe produziu em tão poucos
anos. É a lei em demência! Em sua ascensão, o marco de prata valia cinco libras e cinco soldos, no fim
do ano, valia onze libras. Em fevereiro de 1352, ele caíra para quatro libras e cinco soldos; um ano
depois, ele era cotado a doze libras. Em 1354, ele foi fixado em quatro libras e quatro soldos; em 1355,
ele já valia dezoito libras. Foi novamente baixado para cinco libras e cinco soldos, mas enfraqueceu-se
de tal forma a moeda, que o marco de prata subiu, em 1359, para a taxa de cento e duas libras[526].

Essas bancarrotas reais são, no fundo, aquelas dos nobres sobre os burgueses. Os senhores, os
nobres cavaleiros cercam o bom rei e tomam-lhe tudo o que ele toma aos outros. A só rainha Branca
obtivera para si o confisco dos Lombardos; ela perseguia, para benefício próprio, os devedores daqueles
por todo o reino[527].

A nobreza, começando a viver longe de seus castelos, permanecendo com grandes despesas
próxima ao rei, tornava-se cada dia mais ávida. Ela não desejava mais servir gratuitamente. Era
necessário pagá-la para combater, para defender suas próprias terras das devastações do Inglês. Esses
orgulhosos barões rebaixavam-se de bom grado à condição de mercenários, apareciam em suas fileiras
nas grandes exibições e revistas reais e estendiam a mão para o pagador[528]. No reinado de Filipe de
Valois, o cavaleiro se contentara com dez soldos por dia. Sob João, ele exigiu vinte e o senhor de brasão
obteve quarenta. Esta enorme despesa obrigou o rei João a convocar os Estados com mais frequência que
qualquer um de seus predecessores. Os nobres assim contribuíram, indireta e involuntariamente, para dar
uma importância toda nova aos Estados-Gerais, sobretudo ao terceiro-estado, à classe que pagava.
Já em 1343, a guerra forçara Filipe de Valois a pedir aos Estados um direito de quatro denários
por libra sobre as mercadorias, o qual devia ser percebido a cada venda. Não era somente um imposto,
mas uma intolerável vexação, uma guerra contra o comércio. O coletor acampava no mercado, espionava
mercadores e fregueses, enfiava a mão em todos os bolsos, exigia (como aconteceu no reinado de Carlos
VI) sua parte incidente sobre um soldo de erva. Este direito, que não é outro senão a alcabala espanhola,
então recentemente instituída por ocasião das guerras dos Mouros, matou a indústria da Espanha. Filipe
de Valois prometeu, em troca, cunhar boa moeda, como ao tempo de São Luís (‘Hist. de Languedoc’, l.
XXXI, c. 1, p. 249).

Novas necessidades, novas promessas. Na crise de 1346, o rei prometeu aos Estados do norte
restringir o direito de presa “às necessidades de sua hospedagem, de sua querida companheira a rainha e
de seus filhos”. Ele suprimiu os cargos de sargentos, aboliu a jurisdições opostas entre si, retirou as
cartas de mora pelas quais ele permitia aos senhores adiar o pagamento de seus débitos[529]. Os Estados
do sul concederam dez soldos por feudo contra a promessa que lhes fosse suprimida a gabela e o direito
(imposto) sobre as vendas (‘Hist. de Lang.’, l. XXXI, c. 17, p. 258).

Em 1351, João, pedindo aos Estados seu direito de coroação[530], mostrou-se fácil às suas
reclamações, ainda que diversas e contraditórias. Ele prometeu aos nobres Picardos tolerar as guerras
privadas (Ord., II, p. 395, 15º e 447-8), aos burgueses normandos proibi-las (Ord. II, p. 408, 27º). Uns e
outros concederam-lhe seis denários por libra sobre as vendas. Ele assegurou aos fabricantes de Troyes
o fabrico exclusivo de telhas estreitas ou couvre-chefs (Ord. II, p. 344), aos mestres dos ofícios de Paris
um regulamento que fixava os salários dos operários, elevados a um valor extravagante em virtude da
depopulação e da peste (Ord. II, p. 350). Os burgueses de Paris, consultados pessoalmente, e não por
deputados, em sua assembléia do parlatório dos burgueses, concederam-lhe a taxa das vendas[531]. Os
rei os chama ao parlatório; eles logo irão para aí sem ele.

Em 1346, o rei tinha prometido reformas; os Estados haviam acreditado e votado docilmente.
Tudo terminara em um dia. Em 1351, os nobres Picardos recusaram-se a deixar seus vassalos pagarem as
taxas se eles próprios não fossem delas isentos e se os vassalos do rei e dos príncipes não pagassem.

Em 1355, estando os Ingleses a devastarem o sul, o dinheiro era extremamente necessário. Os


estados do norte ou da língua d’Oil (langue d’Oil), convocados aos 30 de novembro, se mostraram
pouco dóceis. Era-lhes necessário prometer a abolição do furto direto, que se chamava direito de presa
(droit de prise) e do furto indireto, que se fazia sobre as moedas (Ord. III, p. 26-29). O rei declarou que
o novo imposto se estenderia a todos, clérigos e nobres; que ele mesmo o pagaria, assim como a rainha e
os príncipes.

Essas boas palavras não asseguraram os Estados. Eles não se fiaram na palavra real, nos
coletores reais, e quiseram, eles mesmos, cobrar por meio de coletores de sua própria escolha, receber a
prestação de contas, se reunir de novo no dia 1º de março e, depois, de novo, no dia de Santo André
(Ord. III, p. 22 e segs.; Froiss. III, c. 340, p. 450).

Votar e receber o imposto é reinar. Ninguém, então, sentiu toda consequência desta ousada
reclamação dos Estados, provavelmente nem o próprio Marcel, o famoso preboste dos mercadores, que
vemos à cabeça dos deputados das cidades[532].

A assembléia comprava esta monarquia pela concessão enorme de seis milhões de libras de
Paris (livre parisis) para custear o soldo de trinta mil soldados. Este dinheiro devia ser levantado por
meio de dois impostos, sobre o sal e sobre as vendas; pérfido imposto, sem dúvida, e que caía sobre o
pobre, mas qual outro imaginar numa necessidade tão premente, quando todo o sul estava em perigo?...

A Normandia, o Artois, a Picardia não mandaram representantes a esses Estados. Os Normandos


eram encorajados pelo rei de Navarra, pelo conde d’Harcourt e outros, que declararam que a gabela não
seria de forma alguma cobrada em suas terras: “Que não se encontraria, absolutamente, tão ousado
homem da parte do rei da França que a executasse, nem sargento que cobrasse multa, que não pagassem
de seu próprio corpo” (“Qu’il ne se trouveroit point si hardi homme de par le roi de France qui la dût
faire courir, ni sergent qui enlevât amende, qui le payât se son corps – Froiss. III, p. 125).

Os Estados recuaram. Eles suprimiram os dois impostos e os substituíram por um taxa sobre as
rendas: 5% sobre os mais pobres, 4% sobre os de posses médias e 2% sobre os ricos. Mais se tinha,
menos se pagava.

O rei, cruelmente ferido pela resistência do rei de Navarra e seus amigos, dissera “que jamais
teria perfeito contentamento tanto quanto estivessem vivos”. Ele partiu de Orléans com alguns cavaleiros,
cavalgaram trinta horas e os surpreendeu no castelo de Rouen, onde se encontravam à mesa. O delfim os
convidara. João mandou cortar a cabeça de d’Harcourt e de três outros; o rei de Navarra foi jogado na
prisão e ameaçado de morte. Espalhou-se o rumor que eles haviam encorajado o delfim a fugir para o
Imperador a fim de fazer a guerra ao rei seu pai (Froiss, III, addit, p. 131 e c. 341, p. 457. Secousse,
‘Preuves de l’Hist. de Charles-le-Mauvais’, II, p. 47).

A resistência aos impostos votados pelos Estados entregava o reino ao Inglês. O príncipe de
Gales passeava à vontade em nossas províncias do sul[533]. Bastava-lhe um pequeno exército,
composto, desta vez, por soldados e cavaleiros. A guera não era mais cavaleiresca. Eles queimavam,
destruíam como malfeitores que passam para não mais voltar. De início, eles correram o Languedoc,
região intacta que ainda não sofrera[534]. A província foi devastada, posta à saque, como a Normandia
em 1346. Eles levaram para Bordeaux cinco mil carroças cheias[535]. Depois, tendo colocado seu butim
em lugar seguro, eles retomaram metodicamente sua cruel viagem pelo Rouergue, pela Auvérnia e
Limousin, entrando em qualquer lugar sem desferir um só golpe, queimando e pilhando, sobrecarregados
como mascates, abarrotados dos frutos e dos vinhos da França. Então, eles desceram para o Berri e
correram as margens do Loire. Três cavaleiros, entretanto, que se tinham lançado no Romorantin com
apenas alguns homens, bastaram para pará-los. Eles ficaram completamente surpresos com esta
resistência inesperada. O Príncipe de Gales jurou forçar o lugar e aí perdeu vários dias[536].

O rei João, que começara a campanha na Normandia tomando as praças do rei de Navarra, pelas
quais este poderia introduzir o Inglês, finalmente veio à frente com um grande exército, tão numeroso
quanto nenhum outro que a França tenha perdido. Todo o campo estava coberto por seus batedores; os
Ingleses não encontravam mais do que viver. De resto, os dois inimigos não sabiam onde um e outro se
encontravam; João acreditava ter os Ingleses à frente e corria atrás deles mas, na verdade, ele os tinha
pela retaguarda. O Príncipe de Gales, tão mal informado quanto o rei, acreditava que os Franceses
estavam atrás de si (Froiss., c. 358, p. 174). Era a segunda vez, e não seria a última, que os Ingleses se
engajavam às cegas no país inimigo. A menos que ocorresse um milagre, eles estavam perdidos. E houve
um, graças à irreflexão de João.

O exército do Príncipe de Gales, metade inglês, metade gascão, era forte de dois mil guerreiros
(cavaleiros e infantes), quatro mil arqueiros e dois mil malfeitores contratados no Midi, tropas leves.
João estava à testa da grande barafunda feudal do grupo e do pós-grupo, que bem somava cinquenta mil
homens[537]. João se fazia acompanhar de seus quatro filhos, vinte e seis duques ou condes, cento e
quarenta senhores brasonados com seus pendões desfraldados; magnífico de ver, mas o exército valia
apenas isso.

Dois cardeais legados, um dos quais chamado Talleyrand, se interpuseram para impedir a
efusão do sangue cristão (Froiss., c. 352, p. 190). O Príncipe de Gales oferecia render tudo o que tomara,
lugares e homens, e jurar não servir contra a França por sete anos. João recusou, como era natural; teria
sido vergonhoso deixar esses pilhadores irem-se. Ele exigiu que, ao menos, o Príncipe de Gales se
rendessse com cem cavaleiros.

Os Ingleses tinham se fortificado na colina de Maupertuis, colina dura, plantada de vinhas,


fechada de sebes e moitas de espinhos[538]. O alto do aclive estava eriçado de arqueiros ingleses. Não
havia necessidade de atacar. Bastava mantê-los lá: a sede e a fome os teriam tornado fácil presa ao cabo
de dez dias. Mas João achou mais cavaleiresco forçar seu inimigo.

Não havia senão uma estreita senda para subir até os Ingleses. O rei da França nela empregou
cavaleiros. Foi mais ou menos como na batalha de Morgaten. Os arqueiros fizeram cair uma chuva de
flechas, crivaram os cavalos, os assustaram, os jogaram um sobre o outro[539]. Os Ingleses colheram
este momento para descer[540]. A confusão se espalhou no grande exército real. Três filhos do rei se
retiraram do campo de batalha, levando uma escolta de oitocentas lanças, por ordem de seu pai[541].

Mas o rei se mantinha firme. Ele empregara cavaleiros para forçar a montanha; com o mesmo
“bom senso”, ele deu ordem aos seus para desmontarem à terra a fim de combater os Ingleses que vinham
a cavalo[542]. A resistência de João foi tão funesta ao reino quanto a retirada de seus filhos. Seus
confrades da Ordem da Estrela foram, como ele, fiéis a seus votos e não recuaram: “E se combatiam por
tropas e por companhias, assim que se encontravam e recuavam”. Mas a multidão fugia na direção de
Poitiers que fechou seus portões. “Aussi y eut-il sur la chaussée et devant la porte si grand’horribleté
de gens occire, navrer et abattre, que merveille seroit à penser; et se rendoient les François de si loin
qu’ils pouvoient voir un Anglais” (Assim, houve sobre o rés-do-chão e à frente do portão um grande
horror de gente a morrer, a ferir e a abater, que seria espantoso de pensar; e rendiam-se os Franceses de
tão longe quanto pudessem ver um Inglês).

Entretanto, o campo de batalha ainda era disputado: “O rei João aí exibia, de sua mão, grandes
feitos d’armas, e empunhava o machado tão bem, que se defendia e combatia”. Em seus flancos, seu mais
jovem filho, que mereceu o cognome de “Ousado”, guiava sua coragem cega, gritando-lhe a cada novo
assalto: “Pai, protegei-vos à direita, guardai-vos à esquerda”. Mas o número de assaltantes redobrava,
todos acorriam na direção desta rica presa. “Para aí vieram tantos Ingleses e Gascões, de todas as partes,
que, por força, abriram e romperam a fileira que protegia o rei da França, e foram os Franceses tão
compactados entre seus inimigos, que bem havia cinco soldados contra um nobre cavaleiro”. Era em
volta do rei que se pressionava. “Pela cobiça de pegá-lo; e gritavam-lhe aqueles que o conheciam e que
mais perto dele estavam: ‘Rendei-vos, rendei-vos, ou sereis morto’. Lá se encontrava um cavaleiro da
nação de Saint-Omer, que se chamava Denys de Morbecque. Ele então avança entre a massa e, à força de
braços e corpo, pois era grande e forte, diz ao Rei, em bom francês: ‘Sire, Sire, rendei-vos’. O Rei, que
se viu em uma dura partida... e também que a defesa já não lhe valia nada, perguntou olhando para o
cavaleiro: ‘A quem render-me-ei?! a quem? Onde está meu primo, o Príncipe de Gales? Se eu o visse, eu
falaria’ – ‘Sire’, respondeu messire Denys, ele não está aqui, mas rendei-vos a mim e eu vos conduzirei a
ele’. – ‘Quem sois vós?’, perguntou o Rei. – ‘Sire, eu sou Denys de Morbecque, um cavaleiro do Artois,
mas sirvo o Rei da Inglaterra porque não posso viver no reino da França, tendo nele abandonado tudo o
que possuía’ – Então, respondeu o rei da França: ‘Rendo-me a vós’. E ele tirou e estendeu sua manopla
destra. O cavaleiro a pegou, ficando muito contente. Então, houve um grande tumulto e empurrões em
volta do Rei, pois cada um se esforçava em dizer ‘eu o peguei, eu o peguei’. E o Rei não podia ir adiante,
nem messire Filipe, seu jovem filho” (Froissart, III, c. 364, p. 232.

O Príncipe de Gales honrou esta fortuna inesperada que lhe pusera entre as mãos um tal prêmio.
Ele bem se precaveu de não tratar seu cativo como se não fosse o rei da França; efetivamente, foi para o
Príncipe a ocasião de tratar João como o verdadeiro rei da França e não simplesmente João de Valois,
como os Ingleses o chamavam até então. Era-lhe muito importante que João fosse realmente o rei para
que o próprio reino parecesse preso na figura de seu rei e se arruínasse para pagar seu resgate. Ele serviu
João à mesa após a batalha. Quando fez sua entrada em Londres, o Príncipe o colocou montado em um
grande cavalo branco (signo de suzerania), enquanto o seguia sobre uma pequena égua negra[543].

Os Ingleses foram também muito corteses com os outros prisioneiros. Estes eram o dobro do
número daqueles que os podiam guardar. Os Ingleses os dispensaram, em sua maior parte, contra a
palavra dada de os mesmos virem pagar-lhes, nas festas de Natal, os resgates enormes através dos quais
sua liberdade era previamente dada. Os Franceses eram por demais bons cavaleiros para com ela
faltarem. Nesta guerra entre cavaleiros, o pior que podia ocorrer ao vencido era tomar parte nas festas
dos vencedores, de com eles caçar, justar na Inglaterra, gozar ricamente da insolente cortesia dos
Ingleses[544]; nobre guerra, sem dúvida, que não esmagava senão o plebeu.


Capítulo III
(Sequência)

Estados-Gerais. Paris. Jaqueria.
1356 a 1364.

--------------------

Não havia grande coisa a esperar do delfim, nem de seus irmãos. O príncipe era fraco, pálido,
insignificante; ele não tinha senão dezenove anos. Não se o conhecia senão por ter convidado os amigos
do rei de Navarra para o funesto jantar de Rouen e dado, na batalha, o sinal do ‘salve-se quem puder’.

Mas a capital não tinha necessidade do delfim. Ela própria se pôs em defesa. O preboste dos
mercadores, Étienne Marcel, colocou ordem em tudo. Inicialmente, para prevenir as surpresas da noite,
forjou-se e estendeu-se correntes pelas ruas. Depois, encheu-se as muralhas de parapeitos[545] e neles
se pôs balistas e outras máquinas, além do que se possuía de canhões. Mas as velhas muralhas de Filipe
Augusto não continham mais Paris, que transbordara de todos os lados. Foram erguidas outras muralhas
que cobriam a Universidade e que, do outro lado, iam da igreja da Ave Maria à porta São Denis e daí ao
Louvre. Fixou-se sobre os reparos das muralhas setencentas e cinquenta guaritas. Todo este imenso
trabalho foi executado em três anos[546].

Eu não posso fazer que se compreenda a revolução que vai seguir e o papel que Paris nela
encenou sem dizer o que é Paris.

Paris tem por armas uma nau. Primitivamente, ela mesma era um barco, uma ilha que nada entre
o Sena e o Marne já reunidos, mas não misturados[547].

Ao sul, a cidade sábia. Ao norte, a cidade comerciante[548]. No centro a Cidade (Cité), a


catedral, o palácio, a autoridade.

Esta bela harmonia de uma Cidade que flutua entre duas cidades diversas que a abraçam
graciosamente, bastaria para fazer de Paris uma cidade única, a mais bela que jamais existiu. Roma,
Londres, nada têm de igual: elas foram lançadas sobre uma só margem de seus rios[549]. A forma de
Paris é não somente bela, mas verdadeiramente orgânica. A individualidade primitiva está na Cité, à qual
vieram se juntar as duas universalidades da ciência e do comércio, tudo constituindo o verdadeiro capital
da sociabilidade humana.

A autoridade, a Cité, era a ilha. Mas, sobre as duas margens, dois asilos abriam-se à
independência. A Universidade possuía sua jurisdição para os colegiais, o Templo a tinha para os
artesãos[550].

Quando Guilherme de Champeaux, derrotado por Abelardo nas escolas de Notre-Dame, foi se
refugiar na abadia de São Victor, o invencível argumentador aí o perseguiu e acampou na abadia de Santa
Genoveva[551]. Esta guerra, esta secessio sobre um outro Aventino, foi a fundação das escolas da
montanha[552]. Abelardo, cuja palavra bastava para criar uma cidadezinha no deserto (vide o Tomo II
desta História), foi assim um dos fundadores da nossa Paris meridional. A cidade erística nasceu da
disputa.

Ao poente, ela não podia se estender. Ela se chocava contra a imutável muralha de Saint-
Germain-des-Prés. A velha abadia, que vira a cidade pequenininha e que a ajudara a crescer, por esta
estava cercada, sitiada. Mas resistia. Esta cidade, nascida do Sena, pelo menos podia se esparramar para
a outra margem. Ela aí deitou seus mercados, seus açougues e abatedouros, seu cemitério dos Inocentes.
Mas, uma vez limitada deste lado, entre o Louvre[553] e o Templo, ela inflou, não podendo se alongar, e
ganhou este ventre que vai do Châtelet à porta Saint-Denis.

As jurisdições eclesiásticas, Notre-Dame, Saint-Germain, encontraram rudes e duros


adversários em nossos reis. Sabe-se que a própria rainha Branca forçou as prisões dos cônegos para
delas tirar os devedores destes (Félibien, p. 335). O primeiro preboste real (1032), um Estevão
(Étienne), tinha também querido forçar Saint-Germain, mas para daí surrupiar, numa necessidade do rei,
a rica cruz de Childeberto (ibidem, p. 132). Esses prebostes não eram fiéis senão ao rei, pelo que parece.
Um outro Estevão (Étienne Boileau), obteve o consentimento de São Luís para enforcar um ladrão na
sexta-feira santa. O preboste de Carlos V foi perseguido pelo clero como amigo dos Judeus.

A Universidade estava frequentemente em guerra com Notre-Dame e com Saint-Germain-des-


Prés. O rei a apoiava. Ele dava quase sempre razão aos escolares contra os burgueses, contra seu próprio
preboste. Este ordinariamente pagava uma reparação honorável por ter feito justiça[554]. O rei tinha
necessidade da Universidade, ele se apoiava de boa-vontade nesta grande força, sem desconfiar que, um
dia, a mesma poderia se voltar contra si. Filipe o Belo convocou ao Templo os mestres da Universidade
para que lhes fosse lida a acusação contra os Templários. Filipe o Longo, para escorar sua realeza
contestada, os fez assistir ao juramento que exigia da nobreza e obteve sua aprovação. A filha dos reis
aqui parece se portar como juiz dos reis. Filipe de Valois a fez julgadora do Papa. O Papa, que por muito
tempo apoiou a Universidade contra o bispo de Paris, foi por ela ameaçado de condenação (Rayn.,
Annal. Eccles. ann. 1331, par. 43). Em breve, o orgulho da Universidade será levado ao cúmulo pelo
cisma; nós a veremos escolher entre os Papas, governar Paris e reger o rei.

A só Universidade era um povo. Quando o reitor, à frente das faculdades, à frente das nações,
conduzia a Universidade à feira do Landit, entre Saint-Denis e La Chapelle, quando ia com os quatro
pergaminheiros da Universidade avaliar e julgar despoticamente os pergaminhos do subúrbio, os
burgueses orgulhosamente observavam que o reitor chegara na esplanada Saint-Denis quando a cauda da
procissão ainda estava nos Mathurins-Saint-Jacques[555].

Mas a Paris do norte era ainda mais povoada. Pode-se isto julgar pelas duas grandes revistas
que se fizeram no século XIV. A Universidade composta de padres, de colegiais, de estrangeiros, nelas
não figurava. No primeiro caso (1313), ordenada por Filipe o Belo para prestar honras a seu genro, o rei
da Inglaterra, estimou-se que havia vinte mil cavalos e trinta mil infantes (Chron. de saint Victor, p. 460).
Os Ingleses estavam estupefatos. Em 1383, os Parisienses, para receber Carlos VI que voltava de
Flandres, saíram do lado de Montmartre e se formaram para batalha. Havia vários corpos de exército, um
de arbaleteiros, um de paveschiens (carregadores de escudos), um outro armado de malhos que, só este,
contava com vinte mil homens (Froissart, t. VIII, p. 377).

Esta população não era apenas muito numerosa, mas muito inteligente, e bem acima da França de
então. Sem falar do contato desta grande universidade, o comércio, as finanças, os lombardos, devem ter
expandido as idéias. O parlamento, para onde eram levados os apelos de todas as justiças da França,
atraía a Paris um mundo de pleiteantes. A Câmara de Contas, este grande tribunal das finanças do reino, o
império da Galiléia, como então se chamava, não podia deixar de atrair muitas pessoas nesta época
fiscal[556]. Os burgueses ocupavam os maiores cargos. Barbet, mestre da cunhagem sob Filipe o Belo,
Poilvilain, tesoureiro do rei João, eram burgueses de Paris. O rei fazia gosto em exibir sua confiança na
boa cidade. Malgrado a revolta das moedas de 1306, ele próprio os chamara a seu jardim real, quando
da questão dos Templários (vide acima).

O chefe natural deste grande povo era, não o preboste real, magistrado de polícia, quase sempre
impopular, mas o preboste dos mercadores, presidente natural dos escabinos de Paris[557]. Os senhores,
na maioria prisioneiros, a ele não se apresentaram senão por meio de procuradores. Deu-se o mesmo
com os bispos. Toda a influência estava nas mãos dos deputados das cidades e sobretudo dos de Paris.
Na Ordenação de 1357, resultado memorável desses Estados, sente-se a verve revolucionária e, ao
mesmo tempo, o gênio administrativo da grande comuna. Não se pode explicar de outra forma a clareza, a
unidade de visões que caracterizam este ato. A França nada teria feito sem Paris.

Os Estados, reunidos inicialmente no Parlamento, depois nos Franciscanos, nomearam um


comitê de cinquenta pessoas para tomar conhecimento da situação do reino. Eles desejaram: “Também
saber, antes de tudo, o que se tornara o grande tesouro que se tinha cobrado no reino, nos tempos
passados, em dízimos, em maltôtes, em subsídios, e na cunhagem de moedas, e em todas as outras
exações, com os quais seus súditos tinham sido vexados e perseguidos, e os soldados mal pagos e o reino
mal guardado e defendido, mas que, a respeito do qual, ninguém sabia prestar contas”.

Tudo que se soube foi que tinha havido prodigalidades monstruosas, malversação, concussão. O
rei, no pior momento da desgraça pública, dera cinqüenta mil escudos a um só de seus cavaleiros
(Sismondi, X, 430). Dos oficiais reais, sequer um tinha as mãos limpas. Os comissários fizeram saber ao
delfim que, na audiência pública, a ele solicitariam processar seus oficiais, libertar o rei de Navarra e
permitir que trinta e seis deputados dos Estados, doze de cada classe, ajudassem a governar o reino
(Secousse, ‘Préf.’, pgs. 50-51).

O delfim, que não era rei, não podia dessa forma colocar a monarquia nas mãos dos Estados.
Ele adiou a audiência sob pretexto de cartas que teria recebido do rei e do imperador. Depois, ele
convidou os deputados a retornarem às suas ordens para ouvirem a opinião dos seus, enquanto ele
também consultaria seu pai[558].

Os Estados do Midi, reunidos em Toulouse, e tão próximos do perigo, mostraram-se mais


dóceis. Eles votaram dinheiro e tropas. Os Estados provinciais, aqueles da Auvérnia, por exemplo,
acordaram também, mas sempre reservando-se a administração daquilo que concediam (Secousse, ibid.,
p. 57). O delfim, durante este tempo, estava em Metz para receber seu tio, o imperador Carlos V; triste
delfim, triste imperador, que não podiam nada um pelo outro. De sua parte, a rainha-mãe ia à Dijon casar
seu pequeno duque da Borgonha, o qual tivera de um primeiro leito, com a pequena Margarida de
Flandres (Margarida III de Flandres). Esta viagem custosa tinha a vantagem longínqua de reunir
Flandres à França. E Paris? O que se tornava Paris, assim abandonada, sem rei, nem rainha, nem delfim?
A cidade via chegar, por todas as suas portas, os paisanos com suas famílias e suas pequenas bagagens;
depois, por longas filas lúgubres, os monges, os religiosos das redondezas. Todos esses fugitivos
contavam as coisas pavorosas que se passavam nos campos. Os senhores, os prisioneiros de Poitiers,
libertados sob palavra, retornavam às suas terras para rapidamente juntar seus resgates e arruinavam o
camponês. Além disso, vinham depois os soldados licenciados, pilhando, estuprando, matando. Eles
torturavam aquele que nada mais possuía para forçá-lo a ainda dar[559]. Era, em todo o campo, um
terror, como aquele dos esquentadores da Revolução[560].

Os Estados, tendo sido de novo reunidos em 05 de fevereiro de 1357, Marcel e Roberto le Coq,
bispo de Laon, a eles apresentaram o caderno de queixas (cahier des doléances) e deles obtiveram a
promessa de que cada deputado o divulgaria em sua província. Esta difusão, que ocorreu muito
rapidamente, apesar daquela época e sobretudo em virtude da estação (inverno), se fez em um mês. Aos
03 de março, o delfim recebeu as queixas. Estas foram-lhe apresentadas por Roberto le Coq, antigo
advogado de Paris, que fora sucessivamente conselheiro de Filipe de Valois, presidente do Parlamento, e
que, tendo-se feito bispo-duque de Laon, adquirira a independência dos grandes dignitários da Igreja. Le
Coq, ao mesmo tempo homem do rei e das comunas, ia de uns aos outros e aconselhava as duas partes.
Ele era comparado ao bisegre do carpinteiro (bis-acuta) que corta dos dois lados (Secousse, I, 111).
Após ter falado, o senhor de Péquigny pelos nobres, um advogado de Bàville pelas comunas e Marcel
pelos burgueses de Paris, declararam que concordavam com tudo o que ele vinha de dizer.

Esta crítica dos Estados era, ao mesmo tempo, uma arenga e um sermão. Aconselhava-se o
delfim, de início, a temer Deus, a honrá-Lo, assim como a seus ministros, a observar Seus Mandamentos.
Ele devia afastar os maus de perto de si, nada ordenar por intermédio dos jovens, simples e ignorantes.
Ele não podia duvidar, disseram-lhe, que os Estados não expressassem o pensamento do reino, visto que
os deputados eram perto de oitocentos e que haviam consultado suas províncias. Quanto ao que lhe fora
dito que os deputados pensavam em mandar matar os conselheiros do rei, era, asseguraram-lhe os
deputados, uma mentira, uma calúnia (manuscrito da Biblioteca Real, fundos Dupuy, nº 646 e Brienne,
nº 276).

Eles exigiam que, no interregno entre as assembléias, o rei governasse com a assistência de
trinta e seis eleitos dos Estados, doze de cada ordem. Outros eleitos deviam ser enviados para as
províncias com poderes quase ilimitados. Eles podiam punir sem forma de processo[561], tomar
empréstimos e constranger, instituir, pagar salários, castigar os agentes reais, reunir os Estados
provinciais, etc.

Os Estados concediam pagar trinta mil homens armados. Mas eles faziam com que o delfim
prometesse que a contribuição não seria levantada nem empregada por seus homens, mas por honestas
e sábias pessoas, leais e solváveis, nomeadas pelos três Estados[562]. Uma nova moeda devia ser feita,
mas conforme as instruções e os padrões que estão nas mãos do preboste dos mercadores de Paris.
Nula mudança nas moedas sem o consentimento dos Estados.

Nula trégua, nula convocação de pós-grupo, sem sua prévia autorização.

Todo homem na França será obrigado a se armar.

Os nobres não poderão deixar o reino sob qualquer pretexto. Eles suspenderão toda e qualquer
guerra privada: “Que se alguém fizer o contrário, que a justiça do lugar ou, se houver necessidade, que
essas boas e honestas pessoas da região, prendam tais guerreiros... e os constranjam sem demora, por
retenção de seu corpo e apreensão de seus bens, a fazerem a paz e a cessarem de guerrear” – Eis os
nobres submissos à vigilância das comunas.

O direito de presa cessa. Será lícito resistir aos procuradores e se reunir contra eles por grito
ou por badalada de campanário[563].

Proibição de doações em desfavor dos domínios reais. Toda doação é revogada, retroagindo até
Filipe o Belo. – O delfim promete mandar cessar toda despesa supérflua e voluptuária à sua volta. – Ele
mandará todos os seus oficiais jurarem nada pedir-lhe senão na presenção do Grão-Conselho.
Cada um se contentará com somente um ofício. – O número do pessoal empregado na justiça será
reduzido. – Os prebostados, viscondados, não mais serão outorgados. – Os prebostes etc. não poderão
ser designados para as regiões onde nasceram.

Proibição de julgamento “por comissão” (NT: arranjado). – Os criminosos não poderão


compor, “mas será feita plena justiça”.

Ainda que um dos principais redatores da Ordenação, Le Coq, seja um jurista, um presidente do
parlamento, os magistrados são aí tratados severamente. Proibe-se-lhes exercer o comércio[564]; proibe-
se-lhes as colusões com qualquer das partes, os extrapolamentos de suas jurisdições respectivas.
Reprova-se-lhes sua preguiça. Reduz-se seus salários em certos casos. As reformas são justas; mas a
linguagem é rude, o tom acre e hostil. É evidente, então, que o parlamento se recusasse a apoiar os
Estados e as comunas.

Os presidentes ou outros membros do parlamento designados para comissões de inquéritos não


receberão senão quarenta soldos por dia. “Vários se acostumaram a receber mui excessivo salário e a se
deslocarem a quatro ou cinco cavalos quando, se fossem às suas próprias expensas, bastar-lhes-ia
suficientemente irem a dois cavalos ou três”[565].

O Grão-Conselho, o Parlamento, a Câmara de Contas, são acusados de negligência.


“Julgamentos que deveriam ter sido proferidos há vinte anos, ainda aguardam sê-lo” (ibidem, Ord.
III). Os conselheiros chegam tarde, suas refeições são longas, suas pós-refeições “pouco aproveitáveis”:
os agentes da Câmara de Contas “jurarão pelos santos Evangelhos de Deus que bem e lealmente
resolverão, por ordem, as causas da boa gente, sem mantê-las esperando (“sans eux faire muser”). O Grande
Conselho, o Parlamento e a Câmara de Contas devem se reunir no sol levante[566]. Os membros do
Grão-Conselho que não chegarem de manhãzinha, perderão a jornada de salário. – Esses membros,
malgrado sua altíssima posição, são, como se vê, tratados sem muitas cerimônias pelos burgueses
legisladores.

Esta grande Ordenação de 1357, que o delfim foi obrigado a assinar, era muito mais que uma
reforma. Ela mudava de um golpe a forma de governar. Ela punha a administração nas mãos dos Estados,
substituía a Monarquia pela República. Ela dava o governo ao povo, quando ainda não havia um povo.
Constituir um novo governo, no meio de uma tal guerra, era uma operação singularmente perigosa, como
aquela de um exército que virasse ao contrário sua ordem de batalha na presença do inimigo. Podia-se
apostar que a França pereceria nesta reviravolta.

A Ordenação destruía os abusos. Mas a realeza de então não vivia senão de abusos. Matá-los
era matar o poder, dissolver o Estado, desarmar a França.

Na realidade, a França existia como pessoa política? podia-se supor que houvesse uma vontade
comum? O que se pode afirmar é que a autoridade ainda lhe aparecia inteira na realeza. Ela não aspirava
senão às reformas parciais. A Ordenação aprovada pelos Estados-Gerais não era, segundo toda
verossimilhança, senão a obra de uma comuna, de uma grande e inteligente comuna, que falava em nome
do reino, mas que o reino devia abandonar na ação.

Os nobres conselheiros do delfim, em seu ódio de nobres contra os burgueses, em seus ciúmes
provinciais contra Paris, empurravam seu senhor à resistência. No mês de de março, ele firmara a
Ordenação apresentada pelos Estados; aos 06 de abril, ele proibiu pagar a contribuição que os Estados
tinham votado. Aos 08, em virtude das representações do preboste dos mercadores, ele revogou a
proibição (Crônicas de Saint-Denis, folio 232, verso, col. 2 e folio 233). O jovem príncipe assim
flutuava entre dois impulsos, seguindo um hoje, amanhã o outro e, talvez, de boa-fé. Havia muito do que
se duvidar nesta crise obscura. Todo mundo duvidava, ninguém pagava. O delfim permanecia desarmado,
os Estados também. Não havia mais poder público, nem rei, nem delfim, nem Estados.

O reino, sem força, morrendo, por assim dizer, e perdendo consciência de si, jazia como um
cadáver. A gangrena nele estava, os vermes fervilhavam; os “vermes”, eu quero dizer os salteadores,
ingleses, navarrenses. Toda esta podridão isolava, destacava, um do outro, os membros do pobre corpo.
Falava-se do reino, mas não havia mais Estados verdadeiramente Gerais, nada de geral, nenhuma
comunicação, nenhuma estrada para chegar em algum lugar. As estradas eram verdadeiras “corta-
gargantas”. O campo um campo de batalha, a guerra em todos os cantos ao mesmo tempo, sem que se
pudesse distinguir o amigo do inimigo.

Nesta dissolução do reino, a comuna permanecia viva. Mas como viveria a comuna só e sem o
apoio do país que a circunda? Paris, não sabendo em quem se apoiar na sua angústia, acusava os Estados.
O delfim, encorajado, declarou que desejava governar, que doravante não teria mais tutor. Os
comissários dos Estados se separaram. Mas ele, o delfim, não ficou senão mais confuso. Ele tentou fazer
um pouco de dinheiro vendendo cargos e ofícios (Ord. III, 180), mas o dinheiro não veio. Ele saiu de
Paris: todo o campo estava em fogo. Não havia mais cidade ou aldeia na qual não se pudesse ser preso
ou raptado pelos salteadores. Ele retornou para se enfurnar em Paris e se remeter aos cuidados dos
Estados. Ele os convocou, no ano de 1357, para o dia 07 de novembro (Secousse, ‘Préf. des Ord.’ III, p.
70). Na noite do dia 08 para o 09, um amigo de Étienne Marcel, um Picardo, o senhor de Pecquigny,
sequestrou de um golpe, do forte onde estava aprisionado, Carlos o Mau de Navarra. Marcel, que sempre
via em volta do delfim uma turba ameaçadora de nobres, tinha necessidade de uma espada contra essa
gente de espada, de um príncipe de sangue contra o delfim. Os burgueses, mesmo em suas mais ousadas
tentativas de liberdade, amavam seguir um príncipe. Parecia também tão belo e cavaleiresco, quando a
cavalaria se conduzia tão mal, que os burgueses se encarregassem de reparar esta grande injustiça, de
remendar os erros do rei. A multidão, sempre fácil para as emoções generosas, acolheu o prisioneiro com
lágrimas de alegria. O retorno desse malvado homem, mas tão infeliz, parecia-lhes aquele da própria
justiça. Conduzido pelas comunas de Amiens, recebido em Saint-Denis pela massa dos burgueses que
para aí tinha antecipadamente se deslocado a fim de recebê-lo[567], ele chegou em Paris, de início fora
muros, em Saint-Germain-des-Prés. No dia depois do seguinte, ele pregou para o povo de Paris. Havia,
contra os muros da abadia, um púlpito ou tribuna donde os juízes presidiam os combates judiciários que
se faziam no Pré-aux-Clercs, limite das duas jurisdições. Foi daí que falou o rei de Navarra. O delfim, a
quem Carlos solicitara ingresso na cidade e que não ousara recusar, viera ouvi-lo, talvez na esperança de
que, em sua presença, ele falasse de menos. Mas a arenga não foi senão mais ousada e impetuosa. Ele
começou em latim e continuou em língua vulgar[568]. Ele falou às maravilhas. Diziam seus
contemporâneos que era ele era pequeno, vivo e de espírito sutil.

O texto do discurso, tirado, segundo o costume da época, das Santas Escrituras, prestava-se a
digressões patéticas: Justus dominus et dilexit justitias; vidit æquitatem vultus ejus (NT: “O Senhor é
justo e ama a justiça; os homens retos verão Sua face” – Salmos, 10:8). O rei de Navarra, dirigindo-se,
com uma insidiosa doçura, ao próprio delfim, tomava-o como testemunha das injúrias que lhe tinham sido
feitas. Tinha-se muito desconforto em desconfiar dele: não era ele Francês de pai e de mãe? não estava
ele mais próximo da coroa, na linha de sucessão, que o rei da Inglaterra que a reclamava? ele desejava
viver e morrer defendendo o reino da França... O discurso foi tão longo, que se havia ceado em Paris
quando terminou (Crônicas de Saint-Denis, folio 238, verso, col. 2). Mas, ainda que o burguês não goste
de perder a hora[569], isto não o fez menos favorável ao arengador. Foi a ele que deram o
dinheiro[570].

De Paris, ele foi a Rouen, onde expôs suas desgraças com a mesma facúndia[571]. Ele mandou
descer do patíbulo os corpos de seus amigos que tinham sido mortos no terrível jantar de Rouen[572], e
os seguiu à catedral, ao som de sinos e à luz dos círios. Era o dia dos Santos Inocentes (28 de dezembro);
ele discursou sobre este texto: “Os inocentes e os retos se têm unido a mim porque eu me agarrava a ti, ó
Senhor!”[573].

O delfim também pregava em Paris[574]. Ele discursava nos mercados, Marcel em Saint-
Jacques. Mas o primeiro não tinha a multidão. O povo não gostava da figura débil do jovem príncipe.
Muito sábio e sensato que pudesse ser, era um frio orador em comparação com o rei de Navarra.

A enfatuação de Paris por este último era estranha. O que pedia este príncipe tão popular? Que
se enfraquecesse ainda mais o reino, que se pusesse em suas mãos províncias inteiras, as províncias mais
vitais da monarquia, toda a Champagne e uma parte da Normandia, a fronteira inglesa, o Limousin, uma
enormidade de praças-fortes e de fortalezas. Colocar nossas melhores províncias em mãos tão suspeitas
seria perder com um rabisco de pena tanto quanto se havia perdido com a batalha de Poitiers.

Os burgueses de Paris imaginavam que se o rei de Navarra ficasse satisfeito, ele ia libertá-los
dos bandos dos malfeitores que esfaimavam a cidade e que se diziam Navarrenses. No fundo, eles não
eram nem pelo rei de Navarra, nem por ninguém. Quisesse ele ter convocado todos esses pilhadores, não
o conseguiria.

Entrementes, os burgueses, o preboste, a Universidade, cercavam, sitiavam, o delfim. Eles o


pressionavam para fazer justiça a este pobre rei de Navarra. Um jacobino, falando em nome da
Universidade, declarou-lhe que fora já decidido que o rei de Navarra, vindo fazer todos os seus pedidos,
o delfim deveria render-lhe suas (dele) fortalezas; que, quanto ao resto, a cidade e a Universidade
deliberariam. Um monge de Saint-Denis veio logo após o jacobino e exclamou: “Vós não dissestes tudo,
senhor! Dizei também que se monsenhor o duque ou o rei de Navarra não se ativer ao que se decidir, nós
nos declararemos contra ele” (Chron. de Saint-Denis, II, folio 243).

Não havia como dizer não. O delfim prometia graciosamente. Depois, mandava que os
comandantes e capitães respondessem que, tendo recebido as praças-fortes do rei, não poderiam entregá-
las por ordem do delfim.

O delfim, no meio de uma cidade inimiga, não tinha outra forma de obter algum dinheiro senão
por novas alterações das moedas (22 e 23 de janeiro, 07 de fevereiro de 1358 – Ord. III, p. 193 e segs.).
Os Estados, reunidos aos 11 de fevereiro, fizeram-lhe tomar o título de Regente do Reino (Ord. III, p.
212), sem dúvida a fim de autorizar tudo o que eles ordenariam em seu nome. Talvez, também, a
comissão dos trinta e seis, escolhida sob influência de Marcel, mas composta na maioria de nobres e de
eclesiásticos, desejasse dar força ao delfim contra os burgueses de Paris.

Um evento trágico levara aos píncaros a má-vontade dos burgueses. Um cambista, chamado
Perrin Macé, tendo vendido dois cavalos ao delfim e não tendo sido pago, parou, na rua Neuve-Saint-
Merry[575], Jean Baillet, tesoureiro das finanças. O tesoureiro recusava-se a pagar, sem dúvida sob
pretexto de direito de presa. Houve discussão, que foi crescendo. Perrin matou Baillet e se lançou para
dentro do quartier Saint-Jacques-la-Boucherie. Os homens do delfim, Roberto de Clermont, marechal da
França, João de Châlons e Guilherme Staise, preboste de Paris, para lá se dirigiram, forçaram o asilo,
arrastaram Perrin à prisão do Châtelet, cortaram-lhe o punho e o mandaram enforcar. O bispo reclamou
bem alto desta violação das imunidades eclesiásticas, obteve o corpo de Perrin e o enterrou
honestamente na igreja de Saint-Merri. Marcel assistiu ao serviço, enquanto o delfim seguia o enterro de
Baillet (Matt. Villani, l. VIII, c. 29, p. 484).

Uma colisão era iminente. Marcel, para encorajar os burgueses em virtude de seu número,
mandou que os mesmos vestissem capuzes azuis e vermelhos, nas cores da cidade[576]. Ele escreveu às
boas cidades para rogar-lhes usarem esses capuzes. Amiens e Laon não faltaram. Poucas das outras
cidades consentiram a fazer o mesmo.

No entanto, a desolação dos campos trazia e amontoava em Paris todo um povo de camponeses.
Os víveres se tornavam raros e caros. Os burgueses que tinham muitas pequenas propriedades na Ilha-da-
França, e que daí tiravam mil coisas que suavizavam suas vidas, ovos, manteiga, queijos, aves, não
recebiam mais nada. Eles acharam isto uma coisa dura demais[577]. Aos 22 de fevereiro, o delfim
baixou uma nova Ordenação para, ainda uma vez, alterar as moedas.

No dia seguinte, o preboste dos mercadores reuniu em armas, em Saint-Éloi, todos os corpos de
artífices e ofícios[578]. Às nove horas, esta multidão armada reconheceu, na rua, um dos conselheiros do
delfim, advogado no Parlamento, mestre Regnault Dacy, que retornava do Palácio para sua casa, perto de
Saint-Landry[579]. Eles começaram a correr contra ele, que se lançou para dentro da casa de um
confeiteiro e aí foi espancado até à morte, sem ter tido tempo de soltar sequer um grito. Neste ínterim, o
preboste, seguido de uma turba de capuzes vermelhos e azuis, entrou no palácio do delfim, subiu até seu
quarto e disse-lhe azedamente que ele deveria pôr ordem nos negócios do reino; que esse reino, devendo
um dia vir-lhe, cabia ao delfim protegê-lo das companhias de malfeitores que arruinavam o país. O
delfim, que estava com seus conselheiros ordinários, os marechais da Champagne e da Normandia,
respondeu com ousadia maior do que a de costume: “Eu o faria de boa-vontade, se tivesse como fazê-lo,
mas cabe àquele que tem os direitos e os benefícios ter também a guarda do reino” (Froiss. III, p. 288).
Houve ainda algumas palavras amargas e o preboste explodiu: “Monsenhor”, disse ele ao delfim, “não
vos espanteis com nada que ireis ver; é preciso que assim seja”. Então, virando-se na direção dos
homens de capuzes vermelhos e azuis, disse-lhes: “Fazei rápido aquilo porque viestes”[580]. No mesmo
instante, eles se lançaram sobre o marechal da Champagne e o mataram perto do leito do delfim. O
marechal da Normandia se refugiara num gabinete, mas eles o perseguiram e também o mataram. O
delfim se acreditava perdido; o sangue respingara sobre sua túnica (Froiss., Ibidem). Todos os seus
oficiais tinham fugido. “Salvai-me a vida”, ele pediu ao preboste. Marcel disse-lhe para nada temer. Ele
trocou de capuz com o príncipe, assim cobrindo-o com as cores da capital[581]. Durante todo o dia,
Marcel vestiu ousadamente o capuz do delfim. O povo o aguardava na praça da Grève[582]. Marcel
discursou de uma janela; disse que aqueles que haviam sido mortos eram traidores e perguntou ao povo
se este o apoiaria. Vários bradaram que apoiavam tudo o que ele fizera e a ele se votavam para a vida e
para a morte.

Marcel retornou ao palácio com uma multidão de cidadãos armados, a qual deixou no pátio. Ele
reencontrou o delfim totalmente abalado e aflito. “Não vos afligis, Monsenhor”, disse-lhe o preboste. “O
que se fez, foi para evitar o perigo maior e de acordo com a vontade do povo” (Chronique de Saint-
Denis, II, fº 244). Ele rogou-lhe tudo aprovar.

Fazia-se necessário que o delfim aprovasse, não podendo fazer melhor. Era-lhe também
necessário fazer bom semblante ao rei de Navarra, que entrou em Paris quatro dias depois. De bom ou
mau grado, Marcel e Le Coq os haviam reconciliado e os obrigavam a jantar juntos todos os dias.

Este retorno do rei de Navarra, quatro dias após o assassinato dos conselheiros do delfim, não
dava senão mui claramente o senso desta tragédia: ele podia entrar em Paris, pois Marcel fizera-lhe
praça livre pela morte de seus inimigos. Marcel penhorava-se desta forma terrível, unindo-se para
sempre ao rei de Navarra. Era evidente que tudo acabara entre Marcel e o delfim. Provavelmente, este
crime fora imposto ao preboste por Carlos o Mau, que não era propriamente um neófito dos assassinatos.
Marcel, tendo desta forma se entregue ao rei de Navarra, este, doravante, podia ver o que dele faria e se
havia mais vantagem em ajudá-lo ou vendê-lo[583].

Marcel acreditava ter ganho o rei de Navarra, mas perdeu os Estados. Quer dizer: que a
legalidade, violada por um crime, o abandonava para sempre. O que restava dos deputados da nobreza
deixou Paris, sem aguardar o término da sessão. Mesmo vários dos comissários dos Estados,
encarregados da representação do governo, não quiseram mais, no intervalo das sessões, governar e
abandonaram Marcel. Este, sem se desencorajar, os substituiu por burgueses de Paris[584]. Paris se
encarregava de governar a França, mas a França não quis.

A Picardia, que tão vivamente tomara partido libertando o rei da Navarra, foi a primeira a
recusar o envio de dinheiro a Paris (Secousse, ‘Hist. de Char. le Mauv., I, 140-1). Os Estados da
Champagne se reuniram e Marcel não foi forte o suficiente para impedir o delfim de ir. Desde então, ele
devia, cedo ou tarde, perecer. O poder real não precisava senão de uma presa para recolher tudo. O
delfim foi a esses Estados acompanhado de soldados de Marcel e, de início, ele não ousou dizer qualquer
coisa contra o que se passara em Paris. Mas os nobres da Champagne falaram. O conde de Braîne
perguntou-lhe se os marechais da Champagne e da Normandia tinham merecido a morte. O delfim
respondeu que sempre tinham bem e lealmente servido. Mesma cena em Compiègne, nos Estados do
Vermandois[585]. O delfim, repentinamente seguro, tomou para si a decisão de transferir para Compiègne
os Estados da língua d’Oil, que estavam convocados para o primeiro de maio em Paris (Secousse, Préf.
Ord. III, p. 79). Pouca gente foi. Era, todavia, uma representação tal e qual do reino contra Paris.

Os Estados prestaram homenagem às reformas da grande Ordenação, adotando-as em sua


maioria. A contribuição que votaram devia ser percebida pelos deputados dos Estados. Esta afetação de
popularidade assustou Marcel. Ele instou a Universidade a implorar a clemência do delfim pela capital.
Mas não havia mais paz possível. O príncipe insistia para que lhe entregassem dez ou doze dos mais
culpados. Ele se contentaria mesmo com cinco ou seis, assegurando que não os mataria[586].

Marcel não confiou. Ele finalizou prontamente as muralhas de Paris, sem poupar as casas dos
monges que tocavam o perímetro[587]. Ele se apoderou da torre do Louvre. Ele mandou gente à Avignon
para contratar malfeitores[588].

A nobreza e a comuna iam combater e se mediam quando um terceiro, a respeito de quem


ninguém pensara, se ergueu. Os sofrimentos do camponês tinham passado da medida; todos tinham batido
em cima, como sobre uma besta arriada sob o peso da carga. A besta reergueu-se enraivecida e mordeu.

Nós já o dissemos: nesta guerra cavaleiresca que os nobres da França e da Inglaterra se faziam
com armas corteses[589], não havia, no fundo, senão um inimigo, uma vítima dos males da guerra: era o
camponês. Antes da guerra, este se esgotara para fornecer às magnificências dos senhores, para pagar
essas belas armas, esses escudetes esmaltados, esses ricos estandartes que se tornaram prisioneiros em
Crécy e em Poitiers. Depois, quem ainda pagou o resgate? Foi, de novo, o camponês.

Os prisioneiros libertados sob palavra retornaram às suas terras para rapidamente juntar as
somas monstruosas que, no campo de batalha, haviam prometido sem regatear. Não se demorou muito
para inventariar os bens do camponês. Magro gado, miseráveis atrelagens, arados, charretes, charruas e
algumas ferragens de agricultura. De mobília, não havia nenhuma. Nula reserva, salvo um pouco de grão
para semear. Isto apresado e vendido, sobre o que o senhor poderia socorrer-se? o corpo, o couro do
pobre diabo. Dele tratava-se ainda de tirar alguma coisa. Aparentemente, o rústico tinha algum
esconderijo onde ele a enfurnava. Para fazê-lo dizer, o mesmo era violentamente trabalhado.
Esquentavam-se-lhe os pés. Não se poupava nem o ferro e nem o fogo.

Quase não há mais castelos; os éditos de Richelieu, os demolidores revolucionários,


trabalharam bem. Todavia, ainda agora, quando caminhamos sob as muralhas de Taillebourg (NT:
departamento Charente-Maritime) ou de Tancarville, quando, do fundo das Ardenas, na garganta de
Montcornet, miramos sobre nossas cabeças a oblíqua e opaca janela que nos observa passar, o coração
se aperta, nós sentimos alguma coisa dos sofrimentos daqueles que, durante tantos séculos, se esgotaram
ao pé dessas torres. Para isto, não há sequer necessidade de que tenhamos lido as antigas histórias. As
almas de nossos pais ainda vibram em nós pelas dores esquecidas, mais ou menos como o ferido sofre
pela mão que não mais possui.

Arruinado pelo seu senhor, o paisano não estava quite. Este foi o caráter atroz dessas guerras
dos Ingleses; enquanto, para o resgate, extorquiam o reino no atacado, eles o pilhavam no varejo.
Formou-se, por todo o reino, Companhias (quadrilhas) atribuídas aos Ingleses ou aos Navarrenses. O
galês Griffith desolava toda a região entre o Sena e o Loire, o inglês Knolles a Normandia. O primeiro
saqueou para si só Montargis, Étampes, Arpajon, Monthléry, mais de quinze cidades ou grandes burgos
(Froiss. III, ch. 384, p. 285-6). Alhures, era o inglês Audley, os alemães Albrecht e Frank Hennekin. Um
desses chefes, Arnaud de Cervoles, a quem se chamava Arcipestre porque, de fato, apesar de secular, ele
possuía um arciprestado, abandonou as províncias já pilhadas, cruzou toda a França até à Provença e
saqueou Salon e Saint-Maximin para assustar Avignon. O Papa, trêmulo, convidou o bandido, recebeu-o
como um filho da França (Froissart, III, c. 380, p. 284), fê-lo jantar consigo e deu-lhe quarenta mil
escudos, além da absolvição. Nem por isso, ao sair de Avignon, Cervole deixou de pilhar a cidade de
Aix, donde se foi para a Borgonha a fim de fazer o mesmo[590].

Esses chefes de bandos não eram, como se poderia acreditar, gente de nada, pequenos
salteadores, mas nobres, frequentemente senhores. O irmão do rei de Navarra pilhava como os outros.
Nos salvo-condutos que vendiam aos mercadores que abasteciam as cidades, eles isentavam
nominalmente as mercadorias destinadas apropriadamente aos nobres e os paramentos militares:
“Chapéus de castor, penas de avestruz e lâminas de espada” (Froissart, III, c. 396, 334).

Os cavaleiros do século XIV tinham uma outra missão além daquela dos romances: era esmagar
os fracos. O senhor de Auberchicourt roubava e matava ao acaso para se fazer bem merecer por sua
dama, Isabelle de Juliers, sobrinha da rainha da Inglaterra: “Pois ele era jovem e perdidamente
apaixonado”. Ele muito fazia para se tornar, no mínimo, conde da Champagne (Froissart, III, c. 411, p.
387). A dissolução da monarquia dava a esses pilhadores esperanças loucas. A coisa seria para quem
entrasse, por ardil ou por força, em algum castelo mal guardado. Os capitães das praças-fortes julgavam-
se livres de seus juramentos. Plus de roi, plus de foi (NT: Sem rei, sem fé. Sem rei, sem lei). Eles
vendiam, trocavam suas praças, suas guarnições (Froissart, III, c. 418, 399).
Esta vida de confusões e de aventuras, após tantos anos de obediência sob os reis, fazia a
alegria dos nobres. Era como uma escapada de colegais que não se preocupam com nada em suas
brincadeiras. Froissart, seu historiador, não se cansa de contar essas belas histórias. Ele se interessa por
esses pilhadores, toma parte em suas boas fortunas: “E sempre ganhavam, esses pobres malfeitores,
etc”[591]. Nunca chega a duvidar da lealdade dos mesmos. À pena preocupa-se com a saúde deles[592].

O pavor era tal em Paris, que os burgueses ofereceram à Notre-Dame uma vela que, segundo se
dizia, tinha o comprimento da torre da cidade (Crônicas de Saint-Denis, 237, vº, coluna 2). Não mais se
ousava soar os sinos nas igrejas, senão para o toque de recolher, de medo que os habitantes de sentinela
sobre as muralhas não ouvissem chegar o inimigo. Quão maior não era o terror nos campos! Os
camponeses não dormiam mais. Aqueles das margens do Loire passavam as noites nas ilhas ou nos
barcos ancorados no meio do rio. Na Picardia, as populações escavavam a terra e aí se refugiavam. Ao
longo do rio Somme, do Péronne ao seu delta, contava-se, ainda no último século (XVIII), trinta desses
subterrâneos[593]. É neles que se pode ter alguma impressão do horror dessa época. Eram longas
alamedas abobadadas de sete ou oito pés de largura, margeadas por vinte ou trinta câmaras com um poço
ao centro para se ter, ao mesmo tempo, ar e água. Em volta do poço, grandes câmaras para os animais. O
cuidado e a solidez que se observa nessas construções indica o suficiente que era uma das moradas
ordinárias da triste população desses tempos. As famílias nelas se enfurnavam ante a aproximação do
inimigo. As mulheres e as crianças aí mofavam por semanas, meses, enquanto os homens iam timidamente
subir ao campanário para ver se os soldados se distanciavam do campo.

Mas nem sempre se distanciavam rápido o bastante para que a pobre gente pudesse semear ou
colher. E era em vão que se refugiavam sob a terra: a fome aí os aguardava. Em Brie e no Beauvaisis
sobretudo, não havia mais nenhum recurso[594]. Tudo estava arruinado, destruído. Nada havia senão
dentro dos castelos. O camponês enraivecido de fome e de miséria forçou os castelos e trucidou os
nobres.

Estes últimos jamais teriam acreditado numa tal audácia! Eles tantas vezes riram quando se
tentava armar essas populações simples e dóceis para serem arrastadas à guerra! Por escárnio, chamava-
se o paisano de Jacques Bonhome, assim como chamamos Jeanjean aos nossos conscritos[595]. Quem
teria temido maltratar essa gentalha que portava armas de forma tão gauche? Era um ditado entre os
nobres: “Oignez vilain, il vous poindra; poignez vilain, il vous oindra” {Ungi (homenageai) o aldeão,
ele vos apunhalá; apunhalai o aldeão, ele vos ungirá (homenageará)}[596].

Os Jacques pagaram a seus senhores com um atraso de vários séculos. Foi uma vingança de
desesperados, de condenados. Deus parecia ter tão completamente abandonado esse mundo... Eles não
trucidavam apenas seus senhores, mas também tratavam de exterminar as famílias, degolando os jovens
herdeiros e matando a honra pelo estupro das damas[597]. Depois, esses selvagens se trajavam com
belas roupas, eles e suas mulheres se enfeitavam com os despojos ensanguentados.

Mas não eram de tal forma selvagens que não fossem com alguma espécie de ordem, sob
pendões e seguindo um capitão que era um dos seus, um ardiloso paisano que se chamava Guilhaume
Callet[598]: “E nessas assembléias, havia mais gente do campo, mas também havia ricos homens
burgueses e outros” (Crônicas de Saint-Denis, II, folio 249). – Froissart diz: “Quando se lhes perguntava
porque assim agiam, respondiam que não sabiam, mas que assim faziam por verem os outros fazerem; e
pensavam, desta forma, que devessem destruir todos os nobres e cavaleiros do mundo” (Froissart, III,
297).
Assim, os grandes e os nobres, todos se declararam contra eles sem distinção de partido. Carlos
o Mau os lisonjeou, convidou seus principais chefes[599] e, durante as negociações preliminares, deitou
a mão sobre os mesmos. Ele coroou o rei dos Jacques com um tripé de ferro em brasa[600] (‘Vita prima
Inn. VI’, apud Baluze. ‘Pap. Aven.’, I, 334). Em seguida, os surpreendeu perto de Montdidier e aí
produziu uma carnificina. Os nobres se sentiram seguros, tomaram as armas e se puseram a queimar e a
matar tudo, a torto e à direita, nos campos[601].

A guerra dos Jacques findara por ser um fato diversionário para aquela que ocorria em Paris.
Marcel tinha interesse em apoiar os Jacques. Era, entretanto, uma pavorosa aliança, esta com essas bestas
ferozes. As comunas hesitavam. Senlis e Meaux os receberam. Amiens enviou-lhes alguns homens, mas
logo os mandou retornar (Crônica publicada por Sauvage, p. 196-7). Marcel, que aproveitara a
sublevação para destruir várias fortalezas em volta de Paris, arriscou-se a enviar-lhes gente para ajudá-
los a tomar o Mercado de Meaux (NT: a fortaleza do Mercado de Meaux). De início, o preboste das
moedas conduziu-lhes quinhentos homens aos quais se juntaram trezentos outros sob o comando de um
vendedor parisiense de condimentos.

A duquesa d’Orléans, a duquesa da Normandia, uma multidão de nobres damas, de senhoritas e


de crianças haviam se lançado para dentro do Mercado de Meaux, cercado pelo rio Marne. Daí elas viam
e ouviam os Jacques que enchiam a cidade. Elas morriam de medo. De um momento a outro, elas podiam
ser forçadas, massacradas. Felizmente, veio-lhes um socorro inesperado. O conde de Foix e o captal de
Buch (este último a serviço dos Ingleses)[602] retornavam da cruzada da Prússia com alguns cavaleiros.
Em Châlons, tomaram conhecimento do perigo dessas damas e cavalgaram rapidamente na direção de
Meaux. Chegando no Mercado, “mandaram abrir o portão-levadiço e então se puseram à frente desses
bandidos enegrecidos e pequenos e mal-armados, e se lançaram contra estes com suas lanças e suas
espadas. Aqueles que estavam na frente, e que sentiam as pancadas, recuaram de terror e tombavam uns
sobre os outros. Então, os cavaleiros correram para fora das barreiras, os reuniram em grandes rebanhos
e os mataram como bestas e os enxotaram para fora da cidade. Eles puseram fim a mais de sete mil e
tocaram fogo na desordenada cidade de Meaux” (09 de junho de 1358 – Froissart, III, 299-302).

Em todos os cantos, os nobres deitaram a mão sobre os camponeses, sem procurar saber que
parte tomaram na Jaqueria. Disse um contemporâneo: “E fizeram tanto mal ao país, que não era
necessário que os Ingleses viessem para a destruição do reino. Eles jamais fariam o que fizeram os
nobres da França (Cont. de G. de Nangis, 119).

Os nobres desejavam tratar Senlis como Meaux. Eles se fizeram abrir os portões da cidade,
dizendo vir da parte do regente; depois, puseram-se a bradar: “Cidade tomada! Cidade ganha!”. Mas
encontraram todos os burgueses em armas e mesmo outros nobres que defendiam Senlis. Lançou-se sobre
eles, pela ladeira rápida da grande rua, charretes e carroças que os derrubaram. Água fervente chovia das
janelas. “Uns fugiram para Meaux para contar seu fracasso e se fazerem zombar; os outros, que restaram
mortos no local, não mais farão mal às pessoas de Senlis”[603].

É um prodígio que, no meio de toda esta devastação dos campos, Paris não tenha morrido de
fome. Isto faz grande honra à habilidade do preboste dos mercadores. Ele não podia alimentar por muito
tempo esta grande e devoradora cidade sem ter o campo a seu favor. Daí, portanto, a aparente
inconstância de sua conduta. Ele se aliou aos Jacques, depois ao rei de Navarra, destruidor dos Jacques.
A cavalaria deste príncipe era-lhe indispensável para manter algumas estradas livres enquanto o delfim
possuísse o rio. Ele fez que fosse outorgado a Carlos o Mau o título de capitão de Paris (15 de junho).
Mas o próprio príncipe não era livre. Ele foi abandonado por muitos de seus cavaleiros que não
desejavam servir a canalha contra as pessoas honestas. Durante este tempo, os próprios burgueses
também se viraram contra ele, odiando-o por ter destruído os Jacques, além de muito desconfiarem que
seu capitão não fizesse grande caso deles próprios.

Todavia, os víveres encareciam. O delfim, com três mil lanças, estava em Charenton e os
interceptava no Sena e no Marne. Os burgueses instaram o rei de Navarra a defendê-los, a sair, a enfim
fazer alguma coisa. Ele saiu, mas para negociar. Os dois príncipes tiveram uma longa e secreta entrevista
e se separaram como bons amigos. O rei de Navarra, tendo ainda ousado retornar a Paris, seus mais
determinados partidários e o próprio Marcel tiraram-lhe o título de capitão da cidade. Ele foi embora
reclamando muito. Navarrenses e burgueses se enfrentaram e houve alguns homens mortos.

A posição de Marcel se tornara perigosa. O delfim mantinha o alto Sena, Charenton, Saint-Maur;
o rei de Navarra tinha o baixo Sena e Saint-Denis. Ele batia todo o campo. Os suprimentos não
chegavam, era impossível. Paris ia ser asfixiada. O rei de Navarra, que bem via isto, se fazia regatear
pelos dois partidos. A delfina e muitas boas pessoas, quer dizer, os senhores, os bispos, se encontravam,
iam e vinham. Oferecia-se ao rei de Navarra quatrocentos mil florins, desde que entregasse Paris e
Marcel (Froissart, III, 306). O trato já estava assinado e uma missa dita, onde os dois príncipes deviam
comungar da mesma hóstia. O rei de Navarra declarou que não poderia, não estando em jejum (Secousse,
I, 276).

O delfim prometia-lhe dinheiro. Marcel o deu. Todas as semanas ele remetia a Carlos o Mau
duas cargas de dinheiro para pagar suas tropas. Ele não tinha esperança senão neste; Marcel ia vê-lo em
Saint-Denis; ele o conjurava a sempre se lembrar que foram as pessoas de Paris que o tinham tirado da
prisão e também matado seus inimigos. O rei de Navarra devolvia-lhe boas palavras e o encorajava “a
bem se prover de ouro e prata e enviá-los ousadamente a Saint-Denis; e que a respeito destes, ele
prestaria boa conta” (Froissart, III, 309).

Este rei dos bandidos certamente não podia e não queria impedi-los de pilhar. Os burgueses
viam seu dinheiro ir para os pilhadores e os víveres não chegarem. O preboste estava sempre na estrada
para Saint-Denis, sempre em negociações. Isto deu o que pensar aos burgueses. Desse tanto dinheiro que
Marcel levava, não guardaria ele uma boa parte? Já se havia confabulado sobre os salários que os
comissários dos Estados se haviam liberalmente atribuído[604].

Os Navarrenses, Ingleses e outros mercenários tinham, em sua maioria, seguido o rei de Navarra
em Saint-Denis. Outros permaneceram em Paris para devorar seu dinheiro. Os burgueses os viam com
péssimos olhos. Houve confrontos e matou-se mais de sessenta deles. Marcel, que não temia nada além
de se chocar contra o rei de Navarra, salvou os outros aprisionando-os e, naquela mesma tarde, os
despachou para Saint-Denis (‘Chronique de France’, cap. 88). Os burgueses não o perdoaram.

Mas os Navarrenses esticavam suas corridas até às portas de Paris; desta não se ousava mais
sair. Os Parisienses se irritaram; eles declararam ao preboste que desejavam castigar esses malfeitores.
Era necessário agradá-los, deixá-los sair para procurar os Navarrenses. Tendo corrido durante todo o dia
na direção de Saint-Cloud, os burgueses retornavam muito cansados (era o dia 22 de julho – NT: verão),
arrastando suas espadas, tendo se livrado de seus bacinetes[605], muito lamentando nada terem
encontrado quando, do fundo do caminho, encontram quatrocentos homens que se erguem e tombam sobre
eles. Eles fugiram a plenas pernas mas, antes de alcançarem as portas de Paris, setecentos morreram;
outros foram ainda mortos no dia seguinte, quando foram resgatar os corpos dos mortos na véspera. Este
fracasso findou por exasperá-los contra Marcel, a quem atribuíam a culpa. Diziam eles que Marcel
retornara antes e não os apoiara; provavelmente ele alertara os inimigos.

O preboste estava perdido. Seu único recurso era se entregar ao rei de Navarra, ele e Paris, e
também o reino, se pudesse. Carlos o Mau tocava o píncaro de sua ambição[606]. O mais sério
historiador dessa época, testemunha ocular de toda esta revolução, e de resto favorável a Marcel,
confessa que ele prometera ao rei de Navarra entregar-lhe as chaves de Paris para que se tornasse o
senhor da cidade e matasse aqueles que se lhe opunham. As portas destes estavam previamente
marcadas[607].

Na noite de 31 de julho para 1º de agosto de 1358, Étienne Marcel tentou entregar a cidade que
ele mesmo pusera em defesa, as muralhas que construira. Até este momento, parece que ele sempre
consultara os escabinos, mesmo a respeito da morte dos dois marechais. Mas, desta vez, ele via que os
outros não consideravam outra coisa senão salvar-se destruindo-o. Aquele dentre os escabinos com quem
mais contava, que mais se comprometera, que era seu compadre, Jean Maillart, procurara confrontá-lo
naquele mesmo dia. Maillart se entendeu com os chefes do partido do delfim, Pépin des Essarts e Jean de
Charny, e todos os três, com seus homens, se encontraram na bastilha Saint-Denis que Marcel devia
render. “E vieram um pouco antes da meia-noite... e encontraram o preboste dos mercadores, as chaves
da porta em suas mãos. O primeiro a falar foi Jean Maillart que lhe disse: ‘Étienne, Étienne, o que fazes
aqui a esta hora?’. O preboste respondeu: ‘Jean, por que perguntais? Estou aqui para tomar conta da
cidade da qual tenho o governo’. – ‘Por Deus’, respondeu Jean Maillart, ‘as coisas não são assim; mas
não estais aqui a esta hora para nada de bom’ e, virando-se para aqueles que o acompanhavam, ‘eu
mostrarei a vós como ele está com as chaves das portas em suas mãos para trair a cidade’. O preboste
dos mercadores avançou e disse: ‘Vós mentis!’. – ‘Por Deus’, respondeu Jean Maillart, ‘traidor, vós é
que mentis!’, e logo o feriu e disse à sua gente: ‘Morte, morte a todo homem de seu lado, pois são todos
traidores’. Houve, então, um grande e violento tumulto, e teria o preboste dos mercadores fugido se
pudesse; mas ele foi tão rápido quando podia. Pois Jean Maillart o ferira com um machado-de-guerra na
cabeça e o estirou à terra, ainda que fosse seu compadre, não tendo dali partido até que ele estivesse
morto e até que seis daqueles que lá estavam tivessem sido presos e mandados para a prisão” (Froissart,
III, 318-321).

Segundo uma versão mais verossímil, não foi Maillart, mas Jean de Charny que desferiu o
primeiro golpe (Ibidem).

Não obstante, os assassinos se foram, gritando pela cidade e acordando o povo. De manhã,
todos estavam reunidos no mercado, onde Maillart discursou. Ele narrou-lhes como, nesta mesma noite, a
cidade deveria ter sido corrida e destruída, se Deus não houvesse despertado a si e a seus amigos e não
lhes tivesse revelado a traição. A turba soube com comoção o perigo no qual se encontrava sem sabê-lo;
todos juntavam as mãos e agradeciam a Deus.

Tal foi a primeira impressão. Que não se acredite, todavia, que o povo tenha sido ingrato para
aquele que tanto fizera por si. O partido de Marcel, que contava com muitos homens instruídos e
eloquentes[608], sobreviveu a seu líder. Alguns meses depois, houve uma conspiração para vingar
Marcel (Trésor des Chartes, reg. 90, p. 382. Secousse, I, 403). O delfim mandou entregar à sua viúva
todos os móveis do preboste que não tinham sido dados ou perdidos no momento que se seguiu ao de sua
morte (Secousse, I, 314).

A carreira desse homem foi curta e terrível, cruelmente misturada do bem e do mal. Em 1356,
ele salva Paris e a põe em defesa. De concerto com Roberto Le Coq, ele dita ao delfim a famosa
Ordenação de 1357. Esta reforma do reino, pela influência de uma comuna, não se pôde fazer senão por
meios violentos. Marcel foi levado, de tanto em tanto, a uma pletora de atos irregulares e funestos. Ele
tira Carlos o Mau da prisão para opô-lo ao delfim, mas acaba por dar um chefe aos bandidos. Ele põe a
mão no delfim, mata-lhe seus conselheiros, os inimigos do rei de Navarra.

Abandonado pelos Estados, ele mata os Estados fazendo como bem deseja, criando deputados,
substituindo os deputados dos nobres por burgueses de Paris. Esta capital não podia ainda conduzir a
França, Marcel não possuía os recursos do Terror (de 1793); ele não podia sitiar Lyon[609], nem
guilhotinar a Gironda. A necessidade dos aprovisionamentos o punha na dependência do campo. Ele se
aliou aos Jacques e, tendo estes fracassado, ao rei de Navarra. Para aquele a quem se entregara por um
crime, ele tentou dar-lhe o reino: Marcel morreu como bem merecia.

A doutrina clássica do Salus Populi, do direito de matar os tiranos, fora atestada no começo do
século pelo rei contra o Papa (vide mais acima). Mal decorrido meio-século, Marcel a virou contra a
própria realeza, contra os servidores da monarquia. Vão e brutal empirismo que não conhece senão os
remédios heróicos, que crê tudo curar através do sangue derramado... É este meio eficaz, não importando
quem o empregue? O bem da maioria, a salvação do povo, não é uma desculpa. O povo, se puderdes
consultá-lo, dirá com o instinto divino que está na multidão: pereça antes o povo que a humanidade e a
justiça!... – Eu não sei se o sangue é uma roseira fecunda. Mas, ainda quando a árvore afogada de sangue
se tornasse mais forte e mais bela, quando lançasse ao longe seus galhos e ramos, quando com estes
cobrisse o mundo, ela porém não cobriria o assassínio...

Esta mancha sangrenta com a qual a memória de Étienne Marcel ficou marcada não pode nos
fazer esquecer que nossa velha carta é, em parte, sua obra. Ele devia perecer como amigo do Navarrense
cujo sucesso teria desmembrado a França; ele devia perecer como representante de Paris contra o reino e
como última figura do estreito patriotismo comunal; ele pereceu como tal mas, na Ordenação de 1357, ele
vive e viverá.

Esta Ordenação é o primeiro ato político da França, assim como a Jacqueria é o primeiro
ímpeto do povo dos campos. As reformas indicadas na Ordenação foram quase todas executadas por
nossos reis. A Jacqueria, iniciada contra os nobres, continuou contra o Inglês. A nacionalidade, o espírito
militar, nasceram pouco a pouco. O primeiro símbolo, talvez, desse novo espírito se encontra, a partir do
ano 1359, numa narrativa do Continuador de Guilherme de Nangis. Esta grave testemunha que anota, dia a
dia, tudo o que vê e ouve, sai de sua secura ordinária para contar, sempre em sua extensão, um desses
encontros onde o povo dos campos, abandonado a si mesmo, começou a se atrever contra o Inglês. Ele aí
faz um alto com complacência: “É”, ele diz ingenuamente, “que a coisa se passou perto da minha região e
ela foi realizada bravamente pelos paisanos, por Jacques Bonhomme”[610].

“Há uma razoável praça-forte na aldeiazinha perto de Compiègne, a qual depende do monastério
de Saint-Corneille. Os habitantes, vendo que haveria perigo para si, caso os Ingleses dela se
apoderassem, a ocuparam com a permissão do Regente e do abade e nela se estabeleceram com armas e
víveres. Outros, dos vilarejos vizinhos, para lá foram para ficarem em maior segurança. Eles juraram a
seu capitão defender este posto até à morte. Este capitão que se deram com o consentimento do
Regente[611], era um dos seus, um grande e belo homem a quem chamavam Guilherme das Cotovias
(Guillaume-aux-Alouettes)[612]. Ele tinha consigo, para servi-lo, um outro camponês de uma força de
braços incrível, de uma corpulência e de um tamanho enormes, cheio de vigor e de audácia, mas, apesar
desta grandeza de corpo, com uma humilde e pequena opinião de si próprio. Ele era chamado de O
Grande Ferrado ou Magno Ferrado (Le Grand Ferré, Magnus Ferratus)[613]. O capitão o mantinha
perto de si, como sob seu freio, para soltá-lo de propósito[614]. Eles então lá se posicionaram, duzentas
pessoas, todas lavradoras ou que ganhavam humildemente suas vidas pelo trabalho de suas mãos[615].
Os Ingleses, que acampavam em Creil, não deram muita atenção e logo disseram: ‘Expulsemos esses
paisanos; a praça é forte e boa de tomar’. Ninguém os percebeu se aproximarem e, encontrando os
portões abertos, entraram audaciosamente. Aqueles de dentro, que estavam às janelas, primeiro ficaram
surpresos em ver esse pessoal armado. O capitão foi logo cercado e mortalmente ferido. Então, o Grande
Ferrado e os outros disseram: ‘Desçamos, vendamos caro nossas vidas; não há misericórdia a esperar’.
Eles de fato desceram, saíram por várias portas e se puseram a golpear os Ingleses como se batessem seu
trigo na eira[616]; os braços se erguiam e desciam e cada golpe era mortal. O Grande, vendo seu senhor
e capitão (Magistrum et Capitaneum) ferido de morte, soltou um profundo gemido, depois se colocou
entre os Ingleses e os seus, os quais igualmente ultrapassava a altura pelos ombros, manejando um pesado
machado-de-guerra, golpeando e repetindo o golpe tão bem, que ele fez terra arrasada; ele não golpeava
um que não fendesse o capacete ou não decepasse o braço. Eis que todos os Ingleses se puseram a fugir,
vários saltando para dentro do fosso, onde se afogavam. O Grande matou o porta-bandeira e disse a um
de seus camaradas para levar o pendão inglês para o fosso. Outro, mostrando-lhe que ainda havia vários
inimigos entre eles e o fosso, o Grande disse: ‘Sigam-me’. E ele se pôs a caminhar à frente, movendo o
machado à direita e à esquerda, até que a bandeira tivesse sido jogada n’água... Ele matara, neste dia,
mais de quarenta homens[617]... Quanto ao capitão Guilherme das Cotovias, ele morreu de seus
ferimentos e eles o enterraram com muitas lágrimas, pois era bom e sábio[618].... Os Ingleses foram
ainda uma outra vez batidos pelo Grande. Mas, desta vez, fora-muralhas[619]. Vários nobres Ingleses
foram presos, que dariam bons resgates, se tivessem sido postos a resgate, como fazem os nobres[620];
mas eles foram mortos a fim de que não causassem mais mal. Desta vez, O Grande, fervendo após este
trabalho, bebeu água fria em quantidade e foi colhido pela febre. Ele se foi para sua aldeia, tornou a
ganhar sua cabana e se pôs à cama, não, todavia, sem guardar perto de si seu machado de ferro[621], que
um homem comum à pena podia erguer. Os Ingleses, tendo tomado conhecimento que ele estava doente,
despacharam doze homens para matá-lo. Sua mulher os viu chegar e começou a choramingar: ‘O mon
pauvre Le Grand, voilà les Anglais, que faire?’ (Oh, meu pobre Grande, eis os Ingleses, que fazer?)...
Ele, esquecendo no mesmo instante sua doença, se ergueu, pegou seu machado e saiu para o patiozinho:
‘Ah, bandidos! Viestes então para me pegar na cama; vós não me pegareis tampouco’[622]... Então,
encostando-se na parede, ele matou cinco em um instante; os outros fugiram. O Grande voltou para sua
cama, mas ele estava muito quente e bebeu um pouco mais de água fria; a febre voltou mais forte e, ao
cabo de alguns dias, tendo recebido os sacramentos da igreja, saiu do século e foi enterrado no cemitério
de sua aldeia. Ele foi chorado por todos os seus companheiros, por toda a região; pois, ele vivente,
jamais os Ingleses viriam”[623].

É difícil não se emocionar com este ingênuo texto. Esses paisanos, que não se colocam em
defesa senão após pedirem permissão, este homem forte e humilde, este bom gigante que obedece com
prazer, tal como o São Cristóvão da lenda, tudo isto apresenta uma bela imagem do povo. Este povo é
visivelmente simples e ainda bruto, impetuoso, cego, semi-homem e semi-touro... Ele não sabe nem
guardar suas portas, nem proteger a si mesmo de seus próprios apetites. Quando bateu o inimigo como o
trigo na fazenda, quando suficientemente carpinteirou com seu machado e que ficou febril com sua tarefa,
o bom trabalhador bebe a água fria e se deita para morrer. Paciência: sob a violenta educação das
guerras, sob a verga dos Ingleses, o bruto vai se fazer homem. Repentinamente cerrado de forma estreita
e como atenazado, o bruto escapará, cessando de ser ele próprio; e, transfigurando-se, Jacques se tornará
Jeanne, Joana a virgem, a Pucelle (Donzela).

A expressão vulgar un bon Français (um bom Francês) data da época dos Jacques e de
Marcel[624]. A Donzela não tardará a dizer: “Le cœur me saigne quand je vois le sang d’un François”
(“O coração me sangra quando vejo o sangue de um Francês”).

Uma tal expressão bastaria para marcar, na história, o verdadeiro começo da França. Desde
então, temos uma pátria. São Franceses esses camponeses – não enrubescei – é já o povo Francês, sois
vós ó França. Que a história os mostre a vós belos ou feios, sob o capuz de Marcel, sob a jaqueta dos
Jacques, vós não deveis deixar de reconhecê-los. Por nós, entre todos os combates dos nobres, através
dos lindos golpes de lança com os quais se diverte Froissart, nós procuraremos esse povo pobre. Nós
iremos recolhê-lo nesta grande confusão sob as esporas dos cavaleiros, sob o ventre dos cavalos.
Imundo, desfigurado, nós o conduziremos tal e qual ao dia da justiça e da história, a fim de que a ele
possamos dizer, a este velho povo do século XIV: “Sois meu pai e minha mãe. Vós me concebestes nas
lágrimas. Suastes suor e sangue para me fazer uma França. Abençoados sede vós em vossos túmulos. Que
Deus me guarde de jamais vos renegar!”

Quando o delfim, apoiado pelo assassino, retornou a Paris, houve, como sempre em
circunstâncias parelhas, brados e aclamações. Aqueles que pela manhã tinham se armado por Marcel,
escondiam seus capuzes vermelhos e bradavam mais alto que os outros[625].

Apesar de todo esse barulho, não havia muita gente que tivesse confiança no delfim. Sua longa
silhueta magra, sua face pálida e seu semblante comprido[626] jamais haviam agradado ao povo. Dele
não se esperava nem grande bem, nem grande mal; houve, entretanto, algumas perseguições em seu nome
contra o partido de Marcel. Por si, ele não amava e nem odiava ninguém. Não era fácil emocioná-lo. No
momento mesmo de seu retorno, um burguês avançou ousadamente e disse alto: “Por Deus, Sire, se em
mim acreditassem, vós não voltaríeis; mas pouco será feito por vós”. O conde de Tancarville quis matar
o citadino, mas o príncipe o segurou e respondeu: “Ninguém acreditará em vós, senhor”.

A situação de Paris não era melhor. O delfim nada podia. O rei de Navarra ocupava o Sena,
abaixo e acima. Não vinha mais lenha da Borgonha, nem nada de Rouen. Apenas se conseguia
aquecimento cortando-se as árvores[627]. O sesteiro de trigo, que se entregava ordinariamente por doze
soldos, conta o cronista, agora se vende por trinta libras ou mais[628]. – A primavera foi bela e suave:
nova dor para tantas pobres pessoas dos campos que estavam trancadas em Paris e que não podiam
cultivar seus campos, nem talhar suas vinhas[629].

Não havia como sair. Os Ingleses e os Navarrenses corriam o país. Os primeiros tinham se
estabelecido em Creil, o que os tornava senhores do Oise. Eles tomavam os fortes em todos os lugares,
sem se importar com as tréguas. Os Picardos tentavam resistir-lhes. Mas aqueles da Turânia, do Anjou e
do Poitou compravam dos Ingleses salvo-condutos, pagavam-lhes tributos[630].

O rei de Navarra, vendo os Ingleses se fixarem assim, no coração do reino, findou por se sentir
mais temeroso que o próprio delfim. Ele fez a paz com este, sem estipular qualquer vantagem, e prometeu
ser bon Français[631]. Os Navarrenses nem por isso deixaram menos de extorquir os barcos no alto
Sena. Todavia, esta reconciliação do delfim e do rei de Navarra deu o que pensar aos Ingleses. Ao
mesmo tempo, os Normandos, os Picardos e os Flamengos fizeram juntos uma expedição para libertar,
diziam eles, o rei João[632]. Eles se contentaram em queimar uma cidade inglesa. Ao menos os Ingleses
também souberam quais eram os males da guerra.

As condições que eles desejavam inicialmente impor à França eram monstruosas, inexequíveis.
Eles exigiam não somente tudo que está em face deles, Calais, Montreuil, Boulogne-sur-Mer, o Ponthieu,
não somente a Aquitânia (Guiana, Bigorre, Agenês, Quercy, Périgord, Limousin, Poitou, Saintonge,
Aunis), mas também a Turânia, o Anjou e, a mais, a Normandia; quer dizer, não lhes bastava ocupar o
estreito, fechar o Garonne; eles também desejavam fechar o Loire e o Sena, arrolhar a menor luz com a
qual vemos o Oceano, vazar os olhos da França.

O rei João assinara tudo e prometera, além disso, quatro milhões de escudos por seu resgate. O
delfim, que não podia se despojar assim, mandou o tratado ser recusado por uma assembléia de
deputados provinciais à qual chamou de Estados Gerais. Eles responderam: “Que o rei João ainda
permanecesse na Inglaterra e que, quando agradesse a Deus, Ele provesse o remédio” (Froissart, cap.
419, p. 404).

O rei da Inglaterra se pôs em campanha, mas, desta vez, para conquistar a França. Ele
inicialmente desejou partir para Reims e aí se fazer sagrar[633]. Tudo o que havia de nobreza na
Inglaterra o seguira nesta expedição. Um outro exército o aguardava em Calais, com o qual ele não
contava. Uma turba de cavaleiros e de senhores da Alemanha e dos Países-Baixos, ouvindo dizer que se
tratava de uma conquista e esperando uma partilha, como aquela da Inglaterra pelos companheiros de
Guilherme o Conquistador, quisera também participar da festa. Eles já acreditavam “tanto ganhar que
jamais seriam pobres” (Froiss. cap. 420, p. 406). Eles aguardaram Eduardo III até o dia 28 de outubro e
este teve um grande trabalho para deles se livrar. Foi necessário que ele os ajudasse a voltar para casa,
que lhes emprestasse dinheiro a fundo perdido[634].

Eduardo trouxera consigo seis mil cavaleiros cobertos de aço, seu filho, seus três irmãos, seus
príncipes, seus grandes senhores. Era como uma emigração dos Ingleses para a França. Para fazer a
guerra confortavelmente, eles arrastavam seis mil carroças, fornos, moinhos, forjas, toda a sorte de
oficinas ambulantes. Eles tinham levado a precaução ao ponto de se munirem de matilhas para caçar e de
botes de couro para pescar na Quaresma (Froiss., IV, c. 441, p. 39). Em efeito, não havia nada a esperar
do país, que era um deserto; já há três anos não mais se semeava (Ibid, c. 431, p. 10). As cidades bem
fechadas protegiam a si mesmas; elas sabiam que não havia perdão a aguardar dos Ingleses.

Dos 28 aos 30 de novembro (1360), eles caminharam através da chuva e da lama, de Calais a
Reims. Eles haviam contado com os vinhos. Mas chovia demais e a vindima não valia nada (Ibid., p. 11).
Eles permaneceram sete semanas a mofar perante Reims, destruíram toda a região em volta, mas Reims
não se mexeu. Daí passaram à frente de Châlons, Bar-le-Duc, Troyes; depois entraram no ducado da
Borgonha. O duque se compôs com eles por duzentos mil escudos de ouro[635]. Foi um bom negócio
para o Inglês que, de outra forma, nada teria tirado de toda esta grande expedição.

Ele veio acampar pertinho de Paris, celebrou a Páscoa em Chanteloup, e se aproximou até
Bourg-la-Reine. Disse a testemunha ocular: “Do Sena até Étampes, não há mais um só homem ou
mulher[636]. Tudo se refugiou nos três subúrbios de Saint-Germain, Saint-Marcel e Notre-Dame-des-
Champs... Montlhéry e Longjumeau estão em fogo... Distingue-se, em todas as redondezas, a fumaça dos
vilarejos que sobe até o céu... No santo dia da Páscoa, vi, nos Carmelitas, os padres de dez comunas
oficiarem... No dia seguinte, foi dada a ordem de queimar os três subúrbios e permitido a qualquer
homem aí pegar o que pudesse, lenha, ferro, telhas e o resto. Não faltou gente para fazê-lo bem rápido.
Uns choravam, outros riam... – Perto de Chanteloup, mil e duzentas pessoas, homens, mulheres e crianças
tinham se trancado numa igreja. O capitão, temendo que não se rendessem, mandou tocar fogo... Toda a
igreja ardeu. Não se salvaram senão trezentas pessoas. Aqueles que saltavam pelas janelas, encontravam,
em baixo, os Ingleses, que os matavam e deles escarneciam para irem se queimar por si sós. Soube deste
lamentável acontecimento por um homem que escapara pela vontade de Nosso Senhor e que agradecia a
Deus” (Contin. de G. de Nangis, p. 126-7).

O rei da Inglaterra não ousou atacar Paris[637]. Ele se foi na direção do Loire, sem ter podido
combater ou conquistar qualquer lugar. Ele consolava os seus prometendo reconduzi-los a Paris na época
da colheita das vinhas. Mas eles estavam exaustos desta longa campanha de inverno. Chegando perto de
Chartres, eles aí saborearam uma terrível tempestade que levou sua paciência ao limite[638]. Conta-se
que Eduardo aí prometeu restaurar a paz entre os dois povos. O Papa suplicava-o fazê-la. Os nobres da
França, não recebendo mais nada de suas rendas, imploravam ao regente negociar a qualquer preço. O rei
João, sem dúvida, também pressionava seu filho. Nas conferências de Bretigny, abertas no 1º de maio, os
Ingleses primeiro exigiram todo o reino; depois, tudo o que os Plantagenetas possuíram (Aquitânia,
Normandia, Maine, Anjou, Turânia). Por fim, eles cederam quanto a estas últimas quatro províncias. Mas
tiveram a Aquitânia como livre soberania, e não mais como feudo. Sob o mesmo título, eles adquiriram
os territórios que circundavam Calais, ou seja, os condados de Ponthieu e de Guines e o viscondado de
Montreuil. O rei pagava o enorme resgate de três milhões de escudos d’ouro, adiantando seiscentos mil
escudos para os quatro primeiros meses, antes de sair de Calais, e quatrocentos mil por ano, nos seis
anos seguintes. A Inglaterra, após ter matado e desmembrado a França, continuava a pesar nas costas, de
sorte que, se ainda restasse um pouco de vida e de tutano, ela ainda pudesse sugá-los.

Este deplorável tratado provocou uma louca alegria em Paris. Os Ingleses que o trouxeram para
fazê-lo ser jurado pelo delfim foram acolhidos como anjos de Deus. Foi-lhes dado de presente o que se
tinha de mais precioso, os espinhos da coroa do Salvador que se guardava na Santa Capela. O sábio
cronista do tempo cede aqui ao arrebatamento geral: “Ao se aproximar a Ascensão, no tempo onde o
Salvador, tendo entregue a paz entre Seu Pai e o gênero humano, subiu ao céu no jubileu, Ele não sofreu
que o povo da França permanecesse aflito... As conferências começaram no domingo, quando se canta na
igreja Cantate. No domingo em que se canta Vocem jucunditatis (NT: Voz de júbilo), o Regente e os
Ingleses foram jurar o tratado em Notre-Dame. Foi uma alegria inefável para o povo. Nesta igreja, e em
todas as aquelas de Paris, todos os sinos postos para soar murmuraram em piedosa harmonia; o clero
cantava, com todo o júbilo e devoção, Te Deum laudamus (NT: Louvamos-te Deus)... Todos se
regozijavam, exceto, talvez, aqueles que tinham feito grandes ganhos nas guerras, por exemplo, os
armeiros... Os falsos traidores, os malfeitores temiam o cadafalso. Mas destes, não falemos mais”
(Contin. de Guil. de Nangis, p. 127/128).

A alegria não durou muito. Esta paz, tão almejada, fez toda a França chorar. As províncias que
eram cedidas não desejavam se tornar inglesas. Que a administração dos Ingleses fosse pior ou melhor,
sua insuportável arrogância os fazia serem detestados em todos os lugares. Os condes de Périgord, de
Comminges, de Armagnac, o senhor d’Albret e muitos outros diziam, com razão, que o senhor não tinha o
direito de dar seus vassalos. La Rochelle, tanto mais francesa quanto Bordeaux era inglesa, suplicou ao
rei, em nome de Deus, não abandoná-la. Os Rochelenses diziam que prefeririam ter cortados, todos os
anos, metade de seus haveres e, ainda, “nós nos submeteremos aos Ingleses de lábios, mas jamais de
coração”[639].

Aqueles que permaneciam Franceses não eram senão miseráveis. A França se tornara uma
fazenda da Inglaterra. Trabalhava-se apenas para pagar as somas prodigiosas pelas quais o rei fora
resgatado. Temos ainda, no Tesouro das Cartas, os recibos de quitação desses pagamentos. Esses
pergaminhos fazem mal à vista; aquilo que cada um desses papeizinhos representa de suor, de gemidos e
de lágrimas, ninguém jamais o saberá. O primeiro (24 de outubro de 1360) é a quitação das despesas de
guarda do rei João, no valor de dez mil reais por mês (Arquivos, Section Hist., J. 639-640); esta nobre
hospitalidade, tão vangloriada pelos historiadores, Eduardo se fazia pagar; o carcereiro, antes da
extorsão pelo resgate, fazia-se somar por pistolas. Depois vem uma detestável quitação de quatrocentos
mil escudos d’ouro (mesma data). Depois, quitação de duzentos mil escudos d’ouro (dezembro). Outra de
100.000 (1361, Todos os Santos); outra ainda de 200.000 e, de quebra, mais 57.000 ovelhas d’ouro para
completar os 200.000 prometidos pela Borgonha (21 de fevereiro). – Em 1362: 198.000, 30.000, 60.000
e 200.000 (Arquivos, Section. Hist., J. 641). – Os pagamentos continuam até 1368. – Mas estamos bem
longe de termos todos os recibos de quitação. Os resgates da nobreza montavam talvez a uma soma
também considerável.

O primeiro pagamento não teria podido ser feito se o rei não tivesse encontrado um vergonhoso
recurso. Ao mesmo tempo em que entregava as províncias, ele deu uma de suas crianças. Os Visconti, os
ricos tiranos de Milão, tinham a fantasia de desposar uma filha da França. Eles imagivanam que isso os
tornaria mais respeitáveis na Itália. Esse feroz Galeazzo (Galeazzo II Visconti), que ia à caça dos
homens nas ruas, que jogara padres vivos num forno, pediu para seu filho, de dez anos de idade, uma
filha de João, que tinha onze. Ao invés de receber um dote do pai da noiva, ele é quem dava um: trezentos
mil florins de dote livre e outro tanto por um condado na Champagne. O rei da França, disse Matteo
Villani, vendeu sua carne e seu sangue[640]. A pequena Isabelle foi trocada, na Savóia, contra os florins.
A criança não se deixou entregar aos Italianos de melhor graça que La Rochelle aos Ingleses.

Este desgraçado dinheiro da Itália serviu para fazer o rei sair de Calais. Ele saiu pobre e nu.
Foi-lhe necessário, em 05 de dezembro (1360), impor uma contribuição nova a este povo arruinado. Os
termos da Ordenação são impressionantes. O rei pede, de alguma forma, perdão a seu povo por falar-lhe
de dinheiro. Ele evoca, remontando até Filipe de Valois, todos os males que ele sofreu, ele e seu povo;
ele abandonou à aventura da batalha seu próprio corpo e seus filhos; ele negociou em Bretigny, não
somente para sua libertação, mas para evitar a perdição de seu reino e de seu bom povo. Ele assegura
que fará boa e leal justiça, que suprimirá todo novo pedágio, que cunhará boa e forte moeda de ouro e de
prata e moeda negra com a qual se poderá dar mais facilmente esmolas para os pobres[641]. “Temos
ordenado e ordenamos que tomemos sobre o mencionado povo da Langue d’Oil aquilo que nos for
necessário, e que não gravará tanto nosso povo como o faria a mutação de nossa moeda, a saber: 12
denários por libra sobre as mercadorias, que pagará o vendedor, uma contribuição do quinto sobre o sal,
do décimo-terceiro sobre o vinho e outras bebidas. Da qual contribuição, pela grande compaixão que
temos de nosso povo, nós nos contentaremos; e ela será cobrada até o aperfeiçoamento e na ratificação
da paz” (Ord. III, p. 433).

Ainda que suave e paternal tenha sido o pedido, o povo não estava mais em estado de pagar:
todo dinheiro desaparecera. Era necessário se dirigir aos usurários, aos judeus e, desta vez, dar-lhes uma
estadia fixa. Foi-lhes assegurada uma permanência de vinte anos. Um príncipe de sangue fora nomeado
guardião de seus privilégios e se encarregava especialmente de fazê-los pagar suas dívidas. Esses
privilégios eram excessivos. Deles falaremos alhures. Para adquiri-los, eles deviam pagar vinte florins
ao retornarem ao reino, além de sete por ano. Um Manassés que se encarregasse de toda a judaria devia
ter por sua conta um enorme direito de dois florins sobre os vinte anos e de um por ano em relação aos
outros sete (Ord. III, p. 467).

Os tristes e vazios anos que seguem, 1361, 1362 e 1363, não apresentam, em relação ao exterior,
senão os recibos dos Ingleses e, internamente, senão a carestia dos víveres, as devastações dos
malfeitores, o terror de um cometa, uma grande e tenebrosa mortalidade. Desta vez, o mal atingia os
homens e as crianças mais que os anciãos e as mulheres. Ele golpeava de preferência a força e a
esperança das gerações. Não se via senão mães em lágrimas, senão viúvas e mulheres de preto (Contin.
de G. de Nangis, p. 129).

A péssima alimentação era o fator principal na epidemia. Não se levava quase nada para as
cidades. Não se podia mais ir de Paris a Orléans, nem a Chartres, a região estava infestada de Gascões e
de Bretões[642].

Os nobres que retornavam da Inglaterra, e que se sentiam menosprezados, não eram menos
cruéis que esses bandidos. A cidade de Péronne, que bravamente protegera a si mesma, entrou em briga
contra João do Artois (conde d’Eu de 1351 a 1387). Foi como uma cruzada dos nobres contra o povo:
João do Artois, apoiado pelo irmão do rei e pela nobreza, tomou os Ingleses a seu soldo; ele sitiou
Péronne, a tomou e a queimou (Contin. G. de Nangis, p. 128). Eles trataram Chauny-sur-Oise e outras
cidades de forma semelhante. – Na Borgonha, os próprios nobres serviam de guia às quadrilhas que
pilhavam o país[643]. Os malfeitores de qualquer país, dizendo-se Ingleses, o rei proibia que fossem
atacados. Ele rogou a Eduardo escrever a seus lugares-tenentes[644].

Esses pilhadores chamavam a si mesmos de os Tard-Venus[645]; vindos depois da guerra,


desejavam também sua parte. A principal companhia começou na Champagne e na Lorena; depois, ela
passou na Borgonha: o chefe era um Gascão que desejava, como o Arcipestre, liderá-los para ver o Papa
em Avignon, passando pelo Forez e o Lionês[646]. Jacques de Bourbon, que então se encontrava no
Midi, estava interessado em defender o Forez, terra de seus sobrinhos e de sua irmã[647]. – Este
príncipe, geralmente amado (Froiss. IV, cap. 463, p. 126), logo reuniu muitos nobres. Ele tinha consigo o
famoso Arcipestre, o qual deixara o comando das companhias. Tivesse seguido os conselhos deste
homem, ele as teria destruído. Vindo à presença deles em Brignais, perto de Lyon, caiu numa armadilha
grosseira, acreditou o inimigo menos forte que verdadeiramente era, o atacou sobre uma colina e foi
morto com seu filho, seu sobrinho e muitos dos seus (02 de abril de 1362)[648]. Todavia, esta morte foi
gloriosa. O primeiro título dos Capetos é a morte de Roberto o Forte em Brisserte; aquele dos Bourbons
é a morte de Jacques em Brignais: ambos mortos na defesa do reino contra os malfeitores.

As Companhias não tinham nada a temer, elas corriam as duas margens do Ródano. Um de seus
chefes se intitulava “Amigo de Deus, inimigo de todo mundo” (ibidem, cap. 466, p. 139). O Papa,
trêmulo em Avignon, pregava a cruzada contra elas. Mas os cruzados preferiam antes se juntar às
companhias[649]. Felizmente, para Avignon, o marquês de Montferrat, membro da Liga Toscana contra
os Visconti, tomou uma delas a seu soldo e a conduziu à Itália para onde levaram a peste. O Papa, para
decidi-la quanto à sua partida, deu 30.000 florins e a absolvição[650].

A mortalidade que despovoava o reino deu-lhe, ao menos, uma bela herança. O jovem duque da
Borgonha morreu, assim como sua irmã; a primeira Casa da Borgonha encontrou-se extinta: a sucessão
compreendia as duas Borgonhas, o Artois, os condados da Auvérnia e de Boulogne. O mais próximo
herdeiro era o rei de Navarra. Ele pedia que lhe deixassem tomar posse da Borgonha ou, ao menos, da
Champagne, a qual reclamava já há algum tempo. Ele não teve nem uma e nem outra. Era impossível
entregar essas províncias a um rei estrangeiro, a um príncipe tão odioso. João as declarou reunidas a seu
domínio[651] e partiu para delas tomar posse, “caminhando em pequenas jornadas e com grandes
despesas e pernoitando de vilarejo em vilarejo, de cidade em cidade, no ducado da Borgonha” (Froiss.,
IV, cap. 471, p. 148).

Ele então soube, sem viajar mais rápido, da morte de Jacques de Bourbon. Por volta do fim do
ano, ele desceu para Avignon e passou seis meses em festas. Ele esperava realizar aí alguma conquista
em plena paz. Joana de Nápoles, condessa da Provença, aquela que mandara matar seu primeiro marido,
já estava viúva do segundo. João pretendia ser o terceiro. Ele mesmo estava viúvo e não possuía senão
quarenta e três anos. Cativo, mas após uma linda resistência, este rei-soldado[652] interessava a
cristandade como Francisco I após Pádua. Ao Papa não interessava fazer um rei da França senhor de
Nápoles e da Provença. Ele deu a esta rainha de trinta e seis anos um jovem marido, não um filho da
França, mas Jaime de Aragão, filho do rei destronado de Maiorca.

(1364) Para consolar João, o Papa o encorajou num projeto que parecia insensato à primeira
vista, mas que teria efetivamente reerguido sua fortuna. O rei de Chipre viera a Avignon pedir socorro e
propor uma cruzada. João tomou a cruz e uma enorme quantidade de senhores consigo[653]. O rei de
Chipre foi propor a cruzada na Alemanha e João na Inglaterra. Um de seus filhos, dado como refém, tinha
acabado de voltar para a França, em desprezo aos tratados. O retorno de João a Londres tinha a
aparência mais honorável. Ele parecia reparar o erro de seu filho. Alguns pretendiam que ele não tivesse
ido a Londres senão por desgosto com as misérias da França ou para rever alguma bela amante[654].
Neste ínterim, os reis da Escócia e da Dinamarca deviam ir encontrá-lo. Como rei da França, ele
presidia naturalmente qualquer assembléia de reis. Humilhado pelo novo sistema de guerra que os
Ingleses tinham posto em prática, o rei da França teria retomado, pela cruzada, sob a vetusta bandeira da
Idade Média, o primeiro ranque na Cristandade. Ele teria carregado as companhias consigo e libertado a
França[655]. Mesmo os Ingleses e os Gascões, malgrado a má-vontade do rei da Inglaterra que alegava
sua idade para não tomar a cruz[656], diziam publicamente para o rei de Chipre: “Que era realmente uma
viagem da qual todos as pessoas de bem e de honra deviam participar e que, se Deus quisesse que a
passagem fosse aberta, Ele não o faria sozinho” (Ibid., cap. 481, p. 177). A morte de João destruiu essas
esperanças. Após um inverno passado em Londres, entre festas e grandes repastos (Ibid., cap. 480, p.
175), ele caiu doente e morreu lamentado pelos Ingleses a quem muito amava e aos quais se afeiçoara,
simples e sem fel que era, durante seu longo cativeiro. Eduardo prestou-lhe suntuosos funerais na catedral
de São Paulo de Londres. Foram aí acesas, segundo testemunhas oculares, quatro mil archotes de doze
pés de altura e quatro mil círios pesando dez libras[657].

A França, toda mutilada e arruinada que estava, ainda se encontrava, com o assentimento de seus
próprios inimigos, à testa da cristandade. É a sorte desta pobre França ver, de tempos em tempos, a
Europa invejosa se juntar contra ela e conjurar sua ruína. A cada vez, eles acreditavam tê-la matado,
imaginavam que não haveria mais França; eles tomariam seus despojos à vontade e arrancariam com
prazer seus membros ensanguentados. Ela teima em viver e torna a florescer. Ela sobreviveu em 1361,
mal defendida, traída por sua nobreza; em 1709, envelhecida pela velhice de seu rei; também em 1815,
quando o mundo inteiro a atacava... Este acordo obstinado do mundo contra a França prova sua
superioridade melhor que as vitórias. Aquele contra o qual todos estão facilmente de acordo é aquele
que, aparentemente, é o primeiro de todos.
Capítulo IV


Carlos V. 1364 a 1380.
Expulsão dos Ingleses

----------------

O jovem rei nascera velho. Muito cedo, ele vira muito, sofrera demais. De sua pessoa, ele era
fraco e doente. Tal reino, tal rei. Dizia-se que Carlos o Mau o envenenara; ele ficou pálido e tinha uma
mão inchada que o impedia de segurar a lança. Ele não cavalgava mais, mantendo-se em Vincennes, em
seu hôtel Saint-Pôl, em sua real biblioteca do Louvre. Ele lia, ouvia os hábeis, aconselhava friamente.
Era chamado o sábio, quer dizer, o letrado, o clérigo (culto - clerc) ou, ainda, o astuto (avisé), o
astucioso. Eis o primeiro rei moderno, um rei sentado, como a efígie real sobre os selos. Até aí,
imaginava-se que um rei devia montar a cavalo. O próprio Filipe o Belo, com seu chanceler Pierre
Flotte, fora se bater em Courtrai. Carlos V combateu melhor de seu trono. Conquistador em seu quarto,
entre seus procuradores, seus judeus e seus astrólogos, ele desafiou os famosos cavaleiros e as
Companhias ainda mais temíveis. Com a mesma pena, ele assinou os tratados que arruinavam os Ingleses
e minutou os panfletos que deviam arruinar o Papa e entregar ao rei os bens da Igreja.

Este médico doente do reino tinha a curar-lhe três males, dos quais mesmo o menor parecia
mortal: o Inglês, o Navarrense e as Companhias. Ele se livrou do primeiro, como se viu, empanturrando-
o de ouro, pacientando até que se visse forte o suficiente. O Navarrense foi batido, depois pago e
distanciado; fez-se com que tivesse esperanças com Montpellier. As Companhias escoaram para a
Espanha.

Carlos V inicialmente tomou seus irmãos para ajudá-lo, confiando-lhes as províncias mais
excêntricas, o Languedoc ao duque de Anjou, a Borgonha a Filipe o Ousado[658]. Ele se ocupou apenas
do centro. Mas era-lhe necessário um braço forte, uma espada. E, então, não havia mais espírito militar
senão entre os Bretões e os Gascões. Celebrava-se o combate dos Trinta, onde os Bretões tinham vencido
os Ingleses[659]. O rei se uniu a um corajoso Bretão de Dinan, o sire Bertrand Duguesclin[660], que ele
próprio vira no cerco de Melun (Froiss., ibid. e ‘Vie de Duguesclin’, publicado por Mesnard, cap. 8, p.
67 e cap. 10, p. 83) e que combatia pela França desde 1357.

A vida deste famoso chefe de companhias, que libertou a França das companhias e dos Ingleses,
foi cantada, quer dizer, estragada e obscurecida, numa espécie de epopéia cavaleiresca que se compôs
provavelmente para reanimar o espírito militar da nobreza[661]. Nossas histórias de Duguesclin não são
senão traduções em prosa desta epopéia. Não é fácil destacar desta poesia o que ela apresenta de sério,
de verdadeiramente histórico. De boa-vontade, acreditaremos no poema e nos romances em tudo em que
se aproximam do caráter bem conhecido dos Bretões. Neles também poderemos acreditar nas confissões
que fazem contra seu herói. Eles dizem, inicialmente, que ele era feio: “De média estatura, o semblante
moreno, o nariz chato, os olhos verdes, largo de ombros, braços longos e mãos pequenas”[662]. Dizem
também que era, desde sua infância, um menino malvado, “rude, malicioso e cheio de coragem”, que
reunia as crianças, as dividia em tropas e que batia e feria os outros. Ele foi, por algum tempo, mantido
preso de castigo por seu pai. Entretanto, uma religiosa cedo predissera que este menino seria um famoso
cavaleiro. Ele também foi encorajado pelas predições de uma certa senhorita Tiphaine, que os Bretões
tinham por feiticeira, e que, mais tarde, foi por ele desposada. Todavia, este intratável batalhador era,
como normal e graciosamente são os Bretões, uma boa criança e pródiga, com frequência rica, com
frequência arruinada, às vezes dando tudo o que possuía para resgatar homens; mas, em revanche, ávido e
pilhador, violento na guerra e sem quartel. Como os outros capitães dessa época, ele preferia o ardil a
qualquer outro meio de vencer, e ficava sempre livre de sua palavra e da fé dela decorrente. Antes da
batalha, Duguesclin era homem de tática, de recursos e de sutil engenho: ele sabia prever e prover. Mas,
uma vez que nela tivesse entrado, a dura cabeça bretã reaparecia e ele mergulhava na confusão; e, por
vezes, ia tão longe, que nem sempre podia dela se retirar: duas vezes ele foi preso e pagou resgate.

A primeira questão para o novo rei era a de voltar a ser o senhor do curso do Sena. Mantes
(atualmente Mantes-la-Jolie) e Meulan (Meulan-en-Yvelines, desde 2010) estavam na posse do rei de
Navarra; Boucicaut e Duguesclin as tomaram através de uma insigne perfídia[663]. As duas cidades
pagaram todo o mal que o Navarrense causara aos Parisienses. Os burgueses tiveram a satisfação de ver
vinte e oito serem enforcados em Paris (Contin. de Guil. de N., p. 132, col. 2).

Os Navarrenses, fortificados por Ingleses e Gascões sob a liderança do Captal de Buch,


quiseram se vingar e fazer qualquer coisa para impedir o rei de ir a Reims. Duguesclin logo veio à frente
com uma boa tropa de Franceses, de Bretões e também de Gascões[664]. O Captal recuou para Évreux.
Ele parou em Cocherel, sobre um montículo; mas Duguesclin teve o expediente de negar-lhe a vantagem
do terreno, soando a retirada e fingindo fugir. O Captal não pôde impedir seus Ingleses de descerem; eles
eram por demais orgulhosos para ouvir um general gascão, embora grande senhor e da Casa de Foix. Foi
necessário que ele obedecesse a seus soldados e os seguisse na planície. Então, Duguesclin fez meia-
volta; trinta dos Gascões que tinha de seu lado executaram a manobra de separar o Captal do meio de
suas tropas[665]. Os outros chefes navarrenses foram mortos, a batalha ganha[666].

Ganha aos 16 de maio (1364), ela foi conhecida aos 18 em Reims, na véspera mesmo da
sagração; bela estrena para a nova realeza. Carlos V deu a Duguesclin uma tal recompensa, que nunca
antes rei algum dera: um status de príncipe, o próprio condado de Longueville, herança do irmão do rei
de Navarra[667]. Ao mesmo tempo, ele mandava cortar a cabeça do senhor de Saquenville, um dos
principais conselheiros do Navarrense. Ele não tratava melhor os Franceses que se encontravam entre a
gente das Companhias[668]. As pessoas começaram a se lembrar que a ladroagem era um crime...

A guerra da Bretanha terminou no ano seguinte. Carlos de Blois se resignava à partilha da


Bretanha; mas sua mulher não consentiu (Daru, ‘Hist. de Bret.’, t. II, l. IV, p. 122). O rei da França
emprestou Duguesclin e mil lanças a Carlos. O príncipe de Gales enviou a Montfort o bravo Chandos,
duzentas lanças, um número igual de arqueiros, aos quais se juntaram vários cavaleiros ingleses[669].

Montfort e os Ingleses estavam sobre uma elevação, como o Príncipe de Gales anteriormente
estivera em Poitiers. Carlos de Blois não se inquietou. Este príncipe devoto, que acreditava nos milagres
e que os realizava, recusara-se, quando do sítio de Quimper, a se retirar quando a maré subira. “Se for a
vontade de Deus”, ele disse, “a maré não nos fará qualquer mal”. Ele não parou ante a montanha em
Auray tanto quanto não temeu o fluxo em Quimper.

Carlos de Blois era o mais forte. Muitos Bretões, mesmo da Bretanha brettonante, se juntaram a
ele, sem dúvida por ódio aos Ingleses[670]. Duguesclin posicionara este exército numa ordem admirável.
Cada cavaleiro, disse Froissart, portava sua lança bem à sua frente, talhadas na medida de cinco pés, e
um machado-de-guerra forte, duro e bem acerado, de cabo curto... “Et s’en venoient ainsi tout bellement
le pas. Ils chevauchaient si serrés, qu’on n’eût pu jeter une balle de paume qu’elle ne tombât sur les
pointes des lances (E assim vinham todos em belo passo. Cavalgavam tão próximos, que não se poderia
jogar uma bola de tênis sem que caísse nas pontas das lanças - Ibid., cap. 503, p. 246). João (John)
Chandos observou por muito tempo a formação dos Franceses, ‘a qual julgava, para si mesmo, tão
duramente’. Ele não pôde se calar e disse: ‘Como Deus é meu socorro, é verdade que aí está a fina flor
da cavalaria, bom senso e boa ordem” (Ibid., cap. 505, p. 240).
Chandos assegurou-se de um corpo de reserva para apoiar qualquer corpo que enfraquecesse.
Não foi sem muito trabalho que obteve de um desses cavaleiros o assentimento para ficar na retarguada a
fim de comandar esta reserva. Foram necessários rogos e quase lágrimas[671]. O preconceito feudal
considerava a primeira linha como o único lugar honorável. Duguesclin não teria conseguido obter coisa
semelhante em outro exército.

Os dois pretendentes combateram à testa de seus exércitos. Era um duelo sem quartel. Os
Bretões estavam cansados desta guerra e desejavam terminá-la pela morte de um ou de outro[672]. A
reserva de Chandos deu-lhe a vantagem contra Duguesclin, que foi lançado à terra e pego. Tudo recaiu
sobre Carlos de Blois: seu pendão foi capturado, atropelado, ele mesmo morto. Os maiores senhores da
Bretanha se obstinaram e se fizeram também matar (Ibid.).

Quando os Ingleses, com grande júbilo, vieram mostrar a Montfort seu inimigo, a quem tinham
matado, seu sangue francês despertou, ou talvez o parentesco: lágrimas vieram-lhe aos olhos (Ibid., cap.
511, p. 268). Sob a couraça do morto, foi encontrado um cilício. Sua piedade, suas belas qualidades
retornaram em memória. Ele não recomeçara a guerra senão por deferência à sua mulher, a quem a
Bretanha pertencia por herança. Este santo[673] era também um homem. Ele fazia versos, compunha lais
nos intervalos das batalhas[674]. Ele fora apaixonado; um bastardo seu morreu a seu lado, querendo
vingar sua morte[675].

Montfort recebeu, em poucos dias, as praças mais fortes da região. Os filhos de Carlos de Blois
eram prisioneiros na Inglaterra. O rei da França, que tinha nula paixão na guerra, se acomodou com o
vencedor e convenceu a viúva de Carlos de Blois a se contentar com o condado de Penthièvre, com o
viscondado de Limoges e com uma renda de dez mil libras (Ibid., cap. 515, pgs. 275-280). O rei agiu
sabiamente. O essencial era impedir que a Bretanha prestasse homenagem ao Inglês. Bastava apostar que
ela, cedo ou tarde, se cansaria do protegido da Inglaterra.

Era alguma coisa ter terminado a guerra da Bretanha e aquela do rei de Navarra. Mas era
preciso tempo para que a França se recuperasse. A simples enumeração das Ordenações de Carlos V
basta para descobrir as tenebrosas chagas que a guerra tinha causado. A maior parte destina-se a
constatar a diminuição dos feudos, a reconhecer que as comunas despovoadas não podem mais pagar os
impostos (Ord. IV, 617, 651). Outras são as salvaguardas que as cidades, as abadias, os hospitais e os
capítulos obtêm do rei. A proteção pública era tão débil, que se reclama uma particular. As cidades, as
corporações, as universidades, pedem que privilégios sejam-lhes consagrados. Várias cidades são
declaradas inseparáveis da coroa. Os mercadores italianos em Nîmes, os Castelhanos e Portugueses em
Harfleur e em Caen, obtêm privilégios. No total, pouca ou nenhuma medida geral: tudo é especial,
individual: sente-se o quão longe o reino está da unidade, o quão fraco e ainda doente é.

A maior de todas as misérias da França era a bandidagem das Companhias. Licenciadas pelo
Inglês, repelidas da Ilha-de-França, da Normandia, da Bretanha, da Aquitânia, essas quadrilhas refluíam
para o centro; elas passeavam pelo Berry, pelo Limousin etc. Os bandidos lá estavam como se em sua
própria casa. Era o quarto deles, diziam insolentemente (Froiss., IV, cap. 517, p. 283). Eles eram de
todas as nações, mas a maior parte era de Ingleses e de Gascões, Bretões também, mas estes em pequeno
número. O povo olhava todos eles como Ingleses: nada contribuiu mais para exasperar a França contra a
Inglaterra. Propunha-se às Companhias partirem para a cruzada. O Imperador obtivera-lhes a passagem
pela Hungria e oferecia arcar com suas despesas na Alemanha. Mas a maioria não considerava partir
para tão longe (Froiss., ibid., p. 284-5). Aqueles que assim decidiram, na esperança de pilhar a
Alemanha em rota, nela chegaram a duras penas. Conduzidos pelo Arcipreste até a Alsácia, aí
encontraram populações fechadas, hostis, que de todas as partes caíram sobre eles. Ninguém escapou.
Outros passaram à Itália.

Mas o principal escoamento deu-se na direção da Espanha, através de Castela, na guerra do


bastardo Don Enrique de Transtâmara[676] contra seu irmão Don Pedro o Cruel[677]. Todos os reis da
Espanha de então mereciam esse epíteto. Em Navarra, reinava Carlos o Mau, o assassino, o envenenador.
Em Portugal, Don Pedro o Justiceiro, aquele que fez uma tão atroz justiça da morte de Inês de
Castro[678]; em Aragão, Don Pedro o Cerimonioso (D. Pedro IV de Aragão) que, sem forma de
processo, mandou pendurar pelos pés um legado papal encarregado de excomungá-lo. De forma
semelhante, D. Pedro o Cruel mandara queimar vivo um monge que lhe predissera que seu irmão o
mataria. É preciso ver, na Crônica de Ayala, o que era a Espanha desde que, temendo menos os Mouros,
ela cedia à sua influência, tornava-se mourisca, judia, tudo, menos cristã. As guerras sem quartel contra
os infiéis tinham tornado os costumes ferozes; eles se tornaram ainda mais sob a violenta fiscalidade
judaica[679].

(1366) Este Pedro o Cruel era uma espécie de louco furioso. Os dois elementos discordantes da
Espanha se combatiam em si e dele faziam um monstro. Seu senso de cavalaria, como o de todo
Castelhano, era tão elevado que, por qualquer coisa, sentia-se picado; ao mesmo tempo, não reinava
senão através dos judeus e não se fiava senão nestes e nos Sarracenos[680]. Dizia-se que ele era filho de
uma judia. Se não fosse esta sua particularidade para com os judeus, ele teria toda a boa-vontade das
comunas em virtude da sua crueldade contra os nobres.

Este homem sanguinário amava, entretanto. Tinha por amante Dona Maria de Padilla, “pequena,
linda e espirituosa”, diz o contemporâneo[681]. Para agradá-la, trancafiou sua mulher Branca, cunhada
de Carlos V, e findou por envenená-la. Ele já havia mandado matar sabe-se lá quantos dos seus. Seu
irmão (NT: meio-irmão), D. Enrique de Transtâmara, que tinha tudo a temer, salvou-se e veio solicitar ao
rei da França vingar sua cunhada.

O rei deu-lhe, de todo o seu coração, as Companhias que desolavam a França. O rei de Aragão
ofereceu a passagem e o Papa a autorização de invadir Castela. D. Pedro, entre outras violências, pusera
as mãos sobre os bens da Igreja[682].

O jovem duque de Bourbon era, nominalmente, o chefe da expedição; o verdadeiro chefe devia
ser Duguesclin[683]. Ele ainda era prisioneiro e os Ingleses não queriam devolvê-lo por menos de 100
mil francos-ouro[684]. O rei, o Papa e D. Enrique se cotizaram e pagaram por ele.

Duguesclin recebeu o comando dos aventureiros e os conduziu à Espanha, mas por Avignon,
para fazer com que o Papa também contribuísse, de quem tirou duzentos mil francos-ouro e uma
abvsolvição geral para os seus. O exército engrossava em rota[685]; ainda que o rei da Inglaterra tivesse
proibido a seus súditos tomar parte nesta guerra, uma turba de aventureiros, Ingleses e Gascões, não deu
atenção. Um Francês os conduzia todos, para grande desprazer do Inglês[686].

Essa gente, que começara extorquindo o Papa, nem por isso deixava de dar a esta guerra da
Espanha um falso ar de cruzada. Quando estavam em Aragão, mandaram dizer ao rei de Castela que este
deveria dar passagem e víveres “para os peregrinos de Deus que tinham empreendido viagem, por grande
devoção, para irem ao reino de Granada a fim de vingar o sofrimento de Nosso Senhor, destruir os
incrédulos e exaltar nossa fé. O rei D. Pedro não fez senão rir desses pedidos e respondeu que nada faria
e que jamais obedeceria a tal corja” (Froiss., ibid., p. 299).
Foi, efetivamente, como uma peregrinação. Não houve inimigo para combater. D. Pedro foi
abandonado e não encontrou asilo senão na Andaluzia, entre seus amigos Mouros. Daí, ele passou para
Portugal, depois para a Galícia e, enfim, para Bordeaux, onde foi bem recebido (Froiss., cap. 522, p.
313). Os Ingleses estavam tomados de cólera e de inveja. Eles se encarregaram de reconduzir D. Pedro,
de restabelecer o carrasco da Espanha; sempre este diabólico orgulho inglês que tão frequentemente
virou-lhes a cabeça, tão sensatos que sempre pareçam; o mesmo orgulho que os fez queimar a Donzela de
Orléans e que, sob M. Pitt, os teria feito queimar a França[687].

O Príncipe de Gales estava de tal forma enfatuado por seu próprio poder, que não se contentava
em querer restabelecer D. Pedro em Castela; ele prometia ao rei destronado de Maiorca reconduzi-lo em
Aragão. Os senhores gascões, que não tinham a menor vontade de ir tão longe em favor dos interesses
ingleses, ousaram dizer ao Príncipe que era mais difícil restabelecer D. Pedro que expulsá-lo. “Quem
muito abraça, mal estreita’, eles também diziam... ‘Gostaríamos muito de saber quem nos pagará; não se
coloca gente armada fora de suas casas sem a ela pagar” (Ibid., p. 315 e segs.). D. Pedro prometia-lhes
tudo o que desejavam; ele deixara tesouros escondidos em lugares que apenas ele conhecia; ele lhes
daria seiscentos mil florins (Ibid., cap. 523, p. 322. Nota de M. Buchon). Para o príncipe de Gales, ele
prometia dar a Biscaia, quer dizer, a entrada dos Pirineus, uma Calais para a Espanha[688].

Tudo o que havia de aventureiros Ingleses no exército de D. Enrique foi convocado na Guiana.
Eles partiram bem pagos para o combaterem e ganharem outro tanto a serviço de D. Pedro[689]: tal era a
lealdade daquela época. Igualmente, o rei de Navarra negociava ao mesmo tempo com os dois partidos,
fazendo-se pagar para abrir, para fechar, as montanhas. Ele de tal forma temia se comprometer por uns ou
por outros que, no momento de entrar em campanha com os Ingleses, ele achou melhor mandar se fazer
prisioneiro[690].

O príncipe de Gales teve mais cavaleiros que desejava[691]. A dificuldade era alimentá-los.
Chegando ao (rio) Ebro, numa região esquálida pelo vento, pela chuva e pela neve, os víveres faltaram.
Eles já estavam pagando por um pãozinho a quantia de um florim (Ibid., cap. 545, p. 387). –
Aconselhava-se D. Enrique a recusar a batalha, mandar guardar as passagens e esfaimá-los. O orgulho
espanhol não permitiu. Ele se via com três mil armaduras de ferro, seis mil homens de cavalaria ligeira
(vinte mil cavaleiros, diz Froissart – Ibid., cap. 544, p. 385), dez mil arbaleteiros, sessenta mil homens
de milícia (comuneros) com lanças, piques e fundas. Isto contado, não eram senão o povo comum. Os
arqueiros ingleses valiam mais que os fundeiros castelhanos; as lanças inglesas iam mais distante que as
adagas e as espadas com as quais os Franceses e os Aragoneses adoravam se servir (Ibid, cap. 552, p.
400). A batalha foi conduzida por esse bravo e frio John Chandos, que já fizera com que os Ingleses
ganhassem as batalhas de Poitiers e de Auray. Malgrado os esforços de D. Enrique, que liderou os seus
três vezes, os Espanhóis fugiram. Os aventureiros permaneceram sós a se baterem inutilmente[692]. Tudo
foi morto ou preso. Chandos viu-se, pela segunda vez, ter capturado Duguesclin.

Foi um belo dia para o príncipe de Gales. Havia apenas vinte anos que combatera em Crécy, dez
que ganhara a batalha de Poitiers. Ele pronunciou seus julgamentos na esplanada de Burgos; ele aí teve o
campo de batalha e os espólios desta: pode-se dizer que a Espanha, por um dia, foi sua (Ibid., cap. 557,
p. 418).

O rei da França, muito abatido com essas notícias, não ousou apoiar Enrique de Transtâmara. A
respeito de uma carta da princesa de Gales, ele se apressou em proibir ao fugitivo atacar a Guiana; ele
mandou, inclusive, colocar na prisão o jovem conde de Auxerre que se armava por D. Enrique (ibid.,
cap. 569, p. 424-5).
Os vencedores permaneciam na Espanha a aguardar que D. Pedro os pagasse com os tesouros
escondidos. Eles se entediavam muito; a sóbria hospitalidade espanhola não os indenizava desta longa
estadia. As pesadas ondas de calor vinham; eles se jogavam sobre as frutas e a disenteria os matava aos
montes. O príncipe de Gales não era menos um dos mais doentes. Conta-se que eles estavam reduzidos a
um quinto quando decidiram tornar a cruzar os montes, descontentes, mal ajambrados e mal pagos[693].

O príncipe de Gales, que respondera por D. Pedro, não podendo satisfazê-los, estes se puseram
a pilhar a Aquitânia. Ele findou por mandá-los procurar a vida alhures. “Alhures” significava “a
França”[694]. Eles então aqui entraram e, sempre pilhando em rota, não deixavam de dizer, em todos os
lugares, que fora o príncipe de Gales, seu devedor, que os autorizara a se fazerem pagar assim[695].

Por orgulho, o príncipe também cometeu o erro de libertar Duguesclin: era dar um chefe às
Companhias. O prudente Chandos, “que era seu senhor”, dissera que jamais o deixaria ser resgatado
(Ibid., cap. 559, p. 421). Um dia, entretanto, que o príncipe estava alegre, ele percebeu o prisioneiro e
disse-lhe: “Como estais vós, Bertrand? – ‘Às maravilhas, graças a Deus, obrigado’, ele replicou. E
acrescentou: ‘Como não estaria bem? Desde que aqui estou, sinto-me o primeiro cavaleiro do mundo.
Diz-se, em todo lugar, que vós me temeis, que não ousais me colocar a resgate’. O Inglês se sentiu
picado: ‘Messire Bertrand’, ele disse, ‘acreditais, portanto, que é por vossa bravura que vos guardamos?
Por São Jorge, pagai cem mil francos e sereis livre”. Duguesclin o pegou pela palavra[696].

Ayala afirma que o príncipe, para demonstrar o quão pouco se preocupava com Duguesclin,
disse-lhe para que ele próprio fixasse quanto desejava pagar. Duguesclin respondeu orgulhosamente:
“Nunca menos de cem mil francos”. Isto seria mais de um milhão em moeda de hoje. O príncipe ficou
espantado: “E onde os encontrareis, Bertrand?” – O Bretão, segundo a crônica, teria dito essas belas
palavras, as quais nada têm de inverossímil: “Monsenhor, o rei de Castela pagará a metade e o rei da
França o resto; e, ainda que não fosse o bastante, não há mulher na França que saiba fiar que não fiasse
para o meu resgate pagar”[697].

Ele não presumia muito. A guerra era iminente. Enquanto, em Paris, Carlos V recebia
honradamente um filho do rei da Inglaterra, o qual ia se casar em Milão, as Companhias licenciadas
pelos Ingleses desolavam a Champagne e mesmo os arredores de Paris (Froiss., cap. 563 e 564, p. 437-
440). Era demais pagar e ser pilhado.

Hidrópico[698], o Príncipe de Gales retornara da Espanha e seu exército não valia melhor. Os
Gascões, que se haviam comprometido neste negócio inglês sobre a palavra dos tesouros escondidos de
D. Pedro, retornavam pobres, em lastimáveis equipagens e de mau humor. Além disso, guardavam em
relação ao príncipe mais de um velho rancor. Ele forçara o conde de Foix a dar passagem às
Companhias, pedira mil lanças ao senhor d’Albret e deixara oitocentos lanças a seu encargo[699]. Os
meridionais estavam fartos dos Ingleses, não somente de suas vexações, mas porque eram Ingleses, quer
dizer, entediantes, incômodos para se conviver. Essas vivazes, espirituosas e falastronas populações
sofriam ao vê-los orgulhosamente taciturnos e ruminando sempre para si mesmo sua batalha de
Poitiers[700].

O príncipe de Gales desprezava os Gascões. Ele escolheu, com a habitual sensibilidade inglesa,
este momento de mau humor para colocar sobre suas terra um focagium de dez soldos por feudo[701]; ao
invés de pagá-los, ele lhes exigia dinheiro; um fogagium das magras populações das landes, dos pobres
pastores de cabras das montanhas; um focagium desta pobre pequena nobreza que nunca foi rica senão em
cadetes e em bastardos. O príncipe convocara os Estados para Niort, na esperança de converter os
Gascões pelo bom exemplo dos Poitevinos e Limousenses. Eles não foram sensibilizados. Ele teve por
bem transferir os Estados para Angoulême, para Poitiers, para Bergerac. Eles tiveram tanta vontade de
pagar em Bergerac quanto em Niort.

E não somente não pagaram, mas partiram para encontrar o rei da França dizendo-lhe, com a
vivacidade de sua região, que desejavam justiça, que a corte do rei da França era a mais justa do mundo,
que se este não recebesse seu apelo, eles iriam procurar um outro senhor (Froiss., V., cap. 574, p. 12). O
rei, que não estava preparado para a guerra, tentava contê-los. Ele não os apoiava e nem os dispensava,
mas os mantinha em Paris, acarinhando-os e custeando-os[702]. Havia junto deste rei belas fortunas a se
fazer. O Inglês não pagava, mesmo depois disso; ele, o rei da França, pagava adiantado. Ele dava aos
pequenos cavaleiros não apenas dinheiro mas, também, estabelecimentos, fortunas de príncipe. Ele era o
pai dos Bretões e dos Gascões. Ele não lhes guardava rancor. Mais se derrotava seus soldados, melhor
ele os tratava. Ele acabara de acolher o vendéio Clisson, um daqueles que mais contribuíra para a
derrota dos Franceses em Auray. Ele ofereceu ao Captal de Buch o ducado de Nemours. Ele deu ao
senhor d’Albret uma filha da França em casamento (Froiss., IV, cap. 564, p. 440). Para os Gascões, foi
um grande encorajamento ver um dos seus se tornar príncipe, cunhado dos reis da França e de Castela.

No dia 25 de janeiro de 1369, o príncipe de Gales recebeu um doutor-em-leis e um cavaleiro em


Bordeaux, os quais vinham da parte do rei da França, para entregar-lhe uma intimação. Era uma
intimação polida para vir a Paris e responder na Corte dos Pares no que tangia a certas reclamações,
segundo as quais, “por débil conselho e simples informação, ele teria molestado os prelados, os barões,
cavaleiros e comunas das marchas da Gasconha, nas fronteiras de nosso reino, da qual coisa nós estamos
muito surpresos” (Froiss., V., cap. 575 e 576, p. 15-19). O doente, tendo tomado conhecimento da
mensagem, disse orgulhosamente a palavra de Guilherme o Conquistador: “Nós iremos, mas será com o
bacinete na cabeça e sessenta mil homens em nossa companhia... Isto custará cem mil vidas”. O príncipe
estava de tão mau-humor que, após ter permitido aos mensageiros partirem, ele mandou correr atrás dos
mesmos e jogá-los na prisão sob um pretexto: “De medo que fossem relatar suas pilhérias e suas
zombarias ao duque do Anjou, que nos ama muito pouco, e que dissessem que me afrontaram no meu
próprio palácio” (Ibid., cap. 577, p. 21).

O rei da França, muito pelo contrário, tinha o ar de que esta questão da Gasconha em nada
tocava o rei da Inglaterra. No mesmo momento, ele enviou-lhe um presente de cinquenta pipas de bom
vinho, as quais, todavia, o Inglês recusou. Ele tinha acabado de perdoar um dos pagamentos do resgate do
rei João.

Carlos sabia suportar e pacientar. Seus negócios não marchavam menos. Ao Norte, ele ganhava
a gente dos Países-Baixos. Ele negociava com o Ponthieu e com Abbeville. No sul, ele, de longa data,
tinha colocado, através do Papa, bispos a seu favor em todas as províncias inglesas. Além-Pirineus, ele
despachava Duguesclin e alguns cavaleiros das Companhias para ajudar os Castelhanos a se livrarem do
rei que os Ingleses lhes impuseram. D. Enrique prometia, em retribuição, armar contra os Ingleses uma
frota que seria o dobro daquela do rei da França.

D. Pedro tinha por si muitas comunas, precisamente por causa de sua crueldade em relação aos
nobres. A seu favor, estavam sobretudo os Mouros e os Judeus, péssimos auxiliares que não eram
capazes de defendê-lo e que davam uma maléfica cor ao seu partido. Ele se retirara numa das regiões
menos cristãs da Espanha, na Andaluzia. D. Enrique e Duguesclin, conduzindo rapidamente um pequeno
corpo de homens certos, não deixaram tempo para que D. Pedro conhecesse o número dos assaltantes. Os
judeus, que contra todos os seus hábitos, tinham pego em armas, as largaram o quanto antes; os Mouros,
com suas flechas, não podiam estancar a pesada cavalaria. Duguesclin proibiu que se desse quartel a
esses descrentes (Froiss., IV, cap. 568 e 569, p. 453-5). D. Pedro só teve tempo de se lançar para dentro
do castelo de Montiel (NT: castelo da Estrela de Montiel). Diz-se que Duguesclin prometera-lhe
permitir que se evadisse e que o traiu; que os dois irmãos, vindo à sua presença, na tenda de D. Enrique,
esses dois furiosos lançaram-se um contra o outro; que D. Pedro, imobilizando D. Enrique embaixo,
Duguesclin pegou D. Pedro pela perna e o colocou por baixo de seu irmão que, então, o apunhalou[703].
Esta narrativa, ainda que romanesca, não é inverossímil.

A Batalha de Montiel ocorreu aos 14 de março (1369). Pelo fim de abril, Carlos V relampejou,
surpreendeu o Ponthieu e desafiou o rei da Inglaterra. O desafio foi levado a Westminster por um lacaio
de cozinha (Froiss., V, cap. 580, p. 33). A escolha do mensageiro, numa questão menos séria, pareceria
epigramática: esses conquistadores, maltratados na Espanha pelas frutas, na França pelos vinhos,
estavam doentes, envelhecidos por seus próprios excessos. Um filho de Eduardo III, Lionel, morrera por
indigestão em Milão. Os Ingleses sustentavam que ele fora envenenado.

Não havia senão boas razões para romper a paz. Os próprios Ingleses a tinham rompido quando
largaram suas Companhias sobre a França. Carlos V nada falou disto e nem das reclamações dos
Gasgões no tratado de Brétigny, sequer de seus privilégios violados pelos Ingleses. Ele preferiu procurar
nas linhas do tratado algum vício de forma. Os Estados-Gerais, por ele consultado com deferência,
decidiram que seu direito era bom (09 de maio de 1369 – Secousse, ‘Préf. aux Ord.’, VI, p. 1). Ele
conseguiu obter, pela Corte dos Pares, uma sentença para confiscar a Aquitânia; neste ato, ele
ousadamente disse que a suzerania e o direito de apelo foram reservados pelo tratado de Brétigny.

Ele podia mentir deslavadamente: todo mundo estava a seu favor. As Companhias se declararam
francesas. Os bispos da Aquitânia entregavam-lhe suas cidades; de longa data, o arcebispo de Toulouse
as ganhara: sessenta cidades, burgos ou castelos expulsaram os Ingleses, mesmo em Cahors, mesmo em
Limoges, cujos bispos pareciam completamentes ingleses (Froiss., V, cap. 587, p. 56). O rei da França
merecia esses milagres; todo doentio que era, ele continuamente fazia, pés nus, procissões devotas[704].
Os pregadores populares falavam a seu favor. O rei da Inglaterra também mandava o bispo de Londres
pregar, mas não tinha o mesmo sucesso[705].

Todas as cidades que se rendiam a Carlos V obtinham confirmação e aumento dos privilégios.
Segue-se o progresso de sua conquista de ponta a ponta: Rhodes, Figeac, Montauban, fevereiro de 1370;
Millau no Rouergue, maio; Cahors, Sarlat-la-Canéda, julho (Ord. V, p. 291, 324, 338, 383. Sismon., XI, p.
145).

É difícil acreditar que uma cabeça tão fria, tão sábia, tenha realmente tido a idéia de invadir a
Inglaterra (Froiss., V, cap. 599, p. 98-9). Ele fez todo o necessário para fazê-los acreditar nisto, sem
dúvida a fim de atrair os Ingleses para o norte e impedi-los de asfixiar o movimento do sul da França. De
fato, os Ingleses desembarcaram um exército em Calais, sob a condução do duque de Lancaster. O grande
e pesado exército francês conduzido pelo duque da Borgonha, cinco vezes mais forte que o inglês, tinha
expressa proibição de combater. Ele permaneceu imóvel e, depois, se retirou sob as vaias dos Ingleses
(Ibid., cap. 602, p. 110). Estes perderam seu tempo e dinheiro. As cidades do norte continuaram com eles
e, no sul, eles haviam retomado vários locais, mas perdendo o que valia muito mais, o irreparável
capitão a quem deviam as vitórias de Poitiers, de Auray e de Najarra, o sábio e hábil John Chandos
(Ibid., cap. 615, p. 153-9).

Este corajoso homem previra tudo. Desde o momento em que o príncipe de Gales teimou, contra
seu conselho, em impor esse fatal focagium, Chandos se retirou para a Normandia. Depois, com a
sublevação do midi, ele retornou para reparar o mal, para salvar os imprudentes que não quiseram
escutá-lo; mas ele esperava pouco desta guerra. O historiador do tempo o representa muito triste e
melancólico, como se tivesse previsto sua morte próxima e a perda das províncias inglesas. Após sua
morte, o rei da Inglaterra enfim seguiu seu conselho e revogou o tributo. Mas era tarde demais (Ibid., cap.
514, p. 148).

Os Ingleses estavam, como normalmente se dá nas infelicidades, cada vez mais em maus lençóis
e desgraçados. Eles deveriam, a qualquer preço, ter se assegurado do rei de Navarra e dele se servir
contra a França. Segundo toda aparência, o preço da barganha era o viscondado de Limoges, que o
Navarrense pedia. O príncipe de Gales não quis abrir uma brecha em seu reino da Aquitânia; era-lhe
importante manter e guardar esta porta da França (Secousse, ‘Hist. de Charles-le-Mauvais’, p. 131 e
Rymer, VI, p. 677). Ele negou e perdeu tudo. O rei da França recuperou o rei de Navarra dando-lhe
Montpellier, cidade que lhe era prometida há muito tempo (Secousse, ibid., p. 133). Pouco após, ele
ainda teve o expediente de se reconciliar com o novo rei da Escócia, primeiro da Casa de Stuart (Rymer,
VI, p. 696). Castela, Navarra, Flandres, Escócia, ele desmembrava tudo da Inglaterra e isolava seu
inimigo.

O orgulho inglês estava tão comprometido nesta guerra, que Eduardo ainda encontrou meio, após
tantos sacrifícios, de fazer duas expedições ao mesmo tempo contra a França. Enquanto um de seus filhos,
o duque de Lancaster, partia para socorrer o príncipe de Gales sitiado em Bordeaux (fim de julho de
1370), um outro exército, sob um velho capitão, Robert Knolles, entrava na Picardia (mesmo mês). De
ambos os lados, nula resistência; Duguesclin e Clisson aconselhavam evitar qualquer combate, fazer
apenas escaramuças e guardar as praças; o campo virava-se como podia. Esses chefes de Companhia não
conheciam senão o sucesso; os mais corajosos preferiam empregar o ardil. Quanto à honra do reino, eles
não sabiam o que era isso. Era preciso que o duque de Bourbon visse passar à frente de seu exército, sem
se mexer, sua mãe, mãe da rainha da França, a qual os Ingleses tinham pego e que fizeram cavalgar sob
seus olhos na esperança de levar o filho ao combate. Ele propôs-lhes um duelo, mas recusou-lhes a
batalha[706].

Em Noyon, o ultraje foi mais sangrento. O escocês Seyton saltou as barreiras da cidade, discutiu
aos gritos, por uma hora, com os Franceses, e saiu são e salvo[707]. O exército inglês foi assim até a
Champagne, até Reims, até Paris, destruindo e queimando tudo o que encontrava, procurando ver se
haveria alguma devastação assaz cruel, algum espicaçamento suficientemente sensível, para despertar a
honra do inimigo. Durante um dia e duas noites que estiveram à frente de Paris, o rei, de seu hôtel Saint-
Paul, via, sem se emocionar, as chamas dos vilarejos que eram incendiados de todos os lados. Uma
numerosa e brilhante cavalaria, os Tancarville, os Coucy, os Clisson, estava na capital, mas ele a retinha.
Clisson, cuja bravura era notória, encorajava esta prudência cruel: “Sire, vós não deveis empregar
vossos soldados contra esse enraivecidos; deixai-os se fatigarem por si mesmos. Eles não vos colocarão
para fora de vossa herança com todos esses monturos” (Ibid., cap. 634, p. 211).

Quando partiam dali, um Inglês se aproximou da barreira Saint-Jacques, que se encontrava


aberta e lotada de cavaleiros franceses. Ele fizera voto de chocar sua lança contra as barreiras de Paris.
Nossos cavaleiros o aplaudiram e o deixaram ir[708]. Este ultraje às muralhas da cidade, à honra do
pomœrium, coisa tão santa entre os antigos, não tocava os homens feudais[709]. O Inglês ia-se
calmamente, quando um bravo açougueiro avançou pelo caminho e, com um pesado machado de cabo
longo, desferiu-lhe um golpe entre os dois ombros, o renovou sobre a cabeça e o derrubou[710]. Três
outros vieram e, juntos, os quatro começaram a bater no Inglês “assim como o fariam sobre uma bigorna”.
Os senhores que lá estavam à porta, vieram recolhê-lo para enterrá-lo em terra santa.

O príncipe de Gales não encontrou mais obstáculos para sitiar Limoges que Knolles para
insultar Paris. O próprio Duguesclin aconselhara dissolver o exército do sul e não mantivera senão
duzentas lanças para correr a região. O príncipe desejava tratar tanto mais cruelmente as pessoas de
Limoges quanto o autor da defecção desta cidade, o bispo, era sua criatura e seu compadre. Ele jurara
pela alma de seu pai que faria a cidade pagar caro por essa traição. Os burgueses, muito apavorados,
queriam se render. Mas os capitães franceses os impediram. Entretanto, tendo o príncipe mandado minar
uma parte das muralhas, fê-las saltar e entrou pela brecha. Ele estava muito doente para cavalgar, mas se
fazia conduzir numa carruagem. Ele dera ordem de matar tudo, homens, mulheres e crianças e, assim,
ofereceu a si o espetáculo desta carnificina. “Não houve tão duro coração que, estando então na cidade
de Limoges, não se lembrasse de Deus e não chorasse piedosamente”[711]. O príncipe de Gales não se
lembrou Dele. Este homem ferido e doente, que estava tão próximo de prestar contas, este moribundo,
não conseguia se saciar vendo os mortos. Mulheres e crianças se lançavam de joelhos à sua passagem,
gritando: “Graça, graça, gentil Sire”. Ele nada ouvia. Ele não poupou senão o bispo, quer dizer, o único
culpado, e três cavaleiros franceses que o agradaram por terem se defendido ao máximo de suas forças
(Ibid., p. 219-220 e Wals. p. 185).

Este extermínio de Limoges, que tornou o nome dos ingleses tão execrável na França, ensinou as
cidades a se defenderem bem. Era um adeus do inimigo. Ele tratava o país como se fosse a terra de um
outro, como se não contasse para ela retornar. Pouco após, sentindo-se mais doente ainda, o príncipe se
deixou persuadir pelos médicos para ir respirar o nevoeiro natal e embarcou para Londres (Froiss., ibid,
cap. 642, p. 235). Seu irmão, o duque de Lancaster, começava, sem dúvidas, a fazer-lhe sombra. O
Príncipe de Gales, que em virtude de sua doença não esperava suceder a seu pai, desejava, ao menos,
assegurar o trono a seu filho.

O rei da França agradou todo o reino ao nomear Duguesclin condestável[712]. O pequeno


cavaleiro bretão, investido nesta primeira dignidade do reino, comeu à mesa do rei, distinção feita para
espantar, quando se vê, em Cristina de Pisano (Christine de Pisan), que o cerimonial da França era que o
rei fosse servido à mesa por seus irmãos.

O novo condestável compreendia sozinho a guerra que era necessária fazer ao Inglês. As
batalhas eram impossíveis; as imaginações estavam amedrontadas desde Crécy e Poitiers. Coisa bizarra!
Os Franceses que, sob Duguesclin, forçaram os Ingleses em várias praças-fortes, hesitavam em encontrar,
na planície, aqueles a quem não temiam dar assalto. Era-lhes necessário, quando menos, ser o dobro.
Eles começaram a se sentir mais seguros quando Duguesclin, seguindo o exército de Knolles em sua
retirada, derrotou duzentos Ingleses com quatrocentos Franceses (Froiss., ibid., p. 225-229).

O que servia Carlos V melhor que Duguesclin, melhor que todo mundo, era a loucura dos
Ingleses, a vertigem que os levava de erro em erro. Eles fizeram que o duque da Bretanha se declarasse a
seu favor. Mas a Bretanha era contra. Eles conseguiram provocar a ruína de Montfort a quem tinham
conseguido estabelecer a duras penas. Os Bretões expulsaram seu duque[713].

A aliança de Castela pouco servira, até então, a Carlos V. Os Ingleses se encarregaram de


estreitá-la, de torná-la eficaz. O duque de Lancaster, em sua ambição extravagante, casou-se com a filha
primogênita de D. Pedro e o conde de Cambridge desposou a segunda filha. Era uma enfatuação inaudita,
inacreditável. A Inglaterra, que não pudera conquistar a França, propunha-se também a conquista da
Espanha.

O resultado desta nova imprudência foi a de dar uma frota aos Franceses. O rei de Castela,
ameaçado por aquele casamento, enviou uma armada a Carlos V. Os grandes vasos espanhóis, carregados
de artilharia, acabaram, à frente de La Rochelle, com os pequenos navios dos Ingleses e seus arqueiros
(Froiss., V, cap. 658, p. 273-6). La Rochelle aplaudiu e expulsou os vencidos. Ela se entregou à França,
mas com boas reservas e sob condições, de forma a permanecer uma república sob o rei[714].

Este grande evento carregou todo o Poitou. Eduardo e o príncipe de Gales, o ancião e o enfermo,
voltaram ao mar e tentaram vir em socorro. O mar não os queria mais. Ele os reconduzia, de bom ou mau
grado, à Inglaterra. A cidade de Thouars sucumbiu. Duguesclin derrotou o que restava de Ingleses em
Chizé. A Bretanha seguiu: foi questão de alguns sítios (Ibid., cap. 678, p. 43-44). O só capitão que
restava aos Ingleses era um Gascão, o Captal de Buch; um dos melhores que os Franceses poderiam ter
era um Galês, um descendente dos príncipes de Gales que assim vingava seus avós servindo à França. O
Galês pegou o Gascão: Carlos V manteve preciosamente, na torre do Templo, este importante
prisioneiro, sem jamais permitir-lhe resgatar-se[715].

O segundo filho de Eduardo III, o duque de Lancaster, tronco deste ambicioso ramo de Lancaster
que fez a glória e a desgraça da Inglaterra no século XV, tomara o título de rei de Castela. Ele se fez
nomear capitão-general do rei da Inglaterra na França e seu lugar-tenente na Aquitânia, onde os Ingleses
quase não tinham mais nada. Há uma tal força de orgulho no caráter inglês, uma paixão tão teimosa, que,
após tantos homens e dinheiro jogados e perdidos, eles fizeram uma nova aposta para levar tudo.
Conseguiram ainda encontrar um novo exército para dar a seu capitão da Aquitânia. Desembarcando em
Calais (1374), Lancaster cruzou a França sem encontrar nada para fazer, nem batalha a travar, nem cidade
a tomar: tudo estava fechado, trancado, em defesa. Os Ingleses não puderam extorquir senão alguns
vilarejos. Enquanto estiveram no norte, os víveres abundavam: “Eles jantavam esplendidamente todos os
dias”. Mas, desde que chegaram na Auvérnia, não encontraram mais víveres, nem forragens. A fome e as
doenças fizeram estragos terríveis no exército. Eles haviam partido de Calais com trinta mil cavalos e
chegaram a pé na Guiana[716]: era um exército de mendigos; pediam, de porta em porta, seu pão aos
Franceses[717].

A chegada desse exército em Bordeaux teve, entretanto, um efeito: os Gascões, que não eram
mais Ingleses e que não estavam com pressa de se tornar Franceses, se atreveram e declararam ao
condestável da França que prestariam homenagem àquele dos dois que batesse o outro. Foi assim
combinado que uma batalha ocorreria no dia 15 de abril em Moissac. Depois, os Ingleses a adiaram para
o dia 15 de agosto; depois, ainda, pediram que a mesma ocorresse perto de Calais. Os atos, não tendo
sido conservados, não sabemos muito do que foi convencionado. No dia 15 de agosto, os Franceses
compareceram a Moissac, se posicionaram para a batalha, aguardaram e não viram ninguém. Então,
obrigaram os Gascões a honrarem sua palavra. Para os Ingleses, não restaram, na França, senão as
cidades de Calais, Bayonne e Bordeaux (1374 – Wals., p. 187-8. Froiss., VI, cap. 688, p. 78).

Este esforço que nada alcançara, este golpe dado no ar, fez-lhes muito mal. O esgotamento que
se seguiu foi de tal monta, que Eduardo aceitou a mediação do Papa, tantas vezes recusada. O grunhido
do povo tornava-se alto demais para o rei. Este violento dogue, que fora por tanto tempo conduzido pelo
sabor de uma presa que sempre recuava, começava a dar mostras de querer se lançar contra seu dono. A
um custo incrível fizera-se a guerra ser querida na Inglaterra. Esta já estava lassa na Batalha de Crécy.
Quando o Lord-chanceler perguntava às pessoas das comunas, para picá-las em sua honra: “Como então?
Desejaríeis vós uma paz perpétua?”; eles respondiam ingenuamente: “Sim, claro! Nós aceitaríamos!”
(Hallam, p. 217 – ano 1350). – Então, fez-se com que acreditassem que tudo acabaria com a tomada de
Calais. Depois, veio a vitória de Poitiers, a qual virou-lhes a cabeça. Essas pessoas imaginavam que o
resgate do rei da França as dispensaria, para sempre, de pagar tributo. Após, foram atiçadas com a
Espanha, com o famoso tesouro escondido de D. Pedro. O dinheiro da Espanha não vindo, elas foram
persuadidas a tomar a própria Espanha.

Em 1376, essa gente fez as contas e constatou que nada tinha, nem dinheiro, nem Espanha e nem
França. Seu mau-humor foi extremo. Ela se virou para o rei, para o duque de Lancaster que tinha, então, a
principal influência. Seu irmão primogênito, o príncipe de Gales, embora muito doente, se mostrava
favorável à oposição. O parlamento de 1376, chamado de o bom parlamento, não se deixou mais levar
por palavras. Ele perguntou o que ocorrera com todo aquele dinheiro, esses subsídios, esses resgates da
França e da Escócia. Ele atacou brutalmente Eduardo, desnudou sem piedade as fraquezas reais, o
perseguiu em seu lar, em seu quarto de dormir.

O velho rei era governado por uma jovem mulher casada, Alice Perrers, dama de companhia da
rainha, bela, ousada, impudente[718]. A pobre rainha, que tudo via, fizera, quando morria, este pedido ao
rei: “Que ele ao menos desejasse ser enterrado ao seu lado em Westminster”, esperando, ao menos na
morte, tê-lo para si.

As jóias da rainha foram dadas a Alice. A criatura se fazia dar, tomava ou roubava. Ela vendia
cargos e mesmo julgamentos. Ela ia pessoamente ao Tribunal do Rei (King’s Bench) patrocinar causas.
Os juízes da igreja, os doutores em Direito Canônico, estavam expostos, em seus julgamentos, a ver a
bela Alice vir ousadamente falar-lhes à orelha[719]. O parlamento instou o rei a afastar esta mulher e
outros maus conselheiros.

O príncipe de Gales morreu, deixando um filho muito jovem. O duque de Lancaster, entre este
sobrinho novo e seu velho pai, era, efetivamente, o rei. Os conselheiros retornaram. A votação de uma
pesada taxa foi extorquida do parlamento. O duque, que tinha muita necessidade de outros recursos para
sua futura conquista da Espanha, se preparava para deitar a mão sobre os bens do clero. Já ele lançara
contra os padres o famoso orador Wickliffe; ele o apoiava, com todos os grandes senhores, contra o
bispo de Londres. O povo de Londres, a respeito de uma palavra insolente de Lancaster contra seu bispo,
se sublevou e quase fez o duque em pedaços (Walsingham, p. 192).

Durante toda essa confusão, o velho Eduardo III morria em Eltham, abandonado à mercê de sua
Alice. Ela o enganava até o final, permanecendo perto de seu leito, lisojeando-o e desejando-lhe um
pronto restabelecimento, impedindo-o de cuidar de sua saúde. Quando ele não mais conseguiu falar, ela
arrancou-lhe seus anéis dos dedos e o deixou lá[720].

O filho e o pai morreram com um ano de distância. Esses dois nomes, aos quais se vinculam tais
eventos, ainda são, talvez, as mais caras lembranças da Inglaterra. Ainda que o príncipe tenha em grande
parte devido a John Chandos suas vitórias de Poitiers e de Najara, ainda que seu orgulho tenha sublevado
os Gascões e armado Castela contra a Inglaterra, poucos homens melhor mereceram o reconhecimento de
seu país. Nós mesmos, a quem ele causou tantas tristezas e males, não podemos ver sem respeito, em
Canterbury, o tabardo[721] do grande inimigo da França. Este péssimo farrapo de couro furado pelas
traças brilha entre todos os ricos escudos heráldicos que ornamentam a igreja. Ele sobreviveu quinhentos
anos ao nobre coração que cobria[722].

Quando o rei da França soube da morte de Eduardo, ele disse que lá havia um glorioso reino e
que um tal príncipe merecia ser lembrado entre os corajosos. Ele reuniu inúmeros prelados e senhores e
mandou fazer um serviço fúnebre na Santa Capela (Froiss., cap. 692, p. 105). Na Inglaterra, os funerais
foram atrapalhados. Quatro dias após a morte de Eduardo, a frota de Castela, carregada de tropas da
França, correu todo o litoral queimando cidades: Wight, Rye, Yarmouth, Dartmouth, Plymouth e
Winchelsea (Ibid., cap. 693, p. 107). Jamais, dos viventes Eduardo e Príncipe de Gales, a Inglaterra
experimentara um semelhante desastre.

De todas as partes, o rei da França fazia uma guerra de negociações. Já há cinco anos ele
impedia o casamento de um filho de Eduardo com a herdeira de Flandres, por falta de dispensa papal; ele
obteve, sem dificuldade, esta dispensa para seu irmão, o duque da Borgonha, parente da jovem condessa
em mesmo grau. O pai dela não desejava esse casamento, não mais que as cidades de Flandres. Mas a
avó, condessa do Artois e do Franco-Condado, mandou dizer a seu filho, o conde de Flandres, que o
deserdaria se não desse a mão de sua filha ao príncipe francês. O casamento se fez para desespero do rei
da Inglaterra, que via esta imensa sucessão prestes a escoar para a Casa da França. A França, mutilada a
oeste, formava seu vasto cinturão do leste e do norte.

Esta derrota, e aquelas que os Ingleses provaram perto de Bordeaux, iam convencê-los a fazer o
que deveriam ter feito desde o início: unir-se ao rei de Navarra. Eles lhe dariam Bayonne e a região
vizinha e ele seria o lugar-tenente dos Ingleses na Aquitânia. O Navarrense, mais fino que hábil, enviava
seu filho a Paris para melhor enganar o rei, enquanto tratava com os Ingleses. A ele ocorreu como a Luís
XI em Péronne. Sua fineza o levou à armadilha. O rei ficou com seu filho, retomou-lhe Montpellier e
tomou seu condado de Évreux. Prendeu-se seu lugar-tenente Dutertre, seu conselheiro Du Rue que, dizia-
se, viera para envenenar o rei. Acusava-se Carlos o Mau de já antes ter envenenado a rainha da França, a
rainha de Navarra e outros também (Secousse, ‘Hist. de Charles-le-Mauvais’, t. 1, 2ª parte, p. 173).
Tudo isto não era improvável: este principezinho, exasperado pelas suas longas desgraças, podia tentar
retomar pelo ardil e pelo crime o que a força tinha-lhe levado. Ele tinha motivos para odiar os seus, tanto
quanto o inimigo. Sua mulher o enganava com um bravo capitão gascão dos Ingleses, o Captal de
Buch[723]. Du Rue confessou somente que Carlos o Mau contava em envenenar o rei por meio de um
jovem médico de Chipre, o qual podia se introduzir facilmente perto de Carlos V e agradá-lo “porque
falava um bom latim e era muito argumentador”. Dutertre e Du Rue foram executados. Carlos V tirou
desse processo o benefício de aviltar, de desonrar o rei de Navarra, de construir-lhe uma reputação de
envenenador, de assim matar suas pretensões ao trono da França.

Carlos o Mau perdeu tudo no norte, com exceção de Cherbourg. No sul, os Castelhanos o
ameaçavam. Ele teria perdido a própria Navarra, se os Ingleses não tivessem vindo socorrê-lo. Os
Gascões ajudaram os Ingleses. Estes últimos, em seguida, tentaram tomar Saint-Malo e não foram bem
sucedidos, assim como os Franceses em relação a Cherbourg. Todo este grande movimento de guerra não
deu em nada novamente. O rei da França não pôde ser forçado nem a combater e nem a se render; ele
manteve as mãos cheias[724].

A habilidade de Carlos V e o enfraquecimento dos outros estados tinham, ao menos na opinião,


reerguido a França. Toda a cristantade olhava de novo em sua direção. O Papa, Castela, a Escócia, viam
o rei como um protetor. Irmão do futuro conde de Flandres, aliado dos Visconti, ele via os reis de Aragão
e da Hungria ambicionarem sua aliança. Ele recebia as embaixadas longínquas do rei de Chipre, do
sultão de Bagdá, que se dirigiam a ele como ao primeiro príncipe dos Francos[725]. Mesmo o próprio
Imperador prestou-lhe uma espécie de homenagem, visitando-o em Paris. Após ter alienado os direitos
do Império na Alemanha e na Itália, ele vinha dar ao delfim o título do reino de Arles (Crist. Pisano, p.
97).

A súbita restauração do reino da França era um milagre que cada um desejava ver. De todas as
partes, vinha-se admirar esse príncipe que tanto perseverara, que vencera à força de não combater[726],
esta paciência de Jó, esta sabedoria de Salomão. O século XIV se desenganava da cavalaria e das
loucuras heróicas para reverenciar Carlos V, o herói da paciência e da artimanha.

Esse príncipe, naturalmente ecônomo, esse rei de um povo arruinado, surpreendia os


estrangeiros pela multiplicidade de suas construções. Ele erguia, em volta de Paris, casas ditas de
recreio, Melun, Beauté, Saint-Germain; mas toda casa era, então, um forte. Ele dava à capital uma nova
ponte (Pont-Neuf), muralhas, portas, uma boa bastilha. Ele não se fiava senão nas muralhas[727].

Perto de sua Bastilha, ele construíra, expandira, mobiliara, com o luxo de um rei e as pesquisas
cuidadosas de um doente, o vasto hôtel Saint-Paul (NT: também conhecido por hôtel Saint-Pol)[728]. A
magnificência desta morada e a esplêndida hospitalidade que nela encontravam os príncipes e senhores
estrangeiros causavam ilusão sobre o real estado do reino. O senhor de La Rivière, o amável e sutil
conselheiro de Carlos V, o típico e rematado cavaleiro dessa época, fazia-lhes as honras da casa[729].
Ele exibia-lhes a nobre morada de seu senhor, essas galerias, essas bibliotecas, esses buffets
inscrustrados de ouro, e eles o chamavam de “o rico rei”[730].

“L’eure de son descouchier au matin estoit comme de six à sept heures. Donnoit audience
mesmes aux mendres, de hardiement deviser à luy. Après, luy pigné, vestu et ordonné, ... on lui apportoit
son breviaire; environ huit heures du jour, aloit à sa messe; à l’issue de sa chapelle, toutes manières de
gens povoient bailier leurs requêtes. Après ce, aux jour députez à ce, aloit au conseil, après lequel...
environ dix heures asseoit à table... A l’exemple de David, instruments bas oyoit volontiers à la fin de ses
mangiers” (NT: A hora de seu despertar, pela manhã, era entre seis e sete horas. Dava audiência
mesmo aos menores que ousadamente fossem a ele. Após penteado, vestido e arrumado, ... era-lhe
trazido seu breviário; por volta das oito horas da manhã, ia à sua missa; à saída de sua capela, todo o
tipo de gente podia dirigir-lhe seus pedidos. Após isto, na hora apontada, ia ao Conselho, após o
qual... por volta das dez horas, sentava-se à mesa... A exemplo de Davi, música suave ouvia com
prazer ao fim de suas refeições).

“Erguendo-se de sua mesa, quando da colação, em sua direção podiam ir todos os tipos de
estrangeiros. Eram-lhe assim trazidas notícias de todos os tipos de países, aventuras de suas guerras...
durante o espaço de duas horas; depois, ia se repousar por uma hora. Após seu dormir, tinha um tempo
com seus mais próximos confidentes, olhando jóias ou outras coisas caras. Depois, ia às vésperas.
Após,... no verão, entrava em seus jardins, onde mercadores vinham trazer-lhe veludos, tecidos de ouro,
etc. No inverno, ocupava-se frequentemente a ouvir as leituras que lhe faziam das várias belas histórias
das Santas Escrituras, ou casos de romances ou moralidades dos filósofos e de outras ciências, até a hora
do jantar, para o qual comparecia cedo, após o que divertia-se com algo, por uma hora, e depois se
retirava. Para prevenir vãs e vazias palavras e pensamentos, tinha (no jantar da rainha) um homem sábio
ao final da mesa que, sem cessar, contava atos de costumes virtuosos de alguns bons homens já
trespassados” (Cristina de Pisano, p. 277-82 e 286).

Os filósofos com os quais o rei adorava discutir eram seus astrólogos[731]. Seu astrólogo em
título, um italiano, Thomas de Pisano (NT: também Tommaso di Benvenuto da Pizzano e pai de Cristina
Pisano), fora propositalmente chamado de Bolonha; o rei dava-lhe cem libras por mês. Essa gente, não
importando quais fossem seus meios de prever, não se enganavam muito. Eles eram cheios de finura e de
sagacidade. Carlos V presenteou Duguesclin com um astrólogo ao enviar-lhe a espada de condestável
(Ibid., p. 209).

O pouco que sabemos de Carlos V, de seus julgamentos, de suas palavras, indica, como todo o
seu reino, uma suave e fria sabedoria, talvez, também, alguma indiferença para o bem e para o mal[732].
“Considerando”, disse sua historiadora, “a fragilidade humana, ele jamais permitiu aos maridos
emparedar suas mulheres por malfeito de corpo (NT: infidelidade), ainda que tivesse sido muitas vezes
suplicado”[733]. – Ele surpreendeu três vezes seu barbeiro, em flagrante delito de furto e com a mão no
bolso, sem se irritar, nem puni-lo[734].

Carlos V é, talvez, o primeiro rei desta nação, até aí tão leviana, que soube preparar de longe
um sucesso, o primeiro que compreendeu a influência, longínqua e lenta, mas desde então real, dos livros
sobre as brigas. O prior Hononé Bonnor escreveu, por ordem do rei, sob o bizarro título de “A Árvore
das Batalhas”, o primeiro ensaio sobre o direito da paz e da guerra. Seu advogado-geral, Raul de
Presles, pôs a Bíblia em língua vulgar muitos antes antes de Lutero e Calvino. Seu antigo preceptor,
Nicolas Oresme, traduzia a outra bíblia da época: Aristóteles. Oresme, Raoul de Presles, Philippe de
Maizières trabalhavam, possivelmente em esforço comum, nesses grandes livros do Sonho do Pomar
[Songe du Verg(i)er], do Sonho do Velho Peregrino (Songe du Vieux Pèlerin), romances enciclopédicos
onde todas as questões do tempo eram tratadas e que preparavam o rebaixamento do poder espiritual e o
confisco dos bens da Igreja. Foi também assim que, no século XVI, Pithou, Passerat e alguns outros
trabalharam juntos na Menipéia (Ménippée).

As despesas cresciam, o povo estava arruinado; somente a Igreja podia pagar. Era esta toda a
idéia do século XIV. Na Inglaterra, o duque de Lancaster, para apressar a coisa, aproveitou-se de Wycliff
e dos Lollardos e quase derrubou o reino com a confusão. Na França, Carlos V a preparava com uma
hábil lentidão. Ela, entretanto, era premente. A aparente restauração da França não podia enganar o rei.
Ele apenas vivia de expedientes: era obrigado a pagar os juízes com as próprias multas que estes
pronunciavam, a vender a impunidade aos usurários, a se colocar nas mãos dos judeus. Conforme os
privilégios monstruosos que João vendera a estes para pagar seu resgate, os judeus estavam quites com
os impostos, isentos de qualquer jurisdição, salvo aquela de um príncipe de sangue nomeado guardião de
seus privilégios (Ord. III, p. 351 e 471. Conf. à IV – 04 de fevereiro de 1364). Não havia cartas reais
com força contra eles (Ord. III, p. 478, art. 26). Eles prometiam não exigir nada além de quatro denários
de juros semanais por libra. Mas, ao mesmo tempo, tudo o que dissessem e jurassem contra seus
devedores deveria ser tido como crível[735].

O príncipe, o protetor dos judeus, devia ajudá-los na recuperação de seus créditos, quer dizer, o
rei se fazia bailio dos judeus a fim de partilhar. O dinheiro extorquido por tais meios custava ao povo
muito mais que rendia ao rei[736].

Não se podendo despojar o padre, era necessário passar entre as mãos do judeu. O judeu e o
padre eram os únicos a ter dinheiro. Não havia ainda nem produção de riqueza pela indústria, nem
circulação pelo comércio. A riqueza era o tesouro; tesouro escondido do judeu, surdamente alimentado
pela usura; tesouro do padre, por demais visível nas igrejas, nos bens da igreja.

A tentação era grande para Carlos V, mas a dificuldade era tão grande quanto. Os padres tinham
sido seus mais zelosos auxiliares contra o Inglês. Foram eles, em grande parte, que haviam entregue a
Aquitânia, tal como outrora a deram a Clóvis.
Havia dois objetos de querelas entre o poder espiritual e o temporal, o dinheiro e a jurisdição.
A questão da jurisdição entrava em grande parte naquela do dinheiro, pois a justiça pagava-se a si
mesma[737].

As primeiras queixas contra o clero partem dos senhores, e não dos reis, em 1205 (‘Libertés de
l’Église Gallic’., I, III, p. 4). Os senhores, como fundadores e patronos das igrejas, estavam bem mais
diretamente interessados na questão. Sob o reinado de São Luís, eles formam uma confederação contra o
clero, decidem o quanto cada um deve contribuir para sustentar esta espécie de guerra, nomeiam
representantes para prestar mão forte àqueles dentre si que seriam golpeados por sentenças eclesiásticas
(Ibid., I, II, 99). Na famosa Pragmática de São Luís (1270), ato até aqui pouco compreendido, o rei pede
que as eleições eclesiásticas sejam livres, quer dizer, deixadas à influência real e feudal[738].

Filipe o Belo teve os senhores por si em sua luta contra o Papa. Eles formaram uma nova
confederação feudal que assustou os bispos e entregou ao rei a Igreja da França. A concordância desta
Igreja entregou-lhe o próprio Papado. Entretanto, no começo e no fim de seu reinado, Filipe desferiu dois
golpes de uma imparcialidade ousada: a maltôte, que atingia os nobres e os padres, tanto quanto os
burgueses, e a supressão do Templo, da cavalaria eclesiástica.

A realeza triunfante sob Filipe de Valois fez-se dar, pelo Papa, tudo aquilo que ela desejava
sobre as rendas da Igreja da França. Ela teve, inclusive, a pretensão de cobrar e receber os dízimos da
cruzada de toda a cristandade. Indenizando-se dos dízimos, regalos, etc., as igrejas procuravam aumentar
os lucros de suas justiças, avançar sobre as jurisdições laicas, senhoriais ou reais. O rei pareceu querer
ministrar o remédio: no dia 22 de dezembro de 1329, teve lugar, em sua presença, no castelo de
Vincennes, uma solene discussão jurídica entre o advogado Pierre Cugnières e Pierre du Roger,
arcebispo de Sens. O primeiro sustentava os direitos do rei e dos senhores[739]. O segundo defendia
aqueles do clero e falou sobre este texto: “Deum timete; regem honorificate” (NT: Teme a Deus; honra o
rei); e ele desdobrou esse preceito nos quatro seguintes: “Servir a Deus devotamente; doar-Lhe
largamente; honrar Seu povo devidamente; entregar-se a Ele inteiramente” (Ibid. 7).

Eu sou levado a acreditar que toda esta disputa não fosse senão uma satisfação dada pelo rei aos
senhores. Ele a finalizou dizendo que, bem ao invés de querer diminuir os privilégios da Igreja, ele antes
os aumentaria[740]. Somente, ele estabeleceu, por uma Ordenação, seu direito de regalos sobre os
benefícios vacantes (1334). Dos dois advogados, aquele do clero se tornou Papa (NT: Clemente VI);
aquele do rei e dos senhores foi, diz um sério historiador, universalmente calado por assovios: seu nome
permaneceu sinônimo de mau argumentador[741]. E não foi tudo. Havia, em Notre-Dame, uma figura
grotesca de um condenado, como se via outrora de Dagoberto importunado pelos diabos; esta figura feia
e de nariz achatado foi chamada Messire Pierre du Coingnet. Toda a gente do clero, subdiáconos,
sacristãos, ajudantes de sacristãos, crianças do coro, plantavam suas velas sobre o nariz do pobre diabo
ou, para apagar seus círios, batiam-lhe no rosto[742]. “Pedro do Cantinho” teve de suportar essa
vingança de sacristia por quatrocentos anos.

As igrejas estavam entre o martelo e a bigorna, entre o rei e o Papa. Quando um bispado vacante
pagara ao rei durante um ano ou mais os regalos da vacância, o novel eleito pagava ao Papa o annatum
ou primeiro ano da renda[743].

Uma outra coisa da qual mais se queixavam os senhores patronos da igreja e os cônegos ou
monges que concorriam às eleições, era o que se chamava de Reservas. O Papa interrompia subitamente
a eleição; ele declarava que se reservara a nomeação para tal bispado ou qual abadia. Essas Reservas,
que frequentemente resultavam num pastor italiano ou francês para uma igreja da Inglaterra, da Alemanha,
da Espanha, eram muito odiosas. Entretanto, tinham a vantagem de subtrair as grandes sés às estúpidas
influências feudais que não teriam apresentado senão sujeitos indignos, cadetes da nobreza, primos dos
senhores. Os Papas às vezes pescavam, do fundo de um convento ou da poeira das universidades, um
douto e hábil clérigo para fazê-lo bispo, arcebispo, primaz das Gálias ou do Império.

Os Papas de Avignon não apresentaram, em sua maioria, esta alta política. Pobres servidores do
rei da França, eles deixavam o Papado ir à deriva, tornar-se o que podia se tornar. Eles não viam nas
Reservas senão um meio de vender colocações, de praticar a simonia à grande. João XXII declarou
afrontosamente que, por ódio à simonia, ele se reservava todas as sedes vacantes da cristandade no
primeiro ano de seu pontificado[744]. Esse filho de um sapateiro remendão de Cahors deixou, ao morrer,
um tesouro de vinte e cinco milhões de ducados. Os homens da época acreditaram que ele encontrara a
pedra filosofal (vide acima).

Bento XII estava tão espantado com o estado em que via a Igreja, as intrigas e a corrupção que o
cercavam, que preferiu deixar os benefícios vacantes; ele se reservava as nomeações e não nomeava
ninguém[745]. Ele morto, a torrente retomou seu curso. Quando da eleição do pródigo e mundano
Clemente VI, assegura-se que mais de cem mil clérigos foram a Avignon comprar os benefícios[746].

É preciso ler os dolorosos lamentos de Petrarca sobre o estado da Igreja, suas invectivas contra
a Babilônia do Ocidente. É, ao mesmo tempo, Juvenal e Jeremias. Avignon é, para Petrarca, um outro
labirinto, mas sem Ariadne, sem o fio libertador; ele aí encontra a crueldade de Minos e a infâmia do
Minotauro[747]. Ele pinta com desgosto os velhos amores dos príncipes da Igreja, esses queridinhos de
cabeça branca... Mil histórias escandalosas corriam. O conto absurdo da Papisa Joana tornou-se
provável[748].

A erudita indignação de Petrarca podia inspirar alguma desconfiança. Um julgamento mais


pesado para o povo era aquele de Santa Brigite (ou Brígida da Suécia) e das duas Santas Catarina. A
primeira mandou dizer pela boca do próprio Jesus as seguintes palavras ao Papa de Avignon: “Assassino
das almas, pior que Pilatos e Judas! Judas vendeu apenas a mim. Tu, tu vendes também as almas dos meus
eleitos”[749].

Os Papas que se seguiram a Clemente VI foram menos sujos, mas mais ambiciosos. Eles
tornaram a Igreja conquistadora, desolaram a Itália. Clemente comprara Avignon da rainha Joana ao
absolvê-la da morte de seu marido. Seus sucessores, com a ajuda das Companhias, retomaram todo o
patrimônio de São Pedro. Esta associação do Papa com os malfeitores ingleses e bretões levou aos
píncaros o exaspero dos Italianos. A guerra se tornou atroz, recheada de ultrajes e barbáries. Os Visconti
deram aos legados papais que traziam sua excomunhão a escolha de serem afogados ou comerem a bula.
Em Milão, lançava-se os padres nos fornos acesos; em Florença, desejava-se enterrá-los vivos. Os Papas
sentiram que a Itália lhes escaparia se não partissem de Avignon.

Eles certamente passaram a não querer ficar mais nesta cidade depois de terem sido extorquidos
pelas Companhias. A humilhação e o rebaixamento da França os deixava livres para escolher sua estadia.
Urbano V (1362-1370), o melhor desses Papas, tentou se fixar em Roma. Ele para aí foi e não pôde ficar.
Gregório XI (1370-1378) nela se estabeleceu e aí morreu.

Quando da morte deste último, os Franceses tinham uma maioria segura no conclave. Entretanto,
esse conclave ocorria em Roma e os cardeais ouviam um povo furioso gritar à sua volta: “Romano lo
volemo o almanco italiano” (NT: Romano o queremos ou ao menos italiano). Dos dezesseis cardeais
que participaram do conclave, não havia senão quatro Italianos e um Espanhol, onze eram Franceses
(Bulæus, IV, p. 470). Os Franceses estavam divididos. Dois dos últimos Papas, que eram do Limousin,
tinham nomeado vários cardeais de sua província. Esses Limousenses viam que os outros Franceses os
excluíam do papado, se uniram aos Italianos e nomearam um Italiano que, de resto, acreditavam devotado
à França, o calabrês Bartolomeo Prignano (NT:Urbano VI).

Ocorreu, como na eleição de Clemente V, exatamente o contrário do que se esperava mas, desta
vez, em prejuízo da França. Urbano VI, homem de sessenta anos, até aí considerado como muito
moderado, pareceu ter perdido o espírito a partir do momento que se tornou Papa. Ele dizia que desejava
reformar a Igreja, mas começava pelos cardeais, pretendendo, dentre outras coisas, reduzi-los a ponto de
terem sobre a mesa apenas um prato. Eles se safaram, declararam que a eleição fora submetida à coação
e fizeram um outro Papa. Eles escolheram um grande senhor, Roberto de Genebra, filho do conde de
Genebra, que mostrara, nas guerras da Igreja, muita audácia e ferocidade. Eles o chamaram Clemente VII,
sem dúvida em memória de Clemente VI, um dos Papas mais pródigos e mundanos que jamais
desonraram a Igreja Católica. Clemente VII, de concerto com a rainha Joana de Nápoles, contra quem
Urbano VI se declarara, ele e seus cardeais tomaram a soldo uma companhia de Bretões que rodava pela
Itália. Mas esses Bretões foram derrotados por Barbiano, um bravo condottiere que formara a primeira
companhia italiana contra as companhias estrangeiras (Sismondi, ‘Rép. Ital.’, VII, p. 154). Clemente se
salvou na França, em Avignon. Eis aí dois Papas, um em Avignon e outro em Roma, se afrontando e se
excomungando mutuamente[750]. Não se podia aguardar que a França e os estados que então seguiam seu
impulso (Escócia, Navarra e Castela) se permitiriam ser tão facilmente desapossados do Papado. Carlos
V reconheceu Clemente VII. Ele sem dúvida pensou que, embora toda a Europa fosse por Urbano VI,
valia mais para si ter um papa francês, uma espécie de patriarca do qual pudesse dispor. Esta política
egoísta foi-lhe amargamente reprovada. Considerou-se que todas as desgraças seguintes, a loucura de
Carlos VI e as vitórias dos Ingleses, tinham sido uma punição do céu[751].

Assegura-se que os cardeais franceses tinham inicialmente a idéia de fazer papa o próprio
Carlos V. Ele teria recusado sob o argumento de ser inválido de um braço e, portanto, não poderia
celebrar a missa[752]. Um Papa Rei da França teria unido o mundo contra si.

Foi a duras penas que o rei convenceu a Universidade a se decidir em favor de Clemente VII. As
faculdades de Direito e de Medicina eram, sem dificuldades, a favor do papa do rei. Mas aquela das
artes, composta de quatro nações, não encontrava concordância entre si. As nações Francesa e Normanda
eram por Clemente VII, enquanto a Picarda e a Inglesa exigiam a neutralidade. A Universidade, não
conseguindo chegar a um voto unânime, suplicava que lhe dessem tempo (Bulæus, IV, 566). O rei tomou a
questão para si e escreveu de Beauté-sur-Marne que possuía informações suficientes: “O papa Clemente
VII é o verdadeiro pastor da Igreja Universal... se vós levardes isto a uma recusa ou atraso, vós me
desagradareis” (Ibid., p. 568).

Carlos V bem desejou ganhar Flandres para seu papa e, por ele, a Inglaterra. Ele mandou dizer
ao conde de Flandres que Urbano falava muito mal dos Ingleses, que ele dissera, em virtude de sua
conduta no que tange à Santa Sé, que os Ingleses eram heréticos (Ibid., p. 521). Flandres e Inglaterra, no
entanto, reconheceram o Papa de Roma em prejuízo daquele de Avignon. Urbano VI já tinha a Itália por
si. A Alemanha, a Hungria e Aragão abraçaram sua causa. As duas santas populares, Catarina de Siena e
Catarina da Suécia, o reconheceram, assim como o infante Pedro de Aragão, que também era considerado
um santo homem. Solicitou-se, coisa inaudita!, uma consulta ao mais famoso jurisconsulto da época sobre
a eleição do Papa; Baldo de Ubaldo (NT: Baldo degli Ubaldi) decidiu que a eleição de Urbano fora boa
e válida, dizendo, com aparência suficiente, que, se a eleição tivesse sofrido coação, os próprios
cardeais coagidos não teriam retornado por si mesmos após o tumulto e que haviam entronizado Urbano
VI em plena liberdade (Ibid., p. 464).

Um acontecimento impossível de prever pusera quase toda a Cristandade em oposição à França.


A fortuna zombava da sabedoria. A rainha Joana de Nápoles, prima e aliada do rei, foi, pouco após,
deposta por Urbano VI, destronada por seu filho adotivo Carlos de Dirráquio {NT: Carlos III de
Nápoles, duque de Dirráquio (Durrës, na atual Albânia)} e estrangulada em punição de um crime que
datava de trinta e cinco anos.

Toda a Europa se agitava. O movimento era geral; mas as causas infinitamente diversas. Os
Lolardos da Inglaterra pareciam pôr em perigo a igreja, a monarquia, a propriedade inclusive. Em
Florença, os Ciompi faziam sua revolução democrática. A própria França parecia escapar a Carlos V.
Três províncias, as mais excêntricas, mas talvez as mais vitais, se revoltaram.

O Languedoc explodiu primeiro. Carlos V, preocupado com o Norte e sempre olhando na


direção na Inglaterra, fizera de um de seus irmãos uma espécie de rei do Languedoc. Ele confiara esta
província ao duque d’Anjou, pelo qual ele pretendia atingir Aragão e Nápoles, enquanto seu outro irmão,
o duque da Borgonha, ia ocupar Flandres. Mas a França, miseravelmente arruinada, não era capaz de
conquistas longínquas. A fiscalidade, então tão dura em todo o reino, tornou-se uma atroz tirania no
Languedoc. Esses ricos municípios do sul, que não prosperavam senão pelo comércio e pela liberdade,
foram talhados sem perdão, como se fossem um feudo do norte. O príncipe feudal não desejava nada
respeitar seus privilégios. Era-lhe necessário, o quanto antes, dinheiro para invadir a Espanha e a Itália,
para reiniciar as famosas vitórias do antigo Carlos d’Anjou.

Nîmes se sublevou (1378); mas, vendo-se só, se submeteu (‘Hist. du Languedoc’, l. XXXII, cap.
91, p. 365). O duque d’Anjou agravou ainda mais os impostos. Ele impôs, em março de 1379, um
monstruoso direito de cinco francos e dez grossas sobre cada feudo. No mês de outubro, nova taxa de
doze francos-ouro por ano, um franco por mês (Ibid., cap. 95, p. 368). Para esta última, o pagamento era
impossível. A província estava de tal forma arruinada que, em trinta anos, a população se reduzira de
cem mil famílias para trinta mil. Os cônsules de Montpellier recusaram-se a cobrar o último tributo. O
povo massacrou os agentes do duque d’Anjou. Clermont-Lodève (NT: atualmente Clermont-l’Hérault)
fez a mesma coisa. Mas as outras cidades não se mexeram. O povo de Montpellier, muito assustado,
recebeu o príncipe de joelhos e aguardou o que ele decidiria de sua sorte. A sentença foi pavorosa:
duzentos cidadãos deviam ser queimados vivos, duzentos enforcados, duzentos decapitados, mil e
oitocentos marcados com a infâmia e privados de todos os seus bens. Todos os outros receberam multas
arruinantes (Ibid., cap. 96, p. 369).

Obteve-se, com muita dificuldade, que o duque d’Anjou moderasse a sentença. Carlos V sentiu a
necessidade de retirar-lhe o Languedoc. Ele despachou comissários para reformar os abusos. De resto,
nas instruções que lhes deu, não há traço de um sentimento de homem ou de rei. Ele não se mostra
preocupado senão dos interesses do fisco e do domínio: “Como temos, no mencionado país, várias terras
lavráveis, vinhas, florestas, moinhos e outras heranças que nos forneciam ordinariamente grande renda e
lucro; terras essas que se tornaram desertas porque o povo foi mui diminuído pelas mortalidades, pelas
guerras e outras coisas, e que não há quem as possa ou deseje trabalhá-las, nem suportar os encargos e
tributos antigos, nós desejamos que nossos conselheiros possam colocar nossas heranças sob novos
encargos, expandir e diminuir os antigos”. Eles devem também revogar todas as doações e se informarem
da conduta de todos os senescais, capitães, vigários reais etc. (Ord. VI, p. 465 e 467).

A política estreita que aparece muito bem nessas instruções fez com que o rei cometesse um
grande erro, o maior de seu reinado. Ele armou contra si a Bretanha. Seus melhores guerreiros eram
Bretões; ele os cobrira de bens; ele acreditava ter, através dos mesmos, toda a região. Esses mercenários,
entretanto, não eram a Bretanha. E mesmo eles também já não estavam mais contentes com o rei. Este
ordenara aos cavaleiros doravante pagar tudo o que deveriam pagar. Ele criara um marechalado para
reprimir suas bandidagens, prebostes que corriam o país, julgavam e enforcavam.

O rei não gostava de Clisson. Ainda que o tivesse designado, após a morte de Duguesclin, para
ser o condestável, ele teria preferido indicar o Senhor de Coucy (Froiss., VII, cap. 64, p. 309).

Um primo de Duguesclin, o bretão Sévestre Budes, que adquirira muita reputação nas guerras da
Itália, foi preso, por uma suspeita, pelo papa francês Clemente VII e entregue ao bailio de Mâcon, que o
mandou matar, para grande tristeza de Duguesclin (Ibid., p. 244). Os parentes do Bretão vieram se
queixar afirmando sua inocência, ao que o rei friamente respondeu: “Se morreu inocente, a coisa é menos
deplorável para vós outros e tanto melhor para a alma dele e para vossa honradez” (Cristina de Pisano,
t. VI, p. 38).

Os Bretões eram Franceses contra a Inglaterra, mas Bretões antes de tudo. O duque deles
desejava entregá-los aos Ingleses e eles o expulsaram. O rei da França desejou reuni-los à coroa e eles
expulsaram o rei.

No dia 05 de abril de 1378, Montfort se comprometera em abrir aos Ingleses o castelo de Brest.
Aos 20 de junho, o rei adiou seu comparecimento ao parlamento e então mandou condená-lo por ausência
(Lobineau, ‘Hist. de Bretagne’, l. XII, cap. 97, p. 418). O procedimento foi estranho: determinou-se o
comparecimento do duque em Rennes e em Nantes, quando ele se encontrava em Flandres; não lhe foi
dado salvo-conduto; vários Pares de França não desejaram tomar parte no julgamento. O próprio rei
falou contra seu vassalo e concluiu pelo confisco. Se o ducado fosse tomado de Montfort, ele deveria
retornar à casa de Blois, conforme o tratado de Guérande que o rei garantira.

Dizer à Bretanha que, doravante, ela não seria nada além de uma mera província da França, uma
dependência do domínio, era uma coisa intrépida e, também, uma ingratidão após o que os Bretões
tinham feito para expulsar o Inglês. Evidentemente, o frio e egoísta príncipe não conhecia o povo com o
qual lidava; e não podia conhecer: há ignorâncias sem remédio, aquelas do coração.

Os Bretões, nobres e camponeses, já estavam mal dispostos. O condestável Duguesclin, em suas


guerras da Bretanha, não tratara muito bem seus compatriotas. Ele os golpeara com um focagium de vinte
soldos por feudo; ele proibira as franquias e liberdades e restabelecido a servidão da mão-morta, a qual
fora abolida pelo duque (Daru, ‘Hist. de Bretagne’, IV). O primeiro ato do governo real foi a imposição
da gabela: a Bretanha se armou.

Os burgueses se armaram como os nobres. Aqueles de Rennes se associaram expressamente aos


barões e juraram viver e morrer para a defesa comum. O duque, retornando da Inglaterra, foi acolhido
com júbilo por aqueles mesmos que o haviam expulso. Ninguém mais se lembrava se ele era um Blois ou
um Montfort, apenas que era o duque da Bretanha. Quando desembarcou próximo de Saint-Malo, todos os
barões e todo o povo o aguardavam na praia; vários entraram n’água e se puseram de joelhos. Mesmo a
própria Joana de Blois, a viúva de Carlos de Blois, que Montfort matara, veio felicitá-lo em Dinan
(Sismond, ‘Hist. de Fr.’, XI, 285. Lobineau, l. XII, c. 108, p. 423).

Os melhores capitães que o rei podia empregar contra a Bretanha eram os Bretões. Clisson
surgiu à frente de Nantes, mas não pôde se impedir de dizer às pessoas da cidade que fariam sabiamente
se não deixassem entrar em sua cidade alguém que fosse mais forte que elas. Duguesclin e Clisson foram
encontrar um exército que o duque d’Anjou reunia. Mas, ante a primeira aproximação de uma tropa bretã,
esse exército evaporou e o duque d’Anjou viu-se obrigado a pedir uma trégua[753].

O rei via seus Bretões passarem, um após o outro, para o inimigo. Aqueles que não quiseram
deixá-lo senão com sua autorização, a obtiveram sem dificuldade; mas, na fronteira, eram detidos para
serem mortos como traidores. O próprio Duguesclin, na mira por suspeitas do rei, devolveu-lhe a espada
de condestável, dizendo que partia para a Espanha porque também era condestável de Castela. Os duques
d’Anjou e de Bourbon foram mandados para acalmá-lo. Carlos V bem sentia que nada podia fazer sem
ele. Mas o velho capitão era por demais astuto para ir quebrar sua cabeça contra esta furiosa Bretanha:
era melhor permanecer rompido com o rei e ganhar tempo. Segundo toda a aparência, ele não consentiu
em retomar a espada de condestável. Foi, como amigo do duque de Bourbon e para agradá-lo, que partiu
para sitiar, no castelo de Randon, perto de Puy-en-Velay, uma Companhia que devastava a região. Aí,
então, ele caiu doente e morreu[754]. Assegura-se que o capitão da praça-forte que prometera se render
em quinze dias, caso não fosse socorrido, manteve sua palavra e veio colocar as chaves sobre o leito do
morto[755]. Isto não é improvável. Duguesclin fora a honra das Companhias, o pai dos soldados; ele
fazia a fortuna destes e se arruinava para pagar seus resgates.

Os Estados da Bretanha negociavam com o rei da França, o duque com o rei da Inglaterra.
Carlos V, não tendo desejado ouvir nenhum arranjo, os Bretões deixaram vir o Inglês. Um irmão de
Ricardo II, o conde de Buckingham, foi encarregado de conduzir um exército na Bretanha, mas
atravessando o reino pela Picardia, pela Champagne, o Beauce, o Blaisois e o Maine. Carlos V os deixou
passar. O duque da Borgonha em vão pediu-lhe a permissão de combater.

Duguesclin estava morto aos 13 de julho (1380). O rei morreu aos 16 de setembro. Neste mesmo
dia, ele aboliu todo tributo não consentido pelos Estados. Era voltar ao ponto donde seu reinado
começara.

Morrendo, ele também recomendou reconquistar os Bretões a qualquer preço (Froissart, VII,
366). Ele já ordenara que Duguesclin fosse enterrado em Saint-Denis, ao lado de seu túmulo. Seu fiel
conselheiro, o senhor de La Rivière, o foi a seus pés.

Este príncipe morreu jovem (44 anos) e nada conseguira terminar. Uma minoridade começava. O
cisma, a guerra da Bretanha, a revolta do Languedoc mal acalmada, a revolução de Flandres em toda a
sua força era um grande embaraço para um jovem rei de doze anos[756]. Ainda que Carlos V tivesse
declarado, por uma Ordenação de 1374, que doravante os reis seriam maiores aos quatorze anos, seu
filho iria permanecer menor por um bom tempo ainda; e, na verdade, por toda a sua vida.

Carlos V deixava duas coisas: praças bem fortificadas e dinheiro. Após ter tanto dado aos
Ingleses e às Companhias, ele encontrara meio de amealhar dezessete milhões. Ele escondera esse
tesouro em Vincennes, no oco de uma larga parede. Mas seu filho não o aproveitou.

O rei se acreditava seguro em relação aos burgueses. Ele confirmara e aumentara os privilégios
de todas as cidades que deixassem o partido inglês[757]. Ele proibira que os palácios de seus irmãos
servissem de asilo aos criminosos e submeteu esses palácios à jurisdição de um preboste. Consoante as
admoestações do parlamento de Paris, ele o autorizou a proferir suas determinações sem demora, não
obstante toda as cartas reais em contrário (Ord. V, 323). Ele permitiu aos burgueses de Paris adquirir
feudos sob o mesmo título que os nobres e portar os mesmos ornamentos dos cavaleiros. O rei assim
criava, no centro do reino, uma nobreza plebéia que devia aviltar a outra imitando-a. Todas as terras da
Ilha-da-França iriam, pouco a pouco, se encontrar em mãos burguesas, quer dizer, na dependência mais
imediata do rei.

Essas vantagens distantes não contrabalançavam os males presentes. O povo não suportava mais.
Os tributos eram tanto mais pesados quanto o rei, desde o início de seu reinado, sabiamente se proibira
qualquer alteração das moedas. Não sei se a falta desta última forma de imposto não fosse mesmo
lamentada; numa época onde havia pouco comércio e onde as rendas feudais eram geralmente pagas in
natura, a alteração das moedas atingia poucas pessoas e somente aquelas que podiam perder, por
exemplo, os usurários, os Judeus, os Cahorsinos, Lombardos, aqueles que faziam o banco e os negócios
de Roma ou de Avignon. Os tributos, ao contrário, não atingiam estes últimos: eles tombavam de
preferência sobre o pobre.

Só os bens da Igreja podiam vir em auxílio do povo e do rei. Mas era preciso tempo antes que
se ousasse tocá-los com as mãos. Arrebatar esses bens das fundações pias, anular as últimas vontades
dos fundadores cujas famílias ainda subsistiam, despojar os monastérios que recebiam os cadetes, as
jovens nobres[758], é o que ninguém teria tentado impunemente no século XIV.

O que demonstra quanto o clero ainda tinha de poder, foi a facilidade com a qual ele expulsara
os Ingleses das cidades do sul. O rei da França, que os padres vinham de secundar tão bem, devia nisto
pensar duas vezes antes de se indispor com eles.

(1380) O cisma punha o papa de Avignon inteiramente à discrição do rei e dava-lhe, é verdade,
a livre disposição dos benefícios em toda a igreja galicana. Mas este evento colocava a França numa
situação perigosíssima; ela se punha, de alguma forma, isolada no meio da Europa e como fora do Direito
Cristão.

Sem dúvida, foi muito para a realeza ter, em dois séculos, concentrado em suas mãos as duas
forças da Idade Média, a igreja e a feudalidade. As dignidades eclesiásticas foram, doravante,
asseguradas aos servidores do rei, os feudos reunidos à coroa ou tornados apanágios dos príncipes de
sangue. As grandes Casas feudais, esses símbolos viventes das provincialidades, foram se extinguindo
pouco a pouco[759]. As diversidades da Idade Média se fundiam na unidade. Mas a unidade ainda era
fraca.

Se o próprio Carlos V não pôde fazer muito, ele ao menos legou à França o tipo do rei moderno
que ela não conhecia. Ele ensinou aos doidivanas de Crécy e de Poitiers o que era reflexão, paciência,
perseverança. A educação devia ser longa; eram necessárias lições. Mas, ao menos, o fim fora apontado.
A França devia se encaminhar, lentamente, é verdade, para Luís XI e para Henrique IV, para Richelieu e
para Colbert.

Nas misérias do século XIV, a França começou a se conhecer melhor. Ela inicalmente soube o
que não era e, assim, soube que não desejava ser inglesa. Ao mesmo tempo, ela perdia alguma coisa do
caráter religioso e cavaleiresco que a confundira com o resto da cristandade durante a Idade Média, e ela
se via, pela primeira vez, como Nação e como Prosa. Ela atingia com Froissart, de um só golpe, a
perfeição da prosa narrativa[760]. O progresso da língua é imenso de Joinville a Froissart, quase nulo de
Froissart a Comines.

Froissart é verdadeiramente a França de então: no fundo, completamente prosaico, mas


cavaleiresco de forma e gracioso no abordar. O galante capelão, “que servia madame Filipa com belas
narrativas e lais de amor,” conta-nos sua história tão indolentemente quanto cantava sua missa. Dos
amigos ou dos inimigos, dos Ingleses ou dos Franceses, do bem ou do mal, o contador trata-os
igualmente. Aqueles que o acusam de parcialidade, não o conhecem verdadeiramente. Se ele parece,
algumas vezes, preferir o Inglês, é porque o Inglês foi bem sucedido[761]. Pouco lhe importa, desde que,
de castelo em castelo, de abadia em abadia, ele conte e escute belas histórias, como o vemos, em sua
viagem aos Pirineus, caminhando, o satisfeito e alegre padre, com seus quatro lebréus na coleira, que ele
conduz ao conde de Foix[762].

Um livro bem menos conhecido, e sobre o qual eu me estacionaria com muito gosto, é um tratado
composto para uso do povo dos campos por ordem do rei: Le vrai régime et gouvernement des bergers
et bergéres, composé par le rustique Jehan de Brie, le bon berger {O verdadeiro regime e governo dos
pastores e pastoras, composto pelo rústico (camponês) João de Brie, o bom pastor - 1379}[763]. Neste
livrinho, escrito com graça e muita doçura, tenta-se reerguer a vida dos campos, fazer com que o paisano,
desencorajado do trabalho após tantas calamidades, volte a se interessar por ele. Isto é muito tocante. É
evidente que é o rei que se faz pastor e que, sob esta veste, vem encontrar o povo jazendo entre o boi e o
asno, dar-lhe um sermão suave, encorajá-lo e tentar instruí-lo.

A propósito da educação dos rebanhos e entre as receitas do pastor e do veterinário, João


encontra uma forma de dizer algumas palavras sobre as grandes questões que então ocorriam. Os nomes
de pastor e de ovelhas se prestam a mil alusões. Sente-se em tudo, no meio desta afetação de ingenuidade
rústica, a malícia dos cavaleiros de toga, sua tímida causticidade em relação aos padres[764]. Este livro
é parente próximo do Advogado Patelino e da Sátira Menipéia.

Retornemos. Havia, na ordem aparente que se admirava no reinado de Carlos V, e no sistema


geral do século XIV, algo de débil e falso. A nova religião sobre a qual tudo repousava, isto é, a Realeza,
fundava-se ela própria sobre um equívoco. Sob a influência dos juristas, a suzerania feudal se fizera
monarquia romana, imperial. Os estatutos da França e de Orléans tornaram-se os estatutos da França. O
rei desnervara a feudalidade, retirara-lhe as armas das mãos; depois, vindo a guerra, ele desejara
devolvê-las. Ela ainda subsistia, esta feudalidade, cheia de orgulho e de fraqueza. Era como uma
armadura gigantesca que, embora esteja vazia, ameaça e brande a lança. Ela desabou quando foi tocada
em Crécy e em Poitiers.

Foi então necessário empregar mercenários, os soldados de aluguel, quer dizer, fazer a guerra
com dinheiro. Mas este dinheiro, onde tomá-lo? Não se ousava, ainda, despojar a Igreja e a indústria
também não nascera. Carlos V, com toda sua sabedoria política, nada podia fazer em relação a isso. No
último momento, tudo lhe faltou ao mesmo tempo. Os Ingleses que cruzaram a França em 1380 não
encontraram resistência maior do que a de 1370; o rei, que não possuía mais os Bretões, encontrava-se
ainda mais fraco.

Tendo fracassado a sabedoria, tentou-se a loucura. A França se lançou, sob o reinado do jovem
Carlos VI, numa extravagante imitação da cavalaria antiga, da qual se esquecera o verdadeiro caráter e,
mesmo, as formas[765]. Esta falsa cavalaria tomou como seu herói um personagem muito pouco
cavaleiresco, o famoso chefe das Companhias que libertara a França, o hábil Duguesclin. A epopéia que
se fez de seus feitos e gestos indica o suficiente que ninguém compreendera o verdadeiro gênio do
condestável de Carlos V[766].

No que melhor se imitou a cavalaria, foi na riqueza das armas e das armoarias, o luxo dos
torneios. Carlos V deixara um povo arruinado. Pediu-se a esta miséria mais que a riqueza jamais pudesse
pagar. Uma vez no impossível, o que custa continuar a pedir?

Mesma situação em toda a Europa. Mesma vertigem. O acaso deseja que a maior parte dos
reinos seja entregue a menores. A realeza, esta divindade recente, balbucia ou fala disparates. O século
de Carlos o Sábio, o primeiro século da política, mal chega em seus três quartos, que começa a delirar e
torna-se louco. Uma geração de insensatos ocupa todos os tronos. Ao glorioso Eduardo III sucede o
aturdido Ricardo II; ao prudente imperador Carlos IV segue-se o bêbado Wenceslau; ao sábio Carlos V,
Carlos VI, um louco furioso. O Papa Urbano VI, D. Pedro de Castela, Giovanni Visconti, todos deram
sinais de perturbação de espírito.

A pequena sabedoria negativa que pensava ter neutralizado o grande movimento do mundo
encontrava-se já ao cabo. Ela imaginava ter tudo finalizado... e tudo recomeçava. Os filhos, que os hábeis
tinham acreditado manipular por fios, embaralhavam-se mais e mais. A contradição do mundo aumentava.
Dir-se-ia que a razão divina e humana abdicara. “Deus”, como disse Lutero, “entediava-se do jogo e
jogava as cartas na mesa”.

É um momento trágico aquele quando se sente tornar-se louco, o momento onde a razão,
iluminada por seu último clarão, se vê morrer e apagar. “Ó! não permita que eu seja louco, bendito Céu”,
exclama o rei Lear, “conserva-me a razão. Ó! não! não, louco não! Eu não quero ficar louco!...”.

FIM DO TOMO TERCEIRO


════════════════════
Leia também:

Joseph Fouché - O retrato de um homem político, por Stefan Zweig, tradução e publicação de Luiz Fernando Serra Moura Correia;

O País do Bom Senso, por Luiz Fernando SMC;

História da França - Tomo I - Livros I e II (até 987 d.C.), por Jules Michelet, tradução e publicação de Luiz Fernando Serra Moura
Correia;
História da França - Tomo II - Livros III e IV (anos 987 - 1270), por Jules Michelet, tradução e publicação de Luiz Fernando Serra
Moura Correia.

História da França - Tomo IV - Livros VII, VIII e IX (anos 1380 a 1422), por Jules Michelet, tradução e publicação de Luiz
Fernando Serra Moura Correia.

Disponíveis em versão eletrônica na

http://www.amazon.com.br

[1] a fonte em inglês foi, basicamente, a tradução realizada por G. H. Smith, F.G.S, publicada em 1882 pela editora D. Appleton and
Company/Nova York, tombada junto à Universidade de Toronto e digitalizada pela organização Internet Archive – www.archive.org – com
fundos da Microsoft Corporation. Como foram várias dezenas de notas extraídas a partir desta obra, preferi fazer essa menção particular a
ter de citá-la todas as vezes que a usei.
[2] (NT): Eram os restos mortais de seu pai, de seu irmão, de seu cunhado (Teobaldo, rei de Navarra que sucumbira à exaustão), da rainha
Isabela de Aragão e de seu bebê que sobreviveu apenas algumas horas após o parto, que foi a causa de sua morte. – nota tomada emprestada
à tradução de G.H. Smith, F.G.S.
[3] “Et Marco li rispose: Perchè non vi falla altro che l’ira d’Iddio”... Et certo l’ira d’Iddio tosto li sopravenne. (NT: “E Marco respondeu-
lhe: Porque não vos falta nada além da ira de Deus” ... e, claro, a ira de Deus sobreveio-lhe). Giovanni Villani, c. 120, p. 320.
(NT): Ugolino é Ugolino della Gherardesca (Pisa, 1220 – Pisa, 1289), nobre e político italiano gibelino, conde de Donoratico, comandante naval,
que foi um dos mais cruéis tiranos de Pisa. É conhecido por ter passado à posteridade como modelo de herói; foi condenado, na Divina
Comédia de Dante Alighieri, ao nono círculo de seu Inferno, numa zona reservada aos que traíram a pátria ou os companheiros (ele fizera isso,
em prejuízo dos próprios Gibelinos, ao abandonar uma posição estratégica em Pisa). – a partir de
http://fr.wikipedia.org/wiki/Ugolin_della_Gherardesca e de http://it.wikipedia.org/wiki/Ugolino_della_Gherardesca.
[4] Não se poupou senão uma criança que foi mandada para o rei de Nápoles e que morreu na prisão, na torre de Cápua; G. Villani, c. 35,
anno 1270.
[5] De fato, foi exatamente o momento aproveitado pelos Pazzi para assassinar os Medicis e Olgiati para matar João Galeas Sforza.
[6] Procida era de tal forma distinguido como médico, que um nobre napolitano pediu a Carlos II ir procurá-lo na Sicília para que pudesse ser
curado de uma doença. Sism. “Rép. Ital.”, 3, 457.
(NT): trata-se de João III de Procida (Giovanni III da Procida), 1210-1298, médico, cientista e diplomata da família nobre Procida, da ilha de
mesmo nome.
[7] Por exemplo:

Cur moriatur homo cui salvia crescit in horto?
Contra vim mortis non est medicamen in hortis
c. 67, ed. 1667
(NT):
Por que deve morrer o homem que sabiamente cresceu no jardim?
Por outro lado, não há medicamento contra a morte nos jardins.

[8] (NT): Obviamente que não se trata de um porto aquático, tal como o conhecemos, já que se está a falar de uma cadeia de montanhas
(Pirineus). Nesta região, a palavra “porto” significa “porta” (“por” - gascão bigorrano), no sentido de “passagem”. O Tradutor, fazendo um
mea culpa, deveria ter melhor explicado, na tradução do Tomo II (Livro III), ao falar dos portos de Paillers e de Gavarnie (puerto Gavarnía
ou puerto de Bucharo).
[9] Os reis de Espanha os empregavam de preferência nos séculos XIII e XIV. Os Aragonenses se queixavam também, na mesma época,
dos tesoureiros e coletores “que eran judios”. Çurita. Anales de la Corona d’Aragon, p. 264.
[10] Eu aqui não pretendo depreciar o código das Siete Partidas; espero que meu amigo M. Rossew Saint-Hilaire nos faça logo conhecer o
segundo volume de sua História da Espanha que, impacientemente, aguardamos. Não pretendi expressar sobre as leis de Alfonso senão o
julgamento mais patriótico que esclarecido da Espanha d’antanho. É justo reconhecer, além disso, que este príncipe, culto e sábio que era,
amou a língua espanhola. “Ele foi o primeiro dos reis de Espanha que ordenou que os contratos e todos os outros atos públicos se fizessem, a
partir de então, em espanhol. Ele mandou fazer uma tradução dos livros sacros em castelhano... ele abriu a porta para a entrada de uma
ignorância tão profunda das letras humanas e das outras ciências, que os eclesiásticos, tanto quanto os seculares, não mais as cultivaram, pelo
completo oblívio da língua latina”, Mariana, III, p. 188 da tradução.
[11] Foi esse Sancho quem assim respodeu às ameaças do Miramolim*: “Tenho o bolo numa mão e o bastão na outra; tu podes escolher”.
Ferreras, IV, 345. Ele se sentia suficientemente popular para negar toda isenção de impostos aos nobres e às ordens militares. Ibid. 360. Sobre
a bravura de Sancho, vide Rodericus Sanctius, apud Schottum, Hisp. Illustrata, 199.
*(NT): Miramolim: do árabe Amir al-Mu’minin, título muçulmano que pode ser traduzido como Emir dos Crentes, Príncipe dos Fiéis ou
Comandante dos Fiéis (vide em http://pt.wikipedia.org/wiki/Amir_al-Mu’minin e http://fr.wikipedia.org/wiki/Commandeur_des_croyants).
[12] Crônica de São Maglório. Fabulário de Barbazan, 11, 223.
(NT): “Na Espanha e em Salvaterra/Foi seu filho tolice procurar”.
[13] “Se os súditos de nossos reis soubessem como os outros reis são duros e cruéis em relação a seus povos, eles beijariam a terra pisada
por seus senhores. Se me perguntarem: ‘Muntaner, quais favores fazem os reis de Aragão a seus súditos, mais que os outros reis?’, eu
responderei, primeiramente, que fazem os nobres, prelados, cavaleiros, cidadãos, burgueses e a gente do campo observarem a justiça e a boa-
fé melhor que qualquer outro senhor da terra; qualquer um pode se tornar rico sem que tenha a temer que algo lhe seja exigido além da razão
e da justiça; e que não é assim com os outros senhores; ainda, que os Catalães e os Aragonenses possuem os sentimentos mais elevados, pois
eles não são em nada tolhidos em suas ações, e ninguém pode ser bom homem de guerra se não possuir sentimentos elevados. Seus súditos
têm ainda esta vantagem: cada um deles pode dirigir a palavra a seu senhor, tanto quanto desejar, estando bem seguro de sempre ser escutado
com benevolência e deles receber respostas satisfatórias. De outra parte, se um homem rico, um cavaleiro, um cidadão honesto, desejar casar
sua filha e rogar-lhes honrar a cerimônia com sua presença, esses senhores aí comparecerão, seja na igreja, seja em outro lugar; eles
igualmente comparecerão ao enterro ou ao aniversário de qualquer homem, como se fosse seu parente; o que, seguramente, não fazem os
outros senhores, quaisquer que sejam. Além disso, nas grandes festas, eles convidam inúmeros homens corajosos e não demonstram
dificuldade de tomarem seu repasto em público; e todos os convidados aí comem, o que não ocorre em nenhum outro lugar, estou certo.
Igualmente, se homens ricos, cavaleiros, prelados, cidadãos, burgueses, trabalhadores ou outros, oferecem-lhes, como presentes, frutas, vinho,
ou outras coisas, eles não farão dificuldade para comê-los; e nos castelos, vilas, lugarejos, granjas e fazendas, eles aceitam os convites que
lhes são feitos, comem aquilo que se lhes apresenta e dormem nos quartos que lhes foram destinados; eles também vão a cavalo nas cidades,
vilas, lugares, aldeias, e se mostram a seus povos; e se gente pobre, homens ou mulheres, os invocam, eles param e escutam e ajudam como
podem. Que vos diria, enfim? Eles são tão bons e tão afetuosos em relação aos seus súditos, que não se saberia tudo dizer, tanto eles fazem;
da mesma forma, seus súditos são cheios de amor por eles e não temem morrer para aumentar a honra e o poder deles; e nada pode retê-los
quando é necessário suportar o frio e o calor e correr todos os perigos”; Ramón Muntaner, I, cap. 20, p. 60.
[14] Regni Siculi antichristum. Bart. di Neocastro, ap. Muratori, XIII, 1026. Bartolomeo e Ramón Muntaner não fazem qualquer menção a
Procida. Um deseja dar toda a glória aos Sicilianos, o outro, ao rei de Aragão, D. Pedro.
[15] (NT): A última foi em 1943, quando da II Guerra Mundial, pois a Sicília era a chave para que os Aliados pudessem entrar na Itália a fim
de derrotar os exércitos do Eixo. Na operação Husky, o indomável General George S. Patton, aproveitando-se inclusive do embaraço em que
caíra o Marechal Montgomery, ignorou ordens, simulou falha de comunicação com seu aliado e varreu a ilha da Sicília com o exército
americano, tendo sido acusado de travar uma “guerra pessoal”.
[16] Hugo Falcandus, ap. Muratori, VII, 252: a latinidade desse grande historiador do século XII é singularmente pura se comparada com a
de Bartolomeo que, no entanto, escreveu cem anos depois.
[17] Ἀλλ ύϖὀ ϖετρα τᾷδ᾽ ᾂσομαι, ὰγκἀς ἔχωντὐ,
Σύννομα μᾱλ᾽ ἐσορῶν τὺν Σικελὰν ὲς ἅλα
Theócrito, Idílio 8.
(NT): Que os deuses me concedam guardar minhas ovelhas sentado sob esta gruta, cerrando-te em meus braços, contemplando ao longe o
mar da Sicília, e serei feliz.
(adap. de http://remacle.org/bloodwolf/poetes/falc/theocrite/oeuvre.htm#41).

[18] “Quidam Gallicus, nomine Drohettus”, Barth. de Neocastro, p. 1027.
[19] “Moriantur Gallicus”, Id.l p. 1028.
[20] “Ceulx de Palerme et de Meschines, et des autres bonnes villes, signèrent les huys de Françoys de nuyt; et quant ce vint au point du jour
qu’ils purent voir entour eux, si occirent tous ceulx qu’ils peurent trouver, et ne furent epargnés ne vieulx, ne jeunes, que tous ne fussent
occis”. Chroniques de S. Denis, ed. 1575. (NT: Aqueles de Palermo e de Messina, e de outras boas cidades, assinalaram, de noite, as
casas dos Franceses; e, quando veio o dia e que puderam ver em torno de si, mataram todos aqueles que puderam encontrar, e não
foram poupados nem velhos, nem jovens, que todos não fossem mortos”).
[21] Simples tradição.
[22] Fazello assegura que Sperlinga foi a única cidade que não massacrou os Francos. Daí vem o ditado siciliano: Quod Siculis placuit, sola
Sperlinga negavit (NT: O que aos Sicilianos agradava, apenas Sperlinga negava). Fazello, p. 210, ed. 1575.
[23] Propter multarum probitatum suarum cumulum (NT: Por causa do acúmulo de suas muito boas qualidades). Barth. 1029.
[24] Villani acrescenta com uma prudência toda maquiavélica: “Onde fue, et sera sempre grande asempio a quelli, che sono et che saranno,
di prendere i patti, che si possono havere de, nimici, potendo havere la terra assediata” (NT: O que foi, e sempre será, agora e para o
futuro, um grande exemplo de aceitar as condições que se possa fazer com o inimigo, desde que se possa manter a terra em seu
poder), Vill., c. 65, I, 7, p. 281-282. – O legado papal incentivava Carlos a aceitar as condições dos habitantes: “Però chè, poi che fossino
indurati, ognidi peggiorerebbono i patti; ma riavendo egli la terra, con volontà dè cittadini medesimi ogni di li potrebbe alargare; il quale era sano
et buono consiglio” (NT: Porque depois que ficassem obstinados, proporiam termos mais duros a cada dia; mas, passando ele (Carlos)
a ter a posse da terra, poderia ser capaz de, a cada dia, livrar-se daqueles com o consentimento dos próprios cidadãos; o que era
um são e bom conselho), Id. c. 65, l. 7, p. 281.
[25] “Una canzonetta che dice: ‘Deh! come gli e gran pietate Delle donne di Messina, veggendole scapigliate portare pietre et calcina! Iddio
li dia briga et travaglia a chi Messina vuole guastare”. G. Villani, l. 7, c. 67, p. 283.
[26] Vide a bela narrativa de Muntaner, t. I, c. 49, p. 133 e segs.
[27] Nada de mais romanesco e, todavia, de mais verossímil, que o quadro do cronista siciliano, quando o frio Aragonês arriscou-se a descer
sobre essa terra ardente, onde tudo era paixão e perigo. Ele estava para entrar no território de Messina e já alcançara uma igreja de Nossa
Senhora, antigo templo situado sobre um promontório donde se via o mar e a fumaça longínqua das ilhas de Lípara (NT: ilhas Líparas ou
Lipari em italiano, também conhecidas como ilhas Eólias). Ele não pôde se impedir de admirar esta vista e foi acampar num vale vizinho.
Era o anoitecer e já todo mundo se repousava. Um velho mendigo se aproxima e humildemente pede para falar com o rei sobre coisas que
tocavam à honra do reino. “Excelente príncipe”, ele diz, “não desdenhei escutar este homem coberto com a capa dos cuidadores de cabras do
Etna. Eu amava vosso cunhado, o rei Manfredo, de eterna memória. Proscrito e despojado por ser a favor dele, eu visitei os reinos cristãos e
bárbaros. Mas eu desejava rever a Sicília e me aventurei em voltar. Aqui vivi com os pastores, mudando de abrigo nas gargantas e nos
bosques. Vós não conheceis os Sicilianos sobre os quais ireis reinar, vós ignorais sua duplicidade. Como vos fiar, por exemplo, no Leontino
{NT: da atual cidade de Lintini, Leontinoi (grego) e Leontium (latim)} Alayme e em sua mulher Machalda, que o governa? Não sabeis que
ele fora proscrito por Manfredo e trazido de volta e tornado rico por Carlos d’Anjou? Sua mulher saberá ainda melhor voltá-lo contra vós
mesmo”. – “Quem és tu, meu amigo, tu que desejas nos colocar em desconfiança de nossos novos súditos?” – “Eu sou Vitalis de Vitali. Sou
de Messina...”. – No mesmo instante, chega Machalda, vestida de amazona; ela vinha ousadamente tomar posse do jovem rei: “Senhor”, ela
diz, com a vivacidade siciliana, “eu chego por último. Todos os abrigos foram tomados e venho vos pedir a hospitalidade de uma noite”. O rei
cede-lhe o aposento onde ele devia repousar. Mas não era isso o que ela queria e, então, ela não parte. Em vão, ela diz ao camareiro do rei:
“Já é hora de repousar”. E ela permanece imóvel. Então, o rei toma uma decisão: “Pois bem”, ele diz, “conversemos até a manhã. Madame, o
que mais temeis?” – “A morte de meu marido”. – “O que mais amais?” – “O que eu amo não é meu” – O rei, assumindo um tom mais grave,
relata os estranhos fenômenos que ocorreram quando de seu nascimento: ele veio ao mundo durante um tremor de terra; assim marcado pela
Providência, ele não tomou armas senão para executar o santo dever de vingar Manfredo. Machalda, então recusada, torna-se implacável
inimiga do rei. “Que agradasse ao céu”, diz ingenuamente o historiador patriota, “que ela tivesse seduzido o rei! Ela jamais teria perturbado o
reino”. Barthol. Neoc., apud Muratori, XIII, 1060-63.
[28] O que os outros não conseguiam suportar era, para eles, um regalo e passatempo... Sua aparência era estranha e selvagem e, como
fossem muito escuros de pele, magros e mal penteados, os Sicilianos foram tomados de grande admiração e preocupação, não vendo outros
defensores que não eles... “Y porque i van muy negros y magros y mal peinados” {NT: E porque vão mui escuros (negros) e magros e mal
penteados}. Curita, p. 251.
(NT): Os almogávares foram “forças mercenárias de choque, formadas por infantaria ligeira, que serviram principalmente à Coroa de Aragão;
foram ativos no Mediterrâneo entre os séculos XIII e XIV. Estas tropas eram integradas mormente por oficiais catalães e aragoneses e por
tropas de camponeses e pastores oriundos dos vales pirenaicos (embora os houvesse de diversas procedência: Valencianos, Navarros,
Muçulmanos e, até mesmo, Sicilianos).... combatiam a pé, com armas e bagagens leves, geralmente com um par de lanças curtas (chamadas
de azconas), uma faca longa (chamada de coltell) e, às vezes, um pequeno escudo redondo como única defesa. Levavam a barba crescida e
vestiam pobremente, unicamente um camisão curto (tanto no Verão quanto no Inverno), levavam um grosso cinturão de couro e calçavam
abarcas de couro. Além disso, sempre levavam consigo uma boa pedra de fogo, com a qual antes de entrar em batalha costumavam bater as
suas armas, pelo qual estas botavam umas enormes chispas que, unidas aos seus terríveis gritos, aterrorizavam os seus inimigos”. – extraído
de http://pt.wikipedia.org/wiki/Almogávares.

[29] “Sire Dio, dapoi t’è piaciuto di farmi adversa la mia fortuna, piacciati che’l mio calare sia a petit passi”, Villani, l. 7, ch. 61, p. 278.
[30] “Cio fece per grande sagacita di guerra et per suo gran senno, conciosiacosa ch’egli era molto povero di moneta e da non potere
respondere al soccorso et riparo de’ Ciciliani... Onde timea che... non si arrendessono... per che non li sentiva constanti ne fermi... el cosi et
savio suo provedimento venne bene adoperato” (NT: Ele fez isso por sua grande sagacidade na guerra e bom senso, consciente que era
muito pobre de moeda e por não poder responder ao socorro e à defesa dos Sicilianos... donde ele temia (suspeitava) que... eles
poderiam se render... percebendo que não eram constantes, nem firmes... e as coisas e seu sábio procedimento foram bem
aproveitados), Villani, c. 85, p. 296.
[31] Lo rei Carlo... come intese la novella... della presura del prense... fu multo cruccioso et disse com irato animo: Or fostil mort, porse qu’il
a fali nostre mandement (NT: O rei Carlos... como soubesse da notícia... da prisão do príncipe... ficou muito irritado e disse com ânimo
irado: Ora estivesse morto, porque desobedeceu nossa ordem), Villani, l. 7, c. 93, p. 302.
[32] Esta tradição popular não é confirmada por nenhum texto muito antigo, tanto quanto uma boa parte dos traços satíricos que seguem.
[33] (NT): a posteridade de Carlos Magno, a segunda dinastia dos monarcas franceses, gerou Carlos da Lorena, que vestia cores cinzas e
pretas em virtude de um temperamento marcado pela melancolia. – nota tomada emprestada à tradução G.H. Smith, F.G.S.
[34] Isto é exato no sentido literal. Sabe-se que Hugo Capeto jamais desejou carregar a coroa. Roberto é o primeiro dos Capetíngios que a
usou.
[35] Alusão à canonização de São Luís.
[36] (NT): Luís IX (São Luís) e seu irmão Carlos d’Anjou se casaram com duas das quatro filhas do conde da Provença, Raimundo
Berengário IV (Raymond Bérenger).
[37] Trata-se de Carlos de Valois (NT: segundo filho de Filipe o Ousado, rei da França que morreu ao voltar da Espanha, e irmão de Filipe o
Belo. Ele foi mandado pelo Papa Bonifácio VIII para acalmar os distúrbios em Florença e, em consequência das medidas adotadas, Dante
Alighieri e seus amigos foram condenados ao exílio ou à morte - nota tomada emprestada à tradução G.H. Smith, F.G.S.).
[38] (NT): trata-se de Carlos o Coxo, feito prisioneiro pelo almirante Rogério di Lauria. Em virtude de uma grande quantia em dinheiro, ele
casou sua filha com Azzo VIII, marquês de Ferrara (nota tomada emprestada à tradução G.H. Smith, F.G.S.).
[39] Dante, Purgatório, XX.
[40] Ordenações, I, 316.
[41] (NT): Do tributo chamado taille (talha). “Durante o feudalismo, a talha era um tributo que era pago pelos vassalos para o custeio da
defesa do feudo. Consistia de parte da produção realizada na unidade agrícola (feudo). Era a porcentagem da produção obtida do trabalho no
manso servil que era para o Senhor Feudal”. – extraído do sítio http://pt.wikipedia.org/wiki/Corveia.
[42] Dictum fuit (in parliamento) quòd prælati aut eorum officiales non possunt pœnas pecuniarias Judæis infligere nec exigere per
ecclesiasticam censuram, sed solùm modò pœnam à canone statutam, scilicet communionem fidelium sibi subtrahere {NT: Foi dito (no
parlamento) que, nem os prelados, nem seus oficiais, possam, nem infligir penas pecuniárias aos Judeus, nem compeli-los por
censuras eclesiásticas, mas apenas puni-los à vista dos estatutos canônicos, subtraindo-os à comunhão dos fiéis}, ‘Libertés de l’église
gallicane’, II, 148. – Somos aqui tentados a ver uma amarga ironia da excomunhão.
(NT): “Mãos-mortas” era o nome que recebiam os bens das igrejas e das comunidades religiosas que estavam sob proteção especial do
monarca. Os bispos e frades não podiam vendê-los e, em todo caso, solicitavam o consentimento do conselho municipal. Se não fizessem
assim, as dignidades eclesiásticas que tivessem procedido incorretamente poderiam ser afastadas de seus ofícios e excomungadas. Além disso,
quem adquirisse esses bens, os perderia sem o direito de reclamar contra quem os vendeu e, em caso algum, contra a Igreja” – extraído de
http://pt.wikipedia.org/wiki/Mãos-mortas.
[43] (NT): Phillippe de Beaumanoir, 1250-1296, jurisconsulto francês. Consolidou os Costumes do Beauvoisis, obra que, no século XIX, foi
considerada pelo Dicionário Universal de História e Geografia Bouillet et Chassang como a “mais preciosa do antigo Direito Francês”.
Montesquieu chamou Beaumanoir de “a luz de seu tempo”. Os Costumes do Beauvoisis podem ser lidos na BnF/Gallica: vide links em
http://fr.wikipedia.org/wiki/Philippe_de_Beaumanoir_(1250-1296).
[44] Beaumanoir, cap. 49, p. 266-267.
(NT): Beaumanoir sustenta, ainda que em termos muito moderados e dúbios, que “quando o rei faz uma ordenação especialmente para seus
próprios domínios, os barões, na forma dos antigos usos e costumes, não cessam de agir em seus territórios; mas, quando a Ordenação for
geral, ela deve comandar o reino inteiro e devemos acreditar que a mesma foi produzida sob bom conselho e para o bem comum”. Em outra
parte, ele diz, com mais firmeza, que “o rei é o soberano sobre todos e tem como direito a custódia geral do reino, razão pela qual pode fazer
as ordenações que desejar para o bem comum, e que o que ele ordena deve ser observado; que não há ninguém tão grande que não possa ser
trazido para a corte do rei por não cumprimento do direito, ou por falso julgamento ou por qualquer questão que afete o soberano”.
“Essas últimas palavras”, acrescenta Henry Hallam, “nos dão a pista para a solução da questão sobre a forma através da qual uma monarquia
absoluta foi estabelecida na França. Ainda que os barões pudessem ter sido muito pouco influenciados pela autoridade de um advogado como
Beaumanoir, eles eram muito menos capazes de resistir à lógica coercitiva de um tribunal judicial. Era em vão que eles negavam a
obrigatoriedade das Ordenações reais dentro de seus próprios domínios quando, ao mesmo tempo, eram obrigados a reconhecer a jurisdição do
parlamento de Paris, que adotou uma visão muito diferente dos seus privilégios” (Hallam, ‘State of Europe during the Middle Ages’, vol. I,
pgs. 250,251). – esta NT foi tomada de empréstimo à tradução feita G. H. Smith, FGS, pgs. 344/345 (vide nota de rodapé nº 1 desta
tradução).

[45] Ita ut secundus regulus videretur, ad cujus nutum regni negotia gerebantur. Bern. Guidonis, Vita Clem. V, apud Baluse, 82.
[46] (NT): os Pandectas (em grego), também chamados de Digesto (latim), são uma compilação de julgamentos e pareceres de
jurisconsultos romanos compondo o Corpus Juris Civilis, do qual fazem parte as seguintes partes: Código Justiniano, Digesto (Pandectas),
Institutas e as Novas.
[47] (NT): “Gruier”: guarda-florestal, sargento das matas, aquele que julga, em primeira instância, os delitos cometidos nos bosques e
florestas. A palavra, segundo Borel, vem de dru, relativa a druida; em baixo-latim é gruerius, gruarius. – fonte: “Glossaire de la langue
Romane, rédigé d’après les manuscrits de la Bibliothèque Impériale...”, Tomo I, pág. 718, Jean-Baptiste-Bonaventure Roquefort, Paris,
1808, gratuitamente disponível em Google Books.
[48] Montpellier era, ao mesmo tempo, um feudo do bispado de Maguelone. O bispo, cansado da resistência dos burgueses e do apoio que
encontravam no rei da França, vendeu todos os seus direitos a este último. Esses direitos, até aí considerados inválidos pelo rei da França,
subitamente pareceram bons o suficiente para servir a despojar o velho Jaime; Sism. VIII, 464.
[49] (NT): vide o final do Capítulo IV, Tomo I, já traduzido e publicado pelo Tradutor, quando se narra o destino das raças célticas.
[50] (NT) Llywelyn ap Gruffydd ou Llywelyn Ein Llyw Olaf (Llywelyn o Último ou, “nosso último líder”) foi o último príncipe de Gales
antes que este fosse conquistado por Eduardo I Longshanks da Inglaterra. William Wallace foi o filho de um servo do alto administrador da
Escócia, James Stewart, que se tornou um guerreiro a liderar os escoceses contra a Inglaterra de Eduardo I.
[51] (NT): o Prof. Michelet comete um erro. Wallace não era chefe dos clãs: por não ser nobre, não podia reivindicar qualquer primazia. Na
verdade, ele (e Moray, outro chefe guerreiro) chegou a romper com os chefes dos clãs após estes se renderem aos ingleses na batalha de
Irvine (1297), ocasião em que se tornou um rebelde para, aí sim, chefiar os rebeldes espalhados pela Escócia até que, novamente composto
com os nobres, foi nomeado (março de 1298) “Guardião da Escócia” (alta posição para um homem de sua origem) por Robert the Bruce.
Pouco depois da sua nomeação, foi duramente derrotado na batalha de Falkirk (julho de 1298) e, segundo se narra, Robert o ajudou a escapar
com vida do campo de Falkirk. Após isso, Wallace renunciou ao título de Guardião, que passou para Robert e seu sobrinho John Comyn.
Wallace, que continuou a guerrear pela independência da Escócia ao lado de Robert, foi preso em 1304 e executado em 1305; Robert, um ano
depois, tornou-se o soberano da Escócia. (fonte: Wikipedia em inglês, francês e português sobre Wallace, Robert the Bruce, Eduardo I e
links correlatos indicados nas respectivas páginas).
[52] João (Jean) Balliol, nomeado rei da Escócia por Eduardo I em 1292, contra o qual logo se rebelou. A Casa de Balliol é normanda de
origem e seu nome de família era Bailleul.
[53] “Nós possuíamos um tratado com o rei da França, de acordo com o qual fizemos de vós e de nosso ducado certas deferências a este
Rei, as quais acreditávamos ser pelo bem da paz e pela vantagem do cristianismo. Mas, por isso, nós nos tornamos culpados em relação a vós,
pois que o fizemos sem vosso consentimento; sobretudo porque estáveis bem preparados a guardar e a defender vossa terra. Todavia, nós mui
vos pedimos nos ter por desculpados, pois fomos ludibriados e seduzidos nesta conjectura. Com isso sofremos mais que qualquer outra pessoa,
como poderão vos assegurar Hugues de Vères, Raimundo de Ferrers, que conduziam, em nosso nome, esse tratado junto à corte da França.
Mas, com a ajuda de Deus, nós doravante jamais faremos qualquer outra coisa de importante relativamente a esse ducado sem vosso conselho
e vosso assentimento”. Ap. Rymer, t. II, p. 644. Sismondi, VIII, 480.
[54] (NT) Filipe o Belo proibiu as guerras privadas entre os senhores feudais, o que era motivo de grande reclamação por parte de duques,
condes, barões.
[55] Quis Flandriæ posset noceret, si duæ illæ civitates (Bruges e Gand) concordes inter se forent? (NT: Quem pode prejudicar Flandres
se essas duas cidades não se colocam em concórdia?). Meyer, Chron., p. 92.
[56] In Flandriâ jam indè ab initio observatum constat, neminem ibi nothum esse ex matre (NT: Em Flandres observa-se um constume de
tempos antigos, que ninguém pode ser bastardo pelo lado materno), Meyer, folio 75. O privilégio foi estendido aos homens de Bruges por
Luís de Nevers: “Ele os libertou da bastardia, se o bastardo fosse um burguês (cidadão) ou filho de burguês, sem fraude” (1331). Oudegherst,
‘Chron. de Flandres’.
[57] Eduardo em 1289 e Filipe em 1290.
[58] (NT): A maltôte era, no direito medieval, uma cobrança tributária extraordinária que incidia sobre os bens de consumo corrente (o vinho,
a cerveja, a cera...), com vistas a fazer face às despesas, elas também extraordinárias. De forma geral, servia para o financiamento de certas
guerras ou para o pagamento dos trabalhos de fortificação. Filipe o Belo tornou-se impopular ao impor a maltôte para financiar a guerra de
Flandres (1292), da qual falamos: o imposto do denário por libra, exigível tanto do comprador, quanto do vendedor, logo se verá apelidado de
maltôte. Por extensão, a maltôte passa rapidamente a designar toda cobrança de impostos extraordinários. O recurso às maltôtes perdurará
até o século XVIII. – a partir do sítio da Wikipedia http://fr.wikipedia.org/wiki/Maltôte.
[59] Eu dificilmente acreditaria nesta cifra, se ela não tivesse sido afirmada, em minha presença, pelo próprio ministro que recebera essas
informações. – Acrescentemos que um dos conventos recentemente suprimidos em Madri (San Salvador) possuía dois milhões de renda e um
só religioso.
[60] Eduardo I se portara ainda mais rudemente: quando da recusa do clero em pagar um imposto, ele o colocou, de alguma forma, fora da
lei, atiçou os soldados contra os padres e proibiu os juízes de receberem as queixas destes últimos (Kygthon, l. III, p. 2502. Math. Westmon,
ann. 1296, p. 429, Sism. VIII, 515). – Filipe o Belo, ao menos, o fazia com bons modos: “Como aquilo que é dado vale mais e é mais agradável
a Deus e aos homens do que aquilo que é exigido, nós exortamos vossa caridade a nos dar esta ajuda do duplo dízimo, ou a quinta parte”
(‘Preuves des libertés de l’égli. gallic.’, II, 235).
[61] (NT): A bula papal Clericis Laicos tirou seu nome das primeiras palavras com as quais se inicia: “Clericis laicos infestos oppido
tradit antiquitas” (“É uma antiga tradição que os laicos sejam contrários aos clérigos”). – fonte
https://es.wikipedia.org/wiki/Clericis_laicos.
[62] A ponto de haver fome. Vide o livro do cardeal de São Jorge, sobrinho de Bonifácio: ‘De Jubilæo’, in Bibl. max. Patrum, XXV, 936.
[63] (NT): “No meio do caminho de nossas vidas”.
Trata-se da primeira frase do primeiro verso do Inferno, da Divina Comédia, à qual se seguem duas outras: “Encontrei-me sozinho numa
escura floresta/Tendo perdido a verdadeira estrada”. De fato, quem nunca se sentiu assim?
[64] (NT): A “Charmettes” é uma propriedade composta de jardins e de uma casa onde morou, de 1736 a 1742, o filósofo Jean-Jacques
Rousseau, situada no valedo das Charmettes, ao lado de Chambérry, no departamento da Savóia (Savoie). Rousseau assim a descreveu: “Eu
incentivei Maman (Françoise-Louise de Warens, Madame de Warens, que se tornou sua amante e mentora, a quem Rousseau chamava
de Maman, i.e., ‘Mamãe’, por ser 13 anos mais velha) a viver no campo. Uma casa isolada pendente sobre uma valedo foi nosso asilo e foi
lá que, no espaço de quatro ou cinco anos, gozei de um século de vida e de felicidade pura e plena” (trecho de seu livro ‘Rêveries d’un
promeneur solitaire’ ou “Devaneios de um caminhante solitário”). Rousseau utilizou-se dessa temporada para aprofundar seus estudos. A
propriedade se transformou em local de peregrinação para filósofos, escritores e intelectuais (um “livro de ouro” guarda suas assinaturas) e se
tornou monumento histórico; hoje, é um museu com objetos do filósofo (http://fr.wikipedia.org/wiki/Les_Charmettes).

[65] Hic longo tempore experientiam habuit curiæ, quia primo advocatus ibidem, indè factus postea notarius papæ, postea cardinalis, et indè in
cardinalatu expeditor ad casus Collegii declarandos, seu ad exteros respondendos (NT: Ele era experiente no direito, tendo sido primeiro
um advogado no sacro colégio, então o notário do Papa, então cardeal e, enquanto cardeal, assessor que estabelecia os acórdãos
do Colégio, e respondendo aos estrangeiros). Muratori, XI, 1103.
[66] (NT): Richard Wagner dedicou-lhe uma ópera: Rienzi, der Letzte der Tribunen (Rienzo, o último dos Tribunos).
[67] Cùm omnis natura ad ultimum quemdam finem ordinetur, consequitur ut hominis duplex finis existat; ut sicut inter omnia entia solus
incorruptiblitatem et corruptibilitatem participat, sic... Propter quod opus fuit homini duplici directivo, secundùm duplicem finem: scilicet summo
pontifice, qui secundùm revelata humanum genus produceret ad vitam æternam; et imperatore, qui secundùm philosophica documenta genus
humanum ad temporalem felicitatem dirigeret (NT: Desde que cada natureza é ordenada para um fim específico, segue-se que o fim do
homem é duplo; de modo que, de todos os seres, somente ele partilha a incorruptibilidade e a corruptibilidade... Em razão disso,
para o homem dúplice era necessário um duplo condutor, segundo o dúplice fim: o sumo pontífice para guiar o gênero humano no
caminho da revelação para a vida eterna; e o imperador para dirigir, pelas luzes da filosofia, à felicidade temporal). Dante, ‘De
Monarchiâ’, p. 78, ed. Zatta.
[68] Dante, ‘De Monarchiâ’, t. IV, p. 2ª. O editor imprimiu no frontispício a águia do Império com esta epígrafe:
E sotto l’ombra delle sacre penne,
Governo l’mondo li di mano in mano.
Paradis, c. VI, v. 7.
(NT): “E sob a sombra da sacra pena/Governou o mundo dali, de mão em mão (sucessivamente)”.
[69] Notandum quod justitiæ maximè contrariatur cupiditas... Ubi non est quod possit optari, impossibilie est ibi cupiditatem esse... Sed
monarcha non habet quod possit optare. Sua namque juridictio terminatur Oceano solum (NT: Deve-se notar que o poder máximo é
contrário à cupidez ... Onde não há o que possa ser cobiçado, é impossível que haja aí concupiscência... Mas o monarca não tinha
o que podia desejar. Seu poder deve terminar somente no Oceano), p. 17. – Ele prova, em seguida, que a caridade, a liberdade universal,
estão na condição desta monarquia: O genus humanum, quanti procellis et jacturis quantisque naufragiis agitari te necesse est, dum bellua
multorum capitum factum, in diversa conaris, intellectu ægrotas utroque similiter et affectu... cùm per tubam sancti spiritûs tibi effletur: Ecce
quàm bonum et quâm jucundum habitare fratres in unum (NT: Ó humanidade, de quantas tempestades, naufrágios e perdas a te agitar
necessitas, enquanto um monstro de muitas cabeças te empurra em várias direções; e, de igual modo, a arte em desarmonia, tanto em
pensamento quanto em sentimento... quando, com a trombeta, o Espírito Santo é proclamado a ti: eis como é doce e suave que os
irmãos vivam em união).
[70] Ele o prova: 1º. pela origem de Rômulo, descendente ao mesmo tempo de Europa e de Atlas (África): “Quem in illo duplici concursu
sanguinis à quâlibet mundi parte in unum virum, prædestinatio divina latebit? (NT: Quem, se havia um duplo concurso sanguíneo de todas
as partes do mundo num único homem, não deveria reconhecer uma predestinação divina?); 2º. pelos milagres que Deus fez por Roma:
assim, as ancilia (escudos sagrados) de Numa, os gansos do Capitólio, etc. ; 3º. pela bondade que Roma mostrou ao mundo ao desejar
conquistá-lo, etc. Ibid. p. 27-28.
[71] Antequam essent clerici, rex Franciæ habebat custodiam regni sui, et poterat statuta facere. Dupuy, Pr., p. 178.
[72] Quod antiquitùs erat Comes et Vicemoes Tholosæ, et quia ipse erat de genere Vicecomitis, qui dictus Vicecomes dominabatur in certâ
parte civitatis Tholosæ (NT: Pois, antigamente, houve um Conde e um Visconde de Toulouse, e ele era descendente dos Viscondes, os
quais Viscondes governavam uma certa parte do estado de Toulouse) Dupuy, ibidem, 640.
[73] Quia omnes meliores homines de Tholosâ sunt parentelâ nostrâ et facient quidquid nos voluerimus (NT: Porque todos os melhores
homens de Toulouse são parentes nossos e fazem aquilo que desejamos). Ibid., p. 643.
[74] Audivit dictum Episcopum Appam. Comiti Fuxi dicentem: Faciatis pacem mecum, et vos habebitis civitatem Appam. et eritis rex, quia
antiquitus solebat ibi esse Regnum adeo nobile sicut Regnum Franciæet et posteà ego faciam quod vos eritis Comes Tholosæ, quia in civitate
Tholosæ et in terrâ habeo multos amicos, valdè nobiles et valdè potentes... (NT: Ouvira que o dito Bispo de Pamiers dissera ao Conde de
Foix: ‘Fazei a paz comigo e vós tereis a cidade de Pamiers e sereis rei, pois ali havia, antigamente, um reino tão nobre como o reino
da França e, depois disso, farei com que sejais o Conde de Toulouse, eis que tenho, na cidade e na terra de Toulouse, muitos nobres
e poderosos amigos”). Ibid., 645. Vide também a 1ª testemunha, p. 633 e a 14º testemunha., p. 640.
[75] Ipse episcopus semper dilexerat comtem convenarum et totum genus suum, et specialiter quia erat ex parte una de recta linea comitis
Tholosani, et quod gentes totius terræ diligebant dictum comitem ex causa prædicta (NT: O próprio bispo sempre amara o conde de
Comminges e toda a sua família, e particularmente porque vinha de uma parte, em linha reta, do conde de Toulouse, e toda a gente
da mencionada terra era afeiçoada ao dito conde por esta razão) . Ib., 17ª testemunha, p. 642.
[76] Quibus auditis dictus comes signavit se dicens: Iste non est homo, sed diabolus. Ib. p. 644 e p. 650; testemunho do próprio conde que
compreende todas as afrontas atestadas pelos outros.
[77] Este bispo de Toulouse era detestado, em sua diocese, como Francês, como estranho à língua do país: ... quia est de linguâ quæ
inimicatur linguæ nostræ ab antiquo (NT: ... que é de língua inimiga da nossa desde antigamente), Ib., 643.
[78] Aves antiquitus fecerunt regem, ut narratur in fabulis, et fecerunt regem de quâdam ave vocatâ duc, quæ magna et inter aves jamor et
pulchrior, et absolutè nihil valet, imò est vilior avis quàm sit... Talis rex Franciæ, quod erat puchrior homo mundi, et nihil aliud scit facere nisi
respicere homines. Ibid. p. 643-644.
[79] Ib., p. 633. Imitação pedantesca de uma passagem do discurso de Cícero Pro Roscio Amerino sobre o suplício do parricida.
[80] Belial ille, Petrus Flote, semividens corpore, menteque totaliter excœcatus (NT: Este Belial*, Pedro Flote, semivazio de corpo, de
mente totalmente cega). Bula de Bonifácio aos prelados da França. Dupuy, pr. 63.
* (NT): Belial é um dos demônios mencionados na Bíblia. Ele foi criado logo após Lúcifer e incentivou a maior parte dos anjos à revolta, razão
pela qual foi um dos primeiros a cair para o inferno.
[81] Dupuy, ‘Preuves du Diff.’, p. 59. – Fuerunt litteræ ejus (papæ) in regno Franciæ coràm pluribus concrematæ, et sine honore remissi
nuntii {NT: Foi a sua (do Papa) carta, no reino da França, na presença da maior parte de todos, queimada e, sem honras, os
mensageiros (núncios) foram mandados de volta}. Chron. Rothomagense, ann. 1302; e Appendix Annualium H. Steronis Altahensis. – O
manuscrito citado por Dupuy (‘Preuves du Diff.’, p. 59), e que só ele viu, não é, todavia, como disse M. de Sismondi, a única autoridade para
este fato (v. Sismondi, IX, 88).

[82] A carta acrescentava em nome dos nobres: “E se for assim o caso de nós, ou de alguns de nós, desejarmos sofrer, nem nos deixará
sofrer o mencionado nosso Sire o Rei, nem o povo comum do dito reino: e com grande dor e grande lamento, nós vos fazemos saber, pelo
portador destas cartas, que tais coisas não devem agradar a Deus e nem devem agradar a nenhum homem de boa-vontade, nem devem entrar
no coração do homem, nem mesmo agora e nem devem ser aguardadas, com exceção do Anticristo.... Portanto, nós vos rogamos e
requeremos, tão afetuosamente quanto podemos... que as malícias evocadas sejam postas para trás e anuladas, e que desses excessos, com os
quais ele se acostumou a fazer, seja ele castigado de tal forma, que o estado da Cristandade seja e permaneça em seu bom ponto e em seu
bom estado, e que dessas coisas nos seja feito saber, pelo portador destas cartas, vossa vontade e vossa intenção: pois por isto nós o enviamos
especialmente a vós e muito desejamos que vós estejais seguros que, nem em vida, nem em morte, não desistiremos, e nem desejamos desistir,
desse processo, tanto quanto o Rei nosso Sire muito o desejou... E porque seria coisa muito longa e complicada se cada um de nós apusesse
seu selo nestas presentes cartas, feitas de nosso comum assentimento, nós, Luís (Loys), filho do Rei da França, conde (cuens) de Evreux;
Roberto conde do Artois; Roberto Duque (Dux) da Borgonha; João Duque da Bretanha; Ferry Duque da Lorena; João conde de Hainaut e da
Holanda; Henrique conde de Luxemburgo; Guy conde de S. Pol; João, conde de Dreux; Hugo conde da Marche; Roberto, conde da Boulogne;
Luís conde de Nivers e de Retel; João conde d’Eu; Bernardo conde de Comminges; João conde de Aubmarle; João conde de Fores; Valeran
conde do Périgord; João conde de Joigny; J. conde d’Auxerre; Aymars de Poitiers; conde do Valenciano (Valentinois); Estennes conde de
Sancerre; Renault conde de Montbeliart; Enjorrant senhor de Coucy; Godofredo de Breban, Raul de Clermont, condestável da França, João
senhor de Châteauvillain, Jordão senhor de Lille, João de Chalon senhor de Darlay, Guilherme de Chavigny senhor de Châteauroux (Chastiau-
Raoul), Ricardo senhor de Beaujeu e Amaury visconde de Narbonne, apomos a pedido, e em nome de nós, e por todos os outros, nossos selos
nestas presentes cartas. Dado em Paris, em 10 de abril, ano da graça de 1302” (NT: tradução do francês arcaico)
[83] “... Prout quidam nostrum qui ducatus, comitatus, baronias, feoda et alia membra dicti Regni tenemus” ... adessemus eidem debitis
consiliis et auxilis opportunis... Cognoscentes quod excreseunt angustiæ cum jam abhorreant laïci et prorsus effugiant consortia clericorum
(NT: ... Vimos para ajudar com aconselhamento adequado e auxílio oportuno... conscientes que as dificuldades engrossam e se
multiplicam quando o clero se encolhe como os laicos).
[84] A carta é datada de março, quer dizer, antedatada: “Datum Parisiis die Martis prædicta” (NT: Dado em Paris, no dia de Março
supracitado). E, antes, eles não indicaram qualquer dia. Mas eles não queriam datá-la da assembléia do Rei, não tendo comparecido àquela
do Papa.
[85] Et prælati dùm non habent quid pro meritis tribuant, imò retribuant, nobilibus, quorum progenitores ecclesias fundaverunt, et aliis litteratis
personis, non inveniunt servitores. Dup., ‘Preuves’, p. 69.
[86] Tricolori vestitu... Primates inter se dissidentes duos habebant colores, multitudo addidit tertium (NT: Vestidos com três cores... Os
principais vestiam-se com duas cores, a multidão acrescentou uma terceira). Meyer, ann. 1301, p. 89.
[87] Ego rata sum solam me esse Reginam; at hic sexcentas conspicio (NT: Eu sou a única a ser Rainha; mas aqui percebo seiscentas).
ibid.
[88] Hodie quoque pro symbolo urbis Virgo spimento ligneo clausa, cujus in sinu Leo cum Flandriæ labaro cubat... (NT: As armas da cidade
são a Virgem dentro de uma cerca de madeira, em cujo seio descansa o Leão com o lábaro de Flandres)... Sanderus, ‘Gandav. rer.’, l. I,
p. 51.
[89] Era a inscrição do sino:
Roelandt, Roelandt, als ick kleppe, dan ist brandt,
Als ick luye, dan ist storm in Vlanderlandt.
ibid. l. II, p. 115.
[90] Convenire, conferre, colloqui inter se sub crepusculum noctis multitudo (NT: Para se encontrar, para conferenciar, para colóquios
entre si, sob o crepúsculo da noite, uma multidão).
[91] Primus ausus est Gallorum obsistere tyrannidi Petrus cognomento Rex, homo plebeius, unoculus, ætate sexagenarius, opificio textor
pannorum, brevi vir staturâ nec facie admodùm liberali, animo tamen magno et feroci, consilio bonus, manu promptus, flandricâ quidem linguâ
comprimis facundus, gallicæ ignarus (NT: Pedro, que foi nomeado rei pelos Gauleses, o primeiro que se atreveu a resistir à tirania,
homem plebeu, de um olho só, com a idade de sessenta anos, ofício de tecelão de lã, de baixa estatura, nem o rosto era o de um
homem livre, ânimo tanto magno quanto feroz, de bom conselho, rápido, fluente na língua flândrica que não refreava, ignaro em
francês), Meyer, p. 91.
[92] Cùmque ad campanam civitatis non auderent accedere, pelves suas pulsantes... omnem multitudinem concitârunt (NT: Não ousando
forçar seu caminho até o sino da cidade, bateram em seus caldeirões... como sinal para uma sublevação geral) . Ibid. p. 90.
[93] Primores civitatis, quique dignitate aliqua aut opibus valebant, Liliatorum sequebantur partes, formidantes Regis potentiam, suisque
timentes facultatibus (NT: Os primazes da cidade, assim como os que possuíam influência, seja pela virtude de seus ofícios ou de sua
riqueza, seguiram os Lillenses, temendo o poder real, receando por suas propriedades). Ibid., p. 91.
[94] G. Villani, l. VIII, c. 55, p. 335. Vide meu ‘Symbolique du Droit”.
[95] Vasa vinaria portâsse restibus plena, ut plebeios strangulare (NT: com barris de vinhos cheios de cordas para estrangular plebeus),
Meyer, p. 92.
[96] Ut apros quidem, hoc est viros, hastis, sed sues verutis confoderent, infesta admodùm mulieribus, quas sues vocabat, ob fastum illum
femineum visum à se Brugis (NT: Como o javali, ou seja, os homens armados de lanças, a quem chamou de porcos, que fossem
assassinados, assim como as suas mulheres, por causa do fausto feminino visto na sé de Bruges), Ibid., p. 93.
[97] Oudegherst não fala da vala, sem dúvida para realçar a glória dos Flamengos. {NT: uma braça francesa, sendo pouco inferior à inglesa
corresponde a 1,624 metros; 5 braças fazem 8,12 metros. vide em http://fr.wikipedia.org/wiki/Brasse_(unité_de_mesure)}.
[98] Incredibile narratu est quanto robore, quantâque ferociâ, colluctantem secum in fossis hostem exceperint, malleis ferreis plumbeisque
mactaverint (NT: A história é tão incrível quanto forte, tanto quanto feroz; lutando contra o inimigo na vala, os nossos morreram com
golpes de malhos de chumbo e de ferro), Meyer, 94..
[99] Guillelmus cognomento ab Saltingâ... Tantis viribus dimicavit, ut equites 40 prostravisse, hostesque alios 1400 se jugulasse gloriatus sit.
(NT: Guilherme, chamado de por Saltinga... Com tanta força quanto uma prensa, glorificava-se por ter matado 40 cavaleiros e
degolado outros 1400 do exército), Ibid, 95.
[100] Quinze dias antes da Batalha de Courtrai, o Papa proferiu, na assembléia dos cardeais, um discurso no qual a conciliação parecia o
objetivo. Ele então disse, dentre outras coisas, que, sob o reinado de Filipe Augusto, o rei da França obtivera dezoito mil libras de renda e que,
agora, graças à munificência da Igreja, ele obtivera mais de quarenta mil. Pierre Flotte, ele ainda acrescentou, é cego de corpo e de espírito,
Deus assim o puniu no corpo; este homem de fel, este homem do diabo, este Aitofel, é apoiado pelos condes do Artois e de Saint-Pol; ele
falsificou ou forjou uma carta do papa; ele mandou dizer ao rei que deveria reconhecer que tem seu reino por sua causa. O Papa acrescenta:
“Eis, portanto, quarenta anos que somos doutores em Direito e que não sabemos que os dois poderes são ordenados de Deus. Quem então
pode acreditar que uma tal loucura nos tenha tomado o espírito? ... Mas não se pode negar que o rei, ou qualquer outro fiel, nos seja submisso
no que concerne ao pecado... Aquilo que o rei fez ilicitamente, nós doravante desejamos que ele o faça licitamente. A ele não recusaremos
qualquer perdão. Que ele nos mande gente de bem, como o duque da Borgonha e o conde da Bretanha; que eles digam no quê faltamos e nós
nos emendaremos. Enquanto eu era cardeal, eu era Francês; depois, nós muito amamos o rei. Sem nós, ele não teria nem um pé de sua sede
real; os Ingleses e os Alemães erguer-se-iam contra ele. Nós conhecemos todos os segredos do reino; sabemos como os Alemães, os
Borguinhões e aqueles do Languedoc amam os Franceses. Amantes neminem amat vos nemo (ninguém ama a vós que não ama ninguém),
como disse Bernardo. Nossos antecessores depuseram três reis da França; após tudo o que este fez, nós o deporíamos como um pobre
garoto (sicut unum garcionem), com dor todavia, com grande tristeza, se tívessemos de chegar a esta necessidade”. (Dupuy, ‘Preuv.’, p.
77/78). – Malgrado a insolência do final, esse discurso era uma concessão do Papa, um passo atrás.
[101] (NT): Grand-Châtelet de Paris: castelo às margens do Sena e que também abrigava uma prisão. Erguido em madeira no século IX
(Carlos o Calvo), foi, no século XII (Luís VI o Gordo) transformado em fortaleza de pedra. Foi demolido, em 1802, por ordem de Napoleão,
para abertura da Praça do Châtelet (Plâce du Châtelet). Vide em http://fr.wikipedia.org/wiki/Grand_Châtelet.
[102] Já se havia posto à frente um Normando, mestre Pierre Dubois, advogado na magistratura de Coutances, que deu contra o Papa um
parecer triplamente bárbaro e bizarro pelo estilo, pela erudição e pela lógica. Eis, em suma, este estranho panfleto do décimo-quarto século:
após ter estabelecido a impossibilidade de uma supremacia universal e refutado os pretensos exemplos dos Indianos, dos Assírios, dos Gregos
e dos Romanos, ele menciona a lei de Moisés que proíbe a cobiça e o roubo. “Ora, o Papa cobiça e rouba a suprema liberdade do Rei que é, e
sempre foi, a de não estar submetido a ninguém e a de comandar todo o seu Reino sem temer controle humano. Além disso, não se pode
negar que, desde a distinção dos domínios, a usurpação das coisas possuídas, daquelas sobretudo que estão prescritas por uma posse
imemorial, não seja pecado mortal. Ora, o rei da França possui a suprema jurisdição e a imunidade do transitório, do secular, depois de mais de
mil anos. Idem, o mesmo rei, desde a época de Carlos Magno, de quem descende, e como se vê no cânon Antecessores, possui e prescreve a
colação das prebendas e os frutos da guarda das igrejas, não sem título e por ocupação, mas por doação do Papa Adriano que, com o
consentimento do concílio-geral, conferiu a Carlos Magno esses direitos e muito outros incomparavelmente maiores, a saber, que ele e seus
sucessores poderiam escolher e nomear quem desejassem para papas, cardeais, patriarcas, prelados, etc... Em acréscimo, o Papa não pode
reclamar a supremacia do Reino da França senão como Sumo Pontífice: mas, se isto era realmente um direito do papado, ele teria pertencido a
São Pedro e a seus sucessores, que jamais o reclamaram. O rei da França tem a seu favor uma prescrição de mil duzentos e setenta anos.
Ora, a posse centenária, mesmo sem título, basta, de acordo com uma nova constituição do mencionado Papa, para fazer prescrever contra si
e contra a igreja romana e, mesmo, contra o Império, segundo as leis imperiais. Logo, se o Papa ou o Imperador possuíssem alguma servidão
sobre o reino, o que não é verdade, o direito de ambos estaria caduco... Ainda, se o Papa estatuísse que a prescrição não corre contra si, ela
também não correrá contra os outros e sobretudo contra os príncipes, que não reconhecem superiores. Desta forma, o Imperador de
Constantinopla, que a ele deu todo seu patrimônio (sendo a doação excessiva, como aquela feita por um simples administrador dos bens do
Império), pode, como doador (ou o imperador da Alemanha, como sub-rogado em seu lugar), revogar esta doação*... E, assim, o Papado seria
reduzido à sua pobreza primitiva dos tempos anteriores a Constantino, visto que esta doação, nula de pleno direito desde o início, poderia ser
revogada sem a prescrição longissimi temporis. Dupuy, p. 15-17.
*(NT): trata-se da “doação de Constantino” feita em testamento pelo mencionado Imperador, segundo a qual todas as terras do Império
Romano eram doadas à Igreja Católica (Papa Silvestre I). O documento foi provavelmente forjado no século X. Já a doação de Pepino o
Breve, em 756, que possibilitou a formação dos Estados Pontíficios (vide Tomo I, já traduzido) foi verdadeira e baseada na devoção cristã.
[103] Na subscrição, ele se faz chamar “Chevalier et vénérable professeur en Droit” (Cavaleiro e venerável professor de Direito). Ele,
de fato, conseguira se fazer cavaleiro pelo rei, em 1297. Mas não ousou, numa assembléia da nobreza, assinar este ridículo e risível título.
Dupuy, ‘Preuves’, p. 56.
[104] Sedet in cathedra beati Petri mandaciorum magister, faciens se, cùm sit omnifario maleficus, Bonifacium nominari. Ibid... Nec ad ejus
excusationem... quod ab aliquibus post mortem dicti Cœlestini... cardinales in eum denuò conseusisse: cùm ejus esse conjux non potuerit
quam, primo viro vivente, fide digno conjugii, constat per adulterium poluisse. Ibid., 57... Ut sicut angelus Domini prophetæ Bállam...
ocurrit gladio evaginato in viâ, sic dicto pestifero Vos evaginato gladio ocurrere velitis, ne possit malum perficere populo quod intendit. Ibid.
[105] Eu, Guilherme de Plasian, cavaleiro, digo, adianto e afirmo que Bonifácio, que ora ocupa a sé apostólica, será provado um perfeito
herético nas heresias, nos fatos prodigiosos e nos dogmas perversos a seguir mencionados: 1º) ele não crê na imortalidade da alma; 2º) ele não
crê na vida eterna, pois disse que preferiria ser cão, asno ou qualquer outro animal a ser Francês; coisa que não diria se acreditasse que um
Francês possui uma alma eterna. – Ele não crê na presença real, pois ornamenta mais magnificamente seu trono que o altar. – Ele disse que,
para humilhar o rei e os Franceses, desorganizaria o mundo inteiro. – Ele aprovou o livro de Arnaldo de Vilanova, condenado pelo bispo e pela
Universidade de Paris. – Ele mandou erguer, nas igrejas, estátuas de prata de si mesmo. – Ele possui um demônio familiar: pois ele disse que,
se todos os homens estivessem de um lado e ele, sozinho, do outro, ele não poderia estar enganado nem sobre os fatos, nem sobre o direito; e
isto demonstra uma arte diabólica. – Ele publicamente pregou que o pontífice romano não poderia cometer simonia, o que é algo herético de se
dizer. – Como perfeito herético que deseja ser o único a ter fé, ele chamou os Franceses, nação notoriamente mui cristã, de Paterinos (NT:
seita herege que admitia apenas o “Pai Nosso” – Pater - como oração). – Ele é sodomita. – Ele mandou matar vários clérigos na sua
frente, dizendo ao seus guardas para não os matarem com o primeiro golpe: bata, bata, dali, dali. – Ele obrigou os padres a violarem o sigilo
da confissão... – Ele não observa nem as vigílias e nem a quaresma. – Ele deprecia o colégio dos cardeais, as ordens dos monges negros e
brancos, dos irmãos pregadores e dos menores, repetindo, com frequência, que o mundo se perdia por eles, que eram falsos, hipócritas, e que
nada de bom ocorreria àquele que se confessasse com eles. – Desejando destruir a fé, concebeu uma vetusta aversão contra o rei da França,
em desprezo à fé, porque a França é, e sempre foi, o esplendor da fé, o grande apoio e o exemplo da cristandade. – Ele sublevou contra a
Casa da França a Inglaterra e a Alemanha, confirmando ao rei da Alemanha o título de Imperador, e publicando que o fazia para destruir a
soberba dos Franceses, os quais diziam não serem submissos a ninguém pelo temporal: acrescendo que mentiam pela garganta (per gulam) e
declarando que, se mesmo um anjo descesse do céu e dissesse que os Franceses não estavam submetidos nem a ele e nem ao Imperador, isto
seria um anátema. – Ele permitiu a perda da Terra Santa... desviando o dinheiro destinado a defendê-la. – Ele é publicamente reconhecido
como simoníaco mas, bem mais, a própria fonte e a base da simonia, vendendo os benefícios a quem der mais, impondo à Igreja e aos prelados
a servidão e a talha para enriquecer os seus com o patrimônio do Crucificado, para fazer marqueses, condes e barões... – Ele rompe os laços
do casamento – Ele rompe os votos religiosos – Ele disse que, em pouco, faria de todos os Franceses ou mártires ou apóstatas, etc . – Dupuy,
‘Diff.’, ‘Preuves’, p. 102-7; cf. 326-346, 350-362.
[106] O prior e o convento dos irmãos Pregadores de Montpellier tendo respondido que não poderiam aderir sem a ordem expressa de seu
prior-geral, que estava em Paris, os agentes do rei disseram que apenas desejavam saber a intenção de cada um em particular e em segredo.
Os religiosos, tendo persistido, os agentes ordenaram que saíssem do reino em três dias: eles redigiram uma declaração formal dos fatos e
protestaram contra o procedimento. Dupuy, ‘Preuv.’, p. 154.
[107] Em 1295, Bonifácio os fizera imunes a qualquer jurisdição eclesiástica, sem temer o descontentamento do clero da França. Bulœus,
III, p. 511. Ele não cessara de aumentar seus privilégios. Ibid., p. 516, 545. – Quanto à Universidade, Filipe o Belo a ganhara graças a mil
amabilidades. Bulœus, III, p. 542, 544. Assim, ela o apoiou em todas as suas medidas fiscais contra o clero. Desde o começo da luta, ela se
encontrava associada à sua causa pelo próprio Papa: “Universitates quæ in his culpabiles fuerint, ecclesiastico supponimus interdicto” (NT:
“Colocamos sob interdito eclesiástico todas as universidades que são culpadas desses erros”), na forma da bula Clericis laicos. Assim,
a Universidade publicamente se declarou a favor do rei: “Appellationi Regis adhæremus supponentes nos... et universitatem nostram
protectioni divinæ et prædicti concilii generalis ac futuri veri et legitimi summo pontificis” (NT: Aderimos ao apelo do Rei e recomendamo-
nos, e a nossa universidade, à proteção divina e à decisão do retromecionado conselho-geral, e ao verdadeiro e justo futuro Sumo
Pontífice). Dupuy, ‘Pr.’, p. 117-118.
[108] Quis nedùm de cognatione nostrâ, immò de totâ Campaniâ unde originem duximus, notatur hoc nomine? – Dupuy, ‘Preuves”, 166.
[109] Et volumus quod hic Achitophel iste Petrus puniatur temporaliter et spiritualiter, sed rogamus Deum quod reservet eum nobis
puniendum sicut justum est. Dupuy, ‘Pr.’, p. 77.
[110] Philippus, Dei gratiâ... Guillelmo de Nogareto... plenam et liberam enore præsentium commitimus potestantem, ratum habituri et
gratum, quidquid factum fuerit in præmissis, et ea tangentibus, seu dependentibus ex eisdem... Dupuy, ‘Pr.’, 175.
[111] Ut proditionem fecerint eidem domino Guillelmo et sequacibus suis, ac trascinare fecissent per Anagniam vexillum ac insignia dicti
domini Regis, favore et adjutorio illius Bonifacii. Dupuy, ‘Pr.’, p. 175.
[112] Guillelmus prædictus asseruit dictum dominum Raynaldum (de Supino), esse benevolum, sollicitum et fidelem... tàm in vitâ ipsius
Bonifacii quam in morte... et ipsum dominum Guillelmum receptâsse tàm in vitâ quàm in morte Bonifacii prædicti. Dup, ‘Pr.’, p. 175.
[113] Pulsatâ communi campanâ, et tractatu habito, elegerunt sib capitaneum quemdam Arnulphum... Qui quidem... illis ignorantibus, domini
papæ existiti capitalis inimmicus (NT: Soando o sino da comuna e, de comum acordo, escolheram seu capitão, que se chamava
Arnulfo... o qual... eles ignoravam que fosse inimigo capital do Papa), Dupuy, ‘Pr.’, p. 194; Walsingham, ‘Hist.’, anno 1303.
[114] “Heu, me! durus est hic sermo!”. Ibidem.
[115] “Tandem Marchio, nepos papæ... reddidit se Sciarræ et capitaneo memorato, eâ conditione ut vitam ipsius et filii sui salvarent
servientiumque snorum. Quibus auditis papa flevit amarè”. Ibidem.
[116] “Da che per tradimento come Jesu Christo voglio essere preso, convienmi morire, almeno voglio morire come papa”. Et di presente si
fece parare dell’amanto di san Pietro, et con la corona di Constantino in capo, e con la chiavi e croce in mano, et posesi a sidere suso la sedia
papale”. Villani, VIII, 63.
[117] “Et ust été feru deux fois d’un des chevaliers de la Colonne, n’eust été un chevalier de France qui le contesta...” (NT do francês
arcaico: E ele teria sido ferido duas vezes por um dos cavaleiros de Colonna, se um cavaleiro da França não o tivesse impedido), ‘Chron. de S.
Denis’, Dupuy, ‘Pr.’, p. 191. Nicolas Gilles (1492) a isso acrescenta: “Por duas vezes, o Papa esteve a ponto de ser morto por um daqueles
cavaleiros de Colonna, se não tivessem sido impedidos: todavia, este bateu com a mão calçada de uma manopla de ferro no rosto do Papa até
que houvesse uma grande efusão de sangue”, ap. Dup., ‘Pr.’, p. 199.
[118] Nogaret o ameaçara de conduzi-lo atado e garroteado até Lyon, onde ele seria julgado e deposto pelo concílio geral. Villani, VIII, c. 63,
ap. Dupuy, ‘Pr.’, p. 187.
[119] “Tunc populus fecit papam deportari in magnam plateam, ubi papa lacrymando populo prædicavit, inter omnia gratias agens Duo et
populo Anagniæ de vita sua. Tandem in fine sermonis dixit: Boni homines et mulieres, constat vobis qualiter inimici mei venerunt et abstulerunt
omnia bona mea, et non tantum mea, sed et omnia bona Ecclesiæ, et me ita pauperem sicut Job fuerat dimiserunt. Propter quod dico vobis
veraciter, quod nihil habeo ad comedendum vel bibendum, et jejunus remansi usque ad præsens. Et si sit aliqua bona mulier quæ me velit de sua
juvare eleemosyna, in pane vel vino; et si vinum non habuerit, de aqua permodica, dabo ei benedictionem Dei et meam... Tunc omnes hæc ex
ore papæ clamabant: ‘Vivas, Pater sancte’. Et nunc cerneres mulieres currere certatim ad palatium, ad offerendum sibi panem, vinum vel
aquam... Et cum non invenirentur vasa ad capiendum allata, fundebant vinum et aquam in arca cameræ papæ in magna quantitate. Et tunc
potuit quisque ingredi et cum papa loqui, sicut cum alio paupere”. Walsingh, apud Dupuy, ‘Pr.’, 196.

[120] Dupuy, ‘Preuves’, p. 5. Walsingham, que escreveu sob uma influência contrária, exagera mais o crime dos inimigos de Bonifácio.
Segundo ele, Colonna, Supino e o senescal do rei da França, tendo aprisionado o Papa, jogaram-lhe sobre um cavalo sem freios, o rosto virado
para a cauda, e o fizeram correr até o último fôlego; depois, eles o teriam feito morrer de fome sem o povo de Anagni. Walsing. apud Dup.,
‘Preuv.’, p. 195.
[121] ... Per lo qual non temesti torre a inganno
La bella Donna e di poi farne strazio?
Inferno, c. XIX.
[122] A forma deste ato é bizarra; a cada título de acusação, há um elogio à corte de Roma. Assim: “os Santos Padres tinham o costume de
não entesourar; eles distribuíam aos pobres os bens das igrejas. Bonifácio, muito ao contrário, etc...”. É a forma invariável de cada artigo.
Podia-se duvidar se era mui seriamente que o rei atribuía a um só papa todos os abusos do papado. Dupuy, ‘Preuves’, p. 209-210.
[123] “A vós, mui nobre príncipe, nosso Senhor e, pela graça de Deus, Rei da França, suplica e requer o povo de vosso reino, pois é
necessário que assim se faça, que vós guardeis a soberana imunidade de vosso reino, que é aquela pela qual vós não reconheceis soberano
temporal na terra, senão Deus, e que ordeneis declarar que o papa Bonifácio errou manifestamente e praticou pecado mortal, notoriamente em
vos remetendo bulas nas quais afirmava ser vosso soberano temporal... Idem... que deve-se ter o dito Papa por herege... Pode-se provar, com
viva força, sem que ninguém possa com razão contestar, que o Papa jamais teve senhoria temporal sobre vós... Quando Deus, o Pai, criou o
céu e os quatro elementos, tendo formado Adão e Eva, Ele lhes disse e à sua geração: Quod calcaverit per tuus, tuum erit... (NT: O que
pisares com teus pés, a ti será...). Quer dizer que Ele desejava que cada homem fosse o senhor daquilo que viesse a ocupar de terra. Assim,
repartiram os filhos de Adão a terra e dela foram senhores por três mil anos e mais, antes do tempo de Melquisedeque, que foi o primeiro
Sacerdote que foi Rei, como diz a história: mas ele não foi Rei de todo mundo; e a gente, obecedendo-lhe como Rei pelo temporal, e não como
Sacerdote, ele foi tanto Rei quanto Sacerdote. Após sua morte, decorreu muito tempo, 600 anos ou mais, antes que algum outro fosse
sacerdote. E Deus Pai, que deu a Lei a Moisés, o constituiu Príncipe de Seu povo de Israel e ordenou-lhe que fizesse de Aarão, seu irmão,
Sumo-Sacerdote e seu filho, após ele. E Moisés nomeou e constituiu quando devia morrer, segundo o ordem de Deus, a senhoria do temporal
não ao Sumo-Sacerdote seu irmão, mas a Josué, sem oposição de Aarão e de seu filho, após este: eles protegeram o tabernáculo... e se
ajudaram na defesa do reino temporal... Deus, que sabe todas as coisas presentes e a virem, ordenou a Josué, seu Príncipe, que partilhasse a
terra entre essas onze linhagens; e que a linhagem dos Sacerdotes tivesse, ao invés da sua parte, a décima parte e os primeiros frutos de tudo,
e que permanecessem sem terra, a fim de que mais favoravelmente pudessem servir a Deus e orar por aquele povo. E, então, quando esse
povo de Israel pediu um Rei a Nosso Senhor, ou fê-lo ser pedido pelo profeta Samuel, Ele não escolheu por soberano o Sacerdote, mas Saul,
que ultrapassava todo o povo em tudo, em cabeça e ombros (alusão a Filipe o Belo?). De forma que, em Jerusalém, não havia um Rei que
submetesse o povo de Deus e que fosse Sacerdote, mas eles tinham um rei e um sumo-sacerdote: distintos um do outro, e um tinha muito a
fazer para governar o povo nas coisas temporais e o outro nas questões espirituais, e todos os sacerdotes eram obedientes aos reis nas
questões mundanas. Depois disso, Nosso Senhor Jesus Cristo foi Sumo-Sacerdote e não encontramos nada escrito que diga que Ele tivesse
poderes temporais... Depois Dele, São Pedro... Grande abominação foi ouvir que este Bonifácio, em relação ao que Deus disse a São Pedro
(“o que amarrares na terra, estará amarrado no céu”), tenha entendido esta palavra de espiritualidade perversamente, como um Búlgaro
(herético), para as coisas temporais. Grande necessidade devia existir para que ele conhecesse o árabe, o caldeu, o grego, o hebreu e todas as
outras línguas das quais muitos Cristãos, que não pensam como a Igreja de Roma,... Vós, nobre rei... defensor da fé, destruidor dos Búlgaros,
podeis, e deveis, e estais obrigado a requerer e a procurar que o dito Bonifácio seja aprisionado e julgado como herege e punido na forma que
poderá e deverá se fazer após sua morte”. Dupuy, ‘Différ.’, p. 214-218. (NT: a partir do francês arcaico).
[124] Ou seja, a primeira colheita. Sism. Fr. IX, 147. Idem, ‘Rép. Ital.’, 228. Villani, l. VIII, c. 80, p. 416, etc. (NT: no original, “figues-
fleurs”).
[125] Este terrível ano de 1303 foi caracterizado pelo silêncio dos registro do Parlamento. Em 1304, nele lê-se: “Anno præcedente propter
guerram Flandriæ non fuit parliamentum” (NT: No ano anterior, em virtude da guerra de Flandres, não houve parlamento). Olim, III,
folio CVII. Archives du Royaume, Section Judiciaire.
[126] Baillet estabeleceu uma comparação justa e picante entre as turbulências de Filipe o Belo e Luís XIV com a Santa Sé: “Tanto um
quando o outro diferendo ocorreram sob três Papas, sendo que o primeiro, que viu nascer o diferendo, morreu no auge da querela (Bonifácio
VIII e Inocente XI). O segundo Papa (Bento XI, sucessor de Bonifácio e Alexandre VIII, sucessor de Inocente), tendo recebido alguma
submissão da parte da França, acomodou-se e usou de dissimulação para salvar as pretensões da corte de Roma. O terceiro Papa (Clemente
V e Inocente XII) terminou toda a questão. Da parte da França, não houve, em cada turbulência, senão um rei (Filpe o Belo e Luís XIV). Um
bispo de Pamiers parece ter dado ocasião às querelas, tanto num, quanto noutro diferendo. O direito de regalo entrou em ambos. Houve, nos
dois diferendos, um apelo ao futuro concílio... A afeição dos membros da igreja galicana por seu rei foi também quase igual. O clero, as
universidades, os monges e os Mendicantes, lançaram-se por todos os lugares, no interesse do rei, e aderiram ao chamado para o concílio.
Houve excomunhão dos embaixadores e ameaças para seus senhores. Os judeus expulsos do reino por Filipe o Belo e a destruição dos
Templários parecem fornecer também alguma relação com a extirpação dos Huguenotes e a destruição das freiras da Enfance” (Baillet,
‘Hist. des démêlés etc.’).
[127] Era o cometa de Halley que reaparece a intervalos de 75 a 76 anos. Presume-se que ele apareceu, pela primeira vez, no nascimento
de Mitrídates, 130 anos antes da era cristã. Justino (lib. 37) diz que, durante 80 dias, ele quase eclipsava o Sol. Ele reapareceu em 339 e em
550, época da tomada de Roma por Totila. Em 1305, ele tinha um brilho extraordinário; em 1456, ele arrastava uma cauda que preenchia dois
terços do intervalo entre o horizonte e o zênite; em 1682, a cauda ainda possuía 30 graus; em 1750, ele parecia não chamar a atenção senão
dos astrônomos. Estes fatos parecem estabelecer que os cometas vão se enfraquecendo. Aquele de Halley reapareceu em outubro de 1835.
‘Annuaire du Bureau des longitudes pour 1835’. Vide também uma notícia sobre este cometa, por M. de Pontécoulant.
{NT: O Autor se esqueceu de mencionar que o cometa Halley passou na Terra em 1066, ano da conquista Normanda da Inglatera, tendo sido
observado por Guilherme o Conquistador e bordado na belíssima e impressionante Tapeçaria de Bayeux (vide em
http://fr.wikipedia.org/wiki/1P/Halley). Em 1986, a humanidade se decepcionou com o evento da passagem do cometa: nada mais que um
singelo ponto luminoso. Culpou-se a poluição luminosa, a poluição atmosférica e a interação do cometa com a radição solar. Mas o fato é que
o cometa está, realmente, se afastando da Terra. O Tradutor, que também se decepcionou em 1986, espera conseguir vê-lo novamente em
2061/62, no gozo de excelente saúde. A propósito: caso se queira enxergar algum simbolismo místico-escatológico na passagem do Halley, há
de se observar que, a partir de fevereiro de 1986, foram plantadas as sementes (Perestroika e Glasnost), no 27º Congresso do Partido
Comunista da União Soviética, que frutificaram na queda do Muro de Berlim (1989), na reunificação da Alemanha (1990) e no esfacelamento
da Cortina de Ferro, da União Soviética, do Pacto de Varsóvia e do homicida regime comunista (1989-1991)}.
[128] Carta de Cristóvão Colombo a Ferdinando e Isabela, após sua quarta viagem. Navarette, ‘Histoire’, t. III, p. 152.
[129] Filipe o Belo emprega durante todo o seu reinado, como ministros, os dois banqueiros florentinos, Biccio e Musciato, filhos de Guido
Franzesi. Sism. ‘Hist. des Franç.’, VIII, 420.
[130] Αφ’ οὑ γὺρ ὁ Πλοῦτος οῢτος ἢρξατο βλέπειν,
Απόλωλ’ ὑπό λῑμον... Aristoph., Plutus, v. 1174. Vide, também, os versos 129, 133, 1152 e 1168-9.
[131] Cada uma das grandes revoluções do mundo é também a época das grandes aparições do ouro. Os Focéios o fazem sair de Delfos,
Alexandre de Persépolis; Roma o tira das mãos do último sucessor de Alexandre; Cortez o arrebata da América. Cada um desses momentos
é marcado por uma mudança súbita, não somente nos preços dos víveres, mas também nas idéias e nos costumes. Mas qualquer que seja a
violência com a qual o ouro seja arrastado na direção da Europa, ele também sofre com outras forças atrativas. Roma pagava-lhe, pelos
tributos de luxo, mais que conseguia obter pelo fisco. Em nossos dias, a Ásia oriental, não desejando senão ouro em troca de suas mercadorias,
o ouro que a Inglaterra bombeia da Europa ou da América vai, pouco a pouco, se enterrar na Ásia; as piastras americanas fundidas em luíses,
em napoleões, em libras esterlinas, têm, por destino último, dourar os pagodes e os ídolos da China e do Japão. Vide o artigo de M. Ampère
sobre M. Abel Rémusat, Revue des deux mondes, 1833.
[132] O objetivo último da alquimia não era tanto encontrar o ouro senão obter o ouro puro, o ouro potável, a bebida da imortalidade.
Contava-se a maravilhosa história de um vaqueiro da Sicília, ao tempo do rei Guilherme, que, tendo encontrado na terra um frasco de ouro,
bebeu o líquido nele contido e recuperou a juventude. Roger Bacon, ‘Opus majus’, p. 469.
[133] (NT) Raimundo Lúlio (c. 1232 – 1315), “foi o mais importante escritor, filósofo, poeta, missionário e teólogo da língua catalã. Foi um
prolífico autor também em árabe e latim, bem como em langue d'oc (occitano). Foi discípulo do renomado médico, alquimista e astrólogo
Arnaldo de Vilanova e ficou conhecido como Doctor Illuminatus, embora não seja um dos 33 Doutores da Igreja Católica. É beato da Igreja
Católica”. Nicolas Flamel (1330 ou 1340 – 1418) “foi um escrivão, copista e vendedor de sucesso francês que ganhou fama de alquimista
após seus supostos trabalhos de criação da pedra filosofal. Casado com Dame Perenelle Flamel, teria, segundo a lenda, fabricado a pedra
filosofal, o elixir da longa vida e realizado a transmutação de metais em ouro por meio de um livro misterioso. Flamel e sua esposa eram
católicos devotos. E, com o passar do tempo, ambos tornaram-se conhecidos pela riqueza e pela filantropia que realizavam, assim como pelas
múltiplas interpretações que davam à alquimia da época. Em português também é referido como Nicolau Flamel”. – extraído dos sítios
respectivos a partir de www.pt.wikipedia.org.
[134] Alguns se vangloriaram de jamais terem soprado para nada. Raimundo Lúlio, em suas tradições, passa na Inglaterra e, para encorajar
o rei à cruzada, fabrica-lhe, na Torre de Londres, seis milhões de ouro que foram cunhados em moedas de Nobre Rosa, que são ainda hoje
chamadas de “Nobres de Raimundo” (NT: o ‘nobre’foi a primeira moeda inglesa de ouro produzida em quantidade; o Nobre Rosa ou
Noble Rose foi assim chamado para se distinguir das antigas moedas, eis que a rosa era estampada nos dois lados – vide páginas a
seguir: http://en.wikipedia.org/wiki/Noble_(English_coin) e http://theartoftransformations.wordpress.com/2012/01/14/rose-nobles) – É dito, no
Ultimatum Testamentum, escrito em seu nome, que, em uma única vez, ele converteu em ouro 50 mil libras de mercúrio, de chumbo e de
estanho. – O Papa João XXII, a quem Pagi atribui um tratado sobre a Arte Transmutatória, dizia que ele transmutara, em Avignon, 200
lingotes pesando, cada um, um quintal, ou seja, 20 mil libras de ouro. Seria uma maneira de dar conta das enormes riquezas guardadas nas suas
caves? – De resto, eles foram obrigados a concordar entre si que este ouro, que obtiveram por quintais, do ouro só tinha a cor.
[135] Dizia-se que, na usura, os judeus não faziam senão imitar os Lombardos, seus predecessores. Muratori, ‘Antiquit.’, VI, 371.
[136] Em Toulouse, eles eram esbofeteados três vezes por ano para puni-los por terem, outrora, entregue a cidade aos Sarracenos; sob o
reinado de Carlos o Calvo, eles reclamaram inutilmente. – Em Béziers, eram caçados a pedradas durante toda a Semana Santa. Em 1160, eles
compraram imunidade contra a tradição (V. Castel, ‘Mémoires du Languedoc’, l. III, p. 523). – Eles começaram, no reinado de Filipe
Augusto, a exibir a rodela amarela e o Concílio de Latrão dela fez uma obrigação para todos os judeus da cristandade (cânon 68).
[137] (NT): Sequin é uma antiga moeda veneziana. “Os sequins de Shylock” se referem ao judeu usurário Shylock da peça “O mercador de
Veneza”, de W. Shaekespeare, célebre por ter emprestado dinheiro a Antônio, o qual lhe deu por garantia uma libra de sua própria carne;
como Antônio não conseguiu pagar, Shylock exigiu, por vingança, a libra de carne, já que Antônio previamente o insultara e cuspira-lhe.
[138] Patiens, quia æternus... (NT: Paciência, ainda que eterna...). – Era o costume ao qual os judeus se atinham toda vez que mudava o
Papa e a ele apresentavam sua lei. Seria uma homenagem ou uma reprovação da velha lei à nova, da mãe à filha?... – “No dia de sua
coroação, o Papa João XXIII cavalgou com sua mitra papal, de rua em rua, na cidade de Boulogne-la-Grasse, fazendo o sinal da cruz até à
rua onde moravam os judeus, os quais ofereceram, por escrito, sua lei, a qual o Papa, de sua própria mão, pegou e recebeu; e então, ele a
olhou e logo a jogou para trás de si, dizendo: “Vossa lei é boa, mas aquela nossa é melhor”. E ele partiu de lá, os judeus o seguiam
presunçosamente para confundi-lo e todo o manto de seu cavalo foi rasgado; e o Papa lançava, por todas as ruas pelas quais passava, moedas,
a saber, denários, que se chamam quatrinos e malhas (maille) de Florença; e havia, à sua frente e às suas costas, duzentos homens em armas,
e cada um portava em mãos uma massa de couro com a qual batiam nos judeus de uma forma tal, que era um grande júbilo de ver”.
Monstrelet, II, 315, ann. 1409.
[139] Eu lia, em outubro de 1834, num jornal inglês: “Hoje, poucos negócios na Bolsa; é dia feriado para os judeus”. – Mas eles não
possuem apenas a superioridade da riqueza. Seríamos tentados a conceder-lhes uma outra, quando vemos que a maioria dos homens que hoje
fazem a honra da Alemanha é de judeus conversos.
[140] Shakespeare, The Merchant of Venice, ato 1, cena 3: “Let the forfeit be nominated for an equal pound of your fair flesh, to be cut
and taken, in what part of your body pleaseth me”. – Sir Thomas Mungo adquiriu em Calcutá, há trinta anos, um manuscrito no qual se
encontra a história original da libra de carne etc. Somente que, no lugar de um cristão, é um muçulmano que o judeu deseja desmembrar. Vide
Asiatic Journal.
(NT): a cláusula in partes secanto (literalmente o corte de partes do corpo) se encontra no antigo Direito Romano, na Lei das XII Tábuas,
foi reproduzido no Código Justiniano e estipulava que, após trinta dias do vencimento de uma dívida, o credor podia exigir um pedaço do corpo
do devedor. É provável que a expressão “dívida escorchante” venha daí (o vetusto verbo “escorchar”, dentre outras acepções, significa “ferir,
estropiar, esfolar, tirar a casca”). Vide os interessantes artigos de Harry Dondorp (Partes Secanto – Aulus Gellius and the Glossators),
Universidade Livre de Amsterdam, em http://local.droit.ulg.ac.be/sa/rida/file/2010/10.Dondorp.pdf e de Geoffrey MacCormack, (Partes
Secanto), Aberdeen/Escócia, em http://heinonline.org/HOL/LandingPage?handle=hein.journals/tijvrec36&div=31&id=&page=
[141] G. Villani, l. VIII, c. 80, p. 417. – A opinião da época está bem representada nos versos burlescos citados por Walsingham:
Ecclesiæ navis titubat, regni quia clavis,
Errat Rex, Papa, facti sunt unica cappa.
Hoc faciunt do des, Pilatus hic, alter Herodes.
Walsingham, p. 456, ann. 1306.
{NT: A nave (barca) da Igreja titubeia, pois a chave do Reino vagueia,/Confundidos o Rei e o Papa, sob um único capuz./Fazendo (brincando)
de “agora eu, agora tu”, um Pilatos, o outro Herodes}.
[142] (NT): Clemente V foi o nome pontifício escolhido pelo arcebispo Bertrand.
[143] (NT): O “direito de hospitalidade” ou de “abrigo” (droit de gîte) era o direito do rei da França ou do senhor feudal de se fazer abrigar
com seu cortejo quando se deslocava. O “direito de provisão” (droit de pouvoierie) era o direito que o senhor feudal tinha de tomar ou
requisitar alimentos e bens necessários à sua manutenção.
[144] (NT): Empregando-se o Google Maps disponível em maps.google.com.br, nota-se que a rota do Papa Clemente subia para depois
descer, totalizando, hoje, 751 Km. (automóvel) ou 684 Km. (caminhada). Se o santo padre tivesse seguido uma reta, teria poupado,
respectivamente, 202 e 173 Km, o que não é pouco, sobretudo naquela época de péssimas estradas e rotas e locomoção animal.
[145] Essas palavras são sinônimas na língua da época.
[146] Contin. G. de Nangis, ad annum 1305.
(NT): Em muitas paróquias da França, na época do Antigo Regime, o dízimo não era percebido diretamente pelo cura, mas por decimistas
chamados curas primitivos: estes últimos entregavam o resultado de sua coleta ao cura, reservando-se, porém, uma parte deste dízimo, o qual
era chamado de “porção côngrua” (portion congrue) que, como indica seu nome de origem, deve permitir ao padre viver razoavelmente.
Na linguagem corrente, i.e., não católica, a “porção côngrua” significa “uma parte muito pequena”, indicando que alguém tomou a porção
maior.
[147] (NT): Ascendente do famoso bispo, político e diplomata Charles-Maurice de Talleyrand-Périgord, da Casa de Talleyrand-Périgord
(1226 a 1968). Nas palavras de Karl Marx, Talleyrand foi um dos três deuses que governaram a Europa do século XIX (ao lado de Metternich
e Bismarck).
[148] Baluze, Acta vet. ad Pap. Av., p. 75-6: ... Quædam præparatoria sumeré, et postmodùm purgationem accipere, quæ secundùm
prædictorum physicorum judicium, auctore Domino, valè utilis nobis erit.
[149] O Cercado do Templo (Coulture du Temple), contíguo àquele de Saint-Gervais, compreendia quase toda a propriedade dos
Templários, que se estendia ao longo da rua do Templo (rue du Temple), desde a rua Santa Cruz (rue Sainte-Croix) ou cercanias da rua da
Vidraria (rue de la Verrerie) até além dos muros, dos fossos e da porta do Templo. Sauval, I, 72.
[150] (NT): a Torre dos Templários foi demolida, de 1808 a 1810, por ordem de Napoleão, que temia dela fazer um local de peregrinação
para os monarquistas, uma vez que serviu de prisão para Luís XVI, sua mulher Maria Antonieta e seus dois filhos, Maria Teresa e o delfim
Luís Carlos de França (proclamado rei Luís XVII, após o guilhotinamento de seu pai). O delfim morreu devorado pelas sarnas e pela
tuberculose neste local: ele tinha dez anos de idade.
[151] (NT): Ordem da Casa de Santa Maria dos Teutônicos (Ordo Domus Sanctæ Mariæ Teutonicorum), mais conhecida sob o nome de
Ordem dos Cavaleiros Teutônicos (Deutscher Ritterorden ou Deutschritter-Orden), Ordem Teutônica ou Casa dos Cavaleiros do Hospital de
Santa Maria dos Teutônicos em Jerusalém (Haus der Ritter des Hospitals Sankt Marien der Deutschen zu Jerusalem), ordem militar cristã
surgida em 1191 e existente até hoje – vide http://fr.wikipedia.org/wiki/Ordre_Teutonique (em francês) e
http://pt.wikipedia.org/wiki/Ordem_Teutônica (em português).
[152] São Bernardo, Exortação ao exército do Templo (Exhort. ad milites Templi), I, 544-560).
(NT): Non nobis, Domine, non nobis, sed nomini Tuo da gloriam (Não por nós, Senhor, não por nós, mas para a glória do Teu nome): era
o lema dos Templários.
[153] Vita est militia super terram (NT: A vida é uma guerra sobre a terra).
[154] (NT): Ordem de São João de Jerusalém, cuja origem remonta ao século XI, mais conhecida sob o nome de Ordem Hospitalária de
São João de Jerusalém (Ordo Hospitalis sancti Johannis Ierosolimitani) ou “A Religião” e, ainda, “Ordem do Hospital”, “Ordem
Hospitalária” ou, mais simplesmente “Os Hospitalários”. Ainda hoje existe sob o nome “Ordem de São João de Jerusalém em Malta” ou,
mais usualmente, “Ordem de Malta”. – vide, em francês, o sítio http://fr.wikipedia.org/wiki/Ordre_de_Saint-Jean_de_Jérusalem.
[155] Vide, mais abaixo, a carta do Grão-Mestre Jacques de Molay.
[156] “Sictu mater infantem”. Ibidem, Dupuy, ‘Preuves’, p. 179.
[157] Vide mais à frente os motivos que nos decidiram a olhar este ponto como fora de dúvidas. – O século XIV provavelmente não via
senão uma singularidade suspeita na fidelidade dos Templários às antigas tradições simbólicas da Igreja, por exemplo, na sua predileção pelo
número três: interrogava-se três vezes o recipiendário antes de introduzi-lo no capítulo. Ele pedia, por três vezes, pão, água e ser admitido à
sociedade da Ordem. Ele fazia três votos. Os cavaleiros observavam três grandes jejuns. Eles comungavam três vezes por ano. A esmola se
dava, em todas as casas da Ordem, três vezes por semana. Cada um dos cavaleiros deveria ter três cavalos. A missa lhes era dita três vezes
por semana. Eles comiam carne três vezes na semana, somente. Nos dias de fausto, podia-se servir-lhes três pratos diferentes. Eles
adoravam solenemente a cruz em três épocas diferentes do ano. Eles juravam não fugir na presença de três inimigos. Flagelava-se por três
vezes, em pleno capítulo, aqueles que haviam merecido esta correção etc. etc. etc. Mesma observação no que tange às acusações das quais
foram objeto: reprovou-se-lhes por negarem três vezes, por cuspirem três vezes sobre a cruz. Ter abnegabant, et horribili crudelitate ter in
faciem spuebant ejus. (“Circul.” de Filipe o Belo, de 14 de setembro de 1307). “ Ele mandou negar por três vezes o profeta e por três vezes
escarrar na cruz” (‘Instruction de l’inquisiteur Guillaume de Paris’, Rayn, p. 4),
[158] Em alguns documentos ingleses, a Ordem do Templo é chamada de Militia Templi Salomonis ou Companhia do Templo de Salomão
(manuscrito Bibliothecæ Cottonianæ et Bodleianæ). Eles são também chamados Fratres Militiæ Salomonis (Companhia dos Irmãos de
Salomão) numa carta de 1197. Ducange, Rayn., p. 2.
(NT): Narra-se que a Ordem do Templo tirou seu nome por ter se alojado nas ruínas do Templo de Salomão, em Jerusalém, o que é fato. Há
uma narrativa baseada em testemunhos e hipóteses de que os primeiros Templários cavaram as ruínas dos antigos estábulos do Templo de
Salomão e teriam aí achado um tesouro. Qual tesouro? Ninguém sabe afirmar, mas há quem sustente terem encontrado um segredo que
possibilitou-lhes amealhar poder e riqueza como, por exemplo, a prova da descendência de Jesus. Vide “The Holy Blood and the Holy
Grail”, 1982 e “The Messianic Legacy”, 1986, do trio de autores BAIGENT, Michael; LEIGH, Richard e LINCOLN, Henry; ambos os
livros foram publicados no Brasil pela Ed. Nova Fronteira sob os títulos “O Santo Graal e a Linhagem Sagrada” e “A Herança Messiânica”.
[159] É possível que os Templários que escaparam tenham-se fundido nas sociedades secretas. Na Escócia, todos eles desapareceram,
exceto dois. Ora, já se observou que os mais secretos mistérios da franco-maçonaria são reputados virem da Escócia e que os altos graus são
por ela chamados “Escoceses”. V. Grouvelle e os escritores que ele seguiu, Munter, Moldenhawer, Nicolaï, etc.
[160] Vide Hammer, ‘Mémoires sur deux coffrets gnostiques’, p. 7. Vide também a memória nas ‘Mines d’Orient’ e a resposta de M.
Raynouard (Michaud, ‘Histoire des croisades’, éd. 1828, t. V, p. 572).
[161] (NT): Mencionei, na tradução do Tomo I da “História da França”, o seguinte: os livros “The Holy Blood and the Holy Grail”,
publicado no Brasil pela Ed. Nova Fronteira, em 1982, sob o título “O Santo Graal e a Linhagem Sagrada” (BAIGENT, Michael; LEIGH,
Richard e LINCOLN, Henry) e “A Herança Messiânica” (The Messicanic Legacy) trazem a hipótese do Santo Graal significar Sangue
Real, pela evolução das expressões Sang Real – Sangraal, na medida em que referir-se-ia a Jesus Cristo, da tribo de Davi, que possuiria,
portanto, origem (sangue) real”.
A associação do “sangue real” a um “cálice” é também uma hipótese lançada pelo trio, com base em antiquíssimas tradições do Midi da
França ligadas à cidade de Saintes-Maries-de-la-mer (Santas Marias do Mar), sendo que o “cálice”, até por ter lembrar a genitália feminina
(V), seria o útero de Maria Madalena, o qual teria recebido a semente real, gerado a filha de Jesus Cristo (Sara – Santa Sara Kali – Santa
Sara a Negra) e, desta forma, transmitido o “Sangue Real”.... “dataria daí o Priorado de Sião, encarregado de guardar e proteger a linhagem
do Santo Graal e que, mais tarde, à época das Cruzadas, vai se ligar aos Cavaleiros Templários, seu braço armado multinacional e poderoso.
O bestseller “Código da Vinci”, lançado no início do século XXI, de autoria de Dan Brown, parece ter se inspirado fortemente naqueles livros,
fato que não passou desapercebido aos seus autores que processaram Brown por plágio em 2006, tendo, porém, perdido a disputa. Embora
não se possa falar propriamente em “plágio”, as hipóteses levantadas nos livros do trio (e o trio sempre deixou claro trataram-se de hipóteses) ,
notadamente aquelas relativas ao casamento de Jesus com Maria Madalena e ao conflito entre a Igreja Católica e os descendentes do “sangue
real”, foram refletidas na obra ficcional de Brown, fato reconhecido e considerado pelo Juiz da causa”.
[162] vide meu ‘Histoire de France’, tomo II, último capítulo (NT: já traduzido e publicado por este Tradutor-Editor).
[163] (NT): A “questão” (la question) era um procedimento preparatório do interrogatório que podia ser utilizado ou como meio de coerção
para a obtenção da confissão ou, mais raramente, como meio punitivo (castigo). Era legalmente classificada em dois tipos: (i) questão
preparatória (question préparatoire), que era a tortura infligida durante o procedimento para obtenção da confissão do crime, aplicada no
caso onde a culpa já fora estabelecida, mas ainda insuficiente para impor a condenação à morte e (ii) questão prévia (question préalable) ou
questão definitiva (question définitive), que era a tortura infligida a um condenado para obtenção das confissões e obrigar-lhe a denunciar
seus cúmplices e comparsas; esta tortura era aplicada pouco antes da execução do condenado. A primeira foi abolida por Ordenação Real de
1780 e a segunda por Ordenação Real de 1788, ambas de Luís XVI. – vide http://fr.wikipedia.org/wiki/Question_(torture).
[164] Sem falar de nosso ditado popular (“beber como um Templário”), os Ingleses tinham um outro: “Dum erat juvenis sæcularis, omnes
pueri clamabant publice et vulgariter unus ad alterum: custodiatis vobis ab osculo Templariorum” {NT: “Em sua juventude, os rapazes,
pública e comumente, alertavam: acautelai-vos do ósculo (beijo) dos Templários}, Conc. Britann. p. 360, testis 24.
[165] A regra austera que a Ordem recebeu em sua origem parece, quando de sua queda, um ato de acusação terrível: Domus hospitis non
careat lumine ne tenebrosus hostis... Vestiti autem camisiis dormiant et cum femoralibus dormiant. Dormientibus itaque fratribus usque mane
nunquam deerit lucerna... (NT: Não deixa a casa do anfitrião ser sem luz para que o inimigo não fique no escuro... Deixa-os dormir em
suas camisas e ceroulas... Os irmãos nunca devem dormir sem uma luz, até que venha a luz matutina...), Atos do concílio de Troyes,
1128. Ap. Dup. Templ. 92-102.
[166] Vide, entretanto, Processus contrà Templarios, manuscrito da Biblioteca Real. O que se lê nos Artigos do interrogatório sobre suas
relações com as mulheres – Item les mâitres fesoient frères et suers du Temple... (NT: Idem, os mestres fizeram irmãos e irmãs do
Templo), Proc. manuscrito, folio 10-11- deve se entender como “afiliados da Ordem”; havia ambos os sexos (V. Dup. 99, 102), mas não me
ocorre ter lido nenhuma confissão sobre esse ponto, mesmo nos depoimentos mais contrários à Ordem. Eles confessam, isso sim, uma outra
infâmia, muito mais vergonhosa*.
*(NT): sodomia.
[167] “A maneira de conduzir um Capítulo e de absolver. Após o Capítulo, falará o mestre ou aquele que conduzir (presidir) o Capítulo:
‘Bons senhores irmãos, o perdão de nosso Capítulo é tal que, aquele que tomar erradamente as esmolas de nossa Casa ou mantiver qualquer
coisa em nome próprio, não receberá nem tempo, nem perdão, de nosso Capítulo. Mas todas as coisas que deixardes de dizer por vergonha
da carne ou por medo da justiça da Casa, rogaremos a Deus, por intermédio de sua doce Mãe, vos perdoar”. (francês arcaico: La manere de
tenir chapitre et d’assoudre. Après chapitre dira le mestre ou cely que tendra le chapitre: Beaux seigneurs frères, le pardon de nostre
chapitre est tiels, que cil qui ostast les almones de la meson à toute male resoun, ou tenist aucune chose en noun de propre, ne
prendreit u tens ou pardon de nostre chapitre. Mes toutes les choses qe vous lessez à dire pour hounte de la char, ou poour de la
justice de la mesoun, qe lein ne la prenge requer Dieu pour la requeste de la sue douce Mere le vous pardoint). “Conciles
d’Angleterre”, édit. 1737, t. II, p. 383.
[168] Os depoimentos mais sujos e que pareceriam mais verossivelmente ditados pela questão são aqueles das testemunhas inglesas que,
entretanto, a ela não foram submetidas: “Post redditas gratias capellanus ordinis templi increpavit fratres dicens: ‘Diabolus comburet vos’ vel
similia verba... Et vidit braccias unius fratrum templi et ipsum tentem faciem versus occidentem et posteriora versùs altare... 359. Osendebatur
imago Crucifixi et dicebatur ei, quod sicut antea honoraverat ipsum sic modo vituperaret, et conspueret in eum: quod et fecit. Item dictum fuit
ei quod depositis bracciis verteret dorsum ad crucifixum: quod lacrymando fecit...” (NT: Após receber graças, o capelão da Ordem do
Templo teria dito para os irmãos: ‘Que o diabo vos queime’ ou algo semelhante... E ele viu um dos irmãos do Templo com as calças
abaixadas, parado com a face virada para o oeste e de costas para o altar... 359. E a imagem de um crucifixo foi exibida e disseram-
lhe que, como ela fora antes honrada, ele agora deveria vituperá-la e sobre ela cuspir: o que ele fez. Igualmente foi-lhe pedido para
deixar suas calças abaixadas e virar as costas para o crucifixo: o que fez chorando...), Ibidem, 369, col. 1.
[169] “Habent Templarii christianitate novem milllia maneriorum...”, Math. Paris, p. 417. Mais tarde, a crônica de Flandres atribuiu-lhes
10.500 mansões. Na Senescalia de Beaucaire, a Ordem comprara em quarenta anos contra 10.000 libras de rendas (NT: ? o que comprou?).
– O só priorado de Saint-Gilles possuía 54 comendadorias. Grouvelle, p. 196.
[170] Em seus antigos estatutos, lê-se: Regula pauperum commiilitonum templi Salomonis (NT: Regra dos pobres companheiros do
Templo de Salomão). Rayn., p. 2.
[171] “E Acre, uma cidade, eles a traíram com grande perfídia”. Chron. de S. Denys, ap. Dupuy, p. 26.
[172] Em 1259, a animosidade foi levada a um tal excesso, que Hospitalários e Templários se deram uma batalha na qual os Templários
foram talhados em pedaços. Os historiadores dizem que não escapou ninguém, com exceção de um.
[173] Joinville, p. 81, ap. Dup., ‘Preuv.’, p. 163-164 – Quando se ia efetuar o pagamento do resgate, faltavam 30.000 libras. Joinville rogou
aos Templários emprestá-las ao rei. Eles recusaram e disseram: “Vós sabeis que recebemos as ofertas de tal maneira que, por nossos
juramentos, não podemos delas dispor, senão para benefício da Casa”. Entretanto, eles disseram que se podia tomar-lhes este dinheiro por
força e que, na cidade de Acre, a ordem teria como se indenizar (NT: ao mesmo tempo em que era uma “sugestão” que resolveria o
problema da indisponibilidade dos bens da Ordem para outros fins que não fossem os da Ordem, ela também encerrava uma ameaça
ao Senescal de S. Luís, a ser cumprida em São João d’Acre). Joinville fez-se então tranportar à galera-capitânea da Ordem e desceu ao
porão, onde pediu a chave de um cofre que via à sua frente; mas os Templários recusaram-se a dá-las. Joinville pegou um machado, ergueu-o
e ameaçou utilizar “a chave do rei”. Então, o marechal do Templo, tomando o próprio Joinville como testemunha da violência que sofria,
entregou-lhe as chaves. Joinville, p. 81, éd. 1761.
[174] Audivit dici à Delphino prædicto quòd cùm magister venit de ultrà mare, portavit secum centum et quinquaginta milia florenorum
aureorum et decem summarios oneratos turronum grossorum. Arquivos do Vaticano, Rayn. p. 45.
[175] Essas Ordens igualmente poderosas foram igualmente atacadas. Os bispos livonianos trouxeram contra os Cavaleiros Teutônicos
acusações não menos graves. De João XXII a Inocente VI, os Hospitalários tiveram de suportar os mesmos ataques. Os Jesuítas a eles
sucumbiram. V. Grouvelle, p. 220.
[176] Vide mais abaixo. – Em Castela, os Templários, os Hospitalários e os Cavaleiros de São Tiago (Santiago) tinham um tratado de
garantia contra o próprio rei; Munter, p. 25.
[177] Is magistrum ordinis exosum habuit, propter importunam pecuniæ exactionem, quam, in nuptiis filiæ suæ Isabellæ, ei mutuò dederat
(NT: Ele odiava o mestre da Ordem em virtude de seu inoportuno pedido de devolução do dinheiro que lhe fora emprestado para o
casamento de sua filha Isabela), Thomas de la Moor, in ‘Vita Eduardi II’, ap. Baluze, Pap. Aven. notæ, p. 189. – O Templo tinha, em
épocas diversas, servido de depósito aos tesouros do rei. Filipe Augusto (1190) ordenou que todas as suas rendas, durante sua viagem ao
ultramar, fossem levadas ao Templo e trancadas nos cofres, dos quais seus agentes teriam uma chave e os Templários a outra. Filipe o Ousado
ordenou que fossem lá depositadas as poupanças públicas. – O tesoureiro dos Templários intitulava-se Tesoureiro do Templo e do Rei e,
mesmo, Tesoureiro do Rei no Templo. Sauval, II, 37.
[178] Vide em Dupuy um panfleto que Filipe o Belo se fez provavelmente dirigir: Opinio cujusdam prudentis regi Philippo ut regnum Hieros.
et Cypri acquireret pro altero filiorum suorum, ac de invasione regni Ægypti et de dispositione bonorum ordinis Templariorum {NT: Conselho
de um certo homem prudente (sábio) para o rei Filipe para adquirir o reino de Jerusalém e de Chipre para um de seus filhos, e a
respeito da invasão do reino do Egito e da disposição dos bens da ordem dos Templáros) – V. também Walsingham. – A idéia de aplicar
seus bens para o serviço da Terra Santa teria sido de Raimundo Lúlio. Baluz. Pap. Aven.
[179] Estatutos do Capítulo-Geral dos Dominicanos em 1243, Grouvelle, p. 25.
[180] Vide a história desta ordem pelo dominicano Frederici, 1787. Eles se aproveitaram, entretanto, dos bens do Templo; vários Templários
passaram para esta ordem. {NT: Cavalieri Gaudenti ou Fratri Gaudenti são as formas mais conhecidas da Ordem dos Cavaleiros da
Gloriosa Maria (Ordo Militiæ Maria Gloriosa)}.
[181] Eles tinham sombrios pressentimentos. Um Templário inglês, encontrando um cavaleiro recentemente recebido, disse: “Esne frater
receptus in ordine?” Cui réspondens, ita. Et ille: ‘si sideres super campanile sancti Pauli Londini, non posses videre majora infortunia quam tibi
contigent antequam moriaris” (NT: Está nosso irmão admitido na Ordem? O qual respondeu sim. E ele (disse): se sentares sobre a
cúpula de (igreja) São Paulo em Londres, tu não verás infortúnio maior que outros que vieres a ver antes de morrer). Conc. Brit. p.
387, col. 2.
[182] O concílio de Salzburgo, ocorrido em 1272, e várias outras assembléias eclesiásticas propuseram essa reunião. Rayn., p. 10
[183] Si unio fieret, multùm oporteret quòd Templarii lararentur, vel Hospitalarii restringerentur in pluribus. Et ex hoc possent animarum
pericula provenire... Religio hospitalariorum super hospitalitate fundata est. Templari verò super militiâ propriè sunt fundati.
(NT): a Ordem dos Cavaleiros Templários foi estabelecida em 1118 pelo patriarca de Jerusalém e, originalmente, consistia de nove pobres
cavaleiros que viviam em comunidade no sítio do antigo Templo de Salomão, os quais assumiram as obrigações voluntárias de vigiar as rotas
nas redondezas da cidade e proteger os peregrinos católicos dos insultos, violências e roubos dos infiéis. A Ordem de São João de Jerusalém,
ou dos Cavaleiros do Hospital, alçou-se por meio da construção de um Hospitium ou casa de acolhimento para peregrinos em Jerusalém, por
volta do ano 1048. Tal casa tornou-se um hospital anexo à igreja e Godofredo de Bouillon, quando passou a comandar a cidade em 1099,
passou a provê-lo e tornou-o uma ordem religiosa, obtendo sua confirmação, com uma regra de observância, por Roma. Subsequentemente, os
irmãos acresceram obrigações militares aos seus deveres religiosos. Os Hospitalários, depois disso, tornaram-se célebres como Cavaleiros de
Rodes e, após, Cavaleiros de Malta, exercendo uma Soberania na ilha de mesmo nome até o início do século XIX.
[184] Um outro dizia: Esto quod esses pater meus et posses fieri summus magister totius ordinis, nollem quod intrares, quia habemus tres
articulos inter nos in ordine nostro quos nunquam aliquis sciet nisi Deus et diabolus, et nos, fratres illius ordinis (NT: Suponha que fosses meu
pai e que tu pudesses ser feito Grão-Mestre da Ordem, eu não te deixaria entrar, visto que temos três artigos entre nós, na nossa
Ordem, nenhum dos quais nunca ninguém saberá, salvo Deus, o diabo e nós, irmãos da Ordem), provas das cinquenta e uma
testemunhas, p. 361. – Vide as histórias que corriam sobre as pessoas que teriam sido assassinadas por terem visto as cerimônias secretas do
Templo. Concil. Brit. II, 361.
[185] Dupuy, ibid., p. 207. – É o primeiro dos 140 depoentes. Dupuy desmembrou a passagem. Vide os manuscritos nos Arquivos do Reino,
K. 413.
[186] “Sanus et hilaris cum avibus et canibus, et tertiâ die sequenti mortuus fuit”, Conc. Brit., p. 36.
[187] Tosjors achetoient sans vendre...
Tant va pot à eau qu’il brise.
(NT: Sempre compravam sem vender.../Tanto o pote vai à água, que quebra).
Chron. en verses, citada por Rayn., p. 7.
[188] Na Escócia, reprovava-se-lhes, além da cupidez, não serem hospitaleiros: “Item dixerunt quod pauperes ad hospitalitatem libenter non
recipiebant, sed timoris causâ divites et potentes solos; et quod multùm erant cupidi aliena bona per fas et nefas pro suo ordino adquirere (NT:
Idem, disse que não demonstravam a menor vontade de hospitalidade em relação aos pobres mas, e isto por medo, somente para os
ricos e poderosos; e que muito eram cúpidos em adquirir, por quaisquer meios, a propriedade dos outros para sua própria ordem).
Concil. Brit., 40ª testemunha da Escócia, p. 382.
[189] É curioso ver com qual prodigalidade de elogios e de favores o rei os atraiu para seu reino desde 1304: Philippus Dei gratia Francorum
Rex, opera misericordiæ, magnifica plenituto quæ in sancta domo militiæ Templi, abolini dvinitiis instituta longe latèque per orbem terrarum
Jupiter excercentur... merito nos inducunt ut dictæ domui Templi et fratribus ejusdem in regno nostro ubilibet constitutis quos sincere diligimus
et prosequi favore cupiamus speciali, regium liberalitatis dextram extendimus {NT: Filipe, pela graça de Deus, Rei dos Franceses: as obras
de misericórdia, a magnífica plenitude que exerce a sacra Ordem dos Cavaleiros do Templo, de divina instituição, nos locais
longínquos e por toda a gigantesca (Jupiter) orbe terrestre... merece que estendamos a mão direita da liberalidade real para a
retromencionada Ordem do Templo e seus irmãos, a quem sinceramente amamos e em relação aos quais nos agrada mostrar um favor
especial}. Rayn., p. 44.
[190] O rei, sempre estudamente, fê-la compartilhar do exame e também da responsabilidade desta questão. Nogaret leu o ato de acusação
perante a primeira assembléia da Universidade, a qual se reuniu no dia seguinte ao da prisão. Uma outra assembléia de todos os mestres e de
todos os escolares de cada faculdade se deu no Templo: o Grão-Mestre foi aí interrogado e alguns outros. Eles ainda o foram numa segunda
assembléia.
[191] Vide os numerosos artigos do ato de acusação (Dup., p.?). É curioso compará-lo a uma outra peça do mesmo gênero, à bula do Papa
Gregório IX aos eleitores de Hildeshein, Lubeck, etc, contra os cidadãos de Bingen (Stadt-Bingen) (Raynald, ann. 1234, XIII, p. 446-7). É
com mais coerência a acusação contra os Templários. Esta conformidade provaria, como o quer M. de Hammer, a afiliação dos Templários a
esses sectários?
[192] De acordo com os testemunhos mais numerosos, era uma cabeça aterrorizante de longa barba branca, com olhos brilhantes (Rayn, p,.
261), à qual os Templários eram acusados de adorar. Nas instruções que Guilherme (Guillaume) de Paris remetia às províncias, ordenava-se
interrogar os Templários sobre um “ídolo que é em forma de uma cabeça de homem com uma grande barba” (“une ydole qui est en forme
d’une teste d’homme à une grant barbe”). E o ato de acusação que a corte de Roma publicou, artigo 16: “que, em todas as províncias, eles
tinham ídolos, quer dizer, cabeças, das quais umas tinham três faces e outras apenas uma, e que ocorria ser um crânio de homem”. Artigo 47 e
seguintes: “Que, nas assembléias, e sobretudo nos grandes capítulos, eles adoravam o ídolo como a um Deus, como seu salvador, dizendo que
esta cabeça podia salvá-los, que ela concedia à ordem todas as riquezas e que fazia florescer as árvores e germinar as plantas da terra”.
Rayn. p. 287. Os inúmeros depoimentos dos Templários na França, na Itália, vários testemunhos indiretos na Inglaterra, responderam a este
ponto da acusação e acrescentaram algumas circunstâncias. Adorava-se esta cabeça como aquela de um Salvador, “quoddam caput cum
barba quod adorant et vocant salvatorem suum” (Rayn, 288) – (NT: uma das lendas envolvendo os templários era a de que cabeça
humana em questão seria a de São João Batista) – Deodat Jaffet, recebido na Ordem em Pedena (NT: atual cidade de Pićan, na
Croácia), depõe que aquele que o recebia exibiu-lhe uma cabeça ou ídolo que pareceu-lhe ter três faces, dizendo-lhe: “Tu deves adorá-lo
como teu Salvador e o Salvador da Ordem do Templo”, e que a testemunha diz tê-lo adorado dizendo: “Abençoado seja aquele que salvará
minha alma” (p. 247 e 293). Cettus Ragonis, recebido em Roma num aposento do Palácio de Latrão, depõe que lhe foi dito, ao exibirem-lhe o
ídolo: “Recomenda-te a ele e roga-lhe que te dê saúde” (p. 295). Segundo a primeira testemunha de Florença, os irmãos diziam-lhe as palavras
cristãs “Deus adjuva me” (NT: Deus, ajuda-me); e ele acrescentava que esta adoração era um rito observado em toda a Ordem (p. 294). E,
de fato, na Inglaterra, um irmão menor depõe ter ouvido de um Templário inglês que existiam quatro ídolos principais: um na sacristia do templo
de Londres, um em Bristelham (Bristol), o terceiro em apud Brueriam (Birmingham) e o quarto no além-Humber (p. 297). A segunda
testemunha de Florença acrescenta uma circunstância nova: ela declara que, num capítulo, um irmão disse aos outros: “Adorai esta cabeça;
ela é vosso Deus e vosso Maomé” (Istud caput vester Deus est et vester Mahumet), p. 295. Gauserand de Montpesant diz que ela fora feita
in figuram Baffometi (NT: à semelhança de Bafomé/Baphomet) e Raimundo Rubei, depondo, que lhe exibiram uma cabeça de madeira onde
estava pintada figura Baphometi, adiciona: Et illam asoravit obsculando sibi pedes, dicens yalla, verbum saracenorum (NT: Ele a adorou
beijando-lhe os pés, dizendo yalla, uma palavra sarracena).
M. Raynouard (p. 301) vê a palavra BAFOMÉ, nesses dois depoimentos, como uma alteração da palavra MAOMÉ dada pela primeira
testemunha; ele via uma tendência dos inquisidores em confirmar essas acusações tão divulgadas contra os Templários de boa inteligência com
os Sarracenos. Entretanto, seria necessário admitir que todos esses depoimentos são completamente falsos e obtidos por torturas pois, sem
dúvida, nada de mais absurdo que fazer dos Templários mais maometanos que os próprios maometanos que, de forma alguma, adoram
Maomé. Mas esses testemunhos são por demais numerosos, por demais unânimes e por demais diversos ao mesmo tempo (Rayn., pgs. 232,
237 e 286-302). Além disso, estão longe de serem destruidores para a Ordem. Tudo o que os Templários dizem de mais grave é que tiveram
medo, é que acreditaram nela ver uma cabeça de diabo, de mauffe (NT: diabo, demônio, capeta), p. 290, é que acreditaram ver o próprio
diabo nas cerimônias, sob a figura de um gato ou de uma mulher (pgs. 293-294). Sem desejar fazer dos Templários, em cada ponto, uma seita
de gnósticos, eu preferiria ver aqui, com M. de Hammer, uma influência dessas doutrinas orientais. BAPHOMET, em grego (segundo uma
etimologia, é verdade, assaz duvidosa) é o deus que batiza o Espírito, aquele a respeito do qual está escrito “Ipse vos baptizavit in Spiritu
Sancto et igni, etc.” (NT: Ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo), Mateus cap.3, versículo 11. Era, para os gnósticos, o paracleto
que desceu sobre os apóstolos na forma de línguas de fogo. O batismo gnóstico era, em efeito, um batismo de fogo. Talvez seja preciso ver
uma alusão a alguma cerimônia desse tipo nos rumores que corriam entre o povo contra os Templários “qu’un enfant nouveau engendré d’un
Templier et une pucelle estoit cuit et rosty au feu, et toute la graisse ostée et de celle estoit sacrée et ointe leur idole” (NT: que uma criança
recém-nascida, gerada por um Templário e por uma donzela, foi cozida e assada no fogo, e toda a gordura foi retirada e com ela o
ídolo sagrado foi ungido), Chron. de Saint-Denis, p. 28. Este pretenso ídolo, não seria ele uma representação do Paracleto cuja festa
(Pentecostes) era a maior solenidade do Templo? Essas cabeças, uma das quais devia se encontrar em cada capítulo, jamais foram
recuperadas, é verdade, salvo uma única, mas ela trazia a inscrição LIII. A publicidade e importância que se dava a este título de acusação,
certamente decidiram os Templários a fazerem desaparecer, o quanto antes, a prova. Quanto à cabeça recolhida no capítulo de Paris, eles a
fizeram passar por um relicário, a cabeça de uma das onze mil virgens (Rayn., p. 299) – E ela possuía uma longa barba prateada...
[193] Quis ergo sacrilegus vobis, Pater sancte, præsumet consulere quod vos eos sperniis, imò potiùs Jesum Christum eos mittentem? Dupuy,
p. 11.
[194] Dupuy não nos dá esta carta por inteiro; provavelmente, ela sequer foi remetida mas, antes, divulgada para o povo. Nós possuímos
uma ao contrário, do Papa (1º de dezembro de 1307), segundo a qual o rei teria escrito a Clemente V, que pessoas da corte pontifícia
fizeram a gente do rei acreditar que o Papa o encarregava da persecução contra os Templários; o rei teria se apressado em desencarregar
sua consciência de um tamanho fardo e de repassar todo o problema ao Papa, que muito o agradeceu. Esta carta de Clemente me parece,
como a outra, menos dirigida ao rei que ao público; é provável que ela responda a uma carta que jamais fora escrita.
[195] Arquivos do Reino, K, 413. Esses depoimentos existem num grosso rolo de pergaminho; foram muito negligentemente extraídos por
Dupuy, p. 207-212.
[196] Confessus est abnegationem prædictam, nobis supplicans quatenus quemdam fratrem servientem et famliarem suum, quem secum
habebat, volentem confiteri, audiremus (NT: Ele confessou a anterior negação e trouxe-nos, para ouvirmos a confissão, um certo irmão
servente e seu amigo, que estava com ele), Carta dos Cardeais, Dupuy, 241.
[197] Carlos o Coxo (Charles-le-Boiteux) escreve aos seus oficiais, dirigindo-lhes cartas seladas: “Neste dia que vos assinalo, antes que
seja claro, melhor dizendo, em plena lua, vós as abrireis. 13 de janeiro de 1308”. Dupuy, Pr. p. 233.
[198] “Quare non sic procedet rex et princeps christianissimus etiam contrà totum clerum, si sic erraret vel errantes sustineret vel faveret”.
Apud Raynouard, p. 42.
[199] Ele inclusive escrevera ao rei da Inglaterra para assegurá-lo que Filipe os enviava aos agentes pontifícios e para incentivá-lo a imitar
esse bom exemplo. Dupuy, p. 204. Carta de 04 de outubro de 1307. Todavia, a Ordenação de desembargo pela qual Filipe mandava entregar
os bens dos Templários aos delegados do Papa é de 15 de janeiro de 1309. Além disso, a esses delegados do Papa, ele acrescentou alguns
agentes reais que velavam pelos seus imóveis na França e que, à sombra da comissão pontifícia, estendiam seus limites sobre o domínio
vizinho. É o que nos demonstra uma reclamação do senescal da Gasconha que, em nome de Eduardo II, reclama dessas invasões do rei da
França. Dupuy, p. 312.
[200] Alhures, ele louva magnificamente o desinteresse de seu querido filho que, de forma alguma, age por avareza e nada deseja manter
desses bens: Deinde verò Tu cui eadem fuerant facinora nuntiata, non typo avaritiæ, cum de bonis Templariorum nihil tibi appropriare... immò
ea nobis administranda, gubernanda, conservanda et custodienda liberaliter et devotê dimisisti... 12 de agosto de 1308 (NT: Em verdade, tu,
ante os crimes relatados, não agiu com avareza para te apropriares dos bens dos Templários... Em vez disso, temos, por tua
generosidade e devoção, sido encarregados de administrá-los, geri-los, conservá-los e custodiá-los...). Dupuy, p. 240.

[201] Dupuy, p. 240-242. A comissão compunha-se do arcebispo de Narbonne, dos bispos de Bayeux, de Mende, de Limoges, dos três
arquidiáconos de Rouen, de Trento e de Maguelone e do preboste da igreja de Aix. Os meridionais, mais votados ao Papa, estavam, como se
vê, em maioria.
[202] Passando, em seguida, a uma outra questão, o Papa declara ter suprimido, como inútil, um artigo da convenção com os Flamengos que
ele havia, por preocupação ou negligência, firmado em Poitiers, a saber, que se os Flamengos incorressem na sentença pontifícia, violando esta
convenção, eles não poderiam ser absolvidos senão a pedido do rei. A dita cláusula poderia manchar o Papa como simplório. Todo
excomungado que se corrige pode se fazer absolver, mesmo sem o consentimento da parte adversa. O Papa não pode, jamais, abdicar o poder
de absolvição.
[203] Processus contra Templarios, manuscrito. Os comissários escreveram uma nova carta na qual diziam que, aparentemente, os
prelados tinham acreditado que a comissão devia proceder contra a Ordem em geral e não contra os membros; que não era, todavia, assim:
que o Papa lhes remetera o julgamento dos Templários.
[204] No mesmo dia 22 de novembro, antes dele, um homem em trajes seculares se apresentou perante os bispos e declarou se chamar
Jean de Melot (e não Molay, como dizem Raynouard e Dupuy), ter sido Templário por dez anos e ter deixado a Ordem, apesar de nela não ter
visto qualquer mal. Ele declarava vir para fazer e dizer tudo o que desejassem. Os comissários perguntaram-lhe se ele desejava defender a
Ordem, pois estavam prontos a ouvi-lo benignamente. Ele respondeu que não viera para outra coisa, mas que desejava, antes de tudo, saber o
que desejavam fazer da Ordem. E acrescentou: “Fazei comigo o que desejardes, mas fazei com que minhas necessidades sejam supridas, pois
sou muito pobre (“Ordonnez de moi ce que vous voudrez, mais faites-moi donner mes nécessités, car je suis bien pauvre”). – Os
comissários, vendo, pela sua figura, por seus gestos e suas palavras, que era um homem simples e um espírito débil, não continuaram mais;
enviaram-no, porém, ao bispo de Paris que, segundo diziam, o acolheria com bondade e mandaria dar-lhe alimentação. Process. manuscrito,
folio 8.
[205] ... Nisi unum fratrem servientem, cum quo consilium habere posset. Prædicti domini commissarii dixerunt prædicto Magistro quod bene
et plene deliberaret super dicta defensione ad quam se offerebat.
[206] M. Raynouard diz “os cardeais”, mas erradamente.
[207] Abscindunt caput perversis inventis, vel scindunt eos per medium. Dupuy, 319.
[208] Quum idem Magister rogasset nobilem virum dominum Guillelmum de Plasiano... qui ibidem venerat, sed non de madato dictorum
dominurm commissariorum, secundum quod dixerunt... et dictus dominus Guillelmus fuisset ad partem locutus cum eodem Magistro quem sicut
asserebat diligebat et dilexerat, quia uterque miles erat (NT: O mesmo Mestre rogou ao nobre homem, senhor Guilherme de Plasian... que
para ali tinha vindo, mas não por ordem do mencionado senhor comissário, segundo disseram... e o dito senhor Guilherme falou à
parte com o mesmo Mestre, o qual, como ele afirmou, amava e tinha amado, pois eram ambos soldados). Ibid, 319.
[209] Quam dilationem concesserunt eidem, majorem etiam se daturos asserentes, si sibi placeret et volebat (NT: Para o mesmo, foi
condedida a dilação; e maior ser-lhe-ia dada, se lhe agradasse e desejasse). Ibid., 320.
[210] Requirens eosdem quòd cùm ipse sicut et alii homines esset mortalis nec haberet de tempore nisi nunc, placeret eisdem Dominis
commissariis significare Domino Papæ quòd ipsum Magistrum quàm citiùs posset ad ejus præsentiam evocaret... ibid.
[211] Vade, vade, ego plus possum quam Christus unquam potnerit, quia ego possum humiliare et depauperare Reges et Imperatores et
principes, et possum de uno parvo milite facere unum magnum Regem, et possum donare civitates et regna (NT: Vá, vá, eu posso mais que
Cristo poderia, pois posso humilhar e empobrecer Reis e Imperadores e Príncipes, e posso, de um soldado parvo (imbecil), fazer um
grande Rei, e posso dar cidade e reinos) Ibid, p. 566.
[212] (NT): O Tradutor abriu mão do sufixo diminutivo latino erudito “ola” (e.g., rapazola, radiola, viola, pianola, sacola etc.) pois, no Brasil,
“mariola” é o nome que se dá um doce de banana prensado.
[213] Tace miser, non credimus in asinam nec in pullum ejus (NT: Cala-te miserável, não acreditamos nem na jumenta, nem em seu
burrinho). Ibid. p. 6.
[214] Pro quâ defensioni si patrem occidat, meritum habet, nec pœnas meretur. Dupuy, ‘Diff.’, p. 309.
[215] Quòd contenti erant de lecturâ in latino, et quòd non curabant quòd tantæ turpitudines quas asserebant omninò esse falsas et non
nominandas vulgariter, exponerentur (NT: Que estavam contentes da leitura em latim, e que se importavam que tamanhas torpezas, as
quais asseveravam serem todas falsas, não fossem expostas em (língua) vulgar). Processus contra Templarios, manuscrito.
[216] Dicentes quòd non petebatur ab eis quandò ponebantur in jainis si procuratores constituere volebant. Ibidem.
[217] Uns eram guardados no Templo, outros em Saint-Martin-des-Champs, outros na mansão (hôtel) do conde de Savóia e em diversas
casas particulares. Process. contra Templ., manuscrito, folio.
[218] Respondit quod nolebat litigare cum Dominis papâ et rege Franciæ. Process., manuscrito, 11 verso.
[219] O irmão Élie, autor desta peça tocante, finda por rogar aos notários corrigir as locuções viciosas que possam ter se infiltrado em seu
latim. Process., manuscrito, folio 31-32. Outros escrevem uma apologia em língua romana, alterada e muito misturada com o francês do norte
(folio 36-38).
[220] Eu ofereço esta peça tal como ela foi escrita pelos notários, em sua ortografia bárbara (NT: texto original em francês arcaico logo
após a tradução): “Aos homens honoráveis e sábios, ordenados por nosso pai, o Apóstolo (o papa), para o caso dos irmãos Templários, os
quais estão na prisão em Paris, na casa de Tiron... Honra e reverência. Como vosso notário estivesse conosco nesta quinta-feira próxima
passada e nos perguntasse se desejávamos defender a Religião do Templo acima dito, todos disseram sim, e dissemos que ela é boa e leal e,
em tudo, sem malvadeza e traição em tudo o que colocam contra ela, e estamos prontos a nos defender, cada um por si ou todos juntos, de tal
maneira que o direito e a santa Igreja e vós assim a olhareis, como aqueles que estão na prisão, nossos irmãos, a sofrer. E somos mantidos em
negras fossas escuras todas as noites. – Idem, nós vos fazemos saber que as dádivas de XII denários que temos não nos bastam. Pois somos
obrigados a pagar por nossas camas III denários por dia, cada cama. O aluguel da cozinha, lenços, toalhas, por panelas e outras coisas, II
soldos e VI denários por semana. Idem para nos ferrar (agrilhoar, prender com ferros) e desferrar (retirar os grilhões de ferros), quando
estamos perante os auditores, II soldos. Idem para lavar camisas, túnicas, linhos, cada XV dias XVIII denários. Idem para lenha e candeias
(velas), cada dia IIII denários. Idem para passar e repassar (retornar) os ditos irmãos (de barca), XVI denários, dos asilos de Notre-Dame do
outro lado da água”.
“A homes honerables et sages, ordenés de per notre père l’Apostelle pour le fet des Templiers li freres, liquies sunt en prisson à Paris en la
masson de Tiron... Honeur et reverencie. Comes votre comandemans feut à nos ce jeudi prochainement passé et nos feut demandé se nos
volens defendre la Religion deu Temple desusdite, tuit disrent oil, et disons que ele est bone et leal, et en tout sans mauvesté et traison tout
ceque nos l’en met sus, et somes prest de nous défendre chacun pour soy ou tous ensemble, an telle manière que droit et sante Églies et vos
an regadarons, como cil qui sunt en prisson an fois frès à cople II. Et somes en neire fosse oscure toutes les nuits. – Item, nos vos fessons à
savir que les gages de XII deniers que nos avons ne nos soufficent mie. Car nos convient paier nos lis III denier par jour chascun lis. Loage du
cuisine, napes, touales, pour tenelles et autres choses, II solds VI denier la semaigne. Item pour nos fergier et desferger, puisque nos somes
devant les auditors, II sol. Item pour laver dras et robes, linges, chacun XV jours XVIII denier. Item pour buche et candole chascun jor IIII
deniers. Item passer et repasser les dis frères, XVI deniers de asiles de Notre Dame de l’altre part de l’iau. (Processus contra Templ.,
manuscrito, folio 39).
[221] ... Apud Deum et Patrem... Et hoc est omnium fratrum Templi communiter una professio, quæ per universum orbem servatur et
servata fuit per omnes fratres ejusdem ordinis, à fundamento religionis usque ad diem præsentem. Et quicumque aliud dicit vel aliter credit,
errat totaliter, peccat mortaliter... {NT: Diante de Deus e seu Pai... E esta é profissão una que comunga toda a irmandade do Templo
que, em todo o universo (orbem) se observa e é observada por todos os irmãos da mencionada Ordem, desde a fundação da religião
até o dia presente. E quem quer que diga ou acredite no contrário, erra em tudo, peca mortalmente}. Dup., 333.
[222] (NT) Provérbios, 24,16 (Antigo Testamento).
[223] ... Quia si recesserunt, prout dicunt, comburentur omninò. Ibid, 334.
[224] “...Liberum arbitrium quod est quidquid boni potest homo habere; undè qui caret libero arbitrio, caret omni bono, scientiâ, memoriâ et
intellectu”. Ibidem, p. 340. Admirável lembrança de justiça e de moralidade. Os Templários, que exigiam de seus adeptos um sacrifício
tão completo do livre arbítrio, aqui reconhecem que, sem ele, o homem nada é. Assim é que vemos, mais abaixo, Nogaret invocar o verdadeiro
ou pretenso perdão de sua vítima, a absolvição de um papa ao qual ele recusava o título de Papa.
[225] Ostendes duo ossa quòd dicebat illa esse quæ ceciderunt de talis. Proc. contra Templ., apud Rayn., p. 73.
[226] Sed dicti Domini commissarii dixerunt eis quod eos non dimitterent ibi, nec de eorum mandato seu consilio, sed extrà facerent quidquid
velent. Dupuy, p. 338.
[227] Desde o início, o rei da Inglaterra se declarara pública e altivamente em favor da Ordem; seja por sentimento de justiça, seja por
oposição a Filipe o Belo, ele escrevera, em 04 de dezembro de 1307, aos reis de Portugal, de Castela, de Aragão e da Sicília em favor dos
Templários, conjurando-os a não darem fé a tudo aquilo que, na França, se debitava contra os mesmos. Dupuy, p. 226-228.
[228] Segundo Dupuy, p. 45, os comissários do Papa teriam respondido ao apelo dos defensores: “Que os concílios julgassem os casos
particulares e eles se informassem do geral” – A comissão disse todo o contrário.
[229] Petimus Apostolos, et iterùm petimus, et cum instantiâ maximâ petimus. Ibid., p. 346.
[230] Videtur quasi contrarium rationi tales judicare relapsos... In talibus dubiis restringendæ sunt pœnæ. Rayn. p. 106.
[231] Quod ipsi nesciebant quid in dicto concilio agebatur... et quod sicut ipsi... erant Apostolica Auctoritate deputati... propter quod non
videbatur dictis commissariis primâ facie, ut dixerunt, qudo haberent aliqua inhibere dicto domino archiepiscopo Senonensi... adhuc tamen
deliberarent. Dup., p. 346.
[232] Nome quase ilegível no texto. A mão treme, evidentemente. Mais acima, o notário escrevera direito: Bertaldi.
[233] Quòd LIIII ex Templariis... erant dictâ die comburendi... Process. contra Templ., manuscrito, folio 72 (folha cortada pela metade).
[234] Adeò exterriti... non videbantur in pleno sensu suo... Ibidem.
[235] ... A quodam fuisse dictum coràm domino archiepiscopo Senonensi, ejus suffraganeis et concilio... quòd dicti præpositus... et
archdiaconus... (qui en dictâ die martis... præmissa intimasse dicebantur, et ipsi iidem hoc attestabantur, suffraganeis domini archiepiscopi
Senonensi... tunc absente dicto domino archiepiscopo Senonensi) prædicta non significaverant de mandato corumdem dominorum
commissariorum.
[236] Constanter et perseveranter in abnegatione communi perstierunt... non absque multâ admiratione stuporeque vehementi {NT:
Constantes e perservantes na negação comum se mantiveram... não sem muito admiração e veemente estupor). Contin. Guil. Nang., in
Spicil. D’Achery, III, anno 1310.
[237] “Pallidus et multùm exterritus... impetrando sibi ipsi, si mentiebatur in hoc, mortem subitaneam et quod statim in animâ et corpore in
præsentiâ Dominorum commissariorum absorberetur in infernium, tondendo sibi pectus cum pugnis, et ellevando manus suas versùs altare ad
majorem assertionem, flectendo genua... cùm ipse testis vidisset... duci in quadrigis LIII fratres dicti ornis ad comburendum... et
ADDVISSE EOS FUISSE COMBUSTOS; quòd ipse qui dubitabat quòd non posset habere bonam patientiam si combureretur, timore mortis
confiteretur... omnes errores... et quidem etiam interfecisse Dominum, si peteretur ab eo...”. Proc. cont. Templ., manuscrito, 70, verso.
[238] Durante terrore prædicto. Processus c. Templ., manuscrito, folio 71.
[239] Non intendentes... aliquam inhibitionem facere... ibidem.
[240] Biennium erat elapsum. Ibidem.
[241] Non erat intentionis.. in aliquo impedire officium... ibidem.
“Como se dizia que o preboste da igreja de Poitiers e o arquidiácono de Orléans não haviam falado da parte dos comissários, estes aqui
encarregaram os enviados do arcebispo de Sens de dizer-lhe que o preboste e o arquidiácono haviam, efetivamente, falado em seu nome.
Além disso, eles lhes pediram para informarem ao arcebispo de Sens que Pierre de Boulogne, Chambonnet e Sartiges, tinham apelado do
arcebipo e de seu concílio no domingo, 10 de maio, e que este apelo devia ter sido anunciado na terça-feira, ao concílio, pelo preboste e pelo
arquidiácono”. Process., manuscrito, ibidem.
[242] Intellecto per litteras regias quòd non expediebat. Ibidem, 72, verso.
[243] Pode-se isso julgar pelo depoimento de Jean de Pollencourt, o trigésimo-sétimo depoente. Ele inicialmente declara manter-se fiel às
suas primeiras confissões. Os comissários, vendo-o completamente pálido e apavorado, dizem-lhe para não considerar outra coisa senão dizer
a verdade e salvar sua alma; que ele não corre qualquer perigo por dizer a verdade a eles; que não revelarão suas palavras, nem eles, nem os
notários presentes. Então, ele retrata seu depoimento e declara, mesmo, ter-se confessado a um irmão menor que o incentivou a não prestar
mais falsos testemunhos.
[244] Nos concílios de Sens, Senlis, Reims, Rouen etc., e diante dos bispos de Amiens, Cavaillon, Clermont, Chartres, Limoges, Puy, Mans,
Mâcon, Maguelonne, Nevers, Orléans, Périgord, Poitiers, Rhodez, Saintes, Soissons, Toul, Tours, etc... Raynouard, p. 138.
[245] Este registro, que frequentemente citei, está na Biblioteca Real (fundos Harlay, nº 329). Ele contém a instrução feita em Paris pelos
comissários do Papa: Processus contra Templarios. Este manuscrito foi colocado no tesouro de Notre-Dame. Ele passou, não se sabe como,
pela biblioteca do presidente Brisson, depois daquela do M. Serviu, advogado-geral, enfim, naquela dos Harlay, cujas armas ainda exibe. Em
meados do século XVIII, M. de Harly, tendo provavelmente escrúpulo de permanecer detentor de um manuscrito desta importância, o legou à
biblioteca de Saint-Germain-des-Prés. Tendo felizmente escapado ao incêndio desta biblioteca em 1793, ele passou à Biblioteca Real. Existe
uma cópia nos arquivos do Vaticano. Vide o apêndice de M. Rayn., p. 309. – A maior parte das peças do processo dos Templários está nos
Arquivos do Reino. As mais curiosas são: 1º) o primeiro interrogatório de cento e quarenta Templários detidos em Paris (em um grosso
rolo de pergaminho); Dupuy dele nos deu alguns trechos muito negligentes; 2º) vários interrogatórios, feitos em outras cidades; 3º) a minuta
dos artigos sobre os quais os Templários foram interrogados; esses artigos são precedidos de uma minuta de carta, sem data, do rei ao
Papa, espécie de factum destinado evidentemente a ser espalhado entre o povo. Essas minutas foram escritas sobre papel de algodão. Este
frágil e precioso farrapo, com uma ortografia muito difícil, foi decifrado e transcrito por um de meus predecessores, o sábio M. Pavillet. Ele
está carregado de correções que M. Raynouard descobriu com cuidado (p. 50) e que só podem ser da mão de um dos ministos de Filipe o
Belo, de Marigny, de Plasian ou de Nogaret; o Papa copiou docilmente os Artigos sobre o velino que está no Vaticano. A carta, apesar de suas
divisões pedantescas, foi escrita com um calor e uma força notáveis: In Dei nomine, Amen. Christus vincit. Christus regnat. Christus imperat.
Post illam universalem victoriam quam ipse Dominus fecit in ligno crucis contrà hostem antiquum... ita miram et magnam et strenuam, ità
utileas et necessarium... fecit novissimis bis diebus per inquisitores... in perfidorum Templariorum negocio... Horrenda fuit domino regi...
propter conditionem personarum denunciantium, quia parvi statûs erant homines ad tàm grande promovendum negotium, etc. {NT: Em nome
de Deus, Amém. Cristo vence. Cristo reina. Cristo julga. Desde aquela vitória universal de Nosso Senhor na cruz de madeira sobre o
velho inimigo... tão admirável e grande e vigorosa, tão útil e necessária... foram produzidos novíssimos (documentos), nestes últimos
dias, pelos inquisidores... no caso dos pérfidos Templários... Alarmado ficou o senhor rei... em virtude do ranque (social) das pessoas
dos acusadores, porque eram homens de pequena condição para promoverem uma causa tão grande}. Arquivos, Seção hist., J. 413.
[246] Mainz, 1º de julho; Ravena, 17 de junho; Salamanca, 21 de outubro 1310. Os Templários da Alemanha se justificaram na forma dos
franco-juízes westfálios: eles se apresentaram em armas perante os arcebispos de Mainz e de Tréveris, afirmaram sua inocência, viraram as
costas para o tribunal e se foram calmamente. Vide meu Symbolique du Droit.
[247] Monsgaudii, a Montanha da alegria.
(NT): para uma visita virtual ao famoso e impressionante Castelo de Monzón: http://www.monzon.es/visitasvirtuales/castillo/index.php.
Vide também: http://www.monzontemplario.com/.
[248] Collectio conciliorum Hispaniæ, epistolarum, decretalium, etc. curâ Jos. Saen. de Aguirre, bened. hisp. mag. generalis et cardinalis.
Romæ, 1694, c. III, p. 546. Concilium tarraconense omnes et singuli à cunctis delictis, erroribus absoluti, 1312 (NT: Todos e cada um foram
declarados livres de todos os delitos e erros pelo concílio de Terracona, em 1312). Vide também Monarchia Lusitana, pars 6, L. 19.
[249] Esta tímida e incompleta reparação não parece suficiente a Villani. Ele acrescenta, sem dúvida para tornar a coisa mais dramática e
mais vergonhosa para os Franceses, que dois cavaleiros catalães jogaram a luva e se ofereceram para defender a inocência de Bonifácio
através de um combate. Villani, l. IX, c. 22, p. 454.
[250] O documento seguinte (em francês arcaico), encontrado na abadia das damas de Longchamp, é uma amostra das maravilhosas
narrativas pelas quais tratava-se de requentar o zelo do povo para a cruzada: “À mui santa senhora da real linhagem dos Franceses, Joana
Rainha de Jerusalém e da Sicília, nossa mui honorável prima - Hugo, rei de Chipe, deseja feliz realização de todos os seus melhores desejos.
Regozijai-vos e elevai-vos conosco e com os outros cristãos portadores do sinal da cruz que, para a reverência de Deus e pela vingança do
mui doce Jesus Cristo que, para nos salvar, escolheu para sacrifício o altar da cruz, combatem contra o muito descrente povo dos Turcos.
Elevai ao céu o brado de vossa voz o mais alto que puderdes e bradai junto e fazei bradar rendendo graças e louvores, sem jamais cessar, à
bendita Trindade e à mui gloriosa Virgem Maria, de tão solene, grande e singular benção que, até esta hora, jamais foi ouvida e à qual faço
saber. Pois, no dia 23 de junho, nós, com os outros cristãos marcados com o sinal da cruz, estávamos reunidos na planície entre Smirna e um
terreno alto, onde estava a hoste (exército) e o agrupamento mui forte e mui poderoso dos Turcos, perto de doze mil, e nós cristãos éramos por
volta de dois mil, movidos e animados pela virtude divina; começamos a tão vigorosamente combater e à morte pôr tão grande quantidade de
Turcos que, por volta da hora das vésperas, nós estávamos tão cansados e tão exaustos que não podíamos mais. Mas estávamos todos à
terra, esperando a morte e as recompensas de nosso martírio, visto que os Turcos ainda tinham muitos deles que ainda não haviam combatido,
nem se afadigado; e vinham contra nós, tão desejosos de beber nosso sangue como os cães são desejosos de beber o sangue das lebres. E
bem o teriam feito, se a mui grande doçura do céu não nos tivesse de outra forma provido. Mas, quando os cavaleiros de Jesus Cristo se
entreolharam que haviam chegado a tal ponto da batalha, comeraçam juntos, em coro, a bradar em voz alta seu grande labor e sua grande
fraqueza: “Ó dulcíssimo filho da dulcíssima Virgem Maria que, para nos redimir, escolheu ser crucificado, dai-nos firme esperança e velai por
nossos corações para fortalecê-los em vós, que possamos, por amor de vosso glorioso nome, receber as recompensas do martírio, pois mais
não podemos nos defender desses cães descrentes”. E asssim, como estivéssemos em oração com soluços e lágrimas e bradando com vozes
enrouquecidas e fatigadas, aguardando uma amarga morte, repetinamente, à frente de nossas tendas, apareceu sobre um alvíssimo cavalo, tão
alto como nenhuma outra besta, um homem, carregando em sua mão um pendão em campo mais branco que nenhum outro, com uma cruz
mais vermelha que sangue, e estava vestido com uma pele de camelo, e tinha um longuíssima barba num magro rosto claro e reluzente como
Sol, que gritou em clara e alta voz: “Ó gente de Jesus Cristo, não duvideis. Vede a majestade divina que vos abristes o céu e vos envia ajuda
invisível. Erguei-vos e reconfortai-vos e tomai a carne e vinde vigorosamente comigo combater; não duvideis de nada. Pois sobre os Turcos
tereis vitória e poucos de vós morrereis e, aqueles que morrerem, terão vida eterna”. E então, nós nos levantamos todos, tão reconfortados e
também como se nós nunca tivéssemos combatido e, de repente, nós assaltamos os Turcos com muita coragem e combatemos toda a noite e,
ainda assim, não podemos dizer verdadeiramente noite, pois a lua não brilhou como a lua, mas como o Sol. E quando veio o dia, os Turcos
sobreviventes fugiram, que não mais os vimos e, assim, com a ajuda de Deus, nós tivemos a vitória da batalha e, de manhã, nós nos sentíamos
mais fortes que estávamos no início da primeira batalha. Assim, mandamos cantar uma missa em louvor da bendita Trindade e da benta
Virgem Maria, e devotamente rogamos a Deus que Ele desejasse nos outorgar a graça de reconhecer os corpos dos nossos santos mártires
entre os corpos dos descrentes. E então, aquele que diante de nós havia aparecido, nos disse: “Tereis o que pediste e maior coisa fará Deus
por vós, se firmemente na verdadeira fé perserverardes”. Então, de nossa própria boca, perguntamos a ele: “Sire, diga-nos quem és tu, que tão
grandes coisas fizeste por nós, para que possamos ao povo cristão teu nome dar a conhecer”. E ele respondeu: “Eu sou aquele que disse: Ecce
agnus Dei, Ecce qui tolis peccata mundi (NT: Eis o cordeiro de Deus, Eis aquele que retira os pecados do mundo). Aquele cuja festa vós
hoje celebrais”. E isto dito, não O vimos mais, mas deixou de Si para nós um mui grande e suavíssimo odor que, durante todo o dia e toda a
noite seguintes, nós fomos perfeitamente sustentados, refrescados e alimentados sem outro sustento de carne corporal. E, tão perfeitamente
reconfortados estávamos, que demos ordem de procurar e numerar (quantificar) os corpos dos santos mártires e, quando chegamos ao local,
encontramos à cabeça de cada corpo dos cristãos, um longo galhinho sem ramos que tinha no copo uma mui branca flor como uma hóstia
consagrada, e nesta flor estava escrito com letras de ouro: “eu sou cristão”. E então, nós os separamos dos corpos dos descrentes,
agradecendo ao soberano Senhor. E assim, como desejássemos sobre os corpos mandar dizer o ofício dos mortos, tal como os cristãos têm o
costume de fazer, inúmeras vozes do céu soaram e ergueram um canto de mui doce melodia que parecia, a cada um de nós, que estivéssemos
na posse da vida eterna e, por três vezes, cantaram esse versete: “Venite, benedicti patris mei, etc”. Vinde o abençoado filho de meu pai e
vos coloqueis na posse do reino que vos foi preparado desde o início do mundo. E então nós enterramos os corpos, a saber, três mil e cinquenta
e dois perto da cidade de Tebaída, que outrora foi uma cidade singular (renomada), a qual, com as regiões dos arredores, mantivemos para nós
e para os leais cristãos. E este país é tão agradável e deleitável e abundante, que nenhum bom cristão que aí esteja pode duvidar que nele não
possa viver bem e encontrar sua subsistência. E os putrefatos corpos dos descrentes, tanto quanto pudemos contá-los, eram mais de setenta e
três mil. Assim, esperamos que o tempo tenha vindo que a palavra do Evangelho seja feita, a qual diz que haverá um curral e um pastor, quer
dizer, que todas as espécies de pessoas serão de uma única fé, juntas na casa e na obediência à Santa Igreja da qual Jesus Cristo será o
pastor, que é bendito para o século dos séculos, Amém (Qui est benedictus in secula seculorum. Amen). E ocorreu este milagre no ano da
graça de 1347”. Arquivos, Secão Hist. , M. 105.
(NT: texto original em francês arcaico): “A trez sainte dame de la réal lingniée des Françoiz, Jehenne, Royne de Jerusalem et de Cécile, notre
trez honorable cousine, Hue roy de Cypre, tous ses boz desirs emprospérité venir. Esjouissez vous et elessiez avecquez nous et avecques lez
autrez crestienz portans le singne de la croix, qui pour la reverance de Dieu et la venjance du trez doulz Jhesucrist qui pour nous sauver voult
estre en l'autel de la crois sacrefiez, se combatent contre la trez mescréant gents des Turz. Eslevez au ciel le cri de vous voiz au plus haut que
vous pourrez et criez ensemble et faitez crier en rendant gracez et loangez sans jamez cesser à la benoite Trinité et à la très glorieuse Vierge
Marie de si sollempnel si grant et singullier bénéfice qui onquez maiz tel dusquez à hore ne fu ouis, lequel je faiz savoir. Quar le XXIIII jours de
juing, nous avecquez lez autrez crestienz signés du singne de la croiz, estions assemblez en un plain entre Smirme et haut lieu, là ou estoit l'ost
et l'assemblée trez fort et trez puissant des Turz prez de XII. c. mille, et nous crestiens environ cc. mille, meuz et animez de la vertu divine,
comansamez à si vigreusement combattre et si grant multitudez Turz mettre à mort, que environ de heure de vesprez nous feusmez tant lassez
et tant afoibloiez que nous n'en poyons pluz. Mais tous cheuz à terre atandions la mort et le loier de notre martire, pour ce que des Turzs avait
encore moult deschiellez qui encore point ne sestoient combatu ne nestoient de rienz travaillez et venoient contre nous, aussi désiraux de boire
notre sanc comme chienz sont désiraux de boire le sanc des lievrez. Et beu l'eussent, si la tres haute doulceur du ciel ne eust aultrement
pourveu. Mais quant lez chevaliers de Jhesucrit se regarderent que il estoient venuz à tel point de la bataille, si commencierent de cuer
ensemble à crier à voiz enroueez de leur grant labeur et de leur grant feblesce: O très doulz fils de la trèz doulce Vierge Marie, qui pour nous
racheter voulsiz estre crucifiez, donne nous ferme espérance et veillez noz cuers si en vous confermer que nous pussions par l'amour de ton
glorieux non le loier de martire recevoir, que pluz ne nous poonz deffandre de cez chienz mescreanz. Et ainsi comme nous estienz en oraison
en pleurs et en larmez, en criant alassez vois enroueez, et la mort trez amere atendanz, soudainement devant noz tentez aparut suz un trez
blanc cheval si trez haut que nulle beste de si grant hauteur nest unz homs en sa main portant baniere en champ plus blanche que nulle rienz à
une croiz vermeille plus rouge que sanc, et estoit vestu de peuz de chamel, et avoit trez grant et trez longue barbe et de maigre face clere et
reluisant comme le soleil, qui cria a clere et haute voiz: “O les genz de Jhesucrit, ne vous doubtez. Veci la majesté divine qui vous a ouver lez
cielx et vouz envoie aide invisible. Levez suz et vous reconfortez et prenez de la viande et venez vigreusement avecquez moi combattre, ne ne
vous doubtez de rienz. Quar des Turz vous aurez victoire et peu mourronz de vouz et ceulz qui de vouz mourront auront la vie perdurable”. Et
adonc nous nouz levamez touz, si reconfortez et aussi comme se nous ne nous feussienz onquez combatuz et soudainement nous assilemez
(assaillîmes) les Turz de tres grand cuer et nous combatimez toutez nuit, et si ne poons paz bien vraiement dire nuit, car la lune non pas comme
lune, maiz comme le soleil resplendissant. Et le jour venu, les Turz qui demourez estoient senfouirent si que pluz ne lez veismez et aussi par
l'aide de Dieu nous eumez victoire de la bataille, et de matin nous nous sentienz plus fors que nous ne faisienz au commencement de la
première bataille. Si feimez chanter une messe en lonneur de la benoite Trinité et de la benoite Vierge Marie, et dévotement priamez Dieu que
il nous voulsit octroier grace que les corps des sainz martirs nous puissienz reconnoistre des corps aux mescreanz. Et adonc celui qui devant
nous avoit aparut nous dit: «Vous aurez ce que vous avez demandé et plus grant chose fera Dieu pour vous, se fermement en vraie foy
perseverez.” Adonc de notre propre bouche li demandamez: “Sire, di nous qui es tu, qui si granz choses as fait pour nous, pourquoy nous
puissionz au pueple crestien ton non manifester”. Et il respondi: “Je suis celui qui dist: ‘Ecce agnus Dei, ecce qui tollit peccata mundi, Celui de
cui aujourduy vous celebrez la feste”. Et ce dit, pluz ne le veismez, mais de lui nous demoura si très grant et si très soueve oudeur que ce jour
et la nuit ensuivant nous en feumez parfaitement soustenus, recreez et repuez sans autre soutenance de viande corporelle. Et en ceste si
parfaite recreation nous ordenemez de querre et denombrer lez corps dez sainz martirs et quant nous veinmez au lieu nous trouvasmes au chief
de chacun corps dez crestienz un lonc fut sanz wranchez (branches) qui avoit au coupel une trez blanche fleur ronde comme une oiste (hostie)
que l'on consacre, et en celle fleur avoit escript de lettrez dor: Je suis crestien. Et adonc nous lez separamez dez corps dez mescreanz, en
merciant le souverain Seingneur. Et ainsi comme nous voulienz suz lez corps faire dire l'office dez mors, cy comme lez crestienz ont acoustume
à faire, lez voix du ciel sanz nombre entonnerent et leverent un chans de si tres doulce melodie que il sembloit a chaccun de nous que nous
feussienz en possession de la vie perdurable, et par III foiz chanterent ce verset: “Venite, benedicti Patris mei”, etc. Venez lez benoiz filz de
mon Pere, et vous metez en possession du royaume qui vouz est aplie dez le commencement du monde. Et adonc nous ensevelismez les
corps, cest a savoir III mille et cinquante et II, jouste la cite de Tesbayde qui fu jadiz une cite singuliere, laquelle, avuecquez le pays dileuc
environ, nous tenonz pour nous et pour loiaux crestienz. Et est ce pays tant plaisant et delitable et plantureux que nul bon crestien qui soit la, ne
se puet doubter que il ne puist bien vivre et trouver sa soustenance. Et les charoingnez des corps des mescreanz cy, comme nous les poimez
nombrer, furent pluz de LXXIIIM. Si avonz esperance que le temps est present venu que la parole de l'Euvangele sera verefiece qui dit qu'il
sera une bergerie et un pasteur, c'est-à-dire que toutez manières de gent seront d'une foy emsemblez en la maison et lobediance de Se. eglise
dont Jhesucrist sera pasteur: Qui est benedictus in secula seculorum. Amen. Et avint cedit miracle en lan de grace MIL CCC et XLVII”.
[251] V. a carta de Clemente V ao rei da França, 11 de novembro de 1311, em Raynouard, p. 177.
[252] Nihil in hoc libro intendit nisi Jesus-Christi noticia et dilectio viscerosa et imitatoria vita (NT: Nada neste livro vai além da intenção de
dar conhecimento de Jesus Cristo e do amor e da compaixão, para que se possa imitar a Sua vida). Arbor Vitæ crucifixi Jesu (NT: A
crucificação de Jesus, Árvore da Vida), Prólogo, l. I. – Várias passagens respiram um amor exaltado: “Ó minha alma, derreta-te e resolve-te
toda em lágrimas, lembrando-se da dura vida do querido menino Jesus e da terna Virgem, Sua mãe. Vê como eles se crucificam por Sua
compaixão mútua e por aquela que têm por nós. Ah!, se tu pudeste fazer de ti um leito para o exausto Jesus, que descansa sobre a terra... Se
tu pudeste das tuas lágrimas abundantes fazer-Lhes uma bebida refrescante; peregrinos sedentos, Eles nada encontram de beber... – Há dois
sabores no amor; um tão doce na presença do objeto amado: como Jesus fez Sua mãe saborear, enquanto ela se encontrava com Ele, O
abraçava e O beijava. O outro sabor é amargo, na ausência e no arrependimento. A alma se perde em si, passa a Ele; ela erra ao redor,
procurando aquele a quem ama e pedindo socorro a qualquer criatura (assim a Virgem procurava o pequeno Jesus quando Ele ensinava no
Templo). Ubertino de Casale, Arbor Vitæ crucifixi Jesus, lib. V, c. 6-8, in-folio. – A Imitação de Jesus Cristo é o sujeito comum de um grande
número de livros no século XIV. O belo livro que conhecemos sob esse título veio por último; é o mais sábio, o mais razoável de todos mas não,
talvez, o mais eloquente, nem o mais profundo. Ele judiciosamente extraiu o verdadeiro maná cristão desta filosofia ousada, desta poesia
luxuriante, sob as quais os místicos o haviam enterrado.
[253] Segundo alguns, a Paixão era melhor representada pela esmola que pelo sacrifício: Quod opus misericordiæ plus placet Deo, quam
sacrificium altaris. Quod in eleemosyna magis repræsentatur Passio Christi quam in sacrificio Christi. (NT: Que a obra de misericórdia
agrada mais a Deus que o sacrifício do altar. Que a esmola mais representa a Paixão de Cristo que o sacrifício de Cristo). ‘Erreurs
condamnées à Tarragone’, ap. d’Argentré, I, 271.
[254] Dante celebra o casamento da pobreza e de São Francisco. Ubertino diz, ingenuamente, esta palavra profunda: “O farol da fé, a
pobreza...”. ‘Probationes contra Ubertino de Casali’, Baluze, Miscell. II, 276.
[255] Vide Ubertino de Casale em seu capítulo Jesus pro nobi indigens (NT: Jesus por nós indigentes): Habentes dicit (apostolus) non
quantum ad proprietatem dominii sed quantum ad facultatem utendi, per quem modum dicium esse quod ultimur, etiam si non si nobis proprium,
sed gratis alunde collatum {NT: Tendo dito (o apóstolo), não tanto no que diz respeito à propriedade, mas quanto para facultar seu
uso, por meio do qual está escrito o que é definitivo, mesmo que, para nós, não seja a solução adequada, para isso contribuiu
graciosamente}. Ubertino de Casale, Arbor Vitæ, l. II, c. 11.
[256] Aqueles a quem se havia nominado os “rezadores/rogadores” (beguinos, béghards), reputavam a prece como inútil: onde estiver o
espírito, diziam, aí estará a liberdade. Non sunt humanæ subjecti obedientiæ, nec ad aliqua præcepta ecclesiæ obligantur, quia, ut asserunt, ubi
spiritus domini, ibi libertas (NT: Não são os humanos sujeitos à obediência e nem de alguma forma aos preceitos da Igreja estão
obrigados, pois, como afirmam, onde estiver o espírito do Senhor, aí estará a liberdade). Clementin., l. V, tit. 3, c. 3, D’Argentré, I, 276.
[257] Montanha posteriormente chamada Monte Gazari. Para lá foram muitos cruzados de Vercelli e de Novara, de toda a Lombardia, de
Viena, de Savóia, da Provença e da França. As mulheres se cotizaram e enviaram 500 balestreiros (balistarii) contra esses heréticos. Benv.
d’Imola, ap. Muratori, ‘Antiq. Ital.’, I, p. 1120
[258] Venit de Anglia virgo decora valde pariterque facunda, dicens spiritum sanctum incarnatum in redemptionem mulierum, et baptizavit
mulieres, in nomine Patris, Fillii ac sui (NT: Veio da Inglaterra uma virgem muito bonita e eloqüente, dizendo-se o Espírito Santo
encarnado para a redenção das mulheres, e batizava as mulheres em nome do Pai e do Seu filho). Annal. Dominican. Colmar. ap.
Urstitium, P. 2, folio 33.
[259] Eles também haviam pregado que a Era do Amor começara. Desde a vinda do Cristo, até o Seu retorno, sete eras deviam escoar, “a
sexta, era de renovação evangélica, de extirpação da seita anticristã pelos pobres voluntários que nada possuíam nesta vida. Esta era
começara com São Francisco, o homem seráfico, o anjo do sexto selo do Apocalipse (quod erat angelus sexti signaculli et quod ad litteram de
ipso et ejus statu et ordine evangelista Joannes intelllecti - que era o anjo do sexto selo e que, de acordo com a letra e estado dele,
entendeu-se ordenado por João Batista, Ubertino, V, c. 3), que era um perfeito Jesus, segundo a imagem de sua própria vida, à semelhança
de sua conversa, na perfeita observância dos Evangelhos... perfeitamente figurado (quem perfectus Jesus ad imaginem vitæ suæ, in
similitudine conversationis suæ, in perfectâ observantiâ evangelii... perfectissime figuravit (Ibid.) – Parecia que ele era uma nova encarnação
de Jesus (Jesus Franciscum generans), e sua regra um novo Evangelho ... Defendunt quod regula fratrum mìnorum est vere et proprie idem
quod evangelium (NT: Defender aquelas regras dos irmãos menores é, verdadeira e propriamente, fazer o mesmo pelos Evangelhos).
‘Probat. contra Ubertino de Casali’, ap. Baluze, Miscell., II, 276.
[260] Ubertino, em seu desejo de representar o Evangelho, assegura que sentira e se revestira espiritualmente de todos os personagens; que
encenava ser ora o servidor ou o irmão do Salvador, ora o boi, o asno ou o feno e, às vezes, o próprio menino Jesus. Ele assistia ao suplício
acreditando ser a pecadora Madalena; depois, ele se tornava Jesus sobre a cruz e gritava a Seu pai. Enfim, o espírito o alçava na glória da
Ascensão. Arbor Vitæ crucifixi Jesu, Prólogo.
[261] In hoc convenerunt ut dent templariis audientiam sive defensionem. In hac sententiâ concordant... Præter... (NT: E todos em
conjunto queriam dar aos Templários uma audiência ou uma defesa. E com esta sentença (decisão) concordaram... Além disso...).
Walsingh. Vita Clemen. V, auctore Ptolem. Rayn. p. 187.
[262] Multis vocatis prælatis cum cardinalibus in privato consistorio, ordinem templariorum cassavit. Tertia autem die aprilis 1312, fuit
secunda sessio concilii, et prædicta cassatio coram omnibus publicata est {NT: Muitos prelados, com cardeais, foram chamados para um
consistório privado, e nele a Ordem do Templo foi cassada (abolida). E, no terceiro dia de abril de 1312, ocorreu a segunda sessão
do concílio e a mencionada cassação foi publicada na presença de todos} (“Quint. Vita Clem. V”)... præsente rege Franciæ cum tribus
filiis suis, cui negotium erat cordi (NT: presente o rei da França com seus três filhos, com cujo negócio estavam de acordo) (“Tert. Vita
Clem. V”). A maior parte dos historiadores acreditou que a Ordem fora julgada pelo concílio; a bula de abolição não foi impressa pela primeira
vez senão três séculos depois, em 1606.
[263] Quod ipsæ confessiones ordinem valdè suspectum reddebant... non per modum definitivæ sententiæ, cum tam super hoc, secundum
inquisitiones et processus prædictos, non possemus ferre de jure, sed per viam provisionis et ordinationis apostolicæ... (NT: Que as confissões
da Ordem são, por si próprias, muito suspeitas... não por meio de sentença definitiva, vez que vai aquém disso, segundo as
inquirições e processos acima descritos, razão pela qual não podemos aplicar o direito, senão na forma das provisões e diretrizes
apostólicas).. Reg. anni VII Dom. Clem. V, Rayn. 195. Todavia, não se pode negar que tenha havido muita complacência e servilidade em
relação ao rei da França. Era a opinião da época: ... et sicut audivi ab uno qui fuit examinator causæ et testium, destructus fui (ordo) contrà
justitiam. Et mihi dixit quod ipse Clemens protulit hoc: “Et si non per viam justitiæ potest destrui, destruatur tamen per viam expedientiæ, ne
scandalizetur charus filius noster rex Franciæ. Albericus à Rosate (NT: E como ouvi de um que foi examinador da causa e das
testemunhas, a Ordem foi destruída contra toda justiça. E ele me disse que o próprio Clemente declarara: “E se ela não pode ser
destruída por motivos de justiça, que seja destruída ainda que por meio de expedientes, para que não fique escandalizado nosso
querido filho, o rei da França”. Alberico a Rosate).
[264] Hoje, encontra-se em branco, nestes registros, as páginas que foram raspadas muito habilmente. Raynouard, p. 90.
[265] Em Aragão, entretanto, João XXII, ante pedido do rei, aplicou os bens do Templo não em favor dos Hospitalários, mas da nova ordem
de Montesa (monastério fortificado do reino de Valência, dependência de Calatrava).
[266] Per captionem bonorum quondàm ordinis templi jam miserunt per omnes domos ipsius Hospitalis certos executores qui vendunt et
distrabunt pro libito bona Hospitalis (NT: Pela apreensão dos bens que uma vez foram da Ordem do Templo e que foram enviados para o
Hospital, alguns executores vendem e distribuem os mesmos para o bem do Hospital). Carta de João XXII, XV kal. jun. 1316, Rayn. 25.
[267] Modica bona mobilia... quæ ad sumptus et expensas... sufficere minime potuerunt (NT: Boa módica mobília... que os custos e
despesas... não poderiam ser suficientes). Entretanto, o rei de Nápoles, Carlos II, cedera-lhe a metade dos móveis que os Templários
possuíam na Provença. Grouvelle, p. 214.
[268] ... Personas reservatas ut nôsti,... vivæ vocis oraculo... (NT: ... Pessoas reservadas a nós, ... dito de viva voz...) 1310, 14 kal. nov.
Arquivos, J, 417, nº 20.
[269] Continuador de G. de Nangis, p. 67. Resta-nos ainda um ato autêntico, onde esta execução se encontra indiretamente constatada, num
registro do Parlamento do ano 1313. Cùm nuper Parisius in insulâ existente in fluvio Sequanæ justà pointam jardinii nostri, inter dictum
jardinium nostrum ex unâ parte dicti fluvii, et domum religiosorum virorum ordinis S. Augustini Parisius ex alterâ parte dicti fluvii, executio
facta fuerit de duobus hominibus qui quondâm templari extiterunt, in insulâ prædicta combustis; et abbas et conventus S. Germani de
Pratis Parisius, dicentes se esse in saisinâ habendi omnimodam altam et bassam justitiam in insulâ prædictâ... Nos nolumus... quòd juri
prædictorum... præjudicium aliquod generetur {NT: Considerando que, nos últimos tempos, em Paris, em uma ilha situada no rio Sena,
perto do ângulo do nosso jardim, entre este nosso mencionado jardim, numa das margens do referido rio, e a casa da fraternidade
da ordem de Sto. Agostinho em Paris, no lado oposto do referido rio, ocorreu uma execução de dois homens que tinham,
antigamente, sido Templários, e que na mencionada ilha eles foram queimados; e que o abade e o capítulo (conventus) de Saint-
Germain-des-Près em Paris afirmam estar na posse da alta e baixa justiça de todo o tipo na referida ilha .... Nós promulgamos. . .
que os direitos do referido abade e do capítulo .... não devem suportar, doravante, nenhum prejuízo}. Olim. Parliam. III, folio CXLVI,
13 de março de 1313 (1314).
[270] Há moedas de Filipe o Belo que representam a saudação angélica com esta legenda: Salus populi.
[271] Como qualificar as estranhas palavras com as quais Dupuy inicia seu Histoire de la Condemnation des Templiers: “Os grandes
príncipes têm uma não sei qual fatalidade que acompanha suas mais belas e generosas ações, que são o mais frequentemente interpretadas em
sentido contrário e mal recebidas por aqueles que ignoram a origem das coisas, os quais se encontram interessados em um dos partidos
(facções): poderosos inimigos da verdade que lhes atribuem motivos e fins viciosos, enquanto o zelo pela virtude ordinariamente vê a melhor
parte”. Dupuy, p. 1.
[272] Esta negação faz-me pensar em algo mais sério do que parece: Oferecei a Deus vossa incredulidade. – Vide o Tomo II, primeira
edição (NT: já traduzido e publicado em português pelo Tradutor-Editor) as cerimônias grotescas e a festa dos idiotas, fatuorum: “O
povo erguia a voz, não o povo fictício que fala no coro, mas o verdadeiro povo vindo de fora que, quando entrava, inumerável,
tumultuoso, com sua grande voz confusa, gigante criança, como o São Cristóvão da lenda, bruto, ignorante, apaixonado, mas dócil,
implorando a iniciação, rogando carregar o Cristo sobre seus ombros colossais. Ele entrava trazendo para a igreja esse medonho
dragão do pecado, o arrastava esganado com carnes até os pés do Salvador, sob o golpe da prece que deveria imolá-lo. Algumas
vezes, também, reconhecendo que a bestialidade residia em si próprio, ele expunha em extravagâncias simbólicas a sua miséria, sua
enfermidade. Era o que se chamava a “festa dos idiotas”, a “festa dos loucos”, fatuorum. Esta imitação da orgia pagã, tolerada pelo
cristianismo como o adeus do homem à sensualidade que ele abjurara, se reproduzia nas Festas da infância do Cristo, da
Circuncisão, dos Reis, dos Santos Inocentes”.
Em toda iniciação, o recipiendário é apresentado como um inútil, a fim que a iniciação tenha todas as honras de sua regeneração moral. Vide a
iniciação dos tanoeiros alemães (notas da introdução à Histoire Universel, p. 102, primeira edição): “O padrinho então entra e anuncia: eu
declaro, com vossa permissão, mestres e companheiros, que antes eu vos trazia um Couro de Cabra, um assassino de aros, um estraga-
madeiras, traidor dos mestres e dos companheiros; agora, eu espero vos trazer um bravo e honesto companheiro... etc.”
[273] Uma das testemunhas depõe que, como se recusasse a renegar Deus e a cuspir na cruz, Reinaldo (Raynaud) de Brignolles, que o
recebia, disse-lhe rindo: “sê tranquilo, não é nada além de uma farsa (Non cures, quia non est nisi quædam trufa, Rayn. p. 303). O
preceptor da Aquitânia, em seu importante depoimento que transcrevemos em parte, nos conservou, com a narrativa de uma cerimônia desse
gênero, uma tradução sobre sua origem:
“Aquele cavaleiro que o iniciava, tendo-o vestido com o manto da Ordem, mostrou-lhe, sobre um missal, um crucifixo e disse-lhe para abjurar
o Cristo preso à cruz. E ele, completamente espantado, recusou-se a fazê-lo gritando: ‘Ai de mim, meu Deus! Por que eu o faria? Eu não o
farei de forma alguma!’ – ‘Faça-o sem temor’, respondeu-lhe o outro, ‘eu juro pela minha alma que tu não provarás nenhum dano à tua alma e
à tua consciência; pois é uma cerimônia da Ordem, introduzida por um perverso Grão-Mestre que encontrava-se cativo de um sultão e não
pôde obter sua liberdade senão jurando fazer com que todos os que viessem a ser recebidos na Ordem também assim abjurassem: e isto foi
sempre observado; é por isso que tu podes bem fazê-lo’. E então, o depoente não desejou fazê-lo mas, antes, o contradisse e perguntou onde
estava seu tio e as outras boas pessoas que para lá o haviam conduzido. Mas o outro respondeu-lhe: ‘Eles partiram e é preciso que tu faças o
que te prescrevi’. E, ainda assim, ele não desejou fazê-lo. Vendo sua resistência, o cavaleiro ainda lhe disse: ‘Se desejares jurar-me sobre os
santos Evangelhos de Deus que tu dirás a todos os irmãos da ordem que fizeste o que te prescrevi, disto (da cerimônia de iniciação) far-te-
ei graça. E o depoente prometeu e jurou. E, então, ele fez-lhe graça salvo, todavia, que cobrindo de sua mão o crucifixo, ele o fez cuspir sobre
sua mão... Interrrogado se ele ordenara alguns irmãos, respondeu que fez (ordenou) poucos de sua própria mão por causa dessa irreverência
que era necessário executar na recepção... Disse, entretanto, que fizera (ordenara) cinco cavaleiros. E interrogado se ele os fizera abjurar o
Cristo, ele afirmou, sob juramento, que os tratara da mesma forma que fora tratado... E, num dia em que se encontrava na capela para ouvir a
missa... O irmão Bernardo disse-lhe: ‘Senhor, certa trama é urdida contra vós: já se redigiu um ato no qual se determina ao Grão-Mestre e aos
outros que, nas recepções dos irmãos da Ordem, vós não observeis as formas que deveis observar... E o depoente pensou que era por ter
poupado esses cavaleiros da cerimônia de iniciação. – Adjurado (suplicado) a dizer de onde vinha essa cegueira estranha de renegar o Cristo
e de cuspir na cruz, ele respondeu sob juramento: Alguns da Ordem dizem que foi uma ordem desse Grão-Mestre cativo do sultão, como já
dito. Outros, que é uma das pérfidas introduções e estatutos do irmão Procelino, outrora Grão-Mestre (NT: é possível que tenha sido Grão-
Mestre regional, departamental, local etc., pois não consta da lista de Grãos-Mestres da Ordem); outros, ainda, dos detestáveis
estatutos e doutrinas do irmão Thomas Bérard, outrora Grão-Mestre (NT: este, sim, foi Grão-Mestre da Ordem de 1256 a 1273); outros,
que foi por imitação e em memória de São Pedro, que negou três vezes o Cristo. Dupuy, p. 314-316. Se a ausência de tortura e os
esforços do acusado para atenuar o fato colocam esse fato fora de dúvida, seus escrúpulos, suas precauções, as tradições diversas que ele
acumula antes de chegar à origem simbólica, provam não menos seguramente que se havia perdido o significado do símbolo.
[274] Una est columba mea, perfecta mea, una est matri suæ... Una nempè fuit diluvii tempore arca Noë... Hæc est tunica illa Domini
inconsutilis... Dicentibus Apostolis: Ecce gladii duo hic... (NT: Uma é minha pomba, minha perfeita, única de sua mãe... Uma estava, no
dilúvio, na arca de Noé... Eis a túnica sem costura do Senhor... Disseram os Apóstolos: Eis aqui duas espadas...). ‘Preuves du diff.’, p.
55.
[275] Como é forte esta Igreja e quão temível é o gládio... Bossuet, Oração fúnebre de Le Tellier (Oraison funèbre de Le Tellier).
[276] E, também, creio, os dos irmãos serventes. A maior parte das duzentas testemunhas interrogadas pela comissão pontifícia é qualificada
servans, servientes. Rayn., 155.
[277] Era um dos fatos que, de acordo com os testemunhos, fora colocado, na Inglaterra, na categoria dos pontos irrecusáveis (articuli qui
videbantur probati – artigos que pareciam provados). Ora os chefes encaminhavam alguns ao irmão capelão para serem absolvidos sem
confissão: Præcipit fratri capellano cum absolvere à peccatis suis, quamvis frater capellanus eam confessionem non audierat; p. 377, col. 2,
367. Ora eles próprios os absolviam, ainda que laicos:... quod et credebant et dicebatur eis quod magnus magister ordinis poterat eos
absolvere a peccatis suis. Item quod visitator. Item quod præceptores quorum multi erant laici; 385, 22 testemunhas. Quod... templari
laïci suos homines absolvebant, Concil. Brit., II, 360.
Cinco testemunhas depuseram “que o Grão-Mestre conferia uma absolvição geral para os pecados que a irmandade não estava disposta a
confessar por vergonha carnal... que era a crença deles não ser necessário confessar ao sacerdote aquelas coisas que fossem reconhecidas
como pecados pelo capítulo e para as quais o capítulo conferia a absolvição... que apenas os pecados mortais deviam ser confessados no
capítulo e os veniais somente para os sacerdotes (Quod facit generalem absolutionem de peccatis quæ nolunt confiteri propter
erubescentiam carnis... quod credebant quod de peccatis capitulo recognitis, de quibus ibidem fuerat absolutio non oportebat
confiteri sacerdoti... quod de mortalibus non debebant confiteri nisi in capitulo, et de venialibus tantum sacerdoti), 358 col.1.
Mesma concordância nos depoimentos dos Templários da Escócia: Inferiores clerici vel laïci possunt absolvere fratres sibi subditos (NT:
Clérigos inferiores e até mesmo laicos podem absolver os irmãos abaixo deles); p. 381, col. 1, primeira testemunha. Igualmente, a 41ª
testemunha. Conc. Brit. 14, p. 382.


[278] (NT): forma antiquada e em desuso para “Meu senhor” (Mon Sire e, na evolução, Mon Seigneur e Monseigneur), sendo um
pronome de tratamento para pessoas distintas. Evoluiu para se transformar em Monsieur.
[279] vide a morte do presidente Minart.
[280] nada mais frequente, nas hagiografias, que esta luta pela alma convertida ou, antes, desse processo simulado onde o diabo vem, apesar
de si, prestar testemunho em favor do arrependimento. Conhece-se a famosa lenda de Dagoberto. César d’Heisterbach menciona uma história
semelhante de um usurário convertido. Que o debate fosse ou não visível, era sempre a mesma fórmula: Si quis decedat contritus ett
confessus, licet non satisfecerit de peccatis confessis, tamen boni angeli comfortant ipsum contra incursum dæmenum, dicentes... Quibus
maligni spiritus... Mox advenit Virgo Maria alloquens dæmones... etc. (NT: Se alguém morrer contrito e confessado, embora não tenha
dado satisfação dos pecados que confessou, ainda assim os bons anjos o confortam contra o ataque dos demônios, dizendo... para
qualquer dos espíritos malignos... Agora se apresenta a Virgem Maria se dirigindo aos demônios... etc.). Herm. Corn. chr. ap. Eccard.
m. ævi, t. 2, p. 11.
[281] Agnei, lucifugi, etc. M. Psellus, p. 69 e 39. Este autor bizantino é do século XI. Ed. Gaulminus. 1615, in-12. – Bodin, em seu livro ‘De
Præstigiis’, impresso na Basiléia, realizou o inventário da monaquia diabólica com os nomes e sobrenomes de 72 príncipes e de 7.105.926
diabos. Bodin, p. 218.
[282] Vários foram acusados de os terem vendidos presos em garrafas. “Quisesse Deus”, disse seriamente Le Loyer, “que esta mercadoria
fosse menos comum no comércio!”, Le Loyer, p. 217, 108
[283] Memórias de Lutero, t. III.
[284] (NT): a Tour de Nesle, destruída em 1665, ocupa um papel importante no início da famosa série literária ‘Os Reis Malditos’, de
Maurice Druon, pois era lá que ocorriam as orgias sexuais da mulher e das noras de Filipe o Belo, segundo a tradição mencionada.
[285] Ora, livrei-me do diabo que todo mundo desejava executar! – Arquivos, Secão Hist., J. 438.
[286] A denúncia foi tanto melhor acolhida quanto Guichard se passava por filho de um demônio, de um íncubo. Ibidem.
[287] Margarida (Marguerite), filha do duque da Borgonha, Joana (Jeanne) e Branca (Blanche), filhas do conde da Borgonha (Franco-
Condado). Mulierculis... adhùc ætate juvenculis (NT: Mulheres... todas elas jovens). Contin. G. de Nangis, in Sipicil. D’achery, III, 68.
[288] Pluribus locis et temporibus sacrossanctis (NT: Em vários locais e em muitos dias sacrossantos). Ibidem
[289] Jean de Meung Clopinel, poeta que, segundo se conta, por ordem de Filipe o Belo, alongou com dezoito mil versos o já extenso
Romance da Rosa, expressa brutalmente o que pensa das damas deste século. Conta-se que estas damas, para vingar sua reputação de honra
e de modéstia, aguardaram o poeta, bastões na mão, e que desejaram espancá-lo. Ele teria escapado pedindo por graça única que a mais
ultrajada batesse primeiro: “Recatadas mulheres, por São Dinis, igualam em número a Fênix, etc.” (“Prudes femmes, par saint Denis, Autant
en est que de Phénix...”) – De resto, ele mesmo cuidara de justificá-las pelas doutrinas que pregava em seu livro. Não é nada menos que a
comunidade das mulheres:

Car nature n’est pas si sotte...
Ains vous a fait, beau fils, n’en doubtes,
Toutes pour tous, et tous pour toutes,
Chascune pour chascun commune
Et chascun commun pour chascune
Roman de la Rose, V. 14, 653.
Éd. 1735-7
(NT):
Pois a natureza não é assim tão tola...
Assim ela vos fez, belo filho, não
duvideis:
Todas para todos e todos para todas,
Cada uma para cada um é comum
E cada um é comum para cada uma.

Esta insípida obra, que não tem a seu favor senão o jargão da galanteria do início da época e a obscenidade do seu fim, parece a profissão de
fé do sensualismo grosseiro que reina no século XIV. Jean Molinet a moralizou e a pôs em prosa.
[290] (NT): Na frente da Igreja de São Gervásio, em Paris, há um olmo protegido por uma corrente. Trata-se de uma antiga tradição, pois já
na Idade Média, o olmo (obviamente, não o atual, mas seus antecessores) já era muito conhecido, sendo que aí eram ajustadas as dívidas, além
de servir de famoso ponto de encontro.
[291] (NT): Vide o excelente estudo feito pelo filósofo francês Michel Foucault, em seu livro “Surveiller et Punir” (1975), especialmente o
Capítulo II da Primeira Parte (“A ostentação dos suplícios”), da qual destaco o seguinte trecho (“Vigiar e Punir”, Ed. Vozes, 1998, 17ª edição,
trad. de Raquel Ramalhete, pg. 41) :
“O suplício judiciário deve ser compreendido também como um ritual político. Faz parte, mesmo num modo menor, das cerimônias
pelas quais se manifesta o poder.
A infração, segundo o direito da era clássica, além do dano que pode eventualmente produzir, além mesmo da regra que infringe,
prejudica o direito do que faz valer a lei:
Mesmo supondo que não haja prejuízo nem injúria ao indivíduo, se foi cometida alguma coisa proibida por lei, é um delito que exige
reparação, porque o direito do superior é violado e é injuriar a dignidade de seu caráter25.
O crime, além de sua vítima imediata, ataca o soberano; ataca-o pessoalmente, pois a lei vale como a vontade do soberano; ataca-o
fisicamente, pois a força da lei é a força do próprio príncipe...”

[292] Conta o monge historiador que ela foi brutalmente engravidada por seu carcereiro ou por outros: “Blancha verò carcere remanens, à
serviente quodam ejus custodiæ deputato dicebatur imprægnata fuisse quàm à proprio Comite diceretur, vel ab aliis imprægnata” (NT: Quanto
à Branca, que realmente permaneceu no cárcere, ela foi emprenhada por um certo servidor a quem fora confiada sua custódia,
ainda que também se diga que o tivesse sido pelo Conde, seu próprio marido, ou emprenhada por qualquer outro – a partir de
http://remacle.org/bloodwolf/historiens/guillaumenangis/chronique7.htm) – Cont. de Guil. de Nangis, p. 70. E ele continua com uma cruel
despreocupação; talvez não ousasse contar mais. Com base no que se sabe dos príncipes dessa época, pode-se muito bem acreditar que a
pobre criatura, cuja primeira fraqueza não fora bem provada, tivesse sido posta à discrição de um homem encarregado de aviltá-la.
Esta horrível aventura das noras de Filipe o Belo talvez tenha dado lugar, por um mal-entendido, à tradição relativa à mulher deste príncipe,
Joana de Navarra e ao hôtel de Nesle. Nenhum testemunho antigo apóia esta tradição. Vide Pierre Bayle, artigo ‘Buridan’. A tradição seria
todavia ainda menos verossímil se desejássemos, como Bayle, aplicá-la a qualquer das noras do rei. Jovens como eram, elas não teriam
necessidade de tais meios para encontrar amantes. O que quer que tenha ocorrido, Joana de Navarra parece ter sido de um temperamento
duro e sanguinário (vide mais acima). Ela era rainha de direito e podia tratar seu marido com menos deferência.
[293] Totis nudis corporibus processionaliter... Idem, anno 1315, p. 70.
[294] (NT): “O último Mestre da Ordem do Templo, Jacques de Molay, teria amaldiçoado seus acusadores dentro da fogueira da Ilha dos
Judeus, em Paris, no dia 11 de março de 1314. Segundo o cronista Godofredo (Geoffroi) de Paris, sua declaração teria sido: “Senhores, ao
menos deixai-me unir um pouco minhas mãos para Deus fazer minhas preces, pois é o tempo e a estação: vejo aqui meu julgamento... Deus
sabe quem errou e pecou: e que a desgraça logo se abata sobre aqueles que nos condenam com erro. Deus vingará nossa morte! Senhores,
sabei que, em verdade, todos aqueles que nos são contrários, por nós irão sofrer. E, nesta fé, desejo morrer.
Ferrero de Ferretis relata, por volta de 1330, as últimas palavras de um Templário anônimo, que as teria pronunciado, face ao Papa, durante
seu processo: “Do teu injusto julgamento, apelo ao Deus verdadeiro e vivo; dentro de um ano e um dia, com Filipe, também responsável por
tudo isso, tu comparecerás para responder às minhas objeções e apresentar tua defesa”. Já nesta época, Jacques de Molay não está mais ao
centro da lenda, e assim será até o século XVI: o suplício do último Grão-Mestre parece ter marcado menos os espíritos que as execuções dos
outros Templários em 1310.
O amálgama final foi realizado por Paul Emile no ‘De Rebus Gestis Francorum’, publicado em 1548; ao menos, esta é a primeira versão
escrita que se conhece: o apelo ao julgamento de Deus se torna uma verdadeira maldição pronunciada por Jacques de Molay contra Filipe o
Belo e Clemente V. Os historiadores posteriores retornarão, por muito tempo, a este tema tornado evidente, como François de Mézeray (1610-
1683), que diz ter lido (sem precisar aonde): “... li que o Grão-Mestre, não tendo senão a língua livre e já quase asfixiado pela fumaça, disse
em alto som: “Clemente, juiz iníqüo e cruel carrasco, eu te prorrogo quarenta dias para compareceres perante o tribunal do Soberano Juiz”.
Esta lenda popular tornou-se uma verdadeira tradição e foi novamente honrada pelo escritor Maurice Druon em seu bem-sucedido romance
‘Os Reis Malditos’ (Les Rois Maudits), 1955-1977, no qual a maldição se torna: “Papa Clemente!... Cavaleiro Guilherme!... Rei Filipe!...
Antes de um ano, eu vos cito para comparecerem perante o tribunal de Deus para aí receberem vossos justos julgamentos! Malditos!
Malditos! Malditos! Todos malditos até à décima-terceira geração de vossas raças! (“Pape Clément !… Chevalier Guillaume !… Roi
Philippe !… Avant un an, je vous cite à paraître au tribunal de Dieu pour y recevoir votre juste jugement ! Maudits ! Maudits !
Maudits ! Tous maudits jusqu'à la treizième génération de vos races !”) – vide
http://fr.wikipedia.org/wiki/Légendes_au_sujet_des_Templiers, tópico ‘6 - La malédiction des Templiers’.
[295] Quando de sua morte, ele permaneceu por algum tempo como que abandonado: Gascones qui cum eo steterant, intenti circà sarcinas,
videbantur de sepultura corporis non curare, quia diù remansit insepultum {NT: Os Gascões que a ele serviam, mal findara o último sopro
de seu corpo, descuraram dar-lhe sepultura, deixando-o insepulto, para irem pilhar (o palácio papal)}. Baluz., Vit. Pap. Aven. I, p. 22.
[296] Dante, Paradiso, c. XIX:

Lì si vedrà il duol, che soprà Senna
induce, falseggiando la moneta,
quel che morrà di colpo di cotenna

(NT):
Lá, ver-se-á o luto, que sobre o Sena
produz, falsificando moeda,
aquele que morrerá dum golpe de porco

Segundo vários autores, ele na verdade teria sido morto na caça ao cervo. “Ele viu o cervo vir em sua direção, sacou sua espada, feriu seu
cavalo com as esporas e procurou ferir o cervo, e seu cavalo ainda o fez chocar-se contra uma árvore de grande altura, que o bom rei caiu à
terra e foi mui duramente ferido no coração, e foi levado a Corbeil. Aí, agravou-se mui seriamente sua enfermidade...” (Il veit venir le cerf
vers luy, si sacqua son espée, et ferit son cheval des esperons, et cuida férir le cerf, et son cheval le porta encontre contre um arbre
de si grand reideur, que le bom roy cheut à terre, et fut moult durement blecé au cueur, et fut porté à Corbeil. Là, luy agreva sa
maladie moult fort...), “Chronique”, trad. por Sauvage, p. 110, Lyon, 1572, in-folio.
[297] Phillipus Rex Franciæ diuturnâ detentus infirmitate, cujus medicis erat incognita, non solùm ipsis, sed et aliis multis stuporis materiam et
admirationis induxit; præsertim cum infirmitatis aut mortis periculum nec pulsus ostenderet nec urina (NT: Filipe, rei da França, foi presa de
uma longa doença, cuja causa, uma incógnita para os médicos, não só para eles, mas para muitos outros, foi motivo de estupor e
causou surpresa ; sobretudo porque nem seu pulso, nem sua urina, prenunciavam que estivesse enfermo ou em perigo de morte –
http://remacle.org/bloodwolf/historiens/guillaumenangis/chronique7.htm).

[298] V. S. Ægidii Romani, archiep. Bituricensis questio De utrâque potestate, edidit Goldastus, Monarchia, II, 95. Um Colonna não podia
senão inspirar em seu discípulo o ódio aos Papas.
[299] (NT): “De consolatione philosophiæ (A Consolação pela Filosofia)” - http://pt.wikipedia.org/wiki/Boécio
[300] (NT): vide http://pt.wikipedia.org/wiki/Flávio_Vegécio.
[301] Foi o autor (NT: Michelet quis dizer ‘o continuador’) do Romance da Rosa, Jean de Meung quem lhe traduziu esses livros. Na
Epístola Preliminar, posta à frente do livro da Consolação, Meung evoca todos os seus títulos literários: “À tua Real Majestade, mui nobre
Príncipe, pela Graça de Deus, Rei dos Franceses, Filipe o Quarto; eu, Jean de Meung, quem outrora acrescentou ao Romance da Rosa,
colocando o Ciúme na prisão Bem-Vinda, e ensinou a maneira de tomar o Castelo e colher a Rosa; e traduziu do latim para o francês o livro
de cavalaria de Vegécio, e o livro das maravilhas da Irlanda, e o livro das Cartas de Pedro Abelardo e Heloísa, sua mulher; e o livro de Elredo
(de Rievaulx), de amizade espiritual: ora te encaminho Boécio da Consolação, que traduzi para o francês, ainda que bem compreendas o
latim” (A ta royale Majesté, très-noble Prince, par la Grâce de Dieu, Roy des François, Phillippes-le-Quart; je Jehan de Meung qui
jadis au Romans de la Rose, puisque Jalousie ot mis en prison Bel-acueil, ay enseigné la manière du Chastel prendre, et de la Rose
cueillir; et translaté de latin en françois le livre de Vegèce de chevalerie, et le livre des merveilles de Hirlande; et le livre des Épistres
de Pierre Abeillard e Héloise sa femme; et le livre d’Aelred, de spirituelle amitié: envoye ores Boèce de Consolation, que j’ai translaté
en françois, jaçoit ce qu’entendes bien latin”).
A confiança que o rei nele tinha não o impediu de traçar, no Romance da Rosa, este rude quadro da realeza primitiva:

Ung grant villain entre eulx esleurent,
Le plus corsu de quanqu’ils furent,
Le plus ossu, et le greigneur,
Et le firent prince et seigneur.
Cil jura que droit leur tiendroit,
Se chacun en droit soy luy livre
Des biens dont il se puisse vivre...
De là vint le commencement
Aux roys et princes terriens
Selon les livres anciens.
(Rom. de la Rose, v. 1064).

(NT: tradução e adaptação livres)

Um muito feio entre si elegeram,
O mais corpulento de quantos fossem,
O mais ossudo e grunhidor,
E o fizeram príncipe e senhor.
Que jurou que os direitos deles manterá,
Se cada um de direito lhe remeter,
Os bens com os quais possa viver...
Daí vem o começo
Dos reis e príncipes terrenos
Segundo os livros antigos.

[302] Bulæus Hist. Univ., III, anno 1285. - “Neste ano ocorreu uma grande dissensão entre o Reitor, mestres e escolares da Universidade de
Paris e o preboste do dito lugar; porque o mencionado preboste mandara enforcar um douto da mencionada Universidade. Então, cessou o
ensino de todas as faculdades, até que o retrocitado preboste a corrigisse e prestasse grande reparação pela ofensa; e, dentre outras coisas, foi
o mencionado preboste condenado a despendurá-lo (o corpo) e a beijá-lo. E convencionou-se que o mencionado preboste partisse para
Avignon, para encontrar o Papa, a fim de se fazer absolver” (“En celle année s’esmeut grand’dissension en les Recteur, maistres et
escholiers de l’Université de Paris, et le prévost dudit lieu; parce que ledit prévost avait fait pendre un clerc de ladite Université.
Adonc cessa la lecture de toutes facultéz, jusques à tant que ledit prévost l’amenda, et répara grandement l’offense, et entre autres
choses fut condamné ledit prévost à le dépendre et le baiser. Et convint que ledit prévost allast en Avignon vers le Pape, pour soy
faire absoudre”). Nicolas Gilles, apud Bulæum, IV, 73
[303] Bulæus, IV, 70. Vide em Goldast, II, 108, Johannis de Parisiis Tractatus de potestate regiâ et papali.
(NT): João Pica-Asno ou João Pica-Burro (Jean Pique-Âne) é João de Paris (Jean de Paris), também chamado Jean Quidort ou Johannis de
Soardis (circa 1255 – 1306), dominicano francês, filósofo e teólogo. A respeito do apelido, há dissensões: uns dizem tratar-se de sobrenome de
família pois, no necrológio da igreja de Notre-Dame de Paris, encontra-se um ancestral seu chamado Guillaume Pique-l’âne (tornou-se o
manuscrito nº 3.883 da Biblioteca do Rei); outros afirmam tratar-se de um epíteto honroso em virtude de seus argumentos escolásticos e
doutorais serem agudos e afiados (sobre a discussão a respeito da origem do apelido, vide nº XX, pág. 422, do livro Histoire Littéraire de la
France, Tomo XIX, escrito pelos membros do Instituto – Academia Real dos Registros e Belas-Letras, gratuitamente disponível em Books
Google – www.books.google.com.br)
[304] Ord. I, 502: O rei declara que não haverá professores de Teologia. Vide também Bulæus, IV, 101-107.
[305] Aos colégios de Navarra e de Montaigu, deve-se acrescentar o colégio de Harcourt (1280); a casa do cardeal (1303), o colégio de
Bayeux (1308) – 1314, colégio de Laon; 1317, colégio de Narbonne; 1319, colégio de Tréguier; 1317-1321, colégio das Cornualhas; 1326,
colégio do Plessis, colégio dos Escoceses; 1329, colégio de Marmoutiers; 1382, um novo colégio de Narbonne fundado em execução do
testamento de Joana da Borgonha; 1334, colégio dos Lombardos; 1334, colégio de Tours; 1336, colégio de Lisieux; 1337, colégio de Autun, etc.
[306] Mons acutus, dentes acuti, ingenium acutum (NT: Monte agudo, dentes agudos, gênio agudo).
(NT): O Colégio de Montaigu (mont-aigu, monte agudo ou monte pontudo) fundado por Gilles d’Aiscelin (ou Aycelin) de Montaigut, foi
restaurado por seu sobrinho Pierre Aiscelin (Aycelin) de Montaigut e, a partir daí, chamado de Colégio de Montaigu (anteriormente Collége
des Aicels); os edifícios se encontravam na atual praça do Panteão de Paris. Teve vários alunos célebres - Erasmo de Roterdam, Rabelais,
Villegagnon [explorador que fundou, no Rio de Janeiro, a França Antártica, tendo construído o Forte Coligny na atual ilha de
Villeganon (antigamente ilha de Serigipe ou das Palmeiras), na qual se encontra a Escola Naval], Calvino, John Knox, Inácio de
Loyola, Diogo de Gouveia etc. O Colégio foi objeto de um comentário devastador de Erasmo de Roterdam, que aí viveu entre 1494 e 1495,
apesar deste ter direito a um regime escolar mais privilegiado. Em seus Colóquios, Erasmo escreve: “Há trinta anos, eu vivi em Paris, num
colégio... no qual reinava João (Jean) Standonck, homem de intenções louváveis, mas completamente desprovido de bom juízo. Evocando sua
juventude, que fora passada numa pobreza extrema, ele não negligenciava os pobres: devia-se aprová-lo publicamente por isso. E se ele
apenas se contentasse em aliviar a miséria dos mesmos, em fazer chegar aos jovens os modestos recursos necessários ao seu estudo, teria ele
merecido total louvor. Mas ele se pôs à sua iniciativa com uma autoridade tão dura, constrangendo-os a um regime tão rude, a tamanhas
abstinências, a vésperas e trabalhos tão penosos, que vários deles, felizmente dotados e que davam as mais belas esperanças, morreram ou se
tornaram, por sua culpa, cegos, loucos ou leprosos, desde o primeiro ano de estudo: nenhum ficou sem correr algum perigo. Não é isto a
barbárie em relação ao próximo? Não contente desses rigores, ele os fez usar a capa e a cogula (túnica de mangas largas e compridas,
havendo uma específica para penitentes, que cobre completamente a cabeça, à exceção dos olhos); proibiu-lhes o consumo de carne...
No coração do inverno, eram alimentados com um pouco de pão ou eram obrigados a beber a água do poço, corrompida e perigosa, quando o
frio da manhã não a havia congelado. Conheço mesmo alguns que, ainda hoje, não puderam se curar das enfermidades contraídas em
Montaigu. Havia alguns cômodos baixos, nos quais o gesso estava bolorento e que empesteava os arredores das latrinas. Ninguém os habitou
sem aí morrer ou contrair alguma grave doença. Não falo da crueldade com que se chicoteava os colegiais, mesmo os inocentes. Pretendia-se,
desta forma, abater o orgulho; compreendendo-se por orgulho toda natureza nobre que se punham a arruinar para tornar os adolescentes aptos
à vida monástica... Como lá se devorava ovos pútridos! Quanto vinho estragado lá não se bebia!”. – Rabelais, chamando-o de “colégio da
piolhada” (collége de pouillerie), coloca na boca de seu personagem Ponócrates as seguintes palavras: “Melhor são tratados os forçados
entre os Mouros e os Tártaros, os assassinos na prisão criminal, com certeza os cães em vossa casa, que estes desgraçados no mencionado
colégio! E se eu fosse rei em Paris, que o diabo me carregue se eu não tocasse fogo nele e fizesse queimar o Principal (Diretor) e o Regente,
que suportam esta desumanidade à frente de seus olhos”.
[307] “O mestre será eleito dentre os pobres colegiais e por eles... O eleito será chamado Ministro dos Pobres”. Faz-se menção, neste
regulamento de fundação, a 84 pobres colegiais em honra dos 12 apóstolos e dos 72 discípulos.
[308] A túnica desta sociedade era uma capa fechada pela frente, como utilizavam os mestres-de-artes (maîtres-ès-arts) da rue de Fouarre,
e uma murça também fechada pela frente e por trás, donde seu nome de Capetos (NT: capuchos, capuchinhos – “Capetes”, em francês).
Os pais não podiam ameaçar seus filhos com um castigo pior que o de fazê-los Capuchos. Felibien, I, 526 e segs.
[309] (NT): “Quarentena do Rei”: “um intervalo de quarenta dias deve obrigatoriamente decorrer entre a ofensa feita, e devidamente
anotada por aquele que a recebeu, e a abertura das hostilidades. Sábia medida que reserva tempo para a reflexão e as conciliações de comum
acordo. Este mesmo intervalo de quarenta dias encontra-se nos prazos concedidos aos que pertencem a uma cidade inimiga para voltar para a
sua terra e pôr os seus haveres em segurança quando rebentar uma guerra. Assim, não poderia, na Idade Média, existir questão de seqüestro
ou de campo de concentração” (“Luz da Idade Média” – Lumière du Moyen Âge, Régine Pernoud, tradutor desconhecido em
www.revolucao-contrarevolucao.com/luzdaidademedia.doc). Quanto ao assurement, o Tradutor não encontrou um termo consagrado em
língua portuguesa, razão pela qual o traduziu para “asseguramento” e/ou “garantia”, uma vez que o instituto legal é assim definido: A palavra
asseurement ou assurement é um derivado do verbo assurer (assegurar, garantir) somado ao sufixo (e)ment. O asseguramento/garantia é um
conceito medieval. Mais precisamente, trata-se de um ato perante a autoridade garantindo a paz entre duas partes adversas, geralmente após
uma vingança (http://fr.wikipedia.org/wiki/Asseurement).
[310] Omnes in regno Franciæ temperatam juridictionem habentes, baillivum, præpositum et servientes laicos et nullatenus clericos instituant,
ut, si ibi delinquant, superiores sui possint animadvertere in eosdem. Et si aliqui clerici sint in prædictis officiis, amoveantur (NT: Que todos os
que, no reino da França, disponham de jurisdição limitada, apontem julgadores, e de forma alguma clérigos, para seus tribunais,
prepostos e serventes, a fim de que, em caso de deliquência, possam os mesmos ser punidos por seus superiores. E que todos os
clérigos, que estejam em tais ofícios, sejam removidos). Ord. 1, p. 316. Anos 1287-1288.
[311] Non capiantur aut incarcerentur ad mandatum aliquorum patrum, fratrum alcujus ordinis vel aliorum, quocunque fungantur officio (NT:
Que não sejam eles detidos ou encarcerados com base em mandado de qualquer dos padres ou irmãos de qualquer ordem, ou de
qualquer outro, qualquer que seja seu ofício). Ord. 1, 317.
[312] Ord., 1, 322. Distingue-se aí os feudos do rei, os subfeudos dos vavassalos e os alódios. Em todos os casos, o imposto real para as
aquisições a título oneroso é o dobro do imposto das aquisições a título gratuito. Temia-se mais as compras que as doações.
[313] Ad instar Ludovici, eximii confessoris... guerras..., bella..., provocationes etiam ad duellum... durantibus guerris nostris, exprese
inhibemus (NT: A exemplo de São Luís, o ilustre confessor... batalhas..., guerras..., provocações e duelos... enquanto estivermos em
nossa guerra, são expressamente proibidos). Ord. 1, 390. Conf. p. 328. Ann. 1296, p. 344. Ann. 1302, p. 549. Ann. 1314, julho.
[314] Quatenus omnes et singulos nobiles... capias et arrestes, capique et arrestari facias, et tamdiu in arresto teneri, donec a nobis
mandatum
[315] Em 1302, ordem ao bailio de Amiens de enviar para a guerra de Flandres todos aqueles que tivessem mais de 100 libras em móveis e
200 em imóveis; os outros deveriam ser poupados. Ord. 1, 345. Mas, no ano seguinte (29 de maio), foi ordenado que todo plebeu que tivesse
cinquenta libras em móveis ou vinte em imóveis contribuísse de sua pessoa ou com seu dinheiro. Ord. 1, 373.
[316] Eram as formalidades análogas àquelas que hoje se impõem ao estrangeiro que deseja se tornar Francês: autorização do preboste ou
prefeito, domicílio estabelecido por compra, “para direito de cidadania, de uma casa, durante um ano e um dia, no valor de, pelo menos,
sessenta soldos parisienses; notificação ao senhor de quem a comprou” (“pour raison de la bourgeoisie d’une maison dedenz an et jour,
de la value de soixante sols parisis, au moins; signification au seigneur dessoubs cui il iert partis”); residência obrigatória desde o Dia
de Todos os Santos até São João, etc. Ord. I, 314.
[317] Ord. I, p. 318... Quod bona mobilia clericorum capi vel justiciari non possint... per justiciam secularem... Causæ ordinariæ prælatorum
in parliamentis tantummodo agitentur... nec ad senescallos aut baillivos... liceat appellare... Non impdiantur a taillis... etc.
[318] Baillivis... injugimus... diocesanis episcopis, et inquisitoribus... pareant, et intendant in hæreticorum investigatione, captione...,
condemnatos sibi relictos statim recipiant, indilate animadversione debita puniendos... non obstantibus appellationibus. Ord. I, p. 330, ann. 1298.
[319] Mandamentos dirigidos aos bailios da Turânia e do Maine para ordenar-lhes o respeito pelos eclesiásticos. Cartas concedidas aos
bispos da Normandia contra as opressões dos bailios, viscondes, etc. Ord. I, 331, 334. Ordenação semelhante em favor das igrejas do
Languedoc. 08 de maio de 1302. ibid., p. 340.
[320] (NT): Contra a voracidade da usura... desejamos que a soma originalmente emprestada seja livre de quaisquer encargos e remitido
tudo que vá além dela (Contra usurarum voraginem... volumus ut debita quantum ad sortem primariam plenarie persolvantur, quod
vero ultra sortem fuerit legaliter penitus remittendo). Ord. I, 334.
[321] Nisi prius per aliquem idoneum virum quem ad hoc specialiter deputaverimus...constiterit, quod non sumus in bonâ saisinâ
percipiendi...
[322] (NT): Fazei a todos saber, por proclamação geral, sem distinguir prelados ou barões, que todos os tipos de pessoas tragam a metade de
sua louça de prata branca”. Ord. I, 347.
[323] Nomulli prælati, abbates, priores... inhibitione nostra spreta... ab regno egredi... Nolentes igitur ob ipsarum absentiam personarum bona
earum dissipari et potius ea cupientes conservari... mandamus, etc. (NT: Certos prelados, abades, priores... em desobediência à nossa
proibição... tendo deixado o reino... nós, insatisfeitos que, por sua ausência pessoal, seus bens sejam dissipados, e desejosos de
melhor preservá-los... mandamos que... etc.”). Ord. I, 349. A irritação parece ter sido grande contra os padres; o rei foi obrigado a proibir
aos Normandos o brado de Haro nos clérigos*. Ord. I, 348.
* (NT): “Haro, harau ou harol” é derivada de “ha” e “Raoul” (Raul) ou Rollo, primeiro Duque da Normandia, e equivale a “Fora com eles”,
“Em cima (deles)”, “Abaixo (eles)” – nota tomada emprestada à tradução de G. H. Smith, F.G.S.
[324] O rei declara que, na reforma de seu reino, põe as igrejas sob sua proteção e garante-lhes o gozo de suas franquias, liberdades ou
privilégios, como ao tempo de seu avô São Luís. Em consequência, se acontecer-lhe pronunciar alguma apreensão ou coleta contra um
sacerdote, seu bailio não deverá assim proceder senão após “madura investigação”, e a apreensão ou coleta jamais ultrapassará o montante da
multa. Observar-se-ão, em todo o reino, os “bons costumes” que existiam ao tempo de São Luís, a fim de restabelecê-los. Se os prelados ou
barões tiverem alguma causa para o Parlamento, ela será tratada honestamente e prontamente resolvida. Ord. I, 357.
[325] Nisi in casu pertinente ad jus nostrum regium... Ele acrescentava, portanto, que o feudo assim adquirido em virtude de infração seria,
dentro de ano e dia, tirado de suas mãos em favor de uma pessoa conveniente que servisse o feudo. Mas ele ainda se reservava esta
alternativa: “Ou daremos ao senhor do feudo uma recompensa suficiente e razoável”. Ibid., 358.
A maior parte desta Ordenação de reforma refere-se aos bailios e aos outros oficiais reais e tende a prevenir os abusos de poder. Nomeados
pelo Grão-Conselho (14), eles não poderão fazer parte desta assembléia (16). Não poderão ter por prebostes ou lugares-tenentes seus
parentes ou aliados, nem preencher estes cargos no seu local de nascença (27), nem se vincular, por casamento ou compra de imóveis, à
região de sua jurisdição, medida de garantia imitada dos Romanos, mas estendida aos filhos, irmãs, sobrinhos e sobrinhas dos oficiais reais (50-
51). A Ordenação regrava o tempo de seus mandatos (26), a respeito dos quais, terminando, deviam precisar o início do seguinte; ela
estabelecia os limites de suas províncias (60), de suas competências entre as jurisdições dos prelados e dos barões (25), e os limites de seus
poderes sobre seus administrados. Eles não podiam levar ninguém à prisão por débitos, salvo se “a detenção de seu corpo” (contrainte par
corps) tivesse sido decretada por cartas contendo o selo real (52). A mesma Ordenação proibia-lhes receber a título de doação ou empréstimo
(40-43), fosse para si ou para seus filhos (41: eles não poderão receber vinho, nem em barris, nem em garrafas ou jarras), e não poderão
vender as sobras; nem dar qualquer presente aos membros do Grão-Conselho, seus juízes (33), nem recebê-los dos bailios seus inferiores. A
nomeação para esses cargos devia ser feita por eles com as maiores precauções (56); o rei continua a deles excluir os clérigos e os põe em
péssima companhia: Non clerici, non usurari, non infames, nec suspecti circa oppressiones subjectorum (19) (NT: Nem clérigos, nem
usurários, nem infames, nem suspeitos de opressão contra os súditos). Ord. I, 357-367.
[326] Nula dúvida que a origem do Parlamento possa ser traçada mais para trás. Encontra-se sua primeira menção na Ordenação chamada
Testamento de Filipe Augusto (1190). Vide o importante memorando de M. Klimrath ‘Sus les Olim et sur le Parlement’. Vide também uma
dissertação sobre a origem do Parlamento (Arquivos do Reino). O autor anônimo, que talvez tenha escrito à época do chanceler Maupeou,
partilha a opinião de M. Klimrath. Se, entretanto, considerarmos a importância toda nova que o Parlamento tomou sob Filipe o Belo, não é de
se espantar que a maior parte dos historiadores o tenha chamado de seu fundador.
[327] Ann. 1304. Ord. I, 547. Esta Ordenação parece ser a execução do artigo 62 do édito que acabamos de analisar. É o regulamento de
administração que completa a lei.
[328] (NT): Esmoler (antiquado): pessoa caridosa que dá ou distribui esmolas, caritativo.
[329] (NT): O direito (droit) de chambellage: variava de acordo com os Costumes de cada cidade ou região. Para esta passagem, o droit
de chambellage pode ser assim definido: “um direito (obrigação) que os bispos, arcebispos, abades e outros prelados do reino pagavam ao rei
quando prestavam-lhe juramento de fidelidade. Este direito, devido por causa dos ofícios de Grão-Mestre, de Grande Senescal da França, que
o rei mantinha em suas mãos, denota que era antigamente devido àqueles que os exerciam. Filipe IV, dito o Belo, ordenou, no mês de março de
1309, que todo dinheiro proveniente do direito de chambellage, pago pelos bispos, abades, abadessas e outros prelados fosse passado às
mãos do Grão-Esmoler para ser empregado no casamento das jovens nobres pobres. Este direito era, então, do valor de dez libras.
Presentemente, os bispos e arcebispos, antes de prestar juramento de fidelidade, são obrigados a pagar a soma de trinta e três libras ao
Tesoureiro das Esmolas e Boas Obras do Rei” (artigo Chambellage em ‘Encyclopédie ou Dictionnaire Raisonné des Sciences, des Arts et
des Métiers’, de Diderot e d’Alembert, 1751-1772, em http://portail.atilf.fr/encyclopedie/).
A tradução ao pé da letra de droit de chambellage, se fosse permitido um neologismo, seria o “direito de camaragem”, quer dizer, o “direito
do camarista” (chambellan em francês ou chamberlain em inglês), daquele que tem acesso aos aposentos (chambre) reais. Em Portugal,
embora não tenha sido possível ao Tradutor encontrar o termo jurídico correspondente (malgrado as tentativas junto às Universidades do Porto
e de Coimbra), tal direito parece ter existido nas Ordenações Filipinas, já que o jurista Manoel Borges Carneiro, menciona os ‘benefícios
temporaes da Coroa’; leia-se a passagem: “4. Juramento. O Bispo antes da sagração presta juramento de fidelidade ao Papa, e de
obediencia aos Canones. A formula deste juramento derivada dos feudos, se intende sempre salvos os costumes e privilegios do Reino. Cav.
II, cp., 24, § 2º. Espen. pt. l. (ilegível) 15. cp. 2. n. 25, e sem prejuizo dos direitos temporaes da Coroa. Av. 26 Jan. 1796 e 18 Out.
1771” (‘Direito Civil de Portugal – contendo tres livros – vol. I: Das Pessoas”, pg. 167, Impressão Régia, 1826, em
www.books.google.com.br).
[330] Nos autem Johanna impertimus assensum (NT: A nós, Joana deu seu assentimento). Ord. I, 326.
[331] Que ninguém refine, nem mande refinar, nem pese, nem altere qualquer moeda que tenha nossa cunhagem (Que nul ne rachace, ne
face rechacier, ne trebucher, ne requeure nulle monnaye quele qu’ele soit de noistre coing). 20 de janeiro de 1310.
[332] Boulainvillers, ‘Lettres sur ler anciens parlements’, t. III, p. 29, 81.
[333] Que o rei determinasse a seus Barões que se abstivessem de cunhar por onze anos pois, de outra forma, ele não poderia fornecer a
seu povo uma boa moeda, nem ao seu reino. E foram de acordo que o Rei desse tanto em ouro e em prata, sobre o que não teria nenhum lucro
(Que le Roi pourchace par devers ses Barons que ils se sueffrent de faire ouvrer jusques à onze anos, car autrement il ne puet pas
remplir son pueble de bonne monnoie, ne son royaume. Et furent à accort que li Rois doint tant en or, en argent que il n’y preigne nul
profit). Ord. I, 548-549. Entretanto, encontrou-se tanta resistência da parte dos Barões e dos prelados interessados, que se teve de contentar-
se em prescrever-lhes apenas a liga (de metal), o peso e a marca das moedas. Leblanc, p. 229.
[334] Observe-se como o Continuador de Guil. de Nangis muda de linguagem repentinamente, como se torna ousado, como ergue a voz.
Fol. 69-70.
[335] Desejamos e determinamos que, em caso de assassinato, de latrocínio, de rapto, de traição e de roubo, seja aberta a solução de
batalha, se o caso não puder ser provado por testemunhas. E, quanto à solução de batalha, desejamos que a empreguem como o faziam
antigamente (Nous voullons et octroyons que en cas de murtre, de larrecin, de rapt, de trahison et de roberie gage de batalhe soit
ouvet, se les cas ne pouvoient estre prouves par tesmoings.... Et quant au gage de bataille, nous voulons que il en usent, si come l’en
fesoit anciennement). Ord. I, 507 e 558.
[336] O quarto artigo que é o seguinte: Idem, que o Rei não adquira, nem se acresça em baronias e castelanias, em feudos e em subfeudos
dos ditos nobres e religiosos, salvo se for de sua vontade, nós a eles outorgamos (Le quart article qui es tiel. Item, que le Roy n’acquiere,
ne ne s’accroisse és baronnies et chastellenies, ès fiez et rierè-fiez desdits nobles et religieus, se n’est de leur volonté, nous leur
octroyons).
[337] “Nous ferons voir les registres de monseigneur saint Loys et bailler ausdits nobles deus bonnes personnes, tiels comme il nous
nommerons de nostre conseil, pour savoir et enquérir diligemment la vérité dudit article”. Ord. I, 572 (31); 576 (15); 564 (6).
[338] Gratiosus, cautus et sapiens. Cont. de G. de Nangis, p. 69. Vide também Dupuy, ‘Preuves du Diff.’, p. 45; e Bern. Guidonis ‘vita
Clem. V’, Baluze, p. 82
[339] Seus inimigos o acusaram disto. Vide Paul Émile. – Dizia-se, ainda, que ele buscara, por dinheiro, uma trégua para o conde de
Flandres. Ondegherst, ann. 1313, folio 239.
[340] Isto faz pensar na forma pela qual Temístocles soube lidar com os dois partidos, antes da batalha de Salamina. Vide Heródoto.
[341] Contin. G. de Nangis, p. 69. Os modernos acrescentaram muitas circunstâncias a respeito da ruptura de Carlos de Valois e de
Marigny: um desmentido, um tapa no rosto, etc.
[342] Houve três Raul (Raoul) de Presles: o primeiro, que depôs em 1309 contra os Templários, foi implicado na questão de Pierre de Latilly
e recuperou sua liberdade perdendo seus bens. Luís-Turbulento teve remorsos; em seu testamento, ele ordenou que lhe fosse devolvido, por
boa razão, tudo aquilo que lhe fora tomado. Filipe o Longo e Carlos o Belo o enobreceram por seus bons serviços. O segundo Raul não é
conhecido senão por uma falsificação e também por um bastardo que teve na prisão. Este bastardo, o terceiro Raul, é o mais ilustre deles. Em
1365, ele se fez conhecer por Carlos V em virtude de uma alegoria intitulada A Musa e foi encarregado, por este rei, de traduzir a Cidade de
Deus, além de parecer ter participado da composição do Songe du Vergier {NT: este último, Sonho do Pomar – Songe du Vergier ou du
Verger é considerado um texto fundamental de direito público da baixa Idade Média, tendo sido escrito em latim e em francês por Everardo
(Evrart/Evrard/Everard) de Trémaugon (Trémigon)}.
[343] (NT): O corpo de Marigny ficou pendurado por dois anos. O respeito à sua figura deve ter sido tanto que, mais de cem anos depois de
sua morte, o rei Luís XI, em 1475, mandou erguer um mausoléu sobre seu túmulo, o qual foi profanado quando da Revolução de 1789 -
http://roglo.eu/roglo?lang=fr;p=enguerrand;n=le+portier+de+marigny.
[344] Contin. de Guil. de Nangis, anno 1325, p. 84: Orate pro Domino Ingeranno...
[345] Et cucurrit... Cont. de G. de Nangis, p. 71.
[346] Nós, que temos ouvido o grande lamento de nosso povo do reino da França, o qual nos exibiu as moedas feitas fora de nosso reino e
contrafeitas com nossos selos e com os selos dos barões, bem assim as moedas de nossos mencionados barões, as quais moedas, todas, não
têm o peso prescrito em lei e nem o selo antigo e correto, e como nossos súditos e nosso povo são prejudicados de muitas formas e com
grosseira frequência pelos últimos (os barões)... Ordenamos etc... Ord., I, 609-6.
[347] Ord. I, p. 583.
(NT): O termo franco (franc), tanto em francês como em português, liga-se à idéia de liberdade, sendo o radical de várias palavras que
denotam liberdade, libertação, privilégio, imunidade. Isto, porém, é mais evidente em francês. Segue o texto original da Ordenação:
“Comme selon le droit de nature chacun doit naistre franc; et par aucuns usages et coustumes, qui de grant ancienneté ont esté entroduites et
gardées jusques cy en nostre royaume, et par aventure pour le meffet de leurs prédecesseurs, moult de personnes de nostre commun pueple,
soient encheües en lien de servitudes et de diverses conditions, qui moult nos desplaît: Nous considérants que nostre royaume est dit, et nommé
le royaume des Francs, et voullants que la chose en vérité soit accordant au nom, et que la conditions des gents amende de nous et la venüe de
nostre nouvel gouvernement; par délibération de nostre grant conseil avons ordené et ordenons, que generaument, par tout nostre royaume, de
tant commo il peut appartenir à nous et à nos successeurs, telles servitudes soient ramenées à franchises, et à tous ceus qui de origine, ou
ancienneté, ou de nouvel par mariage, ou par residence de lieus de serve condition, sont encheües, ou pourroient eschoir ou lien de servitudes,
franchise soit donnée à bonnes et convenables conditions”.
[348] Ao fim de seu reinado tão curto, Luís parece ter se tornado o inimigo dos barões. Jamais Filipe o Belo deu-lhes respostas tão secas e,
aparentemente, mais irrisórias que aquela de seu filho aos nobres da Champagne (1º de dezembro de 1315). Eles pedem que lhes seja
explicada essa vaga expressão Casos Reais (Cas Royaux), por meio da qual os juízes do rei avocam para si todo causa que desejam. O rei
responde: “Nós vos os esclarecemos da seguinte maneira: são aqueles que, de direito, ou por antigo costume, podem e devem pertencer ao
soberano Príncipe e a nenhum outro”. Ord., I, 606.
[349] (NT): Trata-se de João I, que sobreviveu por poucos dias.
[350] (NT): A “filha do irmão” é Joana II da França, rainha de Navarra. A infidelidade de sua mãe Margarida da Borgonha e a consequente
dúvida a respeito da paternidade pertencer ou não a Luís o Turbulento também encenam um papel fundamental na questão.
[351] Contin. G. de Nangis, p. 72. – “Voltando a Paris após um mês da morte de Luís X, ele encontrou seu tio, o conde de Valois, à testa de
uma facção prestes a disputar-lhe a regência. A burguesia de Paris tomou armas sob a condução de Gaucher de Châtillon e expulsou os
soldados do conde de Valois, que já haviam se apoderado do Louvre”. Félibien, ‘Hist. de Paris’, I, 585, a partir da ‘Chronique de Flandre’.
[352] O rei revoga especialmente as doações feitas a Guilherme Flotte, a Nogaret, a Plasiant e alguns outros. Ord. I, 667.
[353] Magistris universitatis civitatis ipsius hoc ipsum unanimiter approbantibus. Cont. G. de Nangis, p. 79.
[354] “O rei comeraça a regrar que não se serviria em seu reino senão de uma medida uniforme para o vinho, o trigo e todas as
mercadorias; mas, surpreendido por uma doença, ele não pôde finalizar a obra que começara. O mencionado rei propôs também que, em todo
o reino, todas as moedas fossem reduzidas a uma só; e como a execução de um tão grande projeto exigisse grandes custos, conta-se que,
seduzido por falsos conselhos, ele resolvera extorquir de todos os seus súditos a quinta parte de seus bens. Para este fim, foram enviados
delegados para diferentes regiões; mas os prelados e os nobres, que já há muito tempo possuíam o direito de cunhar moedas diferentes,
segundo a diversidade dos lugares e a exigência dos homens, assim como as comunidades das boas cidades do reino, não tendo consentido
com este projeto, os delegados retornaram a seu amo sem terem sido bem sucedidos em suas negociações”. Cont. G. de Nangis, 79.
[355] Vide meu ‘Symbolique du Droit’, pgs. 79/80, a sesta do rei.
[356] Que, pelas doações ultrajantes que no passado foram feitas por nossos predecessores, os domínios do Reino foram muito
apequenados. Nós, que muito desejamos acrescer e desejamos o bom estado de nosso Reino e de nossos súditos, doravante entendemos reter
tais doações, tanto quanto de justa forma pudermos, e proibimos que qualquer um ouse-nos fazer súplicas de doações à perpetuidade, se não
for na presença de nosso Grão-Conselho (Que pour les dons outragens qui on esté faiz ça en arrières, par nos prédécesseurs, li
domaine dou Royaume sont moult apetitié. Nous qui désirons moult l’accroissement et le bon estat de nostre Royaume et de nos
subgiez, nous entendons dores en avant garder de tels dons, au plus que nous pourrons bonement, et défendons que nul ne nous ose
faire supplication de faire dons à heritage, se ce n’est en la présense de nostre grant conseil). Ord. I, 670.
[357] (NT): Cruzada dos Pastores.
[358] Cum solis perâ et baculo sine pecuniâ, smissis in campis porcis et pecoribus, post ipsos quasi pecora confluebant (NT: Apenas com um
saco e um bastão, sem dinheiro, deixando seus porcos e ovelhas nos campos, eles se agruparam como estas). Cont. de G. de Nang., p.
77.
[359] Projectis inummerabilibus lignis et lapidibus, propriis projectis pueris, se viriliter et inhumaniter defensabant... Videntes autem dicti judæi
quod evadere non valebant... locaverunt unum de suis... ut eos gladio jugularet {NT: Eles (os judeus) lançavam inumeráveis vigas e pedras,
mesmo suas crianças lançavam, defendendo-se viril e inumanamente... Quando viram que não poderiam escapar... contrataram um
dos seus... para degolar suas gargantas}. Ibidem.
[360] Illic viginti, illic triginta secundum plus et minus suspendens in patibulis et arboribus, Ibid.
[361] vide o Memorando de M. Beugnot sobre os judeus do Ocidente, e da grande história de Jozt.
[362] Scripsisse confessionem... magni cujusdam leprosi. Cont. de G. de Nang., ann. 1321, p. 78.
[363] Fiebant de sanguine humano et urinâ de tribus herbis... ponebatur etiam Corpus Christi, et cùm essent omnia dissiccata, usque ad
pulverem terebantur, quæ missa in sacculis cum aliquo ponderoso... in puteis... jactabantur. Ibidem. {NT: Havia sangue humano e urina de
três ervas (odor) ... foi também colocado o Corpo do Cristo (hóstia), e tudo foi secado (desidratado) até que se obtivesse um pó, o
qual foi colocado num saquinho (sachê) com algo pesado... nos poços... era lançado}.
[364] Inventum est in panno caput colubri, pedes bufonis et capilli quasi mulieris, infecti quodam liquore nigerrimo... quod totum in ignem
copiosum... projectum, nullo modo comburi potuit, habito manifesto experimento et hoc itidem esse venenum fortissimum. (NT: Foi
encontrado no pano uma cabeça de cobra d’água, pernas de sapo e cabelos, como de uma mulher, infectado com um líquido
nigérrimo... tudo num fogo copioso ... lançado, de modo algum pôde ser consumido, prova manifesta que isto era um veneno
fortíssimo). Ibidem.
[365] Suadente diabolo per ministerium Judæorum... ut christiani omnes morerentur, vel omnes uniformiter leprosi efficerentur, et sic, cùm
omnes essent uniformes, nullus ab alio despiceretur (NT: O diabo persuadiu, pelo ministério dos judeus ... para que todos os cristãos
morressem ou que fossem uniformemente feitos leprosos e, com isso, todos seriam uniformes, e ninguém seria desprezado por
outrem). Ibidem.
[366] Vide, sobre os leprosos, os Dicionários de Bouchel e Brion e, sobretudo, o Dicionário de polícia por Delamare, I, p. 608. Vide, também
os Olim do Parlamento, IV, f. LXXVI, etc. Ibidem.
[367] Leprosum aquâ benedictâ respersum ducat ad ecclesiam cruce procedente... cantando Libera me Domine... In ecclesia, ante altare
paunus niger. Presbyter cum pallâ terram super quemlibet pedum ejus perducit dicendo: sis mortuus mundo, vivens iterum Deo (NT: Aspergido
com água-benta, o leproso levava a cruz à igreja... cantando ‘Liberta-me, Senhor’... Na igreja, perante o altar, um pano negro. O
presbítero, com terra (tirada) de seu pálio, a lançava sobre o pé (do leproso), dizendo: ‘Sê morto para o mundo, vive novamente em
Deus’.). ‘Rituel du Berri’, Martène, II, p. 1010. Vários rituais mais tarde proibiram essas lúgubres cerimônias, como os de Angers e de Reims.
Ibid. p. 1005, 1006.
[368] Ibidem, p. 1006. Isto não significava, entretanto, um sinal de reprovação. Morto para o mundo, ele era considerado ter feito seu
purgatório aqui na terra; e, em alguns lugares, celebrava-se para ele o ofício do confessor: “Os justi meditabitur sapientiam” (NT: pela boca
do justo fala a sabedoria). Ibid. 1010.
[369] “Judæi... sine differentiâ combusti... Factâ quâdam foveâ permaximâ, igne copioso in eam injecto, octies viginti sexies promiscui sunt
combusti; undè et multi illorum et illarum cantantes quasique inviati ad nupcias, in foveam saliebant”. Cont. de Guil. de Nang., p. 78.
[370] Ne ad baptismum raperentur. Ibid.
[371] Unius antiqui... sanctior et melior videbatur; undè et ob ejus bonitatem et antiquitatem pater vocabatur. Ibid. p. 79.
[372] Cùm funis esset brevior... dimittens se deorsùm cadere, tibiam sibi fregit, auri et argenti præ maximo pondere gravatus. Ibidem.
[373] Vide o Diferendo entre a França e a Inglaterra sob Carlos o Belo, por M. de Bréquigny. A querela, que inicialmente não tivera por
objeto senão a posse de uma pequena fortaleza, em pouco tempo tomou o caráter mais grave pela fraqueza de Eduardo e pela audácia de seus
oficiais. Enquanto Eduardo se desculpa por sua lentidão em vir prestar homenagem e roga ao rei da França interromper os avanços dos
Franceses sobre seus domínios, os oficiais ingleses na Guiana demolem a fortaleza disputada, sequestram e exigem resgate do Grão-Mestre
dos Arbaleteiros da França, que quisera tirar satisfação. Eduardo se apressa em desculpar-se por estes atos junto a Carlos o Belo e, ao
mesmo tempo, dava ordem a todas as pessoas de prestar assistência a Raul Basset, o autor do insulto feito ao Rei da França. Mas ele logo
recuou desta guerra e destituiu Raul Basset; seus oficiais deixados sem auxílio tiveram de dar satisfações a Carlos o Belo que, por sua vez,
não parou neste belo caminho: os embaixadores de Eduardo escreviam a este que, na corte da França, dizia-se, em alto e bom som, “que não
desejavam mais ser servidos somente por pergaminhos e palavras, como até então o foram”. Eduardo, que inicialmente recorrera ao Papa e
feito alguns preparativos, alarmou-se com esta tempestade que podia estragar seus prazeres. Ele outorgou plenos poderes para tudo terminar e
despachou para Carlos um Francês chamado Sully, o qual era seu plenipotenciário. O rei escutou o Francês, expulsou o Inglês e mandou suas
tropas entrarem na Guiana. Após ter inutilmente aguardado o socorro do conde de Kent, Agen abriu suas portas. Novos embaixadores vieram
da Inglaterra e tiveram por toda resposta que era necessário “que se suportasse que o rei da França pusesse sob suas mãos o resto da
Gasconha e que Eduardo viesse encontrá-lo; e então, se ele (Eduardo) lhe pedisse justiça, o rei a daria boa e rápida; se lhe rogasse graça, o rei
faria o que melhor lhe aprouvesse”.
[374] ... com o que vários cavaleiros ficaram muito irritados... e disseram que ouro e prata tinham vindo em grande quantidade da Inglaterra.
Froissart, éd. Dacier, I, 26.
[375] Ele (Roberto do Artois – Robert d’Artois) escutou secretamente que Carlos o Belo tinha vontade de mandar prender sua irmã, o
filho desta, o conde de Kent e messire Roger de Mortimer, e enviá-los para as mãos do rei da Inglaterra e do mencionado Despenser; e, assim,
ele à noite vem contar para a rainha da Inglaterra e alertá-la do perigo no qual se encontrava”. Froissart, I, 29.
[376] Vox populi, vox Dei. Walsingham, ‘Hist. d’Angleterre’, p. 126.
[377] Thom. de la Moor. Ele concluía que o único meio de curar o corpo era cortando-lhe a cabeça.
(NT): Caput meum doleo {Bíblia, 2, Reis, 4:19 (livro de Reis 2, capítulo 4, versículo 19)}: O Tradutor usou a versão mais popular do livro de
Reis, 2, mas a frase também pode ser traduzida por “Dói-me minha cabeça”.
[378] Vide a chocante narrativa de Froissart, I, c. 25, p. 52.
(NT): Eis a chocante narrativa de Froissart: Após terem-lhe recordado tudo o que fizera, Despenser foi “levado sobre um baú, ao som de
trombetas e trompas, por toda a cidade de Hereford, de rua em rua, e depois foi conduzido a uma grande praça da cidade, onde todo o povo
estava reunido: naquele lugar, foi amarrado sobre uma escada alta que todos, baixos e altos, podiam vê-lo; e fez-se, no mencionado lugar, uma
grande fogueira. Quando estava assim amarrado, foi-lhe primeiro cortado o pênis e, depois, os testículos, porque era herético e sodomita, e
igualmente dizia-se isso do rei, e por isso tinha o rei repelido a rainha de si e por seu conselho. Quando o pênis e os testítculos foram-lhe
cortados, os mesmos foram lançados ao fogo para queimar; e, após isso, foi o coração tirado do peito e lançado ao fogo porque ele era falso
de coração e traidor e, em virtude de seu conselho traidor e sua sugestão, o rei tinha envergonhado o reino e o governado mal, e tinha feito
afastar os maiores barões da Inglaterra, pelos quais o reino devia ser apoiado e defendido; e, também, ele de tal forma aconselhara o rei, que
este não podia e nem queria ver a rainha, sua mulher, nem seu primogênito filho, que devia ser seu (de Despenser) senhor, tendo-os afastado,
por temor de seus corpos, para fora do reino da Inglaterra. Após ter o mencionado messire Hughes (Despenser) sido assim atormentado,
como dito está, foi-lhe cortada a cabeça, a qual foi enviada para a cidade de Londres e, então, foi seu corpo desmembrado em quatro partes,
que logo foram enviadas às quatro melhores cidades da Inglaterra depois de Londres” (Chroniques de Froissart, Volume 1, pgs. 51-53,
Librairie Verdière, 1824, Paris).
[379] Walsingham, p. 126. Th. de la Moor, p. 600, 601.
[380] Ut innotuit viri dejectio, plena dolore (ut foris apparuit), fere mente alienata fuit... Misit indumenta delicata et litteras blandientes.
Eodem tempore assignata fuit dos reginæ talis et tant, quod regi filio regni pars tertia vix remansit {NT: Ante as notícias do desalento de seu
marido, cheia de dor (quando vista pelos outros), ela parecia muito transtornada... Enviava-lhe roupas delicadas (caras, luxuosas) e
cartas lisonjeiras. Ao mesmo tempo, foi atribuído um tal e tamanho dote à rainha, que menos de uma terça parte do reino ficou para
seu real filho}. Wals., p. 126-127.
[381] (NT): EDWARDUM OCCIDERE NOLITE TIMERE BONUM EST. Dependendo de onde se coloque a vírgula, teremos:
Pela vida: “Matar Eduardo, temei, não é bom.
Pela morte: “Matar Eduardo temei não, é bom.
[382] (NT): “Travers” = um pequeno defeito (para pessoas). Mal + Travers (Maltravers) = um mal defeitozinho.
[383] Ipso prostrato et sub ostio pouderoso detento ne surgeret, dum tortores imponerent, et per foramen immitterent ignitum veru in viscera
sua (NT: assim prostrado e preso sob o peso da porta, enquanto os torturadores introduziram-lhe um chifre pela abertura e um espeto
foi esquentado em suas vísceras). Ibid.
[384] (NT): Há de se notar que, pela ordem da sucessão, o herdeir