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A Extinção

Livro I
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[2013]
Agradecimentos
Sinceros agradecimentos a pessoa que sempre me incentivou e ajudou a concluir este precioso
projeto, e a todos que irão fazer parte desta obra.
Sumário

Prólogo: A criação do mundo ............................................................................ 6

Capítulo 1: O inesperado ................................................................................... 11

Capítulo 2: História de vida ............................................................................... 36

Capítulo 3: Doce lar ........................................................................................... 43

Capítulo 4: O novo mundo ................................................................................ 53

Capítulo 5: Decisão ........................................................................................... 71

Capítulo 6: O mundo planar .............................................................................. 81

Capítulo 7: Desafios e soluções ......................................................................... 92

Capítulo 8: Desilusões da vida ........................................................................... 109

Capítulo 8: 2º Parte ........................................................................................... 135

Capítulo 9: Coragem.......................................................................................... 142

Capítulo 10: Revanche ...................................................................................... 150

Capítulo 11: A batalha final ............................................................................... 164

Capítulo 12: O fim é uma certeza ...................................................................... 178

Epílogo: Mudanças ............................................................................................ 180

Mapa da DHIP ................................................................................................... 59

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Prólogo - A criação do mundo
O Universo é extraordinário, guarda segredos milenares que nunca poderão ser
descobertos. Um desses grandes mistérios é a própria vida. Ninguém sabe ao certo como ela
surgiu, como tudo no universo proveio. Porém, o bem comum retrata a criação do sistema
Solar e do planeta Terra sendo originado por dois deuses: O Sol e a Lua.

A Terra, bem como todo sistema Solar, fora moldada a partir de rochas derretidas com
superfícies inabitáveis para qualquer tipo de vida. As diversas tentativas em criar o planeta
perfeito, com distância segura do grande deus Sol, deram origem a todo o coletivo. Cada
planeta que compunha o sistema Solar era importante, cada qual com sua função, como um
conjunto de engrenagens interdependentes.

O ápice da precisão fora o terceiro planeta distante de seu deus, o planeta Terra. Por
esse motivo, a deusa Lua repousou sobre a órbita terrestre, dando origem ao sistema
complexo da vida, o habitat natural. O mundo subsistia, a pangeia aglomerava diversos tipos
de relevo e flora e as águas, doces ou salinizadas, banhavam os leitos e praias do globo.

Em novas experiências, os deuses criaram seres que agiam por suas sensações e
instinto, seus desejos de alimentação e reprodução. Ao término desse período, em bilhões de
anos, chamaram essa etapa de “A primeira Criação”, ou “Os animais”.

Contudo, ainda não sentiam a alma do planeta, a essência de todo o seu trabalho.
Queriam ser adorados, exaltados. Cada um em sua parte, como combinado: metade do ciclo
de rotação da Terra. Para tanto, deram origem a próxima fase, “A segunda Criação”. Por
milhões de anos, eles basearam-se nos animais para promover seres com consciência, capazes
de analisar seus atos, prever o futuro e distinguir o tempo, a verdade e o sentimento, criaturas
com alma. Elfos, gnomos, anões, licantropos, vampiros, demônios, anjos e muitas outras
espécies, conhecidas como “Raças”.

Todo o ocorrido desde o momento da criação dos planetas era descrito pelos deuses
em um livro, conhecido pelos terráqueos como “O Livro Sagrado”. Continha documentado
detalhes sobre a Terra, a primeira criação e as raças. Tudo aos mínimos pormenores. Era
imaginado como um aglomerado de matérias fibrosas, secas e amareladas, papiros
sobrepostos e presos por fios de linho.

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Os deuses sentiam-se satisfeitos com suas criações. Agora, estavam sendo tratados
como verdadeiros deuses. Foram, por muito tempo, os grandiosos, os soberanos da Terra. A
raça predominante, os humanos, eram seus principais adoradores, por isso, a mais
apaixonante das criaturas. A paz, a harmonia, a reciprocidade, vigoravam no planeta.

De todas as raças, a humana estava sempre à frente: organizações em sociedade,


invenções extremamente úteis, comércio, agricultura, as enormes cidades. Conseguiam
reproduzir-se rápido, com perdas insignificantes. Eram dotados de uma tremenda capacidade
em aprender qualquer coisa, desde caça e cultivo à grandiosas e poderosas magias, podiam ser
o que quiser. Com toda a comodidade e espalhados pelo planeta, os seres humanos
começaram a se tornar soberbos, trapaceiros e impiedosos, utilizando da sua inteligência
sobre as demais raças. Aos poucos, deixavam de cultuar o Sol e a Lua, criando deuses fictícios
visando lucro. O conjunto de suas ações geravam um forte desequilíbrio natural, retirando
aquela paz antes existente entre eles.

O Sol e a Lua nada fizeram à respeito da decadência dos seres humanos. Eles
acreditavam na recuperação da alma, no profundo desejo do coração de todo ser, a
necessidade pelo poder divino dos criadores, porém o tempo nada mudou. A desonra que
sentiam os levaram a refletir em descontinuar a espécie, mas o amor pelas suas criações
superava qualquer dificuldade. Todavia, queriam castigar sua prole e a punição viria das
próprias raças subjugadas. Elas relatariam no próprio Livro Sagrado o que sofreram dos
humanos e qual seria a melhor penalidade. Sendo assim, os deuses depositaram uma única
página do poderoso livro ao topo do monte Horeb, sul da península de Sinai.

A astúcia do ser humano era tamanha que nem os deuses previram o que estava por
vir. Este período é datado para mais de 3000 anos antes de Cristo. As raças já se espalhavam
pelo mundo, porém sua concentração habitava as regiões mediterrâneas. O baixo Egito era
governado pelo audacioso humano Khaau, líder da academia arcana do estado. Suas infinitas
crueldades o elevaram a ser o temível governante da cidade de Mênfis. A vida do mago era
cercada por alianças com diversas raças, algumas tão malignas quanto ele.

Devido à grande influência de Khaau sobre suas terras, não foi difícil descobrir o plano
que as divindades não revelaram aos humanos. Seus demônios, cuja principal função era a
espionagem, logo relataram os ideais salvadores e a localização da tal folha sagrada. O Faraó
sentiu-se traído, omitido do plano dos altíssimos. Era soberbo demais para tal exclusão. Os
próximos acontecimentos condenaram a sublimidade do planeta inteiro.

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Segundo lendas contadas por antigos sábios, Khaau infiltrou seus agentes, de raças
desconhecidas, no conselho dos seres e roubou o artefato do monte. Como isso foi feito?
Contam que os poderes de Khaau eram tão grandes quanto o dos próprios divinos, outros
afirmam que ele era um deus expulso do celeste e condenado à vagar pela terra. Dizem
também que o livro fora roubado pela noite, em Lua nova, quando os olhos dos deuses não
circulavam pelo mundo. De fato, Khaau desapareceu junto com a folha sagrada e conseguiu
utilizar do poder dos deuses.

Repentinamente, a maioria das raças do planeta não podia mais expor-se ao Sol. Seus
corpos evaporavam ao nascer de toda manhã, mas pela noite nada acontecia. O alvoroço
terrestre era estrondoso aos olhos do criador, o deus Sol. Ele não podia mais presenciar a face
de muitas das suas criações. Elas foram banidas, habitariam somente a penumbra. Nada mais
se podia fazer.

Todas as raças que possuíam forma humana como anjos, licantropos, fadas, anões e
meio-elfos nada sofreram, porém as que continham alguns traços diferentes como peles em
outros tons e corpos deformados não podiam mais sentir o calor do sol. Dessa forma, a terra
ganhou uma nova divisão da segunda criação: os humanos, dominantes em diversos aspectos;
os semi-humanos, seres viventes em qualquer fase do dia e as raças, excluídas do período
diurno.

Com o passar dos anos, raças eram extintas, humanos entupiam os cantos do mundo,
os sentimentos mais sombrios enegreciam os corações de todos, mas os criadores não mais
retiravam seus olhos da terra e assim ficariam até encontrarem a folha perdida, o artefato que
claramente ainda era usado para engrandecer a humanidade.

Mais que um milênio depois, os humanos promoveram um grande evento na jovem e


magnífica cidade de Akhetaton, ao sul de Mênfis. A ignorância dos humanos os fizeram
acreditar que tudo acabara, que seus atos passaram despercebidos aos olhos divinos. O
Artefato foi levado para o centro da cidade festiva à luz do dia. Ao avistar a folha sagrada, os
deuses prontamente desceram a terra, como raios em uma tempestade, e devastaram a
cidade com a ira suprema.

O artefato fora recuperado e eles voltaram ao celeste, desabando suas mágoas sobre a
terra com diversos desastres naturais. A dor que sentiam era incurável, inacabável. Pelos anos
passados, já sabiam o que fazer e não retrocederam na decisão: iriam abandonar a terra. Suas
últimas palavras ecoaram pelo globo em meio a chuvas de relâmpago. Revelaram seu

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descontentamento com suas criações, um dia puros e agora, dominados por desejos tão
sórdidos que os celestes descompreendiam. Por fim, não reverteriam todo o ocorrido, uma vez
que seus olhos enxergavam a mais profunda das almas e, em nenhuma delas fora encontrado
o desejo dos criadores: harmonia, paz e adoração. Era tamanha a desilusão que repudiavam a
todos.

Os seres humanos foram condenados diretamente pelos deuses a nunca mais se


lembrarem de nada que é místico, sobre a criação, sobre os deuses ou sobre seu próprio
passado. Os diversos seres existentes tornariam-se seus piores medos e nunca mais haveria
paz entre eles.

O Livro Sagrado, símbolo de poder supremo das divindades, fora despedaçado e


incendiado, sendo arremessado contra a Terra em total desprezo, pois agora, era lembrado
como símbolo do maior erro celestial.

E por último, os deuses abandonaram a terra, porém deixaram seus corações, o Sol
como a estrela da manhã e a Lua como a rainha da noite, um presente para os remanescentes
dos ideais da criação, para que os reais adoradores sempre lembrem-se de seus deuses, o Sol e
a Lua. Ao deixarem o celeste, a terra estremeceu e todos souberam que suas divindades
partiram, não mais existia um deus no controle do mundo.

Como dito pelos deuses, os humanos nunca mais lembraram-se da criação ou das
outras raças, vivendo suas vidas normalmente. Surgiram as lendas, as crenças, os deuses
pagãos, os historiadores, os filósofos, tudo para tentar sustentar o então vazio deixado na
alma, mas nunca será preenchido o vão deixado pelo castigo dos criadores. A humanidade
sempre sentirá medo da penumbra.

As raças se acomodaram a viver com sua maldição e detestam, com todas as suas
forças, qualquer humano que entre em seus caminhos. A divisão milenar que os humanos
provocaram será para sempre motivo de assassinatos, rebeliões, morte.

Os novos milênios chegaram e a sociedade humana poluía cada pedaço de terra do


mundo. Mas entre eles, semi-humanos ainda vivem, errando suas diferenças e aceitando as
imposições do novo cotidiano. Provavelmente, não ficará assim por muito tempo. As raças
ainda vivem e o sentimento de vingança ainda permanece em seu ser. Uma grande rebelião
ainda poderá explodir e expor novamente o mundo ao colapso. Mas dessa vez, as raças terão
pelo que lutar.

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Como dito no início deste conto, é o senso comum, exposto por lendas e mitos, que
revela esta parte da história da vida. Mas algo pode estar errado, algo pode estar ausente ou
nada pode ter sido assim. A verdadeira história habita um mundo desconhecido, destruído
naquele próprio tempo. Quem sabe algum dia estaremos cientes se tudo que os sábios nos
contam é a pura verdade dos fatos. Ou uma nova lenda desmitificará tudo que conhecemos?

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Capítulo 1 – O inesperado

Às onze horas da noite, quando a Lua cheia iluminava os céus, um jovem caminhava
por uma rua sucumbida ao vazio. Era Andrew quem perturbava o silêncio da noite. Seus olhos
escuros mal podiam ser vistos e sua pele negra só era revelada pelo brilho do luar, não que
fosse tão escura. Os cabelos curtos formavam um corte no padrão militar. Usava uma camisa
branca de manga curta, destacando suas tatuagens de chamas vibrantes, que ocupavam toda
extensão dos antebraços.

As ruas estavam desertas, sem ao menos um automóvel circulando. Este bairro de


Mesquita, região metropolitana do Rio de Janeiro ou comumente conhecida como baixada
fluminense, é considerado um lugar perigoso para caminhar sozinho pela noite, mas ele não se
importava. Seu porte físico não ajudaria bastante, mas o rapaz escondia seus truques.

Seu destino final era um condomínio fechado e faltava uma esquina e alguns metros
para chegar. O local por onde passava era pouco iluminado e frequentemente movimentado,
pois possui saída direta para a rua principal, além de dois bares populares da região, ambos
fechados no momento. As residências, consideradas maioria de classe média, continham até
dois andares, onde geralmente, no andar superior, separam os quartos dos outros cômodos. O
alto dos muros era protegido por pontas de ferro em forma de setas ou cacos de vidro fixados
com cimento. Tudo para a proteção. Residências de diversas cores, mas sempre variando em
tons claros. Quase todos os dias, moradores ficavam sentados em frente aos seus portões,
conversando, sentindo a brisa ou espionando a vida dos outros, mas somente os uivos e
latidos expunham sinal de vida naquela ocasião.

Andrew sentia-se bem, acabara de encontrar com amigos que não via há três anos e
pensava em dormir. Seu dia seguinte já estava planejado:

“Nada de estudos, nada de treinamento, nada de trabalhar! Amanhã eu vou comprar


um grande pote de sorvete, deitar no sofá e assistir televisão até enjoar…”.

Faltando poucos metros para chegar à esquina, uma sensação diferente fez seu corpo
arrepiar. Parecia estar sendo observado. Ele deixou seus pensamentos de lado e olhou
rapidamente para trás, mas não havia nada. As esquinas vazias ecoavam os sons que a brisa
trazia de longe.

“Deve ser esse vento frio de hoje.” ─ Pensou Andrew e tornou a caminhar.

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Ele dobrou a esquina e já observava o portão da entrada do condomínio.

Porém, na rua anterior, realmente existia algo nas sombras que havia lhe analisado.
Seus olhos eram vermelhos como sangue e pareciam duas acerolas em uma densa árvore da
calçada. Sorrateiramente, aquilo se moveu pela penumbra.

Andrew estava distraído ao aproximar-se do portão e procurava a chave em seu bolso,


quando a misteriosa sensação retornou. Seus olhos desviaram instintivamente para um
terreno abandonado do outro lado da rua. Estava cheio de entulho e fedia com o chorume do
lixo ali jogado. Nada de diferente naquele lugar.

“Hum… Que estranho. Nunca tive esse tipo de sensação. Acho que aquele copo de
caipirinha estava forte.” ─ Ele erguia a sobrancelha direita enquanto refletia, ao mesmo tempo
em que entrava no condomínio.

O portão era gradeado, feito de ferro e pintado de preto. Por entre as barras, o jovem
examinou o desamparado terreno por algum tempo, ainda com sua sobrancelha ressaltada,
mas realmente nada estava diferente. Sua atenção voltou-se em ir para casa.

O condomínio era constituído por uma larga rua central, com casas em paralelo e um
pequeno espaço entre elas. Estas eram iguais, diferenciadas apenas pelos números e pelos
moradores que acrescentavam detalhes nas portas e paredes. Eram todas pintadas de branco
e telhas de cerâmica marrom, inclinadas para baixo na parte frontal da casa, com finalidade de
evitar o acúmulo de água. Não eram luxuosas, porém confortáveis. O condomínio também não
possuía um segurança ou vigia, pois nunca fora necessário.

Após os primeiros passos do jovem, um ruído no lote abandonado o incomodou


novamente. Era um saco cheio de lixo que havia rolado pela pilha de entulhos, o que o fez
olhar para trás, mas algo diferente disto fixou sua atenção. Por cima de um velho sofá, estava
uma forma negra, meio curvada e tentando ficar imóvel após o alarde, mas a visão de Andrew
era apurada e a dúbia forma percebeu que havia sido vista. Em um movimento rápido a forma
arremessou algo pequeno e brilhante que transpassou as barras da entrada, alvo fixo em
Andrew.

**********

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Enquanto isso, em algum lugar muito distante dali, uma mulher caminhava impaciente
de um lado para o outro em sua sala:

“Deus, por favor, me dê um sinal hoje. Já não aguento mais…”.

Era uma bela moça de olhos cor de mel. Tinha cabelos longos, lisos e escuros, com uma
delicada franja completando sua beleza. A pele era clara e possuía uma pequena pinta preta
perto do olho direito. Vestia um conjunto social que continha um salto médio, saia justa até o
joelho e um blazer de manga curta, com uma camisa branca por baixo. O resto do conjunto era
azul marinho. Suas belas curvas se destacavam nesse uniforme. Do lado esquerdo do seu
blazer, um broxe folheado a ouro, escrito “DHIP” em preto, deixava claro que ela não era uma
pessoa qualquer.

Ela rodeava preocupada, impaciente para que algo ocorresse. Era explícita a
perturbação do seu espírito.

O local não parecia real. Emaranhados de tubos, paredes lisas de concreto espesso,
iluminação azulada, uma mesa e três cadeiras todas em vidro, dois monitores transparentes e
nenhum fio. Tudo em uma espaçosa sala retangular, com um grande vidro centralizado na
mesma parede da porta. O vidro estava enegrecido, vultos do outro lado mal eram vistos, e a
porta, alinhada à esquerda, parecia ser o único objeto normal naquele cômodo, feita toda em
madeira envernizada, de cor vinho escuro.

“Três dias e nada ainda…” ─ Ela estava preocupada. ─ “Eu preciso fazer alguma coisa…
Bem, na verdade eu preciso de um grande milagre.”.

Alguém bateu na porta e ela tentou se recompor:

─ Porta, destrancar. ─ Ordenou a moça e ouviu-se um som na fechadura.

O que entrou era Marcelo, um de seus funcionários. Ele trazia algo em sua mão:

─ Você está bem, Jéssica? Trouxe um café para você. ─ Referiu-se à xícara esverdeada
que transportava.

─ Obrigada. ─ Respondeu ela, tentando sorrir.

─ Soube que você não está dormindo direito, quer alguém para conversar? Sei lá, pode
ser que se sinta melhor se desabafar um pouco.

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─ Não, não precisa. Só o café já basta. Obrigado pela sua preocupação, mas eu estou
bem. ─ Ela sorriu novamente.

Marcelo fez sinal positivo. Ele tinha pele clara, era gordo e possuía uma barba densa,
cabelo curto com algumas falhas e aparência de ter por volta dos 35 anos. Vestia uma camisa
social listrada branca e marrom, calça jeans e sapato.

Jéssica apenas pegou o café e deu as costas. Seu pensamento voltava a estar fora dali.

Marcelo, por sua vez, retornava ao seu escritório.

O aposento inteiro era um grande salão com estruturas similares ao escritório de


Jéssica, porém era dividido em três partes interconectadas por uma escada e um elevador em
cada lado. Além da boa iluminação, faixas fluorescentes circundavam todo o lugar. Era
completamente fechado, nenhum raio de sol penetrava por qualquer brecha. Os andares eram
divididos em degraus, onde da parte mais alta avistava-se todos os andares abaixo, além de
todos que os habitavam, pois a superfície de cada um era de vidro, menos a do andar mais
elevado que se encontrava unido ao teto do aposento.

Marcelo descia do último andar e direcionava-se ao segundo, pavimento selecionado


aos líderes de equipe. Era difícil não focar os olhos no imenso telão na parede à frente, que
passava diversas notícias incomuns à humanidade. Ao fim da escada, ele prosseguiu por um
corredor de muitas portas, salas privadas de um lado e públicas do outro. Esta divisão era pelo
fato das salas privadas estarem posicionadas abaixo do andar superior enquanto as salas
públicas eram posicionadas à frente, com tetos transparentes.

O líder de equipe adentrou uma sala pública, ao meio do corredor, onde trabalhava
com outros dois líderes: Sandra e Pedro Henrique. O cômodo era esplêndido, com tecnologias
indescritíveis. Nada funcionava por fiação e se fosse estaria muito bem escondido, pois era
imperceptível. Cada um dos três líderes contava com uma tela enorme, de material
desconhecido, dividida em zonas e utilizada pelo toque ou comandos de voz. Em vez de uma
parede, uma camada transparente, rígida, que nem parecia existir, ocupava toda a extensão à
frente da porta e dava ampla visão ao andar abaixo. Esta sala concedia a visão de quatro
cômodos públicos do outro pavimento. Mas nem todas eram assim.

Cada equipe destes líderes ocupava uma das grandes salas abaixo e também
usufruíam de poderosas tecnologias para exibição, busca e manipulação de dados.

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Era incrível a colossal estrutura que fora construída ali. As divisões, a segurança, não
era uma empresa comum e talvez nem mesmo possa ser considerada uma empresa: estava a
frente de qualquer coisa construída pelo homem.

─ Conseguiu entregar o cafezinho? Ha rá! Puxa saco. ─ Zombou Sandra ao ver Marcelo
adentrar.

Sandra era uma moça mulata, de cabelos encaracolados até o ombro. Sua cintura era
esbelta e notavelmente praticava musculação para deixar seu corpo maravilhoso como era.
Seus seios avantajados sempre ganhavam a atenção onde quer que estivesse. Usava um
vestido preto com um cinto branco de pedras prateadas:

─ Muito engraçado, muito mesmo. Eu fui ver como ela estava sua faladora. Eu num já
te contei o que eu descobri? ─ Respondeu Marcelo, enquanto sentava em sua mesa.

─ Sei, sei. Tá tentando é se aproveitar do momento frágil da menina. Isso sim seu
fanfarrão. Se respeita rapaz! Você é casado. ─ Argumentou ela.

─ Pessoal! Foco aí no que vocês estão fazendo. Concentração total. Ela sabe se virar
sozinha. Agora, nós temos que fazer a nossa parte. ─ Disse Pedro Henrique, encorajando seus
colegas a encerrar o assunto.

Pedro estava sério e concentrado. Analisava alguns dados recentes que seus
funcionários informaram. Ele era alto e magro, sua pele era clara e manchada por sardas,
cabelo curto e espetado e usava óculos. Sua roupa era a mais social de todas: terno e gravata
preta, das lojas mais importantes do país.

Eles voltaram a trabalhar com as novas informações.

Jéssica estava sentada em sua elegante sala. Ela visualizava algo nos monitores. Sua
face demonstrava tremenda preocupação e suas mãos suavam, era aparente que estava se
sentindo pressionada e assustada. Em um momento de surto, ela socou a mesa e se empurrou
para trás. Passava as mãos pelo rosto e evitava ao máximo derramar lágrimas.

“Eu tenho que ser forte. Já resolvi diversos casos complicados… Eu tenho que ser
forte.”.

**********

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Um pequeno objeto brilhante deslizava pelo ar ao encontro da garganta de Andrew.
Em uma rápida reação, mesmo sem tempo para analisar a situação, ele jogou-se para o lado
esquerdo. Não foi em tempo suficiente e o objeto rasgou o seu ombro direito, abrindo um
corte horizontal que começou a sangrar quase instantaneamente. O pânico correu pelo seu
corpo e finalmente seu sistema nervoso avisou do corte:

─ Ah! Que merda! ─ Ele soltou um grito de dor.

Ao perceber que Andrew havia caído, a forma correu para o portão, subiu e atravessou
velozmente, aparecendo dentro do condomínio e finalmente sendo iluminada pela luz do
poste interno do local. Estava curvada, com uma das mãos apoiadas no chão e com a cabeça
virada para baixo. Tinha o corpo aparentemente humano; estava totalmente coberta, com
roupas escuras; usava um capuz que revelava naquele momento apenas as suas orelhas
pontiagudas e maiores que o normal; também possuía uma bainha na cintura com uma lâmina
dentro.

A criatura levantou a cabeça rapidamente, revelando olhos vermelhos da cor do puro


sangue. A vestimenta preta não enganou o jovem, eram trajes de uma antiga classe ninja,
japonesa. A elite shinobi shozoku, um manto leve, forjado especialmente para infiltrações
despercebidas.

Agora, Andrew percebeu o porquê de ter sentido sensações diferentes do normal, seu
instinto lhe avisava do perigo iminente. Ele levantou com um sorriso no rosto, enquanto a
criatura ficava ereta. Estavam distantes um do outro por aproximadamente oito metros:

─ Um ninja shinobi? Isso não é meio brega? Ou você é um viajante do tempo que veio
para me matar? ─ Andrew sorria de lado enquanto provocava a criatura.

Mesmo ele percebendo que estava em total desvantagem, pois além do ninja estar
armado, utilizava roupas apropriadas para combate, enquanto Andrew usava calça jeans,
sapatos e uma camisa branca de manga curta, não hesitou e, num tom de voz ameaçador,
olhou nos olhos da criatura e disse:

─ Vamos ver do que você é capaz.

Instantes após esta frase, a criatura esticou os braços para trás, curvou-se e correu
célere ao encontro de Andrew que a aguardava, imóvel. O jovem parecia confiante, mesmo se

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deparando com algo anormal. O confronto era inevitável. A criatura o alcançou e já estava com
a mão direita preparada para o golpe. Andrew agachou e, girando, aplicou uma rasteira. A
criatura percebeu o golpe antecipadamente e saltou por cima dele, num giro lateral, caindo de
pé. Andrew sorriu e se colocou em posição de combate ao estilo muay thai.

A criatura novamente correu em sua direção, do mesmo jeito, puxando algo da cintura
sorrateiramente com a mão esquerda. O lutador só percebeu o objeto quando o ser começou
a desferir golpes rápidos. Era outra arma japonesa, uma kunai. Andrew desviava dos golpes até
ser atingido por um soco nas costelas. Ele caiu no chão e a criatura soltou um rugido
orgulhoso, esperando-o levantar.

“O que ela quer comigo? Por que está feliz em me golpear?” ─ Ele não entendia o que
estava acontecendo.

Depois de receber mais alguns golpes, Andrew percebeu que em campo aberto não
teria chances. Pensou em um plano rapidamente enquanto levantava de um forte soco em seu
peito e esperou a criatura atacar. Não demorou muito e ela foi, na mesma posição, ainda mais
confiante. Ele esperou até o momento certo, imóvel, apenas concentrando-se. A criatura
chegou a um metro de sua distancia, exatamente onde ele queria.

Andrew girou, aplicando uma rasteira. A criatura percebeu e saltou, repetindo a


movimentação do ataque anterior. Ele aproveitou o impulso do primeiro giro e pulou,
atingindo um chute rodado, certeiro na cintura da criatura e, ao mesmo tempo, jogando-a
para o lado, desobstruindo o caminho.

“Sabia que não era bem treinada pela sua forma de combate. Nunca se repete o
mesmo movimento contra o mesmo ataque.”. ─ Pensou ele, sa sfeito com seu plano.

A criatura soltou um rugido estranho, agudo, mas rapidamente se recompôs e pegou


sua kunai que havia caído. Ao procurar por Andrew, viu que ele correra e já estava chegando
em sua casa. Enraivada, ela arremessou a kunai enquanto o jovem abria a porta de casa,
despercebido do objeto. A kunai se aproximava rapidamente. Por um momento, pareceu que
o objeto o acertaria em cheio pelas costas, mas ele entrou em casa e fechou a porta.

A kunai encravou e atravessou a porta, que era feita de madeira da pior qualidade. Ela
ficou a centímetros do rosto de Andrew, para sua surpresa. Um pouco de segurança se
expandia pelo seu coração ao estar em um ambiente aparentemente mais confiável. O fugitivo
mal havia trancado a entrada quando o estilhaçar de uma janela lhe fez redobrar a atenção.

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“Deve ser minha janela da cozinha. Essa coisa é rápida, já está aqui dentro e eu nem
sei o que fazer. Que surpresa desagradável.”.

A casa era reflexo da parte externa: a porta principal dava em uma sala, uma porta
fechada logo à frente levava até a cozinha e outra porta na sala, ao banheiro. Existia também
uma porta nos fundos para a área de serviços e uma escada na sala até os quartos acima. A
sala da casa, além do citado, possuía um sofá com dois lugares, uma estante com televisão e
uma janela com cortinas azuis, acima do sofá.

Andrew dirigiu-se para o quarto, subindo as escadas sem fazer barulho. Enquanto isso,
a criatura estava na cozinha, deslocando-se para a sala. O ranger agudo da porta revelou que o
ser acabou de abri-la. Ela observava todo o espaço que estava em total silêncio. Seus olhos
eram as únicas coisas que iluminavam aquele lugar. O simples rinchar da maçaneta da porta
superior sendo trancada foi o suficiente para chamar a atenção dela.

Andrew finalmente achava ter tempo para refletir no que fazer. Pensou em talvez
enfrentar seu caçador, mas os únicos instrumentos que o ajudariam agora estavam na cozinha.
Era impossível ir buscá-los.

“Eu não posso combate-la aqui, não onde eu moro. Ninguém pode me descobrir,
senão… Eu tenho que sair daqui.”.

O silêncio só tornava o suspense pior. Ele não encontrava solução alguma, além da
ideia de fugir. Nem sabia o porquê de estar sendo caçado até a morte.

O jovem abriu a janela do quarto, devagar, e saiu por ela, se esforçando para chegar
ao telhado. Sua casa era a última do condomínio, separado de um grande terreno sem
propriedades por um muro de dois metros de altura. O terreno tinha vegetação mais alta que
o próprio muro em algumas partes.

O plano do fugitivo era distanciar-se o máximo possível da civilização, assim ele


poderia combater o ser. Queria voltar para a entrada do condomínio e seguir pela rua. Mais a
frente, iniciava-se um pequeno bosque onde os dois ficariam a sós. Então, ele direcionou-se
para pular no telhado vizinho, mas logo viu que a criatura já estava subindo a outra casa,
escalando a parede lateral, fitando-o:

─ Mas o que essa coisa quer de mim? ─ Murmurou ele.

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Andrew novamente estava vulnerável e não teve outra escolha. Jogou-se no terreno
abandonado. Ele correu alguns metros e escondeu-se na vegetação. Não demorou muito para
que ouvisse o som de outro ser caindo no terreno.

O fugitivo continuou parado, respirando vagarosamente para a criatura não encontrá-


lo. Ele estava agachado dentro de um pequeno buraco que encontrou, bem ao centro do
terreno, em uma parte que a vegetação era bem alta. A criatura movia-se rápido e
sorrateiramente. A brisa gélida movia o matagal continuamente e nada além de grilos era
ouvido.

“O que será aquele monstro? O que ele quer? O que são aqueles olhos vermelhos...
Olhos...” ─ Sua mente clareou e a resposta veio junto com duas bolinhas vermelhas a sua
frente, por dentre a mata.

Um suave som que acompanhava o vento quase não foi percebido. A criatura estava a
meio metro de distância de Andrew e o fitava, sacando vagarosamente sua lâmina da bainha.
Rapidamente, ela desferiu um golpe de saque e corte horizontal. O perseguido notou algo
estranho e saltou para trás.

A lâmina abriu um buraco em meio ao mato alto, num raio de aproximadamente um


metro e meio, não acertando Andrew por pouco. O caçador se recompôs e começou uma
sequência de golpes diagonais. O jovem desviava, enquanto tentava levantar e encontrar uma
maneira de parar o frenético ataque:

─ O que você quer? Ao menos me diga o que você quer? ─ Ele gritava, porém em vão.

Por onde eles passavam, deixavam um caminho em meio à vegetação e atravessavam


o terreno. Andrew espantava-se com os urros da criatura, ela estava totalmente
inconsequente. Ele foi ferido de leve no peito, do lado direito, e no antebraço esquerdo, até
chegarem ao fim do sítio. Estava encurralado contra a parede.

O jovem esperou uma reação do indivíduo que, por sua vez, tentou estocar a lâmina
pela sua barriga. Ele desviou para a esquerda e a lâmina encravou, até a metade, no muro do
terreno. Aproveitando a oportunidade, o fugitivo acertou um violento soco na face da criatura,
que soltou um grito agudo enquanto caía no chão. Ele montou por cima dela e desferiu mais
dois socos na sua face. O ser estava atordoado e não teve forças para evitar os golpes:

─ Quem é você? Diz logo quem é você e o que você quer comigo! ─ Andrew segurava
firme e sacudia a criatura para tentar arrancar algo dela.

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O capuz do monstro saiu e revelou sua face: pele acinzentada e grossa, com feições humanas,
mas orelhas pontiagudas e olhos vermelhos:

─ Um elfo-negro? Por isso que me localizava com facilidade. Escuta aqui, é melhor você
me responder alguma coisa se…

Andrew ia continuar, mas foi interrompido quando a criatura o jogou para frente e
levantou.

Elfos-negros são hábeis e perigosos, porém não são descuidados ao ponto de rondar
na superfície. Fazem parte das raças banidas e são reais devotos da lua. Um de seus principais
dons concedidos pela deusa é a infra visão, habilidade de enxergar o calor dos corpos.

O elfo-negro correu para retirar sua espada da parede. O jovem aproveitou e escalou uma
árvore rente ao muro, pulando logo em seguida para a rua e correndo para a avenida principal.
Ele dobrou a esquina e a próxima pista era a avenida. Ao olhar para trás, viu a criatura lhe
seguindo. Agora, via-se nitidamente que se tratava de um elfo-negro, mas mesmo assim
Andrew não sabia o motivo de estar sendo seguido. O elfo-negro corria como um ninja e com
sua espada longa japonesa, chamada tatchi, empunhada. Ele ainda possuía alguns objetos
brilhantes na cintura o qual Andrew ainda não identificou.

Ao longe, na avenida, vinha uma velha Chevrolet C10 azul, uma caminhonete de
caçamba aberta, com um compensado substituindo o vidro traseiro. Dentro dela, um
motorista bêbado ouvia música alta.

**********

Jéssica ainda estava estática, em frente à grande janela escurecida de sua sala. Com um
simples toque, o vidro clareou e pôde-se observar todo o complexo. Quem passava em frente
a sua nada via, pois continuava obscuro pelo lado externo. Ela não se satisfez em espreitar dali
e saiu da sala, apoiando-se no resguardo de ferro maciço que protegia da queda ao segundo
andar.

A bela moça estava parada, sucumbida. Nem a estranha notícia de uma nova ossada
encontrada pelos humanos que passava no telão chamou sua atenção. Parecia catatônica,

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vendo todos trabalhando nos cômodos abaixo. Ela recobrou a consciência com um suave bipe
em seu ouvido. O comunicador estava tocando:

─ Jéssica! Corre aqui agora. Tá acontecendo de novo. ─ Declarou Pedro Henrique,


agitado.

Ela olhou para a sala dos líderes e viu Pedro Henrique chamando-a. Ao chegar no local,
percebeu que os líderes estavam eufóricos:

─ Olha o que está acontecendo agora! ─ Disse Pedro.

Todas as telas desta sala e algumas da sala abaixo exibiam Andrew correndo pela rua:

─ É mais um ataque, mas esse cara está fugindo. Espero que este consiga… ─ Exprimiu
Sandra enquanto lixava suas unhas por estar nervosa.

Jéssica observava calada enquanto Andrew fugia. A cena lhe deixava arrepiada:

─ Quer que eu tente mandar uma equipe? – Perguntou Pedro à sua chefe.

─ Onde está acontecendo isso?

─ Em mesquita. É um pouco distante. ─ Respondeu Pedro, decepcionado.

─ É muito distante. ─ Enfa zou Jéssica. ─ Até chegarem ao local o ninja já cumpriu sua
função. Só podemos sentar e esperar. ─ Ela lamentou.

Todos estavam focados em Andrew escapando da criatura, exceto Marcelo. Ele levantou
dizendo:

─ Ok, eu… Vou buscar um chocola nho e um suco para minha chefe.

─ Não quero nada não Marcelo, obrigada.

─ Epa! Tá bom. Só queria te relaxar. Então, vou buscar um chocolate só para mim. ─ E
saiu.

A falta de esperança consumia o corpo de Jéssica, mas mesmo assim não deixava de
estar focada na perseguição. De alguma forma, ela sentia algo diferente desta vez:

”Será que Deus ouviu minhas orações?”.

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**********

Andrew corria pela avenida deserta, enquanto o elfo-negro chegava cada vez mais
perto. Eles passavam perto de uma praça, abandonada pelos governantes da cidade, à
esquerda e à direita muros de várias formas das residências humanas. Corriam no mesmo
sentido e direção da caminhonete enferrujada, que vinha logo atrás. Quando a caminhonete
passou por eles, Andrew saltou e agarrou-se na caçamba. Ele ainda estava passando para o
lado interno quando algo acertou suas costas. A dor era intensa, mas apertava os dentes para
não agonizar. Ele se jogou de bruços, dentro da caçamba vazia, ainda gemendo de dor. Depois,
levantou-se devagar para olhar se o elfo-negro ainda o seguia e ele estava lá: já havia
guardado a espada e corria pela rua, atrás da caminhonete.

O motorista estava muito alcoolizado e ainda tomava o último gole da latinha de cerveja.
Ele não via nada do que acontecia atrás da caminhonete:

─ Vai novinha... Vai novinha... ─ Ele cantava uma música de funk que tocava em seu
rádio.

A criatura levou rapidamente a mão esquerda até a cintura e arremessou um último


objeto brilhante. Andrew abaixou e o objeto acertou a cabine principal da caminhonete,
fincando no compensado. Os vários objetos arremessados finalmente foram identificados pelo
jovem. Uma hira shuriken, um tipo de shuriken com quatro pontas. Presumiu que fosse uma
daquelas que estava encravada em suas costas. Ele pôs-se de pé na caminhonete e equilibrou-
se cuidadosamente, pois a rua era irregular e o motorista, imprudente:

─ Isso tem que acabar. Isso tem que acabar aqui e agora. ─ Sussurrava Andrew.

Somente eles cruzavam a pista mal iluminada e mesmo nas calçadas, não havia
ninguém.

O fugitivo esperava o momento certo para dar o ponto final na perseguição. A criatura
corria freneticamente, ora distanciando, ora aproximando, mas sempre com certa distância,
segura para Andrew. De repente, o motorista avistou o que para ele era a primeira lombada da
noite e começou a reduzir a velocidade:

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─ É o meu momento. ─ Sussurrou novamente e, em seguida, disse em voz alta. ─ Não sei
o que você quer, mas sei que se eu fosse você não se meteria comigo. ─ Ele sorriu malicioso ao
fim da frase, abriu os braços horizontalmente e fechou os olhos.

A caminhonete encostou para a direita da pista, ficando próxima à calçada e ao muro de


uma casa, enquanto reduzia a velocidade para passar pela lombada. O elfo-negro viu a sua
oportunidade de acabar o serviço e acelerou, pulando na parede da casa e impulsionando-se
ainda mais alto, na direção de Andrew. Enquanto estava no ar, ele sacou sua espada e
levantou-a acima da cabeça, pelo lado esquerdo, segurando-a com as duas mãos para aplicar
um golpe fatal.

Andrew estava de olhos fechados e canalizava algum tipo de energia em suas mãos ao
mesmo tempo em que a criatura executava suas manobras antes de atacar. Suas mãos
começavam a ficar avermelhadas e uma leve fumaça saía delas. A música do automóvel
acabou no momento do ataque. A criatura estava no alto, pronta para descer com tudo e o
jovem concentrava-se. Ele abriu os olhos e viu o elfo-negro em sua frente, totalmente
desprotegido, com o corpo inclinado para trás. Ao soltar um grito encorajador, rapidamente
juntou as mãos, mirando no peito da criatura. De repente, das mãos de Andrew, saiu uma
poderosa bola de fogo que atingiu em cheio o elfo-negro. Em meio à seus urros de bravura,
surgiu outro agudo e embolado, de dor e sofrimento, vindo da criatura.

A bola de fogo queimou instantaneamente a vestimenta e queimava a pele do ninja. Ele


foi impulsionado para trás com tanta força que bateu violentamente contra o muro da casa e
capotou várias vezes pela rua até parar de bruços, com algumas partes da roupa ainda
queimando. Ele se debatia e gemia alto de dor.

O motorista ouviu tudo e comentou:

─ Caraca... Comprar cd pirata estraga o som mesmo. ─ E ba a com o dedo indicador no


painel do rádio. ─ Que barulheira pra trocar de música! He he! ─ Ele sorria, sem mo vo.

O condutor acelerou, a música voltou a tocar e Andrew, satisfeito, simulou uma arma de
fogo com os dedos e levou próximo de sua boca, pronunciando:

─ Esse eu vou chamar de churrasquinho élfico! ─ Ele sorriu e assoprou a ponta do dedo
que ainda saía fumaça.

A criatura via Andrew partindo, mas não tinha forças nem para levantar-se. A caçada
acabou.

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**********

Como em uma epidemia, todos os monitores das equipes envolvidas no caso


expandiam em tela cheia a súbita perseguição. A cada câmera que trocavam, a cena era mais
emocionante. Depois de todo esse tempo, Jéssica recuperou parte da sua esperança e torcia
para o fugitivo sobreviver. Por um momento, pode-se ver a criatura saltando para o veículo,
mas a próxima câmera não mostrou o que queriam:

─ Não, não, não! ─ Reclamava Pedro. ─ A câmera mais próxima deles está cerca de 5
minutos à frente!

─ E as imagens via satélite? ─ Perguntou Jéssica.

─ Fora do ar desde ontem! Não adianta, perdemos eles. Vamos ter que esperar. ─ Disse
Pedro, passando as mãos pelo rosto.

─ Ah, não acredito nisso. Tanta emoção pra não saber a conclusão. ─ Sandra es cava a
coluna na cadeira.

Jéssica ainda olhava para o monitor, fria e sem emoção. Ela queria ver o momento exato
em que a caminhonete passaria por ali, não queria perder nenhum segundo sequer:

“Não depositei minhas esperanças em vão. Eu sei disso, não dessa vez.”.

Marcelo aproximou-se, bebendo o achocolatado, e falou:

─ Calma Jéssica. Não foi dessa vez, mas na próxima você consegue. É só uma questão de
tempo.

─ Não Marcelo. ─ Ela respondeu brava. ─ Não é uma questão de tempo. Nunca foi uma
questão de tempo. É uma questão de morte. Da minha morte! Então, vê se a partir de agora
me deixa mais em paz e me ajuda a resolver essa situação. Tá bom?

Marcelo ficou sem reação, parado ao centro da sala. Incomodar Jéssica é o que ele mais
evitava fazer, porém, por outro lado, é o que faz regularmente sem perceber. Ele sabia que sua
situação era séria, mas não sabia que a vida dela corria tanto risco. Ao abrir a boca para se
desculpar, Sandra o interrompeu:

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─ Não querendo atrapalhar nada, mas recebi alguns dados. ─ Dizia ela. ─ O elfo-negro é o
mesmo que assassinou aquela família em campo grande, há cinco dias, e o garoto se chamava
Andrew da Silva Moura, ainda não registrado no banco de dados. Não temos conhecimento de
suas habilidades ou raça. Ele morava…

─ Ele morava não, ele mora! Está vivo! Ele tá vivo gente! ─ Pedro Saltou da cadeira,
sorridente, apontando para o monitor.

Andrew estava sentado, dentro da caçamba da caminhonete, enquanto passava pelo


lugar. A euforia era tamanha que todos comemoravam em suas salas. Parecia o centro de uma
torcida organizada quando seu time fazia o gol da vitória.

Jéssica não acreditava: era o primeiro sobrevivente desde o início de tudo. Estava muito
feliz, mas demonstrava seriedade:

─ O que faremos agora? ─ Perguntou Pedro à Jéssica.

─ Bem, quero que vocês ajudem a Sandra com as informações desse sobrevivente.
Quero nomes, endereço, cópia de documentos, últimos lugares frequentados, tudo que
puderem conseguir da vida dele. Quero o relatório na minha mesa e estão dispensados por
hoje.

─ Ok! Tudo bem. ─ Eles responderam de pron dão.

─ Agora, vou resolver algo muito importante. ─ Jéssica sussurrou para si. ─ Até amanhã
para vocês. ─ E saiu sem olhar para trás.

─ Ela com certeza vai tentar trazer esse cara pra cá. ─ Afirmou Pedro, depois de alguns
minutos.

─ E você acha que o Diego vai concordar com isso? ─ Indagou Marcelo, sem esperanças.

─ Torcemos a favor do impossível. Vai que, ele se sensibilize com essa história dela. ─
Falava Sandra enquanto retocava o batom de seus lábios, com um espelho de bolso. ─ Ai ai.
Espero que isso alivie pouco a mente dessa garota. Ela anda muito estressada!

─ Espero que Diego esteja de bom humor. Isso sim que devemos esperar. ─ Comentou
Pedro, ajeitando os óculos.

Os líderes foram pesquisar as informações que Jéssica precisava. Cada um estava ali por
possuir habilidades importantes para a organização.

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Sandra era especialista em busca de dados. Conseguia qualquer coisa que procurasse.
Era muito habilidosa com invasões anônimas de sistemas e desfrutava das melhores
ferramentas naquele recinto.

Pedro Henrique era o responsável pelos sistemas de monitoramento. Tinha como


principal função vasculhar cada câmera, cada imagem ou vídeo enviado por satélites e verificar
a possibilidade de algo suspeito. Nada podia escapar, pois praticamente todo o setor dependia
desta etapa.

Marcelo era como um faz tudo. Não tinha habilidades tão específicas e conhecia um
pouco de cada área. O único dom que ele acreditava ter era desprezado por todos os líderes e
chefes, pois ele era um simples humano para tais poderes. Marcelo acreditava prever o futuro
com base em acontecimentos do momento. Suas teorias comumente eram loucas e
desprezadas, entretanto algumas faziam completo sentido.

Eles não eram os únicos líderes responsáveis por essas tarefas e cada um possuía um
superior nessa área. A sala destes superiores encontrava-se neste mesmo andar, nas salas
privadas. Nem todas eram cômodos dos líderes superiores, mas a maioria era.

Sandra vasculhava dados pela internet e estava eufórica, pois finalmente julgava que
algo estava dando certo. Os outros dois, mostravam-se mais sérios e concentrados em acabar
logo com o relatório.

Marcelo ainda refletia o ocorrido entre ele e Jéssica, mas estava conformado com a
atitude dela.

“Acho que não dei valor suficiente para o problema dela. Que burrada que eu fiz…”.

**********

Andrew sentia dores nos cortes e outra dor incessante em suas costas. Ele tentava
remover a shuriken, mas não a alcançava. Cada movimento de seus braços produzia uma dor
aguda em suas costas. Buracos na pista e um motorista embriagado também não colaboravam
com seu estado atual:

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“Ah! Não aguento mais esse treco nas minhas costas. Que elfo louco. Por que aquele cara
estava me atacando tão descontrolado? Pô, eu acho que não tenho inimigos a esse extremo!
Era um elfo-negro, será que alguém sabe que não sou humano e resolveu me matar? Será que
foi um mal entendido que gerou outro mal entendido? Não... impossível...Isso está me
deixando maluco!”.

Seus pensamentos o acompanharam até o centro de mesquita, onde ele saltou da


caminhonete. O lugar tinha prédios comerciais, residenciais, diversas lojas, bares e
lanchonetes. As ruas eram suficientemente largas para passagem de um ônibus e a sinalização
era pouco eficaz. Naquela hora, bares e lanchonetes encontravam-se abertos e alguns clientes
aproveitavam a brisa suave que circulava. Duas praças eram divididas por uma linha férrea e
ligadas por uma passarela larga, de corrimão azul, onde encontrava-se a entrada para a
estação. Um viaduto estreito de duplo sentido fazia a travessia dos automóveis:

“Tenho que achar logo um lugar para me ajeitar. Desse jeito, logo logo vão pensar que
algo está errado e eu não quero ter maiores problemas…”. ─ Ele caminhava sem direção
enquanto pensava.

O jovem pensou em um lugar que provavelmente seria sua melhor escolha: o motel
Bem estar. O local funcionava desde a década de 80 e quase não possuía frequentadores.
Ficava posicionado em uma rua paralela, a esquerda da que ele estava. Era um conjunto de
quartos mal acabados, alguns com garagem e outros desativados, em que se cobrava barato
pela estadia e sem necessidade de cadastramento. O muro, recém-pintado de azul claro com o
nome do motel em preto, disfarçava o que realmente ele era por dentro.

Andrew chegou a um cruzamento entre cinco ruas, onde o motel ficava na segunda
rua da sua esquerda. Do outro lado do cruzamento, uma dupla de guardas municipais também
chegava ao mesmo lugar. Os uniformes eram marrons com cinza e o emblema da prefeitura
estava estampado na parte traseira da camisa de manga curta. Estavam armados apenas com
cassetetes, porém alguns moradores já viram guardas municipais com armas de fogo. Os dois
eram musculosos e altos:

─ Sabe Rodrigo, mesmo depois de todos esses anos eu ainda acho que trabalho demais
e ganho pouco. Essa vida de guardinha e os bicos como segurança de boate não estão
rendendo tanto quanto eu pensava. Fora que, somos contratados né! Se isso ainda fosse um
emprego fixo. ─ Dizia um dos guardas.

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─ É cara. Não adianta. É o que meu pai sempre dizia: tem que estudar para ser alguém
na vida. O problema é que eu não nasci para estudar sabe. Mas eu me contento com o que
ganho aqui.

Eles caminhavam tranquilamente e despercebidos, mas Andrew temia ser visto. Sua
roupa estava ensanguentada e a shuriken ficaria aparente devido à luz do poste que estava
localizado bem abaixo do cruzamento com a rua de seu destino. O jovem previu o risco de uma
nova perseguição e, rapidamente, desviou sua rota pela primeira rua, à esquerda. Sua atitude
foi suspeita e o leve brilho da shuriken refletiu nos olhos de Rodrigo:

─ I a lá. Olha aquele cara ali. O que você acha Marcão? Sozinho, está mancando pra
direita e entrou na rua dos becos. Deve estar com dinheiro! Vamos lá arrancar uns trocados
desse otário.

─ Pô, acho melhor agente seguir de longe, tá ligado? Num se sabe qual é a do cara. ─
Disse Marcos, reduzindo a velocidade dos passos.

A rua era escura, pois os postes de iluminação eram afastados um do outro. Era feita
com paralelepípedos desregulares e muito conhecida como rua dos becos, devido ao alto
índice de uso e venda de drogas nos dois becos entre ela e a rua do motel.

Andrew caminhava mais rápido mesmo sentindo dores nos ferimentos. Em um


momento de curiosidade, olhou para trás, disfarçadamente, e conseguiu observar os dois
guardas o seguindo ao longe. Sua reação instantânea foi acelerar o máximo possível sem
precisar correr, mas mesmo assim os guardas perceberam sua reação:

─ Ei! Você aí! ─ Gritou Rodrigo. ─ Fique parado onde está! ─ E começaram a correr.

Andrew não obedeceu a ordem e manteve o ritmo, como se não fosse com ele,
entrando no primeiro beco à sua vista. Era um caminho de terra com um portão enferrujado e
despedaçado ao fim. As casas ficavam coladas uma nas outras e emaranhados de cabos e fios
circundavam os pequenos postes do beco.

“E agora, o que eu faço… Eu preciso despistar eles…” ─ Ele estava sem ideias.

Como um raio de sol em um dia frio, uma voz de um senhor de idade, meio roca, vinha
de um portão aberto próximo ao fim do beco:

─ Ei jovem! Venha cá. Entra aqui, eu te ajudo.

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Andrew procurou o local e entrou sem hesitar. Sua mente confusa com tudo que já
havia acontecido interrompeu seu senso lógico do que é bondade ou não. Ao entrar pelo
portão do quintal, o morador fechou-o e direcionou o fugitivo para dentro da casa. Os dois
fizeram silêncio e ouviram os guardas passarem direto, depois de algum tempo. Andrew
parecia longe e, quando recobrou a consciência, percebeu que aceitou uma atitude suspeita
de um estranho:

─ Obrigado senhor, você não sabe como me ajudou, mas eu estava indo pro Bem estar
e não vou te incomodar mais.

A casa estava escura e o cômodo vazio. O leve raio de luz que penetrava pela janela
descortinada revelava um senhor de altura mediana, com cabelos grisalhos, olhos fixos em
Andrew e um sorriso tenebroso:

─ Você não vai me incomodar, jovem. Vocês sempre incomodaram a vizinhança, mas eu não
gosto mais de ser incomodado. Hum! Que odor interessante. ─ Falava o senhor,
pausadamente, enquanto farejava o ar. ─ Parece sangue e suor!

─ Olha senhor, acho que você está me confundindo. Eu não sou daqui, só estou de
passagem. ─ Andrew distanciou-se até encostar-se à parede.

─ Sempre dizem isto. Fogem da polícia e dizem que são inocentes. Eu te avistei de cima
da minha casa, eu vi como andava, fugindo. Você vai ser um belo jantar, como todos os outros.
─ Sua voz alterou-se e ficou muito grave.

O senhor começou a sofrer deformações pelo corpo. A escuridão deixava tudo ainda
pior. Andrew não sabia o que fazer, colocou-se em um perigo ainda maior. Sua única opção era
combater o que antes parecia um senhor solidário e agora, quase atingia o teto:

─ Tudo bem, já sei que não é humano, mas eu não tenho medo de você, porque
também não sou. Seu idiota! ─ Ele estava sério e incendiou as mãos.

No exato momento em que o monstro percebeu a origem do fogo, ele mudou


totalmente de atitude:

─ Não! Não! Não! ─ Gritava e se jogava contra a parede. ─ Como sou burro! Não! Você
não é humano! Não!... ─ Seu tamanho voltava ao normal.

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─ Mais o que está acontecendo hoje comigo! Já passou do ponto de azar. Só posso
estar deitado, na minha casa, e dormindo no sofá, o dia todo! ─ Sussurrou Andrew,
totalmente confuso e com sua sobrancelha erguida.

O senhor acendeu a luz do cômodo e se revelou uma pessoa comum, aparentando ter
por volta da meia idade. Sua pele era morena e cabeluda. Suas roupas estavam rasgadas,
porém a parte que cobria suas genitais ainda era preservada, um pedaço de jeans:

─ Desculpe, desculpe mesmo a criatura dentro de mim. Não sabia que você era um de
nós.

Até aquele momento, o jovem não havia relacionado o que o senhor dizia com o que
ele já conhecia:

─ Espera aí? Você não me atacou por causa da licantropia? É isso mesmo? ─ Perguntou
Andrew, ainda receoso.

─ Sim, é isso. Me desculpa, eu não consegui enxergar você por causa do meu ódio
pelos traficantes aqui da área. Eles já estavam aprontando com os vizinhos, então eu dei um
jeito neles. Peço desculpas novamente.

─ Tudo bem. Tá desculpado, se isso irá fazer você parar de pedir desculpas. ─ Andrew
sorriu. Já aparentava estar acomodado.

─ Você está muito ferido, andou tendo problemas por aí?

─ Bem, na verdade, eu acho que o problema de alguém me encontrou e todo


problema do mundo resolveu descontar sua raiva em mim nesta noite! ─ E ges culava para
expressar seu sentimento.

Andrew já estava relaxado ao descobrir que era licantropia. Em seus estudos e


treinamentos, havia aprendido sobre o código de honra dos licantropos, a raça protetora das
raças. Não havia nenhum perigo, mesmo sendo um desconhecido. São tão leais ao seu código
ancestral que aguentariam muita coisa antes de uma reação contra um não humano.

Na conversa entre eles, o senhor revelou ser de licantropia do tipo lagarto e que vivia
solitário. Além disso, era um bem feitor e não colocava humanos como principal cardápio, mas
detestava os desordeiros.

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Andrew estava sentado no empoeirado chão do cômodo e o homem, encostado na
parede a sua frente. Em alguns pontos da parede esverdeada, podia ser visto respingos de
sangue mal limpos. Era notável que o cômodo servia de abatedouro para o homem lagarto.
Sua verdadeira casa ficava nos fundos do terreno:

─ Esse objeto aqui foi bem jogado, tem metade dele dentro de você. Se retirar isso
pode ser que você sangre até a morte. ─ Dizia o senhor.

─ Não se preocupe com o sangramento. Só preciso que me ajude a tirar isso daí. Tá me
incomodando demais e não alcanço essa coisa.

─ Então se prepara que eu vou puxar. ─ O senhor se preparava para arrancar a shuriken
com um alicate que havia buscado em sua casa. ─ No três. Um. Dois. Três!

Andrew segurou ao máximo, porém era uma dor que nenhum treinamento que já
fizera poderia lhe ajudar. O calor das fugas e do combate já havia cessado e foi inevitável sua
agonia. Ele controlava a respiração, muito ofegante, mas soltava grunhidos em meio a
baforadas. Seu sangue escorria denso por dentro de sua camisa e o senhor já se preocupava
com o tempo passado e nada sendo feito para estancar o sangue:

─ Vamos meu jovem. Faça logo alguma coisa ou isso vai te matar.

Andrew respirou mais alguns segundos e finalmente levantou-se. Ele rasgou a camisa e
deixou-a de lado. De olhos fechados, ele apertava suas mãos, com os braços em vertical.
Valorizava demais essa sua nova técnica de controle do corpo. Em alguns minutos, todos os
seus ferimentos começaram a emanar um brilho avermelhado e ondas de calor. Por dentro,
era como se o próprio magma circulasse por suas veias. O homem lagarto ficava
impressionado ao ver, em todos os cortes e perfurações do corpo daquele homem, uma fina
camada transparente de algo desconhecido, que estancava o sangramento. Ao fim do
processo, os ferimentos ainda estavam abertos, porém estancados:

─ Pronto. Não preciso mais me preocupar com sangramentos e infecções. Estão


todos limpos. ─ Ele estava ofegante e suado.

─ Sabe jovem, não sei como você deixou aquele elfo-negro criar esse estrago todo em
você. Você aparenta ser muito mais poderoso do que demonstra. ─ Comentou o senhor,
enquanto direcionava o rapaz até sua casa.

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Andrew apenas sorriu. Ele não precisava relatar todo o seu passado e tudo que sabia
ao amigo novo. Em um momento difícil da sua vida, ele aprendeu a não gastar toda sua
energia com suas habilidades, pois seria muito perigoso em um momento de descontrole
emocional. Até o momento, ele não acreditava ser capaz de controlar todo poder que tem
guardado. Por esse motivo, ainda treinava sempre que possível.

A casa do homem lagarto expunha os tijolos da construção no interior e na parte


externa. O cômodo da sala em que Andrew fora direcionado nem possuía janelas, somente a
porta por onde entrou, que era feita de metal com desenhos estrelares pelo meio, e uma
abertura feita com vidro canelado, onde o homem lagarto mantinha aberto para arejar. O
pequeno cômodo estava lotado somente com um velho sofá desbotado verde e uma estante
larga de madeira. A iluminação era feita com uma lâmpada incandescente, pendurada pelos
fios. O chão era cimentado e todo irregular:

─ Só não repare o luxo em que vivo, não fui feito para a vidinha humana. ─ Disse o
senhor, exibindo o local.

─ Ih! Não esquenta. Lá em casa é assim também. ─ Andrew tentava ser simpá co.

─ Então é isso. Se precisar de qualquer coisa, a cozinha é seguindo aqui reto e eu


durmo nesse quarto aqui. Se quiser ficar, pode descansar no sofá e vigiar a casa para mim.

─ Vigiar a casa? Por quê?

─ Eu costumo sair à noite para caçar, e hoje é dia de caça. Pode ficar a vontade aí.

─ Bom, obrigado. Não sei nem como te agradecer. Valeu por me ajudar.

─ Que nada jovem, você faria mesmo por mim. Agora vá descansar, eu preciso sair.

─ Tudo bem.

O senhor saiu do cômodo para o quintal e começou a sofrer deformações. Sua cabeça
adotava a forma da de um crocodilo, suas mãos viraram patas enormes, com unhas afiadas, e
uma cauda grossa e grande rasgou o que restava de sua calça jeans. Sua pele transformou-se
em uma rígida carapaça que não aparentava possuir ponto fraco. Ele se transformou num
grande lagarto bípede, licantropia do tipo lagarto. O homem lagarto olhou para Andrew e
soltou um grunhido antes de sair, escalando sua casa, rapidamente.

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Andrew conhecia a licantropia, mas nunca havia presenciado a mutação e achou tudo
extraordinário. Sua realidade novamente aflorou e ele sentou-se no sofá, examinando a
shuriken ao seu lado. Ele a pegou e limpou em sua calça, tentando analisar os mínimos
detalhes dela. Era uma shuriken comum de quatro pontas afiadas, um kanji em uma das
pontas e uma escrita em inglês, rodeando o centro, que dizia: “made in Japan”. Nenhuma
pista. Ele erguia a sobrancelha direita e refletia na loucura que fora sua noite. Em meio aos
pensamentos, foi ajeitando-se no sofá e adormeceu em minutos, mergulhado em suas
lembranças.

**********

─ Boa noite Jéssica. ─ Disse uma voz grave.

─ Boa noite. ─ Ela respondeu.

A sala possuía dois grandes armários acinzentados em um dos cantos, algumas plantas e
quadros decorativos, uma mesa com alguns papéis, dois aparelhos eletrônicos, parecidos com
notebooks transparentes, e um sofá branco e confortável, além de duas cadeiras acolchoadas
e feitas em madeira pura. As paredes também eram brancas, o chão era forrado com um lindo
e macio carpete azul e luminárias davam o toque especial de luxuosidade ao cômodo.

─ Sente-se. ─ Disse a voz, apontando para a cadeira.

Quem falava era Diego, atual presidente da empresa. Usava um terno preto e uma
gravata vermelha. Seu rosto possuía traços experientes, de alguém sofrido, pele clara e olhos
castanhos escuros. Sua barba era feita aos mínimos detalhes e seu cabelo era grisalho e curto,
penteado para trás:

─ Em que posso te ajudar? Já não é tarde?

─ Sim senhor, eu sei, mas é uma emergência. Minha equipe estava monitorando as ruas
e identificamos uma perseguição causada por um ninja. Dessa vez…

─ Jéssica? ─ Interrompeu Diego. ─ Já não lhe disse para esquecer isso? Você está segura
aqui dentro.

─ Eu sei senhor, mas dessa vez…

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─ Jéssica. ─ Disse Diego, agora mais sério. ─ Tudo bem se você quer continuar o caso,
mas então, vou passar para outra pessoa. Você não tem mais condições de continuar com isso.

─ Senhor, desculpe, mas… ─ Jéssica pausou sua trêmula voz. Uma lágrima escorria pelo
seu rosto. ─ Mas o senhor sabe do que aconteceu e eu não vou parar até conseguir resolver
meu problema. Eu sei que aquilo não foi um aviso para eu deixar tudo de lado, foi uma
ameaça. Eu não quero que outra pessoa assuma a responsabilidade da minha vida, eu sou
capaz disso e vou descobrir o que está acontecendo! Eu só vim aqui te pedir uma única coisa,
nada a mais.

─ Calma. Tá bom? Tudo bem se você quiser continuar. Eu entendo o peso que está sobre
você. Só estou te dando uma opinião, uma opção que surgiu na minha cabeça. Pode continuar:
o que você quer? ─ E direcionou a fala para ela.

Jéssica suspirou e tornou a falar:

─ Dessa vez é diferente senhor, há um sobrevivente. É sobre isso que vim conversar.

─ Um sobrevivente? Interessante. Con nue. ─ Diego entrelaçou os dedos e apoiou os


cotovelos em sua mesa.

─ Isso mesmo, o nome dele é Andrew da Silva Moura. Foi visto na região de mesquita,
região metropolitana do estado. Não sabemos como ele sobreviveu, pois foi longe do olhar das
câmeras, mas sabemos que ele está vivo e isso nunca aconteceu antes.

─ Hum…Entendi… O que você pretende fazer?

─ Eu sei que não é permitido, mas com sua permissão pode-se realizar. Quero trazê-lo
aqui para me ajudar.

Diego exaltou-se novamente:

─ Você está louca? Violar outra norma da empresa? Você já tem três líderes nessa
operação contra a vontade dos seus superiores e agora mais essa?

─ Eu sei senhor, mas novamente peço sua permissão. Essa é a minha única esperança. Já
não tenho mais nada para acreditar além desse sobrevivente.

Jéssica abaixou a cabeça, não aguentava mais, seu cérebro parecia explodir.

Diego coçou a cabeça e refletiu por um momento:

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─ Olha Jéssica, você é uma moça linda e está se desgastando muito com toda essa
preocupação. Eu vou permitir, mas espero que seja a sua última violação. ─ Ela sorriu
enquanto ele falava. ─ Mas ainda não descarto a possibilidade de passar esse caso há outra
pessoa que esteja em condições melhores que a sua. Se quiser, é só me informar e farei.

Ela ouvia o que Diego dizia e planejava seu próximo passo:

─ E saiba de uma coisa. Eu faço isso pelo seu pai. Ele era um grande amigo meu e não
vou desapontar sua filha. Mas é por ele, não por você. Que isso seja claro. Entendido?

─ Sim senhor. ─ Ela respondeu enquanto enxugava as lágrimas.

─ Está dispensada. Vai descansar.

─ Senhor. ─ Ela falava já da porta da sala.

─ Sim?

─ Obrigada. Não vou te desapontar. ─ E saiu.

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Capítulo 2 – História de vida

Nome: Andrew da Silva Moura

Data de Nascimento: 08 de Maio de 1991

Nome do pai: José Luiz Moura

Nome da Mãe: Andréia Soares da Silva

Mil novecentos e noventa e um, ano de maior felicidade para meus pais. Naquele ano,
com certeza eles tinham diversos planos para realizar e conseguiram. Casaram em março e, ao
que me lembro de algumas fotos, foi tudo espetacular! Minha mãe já estava grávida há sete
meses e mal podia esperar para eu nascer.

Quando nasci, em maio, minha mãe abandonou o emprego de advogada para me dar
mais atenção e meu pai concluiu sua graduação em engenharia civil. Estavam indo muito bem,
mas não sabiam que comigo, vinha a escuridão. Cresci como uma criança normal até meus
sete anos. Foi quando tudo aconteceu.

08 de Maio de 1998

Era meu aniversário de sete anos. Eu só pensava em brinquedos e diversão, não sabia
como a vida era difícil. Morávamos em Jacarepaguá, zona oeste do Rio de Janeiro, em um
prédio de doze andares. Nosso apartamento ficava no sexto andar.

Meu pai não foi trabalhar e, naquela sexta-feira, passeamos por todo o Rio de janeiro:
Levamos a minha mãe no salão de beleza, fomos para a praia de Copacabana, visitamos a
quinta da boa vista que fica em São Cristóvão, e outros lugares. Para mim, aquele dia estava
perfeito. Ganhei muitos bonecos e carrinhos.

Já era tarde quando me deitei para dormir, mas sons de gritos na cozinha me
despertaram. Fui até lá e me deparei com meu pai discutindo seriamente com minha mãe. Os

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dois quase se agrediam e só me viram espionando depois de muito tempo. Corri para meu
quarto e tranquei a porta. Não conseguia controlar meu choro e não sei ao certo qual foi meu
sentimento naquele momento. Hoje em dia, acredito que meus pais iam se separar, mas, para
uma criança de sete anos, uma discussão em sua presença é dolorosa. Meus pais gritavam e
socavam a porta, mas eu estava descontrolado. Quando abri os olhos, o meu quarto inteiro
pegava fogo. Justo naquele momento, meu elemento despertou.

09 de Maio de 1998 – Sábado

Noticiário da manhã

“Ontem à noite, um incêndio espontâneo consumiu um prédio inteiro em Jacarepaguá.


Diversos carros do corpo de bombeiros foram enviados, mas não conseguiram conter as
chamas (...). O único sobrevivente, dentre todas as 24 famílias moradoras do prédio, foi um
garoto de aproximadamente sete anos. Ele foi encontrado desacordado, hoje pela manhã, no
sexto andar, com queimaduras leves. O garoto foi levado para o hospital (...).”

Quando acordei, o meu mundo estava destruído e todos os meus sonhos, perdidos.
Ainda podia ouvir meus pais gritando o meu nome e socando a porta do quarto enquanto tudo
pegava fogo. É a pior de todas as lembranças que possuo.

Recebi alta do hospital em 15 dias e fui morar com um tio paterno. Ele era diferente do
resto da família. Adorava esportes de luta, técnicas orientais e ocidentais, acrobacias. Seu
nome era Carlos, professor de artes marciais.

Ele foi o primeiro a importar-se comigo após o acidente e me isolou do resto da família.
Acho que não foi difícil para ele fazer algo assim, pois todos achavam que eu era amaldiçoado
ou coisa parecida, por ter ficado vivo depois da intensidade do incêndio, e ninguém me queria
por perto. Mesmo com a perda dos familiares e eu como único herdeiro, ninguém me deu
atenção, apenas o meu tio.

Carlos tinha altura mediana, cabelos e barba grisalhos, moreno e com musculatura
pouco definida. Seus dentes eram amarelados de tanto fumar e seus olhos castanhos escuros.

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Fui morar com ele na baixada fluminense, em Belford Roxo. Estudei, cresci e fui
aprendendo as diversas técnicas que meu tio me ensinava como caratê, Judô, Muay thai e
outras. Com tudo que eu aprendi, até criei o meu próprio estilo. De certa forma, tudo aquilo
me interessava muito. Aprendi com um verdadeiro mestre que adorava ensinar. Ele soube
tampar o vazio do meu coração e suprir as necessidades familiares. Do jeito dele, ele
expressava que tinha orgulho de mim.

Aos meus quinze anos, ele me chamou para uma conversa, logo pela manhã, sentados
na mesa da cozinha. Ainda lembro até hoje todas as palavras daquele momento:

─ Sabe Andrew, já faz oito anos desde o seu acidente.

─ Pois é. O tempo corre.

─ Esta na hora de você saber uma coisa. Você nunca tentou imaginar o porquê de estar
vivo?

─ Deus? Não tem outra explicação.

─ Deus não te salvaria naquele inferno.

─ Como assim? ─ Eu estava ficando confuso com a conversa.

─ Me siga.

Fomos até os fundos da casa. Era um quintal fechado com muros altos, onde geralmente
treinávamos:

─ Vou te mostrar uma coisa. Pegue pra mim uma caixa de fósforos.

Peguei e quando voltei, ele estava ajeitando um pneu velho de carro no centro da área que
estávamos:

─ O que você vai... ─ Ia con nuar, mas ele parecia concentrado e fez sinal para eu parar
de falar.

─ Sente-se e observe. ─ Ele apontou para a cadeira ao meu lado e eu o fiz.

Meu tio acendeu um fósforo, normalmente, e depois o deixou cair no chão, mas a
chama ainda estava lá, pairando no ar. Me senti espantado e maravilhado ao mesmo tempo.
Ele começou a fazer alguns movimentos de uma técnica de luta chinesa e a chama parecia
caminhar entre seus dedos. Ao final, ele deu um giro completo no ar e impulsionou a pequena

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chama na direção do pneu de borracha. De repente, a chama virou uma enorme bola de fogo
que atingiu o pneu e empurrou-o até a parede, o fazendo arder em chamas.

Fiquei perplexo por um tempo. Que tipo de coisa sobrenatural é essa? Eu nem sabia o
que dizer. Meu tio sentou-se no chão e explicou:

─ Nós não somos humanos comuns. Somos diferentes, somos uma raça chamada de
Mestiço, um ponto de transição entre humanos e algum elemento. No caso da nossa família, o
elemento é o fogo. Uma pessoa a cada geração nasce com o poder no sangue.

Comecei a refletir no que ele me disse. Será isso possível? Nunca vi nada do tipo nos
livros de história. Mas afeição dele demostrava seriedade. Então, decidi iniciar a sessão de
perguntas:

─ Quer dizer que entre meu pai e você, você foi escolhido?

─ Exato.

─ E meu avô? Também nha isso?

─ Seu avô não era filho único, então não sei te dizer se era ele ou outro da família. Se era
ele, nunca me mostrou ou sequer tocou no assunto.

─ E você não tem filhos. Já que você não tem filhos, eu também sou único entre você e o
meu pai. Então, quer dizer que, eu também posso fazer isso? ─ Eu me animei.

─ Pelo visto, o des no já sabe que eu nunca terei um filho. É, você pode.

─ Mas como você sabe que eu posso?

─ Era nesse ponto que eu queria chegar. Você já é maduro e está na hora de saber.
Durante a infância de um mestiço, ele descobre o seu poder. Algo sobrenatural acontece
quando o poder desperta. No meu caso, eu e seu pai brincávamos com nosso coelho de
estimação e seu avô havia acendido uma fogueira para queimar documentos antigos. Eu
discuti com seu pai e, de alguma forma, trouxe as chamas da fogueira para minhas mãos. Eu
torrei o coelho e fiz queimaduras de segundo grau no meu irmão. Eu nem sequer lembro como
aconteceu, mas seu avô viu tudo e me contou. ─ Ele pausou sua fala, como se revivesse tudo
que aconteceu. ─ Pra camente, desde esse acidente eu vivo sozinho, desde meus nove anos,
desde criança, pequeno e sem ninguém. No seu caso, aconteceu outra coisa. ─ Meu o parou
de falar.

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Sua última frase ecoou pela minha mente, muito mais do que sua lamentável história de
vida, e momentos depois as vozes dos meus pais me gritando apareceram na minha cabeça:

─ Que dizer que... Eu... ─ Minhas lágrimas escorriam. ─ Fui eu, eu que… Matei meus pais?

Queria muito que ele respondesse não, mas suas palavras foram piores:

─ Você era novo, um incêndio incontrolável ocorreu sem explicação e você foi o único
sobrevivente, com queimaduras leves. Sim Andrew, infelizmente a culpa foi sua.

Aquelas palavras doeram na minha alma. Não sabia o que responder. Pensar que eu
destruí a minha vida? Apenas saí do quintal e fui para o quarto.

Daquele dia em diante a minha vida novamente mudou. Meu tio pensou que eu já
estava preparado para receber a notícia, mas ele se enganou. Minha mente estava perturbada
e comecei a cometer furtos e usar drogas. Carlos sabia das coisas que eu fazia e simplesmente
omitia, vivendo sua vida normalmente. A atitude dele me deixava mais furioso. Eu queria que
ele me ajudasse, se importasse comigo, mas eu achava que ele agia da mesma forma que o pai
dele agiu com ele, com desprezo. E cada vez mais me envolvia no mundo negro. Porém, minha
forma extravasar a culpa me trouxe maiores problemas. Fui preso aos quinze anos e mandado
para o reformatório da FEBEM. Ali eu aprendi como a vida começa.

Carlos me visitava poucas vezes e por algum motivo nunca tocava no assunto que me
contou e nem sobre o reformatório. Ele parecia a mesma pessoa de sempre, me tratando
normalmente. Sempre com notícias do mundo lá fora e das novas técnicas estudadas. De
alguma forma, ele fazendo isso conseguiu me ajudar.

Passei um ano no reformatório da FEBEM, apanhando de criminosos e policiais. Sofri


todos os meus pecados durante o tempo que fiquei lá. Quando tinha um tempo sozinho, eu
treinava para não perder o ritmo, mas não usava em ninguém, pois queria sair logo. Aos
dezesseis anos fui liberado e a primeira coisa que fiz foi voltar para a casa de Carlos.
Arrependido, pedi desculpas por tudo que fiz. Ele me fez uma pergunta:

─ Aceita o fato de ser culpado pela morte dos seus pais?

Mais de um ano sem tocar no assunto e a primeira coisa que ele me fala ao me ver livre
é isso. Não sabia qual era a intenção dele, mas respondi inseguro:

─ Sim.

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Carlos me levantou pela camisa e me colocou contra a parede, dizendo bravamente:

─ Então faça disso uma vitória! Honre a morte deles! Não deixe que tudo seja em vão!
Aceite que a culpa foi da sua inocência e busque o que eles sempre quiseram para você! Você
recebeu um dom e tudo tem seu preço! Espero que depois de tudo que passou nesses tempos
você tenha aprendido a lição sozinho, assim como eu aprendi a minha! ─ E me largou no chão.

Na mesma hora eu comecei a chorar. Ele estava certo, eu devo superar e vencer. Eu
tenho que ser forte e estar disposto a aceitar o preço. Não escolhi isso para mim, mas tenho
que viver com isso.

Levantei e ele já estava sentado no quintal de treinamento. Aquele velho, de cabelos


longos e grisalhos, vestindo seu quimono branco, agora era mais que um tio, mais que um
amigo. Ele me deu a maior lição da vida: aprender a viver. Fui até ele e finalmente comecei
meu treinamento como mestiço. Voltei a estudar e os anos passaram.

08 de Maio de 2009

No meu aniversário de dezoito anos eu já havia completado o ensino médio e trabalhava


como auxiliar de escritório. Nesse dia era sexta-feira e estava de folga. Meu tio me chamou
para conversar:

─ Pois bem Andrew, tudo que você precisa saber eu agora já te ensinei. Os contos da
criação do mundo, as diversas raças existentes, sobre o seu poder e todo o seu treinamento de
combate. Você agora está pronto para seguir o seu caminho, mestiço de classe A. ─ Ele falava
com muito orgulho de mim.

─ Classe A? Como assim? Você nunca falou nada do tipo.

─ Eu sei disso. Deixei o melhor para o fim do seu treinamento. ─ Carlos sorriu. ─ Existem
três tipos de mestiços: A classe C apenas controla o elemento, sem poder aumentar ou
diminuir a sua força. A classe B Controla e tem o poder de deixar a força do elemento maior ou
menor. E tem a classe A que também é conhecida como mestiço puro, termos um tanto
contraditórios. Um classe A pode criar o elemento de dentro dele, fazendo o que quiser com o
elemento. É a classe mais desejada entre os mestiços, pois dizem que a ligação com o

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elemento é tão intensa que o corpo pode alcançar o poder da regeneração. São quase infinitos
os poderes de um classe A, basta explorá-los.

Eu ouvi e decorei tudo que ele disse. Com 55 anos de idade, ele não tinha motivos para
mentir. Aquele dia foi marcante, o fim do meu treinamento como discípulo.

Atualmente, moro sozinho, em mesquita, num conjunto habitacional. Sempre separo


duas horas por dia para treinar meu poder de classe A e, modéstia parte, estou evoluindo!

Minha vida afetou o meu modo de ser. Se foi pro bem? Não posso dizer, pois não vivi do
outro jeito. O futuro? Bem, como os humanos dizem, a Deus pertence, então não penso sobre
isso. Espero que quem leia isto possa tirar um bom proveito para a sua vida e não cometer os
mesmos erros que eu cometi. Também espero não ser caçado quando descobrirem isto. Hahá!
Seria engraçado.

7 de Janeiro de 2011

Andrew da Silva Moura

Carta colocada dentro de uma garrafa e arremessada ao mar em Salvador/BA durante


uma escuna.

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Capítulo 3 – Doce lar

Andrew sonhava com a magnífica viajem que fez para Salvador, na Bahia. Quando
acordou, a claridade que vinha pela porta aberta atrapalhava sua visão. Já era manhã da sexta-
feira e ele estava deitado no sofá, do mesmo jeito que adormeceu na noite anterior.

“É, não foi um sonho tudo que aconteceu.”.

O dia parecia triste. O céu estava inundado por densas nuvens, algumas bem escuras
ao horizonte, entretanto não aparentava que iria chover, pelo menos naquele momento. O
clima ameno trazia a mesma brisa da noite anterior, com um leve sinal de queda na
temperatura para as próximas horas.

Andrew estava todo dolorido e sentia seus ferimentos ardendo com a brisa. O buraco
nas costas e o corte no ombro estavam abertos demais e ele precisava levar pontos, mas não
pensava em ir a um hospital. Ele levantou-se devagar, pegou a shuriken e guardou no bolso da
calça:

─ A visita vai embora sem se despedir? ─ Perguntou uma voz falhada, vinda do cômodo
ao lado.

Era o homem lagarto. Ele havia retornado pouco antes do sol nascer e repousava em seu
quarto. O jovem havia percebido sua presença no instante que chegou:

─ Desculpe senhor, mas preciso ir. ─ Andrew respondeu.

─ Antônio, esse é o meu nome. ─ O senhor apresentou-se. ─ Lembre-se dele. Hehe! Vai
que um dia nos esbarramos por aí de novo.

─ Sou Andrew, desculpe não me apresentar antes. ─ Ele foi até o quarto do homem
lagarto.

─ Cuide-se jovem e não se meta em mais encrencas. ─ Aconselhou ele, com um sorriso
ao fim.

─ Pode deixar. Até uma próxima.

─ Até.

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Andrew sentia-se cansado, dolorido e cheio de fome. Não queria mais incomodar seu
conhecido e logo saiu de sua casa. A aparência do mestiço era chamativa, mesmo assim ele
caminhava tranquilamente para o ponto de ônibus mais próximo.

Os pedestres que cruzavam seu caminho, atravessavam para o outro lado da rua, ou
pelo menos afastavam-se o máximo que podiam. Já no ponto de ônibus, havia um menino
franzino, com uma mochila nas costas. O mestiço aproximou-se, com seu pensamento ao
delírio:

─ Com licença, poderia me informar as horas? ─ Andrew perguntou.

O garoto virou e analisou o estado daquele homem: calça ensanguentada e corpo cheio
de feridas. Ficou assustado e chegou um pouco para trás. Gaguejava enquanto respondia:

─ Se... Sete e. E... Meia... Se... Senhor.

─ Caramba, dormi demais! ─ Andrew coçou a cabeça. ─ Xiih! Ainda esqueci de pedir uma
camisa emprestada pro Antônio. ─ E observava seu corpo. ─ Tenho que parar de me distrair
assim.

O garoto continuou imóvel, assustado, observando:

─ O moleque... Você não tem uma camisa para me emprestar não?

Ele não respondeu, mas abriu a mochila e pegou uma camisa de manga curta, toda
vermelha. Tremendo, ele deu a camisa para Andrew:

─ Muito obrigado! ─ Ele agradeceu enquanto vestia. ─ Está muito apertada, mesmo
assim vai servir. Acho que agora ninguém mais vai ficar me olhando assustado, igual você! ─ E
usou um tom ameaçador no final da frase.

O garoto assustou-se mais ainda e olhou rapidamente para o outro lado. Ele quase corria
de medo, mas temia o que o homem faria com ele caso reagisse:

─ É brincadeira cara! ─ Andrew falou rindo e con nuou. ─ Toma aqui pra você comprar
uma camisa nova.

O mestiço retirou sua carteira do bolso da calça e deu vinte reais para o menino, que se
sentia acuado, mas pegou o dinheiro.

─ Olha só! O meu ônibus. Valeu garoto! ─ E fez sinal para o ônibus parar.

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Ele subiu, pagou ao motorista e seguiu viajem.

O garoto, ainda perplexo, lembrava-se do que acabou de acontecer e sussurrou:

─ Cara, ninguém vai acreditar nessa história maluca! Meu avô vai ficar chateado por eu
não ter corrido.

Andrew sentou nos últimos bancos do ônibus, ao lado de uma senhora idosa com
vestido longo de flores coloridas. Ela carregava uma bíblia em seu colo. Como em todos os
momentos desse dia, o mestiço explorava seu subconsciente, totalmente desligado do mundo
real:

“Nossa! Isso parece até com aquelas histórias loucas do cinema.”

O ônibus fazia o mesmo trajeto da severa fuga da noite anterior. Estava tudo normal,
com pessoas caminhando e comércio aberto. Ao passar exatamente no lugar em que o elfo-
negro fora nocauteado, nada estava diferente: o muro não continha nenhuma marca e no
chão não existia nem sequer um rastro, nada que parecesse ser da perseguição.

As feições daquele jovem despertaram a atenção e solidariedade da senhora ao seu


lado. Ela colocou uma das mãos no ombro dele, bem por cima do corte, apertando levemente:

─ O senhor está bem rapaz? Parece estar procurando algo? Está aflito!

Andrew segurou-se para não empurrar a senhora e fingiu não sentir dor, respondendo:

─ Eu estava até a senhora colocar a mão por cima do meu machucado.

─ Ó! Desculpe! ─ Ela sorriu.

─ Sem problemas. ─ Respondeu Andrew, voltando a observar a rua e viajar em seu


mundo.

Não demorou muito e a senhora tornou a falar:

─ Mas você deveria procurar por outra coisa. Está aparente, mas você não percebe.

Andrew olhou para ela desconfiado. Ele começava a suspeitar da senhora:

“Será que ela sabe de algo? Não me surpreenderia. Já aconteceu tanta coisa estranha
desde ontem.”.

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─ Você deveria procurar por Jesus. Ele é o caminho a verdade e a vida. ─ Falou a senhora,
calmamente.

Andrew ficou aliviado e sorriu. Chegou até a pensar que estava ficando louco, em
desconfiar de uma senhora idosa. O lugar onde iria descer do ônibus estava chegando. Ele
levantou e fez sinal para o motorista parar, olhou para a senhora e disse:

─ Vocês deveriam ter adorado os seus criadores. O Sol e a Lua.

O sorriso no rosto da senhora acabou e sua voz calma tornou-se agressiva:

─ Blasfemador! Você não é de Deus! Está amarrado em nome do Senhor!...

O jovem ouvia a senhora falar enquanto a porta do ônibus abria e, frustrado com a sua
atitude, respondeu:

─ Um dia você vai entender! Se ainda estiver viva, é claro!

Ele desceu e nem olhou para trás, seguindo a rua até a sua casa. A senhora, agora mais
enraivada, gritava pela janela:

─ Esse corpo não te pertence! Sai dele demônio em nome de Jesus... ─ E con nuava a
falar enquanto o ônibus seguia, até não poder mais ser ouvida.

As ruas da noite passada nem pareciam as mesmas. Estavam cheias de pessoas, carros e
bicicletas. Pessoas sentadas em frente aos seus portões, como de costume, sentiam a brisa
gélida daquele dia. Os bares lotavam logo pela manhã e música alta vinha de todos eles. Era o
clima do final de semana chegando:

─ Bem diferente de ontem. ─ Andrew comentou consigo.

Sua vestimenta chamava atenção pela rua, mas ele nunca fora de fazer muitos amigos
pela vizinhança e não conhecia muitos por ali. Era notável que falavam dele por onde passava,
entretanto ele ainda encontrava-se fora do seu corpo.

O mestiço chegou ao conjunto habitacional que morava e tudo estava do mesmo jeito:
sem vizinhos nas portas, sem crianças brincando, nada. Um lugar totalmente tranquilo.

De longe, ele visualizava a porta de sua casa e notava algo diferente. Lembrou que na
noite anterior, o ninja arremessou uma kunai que encravou na porta, e agora ela não estava lá.

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Quando olhou de perto, viu apenas o buraco que ela deixou. Desconfiado, abriu a porta
devagar e encontrou uma surpresa.

A sala estava toda revirada: o sofá rasgado pelo chão, gavetas jogadas, estante
quebrada e a televisão perto da cozinha. Tudo estava aberto e revirado.

─ Aquele babaca deve ter voltado aqui. ─ Andrew deduzia ─ Que merda! Eu nha
arrumado a casa toda antes de ontem! Mas o que ele procurava? Não tenho nada de valor.
Estranho. O que esse cara quer de mim! ─ Ele se revoltava.

O jovem fechou a porta e abaixou para pegar alguns papéis no chão quando ouviu
passos. Colocou-se em posição de combate, mas ouviu uma voz doce e feminina:

─ Calma, vim apenas para conversar com você. ─ Ela levantava suas mãos.

Andrew analisou quem falava: Uma moça linda, de salto alto, calça jeans e uma blusa
preta bem decotada. Era Jéssica, ela descia as escadas da casa:

─ Quer dizer que deram uma festa aqui em casa e não me convidaram? ─ Resmungou
ele.

─ Não, na verdade eu pensei que você era bagunceiro mesmo. ─ Jéssica sorriu.

O mestiço deixou os papeis e sentou no sofá, mesmo virado.

O bela moça, por sua vez, havia terminado de descer as escadas e apoiou-se no
corrimão dela. Ela carregava uma pistola na cintura:

─ Não se aproxima mais! Quem é você? ─ Ele Perguntou.

─ Meu nome é Jéssica Santana e o seu é Andrew Moura. Estou aqui pelo meu trabalho.

─ Espiã? Agente secreto? Ladra? Pode falar, parte dessa bagunça vem de você, certo? ─
O jovem não se conformava.

─ Já disse que não. ─ Ela respondeu sério. ─ Venho por um propósito muito maior,
muito além de tudo que você conhece.

─ De tudo que eu conheço? ─ Ele se levantou e aproximou-se dela. ─ Eu fui caçado por
uma criatura estranha, sem saber o motivo. Fui seguido por policiais e fui parar dentro da casa
de um homem lagarto que só não me devorou por que percebeu que eu não era humano.
Dormi na casa dele de tão acabado que eu estou por baixo dessa merda de camisa apertada!

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Agora vem você, aparecendo na minha casa, querendo me ensinar algo que eu não sei? Olha,
se for para piorar a situação, melhor ir embora. ─ Ele deu as costas e foi para cozinha,
chutando as coisas pelo caminho.

Jéssica examinou a situação e percebeu que ele havia tido uma noite conturbada,
mesmo após a perceguição:

“É, vai ser mais difícil do que imaginei.”. ─ Ela seguiu Andrew, que já preparava algo
rápido para comer.

─ Vou te contar uma coisa. ─ A moça começou. ─ Você não é o primeiro a sofrer um
ataque desses caras, mas você é o único sobrevivente até agora. Você acha que vai viver em
paz depois disso? É você quem sabe. Qualquer coisa, eu estarei esperando na sala para
finalmente agente conversar. Eu não estou aqui por nada! Só te aviso isso. ─ E saiu.

O mestiço não respondeu. Ele já estava estressado com as dores e não queria saber de
mais nada, entretanto o que ela disse podia ser o certo.

“Se fui realmente o único sobrevivente, já era! Ele não vai me deixar em paz. E que
negócio é esse de ‘esses caras’? Não é só um? Acho melhor eu prestar atenção no que ela quer
dizer. Vamos ver o que ela veio fazer aqui.” ─ Ele pegou os sanduiches e foi para sala,
sentando-se no mesmo lugar de antes:

─ Tudo bem, pode falar, mas seja breve, porque eu tenho muita faxina pela frente.

Jéssica sorriu:

─ Vou esclarecer o que está acontecendo. Esses elfos-negros, como eu acho que você
já sabe que são, estão atacando criaturas por todo o Rio de Janeiro, sempre eliminando seus
alvos. Nunca conseguimos capturá-los, eles agem em questão de minutos, e não sabemos o
motivo dos assassinatos, mas você conseguiu fugir de um deles e por isso estou aqui.

─ Beleza, tudo bem, mas e você? Para quem você trabalha?

─ Eu faço parte de uma organização chamada Divisão Humana Internacional de


Proteção ou DHIP. É uma organização com o objetivo de proteção humana das outras raças,
evitando encontros e punindo os desordeiros. Possuímos um sofisticado sistema de
monitoramento e vimos sua atuação ontem.

─ Quem dera que fosse um teatro. ─ Ele retrucou.

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─ Enfim, queremos sua ajuda para descobrir algo a respeito dos assassinatos.

─ Me envolver mais ainda nisso tudo? Não, muito obrigado.

─ Acho que você ainda não entendeu: Quer queira ou não, você já está envolvido. É só
uma questão de tempo para ser procurado novamente. Na nossa base, possuímos
alojamentos, refeitório, proteção. Lá você estará seguro.

─ Por quanto tempo vão precisar de mim? Eu tenho uma vida sabe, emprego que não
posso faltar…

─ Não sei por quanto tempo, mas nós vamos te pagar muito bem, mais do que você
ganha, acredite.

─ Eu também preciso ir num hospital, ou vocês tem lá na base também? ─ Ele


debochava.

Jéssica concordou com a cabeça.

─ Vocês são o que? Um país independente? Estão preparados para a guerra?

─ Acredite, você não conhece nada ainda. Se aceitar, eu vou te contar todos os
detalhes.

Andrew mordeu o último pedaço do sanduiche. Estava pensativo, com sua feição de
sempre.

“Largar o emprego, sair desse condomínio por um tempo, ter a chance de viver uma
vida de aventuras e ser quem eu sou? E se isso for uma armadilha? A coisa mal aconteceu e já
existe alguém solicitando minha ajuda? Se bem que essa oportunidade pode me trazer
benefícios, me tirar dessa vida chata que é a humana… Por que eu estou recusando?”.

─ Me dê uma chance de provar que podemos nos ajudar. ─ Suplicou Jéssica pela úl ma
vez.

─ Tudo bem eu aceito ajudar vocês, mas posso ao menos tomar um banho e me
trocar?

─ Sim, sim. É claro! Estarei esperando lá fora no carro.

─ Ok!

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A moça saiu. Ela estava feliz em conseguir a ajuda do sobrevivente. Durante esse
tempo em que morava no DHIP, ela não se sentiu tão feliz quanto agora. Suas esperanças
retornaram e ela tinha fé que o mestiço seria útil.

Enquanto Jéssica saia da casa, um casal vizinho estava ajeitando objetos dentro do
carro:

─ Viu! Eu te disse que ele estava dando uma fes nha! ─ Disse a mulher.

─ Nossa! Que fes nha hein? ─ Respondeu o homem, fitando o corpo de Jéssica.

─ Mário, me respeita! ─ Disse sua esposa, dando uma tapa em seu braço. ─ Mas essa
menina deve ser um animal! Pelos barulhos de ontem à noite.

─ É! ─ Respondeu o marido, apenas pensando em coisas ilícitas.

Andrew foi tomar banho. Seu corpo ardia com a água escorrendo pelas feridas, mas seu
pensamento fervia em outras coisas:

“Que loucura vai ser esse fim de semana!”.

O mestiço escondeu da agente o que realmente ele achava da situação. Sua vida era
completamente humana e seus desejos sempre foram de migrar para o mundo anormal. Tudo
que já aconteceu era o que ele sempre quis, entretanto não da forma como foi, pois sua vida
correu extremo risco. Sua maior vontade era em aceitar logo tudo que aquela linda mulher
dizia, porém precisava sondar, ver qual era o verdadeiro motivo da aparição da jovem.
Simplesmente aceitar não sanaria suas dúvidas sobre os fatos. Foi uma jogada esperta.

Ele colocou uma calça jeans, um tênis branco e preto e uma camisa vermelha de manga
longa, listras pretas e verticais na lateral, com uma estampa preta e branca de caveiras, na
frente. Também dobrou as mangas para exibir suas tatuagens flamejantes. Colocou algumas
roupas e itens dentro de sua mochila preta e saiu:

─ Tchau coisa bagunçada! ─ Ele falou, olhando para a sala.

Fora do condomínio, Jéssica lhe esperava dentro de um Honda Civic preto e vidros
muito escuros. Nas laterais do veículo, estava estampada a sigla da empresa, em prata.
Andrew deixou a curiosidade de lado, sabendo que cedo ou tarde iria conhecer a empresa e
outros mistérios.

Eles pegaram a via Dutra e seguiram viajem, sentido ao centro do Rio de Janeiro.

50
Sexta-feira – Algumas horas antes do mestiço acordar.

O elfo-negro chegava a um túnel, em um lugar muito barulhento. O local era escuro e


pontinhos vermelhos ocupavam todas as partes. Ele seguiu até uma sala iluminada e curvou-
se. Um ser à sua frente estava irritado. Eles conversavam em uma língua estranha, muito
diferente do português:

─ Urok! Diga-me, por que você está todo queimado? ─ Perguntou a voz.

─ Desculpe mestre, eu ve um pequeno problema. ─ Respondeu Urok, muito nervoso.

─ Pequeno problema? Idiota!

O ser segurou Urok pelo pescoço e apoiou-o contra a parede. Ele fez tanta força que
algumas bolhas formadas pela queimadura estouravam. Urok soltou um gemido tão alto que
todos da redondeza calaram-se:

─ Urok! Qual era o seu obje vo?

─ Era eliminar o elfo da cidade de Queimados, mestre, e eu o fiz, mas…

─ Mas o que? ─ O ser apertava, enquanto o sangue de Urok escorria por sua mão.

─ Mas… Mas na volta eu o avistei em Nova Iguaçu, mestre. Ele era jovem e interagia
com humanos, mestre! Eu não pude evitar.

─ Você devia ter me contado sobre ele, e não ter agido por conta própria! Você não
sabe o tamanho da consequência que isso pode me trazer!

─ Mas, mestre eu posso… Posso consertar isso!

─ Como? Seu idiota! ─ O ser arremessou Urok ao chão.

─ Eu consegui isso senhor. ─ Urok rastejava e entregava algo para seu mestre. ─ Eu sei
que posso conseguir minha vingança, mestre, eu sei que posso!

O ser pegou uma foto que Urok entregava, onde Andrew estava abraçado com o tio.
Ele sorriu:

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─ Urok! Nessas circunstancias eu mataria o insubordinado, mas você é um dos
melhores e vou te dar uma chance de consertar tudo.

Urok sorriu em meio às dores e levantou-se devagar, agradecido, mas o ser mostrou
uma forma horripilante e uma voz grossa, assustadora:

─ Mas que seja o seu úl mo erro! Aliás, não esteja vivo para o próximo erro, pois será
bem pior! Hahahá!

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Capítulo 4 – O novo mundo

O sol atingia o centro do céu e mal podia ser visto dentre algumas nuvens vazadas. Era
um sinal que qualquer relógio sincronizado mostraria: meio dia.

Eles chegavam ao centro do Rio de Janeiro. Andrew observava os altos prédios,


distraído.

A quantidade de pessoas passando de um lado para o outro sempre era


impressionante. Elas vinham de todas as partes do Rio de Janeiro, na maioria das vezes, para
trabalhar. As ruas eram largas, planas, asfalto liso, sinalização perfeita, porém o que
atrapalhava a locomoção era a superlotação do tráfego de veículos e pedestres. O centro de
empresas e comércio ficava acumulado nessa região. Algumas construções eram tão altas que
provocavam vertigem em quem observasse por muito tempo:

─ Você ainda não me disse o seu nome. ─ Jessica tentava quebrar o silêncio dentro do
carro.

─ Engraçadinha. ─ Eles sorriram juntos. ─ Acho que você já sabe tudo de mim. Eu que
tenho que fazer as perguntas.

─ A é? Então vai, pergunta.

─ Seu nome eu já sei, mas e sua idade?

─ Homens. Sabem que não se pergunta a idade de uma mulher e mesmo assim
perguntam. ─ Ela sorriu.

─ Anda vai. Responde.

─ Sou velhinha, tenho 21. E você?

─ Ué? Não sabe minha idade? Que investigadora é essa?

─ Bom, eu acho que você tem 20 anos e fará 21 no dia 08 de maio desse ano. Morava
com seu tio antes de morar em Mesquita. Já foi preso e…

─ Tá bom! Tá bom! Já entendi. Você sabe de tudo. ─ Andrew tornou a olhar para a rua.

─ Desculpa, só estava sendo educada em deixar você me dizer.

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─ Deixa para lá. Eu faço as perguntas novamente. Mora sozinha?

─ Atualmente estou dormindo na empresa, mas moro sozinha sim. Antes, morava com
meus tios também.

Andrew sorriu, estava se interessando pela conversa, mas decidiu mudar o foco:

─ Err, para onde estamos indo mesmo? Você ainda não disse.

─ Seria estranho se eu te contasse. Imagine um lugar onde pessoas frequentam


diariamente, tão óbvio que ninguém desconfiaria de algo tão secreto.

─ Sim, mas aqui pelo centro?

Jéssica apontou para uma placa de trânsito. Ela mostrava que a próxima saída à direita
levava ao bairro Cosme Velho e a agente seguia para curva.

O mestiço pensou por um tempo e não conseguia chegar a nenhuma conclusão:

─ Sinceramente, não sei onde pode ser.

─ Se esforça um pouquinho mais. ─ Ela sorriu.

─ Sei lá, não conheço nada por aqui. Mas um lugar realmente diferente seria a praia!

Jéssica gargalhou. Ela esvaziava suas preocupações se divertindo com o jovem. Fazia
muito tempo que não soltava um belo sorriso. A distração da conversa lhe fez esquecer os
problemas da investigação e já estava até mais animada:

─ Por que você riu? ─ Dizia Andrew, fingindo não entender o motivo do riso. ─ É um
lugar óbvio que pessoas frequentam diariamente, horas!

─ Eu sei que é, mas não é na praia. É que eu imaginei uma base secreta na praia e
todos os funcionários saindo direto para o banho no mar. ─ Ela ria. ─ Lugar realmente
diferente, mas não é a praia.

─ Onde mais seria então?

─ Pense! Eu não vou te dizer.

Andrew já havia desistido de saber o local quando viu outra placa. Essa indicava que o
parque nacional da Tijuca ficava à frente. Isso lhe fez pensar uma nova ideia:

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─ Lugar óbvio, frequentado por pessoas, por aqui é o corcovado. Uma base secreta por
dentro do cristo redentor? Você tá me zuando né?

─ Não exatamente por dentro dele, mas de certa forma, você acertou.

─ Ah! Eu não acredito, só depois que eu ver.

─ Quando chegarmos ao parque eu vou te contar mais detalhes.

Eles seguiam pela estrada das Paineiras e logo chegaram ao entroncamento entre a
estrada do Corcovado e a estrada do Redentor. Era a região da floresta das Paineiras,
pertencente ao parque nacional da Tijuca. Rodeado pela mata, existia um estacionamento
construído com rochas, algumas cabines pintadas de branco e telhas de cerâmica marrom,
pessoas, e veículos. As estradas eram cimentadas, porém não muito largas e ambas levavam à
lugares distintos. A estrada do Corcovado, como o nome sugere, seguia para o topo do morro
do Corcovado e a estrada do Redentor seguia por dentro do parque, cruzando a floresta.

Jéssica entrou no estacionamento e acenou para o vigia, ao que lhe apontou uma vaga:

─ Ainda não acredito que estamos aqui. ─ Andrew não cedia.

─ Você verá com seus próprios olhos. ─ E chamou-o.

Os dois seguiram até algumas vans que faziam o transporte de passageiros daquele
ponto até o cristo redentor. Jéssica abordou um dos últimos motoristas que estava com a van
vazia:

─ Oi Francisco. Tudo bem?

─ Jéssica! Minha querida. Quanto tempo. ─ E cumprimentou-a.

─ Estou usando agora a outra entrada, por Humaitá. Por isso que não me vê mais
frequentemente. ─ E sorriu. ─ Pode nos levar agora ou está com clientes?

─ Na verdade não tem ninguém não, podem entrar. ─ E direcionou-os.

─ Esse é o nosso motorista. Leva os funcionários para a entrada secreta. ─ Sussurrou


ela para Andrew.

─ Interessante.

Pelo caminho, os dois conversavam a respeito da base:

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─ Vamos começar por este parque nacional. ─ Jéssica explicava. ─ Desde 1961, com a
criação do parque, a DHIP já participava dos negócios para a administração. Para que nada
saísse do controle, em 1966 um dos grandes líderes da DHIP comprou a antiga empresa
administradora, que hoje é uma ONG de grande influência no parque.

─ Viva ao nosso Brasil! ─ Andrew comentou.

─ No segundo semestre de 1966 mesmo, a DHIP começou a ser construída no período


noturno. Ela não fica no cristo redentor, nós estamos pisando nela, estamos ao lado dela.

─ Subterrânea. Uma base secreta no subterrâneo do parque. Genial. ─ Andrew fazia


sua expressão pensativa.

─ Exato. Quatro anos depois, já estávamos a vos. Esta daqui foi a segunda base da
organização, sendo a primeira instalada em 1943 na Área 51, pertencente aos Estados Unidos.

─ Chegamos! ─ Disse o motorista.

O caminho que fizeram fora curto. A van havia seguido pela estrada do corcovado.
Tinha passado por um portão de ferro gradeado, verde; uma guarita velha, de dois andares,
que obrigava os veículos a passarem por baixo dela e pararam em um local no meio da
estrada. De um lado, era visto somente a mata fechada e, do outro, uma parede de rochas que
crescia conforme o caminho seguia. No início dessa parede, havia um pequeno caminho de
terra, escondido pela vegetação.

Jéssica dispensou Francisco e seguiu com Andrew pela discreta passagem. Depois de
seguir alguns minutos, surgiu uma série de degraus brancos. Uma placa vermelha, com letras
brancas, avisava que somente pessoal autorizado do parque poderia descer ali.

Ao chegarem embaixo, seguiram reto em torno de 20 metros, até uma porta construída
diretamente em um paredão feito de rochas. Ao redor deles, apenas o caminho cimentado
possuía a mão do ser humano. O lugar era completamente natural e o verde era lindo e denso.
Uma mistura de árvores, frutíferas ou não, e diversos ramos coloridos pelas belas flores. Era
como um pequeno jardim escondido, para distrair os curiosos que por acaso fossem ali.

Jéssica pegou uma chave do bolso e destrancou a maçaneta. Por dentro, o ar parecia
diferente e o local era mal iluminado. O fim do corredor úmido e rochoso revelou uma porta
prata, com um pequeno painel central.

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─ Desculpe, mas por medidas de segurança vou pedir para virar-se de costas. ─ Jéssica
disse.

Andrew virou-se sem reclamar e ela digitou uma senha no painel. Uma voz eletrônica
surgiu, dizendo:

─ Nome de iden ficação?

─ Jéssica Santana.

─ Voz iden ficada. Nome correto. Seja bem vinda senhorita Jéssica e tenha uma boa
tarde.

O jovem ouviu tudo aquilo e ficava cada vez mais impressionado. Lugares secretos,
entradas secretas, alta tecnologia, bem diferente da primeira imagem que ele teve ao
conversar com a moça.

Jéssica encostou no ombro do seu convidado para sinalizar que já poderia virar para a
frente e ele assim fez.

A porta soltou um jato de ar por debaixo e, depois de alguns barulhos destrancando


diversas travas de segurança, ela começou a subir devagar.

─ Que tecnologia hein? ─ Andrew destacou.

─ Tudo que temos aqui vem direto do Japão. Toma, Coloque este crachá. ─ Andrew
colocou em volta do pescoço um crachá todo preto, com as siglas da empresa, um código de
barras e algumas numerações de cor branca.

A porta escondia um grande elevador, capaz de suportar toneladas e carregar várias


pessoas. Possuía outra porta do lado oposto, maior e mais larga do que esta que os dois
entraram. A voz eletrônica voltou a falar:

─ Escaneando… Crachá número 83823021, Andrew Moura, tenha um bom dia,


visitante.

Andrew apenas olhou para Jéssica e ela respondeu:

─ Glória é a inteligência artificial do local. Cuida principalmente da movimentação


pelos elevadores. Ela não o reconheceu, por isso, escaneou o seu crachá que eu já registrei em
seu nome.

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─ Nossa. Estou me sen ndo em Marte. ─ Ele comentou.

─ Onde deseja ir senhorita Jéssica? ─ Disse Glória.

─ Por favor, Glória, nos leve ao hospital.

─ Des no selecionado: setor hospitalar. Tempo es mado de chagada: 1 minuto e 37


segundos.

O elevador começou a movimentar-se para baixo:

─ Quer dizer que em 1970 a DHIP foi criada? ─ Andrew perguntou.

─ Exatamente.

─ E você pode me contar como tudo funciona aqui dentro?

─ Algumas coisas eu posso. ─ Ela sorriu. ─ Os departamentos são divididos por setores,
que podem ser vistos em mapas, como este ao seu lado. Estão espalhados por toda base.

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MAPA DOS SETORES DA DHIP

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Andrew analisava o mapa:

─ Hum… Nove setores.

─ Sim. Eu, por exemplo, sou chefe inves ga vo e agente do setor urbano. Não posso
visitar a zona vermelha. O local é restrito para agentes e chefes do setor.

─ E o que tem por lá?

─ Todas as raças que não respeitam a convivência com os humanos são capturadas e
enviadas para lá. Na prisão, ficam os que não têm mais chance de voltar à sociedade. E no
centro de recuperação, os que podem voltar. Atualmente, estamos adaptados para trabalhar
com aproximadamente 43% das raças conhecidas, quase todos os tipos de raças existentes no
Brasil.

─ E você trabalha… no setor seis? É isso? ─ Falava Andrew, observando o mapa.

─ A maior parte do tempo. Chegamos! Seja bem vindo ao setor três.

Para a surpresa do visitante, não era um hospital comum. Pelo nome, poderia ser
imaginado um complexo fechado, de paredes brancas e superlotado. Era sim um gigantesco
complexo, de aproximadamente 100.000m², porém aberto em um buraco abaixo da terra. Era
tão alto que provavelmente precisariam escalar as paredes para consertar qualquer tubulação
ou trocar qualquer lâmpada que estava no teto.

No geral, semelhava-se ao ambiente do setor investigativo. As particularidades eram


os muitos elevadores posicionados em paredes opostas do cômodo e a base ao centro desses
elevadores, rodeada por grades de contenção fortificadas por alguns soldados e apenas uma
entrada de cada lado.

O hospital, na verdade era como uma base militar médica, montada durante uma
guerra, porém os equipamentos que eles possuíam ali eram muito mais avançados. Continham
algumas tendas verdes protegendo equipamentos e caminhos labirínticos para diversas delas.

─ Meu Deus! Que lugar maneiro! ─ O mes ço falou cada palavra com sua ênfase e
repetiu a frase.

─ É, impressiona mesmo. ─ Jéssica via o rosto maravilhado do convidado.

─ Aqui eles tratam todo mundo? Inclusive os presos feridos?

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─ Eu acredito que sim, por isso que deve ter esses guardas. Eu quase não venho aqui.
Não sei muita coisa, mas já vim algumas vezes visitar um colega ferido e sei que a parte das
internações fica abaixo daqui. Lá por dentro tem umas escadas que levam pra outra ala.

─ Nossa! Aqui já é grande e ainda tem mais embaixo. Caramba, nem consigo acreditar
que isso existe.

─ Posso ajudá-los? ─ Um homem ves do de branco interrompia o diálogo dos dois.

─ O meu amigo aqui precisa levar uns pontos. ─ Respondeu Jéssica, apontando para
Andrew.

─ Podem seguir por aqui, direto, e virem à esquerda no segundo encontro.

─ Obrigada. ─ Ela agradeceu e seguiram.

O jovem não conseguia retirar os olhos das novidades, mal se importava com os
ferimentos e com o que iria lhe acontecer. O chão era feito de cimento liso e eram como ruas
largas. Alguns veículos elétricos rodavam o local, transportando feridos ou retornando para o
estacionamento na ala oeste. Para facilitar mais ainda, todos os encontros, como chamavam
os cruzamentos do lugar, eram sinalizados com placas do que existia na rua.

Chegando ao local indicado pelo recepcionista, a placa dizia “Recuperação corporal”. A


rua inteira era menos larga que a principal e quase estava deserta. As barracas não eram tão
altas quanto outras, mas mesmo assim impressionavam. Do lado externo de cada uma, um
banco de madeira, parecido com bancos de praças, estava posicionado ao lado da entrada.

Jéssica sentou-se no banco e fez sinal para Andrew entrar:

─ Só não estranhe o equipamento. ─ Avisou ela.

─ Tudo aqui é fora do normal, já estou me acostumando com isso! ─ E entrou.

Dentro da tenda, ele viu alguns cabides e uma câmara horizontal ligada a diversos
cabos. Ao seu lado direito, um pequeno aparelho pedia a digital ou crachá:

─ Passe o seu crachá no aparelho e ele dirá as instruções. ─ Gritou Jéssica, lá de fora.

Andrew seguiu o conselho e a câmara abriu-se ao mesmo tempo em que a entrada da


tenda fechou-se:

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─ Bem vindo, Andrew Moura, sua ficha está sendo iniciada. Primeiro procedimento:
Retire suas roupas e pendure-as nos cabides. Segundo procedimento: Deitar no aparelho, de
costas para baixo.

Andrew nunca havia visto tal tecnologia, mas se aquele aparelho sararia suas feridas,
estava disposto a arriscar. Seus ferimentos estavam ressecados, já grudados na roupa. Doeu
para retirar, mas ele suportou. Ao deitar na câmara, uma camada de vidro fechou-se
automaticamente, fechando outra camada de metal em seguida. Um botão vermelho escrito
“iniciar” surgiu à sua frente. O jovem encostou e uma luz azul escaneou todo seu corpo. A
câmara ficou avermelhada e ele sentia uma queimação nos ferimentos. Ao olhar para o
ferimento do peito, viu que estava cicatrizando milagrosamente. A dolorosa sessão acabou em
5 minutos. Ele vestiu-se e saiu:

─ Gostou do aparelho? ─ Indagou Jéssica.

─ Doloroso, mas eficiente. Os cortes profundos estão bem cicatrizados e os superficiais


nem parecem que existiram. ─ Respondeu ele, mostrando seu ombro.

─ Essa máquina acelera a capacidade do corpo em regenerar ferimentos para até mil
vezes mais, dependendo do caso, mas não pode ser utilizado para ferimentos que atingem
órgãos ou ossos e a pessoa precisa estar acordada. Tecnologia Japonesa. Agora, vamos para o
setor cinco, preciso te apresentar para o presidente.

Eles agradeceram o recepcionista, já ao fim da base, e saíram do setor.

Andrew imaginava o que mais de interessante existe nesse mundo:

“A tecnologia está muito mais avançada do que a humanidade conhece. É uma pena
que todos não tenham acesso a essas coisas. Não sinto mais dor alguma. Esse aparelho é o
máximo! Esse lugar é o máximo!”.

Jéssica divertia-se com as feições e dúvidas do mestiço. Ela adorava lhe explicar as
coisas e revelar os segredos. As expressões curiosas que ele fazia a incentivavam ainda mais.
Ela pensava nos próximos procedimentos com seu convidado e mal podia esperar para obter
respostas também:

“Pelo menos já o deixei a vontade… Agora que ele está calmo e relaxado, eu posso
retirar as informações que preciso.”.

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─ O pessoal que trabalha aqui, são todos humanos? ─ Perguntou Andrew,
interrompendo o pensamento dela.

─ Não, não. Aproximadamente 75% dos empregados são humanos. Existem cargos e
setores perigosos demais para um humano.

─ Entendi, mas, o que humanos fazem aqui? Eles não deveriam saber da existência de
outros seres. Você não deveria saber.

─ Eu entendo o que você quer dizer, mas os humanos que trabalham aqui, inclusive eu,
são pessoas que já foram envolvidas com isso desde a infância e conhecem bem o assunto. As
contratações também são feitas por herança, dessa forma, o conhecimento da existência dos
outros seres racionais não é disseminado na comunidade humana. Eu também não acho muito
seguro, mas é a política que vem da sede e nunca tivemos problemas.

─ Polí ca que vem dos Estados Unidos. ─ Andrew encostou-se na parede. ─ Tudo bem.
E esse cara que você vai me apresentar agora, o presidente?

─ Bem, o nome dele é Diego Fernandes Pimentel. Ele trabalha na empresa há 10 anos e
assumiu há dois meses, depois da estranha morte do antigo presidente, o Vitor. Do jeito que o
corpo dele foi encontrado, com certeza foi atacado por licantropos ou demônios, lamentável.
O novo presidente já criou até o seu logotipo. ─ Jéssica mostrou o novo broxe que recebera
esta manhã, preso em sua camisa. Era um triângulo preto, com bordas vermelhas e a letra “H”
escrita ao seu centro, também em vermelho.

O setor administrativo era composto por um corredor, iniciando nos elevadores. As


salas eram divididas por departamentos. Ao meio do corredor, uma escada levava ao
auditório, à esquerda, e, à direita, levava ao refeitório do setor. Ao fim, uma outra escada
larga, de mármore, levava à área da diretoria, bem como um elevador particular. O piso do
corredor era preto com as siglas da empresa em prata bem ao centro. Tudo era luxuoso, com
luminárias douradas deixando tudo espetacular. Este ambiente era completamente diferente
dos outros setores. Nenhuma tubulação exposta ou paredes de rocha.

O corredor da diretoria era basicamente igual ao anterior. Nas portas das salas,
estavam os nomes das pessoas e os setores responsáveis. Ao fim do corredor, uma porta de
pura madeira, com metade dela desenhada do mesmo símbolo do novo broxe da agente,
destacava-se por ser a única desta forma. Era a sala do presidente Diego.

Jéssica bateu sutilmente e Diego respondeu para entrar:

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─ Boa tarde. ─ Disse Diego. ─ Sentem-se.

─ Boa tarde. ─ Eles responderam e Jéssica con nuou. ─ Este é Andrew, senhor, de
quem lhe falei.

─ Oh, prazer em conhecê-lo. ─ Diego levantou-se e foi cumprimenta-lo, sorridente.

─ O prazer é meu.

Diego voltou à sua cadeira e respirou fundo antes de retornar o diálogo:

─ Só espero que você realmente ajude, não aguento mais ver a tristeza dessa menina.

─ Pode deixar senhor, ele será útil. ─ Ela sorriu.

─ Então me diga, você é o único sobrevivente? Porque, não me parece muito forte. ─
Diego fitava Andrew.

─ Esse é o propósito, não parecer, ser subestimado e depois surpreender. ─ Andrew


respondeu, devolvendo-lhe o olhar.

─ Excelente resposta! Pois bem, Jéssica não joga para perder. ─ Ele sorriu e desviou o
olhar. ─ Com certeza você ajudará. Agora podem ir, tenho muita coisa a fazer. ─ Ele pegava
alguns papéis sobre sua mesa:

─ Tudo bem. Com licença. ─ Jessica respondeu e direcionava Andrew para a porta.

─ A propósito, Jéssica, lembre-se de que é a sua última chance. ─ Ele dizia enquanto
saiam e sorriu, continuando mesmo após saírem.

─ Eu não gostei dele. Me olhou de uma forma tão intensa, como se detestasse a minha
presença. ─ Comentou o mes ço.

─ Não esquenta muito com ele. Sempre faz esse tipo de coisa, por isso que ninguém
gosta dele. Vamos pro meu setor.

Andrew ainda não sabia o principal motivo de estar ali. Era tudo novo e
impressionante, mas seu objetivo era ajudar na investigação. Só não era claro como faria isso,
Jéssica não esclarecia.

Enquanto seguiam ao setor seis, o jovem quis retirar essa dúvida:

─ Jéssica, exatamente no que eu vou te ajudar? Você ainda não me disse.

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─ A princípio vou lhe fazer um interrogatório e isso irá decidir o que faremos depois.

─ Mas eu acho que não sei nada que possa te ajudar. ─ expressou toda sua sinceridade.

─ Nós já vamos descobrir.

Jéssica não sabia como responder a questão que lhe foi proposta, nem ela mesma
havia pensado nisso.

“Porque exatamente eu o trouxe aqui? Será que mostrei tudo a ele em vão? Bom,
veremos após o interrogatório”.

Ela parecia perdida, sem saber por onde começar:

─ Você está bem? ─ Perguntou Andrew, notando-a inquieta.

─ Sim, apenas refle ndo.

No setor seis, Andrew foi direcionado a uma sala privada no andar mais baixo que
possuía apenas uma mesa e duas cadeiras de vidro translúcido. A agente pediu para ele
aguardar e saiu. Teve tempo suficiente para refletir em alguma ligação com o ninja, mas não
conseguiu chegar a nenhuma conclusão:

─ Acho que vou desapontar alguém. ─ Sussurrou o mes ço.

Marcelo passava pelo local quando Jéssica saía da sala. Ele não suportou a curiosidade
e foi ver de perto o fugitivo do assassino. O convidado o avistou pela janela e cumprimentou-o.
Aproveitando a oportunidade, Marcelo adentrou:

─ Olá, meu nome é Marcelo, sou um dos auxiliares da Jéssica. Você é o Andrew?

─ Sim, sou eu.

─ Prazer em te conhecer. Como você conseguiu escapar? Até hoje, todos foram
assassinados, com um só golpe! O pessoal aqui só fala em você.

─ Sou treinado para emboscadas. ─ Ele sorriu. ─ Eu nem sabia que estava famoso aqui.
─ E brincou.

─ Interessante. Ou será que os elfos-negros te queriam aqui? ─ Marcelo mudou sua


expressão.

─ Não entendi. O que você quer dizer com isso?

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─ Um cara é atacado, num local onde nunca ocorreu nada, justamente no dia em que
nosso sistema via satélite estava fora do ar, onde não existem câmeras e até hoje foi o único
sobrevivente. Quanto eles estão te pagando para se infiltrar aqui?

─ Cara, eu acho melhor você chamar a Jéssica, não estou aqui para esse joguinho de
policial bom e mal.

─ Só estou constatando fatos. Eu acho que você…

Jéssica abriu a porta. Ela carregava uma jarra com água e dois copos:

─ O que você está fazendo aqui? ─ Perguntou ela.

─ Eu só… estava cumprimentando o sobrevivente. Não é Andrew?

O jovem olhava no fundo dos olhos do líder e não gostou de sua atitude, mas no
momento não se preocupou com a desavença:

─ Sim, só se apresentando.

─ Até mais tarde pessoal. ─ Marcelo saiu da sala, tentando andar depressa.

─ O que ele queria? ─ Indagou Jéssica.

─ Acho que não gosta de mim. Ele acha que sou um vilão, que eu estou junto com os
elfos-negros. Ele não deve ter vista nada do que aconteceu ontem.

─ Não se preocupa com ele, adora formular teorias de conspiração, mas trabalha bem.
Podemos começar? Servido? ─ Jéssica sentou-se e ofereceu água.

─ Sim, obrigado.

Enquanto lhe servia, ela iniciou o questionário:

─ Então Andrew, eu preciso montar uma linha de pensamentos em que encaixe você
aos acontecimentos. Em primeiro lugar, gostaria de saber sua raça.

─ Ué? Você não sabia tudo sobre mim?

─ Certas coisas não estão nos cadastros dos humanos pela terra. ─ Ela sorriu.

─ Sou um mes ço do fogo. ─ Respondeu, devolvendo o sorriso.

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Nesse momento, Jéssica tocou na mesa e digitou alguns comandos no teclado virtual
que surgiu na mesa. Nada diferente foi notado por qualquer um deles, porém a sala inteira
estava sendo filmada. Ela digitava as respostas no teclado virtual:

─ Acertamos no palpite que demos. E você pensa em algum motivo para ter sido
caçado?

─ Tive bastante tempo para pensar nisso e não cheguei a nenhuma conclusão.

─ Você conhece alguém de alguma outra raça que seja seu amigo ou inimigo?

─ Bom, eu só conheço meu tio, que me treinou. Ele é um mestiço do fogo também.

─ O nome dele é Carlos Moura, temos registro dele no banco de dados. E você conhece
algum amigo ou inimigo de seu tio?

─ Meu o é muito solitário, tem mais contato com seus alunos de luta. Não conheço
nenhuma relação dele com qualquer outra raça.

─ Sim, tudo bem. ─ Jéssica respondia, enquanto anotava as informações. ─ Você já foi a
alguma cidade subterrânea?

─ Não, só ouvia histórias que meu tio contava sobre como era por lá.

─ Entendi. A respeito do elfo-negro, você conhece ou já viu algum anteriormente?

─ Só conheço a raça, mas, como já respondi anteriormente, nunca vi e nem ve


contato com nenhuma raça além dos humanos.

─ Sei. Não estou achando nenhum sentido em você ter sido caçado, mas me responda,
onde você estava antes de tudo acontecer?

─ Eu estava reunido com alguns amigos do colégio, em Nova Iguaçu, e voltei para casa
normalmente. Senti estar sendo seguido minutos depois de ter descido do ônibus.

Jéssica pausou temporariamente o questionário. Ela analisava os dados obtidos até


agora e tentava encontrar alguma ligação com Andrew, mas nada encaixava:

─ Vou te colocar a par da situação. Há um mês, um dos nossos agentes de vigilância


observou um crime bárbaro na zona oeste do Rio de Janeiro. Parecia um caso rotineiro, de
brigas por território ou intriga entre raças inimigas. Um dos lemas da empresa é não interferir
no ciclo natural da vida e chamamos isso de caso rotineiro. Sabemos que existem raças

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inimigas, mas esses elfos-negros assassinavam variadas raças. O psicólogo acredita que os eles
são facilmente influenciáveis e que, provavelmente, exista um líder por trás de tudo.
Queremos saber qual o motivo da caça. Tentamos traçar elos entre os assassinados e a única
ligação é o fato da maioria das raças serem semi-humanas. Fora isso, são mortes totalmente
isoladas e você era mais uma esperança. Até agora, registramos aproximadamente 70 mortes,
mais que duas por dia. Sem um motivo aparente, os números registrados são alarmantes.

─ Bem, eu não tenho nada a dizer sobre o caso. Eu fui totalmente sincero. Nunca me
envolvi com nada do tipo e, ontem à noite, eu só voltava para casa quando fui atacado.
Também não sei o motivo e pensei que ia descobrir aqui.

─ Entendo, mas vamos voltar à linha de pensamento. ─ Jéssica mostrava-se agitada. ─


Olhe essas fotos, você reconhece algum deles?

Ela mostrou algumas fotos de criaturas assassinadas recentemente. No canto direito


superior, uma breve descrição exibia o local em que fora encontrada, a data, hora e raça da
criatura. As fotos eram horríveis. Existiam seres esmagados, pedaços mutilados e corpos
irreconhecíveis. Continham raças como vampiros, licantropos, anjos, humanos e demônios.
Andrew observou cuidadosamente cada foto, mas não reconheceu ninguém:

─ Jéssica, infelizmente eu não conheço ninguém dessas fotos.

─ Eu imaginei isso. ─ Ela respirou fundo, e passou as mãos pelo rosto. ─ Olha, eu vou…
Refletir um pouco com as informações que tenho e mais tarde lhe comunico algo. Vou pedir
para alguém te mostrar os alojamentos.

Jéssica estava aflita, seu estado emocional mudara. Ela pediu para um dos auxiliares
levar Andrew ao setor sete.

─ Jéssica, desculpe não ser muito útil, mas lhe contei tudo que sabia. Sinto que você
está desapontada.

─ Não, não! ─ Ela sorriu. ─ Está tudo bem. Você me ajudou sim. Vou te passar mais
informações depois.

─ Eu aguardo.

Jéssica seguiu cegamente para seu escritório. Ela estava arrasada por dentro e
segurando-se para não explodir.

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“Não pode ser! não pode ser! Ele deveria ter ajudado, deveria!”.

Trancou-se em seu escritório e sentou-se no chão, colada à porta. Ela fechou os olhos
e virou a cabeça para o alto.

“Eu preciso de uma luz, já não aguento mais!” ─ Sua dor era incessante e seu pranto
foi inevitável.

Andrew foi levado ao setor sete. A área dos alojamentos era dividido em duas alas,
masculina e feminina. Ambas eram iguais, constituída de vários corredores. Ao todo, eram 50
cômodos e dois andares para cada ala. As paredes eram rochosas e a iluminação, baixa. Cada
cômodo possuía um beliche, um armário espaçoso, embutido na parede, uma televisão e um
banheiro. A decoração era toda bege e os forros de cama eram brancos. Como em todo o resto
da base, o ar condicionado central mantinha o lugar em clima ambiente.

O jovem foi direcionado até o alojamento 21, no primeiro andar. O cômodo ficaria
somente para ele. O mestiço pôs sua mochila na cama de cima e deitou na de baixo.

“É! Ela me pareceu muito preocupada. Acho que alguém da família dela está em
perigo. Isso tudo parece sufocá-la!”. ─ Ele estava cansado demais para refle r deitado e, com o
tempo, adormeceu.

**********

Marcelo corria até a sala de trabalho dos líderes. Ele tropeçava pelas escadas e chegou
ofegante à sala. Sandra e Pedro Henrique estavam lá:

─ Gente, gente! Acabei de ver Jéssica entrando em seu escritório, não me parecia
muito feliz. Acho que ela não conseguiu muita coisa do Andrew!

─ Marcelo, deixa de ser fofoqueiro rapaz! ─ Falava Sandra. ─ Qualquer informação,


você sabe que ela irá nos contar. Aliás, você sabe que o seu plantão começa daqui a pouco não
é?

─ Sim, sim. Eu vou estar aqui. ─ Ele sentou em sua cadeira para descansar. ─ Mas vocês
não sabem da maior. Eu conversei com o Andrew e ele me pareceu muito suspeito!

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─ Não acredito! Você foi incomodá-lo com sua teoria louca de que ele é um traidor? ─
Perguntou Sandra, indignada.

─ Você não pode falar nada! Vive se maquiando em qualquer lugar que esteja!

─ Ai Marcelo! Como você é exagerado, faço isso só de vez em quando… ─ Ela guardava
seu espelho de bolso que estava sobre sua mesa.

─ Ele não deu o braço a torcer, mas da próxima vez eu…

─ Marcelo! Para com essas ideias malucas de conspiração o tempo todo! ─ Dizia Pedro.
─ Quantos casos você já resolveu desse jeito?

─ Acredito que dois, mas…

─ Dois entre mil casos! ─ Gritou Pedro. ─ Vocês me deixam maluco cara!

─ Hey Pedro, não precisa ficar estressado. Inclusive tenho informações que completam
uma das ideias dele. ─ Sandra defendeu seu amigo.

─ Eu duvido! Esse cara é piradinho! Não sei como trabalha aqui ainda, ganhando o
mesmo que eu. ─ Pedro estava revoltado.

─ Você chamaria um cara de maluco se tivesse uma vida normal e alguém te contasse
que gnomos e fadas existem? ─ Perguntou Sandra. ─ Deixe o Marcelo em paz e vai refle r
nisso.

Pedro Henrique voltou ao computador, ajeitando os óculos e desprezando os outros


dois:

─ Aqui Marcelo, pode assumir que o meu turno acabou. Tem uns arquivos
interessantes para você na área de trabalho. Complete a pesquisa e reporte à Jéssica.

Marcelo carregou os dados com toques pelo monitor e abriu um sorriso ao ver o que
era:

─ Valeu Sandra! Diferente de alguns, você se importa com as pessoas. ─ Ele apontava
para Pedro.

70
Capítulo 5 - Decisão

A escuridão tomava conta do céu e logo o tempo passava, mas de dentro da DHIP não
se sentia o dia fluir, a não ser pelo relógio. Às oito horas da noite, o mestiço saía de um belo
banho quente e vestia as mesmas roupas, trocando apenas sua camisa por outra de manga
curta, toda branca. Pensava muito no assassino e queria descobrir sua relação com ele, mas
Jéssica tinha deixado claro que não havia nenhuma.

“Eu quero ajudá-la, e vou ajudar!”. ─ Ele se encorajava.

Jéssica saía de seu alojamento na ala feminina. Ela já havia cumprido seu trabalho e
descansado. Vestia uma calça jeans clara e uma camisa esverdeada, de uma das mangas caída
pelo braço. Um pingente de ouro, em formato de coração, completava seu estilo. Ela seguia
para o alojamento do seu convidado, sem saber ao certo o que dizer para ele.

“Sinto-me tão decepcionada comigo. Minhas emoções falam de mais”. ─ Ela refletia.

Andrew abriu a porta e não viu Jéssica como uma agente da DHIP pela primeira vez.
Ele viu uma bela moça, com um olhar triste que amargava seu coração. Congelou os olhos no
rosto daquela bela moça e apreciava seu sorriso, mesmo sabendo que era falso. O convite para
jantar era irresistível:

─ Sim, estou com fome mesmo. ─ Disse ele.

Jéssica notava um olhar diferente, vindo dele, mas desviava o seu:

─ Você está linda. ─ Andrew comentou.

─ Deve ser porque prendi o cabelo. ─ Ela sorriu.

─ Mas você também é linda de cabelo solto. Só precisa retirar esse sorriso triste. ─ Ele
devolveu o sorriso.

Jéssica não sabia como reagir. Sua mente desviava os problemas e se concentrava em
não revelar as bochechas avermelhadas. Sua vida adulta sempre foi cercada do trabalho e
nunca teve tempo para elogios, amigos ou prazeres da vida. Ela formulava uma resposta, ou
um simples agradecimento, mas, no momento da sua reação, o elevador se abriu:

─ Jéssica? Finalmente te encontrei! ─ Falou Luterkal, sorridente.

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─ Mais cedo ele disse que você estava morta quando perguntei de você. ─ Revelou
Wolf, cortando o sorriso do rosto de Luterkal.

─ Hey, você sabia que eu estava brincando! ─ Luterkal defendeu-se.

Jéssica apenas sorriu dos comentários e entrou no elevador, com Andrew:

─ Andrew, estes aqui são meus amigos: O comandante Luterkal e o comandante Wolf.

─ E aí garoto? Tudo bem? ─ Sorriu Luterkal, estendendo a mão.

─ Tudo. ─ Andrew cumprimentou-o.

Wolf apenas fez um gesto. Ele era alto, tinha o cabelo raspado, era muito musculoso,
pele escura e uma enorme cicatriz na bochecha esquerda. Vestia jeans, uma camisa branca e
jaqueta preta estilizada para motoqueiros.

Luterkal era muito diferente: Altura mediana, pele branca reluzente, uma feição muito
bela e jovem, com cabelos até os cotovelos, lisos e da cor castanho claro. Sua orelha
pontiaguda e maior do que a normal se destacava na cabeça. Vestia um manto preto que
escondia seu frágil corpo.

─ Eles me auxiliam quando preciso de agentes nas ruas.

─ Mas graças ao novo chefinho eu não posso mais levar minha equipe para auxiliar
Jéssica. La lik ofel. ─ Comentou Luterkal.

─ E o que seria essa úl ma frase? ─ Perguntou Andrew.

─ Eu que dei esse nome. Significa “Eliminar todos os elfos-negros”, em élfico é claro. É
como eu chamo o caso doidão da minha garotinha!

O mestiço relacionava a aparência de Luterkal com o que ele acabara de dizer e não
acreditava no que poderia ser:

─ Você é um elfo?

─ Em carne e osso! ─ Sorriu Luterkal.

─ Uau! Meu o disse uma vez que elfos são raros em algumas partes do mundo,
chegando até a serem cultuados por raças inferiores. ─ Andrew não esconda sua admiração.

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─ Se me disser alguma parte do mundo em que eu sou cultuado, corro para lá agora! ─
Ele falava empolgado ─ Sei que sou lindo e habilidoso, mas infelizmente no Brasil existem mais
de mim e eu não sou cultuado. ─ Falou a úl ma frase com melancolia.

─ Já está bom Luterkal, chega disso. ─ Cortou Jéssica, sorrindo. ─ Onde vocês dois
estavam indo?

─ Pro setor dois. ─ Respondeu Wolf, desinteressado.

─ E vocês? ─ Perguntou Luterkal.

─ Para o refeitório. ─ Respondeu Jéssica.

─ Eu e o Wolf também estamos com fome, não é Wolf? ─ Luterkal perguntou e nem
deixou tempo para que fosse respondido. ─ Podemos ir ao setor dois mais tarde. Eu estou
cheio de fome! E curioso sobre o que mais aconteceu na investigação.

─ Pode deixar que conto tudo a vocês. ─ Disse Jéssica.

─ Já te disse para não responder por mim! ─ Exclamou Wolf para Luterkal.

─ Ah vai! Eu sei que você está com fome.

─ Deu sorte e acertou dessa vez, mas não faça de novo!

─ Eu sei que eu acertei, eu sempre acerto!

O refeitório era composto por três andares. No primeiro andar, ficavam a cozinha e o
restaurante, no estilo self-service, onde bancadas enfileiradas e cheias de comida eram
posicionadas para todos se servirem à vontade. Nos outros andares ficavam as mesas, desde
duas a vinte cadeiras em cada. No terceiro andar, também existia uma sala reservada para a
diretoria e um salão de jogos.

O local era grande e luxuoso, com luminárias de vidro e piso branco. As mesas e
cadeiras eram beges e prata, tudo bem organizado no espaço.

Eram diversas as opções de alimentação: saladas, grãos, massas, carne bovina, suína e
de aves, diversas bebidas, sobremesas doces e salgadas, um verdadeiro restaurante completo.
Inclusive pratos desconhecidos por humanos existiam naquele lugar. Era tudo muito
organizado e dividido.

Andrew ficou espantado com tudo no refeitório: as variedades, a beleza, o conforto.

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“Que restaurante de primeira, digno da zona sul, entretanto abaixo da terra. Esse
lugar inteiro é genial.”. ─ Ele pensava.

Todos se sentaram juntos e interagiam entre si. As novidades circulavam na mesa e o


mestiço era o centro das atenções. Ele logo notou que Luterkal era extrovertido até demais,
enquanto Wolf era totalmente o oposto:

─ Caramba! Se fosse eu com aquele elfo-negro eu não deixaria ele vivo no asfalto! ─
Comentou Luterkal, sorrindo.

A conversa era dinâmica e todos se deram muito bem. Jéssica viveu o momento com
seus amigos. Ela contou que os conhece desde que entrou na DHIP. Andrew mostrava-se cada
vez mais empolgado com a conversa: “Uau! Wolf é um lobisomem! Também quero ser um
comandante! Caramba! Que demais!” Eram frases que podiam ser ouvidas de longe:

─ Não acredito você nunca foi à cidade subterrânea? ─ Perguntou Luterkal para
Andrew.

─ Não, meu tio só me contou algumas histórias.

─ Não sabe o que está perdendo. ─ Comentou Wolf.

─ É cara! Lá é dez! Eu vou te levar lá. Deixa comigo. ─ Luterkal empolgou-se.

As pessoas circulavam pelo refeitório, mas eles eram os únicos veteranos. Já se passou
mais de uma hora que chegaram, porém o assunto não parecia ter fim:

─ Ih gente, nem olha para trás, o presidente veio jantar aqui. ─ Luterkal apontou com
um sinal sutil.

Diego entrava com mais algumas pessoas na área exclusiva da diretoria:

─ Odeio esse cara! ─ Dizia Wolf ─ Se eu pudesse, arrancaria os membros dele.

─ Comigo ele me tratou bem, mas algo no olhar dele não era legal. ─ Disse Andrew.

─ Acredite. Ele deveria estar de bom humor. Se não, você iria odiá-lo também. ─
Luterkal exibia feições de nojo.

─ Ele adora menosprezar os outros e vangloriar-se. Dizem que só está na presidência


por causa de uma carta deixada pelo anterior, antes de morrer. ─ Falou Jéssica.

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─ É porque vocês não sabem! O pessoal do isolamento disse que agora os agentes da
zona vermelha não circulam mais. Foi decretado por ele que quem trabalha lá não pode ter
contato com mais ninguém. ─ Falou Luterkal.

─ Essa eu não sabia ─ Jéssica estava surpresa.

─ O lugar se tornou independente. Diz o Diego que melhora a segurança ainda mais. ─
Continuou Luterkal.

─ Ainda bem que eu não aceitei trabalhar lá no ano passado. ─ Comentou Wolf.

─ E você Jéssica? Está melhor? ─ Indagou Luterkal.

─ Acredito que vocês me fazem esquecer os problemas. Temporariamente.

─ Então, ainda não está melhor. ─ Dizia Luterkal, sorrindo. ─ As respostas tem seu
tempo para aparecer querida! Você verá que suas perguntas terão solução.

─ Obrigada. ─ Ela sorriu e levantou-se. ─ Pessoal, vou ao banheiro e já volto.

Ela já estava distante, quando Luterkal decidiu continuar a conversa:

─ Quer dizer que ela te trouxe aqui e não conseguiu nada.

─ De certa forma foi assim mesmo.

─ Jéssica, Jéssica. ─ Lamentou Luterkal. ─ Ela está deixando a emoção levar a situação.
Ela estava tão bem antes do aviso.

─ Aviso? Que aviso?

─ Ih! Pelo visto falei de mais. ─ Sorriu Luterkal. ─ Ela não age por impulso. É uma das
melhores investigadoras daqui, mas depois de uma filmagem que ela recebeu, nunca mais vi a
antiga Jéssica. É só o que eu sei.

Andrew ficou pensativo, ele não sabia dessa filmagem e suas conclusões sobre a forma
dela agir estavam corretas. Realmente ela estava preocupada com algo.

“Por isso ela sempre parece estressada com esse assunto”.

Jéssica voltou diferente do banheiro. Seu sorriso não estava como antes, nem seu tom
de voz. A conversa foi rápida depois daquele momento:

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─ Vamos Luterkal. Já faz uma hora e meia que estamos aqui. ─ Disse Wolf.

─ É gente, eu tenho que ir. Foi muito bom conhecer você Andrew e eu vou te levar na
cidade subterrânea. Pode esperar que eu vou aparecer de surpresa, mestiço! ─ Disse Luterkal,
partindo com Wolf.

─ Valeu! ─ Respondeu Andrew.

─ Sempre gostei de trabalhar com eles. São excelentes e competentes, além de bons
amigos. ─ Jéssica comentou.

─ Parecem mesmo.

─ Mas, voltando à realidade, vamos ao meu escritório. Tenho uma notícia para você.

No caminho, predominou o silêncio. O jovem queria descobrir o que incomodava tanto


aquela bela mulher e não parava de pensar em hipóteses.

Jéssica, por outro lado, pensava em como dizer a nova notícia. O percurso foi
interrompido quando se encontraram com Pedro Henrique e Sandra, já no setor seis:

─ Boa noite Jéssica. ─ Eles falaram.

─ Boa noite pessoal, esse aqui é o Andrew, o fugi vo de ontem.

─ Prazer em conhecê-lo. ─ Disse Pedro Henrique, cumprimentando-o.

─ É verdade o que Jéssica me disse? Você é um mestiço do fogo mesmo?estávamos


certos? ─ Perguntava Sandra.

─ Sim, eu sou.

─ Você sabia que existe, no mundo inteiro, cerca de cinco mil mestiços e por isso a
terra sofre desastres naturais?

─ É, eu sabia que era responsável por parte do equilíbrio, mas que exis am tão poucos,
eu não sabia. ─ Andrew sorria, sem jeito.

─ Sabia também que quando um mestiço morre ou nasce algum desastre ou algo
sobrenatural acontece?

─ Sim, disso eu sabia. – Andrew já se sentia pressionado.

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─ Chega Sandra! O garoto já sabe que você pesquisou tudo sobre ele! E também, é
claro que ele já sabe dessas coisas, ele é um mestiço! ─ Pedro Henrique irritava-se.

─ Calma gente. Sem estresse. Já não basta eu. ─ Jéssica amenizava.

─ Só estou querendo dizer que você tem muita responsabilidade, é forte por ser o
único sobrevivente, é único porque existem poucos de você e é bonitinho! Sou sua fã! ─ E
soltou um belo sorriso.

Andrew não sabia como reagir com o olhar de Sandra. Ela demonstrou interesse
abertamente:

─ É... Nem sei o que dizer. ─ Ele desviou o olhar.

─ Olha só. ─ Ela chegou próximo ao seu ouvido. ─ Eu gostei muito de você, quando
tiver um tempo, me liga! ─ E colocou um papel no bolso dele.

─ Deixa de ser a rada! ─ Falou Pedro, indignado. ─ Eu vou voltar para o meu trabalho.
É o melhor que eu faço! Foi bom te conhecer Andrew.

Jéssica sorriu de lado com a atitude de Sandra, mas queria logo chegar a seu escritório:

─ Tá bom Sandra, já chega de tarar o rapaz! Nós temos que ir.

─ Me liga! ─ Ela riu, enquanto sussurrava para Andrew, já distante.

─ Que pessoal que você tem aqui hein? ─ Comentou Andrew já no escritório dela.

─ Eles são um pouco malucos, mas só assim para trabalhar aqui. ─ Ela respondeu com
um sorriso. ─ Os conheço há bastante tempo, todos são mais antigos do que eu. O mais normal
e prestativo é Pedro Henrique. Ele está sempre concentrado no trabalho. Mas isso não vem ao
caso agora. Tenho que ser franca com você.

─ Pode falar.

─ Eu lhe trouxe aqui hoje agindo por impulso e sendo precipitada. Eu pensei que você
sabia de algo importante para me ajudar, mas realmente foi falha minha lhe trazer aqui, como
Diego me disse da forma dele. Se tivesse pensado melhor, lhe faria essas perguntas na sua
casa e agora não estaria passando por isso.

Jéssica retirou um envelope e uma caixinha preta de uma das gavetas e pôs sobre a
mesa. Andrew apenas a deixava falar, esperando o momento certo para se pronunciar:

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─ Esse envelope contem dois mil reais em dinheiro como forma de gra dão por ter
vindo aqui e, nessa caixa, dois comprimidos de regressão. Se você engoli-los, daqui a algumas
horas não se lembrará de nada que aconteceu por aqui e muito menos do ataque que sofreu.
Vai voltar a ter uma vida normal e esquecer esse assunto. Desculpe, mas esses são os
procedimentos da empresa.

─ Jéssica, tudo bem, você pode estar certa em ter se precipitado, mas você me
ofereceu as pílulas tarde de mais. Devia ter me oferecido isso quando foi à minha casa. Agora
você me envolveu em tudo que eu sempre quis. Viver uma vida de aventuras e desafios. Eu sei
que sou capaz de fazer muito mais pela sociedade do que ser um humano, e você me mostrou
isso com toda essa instalação e pessoas daqui. Eu quero viver o presente e, mesmo não
acreditando muito em destino, eu acho que eu não estou aqui por acaso. Sei que posso ser
útil.

─ Andrew, você está confundindo as coisas...

─ Não Jéssica. ─ Interrompeu ele. ─ Eu não te conheço direito, mas olhe para si mesma.
Sua pele está pálida, sinal que não anda se alimentando bem. Você tenta disfarçar, mas vejo
suas olheiras. É sinal que não dorme direito há dias. Eu sinto as energias de seu corpo em
níveis baixos. Você está totalmente desesperada e não está sendo sincera como disse que ia
ser. Você pode me contar a verdade? Eu sei que tem algo mais!

─ Tudo bem. ─ Ela se exaltou ─ Vou te contar todo o resto!

Andrew esperou sentado enquanto Jéssica rondava por seus dados pelos monitores.
Ao encontrar o que queria, ela virou a imagem dos monitores transparentes, para que o
mestiço visualizasse:

─ Há quatro dias fizemos esta gravação.

Andrew assistia ao vídeo. Era em uma rua do centro da cidade, no Méier, por volta das
02:30 da manhã. Um ninja, vestido do mesmo jeito daquele que lhe atacou, esfaqueava uma
mulher na calçada. A jovem, enquanto morria, liberou suas asas de anjo, que foram se
desfazendo. Logo após, o ninja retirou o capuz e olhou diretamente para a câmera: era um
elfo-negro. Ele molhou a faca no sangue do anjo e começou a escrever algo no chão, de costas
para a câmera. Ao sair da frente, era nítido o que estava escrito: “Jéssica”. Andrew arrepiou-
se. Em seguida, o elfo-negro olhou para a câmera e sorriu, arremessando a faca e terminando
com a filmagem.

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─ Faz quatro dias que durmo nos alojamentos daqui. Quatro dias que eu não faço nada
do que disse. Você tem razão, eu estou estourando por dentro. ─ Seus olhos se encheram de
lágrimas. ─ Ele sabia o posicionamento da câmera, ele sabia o meu nome e me fez essa
ameaça. Pior é que uma das teorias loucas do Marcelo, depois disso, fez todo sentido. Ele
acredita que alguém da empresa está envolvido e esses são os últimos dados que ele me
forneceu.

Andrew lia o documento em que constavam 93% dos mortos, cadastrados no banco de
dados da empresa:

─ Isso sugere que algum interno fornece dados aos assassinos. ─ Disse Andrew.

─ Isso é a melhor das hipóteses! A pessoa pode estar mais envolvida. Essa coisa toda é
muito maior do que eu! Não sei mais o que fazer.

Andrew percebeu que Jéssica tinha motivos suficientes para abandonar tudo e só
poderia contar com quem realmente ela julgasse confiável. Ela estava encurralada.

─ Isso já está muito perigoso e o interno já sabe que estou atrás dele. A minha vida
corre risco e não adianta tentar fugir. Não existe nenhum lugar seguro. Eu estou
comprometida e a empresa também.

Ela não aguentava mais e enxugava as lágrimas que desciam pelo rosto,
descontroladamente. Andrew foi abraçá-la:

─ Você devia ter contado tudo isso antes, pode confiar em mim, serei de grande ajuda.
Não quero dinheiro em troca, só quero ficar aqui e ajudá-la. Eu vim de fora, pode contar
comigo.

─ Tudo bem, eu vejo para você uma maneira de te deixar aqui. Obrigada.

Fazia muito tempo que Jéssica precisava desabafar e escolheu aquele momento para
expulsar tudo o que estava preso. Ela chorava descontrolada com um conhecido de horas
atrás. Sempre mostrava-se forte para todos, mas com esse ser, com essa pessoa, ela não
conseguiu se conter. Em seu profundo, sentia estranhamente que podia confiar no novato.

O mestiço confortava o coração da moça com palavras solidárias. Ele nunca teve tal
experiência com pessoas e nunca encontrou alguém tão depressiva quanto Jéssica estava. Sua
vontade em ajudá-la era tremenda, uma sensação fora do comum. Algo o atraía para ela e
nem mesmo ele sabia dizer o motivo.

79
Depois de algum tempo, Andrew ajudou-a a organizar a investigação. A noite parecia
longe de terminar.

80
Capítulo 6 – O mundo Planar

O dia seguinte começou cedo para Andrew. Assim que amanheceu, Luterkal e Wolf
apareceram para carregá-lo à cidade subterrânea. Sua vontade de conhecer como funcionava
o outro mundo lhe encorajou, pois havia dormido menos que três horas. Luterkal ajudava
ainda mais em despertar sua curiosidade:

─ O que você sabe sobre as cidades subterrâneas? ─ Perguntou Luterkal.

─ Cidades subterrâneas? Pensava que era apenas uma. ─ Respondeu Andrew.

─ Pelo visto você não sabe de nada! ─ Ele sorriu. ─ Vou explicar a história que é
contada aqui. Há muitos anos, quando os humanos baniram diversas raças do Sol, o mundo
das criaturas desabou e tudo estava sendo destruído rapidamente. Todo dia, milhares de
criaturas eram mortas pela luz solar e ninguém podia impedir. Em meros cinco dias,
incontáveis raças entraram em extinção. As mais inteligentes esconderam-se em cavernas.
Qualquer lugar onde o clarão do dia não penetrasse era o suficiente para parar o
ressecamento do corpo.

O grupo chegava ao isolamento. O local era apenas como um buraco iluminado, de


base plana, com proporções gigantescas. Em um dos lados, existia um elevador extremamente
largo, com uma luz vermelha acima dele. Estava fortemente protegido. No lado oposto a esse
elevador, havia uma sala com luz verde em cima da porta. Ao centro do pavimento,
posicionados pelas paredes, ficavam os gigantes elevadores.

Enquanto eles saíam de um elevador e caminhavam em direção à luz verde, Luterkal


continuou:

─ Com o passar dos anos, essas raças inteligentes reagruparam-se em colônias nas
cavernas e continuaram suas vidas. Até que um grupo com cinco magos acharam uma solução:
Criar um mundo parecido com a terra, parecido com o lugar que viviam antes. Só que uma das
grandes dificuldades era conseguir tal energia mágica. Diz a lenda, que nem a magia de todos
os seres mágicos do mundo era capaz de suportar tal criação. Com mais anos de pesquisa,
descobriu-se que a lava possuía grande força mágica condensada. Só faltava descobrir como
extraí-la e como conseguir muito magma...

─ Luterkal, que história doida é essa de magma? ─ Interrompeu Wolf.

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─ É a história verdadeira, oras!

─ Já discu mos várias vezes que são várias as histórias antigas sobre onde eles
conseguiram a energia. Não empurra essa para o garoto.

─ Tudo bem, tudo bem. Não se sabe ao certo de onde conseguiram a energia, mas meu
pai me contava que foi do magma. Bom, o que importa é que conseguiram e criaram um
universo igual à terra, só que em outro plano.

─ Outro plano? Um mundo fora daqui? Pensei que fosse no subterrâneo mesmo. ─
Perguntou Andrew.

─ Não, não fica no subsolo. Essa cidade foi criada em um plano astral, conectado à
terra por buracos negros. O local inteiro deve ser do tamanho da América do Sul, espaço
suficiente, por enquanto, para acumular tudo o que não é humano.

─ Se é projeção astral, por que é chamado de cidade subterrânea então?

─ Porque todas as entradas para esse plano estão em cavernas por todo mundo. ─
Luterkal desviou o olhar para seu amigo. ─ A parte chata da história é com Wolf.

Todos estavam tão distraídos conversando sobre o outro mundo que já haviam
chegado na porta sinalizada com luz verde e ficaram do lado de fora até concluírem o assunto:

─ Essa que é a parte interessante. A que temos certeza que aconteceu. ─ Ele retrucou.
─ Depois do mundo criado, a primeira cidade e a mais evoluída da atualidade foi governada
por cinco reis, os criadores do mundo: Valkah – mestiço e mago da luz; Nevielle – elfa e mago
Elemental; Trix – Gnomo e mago ilusionista; Acmerk – Goblin e mago das trevas; Kinathar –
Ralfing e mago planar. O nome da cidade é Nordew llelive, traduzido do elfo fica cidade do
novo mundo. Com os anos,, outras cidades surgiram. Aonde vamos agora é Vennah, cidade do
rei anão. Algumas coisas são difíceis aqui. Eles acreditam que os humanos criaram coisas
inúteis para nossa sociedade, por não serem mágicos. Além de odiarem tudo o que os
humanos inventem, pregam muito mais pelo natural, então, não estranhe armas medievais e
cavalos.

─ Que legal! Não vejo a hora de conhecer tudo! ─ Andrew estava eufórico.

─ Rá! Você está exagerando. Algumas coisas dos humanos são bem úteis. Comida
enlatada por exemplo.

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─ Luterkal, não começa de novo. Além do mais, não podemos levar humanos nem
coisas humanas para lá. Os humanos não são seres mágicos e somente seres mágicos
conseguem atravessar para o outro plano.

─ Mas tem cavalos lá! Eles não são mágicos. ─ Disse Andrew.

─ São parecidos com os daqui, mas são raças mágicas. ─ Respondeu Wolf.

─ E se levarem coisas humanas?

─ Somos decapitados na maioria das cidades, menos na cidade dos Goblins. Eles
adoram contrabandear peças humanas! ─ Luterkal apontava para a porta. ─ Vamos entrar?

A sala de luz verde era um laboratório de proporções comuns, com muitos aparelhos
espalhados nas bancadas. O responsável do laboratório era o senhor Helton Cunha, um
humano dotado de uma inteligência inquestionável.

─ Senhor Helton! Senhor Helton! ─ Chamava Luterkal.

Ao que levantou de trás da última bancada, era um tipo franzino de óculos e cabelos
brancos.

─ Quem me procura a esta hora? Quem? Responda rápido!

─ Não se preocupe, sou eu, Luterkal.

─ Oh! Perdão. Deixe-me trocar de óculos. Estava testando meus novos óculos
projetores. Conseguem projetar o lado espiritual de qualquer coisa, como se pudéssemos ver o
mundo dos espíritos! Fascinante!

─ Relaxa Andrew. Como todo mundo desse lugar, ele é maluco, mas é confiável,
entretanto desconfio que ele seja o único maluco de verdade. Ele se mantém lúcido até querer
retirar o seu sangue. ─ Luterkal sorriu.

Andrew adquiria cada vez mais conhecimento. Essa nova fase de aventura em sua vida
era espetacular. A cada novidade, sua vontade de continuar nessa situação aumentava. Desde
o principio, se sentiu bem acolhido por todos que conheceu:

─ Olá Luterkal, olá Gregório. ─ Cumprimentou Helton.

─ Pela milésima vez! Meu nome aqui é Wolf!

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─ Teoricamente seu nome em qualquer lugar será Gregório, mas vou tentar te chamar
de Wolf. Enfim, prefiro Gregório.

─ Helton, Helton. O velho de sempre! ─ Dizia Luterkal. ─ Viemos aqui para usar o
portal.

─ O portal? Sim, sim! Vamos ao fim do laboratório. Posso saber o mo vo? Eu sempre


gosto de saber o motivo. E quem é esse aí?

─ Você sempre gosta de saber o motivo, coordenadas, como é o lugar, tudo para
preencher os seus mapas. Esse daqui é o Andrew, viemos apenas para dar uma volta por lá.

─ Hum, Andrew. ─ Ele analisava-o enquanto andava de costas. ─ Mas não é humano?

─ Não, sou mestiço.

─ Hum, interessante. Tome cuidado. Lá eles odeiam quem se parece com humano.

─ Não põe medo nele. Nós apenas vamos a Vennah. ─ Falou Wolf.

─ Ah sim! Vennah. Lá não tem problemas. A propósito, quando voltarem, posso retirar
uma amostra do mestiço? Será de grande importância!

─ Se ele concordar. ─ Disse Luterkal, duvidoso.

Andrew não respondeu. Sua percepção sobre Helton era óbvia: “Completamente
insano”. Enquanto o cientista maluco fazia os preparativos da viajem, o jovem aproveitou para
desfrutar de sabedoria:

─ Como vocês encontraram esse portal aqui?

─ Eu não encontrei. Eu criei! Há anos que estudo magia e fui contratado para cuidar do
portal do mundo mágico. O portal é uma ciência do buraco negro. Se concentrar massa e
gravidade corretamente, ele te levará direto ao outro plano. Caso contrário, você será
desfragmentado. ─ Ele deu uma pausa. ─ Não se preocupe, é seguro, se não for humano.

Helton ligava uma grande máquina totalmente fechada a um computador central.


Depois de tudo estabelecido e funcionando corretamente, ele abriu o compartimento da
máquina e desejou boa viajem. Por fora, a máquina era constituída de cabos entrelaçados e
algum metal de excelente material. Por dentro, era tudo escuro, porém espaçoso.

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Os viajantes logo viram um corredor estrelado e seguiram. Ao abrirem a porta, ao final
do corredor, estavam em uma espécie de alojamento. Era um lugar pequeno, mas ajeitado.
Existiam armários com roupas da região, comida, água, cama, banheiro e a máquina para
voltar.

─ E aí? Gostou da viajem? ─ Perguntou Wolf, dando tapas de leve nas costas do
novato.

─ Posso dizer que estou um pouco enjoado, mas sen como se nada es vesse
acontecendo.

─ É. Esse enjoo é natural de início.

─ Vamos pessoal! Troquem-se. Eu já me visto a caráter. ─ Disse Luterkal.

Andrew procurou por algo que encaixasse em seu estilo de combate e raça. Encontrou
um traje leve, feito em linho. O conjunto era marrom e preto. Wolf vestiu-se com um manto,
parecido com o que Luterkal usava.

─ Agora estamos misturados! ─ Comentou Luterkal.

O mestiço mal via a hora de sair. Seu estômago embrulhava, mas poderia ser tanto
ansiedade quanto da viajem. Só o tempo poderia dizer.

Eles subiram as escadas e abriram uma porta. A porta era perfeitamente camuflada em
uma grande rocha cheia de musgos. Estavam em uma floresta:

─ Seja bem vindo à floresta de Vennah. ─ Desejou Luterkal.

O lugar era de mata densa e grandes árvores. Sons de animais deixavam tudo
extremamente natural, sem nenhuma poluição. O verde era encantador:

─ Vamos logo para a trilha. Não queremos encontrar nenhuma monstruosidade aqui. ─
Falou Wolf, assumindo a liderança.

─ Ele adora se sen r chefe aqui em baixo. ─ Murmurou Luterkal para Andrew.

Caminharam alguns minutos até encontrar a trilha. O novato observava cada canto por
onde passavam. Era tudo perfeitamente igual à terra: o ar, o sol, o céu. Uma duplicação.

─ Porque aqui o sol não te mata?

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─ Aqui tudo é mágico, tudo é ar ficial. Esse sol apenas é uma fonte de calor, como uma
fogueira. Ele não emite raios ultravioletas, nosso assassino real.

─ E o céu? É verdadeiro?

─ Tudo aqui é verdadeiro, porém mágico. E com certa limitação. Algumas


desconhecidas, como o universo daqui.

─ Hey, seus molengas! Andem mais rápido! Quero logo tomar uma cerveja! ─ Gritou
Wolf, mais à frente.

Ao longe, muralhas de pedra se erguiam mais alto que as árvores. Era um sinal de que
a cidade se aproximava. Uma carroça escoltada saía da cidade assim que chegavam: Os
soldados utilizavam armaduras prateadas, com símbolos em vermelho. Eram pequenos, porém
largos e fortes. A maioria usava barba trançada e todos de cabelos longos e crespos. O mesmo
tipo de soldados também fazia a segurança do portão. Na copa das árvores, outra raça,
utilizando roupas leves, arcos e flechas faziam parte da segurança camuflada:

─ São todos anões. Essa é quase a cidade dos pequeninos monstruosos! ─ Luterkal
sorria enquanto murmurava.

─ Mas essa raça não é semi-humana? Porque vivem aqui? ─ Perguntou Andrew.

─ Anões, halfings, gnomos, e outras mais são todas raças semi-humanas, mas os
humanos fizeram a maioria delas de escravos ou aberrações para diversão, principalmente
depois do apagão. Por isso vivem aqui e odeiam semelhanças com humanos.

─ Entendo.

O portão de entrada era grande, possuindo uma entrada menor ao lado, todo feito de
madeira. Precisava de seis anões para fechá-lo.

─ Eímai Gregório, o gios tou Glenn, kai aftoí eínai oi fíloi mou.

─ O que ele disse? Foi Elliniká? ─ Sussurrou Andrew.

─ sim, sim, a língua comum entre todas as raças. ─ Comentou Luterkal.

Elliniká era uma língua antiga e escondida dos humanos após o apagão, palavra
utilizada pelas raças para designar o momento em que os humanos se esqueceram do
passado. A língua sempre foi conhecida entre todas as raças como a língua unificada, o idioma

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que todos compartilham. Geralmente, as crianças de qualquer raça eram instruídas desde
pequenas a falarem dois idiomas: Elliniká e o idioma nativo da raça. Os únicos vestígios da
Antiga linguagem unificada conhecidos pelo homem era o idioma Grego, derivado do Elliniká.

O porteiro anão olhou fundo nos olhos de cada um e permitiu a entrada. O pai de
Wolf, Glenn Valentins, foi um grande aventureiro e era conhecido em várias cidades do mundo
astral. Wolf também já era conhecido em Vennah. Ele, sempre que tinha tempo, vinha visitar
um velho amigo da taverna.

A cidade era uma extensão da floresta, murada e protegida. Possuía uma área
descampada com uma estátua do rei anão e alguns bancos, como uma praça, logo após a
entrada. O chão era de terra e grama, com terreno sinuoso. A vegetação atrapalhava a visão
de outras áreas ao longe. Eram vários caminhos a seguir, interconectados às vezes por uma rua
principal descampada onde passavam carroças. Os becos que as propriedades criavam,
lembravam as favelas do Rio de Janeiro em uma região totalmente natural. As casas eram de
madeira, as melhores de pedra, já constituídas de musgo.

O mestiço já estava cansado de caminhar pelos morros e ruas estreitas, porém o


entusiasmo com as novidades parecia nunca cessar. Por um dos becos que passaram, pôde-se
enxergar o castelo de pedra, com imensas bandeiras nas torres. Em esquinas, encontravam
alguns bardos tocando feitos heroicos do passado. “Tudo como nos filmes”. Pensou Andrew.

O Comércio da região era feito em maioria por Goblins ambulantes, criaturas


pequenas e esverdeadas, com orelhas, olhos e nariz grandes. Diversas outras raças também
viviam suas vidas normalmente em Vennah, dentre elas gnomos e halfings:

─ Chegamos! ─ Expressou Wolf. ─ A taverna do halfing.

O lugar era escondido dentre árvores e moitas. Era uma rocha baixa, porém larga, com
um paredão logo atrás. Sobre a porta, estava escrito o que Wolf disse. As mesas eram feitas
em madeira, parecia um bar elegante de Copacabana com um toque especial.

Wolf entrou gritando por Tinty, ao que lhe respondeu de trás do balcão, um
homenzinho bem peludo. Enquanto conversavam, Andrew e Luterkal sentaram-se em uma das
mesas. Quem já estava lá, analisava os novos visitantes:

─ Não olhe fixamente para ninguém. Se quiser evitar confusão, siga esse conselho. ─
Murmurou Luterkal.

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─ Tudo bem. ─ Respondeu Andrew.

─ Afinal, a maioria deles tem um passado de batalhas e sobrevivências. São arrogantes


e ignorantes por instinto.

─ Pessoal, cerveja para todos! ─ Disse Wolf ao chegar com Tinty e vários canecões.

─ Géia. ─ Cumprimentou Tinty.

─ Géia sou. ─ Respondeu Luterkal.

─ Oi Andrew. ─ Falava Tinty com muita dificuldade. ─ Falo bem pouco português.

─ Oi. ─ Ele respondeu.

─ Vocês conversar português baixo. Ninguém poder ouvir. ─ Tinty alertou.

Andrew fez sinal positivo e pôs-se a beber. Ele sentia o ambiente diferente da cidade
normal. Era um ambiente perfeito. “A terra deveria ter esse ar puro”. Ele pensava.

─ E aí? O que você está achando? ─ Perguntou Luterkal.

─ Olha, vou ser sincero com vocês. ─ Ele deu uma pausa. ─ A cerveja daqui é bem
melhor! ─ Todos riram.

Era impossível esconder que ele estava maravilhado com tudo. Era o ambiente que
sempre sonhou em viver, uma vida de aventuras em um lugar implacável. O dia passou
rapidamente e o passeio demorou até ás quatro horas da tarde. Conheceram mais a cidade e
caminharam pelas florestas, caçando monstros, porém sem sucesso. Um dia fora do comum.

Jéssica descansou o máximo que pôde e trabalhou pela noite. Sua cabeça doía menos
e sua concentração e senso se tornavam cada vez mais apurados. Extravasar na noite anterior
ajudou-lhe a recuperar suas aptidões. Afinal, ela agora sentia-se menos sobrecarregada e com
alguém que ela estranhamente confiava.

Andrew passou o resto do dia em seu alojamento, aguardando algo acontecer ou


Jéssica lhe chamar. Já era tarde quando pensou em ligar para seu tio:

─ Alô Carlos?

─ Andrew! Quanto tempo meu garoto!

─ Desculpa tio, minha vida estava meio ocupada.

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─ Não tem problemas, eu entendo como deve ser. Tudo bem com você?

─ Tudo sim! Com muitas novidades para lhe contar, nem sabe no que me envolvi.

─ Estou sofrendo de curiosidade. Conte. ─ Disse Carlos, sorrindo.

Os dois possuíam uma forte ligação, como pai e filho. A conversa era dinâmica, com
gargalhadas de ambos. Andrew contou todos os detalhes do que se envolvera desde dois dias
atrás. Deu ênfase em sua visita ao mundo subterrâneo e seus novos amigos. O modo como
contava suas histórias era contagiante. Carlos podia sentir como ele estava empolgado. “O
comércio deles é feito por moedas de ouro, prata e bronze. Os Goblins são realmente verdes!”
eram algumas frases que ele dizia.

─ Vejo que está adorando esses dias.

─ Com certeza. Quero muito ajudar essa garota. O olhar dela era tão desesperado, não
podia abandoná-la.

─ Olhar desesperado ou cativante?

─ Desesperado, eu acho. ─ Andrew sorriu.

─ Bem Andrew, eu espero que você se cuide e sempre faça o que gostar! Viva sua vida,
é isso que está fazendo.

─ Obrigado tio, pode deixar que eu te manterei informado.

─ Obrigado você por ligar! ─ Exclamou Carlos.

─ Se precisar da sua ajuda eu passo por ai. ─ Disse Andrew.

─ Estarei esperando de portas abertas.

─ Tchau.

─ Até.

Carlos desligou o telefone e voltou sua atenção para a televisão. Como o de costume,
estava com seu velho quimono branco e fumando. A sala onde estava era o cômodo principal
da casa e fazia ligação com dois quartos, uma cozinha, um banheiro, a varanda e os fundos.
Tinha tudo que precisava para viver.

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Não demorou muito tempo após a ligação e Carlos notou algo diferente. A rua estava
tão silenciosa que a chegada de dois veículos descreveu exatamente a posição em que
pararam, em frente à sua casa. Todas as portas se abriram e fecharam, mas os passos eram
rápidos e pouco perceptíveis. Carlos sorriu e acendeu um outro cigarro. Em um piscar de olhos,
alguém apareceu de pé, por trás dele. Olhos avermelhados e vestimenta shinobi, era um ninja.

Os movimentos do elfo negro eram sorrateiros e imperceptíveis. Estava com uma


kunai, pronto para atacar. Seu ataque foi rápido, mas Carlos já havia percebido sua presença e
desviou, golpeando sua cabeça com a palma da mão.

─ Quem é você? ─ Perguntou Carlos, fumando.

O ninja não respondeu e atacou novamente. Carlos evitou o golpe, desarmou o ninja e
puxou sua máscara, revelando o rosto com bolhas de queimadura.

Carlos acabou de receber a notícia sobre o ninja e ele já se encontrava em sua


residência. O elfo-negro soltou-se a afastou-se, sacando uma espada longa.

─ Quem é você? ─ Dessa vez, Carlos perguntou em Elliniká.

O elfo-negro ficou receoso em responder ou mesmo atacar, mas ajeitou a espada nas
mãos e disse em Elliniká:

─ Sou quem foi enviado para te matar!

O ninja correu para atacar e Carlos sorriu. Ele simplesmente deu um passo para trás e
uma parede de fogo surgiu em seu lugar, começando a surgir pelo seu cigarro. O elfo-negro
parou e recuou até a barreira sumir. Carlos estava lá, ainda fumando.

─ Quem te mandou para me matar? ─ Perguntou ele, ainda em Elliniká.

─ Não interessa quem foi. Me interessa ser bem sucedido!

A batalha era constrangedora para o elfo-negro. Carlos desviava de todos os seus


golpes ou contra atacava. Ele retirava toda a energia do atacante.

Fora da casa, alguém de terno e gravata estava sentado em cima do carro.


Decepcionado com a demora do ninja, ele fez sinal para outros entrarem.

Carlos ficou cercado por pelo menos dez elfos-negros. Sua sala estava sem espaço. De
fora, o ser ficava inquieto, impaciente com a demora da execução e decidiu intervir:

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─ Elfos de merda! Eu mesmo faço isso. ─ E entrou pela porta da frente.

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Capítulo 7 – Desafios e soluções

Os dias cruzavam o céu rapidamente e a rede de monitoramento da DHIP não


registrava nada sobre o caso “extinção”, como Jéssica chamava.

As cidades subterrâneas foram o principal foco do tempo que se passou. O mestiço


visitava o outro mundo todo dia, sempre com seus novos amigos, Luterkal e Wolf. Cruzavam
experiências, bebiam e caçavam. Era a vida de aventuras que o jovem Andrew sempre quis.
Seus amigos tinham cada vez mais vontade em levá-lo no outro mundo somente para
desfrutar daquele olhar sincero e curioso que o novato exibia.

Além das visitas ao plano paralelo, Andrew acompanhava Jéssica em sua rotina
investigativa. Aos poucos, ajudava ainda mais a resgatar a confiança e habilidades daquela
moça. A proximidade entre os dois auxiliava ambos a melhorar diversos comportamentos.
Andrew sentia-se preocupado com alguém além dele, preocupava-se com Jéssica, que por sua
vez recuperava seu lado social e perdia o medo de ser a real Jéssica.

Em alguns dias, investigadora e mestiço estavam tão próximos quanto velhos amigos.
Então, Andrew decidiu fazer uma surpresa. Ele guiava Jéssica ,pelo elevador, para algum lugar:

─ Não abra os olhos, senão vai estragar a surpresa! ─ Disse ele.

─ Tudo bem, não vou abrir, mas me diga: Como conseguiu acesso ao elevador?

─Depois de uma semana aqui, já consegui meus contatos. ─ Eles riram.

─ Aposto que foi Luterkal.

Andrew foi direcionando-a pelo lugar:

─ Aqui está ventando muito! Está frio também. ─ Ela reclamava.

─ Relaxa! Daqui a pouco você esquecerá o frio. Já pode abrir os olhos.

E lá estavam, no alto do cristo redentor, revelando a belíssima visão da cidade


maravilhosa noturna. Todas as luzes deixavam a paisagem exuberante. O silêncio ambiente
também completava o esplendor da cidade. Era indescritível a sensação daquele momento:

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─ Luterkal me disse que esse elevador vinha até aqui. Aposto que nunca veio aqui de
noite, com o cristo redentor só para você. Sempre anda preocupada com o trabalho e esquece
de aproveitar sua vida, de aproveitar até o próprio lazer que seu trabalho lhe cede.

─ Nossa Andrew! Isso daqui é demais! Obrigada. ─ Ela respondeu, maravilhada.

O cristo redentor estava lá, ao lado dos dois, uma das grandes maravilhas do mundo e
o ponto turístico mais famoso do Rio de Janeiro, somente para eles. A grandiosa estátua da
maior figura religiosa mundial dos humanos era posicionada de braços abertos
horizontalmente e iluminada por muitos holofotes na base. A estátua era impressionante e o
ambiente também:

─ Vislumbre só para você o grande salvador dos humanos. ─ Andrew apontou para a
estátua.

─ É lindo demais. Tudo aqui de cima é lindo! ─ Ela ainda iludia-se com a beleza. ─ Muito
obrigada Andrew, eu nunca tinha vindo aqui em cima e como primeira vez estar aqui, com
tudo isso só para mim, está sendo incomparável.

Jéssica rondava o lugar, observando cada canto, cada paisagem oferecida pelo pico. Se
impressionava com tudo que podia ser visto.

O jovem, por sua vez, felicitava-se em visualizar tamanha alegria da sua amiga. Ele a
seguia em todos os cantos e contava qual era o lugar que viam dali:

─ Sabe o que eu lembrei agora? ─ Falava Jéssica enquanto estavam debruçados na


proteção. ─ Que depois de amanhã é o aniversário de alguém! De quem será hein? ─ Ela sorriu.

─ Pois é! Dia oito de maio. ─ Ele devolveu o sorriso.

─ Já pensou no que vai fazer?

─ Acho que não vou fazer nada. A melhor fase da minha vida já está acontecendo.
Luterkal, Wolf, essa base. Meu aniversário é ao lado de vocês, principalmente ao seu, te
ajudando a manter sempre esse sorriso lindo que você está fazendo agora.

─ Ah, não fala isso assim que eu…

Um leve toque de suas mãos fez despertar um sentimento diferente. Eles se olharam
no olhos, olhos sinceros de ambos. O arrepio no corpo não era pelo frio e o impulso para se
aproximarem não foi instinto:

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─ Obrigada pelos úl mos dias. Foram maravilhosos. ─ Ela sussurrou.

─ Xiiih… Não precisa agradecer. ─ Ele re rava o cabelo dela do rosto.

Seus lábios convidavam-se de uma forma inevitável. A aproximação, o calor do corpo,


tudo era agradável, o momento de esquecer tudo e sentir um ao outro. Mas na hora do beijo,
o comunicador de Jéssica tocou e a timidez foi ao extremo:

─ É… desculpa… eu tenho… tenho que atender. ─ Ela sorria, sem jeito.

─ Tudo bem, sem problemas. Era só um… abraço que... ─ Falou Andrew, olhando para
o outro lado.

Era Pedro Henrique na chamada com uma notícia que mudaria o curso da noite:

─ Rápido! Vamos ao setor seis! Pedro avistou um ataque!

O lugar do ocorrido era a favela da rocinha, região dominada por traficantes de armas
e drogas. As construções mal feitas e inacabadas transformavam as ruas e passagens da
comunidade em becos labirínticos, conhecidos somente por moradores do local. Além disso,
coleta de lixo e saneamento básico eram escassos, o que deixava o ambiente sujo e fedido em
vários pontos do bairro.

Na filmagem, a câmera estava posicionada no alto de uma grande árvore frutífera, na


entrada da favela, e dava boa visibilidade do local. Por cima dos telhados e terraços, dois
vultos mexiam-se rapidamente. Ao congelar e aproximar a imagem, Pedro Henrique havia
notado a vestimenta shinobi e por isso chamara sua chefe:

─ Iden ficamos via satélite e gravamos essas imagens. ─ Disse ele.

─ Sim, são eles mesmos. Precisamos agir rápido. Trace o percurso seguido e identifique
o alvo. Quando terminar, envie para a minha rede.

─ Deixa comigo! ─ Respondeu Pedro.

Jéssica e Andrew correram para o elevador e seguiram para o estacionamento. Ela


ligou para Luterkal e Wolf, marcando o ponto de encontro no segundo andar, em seu carro.

O estacionamento era o setor mais próximo da superfície. Era dividido em três


andares gigantescos, sem um tipo de separação específica. O primeiro andar era feito para
veículos aéreos, porém não exatamente assim. Era um andar de caminhões, carros e motos

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prontos para partir por um dos túneis que levavam a pontos de embarque em helicópteros,
aviões de caça ou carga e outros meios aéreos. A maioria dos túneis direcionava para bases
disfarçadas de poder militar onde os veículos aéreos, também com cores e brasões militares,
estavam estacionados. No segundo andar estavam os veículos destinados a rápidas saídas,
também por túneis, para diversos pontos do estado. Já o último andar era ocupado por
luxuosas limusines e outros veículos de viajem e mordomia. Geralmente, era utilizado como
estacionamento particular dos cargos de grande escalão.

─ Onde é o lugar que vamos? ─ Perguntou Luterkal.

─ Favela da rocinha. ─ Disse ela.

─ O local é barra pesada! Assim que eu gosto. ─ Comentou Luterkal.

O veículo deles era um Toyota Prado preto com teto solar embutido, um carro grande
com tração nas quatro rodas. No capô, as siglas da empresa estavam estampadas em azul.

Eles seguiram alguns minutos por um túnel e saíram em uma rua deserta de Humaitá,
pela garagem de uma falsa casa.

No caminho, Andrew queria não acreditar que justo naquele dia houve um ataque.
Não conseguia esquecer o modo como Jéssica lhe olhava no Cristo Redentor. Ele achava
estanho a forma como aconteceu e não sabia ao certo se iria abraçá-la ou beijá-la, mas
aceitava que foi algo diferente do normal.

Ela, entretanto, concentrava-se totalmente no trabalho e não queria perder essa


oportunidade:

─ De acordo com os registros da movimentação deles e com o nosso banco de dados, o


alvo é uma família de anjos na parte norte da favela. ─ Jéssica falava enquanto apontava para
os dados na tela de um tablet instalado no veículo. ─ Eles moram numa área envolta de
árvores e sem vizinhança próxima. Facilitará para os ninjas e para nós uma ação despercebida.
Não utilizem armas de fogo sem silenciador. Wolf, você vai ter que deixar seu revólver aqui
dentro. Você e o Andrew podem pegar umas semiautomáticas com silenciador na mala. Seu
brinquedo também está lá.

─ Posi vo. ─ Wolf respondeu.

Eles passavam por ruas estreitas e mal cimentadas, algumas ainda de areia e pedra,
casas simples e pessoas desinformadas, até chegarem perto da residência em potencial. Entre

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as árvores e moitas, existia um caminho estreito que levava até a casa. Aparentemente, nada
de anormal acontecia por ali.

Ao descer do veículo, Andrew e Wolf logo buscaram as armas. Jéssica já tinha a sua,
colocando apenas um silenciador e Luterkal não usava armas de fogo:

─ Não andem pelo caminho. ─ Luterkal ressaltava sua liderança sobre o grupo. ─ E sem
movimentos bruscos. Aproximação lenta. Jéssica, comigo. Vocês dois, sigam até a porta que
vamos dar cobertura.

Todos concordaram com o plano e fizeram: Furtivamente, Andrew e Wolf


aproximavam-se da casa pela direita enquanto Luterkal e Jéssica posicionavam-se pela
esquerda. Eles estavam concentrados e ouviam apenas os barulhos da vida humana ao longe.

Jéssica posicionou-se atrás de uma árvore e agachou, sacando sua arma e mirando.
Luterkal escalou uma árvore com extrema habilidade e movimentou-se por elas, ficando quase
acima da casa, dando ampla cobertura. Ele posicionou uma flecha no arco e esperou.

Wolf caminhou na frente de Andrew, ambos com suas pistolas preparadas. Quando
chegaram em frente à porta, esperaram para ver se ouviam algum barulho, mas nada
retornou. Wolf decidiu abri-la. Ele fez sinal para Andrew ficar imóvel e tentou virar a
maçaneta. A porta estava aberta e empurrou-a de vez.

A casa era feita de tijolo e cimento. Era pequena, com apenas três cômodos ligados à
cozinha:

─ Que merda! ─ Wolf exprimiu seu desânimo.

Ele largou a posição de guarda e fez sinal para Jéssica e Luterkal aproximarem-se:

─ Chegamos tarde. Eles já conseguiram o que queriam. ─ Destacou Wolf.

Todos entraram e se depararam com uma cena lamentável: mãe e filha, mortas
abraçadas no canto da cozinha, com furos na nuca e, provavelmente, o pai morto perto da
porta dos fundos da cozinha.

Andrew sentiu-se atormentado. Era sem sentido o que os elfos-negros estavam


fazendo. Não pouparam nem a criança. Ele sentia um enorme desgosto pela raça.

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Todos estavam imóveis, comovidos com o cenário. A aproximação de diversos seres no
lado externo não foi percebida, porém, quando atacaram, Luterkal já havia se recuperado e
seus sentidos lhe avisaram o perigo:

─ Abaixem-se! ─ Ele gritou.

Não foi em tempo suficiente e três shurikens acertaram Wolf, duas nas costas e uma
no peito, atravessando sua jaqueta e o colete à prova de balas. Ele soltou um berro, mas não
foi de dor e sim de ódio. Seus olhos ficaram negros e ele começou a crescer. Estava se
transformando.

Com uma visão muito melhor que a dos humanos, Luterkal avisou:

─ São três! Andrew, Wolf, por trás da casa! Jéssica, você vem comigo!

Luterkal e Jéssica

Os dois saíram rapidamente da casa pela porta que haviam entrado e depararam-se
com um elfo-negro shinobi, encostado em uma árvore próxima. Jéssica estava pronta para
atirar, porém Luterkal interrompeu:

─ Não! Esse é meu. Já faz um tempo que não pego um metidinho desses.

A agente respeitou a decisão do parceiro e abaixou a arma, aguardando atentamente


caso algo fugisse dos planos.

Luterkal sorriu malicioso e caminhou adiante.

O ninja continuava parado, encostado na árvore, tranquilamente. De repente, ele


soltou uma gargalhada macabra e retirou o capuz. Era um elfo-negro velho, aparentava estar
no fim de uma longa linhagem. Ele conversava em Elliniká:

─ Olhe bem para este rosto, elfo bizarro! Será o úl mo que irá ver! ─ E gargalhava
loucamente.

─ Bizarro? Eu? Você é acinzentado, uma cópia mal feita dos elfos! ─ Luterkal sorriu
sarcasticamente.

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─ Calado idiota! Vou acabar com todos da sua raça imunda! Assim como fiz com
aqueles três. ─ Ele atacou.

Rapidamente, o elfo-negro sacou uma espada longa e golpeou Luterkal. Por um


momento, parecia que Luterkal havia sido atingido e Jéssica preocupou-se, mas ele se
defendeu. Durante o ataque, Luterkal largou o arco e retirou de dentro do seu manto uma
espada longa que ele disfarçava possuir, defendendo o golpe com a espada ainda dentro da
bainha:

─ Um elfo bi classe? ─ Assustou-se o elfo-negro e recuou.

─ Você ainda não viu nada. ─ Luterkal não retirava o sorriso da face.

Somente a bainha da espada do elfo era assustadora: totalmente dourada, com


entalhes avermelhados de brasas e labaredas pelo corpo. Então, Luterkal retirou a bela lâmina
de sua proteção. Era uma espada longa de cabo totalmente preto, com curvas sinuosas. A
lâmina apresentava um brilho dourado e uma aura mágica tão poderosa que até um humano,
ser não mágico, sentiria.

─ Calado e lute! Ah! ─ Gritou o elfo-negro, desprezando a aura que sentiu.

O ninja novamente atacou, em um golpe diagonal pela direita, de cima para baixo. O
elfo sorria enquanto o ninja se aproximava e contra atacou a lâmina da espada do elfo-negro,
em um golpe inverso ao dele, quebrando-a ao meio. Com o impulso que já tinha, Luterkal
girou e golpeou as costas do adversário, abrindo um corte imenso que sangrou
instantaneamente. O ferido caiu, contorcendo-se de dor ao chão, entretanto conseguiu se
levantar.

─ Como? ─ O elfo-negro se esforçava para falar. ─ Minha lâmina era muito resistente.
Eu sei disso, eu a testei várias vezes.

─ Existe uma clara diferença entre nós! ─ Luterkal con nuava a sorrir. ─ Você é tão
burro que não sabe nem analisar o adversário e medir as consequências. Com uma espada
comum, eu nunca desafiaria um ser me mostrasse uma arma sagrada.

Após estas palavras, o elfo-negro viu o calor intenso que saía da espada empunhada
pelo seu adversário e finalmente contemplou seu poder:

─ Força do fogo é o nome dela. ─ Disse Luterkal.

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Assustado, o ninja arremessou uma shuriken e começou a fugir para a favela. Mesmo
ferido, ele se movia rapidamente e pulava pelos telhados.

Luterkal desviou da shuriken com facilidade e deixou o elfo-negro fugir por um tempo:

─ Não perde ele! ─ Gritou Jéssica.

─ Acalme-se senhorita. A pressa é inimiga da perfeição. ─ Respondeu Luterkal


pacientemente.

─ Tomara que ele fuja. Só para ver seu sorriso desaparecer por um tempo. Seu me do!
─ Ela Sorriu.

Luterkal devolveu o sorriso e calmamente limpou e guardou sua espada, do mesmo


jeito que estava antes. Ele pegou seu arco que estava no chão e seguiu para o veículo que
chagaram.

Jéssica ficou observando-o do mesmo lugar, imaginando o que ele faria.

O elfo subiu no teto do veículo e posicionou uma flecha no arco. Enquanto isso, o elfo-
negro saltava de telhado em telhado, descendo da favela o mais rápido que ele conseguia:

─ Hum... ─ Luterkal mordia o lábio inferior enquanto mirava. ─ Distância de 650


metros, aumentando, vento estabilizado. ─ Ele es cou mais ainda o arco. ─ 680, 690, 695, 700!
─ E largou a flecha.

Segundos depois, ele felicitou-se:

─ Bingo! Depois eu busco. ─ E voltou para falar com Jéssica.

─ Então? ─ Ela perguntou.

─ Hai ai, mais um que tentou escapar do temível Luterkal, há! ─ Brincou ele. ─ He is
death!

─ O que você fez? Matou ele? Mas não era para matar. ─ Ela demostrava sua
insatisfação.

─ Ops! ─ Luterkal sorriu.

Andrew e Wolf

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Wolf foi atingido e estava furioso. Sua raiva era descontrolada e seu corpo sentia os
efeitos, estava se transformando. Ficava mais musculoso e muito peludo, rasgando suas
roupas. Ao final da transformação, era tão alto que não cabia dentro da casa e arrebentou
parte da construção. Sua pelagem era negra e densa. Possuía garras enormes e sua cabeça era
igual de um lobo, porém grande, proporcional ao resto do corpo e muito peluda. Seus dentes
eram avassaladores e afiados:

─ Vamos caçar, Andrew! ─ Exclamou Wolf e rosnou logo em seguida. Sua voz estava
diferente, mais grotesca, um tom muito abaixo do potencial humano.

Wolf saiu pelo telhado, aumentado ainda mais o rombo que já havia feito e parou ao
lado de Andrew, nos fundos da casa.

Andrew tentava fixar sua atenção em encontrar os ninjas, porém estava impressionado
com a aparência de Wolf. Ele já havia estudado sobre licantropos do tipo lobo também, mas
nunca viu um tão de perto e uma transformação ao vivo. Era realmente fantástico para ele.

A licantropia do tipo lobo era a única diferente da raça licantropo, preferindo sem
conhecida como lobisomem. Esta raça não estava presa ao código de honra da licantropia e
por isso era um ser livre. Além disso, lobisomens experientes podiam se transformar a
qualquer momento, não ficavam presos à Lua cheia.

─ Presta atenção neles, mestiço. ─ Wolf falou e Andrew se recompôs. ─ Eles já estão
um pouco distantes e não consigo vê-los, mas o cheiro de sangue das suas espadas indica
facilmente o caminho, siga-me!

Wolf movia-se rápido e Andrew quase não acompanhava. Eles seguiam em meio a uma
floresta escura, desprovida da humanidade se não fossem alguns entulhos e lixo.

Correram alguns minutos, até que o lobisomem parou, no meio da escuridão, em uma
parte que a mata tornava-se densa:

─ Eles estão nos guiando para a mata fechada. Fique atento. ─ Alertou Wolf.

Seguiram mais alguns metros e Wolf parou novamente. Ele farejava o ar, de um lado
para o outro:

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─ Se dividiram! Se garante sozinho? ─ Wolf perguntou, preparando as quatro patas
para correr.

Andrew não sabia bem como faria, pois naquela escuridão, estava um pouco perdido,
mas não queria demonstrar que não conseguiria:

─ Com certeza! ─ Andrew afirmou um tanto inseguro.

─ Então pega o da direita. ─ Wolf saiu correndo pela esquerda.

O mestiço encontrava-se da pior maneira: no meio de uma mata densa, cheia de


árvores, enxergando pouco e com alguém pronto para lhe matar. Ele seguiu pelo caminho
indicado, tentando ouvir algo, porém não percebia nada estranho. Confiando em seu
treinamento e instinto, continuou seguindo, mas não encontrava o ninja. Um leve vulto e um
ar diferente ao ambiente indicaram que havia algo nesse lugar. Ele já esperava o combate, mas
não tinha a vantagem:

─ Ilíthie! Tha pethánei edó xechasméni fylí anepithýmites! ─ Essas palavras ecoavam
em torno de Andrew, sem uma direção precisa, e uma risada macabra também surgia de todas
as direções.

O local era uma clareira arredondada, iluminada pelo luar. Era circundada por altas
árvores e um mato verde, aparentando ser intocado.

O jovem pensava em um modo de reverter a situação, mas não encontrava nada útil.
Sentiu algo se aproximando depressa, porém não em tempo suficiente para desviar por
completo e uma lâmina atingiu sua testa de raspão. A gargalhada voltou a ecoar.

Andrew tinha que pensar em algo logo. Tentava lembrar algum treinamento que fizera
com seu tio, mas nenhum vinha em sua mente, cada vez mais a gargalhada lhe atrapalhava e
arrepiava.

“Pensa em alguma coisa, pensa...” ─ Ele tentava se concentrar, mas era em vão.

Foi golpeado mais três vezes, desviando de duas e recebendo uma joelhada. De
repente uma ideia surgiu. Andrew soltou sua arma e um curto berro encorajador fez suas
mãos incendiarem. Um sorriso em meio ao desgosto. Em um movimento brusco, ele estendeu
as mãos, arremessando as chamas na mata. Conforme abria os dedos, as chamas
aumentavam. O mestiço fechou os olhos e começou a girar em torno de si mesmo, fazendo

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com que as chamas o acompanhassem, criando um círculo de fogo com raio de três metros.
“Treinamento de sensibilidade, agora! Sentir através das chamas...” ─ Ele mentalizava.

Andrew preparou-se para o combate, no centro do círculo, em um estilo próprio que


misturava algumas técnicas chinesas.

O elfo-negro observava tudo que seu adversário fazia, esperando o momento certo de
atacar e sempre se movimentando pela penumbra, até que se posicionou atrás do jovem. Ele
saltou dentre as árvores, com sua espada sacada, passando pelo fogo e chegando rapidamente
para atacar.

“Sinta pelo fogo...” ─ Andrew ainda meditava de olhos fechados, em posição de


combate, até que sentiu algo vindo pelas suas costas.

O mestiço abriu os olhos e saltou para o lado, desviando do golpe. O ninja errou e
estava desequilibrado. Andrew aproveitou e, com a ponta dos dedos, atingiu o pulso do
atacante, que largou imediatamente a espada. Logo após, tentou golpeá-lo novamente, mas o
ninja desviou para trás.

Agora, o combate estava armado dentro do circulo de fogo. Como Andrew havia
planejado, sua visibilidade estava de volta e obtinha o controle do desafio. A luta se tornou
mais favorável a ele.

Andrew mudou seu estilo de luta, gingando de um lado para o outro, ao estilo
brasileiro de capoeira. O ninja não hesitou e sacou duas kunais, demonstrando habilidade com
elas. A luta teve início e, dos dois lados, golpes eram desferidos e defendidos até que o
mestiço sofreu um corte na panturrilha esquerda. O ninja sorriu satisfeito.

Andrew não enxergava nenhuma compaixão, arrependimento ou qualquer sentimento


que o ninja sentisse em sua defesa aos atos cometidos e enfureceu-se ao lembrar da família
morta e de todos os outros acontecimentos que envolviam os secretos ataques daquela raça.
Seu olhar mudara, estava sério, de uma aparência que raramente ficava. Considerava uma
fraqueza perder o controle, entretanto nem sempre conseguia controlar:

─ Vamos lutar então! ─ Andrew ges culou com as mãos, chamando o ninja.

O elfo-negro investiu com tudo. O mestiço desviava sem contra golpear enquanto as
chamas em volta deles aumentavam. Ele aplicou uma joelhada que acertou em cheio o queixo
do ninja. O ser caiu ao chão, desnorteado. Assim que o ninja caiu, o jovem saltou e afundou

102
sua mão contra o peito da criatura, deixando-o paralisado por alguns segundos, tempo
suficiente para sair caminhando. O elfo-negro levantou e procurou Andrew, encontrando seu
rosto pelas chamas, fora do circulo.

Andrew estava sério, com a malícia estampada em sua face. Ele levantou a mão
direita, que estava com os dedos abertos. Após um leve sorriso, fechou sua mão e o círculo
flamejante fechou-se com ela, consumindo a criatura.

O elfo-negro gritava tão alto, que os pássaros das redondezas alçaram voo.

─ Queime pelos seus erros, pelos seus pecados! ─ Andrew não sentia-se culpado pela
tortura.

Após alguns segundos, o mestiço desfez as chamas e aproximou-se do ninja caído, que
fedia a carne queimada. A criatura mal respirava, com partes do corpo ainda esfumaçando:

─ Quem é o seu líder? ─ Andrew gritava. ─ Responde! Seu assassino!

O ninja arquejava e tossia. Sangue escorria da sua boca:

─ Responde! ─ Andrew gritou e segurou o ninja pelo pescoço.

─ Elf aidiastikó. ─ O ninja repe a com muita dificuldade.

─ Fala em português! Quem é o seu líder! ─ Gritava Andrew.

O elfo-negro repetia sempre a mesma coisa e morreu sorrindo. O jovem ficou intrigado
com o que ele repetia e queria muito saber o que significava. Ele recolheu sua pistola e
arrastou o ninja de volta para a casa da favela. Demorou, mas encontrou o caminho.

─ Então? ─ Jésica perguntou.

Andrew jogou o corpo do elfo-negro no chão:

─ Morto.

O corpo era irreconhecível e nem mesmo o criador da obra sentia-se satisfeito com o
que fez:

─ Me desculpa, eu não sei muito bem o que aconteceu. Eu queria deixar ele vivo, mas
não deu. ─ Lamentou ele.

103
─ Tudo bem, não esquenta. Agente consegue alguma coisa. ─ Jéssica sorriu para tentar
amenizar.

A agente nunca havia visto Andrew em combate e pelo estado do corpo que ele
deixou, nunca poderia menosprezá-lo. Pelo que parecia, era forte e objetivo. Estava satisfeita
pela escolha de deixa-lo ajudá-la não só na investigação, mas também nas ruas. Era mais uma
segurança. Ela voltou a examinar os corpos da casa:

─ Cadê os outros? ─ Andrew perguntou.

─ Wolf foi se ves r no carro e Luterkal... ─ Jéssica foi interrompida.

─ Pronto querida! Aqui está o corpo. ─ Luterkal apareceu, jogando o elfo-negro que ele
acertou.

A flecha que Luterkal lançou estava encravada pela nuca e saindo na boca da criatura,
sem chances de sobrevivência:

─ Menos um desordeiro. ─ Luterkal sorriu.

─ Nossa! Que precisão! ─ Comentou Andrew, impressionado.

─ É porque você não sabe a distância! Lembra do besouro gigante, em Vennah? Acho
que duas vezes mais longe.

Andrew não respondeu e refletia com as informações. Luterkal era tremendamente


habilidoso com arco ou espada. Ninguém da DHIP estava em suas alturas com estas duas
armas. Não era por menos que ele ocupava o cargo de comandante.

Wolf apareceu logo em seguida. Ele havia vestido uma calça jeans e camiseta preta:

─ O meu fugiu. Trouxe apenas isto. ─ E jogou um braço no chão.

─ Nossa! ─ Andrew surpreendia-se cada vez mais.

─ Wolf, Wolf. Como sempre, re rando pedaços. ─ Comentou o elfo, sendo falso ao
lamentar.

─ Você está bem? ─ Perguntou Jéssica.

─ Sim, foram ferimentos superficiais. Nada com o que se preocupar. ─ Respondeu


Wolf.

104
─ Pena que você rasgou sua melhor jaqueta. ─ Luterkal não perdia uma oportunidade
de caçoar alguém.

─ Agora que estão todos aqui, o que conseguiram de pistas? ─ Jéssica perguntou.

─ Comigo ele simplesmente morreu. ─ Disse Luterkal, dando de ombros.

─ Eu consegui o braço. ─ Respondeu Wolf, apontando para tal.

─ Bem, analisando os corpos e objetos, não consegui nenhuma pista sobre o propósito.
Aparentemente, nada foi retirado da casa ou dos proprietários, apenas foram mortos, por
nada. ─ Jéssica não se conformava.

─ Como de costume, Estaca Zero! ─ Lamentou Luterkal, es cando a coluna.

─ Bom, esse que eu matei repe a uma coisa estranha para mim. Era “Elf aidiastikó”.

─ Como? ─ Perguntou Wolf.

─ Elf aidiastikó. ─ Andrew falava com dificuldades.

─ O que significa? ─ Indagou Jéssica.

─ Significa “elfo nojento”. ─ respondeu Luterkal, expressando curiosidade.

─ Será que ele se referiu a você? ─ Perguntou Jéssica, apontando para o mes ço.

─ Mas ele nem se parece com um! ─ Falou Luterkal.

─ Por isso que é uma pista importante. ─ Disse Wolf.

─ Verdade. Eles podem estar sofrendo alguma alucinação ou controle mental. Isso
pode descartar o fato do mandante ser um elfo-negro. Essa raça não possui tal habilidade. ─
Comentou Jéssica.

─ Eles não possuem, mas um artefato mágico para tal poderia facilmente resolver esse
problema. ─ Wolf implantava sua teoria.

─ Eu ve uma ideia. ─ Falava Andrew. ─ Para compensar esse estrago que eu fiz com o
ninja que segui, vou dar uma ligada pro meu tio, o Carlos. Ele conhece diversas raças, artefatos
e magias desse mundo. Ele pode saber de algo que nos ajude. Esperem um momento.

105
Andrew ligava várias vezes, porém Carlos não atendia. Enquanto isso, Jéssica analisava
a estrutura do assassinato com a nova pista encontrada. Luterkal ajudava na procura, mas sem
novidades no momento:

─ Pessoal, meu o não atende o telefone. Ele sempre atende, não importa a hora. ─
Afirmou Andrew, preocupado.

─ Já são quase dez e meia. ─ Disse Jéssica.

─ Mesmo assim. Bem, o telefone pode estar com problemas. Podemos ir até lá. Tenho
certeza que não se incomodará com o horário. O que acham?

─ Por mim tudo bem. ─ Disse Luterkal.

─ Por mim também. ─ Respondeu Jéssica.

─ Estarei esperando no carro. ─ Wolf falou e saiu.

─ Trouxe o “apagador”, Luterkal? ─ Jéssica perguntou.

─ Sim senhorita. Aqui está. ─ Ele re rou de dentro de uma bolsa um aparelho de 30
centímetros, com muitas microlâmpadas direcionadas em um mesmo sentido, um bastão
curto para segurar e um gatilho:

─ Apagador? O que é isso? ─ Andrew perguntou.

─ Há! Novatos... ─ Respondeu Luterkal enquanto saía e se dirigia ao veículo.

─ Apagador é o apelido que este aparelho tem. ─ Respondia Jéssica. ─ Ele emite raios
ultravioletas em uma concentração duas vezes mais forte do que o sol ao atingir nossa pele
pelo dia. Foi criado para outros propósitos, mas na nossa empresa, serve para apagar provas. ─
Ela apertou o gatilho e o aparelho ligou. Conforme ela passava por cima do corpo do elfo-
negro, ele se desfazia.

Todas as raças não humanas ou não semi-humanas eram sensíveis aos raios
ultravioletas, a forma como morriam quando expostas ao sol. O corpo dessas criaturas
desmanchava e evaporava instantaneamente, mesmo estando vivo. A diferença entra raças
comuns e raças semi-humanas não seguia um padrão específico e não podia ser determinado,
pois ninguém sabia qual foi o critério da divisão. Nos milênios que decorreram após a divisão,
todos sabiam qual raça era semi-humana e qual não, devido às mortes presenciadas e o
desaparecimento de algumas raças da superfície pelo dia.

106
─ Pense nas histórias dos vampiros. É exatamente assim que acontece. ─ Sorriu Jéssica
com seu próprio comentário.

─ Há há, o mesmo exemplo que Carlos u lizou para me explicar. ─ O jovem gargalhou.

O corpo do elfo-negro derretia e evaporava, deixando um cheiro intenso de enxofre.


Ela passou o aparelho nos dois elfos-negros recolhidos e juntou o resto do material. Andrew a
ajudava:

─ E este braço? Não vai apagar?

─ Vamos levá-lo para análise. ─ Respondeu Jéssica.

─ Sim, mas e aqueles corpos? ─ Andrew perguntou novamente, apontando para a


família de anjos.

─ Amanhã ou depois a polícia irá identificar e constatar assassinato. Irá passar nos
noticiários o mistério da morte e depois será mais um caso morto e arquivado. Não se
preocupe, Isso aqui é uma favela.

Eles foram para o carro e colocaram o material recolhido no canto da mala, deixando o
braço dentro de um plástico transparente, escrito análise.

─ Onde fica a casa do seu o? ─ Perguntou Jéssica enquanto ligava o motor.

─ Belford roxo.

─ Vai ser uma viajem! Seu o não poderia morar mais perto? ─ Luterkal tagarelava do
banco traseiro.

**********

Em outro lugar, uma importante reunião estava acontecendo. Vinte pessoas vestidas
elegantemente estavam agrupadas em uma belíssima sala de reunião. Cada uma representava
um país e pareciam pessoas importantes neles. Quem liderava a reunião era o representante
dos Estados Unidos. Todo diálogo era em inglês:

107
─ Os procedimentos na América começarão em quinze dias. Convoquei esta reunião
para saber como o procedimento está funcionando em seus países. Podem começar. ─ Iniciou
o representante americano.

─ Na Austrália, tudo funciona como o planejado. Os orcs são fortes e destemidos. Com
o treinamento e controle, eles estão agindo como o esperado.

─ A raça goblinóide também demonstra excelentes resultados na África do Sul. A


velocidade dos goblins somada com a selvageria dos hobgoblins e bugbears faz a combinação
perfeita.

─ Estamos tendo dificuldades com monstruosidades na China. Elas não agem como o
esperado, o controle é quase ineficaz e suas ações despertam suspeitas. O projeto está quase
cancelado.

─ Na Alemanha, os testes com semi-humanos rebeldes mostram-se favoráveis depois


do controle, mas de difícil persuasão inicial. ─ Este falou em Elliniká, porém todos os outros
entenderam.

─ No Brasil, os elfos-negros reagem efetivamente bem. Chances de sucesso beiram o


máximo, projeto aprovado. Encontramos dificuldades apenas com suspeitas. Infelizmente, um
grupo isolado de investigadores da DHIP monitoram nossas operações, mas estão longe de
descobrir a verdade.

─ Mesmo assim fique de olho neles. Se necessário interrompê-los, faça sem hesitar! ─
Disse o representante Americano em Elliniká.

─ O problema já está sendo solucionado. ─ Respondeu o representante brasileiro,


sorrindo.

108
Capítulo 8 – Desilusões da vida

Seguindo pela Avenida Brasil e logo após pela Via Presidente Dutra, principal caminho
de interligação do centro da cidade com a região metropolitana, mais da metade do percurso
estava completo. Os viajantes debatiam as novas informações e suspeitavam ainda mais sobre
um vilão assassino de outra raça. Diversas hipóteses eram consideradas, inclusive algumas que
resultavam em gargalhadas:

─ Espera só Marcelo saber dessa! ─ Comentou Jéssica entre uma dessas suposições.

A agente mantinha-se concentrada na direção e no assunto geral para não lembrar o


estranho momento de mais cedo. Suas lembranças eram fortes e cada flash trazia um sorriso
em seu rosto. Era impossível esconder como mudara diante dias atrás. Seu senso de humor
voltara e sentia-se mais firme, corajosa:

─ Está feliz, garota? ─ Perguntou Luterkal. ─ De vez em quando solta sorrisos sem
motivo.

─ Apenas pensando. ─ Ela respondeu, disfarçando ao focar-se na curva que fazia.

Andrew sentiu a mensagem e sorriu. O momento dos dois foi interrompido e acabou
por ser incompleto e indeciso. Ele pensava em uma segunda chance quando retornassem.

Luterkal cutucou Wolf, gesticulando para representar Andrew e Jéssica juntos. Ele
sabia que o mestiço não lhe pediu ajuda com o elevador apenas por compaixão a uma amiga.

Eles saíram da Via Dutra e chegaram a Belford Roxo. Um arco de ferro com uma placa
acima da pista indicava “Sejam bem vindos a Belford Roxo”, com algumas letras faltando.

Andrew indicava o caminho a ser seguido. Naquela sexta-feira, às onze horas da noite,
as ruas ainda estavam agitadas, com carros circulando, bares abertos e muito mais. Passaram
pelo centro de Belford Roxo e seguiram adentro. As casas e prédios organizados e bem
construídos da região mais próxima ao centro deram lugar a um cenário de completo
abandono: casas em locais de risco, esgoto a céu aberto, pontes antigas e sem reforma, ruas
estreitas e de terra. A população também não ajudava, espalhavam lixo por cada esquina, cada
canto da região.

Os viajantes entraram em uma rua muito esburacada e Jéssica dirigia com cuidado:

109
─ Seu o mora muito bem! ─ Gozou Luterkal.

─ Obrigado. ─ Respondeu Andrew, rindo.

Perto do fim da estrada, onde começava um matagal imenso, eles pararam em frente a
uma residência modesta. Era pequena e parecia antiga, porém bem conservada por fora. Era
murada por uma parede de tijolo e cimento, não muito alto.

Todos desceram do carro e dirigiram-se ao portão. A rua estava deserta:

─ Tio? Tio! Sou eu, Andrew!

Quando Andrew bateu no portão ele se mexeu. Estava apenas encostado no trinco:

─ Tio? ─ Andrew achou a situação estranha.

Ao abrir o portão, percebeu que a casa estava toda apagada e a varanda


desorganizada. Ainda desconfiado, o jovem seguiu para a porta da frente e viu que estava
entreaberta. Os outros perceberam a aflição dele e ficaram atentos. Andrew perdeu seu
controle e abriu rapidamente a porta da sala, acendendo a luz. Ficou pasmo com o que viu: a
sala estava toda revirada, as paredes continham marcas de fogo, quase o mesmo cenário que
em sua residência. Ele desesperou-se ainda mais:

─ Carlos! ─ Andrew gritou.

─ Rápido espalhem-se! Procurem por ele! ─ Luterkal tomou posição.

Os três adentraram e começaram a vasculhar cada cômodo. O mestiço estava


impactado, as marcas de fogo espalhavam-se até o teto. Parecia que uma severa batalha tinha
acontecido.

Como a casa possuía poucos cômodos, rapidamente alguém encontrou algo:

─ Aqui pessoal! Nos fundos. ─ Era Wolf.

Todos seguiram para o local e o mais provável e menos desejado ocorrera: Encostado
no muro ao fim do quintal estava Carlos, todo ensanguentado, com um buraco no pescoço.
Mal dava para ver o branco do quimono que ele vestia:

─ Pelo cheiro, foi morto a mais de quatro dias. ─ Observou Luterkal mesmo de longe.

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Andrew estava chocado, a única pessoa que lhe ajudou durante a infância conturbada
estava morta em sua frente:

─ Carlos! Carlos. Não! ─ Andrew gritava desesperado.

Ele estava descontrolado, socando a parede, até que sentou no chão. Suas lágrimas
escorriam e toda sua felicidade era jogada no abismo. Por toda sua vida esse momento era
abstraído. A pessoa que mais lhe motivou a viver, que ensinou tudo que sabe, a dor era cruel.
Ele levantou-se e caminhava até Carlos. A cada passo, o peso das memórias expulsavam
lágrimas.

─ Vamos esperar lá fora. ─ Wolf percebeu que o momento era só dele e levou os
outros para fora da casa.

Na altura dos olhos de Andrew, uma kunai estava encravada no muro, segurando uma
foto. Era a foto dele com Carlos, abraçados de lado e sorrindo, tirada há muito tempo atrás.
Estava com um xis feito de sangue no rosto de Carlos e um círculo no rosto do mestiço. “Esta
foto estava na minha casa.” A dor transformava a tristeza em sede por vingança. A covardia
em atacar parentes gerava ainda mais revolta. Ele sentia-se culpado pela morte do tio:

─ Não irei desistir, nunca irei desistir em encontrar o culpado. Eu prometo a você… ─
Ele sussurrou.

Agosto de 2008

Era um dia chuvoso e já estava escuro. Andrew e Carlos conversavam na sala até que
durante uma pausa, Carlos perguntou:

─ Andrew, você já pensou na morte?

─ Tio, eu tenho só 17 anos, quero viver muito ainda. ─ Respondeu Andrew, dando
pouco interesse ao assunto.

─ Pois bem, eu não sou tão jovem assim e a morte se aproxima cada vez mais.

─ Que nada o! ─ Andrew sorriu. ─ Você ainda vai ver meus filhos!

111
─ Espero que sim. ─ Carlos sorriu de volta. ─ Mas caso aconteça antes. ─ Ele voltou a
ficar sério. ─ Quero que você me creme. Será honroso para mim. Acabar como cinzas, pelo
meu próprio poder.

Andrew não entendeu direito o que seu tio queria lhe dizer, mas consentiu:

─ Pode deixar, eu farei.

─ Ó mo, agora vá preparar a janta! ─ Carlos falou, animado.

Presente

─ Hoje eu sei o que você queria dizer naquele dia seu imprestável! ─ Andrew sorriu
triste. ─ Além de mes ço era vidente, sabia que morreria antes de mim. Sinta-se honrado meu
grande amigo.

Andrew curvou-se para o corpo e depois incendiou sua própria mão:

─ Adeus. ─ Despediu-se pela última vez.

Andrew arremessou o fogo no corpo de Carlos. Ele soluçava de tanta dor que sentia,
mas não tinha volta, a morte é cruel para todos. Antes de sair, ele aumentou as chamas,
deixando o corpo carbonizar.

“Ele morreu honrado, morreu fazendo o que amava. Todos os nossos treinamentos,
todas as nossas conversas, você sempre estará comigo.”. ─ Enxugou as úl mas lágrimas e saiu,
trancando as portas e levando as chaves.

No caminho de volta, o silêncio fúnebre atraía outras lembranças. Todos estavam


chocados e não tinham palavras para se expressarem. Jéssica era quem mais sofria. Carregava
toda a culpa consigo. Pensava que a causa dessa fatalidade era o fato de Andrew estar
envolvido, o que resultava em sua culpa. Ela o envolveu ainda mais e não se perdoava por isso.

As boas lembranças confortavam o coração do jovem aos poucos, até que pôde
quebrar o silêncio. Andrew estava como de costume enquanto refletia: com sua sobrancelha
direita erguida:

112
─ Eu havia conversado com ele uns seis dias atrás. Deve ter sido atacado no mesmo
dia.

Jéssica ameaçou expressar seus sentimentos, porém, no momento que foi começar a
falar, notou algo estranho pelo retrovisor: duas Kia Sorento 2010 pretas saíram de ruas
concorrentes e estavam aproximando-se demais:

─ Pessoal, acho que estamos sendo seguidos. ─ Jéssica alertou, desconfiada.

Realmente, os dois veículos aproximavam-se demais. Ela acelerou e os carros também


fizeram, encostando levemente em sua traseira. Uma perseguição à meia noite. A poeira subia
por todos os lados enquanto os veículos forçavam o motor ao extremo. Jéssica olhou o
velocímetro que, naquela rua estreita de mão dupla, marcava 137 Km/h. Em um descuido, ela
quase acertou um ônibus na pista oposta:

─ Vamos atrasá-los! ─ Gritava Luterkal. ─ Abra o teto solar!

Andrew e Wolf atiravam com suas semiautomáticas, entretanto mal trincavam os


vidros ou perfuravam a lataria dos perseguidores:

─ Vidro e latarias blindadas! ─ Gritou Wolf.

De repente, alguém do veículo traseiro começou a atirar com um tipo de fuzil. A


blindagem do carro de Jéssica não suportava tal poder de fogo e o vidro traseiro estourou:

─ Rápido Jéssica! Desvia! Desvia! ─ Gritava Luterkal.

A movimentação era menor àquela hora e o centro de Belford Roxo não abrigava
tantas pessoas. As poucas se esconderam com os sons dos disparos. Jéssica tinha duas opções:
seguir pela rodovia que viera ou quebrar à direita para outra região interna de Belford Roxo.
Preferiu virar à direita para tentar despistar os veículos. Ela dirigia com frieza e qualidade. Os
outros tentavam fazer algo para ajudar, mas os tiros desferidos contra eles dificultavam
qualquer ação. O veículo mais próximo entrou na contramão e tentava emparelhar enquanto o
outro se aproximava pela traseira.

Mais a frente, uma pequena curva à direita revelou dois carros, um em cada sentido,
movendo-se normalmente. O veículo na contramão não reduzia e ia de encontro ao outro
carro, que buzinava desesperadamente. Jéssica viu uma curva a sua direita, antes do veículo
emparelhar por completo e, numa manobra arriscada, freou e derrapou para acertar a curva.

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Ela conseguiu fazer a manobra, porém seu carro derrapou demais e amassou a lateral em um
veículo que estava estacionado na calçada:

─ Todos estão bem? ─ Ela gritou.

Eles responderam positivamente. No mesmo instante, o veículo que estava na


contramão colidiu de frente com o outro carro à toda velocidade, ardendo em chamas e
arremessando o outro veículo contra uma loja de sapatos. O barulho foi alto e a frente de
vidro da loja estava toda ao chão.

Jéssica observava pelo retrovisor até que viu o outro veículo fazendo a curva. A
perseguição recomeçou, agora em uma rua de mão única. Ao longe, ela visualizou uma
pequena ponte que provavelmente passava por cima de um esgoto a céu aberto. Continuou
seguindo, pensando em atravessar a ponte. De repente, da rua concorrente à ponte, surgiu um
carro do mesmo modelo que os outros e fechou a passagem.

A motorista desviou para a direita e quase caiu no que realmente era um esgoto. A
estrada novamente era de terra e ela ameaçou seguir, porém não contava com a surpresa. Do
outro lado, na próxima esquina, uma Hilux 4x4 Turbo, um veículo grande e forte, de caçamba
aberta, também fechava o caminho. Ela parou o carro ao meio da rua e todos desceram. A
emboscada estava armada:

─ Wolf e os demais, se preparem. ─ Ela avisou.

─ Pode deixar comigo! ─ Wolf entendeu o destaque a ele e começou a se transformar.

Terminando a transformação, ele foi até o porta-malas do carro. Por baixo de um


fundo falso, um grande escudo feito em prata, com as siglas DHIP estampadas em preto na
frente, ocupava quase a mala inteira. Ele encaixou no antebraço esquerdo, segurando com a
mão no outro apoio e voltou para o lado de Jéssica:

─ Odeio usar isso! Parece até que criaram para me ferrar! ─ Wolf reclamava do objeto.

Jéssica havia parado o carro concorrente à estrada. Ela e Wolf estavam de frente para
a ponte enquanto Luterkal e Andrew fitavam o outro veículo que fechou a rua. A agente
ajustou sua pistola e pegou o revólver do lobisomem, que estava no carro. Luterkal também se
preparou e posicionou uma flecha no arco.

Enquanto eles armavam esta posição defensiva, o veículo que seguia o grupo chegou,
descendo cinco elfos-negros deles. Do outro veículo que fechou o caminho da ponte,

114
desceram mais três e, da Hilux na outra esquina, mais quatro. Todos eles estavam vestidos
como ninjas shinobi e com equipamento completo, que envolvia espada, kunais e shurikens.
Além disso, um dos ninjas que desceu do primeiro veículo carregava um fuzil M4A1,
engatilhado e destravado. Este mesmo elfo-negro subiu no carro e agachou, posicionando-se
para atirar.

Para uma surpresa ainda pior, da esquina fechada pela Hilux, surgiu um grande ogro,
com aproximadamente três metros de altura, sorrindo e respirando forte. Possuía algumas
características humanas como barba, par de olhos e orelhas, mas era robusto e extremamente
musculoso. Sua pele parecia uma carapaça acinzentada e tinha cabelos longos e ressecados
castanho-escuros. A cada passada, o chão estremecia. Seu rugido era abafado e o sorriso não
saía do seu rosto. Ele estava sem camisa e descalço, apenas com uma grande bermuda rasgada
nas pernas e desfiada na cintura. Carregava uma massa enorme, cheia de espinhos de ferro:

─ Que aberração! ─ Assustou-se Andrew. ─ Como eles trouxeram ela até aqui?

─ Isso não importa, garoto. ─ Respondeu Luterkal. ─ O que importa é que desta vez ele
morre.

Andrew olhou para Luterkal e pela primeira vez viu seu rosto sério. Todo tempo ele era
simpático, brincalhão e sarcástico, mas parecia muito preocupado com a situação.

Todos estavam parados, fitando os movimentos de cada um. Um dos elfos-negros


perto da ponte tomou a frente do grupo e retirou o capuz. Do nariz para baixo, até onde podia
ser visto, seu corpo estava queimado, com bolhas no começo do pescoço e marcas horríveis
pela face:

─ O thánatos sas periménei. Xotiká katáptysto! ─ Disse o elfo-negro.

Andrew olhou para trás e reconheceu o rosto queimado:

─ Seu desgraçado! Você matou Carlos! Eu vou te matar! ─ Ele perdeu o controle e
pulou ao outro lado do veículo.

─ Não! ─ Wolf colocou o escudo em sua frente. ─ É esse po de a tude que ele quer.
Não aja assim.

O jovem tentava controlar-se, mas saber que o assassino do seu tio estava em sua
frente, lhe deixava explodindo por dentro:

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─ Ele matou o meu o! Carlos não tinha nada a ver com isso e ele acabou com meu tio!
Me deixa ir lá. ─ O mes ço sen a seu corpo inteiro aquecer-se.

─ Acalme-se garoto, seu momento irá chegar, porém agora seria um ataque suicida. ─
Wolf conseguiu convencê-lo.

O líder dos elfos-negros soltou outro comando em Elliniká e, no mesmo momento,


seus subordinados, de ambos os lados, espalharam-se para atacar. Alguns foram pelos
telhados e outros pelo esgoto, mas nenhum deles correu de frente para o inimigo.

─ Cuida da Jéssica. ─ Falou Wolf para Andrew e saltou para junto de Luterkal.

Ele havia sentido a presença do ogro e não acreditava na possibilidade de ser o velho
conhecido dos comandantes. Ao fitar o adversário, percebeu que era quem mais temia:

─ Como isso é possível? Nós prendemos Zoltran faz oito meses. Por que ele está aqui?
─ Wolf tentava entender.

─Pois é meu amigo, alguém nos deve muitas explicações. ─ Completou Luterkal.

Os dois comandantes utilizaram uma tática habilidosa que já haviam treinado várias
vezes. Servia para ataques à distância, quando o inimigo também era dotado de armas de
longo alcance. Consistia em atacar e defender, utilizando habilidades raciais de ambos e o
poderoso escudo que Wolf carregava.

Luterkal rapidamente acertou uma flechada na testa do único elfo-negro que subiu ao
telhado pelo seu lado e preparava outra enquanto Wolf posicionou-se mais à frente e, com
aquele enorme escudo brilhante, defendeu duas shurikens que vieram do esgoto, saindo
rapidamente da frente para Luterkal acertar outra flechada em um dos atacantes. Sua precisão
era impressionante. Wolf também não deixava a desejar. Sua audição apurada ajudava a
antecipar o contato dos objetos arremessados, era o momento em que posicionava-se para
defender.

Repetiram o movimento e derrubaram o outro elfo-negro do esgoto. Tiros eram


ouvidos e balas riscavam os céus, algumas passando bem perto deles, mas nenhuma os
atingindo:

─ Acho que nossos amigos estão com problemas. ─ Enfa zou Luterkal.

─ Eles sabem se virar, temos maiores preocupações. ─ Wolf rosnava para o ogro.

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Desse lado, restavam apenas um elfo-negro e Zoltran, próximos ao carro.

Ao mesmo tempo em que os comandantes acabavam com os elfos-negros, do outro


lado do veículo que chagaram o elfo-negro posicionado com o fuzil começou a atirar. Num
movimento rápido, Andrew se jogou e puxou Jéssica com ele, rolando pelo barranco de lama,
lixo e mato, até chegarem ao córrego poluído. No caminho, Jéssica perdeu sua
semiautomática, ficando apenas com o revólver e seis balas. Ao se recomporem, ela atirou
quatro vezes e conseguiu acertar os dois elfos-negros que seguiam pelo esgoto, matando-os. O
que eles não perceberam é que do alto das casas, dois ninjas arremessavam shurikens. Uma
acertou em cheio no braço esquerdo de Andrew e outra passou de raspão em sua cintura.
Andrew sentiu e tombou na água, levantando em seguida e olhando para o braço.

Com um sinal, o elfo-negro líder mandou os dois ninjas do telhado e mais dois que
estavam ao seu lado, descerem ao esgoto, mas avisou:

─ Ele quer ela viva e eu quero o elfo mago vivo.

Os quatro ninjas se aproximavam rápido e com as espadas sacadas. Jéssica gastou as


últimas duas balas e derrubou mais um. Além dos tiros dela, uma rajada de balas e o som de
uma arma potente podia ser ouvido nas ruas. De onde eles estavam, dava para ver o carro que
chegaram sofrendo com o impacto das balas. Ela torcia para seus amigos estarem bem.

Os três ninjas vinham em suas direções com sede de sangue. Mesmo ferido, Andrew
tomou a frente da situação:

─ Deixa que eu cuido deles.

O mestiço estava consumido pela sede de vingança e esqueceu completamente o foco


da missão. Queria a qualquer custo chegar ao líder do grupo e fazer um furo na garganta dele,
do mesmo jeito que encontrou seu tio, para descontar o que ele fez. Se o obstáculo fosse
acabar com esses ninjas, estava determinado a fazer. Naquela escuridão, uma chama azul
brilhava nos seus olhos e de suas mãos a água do esgoto evaporava.

Antes dos Ninjas se aproximarem, Andrew arremessou uma bola de fogo com
tremenda habilidade e rapidez, que fez eles se espalharem. Geralmente, era preciso certa
concentração para gerar as chamas e produzir o poder, entretanto quando perdia o controle,
tudo que pensava era realizado instantaneamente.

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Um deles chegou primeiro e golpeou. Andrew desviou e acertou uma joelhada, dando
um soco logo em seguida. O ninja deixou a espada cair e o jovem pegou, arrancando a cabeça
dele em um golpe. Estava frenético, incontrolável. Exibiu sua habilidade com a espada e
posicionou-se, esperando os outros dois.

Eles brigavam de igual pra igual, defendendo e atacando, até que Andrew foi ferido de
raspão no pescoço e deu um passo para trás. Voltou ao combate e depois de um tempo feriu
gravemente um dos ninjas na barriga. O mestiço apoderou-se de outra espada.

O último ninja se viu em desvantagem e, percebendo que Jéssica estava vulnerável,


correu ao seu encontro. Seus olhos vermelhos, fixos na bela moça, demonstravam que ele não
iria obedecer à ordem do líder. Ela ficou imóvel, assustada, e fechou os olhos, protegendo o
rosto com as mãos. Quando o ninja foi golpear, uma lâmina atravessou suas costas e perfurou
seu coração. Atrás dele e um pouco distante, estava o mestiço, agora com uma espada nas
mãos.

Andrew sentia-se bem por ter derrotado os três ninjas e agora faltava apenas o líder e
mais um, porém decidiu conferir como Jéssica estava. Ela abriu os olhos antes dele chegar
perto e tentou avisá-lo do que viu:

─ Cuidado! ─ Ela gritou, mas já era tarde.

Andrew foi apunhalado com uma kunai pelas costas.

─ Dilitiriódi aráchnes vóreia parálysi. ─ Uma voz familiar falou para ele.

Era o líder do grupo de elfos-negros, que se aproximou sem ser notado, uma de suas
principais habilidades, enquanto Andrew lutava. O jovem segurou firme a espada em sua mão
e tentou golpear, mas o elfo-negro desviou.

─ Chalaróste, échei mia dósi arkeí gia na sas paralýsei kai na katharísei to sóma sas
grígora. ─ Falou o elfo-negro, sorrindo de lado.

Andrew tentava acertá-lo e ele desviava. Conhecia pouco o Elliniká, pois nunca se
interessou em aprender, mas dentre poucas palavras que conhecia, Urok acabara de
pronunciar uma delas, veneno. Seu corpo começava a sentir os efeitos.

O elfo-negro desviava facilmente dos diversos golpes que o mestiço produzia e acertou
um chute lateral nele, derrubando-o:

118
─ Elf Mage ilíthios! ─ Disse Urok.

Andrew sentia uma dor insuportável, mas não do chute e sim do veneno. Seu corpo
tremia como se estivesse com frio. Não conseguia mais levantar.

O elfo-negro caminhou até Jéssica, que tentou golpeá-lo com a arma, porém ele
imobilizou-a com facilidade:

─ Eláte skýla xotikó! ─ Ele puxava Jéssica pelo cabelo, enraivado. ─ Échei periménei gia
kafé. Hahahahaha!

─ Me solta! Socorro! Me ajuda! Andrew! Luterkal! Wolf! Alguém me ajuda! ─ Ela


gritava sem sucesso.

─ Skáse, prinkípissa! ─ O elfo-negro puxou mais ainda o seu cabelo.

Andrew não conseguia mover-se. O veneno espalhava-se rapidamente pelo seu corpo
e mal conseguia falar:

─ Eu... Não te en… tendo. ─ Ele tentava dizer.

Urok, ainda segurando Jéssica, abaixou perto do jovem e falou:

─ Thélo̱ na páro ekeí an epiviósei. ─ Ele gargalhou. ─ To di̱li̱tírio kai tha pethánei se mia
díkaii páli anámesa se esás kai eména . ─ E jogou uma camisa em cima dele, indo embora com
Jéssica.

Tudo acontecia ao mesmo tempo e os comandantes pensavam num jeito de acabar


com o enorme ogro enraivado. Eles se olhavam de longe, até que Zoltran superou as
expectativas. Todo diálogo era em Elliniká:

─ Desta vez o seu pessoal me deu um brinquedinho. Hehehe!

Ele curvou-se na caçamba da Hilux e pegou facilmente uma pesada metralhadora de


guerra chamada M61 Vulcan, carregada com muita munição:

─ Vamos tem problemas agora. ─ Wolf destacou.

─ Hahahahaha! Morram! ─ Berrou Zoltran, segurando o ga lho.

A metralhadora dissipava uma poderosa energia de recuo e o ogro firmava-se para não
perder a mira. Ele começou a disparar sem piedade enquanto o elfo-negro ao seu lado

119
segurava o cinto de munição. Os projéteis atravessavam a blindagem do carro com facilidade e
chegavam até os elfos-negros perto da ponte, que saíam para o esgoto. O barulho da arma era
ensurdecedor e as balas provocavam feixes de luz como o puro magma.

No momento em que Zoltran começou a disparar, Wolf curvou-se por trás do escudo e
Luterkal por trás dele, para se protegerem. Por algum motivo, as balas que atingiam o escudo
dissipavam sua energia nele, mas não atravessavam, sequer amassavam. Os impactos das
balas espremiam os dois contra o veículo, mas pelo menos não eram atingidos.

Zoltran gargalhava e atirava sem parar e sem se preocupar com a munição, pois tinha
o bastante para derrubar muitos aviões:

─ Grrr... ─ Wolf rosnava enquanto segurava o escudo com força e pensava numa saída.

De repente, após uns dois minutos, Zoltran parou de atirar:

─ Quer saber? Eu quero o sangue de vocês em minhas mãos! ─ Gritava Zoltran. ─ Essas
armas são porcarias modernas dos humanos! Venham desgraçados, venham! ─ E ba a a arma
contra o peito.

Wolf e Luterkal, percebendo o que o ogro realmente queria , correram ao seu


encontro:

─ Sempre soube que um dia esse escudo mágico serviria pra alguma coisa. ─ Comentou
Wolf.

─ Mesmo sabendo que você não gosta dele, eu sabia que era útil! ─ Completou
Luterkal.

Zoltran arremessou a arma contra os comandantes e pegou sua maça de espinhos.


Luterkal e Wolf desviaram facilmente da arma e Luterkal, pelo caminho, atirou três flechas:
duas em Zoltran e uma no peito do elfo-negro, que bateu no carro e caiu desacordado. As
flechas que acertaram Zoltran pegaram em seu peito e mesmo elas sendo extremamente
pontiagudas, não encravaram, machucando superficialmente. Percebendo que seu arco não
adiantaria, Luterkal largou-o no chão e puxou sua espada longa.

Wolf mostrava seus dentes e garras, sendo o primeiro a chocar-se com Zoltran. Ele
saltou e Zoltran golpeou com a maça. Wolf bloqueou com o escudo e fez um corte lateral no
ogro com a outra mão, porém o impacto da massa foi tão grande que o deslocou no ar, em

120
direção a uma árvore na calçada. Wolf bateu as costas violentamente nela e sentiu a dor,
calado.

Zoltran estava vulnerável após seu último golpe e Luterkal saltou em velocidade,
dando um giro no ar para aumentar a força do ataque, que veio de cima para baixo, no braço
do monstro:

─ Raaahh! ─ Gritou de dor a criatura.

Num humano, aquele golpe arrancaria o braço sem nenhuma resistência, mas o ogro
possuía uma pele grossa e músculos fortes, abrindo apenas um corte profundo.

O monstro atacou freneticamente, golpeando de um lado para o outro, enquanto o


elfo saltava e dava passos para trás, desviando. O lobisomem se recompôs e viu Luterkal sendo
atacado. Ele levantou e correu, largando o escudo pelo caminho.

O licantropo saltou e agarrou o ogro pelas costas, encravando as garras no tórax e


mordendo profundamente perto do pescoço. Zoltran não resistiu à fúria do lobisomem e
gritou de dor, deixando sua maça cair e abaixando a guarda. Luterkal aproveitou para golpear:

─ Faça sua mágica espada das chamas! ─ Ele gritou.

De repente, um brilho intenso e avermelhado surgiu em toda extensão da lâmina. Ela


emitia um calor muito forte. O elfo encravou a espada com toda sua força na barriga da
criatura. A lâmina, ao mesmo tempo em que perfurava, queimava sua carne e ossos.

Zoltran sentia uma dor terrível e sua expressão era cada vez mais insana. A mordida e
a estocada ainda eram aplicadas e mesmo assim sangrava um líquido denso, muito vermelho.

Sem ser esperado, o ogro sorriu:

─ hehe! Se for pra me matar, então faça isso direito, elfo idiota!

O monstro segurou o cabo da espada junto com as mãos do comandante e, gritando,


enfiou bruscamente toda a lâmina em seu corpo, atravessando para o outro lado e penetrando
por baixo das costelas do lobisomem.

Wolf sentiu a lâmina e soltou instantaneamente a criatura, caindo ao chão e


contorcendo o corpo inteiro. Luterkal notou o que havia acontecido e entrou em choque:

─ Wolf! ─ Ele gritou.

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Zoltran começou sua macabra risada:

─ Do jeito que o seu traidor me contou! Seu amigo é fraco quando a ngido por armas
mágicas e se destransforma!

Luterkal sabia que era verdade. Todo licantropo do tipo lobo é extremamente
vulnerável quando atingido por algo mágico, porém é um segredo escondido de todos. De
algum modo, o ogro também sabia.

O comandante estava tão abismado, vendo seu amigo contorcer-se ao chão e voltando
a ser humano, que não percebeu o ogro erguendo o braço. Zoltran acertou um soco em cheio
no tronco de Luterkal, que bateu violentamente no muro de uma casa, ficando todo
machucado e zonzo.

─ hahahaha! Ele também falou que di cil era acertar só o primeiro golpe em você! ─
Falava ele, enquanto estava elétrico.

Zoltran sangrava pelos ferimentos no corpo, além de estar com a espada atravessada
em sua barriga.

Wolf contorcia-se no chão. Seu ferimento espumava e seu corpo inteiro tremia, não
podia reagir e não tinha como movimentar-se.

O ogro seguiu de encontro à Luterkal e levantou-o do chão pelo manto. Viu que ele
estava desnorteado, incapacitado de alguma reação. Ele sorriu, segurou o elfo pelas pernas e
bateu-o violentamente contra o chão.

Um elfo poderia ser ágil e habilidoso, entretanto seu corpo era leve e frágil. Com a
força do ogro, diversos ossos de Luterkal quebraram-se com a pancada. Ele já nem sentia mais
dores e o vazio o dominou, o comandante desmaiou.

Zoltran não parava de gargalhar. Estava adorando vingar tudo que os dois
comandantes fizeram a ele:

─ Agora, você vai pagar pela mordida.

Ele pegou sua maça, com certa dificuldade, e caminhou lentamente até Wolf. Seu
corpo latejava e suas forças esgotavam-se, mas o desejo de vingança falava mais alto. No
primeiro encontro entre os três, o ogro foi capturado injustamente, como ele julgava.

122
Oito meses atrás

─ Agora você me diz: caçamos monstros pelo Rio de Janeiro inteiro e deixamos cinco
pessoas morrerem bem abaixo do nosso nariz? Essa base está decaindo!

─ Calma Gabriel. ─ Dizia Luterkal. ─ Você sabe bem como funciona o setor
investigativo. Eles não podem enviar equipes a lugares errados.

─ Mas estamos dentro do nosso próprio território. Se não conseguimos proteger nem
aqui, imagina lá fora? E como nossos superiores do exterior vão reagir com isso?

─ Há! Agora eu entendi sua jogada. Está preocupado por causa da sua transferência.

─ Eu tenho que manter uma boa visão dos esquadrões brasileiros, afinal vou ser um
comandante em uma equipe americana!

─ Quanto a isso, acredite em mim: Nunca vão saber do que está acontecendo. ─
Luterkal sorriu.

Os dois conversavam dentro de um carro militar que seguia com um comboio de 6


veículos. Rondavam por dentro do parque nacional da Tijuca até aproximarem-se o máximo
possível da Trilha Das Grutas, no Alto Da Boa Vista.

Luterkal conversava com seu Braço Direito, o subcomandante do grupo de longo


alcance Gabriel Donato. Era um humano dotado de tremenda habilidade com armas de fogo.
Sabia utilizar qualquer armamento e era responsável pelo treinamento das tropas. Era jovem,
porém experiente. Seu pai foi um exímio atirador de elite da DHIP e treinou-o desde criança
para assumir seu legado. Ele fazia tanto jus que foi considerado o segundo melhor atirador da
empresa, somente atrás do extraordinário Luterkal. Suas conquistas lhe engrandeceram e fora
convidado para comandar um grupo próprio na central de operações da DHIP, nos Estados
Unidos:

─ Você não sabe como estou ansioso para conhecer meu novo local de trabalho.

─ Imagino.

Já era noite, período em que o parque era fechado e toda a movimentação da DHIP
podia ser livre. O comboio chegou ao local designado para a missão e os soldados desceram
dos veículos. Estavam equipados para uma guerra. Seus coletes eram revestidos com uma

123
grossa carapaça para fortalecer contra impactos e todo o equipamento era perfeitamente
adaptado para a camuflagem. Todos também possuíam óculos de visão noturna integrado com
os comunicadores. As armas de curto alcance eram como sabres elétricos, capazes de
descarregar grandes quantidades de energia. Já as armas de fogo pareciam comuns, mas eram
feitas para melhor performance e acopladas com miras laser ou digitais. Além disso, estavam
testando um novo tipo de munição:

─ Munição mágica? ─ Wolf reunia-se com Luterkal e o subcomandante. ─ Vocês estão


brincando comigo!

─ Não, é verdade. É uma nova tecnologia que Helton desenvolveu e implementou nas
munições. É um revestimento na ponta das balas para facilitar a penetração e deixar um maior
estrago. ─ Luterkal explicou.

─ Se uma coisa dessas me acertar, eu juro que acabo com esse cien sta maluco. ─ Wolf
não se agradava com a surpresa.

─ Nem esquenta. Você não é o alvo, não dessa vez. ─ Luterkal sorriu.

─ Bom gente, vamos acabar logo com isso. Temos mais ou menos 8 grutas para olhar e
5 delas com um grande potencial de encontrar o tal ogro enfurecido. ─ O subcomandante
iniciava o assunto.

─ Temos quarenta soldados ao todo, vinte meus e vinte de vocês. ─ Wolf dizia. ─
Vamos mesclar as equipes e cada um de nós leva um grupo. Dessa forma, cobrimos a área
rapidamente. Quem encontrar o ogro avisa pelo comunicador.

─ Excelente. Adorei o plano de vocês, nem preciso interferir. ─ Falava Luterkal. ─


Deixem o rastreador ligado e o comunicador também. Se for um ogro adulto, é bem provável
que nos ataque.

Todos concordaram com os planos e dividiram as equipes. Luterkal seguiu com um


grupo de 14 membros e os outros com um grupo de 13. Eles fracionaram a região das grutas
em norte, sul e centro. Wolf cobriu a região sul, Luterkal o centro e Gabriel com o norte.

Os grupos vasculharam cada gruta da região, em cada buraco, porém não encontraram
o ogro. Seus vestígios estavam por todas as partes, em variadas grutas de cada região. Essa
região do parque estava fechada há uma semana por causa dos últimos acidentes, tempo
suficiente para o ogro se sentir à vontade. Seus principais vestígios agrupavam-se na gruta

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Bernardo De Oliveira, uma gruta de entrada larga, entretanto pequena no interior. Existiam
marcas de fogueiras, restos de animais e rochas posicionadas em uma espécie de mesa
primitiva:

─ Não tem nada aqui na região sul. ─ Disse Wolf pelo comunicador.

─ Bom, tem alguns rastros da presença dele aqui no centro, principalmente na


Bernardo de Oliveira. É melhor virem dar uma olhada. ─ Falou Luterkal.

─ Ok, pessoal. Mas eu ainda preciso verificar uma úl ma gruta, a do Archer. Daqui a
pouco eu encontro vocês por aí. ─ Gabriel desligou seu microfone.

O subcomandante aproximava-se cautelosamente da última gruta da região norte. Sua


entrada era como um grande buraco no chão, cercada por gigantes rochas. A área ao derredor
não era de mata densa e uma pequena trilha levava a entrada da gruta.

O grupo seguia pela escuridão, sem ligar as poderosas ferramentas de combate corpo
a corpo ou as miras das armas. Os óculos de visão noturna eram os únicos equipamentos que
ajudavam. Antes de adentrar a gruta, Gabriel deu uma ordem para avaliar o perímetro em
busca de provas da presença do ogro e encontrou-se grandes pegadas pela mata e árvores
resistentes arrebentadas pelo tronco.

─ É de se esperar um ogro poderoso. ─ Comentou Gabriel consigo.

Eles amarraram cordas de Rapel em uma firme árvore e desceram de dois em dois até
a gruta. Por dentro, era espaçosa e alta, porém sua outra entrada era menor. Era retilínea e
não demoraria muito fazer uma inspeção do lugar. Todavia, o ogro não estava ali.

─ Pessoal. Novidades. ─ Disse Gabriel pelo comunicador.

─ Achou alguma coisa? ─ Indagou Luterkal.

─ Sim, uma caverna escura, úmida e fedorenta! ─ Gabriel suspendeu os óculos à


cabeça.

─ Era de se esperar. ─ Comentou Wolf. ─ Eu disse para virmos pelo dia, ele não poderia
rondar pela floresta. Essa hora ele deve estar caçando por aí.

─ Wolf, por que você é tão chato? ─ Luterkal caçoava dele. ─ Você sabe que caçadas
diurnas são sem graça.

125
─ Há há. ─ Riu o subcomandante. ─ Ele diz isso porque não poderia participar. ─
Esclareceu ele.

─ Como sempre, revelando meus segredos. ─ E riu de volta. ─ Sendo sério agora, não
podia ser pelo dia. O parque é cercado de humanos e muitos não respeitam as placas de
“perigo” e “área fechada para visitantes”. Parece que quanto mais placas dessas, mais eles
querem seguir.

─ É verdade, Wolf. ─ Completava Gabriel. ─ Além do mais, as armas mais poderosas


não possuem silenciadores. Seria horrível o desespero das pobres almas correndo.

─ Que seja. Já estou de saco cheio dessa operação falha. ─ Wolf bufou.

─ Estou indo me juntar com vocês, já chego aí. ─ Finalizou o subcomandante.

As buscas foram frustradas e a última esperança de encontrar o ogro naquele dia


desapareceu. A gruta do Archer foi totalmente revistada e o grupo não encontrou nada que
revelasse a presença do monstro. Ao abandonar o local, Gabriel era o último a subir. Sua
frustração era visível sem os óculos. No meio da escalada, ele olhou pela última vez para trás,
ao que percebeu algo de anormal:

─ O que é isso? ─ E observava uma mancha na parede.

Seus agentes não retiraram os óculos de visão noturna em nenhum momento, devido
a falta física de provas encontradas em outras grutas, como fogueiras apagadas, restos de
animais ou coisas de tipo. Porém, sem os óculos e com a leve iluminação da lua, Gabriel
visualizou uma grande marca de mão, a parede rochosa da entrada, feita com sangue. A marca
estava falhada, entretanto claramente se tratava de uma mão. Ele pegou sua lanterna para
verificar:

─ É um ponto de apoio. Ele se apoiou ali para descer por aqui. E estava sujo de sangue.
─ sussurrava ele ao pensar.

O subcomandante pediu para a equipe aguardar em prontidão e desceu novamente,


para procurar pistas com a lanterna. Verificou que as próprias rochas por onde ele descera
estava marcada com sangue e foi vasculhar as partes internas:

─ É sangue de caça, de algum animal que ele abateu e comeu sem preparar. É um
primitivo, bem provável que faça isso.

126
Ao adentrar a caverna, encontrou alguns respingos junto com sutis marcas de passos
gigantes. A próxima revelação no fim do rastro lhe fez sorrir:

─ Luterkal, Wolf, achei o ogro.

**********

─ É sério isso? Um ogro primi vo construiu uma porta gigante de pedra


superescondida e em perfeito alinhamento com a parede da gruta e não conseguiu pensar em
se limpar antes de voltar para cá? ─ Luterkal zombava.

─ Pode ser que ele não construiu, ou não pensou que precisasse esconder tanto. ─
Respondeu Wolf.

Todos estavam agrupados dentro da gruta do Archer, observando as grandes marcas


ensanguentadas de mãos que rodeavam uma grande rocha na parede:

─ Tá certo, o ogro deve estar aí dentro e precisamos captura-lo. Hora de o gigante Wolf
entrar em ação. ─ Disse Luterkal.

─ Já esperava que o trabalho pesado ficasse comigo. ─ Respondeu ele.

Sem delongas, Wolf retirou sua vestimenta e transformou-se. Como era de costume a
equipe do Luterkal trabalhar junto com a equipe do lobisomem, todos já estavam
acostumados com a transformação do comandante. A maioria vangloriava-se por ter um ser
tão poderoso sempre por perto:

─ Será que ele sente dor fazendo isso? ─ Perguntou Gabriel para Luterkal.

─ Ele já se acostumou.

Wolf esticou suas unhas e tentou agarrar as laterais da rocha, porém era mais larga
que seus braços estendidos. Então, resolveu puxar um pouco de cada lado. A rocha movia-se e
a gruta estremecia. A gigante pedra revelou um túnel largo e alto, que fazia um ângulo para
baixo:

O lobisomem farejou o ar interno do lugar:

127
─ Ele está aqui, mas não será fácil de encontrá-lo. É uma grande rede de túneis e pelo
visto já sabemos o que ele faz por aqui.

─ Já sabemos? ─ Indagou Gabriel.

─ Geralmente, entradas secretas, caminhos labirín cos e fortes criaturas protegendo o


lugar representam um portal para o mundo planar. Ou então esse ogro é um grande fugitivo
burro. ─ E sorriu.

Wolf seguiu transformado, à frente do grupo. Luterkal e Gabriel ligaram a função de


mapeamento da área, em seus rastreadores via satélite.

A presença de magia naquela caverna era inegável. Até os humanos sentiam o


grandioso poder da região dos portais. O caminho se dividiu em três e, novamente, os grupos
se repartiram.

Luterkal seguia com sua equipe pelo túnel central, chegando ao seu fim e não
encontrando nada:

─ Gabriel, alguma coisa? ─ Disse ele.

─ Até agora, nada. Mas esse túnel aqui parece não ter fim.

─ Con nua seguindo, estou voltando pro entroncamento.

O clima estava tenso nos três grupos. Ninguém encontrava o ogro e os diversos túneis
dificultavam ainda mais a caçada. De repente, Luterkal ouviu um grande tumulto pelo
comunicador. Era um terrível sinal:

─ Gabriel! Gabriel, tá me ouvindo? ─ Gritava ele, entretanto não era respondido.

O silêncio que se formou logo após a algazarra enlouquecia Luterkal. Ele e sua equipe
correram pelos túneis, tentando encontrar o subcomandante pelo rastreador. As diversas
passagens atrapalhavam o sinal. Em um outro entroncamento, Luterkal sentiu uma grande
presença de um dos 4 túneis disponíveis. Para sua sorte, o que chegava era Wolf:

─ Aconteceu alguma coisa com Gabriel. O comunicador dele parou de funcionar. ─


Luterkal esclareceu a situação.

─ Percebi algo de estranho. O cheiro de sangue se espalhou por toda a caverna. ─ Wolf
ainda estava transformado. ─ Está me dificultando para encontra-los.

128
─ De acordo com o rastreador, é por aqui. ─ Luterkal apontou o caminho.

O gigante grupo de soldados partia enfileirado pelo túnel indicado por seus
comandantes. O caminho se alargou depois de alguns minutos e chegaram à um paredão de
rochas, cercado por uma larga fenda. Sangue fresco estava espalhado pelo paredão colossal e
diversos equipamentos jogados pelo chão:

─ Não acredito. ─ Luterkal abateu-se. ─ Todos estão…Mortos!

─ Nem todos. Alguns se arrastaram por esta passagem. ─ Uma voz horripilante surgiu
de um dos cantos do salão. O ogro falava em Elliniká. ─ Aos que caíram na fenda, creio que não
chegarão ao outro lado. Devem estar mortos agora. Hahá!

Um grande ogro protegia a entrada de outro túnel. Era quem eles procuravam:

─ Seu merda! Você merece morrer! Mas tenho um destino pior para você. ─ era
notável que Wolf queria vingança. Ele respondia em Elliniká. ─ Será torturado por todo o resto
da sua vida nas masmorras da DHIP!

─ Me prender? Tentem! Como seus amigos fizeram e se arrependeram! ─ O ogro


atacou.

A área não era grande e a vantagem estava para os seres fortes. Era um combate
corpo a corpo. O poderoso ogro estava desarmado e nu, porém sua extraordinária força
superava qualquer um dos oponentes.

Vinte e nove contra um, aparente desvantagem para o ogro, entretanto estavam em
seu território:

─ Hahahá! Vivas ao Zoltran! O poderoso guardião do portal que nunca permitirá


humanos nas redondezas! ─ Ele exaltou-se.

Zoltran saltou e socou o chão. Parecia um ataque inútil, porém estremeceu a caverna.
Luterkal percebeu algo estranho e observou o teto. Gigantes estalactites estavam agrupadas
bem acima deles:

─ Sai! ─ Gritava ele. ─ Sai todo mundo daqui! Ele vai derrubar as estalac tes!

Perdas do difícil trabalho. Por fim, o ogro não resistiu às diversas balas e sedativos pelo
seu corpo. Mais treze vítimas e cinco feridos, provavelmente a missão mais suicida que os
comandantes já fizeram. A batalha durou menos que 5 minutos:

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─ Soldado Vieira, você é o responsável por liderar o resgate dos feridos. ─ Dizia
Luterkal. ─ E escolha alguém para aplicar mais seda vos nesse demônio sem asas.

─ Certo comandante! ─ Respondeu o soldado.

Wolf esperava Luterkal na entrada do túnel que antes era protegido pelo ogro. Eles
procuravam pelos desaparecidos que Zoltran indicou ter fugido por ali:

─ Relaxa Luterkal, Gabriel está bem. Ele é um ó mo caçador e com certeza conseguiu
fugir. ─ Wolf, ainda transformado, tentava aliviar a preocupante feição do elfo.

─ Eu sei, eu sei. Mas não estou só preocupado com isso. Tem noção do que acabamos
de fazer? Capturamos um guardião, um ser que faz o mesmo que nós. Ele protegia algo com a
vida dele, protegia a nossa vida. Retiramos o guardião de um portal natural por causa dos
humanos. ─ Luterkal ainda estava perturbado.

─ Não implique tanto com isso. Existem diversos portais, você sabe disso. Somente
indicaram o guardião errado. Guardiões de verdade assombram o lugar, tornam ele
desabitado pelo que os humanos mais temem: o que não conhecem. Ele não era um guardião,
era um assassino.

─ Tomara que você tenha razão. Não quero que cedo ou tarde a natureza desconte em
nós.

─ A natureza já foi embora há muito tempo, meu amigo.

Ao fim da terceira passagem que procuraram, encontraram quatro sobreviventes.


Dentre eles, Gabriel.

Luterkal sorriu, entretanto por pouco tempo. Os três soldados estavam ilesos, mas o
subcomandante havia perdido um dos braços. Fora arrancado pelo próprio Zoltran quando
Gabriel atirava. O ódio consumiu seu corpo e ele gritou para aliviar-se. Após alguns suspiros, o
comandante disse:

─ Que se dane a natureza.

**********

130
Diversas ambulâncias estavam no local. Os médicos tratavam dos feridos enquanto os
enfermeiros recolhiam os corpos trazidos pelos soldados.

Jéssica chegou ao local e logo foi procurar pelos comandantes:

─ Meu Deus. Ainda bem que vocês estão vivos! ─ Ela abraçou Luterkal ao encontra-lo.

─ É. Essa foi difícil. Nunca mais vou trabalhar com humanos quando forem criaturas
poderosas. ─ Ele devolveu o abraço.

Wolf estava ao lado deles. Encontrava-se como humano e já havia se vestido:

─ Infelizmente, nem todos veram nossa sorte. ─ E ges culou para a maca que
chegava.

Gabriel era trazido desacordado. Um torniquete retardava o sangramento. Luterkal


observou seu amigo sendo levado à uma ambulância. Era um dos pacientes mais graves:

─ Ele ia ganhar uma promoção agora. Ia ser um comandante dos Estados Unidos. Ele
perdeu o braço, como vai ser o atirador de antes? Não dá, não posso acreditar nisso. ─ Luterkal
não se conformava.

─ Ele vai ficar bem. Confia em mim. ─ Disse Jéssica.

─ Concordo com ela, você ainda verá seu subcomandante no auge. ─ Wolf completou.

─ Obrigado pessoal, eu sei disso. Mas diz aí, o que vão fazer com o portal? ─ Luterkal
mudava o foco do assunto.

─ Bem. ─ Jessica respondia. ─ Pelo que soube, vão lacrar a passagem para sempre. Esse
é um grande ponto turístico do Rio de Janeiro, não podemos afastar os humanos daqui.

─ Sei. E mais uma vez, nosso lema é quebrado. ─ Comentou Luterkal.

─ Como assim? ─ Ela indagou.

─ Não mexer no ciclo natural do mundo. Retiramos um guardião, vamos fechar um


portal. Acho que isso vai muito além do ciclo natural que pensamos. Essa organização já era.
Assim como Gabriel disse. ─ Luterkal abandonou a presença dos amigos.

Ao caminhar para longe, seus pensamentos lhe faziam rever seus ideais, porém fora
interrompido pela remoção de Zoltran da caverna. O ogro estava meio acordado e era puxado

131
por cordas amarradas em uma escavadeira, já beirando a pista. Os comandante fitou o ogro e
logo esta agindo por impulso. Ele aproximou-se da fera e começou a socar sua face.
Descontava todo seu ódio naquele momento. Ninguém o segurava, todos estavam com medo
de tal atitude.

Luterkal sempre era brincalhão e sorridente. Sua feição atual era totalmente
desconhecida.

Percebendo o pequeno alvoroço, Wolf correu para retirar Luterkal do seu momento de
fúria:

─ Calma! Calma Luterkal! Ele está bem. Ele vai sobreviver! ─ Wolf gritava enquanto
barrava o elfo.

─ Sai da minha frente! Ele acabou com o futuro dele! Eu vou acabar com esse
desgraçado!

─ Luterkal, me ouve. Ele vai pagar pelo crime que cometeu. Acalme-se, está assustando
todos.

─ Hahá. Deixa ele me bater. ─ O ogro começou a falar, em Elliniká. ─ Não vai mudar o
que já aconteceu. Vocês retiraram minha honra, eu falhei em proteger o portal.

─ Seu merda! ─ Luterkal cuspiu no ogro.

─ Faça o que quiser enquanto há tempo. Eu juro que um dia terei minha vingança. ─ O
ogro gargalhou.

O dia terminou com sangue e mais promessas de violência.

Com o passar das semanas, Gabriel recuperou-se e seu braço não o impediu de ser
promovido. Sua vasta experiência e força de vontade lhe fizeram ser um dos melhores
comandantes das tropas de longo alcance da sede DHIP.

Ao ver seu amigo recuperado e progredindo na carreira, Luterkal recuperou-se do


choque e voltou a ser o velho comandante sagaz e inabalável.

Zoltran, por outro lado, foi condenado a sofrer torturas nas masmorras da DHIP pelos
crimes cometidos aos humanos. Em sua mente, concentrava-se na vingança para não sentir a
dor. Nunca se conformaria com a desonra que sofreu. Ele cumpria sua missão e foi
interrompido por seres como ele. Jamais perdoaria seus caçadores.

132
Presente

Zoltran não demonstrava nem um pouco de piedade. Antes de qualquer coisa, cuspiu
no rosto do lobisomem, que ainda se contorcia ao chão, já na forma humana:

─ Oito meses na prisão, sofrendo torturas e experiências, por causa de vocês, que
defendiam humanos miseráveis, que só pensam em si mesmos. Eu vivia feliz e solitário, tinha
uma vida tranquila e cumpria com o meu dever de guardião. Está me vendo agora? Seu
desgraçado! Vocês fizeram isso comigo. Imperdoável!

Ele levantou a maça e desceu com tudo, acertando a cabeça e parte do tronco de Wolf.
Os espinhos penetraram e sangue espirrou por todos os lados. Zoltran deixou a maça ali
mesmo e olhou para a espada encravada em sua barriga. Doía demais e seu corpo desfalecia
rápido.

Urok se aproximou do ogro e falava em Ellinká:

─ Ó mo trabalho, Zoltran. Já capturamos a princesa elfa, o serviço está completo.

─ Estou liberto?

─ Sim, você está livre!

─ Obrigado. ─ Zoltran virou-se de costas e saiu caminhando, lentamente.

Ele pensava em voltar a viver como antes, ser um honrado guardião. Porém, esquecia
que a morte era inevitável. Estava no fim da vida.

Quando a criatura se aproximou da Hilux, o elfo-negro constatou:

─ Desculpa, mas você agora é inútil!

Zoltran arregalou os olhos, porém sem tempo para reagir. Urok apertou um botão de
um dispositivo que estava em sua mão e o carro próximo ao ogro explodiu:

─ Agora, com certeza você está morto.

133
Urok voltou para a ponte onde outro veículo que acabara de chegar esperava por ele.
Jéssica estava amarrada e desfalecida no banco traseiro, junto a um elfo-negro. Urok entrou
ao lado do motorista, um homem que vestia um belo terno e uma gravata vermelha:

─ Zoltran já está morto, mestre! Os outros também! ─ Urok trazia a informação.

─ Ó mo! Tudo como planejado, podemos ir agora. ─ Comentou o homem, em Elliniká.

134
Capítulo 8 – 2° parte

Andrew estava de olhos abertos, ainda caído na lama e lixo, próximo ao córrego
poluído. Seu corpo não respondia aos movimentos e não enxergava nada, como se algo
bloqueasse sua visão. Lembranças da voz de Jéssica lhe pedindo socorro ecoavam pela sua
mente. Aos poucos, recuperava os sentidos, inclusive a dor. Estava machucado em vários
lugares, além da shuriken fincada em seu braço e da kunai nas costas:

─ Jê... Jéssi... Ca. -─ Ele tentava falar, mas sua voz falhava.

Seus movimentos retornaram, entretanto ainda encontrava-se moroso. O mestiço


sentou virado para a água e, com muita dificuldade, retirou a shuriken do braço, jogando-a no
esgoto. Ele levantou e pegou a camisa que o elfo-negro jogou por cima dele. Logo depois,
começou a escalar o barranco, agarrando-se pelas raízes das plantas. No profundo
pensamento, Jéssica ainda gritava por socorro e isso o encorajava a subir cada vez mais
depressa.

No topo, o cenário equiparava-se com o de uma guerra. Partes do carro detonado


estavam espalhadas e ainda pegavam fogo, vários elfos-negros mortos, dois veículos ainda
fechando o caminho, Luterkal e Wolf caídos no chão, armas espalhadas e muitas cápsulas de
bala, além do enorme ogro caído na calçada.

Andrew não sabia o que fazer, estava perdido em meio ao caos, até observar um leve
movimento no meio da rua. Era Luterkal. Ele correu ao encontro do comandante e virou-o de
barriga para cima. Luterkal sangrava muito e seu rosto bélico estava deformado. Ele respirava
com muita dificuldade enquanto sangue escorria de sua boca:

─ A...Andrew. ─ Luterkal sorriu levemente. ─ Des...culpe se não ...conse...guirmos.

─ Não gaste suas energias eu vou te ajudar. ─ Andrew interrompeu.

─ N...não, não me...xa em mim, estou com mu...itos os...sos quebrados. Minha ho...ra
já Che...gou.

Andrew sentia um enorme aperto no coração. Aquela estava sendo a pior noite da sua
vida. A morte o rodeava, as sombras o consumiam e a solidão o abraçava. Era uma das piores
sensações que já sentira. Tentava controlar-se, ser forte, porém em vão:

135
─ Alguém sol...tou o ogro da p...prisão, alguém está faz...zendo os elfos-negros de
fan...fantoches, isso a…gora se to…rnou um fato. ─ Luterkal ainda falava com muita
dificuldade. ─ Eles chamaram Jéssica de prin...princesa elfa. Eu ou...vi o líder de...les falando
antes de de...detonar o carro. E tem m…mais uma coi…sa. Eu que...ro que você limpe essa
bagunça. U…sa o apagador.

─ Tudo bem, eu faço.

Olhar para Luterkal naquele estado e saber que Wolf estava morto deixava o jovem
ainda mais arrasado. Aquela seria uma das melhores noites de sua vida, o encontro surpresa
com a agente, porém o destino transformou na pior.

O mestiço largou a camisa para começar a limpeza. Ele tinha certeza que os moradores
da região ouviram a barulheira e também que curiosos já chamaram os policiais. Não sabia por
quanto tempo apagou por causa do veneno, mas acreditava que a polícia já deveria estar ali há
muito tempo. Era só uma questão de tempo para chegarem.

Apenas com o olhar, ele apagou o fogo de tudo. Pegou o apagador no carro e passou
em todos os elfos-negros à vista. Aproximou-se do ogro e também utilizou nele. Recolheu o
escudo mágico e a espada do elfo, colocando dentro do carro em que chegou.

Andrew atentou-se em Wolf. A situação era horrível e ele lamentava. Era o cara mais
durão que conhecera e estava morto, como um humano. Todo seu mundo criado até agora na
DHIP, todas as fantasias e desejos, eram memórias do passado e ruínas do futuro. “Foi muito
bom te conhecer. Adeus.”

Ele estalou os dedos e uma pequena chama surgiu na poderosa massa. Juntou as mãos
e foi abrindo, fazendo com que a chama virasse um fogaréu intenso. Deixou queimando e
voltou para falar com Luterkal:

─ Terminei.

─ Ó mo, ó mo garoto. ─ Luterkal parecia melhor. Ele estava deitado de lado, todavia
ainda conversava com dificuldade. ─ Agora, pe…gue esta bainha.

Luterkal mostrou a bainha de sua espada para o mestiço:

─ Quero que você fique com a minha espada. ─ A cada frase, ele pausava por alguns
segundos. ─ Nasci e cresci no subterrâneo de Nova Iguaçu, em 1940. Quando completei 36
anos, meu pai me deu essa espada de presente. Ele disse que ela foi forjada há muitos anos

136
pela minha raça, dentro de um vulcão extinto nas redondezas de onde nasci. Somente seres de
coração puro podem empunhá-la e acredito que você poderá.

─ Obrigado, mas eu não posso aceitar. Essa espada é sua. Você vai melhorar e…

─ Andrew. Nós dois sa…bemos da verdade.

─ A espada está no carro. Vamos, eu vou te levar para ele.

Luterkal suspirou forte e tossiu:

─ Não Andrew. Não dá. ─ Ele sorriu. ─ Salva aquela garota por mim. ─ Luterkal começou
a tossir sangue.

─ Luterkal! Não, não! Agora não!

Não tinha mais volta. Após alguns suspiros fortes, Luterkal parou de respirar. Dor e
ódio brigavam por espaço dentro do coração daquele jovem. Seu berro desesperado pôde ser
ouvido de longe. Suas lágrimas haviam esgotado e seu pensamento estava desorganizado,
contudo de uma coisa ele sabia: tinha que acabar com tudo para ao menos tentar se sentir
melhor.

Andrew fechou os olhos do elfo e usou o apagador nele. Luterkal agora habitava
apenas a memória de quem o conheceu. O fogo que queimava o corpo do lobisomem
intensificou-se enquanto o jovem recolhia as roupas e a aljava do comandante elfo. Pegou
também a camisa doada pelo inimigo e jogou tudo no banco de trás, deixando a espada
guardada na bainha ao seu lado.

As sirenes já podiam ser ouvidas, sinal que a polícia aproximava-se. O mestiço saiu
rapidamente e dirigiu-se para mesquita. Estava aflito, tentando reorganizar seu conceito.

“Os elfos-negros estão chamando todos de elfos. Com certeza alguém está
bagunçando a mente deles. Isso ficou claro depois de terem me chamado de elfo e também
chamaram Jéssica de princesa elfa.” ─ Ele dirigia lentamente após chegar em mesquita, mesmo
estando com o carro cheio de marcas de bala e com um pneu dianteiro furado. Estava
desligado do mundo e viajava em seus pensamentos. ─ “Só pode ser alguém da empresa,
Zoltran foi liberto de lá. Outra coisa também é que tudo da empresa vem do Japão e as armas
dos shinobis também vem do mesmo lugar. Mera coincidência? Acho que não.”

Ele dirigia por uma rua onde duas crianças passavam em uma mesma bicicleta:

137
─ Caraça Mané! Tu ta vendo o carro do maluco? ─ Uma delas falou.

─ Todo chumbado! Aí o ta devendo? ─ A outra gritou.

Andrew olhou para elas. Pareciam dois demônios em miniatura, vindos para
atormentar sua cabeça ainda mais:

─ Já passou da hora de crianças estarem em casa! Se eu fosse vocês, nunca zombaria


de um estranho na rua, ainda mais com o carro nesse estado. ─ E freou bruscamente.

Os dois pivetes assustaram-se e quase caíram da bicicleta. Fizeram a volta rapidamente


e fugiram para longe, dizendo:

─ Você vai ver, vamos chamar o Perninha. Tu tá morto cara!

Ele sorriu ao amedrontar os dois.

“Perninha… Concordo com os pirralhos, vou morrer. Pelo menos será tentando evitar
uma coisa pior, que nem sei se existe. Quem dera que meu maior problema fosse um
traficante.”.

Ele preferiu acelerar para não encontrar outras interrupções. Ainda não conseguia
encaixar as provas com algum culpado, até que observou a camisa deixada como presente. Era
uma camisa de manga cumprida, toda preta, com as siglas da empresa no lado superior
esquerdo da frente. Observou a parte traseira da camisa e finalmente teve ideia de um
suspeito. Por trás dela, o novo símbolo do atual presidente estava estampado e também, uma
sequência de cinco números escritos em branco. Logo abaixo dos números estava escrito
“elfo-negro”, era uma camisa de prisioneiro.

─ Diego... ─ Andrew não relutou. ─ “Quem mais do que o próprio presidente da


empresa?”. ─Agora, ligava tudo a ele. ─ “O setor da prisão é privado, então seria fácil para ele
armar um plano. Dois meses atrás ele assumiu e há um mês as mortes começaram. Mas por
que o presidente está fazendo isso?”. ─ Ele pausou suas ideias e parou o carro para refle r
melhor, arriscando-se novamente. ─ “Por que o presidente faz isso e por que o elfo-negro me
deixou vivo?” ─ Perguntas lhe cercavam, mas respostas nunca apareciam. Ele socou o volante,
descontando sua raiva, e logo depois apoiou a cabeça. ─ “É muito difícil fazer tudo sozinho. É
difícil depois de perder tantos amigos.”.

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Central da Empresa – Jéssica.

Jéssica acordou assustada, com um jato de água em seu rosto. Ela estava suspensa na
parede, presa pelos braços e pernas. Era uma cela do setor da prisão. Dois elfos-negros se
divertiam com uma mangueira de água gelada, jogando jatos fortes na agente. Eles
gargalhavam e limpavam o corpo dela, que estava cheio de lama por causa do esgoto. Ela não
conseguia enxergar direito, pois quando conseguia abrir os olhos, os perversos jogavam água
no seu rosto. Eles se divertiram por um bom tempo, até que um homem interrompeu:

─ Chega! ─ E ges culou para cessarem.

Os dois elfos-negros pararam brevemente e saíram, gargalhando e molhando todo o


corredor.

Jéssica finalmente abriu os olhos e confirmou que estava em uma cela. Ela arfava e
sentia muito frio:

─ Relaxa princesa, amanhã sua morte será rápida. ─ Disse um homem de terno,
encostado na parede.

─ Você! ─ Ela ficou espantada.

─ Prazer querida.

─ Não é possível! Por quê?

─ Vingança? Diversão? De que importa! ─ Ele gritou no final, ajeitando os óculos.

O homem caminhou até Jéssica e segurou-a pelo queixo, sussurrando em seu ouvido:

─ O importante é que você quis me atrapalhar e agora está metida nessa. Te avisei
para deixar isso de lado, mas agora é tarde demais. ─ Ele abriu a boca e uma língua fina e
grande lambeu o rosto da agente, queimando por onde passava.

─ Aaaah! ─ Ela gemia e respirava forte.

A voz do homem engrossou, parecendo duas vozes ao mesmo tempo, no mesmo tom,
entretanto em alturas diferentes:

139
─ Sinta-se honrada, Jéssica. ─ Ele falava enquanto saía da cela. ─ Morrerá como uma
princesa elfa para todo o público que irá assistir.

O homem trancou a cela:

─ Será sacrificada amanhã! Prepare-se. Hahahahahá!

Jéssica não conseguia falar. Estava perplexa com a situação e com quem
verdadeiramente era o culpado. Depois de o homem sair, ela conseguiu murmurar apenas
uma palavra:

─ Pedro...

Pedro Henrique caminhava pelos corredores da prisão até encontrar Urok, o elfo-
negro queimado. Seus diálogos em Elliniká revelaram a gratidão de Urok:

─ Parabéns pelo sucesso das últimas missões. ─ Felicitou Pedro.

─ Obrigado mestre! Tenho prazer em ser bem sucedido. ─ E curvou-se.

─ Seu presente está naquela cela. A par r desse momento, você foi promovido a
capitão Urok!

─ Muito obrigado senhor! Muito obrigado!

Urok foi buscar sua nova espada, a tão desejada Skull. Sua alma era alimentada por
sede de vingança e seu sorriso era assustador.

”Aquele elfo mago do fogo irá pagar pelas queimaduras. Irei fazê-lo sofrer em um
combate justo. Mostrarei a ele como sou poderoso em combate e não uma piada! Ele vai pagar
pela dor que eu sinto todos os dias!”

Sábado - 01h11min

Algum lugar de Mesquita.

Andrew ficou rodando por diversos bairros de mesquita, até finalmente entrar por um
campo de futebol e atravessar um muro quebrado, para parar o carro no meio do matagal. Ele

140
queria ir para casa, porém o carro poderia chamar a atenção dos moradores e também, temia
uma nova emboscada. Estava cansado e precisava de energia para o dia seguinte.

O jovem segurou a kunai, que estava em suas costas, e puxou de vez. O sangue
espirrou no vidro trincado e furado de bala. Ele segurou-se para não gritar de dor e respirou
forte, até passar. Por fim, deitou de bruços, atravessado nos dois bancos da frente, e
adormeceu. Estava sujo, fedendo à comida estragada, e com ferimentos expostos, ainda
sangrando, todavia o cansaço superou tudo aquilo.

O pesadelo real era pior que qualquer coisa que sonhasse.

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Capítulo 9 - Coragem

Sábado -11h20min

Algum lugar de Mesquita

O dia mais triste das últimas semanas. Os pássaros não cantavam, crianças não
brincavam, o sol não estava ali. O dia mais chuvoso do ano até agora.

Andrew acordou. Estava com fome, sentia frio e dores pelo corpo inteiro. Ele sentou
ao volante e ligou o carro. Ainda tinha bastante combustível, mas no estado em que se
encontrava, seria impossível rodar pela cidade:

─ Que que eu faço agora? ─ Falou para si mesmo.

O jovem desligou o motor e saiu do veículo, pegando apenas a espada que Luterkal lhe
dera. A chuva era tão intensa que seu corpo logo ficou encharcado. Ele sentou no mato,
afastado uns dez metros do carro e posicionou as mãos na direção dele. Concentrou-se e uma
chama pequena surgiu no banco do motorista. Ele fez alguns movimentos com os braços e
logo provocou o incêndio do veículo. O mestiço concentrava-se, mantendo o fogo sempre
intenso. Os pneus estouraram e a carroceria derretia. Até a vegetação próxima, que estava
sendo molhada pela chuva, secava.

A gasolina entrou em combustão e o carro explodiu, fazendo voar pedaços por todos
os lados. Uma das partes da carroceria acertou uma árvore ao lado do mestiço. Ele protegeu o
rosto no momento da explosão e depois examinou: O escudo estava intacto.

Andrew tinha de achar uma maneira de se livrar do poderoso escudo. Primeiro,


tentou levantá-lo. Era pesado demais e não conseguiria carregar por muito tempo,
descartando a possibilidade de levá-lo para casa. Então, ele saiu pelo buraco do muro e
observou o que existia ao seu redor: o campo de futebol, um córrego de esgoto e residências.
Teve uma ideia: pegou o escudo e jogou-o no córrego. Para melhorar a camuflagem, cobriu
com a vegetação próxima.

“Não é a melhor das soluções, mas basta por enquanto.”.

Decidiu ir para casa. Enquanto saía do campo de futebol, sentiu um leve movimento
em uma cortina de uma moradia próxima, porém ignorou. Por dentro da casa, uma jovem

142
baixinha, de cabelos até o ombro, corria para o telefone. Ela visualizava da janela desde que o
automóvel explodiu:

─ Alô? Polícia? Eu acho que acabei de ver um assassinato. É, é em Mesquita. O


endereço? É rua (...).

Caminhando, o mestiço demoraria aproximadamente meia hora até sua casa, além de
todos pela rua estarem lhe observando. Em seu estado, era impossível não chamar atenção.
“Preciso de um carro.”. Ele sabia que isto era totalmente errado e não queria ter que roubar,
entretanto as circunstâncias não deixavam outra opção.

Andrew parou na calçada e esperou um veículo aproximar-se. Um Peugeot 360 prata,


apareceu. Não perdeu tempo e concentrou-se. Assim que o automóvel passou, ele abriu os
olhos. O carro estava todo fechado e não se sabia o que acontecia por dentro. De repente, o
veículo parou bruscamente e o motorista saiu, gritando:

─ Ah! Socorro! Fogo!

Mas o fogo não era no carro e sim em sua camisa. O condutor deitou no chão e
começou a rolar.

O jovem correu para roubar o veículo. Enquanto saía, o dono do carro reclamava,
enfurecido:

─ Ah! Só faltava essa! Fui roubado por que minha camisa pegou fogo, e do nada!
Ninguém vai cair nessa…

Andrew seguiu adiante e nem olhou para trás. A única coisa em que focava agora era
no que fazer para invadir a base, sozinho, e resgatar Jéssica. Esse era seu principal objetivo.
Depois, queria encontrar a pessoa responsável pelo que estava acontecendo, queria encontrar
Diego, quem acreditava ser o mandante. Sabia que não seria fácil e pensava em pedir uma
ajuda diferente.

O jovem lembrou que seu tio havia lhe ensinado um caminho secreto que passava por
baixo da cachoeira de Nova Iguaçu. Era um lugar sagrado onde poderia frequentar sem
precisar preocupar-se. Ele e seu tio já visitaram uma vez e achava que lembraria o caminho.

Ao chegar em casa, tudo estava como deixou. Ele pegou a televisão e ajeitou-a no
resto da estante. Também ajeitou o sofá e foi ao banheiro. Tomou um banho bem demorado e
espumante para retirar toda sujeira do corpo e vestiu-se apropriado para o frio, com casaco

143
vermelho, uma camisa branca de manga curta por baixo e calça cumprida preta. Em meio
àquela bagunça, preparava algo para comer enquanto lembrava tudo que já aconteceu:

─ Como fui me meter nessa merda toda... ─ Ele murmurava.

O noticiário da televisão atrapalhou seu pensamento. Falava da noite anterior e,


enquanto comia, aumentou o volume:

─ “Na noite passada ocorreu um caso estranho em Belford Roxo, por volta da meia
noite. Moradores da região ligaram para a polícia, denunciando um possível encontro entre
facções criminosas. A polícia foi averiguar e ao chegarem no local indicado, eles encontraram
veículos abandonados, muito sangue, uma arma do exército militar, munição, cápsulas e
objetos intrigantes, como armas orientais e um arco medieval. A área está isolada e a perícia
investiga o local (...)”.

─ Como sempre, a polícia não sabe de nada. ─ Comentou Andrew.

Quando foi trocar de canal, o delegado responsável pela situação falou sobre algo que
lhe chamou a atenção:

─ “Pois bem Ana, estamos inves gando o cenário. Não encontramos corpos ainda, mas
uma sigla nos veículos nos deixou intrigados. Não existem registros dela como empresa no
Brasil e nem no exterior. Provavelmente, uma nova facção criminosa com potencial poder de
fogo está surgindo no Rio de Janeiro e utilizando essa sigla, que vamos investigar junto com a
placa do automóvel (...).”.

Andrew não havia visto a sigla da DHIP nos veículos dos elfos-negros. Aquela noite fora
corrida e desastrosa. Agora, estava ainda mais certo de que Diego era o procurado:

─ Até o nome da empresa esse cara arriscou!

Central da DHIP

Na base da DHIP, no morro do corcovado, o funcionamento da empresa era normal.


Todos trabalhavam como sempre e tudo ocorria bem, até que o presidente anunciou um
recado para todos os setores:

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─ Bom dia a todos. Quem fala é o atual presidente da DHIP, Diego Fernandes Pimentel.
─ Seu rosto estava em todos os telões. ─ Quero deixar bem claro que ontem à noite, devido à
investigação paralela de Jéssica Santana, antiga chefe do departamento centro e zona norte do
setor de vigilância, a sigla da nossa empresa foi divulgada na mídia brasileira. A partir de hoje,
todos os veículos serão revisados e terão as siglas trocadas pela logomarca atual. Também
quero deixar claro que nenhuma investigação paralela poderá ser aberta por prevenção da
perda de dados e divulgação da empresa. Hoje, eu declaro luto empresarial e todos que não
estão de vigilância podem retornar as suas residências. O motivo do luto é o desaparecimento
e possível morte de três agentes: Jéssica Santana, Luterkal Fandeléve, comandante do grupo
de longo alcance e Gregório Valentins, mais conhecido como Wolf, comandante do esquadrão
de combate corpo a corpo. Obrigado pela atenção e tenham um bom dia.

Alguns comemoravam a folga, outros sentiam muito pela morte dos comandantes,
mas parecia tudo natural, perdas do difícil trabalho:

─ Não é possível! Eles apenas foram à favela da rocinha atrás dos ninjas. Eu estava
aqui! Eu que cedi as informações! ─ Falou Pedro, fingindo estar aflito.

─ Como assim possível morte? Isso ficou mal explicado para nós! E Andrew? Cadê ele?
─ Perguntava Sandra.

─ Ele nos deve explicações pessoais. Vou cobrar isso dele nesse exato momento! ─
Marcelo, indignado, saía da sala.

─ Meu Deus! Jessica… ─ Dizia Pedro, demonstrando-se impactado.

Pedro Henrique realmente aparentava estar de luto, entretanto gargalhava de


felicidade, por dentro.

Jéssica ouviu todas as palavras do presidente e não acreditava no que estava


acontecendo:

─ Como assim? ─ Ela berrava. ─ É men ra! Me ajudem! Eu estou viva! Socorro!

─ Skáse xotikó skýla! An den kópsete ti glóssa sas! ─ Falou um elfo-negro que fazia a
guarda.

Jéssica continuou a gritar, mas viu a criatura interpretar que cortaria sua língua se
continuasse, então parou. Seus braços e pernas doíam demais por estar amarrada na mesma
posição por horas e não queria pensar em ter a língua arrancada. Fome, sede e dúvidas

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assolavam seu pensamento. “Por que Pedro Henrique? Ele sempre foi o meu melhor
investigador! Por quê?”. Ela estava muito assustada e sabia que apenas um milagre a livraria
da situação.

Casa de Andrew

A chuva parou, porém o tempo continuava frio e prometia cessar a trégua com o
passar das horas.

O mestiço olhou para o céu, pela janela quebrada da cozinha:

─ Uma perfeita época para orar.

Ele saiu de carro para o centro de mesquita e depois, ao caminho da cachoeira. Subiu
uma parte do morro, ainda dirigindo, e logo preferiu subir a pé. O caminho era largo, mas
cheio de buracos, barrento e escorregadio devido à chuva. Nas laterais do caminho, pelo lado
esquerdo, desciam as águas da cachoeira e, pelo outro lado, muito mato e árvores altas, com
algumas casas isoladas.

O jovem subiu metade do caminho e virou para uma casa que parecia estar
abandonada. A porta encontrava-se entreaberta e ele adentrou. No cômodo que estava não
havia nada, até que uma voz o assustou:

─ Quem está aí? ─ Era um senhor idoso sentado em uma cadeira de balanço, no canto
da sala, que surgiu de repente.

─ Vim para usar o santuário.

O idoso parou de se balançar e levantou da cadeira:

─ Quem é você, jovem?

─ Sou Andrew, um mes ço. Vim aqui na minha infância com meu o Carlos, que é
mestiço também. Eu sei que aqui tem um santuário e vim utilizá-lo.

O idoso aproximou-se e olhou fundo nos olhos de Andrew:

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─ Você não está mentindo. ─ Ele constatou. ─ Meu nome é Telurian e sou o guardião
do portão.

De repente, o velho se tornou um rapaz jovem, alto e forte, de cabelos longos, loiros e
lisos, vestido com mantos brancos.

─ Um anjo.

─ Isso mesmo. Você pode entrar. Vejo sua aflição e vontade de resolver sua situação.
Aprecio sua coragem, jovem. Seja bem vindo.

O anjo mexeu os braços e o chão abriu-se, revelando um túnel iluminado por tochas, e
escadas, construídas detalhadamente com entalhes de rosas.

O mestiço agradeceu e desceu. Chegou em um lugar onde, através de uma fenda


concorrente no teto do túnel, descia uma fina camada de água da cachoeira, formando uma
parede líquida. Ele atravessou e viu um lindo jardim, repleto de pequenas criaturas voadoras e
brilhantes. Uma delas aproximou-se e ele notou que pareciam minúsculas humanas com asas
de borboleta, eram fadas. Elas faziam barulhos iguais a pássaros quando conversavam e
sorriam como humanas. Era um lugar mágico.

Andrew seguiu um caminho dentre as lindas flores coloridas e chegou ao santuário.

Nesse lugar, o teto era mais alto e, por buracos circulares nele, descia água da
cachoeira. No chão, um círculo de dois metros de raio, feito de rochas e com várias
ornamentações do sol e da lua, ocupavam o centro do lugar. Quatro pilares
proporcionalmente divididos rodeavam o círculo, com imagens de anjos por toda coluna. A
água da cachoeira, que descia pelo teto, caía diretamente no topo das colunas e, por dentro
delas, escorria para o círculo e para todo aquele lugar, formando um sistema de irrigação. No
círculo de rocha, a água preenchia o símbolo do sol e da lua, dentro de uma camada rochosa
transparente. Além disso, as fadas davam brilho ao lugar.

O jovem posicionou-se ao centro do círculo e deitou, olhando para o teto da caverna,


com os braços esticados, rente ao corpo. Ele começou a falar em seus pensamentos:

“Sei que faz muito tempo que não venho aqui e peço desculpas, pois a vida dos
homens nos prende e nos faz esquecer que às vezes precisamos de ajuda. Neste momento,
estou sem saída e vou arriscar a minha vida para proteger uma pessoa. Ela entrou na minha
vida e tudo mudou. Já perdi pessoas próximas e não tenho mais lágrimas para derramar. Só

147
preciso salvá-la e concertar as coisas. É o único jeito de consolar meu coração quebrado.
Vontade de desistir eu tenho, mas sei que desistindo perderei mais uma pessoa e morrerei se
não tentar. Obrigado por vocês me deixarem sozinho, até mais.”.

Ele levantou e começou a sair, desanimado:

─ Vejo que é de poucas palavras, Andrew Moura.

O jovem olhou para trás e viu um lindo anjo feminino, com asas enormes e bem
plumadas. Estava com vestes brancas e suas asas eram reluzentes:

─ Desculpe, pensei que não iriam me atender. ─ Andrew arrependeu-se.

─ Ajudamos todos que fazem o bem para o próximo. Sente-se comigo, jovem corajoso.

O mestiço sentou-se junto ao anjo, dentro do círculo, e este o envolveu com as asas. O
santuário começou a brilhar e logo o jovem sentiu sua força sendo renovada:

─ Você diz que procura por vingança, mas seu coração quer apenas justiça. Durante o
curso da vida é preciso fazer sacrifícios e ser um vencedor para superá-los. Nunca pense que
está sozinho, pois, contra aqueles que retiram a paz desse planeta, nós sempre estaremos a
favor dos bem feitores. Os anjos estão com você, Andrew.

Um brilho intenso iluminou o santuário e o anjo desapareceu.

Andrew sentia-se renovado, sem nenhuma dor. Ele retirou o casaco e olhou por baixo
da camisa: todos os seus ferimentos estavam sarados, sem cicatrizes. Depois de todo
sofrimento, ele sorriu alegre, porém a luta ainda não havia terminado.

O mestiço levantou-se, encorajado, e retornava para a entrada. ”Obrigado.”

Algumas fadas bloquearam seu caminho e outras trouxeram algo brilhante e


colocaram em sua mão. Num coro perfeito, as fadas disseram:

─ Um presente dos anjos!

O jovem analisou a pequena esfera que lhe trouxeram. Parecia ser de vidro, com uma
luz branca intensa vinda do seu centro.

Ele Tinha certeza que os anjos estavam com ele e o presente concretizava sua
confiança:

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─ Use com sabedoria. ─ As fadas alertaram.

Ele concordou com a cabeça e saiu do santuário.

─ Muito obrigado pela visita, meu jovem, e cumpra o seu destino. ─ Agradeceu o anjo
guardião, enquanto fechava a entrada.

─ Obrigado Telurian.

─ Sem problemas! ─ Disse o anjo. ─ “Te vejo em breve.”.

Assim que Andrew deixou a casa, o anjo desapareceu.

Base da DHIP – Setor da prisão

Jéssica estava acorrentada na parede há mais de quinze horas. Ela não sentia mais os
pulsos ou os pés. Seu corpo estava exausto e suas esperanças acabavam. Mal conseguia
manter a cabeça erguida. Não comeu nada até aquele momento e quando seu corpo secava,
os elfos-negros voltavam a molhá-lo com a mangueira. Para ela, a morte tornava-se um lugar
seguro.

Os dois elfos-negros, que sempre a torturavam, abriram a cela e retiraram as amarras


dela. Jéssica caiu contra o chão, rasgando os cotovelos para não ferir a face:

─ Vamos princesa, nós vamos te preparar para a cerimônia da vitória! Ha há! ─ Falou
um deles, em Elliniká.

Jéssica mal tinha forças para falar e deixou ser levada sem esforço. No lugar onde
estavam as amarras, ficou machucado, roxo e inchado. Não conseguia mover os pulsos.
Preferia ser sacrificada logo.

149
Capítulo 10 – Revanche

Andrew esperou em casa até às cinco horas da tarde e dirigiu para o entroncamento
que Jéssica lhe levou na primeira vez em que foi à base. Chegando próximo ao local,
abandonou o veículo no meio da rua e levou consigo a esfera, no bolso do casaco, e a espada
amarrada na cintura.

O mestiço caminhou por dentre as árvores para ocultar sua presença. Pela noite, as
entradas do parque eram vigiadas por vários guardas, alguns armados com grande poder de
fogo. Entretanto, ele tinha um plano.

Andrew aproximou-se o máximo possível do estacionamento e concentrou-se em um


veículo estacionado próximo às cabines:

─ Vamos esquentar o sangue!

Uma pequena fagulha apareceu no banco do motorista. Ele sorriu e, no mesmo


momento, o fogo aumentou. Andrew distanciou os braços um do outro e o fogo ficava cada
vez mais forte. Era tão intenso que as quatro rodas do veículo estouraram ao mesmo tempo e
o asfalto próximo, derretia. Os guardas correram para apagar o incêndio repentino e um
pequeno tumulto surgiu.

Ele virou-se de costas e saiu. Em seus olhos, podia ser visto uma chama azul, estava
preparado. Quando chegou próximo a um telefone público escondido dentre moitas, o carro
explodiu.

Base da DHIP - Setor da prisão

Eram por volta das 18h30 e, na central da DHIP, poucas pessoas trabalhavam. Todos os
setores estavam silenciosos, exceto o setor nove. Mais de 400 presos eram mantidos no lugar
antes do plano ser executado, porém a maioria encontrava-se morto em sua cela ou fora
liberado. Nenhum agente da DHIP era visto no local, apenas elfos-negros, goblins, demônios e
diabretes pequenos com asas de morcego. Eles circulavam pelos corredores.

150
As criaturas dirigiam-se para uma parte do setor que parecia uma arena de batalha.
Era um espaço circular enorme, com vários assentos, imitando as arenas da antiga Roma. No
centro, existiam duas bolas de ferro gigantes e pesadas.

Todos aguardavam o momento em que a princesa elfa entraria na arena. Enquanto


isso, Jéssica era vestida com trapos velhos, pelos dois elfos-negros. Em algum tempo, ela seria
levada para a arena e acorrentada nas enormes bolas de ferro.

Fora da base

Andrew havia decorado o número do celular de Sandra e agora era agradecido por
isso. Ele ligava do telefone público que encontrou:

─ Alô? ─ Era Sandra.

─ Sandra, sou eu, Andrew! Não fala meu nome alto!

─ Tudo bem, estou sozinha na sala. ─ Ela levantou e trancou a porta. ─ Vocês estão
bem? Cadê os outros?

─ Luterkal e Wolf estão mortos e acredito que Jéssica está presa no setor nove.

─ Ai meu Deus! Que horror! O que aconteceu? ─ Ela desesperou-se.

─ Não tenho tempo para explicar, a vida dela corre risco. Tenho motivos suficientes
para acreditar que Diego não só fornece dados, como também é o líder de tudo. Eu preciso da
sua ajuda para invadir o setor da prisão.

─ Que medo! Ele mais cedo deu um anúncio para todos sobre o desaparecimento de
vocês. Deus! O que quer que eu faça?

─ Preciso que vá para a entrada da DHIP, pelo parque. Aquela por dentro da caverna.
Eu te encontrarei lá.

─ Tudo bem. Estou indo agora!

─ Beleza. Tchau.

151
Andrew movia-se rapidamente pela penumbra, evitando ser notado, até aproximar-se
da velha guarita de dois andares. Observou que o segurança de plantão estava sozinho, e
entrou pela porta da frente. O segurança estava distraído, com fone de ouvido e nem teve
tempo de reação quando o mestiço atacou. Ele derrubou o guarda e imobilizou-o de bruços.
Revistou-o e retirou seu cassetete, chaves e aparelhos de comunicação, trancando o guarda no
banheiro:

─ Tenha um bom serviço! ─ Andrew falou, enquanto jogava as chaves para a floresta.

─ Não! Não faz isso comigo cara! Socorro! Me tira daqui!

O jovem seguiu a estrada do Corcovado, indo direto para a entrada combinada. O


caminho estava escuro e o som dos agentes agitados, tentando controlar o incêndio, era
ouvido ao longe. Ao chegar na entrada, Sandra já lhe aguardava:

─ Andrew! Que bom ver você. ─ Ela abraçou-o.

─ Olá! ─ Ele retribuiu.

─ Pensei que todos estavam mortos. ─ Seus olhos demonstravam o que havia dito.

─ Eu mesmo pensei estar morto, mas fui envenenado. Escuta só, eu tenho um plano.
Uma vez me contou que já fez faculdade de algo sobre sistemas, programação, essas coisas.
Lembra?

─ Sim eu fiz. É com isso que trabalho aqui para conseguir as informações que quero.
Por quê?

─ Preciso que você invada o sistema das câmeras do isolamento e faça imagens se
repetirem, como vemos nos filmes. Isso é possível?

─ É possível sim, mas não é tão fácil quanto parece. O sistema de segurança da DHIP é
quase impenetrável.

─ Então tenta fazer, por favor. Além disso, já vi que existem escadas de emergência
que levam a zona vermelha. Como tenho acesso àquelas escadas?

─ Que eu saiba, qualquer agente da zona vermelha pode abri-la. Acredito que com as
últimas mudanças de Diego os guardas não tenham mais acesso.

─ Então você pode destrancá-las?

152
─ Posso conseguir também, mas em pouco tempo fica complicado. Eu precisava do
Pedro Henrique para me ajudar.

─ E ele está aí?

─ Não, ele foi para casa. Diego dispensou grande parte dos funcionários hoje.

─ Pelo visto ele planeja algo. Você é a única que pode me ajudar. Sei lá, ache um furo
no firewall. Você deve ter acesso a algum lugar que pode te facilitar!

─ Eu posso tentar, mas se falhar, você terá de agir rápido para entrar nas escadas de
emergência. O sistema de segurança tranca todas as portas do setor que ativá-lo.

─ Eu confio em você e sei que não vou precisar de um plano B. Agora me dá o seu
relógio, vou te dar 15 minutos para travar o sistema do isolamento. Eu sei que você consegue
antes desse tempo.

Sandra entregou-lhe o relógio, sincronizado com seu celular. Ela estava nervosa e sua
próxima tarefa seria difícil.

Andrew entrou no elevador:

─ Glória, leve Andrew ao isolamento, sem paradas. ─ Disse Sandra.

─ Sim Sandra. Des no selecionado: Isolamento. Tempo de chegada es mado em um


minuto.

─ Obrigado e boa sorte! ─ Disse Andrew.

─ O mesmo para você. ─ Desejou ela.

No segundo pavimento do setor seis, em salas privadas, ficava toda a rede de


segurança e monitoramento interno. Eram salas com painéis eletrônicos, cabos e
computadores comuns, diferente da maioria dos terminais tecnológicos da empresa. Estes
cômodos eram habitados 24horas, sempre com um agente técnico monitorando os dados.

Sandra conhecia o agente responsável pela sala que precisava entrar: João, um obeso
que só pensava em comida. Ela buscou seu pen drive e foi à sala de segurança:

─ Boa noite João.

─ Olá Sandra, tudo bem?

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─ Tudo sim! ─ Ela sorriu. ─ Tá sabendo da festa de aniversário do Mário?

─ Aquele do setor cinco?

─ Sim! Ele mesmo.

─ Não. Ele não me falou nada.

─ Ué? Tem certeza? Ele me pediu para vir te chamar! Não entendi agora.

─ Poxa! Nem acredito que ele não me avisou.

─ Ele está te chamando lá no setor quatro para comer um bolinho. O pessoal de


serviço está todo lá!

─ Você dá uma olhadinha aqui para mim?

─ Posso sim, por enquanto. Aproveita o cachorro quente! Está uma delícia!

─ Hum… Quanto tempo que não como cachorro quente. Vou lá agora! Obrigado.

Assim que João saiu, Sandra começou seu tenso trabalho. Paralelo a sua profissão na
DHIP, também fazia serviços privados de programação e rede, com softwares que não se
comparavam aos utilizados na empresa, porém nada tão complexo como o que Andrew lhe
pediu. Além do mais, tinha de ser rápida, pois faltavam dez minutos.

Andrew chegou ao isolamento e foi ao laboratório. Ele tinha que ganhar tempo para
Sandra trabalhar:

─ Helton? Cadê você?

─ Estou aqui nos fundos! ─ Gritou Helton.

─ O que você está fazendo?

─ Estou re rando amostras do sangue desse rato para uma possível descoberta que
mudará o mundo!

─ E o que é exatamente?

─ Há anos que busco uma forma dos humanos atravessarem um buraco negro sem
serem desmaterializados. Se minhas pesquisas estão corretas, todo buraco negro é como se
fosse um portal: Se existirem dois, de massa e gravidade idênticas, podemos atravessar como

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se fosse um teletransporte! Se eu conseguir encontrar uma forma de atravessar, nós
poderemos viajar entre mundos, planos, galáxias e outros além! Poderíamos criar buracos
negros controlados, como o que eu criei, para viajar entre países em segundos. Seria uma
maravilha!

Andrew ouvia as loucuras que Helton contava com o pensamento em outro lugar.
Ainda faltavam oito minutos e ele acreditava que Sandra se esforçava ao máximo.

“Seria ótimo tal tecnologia de teletransporte. Há esta hora, eu já estaria dentro da


zona vermelha.”.

Sandra dava o máximo de si, mas ela encontrava problemas com a criptografia do
sistema. Ela quebrava a cabeça, utilizando toda sua experiência para quebrar os códigos de
segurança do sistema. “Tem que haver uma forma…”.

Helton continuava com sua teoria:

─ Consegui extrair algumas informações de cadeias genéticas da cobaia 03932 que


talvez seja a combinação da força mágica! Eu injetei nesse rato uma substância que criei
baseada na cadeia genética da cobaia. Se tudo estiver correto, meus exames sanguíneos
revelarão combinações genéticas perfeitas. Será a chave para transformar os humanos em
seres mágicos, pelo menos temporariamente. Mas você não me disse por que veio aqui.

─ Eu? Bem… estava apenas… passeando pela base e… resolvi ver o que você estava
fazendo. ─ Andrew tentou sorrir.

─ Sei… Você me parece aflito. Acredito que o desaparecimento de Wolf e Luterkal está
afetando você, mas fique tranquilo, com certeza estão vivos!

─ É… Acredito que estão bem…

─ Oh não! ─ Helton gritou, de repente.

─ O que foi? ─ Disse Andrew, saltando para trás.

─ Não acredito! ─ Helton jogou a amostra de sangue no chão. ─ A substância falhou!

O tempo estava acabando e Sandra começava a se infiltrar no sistema. Estava na


metade do caminho e João poderia chegar em instantes. Sua concentração era total.

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Andrew estava impaciente e saturado com os assuntos científicos que Helton
comentava. Faltando alguns segundos para o fim do prazo, ele decidiu agir:

─ Até mais Helton.

─ Hey! Mas eu estava te explicando porque o DNA foi incompa vel! Volte aqui! ─ Ele
berrava, insatisfeito.

Três soldados fortemente armados faziam a segurança do elevador da zona vermelha.


Ao lado do elevador, uma porta comum, com leitor de digital ou cartão, levava às escadas de
emergência:

─ Parado aí! Fique onde está. ─ Falou um dos soldados ao notar o jovem se
aproximando.

─ Calma pessoal, eu apenas queria informar que o cien sta maluco está passando mal.
Onde eu chamo por emergência? ─ Falou Andrew, com os braços suspensos.

─ Pode deixar. Eu chamo pelo rádio. ─ Disse outro soldado.

─ Espera um pouco! Por que não apagam o fogo de seus coletes antes de pedir ajuda?

A parte de trás do colete de ambos incendiava levemente. O mestiço aproveitou a


distração criada para golpear pontos nervosos do corpo. Ao fim da ação, percebeu que o
alarme não soou e o painel da porta de emergência estava desativado.

”Obrigado Sandra. Eu sabia que você conseguiria.”

João abriu a porta da sala de segurança e Sandra estava sentada, retocando sua
maquiagem com seu kit de emergência:

─ Você mentiu! Não tem nenhuma festa no setor quatro.

─Você ouviu setor quatro? Eu disse setor cinco. ─ Respondeu Sandra, rapidamente.

─ Não foi isso não. Você e disse que era no setor quatro, mas era o Mário do setor
cinco.

─ Ih, deixa disso seu bobinho. Agora você perdeu, não posso mais ficar aqui por você.
Tenho que voltar ao meu escritório. A propósito, não deixe saquinhos de lanche em cima do
teclado. Seu chefe não vai gostar de saber disso. ─ Ela sorriu.

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─ Ah sim! Certo! ─ Ele disse, envergonhado.

─ E vê se para de pensar só em comida! Alguém ainda pode te enganar com isso, seu
bobão! ─ Ela deu uma tapa em seu braço.

─ Obrigado pelo conselho. Eu até penso em fazer uma redução de estômago. Acho que
estou gordo.

─ É um ó mo começo, assumir a gordura. ─ Ela sorriu. ─ Até mais!

Sandra saiu com um belo sorriso no rosto. Ela superou suas próprias expectativas e se
sentia poderosa.

“Essa foi por pouco! Ufa! Agora é com você Andrew. Boa sorte!”.

O mestiço retirou os comunicadores dos soldados e destruiu. Arrastou cada um para as


escadas de emergência e algemou-os com suas próprias algemas. O local era abafado e a
escada era em espiral. Parecia o único lugar da base que continuava em décadas atrás. As
escadas levavam a todos os andares da zona vermelha. Começando do topo, o setor oito era
dividido em R1 e R2, já o setor nove era dividido em quatro andares: P1, P2, P3 e P4.

Andrew não sabia por onde começar, nem ao menos tinha certeza se encontraria
Jéssica.

“O lugar possui seis entradas, vou demorar muito tempo se procurar por ordem. Acho
melhor arriscar qualquer um.”. ─ Ele entrou pelo andar P3.

Enquanto isso, as criaturas se misturavam e entravam por uma porta larga e alta, feita
de aço puro. Eles entravam na arena e dirigiam-se para as arquibancadas. Depois que o último
entrou, um elfo-negro que fazia a guarda apertou um botão na parede, ao lado da porta, e o
aço puro se fechou. Na porta, estava escrito em preto: Arena de batalha, Setor nove, P1.

O andar P3 possuía apenas celas individuais em corredores paralelos a um principal. O


local era sujo e mal iluminado. O cheiro de carne apodrecida mal permitia Andrew respirar.
Nada vivo habitava aquele andar, somente criaturas mortas em suas celas. O massacre era
terrível.

“Como é possível tamanha crueldade. Mataram todos! Esse andar parece abandonado
há meses. Ela não está aqui.”. ─ Ele seguiu para o andar P2.

157
As celas eram menores e o ar respirável. O padrão dos corredores era o mesmo do
andar anterior. O lugar parecia vazio, mas pegadas no chão imundo demonstravam recentes
atividades. A cada corredor, Andrew perdia a esperança em encontrar Jéssica, mas ele só
desistiria depois de morto. O silêncio era perturbador. Em um dos últimos corredores, ele
avistou um elfo-negro, sentado ao seu fim:

─ Ha ha ha há! Íxera óti tha érthei diásosi tis! ─ Urok falava em Elliniká e Andrew não entendia
nenhuma palavra. ─ Poupei a sua vida porque sabia que iria vir aqui. Agora poderei ter a minha
vingança pelas queimaduras! ─ O elfo-negro levantou e revelou seu rosto queimado.

─ Sabia que era você! ─ Gritou Andrew.

─ Vou te fazer em pedaços, igual acabei com seus amigos!

─ Não entendo nada do que diz, mas irá se arrepender por matar um inocente! Vai
sofrer por tudo que fez! ─ Andrew sacou sua espada.

─ Oh! Ele tem uma espada mágica. ─ Debochou o elfo-negro. ─ Sabe moleque, depois
de algumas missões bem sucedidas, eu ganhei um brinquedinho e algumas promoções.
Conheça a Skull e me chame de capitão Urok!

O elfo-negro retirou da bainha uma espada longa de lâmina totalmente negra. O cabo
estava alinhado perfeitamente e bem ao centro dele, uma caveira prata sorria.

─ Se você tem uma arma mágica não me importa, eu também tenho a minha. ─
Sussurrou o elfo-negro.

─ Decore bem o meu nome, elfo-negro, pois é o último que você vai escutar! Andrew!

Os dois correram, um ao encontro do outro. Por onde Urok passava, deixava uma
nuvem negra que saía de sua lâmina e o mestiço, uma sutil onda de calor.

O primeiro impacto gerou uma forte repulsão, desequilibrando ambos. Logo após, teve
início ao severo combate. O jovem estava totalmente concentrado e lutava por tudo e por
todos. Estava determinado a cumprir o seu papel. Quanto a Urok, lutava pela sua vingança.

As espadas se cruzavam e faíscas iluminavam o obscuro corredor. Os dois eram


habilidosos e a batalha parecia não ter fim. As lâminas se tocaram e um a forçava na direção
do outro:

─ Até que você sabe lutar, maguinho. ─ Comentou o elfo-negro, ofegante.

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─ Não diga coisas que não entendo, lute!

Os dois se separaram e continuaram o combate, mas esta batalha era desequilibrada.


O mestiço tinha surtos de pensamentos na agente e isso atrapalhava sua concentração. Ele
não sabia as atuais condições de Jéssica e nem ao menos onde ela estava, o que lhe fazia
pensar que a batalha não poderia demorar:

─ Onde está Jéssica?! ─ Andrew berrou e acertou um soco no rosto do elfo-negro.

Eles se afastaram e fitavam-se. Andrew ficou apreensivo. Tinha que ser rápido e estava
perdendo muito tempo. A luta recomeçou e, dos dois lados, ninguém recuava. Quando o
mestiço pensou que levava a vantagem, Urok acertou um golpe que arrancou a espada de sua
mão:

─ E agora, elfinho? Vai ter que passar por mim para recuperá-la! ─ E atacou.

Andrew desviava, chegando para trás e todos os golpes passavam muito perto, até que
encostou-se à grade de uma das celas. O elfo-negro deu uma estocada e ele desviou. Urok
demorou frações de segundos para retirar a lâmina dentre as grades e Andrew aproveitou
para chutar sua mão e desarmá-lo, dando um soco em sua barriga logo após.

─ Esper nho você! Me desarmou com o mesmo golpe do nosso primeiro encontro. ─
Urok falava, enquanto colocava uma das mãos na barriga. ─ Mas não é bem assim, idiota!

Urok sacou duas kunais da cintura e voltou a atacar. O jovem desviava, mas foi
golpeado de raspão no rosto.

Em um movimento rápido, o mestiço tentou surpreender e se jogou para trás.


Enquanto caía, juntou as mãos e arremessou uma bola de fogo, que o elfo-negro desviou.
Ambos caíram ao chão e levantaram rapidamente para recomeçar a batalha.

A luta já estava no cruzamento dos corredores quando Urok acertou um corte em


diagonal no ombro direito do invasor e um soco muito forte no centro do seu peito. Andrew
ficou sem ar e bateu contra a parede, escorregando para o chão, devagar, entretanto Urok não
o deixou cair e segurou-o pela camisa, levantando-o do chão e pressionando-o contra a
parede:

─ Sinta isso pela dor das minhas queimaduras!

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Urok largou as kunais e, com a mão livre, socou várias vezes as costelas do seu
oponente. A cada impacto, o jovem gritava de dor. Ele socava sempre as costelas do lado
esquerdo e já estavam quase rachando, quando, por fim, arremessou furiosamente o mestiço
contra o chão e riu, descontrolado. Andrew gemia de dor, fato que irritava o elfo-negro:

─ Ainda não dói o suficiente, você não está berrando como eu fiquei. O que foi? Não
consegue falar? Bebezinho! ─ Urok chutou violentamente o mesmo lugar que socava antes.

Andrew gemia, mas continuava de bruços, segurando-se para não explodir pela dor
que sentia e rastejando devagar para tentar afastar-se do agressor. Ele sentia suas costelas em
pedaços e tentava resistir ao máximo:

─ Quer que eu te fale qual foi o seu erro? ─ Perguntou Urok, sendo sarcás co.

─ Eu… não te… entendo… ─ Andrew balbuciava.

Urok levantou Andrew à força, colocando-o de frente para seu rosto:

─ Seu erro… Aaaah! ─ O elfo-negro interrompeu o que falava, pois sentiu uma dor
insuportável na barriga.

─ Quer que eu te conte qual foi o seu erro? ─ Andrew soltou um leve sorriso.

Urok apenas gemia baixo e largou o mestiço, colocando a mão sobre a barriga e
olhando para ver o que era. Sua própria kunai estava encravada:

─ O seu erro foi largar as kunais com sua raiva intensa e, sem pensar, me jogar por
cima delas. ─ Ele falava e ges culava.

Urok não acreditava na estupidez que fez. Andrew aproximou-se dele, segurou a kunai
e sussurrou em seu ouvido:

─ Agora, queime desgraçado, por todos os seres inocentes que você matou!

O mestiço emitiu um intenso calor pela kunai para dentro do corpo de Urok. A onda de
calor foi tão forte que rompeu as artérias do coração, matando o capitão instantaneamente.
Nem teve tempo para sentir dor.

Andrew largou-o no chão e foi pegar a sua espada. Ele sentia muita dor nas costelas,
mas conseguia caminhar e movimentar-se normalmente. Ao analisar a última cela deste
corredor, viu os sapatos de Jéssica no chão, evidência que demonstrava estar perto de

160
encontrá-la. Suas esperanças voltavam e seu corpo respondia com mais energia, afinal, ele
encontrou a luz que precisava.

Arena de batalha – P1

A arena estava lotada de criaturas gritando e fazendo muito barulho. No centro do


teto, existia um buraco circular, grande e curvo. O local era bem iluminado. Em uma das áreas
da arquibancada, um largo vidro espelhado e uma porta ao seu lado mal podiam ser vistos
devido à quantidade de criaturas que estavam na frente. Também existiam câmeras que
capturavam imagens de todos os ângulos da arena e caixas de som espalhadas.

Jéssica foi levada pelos dois elfos-negros para o centro da arena e acorrentada pelos
pés nas enormes bolas de ferro. Ela via três grandes portões: um pelo qual ela veio, outro pelo
qual as criaturas entraram e um terceiro, que estava abrindo lentamente. Os elfos-negros que
a acorrentaram foram para arquibancada.

A barulhada continuava e, do portão que se abriu, saiu um homem, vestindo terno


preto e gravata vermelha. Ele seguiu de encontro à agente, que estava de pé e muito
assustada. O homem aproximou-se, era Pedro Henrique:

─ Olá chefe. ─ Ele disse e sorriu.

Pedro olhou para todas as direções, observando a arena entupida de monstros e


suspirou feliz:

─ Por que está fazendo isso comigo? ─ Jéssica perguntou, derramando-se em lágrimas.

─ Silêncio! Sua imbecil! Você ainda não entendeu?

Jéssica não respondeu nada, apenas deixava as lágrimas escorrerem pelo seu rosto:

─ Espere que você já vai descobrir. ─ Ele sorriu maliciosamente.

Pedro Henrique levantou os braços e a algazarra começava a diminuir, até que tudo
ficou em silêncio:

161
─ Boa noite, meus amigos noturnos! ─ Pedro Henrique falava em Elliniká e sua voz
ecoava pela arena. ─ Hoje será uma noite de memorável vitória para os elfos-negros. A
princesa elfa Belemare foi capturada e será executada ao vivo!

─ É men ra! Tudo que ele disser é men ra! ─ Ela gritava, todavia sua voz era abafada
pela euforia dos presentes.

─ Quem mandou tentar interferir nos meus planos, garota! Você escolheu esse
caminho.

Novamente, Pedro estendeu os braços e o silêncio voltou:

─ Os elfos sempre foram inimigos dos elfos-negros e suas alianças sempre lhe
favoreceram nessa batalha, fazendo vocês viverem escondidos e com medo. Hoje é o dia do
recomeço. Meus Shinobis, hoje é o dia que marca nossa aliança! ─ Sempre que falava ao
público, era em Elliniká.

A gritaria retornou. Jéssica não sabia o que Pedro Henrique falava para o grupo, mas a
felicidade de todos demonstrava algo maligno:

─ Seu monstro! O que você fez com eles?

─ Apenas mostrei o que eles queriam ver.

─ Você… Você está iludindo a visão deles! ─ Declarou Jéssica ao lembrar-se dos
acontecimentos da favela.

─ Agora você entendeu, querida? Hahaha! Pena que foi tarde demais. A extinção dos
nossos maiores inimigos se aproxima! ─ Ele falou feliz.

Jéssica queria descobrir do que ele estava falando, mas as diversas emoções do
momento atrapalhavam sua concentração. Ela sabia que iria morrer.

Pedro Henrique ergueu os braços:

─ Agora, meus caros, ela será sacrificada com essa kunai, igualzinha as que vocês
recebem, para honrá-los, bravos guerreiros. ─ Ele re rou de dentro do terno a tal kunai e
levantou-a, exibindo para todos.

De repente, um pequeno grupo começou a puxar um coro:

─ Thysía, thysía, thysía, thysía... ─ Até que todos da arena es vessem falando.

162
─ Está vendo, minha querida? Eles pedem pelo seu sacri cio! ─ Sua feição era macabra.

Ele segurou Jéssica pelo cabelo e puxou-a para trás, destacando seu pescoço:

─ Não! Não faça isso, por favor! ─ Ela gritava desesperadamente.

Pedro Henrique levantou a kunai e ia golpear, quando percebeu que todos na arena
fizeram silêncio e olharam para um dos portões. Ele abria-se lentamente e todos observavam
curiosos com a interrupção, um silêncio fúnebre. A porta nem estava completamente aberta e
o elfo-negro que ficara de guarda entrou cambaleando e caiu, após alguns passos. Ele estava
sangrando e, em suas costas, haviam vários cortes:

─ Que merda é essa? ─ Pedro falou, enraivado.

O portão abriu-se e um homem estava parado, guardando sua espada na bainha. Ele
colocou a mão direita em suas costelas do lado oposto e caminhou para frente, revelando
Andrew:

─ Cheguei atrasado?

163
Capítulo 11 – A batalha final

─ Ora, não é quem deveria estar morto? ─ Indagou Pedro Henrique, incrédulo.

─ Pois é! ─ Andrew falava enquanto reparava todo o lugar. ─ Acho que estou mesmo.
Isso aqui tá parecendo o próprio inferno!

─ Vejo que você é dotado de um incrível senso de humor, garoto.

─ Disponha. ─ Retrucou o mes ço. ─ Entretanto, não esperava encontrar você aqui.

─ Porque é burro, como todos os outros inves gadores!

─ Me ajuda Andrew! ─ Jéssica gritou.

Ao ouvir e ver Jéssica, o jovem sentiu-se aliviado em saber que estava viva. Ao menos
estava certo em pensar que ela estaria na base:

─ Solta ela, Pedro! Eu resolvo com você. Com certeza, você não é humano!

─ Hahahá... Humano? ─ Pedro gargalhava. ─ Vou te mostrar minha verdadeira forma,


garoto ingênuo.

Enquanto gargalhava, Pedro Henrique começou a sofrer uma mutação. Suas roupas
rasgaram, pois seu corpo cresceu e tornou-se musculoso. Suas unhas se transformaram em
garras negras, grandes e afiadas e seu corpo ficou em tons avermelhados. Seus olhos não
possuíam mais pupila e todo o espaço era de um vermelho enegrecido. Ao final da
transformação, ele revelou um par de asas acinzentadas, com envergadura de dois metros.

Andrew já desconfiava que um humano não poderia estar por trás de tudo. Suas
teorias estavam corretas:

─ Demônio.

A gargalhada do Demônio parecia dupla, duas vozes grossas saíam de sua boca, como
se uma fosse o eco da outra:

─ Eu só quero saber uma coisa antes de te matar. ─ Andrew sen a-se confiante.

─ Me matar? Hahahaha...

164
─ Por que fez tudo isso? Todos esses anos trabalhando aqui, fingindo ser um humano
normal, sendo sempre o melhor da equipe. Por quê? Isso não faz sentido.

─Você é quase um humano, nunca entenderia um grande propósito e os sacrifícios por


ele. Isso é muito maior que você! ─ Ele sorriu. ─ Olhe a sua volta, Andrew Moura. Todos aqui
vieram assistir o triunfo da derrota dos elfos e eu estou assistindo a derrota de todos!

─ Controlar a mente dessas criaturas para sa sfazer os seus desejos, imperdoável!

─ Não preciso do seu perdão! Eles deixaram ser controlados! Queriam ajuda e os
ajudei, queriam armas e eu cedi, queriam treinamento e eu dei!

─ Chega! Perdi queridas pessoas por sua causa. Seus planos serão interrompidos
agora!

─ Vem me pegar, valentão! Palavras não vencem uma batalha! Se não morreu até
agora, morrerá em minhas mãos! Assim como matei seu tio. ─ O demônio bateu as asas e
afastou-se do chão.

Andrew ouviu com precisão a última frase que Pedro Henrique falou. Se o motivo de
ter dito fora para irritá-lo, Pedro conseguiu. Seu ódio era tão intenso que seu corpo inteiro
emanava ondas de calor. Ele colocou a mão no bolso do casaco e correu ao encontro do
demônio. Acreditava em seu plano.

Nos arredores da arena, o silêncio dominava e todos aguardavam instruções de Pedro,


até que ele pronunciou:

─ Párte aftí ti malakía!

Gritos ensurdecedores tomaram conta do lugar e toda a arquibancada invadia a arena,


visavam Andrew. Multidões vinham de todos os lados, fechando um cerco, mas o mestiço
ignorava. Ele estava com o olhar fixo em Pedro.

Jéssica perdeu as esperanças. Viu que era impossível para Andrew derrotar a todos e
recolheu-se, próxima a uma das bolas de ferro, fechando os olhos.

O mestiço retirou a esfera do bolso e ergueu-a bem alto. Ela brilhava intensamente e
ele seguia, encarando o demônio. Finalmente, Pedro Henrique entendeu tamanha bravura e
insanidade que o jovem cometia ao ver a esfera em sua mão. Ele estava confiante e risonho,
porém agora demonstrava feições desesperadas ao reconhecer o que era a esfera:

165
─ Droga! Não acredito! É a esfera dos anjos! ─ Ele murmurou.

Andrew estava a três metros do demônio quando resolveu arremessar a esfera ao


chão. As criaturas a sua volta aproximavam-se rapidamente.

Pedro Henrique reagiu:

─ Não! ─ Ele gritou e arremessou uma bola de fogo da mão.

A bola de fogo era poderosa, atingindo em cheio o peito de Andrew. Ele foi
arremessado para trás e sofreu marcas de queimadura em sua pele e um buraco no casaco e
na camisa. Mesmo assim, o mestiço caiu com um sorriso no rosto, pois já havia terminado de
arremessar a esfera quando foi atingido pelo ataque. O pior pesadelo do demônio se
concretizou.

Pedro Henrique conhecia o poder da esfera e por isso tentou evitar que ela fosse
usada, mas seu esforço fora em vão.

Andrew assistia a esfera cair ao chão. Mesmo sem saber o que aconteceria, confiava
nas palavras dos anjos e na lealdade deles.

A esfera atingiu o chão, rachando no meio e liberando uma forte luz, que paralisou a
todos para protegerem seus olhos. As criaturas tentavam seguir mesmo de olhos fechados,
mas parecia que algo barrava o caminho. De repente, um brado de guerra pôde ser ouvido:

─ Row! ─ Sons de espadas a ngindo escudos eram feitos as mesmo tempo.

O brilho se reduzia e revelava um círculo de anjos, que rodeavam Andrew, Pedro


Henrique e Jéssica, não deixando nenhuma criatura passar. Todos eram reluzentes, usavam
mantos brancos, uma luz intensa em forma de espada e outra em forma de escudo, cada uma
em uma mão. Eles também flutuavam mesmo com as asas fechadas e cada um tinha uma fada
ao seu lado. Ao centro do círculo protetor, próximo ao invocador da esfera, um anjo maior e
mais forte estava com as mesmas vestimentas e armas que os outros, também com uma fada
ao seu lado. Parecia ser o comandante. Sua voz era limpa e autoritária:

─ A esfera foi quebrada e nós fomos convocados! Acabem com tudo que é impuro
neste lugar! ─ Disse ele, na língua dos anjos.

166
Os anjos responderam com urros e iniciaram o massacre. Eles avançavam em meio às
criaturas, matando várias apenas com um golpe. Os seres impuros reagiam e contra-atacavam,
porém seus golpes surtiam efeitos:

─ E de você, eu cuido. ─ Falou o comandante dos anjos em Elliniká, apontando para


Pedro Henrique.

Pedro Henrique estava apavorado. Mesmo sendo um demônio forte, era sujo e
trapaceiro. Nunca lutou frente a frente com um anjo poderoso, sempre preferindo enviar
outros em seu lugar, mas agora chegou a sua vez. Ele levantou voo e o anjo abriu suas lindas
asas emplumadas, alçando também. Os dois se encaravam.

Enquanto isso, Andrew levantava e observava os anjos acabando com todas as


criaturas do lugar. Ele sabia que elas estavam sendo controladas para fazer o que faziam, mas,
ao final, todas elas eram seres impuros e malvados. Os anjos lhe deram a palavra e o
ajudaram. Agora, ele era muito agradecido. Seu peito doía e suas costelas também, mas após
levantar, ele seguiu até a agente, aproveitando que o caminho estava livre.

Por todos os lados, gritos e gemidos de dor horripilantes surgiam e bolos de criaturas
caíam mortas:

─ Aftó den eínai to télos mou! ─ Gritou Pedro.

─ I bála égine epíklisi, iméra sas eínai páno! ─ Respondeu o anjo.

─ Não! ─ Enquanto gritava, Pedro Henrique avançou, mostrando suas garras afiadas e
língua ácida, ao encontro do anjo que, por sua vez, avançou também. Assim que houve o
impacto dos dois, uma forte luz tomou conta do lugar novamente e apenas o grito
desesperado do demônio Pedro Henrique pôde ser ouvido. Andrew e Jéssica fecharam os
olhos.

Assim que a luz desapareceu, a arena estava vazia, sem corpos, sem nada, apenas os
dois. O jovem abraçou a prisioneira:

─ Calma, calma, eu vim te salvar.

Ela olhou fixamente para ele e viu seu rosto sorridente. Após levantarem, Jéssica
lacrimejava e abraçou o mestiço com todas as forças que lhe restava:

─ Obrigado por não ter desistido de mim. Eu mesma já havia desistido.

167
─ Não foi nada. Só algumas queimaduras e costelas quase quebradas. Eu acho que vão
quebrar se você continuar me apertando. Ai! ─ Ele sorriu.

─ Desculpe. ─ Ela parou de abraçá-lo enquanto sorria.

─ Que covardia! Olha como estão os seus pulsos. ─ Ele examinava, insa sfeito. ─ Vou te
tirar logo daqui.

Andrew afastou-a das bolas de ferro, esticando as correntes, e começou a golpeá-las.


Sua espada emitia calor enquanto ele atacava sem parar, até que livrou Jéssica. Ela o abraçou
novamente. O sentimento da vitória, o pesadelo que acabou. Aquele abraço era reconfortante:

─ Depois re ramos as amarras dos seus pés. Vamos embora.

Tudo estava acabado e o herói conseguiu resgatar a mocinha. Era o que parecia ter
acontecido e o final era feliz, assim como nos contos de fadas. Andrew já nem pensava mais
em todo o mistério que foi para achar o culpado pelas mortes e já tinha aceitado o fato de
Pedro, um dos ajudantes de Jéssica no caso, ser o mandante dos crimes, mas algo passava
despercebido.

Os dois já se aproximavam da saída quando uma voz familiar surgiu nas caixas de som:

─ Hum, uma esfera da luz. Que impressionante.

Andrew parou no mesmo instante. Nada estava acabado. Ele nem pensou duas vezes:

─ Jéssica, você é prioridade. Saia daqui, aperte o botão que tem do lado de fora deste
portão e vá para as escadas de emergência. As portas estão liberadas.

─ Mas e você?

─ Não se preocupe comigo, fuja! ─ Ele abraçou-a carinhosamente.

─ Eu vou te esperar, não importa o tempo que demore. Eu sei que você vai me
encontrar nas escadas. ─ E saiu correndo, apertando o botão e acenando para Andrew.

O mestiço assumiu uma postura séria e voltou para o centro da arena:

─ Aparece! ─ Ele gritou.

─ Pena que você usou a esfera da luz na hora errada. ─ A voz falou pelas caixas de som.

─ Aparece! ─ Andrew gritou, novamente.

168
Por todos os fatos ocorridos, era óbvio quem era o dono daquela voz:

─ Aparece, Diego!

─ Decorou bem o meu nome, em rapaz?

Diego estava em uma sala reservada e assistiu todo o ocorrido. Ele batia os dedos
contra a mesa e sua face representava seu desgosto:

─ A pergunta é: como? ─ Ele falava por um microfone. ─ Como o descuido de um elfo-


negro atrapalhou tanto nos meus planos? Ele não precisava seguir você, o alvo era um mestiço
em queimados, mas ele foi rebelde. Nem acredito na coincidência do dia: outro mestiço no
mesmo caminho do caçador. Quando Jéssica me contou a história do sobrevivente o meu
desejo era esmagar todos! Entretanto, eu precisava de um plano. Então, Urok me trouxe uma
foto de alguém muito próximo a você. Hehehehe…

Uma leve incandescência saía das mãos do mestiço. Seu cérebro transformava sua
tristeza profunda em adrenalina, em sua confusa sede por vingança e justiça:

─ Foi rela vamente fácil armar um plano com Pedro Henrique infiltrado. A emboscada
acabaria com todos os intrometidos de uma só vez! Pedro estava lá, ele me confirmou os
mortos, mas de alguma forma você está vivo. Como isso é possível?

─ Seu elfo-negro me envenenou e me deu uma pista da central de seus planos. Pelo
visto ele queria uma justa batalha comigo. Você não conseguiu quebrar a honra de alguns
elfos-negros, coisa que realmente você não tem! Mas agora, eu entendi o que está sendo feito
com os elfos-negros. Você os está mantendo sob efeito de ilusão e não controle mental, senão
ele me mataria na emboscada.

Diego saiu da sala e sentou-se calmamente na arquibancada. Ele vestia o de costume,


terno preto e gravata vermelha:

─ Você nem sabe o que está tentando impedir, não é? Suas dúvidas conformam seu
coração pela morte dos seus queridos.

Diego estava certo. Andrew não sabia ao menos uma pista até a noite anterior e se não
fosse por Luterkal e Urok, nunca saberia:

─ Vou te contar alguns detalhes antes de sua morte. ─ Falava Diego. ─ Meu plano já
está concluído e meu relatório já foi enviado. O que você viu durante esses dias foram testes

169
de controle em uma raça. Os mesmos foram feitos em outros países e você não pode fazer
nada para impedir.

─ E para que vocês precisam disso?

─ Hahahaha! Você não sabe nada mesmo. Treinamos raças para combater
principalmente uma específica, os anjos! Uma guerra silenciosamente se aproxima e o mundo
que conhece está prestes a desabar. Por que acha que os anjos lhe deram uma pedra da luz?
Você não achou isso no chão. É um claro sinal que eles estão cientes dos testes.

Andrew refletia enquanto Diego falava:

”Realmente, a investigação da equipe deixou fatos importantes despercebidos. Muitos


anjos mortos, ilusão, experimentos em menor escala, espiões. É uma rede amplamente
superior para poucos investigadores. Além disso, Pedro deve ter adulterado alguns relatórios.
Certas informações poderiam comprometer o andamento dos testes.”.

─ Não adianta fazer essa cara agora. Eu avisei Jéssica e dei vários motivos para desistir,
mas quanto mais perigoso, mais ela continuava a investigação. Vocês foram apenas uma pedra
no sapato e o grande ataque furtivo em massa, ainda ocorrerá. Depois dos anjos, será a vez
dos humanos. ─ Ele sorriu maliciosamente ao fim.

─ Por isso que nenhuma raça gosta dos demônios. Vocês são sujos e trapaceiros! São
piores que os humanos!

─ Calado! ─ Gritou Diego, com uma dupla voz mais grave que a do Pedro Henrique. ─
Não compare aquela raça podre comigo! Eu sou muito superior. E chega de conversa com
quem destruiu meu exército! Você sentirá a verdadeira fúria de um demônio! Há!

Andrew empunhou sua espada com as duas mãos e sorriu:

─ Pode vir!

Diego saltou de onde estava e, no ar, revelou sua verdadeira forma. Suas roupas
queimaram pelo corpo, restando apenas algumas partes e, como em Pedro Henrique, seu
corpo cresceu e tornou-se avermelhado, com grandes asas negras parecidas com asas de
morcego. Era maior e mais forte que o outro demônio e tinha algumas características
diferentes: possuía barba, uma cauda grossa, cheia de espinhos e grandes chifres pretos
afiados.

170
Ele se transformou e voou ao encontro de Andrew, trazendo ainda outro diferencial:
fez surgir em suas mãos uma labareda em formato de espada. Diego gritava bravamente
enquanto aproximava-se do mestiço, célere.

O jovem viu a espada que o demônio criou e pôs-se em defesa. Ele já ouviu falar das
espadas criadas pelos anjos e demônios e sabia que um golpe poderia ser fatal.

No choque entre os dois, Diego golpeou e Andrew defendeu. O impacto foi tão grande
que o defensor decolou uns 20 metros, capotando pelo chão, quase atingindo a arquibancada.
A espada saiu de sua mão com velocidade ainda maior e enterrou-se quase por inteira no
cimento da arquibancada. A roupa do jovem expôs buracos e ferimentos da capotagem. Ele
levantou com muita dificuldade. Seu rosto estava todo ralado e suas costelas doíam muito,
parecendo ter quebrado dessa vez.

─ Hahahahaha... ─ O demônio gargalhava. ─ Um golpe e olha só como a criança está!

Andrew já se mostrava esgotado, entretanto buscava energia na esperança do acerto


de contas com os já falecidos. Ele se lembrava dos ensinamentos de concentração do seu tio e
de todos os treinamentos realizados. Tudo passava em sua mente, a dor, a felicidade, os
treinos. Nada escapava. O jovem fitou o demônio pela última vez e, de pé, pôs-se em posição
de combate, como um boxeador, e fechou os olhos.

─ De olhos fechados? ─ O demônio riu. ─ Não defendeu nem com eles abertos! ─ E ria
sem parar. ─ Quer saber? Nem preciso mais disso! ─ Ele se desfez da espada.

Diego esticou as unhas um pouco mais e voou de encontro ao mestiço:

─ hahahá! Você já era!

Andrew concentrava-se, lembrando dos antigos treinamentos com seu tio.

19 de Setembro de 2008

Quintal da casa de Carlos

─ Andrew, hoje você vai aprender um golpe para levar por toda sua vida. É ótimo para
pegar agressores desprevenidos. ─ Carlos falava. ─ Fique aqui, de frente para mim.

171
Andrew posicionou-se:

─ Agora, eu quero que você me golpeie quando achar que eu menos estou esperando.

Carlos fechou os olhos. O jovem esperou por mais de um minuto e depois, desferiu um
soco direto. Carlos abriu os olhos milésimos de segundos antes do soco atingir-lhe e desviou
para o lado direito, parando sua mão esquerda perto do rosto de seu aluno.

─ Nossa! ─ Andrew exclamou, impressionado.

─ Eu iria te acertar o golpe em cheio! ─ Carlos sorriu e con nuou falando. ─ Treine isso
com o saco de areia. É só imaginar: desviar e acertar, desviar e acertar.

Presente

Diego partiu a toda velocidade e o mestiço concentrava-se. “Desviar e acertar, desviar


e acertar...”.

Nunca havia tentado utilizar tal técnica, mas treinou bastante e aperfeiçoou junto com
seus poderes. Na posição de boxeador, suas mãos fechadas emanavam fumaça e não demorou
muito para ficarem totalmente em chamas.

Diego ignorava qualquer atitude do mestiço e continuava com o ataque. Ele levantou
as garras da mão direita e golpeou. Estava perto dos 50 km/h e se o ataque fosse bem
sucedido, novamente seria letal.

Igual ao seu tio, o jovem abriu os olhos milésimos de segundos antes do golpe atingi-lo
e desviou para a esquerda, entretanto sua mão direita não acertou o contra-ataque.

Diego sentiu o braço do oponente por perto da sua face, sem atingi-lo. Ele
engrandecia-se com a falha do contragolpe quando, subitamente, a parte traseira da outra
mão do mestiço acertou em cheio o seu rosto. Andrew havia aproveitado o movimento do
braço direito para realizar um meio giro com o corpo e acertar um golpe totalmente
inesperado.

172
Com o impacto, o demônio perdeu o controle e girou pelo ar, chocando-se em cheio, a
toda velocidade, na arquibancada. A colisão foi tão forte que afundou no cimento e rachou
grande parte dele à sua volta.

Andrew sacrificou o pulso com o golpe. Por causa da velocidade e do resistente corpo
dos demônios, seu pulso quebrou, mas a adrenalina superou a dor. Ele não perdeu tempo e
correu o mais rápido que conseguiu para chegar ao demônio. Montou em Diego e começou a
socar seu rosto com a única mão possível. Suas mãos ainda pegavam fogo e isso aumentava a
potência de cada golpe.

Diego fazia barulhos estranhos enquanto o mestiço lhe socava. Sua face sangrava um
líquido viscoso, avermelhado, e Andrew não parava, até que o demônio encravou as garras da
mão esquerda pelas costas do seu oponente, próximo ao ombro direito, e jogou-o para o lado.

Andrew rolou por alguns degraus e parou. Os buracos em suas costas sangravam
muito, entretanto, como antes, não sentia dores. Levantou e seguiu ao encontro de Diego, que
ainda estava meio zonzo. Ele se aproximava quando avistou sua espada solta, ao lado do
demônio. Com o impacto, Diego quebrou o cimento e soltou sua espada.

O mestiço já estava perto de sua espada quando Diego começou a sacudir-se para se
livrar dos blocos de cimento e alçou voo novamente, sem nenhum problema. Ele pairou numa
altura de 15 metros do chão e terminou de se recompor. Enquanto isso, Andrew pegou sua
espada, segurando-a apenas com uma mão.

Os dois estavam ofegantes e fitavam-se, feridos, todavia era notável que Andrew
apresentava ferimentos mais graves. A pequena pausa na batalha também lhe fez voltar a
sentir dores:

─ Você luta sem medo da morte, garoto. ─ Diego falava. ─ Mas não é o suficiente para
me vencer.

─ Pode não ser. ─ Andrew falava com muita dificuldade. ─ Mas te levo junto comigo se
for necessário!

─ Há é? ─ O demônio exaltou-se. ─ Não pense em comparar-se a mim, seu tolo!

Diego fez surgir, em suas laterais, seis flechas de fogo, três de cada lado:

─ Você será eliminado aqui mesmo, seu idiota! ─ Gritou ele.

173
Andrew sorriu. Seu sorriso era cansado, seu lábio estava inchado e um dos olhos
estava quase tapado, com vários arranhões ao derredor:

─ Tolo é você. Há!

Andrew estava com a espada para baixo e, com toda sua força, arremessou-a apenas
com a mão direita. Assim que terminou de arremessar, ele continuou com o bravo urro e
impulsionou os braços para baixo. Quando seu pulso quebrou, sua mão ficou virada para
frente, mas com esse último movimento, ela virou para trás, quebrando os ossos em pedaços
ainda menores. Andrew gritava sem parar e impulsionou os braços para frente, mirando na
direção da espada e lançou um enorme jato de fogo como último esforço, em um ataque que
ele nunca realizou.

Ao mesmo tempo, o demônio apontou as mãos para o mestiço, lançando as setas.

O jato de fogo deu impulsão para a espada e fez sua lâmina brilhar um vermelho
intenso. Já das seis flechas lançadas, três se dissiparam no jato de fogo. O jato não chegou a
atingir o demônio, mas a espada encravou até o cabo, bem no meio do seu peitoral. Diego
gritou instantaneamente.

Das três flechas que passaram pelo jato de fogo, uma delas atingiu o chão e as outras,
acertaram o braço e antebraço direito do mestiço, atravessando de um lado ao outro pelo
meio do osso. Dessa vez, Andrew gritou de dor e arriou o braço no mesmo momento em que
foi atingido. Como as flechas eram mágicas, elas desapareceram, deixando um buraco enorme
através dos músculos e ossos. Jorrava sangue pelos buracos. O mestiço sentou na
arquibancada, apenas deixando o corpo cair. Ele já havia perdido muito sangue nessa batalha e
estava exausto. Sua visão começava a embaçar.

Diego retirou a espada do peitoral, puxando lentamente e gemendo de dor e ódio.


Cada vez que puxava, seu denso sangue esguichava mais forte. O buraco deixado era enorme e
sua gosma vermelha escorria. Ele voava com dificuldade, batendo as asas mais rápido que o
normal.

Diego pressionou o ferimento e sorriu:

─ Viu garoto. Essa é a dif...ferença entre nós! Eu ainda aguento dias com esse furo no
peito, pois sou um demônio, mas você tem esse corpo frágil de humano e não vai aguentar até
o amanhecer.

174
Andrew tentou falar, mas sua voz falhava:

─ E...eu... vou ac... c... bar com você.

─ Este é outro problema seu. Você só vai entender quando estiver morto!

Diego abriu as garras e preparou-se para voar até o mestiço, num último golpe, sem
piedade. Os ferimentos de Andrew eram graves e seus dois braços estavam inutilizáveis para
combate. Ele se esforçou ao máximo, mas em sua mente a morte estava próxima. As imagens
de todos que ele conhecia circulavam pela sua cabeça. Sua alma nem parecia estar presente.
Encarou os fatos: não estava mais em condições de lutar e nem de impedir que Diego
continuasse seus planos. Era tudo muito maior do que eles, como Jéssica havia dito, porém
estava sorrindo, pois conseguiu resgatá-la. Era a hora de sua morte:

─ Termine isso p...por mim Jes...si...ca.

─ Ahahahahá! Isso que os demônios gostam! Desista! ─ Diego par u para o ataque.

De repente, o demônio parou no meio do caminho e olhou para trás. Suas grandes
orelhas deformadas mexiam e ele prestava atenção num som vindo de fora da base, pelo
buraco no teto da arena. Era uma sequência exata de doze explosões menores e duas mais
fortes, três vezes seguidas.

O demônio sorriu e tornou a olhar seu adversário:

─ Não deve ser nada. Vamos continuar!

A sequência estourou novamente e depois começou a ser repetida simultaneamente.


Do lado de fora da base, fogos de artifício estouravam em lugares diferentes, em vários pontos
do Rio de Janeiro. Era impressionante a precisão das sequências, com doze explosões menores
e duas explosões fortes, coloridas em vermelho.

Por todos os lados do estado do Rio de Janeiro, os moradores observavam os fogos,


mas não apresentavam devida atenção, pois fogos de artifício são comuns no estado,
entretanto não em uma escala tão grande:

─ Chegou droga no morro! ─ Comentavam dois amigos na cidade de Madureira.

─ Papai! Papai! Olha que bonito! ─ Apontava uma criança para mostrar ao seu pai, na
cidade de São Gonçalo.

175
─ Ih! Hoje deve ter sido a final de algum campeonato! ─ Comentava consigo mesma
uma moradora de um prédio em Copacabana.

─ Deve ser festa do prefeito... ─ Conversava um bêbado com um cachorro nas ruas da
cidade de Macaé.

Todo o Rio de Janeiro foi envolto por essas combinações. Diego ouvia e continuava
pairando no ar:

─ Convenção de última hora? Deve ser muito importante. ─ Diego falava. ─ Desculpe
Andrew, mas deixarei você morrer com o tempo. Até o inferno!

Diego começou a subir e voou por dentro do buraco, desaparecendo na escuridão.

Andrew não entendeu nada do que acabara de acontecer. Ficou sozinho e imóvel,
apenas pensando no que acabou de ouvir. “convenção?”.

Ele tentou levantar-se, mas não conseguiu nem manter-se em pé. Após alguns
minutos, o portão por onde entrou começava a abrir, era Jéssica. Ela observava receosa em
entrar, até que avistou apenas o mestiço, caído na arquibancada e olhando para o buraco no
teto:

─ Andrew! ─ Ela gritou desesperada ao ver todo aquele sangue e correu até ele.

Jéssica ficou nervosa ao ver como Andrew estava ferido e começou a rasgar partes da
roupa dele para estancar o sangue de alguns ferimentos:

─ Andrew! Reage! ─ Ela falou, aflita.

─ Não es...tou morto ain...da. ─ Ele sorriu.

─ Ainda bem! Graças a Deus! Vamos para o elevador, eu acho que consigo utilizá-lo.
Você precisa de atendimento médico urgente!

Ela ajudou-o a levantar e caminhar:

─ Onde está o dono daquela voz?

─ Era Diego, o presidente daqui. Ele é um demônio e estava por trás de tudo.

─ Desconfiei que a voz fosse dele, mas nunca ia imaginar que ele era um demônio.

─ Não o matei. Ele saiu pelo buraco no teto dizendo que... Ia...

176
─ Não se esforce, Andrew. Você está muito ferido. Muito mais do que eu.

─ Eu consigo falar. Eu acho. Como eu ia dizendo, ele falou de uma convenção. Parecia
ouvir algo, acho que era um chamado. ─ Andrew quase sussurrava.

─ Eu ouvi alguns fogos, eram realmente estranhos: doze explosões, depois duas mais
fortes e tudo três vezes seguidas. Se dividir doze por dois é igual a seis. O número seis,
repetido três vezes é?

─ Meia, meia, meia. Mas co…mo cons…seguiu ouvir? Estamos no úl …mo setor. ─
Andrew sentia seu corpo mole.

─ Você não ouviu? O som era nítido. Devem ser os efeitos dos seus ferimentos.

Andrew ouvia a voz de Jéssica ao longe e desmaiou quando estavam perto do


elevador. Sua pele estava pálida e sua língua quase branca, estava ficando sem pulso.

Jéssica abriu o elevador e colocou-o dentro. Agora, a vida do mestiço dependia dela.

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Capítulo 12 – O fim é uma certeza

Diego subiu, voando pelo buraco. Parecia não ter fim e, depois de muito tempo, ele
saiu no que parecia ser uma imensa tampa de esgoto e seguiu para o mar enquanto
sussurrava:

─ Eles u lizaram o código geral. Deve ser algo de extrema importância.

Mesmo ferido e voando com dificuldade, ele foi até os rochedos atrás do forte de
Copacabana e mergulhou nas águas. Lá, ele encontrou com vários demônios, de todos os
tamanhos. Chegaram há aproximadamente 200 metros de profundidade e entraram numa
caverna escondida. O túnel parecia um labirinto e afundava cada vez mais, todavia todos eles
sabiam o caminho exato a seguir. Ao fim, chegaram em uma gigantesca caverna, iluminada por
corpos humanos que queimavam. O lugar era em forma de coliseu, do mesmo jeito que a
arena da DHIP, porém maior. A arquibancada era voltada para um trono de ouro, incrustado
com belas pedras preciosas e todo o resto era feito de rocha.

Diversos demônios chegavam por vários túneis espalhados pela caverna e sentavam na
arquibancada, até ocuparem quase todos os lugares. Diego dirigiu-se junto com outros 49
demônios para o centro da caverna. Eles se dividiram em fileiras do mais forte para o mais
fraco e Diego participava da última. Todos os diálogos eram feitos na língua dos demônios:

─ Estava com dificuldades Badobá? Acho que a reunião salvou sua pele! A criancinha
não sabe se divertir sem se machucar é? ─ Diziam e gargalhavam alguns demônios da fileira à
frente, se referindo a Diego.

─ Se não sabem o que aconteceu, então não podem me julgar! ─ Ele respondeu.

─ Ui! Badobá ficou irritado! ─ E gargalhavam.

De repente, todos fizeram silêncio e um demônio que antes estava curvado, de frente
ao trono, levantou e começou a falar:

─ Esta reunião de última hora é devido à arrogância dos anjos! Nós demônios nunca
quebramos os acordos milenares que temos com aquela raça indesejável e aposto que todos
vocês, como eu, sentiram o uso da esfera da luz! Eles juraram jamais utilizar novamente o

178
poder das esferas e aqui, no Rio de Janeiro, foi utilizada uma delas. O comunicado já foi
enviado para a ordem superior e, com certeza, a resposta será a guerra!

Os demônios ficaram eufóricos e batiam no peito ou socavam os mais próximos:

─ Eles provocaram, quebrando o juramento de anos atrás e agora todos vocês estão
liberados para caçar as esferas negras! Vamos libertar os príncipes e viva ao fim do mundo!

Os demônios berravam felizes pela guerra enquanto Diego sorria maliciosamente.


“Esses demônios idiotas! Gozam de mim porque não sabem dos meus planos. Um dia
eu estarei na primeira fila e ninguém poderá zombar de mim! Os anjos não sabem o
que os espera! Há há…”.

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Epílogo – Mudanças

Andrew acordou. Ele não sentia seu corpo e não conseguia enxergar, mesmo tento
certeza que estava com os olhos abertos. Nenhum som era ouvido. Parecia com o início da
terra quando o planeta era dominado pelo nada e o vazio. Tentava se tocar, mas seus braços
não respondiam aos movimentos.

De repente, apareceu um pequeno ponto vermelho que começou a crescer e se tornou


um fogaréu intenso:

─ Andrew! Andrew meu filho! Abre a porta! Ah! ─ Ele ouvia as vozes dos seus pais lhe
chamando e agonizando.

O fogo o atingiu e ele apareceu sentado no sofá de sua casa. Ela estava toda arrumada:

─ Lar! Doce lar... ─ Andrew relaxou no sofá.

Urok entrou pela porta, rapidamente, e começou a revirar os móveis:

─ Não! ─ Andrew gritou.

─ Eu vou achar a foto do seu o! Eu quero matá-lo! ─ Urok estava enfurecido.

Andrew pulou do sofá e foi direto ao seu encontro. Quando se aproximou, apareceu na
casa de seu tio. Ele estava em pé, ao lado de um saco de areia, nos fundos da casa. Carlos
estava caído rente ao muro e com um furo na garganta, espirrando sangue:

─ Carlos! ─ Andrew gritou.

─ Não adianta fazer nada. Ele tem que morrer! ─ Falou uma sombra que apareceu ao
seu lado.

─ É men ra! Eu posso salvá-lo!

─ Eu já tentei. Você não pode.

─ E quem é você para falar isso? ─ Andrew perguntou.

─ Eu sou você! ─ A sombra se desfez e Andrew se viu ─ Todos morrem! Esse é o


destino!

180
─ Não! Eu posso mudar o destino!

Andrew correu para ajudar o seu tio, mas um brilho forte o cegou e já estava em outro
lugar. Ele flutuava junto com ele mesmo, observando o exato momento em que Zoltran batia
Luterkal contra o chão:

─ Você não pode mudar isso. ─ Falava o outro Andrew. ─ Eles morrem pelo des no.
Você os conhecia há pouco tempo, não deve se importar!

─ Não importa se eu não os conhecia há muito tempo. São seres vivos! Ninguém deve
decidir se eles morrem ou não! Nem o destino!

─ Você tenta ser um bom garoto e fazer o bem a todos, mas você é tolo em tentar ser
um justiceiro!

─ Meus pais foram sacrificados por mim. O mínimo que posso fazer é me sacrificar pelo
bem do todos.

─ Você tem medo e sente amargura pelo que fez quando criança! É um fraco!

Os dois Andrews apareceram dentro de um quarto onde Jéssica dormia


tranquilamente:

─ Olhe para ela, Andrew! Sinta ódio dela! Ela te colocou nessa enrascada! Ela matou o
seu tio! Ela te fez esquecer de você mesmo. Você nem ia comemorar o seu próprio aniversário.
Ela te apagou! Ela te matou! ─ E ges culava demais.

Andrew olhava para Jéssica dormindo e pensava em tudo que o outro ele falava.
Depois de algum tempo, virou-se para o outro ele e sorriu:

─ Como você disse, é o destino e não se pode mudar!

Andrew atacou o outro ele. Os dois brigavam e lançavam bolas de fogo em todas as
direções. O quarto inteiro era destruído e Jéssica dormia tranquilamente. O fogo tomou conta
do lugar e, novamente, Andrew ouvia seus pais gritando por socorro e pelo seu nome:

─ Você não é eu! Você é um demônio! ─ Disse Andrew.

No mesmo momento, o outro ele se transformou na forma demoníaca de Diego:

─ Você não pode salvar ninguém, garoto! Você é fraco!

181
─ Eu posso sim! Eu sinto que meu coração deseja que eu ajude os outros!

─ Não! O seu coração te engana! Você é apenas um jovem medroso, fingindo que
gosta de aventuras! Não busca por justiça e nem por vingança. Você tenta enfrentar seus
medos e não consegue derrotá-los!

─ Errado! Eu queria muito viver em um mundo de aventuras, mas depois dos úl mos
dias eu vejo que eu posso ser muito mais que uma pessoa nesse mundo. Eu posso ser alguém!

Diego gargalhou:

─ Você sempre será um garotinho medroso!

─ Não! ─ Andrew gritava e movimentava-se para atacá-lo.

Os dois se chocaram e uma forte luz cegou o mestiço. Quando abriu os olhos, estava
em um lugar todo branco, sem nada:

─ Olá Andrew!

Ele procurou, mas não viu ninguém. Caminhou um pouco e encontrou o anjo Telurian,
sentado em frente a uma rachadura no lugar todo branco.

─ Precisamos conversar... ─ Disse Telurian.

Os dois conversaram por um bom tempo. Ao final da conversa, Telurian encostou um


dedo na testa do jovem e tudo ficou escuro.

Andrew abriu os olhos. Ele respirava ofegante e estava muito suado. Demorou um
tempo para começar a raciocinar. Analisando o local, ele estava dentro do que parecia ser um
quarto: tinha um armário branco, uma cama ao seu lado e uma mesa com alguns objetos. Ele
estava deitado em uma cama hospitalar, com vários aparelhos lhe monitorando.

O mestiço começou a retirar as ventosas que estavam em seu corpo. Quando ia retirar
as agulhas, a porta do quarto abriu. Era Jéssica, segurando uma bandeja com comida. Ela
estava com o cabelo preso, uma camiseta velha e de short. Ao ver Andrew sentado na cama,
ela congelou. Após um período, deu um enorme sorriso de felicidade e correu para abraça-lo,
largando a bandeja com comida de qualquer jeito:

─ Graças a Deus! Você acordou!

Andrew ficou sem reação:

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─ O que aconteceu? A úl ma coisa que lembro é de você me levando para o elevador.

─ Muita coisa já aconteceu.

─ Como assim? Que dia é hoje? 08 de maio? Meu aniversário? Domingo?

Jéssica o observava, preocupada, querendo esconder a verdade, mas a face de Andrew


demonstrava a enorme dúvida que ele tinha:

─ Não. ─ Ela respirou fundo e con nuou. ─ Muita coisa já aconteceu desde que você
entrou em coma.

─ Coma? ─ Andrew desesperou-se. ─ Que dia é hoje?

─ 06 de março de 2012.

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