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Curso de Alinhamento Conceitual


do PNLD

Unidade I
Lavagem de Dinheiro

Curso de Alinhamento Conceitual do PNLD


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Unidade 01
Lavagem de Dinheiro
Objetivos: apresentar conceitos, aspectos materiais e processuais
e os mecanismos nacionais e internacionais de combate à
lavagem de dinheiro e crimes correspondentes.

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APRESENTAÇÃO
Nesta Unidade 1 do curso de Alinhamento Conceitual do Programa
Nacional de Capacitação e Treinamento no combate à Corrupção e à
Lavagem de Dinheiro (PNLD), falaremos sobre lavagem de dinheiro e
apresentaremos a magnitude, os efeitos e as principais estratégias mundiais
de combate a esse crime, importantes para o entendimento da evolução
histórica e conceitual do termo no cenário nacional e internacional.
Apresentaremos, também, os principais organismos, convenções e
resoluções criadas a fim de trocar experiências, discutir políticas e,
principalmente, promover ações para combater a lavagem de dinheiro.
Daremos ênfase aos conceitos relacionados a esse crime no cenário
internacional, visando ao esclarecimento do funcionamento das chamadas
Unidades de Inteligência Financeira (UIFs), porém sem deixar de lado a
apresentação dos instrumentos e planos de ação inseridos no cenário
nacional, relevantes para a compreensão das dinâmicas de combate aos
crimes financeiros elaboradas pelo Conselho de Controle de Atividades
Financeiras (COAF).
Além dos tópicos descritos acima, comentaremos conceitos relativos
aos aspectos materiais e processuais da lavagem de dinheiro que apontam
como criminosas as condutas relacionadas a essa prática, bem como
facilitam o entendimento relativo à produção de provas e crimes
antecedentes.
Todas as abordagens aqui propostas objetivam o entendimento da
prática e do dinamismo da lavagem de dinheiro, todas de extrema
importância para o estudo deste crime que tem tomado grandes proporções
ao longo do tempo em razão das técnicas criminosas cada vez mais
elaboradas e complexas, motivo pelo qual se tornou uma grande
preocupação mundial.
Bom estudo!

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Lição 1
O que é Lavagem de Dinheiro?

1.1 Conceito de Lavagem de Dinheiro


O termo “lavagem de dinheiro” (money laundering) foi utilizado pela
primeira vez em 1973 por jornalistas norte-americanos em reportagens sobre
o escândalo de Watergate, que envolveu o presidente republicano dos
Estados Unidos Richard Nixon em um esquema de espionagem política
financiada com fundos eleitorais arrecadados clandestinamente. O
estabelecimento das relações entre o comitê para reeleição do presidente e
os responsáveis pelo arrombamento e pela invasão da sede da Comissão
Nacional Democrática, localizada no edifício de escritórios Watergate em
Washington, somente foi possível devido ao rastreamento dos cheques
utilizados como pagamento pelo “serviço” prestado por ex-agentes da CIA, a
Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos que inadvertidamente
revelaram a existência de um esquema de lavagem das doações eleitorais
ilegais coletadas e administradas por assessores de Nixon.
De acordo com Gerson Luis Romantini (2003), a lavagem de dinheiro
pode ser entendida como o processo

através do qual um ou mais agentes procuram ocultar ou


dissimular a origem dos bens, direitos ou valores oriundos
de atividades ilícitas mediante a utilização de operações
financeiras ou comerciais, de forma a viabilizar o uso
desses ativos sem atrair a atenção da ação repressora do
Estado (ROMANTINI, p.12).

A Convenção contra o tráfico ilícito de drogas e substâncias


psicotrópicas da Organização das Nações Unidas (ONU), realizada em
Viena em 1988, produziu o primeiro instrumento de política criminal
internacional em que o termo lavagem de dinheiro foi citado. A partir daí, os
países signatários da convenção comprometeram- se a tipificar o crime de
lavagem de dinheiro em suas legislações. A Organização Internacional de
Polícia Criminal (Interpol) também conceituou o termo lavagem de dinheiro.
De acordo com definição apresentada pela Interpol na reunião plenária
anual ocorrida em Pequim, em 1995, a lavagem de dinheiro seria “qualquer
ação ou tentativa de ação para ocultar ou disfarçar a origem de ativos

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financeiros obtidos ilegalmente, de maneira que pareçam originar-se de fontes


legítimas”.
Por sua vez, a Unidade de Inteligência Financeira (UIF) 1 dos Estados
Unidos, afirmou que a lavagem de dinheiro

envolve dissimular os ativos de modo que eles possam ser


usados sem que se possa identificar a atividade criminosa
que os produziu. Através da lavagem de dinheiro, o
criminoso transforma os recursos monetários oriundos da
atividade criminal em recursos com uma fonte
aparentemente legítima [...]

A lavagem de dinheiro é tradicionalmente descrita como sendo o


processo pelo qual o “criminoso transforma recursos ganhos em atividades
ilegais em ativos com uma origem aparentemente legal” (COAF, 1999) ou o
“o conjunto de operações mediante o qual os bens ou o dinheiro resultantes
de atividades delitivas, ocultando tal procedência, são integrados no sistema
econômico e financeiro” (DÍAZ, 1999, p. 5).
Dessa forma, convencionou-se definir a lavagem de dinheiro como
um processo de três estágios: colocação, circulação (ou ocultação) e
integração.
A primeira etapa, denominada colocação, consiste em introduzir o
dinheiro ilegal dentro do circuito econômico e financeiro legítimo. Sem
dúvida, esta fase é a mais vulnerável para o criminoso, pois os recursos
inseridos no sistema financeiro formal não têm origem justificável. A fim de
ludibriar as autoridades fiscalizadoras, os criminosos geralmente fazem uso
de nomes de parentes, de pessoas falecidas, dos “laranjas”, de
documentação falsa (devemos levar em consideração a possibilidade da
colaboração de funcionários do banco que permitem a abertura de contas
em nome das pessoas supra mencionadas e o depósito de valores sem que
faça qualquer comunicação ao Conselho de Controle de Atividades
Financeiras - COAF) ou de empresas de fachada para depositar o dinheiro,
geralmente dividido em pequenas somas e diferentes instituições, de onde
podem transferir em curto espaço de tempo e para muitos países do mundo.
A introdução de dinheiro em espécie é normalmente direcionada para a
instalação de atividades comerciais que, tipicamente, também trabalham com
dinheiro vivo.
A segunda etapa do processo é a denominada circulação, que tem
como objetivo “dificultar o rastreamento contábil dos recursos ilícitos,
tentando quebrar a cadeia de evidências que ligam esses fundos a sua
origem” (Romantini, 2003, p.16), ou seja, ocultar a origem ilícita dos fundos.

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No idioma original: Financial Crimes Enforcement Network (FinCen).

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Para alcançar esse objetivo, os lavadores fazem uma série de


movimentações dos recursos, os quais passam por diversas contas,
nacionais e internacionais, de modo a desvincular-se por completo da
colocação inicial ocorrida. Nesta etapa, são utilizadas diversas contas
anônimas, numeradas e fantasmas, muitas delas em centros offshore, o que
dificulta bastante o rastreamento. Esta fase ficou ainda mais complexa e
de difícil detecção com o desenvolvimento da internet, e, como
consequência, das transações bancárias eletrônicas. Em apenas alguns
segundos os recursos podem passar por contas bancárias em diversos
países, incluindo aqueles em que a legislação referente ao sigilo bancário
é mais branda, o que dificulta ainda mais a atividade investigativa. Como
exemplos de instrumentos mais comumente utilizados nesta etapa, podemos
citar operações por meio de bancos offshore, transferências eletrônicas,
compra de instrumentos financeiros com possibilidade de rotação rápida e
contínua, composta de ativos de fácil disponibilidade e a utilização de
empresas fictícias.
A última etapa do processo de lavagem de dinheiro é denominada
integração, que tem como objetivo introduzir novamente os fundos lavados
dentro da economia legítima. Após reciclar os lucros de origem criminosa
por meio das duas primeiras fases da lavagem, o criminoso faz com que
os ativos sejam incorporados formalmente ao sistema econômico legal por
intermédio do investimento em empreendimentos, geralmente lícitos, ou da
simples compra de bens.

Os meios mais comumente utilizados na última etapa são


investimentos em redes hoteleiras, supermercados, participação em capital
social das empresas, compra de imóveis, ações, ouro, obras de arte, joias
etc.
O processo de lavagem pode ser resumido da seguinte forma: os
recursos ilícitos são inseridos no sistema financeiro formal na etapa de
colocação. Depois passam por diversas contas no país e no exterior em
nome de várias pessoas na etapa de circulação e, após desvincular-se da
origem ilícita, esses recursos são novamente inseridos na economia formal
na etapa da integração.
Diante dessas primeiras definições, pode-se dizer, de forma
bastante simplificada, que a lavagem de dinheiro é o processo pelo
qual o criminoso busca dar aparência lícita a recursos oriundos de
prática criminosa. Vale salientar, portanto, que para ocorrer a lavagem de
dinheiro é absolutamente necessária a prática de uma infração penal anterior.
Por se tratar de um crime de grande magnitude e globalizado, o
estudo da cooperação jurídica internacional faz-se bastante importante no
combate à lavagem de dinheiro. Em um primeiro momento, a cooperação

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jurídica internacional pode ser entendida como um modo formal de “bater


à porta” de outro Estado e reclamar sua ajuda, regida em matéria penal pelos
acordos bilaterais ou multilaterais assinados nessa área pelos diversos
países e, na sua ausência, pelos princípios de reciprocidade. Por meio de
um pedido de cooperação, o Estado que necessitar realizar atos
indispensáveis à boa administração de sua justiça localizará o instrumento
adequado para fazê-lo, sem ferir a soberania e regras de jurisdição territorial
alheias.
Diversos são os instrumentos, organismos, convenções e resoluções
pensados para combater a lavagem de dinheiro e adotados no cenário
internacional. Em resposta à crescente preocupação com a lavagem de
dinheiro e com as atividades terroristas, a comunidade internacional
implementou medidas em várias frentes. A reação internacional é, em
grande medida, o reconhecimento do fato de que a lavagem de dinheiro tira
proveito dos velozes mecanismos utilizados para as transferências
eletrônicas internacionais. Assim, torna-se necessário que haja cooperação
e coordenação transnacional articulada e efetiva no sentido de suprimir as
ações dos criminosos.

1.2 Cenário internacional


Os primeiros esforços internacionais vieram com o reconhecimento de
que o tráfico de drogas era um problema mundial e que só poderia ser
enfrentado com eficácia de uma forma multilateral. Dessa maneira, a primeira
convenção internacional que trata do tema lavagem de dinheiro também
estabeleceu que o tráfico de drogas seria o único crime antecedente.
Considerando que a comunidade internacional está atualmente preocupada
com vários tipos de crimes, a maioria dos países passou a incluir outros
crimes graves na lista de crimes antecedentes da lavagem de dinheiro.

Assim, torna-se extremamente relevante analisar as diversas


organizações internacionais que definem padrões nesta matéria, bem como
descrever os documentos e instrumentos criados para combater a lavagem
de dinheiro.
A maioria dos países partilha a definição adotada pela Convenção das
Nações Unidas contra o Tráfico Ilícito de Estupefacientes e Substâncias
Psicotrópicas de 1988 (Convenção de Viena) e pela Convenção das Nações
Unidas contra a Criminalidade Organizada Transnacional de 2000
(Convenção de Palermo). O crime antecedente da lavagem de dinheiro é a
atividade criminosa a ela associada, que gera os produtos, os quais, quando
lavados, constituem o crime de lavagem de dinheiro. Nos seus termos, a
Convenção de Viena limita o crime antecedente ao tráfico de drogas. Como
consequência, os crimes não relacionados com o tráfico de drogas, como,

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por exemplo, a fraude, o sequestro e o furto, não constituem infrações de


lavagem de dinheiro nos termos da Convenção de Viena.
No entanto, com o passar do tempo, a comunidade internacional
chegou à conclusão de que os crimes antecedentes da lavagem de dinheiro
deveriam ir mais além do que somente o tráfico de drogas. Assim, o
GAFI e outros organismos internacionais ampliaram a definição de crimes
antecedentes utilizada na Convenção de Viena, incluindo outros crimes
graves. A Convenção de Palermo, por sua vez, exigiu a todos os Estados
Partes a aplicação do crime de lavagem de dinheiro, conforme definido
na Convenção, ao “maior número possível de crimes antecedentes”.
Para maior entendimento desse esforço internacional de produzir
ferramentas de combate à prática de lavagem de delito, serão listados, a
seguir, os organismos, convenções e resoluções internacionais mais
significativos de combate à lavagem de dinheiro, que possibilitaram a
evolução histórica e conceitual deste crime.

Convenção das Nações Unidas contra o Tráfico Ilícito de


Estupefacientes e Substâncias Psicotrópicas (Convenção de Viena)

Como resultado da crescente preocupação com a intensificação do


tráfico internacional de drogas e o enorme montante de capitais relacionados
que entravam no sistema bancário, a ONU promoveu um instrumento
internacional para o combate ao tráfico de drogas e à lavagem de dinheiro.
Em 1988, essa iniciativa resultou na adoção da Convenção das Nações
Unidas contra o Tráfico Ilícito de Estupefacientes e de Substâncias
Psicotrópicas (Convenção de Viena).
A Convenção de Viena, assim designada em homenagem à cidade em
que foi assinada, inclui, sobretudo, disposições para o combate ao comércio
ilícito de drogas e questões relacionadas à aplicação da lei. Embora não
use os termos “lavagem de dinheiro”, a Convenção define o conceito e
recomenda aos países que criminalizem esta atividade. No entanto, a
Convenção de Viena é limitada somente ao crime de tráfico de drogas como
crime antecedente e não aborda os aspectos de prevenção da lavagem de
dinheiro. A Convenção entrou em vigor em 11 de novembro de 1990.

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Dentre as inovações que a Convenção de Viena traz, a mais


importante é a definição de lavagem de dinheiro, conforme Artigo 3 b) (i), in
verbis:

Cada uma das Partes adotará as medidas necessárias


para caracterizar como delitos penais em seu direito interno,
quando cometidos internacionalmente:
i) a conversão ou a transferência de bens, com
conhecimento de que tais bens são procedentes de algum ou
alguns dos delitos estabelecidos no inciso a) deste parágrafo,
ou da prática do delito ou delitos em questão, com o objetivo
de ocultar ou encobrir a origem ilícita dos bens, ou de
ajudar a qualquer pessoa que participe na prática do delito
ou delitos em questão, para fugir das conseqüências jurídicas
de seus atos;

ii) a ocultação ou o encobrimento, da natureza, origem,


localização, destino, movimentação ou propriedade
verdadeira dos bens, sabendo que procedem de algum ou
alguns dos delitos mencionados no inciso a) deste
parágrafo ou de participação no delito ou delitos em
questão.

Outro ponto importante da Convenção diz respeito à coordenação


entre as autoridades nacionais e cooperação internacional para o intercâmbio
de informações no sentido de tornar as investigações e outras medidas
repressivas mais ágeis e efetivas.

Convenção das Nações Unidas contra a Criminalidade Organizada


Transnacional (Convenção de Palermo)

Com o objetivo de intensificar os esforços de combate à criminalidade


organizada internacional, a ONU adotou, em 2000, a Convenção
Internacional contra a Criminalidade Organizada Transnacional
(Convenção de Palermo). A Convenção traz ampla gama de disposições
para o combate à criminalidade organizada, comprometendo-se os países
que a ratificam a aplicar as suas disposições, por meio da aprovação de
leis internas. No que diz respeito à lavagem de dinheiro, os países que
ratificarem a Convenção de Palermo ficam especificamente obrigados a:

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 Definir e criminalizar a delinqüência organizada; (Artigos


2º e 6º).

 Criminalizar a lavagem de dinheiro e ampliar o rol de crimes


antecedentes da lavagem de dinheiro, incluindo todos os crimes graves
nesse rol, quer tenham sido cometidos dentro ou fora do país, e permitir que
o elemento intencional seja deduzido a partir de circunstâncias factuais
objetivas; (Artigo 6º).

 Estabelecer um regime completo de regulação, fiscalização e


controle preventivos dos bancos, instituições financeiras não bancárias e,
quando se for o caso, de outros setores especialmente susceptíveis de serem
utilizados para a lavagem de dinheiro, a fim de prevenir e detectar qualquer
forma de lavagem de dinheiro, sendo nesse regime enfatizados os
requisitos relativos à identificação do cliente, ao registro das operações e à
comunicação de operações suspeitas; (Artigo 7º).

 Garantir a mais ampla cooperação para a troca de informações entre


autoridades administrativas, de regulação, de aplicação da lei e de outras
áreas, em âmbito nacional e internacional, e, para esse fim, considerar a
criação de uma unidade de informação financeira que funcione como centro
nacional para receber, analisar e disseminar informações relativas a
possíveis atividades de lavagem de dinheiro; (Artigo 7º).

 Considerar a possibilidade de aplicar medidas efetivas para detectar


e controlar o movimento transfronteiriço de numerário e de títulos
negociáveis, respeitando as garantias relativas à legítima utilização da
informação e sem restringir a circulação de capitais lícitos. Essas medidas
incluem a exigência de que as pessoas físicas ou jurídicas informem às
autoridades competentes quando estiverem portando quantias elevadas em
numerário ou títulos negociáveis; (Artigo 7º) e

 Promover a cooperação internacional.


(Artigo 7º).

A Convenção de Palermo é importante, pois as disposições


antilavagem de dinheiro levam em consideração a mesma estratégia
previamente definida pelo Grupo de Ação Financeira contra a Lavagem de
dinheiro e o Financiamento do Terrorismo (GAFI) nas suas Recomendações.

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Convenção das Nações Unidas contra a Corrupção (Convenção de


Mérida)
A corrupção não é um fenômeno que ocorre de forma isolada em
um único país. Com a intensificação das relações internacionais e o
fortalecimento da globalização, o problema atingiu escala mundial. Diante
disso, para maximizar as ações de prevenção e combate à corrupção, a ONU
adotou, em 2003, a Convenção contra a Corrupção.
Dada a preocupação com as ameaças decorrentes da corrupção,
para a estabilidade e a segurança das sociedades, ao enfraquecer as
instituições e os valores da democracia, da ética e da justiça e ao
comprometer o desenvolvimento sustentável e o Estado de Direito, além de
outras formas de delinquência, em particular o crime organizado e a
corrupção econômica, incluindo a lavagem de dinheiro, os Estados
membros, ao implementarem a Convenção de Mérida, comprometeram-se
a:

 Criminalizar as diversas práticas de corrupção, incluindo-as como


crimes antecedentes da lavagem de dinheiro.

 Estabelecer as bases para a recuperação dos ativos desviados


para o exterior.

 Considerar a criação e a efetiva operacionalização de uma


unidade de inteligência financeira.

 Fortalecer e sistematizar o uso das técnicas especiais de investigação.

Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE)


A Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico
(OCDE) é uma organização internacional, com sede em Paris, França, que
agrupa os países mais industrializados da economia do mercado. Na
OCDE, os representantes dos países membros se reúnem para trocar
informações e definir políticas com o objetivo de maximizar o crescimento
econômico e o desenvolvimento dos países membros. Os objetivos da OCDE
são:

 Realizar a maior expansão possível da economia, do emprego e do


progresso da qualidade de vida dos países membros, mantendo a
estabilidade financeira e contribuindo assim com o desenvolvimento da
economia mundial.

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 Contribuir com uma expansão econômica saudável nos países


membros, assim como nos países não membros.

 Favorecer a expansão do comércio mundial sobre uma base


multilateral e não discriminatória, conforme as obrigações internacionais.

Convenção da OCDE sobre o Combate da Corrupção de Funcionários


Públicos Estrangeiros em Transações Comerciais Internacionais
O combate à corrupção internacional e à concorrência desleal em
um contexto de globalização crescente foi um dos principais fatores que
subsidiou a elaboração da Convenção da OCDE contra o suborno. A
criminalização do suborno de funcionários públicos estrangeiros foi um
trabalho inicialmente conduzido pelo Grupo de Trabalho da OCDE sobre
Suborno em Transações Comerciais Internacionais. O trabalho desse Grupo
resultou no primeiro acordo multilateral relacionado ao combate do suborno
de servidores estrangeiros.
Em 1995, a OCDE adotou a Recomendação sobre a Dedução de
Impostos de Subornos de Funcionários Públicos Estrangeiros. Em 17 de
dezembro de 1997, a Convenção sobre o Combate à Corrupção de
Funcionários Públicos Estrangeiros em Transações Comerciais
Internacionais foi firmada pelos Estados membros da OCDE, juntamente à
Argentina, ao Brasil, à Bulgária, ao Chile e à República Eslovaca.

Nessa Convenção, os países signatários comprometeram-se a:

 Criminalizar a conduta de todo aquele que intencionalmente


oferecer, prometer ou dar qualquer vantagem pecuniária indevida ou de
outra natureza, seja diretamente ou por intermediários, a um funcionário
público estrangeiro, para esse funcionário ou para terceiros, causando a
ação ou a omissão do funcionário no desempenho de suas funções
oficiais, com a finalidade de realizar ou dificultar transações ou obter outra
vantagem ilícita na condução de negócios internacionais.
 Penalizar a corrupção de um funcionário público estrangeiro no
mesmo nível que as penas aplicadas à corrupção do próprio funcionário
público.

 Incluir a corrupção de um funcionário público estrangeiro como crime


antecedente da lavagem de dinheiro nos mesmos termos da corrupção
de seu próprio funcionário público.

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Organização dos Estados Americanos (OEA)


A Organização dos Estados Americanos (OEA) é uma organização
internacional criada em 1948, com sede em Washington, EUA, e cujos
membros são as 35 nações independentes do continente americano. A OEA
é um dos organismos regionais mais antigos do mundo, fundada três anos
após a criação da ONU. Os países membros se comprometem a defender
os interesses do continente americano, buscando soluções pacíficas para
o desenvolvimento econômico, social e cultural.
Em 11 de setembro de 2001 foi assinada a Carta Democrática
Interamericana entre todos os países membros da OEA. O documento tem o
objetivo de fortalecer o estabelecimento de democracias representativas no
continente. A partir de 1990, os países membros definiram como prioridade
o fortalecimento da democracia e os assuntos relacionados com o
comércio e a integração econômica, o controle de entorpecentes, a
repressão ao terrorismo, à corrupção e à lavagem de dinheiro e as questões
ambientais.

Grupo de Ação Financeira contra a Lavagem de Dinheiro e o


Financiamento do Terrorismo (GAFI)
O Grupo de Ação Financeira sobre Lavagem de Dinheiro (GAFI) foi
criado em 1989, no âmbito da Organização para a Cooperação e
Desenvolvimento Econômico (OCDE) com a finalidade de examinar,
desenvolver e promover políticas de combate à lavagem de dinheiro. Essas
políticas têm por objetivo impedir que os produtos dos crimes de tráfico de
drogas e outros delitos graves sejam utilizados em futuras atividades
criminosas e afetem as atividades econômicas legais dos países.
O GAFI é um organismo intergovernamental e é composto de 35
membros plenos, 2 organismos regionais e mais de 40 observadores, com
sede em Paris, França, onde funciona a Secretaria Executiva. Nesse
contexto, o GAFI não pretende aumentar o número de membro, não sendo
aberto a novas admissões. A estratégia de ação se dá pela regionalização
da influência, isto é, estimulando núcleos regionais independentes, porém,
com estrutura funcional similar que atuam como disseminadores e
implementadores regionais das 40+9 Recomendações.
Em 1990, o GAFI publicou as "40 Recomendações" contra a
lavagem de dinheiro com o intuito de estabelecer ações a serem seguidas
pelos países imbuídos do propósito de combater o crime de lavagem de
dinheiro. Tem como metas principais o fornecimento de instrumentos para o
desenvolvimento de um plano de ação completo de combate à lavagem de
dinheiro e a discussão de ações ligadas à cooperação internacional. As 40
Recomendações foram revisadas em 1996 e em 2003, a fim de que

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pudessem refletir as tendências atuais e potenciais ameaças futuras. As


40+9 Recomendações do GAFI são reconhecidas pela ONU como o
documento padrão internacional sobre prevenção e combate à lavagem de
dinheiro e ao financiamento do terrorismo e, portanto, seguidas por mais de
180 países.
Em 2001, após os atentados terroristas de 11 de setembro aos
Estados Unidos, o GAFI incluiu em seu mandato o desenvolvimento de
padrões internacionais para o combate ao financiamento do terrorismo.
Assim, nesse mesmo ano, publicou as “8 Recomendações Especiais”
contra o financiamento do terrorismo. Em 2004, o GAFI aprovou e incluiu
mais uma Recomendação Especial. Com isso, o GAFI passou então a ter
“40 Recomendações” contra a lavagem de dinheiro e “9 Recomendações
Especiais” contra o financiamento do terrorismo. Entretanto, em 2012, essas
40+9 Recomendações foram revisadas e voltaram a ser apenas 40
Recomendações, as quais passaram a ser chamadas apenas como
“Recomendações do GAFI”.
Pode-se dizer que a maior prioridade do GAFI é garantir uma ação
global de combate à lavagem de dinheiro e ao financiamento do
terrorismo, bem como a implementação concreta das suas Recomendações
por todo o mundo. A começar pelos seus próprios membros e utilizando-se
do mecanismo de Avaliação Mútua (pressão dos pares), o GAFI: (i) monitora
o progresso dos países na implementação de medidas antilavagem de
dinheiro e de combate ao financiamento do terrorismo; (ii) discute e revisa
métodos, técnicas e tendências de lavagem de dinheiro e financiamento do
terrorismo e a consequente implementação de contra- medidas e; (iii)
promove a adoção e aplicação das Recomendações globalmente.

Grupo de Ação Financeira da América Latina contra a Lavagem de


Dinheiro e o Financiamento do Terrorismo (GAFILAT)
O Grupo de Ação Financeira da América Latina (GAFILAT) é uma
organização intergovernamental no estilo do GAFI/FATF, porém de base
regional, com atuação na América Latina. Criado em 2000 com a
denominação Grupo de Ação Financeira da América do Sul contra a Lavagem
de Dinheiro e o Financiamento do Terrorismo (GAFISUD), hoje é composto
por 16 países-membros da América do Sul, América Central e América do
Norte, 6 países-associados e diversas organizações observadoras.

Seu propósito é estimular seus membros a combater a lavagem de


dinheiro e o financiamento do terrorismo na região, por meio do compromisso
de melhorar permanentemente as políticas nacionais e os mecanismos de
cooperação internacional dos países da América Latina.

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Com o objetivo de concretizar o compromisso assumido pelos


ministros de Finanças das Américas, o GAFILAT foi criado formalmente
em 08 de dezembro de 2000, em Cartagena das Indias, Colômbia,
mediante a assinatura do Memorando de Entendimento constitutivo
do grupo, inicialmente constituído por nove países: Argentina,
Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, Paraguai, Peru e Uruguai.
Posteriormente se incorporaram como membros plenos o México
(2006), Costa Rica (2010), Panamá (2010), Cuba (2012), Guatemala
(2013), Honduras (2013) e Nicarágua (2013).

O GAFILAT é um organismo intergovernamental de base regional para


combater a lavagem de dinheiro e financiamento do terrorismo tendo
como eixo norteador o compromisso de aperfeiçoamento contínuo das
políticas nacionais e o aprofundamento nos diferentes mecanismos dos
países membros. A sede está localizada em Buenos Aires, Argentina, onde
funciona a Secretaria Executiva do organismo. O grupo goza de
personalidade jurídica e status diplomático na República Argentina.
O grupo foi criado à semelhança do GAFI aderindo às suas
Recomendações como padrão internacional contra a lavagem de dinheiro e
o financiamento do terrorismo e prevendo o desenvolvimento de
Recomendações próprias de melhoramento das políticas nacionais de
combate a esses crimes.

Grupo de Egmont para Unidades de Inteligência Financeira


Em reconhecimento aos benefícios adquiridos com o desenvolvimento
da rede de unidades de inteligência financeira (FIUs, na sigla em inglês), um
grupo de UIFs (na sigla em português) se reuniu em 1995 no Palácio de
Egmont Arenberg em Bruxelas, Bélgica, e decidiu formar um grupo informal
visando a estimular a cooperação internacional. Hoje conhecido como “Grupo
de Egmont”, esse organismo reúne estas UIFs que se encontram
regularmente para buscar formas de cooperar entre si, especialmente nas
áreas de intercâmbio de informações, treinamento e troca de experiências.

Como parte dos esforços de combate à lavagem de dinheiro, os


países se comprometeram a criar organismos especializados que
funcionassem como centros nacionais para o recebimento, análise e
disseminação de informações, principalmente aquelas apresentadas por
entidades e pessoas abrangidas pela obrigação de comunicação de
transações suspeitas de atividade de lavagem de dinheiro. Tais organismos
são geralmente conhecidos como Unidades de Inteligência Financeira (UIFs).

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Essas Unidades servem também como centros de coordenação para


os programas nacionais antilavagem de dinheiro, porque facilitam a troca de
informação entre as instituições financeiras e as autoridades policiais.
Como a lavagem de dinheiro é praticada em escala mundial, também
existe a necessidade de trocar informação a nível internacional.
Atualmente, há 152 unidades de inteligência financeira (UIFs)
reconhecidas pelo Grupo Egmont em operação, além de várias outras em
fase de implementação. Esses membros têm acesso a uma rede segura, não
disponível ao público, para a troca de informações, chamada de Rede de
Segurança Egmont (Egmont Secure Web – ESW). A sede do Grupo de
Egmont é em Toronto, no Canadá, onde funciona a Secretaria Executiva.

Isso é especialmente relevante portque as UIFs estão posicionadas de


forma única para cooperar e apoiar os esforços nacionais e internacionais
para combater o financiamento do terrorismo, servindo como porta de entrada
confiável para o compartilhamento de informações financeiras domésticas e
internacionais, conforme padrões globais anti-lavagem e contra o
financiamento ao terrorismo.

Comitê de Basiléia de Supervisão Bancária


O Comitê de Basiléia de Supervisão Bancária (Comitê de Basiléia) foi
criado em 1974 pelos chefes dos bancos centrais de 27 países. Cada país é
representado pelo seu banco central ou pela respectiva autoridade com
responsabilidade formal pela supervisão prudencial do setor bancário,
quando essa autoridade não é o banco central. O Comitê não tem
nenhuma autoridade formal de supervisão internacional nem força da lei.
Tem como papel a formulação de padrões e orientações amplas de
supervisão e a feitura de declarações de melhores práticas com
recomendações sobre um amplo conjunto de questões de supervisão
bancária.
Estas normas e orientações são adotadas na expectativa de que
as autoridades competentes de cada país deem todos os passos
necessários para a respectiva aplicação, por meio das medidas estatutárias,
regulamentares ou de outra natureza, mais adequadas ao sistema nacional.
Três dos padrões de supervisão e orientações do Comitê de Basiléia referem-
se a questões de lavagem de dinheiro.

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Associação Internacional dos Supervisores de Seguros (IAIS)


A Associação Internacional dos Supervisores de Seguros, criada em
1994, é uma organização de supervisores de seguros de mais de 200
jurisdições, em quase 140 países diferentes. Entre os objetivos principais
estão a promoção da cooperação entre os reguladores de seguros, o
estabelecimento de normas internacionais para a supervisão de seguro, a
oferta de formação aos seus membros e a coordenação dos trabalhos com
reguladores de outros setores financeiros e das instituições financeiras
internacionais.

Além de tratar de uma vasta gama de temas, incluindo praticamente


todas as áreas de supervisão de seguros, a IAIS trata especificamente da
lavagem de dinheiro em um de seus documentos. Em janeiro de 2002, a
Associação aprovou o “Documento de Orientação n. 5, Orientações sobre o
Combate à Lavagem de Dinheiro para Supervisores de Seguros e Entidades
de Seguros” (Anti-Money Laundering Guidance Notes for Insurance
Supervisors and Insurance Entities), que inclui a análise abrangente da
lavagem de dinheiro no contexto do setor de seguros. Como outros
documentos internacionais similares, as Orientações antilavagem de
dinheiro deveriam ser aplicadas por cada país, levando-se em conta as
companhias seguradoras envolvidas, os produtos oferecidos no país e o
sistema financeiro, a economia, a constituição e o respectivo sistema jurídico.

A missão da IAIS é promover uma supervisão eficaz e globalmente


consistente no mercado de seguros, a fim de desenvolver e manter a justiça
desses mercados, de forma segura e estável para benefício e proteção dos
segurados e contribuir para a estabilidade financeira global.

Estabelecida em 1994, a IAIS é o organismo internacional de


normalização responsável pelo desenvolvimento e assistência na
implementação de princípios, normas e outros materiais de apoio para a
supervisão do sector dos seguros. A IAIS também oferece um fórum para os
Membros compartilharem suas experiências e compreensão dos mercados
de supervisão e seguro de seguros. Reconhecendo os seus conhecimentos
colectivos, a IAIS é rotineiramente solicitada pelos líderes do G20 e por outros
organismos internacionais de normalização.

Sob a direção de seus Membros, a IAIS conduz atividades através de


um sistema de Comitê projetado para cumprir seu mandato e objetivos. O
sistema do Comitê da IAIS é liderado por um Comitê Executivo, cujos
membros vêm de diferentes regiões do mundo. É apoiado por cinco Comitês
estabelecidos pelos Estatutos - Auditoria e Risco, Orçamento, Estabilidade
Financeira, Implementação e Comitês Técnicos - bem como pelo Fórum de
Supervisão. Os Comitês podem estabelecer subcomitês para ajudar a

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desempenhar suas funções. As atividades da IAIS são apoiadas pelo seu


Secretariado localizado em Basileia e liderado por um Secretário-Geral.

1.3 A magnitude da lavagem de dinheiro

Como vimos no tópico anterior, são inúmeros os instrumentos criados


mundialmente para combater a lavagem de dinheiro, porém, por ser uma
atividade criminosa, cujo controle por parte dos diferentes estados é uma
atividade de complexa execução, mostra-se impraticável quantificar
precisamente o montante de recursos lavados no mundo inteiro. Ainda que
fosse calculado o volume com base nos processos judiciais envolvendo
crimes desta natureza, não teríamos, naturalmente, um número real dos
valores movimentados pelos lavadores, mas somente aqueles detectados
pelas autoridades repressoras, de acordo com Saadi e Gomes (2008).
O Fundo Monetário Internacional (FMI) desenvolveu estudos para
afirmar que o tamanho da lavagem de dinheiro no mundo pode ser estimado
como algo em torno de 2% a 5% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial.
Obviamente, devemos destacar que a estimativa apresentada pelo
FMI pode não ser precisa, porém é atualmente fruto do estudo mais avançado
sobre o tema.
Devido ao grande volume de recursos envolvidos, a lavagem de
dinheiro apresenta como consequência danos macro e microeconômicos,
podendo desestabilizar determinados setores da economia e o sistema
financeiro dos países.
De acordo com Saadi e Gomes (2008), a desestabilização do sistema
financeiro ocorre porque os lavadores não estão interessados na taxa de
retorno que o dinheiro investido nos mercados vai ter, mas sim na
circulação do mesmo para dissimular sua origem ilícita. Na maioria das
vezes, os lavadores de dinheiro aplicam seus recursos em países com
políticas econômicas ruins e com taxas de retorno baixas em detrimento
de uma nação com boa política econômica e alta taxa de retorno. Esse
comportamento deixa as autoridades e os demais investidores confusos,
fato que poderá resultar em uma desestabilização do mercado.
Além disso, por meio das operações de lavagem de dinheiro o crime
organizado poderá se infiltrar em instituições financeiras ou adquirir
controle de amplos setores da economia. Como não estão preocupados com
o retorno dos investimentos feitos em determinados setores, os lavadores
podem criar preços artificiais de certos produtos. Por exemplo, os
criminosos podem utilizar um supermercado no processo de lavagem de
dinheiro. Como não estarão preocupados com os lucros, podem vender as
mercadorias a valores abaixo do preço, trazendo instabilidade ao setor, uma

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vez que alteram o equilíbrio de mercado alcançado pelos supermercados não


utilizados pelos criminosos. Assim, a lavagem de dinheiro pode ameaçar a
estabilidade monetária devido à má alocação de recursos por causa de
distorções artificiais dos preços de ativos e mercadorias.
Essa competitividade desleal pode resultar no domínio dos negócios
privados por organizações criminosas. Os princípios dessas empresas
criminosas não estão de acordo com os princípios de mercado livre de
empresas legais, o que pode resultar em efeitos macroeconômicos
negativos adicionais.
Outro aspecto interessante da lavagem de dinheiro e da atuação
do crime organizado é a possibilidade de subornos a autoridades e
profissionais, governantes e funcionários públicos, aumentando a sua
influência econômica e política. Assim, o governo poderá deixar de adotar
políticas econômicas e sociais que visem o desenvolvimento da nação,
seguindo políticas que interessem aos criminosos.
Podemos perceber que a lavagem de dinheiro reduz a receita do
governo com impostos e, indiretamente, prejudica os contribuintes. Essa
perda de receita implica, geralmente, impostos mais altos do que os que
normalmente pagos se as receitas não taxadas do crime fossem legais e
significa, também, a existência de menos recursos aplicados nas áreas
sociais.

Estratégia mundial de combate à magnitude da lavagem de dinheiro


A estratégia mundial antidroga, formulada a partir dos princípios
traçados pela Convenção de Viena, explicitada anteriormente, tem como um
dos seus principais eixos norteadores a supressão do poder financeiro das
organizações transnacionais criminais especializadas.

Constata-se que o simples encarceramento dos líderes de grupos


delituosos não se mostra suficiente para promover a interrupção de suas
atividades ilícitas, pois estes podem ser facilmente substituídos ou
permanecerem à frente das ações por meio de constantes orientações que
chegam a seus subordinados pelos mais diversos canais de comunicação,
desde aparelhos telefônicos ocultos a serviços de “correios” prestados por
advogados e familiares com acesso ao interior dos centros de detenção,
segundo Zampronha (2008).
Deve-se levar em consideração, também, que os criminosos são
jogadores natos, oportunistas, que constantemente analisam e avaliam as
perspectivas de sanções frente à possibilidade de desfrute do produto do
crime após cumprimento de suas eventuais penas. Assim, segundo
Zampronha (2008), para que o sistema jurídico-penal de fato torne a prática

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do crime desinteressante é necessário que seja relevante a probabilidade do


Estado confiscar os ativos ilícitos obtidos.
A obtenção dos maiores lucros possíveis é o objetivo de toda
organização criminosa voltada para a prática de delitos de conteúdo
patrimonial, sendo, por sua vez, um grande problema a ser enfrentado. Os
lucros ilícitos volumosos deixam rastros documentais “no sistema
financeiro, no fisco, na bolsa ou no mercado de divisas, permitindo ao
Estado a possibilidade de detecção e controle destas operações financeiras”
(MONTOYA, 2007, p. 390).

As agências de execução da lei têm conhecimento de que


traficantes de drogas encontram maior dificuldade em
transportar ou ocultar o dinheiro vivo, arrecadado com a
venda de seus produtos ilícitos, do que em relação às
próprias substâncias. Isso porque o volume dos
carregamentos de heroína e drogas sintéticas, por exemplo,
é inferior ao volume de moeda produzido pelo seu valor
equivalente (ZAMPRONHA, 2008, p. 18)2.

Os problemas que envolvem a localização e o confisco dos produtos


e proveitos provenientes de atividades criminosas também são abordados
de forma inovadora pelo sistema internacional de combate à lavagem de
dinheiro. A técnica consiste em inverter o caminho inicial: partir do montante
suspeito para tratar de identificar a atividade ilícita de origem. A identificação
e a reconstituição das trilhas de papel (paper trail), deixadas pelo capital de
origem ilegal, constituem poderosa ferramenta de detecção de autores de
ações ilícitas, bem como de produção de elementos de prova que os
relacionem às práticas ilegais. Nesse sentido, surge o conceito de
inteligência financeira, ou a chamada estratégia Al Capone de combate ao
crime organizado, definida como sendo a coleta e análise de informações
financeiras e patrimoniais com o objetivo de identificar transações suspeitas,
produzir provas criminais e localizar bens, vantagens, direitos e valores
provenientes direta e indiretamente de crimes.

O tráfico de drogas está na raiz da criminalização da lavagem de


dinheiro também por ser o setor mais conhecido da economia criminal3.
Como explica Pino Arlachi, diretor da Oficina das Nações Unidas para o
controle da droga, trata-se de um
[...] fenômeno racional e uma das indústrias mais bem

2
Contrariando a crença popular, não é possível guardar um milhão de libras em uma
pasta de executivo. Um monte de um milhão nessa moeda, em notas de 50, tem
aproximadamente três metros de altura.
3
De uma maneira geral, as ações de repressão ao tráfico de drogas estão sempre na vanguarda
das técnicas inovadoras de investigação desenvolvidas pelas agências de execução da lei.

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estruturadas, cuja organização e modo de atuar são


parecidos com seus homólogos da economia lícita. Existem
compradores e vendedores, atacadistas e varejistas,
intermediários e distribuidores. Têm uma estrutura de
preços, balanças, lucros e algumas vezes perdas. Os
indivíduos que estão submetidos a estas atividades ilícitas
estão motivados pelos mesmos fatores atribuídos aos
homens de negócio honestos, buscando e investindo a maior
parte de seus ganhos.

De acordo com Zampronha (2008), o conceito de que as organizações


dedicadas ao tráfico de drogas constituem cartéis foi tomado emprestado
da economia pela agência norte-americana DEA (Drug Enforcement
Administration) e amplamente utilizado no contexto da guerra contra a
cocaína colombiana. Entretanto, apesar de ter surgido como um mecanismo
de enfrentamento do poder econômico dos cartéis internacionais de tráfico
de drogas, “a lavagem de dinheiro passou a ser direcionada a outros
crimes geradores de lucros ilícitos com potencialidade de desestabilizar
economias nacionais” (CAPARRÓS, 2006. p. 56).

Percebe-se, atualmente, o rápido redirecionamento dos instrumentos


legais e técnicos desenvolvidos primeiramente para o combate antidroga
para a nova campanha contra o terrorismo erigido, após os atentados de
11 de setembro de 2001, ao posto de maior ameaça à segurança nacional
dos países centrais, principalmente os Estados Unidos. Toda a expertise
tecnocrata norte-americana e as ferramentas desenvolvidas para promover
o rastreamento e confisco dos recursos provenientes do tráfico de
entorpecentes foram adaptados à luta contra o financiamento do terrorismo,
com a extensão para esse caso o método follow-the-
money utilizado no controle do crime organizado nos últimos anos4.

1.4 Unidades de Inteligência Financeira


Como vimos anteriormente, o conceito de inteligência financeira
surge no contexto de análise e coleta de movimentações financeiras
suspeitas com o objetivo de produzir provas criminais e identificar bens e
vantagens provenientes direta ou indiretamente de crimes.
Conforme os países desenvolviam estratégias próprias contra a
lavagem de dinheiro e descobriam que seus órgãos de aplicação da lei tinham
acesso limitado a informações financeiras importantes, tornou-se claro que
a estratégia requeria o “engajamento do sistema financeiro no esforço de

4
Uma das características do deslocamento das prioridades norte-americanas está no maior
enfoque às transferências informais de recursos ou sistema bancários paralelos, conhecidas
como hawalas (ANDREAS e NADELMANN, 2005).

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combater a lavagem enquanto, concomitantemente, buscava assegurar a


manutenção das condições necessárias para sua operação eficiente”
(GILMORE, p. 103, 1999).

Os países também descobriram que a implementação de um sistema


requerendo a comunicação de transações suspeitas por parte das
instituições financeiras criava a necessidade de agência ou escritório central
para avaliar e processar essas comunicações.
As primeiras Unidades de Inteligência Financeira (UIFs) foram
estabelecidas no início da década de 1990, em resposta à necessidade de
uma agência central para receber, analisar e disseminar informações
financeiras para combater a lavagem de dinheiro. Durante os dez anos
seguintes, o número de UIFs aumentou de tal maneira que o Grupo de
Egmont, a associação internacional informal das UIFs, contava com 84
membros em 2003.

Neste mesmo ano, o Grupo de Ação Financeira (GAFI) adotou um


conjunto revisado de recomendações para combater a lavagem de dinheiro
que, pela primeira vez, incluiu recomendação explícita quanto ao
estabelecimento e funcionamento das UIFs. Nos últimos anos,
reconhecendo a importância da UIF no combate à lavagem de dinheiro e ao
financiamento do terrorismo (ALD/CFT), o Fundo Monetário Internacional e
o Banco Mundial, assim como diversos países membros, ofereceram
assistência técnica para o estabelecimento e reforço de UIFs.

As UIFs enfrentam, atualmente, diversos desafios específicos. O


escopo de responsabilidades tem sido ampliado para incluir a perspectiva de
lidar com o financiamento ao terrorismo, além de lavagem de dinheiro e dos
respectivos crimes antecedentes. A ampliação das tipologias criminais
aumento a complexidade dos dados processados, levantando, assim,
questões de métodos de análise de informações e treinamento para o
pessoal das UIFs. A quantidade de entidades obrigadas também tem sido
ampliada para incluir atividades não financeiras, como cassinos, provedores
de serviços empresariais e profissionais de direito e contabilidade.
Consequentemente, a natureza das comunicações recebidas tornou-se
mais variada e, novamente, surgem questões metodológicas de análise e
treinamento de pessoal.
O Grupo de Egmont, que congrega as Unidades de Inteligência
Financeira de mais de 152 membros, adotou a seguinte definição de UIF, em
novembro de 1996:

“É uma agência nacional, central, responsável por receber,


requerer, analisar e distribuir às autoridades competentes as

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22

denúncias sobre informações financeiras: (i) referentes a


recursos suspeitos de origem criminosa; e (ii) requeridas
pela legislação ou pelas normas nacionais que visem a impedir
a lavagem de dinheiro.”

A Convenção das Nações Unidas contra a Criminalidade


Organizada Transnacional adotou esta definição, declarando que

“Cada Estado Parte… considerará a possibilidade de criar


um serviço de inteligência financeira que funcione como
centro nacional de recepção, análise e difusão de informação
relativa a eventuais atividades de lavagem de dinheiro”.
Algumas convenções internacionais adotaram esta definição,
declarando que os Estados Partes devem “considerar o estabelecimento de
unidades de inteligência financeira para servir como um centro nacional
para receber, analisar e distribuir informações relativas à potencial lavagem
de dinheiro”.
O GAFI ampliou essa definição e, a partir de outubro de 2001,
passou a requerer que os países estabeleçam uma UIF que tenha estas
três funções essenciais: receber, analisar e disseminar informações
financeiras, com o objetivo de detectar e combater a lavagem de dinheiro
e o financiamento do terrorismo. O GAFI tem como exigência geral a de
que todas as autoridades nacionais troquem informações e cooperem com
as suas homólogas nacionais e internacionais.

Em junho de 2004, o Grupo de Egmont reveu a definição de UIF para


incluir especificamente o combate ao financiamento do terrorismo.
Atualmente, a definição de UIF está regulamentada na Recomendação 29,
que assim dispõe:

Os países deveriam estabelecer uma unidade de inteligência


financeira (UIF) que sirva como um centro nacional de
recebimento e análise de: (a) comunicações de operações
suspeitas; e (b) outras informações relevantes sobre lavagem
de dinheiro, crimes antecedentes e financiamento do
terrorismo, e de disseminação dos resultados de tal análise. A
UIF deveria ser capaz de obter informações adicionais das
entidades comunicantes e ter acesso rápido a informações
financeiras, administrativas e de investigação que necessite
para desempenhar suas funções adequadamente.

As funções básicas de uma UIF requerem objetividade no processo


decisório, o processamento oportuno das informações que ingressam e a

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23

estrita proteção dos dados confidenciais. Para assegurar que esses


requerimentos sejam atendidos continuamente, deve ser dada às UIFs
autonomia operacional suficiente para permitir-lhes desempenhar as tarefas
que lhes são atribuídas sem indevidas interferências.

Ao mesmo tempo, como órgãos governamentais, as UIFs são


responsáveis pela forma que cumprem com sua missão. Os meios pelos
quais as UIFs são responsabilizadas pelas suas ações e a pessoa ou órgão
à qual elas prestam contas variam de país para país. Entretanto, mecanismos
de prestação de contas deverão assegurar que os poderes especiais
atribuídos à UIF não são abusivos e que os recursos públicos colocados
à disposição são usados eficientemente para as finalidades pretendidas.

Na sua forma mais simples, UIFs são unidades que recebem


comunicações de transações suspeitas de instituições financeiras e de
outras pessoas ou entidades, as analisam e disseminam o relatório de
inteligência resultante aos órgãos nacionais de combate ao crime e às
UIFs estrangeiras para combater a lavagem de dinheiro, conforme
demonstra figura a seguir.

Fluxo de informações típico de uma UIF

Figura 1

O estabelecimento de uma UIF constitui-se um passo importante no


combate ao crime financeiro e deve ser baseado em aspectos específicos de
política criminal de cada país. As atribuições básicas da UIF devem ser
consistentes com a estrutura de supervisão do país, assim como com seus
sistemas jurídico e administrativo e com sua capacidade financeira e técnica.
Apesar de no estabelecimento de uma UIF as autoridades poderem
sentir a necessidade de atentar para os ditames da comunidade

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24

internacional, as decisões quanto às funções da UIF e as modalidades


operacionais devem ser baseadas nos objetivos, nas prioridades e nos
recursos da sua política nacional de combate ao crime. As
responsabilidades de uma UIF também necessitam ser harmonizadas com
aquelas das unidades nacionais existentes envolvidas na luta contra o crime
financeiro, inclusive as entidades de aplicação da lei e de supervisão e os
órgãos de definição de políticas.

Tipos de UIF
Ao longo dos anos, os países têm estabelecido UIFs com a finalidade
geral de combater a lavagem de dinheiro e atribuíram a elas três funções
básicas que são parte da definição de UIF. Entretanto, os arranjos
administrativos pelos quais essas funções são desempenhadas variam
consideravelmente de país para país. Essas variações surgem de diferentes
circunstâncias nacionais, juntamente com a falta de um modelo
internacionalmente aceito para as funções da UIF no início da década de
1990, quando as primeiras dessas unidades foram estabelecidas.

A grande variedade de modalidades para as UIFs pode ser


resumida em quatro grupos gerais: as UIFs de tipo administrativo, as UIFs
de tipo coercitivas ou policiais, as UIFs persecutórias ou judiciais e as UIFs
“mistas” ou “híbridas”. Deve ser destacado que essa classificação é, até
certo ponto, arbitrária e que outras formas de classificação são possíveis.
Não obstante, essas categorias ilustram a variedade de arranjos
administrativos sob os quais as UIF são estabelecidas.
As UIFs do tipo administrativo são geralmente parte da estrutura ou
estão sob a supervisão de uma entidade ou um órgão que não seja uma
autoridade coercitiva ou judicial. Algumas vezes constituem um órgão
separado, colocado sob a supervisão substantiva de um ministério ou
administração (UIFs “autônomas”) ou não são colocadas sob essa
supervisão (UIFs “independentes”). A lógica principal desse arranjo é o
estabelecimento de uma interface entre o setor financeiro e, mais geralmente,
entidades e profissionais obrigados a reportar e as autoridades de coerção,
responsáveis pela investigação e persecução. Frequentemente, ao enfrentar
uma transação financeira problemática ou relacionamento, as instituições
financeiras não possuem as provas do fato de que essa transação envolve
atividades criminosas ou de que o cliente envolvido é parte de uma
operação ou organização criminosa. Dessa maneira, elas serão relutantes
em informá-la diretamente a um órgão de coerção, pela preocupação de que
suas suspeitas possam tornar-se uma acusação baseada em má
interpretação dos fatos. O papel da UIF é, então, substanciar a suspeita e
enviar o caso às autoridades responsáveis pelas investigações criminais e

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25

persecutórias somente se as suspeitas forem fundamentadas.


Em alguns países, a ênfase nos aspectos coercitivos da UIF levou
à sua criação como parte de um órgão de natureza policial, uma vez que
esta era a forma mais fácil de estabelecer uma entidade com os poderes
coercitivos apropriados sem a necessidade de desenhar uma nova entidade
e novas estruturas legais e administrativas.
Operacionalmente, sob esse arranjo, a UIF estará mais próxima das
outras unidades de coerção, como a unidade de crimes financeiros, e se
beneficiará de sua experiência e fontes de informação. Em compensação,
informações recebidas pela UIF podem ser acessadas mais facilmente pelos
órgãos de coerção e podem ser usados em investigações. A troca de
informações pode também ser agilizada por intermédio de redes de trocas
de informação criminal nacional e internacional existentes.
A UIF do tipo coercitivo normalmente terá os poderes coercitivos do
próprio órgão (sem a necessidade de obter-se autorização legislativa),
incluindo poderes de suspender transações e sequestrar ativos, com o
mesmo grau de supervisão judicial aplicável aos demais poderes coercitivos
do país.
O tipo de UIF tida como persecutória ou judicial é estabelecido no
âmbito do Poder Judiciário nacional e frequentemente sob a jurisdição do
Ministério Público.

Casos desse tipo de arranjo podem ser encontrados em países com


tradição legal continental, em que os promotores públicos são parte do
sistema judiciário e têm autoridade sobre os órgãos de investigação,
permitindo-lhes dirigir e supervisionar as investigações criminais.
As comunicações de atividades financeiras suspeitas são
usualmente recebidas pelo Ministério Público, que pode abrir uma
investigação se as suspeitas forem confirmadas pelas primeiras pesquisas
realizadas sob sua supervisão. Os poderes judiciais necessários (e.g.,
sequestro de fundos, bloqueio de contas, condução de interrogatórios,
detenção de suspeitos e condução de buscas) podem ser trazidos à ação
sem demora. As UIFs persecutórias ou judiciais podem funcionar bem em
países em que a legislação de sigilo bancário é tão severa que uma ligação
direta com as autoridades persecutórias ou judiciais é necessária para
assegurar a cooperação das instituições financeiras. Deve ser registrado que
a escolha do Ministério Público como localização para a UIF não exclui a
possibilidade de estabelecer um serviço policial com responsabilidade
especial sobre investigações financeiras. Em muitos países, a
independência do judiciário inspira confiança nos círculos financeiros.

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26

Por fim, a categoria tipo misto ou “híbrido” reúne UIFs que contém
diferentes combinações dos arranjos descritos anteriormente. Esse tipo
híbrido de organização é uma tentativa de obter as vantagens de todos os
elementos ao mesmo tempo. Algumas UIFs combinam características das
UIFS de tipo administrativo e coercitivo, enquanto outras combinam os
poderes das autoridades aduaneiras com aqueles da polícia. Para alguns
países, esse foi o resultado da fusão de dois órgãos que estavam envolvidos
no combate à lavagem de dinheiro.
Apesar de variarem em diversos aspectos, a UIFs compartilham
uma definição comum no que se refere às funções básicas: servir como um
centro nacional para receber, analisar e disseminar informações relativas
à lavagem de dinheiro e ao financiamento do terrorismo. Essas três funções
são as funções básicas compartilhadas por todas as UIFs reconhecidas pelo
Grupo de Egmont. A definição de uma UIF baseada em suas funções
principais foi formalizada pela primeira vez, em 1996, pelo Grupo de
Egmont. Definições semelhantes, também baseadas nas três funções
principais, foram agora incorporadas às Recomendações revisadas do GAFI,
de junho de 2003, e em duas convenções internacionais.
Alguns países confiam à UIF funções adicionais. Outras UIFs têm o
poder de bloquear por um tempo limitado transações suspeitas
comunicadas. As recomendações do GAFI definem como padrão que os
países devem estabelecer UIFs com as três funções principais e contém
outras disposições relacionadas ao exercício dessas funções. Em contraste,
não existe norma internacional ou padrão lidando com as funções não
principais de uma UIF.

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1.5 A lavagem de dinheiro no contexto brasileiro


O Brasil tem sido um país cooperativo e cumpridor de convenções,
recomendações e outros padrões internacionais que tratam da prevenção
e do combate à lavagem de dinheiro e ao financiamento do terrorismo,
bem como de outros crimes relacionados como o tráfico de drogas, o crime
organizado, o terrorismo, a corrupção e o suborno. É, portanto, um país
que assinou e ratificou todas as convenções e protocolos que tratam desses
crimes, além de ser membro dos principais organismos internacionais sobre
a matéria, tendo assumido o compromisso de participar ativamente de todos,
seguir e implementar orientações e de se submeter aos processos periódicos
de avaliação de membros.
Além disso, o Brasil também atua como colaborador,
compartilhando experiência com países que necessitam de assistência
técnica ou estão em um estágio mais básico que o Brasil. Fruto do
reconhecimento internacional aos esforços que o Brasil tem implementado
ao longo dos anos, além dos resultados práticos, foi o fato de que o Brasil
teve atuação destacada em todos os foros e organismos internacionais,
exercendo, inclusive, a presidência de vários desses organismos,
nomeadamente a presidência do GAFISUD em 2006 e a presidência do GAFI
entre 2008 e 2009, além de participar de todos os comitês executivos desses
Grupos e do Grupo de Egmont. O Brasil também tem sido um modelo de
referência para outros países na área operacional da prevenção e do
combate à lavagem de dinheiro e ao financiamento do terrorismo.

COAF: a Unidade de Inteligência Financeira do Brasil


O Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF) foi criado
pela Lei
n. 9.613, de 03 de março de 1998. No mesmo ano, foram aprovados
também o Estatuto (Decreto n. 2.799, de 08 de outubro de 1998) e o
Regimento Interno (Portaria n. 330 do Ministério da Fazenda, de 18 de
dezembro de 1998).
Sob o comando de seu presidente, o COAF está operacionalmente
estruturado em uma Secretaria Executiva e uma Diretoria de Inteligência. O
quadro de profissionais, de aproximadamente cinquenta pessoas, é composto
por servidores de diversas carreiras públicas do ministério da Fazenda e
de outros órgãos federais e entidades públicas.
O presidente do COAF é nomeado pelo presidente da República,
por indicação do ministro da Fazenda. Os Conselheiros do COAF devem ser
servidores públicos de reputação ilibada e reconhecida competência,
designados em ato do ministro da Fazenda, integrantes dos quadros de
pessoal efetivos dos seguintes órgãos:

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 Banco Central do Brasil


 Comissão de Valores Mobiliários
 Superintendência de Seguros Privados
 Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional
 Secretaria da Receita Federal do Brasil
 Agência Brasileira de Inteligência
 Departamento de Polícia Federal
 Ministério das Relações Exteriores
 Ministério da Justiça
 Ministério da Previdência Social
 Controladoria-Geral da União

O Plenário do COAF é composto, portanto, pelo presidente e por onze


conselheiros oriundos dos órgãos acima relacionados. O Estatuto do COAF
prevê, ainda, a participação da Advocacia-Geral da União, na qualidade
de consultoria jurídica do Conselho. Representantes destes órgãos reúnem-
se periodicamente, em sessões ordinárias ou, para tratar de assuntos
específicos, em sessões extraordinárias convocadas pelo presidente.
Adicionalmente, o Plenário reúne-se, quando necessário, para realizar
sessões de julgamento de processos administrativos sancionadores.
O COAF é uma Unidade de Inteligência Financeira do tipo
administrativo, vinculada ao ministério da Fazenda, e detém competência
para:

 receber, examinar e identificar as ocorrências suspeitas de


atividades ilícitas previstas na Lei;
 comunicar às autoridades competentes, para a instauração dos
procedimentos cabíveis, quando concluir pela existência de
fundados indícios da prática do crime de lavagem de dinheiro ou
qualquer outro crime;
 coordenar e propor mecanismos de cooperação e troca de
informações que viabilizem ações rápidas e eficientes na prevenção
e no combate à ocultação ou à dissimulação de bens, direitos e
valores;
 disciplinar e aplicar penas administrativas a empresas ligadas a
setores que não possuem órgão regulador ou fiscalizador próprio.

Além das funções típicas de uma UIF, o COAF regula e supervisiona


setores obrigados que não possuem órgão supervisor próprio, tais como

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29

as empresas de fomento mercantil ou factoring, comerciantes de joias e


metais preciosos, entre outros previstos na Lei n. 9.613/98.
Como órgão regulador, o COAF expede Resoluções que
estabelecem as regras para que os setores obrigados cumpram com os
deveres de manter registro de transações, de conhecer o cliente, de
comunicar situações suspeitas de lavagem de dinheiro ou de financiamento
do terrorismo, entre outros requisitos.

No exercício da função de supervisor, o COAF conduz averiguações


preliminares para verificar o devido cumprimento de suas Resoluções. Por
decisão do Plenário, também instaura e julga processos administrativos
sancionadores. Eventuais sanções aplicadas a empresas de setores
regulados pelo COAF poderão, ainda, ser objeto de recurso ao ministro da
Fazenda, como última instância administrativa.
Atuando eminentemente na prevenção, o COAF auxilia as
autoridades competentes no combate à lavagem de dinheiro e ao
financiamento do terrorismo. Não compete ao órgão realizar investigações
ou controlar a infinidade de operações financeiras realizadas diariamente no
Brasil, nem receber ou analisar contratos e tampouco acessar contas ou
investimentos de pessoas físicas ou jurídicas.
As características operacionais do COAF e de seu sistema de
informações, o SISCOAF, permitem grande agilidade de resposta e
flexibilidade no intercâmbio de informações com autoridades brasileiras e do
exterior.
Os relatórios produzidos, denominados Relatórios de Inteligência
Financeira (RIF), são protegidos por sigilo, inclusive bancário, e têm como
destinatárias as autoridades competentes para investigação, em especial, a
Polícia Federal e o Ministério Público. A violação do sigilo do RIF, além
de constituir crime, causa transtornos às entidades obrigadas por lei a
fornecer informações ao COAF, às próprias autoridades competentes e, em
última instância, ao Sistema de Prevenção à Lavagem de Dinheiro e ao
Financiamento do Terrorismo como um todo.
As atribuições do COAF podem ser divididas em três grupos principais:
inteligência financeira, regulação e supervisão. No que compete ao
aperfeiçoamento dessas competências, a Lei nº 12.683/12 representou
importante avanço na compatibilização do marco jurídico nacional com as
convenções e recomendações internacionais em matéria de prevenção e
combate ao terrorismo e seu financiamento, tornando ainda mais eficiente a
persecução penal destes crimes.

Para melhor atender à crescente demanda por seus serviços e


buscando a modernização da gestão institucional, o COAF declarou, em

Curso de Alinhamento Conceitual do PNLD


30

2007, quatro diretrizes estratégicas. São elas: missão, valores, visão e


objetivos estratégicos.

Missão: prevenir a utilização dos setores econômicos para a lavagem de


dinheiro e financiamento do terrorismo, promovendo a cooperação e o
intercâmbio de informações entre os setores público e privado.

Valores: ética, transparência, criatividade, sigilo, credibilidade,


responsabilidade, espírito cooperativo, acessibilidade e iniciativa.

Visão: ser um órgão de Estado moderno, eficiente e eficaz, com pessoal


qualificado e bem treinado, utilizando tecnologia de ponta.

Objetivos Estratégicos:
 produzir inteligência financeira de modo eficiente
e eficaz;
 supervisionar e regular os segmentos econômicos de modo eficiente
e eficaz;
 utilizar tecnologia da informação eficiente
e eficaz;
 gerir a instituição de forma impessoal, transparente e
desburocratizada;
 gerir pessoas assegurando oportunidade profissional e liberdade de
expressão, com respeito e responsabilidade, em um ambiente pluri-
institucional e multidisciplinar;
 desempenhar papel ativo e cooperativo no plano
internacional.

Curso de Alinhamento Conceitual do PNLD


31

Lição 2
Aspectos materiais da lavagem de dinheiro
Nesta lição do curso, comentaremos os aspectos materiais do crime de
lavagem de dinheiro, importantes para o entendimento de seu dinamismo e
de suas relações complexas, que esclarecerão a tipificação desta prática na
Lei.

No Brasil, o crime de lavagem de dinheiro é tipificado objetivamente na


Lei 9.613, de 03 de março de 1998. O caput do artigo 1º de referida legislação,
alterado pela Lei nº 12.683/2012, tipifica a conduta de lavagem de dinheiro
como 'ocultar ou dissimular a natureza, origem, localização, disposição,
movimentação ou propriedade de bens, direitos ou valores provenientes,
direta ou indiretamente, de infração penal.

De acordo com Barros (2007), “ocultar significa encobrir, esconder,


sonegar, não revelar, enquanto dissimular é ocultar com astúcia, fingir,
disfarçar” (p. 76). O autor acrescenta que

enquanto a ocultação corresponde à primeira das fases


que compõem o processo de “lavagem”, também chamada
de colocação ou de aplicação dos ativos ilícitos, sendo
geralmente utilizada com a finalidade de dar menor
visibilidade ao conjunto de capitais obtidos em razão dos
crimes praticados, a dissimulação consiste na segunda fase,
e se realiza com o propósito de disfarçar a procedência
ilícita, mediante sucessivas operações financeiras e
comerciais tendentes a cobrir os lucros para dar-lhes
aparente regularidade.

Outros autores preferem não fazer essa correspondência, visto que


a dissimulação seria uma forma de ocultação (CALLEGARI, 2008).
Segundo uma importante observação de Rodolfo Tigre (1999),

O tipo plurissubjetivo do caput é misto alternativo, qual seja,


ao contrário dos tipos acumulados, a realização de quaisquer
das ações elencadas nos núcleos verbais ali consignados
caracteriza o ilícito e, por outro lado, a subsunção a mais de
uma ação nuclear não configura pluralidade de crimes.
Igualmente, a “lavagem” de inúmeros bens oriundos de um
único crime caracterizará apenas uma violação penal se
efetuada concomitantemente (p. 62).

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32

Os incisos I, II e II do §1º do artigo em comento elencam os


comportamentos que se inserem no processo de lavagem:

§ 1º Incorre na mesma pena quem, para ocultar ou dissimular a utilização


de bens, direitos ou valores provenientes de qualquer dos crimes
antecedentes referidos neste artigo:

I - os converte em ativos lícitos;


II - os adquire, recebe, troca, negocia, dá ou recebe em garantia, guarda,
tem em depósito, movimenta ou transfere;
III - importa ou exporta bens com valores não correspondentes aos
verdadeiros.

Nessas condutas, o elemento subjetivo consiste na vontade livre e


consciente de realizar atos de ocultação e de dissimulação que possibilitem
dar aparência de licitude a ativos provenientes dos crimes elencados no
caput. Nesse momento é oportuno destacar a impropriedade do referido
inciso I, uma vez que o legislador tratou da conversão dos ativos em
“lícitos”, quando, na realidade, sabe-se que o objeto material do crime de
lavagem jamais será lícito, por mais vezes que haja o processo de
dissimulação ou ocultação, sua origem sempre será ilegal e os atos ilícitos.
Com relação ao tipo acima tratado cabe mencionar uma das primeiras
decisões da lavra do ministro Sepulveda Pertence, no momento em que
proferiu a seguinte decisão em Recurso Ordinário em habeas corpus:

No período (...), para dissimular a origem, a movimentação,


a propriedade e a utilização de valores provenientes de
crimes praticados contra a administração pública (concussão
– art. 316 do CP) (...) agindo de forma habitual, converteu-
os em ativos lícitos através da inclusão do dinheiro sujo no
sistema financeiro nacional, de modo a disfarçar sua origem
criminosa, para poder posteriormente reinvesti-lo como
capital limpo e insuspeito. Assim procedeu utilizando as
seguintes contas corrente (...).

Podemos notar, no trecho acima, uma das formas mais simples de


lavagem de dinheiro, levando-se em conta que muitas vezes o crime envolve
uma dinâmica muito mais complexa. A conduta do referido réu foi tipificada
justamente no artigo 1º,
§ 1º, I, da Lei de Lavagem de Ativos.

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33

Segundo Luiz Régis Prado, com essa conduta, busca-se

a separação física entre o criminoso e o produto de seu


crime e, mediatamente, logra-se a infiltração do dinheiro sujo
no mercado de negócios lícitos, para assegurar uma
aparência de legitimidade que possibilite sua fruição sem
riscos pelos autores dos crimes pressupostos (p.1168).

No que diz respeito ao inciso II, Prado diz que o legislador buscou
evitar a reconstrução da trilha de vestígios materiais que vincula o ativo
ao crime que o

gerou. Por sua vez, o inciso III prevê a tipificação da conduta daquele que
importa (introduz no território nacional) ou exporta (faz sair do território do
país) bens com valores não correspondentes aos verdadeiros, ou seja, pune-
se o subfaturamento ou superfaturamento de bens, entre o valor real em
relação ao valor fictício. Com relação ao inciso I, § 2º, do artigo 1º, optou-
se por punir aquele que “utiliza na atividade econômica ou financeira,
bens, direitos e valores que sabe serem provenientes de qualquer dos
crimes antecedentes referidos neste artigo”.
Segundo Prado, “caracteriza o ilícito a mera utilização, sem ter por
objetivo a ocultação ou a dissimulação da origem dos bens, diretos ou
valores, uma vez que o agente saiba de tal origem” (p. 1170). O agente que
participa de um escritório, cuja atividade principal ou secundária é a prática
da ocultação e dissimulação de bens, responderá pelo crime de lavagem
desde que haja a unidade de desígnios, entre a conduta praticada pelo
agente e a sua vontade, de forma a evitar a responsabilidade objetiva, vetada
pelo Direito Penal brasileiro.
O crime de lavagem de dinheiro envolve dinamismo e relações
complexas, que não só dificultam a identificação do produto do crime, como
também a visualização da própria conduta do agente do crime.
Além da dificuldade de vincular os ativos ao crime antecedente, como
requisito necessário à incriminação pelo crime de lavagem, notamos que,
cada vez mais, os criminosos buscam atividades econômicas lícitas para
dissimular ou ocultar a natureza dos recursos originados da atividade ilícita.
A constituição de empresas de fachada, o envio de dinheiro para
paraísos fiscais ou empresas offshores, a dissimulação de negócios e
operações financeiras, a introdução de ativos na economia formal, entre
outras atividades voltadas para conversão dos ativos ilícitos em “lícitos”,
tornam a identificação da lavagem de dinheiro uma atividade cada vez
mais complexa por parte dos órgãos de repressão do Estado, como também

Curso de Alinhamento Conceitual do PNLD


34

exigem uma profissionalização e especialização cada vez maior dos


operadores do direito, de uma maneira geral.
Considerando a dificuldade de elucidação e identificação do dolo
nas condutas vinculadas à lavagem de dinheiro, devemos sempre ter em
mente alguns dispositivos recepcionados pelo ordenamento jurídico
brasileiro, algumas já citadas anteriormente, como a Convenção de
Palermo, a Convenção de Mérida, além da recomendação 2.a, das Quarenta
Recomendações do FATF/GAFI.
Os dispositivos citados demonstram a necessidade de compreensão
da conduta de lavagem de ativos com base em circunstâncias fáticas
objetivas, conforme destaca Moro (2010):

Segundo a recomendação e essas normas, o elemento


subjetivo do crime de lavagem pode, portanto, ser provado
por meio do elemento objetivo. A essa proposta deve ser
conferido o devido entendimento. Não deve ser interpretada
no sentido de que pode ser dispensada a

prova do elemento subjetivo, reduzindo a carga imposta à


acusação e impondo alguma espécie de responsabilidade
objetiva pelo crime de lavagem. A melhor interpretação é a
de que, em alguns casos, da prova do elemento objetivo se
poderá inferir o elemento subjetivo, ou seja, a intenção
criminosa (p. 71).

2.1 Dolo direto e eventual


A experiência demonstra que diversos investigados por lavagem de
dinheiro não admitem a prática da lavagem, pois alegam que desconheciam
a origem ilícita dos ativos. Há grande divergência doutrinária quanto à
natureza do dolo no crime de lavagem de dinheiro. A redação do artigo 1º,
caput, não prevê expressamente a admissão do dolo eventual,
diferentemente da doutrina norte-americana, baseada na common law que
admite tal possibilidade, conforme destaca Sérgio Moro (2010):

A lei norte-americana não é explícita quanto à admissão ou


não do dolo eventual no crime de lavagem de dinheiro. Não
obstante, por construção jurisprudencial, tal figura vem
sendo admitida nos tribunais norte-americanos por meio da
assim denominada willful blindness ou conscious avoidance
doctrine, literalmente, a doutrina da “cegueira deliberada” e
de “evitar a consciência” (p. 63).

Curso de Alinhamento Conceitual do PNLD


35

É importante ressaltar que profissionais que atuam no mercado


financeiro conhecem a dinâmica da movimentação dos ativos, em especial, o
modo pelo qual o dinheiro circula entre as diversas entidades financeiras,
motivo pelo qual se torna, no mínimo, estranho, a alegação de simples
ignorância destas pessoas, ao declararem desconhecimento sobre os
valores que recebem para aplicar na economia de um país. Assim, uma
vez presentes os requisitos para atribuir o crime de lavagem ao agente que
apenas atua no crime acessório, ou seja, de forma autônoma, sem ter
contribuído para o crime antecedente, mas sim em qualquer uma das
formas de ocultação ou dissimulação dos ativos, além daquelas previstas
nos parágrafos do artigo 1º, não pode utilizar a simples alegação de
desconhecimento da origem dos ativos.
O agente que detém conhecimento da elevada probabilidade da
natureza e origem criminosa dos bens, direitos e valores envolvidos, e
decidiu simplesmente ignorar tal fato e passou a atuar como agente financeiro
de traficantes, corruptos, ou em favor de organizações criminosas, deve
responder pelo crime de lavagem de dinheiro, caso contrário, teríamos um
manto de proteção indevido a “profissionais” que conhecem a dinâmica do
mercado e deveriam agir com cautela e o mínimo de preocupação na
movimentação desses recursos.

Por último, neste momento, é importante mencionar a opinião de Moro


(2010), no que diz respeito à aplicação do dolo eventual com relação ao
crime de lavagem de dinheiro no Brasil, conforme segue disposto:

Tais construções em torno da cegueira deliberada


assemelham-se, de certa forma, ao dolo eventual da
legislação e doutrina brasileira. Por isso e considerando a
previsão genérica do art. 18, I, do CP, e a falta de disposição
legal específica na lei de lavagem contra a admissão do dolo
eventual, podem elas ser trazidas para a nossa prática
jurídica (2010).

2.2 Concurso de agentes


O crime de lavagem de dinheiro pode ser praticado por uma ou mais
pessoas, sendo, portanto, classificado como crime monossubjetivo (que
pode ser praticado por apenas um agente). Desse modo, o concurso de
agentes é eventual, não sendo necessária, para a sua prática, a execução
por mais de uma pessoa.
O Código Penal, adotando a teoria monista (ou unitária),
especificamente no seu artigo 29, define que todos que, de qualquer modo,

Curso de Alinhamento Conceitual do PNLD


36

contribuem para a prática do crime, respondem na medida de sua


culpabilidade.
A exceção pluralística está prevista no §2º: “se algum dos
concorrentes quis participar de crime menos grave, ser-lhe-á aplicada a
pena deste; essa pena será aumentada até metade, na hipótese de ter sido
previsível o resultado mais grave”.
Nessa linha, todos aqueles que, de alguma forma, aderem ao modus
operandi do processo de lavagem de dinheiro (pluralidade de agentes e de
condutas), sejam como autor ou participante, de forma consciente e
voluntária (liame subjetivo), respondem pelo mesmo crime previsto na Lei
9.613/1998 (identidade de infração penal – teoria monista), na medida de
sua culpabilidade (relevância causal de cada conduta), diferenciando-se as
condutas dos coautores dos meros participantes.
Para o Código Penal, prevalece a teoria restritiva (ou objetiva-
formal), segundo a qual o autor seria aquele que executa o verbo tipo do
crime enquanto o participante seria aquele que, sem realizar a conduta do
núcleo do tipo, de alguma forma, contribui para o cometimento do crime.
A doutrina afirma o caráter acessório do participante, o qual não
executa o verbo tipificado na lei, mas apenas contribui para sua realização.
Desse modo, há a necessidade de uma norma de extensão para alcançar e
responsabilizar a figura do participante. Para tanto, dentre as classes da
teoria da acessoriedade, o legislador brasileiro preferiu adotar o princípio
da acessoriedade limitada. Especificamente, o artigo 31 do Código Penal,
define que “o ajuste, a determinação ou instigação e o auxílio, salvo
disposição expressa em contrário, não são puníveis, se o crime não chega,
pelo menos, a ser tentado”.

Portanto, para a configuração da participação, o crime deve ser, ao


menos, típico e antijurídico, independente da culpabilidade do autor principal.
Havendo causa de atipicidade ou de justificação, o concurso se desfaz. Vale
destacar que se a associação for estável e permanente e de três ou mais
agentes reunidos para a prática do crime, cabe também o enquadramento
no artigo 288 do Código Penal (Associação Criminosa) em concurso
material.
O delito de associação criminosa é autônomo e o seu consumo
independe da prática do crime pretendido pelo grupo. Cabe ressaltar que,
caso a associação criminosa se encaixe no conceito de organização
criminosa, o investigador poderá fazer uso das medidas previstas na Lei
12.850/2013 (artigo 3º).
Conforme a Convenção das Nações Unidas Contra o Crime
Organizado Transnacional (Convenção de Palermo), realizada em 15 de

Curso de Alinhamento Conceitual do PNLD


37

dezembro de 2000, aprovada pelo Congresso Nacional e promulgada pelo


Decreto n. 5.015/2004, organização criminosa “é o grupo estruturado de três
ou mais pessoas, existente há algum tempo e atuando concertadamente com
o propósito de cometer uma ou mais infrações graves ou enunciadas na
Convenção, com a intenção de obter, direta ou indiretamente, um benefício
econômico ou outro benefício material”. Do conceito surgem os seguintes
requisitos: 1) no mínimo três pessoas; 2) estrutura organizacional (“grupo
estruturado”); 3) estabilidade temporal; 4) propósito de cometer infrações
graves; e 5) finalidade de obtenção de benefício moral ou econômico.

Os tribunais vinham adotando a teoria de que basta a configuração


de quadrilha ou bando (denominação antiga prevista no artigo 288 do CP)
para adotar os dispositivos previstos para organização criminosa, porém com
o advento da Lei 12.850, de 02 de agosto de 2013, e a consequente tipificação
em nosso ordenamento jurídico do crime de organização criminosa, não mais
será necessária essa integração normativa, bastando a subsunção fática ao
tipo penal previsto no § 1º da Lei 12.850/13.

Segundo referida norma legal, considera-se organização criminosa a


associação de 4 (quatro) ou mais pessoas estruturalmente ordenada e
caracterizada pela divisão de tarefas, ainda que informalmente, com o objetivo
de obter, direta ou indiretamente, vantagem de qualquer natureza, mediante
a prática de infrações penais cujas penas máximas sejam superiores a 4
(quatro) anos, ou que sejam de caráter transnacional”

Nesse momento, é interessante lembrar e comentar a Teoria da


Cegueira Voluntária (ou deliberada). Extraída da jurisprudência norte-
americana, a teoria visa responsabilizar aqueles que, de alguma forma,
ignoram situações concretas de ilicitude e agem como se o fato fosse
normal no seu cotidiano, contribuindo, de alguma forma, para a prática do
crime. O agente, nesse caso, apesar do fato estar revestido de suspeitas
de ilicitude, ignora voluntariamente as circunstâncias objetivas e realiza o
ato que contribui para o cometimento do crime. Seria, por exemplo, o
caso do dono de concessionária de veículos que vende, de uma só vez, uma
grande quantidade de automóveis pagos em espécie para um mesmo
comprador. Ora, o fato é suspeito em demasia e foge do cotidiano mercantil.
Não obstante, o tema no Brasil é recente e os tribunais ainda não
tiveram a oportunidade de firmar um entendimento. A discussão caminha
sobre a cinzenta área que divide o dolo eventual da culpa consciente.

Curso de Alinhamento Conceitual do PNLD


38

2.3 Consumação e tentativa


Considerando que a doutrina é consensual ao afirmar que o crime de
lavagem de dinheiro é formal, ou seja, não depende do resultado
naturalístico para a sua consumação, basta a prática de um dos verbos do
tipo (ocultar ou dissimular) para a

responsabilização do autor. Por outro lado, tratando-se, em regra, de crime


plurissubsistente, que necessita de vários atos para se consumar, a
interrupção do processo de execução do delito pode ocorrer a qualquer
momento, configurando a tentativa.
A despeito de algumas opiniões contrárias, a doutrina tem entendido
que o crime de lavagem de dinheiro, nas ações tipicamente relevantes
(ocultar e dissimular), é permanente, a merecer, portanto, prisão em flagrante
delito enquanto durar a permanência (artigo 303 do Código de Processo
Penal).
Além disso, a classificação como crime permanente, repercute em
outros pontos que também destacamos: a competência para julgar, caso
ocorra conflito territorial quando os atos da lavagem se desdobram em
inúmeras jurisdições, é solucionado pelo instituto da prevenção (artigo 71 do
Código de Processo Penal). O prazo prescricional começa a correr no dia
em que cessou a permanência (artigo 111, III, do Código de Processo Penal).

2.4 Crimes antecedentes


As primeiras leis de lavagem de dinheiro, elaboradas a partir da
Convenção de Viena, limitavam o ilícito penal antecedente da lavagem
de dinheiro a bens, direitos e valores provenientes com o tráfico ilícito de
substâncias entorpecentes ou drogas afins, chamadas de lei de primeira
geração.
As leis posteriores enumeraram um rol taxativo de crimes
antecedentes, ou seja, o crime de lavagem de dinheiro somente poderia
ocorrer caso o crime antecedente estivesse presente naquele rol, o qual
não era tão restritivo como as leis de primeira geração que, como
abordamos anteriormente, só admitiam o tráfico de drogas como crime
antecedente, nem tão abrangente de forma a aceitar qualquer crime
antecedente. São as chamadas leis de segunda geração. Podemos citar,
como exemplo, as leis vigentes na Alemanha, na Espanha e em Portugal.
As leis mais modernas, ou as chamadas leis de terceira geração,
já não apresentam um rol de crimes antecedentes, de forma que a lavagem
de dinheiro se caracteriza por qualquer que seja o delito antecedente.
As leis da Bélgica, da França, da Itália, do México, da Suíça e dos

Curso de Alinhamento Conceitual do PNLD


39

Estados Unidos pertencem a esse grupo.


Quando da elaboração da Lei 9.613/98, o legislador brasileiro,
afirmando que não somente o tráfico de entorpecentes, mas também
aqueles crimes que foram apresentados no rol de antecedentes,
caracterizavam formas evoluídas de delinqüência internacional e
manifestavam-se no panorama das graves ofensas ao direito penal
doméstico, determinou que a nossa lei fosse uma lei de segunda geração,
existindo um rol taxativo de crimes antecedentes. Portanto a ideia do
legislador era de que a lavagem de dinheiro deveria ser tipificada somente
quando oriunda de crimes graves ou de características transnacionais. Dessa
forma, o legislador seguiu a Recomendação número 1 do Gafi a qual
determina que a lei anti-

lavagem deveria considerar como crime antecedente, além do narcotráfico,


aqueles considerados graves pelo direito de cada país.
Dentre os crimes considerados à época da elaboração da lei como
sendo infrações perseguidas pelos mais diversos países, o legislador, na
exposição de motivos da lei, elencou: o narcotráfico, os crimes praticados
por organização criminosa, o terrorismo e o contrabando, o tráfico de armas,
munições ou material destinado à sua produção. Já como crimes
considerados graves pelo direito brasileiro, pode-se citar o seqüestro e os
crimes praticados contra a administração pública.
Porém, com a edição da Lei 12.683/2012, qualquer infração penal
poderá ser antecedente à lavagem de dinheiro, tornando a legislação
brasileira de terceira geração.

2.5 Autonomia Material e Autonomia Processual


A lei de lavagem define o caráter autônomo dos crimes previstos:

Art. 2º O processo e julgamento dos crimes previstos


nesta Lei: (...)
II – independem do processo e julgamento das infrações penais
antecedentes, ainda que praticados em outro país, cabendo ao juiz
competente para os crimes previstos nesta Lei a decisão sobre a unidade de
processo e julgamento;

O dispositivo consagra a autonomia formal do crime de lavagem de


dinheiro, bastando que seja demonstrada por prova convincente – e não
meros indícios - a existência do crime antecedente para o ajuizamento da
ação penal.

Curso de Alinhamento Conceitual do PNLD


40

O mesmo artigo, traz no seu §1º, que a “denúncia será instruída com
indícios suficientes da existência da infração penal, sendo puníveis os fatos
previstos nesta Lei, ainda que desconhecido ou isento de pena o autor, ou
extinta a punibilidade da infração penal antecedente”.
Conforme a vontade do legislador de aplicar os dispositivos da lei
mesmo quando “desconhecido ou isento de pena o autor” do crime
antecedente (autonomia material), as evidências do crime prévio devem, ao
menos, demonstrar o ilícito como fato típico e antijurídico, sem necessidade
de demonstrar a culpabilidade. Portanto, pese a doutrina majoritária defender
que crime é a ação ou omissão típica, antijurídica e culpável, o dispositivo
acima transcrito dispensa a comprovação da culpabilidade do crime
antecedente para a aplicação da lavagem. O legislador, nesse caso, por
política criminal, preferiu adotar a teoria da acessoriedade limitada.
Ocorre, por exemplo, se o autor do crime antecedente for inimputável, os
autores e/ou participantes da lavagem responderão pelos crimes previstos
na Lei 9.613/1998.

Se, porém, ficar comprovada alguma causa que retire a tipicidade


ou de justificação do crime antecedente, o crime de lavagem ficará sem
sustentação.

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41

Lição 3
Aspectos processuais da lavagem de dinheiro
Os crimes de lavagem ou ocultação de bens, direitos e valores no
direito brasileiro estão previstos na Lei n. 9.613/1998, que traz um capítulo
(II) de cunho processual penal.
Tais ilícitos, com alguma contenda doutrinária, têm como bem jurídico
tutelado a administração da justiça, à medida que a conduta em apreço
dificulta a reparação esperada na via judicial pela repressão aos delitos
antecedentes. Há, ainda, quem sustente a inexistência de autonomia do
bem jurídico da lavagem, como sendo o mesmo do delito antecedente.
O crime de lavagem de dinheiro possui autonomia processual, ou seja,
não há necessidade de que o crime antecedente tenha sido apurado e
julgado, pois o delito antecedente pode ter sido até mesmo praticado em outro
país.
Dessa maneira, predomina a teoria da acessoriedade limitada, que,
em algumas palavras, implica dizer que não é necessário provar
cabalmente a prática do crime antecedente para a configuração do
delito de lavagem de dinheiro.
O aspecto relativo à acessoriedade encontra-se ainda no §1º do artigo
segundo da lei, ao definir que a denúncia será instruída com indícios
suficientes da existência da infração penal antecedente, sendo puníveis os
fatos previstos na lei, ainda que desconhecido ou isento de pena o autor, ou
extinta a punibilidade da infração penal antecedente.
Na hipótese de ocorrer absolvição no crime antecedente, não
ocorrerá, necessariamente, a absolvição do delito de lavagem de capitais.
Tal circunstância será verificada, efetivamente, se houver a hipótese de a
absolvição pautar-se em uma causa excludente da tipicidade ou ilicitude.
Caso a absolvição funde-se em uma causa excludente da culpabilidade ou
extintiva da punibilidade, nada impede a condenação pelo delito de lavagem
de capitais. Havendo abolito criminis do crime antecedente, faltará um
pressuposto lógico para a configuração do delito de lavagem de capitais e o
fato anteriormente típico, não mais seria.

3.1 Competências
Em relação à competência os delitos de lavagem de dinheiro são
pautados pelo delito antecedente e pelos interesses envolvidos. Em regra, o
delito de lavagem é estadual. Contudo, em consonância com o art. 109 da
Constituição Federal, o art. 2º, III da Lei 9.613/1998 estabelece que são da

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42

competência da Justiça Federal: a) quando praticados contra o sistema


financeiro e a ordem econômico-financeira, ou em detrimento de bens,
serviços ou interesses da União, ou de suas entidades autárquicas ou
empresas públicas; b) quando a infração penal antecedente for de
competência da Justiça Federal.

3.2 Denúncia
Devido à peculiaridade do crime antecedente, nos delitos de
lavagem de dinheiro a denúncia deverá conter além dos requisitos do art.
41 do CPP, a descrição dos indícios suficientes da materialidade do crime
anterior, um substrato probatório circunstanciador de sua ocorrência.
Deve-se ter cuidado com a individualização das condutas,
mormente, nos chamados delitos societários, em que permanece, mas
com viés cada vez mais restritivo, a discussão entre a denúncia genérica e
a denúncia geral.

3.4 Revelia
De acordo com o artigo 2º, parágrafo 2º, da Lei 9.613/1998, no
processo por crime previsto nesta lei, não se aplica o disposto no art. 366 do
Código de Processo Penal. Essa disposição implica a conclusão de que,
diferentemente do processo comum, em não comparecendo o acusado,
mesmo citado edital, ou, ainda, não tendo constituído advogado, não ficará
suspenso o processo, que deverá ter prosseguimento à revelia do acusado,
não se suspendendo, por via de consequência o curso do prazo
prescricional, descabendo falar em produção antecipada das provas, já que
se tratará da marcha normal do processo.
Essa questão ainda não foi submetida a uma considerável reflexão
jurisprudencial, mas os parcos julgados encontrados são no sentido de
conferir aplicabilidade a essa disposição.

Curso de Alinhamento Conceitual do PNLD


43

Lição 4
Produção de prova
A investigação da lavagem de ativos, em um primeiro momento,
segue a rotina da apuração relacionada a qualquer outro delito, sendo
necessária a instauração de um procedimento investigatório adequado, seja
ele inquérito policial, seja procedimento de investigação criminal a cargo do
Ministério Público. A distinção, por certo, ocorre em relação às linhas
investigativas, uma vez que os delitos de lavagem, em regra, são mais
complexos, o que redunda a aferição em concreto e, nem sempre usual, de
se chegar à autoria e à materialidade delitivas.
Nesse aspecto, dada a dificuldade na formação da prova e, sobretudo,
dada a complexidade dos atos de lavagem e que se justifica o artigo 6, 2, “f”,
da Convenção de Palermo (“O conhecimento, a intenção ou a motivação,
enquanto elementos constitutivos de uma infração enunciada no parágrafo 1
do presente Artigo [lavagem do produto de crime], poderão inferir-se de
circunstâncias fatuais objetivas”), em outras palavras, as possíveis
tipologias de lavagem, atreladas a indícios da prática delitiva, podem, a
depender da casuística, render o aprofundamento de investigações e, até
mesmo, servir de lastro para a formalização de denúncia ou de sentença
condenatória.

4.1 Sigilo e quebra de sigilos fiscal, bancário, telefônico e


telemático

Pela complexidade do delito, é preciso reconhecer que, em regra,


acabam sendo utilizadas as chamadas técnicas especiais de investigação,
principalmente o afastamento dos sigilos bancário e fiscal dos possíveis
envolvidos, bem como dos possíveis destinatários, cônscios ou não dessa
prática, bem como de pessoas jurídicas eventualmente empregadas para a
atividade criminosa. O mesmo entendimento aplica-se à realização de
interceptações telefônicas e telemáticas. Há, efetivamente, uma tensão entre
o dever de segurança, da obtenção da verdade real, com a garantia da
intimidade, que não pode ser empregada como escudo para atividades
criminosas. Com efeito, apesar do princípio de garantia da intimidade, é
passível de desconsideração em situações excepcionais.

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44

Requisitos para a quebra de sigilo


A garantia constitucional ao sigilo é limitada e relativa, de ordem que
a tutela à intimidade deve ceder diante do interesse público no sentido de que
os autores de crimes gravíssimos, internacionalmente reprimidos, tal como
o crime em questão, não sejam encobertados por esse importante direito
fundamental. Considerar o contrário seria conceber a referida garantia como
blindagem a atos criminosos, o que não tem amparo na ordem constitucional
edificada em 1988.

A jurisprudência não destoa desse entendimento. Veja-se, como


exemplo, o seguinte julgado: "O caráter relativo do direito à privacidade
encontra justificativa plausível, tendo em vista que, em determinadas
circunstâncias, esse direito deve ceder espaço a interesses de ordem
pública, social e da própria justiça, que reclamam deva o sigilo ser afastado".
(TRF - 3.ª Região, 5.ª Turma, ACR n.º 11039, DJU data: 04/09/2001, p. 454).
Da mesma maneira, havendo indícios de prática criminosa, não
necessitando sequer terem a mesma densidade daqueles autorizadores da
ação penal, torna-se necessária a intervenção judicial a fim de esclarecer
de forma adequada os fatos, potencialmente delituosos.

4.2 Busca, apreensão, sequestro e arresto de bens


Na lei de lavagem de capitais, há, conforme o artigo 4º mencionado
anteriormente, previsão de apreensão, bem como de sequestro, como
medidas patrimoniais. Esse fato não impede a adoção de medidas de
aresto e mesmo a inscrição de hipoteca legal, caso tais medidas sejam,
casuisticamente, consideradas aptas, haja vista a aplicação tanto do poder
geral de cautela quanto em razão da parte final do mencionado artigo 4º da
Lei 9.613/1998. No que diz respeito à apreensão, usualmente precedida de
busca, vale notar que, ontologicamente, não é uma medida assecuratória,
mas probatória, ou seja, ela não se presta, a priori, a resguardar o
patrimônio.
Com efeito, o §1º do artigo 240 do Código de Processo Penal,
reitere-se, aplicável à lavagem de ativos, estatui que se procederá

à busca domiciliar, quando fundadas razões a autorizarem,


para: a) prender criminosos; b) apreender coisas achadas ou
obtidas por meios criminosos; c) apreender instrumentos de
falsificação ou de contrafação e objetos falsificados ou
contrafeitos; d) apreender armas e munições, instrumentos
utilizados na prática de crime ou destinados a fim delituoso;
e) descobrir objetos necessários à prova de infração ou à

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45

defesa do réu; f) apreender cartas, abertas ou não,


destinadas ao acusado ou em seu poder, quando haja
suspeita de que o conhecimento do seu conteúdo possa ser
útil à elucidação do fato; g) apreender pessoas vítimas de
crimes; h) colher qualquer elemento de convicção.

É preciso considerar, até mesmo pelo momento histórico quando da


edição do Código de Processo Penal, a imprecisão e a grande margem
hermenêutica deixada pela expressão “fundadas razões”, como substrato
factual a autorizar a busca e a eventual apreensão, no tocante ao item “h”.
De fato, não passa segurança admitir uma busca por fundadas razões,
visando ao colhimento de qualquer elemento de convicção.
A duração dessa medida é atrelada à duração do processo e à sua
pertinência, haja vista a vedação do artigo 118 do Código de Processo Penal
de se proceder à restituição antes do trânsito em julgado5. O cenário atual da
jurisprudência do Supremo Tribunal Federal confere grande relevo à busca
e apreensão. Isso porque mesmo em caso de sequestro de bens, a
fundamentação expendida não considerou o artigo 132 do Código de
Processo Penal6, mas admitiu o alargamento do prazo de sequestro, por
razões próprias da manutenção da busca e da apreensão.
Uma vez realizada a decretação do sequestro, esta medida
assecuratória terá autuação própria em apartado, havendo a sua inscrição
na matrícula dos eventuais imóveis constritos no Registro de Imóveis, além
das possíveis inscrições no Departamento de Trânsito (DETRAN), em caso
de veículos, registro de aviões e embarcações, além de inscrição do
sequestro de cotas em atos constitutivos das empresas, perante a Junta
Comercial em caso de sequestro de cotas. Além dessas hipóteses, em que
se dá publicidade ampla à medida, notadamente, em caso de bens móveis,
cabe ao juiz nomeação de um depositário, com vistas à conservação da
coisa, havendo no caso da lei de lavagem de capitais, como adiante tratado,
a figura do administrador, aplicável em determinadas hipóteses.

Antes da vigência da Lei 12.683/12, o § 1º do art. 4º da Lei 9.613/98


previa que as medidas assecuratórioas ali previstas, leia-se, sequestro,
seriam levantadas se a ação penal não fosse iniciada no prazo de cento e
vinte dias, contados da data em que for concluída a diligência. A Lei 12.683/12
revogou tacitamente o § 1º do art. 4º, não impondo um prazo específico.
Dessa forma, a norma incidente agora é a regra geral prevista no art. 131,
inciso I, do Código de Processo Penal, no qual se estabelece que o sequestro
será levantado se a ação penal não for intentada no prazo de 70 (sessenta)
dias, contado da data em que ficar concluída a diligência. Tal prazo, sem
embargo dos possíveis embaraços depreendidos do exame da

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46

fundamentação da Questão de Ordem no Inquérito 2248 do STF, já vinha


tendo reconhecimento naquela Corte, de que somente após encerradas todas
as providências probatórias sobre bem apreendido é que se iniciaria o prazo.

Ademais, nossa jurisprudência tem relativizado esse prazo em razão


da complexidade das investigações de casos de lavagem de dinheiro.

5
Sem contar, evidentemente, os bens insuscetíveis de restituição, conforme o art. 119 do
mesmo Código.
6
“Proceder-se-á ao seqüestro dos bens móveis se, verificadas as condições previstas no
art. 126, não for cabível a medida regulada no Capítulo XI do Título Vll deste Livro”, ou
seja, a busca e apreensão.

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47

Nada mais correto, haja vista que a fixação do prazo é feita para a
contenção de possíveis abusos estatais, consistente em inércia deliberada
sobre uma investigação com o bem constrito. Havendo diligências sobre os
bens em questão, ainda que com considerável prazo, o que é comum,
principalmente em casos de grande complexidade, como, em regra, são os de
lavagem de ativos, não há como se aplicar uma efetiva sanção ao autor da
ação penal por suposta desídia.

A título de exemplo, basta que se vislumbre o sequestro de um


automóvel registrado em nome de terceiro, em posse de um investigado sem
aparente rendimento lícito a justificá-lo. A base indiciária para o sequestro,
posse sem lastro financeiro, é relevante, mas resta confirmar se essa posse
não era circunstancial, quem é o “terceiro” em nome de quem o carro estava
registrado, se ele possui renda compatível para tal aquisição, se a entrega do
carro ao investigado possui algum fundamento factual legítimo. São medidas
que levam tempo, sobretudo, a da capacidade financeira da pessoa em nome
de quem o veículo sequestrado está registrado.

É preciso destacar também que, além do marco inicial de contagem


ter sob outro vértice, que esse prazo também não é absoluto. Com efeito, e
com grande acerto, os tribunais conferem o necessário viés teleológico ao
prazo, a fim de que ele seja um parâmetro a ser observado, mas não de forma
fixa, sendo a duração desse prazo também sujeita a um teste proporcionalidade
em concreto, ou em outras palavras, ao cotejo se a restrição ao direito de
propriedade está compatível com o dever de proteção eficiente por parte do
Estado e se o desempenho desse dever mostra-se compatível com a proibição
à vedação do excesso.

4.3 Administração de Bens e Afetação provisória


O artigo 5º da Lei 9.613/1998 dispõe que “quando as circunstâncias o
aconselharem, o juiz, ouvido o Ministério Público, nomeará pessoa física ou
jurídica qualificada para a administração dos bens, direitos ou valores
sujeitos a medidas assecuratórias, mediante termo de compromisso”. De início,
cabe notar que a alteração trazida pela Lei 12.683/12 incluiu, de forma
expressa, a possibilidade de pessoas jurídicas assumirem esse encargo,
algo já admitido antes dessa alteração, sem embargo de, perante a autoridade
judicial, ficar consignado, especificamente, quem será a pessoa física
responsável pelos trabalhos exercidos pela pessoa jurídica.
De fato, há bens que reclamam uma atuação constante, não
podendo a constrição patrimonial dar cabo do fim útil desse bem. O sequestro
de uma empresa, por exemplo, faz com que um terceiro tenha de assumir a
atividade, as obrigações trabalhistas, o relacionamento com fornecedores, o

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48

recolhimento de encargos. Não se trata de tarefa simples, nessa linha


ilustrativa, gerir fazendas, restaurantes, postos de combustíveis, cemitérios,
frotas de veículos, ou mesmo lojas comerciais.

Até mesmo em razão dessas dificuldades, são relevantes as avaliações


tanto do Ministério Público quanto da autoridade judicial quanto ao requisito
da qualificação para assumir essa administração, não sendo raros os pedidos
de administração por familiares de investigados para continuar os negócios, o
que, em regra, soa ser duplamente inadequado por não afastar o possível
infrator do bem, permitindo a ele, não apenas a fruição do produto do crime,
como a manutenção de eventual modus operandi de lavagem,
especificamente, a mistura de ativos lícitos com ilícitos, seja por não se
acurar, em regra, para a necessidade de aptidão comprovada do
pretendente para a condução desses negócios.
Também se deve ter o cuidado de não permitir que possíveis
concorrentes assumam a administração dos negócios, sob pena de viabilizar
ganhos sinérgicos inexistentes, ou, o que seria pior, a administração
predatória, com vistas a favorecer a atuação da empresa previamente
constituída pelo administrador.
Igualmente, cumpre notar que ao se tratar de administração de bens,
está a se tratar de ativos que, de fato, exijam uma condução de seus rumos,
de cumprimento de obrigações acessórias. Não raro são feitos pedidos de
administração até de veículos de passeio, o que é incorreto e que se mostra
um meio de duplicar um pedido de restituição de coisa apreendida, finalidade
real do expediente intentado nas condições ora descritas.
A administração afigura-se medida adequada, especialmente, em
hipóteses de sequestro ou de apreensão de bens culturais. Com efeito, trata-
se de patrimônio que além de não raramente exigir cuidados especiais de
conservação, conseguem atingir seu fim útil sendo devidamente exposta ao
público. Além da administração dos bens, é possível haver o depósito, em
que o juiz outorga esse múnus a alguém de sua confiança, bem como o uso
destes, mediante a afetação provisória.
A afetação provisória, além de incrementar o aparato policial, por
exemplo, para o exercício das suas funções, assegura a utilização do bem,
o que, faz, a depender de suas características, com que a sua conservação
seja melhor do que se ele estivesse guardado.
Por certo, nem todos os bens são passíveis de utilização ou de
administração, ou de administração dificílima, por vezes, sem viabilizar a
designação de algum responsável pelo juiz oficiante. Esse cenário só não
é pior do que a utilização indevida pelo infrator, ou do que a multiplicação
ou a mistura dos ativos ilícitos. Em parte dessas hipóteses, sobretudo, quando

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o estado inercial gerar a depreciação do bem, ganha relevo o instituto da


alienação antecipada, que passa a ser examinado.

4.4 Alienação Antecipada


O Código de Processo Penal, em seu artigo 120, §5o, ao tratar da
apreensão diz que “tratando-se de coisas facilmente deterioráveis, serão
avaliadas e levadas a leilão público, depositando-se o dinheiro apurado, ou
entregues ao terceiro que as detinha, se este for pessoa idônea e assinar
termo de responsabilidade”.
Em sentido parecido, o Código de Processo Civil, ao cuidar do penhor
e do depósito, disciplina que: Art. 670. O juiz autorizará a alienação antecipada
dos bens penhorados quando: I - sujeitos a deterioração ou depreciação; II -
houver manifesta vantagem. Parágrafo único. Quando uma das partes
requerer a alienação antecipada dos bens penhorados, o juiz ouvirá sempre
a outra antes de decidir. Art.
1.113. Nos casos expressos em lei e sempre que os bens depositados
judicialmente forem de fácil deterioração, estiverem avariados ou exigirem
grandes despesas para a sua guarda, o juiz, de ofício ou a requerimento do
depositário ou de qualquer das partes, mandará aliená-los em leilão.

Na mesma linha, o Código Civil traz uma série disposições destinadas a


evitar que bens, em variadas situações factuais, sofram perda de suas
características ou mesmo de seu valor. Essas disposições demonstram, em
uma perspectiva do ordenamento jurídico brasileiro, a preocupação em
assegurar a preservação patrimonial, merecendo ter-se em mente a Meta 19
da Estratégia Nacional de Combate à Lavagem de Dinheiro (ENCLA, 2005),
formulada por diversos órgãos públicos reunidos, que também recomenda o
"melhor aproveitamento dos bens apreendidos, sequestrados, arrestados
dentro das possibilidades legais já existentes, inclusive a alienação
antecipada, se necessário".
Parece claro: se de um lado, há o legítimo e, por que não, necessário
desapossamento do bem, por parte do Estado, por outro, não se pode
ignorar a possibilidade de que tal patrimônio seja preservado, seja por
interesse do investigado ou do acusado, na hipótese de reavê-lo, seja por
interesse do Estado que um maior lastro patrimonial para se ressarcir da ação
ilícita, ou mesmo, para se assegurar a indenização da vítima.
Entende-se, assim, que não apenas os bens sujeitos à deterioração
imediata devem ser alienados, mas todos aqueles que correm o risco evidente
de perderem sua relevância patrimonial. No caso de produtos eletrônicos,
notadamente, os de informática, tal constatação é evidente: um computador
de primeira linha, nos dias atuais, terá pouca valia em três anos, ou até

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50

mesmos; veículos automotores, além da imensa desvalorização anual, em


média, na casa dos 20%, diversamente do que pode sugerir a sua condição de
bem durável, tende a deteriorar caso não utilizado.
A situação de imóveis também não é diferente, diferentemente do que
a sua durabilidade pode sugerir: sem a sua utilização, além dos prejuízos à
conservação do bem, ele se torna suscetível a invasões (em uma fazenda em
local ermo, não é difícil visualizar essa possibilidade concreta), bem como se
torna fonte de encargos como condomínio, ou de prejuízo ao fisco. Sensível
a essa situação, em diversas oportunidades, o Judiciário admitiu a
realização de alienações antecipadas, que nada mais é que um expediente
cautelar, destinado a conferir o melhor aproveitamento de um dado bem
apreendido, visando a otimização de seu valor patrimonial e fundado no
risco de sua manutenção gerar seu perecimento ou sua desvalorização.

A Lei nº 12683/2012, ao modificar a Lei nº 9613/98, passou a prever


expressamente, em seu artigo 4º, parágrafo 1º, a possibilidade de alienação
antecipada de bens. Diz a lei: ‘§ 1o Proceder-se-á à alienação antecipada
para preservação do valor dos bens sempre que estiverem sujeitos a
qualquer grau de deterioração ou depreciação, ou quando houver dificuldade
para sua manutenção’. Essa previsão é de suma importância, pois evita
que bens apreendidos fiquem
armazenados em depósitos, depreciando-se a cada dia. Além do mais, o
dispositivo oferece segurança jurídica para que o Magistrado decida, quando
for o caso, a favor da alienação antecipada dos bens.

4.5 Penas privativas de liberdade e privativas de direitos –


interdição do exercício de cargo ou função
As penas para os crimes de lavagem de ativos, de acordo com a Lei
9.613/1998 têm seus montantes mínimos e máximos, nas penas privativas de
liberdade, compreendidas entre 03 e 10 anos, com a dosimetria vinculada as
circunstâncias judiciais, do artigo 59 do Código Penal. Não há qualquer
regramento diferenciado para a fixação da pena, em sua segunda fase,
passando-se, por conseguinte, à regra geral, consistente no exame de
eventuais circunstâncias agravantes e/ou atenuantes, previstas nos artigos
61 a 66, do Código Penal. Em seguida, cumpre aferir a presença das causas
de aumento e/ou de diminuição previstas nos parágrafos 3º e 4º do artigo
1º da Lei n. 9613/1998. Nesse passo, cumpre rememorar que as causas de
aumentos previstas no parágrafo 4º do artigo 1º são a prática do crime de
forma reiterada ou por meio de organização criminosa.

A pena de multa também é prevista pela prática de lavagem de dinheiro


e deve ter uma fixação proporcional à cominação da pena corporal,

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51

mostrando-se muito relevante, sobretudo, por se tratar de delito com fortes


nuanças patrimoniais que a fixação do dia-multa leve em conta a capacidade
econômica do agente, a fim não se configurar uma medida impagável e, por
outro lado, para não ser relegada à inocuidade.

Além da pena privativa de liberdade balizada entre 3 a 10 anos e da


pena de multa, segundo o art. 7º da Lei 9.613/98, com redação dada pela Lei
12.683/2012, são efeitos da condenação por lavagem de dinheiro, além
daqueles efeitos previstos no Código Penal, as seguintes consequências:

I - a perda, em favor da União - e dos Estados, nos casos de


competência da Justiça Estadual -, de todos os bens, direitos e
valores relacionados, direta ou indiretamente, à prática dos crimes
previstos nesta Lei, inclusive aqueles utilizados para prestar a fiança,
ressalvado o direito do lesado ou de terceiro de boa-fé;

II - a interdição do exercício de cargo ou função pública de qualquer


natureza e de diretor, de membro de conselho de administração ou
de gerência das pessoas jurídicas referidas no art. 9º, pelo dobro do
tempo da pena privativa de liberdade aplicada.

4.6 Perdimento de bens


Além de cuidar do tocante ao perdimento de bens, reputou-se oportuno
tratar das impugnações das medidas cautelares, haja vista que eventual
negativa dessas impugnações pode redundar no perdimento, propriamente
dito.
Nessa linha, inicia-se, pontuando que o procedimento de restituição de
coisas apreendidas visa a resguardar interesse de terceiro de boa-fé ou
mesmo do investigado quando possível a demonstração de desvinculação
total do bem com a atividade ilícita vislumbrada pela autoridade judicial, sendo
de se enfatizar a problematização em relação ao ônus da prova, que circunda
tais medidas em investigação ou em processo referente a lavagem de ativos.
Tal procedimento, quando cabível, salvo em caso de devolução
sumária, ou seja, quando inexistir dúvida quanto ao direito do postulante,
hipótese rara, será autuado em apartado, assinando-se ao requerente o prazo
de 05 (cinco) dias para a prova, formando-se um contraditório sumário sobre
a propriedade, o que pressupõe a oitiva do Ministério Público, que deverá
verificar junto à autoridade policial se o bem em questão foi objeto de perícia,
quando necessária, bem como examinar se, independentemente dessa
diligência, o bem interessa ao processo ou não, haja vista que, conforme o já
citado artigo 118 do Código de Processo Penal, “antes de transitar em

Curso de Alinhamento Conceitual do PNLD


52

julgado a sentença final, as coisas apreendidas não poderão ser restituídas


enquanto interessarem ao processo”.
Não dirimida a questão nessa sede de cognição abreviada, fazendo-
se necessário maior aprofundamento sobre a propriedade do bem, caberá
ao magistrado a remessa do tema ao juízo cível, ordenando o depósito das
coisas em mãos de depositário ou do próprio terceiro que as detinha, se for
pessoa idônea.
Em face da ordem de sequestro, cabe a oposição de embargos, tanto
pelo acusado quanto por terceiros. Sem embargo da necessidade de
demonstração da licitude da aquisição do bem, própria da lei de lavagem
de ativos, o Código de Processo Penal contempla essa medida, com
previsão de fundamentação a ser adotada pelas partes, na proporção em que
traz a possibilidade de o acusado opor a medida, sob o fundamento de não
terem os bens sido adquiridos com os proventos da infração e pelo terceiro,
a quem houverem os bens sido transferidos a título oneroso, sob o
fundamento de tê-los adquirido de boa-fé. Pelo código, não poderá ser
pronunciada decisão nos embargos antes de passar em julgado a sentença
condenatória. Entende-se que tal apreciação deve ser feita pelo juízo em que
tramita a cognição do processo principal, sendo que, se o terceiro opuser
embargos somente em sede recursal, caberá ao tribunal examinar o tema.
Admitir o contrário redundaria um conflito lógico na tramitação do feito,
pois a cognição plena do juízo de 1º grau, que entendeu aquele bem como
produto de crime, não pode ser cindida. Tendo havido a decretação do
perdimento do bem em questão ocorreu pela convicção do juiz de que aquele
bem era produto de crime, como efeito da condenação, não se entende
cabível o manejo dos embargos nessa sede, cuja jurisdição exauriu-se. Em
outras palavras, o perdimento é matéria devolvida, dada a interposição de
recurso ao tribunal, cabendo a ele examinar a questão, até mesmo por
provocação de terceiros.
Em suma: se o perdimento está sob a jurisdição do Tribunal, não cabe
mais ao juízo monocrático reexaminar a matéria; como se reavaliar o domínio
de um bem, após ter, em cognição exauriente, compreendido este como
produto de crime e determinado o seu perdimento?
Sem embargo da análise das questões concretas para a aferição da
boa-fé, no caso concreto, como a precedência da ordem de sequestro, o
conhecimento das atividades desenvolvidas pelo investigado e a possível
natureza ilícita, analisam-se algumas das alegações mais frequentes em sede
de embargos.
A meação é um instituto reiteradamente utilizado, por meio do qual o
cônjuge ou o convivente do investigado postula a segregação do patrimônio
sequestrado daquele seu de direito e obtido na constância do vínculo entre a

Curso de Alinhamento Conceitual do PNLD


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parte postulante e a parte investigada. Em tese, é legítimo tal pleito, até porque
admitir o contrário seria defender a inaceitável transcendência dos efeitos
sancionatórios da persecução penal a uma parte alheia ao fato que lhe rendeu
ensejo. Essa constatação, todavia, não se estende aos bens adquiridos por
meio de atividade criminosa, haja vista que a meação não os torna menos
produto de crime. O que importará nessa ocasião, com inevitável exame das
circunstâncias concretas, é a aptidão da parte requerente (cônjuge) em ter
renda para ter aquele bem, é a sua ciência ou não da atividade ilícita e,
sobretudo, o aproveitamento do patrimônio eventualmente amealhado por
meio de atos criminosos.
Não raramente, também é invocada a impenhorabilidade do bem de
família, ou, ainda, a sua insuscetibilidade a sofrer constrições com base na
Lei 8.009/1990. Essa tese, na verdade, não encontra abrigo nem mesmo na
legislação em apreço. Com efeito, o artigo 3º, inciso VI do aludido diploma
pontua que se exclui a oponibilidade dessa garantia familiar na hipótese de
o bem “[...] ter sido adquirido com produto de crime ou para execução de
sentença penal condenatória a ressarcimento, indenização ou perdimento de
bens”.
Outra demanda frequente que se insurge contra medidas de
sequestro é veiculada por meio de credores fiduciários, haja vista que,
sobretudo em se tratando de automóveis, não raramente os bens
sequestrados estão sendo adquiridos por meio de financiamento, o que não
é de se estranhar, a despeito das vultosas somas das movimentações ilícitas,
em razão da possibilidade que esses bens têm de ser apreendidos (logo, o
prejuízo é minimizado) e como forma de não ostentar, ou de minorar a
ostentação da formação patrimonial oriunda de atividade criminosa.
Alheia a isso, em regra, está a instituição financeira, que, com a sua
propriedade resolúvel e com a garantia no bem em questão, visa à sua
recuperação para posterior alienação e, assim, recuperar o prejuízo da
inadimplência do investigado, que, empiricamente faz-se tal afirmação,
praticamente em todos os casos, não continua a pagar o financiamento do
bem sequestrado ou mesmo apreendido.
O direito do credor fiduciário, em regra é claro, sendo que o motivo de
maior controvérsia recai na necessidade de se prestar caução para a
retirada do bem, equivalente ao valor pago pelo investigado. Tal medida vem
encontrando forte respaldo jurisprudencial, sobretudo, por pretender evitar o
enriquecimento sem causa da instituição financeira e é útil também para se
evitar a responsabilidade civil do Estado na hipótese de o sequestro ser
levantado, sobretudo, em caso de absolvição. Nessa hipótese, os valores
pagos ao denunciado, agora, absolvido seriam a ele restituídos, com a devida
correção.
Tendo em vista o atual panorama jurisprudencial é possível constatar

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uma situação curiosa: a instituição financeira postula o levantamento do bem


sequestrado e apreendido e somente mantém seu interesse, na hipótese,
remota, de ser deferida a pretensão sem a prestação de caução, ou na
hipótese de inadimplemento substancial por parte do acusado, cenário em
que é vantajoso o caucionamento diminuto para a recuperação do prejuízo.

Tendo ocorrido pagamento de elevado percentual do bem constrito e


sendo obrigada a realização de caução, não raramente as instituições
desistem indiretamente da medida, deixando de agir no feito e acarretando a
extinção deste sem julgamento de mérito. A consequência prática desse
expediente é a manutenção de mais um bem sob a custódia policial ou em
depósito da justiça, o que vem ocorrendo, não apenas pelo motivo ora
examinado, em proporção considerável.
Outra alegação bastante frequente é a de que os bens sequestrados
pertencem a pessoas jurídicas e que a manutenção da medida constritiva
configuraria violação ao princípio da pessoalidade da responsabilidade penal.
Por outro lado, há casos em que o órgão ministerial pugna pela
desconsideração da personalidade jurídica para atingir o patrimônio da
empresa em medida constritiva em face de seus sócios e/ou de seus gestores.
Por certo, existem situações que demandam análise casuística, mas o
mote das constrições cautelares deve ser no sentido de que a pessoa jurídica
não deve ser escudo para a promoção de atividades ilícitas e tampouco de
blindagem patrimonial. Por outro lado, sendo ela a beneficiária de eventual
atividade ilícita, também não há como alegar desvinculação com a prática
criminosa de seu responsável. Noutro giro, se a pessoa jurídica, por meio de
seus sócios, cometeu o delito, não é necessário falar em desconsideração da
personalidade jurídica, mas de responsabilização patrimonial diretamente de
quem (ou por meio de quem) se praticou o delito.

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55

Lição 5
A Lei nº 12.683/2012 e o fortalecimento do
combate à lavagem de dinheiro
A Lei n 12.683/2012 modificou significativamente a lei brasileira de
combate à lavagem de dinheiro.

5.1. Uma lei de terceira geração

O Projeto de Lei nº 3443/2008, que foi amplamente discutido no âmbito da


Enccla – Estratégia Nacional de Combate à Corrupção e à Lavagem
de Dinheiro, já
mencionada anteriormente, culminou na Lei n 12.683/2012, que atualizou a
Lei nº 9.613/1998.
Alinhando-se às legislações mais modernas, e aos padrões recomendados
pelo GAFI, a partir da referida lei, o Brasil excluiu o rol de crimes antecedentes
à lavagem de dinheiro. Segundo o novo artigo 1 º da Lei n 9613/98, alterada
pela Lei nº 12683/2012, a lavagem de dinheiro pode decorrer de qualquer
infração penal, aí incluídos não somente quaisquer crimes, mas também as
contravenções penais.

Em função disso, o Brasil hoje possui uma legislação chamada de terceira


geração para o combate à lavagem de dinheiro. Isso por conta da exclusão
do rol de crimes antecedentes a esse tipo penal.

5.2. A alienação antecipada

Nos termos do parágrafo 1º, do artigo 4o do novo diploma legal, o Juiz


poderá determinar a alienação antecipada para preservação do valor dos bens
sempre que estiverem sujeitos a qualquer grau de deterioração ou
depreciação, ou quando houver dificuldade para sua manutenção.

Essa é uma medida de extrema utilidade prática. A alienação antecipada é a


medida de precaução mais adequada a ser realizada, pois é a que representa
menor risco de depreciação do valor do bem, possibilitando uma melhor
preservação do seu valor real até o final da prestação jurisdicional. Segundo o
Conselho Nacional de Justiça:

Curso de Alinhamento Conceitual do PNLD


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“Em julho de 2011, o Conselho Nacional de Justiça


aferiu, por meio do SNBA, que, desde a implantação do
sistema, houve o cadastramento de R$
2.337.581.497,51 em bens. Deste valor, 0,23% foi
objeto de alienação antecipada, representando R$
5.330.351,89, e 1,85%, correspondendo a R$
43.334.075,60, houve perdimento em favor da União
e dos Estados. Além disso, em 4,43% desses valores,
importando R$ 103.452.804,44, ocorreu a restituição
dos bens, e em 0,15%, ou seja, R$ 3.404.456,34,
restou a destruição. A conclusão que se extrai com
esses dados é que o alto percentual de 93,35% dos
bens apreendidos ainda permanece aguardando
destinação, com situação ‘a definir’, representando o
expressivo valor de R$ 2.182.059.809,24 sob a
responsabilidade do Poder Judiciário.” (Manual de
Bens Apreendidos, CNJ, 2011, pág. 4)

Esses dados evidenciam que a alienação antecipada constitui ferramenta de


grande importância para evitar que os bens apreendidos permaneçam às
vezes por anos em depósitos, perdendo o valor e enfraquecendo a
relevância da apreensão de bens ilícitos para o enfraquecimento de
organizações criminosas.

5.3 Utilização dos Bens após o perdimento

De acordo com o parágrafo 1o, do artigo 7º da Lei, a União e os Estados, no


âmbito de suas competências, regulamentarão a forma de destinação dos
bens, direitos e valores cuja perda houver sido declarada, assegurada,
quanto aos processos de competência da Justiça Federal, a sua utilização
pelos órgãos federais encarregados da prevenção, do combate, da ação penal
e do julgamento dos crimes previstos nesta Lei, e, quanto aos processos de
competência da Justiça Estadual, a preferência dos órgãos locais com idêntica
função.
Tal determinação vem ao encontro das diretrizes internacionais no sentido de
que os bens retirados dos criminosos devem ser utilizados pelo Estado para
aparelhar as instituições responsáveis pelo combate ao crime organizado. A
melhor forma de estimular e fortalecer as instituições de Estado é dando-lhes
efetivas condições de trabalho.

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5.4 Aumento do rol de “Pessoas Obrigadas”

A lei 9.613/98 procurou coibir a lavagem de dinheiro no Brasil. Para isso,


além de criar os tipos penais, a lei trouxe um regime administrativo de combate
à lavagem de dinheiro, de forma compartilhada entre o Estado e os setores
da economia mais freqüentemente utilizados na prática deste crime.

Na exposição de motivos da lei 9.613/98, é dito que entre a prática da


operação financeira e o usufruto dos recursos dela originados, há
necessidade de que seja realizada uma série de operações financeiras e
comerciais com o intuito de dar a esses recursos uma aparência de licitude.

Assim, é inevitável o trânsito dos recursos pelos setores regulares da


atividade econômica para que possam ser usufruídos pelos criminosos, de
forma que esses segmentos, pela proximidade que mantêm com os clientes,
bem como pela capacitação específica necessária ao desempenho de seus
negócios, dispõem de maiores condições para diferenciar as operações lícitas
das operações ilícitas.

A obrigatoriedade de tais setores participarem do combate à lavagem de


dinheiro traz uma eficiência muito maior ao sistema. Interessante lembrar que
a participação de setores privados no combate à lavagem de dinheiro também
se justifica, pois eles mesmos têm prejuízos devido à pratica do ilícito penal.
Dentre as obrigações inerentes ao setor privado, destaque-se a necessidade
de as pessoas físicas e jurídicas sujeitas à obrigação da lei identificarem
os clientes e manterem cadastros atualizados. Ademais, mencione-se a
obrigatoriedade de comunicação às autoridades responsáveis de todas as
operações em ativos que ultrapassem o limite fixado.

As chamadas “pessoas obrigadas” estão previstas no artigo 9 O da Lei 9.613/98.


Com a aprovação das alterações na lei, passam também a ter as
obrigações mencionadas:

 as bolsas de valores, as bolsas de mercadorias ou futuros e os


sistemas de negociação do mercado de balcão organizado;

 as pessoas físicas ou jurídicas que exerçam atividades de promoção


imobiliária ou compra e venda de imóveis;

 as pessoas físicas ou jurídicas que comercializem bens de luxo ou


de alto valor, intermedeiem a sua comercialização ou exerçam
atividades que envolvam grande volume de recursos em espécie;

 as juntas comerciais e os registros públicos;

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 as pessoas físicas ou jurídicas que prestem, mesmo que eventualmente,


serviços de assessoria, consultoria, contadoria, auditoria,
aconselhamento ou assistência, de qualquer natureza, em operações:

a) de compra e venda de imóveis, estabelecimentos


comerciais ou industriais ou participações societárias de
qualquer natureza;

b) de gestão de fundos, valores mobiliários ou outros ativos;

c) de abertura ou gestão de contas bancárias, de


poupança, investimento ou de valores mobiliários;

d) de criação, exploração ou gestão de sociedades de


qualquer natureza, fundações, fundos fiduciários ou estruturas
análogas;

e) financeiras, societárias ou imobiliárias; e

f) de alienação ou aquisição de direitos sobre


contratos relacionados a atividades desportivas ou
artísticas profissionais;

 pessoas físicas ou jurídicas que atuem na promoção, intermediação,


comercialização, agenciamento ou negociação de direitos de
transferência de atletas, artistas ou feiras, exposições ou eventos
similares;

 as empresas de transporte e guarda de valores;

 as pessoas físicas ou jurídicas que comercializem bens de alto


valor de origem rural ou animal ou intermedeiem a sua
comercialização; e

 as dependências no exterior das entidades mencionadas neste


artigo, por meio de sua matriz no Brasil, relativamente a residentes no
País.”

5.5 Aumento da Multa Pecuniária para as “Pessoas Obrigadas”

Conforme acima exposto, as “pessoas obrigadas”, listadas no artigo 9 o, devem


manter cadastro atualizado dos clientes, comunicar a realização ou
proposta de realização de operações suspeitas e atender as requisições
formuladas pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF),
dentre outras obrigações.

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Aquelas pessoas que deixarem de cumprir com os seus deveres, são


passíveis de algumas sanções, quais sejam: advertência, multa pecuniária,
inabilitação temporária e cassação da autorização para operação ou
funcionamento.

A antiga lei estabelecia um limite de R$ 200.000,00 (duzentos mil reais) para a


multa pecuniária. Já o novo texto aumenta esse valor para R$ 20.000.000,00
(vinte milhões de reais), trazendo a possibilidade de punição equivalente
ao porte da pessoa física ou jurídica que deixar de cumprir suas obrigações.
O valor anterior, dependendo da situação, era muito baixo e, para
determinadas empresas, valia a pena o risco.

5.6 Acesso da Autoridade Policial e do Ministério Público a dados


cadastrais

O novo texto legal cria o artigo 17-B a seguir transcrito:

Art. 17-B. A autoridade policial e o Ministério Público terão


acesso, exclusivamente, aos dados cadastrais do investigado
que informam qualificação pessoal, filiação e endereço,
independentemente de autorização judicial, mantidos pela
Justiça Eleitoral, pelas empresas telefônicas, pelas
instituições financeiras, pelos provedores de internet e pelas
administradoras de cartão de crédito.

A criação deste artigo teve por objetivo esclarecer a determinadas empresas


que os dados cadastrais dos investigados devem ser disponibilizados para
a autoridade policial ou para o Ministério Público, independentemente de
autorização judicial. O que vem ocorrendo nos dias atuais é que empresas de
um mesmo ramo de atuação se comportam de forma diferente quando
recebem solicitações de tais dados. Algumas os disponibilizam e outras
alegam a violação ao direito da intimidade para negá-los.

Tal fato gera uma situação inusitada. Isso porque diversas empresas de
concessão de crédito ou mesmo pessoas jurídicas que assinam determinados
serviços a elas disponibilizados têm acesso aos dados cadastrais de clientes
ou potenciais clientes; de outro lado, as autoridades públicas não dispunham
desse acesso direto, necessitando de autorização judicial para tanto.

Ora, por que haveria violação ao direito da intimidade ao disponibilizar os


dados cadastrais para a autoridade policial ou para o Ministério Público e não
haveria essa violação aos disponibilizar os mesmos dados para empresas
comerciais?

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Nesse sentido, o novo texto esclareceu a possibilidade de acesso direto por


parte da autoridade policial e membro do Ministério Público, sem autorização
judicial, a dados cadastrais de suspeitos.

CONSIDERAÇÕES

Nesta Unidade 1 do curso, vimos, em linhas gerais, que o termo


“lavagem de dinheiro” pode ser definido como o processo pelo qual se busca
dar aparência lícita a recursos oriundos de práticas criminosas. Durante o
percurso, podemos perceber que a lavagem de dinheiro foi definida de
diversas formas devido à complexidade e pluralidade de visões sobre o tema.
Nesta parte do estudo, discutimos, igualmente, alguns conceitos
relativos ao financiamento do terrorismo, bem como sua ligação com a lavagem
de dinheiro, e os mecanismos nacionais e internacionais de combate e
prevenção a esses crimes. Além disso, vimos os aspectos materiais e
processuais da lavagem de dinheiro e a rotina de apuração e investigação da
lavagem de ativos.
Agora que finalizamos a Unidade 1, passaremos à Unidade 2 do
curso de Alinhamento Conceitual do Programa Nacional de Capacitação e
Treinamento no combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro (PNLD),
em que abordaremos o tema “corrupção”.

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