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01/06/2019 Kant e o princípio da acção moral

Crítica
31 de Agosto de 2015 ⋅ Ética

Kant e o princípio da acção moral


Júlio Sameiro

A teoria ética de Kant oferece-nos um princípio da moral que deve poder ser aplicado a todas as questões morais.
Kant enuncia-o de diferentes maneiras com o objectivo de esclarecer as suas implicações. Partiremos de um caso
simples, de senso comum, para esclarecer essas diferentes formulações:

O Silva reparou que uma pessoa que saía da sua pequena loja deixou cair uma nota de 50 €. Apanhou-a e... que fez?

Avaliemos três decisões possíveis de Silva

1. Ficou com os 50 €.
2. Devolveu os 50 € para ficar bem visto e ganhar reputação de honesto.
3. Devolveu os 50 € pelo simples facto de pertencerem ao cliente.

O princípio do desinteresse
A acção 1 é claramente imoral. O Silva ficou com os 50 € devido ao seu interesse. Quanto à acção 2, o senso comum
diria que é hipócrita ou interesseira, pois o Silva devolveu os 50 € apenas porque isso é do seu interesse. De facto, o
princípio da decisão em 2 foi o mesmo que em 1 — o interesse. Pôr o seu interesse acima de tudo, como princípio das
acções, é imoral. Assim, só a acção 3 é moralmente correcta, já que o Silva ultrapassou os seus interesses e agiu de
forma desinteressada.

O nosso juízo sobre cada uma das possíveis decisões do Silva foi guiado pelo princípio do desinteresse:

“Age desinteressadamente”.

A teoria de Kant não impede que a pessoa satisfaça os seus interesses — afinal também era do interesse do Silva
decidir o que fazer com os 50 € e, apesar de não ter sido esse o motivo da acção 3, também ganhou a consideração do
cliente. O acto deve ser desinteressado mas se, além disso, satisfizer interesses, tanto melhor para o agente; se
contrariar interesses, paciência.

O princípio da imparcialidade
Podemos enunciar o princípio do desinteresse de outra maneira:

“Decide com imparcialidade”.

Aprovamos moralmente as decisões e as acções quando o sujeito, como no caso 3, decide como um juiz imparcial.
Nos casos 1 e 2 Silva permitiu que os seus interesses lhe roubassem a imparcialidade.

É provável que Kant, neste aspecto, se afaste um pouco do senso comum. O senso comum pode pensar que a
“imparcialidade” será considerar igualmente “cada um dos interesses envolvidos” ou, então, ajuizar sobre cada caso
atendendo ao “interesse de todos”. Mas os “interesses das partes envolvidas” podem ser igualmente imorais. Quanto
ao “interesse de todos” pode nem existir (afinal é típico os interesses estarem em conflito...) e, se existir, será, como
todos os interesses, contingente, caprichoso como a humanidade, e a moral não pode estar sujeita a caprichos.
“Imparcialidade”, para Kant, significa decidir independentemente de quaisquer interesses. De facto, Kant pensava, em
parte de acordo com o senso comum, que o progresso moral também ajuda à felicidade e aos interesses mais dignos
das pessoas. Mas ele sabe que a harmonia entre a moral e a felicidade não é certa e que se a acção moral gerar
felicidade será por acréscimo ou efeito secundário.

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O princípio do dever
Se a pessoa não deve agir por interesse, então deve agir por obrigação, por dever. A acção 1 foi em tudo contrária ao
dever. A acção 2 está em conformidade com o dever, porque o Silva fez o que deveria ter feito, mas foi feita por
interesse e não por dever. Só a acção 3, a única a ter toda a nossa aprovação moral, foi feita por dever. Assim, o
princípio da moralidade pode ser enunciado deste modo:

“Age apenas por dever e não segundo quaisquer interesses, motivos ou fins”.

Devemos ter em mente que falamos de decisões e acções morais. Se um papel inútil na minha secretária me
incomodar, é do meu interesse deitá-lo para a reciclagem e, ao fazê-lo, não estou a violar o princípio dos deveres; mas
se atirar o papel para o quintal do vizinho, deixo de cumprir o dever de respeitar as pessoas...

Os deveres morais e as convenções sociais


Os princípios do desinteresse, da imparcialidade e do dever dizem a mesma coisa e têm as mesmas implicações. Isto
permite esclarecer o que são deveres morais:

O dever é uma regra estipulada por uma razão desinteressada, imparcial.

Assim, podemos evitar o erro, bastante difundido, de supor que os deveres morais são criações ou convenções sociais.
Dois argumentos contribuem para este erro. O primeiro parte do facto de alguns dos “deveres morais” de uma
sociedade serem diferentes dos de outras, para concluir, erradamente, que todos os deveres são convenções sociais. O
segundo argumento parte do facto de muitas vezes cumprirmos os deveres contrariados, como se fôssemos obrigados
por uma autoridade externa, para concluir que não podem ter origem em nós mas sim numa autoridade externa.

Ora, a teoria kantiana permite distinguir os deveres morais das regras ditadas por quaisquer autoridades exteriores ao
agente. O indivíduo tem na sua razão o critério dos deveres: pensando desinteressada e imparcialmente ele sabe o que
é o dever. O conflito entre o dever, que é a ordem que damos a nós mesmos (“Sê honesto!” — ordenou o Silva a si
mesmo), e os interesses que nos afastam do dever (“Mas os 50 € davam-me jeito...” — hesitou o Silva), explica por
que o dever parece ter origem numa autoridade exterior que nos contraria.

O princípio da universalidade
A teoria moral de Kant concilia a ideia de que os deveres morais são criações dos indivíduos e a ideia de que a moral é
universal, comum a todos. Esta ideia pode surpreender-nos: não é verdade que “cada cabeça, sua sentença”?

A acção correcta é decidida pelo indivíduo quando adopta uma perspectiva universal. Como? Abstraindo dos seus
interesses, a pessoa pensará como qualquer outra que também faça abstracção dos seus interesses adoptando, portanto,
uma perspectiva universal.

Regressa ao exemplo dado e verifica que qualquer pessoa que abstrai dos seus interesses e pensa imparcialmente faz o
mesmo: é honesta e devolve os 50 €. Aplica a mesma ideia a deveres morais comuns como “Cumpre as promessas”,
“Paga o que deves”, “Sê leal”, “Não roubes” e verifica, com Kant, que só o interesse e a parcialidade do agente podem
levar à violação de tais regras ou deveres morais. Eliminada a parcialidade, pensamos segundo uma perspectiva
universal e aprovamo-las. Kant exprimiu esta ideia numa fórmula conhecida por princípio da universalizabilidade:

“Age apenas segundo uma máxima tal que possas querer ao mesmo tempo que se torne lei universal”.

Uma máxima é uma regra que deve valer para certos tipos de acção e será moral ou imoral consoante esteja ou não de
acordo com o princípio moral, que é uma regra que deve valer para todas as acções. A máxima da acção 1 poderia
enunciar-se assim: “Se isso servir os teus interesses, não devolvas dinheiro ao seu dono”. Poderia o Silva querer que
ela fosse universalmente acatada? Não, porque a obediência universal a tal regra criaria um estado de coisas terrível
em que mesmo os seus interesses acabariam por ser lesados... Tenta transformar outras violações dos deveres em
máximas e pergunta se podes querer que todos as cumpram. Pode o ladrão querer que todos roubem quando a
oportunidade surge? Podes querer que todos façam promessas sem a intenção de cumprir?

O princípio da autonomia
Se juntares agora o princípio da universalizabilidade e o esclarecimento da origem dos deveres, compreenderás a ideia
surpreendente de Kant de que nas decisões morais nós somos legisladores criando regras válidas para todos os seres
racionais.

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Esta ideia também pode parecer estranha porque nos parece que os deveres não estiveram à nossa espera para serem
criados. Pensamos que são as tradições que constituem listas de deveres apoiadas em sistemas de punições e
recompensas. Mas, aceitar esta teoria implica afirmar que a acção 3 é impossível porque, nesse caso, o Silva só
poderia agir devido ao seu interesse em evitar punições ou de ser recompensado e, em consequência, a nossa
aprovação moral de 3 não teria sentido. Se aceitarmos os princípios já expostos, conclui Kant, aceitamos que em cada
juízo ou decisão moral, o sujeito determina o dever. O facto de esses deveres coincidirem com alguns dos deveres
tradicionais explica-se pela universalidade da razão. Kant sublinhou esta ideia de autonomia do sujeito em outras
fórmulas do princípio moral:

“Age como se a máxima da tua acção se devesse tornar, pela tua vontade, em lei universal da natureza”.

“Age [...] de tal maneira que a vontade pela sua máxima se possa considerar a si mesma ao mesmo tempo como
legisladora universal”.

A fórmula da universalizabilidade ainda poderia sugerir que quando decide moralmente, o sujeito escolhe entre
máximas que ele não criou mas que já estão disponíveis. A novidade mais notória destas fórmulas está no facto de
acentuarem a autonomia do sujeito: o sujeito deve obedecer apenas a regras que criou, ao mesmo tempo, para si
mesmo e para todos os seres racionais.

O princípio do respeito pela pessoa


Perguntemos como é que, em cada um dos casos 1, 2 e 3, as pessoas são tratadas.

Em 1, o Silva usou o outro como meio, como se a outra pessoa fosse uma coisa ou instrumento, para o aumento
directo da sua fortuna. Em 2, o Silva usou a outra pessoa como meio de marketing e propaganda. Nestes dois casos, ao
mesmo tempo que usou a outra pessoa apenas como meio, o Silva usou-se como meio, abdicando da sua autonomia
para favorecer impulsos e interesses que o escravizam. Que quer dizer “usar-se como meio”? Silva é uma pessoa, um
ser autónomo. O que constitui esta pessoalidade ou autonomia é a capacidade de pensar e decidir por si. Mas nos
casos 1 e 2 ele usou estas capacidades para servir fins ditados pelo interesse. Usar-se como meio é usar a sua
autonomia para a perder.

Em 3, o Silva não tratou a outra pessoa como meio, tratou-a como um fim. Devemos esclarecer esta ideia.

Se a devolução dos 50 € não visou servir qualquer interesse, então para quê fazê-lo? Qual é a sua finalidade? A
finalidade, já vimos, foi a de cumprir o dever pelo dever. Mas isso, também já vimos, é, ao mesmo tempo, definir a
única legislação adequada a qualquer a pessoa, ou seja, a todo o ser racional, capaz de ultrapassar interesses para
pensar e decidir por si. Assim, cumprindo o dever que deu a si mesmo, o Silva respeita todos os seres racionais,
incluindo, claro, tanto o próprio Silva como a pessoa do seu cliente. O mesmo seria dizer que respeitando a pessoa do
seu cliente, o Silva respeita-se e respeita todos os seres racionais, tomando-os como fins da sua acção.

Kant sintetizou o seu pensamento noutra fórmula:

“Age de tal maneira que uses a humanidade, tanto na tua pessoa como na pessoa de outrem, sempre e
simultaneamente como fim e nunca apenas como meio”.

Nota que a fórmula não proíbe as pessoas de serem meios umas para as outras, porque se o proibisse, proibiria
qualquer prestação de serviços. A lei moral não proíbe o Silva de usar os seus clientes para prosperar, mas se enganar
nos preços e não devolver o dinheiro esquecido pelos clientes, está a tratá-los apenas como meios, instrumentos ou
objectos.

Júlio Sameiro

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