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A QUESTÃO DO BATISMO INFANTIL

Por: Carlos Matheus Tarzia Jr. (*)

Escrevo este artigo com o objetivo de dar uma resposta ao artigo compilado,
publicado no site do CACP - Centro Apologético Cristão de Pesquisas em
04/11/2013, com o título “O que diz a Bíblia sobre o batismo de bebês?” Gostaria
de expor resumidamente a interpretação bíblica sobre o assunto, defendida por
algumas denominações cristãs evangélicas reformadas, históricas e sérias que
adotam o batismo de bebês, filhos de crentes evangélicos.

Ora, nem todos os cristãos evangélicos brasileiros são batistas ou pentecostais (que
são contra o batismo infantil), e é fato que cada denominação tem suas diferenças
doutrinárias (que não afetam a essência do Cristianismo) e até alguns usos e
costumes específicos, de acordo com a interpretação e o entendimento das
Escrituras Sagradas de cada uma. Normal. Entendo que a prática do batismo infantil
é uma dessas diferenças doutrinárias, e não uma “heresia” que deve ser combatida
pela apologética cristã. Os principais agentes da Reforma Protestante do século XVI
(iniciada em 1517), como Lutero, Calvino e Zuínglio não eram contra o batismo
infantil, muito pelo contrário. A aversão pelo batismo de bebês começou,
especificamente, com os anabatistas, a chamada “ala radical” da Reforma
Protestante, que surgiu por volta de 1525.

Se você não quiser concordar, tudo bem. Nenhum cristão legítimo deixará de entrar
no Céu por conta disso. Mas não deixe de conhecer o outro lado. O que quero
demonstrar é que essa doutrina não foi uma ideia copiada da igreja católica romana,
como alguns pensam, e que a mesma possui, sim, muita fundamentação bíblica e
teológica. Vejamos:

As crianças, filhas de crentes, também devem ser batizadas? Sim. Na Antiga


Dispensação elas faziam parte da Igreja, sendo recebidas pelo rito da circuncisão
(Gn 17:9-14, 23, 27; Lv 12:3). E a Igreja de Deus é uma só. No capítulo 11 da carta
aos Romanos, Paulo emprega a figura da oliveira para representar o antigo povo de
Deus. Diz ele que os judeus incrédulos foram cortados da oliveira e que os gentios
crentes são enxertados nela. Deste modo, o antigo povo de Deus, que foram judeus,
e o novo povo de Deus, constituído também de gentios, formam uma só árvore!

Assim como as crianças faziam parte da Igreja na dispensação judaica, devem elas
fazer parte da Igreja na dispensação cristã. No Novo Testamento são recebidas na
Igreja pelo Batismo, que substituiu a circuncisão (Cl 2:11-12). Na dispensação da
Lei, a criança que não fosse circuncidada, era eliminada do povo de Deus (Gn
17:14). Entendemos que o crente, na dispensação do Novo Testamento, que não
apresenta seus filhos para o Batismo, está quebrando a aliança com Deus e comete
pecado.

Deus sempre tem tido um povo Seu através dos séculos. Adão, Sete, Noé e Abraão
foram os primeiros destacados representantes do povo de Deus. O povo escolhido,
em todos os tempos, constitui a Igreja visível aqui no mundo. E sempre que Deus
fazia um pacto com um dos representantes do Seu povo, incluía nele os filhos dos
fiéis. O mais importante dos pactos que Deus fez na antiguidade foi, sem dúvida,
aquele firmado com Abraão, o grande pai de todos os que creem. E as criancinhas
têm um lugar proeminente nesse pacto.

Abraão tinha 99 anos quando foi circuncidado (Gn 17:24) e isto em sinal da sua
justificação pela fé, já comprovada antes da sua circuncisão (Rm 4:11). Ismael tinha
13 anos quando foi submetido ao rito da circuncisão (Gn 17:25). Isaque tinha apenas
oito dias de idade (Gn 21:40). Para que uma pessoa se tornasse membro da
congregação do povo de Deus naquele tempo, era preciso que fosse circuncidada.
As mulheres, as filhas, as esposas e todas as crianças do sexo feminino,
acompanhavam os pais, os irmãos e os esposos e eram por eles representados.
Todos faziam parte do povo de Deus (não confundir com salvos).

Assim, o rito de iniciação ou ingresso na Igreja visível daquele tempo e de toda a


Velha Dispensação era a circuncisão, que era geralmente administrada aos meninos
de oito dias de idade (Gn 17:12; Lv 12:3; Lc 1:59 e 2:21; Fp 3:5). Os adultos que
vinham de fora se uniam ao povo de Deus, em virtude de sua própria fé, sendo
circuncidados, mas os meninos eram admitidos, pelo mesmo rito, em virtude da fé
professada pelos pais.

Ficou bem claro que, desde os tempos antigos, Deus determinou que as crianças,
filhas de pais crentes, fizessem parte da Sua Igreja visível aqui no mundo. Está,
portanto, claramente, estabelecida a origem divina da inclusão dos pequeninos na
Igreja de Deus. Em Efésios 2:11-16, encontramos uma declaração categórica de que
nós, os gentios (não judeus), fomos também incluídos na aliança da promessa feita
aos da circuncisão:

"Portanto, lembrai-vos de que, no passado, vós, gentios por natureza,


chamados incircuncisão pelos que se chamam circuncisão, feita pela
mão de homens, estáveis naquele tempo sem Cristo, separados da
comunidade de Israel, estranhos às alianças da promessa, sem
esperança e sem Deus no mundo. Mas agora, em Cristo Jesus, vós, que
antes estáveis longe, viestes para perto pelo sangue de Cristo, pois ele é
a nossa paz. De ambos os povos fez um só e, derrubando a parede de
separação, em seu corpo desfez a inimizade, isto é, a lei dos
mandamentos contidos em ordenanças, para em si mesmo criar dos
dois um novo homem, fazendo assim a paz, e pela cruz reconciliar
ambos com Deus em um só corpo, tendo por ela destruído a inimizade."

Os batistas argumentam que a circuncisão era somente uma marca de identidade


nacional e étnica dos judeus. Isso não é verdade à luz das Escrituras. Ela sempre foi
um sinal de despojar-se “do corpo dos pecados da carne pela circuncisão
[morte] de Cristo” (Cl 2:11; ver também Dt 10:16 e 30:6; Jr 4:4).

Mas, as crianças creem? Os textos bíblicos que falam da fé como pré-requisito para
receber o Batismo, não se referem às crianças. A prova é que Marcos (16:16),
depois de citar as palavras de Cristo “quem crer e for batizado será salvo”,
registra também, “quem, porém, não crê, será condenado”. Ora, se as crianças
não são capazes de crer e, por isso, não podem ser batizadas, elas estão
condenadas. No entanto, Jesus afirmou: “... das tais é o reino de Deus”, e sem
qualquer referência à fé.
O Novo Testamento registra o Batismo de cinco famílias inteiras (At 10:23-24 e 48;
16:15-33; 18:8 e 1Co 1:16). Será que nessas famílias não havia crianças? Muito
improvável. Orígenes, um teólogo da Igreja Primitiva, ensinou que os Apóstolos
batizavam crianças. Há, inclusive, escritos da época onde se discutia se o Batismo
não deveria, também, ser feito ao oitavo dia de vida da criança, como, em geral, era
na circuncisão.

Outra objeção dos batistas ao Batismo infantil é que alguns que não são e nunca
serão salvos são batizados. Ora, é impossível, quer nas igrejas Batistas,
Pentecostais ou Reformadas, batizar somente pessoas salvas. Porque os segredos
do coração são desconhecido para nós. Só Deus sabe quem realmente é salvo.
Qualquer igreja pode batizar adultos que meramente fizeram uma profissão
(confissão) de fé e arrependimento. E isso não é novidade. No Antigo Testamento
vemos que incrédulos, como Ismael, que não tinha nenhuma parte no pacto (Gn
17:18-19), foi circuncidado por Abraão; e Isaque circuncidou Esaú, mesmo após
saber que este era réprobo (Gn 25:23-24).

Em nenhuma parte do Novo Testamento encontramos qualquer passagem que


exclua as crianças, filhas de crentes, da Igreja de Deus. Sendo o Batismo, na Nova
Dispensação, o sinal da inclusão na Igreja, segue-se que os filhos dos crentes, hoje,
não têm menos direito ao Batismo do que tinham os filhos dos israelitas à
circuncisão. Os filhos de cristãos no Novo Testamento são chamados de santos
(1Co 7:14), são santificados (não confundir com salvos) em virtude da fé professada
pelos pais.

Portanto, entendemos que o Batismo é um Sacramento instituído por Jesus Cristo,


feito com água (por imersão ou aspersão; no Batismo a água é apenas símbolo,
como o são o pão e o vinho, na ceia do Senhor, logo, não importa a quantidade de
água usada no Batismo), em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, indicando a
recepção solene do batizando na Igreja de Cristo, e isto inclui os filhos dos crentes.

(*) Presbiteriano, professor de EBD, Bacharel em Teologia, Pós-graduando em


Apologética Contemporânea e Mestre em Teologia Sistemática.

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