Você está na página 1de 296

Gustavo H.B.

Franco
organização, introdução e comentários

A ECONOMIA EM
MACHADO DE ASSIS
O olhar oblíquo do acionista
Tirei hoje do fundo da gaveta, onde jazia, a minha pena de cronista. A
coitada estava com um ar triste … Antes de começar nosso trabalho, ouve,
amiga minha, alguns conselhos de quem te preza … Não te envolvas em
polêmicas de nenhum gênero, nem políticas, nem literárias, nem quaisquer
outras; de modo algum verás que passas de honrada a desonesta, de
modesta a pretensiosa, e em um abrir e fechar de olhos perdes o que tinhas e
o que eu te fiz ganhar. O pugilato das ideias é muito pior que o das ruas; tu
és franzina, retrai-te e fecha-te no círculo dos teus deveres, quando couber a
tua vez de escrever crônicas. Sê entusiasta para o gênio, cordial para o
talento, desdenhosa para a nulidade, justiceira sempre, tudo isso com
aquelas meias tintas tão necessárias aos melhores efeitos da pintura.

MACHADO DE ASSIS
Crônica inaugural,
de 15 de setembro de 1862,
para “O Futuro”
SUMÁRIO

Apresentação de Sergio Paulo Rouanet

PARTE I Introdução
A crônica do tempo
Aspectos editoriais da coletânea

PARTE II O olhar oblíquo do acionista


1. uma lambujem ao intermediário (02.09.1883)
2. o carneiro … acionista (14.10.1883)
3. o equinócio do dividendo (21.02.1885)
4. os capitais estão sujeitos a emagrecer no verão (03.03.1885)
5. impostos inconstitucionais (16.05.1885)
6. que será do novo banco? Um barranco, uma enchente
(17.11.1886)
7. eu acionista do Banco do Brasil (10.02.1888)
8. anda alguma coisa no ar (11.05.1888)
9. um ordenado pequeno, mas há de crescer (19.05.1888)
10. questão de federalismo (27.05.1888)
11. esperando a indenização (26.06.1888)
12. o acionista é uma bela concepção (23.02.1889)
13. uma moeda nossa … o cruzeiro (30.03.1889)
14. se começarem a fazer das sociedades pequenos parlamentos
(19.06.1892)
15. o negócio das debêntures … e o habeas corpus (31.07.1892)
16. para que meter o deficit entre as minhas preocupações?
(21.08.1892)
17. as percentagens são as primeiras flores do capital ou “O sermão
do Diabo” (04.09.1892)
18. a emissão bancária nasceu tão grossa (11.09.1892)
19. balanço de comércio … excesso de emissões … um fastio ou
“Uma nota idílica” (09.10.1892)
20. grande Law! … de celebridade a … embromador (23.10.1892)
21. não havia dividendos mas divididos (11.12.1892)
22. este é o Encilhamento (18.12.1892)
23. Banco da República … a arte culinária chama de roupa velha
(01.01.1893)
24. chovem assuntos modernos … (29.01.1893)
25. falsas estão para as verdadeiras, como o quilo mal pesado
(05.02.1893)
26. papel-moeda e moeda-papel … fusão e encampação (25.06.1893)
27. não eram bem títulos nem bem caveiras ou “A cena do cemitério”
(03.06.1894)
28. nossa moeda municipal (12.08.1894)
29. o primeiro mistério anda já tão safado … é o câmbio
(16.12.1894)
30. a sensibilidade nervosa do câmbio (10.02.1895)
31. uma vertigem de capitais, de emissões, de valores (03.11.1895)
32. impostos sobre produtos farmacêuticos (22.12.1895)
33. que magnésia há contra o câmbio? (08.03.1896)
34. incluamos paternalismo nos dicionários (19.07.1896)
35. mete dinheiro na bolsa (02.08.1896)
36. esse algarismo, que eu presumia nunca ver nas tabelas cambiais
(23.08.1896)
37. essas notas… rasgadas, vi-as chegar catitas e alegres
(01.11.1896)
38. o contribuinte sou eu, és tu (10.01.1897)
39. o acionista é… credor de dividendo (04.11.1900)
40. o testamento

Notas
Créditos das ilustrações
Bibliografia
Agradecimentos
APRESENTAÇÃO

Em sua apresentação do livro de Gustavo Franco A economia em Pessoa,


Alberto da Costa e Silva escreveu que nessa obra não somente o poeta
Fernando Pessoa se revelava um arguto analista econômico, como o
economista Gustavo Franco se revelava um fino comentador literário. Agora
Franco volta a surpreender. Escrevendo sobre o “olhar oblíquo do acionista”,
o autor demonstra possuir um olhar tão oblíquo quanto o do bruxo do Cosme
Velho, pois conseguiu descobrir em várias crônicas de Machado de Assis um
leitmotiv que escapou a críticos literários dotados de visão mais retilínea.
Se considerarmos as crônicas reproduzidas no livro como uma espécie de
narrativa, distribuída em 39 capítulos,* o enredo dessa narrativa é constituído
em sua maior parte pela preocupação machadiana com os acionistas, suas
assembleias, suas deliberações e seus dividendos. O sujeito da narrativa é
Machado, um Machado mais oblíquo que nunca, pois finge ver o Brasil e o
mundo na perspectiva de uma das figuras mais equívocas da modernidade — a
do acionista. Em geral, Machado o apresenta como alguém radicalmente
passivo. Quando comparece às assembleias, é à força, arrastado pelos
empregados, para perfazer o quorum regulamentar. Seu interesse único está no
recebimento dos dividendos. Se a empresa paga os dividendos, os
“divisores”, que dirigem a empresa, estão livres para fazer o que quiserem.
Reconhecemos, no acionista machadiano, a figura do rentista, radicalmente
afastado do mundo do trabalho, o homem que no sentido literal vivia de
rendimentos — os proporcionados pelos escravos, pelos aluguéis, pelas
apólices. Em outros momentos, o acionista de Machado é um canalha, um
grande ou pequeno aproveitador, que embolsa rendimentos indevidos e faz
fortuna ou se arruína durante a “bolha” do Encilhamento. O leitor não pode
deixar de reconhecer nessa figura um dos maiores personagens da galeria
machadiana, também um rentista, Brás Cubas. O narrador-romancista que
denuncia em Memórias póstumas o cinismo da classe dominante brasileira, e
usa para isso o artifício de falar na primeira pessoa, fingindo identificar-se
com um dos seus representantes, é semelhante ao narrador-cronista que assume
como próprio o cinismo e a falta de escrúpulos do tipo social que ele critica,
escrevendo também na primeira pessoa.
Em suma, o livro de Gustavo Franco é um deleite, e um deleite duplo. É
bem escrito, bem argumentado, e abre trilhas para uma nova compreensão de
Machado de Assis. Oferece ainda, como bônus, uma oportunidade para ler ou
reler algumas das melhores crônicas de Machado, como a de 4 de novembro
de 1900, que fecha o volume, onde aparece uma das obras-primas do nosso
bruxo, uma passagem admirável sobre a morte do sineiro da Glória.

SERGIO PAULO ROUANET

______________
* No capítulo 40 estão os testamentos deixados por Machado de Assis. (N.E.)
PARTE I

INTRODUÇÃO
A CRÔNICA DO TEMPO

Esta é uma antologia temática, em que se busca o olhar de Machado de


Assis, o cronista, sobre os eventos econômicos e financeiros de seu tempo, os
principais, os acontecimentos paradigmáticos de uma época tumultuada, mas
também os secundários, os pequenos dramas anônimos e cotidianos que
fornecem preciosas alegorias para enredos maiores. Com efeito, ninguém
melhor que este cronista para destilar a grandeza do aparentemente efêmero, e
dos aspectos laterais e reveladores de nossas complexas e nada óbvias
inflexões históricas. Tratando-se, em particular, da nossa história econômica e
financeira, seguramente temos uma lacuna, ou ao menos uma rica jazida
inexplorada, em não se tomar em conta o que nos legou este extraordinário
observador, de quem, como se verá ao longo deste volume, nada escapou.
Machado dedicou-se à crônica,1 nos mais variados formatos, ao longo de
mais de 40 anos, do final dos anos 1850 até o começo do século XX. Seja pela
continuidade, seja pela estatura literária desta produção, não seria próprio
pensar que essa obrigação semanal carregada durante tantos anos, e
especialmente fértil quando Machado já era um escritor consagrado, e
amplamente remediado, fornecia-lhe apenas um ganha-pão, ou representasse
algum sacrifício que lhe permitia a dedicação aos gêneros literários ditos
superiores. Na verdade, Machado fez muito para a constituição e elevação do
gênero, que teve, posteriormente, os mais ilustres seguidores, e mais: é
perfeitamente possível estabelecer conexões claras, insofismáveis, entre os
processos de construção literária que regeram sua produção ficcional vis-à-vis
a obra nãoficcional. Como observa Gledson, “já foi sugerido mais de uma vez
que o ‘milagre’ das Memórias póstumas de Brás Cubas deve tanto a estas
obras como a Sterne, a Stendhal, ou a De Maistre: a ‘arte das transições’, da
qual este romance depende tanto, foi praticada em elevado grau nas
crônicas.”2
Ainda que intrínseca à crônica, a transitoriedade textual e temática de
Machado chegou a extremos que o tornaram um paradigma do gênero. A “arte
das transições” consiste em unir tópicos sem relação aparente, mas que
justapostos oferecem resultado surpreendente. O cronista “ameniza” esse
trajeto entre temas, de tal sorte que os leitores mal percebem o salto de um
assunto para outro, alheio ao tema principal, depois o retorno, numa espiral de
circularidade e de imagens unidas por uma tessitura de “livres associações”.
Ao menos em tese, pode-se admitir que as crônicas “não foram escritas
para a posteridade, enquanto os romances e contos, para não mencionar a
poesia e o drama, eram ‘obras de arte’ conscientemente elaboradas com este
fim.”3 Não obstante, as crônicas não devem ser vistas como “puro jornalismo,
ou reportagem: são, como frequentemente se tem dito, um misto híbrido de
jornalismo e literatura”.4 A crônica é concebida como uma distração datada,
um registro de um momento, fotos que envelhecem com os objetos retratados, e
tornam-se amiúde incompreensíveis para os leitores de hoje, como
discutiremos adiante. Porém, a crônica, ainda que “frívola”, “franzina”,
“espectadora”, ou “a castanha gelada, a laranja, o cálice de Chartreuse, uma
coisa leve, para adoçar a boca e rebater o jantar” — formas usadas por
Machado para referir-se a este tipo de literatura em diversas passagens5 —,
tem a seu favor exatamente este vínculo com os eventos. Como observa
Betella, a partir de Davi Arrigucci Jr, se o gênero:
Num primeiro momento … esteve destinado à pura contingência do
veículo, o jornal, sua evolução trouxe para o texto a complexidade da
penetração psicológica e social a ponto de resultar numa forma literária
que penetra a substância íntima de seu tempo e que se esquiva da corrosão
dos anos — de algum modo, permanece a crônica um teor de verdade
íntima, humana e histórica sob os fatos narrados referentes a um tempo
que se distancia do leitor atual.6
A propósito da experiência específica de Machado de Assis cronista, um
de seus mais dedicados editores, depois de Magalhães Júnior, John Gledson,
observa:
Se há uma história para contar que ligue as crônicas como um todo, ela
baseia-se na reação de Machado à cena política e social que o cercava,
num período muito turbulento. Claro que as crônicas eram supostamente
leves e triviais, mais recreativas que educativas. Mas com Machado,
talvez mais do que com qualquer outro escritor importante do gênero, esse
requisito é tomado como irônico. Os seus leitores quase que esperariam
que ele tratasse — obliquamente embora — os principais acontecimentos
da semana.7 [grifo nosso]
Nesse sentido, o material das crônicas é bem diverso daquele que serve de
base para a monumental obra de Raymundo Faoro, cujo âmago consiste em
“reconquistar, no Machado de Assis impresso, não o homem e a época, mas o
homem e sua época que se criaram na tinta e não na vida real”.8 Seus alicerces
são a ficção, matéria carente de “objetividade”, embora, conforme observa,
“todos são filhos de igual teatro, comprometidos na mesma existência, quer a
suscitada pelo historiador, quer a evocada pelo romancista”.9 O fato de
ancorarmos nosso enredo na crônica, e, portanto, no fluxo de acontecimentos
históricos experimentados de perto, nos deixa prudentemente afastados de um
debate sobre o verdadeiro material da história. Esta, aliás, como observa o
próprio cronista, “é pessoa entrada em anos, gorda, pachorrenta, meditativa,
tarda em recolher documentos, mais tarda ainda em os ler e decifrar”.10 Parece
claro, portanto, como sublinha uma estudiosa, que a crônica assume “uma
faceta historiográfica” e um caráter de “registro” que “coloca lado a lado as
grandes decisões políticas e a vida acontecendo nas ruas, revirando e
aproximando esses dois lados com um poder de relativização
desconcertante”.11
Durante todos esses anos como cronista, foram vários os veículos, séries,
formatos e disfarces – ao todo, 22 pseudônimos diferentes –, sendo que as
séries que receberam maior atenção foram as agrupadas sob os títulos “Bons
dias!”(1888-89) e “A semana”(1892-1900), ambas para a Gazeta de Notícias
– um dos três principais jornais da capital nesta ocasião, ao lado do Jornal do
Commercio e de O Paiz, e cujo proprietário, Ferreira de Araújo, era amigo
pessoal de Machado. Na verdade, o cronista era acionista da Gazeta, como
mostram os testamentos deixados pelo escritor e reproduzidos no último
capítulo desta obra.
O interesse historiográfico na crônica machadiana se explica por uma feliz
coincidência temporal: se, de um lado, o período em tela abriga uma pletora
de reformas e transformações políticas e econômicas especialmente
complexas de se decifrar, de outro, o cronista e documentarista era, na
ocasião, já nosso maior escritor, ou estava próximo disso. Afinal, Memórias
póstumas de Brás Cubas, para muitos a sua obra máxima, a que assinala a sua
passagem para o seleto grupo de gênios da literatura universal, a se acreditar
em Harold Bloom,12 fora publicada em 1881.
Não há exagero em se afirmar que estas crônicas são preciosidades
historiográficas, pois ofereciam um espaço maravilhoso para Machado
despejar, experimentar e aperfeiçoar o seu portentoso arsenal estilístico, e
refrescar o seu acervo de acontecimentos, referências e imagens – que nada
ficavam a dever à ficção. Os romances contemporâneos ou posteriores aos
tumultos que se seguem à Abolição, à Proclamação da República e ao
Encilhamento – especialmente Esaú e Jacó (1904), Dom Casmurro (1899) e
Memorial de Aires (1908) – trariam marcas indeléveis do momento histórico
que o escritor acompanhou como cronista.
A história aqui buscada, todavia, restringe-se às coisas econômicas e
financeiras, que são muitas a desfilar sob os olhos deste observador,
surpreendentemente atento e bem informado, inclusive nas mais engenhosas
maquinações. Mas não se trata de um “analisador”; o cronista não é de
“defender causas”, agastar-se em polêmicas, ou oferecer alternativas. Seu
olhar é lateral, arrevesado, oblíquo,* de quem repetidamente adverte “não sei
finanças”,* apenas para obter a indulgência para as perguntas simples e
difíceis, formulando ou respondendo com imagens e alegorias, não raro
ligadas “por transições” a outros acontecimentos da semana. O testemunho de
Machado sobre a vida econômica e financeira brasileira na última década do
século XIX se não é indispensável é, seguramente, imperdível.
A produção do cronista deve ter ultrapassado 600 textos, sendo que exatas
475 crônicas, de acordo com a criteriosa contagem de John Gledson, teriam
sido publicadas na Gazeta de Notícias, todas posteriores a 1883; sua
colaboração com a Gazeta se iniciou em 1881 e se prolongou irregularmente
até 1904. Foi de séries da Gazeta de Notícias – especificamente “Balas de
estalo”, “Gazeta de Hollanda”, “Bons dias!” e “A semana” – que retiramos as
39 crônicas reproduzidas neste volume. Há muito o que dizer sobre o sentido
desta seleção.
De início, ao procurar a temática econômica e financeira no conjunto
maior, logo percebemos que a primeira dificuldade tinha que ver com o foco.
Se, de um lado, existiam crônicas 100% dedicadas a determinado assunto
financeiro de evidente interesse nosso, por outro, em inúmeros casos, o evento
buscado ocultava-se em uma alusão, às vezes excessivamente breve, ou
diluída, em meio às incontáveis “transições”, tão próprias e típicas da crônica
machadiana. O fato é que, a fim de manter a seleção dentro de dimensões
razoáveis, fomos restringindo o número de crônicas selecionadas para aquelas
onde a temática financeira era predominante ou, quando alusiva, continha
alguma observação cuja verve compensasse a sua brevidade. Muita disciplina
foi requerida nesta seleção, pois são muitas as crônicas maravilhosas e
envolventes que tratam pouco ou quase nada de interesse econômico, mas com
verve. Sempre muita verve. No limite, deixando-se levar pelo fascínio com o
material, fraquejaríamos nas exclusões, especialmente de crônicas posteriores
a 1888, de tal sorte que facilmente acabaríamos com um volume muito grande,
onde a matéria econômica ficaria excessivamente diluída, caso em que a ideia
de uma antologia tendo as finanças como fio condutor seria malsucedida. O
deleite com a crônica machadiana, entendido genericamente, pode ser obtido
das inúmeras edições integrais, por série, complementares às integrais ou
idiossincráticas, em volumes de “favoritas” ou de “melhores momentos”. O
sentido desta coletânea temática não é apenas o deleite, mas o de somar a este
um enredo, para o qual é necessária uma sequência ou uma tese que confira
personalidade à seleção. Este foi o caso da antologia temática organizada por
Duarte, onde o organizador buscou a “pesquisa de manifestações de afro-
descendência”,13 inclusive fora da crônica, também nos outros gêneros. Nossa
antologia é a primeira coletânea temática com foco na economia, utilizando
apenas a crônica, cujo fio simbólico de continuidade é a alegoria representada
pelo acionista.
Existem dois caminhos para se chegar ao conjunto aqui reproduzido, que
se compõe de crônicas publicadas entre 1883 e 1900. De um lado, tomando
exclusivamente o critério esboçado, da “dedicação ao tema e/ou comentário
impagável”, corremos o risco de produzir uma seleção sempre vulnerável ao
“esquecimento” desta ou daquela peça, e não faltarão crônicas excluídas com
méritos indiscutíveis, literários ou históricos, embora com menos foco nos
assuntos de interesse desta coletânea. A exclusão poderá sempre ser debatida,
e a tendência natural seria a de acomodar novas candidaturas, mesmo com
justificativas frágeis, desde que o volume não assumisse dimensões
impossíveis. Mais interessante, todavia, foi perceber, ao longo do processo de
seleção do material, que o conjunto ia formando um enredo, sendo este, aliás,
o teste mais fundamental para a pertinácia da coletânea. Se o conjunto forma
uma tese, se contém uma evolução natural ou conta uma história, então a
seleção se torna mais robusta e menos vulnerável à falha pela omissão de
algum item que, neste caso, apenas reforçaria o conjunto, mas cuja ausência,
entretanto, não o comprometeria. Este segundo caminho nos pareceu mais
robusto e promissor.*
A procura de um enredo ocorreu a Magalhães Júnior na sua edição para as
séries “A + B” e “Bons dias!” ao utilizar a imagem do relojoeiro Policarpo,
pontuador do tempo, como o sineiro João do Capítulo 39. Tal como
posteriormente tentou John Gledson, conforme aludem suas introduções às
publicações das séries “Bons dias!” e “A semana”, tratava-se de encontrar o
enredo para as séries em seu conjunto. Sobre “Bons dias!” especificamente,
Gledson observa que “é impossível descobrir uma ‘argumentação’ em textos
que, por sua própria natureza, tinham que adaptar-se aos acontecimentos
cotidianos. Apesar disso, acredito que não seja um excesso de fantasia
perceber uma certa e excepcional unidade de tema em algumas das crônicas
mais interessantes e complexas”.14 Mais tarde, em 2006, ao reescrever a
introdução à série, o enredo lhe parece mais claro: “A situação em torno da
Abolição – e que inclui o assunto do regime, monarquia ou república – é o
tema básico”, mas, reconhece, “talvez este ‘método’ se limite a essa série, que
começou, por mais que o autor/cronista não o diga, com uma espécie de
‘programa’, coisa que nenhuma das séries machadianas têm”.15 Quando se trata
de “A semana”, a procura de “uma história para contar que ligue as crônicas”
torna-se, sem dúvida, excessivamente vaga, o que, todavia, deixa de ser o caso
quando nos debruçamos sobre um subconjunto específico das crônicas,
atravessando diferentes séries, e unido por uma mesma temática.
O enredo, resumido pelo título O olhar oblíquo do acionista, emerge, em
primeira instância, pelo inesperado, surpreendente e duradouro interesse do
cronista, que escapou à grande maioria dos observadores das crônicas, nos
assuntos pertinentes a acionistas, suas assembleias, deliberações, crônicos
problemas de quorum (!), e principalmente dividendos. Dentre os que notaram
este curioso interesse, nenhum buscou qualquer teoria que pudesse lhe conferir
algum sentido,16 e não deve haver dúvida de que temos aqui um enigma: como
explicar a dedicação consistente e sistemática de nosso maior e mais
exuberante escritor a um tema maçante até para economistas? Esta dúvida se
desdobra em várias outras, cujo ápice se observa no Capítulo 7 desta
coletânea, numa “crônica em verso” – “versiprosa”, como Machado definiu
esta espécie, muitos anos antes de Carlos Drummond de Andrade – de
fevereiro de 1888, onde Malvólio, personagem shakespeareano bufo que
assina o texto, declara, no início de uma detalhada descrição (em verso!) de
uma assembleia de acionistas do Banco do Brasil encarregada de reformar
seus estatutos:

Eu, acionista do Banco


Do Brasil, que nunca saio,
Que nunca daqui me arranco,
Inda que me caia um raio…

Diversas das crônicas aqui reproduzidas eram assinadas com pseudônimos


e em alguns casos, como Malvólio, assim como o Lélio que contribui para
“Balas de estalo”, o autor era declaradamente Machado de Assis. Malvólio,
portanto, não era bem uma máscara. Como saber se Machado não estaria
dizendo a verdade nesses versos? Seria mesmo acionista do Banco do Brasil?
O que mais poderia explicar a familiaridade e o interesse do cronista pela
matéria relativa a dividendos?
A dúvida não chega a ser esclarecida pelos dois testamentos do cronista,
feitos em 1898 e em 1906, pelos quais se verifica que legava a seus herdeiros
títulos (apólices, como se dizia) da dívida pública relativos ao empréstimo de
1895, além da uma caderneta de poupança na Caixa Econômica, e ações da
Gazeta de Notícias. Nada de ações do Banco do Brasil; o que, todavia, não
representa evidência suficiente para atestar que ele não as possuía em 1888 ou
em algum momento anterior. Pode-se, aliás, de pronto, indagar: onde estava
aplicado o dinheiro que usou (ou pouco menos de 7 contos) para comprar as
apólices em 1895?
Antes, em 1884, Machado havia se mudado para a casa no Cosme Velho,
onde passaria o restante de sua vida, mas não há registro sobre a compra da
casa. No final dos anos 1880, segundo Lucia Miguel Pereira, “Machado já
tinha então algumas economias, poderia ter comprado casa. Parece mesmo ter
pensado nisso; mas preferiu não fazê-lo, temendo que, vendo-o próspero,
pudessem os outros suspeitar da sua honestidade. Alma escrupulosa, cheia de
melindres a sua”.17 É de se notar que a casa não consta em nenhum dos dois
testamentos (de 1898 e de 1906), como se pode ver no Capítulo 40. Mas as
economias existiam, e permaneceram investidas em algum instrumento
financeiro.
Note-se, ademais, que o Banco do Brasil de 1898 não era mais o de 1888.
Este, em péssimo estado de saúde, em 1893, havia se fundido com o Banco da
República dos Estados Unidos do Brasil* para formar o Banco da República
do Brasil, que tinha em si, indelével, a marca do Encilhamento, e que, quando
nasceu, não mereceu boas referências do próprio cronista (ver Capítulos 23 e
24). O Banco da República cambaleou durante alguns anos até finalmente
tombar em 1900. Era natural, portanto, que se tivesse sido acionista do Banco
do Brasil em 1888, ou antes, já tivesse se desfeito de suas ações, com lucro ou
prejuízo, difícil saber, pois dependeria de quando as vendeu exatamente,
sendo certo que a perspectiva de ganhar uma fortuna com a venda o
aterrorizasse tanto quanto a de perder.
Em 1888, possuir ações do Banco do Brasil não seria nada que atentasse
contra o conservadorismo e o equilíbrio que se sabe ter presidido a vida
pessoal de Machado de Assis. Nenhum de seus biógrafos fala em ações do
Banco do Brasil, mas era factível que as tivesse, especialmente nos anos
anteriores ao Encilhamento, onde, com efeito, está a maior parte de suas
crônicas sobre esses assuntos (Capítulos 2, 3, 4 e 7). Para sustentar esta
conjectura vamos nos socorrer junto à ficção, à moda de Faoro, observando a
composição da herança de Quincas Borba:

Quando o testamento foi aberto Rubião quase caiu para trás.


Adivinhais por quê. Era nomeado herdeiro universal do testador.
Não cinco nem dez, nem vinte contos, mas tudo, o capital inteiro,
especificados os bens, casas na Corte, uma em Barbacena, escravos,
apólices, ações do Banco do Brasil e de outras instituições, joias,
dinheiro amoedado, livros – tudo finalmente passava às mãos de
Rubião, sem desvios, sem deixas a nenhuma pessoa, nem esmolas,
nem dívidas.18 [grifo nosso]

Era a composição típica do patrimônio de um ricaço na faixa de 300


contos, ao redor de 1867, conforme sugere Faoro, que comenta: “Trezentos
contos, com a renda certa e permanente de 18 contos anuais, enchia a
imaginação, fazia dançar na rua e provocava sonhos com o Oriente.”19 Não é
bem o perfil de Machado que, como seu próprio testamento revela, deixou
pouco mais de dez contos a seus herdeiros. A presença de ações, todavia,
podia causar sobressalto a quem tivesse em mente a renda certa e permanente.
Como observa Faoro, “fora das apólices e das casas, com a passagem pelo
aluguel de escravos, a intromissão do capitalista na compra de ações seria um
passo incerto, cheio de riscos e perigos”.20 Faoro pode estar, aqui,
excessivamente zeloso da delimitação exata da fronteira entre o seu
capitalista, que é, na verdade, o rentier, e a “classe lucrativa”, formada de
empresários, que, no universo machadiano, aparecem amiúde como
especuladores e canalhas. Ações do “vetusto e pacato Banco do Brasil”,21 ao
menos durante o Império, eram, por certo, “ações de viúva”, aplicações
conservadoras que proporcionavam dividendo certo, como efetivamente
observado várias vezes pelo cronista.
Não obstante todas estas indicações, a informação proveniente do Arquivo
Histórico do Banco do Brasil é de que não foi encontrado nenhum registro de
Machado de Assis como acionista e também como dirigente da instituição.
Será mesmo? Talvez tenhamos aí uma sentença de primeira instância, não
definitiva: havia ações ao portador? Eram confiáveis os registros? Cobriram
todas as datas?
O fato é que o enigma, longe de se resolver, torna-se ainda mais instigante.
Por que, então, o interesse no acionista e em sua obsessão pelo dividendo?
Quem era este acionista? Que alegoria estava construindo o cronista?
Com efeito, a leitura cuidadosa das crônicas desta antologia leva a crer
que não era propriamente relevante que Machado fosse mesmo acionista do
Banco do Brasil ou de qualquer outra companhia. Na verdade, há algo errado
com este acionista; como tantos outros personagens da galeria machadiana, ele
ultrapassa o que se vê na superfície. Tecnicamente falando, à luz da doutrina
contemporânea referente às boas práticas de governança corporativa, seria
fácil diagnosticar a miopia desse acionista machadiano. Como poderia
importar-se apenas com o dividendo quando tantas outras dimensões da
administração eram relevantes para a criação de valor para o acionista?
Independentemente de Machado estar se projetando no texto, não se deve
tomar o dito ao pé da letra, afinal, o suposto acionista é o mestre da “sátira
menipeia”,* das transições e paradoxos. O acionista simultaneamente
ganancioso e destituído de qualquer horizonte de percepção dos destinos da
empresa, carneiro e (em alguns casos) raposa (Capítulo 2), tolo ou
excessivamente esperto, canalha como Brás Cubas, contente mesmo em
receber dividendos sobre lucros fictícios, como foi exatamente o caso do
Banco do Brasil no período posterior a 1890, esse acionista machadiano não
tem parentesco com o de nossos dias. Parece mais o que hoje se designa como
“rentista”, sendo esta a chave que nos fornece Raymundo Faoro para se
compreender a identidade deste “acionista”: “Agrupam-se entre os rentiers,
que vivem de rendas, rendas de escravos, de terras, de casas, de créditos, de
valores.”22 São múltiplas formas de afastamento do trabalho, e ócio elegante,
mediante renda “certa, periódica, obtida sem canseiras e riscos”,23 incluindo,
por certo, “o fazendeiro, na cidade, [que] vive de renda, liberto da torturada
atividade das plantações e da disciplina dos escravos”24. No “capitalismo
político” próprio do Império, onde, nas palavras de Mauá, tudo é
“essencialmente oficial”, onde “tudo gira, move-se, quieta-se, vive, ou morre,
no bafejo governamental”,25 é lícito pensar que, de uma forma ou de outra,
todas as rendas acabavam dependendo do Estado, inclusive o dividendo do
Banco do Brasil. Este, na verdade, era “o primeiro grande banco ajustado à
política oficial”, e, na prática, “um agente do governo”,26 fato bem conhecido e
aceito, especialmente depois que Mauá foi dali apeado. E se assim é, claro
deve ser que o acionista do Banco do Brasil sentia-se acionista do Império,
sócio do imperador, e, portanto, era como se fosse proprietário de títulos
públicos de renda fixa, líquida e certa, sem riscos, e sem os perigos da “renda
variável” ou a interferência de odiosas e misteriosas considerações da
administração que viessem a implicar, por exemplo, em capitalização de
dividendos. O acionista machadiano, aos olhos do cronista, parece perceber
sua condição de forma mais ampla do que um exame superficial pode supor.
Este acionista representa um apoiador, um pequeno credor parasitário, um
“cliente cativo”, o “conteúdo da tardia nação mercantilista”, como definiu
Jorge Caldeira,27 e por isso dependente do governo, visto, possivelmente, na
pessoa do imperador. Quem mais poderia ser “o dono da casa”, que
misteriosamente escolhe o presidente do Banco do Brasil, um antigo
presidente do conselho de ministros, em substituição a outro, nas vésperas da
República? (Capítulo 12).
Novamente nos socorrendo da ficção, vale notar que a alegoria desenhada
nesta importante crônica, uma sobre o acionista, de fevereiro de 1889, que
integra a série “Bons dias!”, é muito parecida com a que fez Machado, no
Quincas Borba, na mesma época, ao trocar o nome de Rubião: de Rubião José
de Castro, como no folhetim que circula entre 1886 e 1891 em A Estação,*
para Pedro Rubião de Alvarenga, mostrando evidente intenção de associar ao
personagem a imagem do Império e do imperador, que terminam perdendo a
razão.28 Não esqueça, leitor, Quincas Borba, este com certeza, era acionista do
Banco do Brasil…
Ao se admitir que esse acionista “oblíquo”, que se enxerga
primordialmente como sócio do imperador, ou do governo, e tem para si que
possuir ações do Banco do Brasil é o mesmo que possuir apólices, deve
mostrar interesse pelas mesmas. Com efeito, no Capítulo 1, de 1883, o
acionista cuida das “lambujens” no empréstimo nacional deste mesmo ano, que
ofereceu excelentes taxas de retorno para os investidores. O primeiro
testamento de Machado, de 1898, reproduzido no Capítulo 40, o coloca como
proprietário de 7 contos em apólices do empréstimo nacional de 1895. Sim, o
cronista mistura-se com seu objeto; era o rentista liberado para as letras,
também funcionário público, titular de sinecura; ele não queria mais que a
riqueza necessária para dar-lhe o tempo e o conforto para dedicar-se às letras.
A sucessão de crônicas sobre o acionista-rentista parecia se interromper,
por momentos, diante da perspectiva da Abolição e do início do projeto “Bons
dias!”, série efetivamente protegida por um anonimato que só seria
desvendado nos anos 1950, e que servia para o cronista dizer “coisas duras”29
que a situação merecia. Porém, no interior desta série, como anteriormente
mencionado, não deixou de haver uma crônica sobre a escolha do presidente
do Banco do Brasil pelos seus acionistas e pelo “dono da casa” (Capítulo 12),
e uma outra, a propósito das curiosas consequências de o câmbio estar acima
da paridade (Capítulo 13). A Abolição, tenha-se claro, é tema também
econômico, e especialmente pertinente à problemática tão atual das “reformas
econômicas”, e que aqui não poderia deixar de estar, como nos Capítulos de 8
a 11.* O narrador, invariavelmente canalha e arrivista, rentista e improdutivo
como o acionista machadiano das primeiras crônicas, proporciona uma crítica,
ainda que oblíqua, muito mais cortante que a lavratura de um manifesto. Com
efeito:
Machado empreendeu muito provavelmente esta nova série, que lhe deu
as vantagens do anonimato, porque desejava ficar livre para comentar,
sempre de forma oblíqua, mas agora com novo grau de azedume, os
acontecimentos tão importantes que rodeavam a abolição e que, ele sabia,
levariam ao fim do Império.30 [grifo nosso]
Na medida em que buscamos na Abolição o tema mais genérico das
reformas econômicas, chegamos a um terreno onde é possível ver que o olhar
oblíquo sobre esta reforma que fere de morte a “ordem” imperial é parte de
outras a compor um vendaval de mudanças. Em si, os temas pertinentes ao
Encilhamento, seus indefectíveis consórcios e sindicatos, as químicas e
falcatruas financeiras, trazem horror ao vagaroso acionista do Império. E, mais
ainda, as inovações “schumpeterianas” no terreno da moeda, os bancos de
emissão a alimentar os projetos grandiosos da República, pareciam destruir a
monotonia imperial em nome de ideias fascinantes, ainda que genéricas, de
progresso, que não se sabia bem aonde iam nos levar. Com efeito, mudanças
paradigmáticas nas leis bancárias e societárias empreendidas por Ruy
Barbosa, todas no controvertido 17 de janeiro de 1890, rompem o marasmo
das assembleias que enchiam de tédio o acionista machadiano, mas retiram-lhe
completamente qualquer noção de segurança. Há muita excitação e
empreendedorismo, bom e ruim, muito do que era feito por Mauá e do que foi
reprimido no Império, mas também malversações infinitamente mais criativas,
maiores, mais elaboradas que as modestas lambujens imperiais do Capítulo 1,
ou que a malandragem de Gogol no Capítulo 11. Os horizontes de
modernização do país ampliam-se por todo lado, e o cronista parece alternar-
se entre angústia, revolta e fascinação.
É um erro tentar enquadrar os eventos do início da República como meros
reflexos de uma “bolha”, uma euforia artificial causada por medidas
deslocadas e posteriormente desfeitas sem deixar vestígio. A historiografia
econômica abandonou faz tempo esta hipótese, principalmente através de
estudos sobre os reais avanços do processo de industrialização do país.31
Todavia, o equívoco permanece, pois se ajusta à perfeição ao desejo
monarquista de diminuir os feitos da jovem República; é a visão perdedora do
processo de destruição criadora. É nesse contexto que deve ser lido o
superlativo romance de Taunay sobre o Encilhamento, que foi extremamente
bem-sucedido em seu propósito declarado de caracterizar como desonestos e
irresponsáveis todos os aspectos da política econômica da República. A
historiografia econômica, com efeito, não utiliza o romance de Taunay como
Faoro faz uso da ficção machadiana; os vieses e ressentimentos do autor
desqualificam a obra como um retrato não politizado (não vamos falar em
objetividade) dos eventos.32 Logo abaixo, valerá procurar nuances entre as
visões sobre o Encilhamento de Taunay e Machado, a deste, sem dúvida, bem
mais leve, terá sido afetada pelo fato de que, conforme lembra Oliveira Lima
em suas memórias: “Se o Encilhamento não tivesse vindo por si, devia a
República tê-lo inventado, porque não houve melhor diversão na política.”33 O
fato é que mesmo Gledson, seguindo Schulz, parece enxergar no Encilhamento
nada mais que corrupção, caindo na armadilha de Taunay, e ignorando a leitura
mais amadurecida que a historiografia faz do episódio.
Outro erro, talvez tão grande, é o de tentar enquadrar as mudanças dentro
dos apertados figurinos marxistas, e seus esquemas de classes, tão bem
desbaratados pela radiografia feita por Faoro a partir de material machadiano.
O povo assistiu “bestializado”, como na expressão consagrada de Aristides
Lobo, à quartelada que iniciou a República, num ambiente que Evaristo de
Moraes chamou de “porre ideológico”, tamanha a mistura de ideias pairando
bem alto, como nuvens carregadas e caóticas, e de exigências da vida prática
que acenderam o rastilho das reformas.34 Diante disso, assinala Faoro: “O
burguês machadiano … respira o mesmo ar dos burgueses de Molière. … Ela
circulará, nas suas páginas de ficção, sem consciência de missão
revolucionária, inovadora ou transformadora, mesclada, ora em tom leve, oras
em cores pesadas, com a tinta do desdém e do ridículo.”35
É interessante observar que, se era possível dizer que o progresso estava
travado por impedimentos institucionais de diversas ordens, vários deles
imbricados no equilíbrio político e institucional próprio do Império, também é
verdade que é o Estado, agora não mais “metalista” e marcadamente
patrimonialista, mas republicano, positivista e saint-simoniano, que assume a
vanguarda das transformações:
O próprio Estado, tímido tutor ao tempo de Mauá, continua tutor, mas
torna-se ousado, audaz, extravagante … Dele partiu o impulso de
modernizar o Brasil de golpe, atravessando-o de estradas de ferro e
encharcando-o de indústrias. Dele partirá o protecionismo, ele será a
fonte última e necessária das crises financeiras, exacerbadas em
periódicos surtos inflacionários, seja na manipulação dos preços do café,
ou mais tarde, no esforço de substituir as importações pela indústria
nacional.36
Nada menos acidental que a moeda tenha sido o impulso mais fundamental
a todo o processo renovador, como em outros casos em nossa história. Nada
mais bem achado que o cronista afirmar que 17 de janeiro de 1890, data da lei
de reforma bancária e da nova lei societária, ambas de Ruy Barbosa, tenha
sido “o primeiro dia da Criação”. Não é preciso juntar-se aos cultores
incondicionais de Ruy, nem tomar partido no embate entre “papelistas” e
“metalistas”, para afirmar que a moeda do Império era uma instituição arcaica,
o reflexo da contradição entre o drama da escassez de ouro e o apego à
doutrina da civilização do padrão ouro.37 O fato é que o desmoronamento do
Império decide o impasse de tantos anos a favor do “papelismo”, vale dizer,
inovando ao empregar a moeda fiduciária inconversível emitida sobre lastro
em apólices como nos EUA. “O momento seria de Ruy”, diz Faoro, “crente no
progresso, sacerdote máximo da grande arrancada que mudaria a rotina em
energia”.38 Mas o roteiro da inovação raramente é organizado. O início dos
novos bancos de emissão da República mistura altos desígnios, boa doutrina e
a mais rasteira improvisação, ou mesmo doses de mercantilismo e
malversação. A torrente de papel-moeda parece em tudo replicar a
experiência de John Law, ou, para não ir muito longe, a do primeiro Banco do
Brasil em 1808, ou a do segundo em meados do século. O experimento parece
descarrilar ao final de 1890, com a notícia da crise Barings em Londres e o
colapso cambial de 1891. A euforia converte-se em pânico, parecendo
replicar o paradigma estabelecido na segunda parte do Fausto, a partir de uma
alegoria ao próprio John Law, onde Mefistófeles ensina ao Soberano, numa
noite de carnaval, a mágica do papel-moeda, apenas para ver o reino acordar
na manhã seguinte arruinado depois de uma falsa euforia. Machado, religioso e
conhecedor de Goethe, e talvez confuso como Fausto diante dos dilemas
morais deste novo capitalismo, não deixaria de mergulhar neste fértil terreno
de reflexão, como se verá no Capítulo 17, intitulado “O sermão do diabo”, e
também no Capítulo 23, que acham parentesco próximo em um conto famoso,
“A igreja do diabo”, bem anterior, de 1884.* O mundo moderno da República
era laico, como sublinha Faoro:
O homem religioso, o cristão, o católico, são extravagâncias e
inutilidades na máquina do mundo. O católico perdeu suas raízes cristãs
que o alimentaram e lhe insuflaram o sentimento da divindade. Sua
existência social se determina pela qualidade de burguês, cujo último
estágio é o do acionista, e não de membro da cristandade, da igreja.39
[grifo nosso]
Machado angustiado brinca com os paradoxos decorrentes dos
mandamentos deste arremedo de “era moderna” então se iniciando, e que
parecem em sintonia com o que via à sua volta. Marshall Berman, a propósito
do drama de Fausto, diria que o seu último ato é “a tragédia do
desenvolvimento capitalista”, ou mais precisamente, uma “nova síntese
histórica entre o poder público e o poder privado, simbolizado na união de
Mefistófeles, o pirata e predador privado, que executa a maior parte do
trabalho sujo, e Fausto, o administrador público, que concebe e dirige o
trabalho como um todo”; e mais: “O Mefisto goethiano, como seu oportunismo,
sua exaltação ao egoísmo e infinita falta de escrúpulo, ajusta-se com perfeição
a certo tipo de empresário capitalista.”40 Nossa aventura na modernidade
começava em altíssima velocidade.
É sabido que o “ano terrível” de 1890-91, no dizer do próprio cronista,
representou um hiato na sua produção, para o qual várias possíveis
explicações, pistas e coincidências já foram apresentadas e exploradas. Sem
prejuízo dessas possibilidades, mas ultrapassando-as, Gledson pergunta “se o
silêncio de Machado durante 1890 e 1891 não terá sido parcialmente devido
ao fato de não se sentir em sintonia com os tempos que corriam, de tal modo
que a sua relação habitual com os seus leitores tenha sido comprometida”.41 O
“programa” implícito em “Bons dias!” estava bem claramente encerrado; seu
retorno à crônica em 1892 seria num modelo novo, na série “A semana”, não
inteiramente anônimo – e, por certo, não há meio anonimato –, dedicado aos
eventos da semana, novidades e assuntos modernos por todo lado, sendo esta
sua série mais longa e onde atinge o seu apogeu como cronista.
O principal assunto econômico, no início, é o Encilhamento, mas a
primeira crônica desta série a tratar de economia retorna ao acionista, e
discute o novo formato das atas de assembleias de um inacreditável Banco
Iniciador de Melhoramentos (Capítulo 14), fictício apenas no sentido que
Taunay diria serem todos os novos empreendimentos deste tempo. Com efeito,
o acionista está alerta aos novos acontecimentos, e canalha como nunca ao
recomendar as debêntures da Geral – Companhia Geral das Estradas de Ferro
– a seu amigo chacareiro, no Capítulo 15, guardando grande semelhança com o
benfeitor que concede alforria a Pancrácio no Capítulo 9. É, todavia, nos
Capítulos 20 e 21 onde vamos encontrá-lo a empregar “a mesma tinta”42 de
Taunay, e de tantos outros, ao desancar John Law, e ao denunciar o que hoje
seria designado, com mais naturalidade, de “alavancagem”. Trata-se aí das
possibilidades ensejadas pela lei societária na formação de novas sociedades
e em particular do mecanismo absurdo de pagamento de vantagens (lambujens)
indevidas aos organizadores do empreendimento, falsos dividendos antes
mesmo de haver o empreendimento, para não falar de lucros. Ora, mas o
acionista rentista, acostumado a receber dividendos de lucros fictícios, estava
em posição de reclamar dessas práticas? Por que as rendas decorrentes de
privilégios, aí incluído o aluguel de escravos, eram menos ilegítimas que os
“ágios” apropriados pelos empresários do Encilhamento? Que dizer da
própria escravidão?
As imoralidades do Império, bem mais contidas ou mais bem assimiladas
ou ocultas, não servem como álibi para as da República, as quais parecem
uma espécie de vingança dos “espíritos animais” enjaulados durante tantos
anos. Nessa linha, como observa Faoro: “Entre Machado de Assis e um
disfarçado Taunay, uma nota comum ostensiva: o escândalo das fortunas da
noite para o dia, chovidas na Bolsa. As carruagens em desfile magnífico,
cocheiros mais dignos que os donos – tudo o lado exterior de um grande
momento.”43 Ambos, amigos de longa data, “filhos legítimos da cautelosa
classe proprietária, inquieta com o solapamento de suas rendas,
aposentadorias, dividendos e aluguéis”.44 Ambos “sentiam a falsidade do
entusiasmo, presos a velhos, teimosos, sólidos e ajuizados preconceitos”.45
Tinham razão, como sugere José Murilo de Carvalho, na medida em que “se
deu uma vitória do espírito do capitalismo desacompanhado da ética
protestante” e em que “o que era antes feito com discrição, ou mesmo às
escondidas, para fugir à vigilância dos olhos imperiais, agora podia ser
gritado das janelas ou dos coches”.46 Mas, novamente, com que autoridade
moral poderia a monarquia apresentar-se superior, tendo em vista o vasto
sistema de privilégios sobre o qual se manteve, para não falar em sua
dependência do instituto da escravidão? Que dizer da frustração em não
indenizar os proprietários, do que teria resultado a República, e da ausência
de qualquer menção à ideia de se indenizar os escravos pelos maus tratos?
Difícil o debate no campo da ética; a solução parece advir – e dificilmente
de forma acidental – da máxima humanitista de Quincas Borba: ao vencedor as
batatas.
O contraste nem tão sutil entre Machado e Taunay começa a se observar
nas crônicas que se seguiram ao Encilhamento, onde Machado trata de outros
aspectos da vida econômica da jovem República.* São visíveis os sinais de
fascinação com diversos dos ingredientes básicos do progresso. Na mesma
crônica onde avacalha com John Law (Capítulo 20), exalta o novo bonde
elétrico; como observa Faoro em seu extraordinário capítulo sobre as
carruagens, o novo bonde é o transporte coletivo, “é a sociedade democrática
que se expande e cresce – sociedade mal-educada, que cospe no chão e fala
alto”, e disputa a rua com os landaus, cabriolés, coupés, “num painel autêntico
do que vale cada homem no conceito de outro homem”. Na mesma crônica,
lança um olhar nada benevolente sobre as vítimas inevitáveis do progresso:
“não vamos concluir contra a eletricidade … condenar todas as máquinas, e,
visto que há naufrágios, queimar todos os navios”.47 No terreno da renovação
urbana (Capítulo 23), sua resignada concordância com a demolição do grande
cortiço – o “Cabeça de Porco” – por Barata Ribeiro, uma espécie de Ruy
Barbosa feito prefeito, uma antecipação de Pereira Passos, tem tonalidades
extremamente progressistas: “É o típico choque entre uma figura cientificista e
positivista … e uma tradicional forma de vida que podia facilmente, ainda que
de forma simplista, ser descrita como corrupta, em que as leis foram feitas
para ser ignoradas.”48 Nesta mesma crônica, pela fecunda via da arte das
transições, o cronista se debruça sobre o Banco do Brasil, que, a bem dizer,
também estava condenado, como sugerem seus comentários sobre a fusão que
criou o Banco da República nos Capítulos 22 e 23. “Chovem assuntos
modernos”, deslumbra-se o cronista. Um novo país pode emergir dos
escombros do velho, porém, há um problema com o passado e a tradição, ou
com os próprios escombros. É preciso que haja uma solução para as pessoas
desalojadas do “Cabeça de Porco”, os excluídos, vítimas inocentes do
progresso, não as culpadas, na época, já no exílio. Analogamente, o papel-
moeda “excedente” precisa ser estatizado, ou encampado, para se restituir
normalidade às finanças públicas, ao câmbio, e ao custo de vida. A
encampação, porém, é muito complexa, como efetivamente pondera nos
Capítulos 18 e 25. Como são complexos também os problemas dos impostos
regionais inconstitucionais (Capítulo 5), do troco e as emissões clandestinas
dos municípios (Capítulo 27) e dos impostos sobre os charutos (Capítulo 15) e
sobre os remédios importados (Capítulo 32).
Ambíguo, hesitante ou oblíquo, não poderia deixar de ser o seu olhar sobre
o “bota-abaixo” urbano e sobre a baixa do câmbio, ambos a indicar a
destruição de um passado ordenado e acolhedor, que ia ficando tanto mais
distante e irrecuperável quanto mais o câmbio se afastava dos 27 pence por
mil-réis, a paridade de 1846. O afundamento do câmbio, no começo, parece
um fastio, pois se se devia ao excesso de emissões ou à balança de comércio
(Capítulo 19), que diferença fazia? No começo, em 1891, a desvalorização
equiparava-se, quando muito, aos níveis observados no tempo da Guerra do
Paraguai. Talvez fosse apenas um outro mau momento, uma baixa própria de
tempos de revolução, portanto temporária e ainda reversível. É inevitável uma
leitura filosófica da desvalorização da moeda nacional, que, conforme observa
Gledson, “fez com que Machado estivesse mais consciente da completa falta
de valores fundamentais, não só nas áreas de economia e da moral, como
também noutras”.49 A decadência da moeda, que nesta época tinha no câmbio o
seu ponto focal, mexia profundamente com o imaginário do cronista; a moeda,
afinal, é um símbolo nacional, como o hino e a bandeira. A flutuação cambial e
seus mistérios, objeto dos Capítulos 29, 30 e 33, e a marcha do câmbio para
regiões desconhecidas, nos levam, ao final, em 1896, a um “algarismo que eu
presumia nunca ver nas tabelas cambiais”, diz o cronista, ou o acionista (no
Capítulo 36). Era a indicação de que não havia mais retorno.
A liquidação dos excessos, ou a reacomodação das finanças públicas, vai
evoluindo lenta e dolorosamente, ao sabor de tensões entre o público e o
privado, presentes no debate sobre o “salvamento” do Banco da República e
de outros bancos emissores.* A encampação de suas emissões, entendida
como a “compra” das mesmas, descontadas as dívidas desses bancos com o
governo, e estabelecida alguma indenização pela renúncia da faculdade
emissora, era um projeto que requeria fundos. Por conta disso, repetidas
vezes, se cogita vender a Estrada de Ferro Central do Brasil, e também fazer o
“saneamento” da Leopoldina para posterior privatização (Capítulos 30 e 33).
O cronista acompanha esses temas com genuíno interesse; afinal, é o
patrimônio do acionista!
O problema se aproxima de uma solução quando o patrimônio líquido do
Banco da República, cujo ativo compreendia pedaços de quase todos os
empreendimentos do Encilhamento, começa a andar muito perto do chão. A
encampação acaba ocorrendo, e os números para o deficit e para a dívida
pública impressionam vivamente o cronista (Capítulo 31). O acionista parece
compreender alguns aspectos básicos do novo mundo: percebe que não apenas
o seu dividendo não virá, como também que ainda vão lhe tirar algum. Começa
a comportar-se como um acionista moderno, na medida em que enxerga
também o lado do passivo, que pode perfeitamente alcançá-lo. Em vez de
lucros fictícios, prejuízos reais, decorrentes do esbanjamento e do deficit.
Para este rentier à la monsieur Jourdain, era muito claro que “a fruição de
rendas deveria, para perdurar, ser moderada, cautelosa, prudente; fora desses
limites, viria o desperdício, o esbanjamento, que trariam na cauda a ruína e a
pobreza”.50 Diferentemente do que ocorria no Império, o prejuízo agora chega
ao acionista, e em variados formatos. Quando se trata de impostos, há certa
indiferença no Capítulo 15, de 1892, que resta bastante reduzida no Capítulo
32, de 1895, mas permanece o conformismo, como no Capítulo 38, de 1897.
Em contraste, há irritação quando a conta dos excessos chega pelo mecanismo
da inflação que lhe subtrai poder de compra (Capítulos 36 e 37), ou pelo
aumento da dívida pública (Capítulo 31), ou pela postergação do pagamento
dos juros das apólices, que o vitimou a partir de 1898 (Capítulo 40). Sim, a
moratória de 1898 alcança os títulos relacionados em seu primeiro
testamento,* que são os mesmos que constam em 1906, com alguns novos, do
mesmo gênero, correspondentes aos juros e amortizações não pagos. Esses
títulos nunca seriam inteiramente quitados: duas outras moratórias, em 1914 e
1931, e mais uma “renegociação” em 1943, resultariam em pagamentos de
juros e amortizações em novos títulos, e em descontos, de tal sorte lhes
estendendo o prazo que, já no pós-guerra, a inflação faria o trabalho
derradeiro de lhes reduzir a valores irrisórios. Em 1967, quando o governo
quis resgatá-los na íntegra, uma compensação pueril pelas perdas incorridas, a
maior parte de seus detentores preferiu manter nas paredes as belas cautelas
representativas das apólices em vez de receber míseros centavos pelas
rutilantes libras esterlinas de outrora.
A série “A semana” parece se encerrar em fevereiro de 1897, quando o
acionista dá leves indicações de que já se comporta como contribuinte
(Capítulo 38). Indicações apenas; diz o cronista: “Ninguém se há de negar a
pagar os impostos. Se forem muitos e grossos, que tornem a vida cara, farão o
ofício do calor e da trovoada, que é dar princípio às conversações.” Na breve
retomada da crônica em novembro de 1900, apenas duas novas crônicas são
publicadas, como se servissem para encerrar a série, desta vez em definitivo,*
e esclarecer umas tantas coisas. Na primeira delas, reproduzida no Capítulo
39, ressurge o acionista com destaque, quase como se viesse para nos indicar
o desfecho de seu percurso. O momento é de nostalgia, por tantos e amplos
motivos, e especificamente nesta crônica, pelo fim do Banco Rural e
Hipotecário, que tinha iniciado suas atividades nos anos 1860, e, mais,
significativamente, pela morte do ex-escravo João, sineiro da Igreja da Glória,
de 1853 a 1900. João dobrou e repicou os sinos para batizados e casamentos,
gabinetes e guerras, pela Abolição e pela República, como faria pelo Império,
se voltasse. O cronista, que em tempos idos contribuiu para uma série
denominada “badaladas”,51 e adotou o disfarce de um relojoeiro, comovente e
obliquamente, ocupa o lugar do sineiro, que viu absolutamente tudo, do
isolamento de seu campanário, e registrou os acontecimentos à sua maneira.
Nesse contexto, em mais uma mágica transição, o cronista recua 30 anos e
encontra um acionista, “lento, aborrecido ou zangado”, que vai ter a uma
assembleia do Banco Rural e Hipotecário. Ali o cronista ouve o que uma
“pessoa de hoje” diz ser um princípio eterno: “O acionista é um substantivo
masculino que exprime … credor de dividendos … que a diretoria administre,
vá, mas que lhe tome o tempo em prestar-lhe contas, é demais. Preste
dividendos, são as contas vivas.”
O enredo desta antologia parece, assim, se fechar; depois de uma longa
aventura pelos riscos da modernidade, o acionista Ulisses, o rentista à moda
de Molière, retorna ao porto de onde foi tragado pelo destino para enfrentar as
mudanças iniciadas pela Abolição. Continua rentista tal como no início, pois,
deveras, certos princípios são eternos. Mas o seu olhar oblíquo agora tem um
alcance maior, uma vez que se enxerga sócio não mais do imperador, mas das
finanças públicas, que, afinal de contas, “são finanças” – o que tinha
significado claro, em sua obscuridade, para ele, era um bordão – e são
“públicas” de um jeito que nunca foram. Essas finanças, agora públicas,
traziam riscos para o acionista, o detentor de apólices; mas este, 30 anos
depois, continua preguiçoso e indisposto com a “administração”. Nada parece
ter mudado; melhor dizendo, o cronista não tencionava alterar a sua postura
como acionista. O pessimismo machadiano com o “barro humano” encontra aí
uma de suas mais interessantes manifestações.
____________
* O “olhar” de Machado de Assis já mereceu muitos estudos. Nossa abordagem compartilha
com aquelas que se distanciam dos determinismos. Como afirma Bosi, o olhar machadiano
“tem a vantagem de ser móvel, o que não é o caso, por exemplo, de ponto de vista. O olhar
é ora abrangente, ora incisivo. O olhar é ora cognitivo e, no limite, definidor, ora é emotivo
ou passional. O olho que perscruta e quer saber objetivamente das coisas pode ser também
o olho que ri ou chora, ama ou detesta, admira ou despreza. Quem diz olhar diz,
implicitamente, tanto inteligência quanto sentimento.” (A. Bosi. Brás Cubas, p.11.)
* Como diz J. Gledson: em sua nova introdução para “A semana”, “a declaração ‘não sei
finanças’ torna-se mais comum que as várias versões do original, ‘não entendo de política’.
Devemos ter cuidado de não levá-la a sério, e de maneira alguma supor que, porque sua
reação é, no fim das contas, de natureza moral, ele tinha decidido ser superior àquilo que
não compreendia … ” (J. Gledson em Por um novo Machado de Assis, p.217.)
* Vale uma observação sobre o período dentro do qual fizemos nossa seleção, que se inicia
em 1883. Há pouco material na década de 1870, e quase nada na década anterior, que trate
relevantemente de matéria econômica, de modo que a aplicação dos critérios descritos não
nos faria incluir nada produzido nesses anos. Todavia, há uma crônica de 1859, escrita por
um Machado de 20 anos de idade, intitulada: “A odisseia econômica do sr. Ministro da
Fazenda” (publicada em O Paraíba em 26.06.1859). Ainda que de certo interesse, a
exclusão desta crônica se fez tanto pela qualidade do conteúdo quanto para não desfazer a
unidade que identificamos no material posterior a 1883.
* Este, por sua vez, foi resultado da fusão do Banco Nacional do Brasil, antigo Banco
Internacional, controlado pelo visconde de Figueiredo, e o Banco dos Estados Unidos do
Brasil, controlado pelo conselheiro Francisco de Paula Mayrink. Figueiredo e Mayrink são
figuras centrais do Encilhamento e personagens do famoso livro de Taunay (ver Capítulos
15 e 22).
* A sátira menipeia remonta a Marco Terêncio Varrão (116 a.C. a 27 a.C.), com o seu
Saturae Menippeae. O adjetivo “menipeia” provém de Menipo de Gadara (século III a.C.).
No prólogo às Memórias póstumas, Brás Cubas declara que adota a “forma livre de um
Sterne”, autor de A vida e as opiniões de Tristram Shandy (1759-67), obra influente do
gênero menipeu, que alude a antecessores como Luciano de Samóstata. No texto
machadiano, a partir dos anos 1880, notam-se manifestações da sátira menipeia, como a
paródia, o subterfúgio, a profanação, o disfarce e, em especial, a desconstrução de formas
literárias. A isto se refere o termo “shandismo”, de Sergio Paulo Rouanet. (Sobre isso ver
E. Rego, O calundu e a panaceia, 1989.)
* Revista para a qual Machado escreveu de 1879 a 1898 e onde publicou alguns de seus
contos mais interessantes, inclusive a primeira versão de Quincas Borba em folhetins.
* Nota-se que há muitos outros conteúdos nessas crônicas, seja no terreno da política, seja
no debate específico sobre o posicionamento de Machado de Assis no tocante à
escravatura. São crônicas extensamente analisadas sob esses ângulos por diversos
estudiosos da crônica machadiana. Aqui, todavia, se procura um ângulo novo, como
explicado, consistente com nosso enredo.
* Há também parentesco próximo com o Capítulo 9 de Dom Casmurro, em que Deus
também se demite de seu cargo, deixa a terra ao Diabo, com quem divide os direitos
autorais, mas recebe em ouro ao passo que Satanás em papel.
* O retrato do Encilhamento que Machado faz em Esaú e Jacó parece-me diverso daquele
de Taunay. (Sobre isso, ver: J.M. Machado de Assis, Obras completas, vol. 8, cap. 73.)
Machado é pessimista por princípio, mas escreve em 1904 com um certo distanciamento
dos tempos turbulentos. Taunay enfatiza as trampolinagens e a corrupção, como quem quer
desfazer aquele momento infeliz. Não há “lado bom” naquele momento, nem no que se
seguiu, para Taunay. Não me parece que seja o caso de Machado, não obstante seu
pessimismo. Seu olhar crítico parece mais focado nas ilusões de progresso que no
progresso efetivamente acontecido, que parece reconhecer e apoiar.
* Antes disso, tema semelhante é o do salvamento da Companhia Geral de Estradas de
Ferro, a “Geral” do Conde de Leopoldina (Henry Lowndes), tratada pelo cronista com
desdém em várias crônicas.
* De 30 de julho de 1898, um mês e meio depois do contrato de 15 de junho de 1898, que
definiu a moratória e o funding loan que alcançou os títulos do empréstimo de 1895 (mais
detalhes no Capítulo 40).
* É difícil especular sobre as razões para a interrupção da crônica. Mesmo aos 58 anos,
dificilmente seria cansaço. Depois de 1897, Machado ainda produziria três romances
importantes, Dom Casmurro (1900), Esaú e Jacó (1904) e Memorial de Aires (1908),
além de volumes de contos, teatro e poesia. A ocupação nova que talvez lhe tenha subtraído
o interesse pela crônica era a Academia Brasileira de Letras, fundada em 1897 e que teve
Machado como primeiro presidente. Sempre se pode dizer que, em 1897, encerrava-se um
ciclo na vida do país, marcado pelas inovações do início da República e que, neste
momento, se esgotavam em uma terrível crise financeira.
ASPECTOS EDITORIAIS DA COLETÂNEA

Antes de passar o leitor às hábeis mãos do cronista, algumas observações


importantes devem ser feitas sobre os aspectos editoriais desta coletânea. A
primeira diz respeito à necessidade inescapável de comentários, notas ou
outros auxílios que tornem as crônicas acessíveis ao leitor contemporâneo.
Trata-se aí não apenas do contexto, como também do detalhe, da alusão breve,
porém cortante, que pode facilmente escapar a quem não teve acesso às
reportagens da Gazeta de Notícias na semana anterior. Nesse tópico, a edição
que fez John Gledson da série “Bons dias!”, acompanhada da edição que
Raymundo Magalhães Júnior fez desta mesma série (em 1956, sob o título
“Diálogos e reflexões de um relojoeiro”), e do que Gledson disse ser o
primeiro de três volumes para a série “A semana”, fornecem, em conjunto, um
bom paradigma que procuramos seguir na medida de nossas possibilidades.
Todavia, nosso trabalho nesse sentido ficou mais facilitado pelo fato de
estarmos lidando com crônicas que tratavam de temas e problemas, os eventos
da economia, escolhidos de antemão. Nessa feliz circunstância, em boa parte
dos casos, um pequeno texto introdutório explica o problema ou o contexto, e
para tanto não foi preciso ir além da literatura secundária sobre a história
financeira e monetária do país no período, disposta na bibliografia. O leitor,
dessa maneira, poderá compreender os eventos e os debates, para, em seguida,
debruçar-se sobre o trabalho do cronista com a maior parte da informação
necessária. No detalhe, todavia, o desafio é imenso: são inúmeras alusões e
referências que é preciso buscar na própria Gazeta ou em material da época.
Para as crônicas que constavam dos volumes que Gledson e Magalhães Júnior
editaram pudemos contar com as notas redigidas por eles, apenas adaptadas ao
contexto desta coletânea, e ajustadas com os parágrafos introdutórios. Nas
crônicas que não estavam disponíveis neste formato anotado por Gledson ou
Magalhães Júnior, procuramos seguir os mesmos critérios, contudo, sem
necessariamente voltar à Gazeta de Notícias para familiarizar-se com os
eventos da semana de que fala o cronista. Este procedimento foi requerido
apenas para casos pontuais. Em algumas situações, onde o próprio cronista
falseava referências, ou exibia uma erudição que mesmo o seu leitor da época
não alcançava, seguimos Gledson: “Precisamos contentar-nos
(provisoriamente) com a ignorância.” Os critérios para se fazer notas
1

envolvem, sem dúvida, muitos perigos: o próprio Gledson adverte que, em se


tratando de notas, algumas edições “parecem pecar por excesso ou
insuficiência – às vezes, por estranho que pareça, pecam duplamente, anotando
com fartura o já sabido, e omitindo o que o organizador não sabe, ou não
pesquisou”.2 A medida certa sempre dependerá do leitor; esperamos que, nesta
coletânea, tenhamos acertado a dosagem. Na verdade, nesta coletânea
procuramos inovar na definição do formato das notas de rodapé, a fim de não
atulhar o leitor com informação bibliográfica ou historiográfica que melhor se
encaixaria numa edição crítica e que termina conferindo peso excessivo a uma
leitura que deve ser leve e fluida. São crônicas, ao fim das contas, não vamos
lhes subtrair sua maior virtude, a leveza. Com este espírito destacamos as
notas efetivamente indispensáveis, que assumem características de
comentário, ao final de cada capítulo. As outras notas, sobre o texto e sobre
comentário, de interesse essencialmente bibliográfico, são deixadas para o fim
do livro.
Uma segunda observação diz respeito à política seguida neste volume com
respeito aos títulos das crônicas, ou, melhor dizendo, as “chamadas” para cada
um dos capítulos. Nas edições “integrais” as crônicas são referidas
unicamente pelas suas respectivas datas de publicação, uma ou outra aparecia
com um título, quando este era fixado pelo cronista. Aqui, com vistas a melhor
encaminhar o nosso enredo, resolvemos adotar as “chamadas”, conscientes do
atrevimento que isto representa, embora, para reduzi-lo ao mínimo, nada mais
fizemos que pinçar uma pequena sentença do próprio texto, indicativa do
assunto tratado. É claro que isto representa uma interferência no conteúdo das
crônicas que muitos considerarão intolerável. Por que o trecho escolhido e
não outro? Pois bem, o critério foi o enredo, o encadeamento temático
proporcionado pelo conjunto, e o desejo de orientar o leitor. Em apenas três
casos o próprio Machado deu títulos às crônicas quando as publicou em
coletâneas posteriores; nesses casos os títulos “autênticos” aparecem, sem
prejuízo das “chamadas” por nós utilizadas.
Por último, sobre as fontes, notar, em primeiro lugar que as 39 crônicas
aqui reproduzidas provêm de quatro séries distintas. As primeiras cinco
pertencem à série “Balas de estalo”, série diária, escrita por vários autores,
em que Machado contribuiu com o pseudônimo de Lélio. Elas se encontram na
Obra Completa, a da Editora Jackson e a da Nova Aguillar, e também em
Magalhães Jr., em suas Crônicas do Lélio.3 Todas essas edições têm lacunas,
assim como pequenas diferenças, como observa Gledson,4 de modo que
utilizamos sempre que possível a edição Jackson de 1957, ou posterior,
revista por Aurélio Buarque de Hollanda. O mesmo procedimento foi seguido
tanto para os Capítulos 6 e 7, dois exemplares da série “Gazeta de Hollanda”,
assinada por Malvólio, quanto para os Capítulos de 27 a 39, da série “A
semana”, ainda não trabalhados por John Gledson. Nos casos dos Capítulos de
8 a 13, pertencentes à série “Bons dias!”, e dos Capítulos de 14 a 26, crônicas
de “A semana” para 1892 e 1893, utilizamos os volumes editados por John
Gledson. Para a série “Bons dias!” também utilizamos amplamente, em
especial no tocante a notas, a edição feita por Raymundo Magalhães Júnior, de
1956. Em alguns casos foi necessário cotejar diferentes edições do mesmo
texto, inclusive com o recurso à edição mais recente da Obra completa da
Editora Nova Aguillar.
Os testamentos (Capítulo 40) foram publicados por Plínio Doyle5 e
posteriormente no catálogo da Exposição Machado de Assis por ocasião do
cinquentenário de sua morte. A publicação desses dois documentos – que se
encontram expostos no Museu da Justiça – não encontra impedimento legal, a
despeito da vontade expressa do testador de que o texto não fosse “divulgado
nas folhas públicas”. Na verdade, uma vez que o testamento veio a ser
apresentado em juízo, que determinou seu cumprimento, ele se tornou
acessível ao público em geral, de vez que o processo de inventário não tramita
em segredo de justiça,* e assim podem ser obtidas certidões públicas dos
documentos nele inserido, segundo nos asseguram os ilustres advogados
Carlos Maximiano Mafra de Laet e Cesar Augusto Sayão Garcez.
______________
* Não obstante, a publicação do testamento em 1906 de Machado de Assis na Revista da
Sociedade dos Amigos em 1959 foi feita “com autorização expressa do ilustre juiz em
exercício na Terceira Vara de Órfãos e Sucessões, dr. Ivânio da Costa Carvalho Cauby”.
(Sobre isso, ver: P. Doyle, “O testamento de Machado de Assis”, em Revista da Sociedade
dos Amigos de Machado de Assis, n.3, 1959.)
PARTE II

O OLHAR OBLÍQUO
DO ACIONISTA
1. [uma lambujem ao intermediário…]
2 DE SETEMBRO DE 1883, BALAS DE ESTALO

Em 22 de janeiro de 1883 o Tesouro Nacional contraiu junto aos Rothschild


& Sons um empréstimo externo, a juros de 4 ½ % no valor de £ 4,6 milhões,
sob a forma de bônus vendidos em Londres ao preço de 89%;1 com isso, e
com as comissões, o total captado foi de £ 4 milhões. A comissão de
corretagem aos contratadores foi de 2 ¼ %, cerca de £ 90 mil, e o esquema de
amortização era tal que os bônus estariam totalmente resgatados apenas em
1921. Entretanto, as duas moratórias de 1898 e 1914 resultaram em estender o
prazo do empréstimo, já misturado a outros reescalonados, em mais 26 anos, e
com isso os volumes reescalonados foram alcançados pela moratória de
1931.2 O mesmo tratamento foi dado às apólices do empréstimo de 1895 que o
próprio Machado declara possuir em seus dois testamentos de 1898 e 1906,
que veremos no Capítulo 40. As moratórias atingiram Machado, mas a
inflação foi-lhe muito mais cruel; esses títulos não tinham correção monetária,
que somente seria inventada nos anos 1960. Na verdade, justamente para
“limpar” o terreno para o uso mais amplo da correção na dívida pública, em
1967, por iniciativa do ministro Roberto Campos, os empréstimos “velhos”,
dentre os quais o de 1895, e cujo valor real havia sido corroído quase que
totalmente por mais de meio século de inflação, foram resgatados na íntegra,
para o que o Tesouro gastou quantias irrisórias. Os bônus não apresentados
para resgate, exclusivamente pelo desinteresse de seus possuidores, foram
declarados prescritos. Recentemente, um projeto de lei procurou instituir
retroativamente a correção monetária para esses empréstimos antigos que não
foram apresentados para resgate em 1967. As belas cautelas que enfeitavam
paredes, ou que eram vendidas em camelôs no centro do Rio e nos
“buquinistas” de Paris, desapareceram. A feitiçaria chegou a prosperar em
alguns tribunais, e a assustar o Tesouro Nacional. A “lambujem”, incluída no
principal do empréstimo de 1883, quase ressuscitou multiplicada pela ação da
correção monetária!

Certificado ao portador, no valor de 500 libras esterlinas de valor de principal, do


empréstimo externo de 1888 a juros de 4 %, no valor total de 6.000.000,00 libras
esterlinas.

E POR QUE NÃO trataremos um pouco de finanças? Tudo tem entrado no


tabuleiro das balas; só as finanças parecem excluídas, quando aliás todos nós
as amamos cá em casa, não só por motivos públicos, como por outros
particularíssimos.
Vá, pois, de finanças. Resolvi isto hoje às oito horas da manhã. Para não
vir de todo uma tábua rasa, peguei de um artigo de Leroy-Beaulieu, um
volume da Revista dos Dois Mundos, de 1852, os retrospectos comerciais do
Apóstolo, etc. Conversei mesmo com um barbeiro, que me provou a todas as
luzes que o dinheiro é mercadoria, por sinal que muito cara. Li tudo, misturei,
digeri, e aqui estou.
Aqui estou, e digo.
Já leram os debates de anteontem na câmara dos senadores e os de ontem
na dos deputados? Não; tanto melhor para mim. A questão é esta: o nosso
último empréstimo externo (alta finança) foi contraído diretamente pelo
governo, que se fez representar por um funcionário do Tesouro. O Sr. Corrêa,
primeiro, e depois o Sr. Junqueira, tendo notícia de que os antigos
empréstimos deixaram uma lambujem ao i ntermediário, perguntaram ao
governo, se este, isto é, o Tesouro, tinha ficado com a dita lambujem, uma vez
que não houve outro intermediário, senão ele mesmo.
A resposta resume-se assim: – os empréstimos deixam 2% para o
contratador, que costuma dividi-los com o intermediário. Sendo, porém, este o
próprio governo, não tem o contratador a quem dar a lambujem, e fica com
tudo. “O costume que existe em Londres (disse o Sr. Lafaiete) é uma
liberalidade dos contratadores, não tendo o Tesouro o direito de reclamar essa
comissão; por ter sido negociador o ministro da Fazenda: nada se recebeu.”
Parece que esta teoria inglesa, ou, mais especialmente, londrina, não
agradou a algumas pessoas. A mim mesmo confesso que desagradou
profundamente. Tinha intenção de pedir cinco mil-réis ao Lulu Sênior, dando-
me ele ainda por cima uns cinco ou seis tostões de lambujem, e confesso que o
exemplo dos Srs. Rotschilds quebrou-me as pernas.
Na verdade, qual é a condição para obter a liberalidade (ou lambujem)
dos Srs. Rothschilds? Quanto a mim, todo o mal foi do Tesouro. O Tesouro, em
vez de chegar à casa dos Srs. Rothschilds, propor o negócio, concluí-lo,
esperar que eles lhe mandassem a preta dos pastéis, e, cansado de esperar, ir
pedi-la; o Tesouro, digo, devia ter feito o contrário. Devia ir daqui a Londres;
uma vez chegado, a começar a passear pelas ruas, com as mãos nas algibeiras,
como quem não quer a coisa. Os Srs. Rothschilds, mal o vissem, corriam a
apertar-lhe a mão:
– V. Exª por aqui! Que quer? Que manda? Disponha de nós… Sabe que
fomos e seremos os seus maiores amigos. Vamos, entremos. Que quer? Dois
milhões? Cinco milhões? Dez milhões?
– Nada disso, responderia fleumaticamente o Tesouro. Venho empalhar
um crocodilo.
Surpresa dos Rothschilds, que não compreendem nada; mas o Tesouro,
sempre dissimulado, pergunta-lhe se não conhecem algum empalhador hábil,
ligeiro e moderado nos preços. Os Srs. Rothschilds, versados na escritura,
creem que o Tesouro está falando por imagem, e que o crocodilo é o déficit.
Oferecem-lhe dinheiro.
– Não, diria então o Tesouro; não preciso de dinheiro. Não imaginam
como ando agora abarrotado. Cheguei ao extremo (é segredo, mas vocês são
meus amigos), cheguei ao extremo de emprestar à 4%.
– Impossível!
– Verdade pura. O Paraguai pagou-me, há três semanas, tudo o que devia
e mais os juros capitalizados; tive algumas deixas, fiz uns negócios; em suma,
disponho agora de uns novecentos mil contos… E foi justamente por isso que
resolvi fazer uma pequena viagem à Europa.
– Pois bem; mas numa hora cai a casa, nós podíamos fazer um pequeno
negócio…
– Só se fosse muito barato.
– Pois sim.
– Com outra condição.
– Qual?
Era que o Tesouro punha o pé no pescoço dos Srs. Rothschilds. A
condição era dividir a lambujem. Eles, arriscados a perder a ocasião e o
freguês, aceitavam tudo. Emprestavam o dinheiro, davam a lambujem;
chegavam mesmo ao apuro de lhe mandar outro crocodilo.
Leroy-Beaulieu
Paul Leroy-Beaulieu ( 1843-1916), economista francês autoridade no
assunto. Em seu Traité de la Science des Finances, de 1912, dedica atenção
aos eventos monetários do Brasil como a crise de 1899 e as políticas de
Campos Salles e Joaquim Murtinho. i Sobre essas, há registro de
correspondência, em 1902, entre ele e o barão do Rio Branco.ii

Revista dos Dois Mundos


Fundada em 1831, em Paris, teve como proposta a reformulação de
conceitos literários. Raramente tratava de finanças.

Apóstolo
Jornal católico que circulou no Rio de Janeiro entre 1866-1901, amiúde
ironizado por Machado, como aqui, onde supõe que o Apóstolo tinha
“retrospectos comerciais” como os do Jornal do Commercio, estes sim,
podiam ser considerados “evangelhos” de uma bíblia dos financistas.

Sr. Corrêa
Senador Manoel José Corrêa, do Paraná.

Sr. Junqueira
Senador João José de Oliveira Junqueira, da Bahia. Depois ministro da
Guerra entre 1885-88.

Sr. Lafaiete
Conselheiro Lafaiete Rodrigues Pereira (1834-1917), do Partido Liberal,
então presidente do Conselho de Ministros, acumulando o cargo com o de
ministro da Fazenda. Como relata Magalhães Júnior, Lafaiete “tinha muitas
afinidades de espírito com Machado de Assis – inclusive no recitar Molière
em seus discursos parlamentares”;iii não só escreveu o opúsculo Vindiciae,
defendendo-o dos ataques de Silvio Romero, como foi o sucessor de
Machado na Academia Brasileira de Letras.

Lulu Sênior
Pseudônimo utilizado por Ferreira de Araújo, fundador e proprietário da
Gazeta de Notícias, em suas crônicas escritas para a série “Balas de
estalo”.

empalhar um crocodilo
A referência transparece um duplo sentido para este “crocodilo”. Em outras
alusões ao animal, parece haver a conotação de “dinheiro, valor, verba,
orçamento”, como no “Conto alexandrino”: “Cidade e corte, que desde
muito tinham notícias dos nossos dois amigos, fizeram-lhes um recebimento
régio, mostraram conhecer seus escritos, discutiram as suas ideias,
mandaram-lhes muitos presentes, papiros, crocodilos, zebras, púrpuras
…”iv. E também em Memórias Póstumas de Brás Cubas: “Ela era menos
escrupulosa que o marido; manifestava claramente as esperanças que trazia
no legado, cumulava o parente de todas as cortesias, atenções e afagos que
poderiam render, pelo menos, um crocodilo.”v

O Paraguai pagou-me
Referência a indenizações devidas ao Brasil, decorrentes da Guerra do
Paraguai (1864-70), que vinham sendo pagas nos últimos anos.
2. [o carneiro … acionista]
14 DE OUTUBRO DE 1883, BALAS DE ESTALO

A primeira de muitas crônicas onde Machado oscila entre ridicularizar e


exaltar a sabedoria do acionista, a crônica a seguir não é a única em que
utiliza a máxima segundo a qual o acionista importa-se mais com os
dividendos que os divisores (os administradores). À luz da sabedoria
contemporânea sobre governança corporativa, a crônica fornece, numa
primeira aproximação, uma alegoria instigante e politicamente incorreta para a
lógica do comportamento do acionista: que importa a administração e sua
burocracia, se os resultados são bons? Mas não é o que parece, ou melhor, não
é apenas isso. O acionista machadiano, como já observamos, está muito mais
para o que, nos dias de hoje, se descreveria como um “rentista”. Já
observamos que, aos olhos de Raymundo Faoro, este acionista machadiano
pertence à classe dos que viviam de renda, como os fazendeiros na cidade,
extraviados dos atos cansativos de plantar, remanescendo no ambiente urbano
colhendo apenas juros de apólices e dividendos, “renda certa, garantida, livre
de trabalho”. Tudo no contexto de um “capitalismo político”, de coloração
mercantilista e patrimonialista, onde a presença conspícua do Estado nas
empresas as tornava cronicamente dependentes de autorizações, concessões e
garantias, e, portanto, eram vistas como extensões do próprio Estado.1 Talvez
por aí se compreenda tanto o pagamento de dividendos sobre lucros não
propriamente constituídos, prática muito comum no Banco do Brasil e em seus
sucessores desta época, como a ansiedade do acionista rentista de recebê-los
em qualquer circunstância e sem que tenha de perder seu tempo com
assembleias.

ADIRETORIA DO BANCO Industrial e Mercantil convocou a assembleia geral


dos acionistas para discutir o projeto dos novos estatutos. Não apareceu
maioria. Nova convocação e igual resultado. Agora a diretoria convoca a
assembleia para o dia 25, e declara que nesta 3º reunião, qualquer que seja o
capital representado, a assembleia poderá deliberar, são os termos da lei.
Este fato destruiu uma das minhas mais funestas ilusões.
Eu supunha que o acionista era uma criatura obediente, pacata, sabendo
cinco até seis palavras da língua, e nenhuma negativa, salvo quando uma
negativa equivale à afirmativa; por exemplo:
– Parece-lhe que temos andado mal? – Não, senhor. – Acha que devemos
entregar a prebenda a outros cavalheiros? – Nunca!
Quem me meteu esta ideia na cabeça foi um carneiro que eu tinha em casa.
Nunca falei deste episódio, por medo dos sábios, que não admitem milagres;
e, agora mesmo, se falo dele, é para explicar a minha errada convicção, não
para discutir com pessoas competentes.
O carneiro de que trato foi-me dado por meu padrinho, no dia de meus
anos, e chamava-se Mimoso. Era eu que o soltava todos os dias, que lhe dava
de comer e beber, que o levava a passeio, coisas todas que ele agradecia e
pagava, tornando-se meu amigo.

Carruagem puxada por zebras de Walter Rothschild, modelo a seguir imitado por
Henry Lonwdes.

Um dia, estávamos ao portão (era em Catumbi), e passou um vizinho,


dizendo-me que ia receber uns dividendos de companhia. Não se imagina o
efeito que esta palavra produziu no carneiro. Começou ele a saltar, a querer ir
também, rua fora; consegui subjugá-lo, dizendo-lhe, em voz alta, como se fala
a um animal de estima:
– Anda, sossega, sossega, Mimoso!
Ele olhou para mim, com os olhos doces, próprios do carneiro, e
perguntou-me melancolicamente:
– Por que me não há de deixar ir receber os dividendos?
Os cabelos ficaram-me em pé, recuei aterrado, mas ele tinha os olhos tão
meigos, e a voz tão persuasiva, que a primeira impressão passou. Vim até ele,
e disse-lhe com brandura, que ele não precisava de dividendos, bastava-lhe a
minha estima, que lhe daria tudo. Demais, só recebem dividendos os
acionistas, e ele não era acionista.
– Sou acionista.
– Está brincando…
– Falo sério, muito sério. Nem creia o senhor que haja muita onça, lobo ou
leão, que compre ações; em geral são os carneiros, e uma ou outra raposa…
– Entretanto, você é o único que aparece assim; todos os outros…
Mimoso arregaçou a parte superior do focinho como se quisesse sorrir, e
replicou:
– Nós, os acionistas, temos a faculdade de andar com a forma de carneiro
ou de homem. Eu prefiro a de carneiro, por achá-la mais cômoda. Quem anda
em dois pés, mais facilmente cai; por isso ando em quatro. Além disso, há da
minha parte, neste procedimento, um certo amor próprio; – não quero usar cara
emprestada. Carneiro sou, carneiro fico.
Foi dali que me veio a singular persuasão em que estava; descubro agora
que foi – ou uma caçoada do animal –, ou uma alucinação minha.
Na verdade o caso do Banco Industrial e Mercantil prova que o acionista
tanto não é carneiro, que não obedece ao chamado. A diretoria não o convoca
para dar-lhe um ou dois cascudos, mas só e somente para ler-lhe e pedir-lhe
que discuta a nova lei que tem de reger o meneio dos capitais; e chama-o uma
vez, duas vezes, sem conseguir que ele lá vá.
Justamente, agora ocorre-me um caso precedido há tempos. Estava eu em
certo escritório de companhia, e no dia de assembleia. A diretoria tinha feito
uma convocação, sem resultado, e marcara esse novo dia. De repente, corre
um empregado a avisá-la que havia a uma pequena maioria de votos. Os
diretores correram a apanhar os acionistas presentes, antes que uma parte
deles desse às gâmbias – e inutilizasse a convocação. Tratava-se nada menos
que de prestar contas do ano.
Quando se deu este fato, tinha ainda em casa o carneiro, e consultei-o. A
explicação que ele me deu foi mais especiosa que verossímil. Disse-me que o
carneiro, seja ou não acionista, morre calado; e, para morrer calado, não é
preciso dar-se ao trabalho de estar sentado uma ou duas horas, ouvindo
algumas coisas, e levantando-se de quando em quando, para responder
invariavelmente:
– Parece-lhe que temos andado mal?
– Não senhor.
– Acha que devemos entregar a prebenda a outros cavalheiros?
– Nunca!
– Tudo isto é especioso. A verdade é que o acionista é indolente: importa-
se mais com os dividendos que com os divisores.
gâmbias
Dar às gâmbias, conforme empregado, tem o sentido de correr, escapar,
fugir (uso informal).
3. [o equinócio do dividendo…]
21 DE FEVEREIRO DE 1885, BALAS DE ESTALO

O desinteresse pragmático, e um tanto surpreendente, do acionista em outros


assuntos que não o dividendo, ganha um olhar benevolente a partir dos eventos
que cercam a reforma dos estatutos do Banco do Brasil, proposta por Anísio
Salatiel1 em assembleia de 9 de outubro de 1884, com vistas a adaptar os
estatutos à nova lei das sociedades anônimas. Uma comissão foi, então,
formada para consolidar as sugestões e adaptações, e na assembleia de 9 de
fevereiro de 1885 as propostas foram apresentadas para discussão. Apenas em
agosto de 1885 as alterações foram aprovadas, mas, conforme reporta o
historiador oficial do banco, “houvera tumulto nas reuniões …[do que]
resultara confusão e da perplexidade dos acionistas saíra triunfante a obra da
maquinação e da repreensível cabala”.2 Em razão dessas controvérsias, os
estatutos demoraram a ganhar aprovação do governo, consignada apenas em
1887 pelo Decreto 9.769, de 4 de agosto, fartamente discutido no Parlamento.
Sim, os estatutos do Banco do Brasil, instituição privada, tinham que ser
aprovados pelo governo, no âmbito de discussões que, por óbvio,
transcendiam o negócio bancário e envolviam as formas de o governo
influenciar a condução do banco. Neste contexto, parece claro que o acionista
comum, exterior à “cabala”, tem todos os motivos para se sentir como quem
possui títulos do governo, ou seja, nada delibera sobre a sociedade e, quid pro
quo, exige segurança e regularidade no dividendo, e sem mais explicações.
Embora aparentado, este não é o capitalismo de nossos dias.

VEJO, PELA ATA DA ÚLTIMA assembleia geral do Banco do Brasil, publicada


hoje, que o Sr. Dr. Anísio Salatiel aludiu, de passagem, às pessoas que dizem
dos acionistas dos bancos e companhias, que eles só esperam pelo equinócio
do dividendo importando-lhes pouco a administração dessas instituições.
Como o equinócio do dividendo é uma das minhas descobertas astronômicas,
acudo por ele, explicando-me com S. Exª.
Na verdade, a prova de que há, entre os acionistas, uma maioria consciente
dos seus deveres, essa prova é S. Exa. mesmo, autor da indicação para
reformar os estatutos do Banco. Mas não é verdade que foram precisas três
sessões para conseguir que se reunisse, não já a maioria dos interessados, mas
um número qualquer, nos termos da lei? E não se tratava de uma simples
assembleia para ouvir o relatório, caso em que os acionistas podem responder
que confiam nos seus administradores. Tratava-se nada menos que reformar a
lei constitucional do Banco, criar ou alterar direitos e obrigações, alargar ou
estreitar o campo dos negócios; tudo isso estava ou podia estar na indicação
de S. Exª, e nada disso arrastou os acionistas.
Quer S. Exª melhor prova do que a que dou? Repare no que fez, com muito
critério, a diretoria. Convencida de que acionista não gosta de deliberar, disse
comigo: “Esperar que eles discutam a indicação do Anísio, nomeiem a
comissão, esta faça o projeto e eles o discutam, coisa que vai longe. Nada; o
melhor é redigir eu mesmo um projeto, imprimi-lo e distribuí-lo.” Foi o que
fez; a maioria consciente é que discutiu o projeto, emendou-o, e por fim
mandou-o a uma comissão.
Demais, isso que se dá com o acionista, dá-se com o resto. A própria
câmara de que S. Exª é membro, tem oferecido todos os anos este singular
espetáculo: às 2 horas fica em metade, às 3 em um terço ou menos, às 4 e 5
está reduzida a um orador e três ouvintes, contando neste número o presidente,
um secretário, dois contínuos, um soldado da galeria e cinco espectadores. Se
o negócio debatido é o orçamento, ou entende com o que o Estado recebe e
paga, então há mais o ministro da pasta e menos quatro espectadores da
galeria; o quinto fica, mas dorme.
Onde existe nesse caso o equinócio do dividendo? Nas interpelações, no
voto de graças, quando há esperança de uma boa troca de apartes e discursos,
de palavras flamejantes, de invectivas, de sarcasmos, alguma coisa que faça
pular o sangue. Esse é o equinócio do dividendo parlamentar. Cada qual corre
com o escudelho da família para receber uma porcentagenzinha de sensações.
Esta varia, umas vezes é de 8%, outras de 5%, outras de 12%, e se há queda
ministerial, pode chegar a 15% ou 20%.
Eu, se tivesse tempo e papel, mostraria ao Sr. Dr. Anísio como é vasta a
maioria dos acionistas. Mas é que também há acionistas entre os leitores, e eu
não estou para levantar a sessão por falta de número. Creio que isto vai
econômico demais. Não acabarei, porém sem responder à única objeção que
S. Exª pode fazer-me, que é esta: – Como explica então a assiduidade dos
sócios nas nossas numerosas associações recreativas?
Podia dizer-lhe que o fenômeno explica-se justamente pela recreação; mas
a resposta seria superficial e vaga. Recreação é um termo geral, que nada
define, e pode caber a outras corporações de fins inteiramente diversos. Vou
aprofundar o problema em cinco ou seis linhas.
A explicação é esta, nada mais do que esta, e dou-lhe com a fórmula
filosófica e kantiana, porque em tais negócios toda a gravidade é pouca: é a
Polca an sich. Olhe que não se pode substituir o primeiro termo por outro,
valsa ou quadrilha. A quadrilha é o avesso da graça, a valsa é coisa
propriamente alemã, confinando na metafísica; a polca é a grande naturalizada
deste país, é a rasoura que nivela os palácios e as cabanas, os ricos e os
pobres. Tudo polca, tudo treme. Não há propriamente dividendo naquelas
associações; há perenidade de lucros.
Polca an sich
Na tradução literal do alemão: “polca dela mesmo.” Machado refere-se à
polca em várias crônicas, sempre como exemplo do espírito de imitação e
adaptação da cultura estrangeira que adquiriu, por aqui, tons nacionais e
populares, retratando o sagrado e o profano da vida diária, os boatos, a
política e os costumes. Este é o tema do conto “Um homem célebre”, “um
dos mais belos e pungentes”i: Pestana é um músico erudito que busca o
classicismo, prepara-se para uma sinfonia ou um réquiem, chama as musas,
mas “quando dá por si, é autor de mais uma inelutável e saltitante polca”.ii

Tudo polca, tudo treme


Esta era uma das expressões preferidas de Machado, incluída, por
Magalhães Júnioriii naquele rol de suas "repetições" contumazes.iv
4. [os capitais estão sujeitos
a emagrecer no verão…]
3 DE MARÇO DE 1885, BALAS DE ESTALO

Aqui, mais uma vez, o acionista insiste no despropósito de assembleias.


Como só o dividendo interessa, a deliberação ou debate sobre qualquer outro
tema, em assembleias longas e tediosas, é perda de tempo ou alguma forma
engenhosa e sorrateira de ameaçar o dividendo. Diante de uma assembleia que
toma medidas, em princípio, inconsistentes entre si, e com pompa, o cronista
assume que algo deve estar errado, ou convenientemente omitido. Mais
especificamente, o cronista reage de forma extremamente negativa,
flagrantemente mal-humorada, à ideia de se reter o dividendo, e/ou sujeitá-lo a
parcelamento, usando para a administração a imagem do anfitrião de Molière,
que só o é se oferece o jantar, ou seja, o dividendo. A alusão aos insiders e
aos comuns encontra uma imagem perfeita nos quiosques de época, que
claramente tinham, como as bancas de jornais de hoje, um comércio no seu
interior e outro muito diferente do lado de fora, onde sentavam-se os camelôs.
O inominado condutor “dos de dentro” é sempre o Estado. Afinal, é este quem
garante, apoia e controla os negócios, especialmente em se tratando de
empresa concessionária de serviços públicos, como era a Companhia de
Carris Urbanos; e, assim sendo, há de remunerar o acionista como se este
fosse credor de apólices.
Desenho em bico de pena de Machado de Assis.

HÁ UM FALAR E dois entenderes, costuma dizer o povo, e não diz tudo,


porque a verdade é que há um falar e dois, cinco ou mais entenderes, segundo
os casos. Contemplemos, por exemplo, a Companhia de Carris Urbanos.
A última assembleia geral dos acionistas desta companhia adotou duas
propostas: uma para reconstituir o capital por meio de medidas que se vão
descobrir e estudar, e outra para distribuir provisoriamente os dividendos de
trimestre em trimestre. Na vida comum, estas duas propostas pareceriam
excluir-se. Eu, quando tenho que reconstruir a algibeira, não dou aos amigos
mais que um aperto de mão. Nenhum me pilha charuto. Nas associações o caso
é diferente.
Em primeiro lugar, o dividendo trimestral é o mesmo que o semestral ou
anual; dá-se em quatro partes em vez de se dar em duas. Só aumenta a
escrituração e o trabalho.
Em segundo lugar, o sistema que consistisse em pegar dos dividendos e
reconstituir com ele o capital, suspendendo a entrega aos acionistas por algum
tempo, seria ridiculamente empírico e singularmente odioso, além de valer
tanto como uma pinga d’água.
Empírico, porque é assim que fazem os autores de quadrinhas, modinhas e
outras obrinhas miudinhas: estando cansados de compor, vão primeiro refazer
o intelecto, por quê? Eis o que eles não sabem. Odioso, porque quando o
acionista estava em casa, ruminando a morte da bezerra, as pessoas que o
foram buscar, não lhe disseram que os capitais estão sujeitos a emagrecer no
verão; ao contrário, em geral os capitais, mormente os capitais em preparo,
são de uma gordura que faz pena.
O mesmo digo à companhia de São Cristóvão, que anda discutindo pela
imprensa quem hão de ser os seus diretores; e discutindo, a soco, a pontapé, a
bolacha, quando a coisa para mim está resolvida por si mesma: é a do
personagem de Molière:

“Le veritable Amphytrion, c’est l’Amphytrion où l’on dîne.”

Tudo isto é claro e claríssimo, para quem se der ao trabalho de ver se as


coisas correspondem todas ao nome que têm.
As questões devem ser examinadas. As ideias devem começar por ser
entendidas. Não sou eu que o digo: di-lo um dos ornamentos do nosso clero,
monsenhor Calino, que ainda ontem me fazia esta reflexão:
– Você repare que cada coisa tem o seu nome; mas o mesmo nome pode
não corresponder a coisas ou pessoas semelhantes. Quiosque, por exemplo. Lá
fora o quiosque é ocupado por uma mulher que vende jornais. Cá dentro é o
lugar onde um cavalheiro vende bilhetes de loteria e cigarrinhos de palha
nacional. Nome idêntico, coisas diversas, lei de aclimação.
I’on dîne
Na tradução literal do francês: “O verdadeiro anfitrião/é o anfitrião onde se
janta.” Molière, nome artístico de Jean-Baptiste Poquelin (1622-1673),
dramaturgo, ator e diretor teatral francês, considerado um dos mestres da
comédia satírica, autor, entre outras tantas, das peças Tartuffe, Don Juan, e
Amphitryon, aqui referido.
5. [impostos inconstitucionais…]
16 DE MAIO DE 1885, BALAS DE ESTALO

Em sucessivos relatórios do ministro da Fazenda em meados dos anos 1880,


aludia-se ao fato de várias assembleias provinciais estabelecerem impostos
sobre a exportação, uma parte da receita dos quais podiam reter, e também
sobre a importação, o que era expressamente vedado pela Constituição. Sob
pressão de associações comerciais e dos delegados regionais da Fazenda,
diversas assembleias foram forçadas a votar a supressão desses impostos. O
visconde Paranaguá, em seu relatório para 1883, dava conta de que apenas
Pernambuco, Bahia e Maranhão ainda resistiam. A questão da repartição dos
impostos e das competências de cada ente federativo, parece, portanto, mais
antiga que a própria República.

ONTEM, AO VOLTAR uma esquina, dei com os impostos inconstitucionais de


Pernambuco. Conheceram-me logo, eu é que, ou por falta de vista, ou porque
realmente eles estejam mais gordos, não os conheci imediatamente. Conheci-
os pela voz, vox clamantis in deserto. Disseram-me que tinham chegado no
último paquete. O mais velho acrescentou até que já agora, hão de repetir com
regularidade estas viagens à corte.
– A gente, por mais inconstitucional que seja, concluiu ele, não há de
morrer de aborrecimento na cela das probabilidades. Uma chegadinha à corte,
de quando em quando, não faz mal a ninguém, exceto…
– Exceto… ?
– Isso agora é querer perscrutar os nossos pensamentos íntimos. Exceto o
diabo que o carregue, está satisfeito? Não há coisa nenhuma que não possa
fazer mal a alguém, seja quem for. Falei de um modo geral e abstrato. Você
costuma dizer tudo o que pensa?
– Tudo, tudo, não; nem eu, nem o meu vizinho boticário, que é um falador
das dúzias.
– Pois então!
– Em todo caso, demoram-se?
– Temos essa intenção. O pior é o calor, mas felizmente começa a chover,
e se a chuva pega, junho aí vem com o inverno, e ficamos perfeitamente. Está
admirado? É para ver que já conhecemos o Rio de Janeiro. Contamos estar
aqui uns três meses, não pode ser que vamos a quatro ou cinco. Já fomos à
câmara dos deputados.
– Assistiram à recepção do Saraiva, naturalmente?
– Não, fomos depois, no dia 13, uma sessão dos diabos. Ainda assim, o
pior para nós não foi propriamente a sessão, mas o demônio do José Mariano,
que, apenas nos viu na tribuna dos diplomatas, logo nos denunciou à câmara e
ao governo. Não pode calcular o medo com que ficamos. Eu, felizmente,
estava ao pé de duas senhoras que falavam de chapéus, voltei-me para elas,
como quem dizia alguma coisa, e dissimulei sem afetação; mas os meus pobres
irmãos é que não sabiam onde pôr a cara. Hoje de manhã, queriam voltar para
Pernambuco; mas eu disse-lhes que era tolice.
– São todos inconstitucionais?
– Todos.
– Vamos aqui para calçada. E agora, que tencionam fazer?
– Agora temos de ir ao imperador, mas confesso, meu amigo, receamos
perder tempo. Você conhece a velha máxima que diz que a história não se
repete?
– Creio que sim.
– Ora bem, é o nosso caso. Receamos que o imperador, ao dar conosco,
fique aborrecido de ver as mesmas caras e, por outro lado, como a história
não de repete…Você, se fosse imperador, que é que faria?
– Eu, se fosse imperador? Isso agora é mais complicado. Eu, se fosse
imperador, a primeira coisa que faria era ser o primeiro cético do meu tempo.
Quanto ao caso de que se trata, faria uma coisa singular, mas útil: suprimiria
os adjetivos.
– Os adjetivos?
– Vocês não calculam como os adjetivos corrompem tudo, ou quase tudo; e
quando não corrompem, aborrecem a gente, pela repetição que fazemos da
mais ínfima galanteria. Adjetivo que nos agrada está na boca do mundo.
– Mas que temos nós outros com isso?
– Tudo; vocês como simples impostos são excelentes, gorduchos e
corados, cheios de vida. O que os corrompe e os faz definhar é o epíteto de
inconstitucionais. Eu, abolindo por um decreto todos os adjetivos de Estado,
resolvia de golpe esta velha questão, e cumpria esta máxima que é tudo o que
tenho colhido da história e da política, e que aí dou por dois vinténs a todos os
que governam este mundo: Os adjetivos passam, e os substantivos ficam.
vox clamantis in deserto
A voz do que clama no deserto; pregar no deserto, com o significado bíblico
de “sermão perdido”.

Saraiva
José Antônio Saraiva, o conselheiro Saraiva (1823-95), que retornou ao
Senado depois de deixar a presidência do Conselho de Ministros em 1884.

José Mariano
José Mariano Carneiro da Cunha (1850-1912), jornalista e político, ativo
militante abolicionista, deputado constituinte republicano, eleito prefeito de
Recife em 1891.
6. [que será do novo banco?
Um barranco … uma enchente…]
17 DE NOVEMBRO DE 1886, GAZETA DE HOLLANDA

A imagem não poderia ser mais feliz para retratar o impasse de vários anos
entre “papelistas” e metalistas”, que se arrastava em torno do tema da reforma
monetária, e dos novos bancos de emissão em contínua cogitação no
Parlamento. Os primeiros enfatizando a escassez do meio circulante e os
embaraços que isto causava ao comércio, e seus contendores a argumentar o
exato oposto, que o meio circulante era “superabundante” em vista da
presença de “ágio sobre o ouro”, ou pelo fato de que o câmbio estava abaixo
da paridade de 1846, 27 pence por mil-réis. O novo banco ia ser a “enchente”,
se funcionasse como preconizado pelo “papelismo”, mas seria o contrário “um
barranco”, se pautado pelas regras “metalistas”. Como as duas correntes de
pensamento podiam divergir de forma tão flagrante e diretamente oposta! O
tema reaparecerá adiante, depois da criação e do funcionamento dos bancos de
emissão, no debate em torno dos seus resultados. O “novo banco” de que fala
o poeta é o Banco Internacional, fundado nesta ocasião, mas já, talvez, com o
desígnio de se transformar, como ocorreu em 1889, no Banco Nacional do
Brasil, em sociedade com o Banque de Paris et des Pays Bas, para se tornar o
estabelecimento bancário líder1 no retorno ao padrão ouro, à paridade de
1846, sob os auspícios do gabinete Ouro Preto. A “Gazeta de Holanda” – cujo
nome vem do estribilho de uma das canções da opereta La Grande Duquesse
de Gerosltein2 – era o título da série publicada na Gazeta de Notícias de 1 de
novembro de 1886 a 24 de fevereiro de 1888, construída por crônicas em
forma de versos a que Machado batizou de “versiprosa”3 (criando o termo,
muito mais tarde utilizado por Carlos Drummond de Andrade) e sob o
pseudônimo de Malvólio — personagem bufo de Shakespeare em Noite de
reis (The Twelfth Night).
Voilà ce que l’on dit de moi
Dans la “Gazette de Hollande”

Que será do novo banco?


Interroga toda a gente;
Respondem uns que um barranco,
Outros dizem que uma enchente.

Certo é que andaram milhares


De contos, contos e contos,
Uns por terra,
outros por mares Contos de todos os pontos.

Caíam como sardinhas,


Pulavam como baleias;
Ai belas ambições minhas!
Ai sonho, que me incendeias!

E o Holman, o forte e ledo


Inglês abrasileirado,
Contemplava o Figueiredo,
Que olhava, grave e barbado.

Supunham que muita gente


Viesse; mas gente tanta
Não cuidavam certamente…
Obra abençoada e santa!

Da empresa, ora começada,


Há quem diga maravilhas;
Muita ideia cogitada;
Ouro a granel, ouro em pilhas.
Visconde de Figueiredo.

Circulação recolhida,
Câmbio a vinte e seis ou sete,
Mudança da antiga vida,
Outra cara, outro topete.

Ai, sonho! Ai, diva quimera!


Pudesse eu entrar na dança!
Ai viçosa primavera!
Ai verde flor da esperança!

Nem eu, nem o meu compadre


Eusebio Vaz Quintanilha,
Que, por mais que corra e ladre,
Nenhum grande emprego pilha.

Que, para matar a fome,


Vem matá-la em minha casa,
Sem poder dizer que come,
Mas que destrói, mata, arrasa.

Pobre Quintanilha! Um anjo!


Coitado! Afinal parece
Que lá teve algum arranjo
Que lhe dá certo interesse.
Há já dias que o não via;
Onde iria o desgraçado?

Quem sabe se morreria,


Faminto, desesperado?

Eis que ontem, quando passava


Pela rua da Quitanda,
E nos negócios cismava
Desta Gazeta de Hollanda,

Lá no outro lado da rua


Uma figurinha para;
Trazia a cabeça nua,
Bacia, opa e uma vara.

Era o pobre… Deu comigo


E veio, em quatro passadas,
Ao seu delicado amigo
Apertar as mãos pasmadas.

– “És andador de Irmandade?


Aprovo os teus sentimentos
De devoção, de piedade…
Toma um níquel de duzentos.”

– “Não, Malvólio, não, não ando


Como um andador professo…”
– “Andador de contrabando?”
– “Também não; ouve, eu t’o peço.

“Esta opa, esta bacia


Alugo a alguma Irmandade:
Dou cinco mil-réis por dia,
E corro toda a cidade.

“Varia o lucro, segundo


Dou mais ou menos às pernas;
Não escandalizo o mundo
E mato as fomes eternas.

“Rende-me oito ou nove, e há dias


De dez mil-réis, dez e tanto.
Crês? Já faço economias,
Já deito algum cobre ao canto.

“É este o meu banco. O fundo


É variável, mas certo;
Deus dá banco a todo o mundo;
Uns vão longe, outros vão perto.

“Eu cá não ando com listas


De ações, nem faço rateio;
Todos são meus acionistas,
Gordo ou magro, lindo ou feio.

“Que um só vintém esmolado


Vale no céu muitos contos;
E há muito vintém cobrado…
Vinténs de todos os pontos!”
Holman
William Henry Holman era sócio do visconde de Figueiredo (ver
comentário seguinte) na Companhia de Gás e no Moinho Inglês no Rio de
Janeiro, antes de fundarem o Banco Internacional em 1886.i

Figueiredo
Visconde, depois conde de Figueiredo. Francisco de Figueiredo (1843-
1917), carioca, banqueiro e financista; teve seu apogeu no final do Império
com o seu Banco Nacional do Brasil, que depois fundiu-se com o Banco dos
Estados Unidos do Brasil e depois com o Banco do Brasil. A despeito de ter
sido figura central do Encilhamento, não ganhou o seu avatar (um
personagem à clef) no romance de Taunay; afinal, era um financista da
monarquia. Figueiredo aparece em pelo menos duas crônicas de Machado.
Em uma delas, é descrito como “um homem gordo de suíças longas, barba e
queixo rapados, olhos vivos e lesto”.ii

a vinte e seis ou sete


Era cedo para se falar em recolhimento do papel-moeda do Tesouro e
também para se cogitar o câmbio a 27 pence por mil-réis (a taxa esteve em
17 13/16 pence em janeiro e havia ganhado terreno ao longo do ano,
chegando a 22 5/16 pence), a menos que já estivesse tudo combinado…
7. [eu acionista do Banco do Brasil…]
10 DE FEVEREIRO DE 1888, GAZETA DE HOLLANDA

Mais uma crônica sobre a condição de acionista, desta vez, todavia, com a
afirmativa de que o poeta-cronista é acionista do Banco do Brasil. Será que a
confissão, assinada por Malvólio, podia ser levada ao pé da letra?
Aparentemente não, pois, como já observamos, o arquivo histórico do Banco
do Brasil não encontrou nenhuma indicação nesta direção. Não obstante, o fato
é que o poeta estava bem informado sobre os assuntos da Assembleia Geral de
Acionistas do Banco do Brasil, que em novembro de 1887 aprovou a
nomeação de uma comissão que sugeriria reformas nos estatutos. Reunida
posteriormente, em 17 de fevereiro de 1888, a assembleia iniciou o debate das
emendas assim elaboradas, e outras tantas apresentadas e discutidas pelos
acionistas em sessões dos dias 20, 21 e 22, quando finalmente a reforma dos
estatutos foi aprovada. Dentre as inúmeras deliberações, com efeito, reduziu-
se para quatro o número de diretores, e muitas providências antecipavam o
fato de que o Banco do Brasil viria a recuperar a faculdade de emitir que
abdicara em 1866.1 Novos tempos se avizinhavam, mas nem por isso resta
menos clara a tese de que nada realmente importa dessas deliberações
complexas e politizadas sobre os “divisores”, se os dividendos são
regularmente pagos.

Voilà ce que l’on dit de moi


Dans la “Gazette de Hollande”

Eu, acionista do Banco Do Brasil,


que nunca saio,
Que nunca daqui me arranco,
Inda que me caia um raio,
Para saber como passa
O Banco em sua saúde,
Se alguma coisa o ameaça,
Se ganha ou perde em virtude.

Li (confesso) alegremente,
Li com estas minhas vistas,
O anúncio do presidente
Convocando os acionistas.

Para quê? Para o debate


Do reformado estatuto
Obra em que há de haver combate.
Que traz gozo, que traz luto.

Pois nesse anúncio, à maneira


De censura, escreve o homem
Que é já esta a vez terceira
Que chama e que eles se somem.

Minto: sumiram-se duas.


Não tem culpa o anunciante,
Se há necessidades cruas
Do metro e de consoante.

Pela vez terceira os chama,


E agora é definitivo,
Muitos que fiquem na cama,
Um só punhado é preciso.

Mas eu pergunto, e comigo


Perguntam muitos colegas,
Que, indo pelo vezo antigo,
Não vão certamente às cegas;

– O acionista de um banco,
Só por ser triste acionista,
É algum escravo branco?
Não tem foro que lhe assista?

Não pode comer quieto


O seu costumado almoço,
Debaixo do próprio teto,
Velho já, maduro ou moço?

Barriga cheia, não pode


Dormitar o seu bocado,
Para que o não incomode
O que tiver almoçado?

Pois então a liberdade


Que tem toda a outra gente
Cidadã, meu Deus, não há de
Tê-la esta pobre inocente?

É certo que os diretores


Do Banco são reduzidos
A quatro, e que outros senhores
Vão a menos: suprimidos.

Em tal caso, é razão boa


Para que, firmes, valentes,
Compareçam em pessoas
Diretores e gerentes.

Res vestra agitur. Justo.


Mas que temos nós com isto?
Para que me metam susto
Só outra coisa, está visto.

Sim, o que algum susto mete,


Transtorna, escurece, arrasa,
Não é que eles sejam sete
Ou quatro os chefes da casa.
Sejam sete ou quatro, ou nove,
Disponham disto ou daquilo,
É coisa que me não move,
Posso digerir tranquilo.

Porquanto, digo, em havendo


Nas unhas dos pagadores
Um bonito dividendo,
Que nos importam divisores.

Tenham estes cara longa,


Cabelo amarelo ou preto,
Nasceram em Covadonga,
Em Tanger, em Orvieto;

Usem de barbas postiças,


Ou naturais, ou nenhumas;
Creiam em sermões, em missas,
Ou na sibila de Cumas;

Para mim é tudo mestre,


Contanto que haja, certinho,
No fim de cada semestre
O meu dividendozinho.
Res vestra agitur
Na tradução do latim:
“O assunto lhe diz respeito.”

Covadonga
Vila no noroeste da Espanha.

Tanger
Cidade do Norte de África, pertencente ao Marrocos, situada junto do
estreito de Gibraltar.

Orvieto
Comuna italiana da região da Úmbria, província de Terni.

Cumas
Sibilas são personagens da mitologia greco-romana, descritas como sendo
mulheres que possuem poderes proféticos sob inspiração de Apolo. Sibila
de Cumas, filha de Teodoro e de uma ninfa, era natural de Éritras, e ficou
conhecida por essa denominação porque passou a maior parte de sua vida
na cidade de Cumas, situada na costa da Campânia (Itália).
8. [anda alguma coisa no ar…]
11 DE MAIO DE 1888, BONS DIAS! GAZETA DE NOTÍCIAS

De acordo com John Gledson, as três crônicas que circundam o dia 13 de


maio são “todas cruciais” porque “consideradas juntas talvez constituam o
quadro definitivo do ponto de vista do autor sobre a Abolição, e da própria
escravidão”.1 O tema é delicado; as posições de Machado na política em
geral, e no tópico da Abolição em especial, têm tido suas nuances
extensamente discutidas. O exame mais específico das crônicas, com este
enfoque, é recente, pois a própria autoria de Machado para a série “Bons
dias!” foi estabelecida apenas em 1955 por José Galante de Souza. O
pseudônimo preservou no anonimato o verdadeiro autor por muitos anos, o
que, sem dúvida, é relevante para as crônicas de teor político controverso
como estas. Dentre os que se debruçaram mais especificamente sobre esta
série, como o próprio Gledson, e mais recentemente Gabriela Betella2 e
Eduardo de Assis Duarte,3 este último, que edita uma antologia temática
específica, bem sintetiza o pensamento dos estudiosos do tema ao concluir que
é “impossível concordar com a ideia de um escritor omisso” e que “existe sim
o pertencimento étnico traduzido em literatura”.4 Do ângulo mais restrito da
economia, todavia, importa observar como a Abolição fornece lições sobre
um tema muito atual, as reformas econômicas, ou, para os que preferirem uma
linguagem mais genérica, os processos de modernização. A inevitabilidade
desses processos, especialmente quando estabelecida ex post facto, minimiza
a extensão das resistências existentes ao tempo em que se manifestam e, em
especial, subestima a extraordinária capacidade de o Brasil procrastinar
processos reformadores doloridos e inevitáveis. A ambivalência do narrador
– por que não dizer sua “volubilidade”, para usar a linguagem de Schwarz,5
aqui como nas memórias de Brás Cubas, é vista como “um mecanismo
narrativo em que está implicada uma problemática nacional”.6 A ambiguidade
do narrador pode ser, outrossim, apenas o que os charutos eram para Freud, ou
simplesmente, como já observado, “a castanha gelada, a laranja, o cálice de
Chartreuse, uma coisa leve, para adoçar a boca e rebater o jantar”.7

BONS DIAS!
V ejam os leitores a diferença que há entre um homem de olho alerta,
profundo, sagaz, próprio para remexer o mais íntimo das consciências (eu em
suma), e o resto da população.
Toda a gente contempla a procissão na rua, as bandas e bandeiras, o
alvoroço, o tumulto, e aplaude ou censura, segundo é abolicionista ou outra
coisa; mas ninguém dá a razão desta coisa ou daquela coisa; ninguém arrancou
aos fatos uma significação, e, depois, uma opinião. Creio que fiz um verso.
Eu, pela minha parte, não tinha parecer. Não era por indiferença; é que me
custava a achar uma opinião. Alguém me disse que isto vinha de que certas
pessoas tinham duas e três, e que naturalmente esta injusta acumulação trazia a
miséria de muitos; pelo que, era preciso fazer uma grande revolução
econômica, etc. Compreendi que era um socialista que me falava, e mandei-o à
fava. Foi outro verso, mas vi-me livre de um amolador. Quantas vezes me não
acontece o contrário!
Não foi o ato das alforrias em massa dos últimos dias, essas alforrias
incondicionais, que vêm cair como estrelas no meio da discussão da lei da
abolição. Não foi; porque esses atos são de pura vontade, sem a menor
explicação. Lá que eu gosto da liberdade, é certo; mas o princípio da
propriedade não é menos legítimo. Qual deles escolheria? Vivia assim, como
uma peteca (salvo seja), entre as duas opiniões, até que a sagacidade e
profundeza de espírito com que Deus quis compensar a minha humildade, me
indicou a opinião racional e os seus fundamentos.
Não é novidade para ninguém que os escravos fugidos, em Campos, eram
alugados. Em Ouro Preto fez-se a mesma coisa, mas por um modo mais
particular. Estavam ali muitos escravos fugidos. Escravos, isto é, indivíduos
que, pela legislação em vigor, eram obrigados a servir a uma pessoa; e
fugidos, isto é, que se haviam subtraído ao poder do senhor, contra as
disposições legais. Esses escravos fugidos não tinham ocupação; lá veio,
porém, um dia em que acharam salário, e parece que bom salário.
Quem os contratou? Quem é que foi a Ouro Preto contratar com esses
escravos fugidos aos fazendeiros A, B, C? Foram os fazendeiros D, E, F. Estes
é que saíram a contratar com aqueles escravos de outros colegas, e os levaram
consigo para as suas roças.
Não quis saber mais nada; desde que os interessados rompiam assim a
solidariedade do direito comum, é que a questão passava a ser de simples luta
pela vida, e eu, em todas as lutas, estou sempre do lado do vencedor. Não
digo que este procedimento seja original, mas é lucrativo. Alguns não me
compreenderam (porque há muito burro neste mundo); alguém chegou a dizer-
me que aqueles fazendeiros fizeram aquilo, não porque não vissem que
trabalhavam contra a própria causa, mas para pegar uma peça ao Clapp.
Imagina-se bem se arregalei os olhos.
– Sim, senhor. Saiba que o Clapp tinha o plano feito de ir a Ouro Preto
pegar os tais escravos e restituí-los aos senhores, dando-lhes ainda uma
pequena indenização do seu bolsinho, e pagando ele mesmo a sua passagem da
estrada de ferro. Foi por isso que…
– Mas então quem é que está aqui doido?
– É o senhor; o senhor é que perdeu o pouco juízo que tinha. Aposto que
não vê que anda alguma coisa no ar.
– Vejo, creio que é um papagaio.
– Não, senhor; é uma república. Querem ver que também não acredita que
esta mudança é indispensável?
– Homem, eu, a respeito de governos, estou com Aristóteles, no capítulo
dos chapéus. O melhor chapéu é o que vai bem à cabeça. Este, por ora, não
vai mal.
– Vai pessimamente. Está saindo dos eixos; é preciso que isto seja, senão
com a monarquia, ao menos com a república, aquilo que dizia o Rio-Post de
21 de junho do ano passado. Você sabe alemão?
– Não.
– Não sabe alemão?
E, dizendo-lhe eu outra vez que não sabia, ele imitando o médico de
Molière, dispara-me na cara esta algaravia do diabo:
– Es dürfte leicht zu erweisen sein, dass Brasilien weniger eine
konstitutionelle Monarchie als eine absolute Oligarchie ist.
– Mas que quer isto dizer?
– Que é deste último tronco que deve brotar a flor.
– Que flor?
– As…
BOAS NOITES.
alforrias incondicionais
Assim chamadas porque não implicavam em exigências aos escravos
libertados, como por exemplo, a obrigação de servir por algum tempo ao
senhor. Diariamente, os jornais anunciavam alforrias concedidas por
senhores “recém convertidos à causa da liberdade que acreditam na gratidão
do liberto.”

alugados
John Gledson observa que isto não era propriamente um fato estabelecido.i

vencedor
O leitor deve ter em mente, como referência para observações como esta, a
declaração do personagem Policarpo, o relojoeiro que Machado criou em
nove crônicas desta série: “Tenho uma série de opiniões das quais na
realidade discordo.”ii

Clapp
João Fernandes Clapp (?-1902), presidente da Confederação Abolicionista.
A alusão que Machado faz a Clapp é uma pilhéria – pois exatamente no dia
da publicação da crônica o projeto da Abolição, já aprovado na Câmara dos
Depu tados, seguia para o Senado.

chapéus
Mais uma vez, sob o espírito machadiano de repetições, a citação ao chapéu
– um de seus temas favoritos. Machado refere-se aqui a seu próprio conto
“Capítulo dos chapéus” (um dos melhores de sua lavra), de 1883,iii que tem
como epígrafe duas frases da mesma peça de Molière citada nesta crônica.iv

Rio-Post
Jornal da colônia alemã da cidade. Machado refere-se ao artigo,
extremamente crítico à oligarquia e aos dois partidos políticos, o Liberal e
o Conservador, no qual o jornal sustenta a necessidade “urgente” de
formação de uma classe média para poder criar “uma verdadeira
democracia no Brasil, que só existe em tese”.

o médico de Molière
Referência à peça de Molière Le médecin malgré lui.v

Oligarchie ist
A sentença completa, na tradução literal do alemão: “Seria fácil provar que
o Brasil é mais uma oligarquia absoluta do que uma monarquia
constitucional.”
9. [um ordenado pequeno, mas há de crescer…]
19 DE MAIO DE 1888, BONS DIAS! GAZETA DE NOTÍCIAS

Outra das crônicas chamadas de “cruciais” por John Gledson, esta,


extensamente estudada em todos seus detalhes, trata, entre tantos enredos e
alusões, do tema da transição para o trabalho assalariado. A Abolição atira os
ex-escravos em regimes de trabalho talvez tão opressivos quanto o anterior,
como bem demonstra o relacionamento entre o patrão e o ex-escravo
Pancrácio. Como a crônica anterior, esta também é escrita com pseudônimo, o
que permite nova reflexão sobre a “volubilidade” do narrador, manejando
ironias finas no contexto de uma literatura pretensamente efêmera, para
construir o seu “tratamento crítico” a uma questão séria e sensível. Machado
não era um José do Patrocínio, tampouco um frio e ferino denunciador da
ordem burguesa, ou pré-burguesa, quem sabe feudal, como seus admiradores
de esquerda procuram desenhá-lo, mas nem por isso sua reflexão sobre seu
mundo era menos importante, divertida e bem construída. O fato é que a
disseminação do trabalho assalariado criava uma nova e gigantesca
necessidade de meio circulante para a economia; era o tiro preciso no coração
da economia de trocas e de cadeias de endividamento tão típica da colônia e
dos ideais mercantilistas que a orientaram. Era uma condição sine qua non
para a organização de mercados onde havia apenas relações mercantis
administradas.1 Este crescimento do que os economistas chamam de “demanda
por moeda” seria fundamental para justificar o aumento da oferta de moeda
ocorrido nos primeiros anos da República, pelo menos até certo ponto.
Cédula de 50 mil-réis do Brasil imperial.

BONS DIAS!
Eu pertenço a uma família de profetas après coup, post facto, depois do gato
morto, ou como melhor nome tenha em holandês. Por isso digo, e juro se
necessário for, que toda a história desta lei de 13 de maio estava por mim
prevista, tanto que na segunda-feira, antes mesmo dos debates, tratei de
alforriar um molecote que tinha, pessoa dos seus dezoito anos, mais ou
menos. Alforriá-lo era nada; entendi que, perdido por mil, perdido por mil e
quinhentos, e dei um jantar.
Neste jantar, a que os meus amigos deram o nome de banquete, em falta de
outro melhor, reuni umas cinco pessoas, conquanto as notícias dissessem trinta
e três (anos de Cristo), no intuito de lhe dar um aspecto simbólico.
No golpe do meio (coup de milieu, mas eu prefiro falar a minha língua),
levantei-me eu com a taça de champanha e declarei que, acompanhando as
ideias pregadas por Cristo, há dezoito séculos, restituía a liberdade ao meu
escravo Pancrácio; que entendia a que a nação inteira devia acompanhar as
mesmas ideias e imitar o meu exemplo; finalmente, que a liberdade era um
dom de Deus, que os homens não podiam roubar sem pecado.
Pancrácio, que estava à espreita, entrou na sala, como um furacão, e veio
abraçar-me os pés. Um dos meus amigos (creio que é ainda meu sobrinho),
pegou de outra taça, e pediu à ilustre assembleia que correspondesse ao ato
que eu acabava de publicar, brindando ao primeiro dos cariocas. Ouvi
cabisbaixo; fiz outro discurso agradecendo e entreguei a carta ao molecote.
Todos os lenços comovidos apanharam as lágrimas de admiração. Caí na
cadeira e não vi mais nada. De noite, recebi muitos cartões. Creio que estão
pintando o meu retrato, e suponho que a óleo.
No dia seguinte, chamei o Pancrácio e disse-lhe com rara franqueza:
– Tu és livre, podes ir para onde quiseres. Aqui tens casa amiga, já
conhecida e tens mais um ordenado, um ordenado que…
– Oh! meu senhô! fico.
–… Um ordenado pequeno, mas que há de crescer. Tudo cresce neste
mundo; tu cresceste imensamente. Quando nasceste, eras um pirralho deste
tamanho; hoje estás mais alto que eu. Deixa ver; olha, és mais alto quatro
dedos…
– Artura não qué dizê nada, não, senhô…
– Pequeno ordenado, repito, uns seis mil-réis, mas é de grão em grão que a
galinha enche o seu papo. Tu vales muito mais que uma galinha.
– Eu vaio um galo, sim, senhô.
– Justamente. Pois seis mil-réis. No fim de um ano, se andares bem, conta
com oito. Oito ou sete.
Pancrácio aceitou tudo; aceitou até um peteleco que lhe dei no dia
seguinte, por me não escovar bem as botas; efeitos da liberdade. Mas eu
expliquei-lhe que o peteleco, sendo um impulso natural, não podia anular o
direito civil adquirido por um título que lhe dei. Ele continuava livre, eu de
mau humor; eram dois estados naturais, quase divinos.
Tudo compreendeu o meu bom Pancrácio; daí para cá, tenho-lhe despedido
alguns pontapés, um ou outro puxão de orelhas, e chamo-lhe besta quando lhe
não chamo filho do diabo; coisas todas que ele recebe humildemente, e (Deus
me perdoe!) creio que até alegre.
O meu plano está feito; quero ser deputado, e, na circular que mandarei
aos meus eleitores, direi que, antes, muito antes da abolição legal, já eu, em
casa, na modéstia da família, libertava um escravo, ato que comoveu a toda a
gente que dele teve notícia; que esse escravo tendo aprendido a ler, escrever e
contar (simples suposição) é então professor de Filosofia no Rio das Cobras;
que os homens puros, grandes e verdadeiramente políticos, não são os que
obedecem à lei, mas os que se antecipam a ela, dizendo ao escravo: és livre,
antes que o digam os poderes públicos, sempre retardatários, trôpegos e
incapazes de restaurar a justiça na terra, para satisfação do céu.
BOAS NOITES.
alforriar
As alforrias voluntárias começaram a ser praticadas pelos senhores de
escravos em março de 1888, logo depois da queda do gabinete presidido
pelo barão de Cotegipe, consumada que já estava a Abolição. Com
frequência, eram anunciadas em notas veiculadas nos jornais regionais,
carregadas de elogios à ação dos senhores, em um contexto em que se
misturava a falsa benemerência com a demanda por alguma indenização do
governo pela “propriedade” perdida.

mais ou menos
“Se tivesse realmente dezoito anos, Pancrácio teria nascido antes da Lei do
Ventre Livre (28 de setembro de 1871) e, portanto, não sendo ingênuo,
valeria mais. Será que seu generoso senhor esquece-se, ou simplesmente
falsificou sua data de nascimento?”i

coup de milieu
O coup du milieu, que normalmente vem escrito coupe de milieu, era uma
bebida usada nos brindes, feitos no meio de um banquete. Notar que, não
por acidente, o coup pode ser um golpe (militar) e não uma taça.ii

Pancrácio
O nome tem o significado (dicionarizado), ligado a pascácio, de “pateta,
simplório, tolo”, mas também de “todo poderoso”, na acepção etimológica
(do grego pagkrátios, do latim pancratiu) “forte em tudo, que domina
tudo”.iii

seis mil-réis
Valor pateticamente pequeno à época.iv
10. [questão de federalismo…]
27 DE MAIO DE 1888, BONS DIAS! GAZETA DE NOTÍCIAS

O meteorito que ficou conhecido como o “de Bendegó” foi descoberto em


1784, no sertão da Bahia. Pesando exatos 5.360kg, o meteorito teve sua
primeira tentativa de remoção em 1785, quando a pedra, formada de ferro e
níquel, escapou da carreta que a levava, e caiu às margens do rio Bendegó,
180 metros de seu leito original. Apenas 102 anos depois, quando já havia um
ramal da Estrada de Ferro de São Francisco passando a cerca de 100km do
Bendegó, foi possível a sua remoção, mesmo assim, com inúmeras
dificuldades, tanto logísticas, quanto políticas. Tal qual nas discussões a
respeito de jurisdição sobre mosquitos e impostos, e talvez pelo sentimento
federalista que andava à flor da pele naquele momento, criou-se uma polêmica
quanto ao “dono” do meteorito, se a União, estado ou município. A Câmara de
Vereadores de Salvador chegou a votar um embargo da saída do meteorito,
mas a pretensão foi derrotada com folga. A missão que deixou o Rio de
Janeiro em agosto de 1887 somente chegou à capital em junho de 1888,
quando o meteorito ficou exposto ao público na esquina do Largo de São
Francisco com a rua do Ouvidor, no centro da cidade. O assunto se tornou
dominante na cidade, e a chegada do meteorito foi celebrada de muitas formas,
até em revistas teatrais: O Bendegó, de 1888, e Abolinderepcotchindegó (cujo
estranho título é fusão de sílabas de Abolição, indenização, República, chins,
Cotegipe e Bendegó – outros temas de ponta naquele biênio).1 Nesse meio
tempo, o “estrangeiro viajado” reflete sobre o Brasil diante desses fatos.

BONS DIAS!
Cumpre não perder de vista o meteorólito de Bendegó. Enquanto toda a
nação bailava e cantava, delirante de prazer pela grande lei da Abolição, o
meteorólito de Bendegó vinha andando, vagaroso, silencioso e científico, ao
lado do Carvalho.
– Carvalho, dizia ele provavelmente ao companheiro de jornada, que
rumores são estes ao longe?
E ouvindo a explicação, não retorquira nada, e pode ser até que sorrisse,
pois é natural que nas regiões donde veio, tivesse testemunhado muitos
cativeiros e muitas abolições. Quem sabe lá o que vai pelos vastos
intermúndios de Epicuro e seus arrabaldes?
Vinha andando, vagaroso, silencioso, científico, ao lado do Carvalho.
– Carvalho, perguntou ainda, falta muito para chegar ao Rio de Janeiro?
Estou já aborrecido, não da sua companhia, mas da caminhada. Você sabe que
nós, lá em cima, andamos com a velocidade de mil raios; aqui nestas ridículas
estradas de ferro, a jornada é de matar. Mas espera, parece que estou vendo
uma cidade…
– É a Bahia, a capital da província.
Chegaram à capital, onde um grupo de homens corria para uma casa, com
ar espantado, preocupado, ou como melhor nome haja em fisionomia, que não
tenho tempo de ir ao dicionário. Esses homens eram os vereadores. Iam
reunir-se extraordinariamente, para saber se embargariam ou não a saída do
meteorólito.
Até então não trataram do negócio, por um princípio de respeito ao
governo central. O governo central ordenara o transporte e as despesas; a
Câmara Municipal, obediente, ficou esperando. Logo, porém, que o
meteorólito chegou à capital, interveio outro princípio – o do direito
provincial. Reuniu-se a câmara e examinou o caso.
Parece que o debate foi longo e caloroso. Uns disseram provavelmente que
o meteorólito, tendo caído na Bahia, era da Bahia; outros, que vindo do céu,
era de todos os brasileiros. Tal foi a questão controversa.
Compreende-se bem que era preciso resolver primeiro esse ponto, para
entrar na questão de saber se os meteorólitos entravam na ordem das
atribuições reservadas às províncias. O debate foi afinal resumido e o voto da
maioria contrário ao embargo; apenas dois vereadores votaram por este,
segundo anunciou um telegrama.
E o meteorólito foi chegando, vagaroso, silencioso, científico, ao lado do
Carvalho.
– Carvalho, disse ele, os que não quiserem embargar a minha saída são uns
homens cruéis. Mas por que é que aqueles dois votaram pelo embargo?
– Questão de federalismo…
E o nosso amigo explicou o sentido desta palavra, e o movimento
federalista que se está operando em alguns lugares do império. Mostrou-lhe
até alguns projetos discutidos agora, para o fim de adotar a constituição dos
Estados Unidos, sem fazer questão do chefe de Estado, que pode ser
presidente ou imperador…
Aqui o meteorólito, sempre vagaroso e científico, piscou o olho ao
Carvalho.
– Carvalho, disse ele, eu não sou doutor constitucional nem de outra
espécie, mas palavra que não entendo muito essa constituição dos Estados
Unidos com um imperador…
Cheio de comiseração, explicou-lhe o nosso amigo que as invenções
constitucionais não eram para os beiços de um simples meteorólito; que a
suposição de que o sistema dos Estados Unidos não comporta um chefe
hereditário resulta de não atender à diferença do clima e outras. Ninguém se
admira, por exemplo, de que lá se fale inglês e aqui português. Pois é a mesma
coisa.
Entretanto, confessou o nosso amigo que, por algumas cartas recebidas,
sabia que o que está na boca de muitas pessoas é um rumor de república ou
coisa que o valha, que esta ideia anda no ar…
– Noire? Aussi blanche qu’une autre.
– Tiens! Vous faites de calembours?
– Que queria você que eu fizesse, retorquiu o meteorólito, metido naquelas
brenhas de onde você me foi arrancar? Mas vamos lá, explique-me isso pelo
miúdo.
E o nosso amigo não lhe ocultou nada; confiou-lhe que andam por aí ideias
republicanas, e que há certas pessoas para quem o advento da república é
certíssimo. Chegou a ler-lhe um artigo da Gazeta Nacional, em que se dizia
que, se ela já estivesse estabelecida, acabada estaria há muitos anos a
escravidão…
Nisto o meteorólito interrompeu o companheiro, para dizer que as duas
coisas não eram incompatíveis: porque ele antes de ser meteorólito fora
general nos Estados Unidos – e general do Sul, por ocasião da Guerra de
Secessão, e lembra-se bem que os Estados Confederados, quando redigiram a
sua constituição, declararam no preâmbulo: “A escravidão é a base da
constituição dos Estados Confederados.” Lembra-se também que o próprio
Lincoln, quando subiu ao poder, declarou logo que não vinha abolir a
escravidão…
– Mas é porque lá falam inglês, retorquiu o nosso amigo Carvalho; a
questão é essa.
O meteorólito ficou pensativo; daí a um instante:
– Carvalho, que barulho é este?
– É a visita do Portela, presidente da província.
– Vamos recebê-lo, acudiu o meteorólito, cada vez mais vagaroso e
científico.
BOAS NOITES.
Carvalho
Referência ao oficial da Armada comandante José Carlos de Carvalho, da
Sociedade Geográfica, chefe da expedição que trouxe o meteorito para o
Museu Nacional.

Vous faites de calembours?


Na tradução literal do francês: “– Negra? Tão branca como qualquer outra!
– Ora essa! Você faz trocadilhos?” Com efeito, o trocadilho bilíngüe é o que
compara o final da frase anterior de Carvalho sobre a República, que anda
“no ar”, que o meteorito entende como “negra/noire”, e faz, com isso, uma
alusão ao temor de uma revolta de libertos inspirada na Republique Noire
do Haiti, que a “pedra-personagem” rechaça de forma debochada: “Tão
branca quanto qualquer outra.” i

certíssimo
Machado era monarquista liberal, como ele próprio definiu: “Quanto às
minhas opiniões políticas tenho duas, uma impossível outra realizada. A
realizada é o sistema representativo e é sobretudo como brasileiro que me
agrada essa opinião, e eu peço aos deuses (também creio nos deuses) que
afastem do Brasil o sistema republicano porque esse seria o do nascimento
da mais insolente aristocracia que o sol jamais alumiou.”ii

escravidão
O propósito de Machado é demonstrar que ser republicano não implica ser
abolicionista. Afinal, os sulistas nos Estados Unidos não lutaram para mudar
a forma de governo, mas pela escravatura. Em artigo de 25 de agosto de
1864, na Imprensa Acadêmica, durante a Guerra de Secessão, Machado
registrava: “O general confederado Lee avança sobre Washington. Esta
notícia desconcerta os partidários do Norte, parece que nada pode resistir
aos planos de Grant, e sobretudo que não venha a triunfar a causa do
Sulismo é a causa da escravidão! Causa da escravidão! Até onde vai o
alambicamento das palavras.”iii

Portela
Manuel do Nascimento Machado Portela (1833-1895), político
conservador, nomeado presidente da Bahia pelo barão de Cotegipe em
março de 1888.
11. [esperando a indenização…]
26 DE JUNHO DE 1888, BONS DIAS! GAZETA DE NOTÍCIAS

As indenizações aos que eram proprietários de escravos ocorreram em larga


escala não diretamente, mas por meio de créditos concedidos no contexto de
acordos entre o Tesouro e diversos bancos, atravessando dois gabinetes
imperiais e o primeiro ministério republicano. O Tesouro levantou cerca de
100 mil contos em um “empréstimo nacional” e utilizou os recursos em
repasses aos bancos que emprestavam o dobro da quantia a juros facilitados.
Os empréstimos feitos ao amparo deste programa, conhecido como “Auxílios
à Lavoura”, superaram 150 mil contos, valor equivalente a cerca de 3/4 da
oferta monetária em 1888. Neste formato, os “auxílios” acabaram acudindo,
como descreveu o retrospecto anual do Jornal do Commercio para 1889, “a
lavoura que tinha condições de vida”,1 e não foram desenhados para guardar
correspondência com o número de escravos libertos ou havidos pelo tomador
desses créditos. Os “auxílios” foram muito impulsionados pelo visconde de
Ouro Preto, o último chanceler e ministro da Fazenda do Império, como parte
proeminente de seu programa de “inutilização da República”. Porém, neste
formato e governados por critérios bancários, acabaram gerando frustração
nos segmentos que pleiteavam a indenização, a despeito de seu sentido
econômico. Nada obstante, os auxílios tiveram sua utilização desvirtuada, em
alguma medida, pois diversos bancos novos acabaram se constituindo
exclusivamente para operar os “auxílios”. Os bancos preexistentes que tinham
créditos com fazendeiros em dificuldades, encontraram no programa um
poderoso instrumento para reestruturar operações e melhorar garantias, ao
mesmo tempo em que utilizavam a liquidez que receberam para outros fins,
mormente alimentar a fogueira do Encilhamento.2 Não foi a mesma
trampolinagem descrita por Gogol; pode mesmo ter sido pior, embora a guerra
de versões entre monarquistas e republicanos sobre este assunto, tal como no
caso do Encilhamento, deixe as coisas um tanto obscuras.
BONS DIAS!
Eu, se tivesse crédito na praça, pedia emprestado a casamento uns vinte
contos de réis, e ia comprar libertos. Comprar libertos não é expressão clara;
por isso continuo.
Conhece o leitor um livro do célebre Gogol, romancista russo, intitulado
Almas mortas? Suponhamos que não conhece, que é para eu poder expor a
semente da minha ideia. Lá vai em duas palavras.
Chamam-se almas os campônios que lavram as terras de um proprietário,
e pelos quais, conforme o número, paga este uma taxa ao Estado. No intervalo
do lançamento do imposto, morrem alguns campônios e nascem outros.
Quando há deficit, como o proprietário tem de pagar o número registrado,
primeiro que faça outro recenseamento, chamam-se almas mortas os
campônios que faltam.
Tchitchikof, um espertalhão da minha marca, ou talvez maior, lembra-se de
comprar as almas mortas de vários proprietários. Bom negócio para os
proprietários, que vendiam defuntos ou simples nomes, por dez réis de mel
coado. Tchitchikof, logo que arranjou umas mil almas mortas, registrou-as
como vivas; pegou dos títulos do registro, e foi ter a um monte de socorro,
que, à vista dos papéis legais, adiantou ao suposto proprietário uns 200.000
rublos; Tchitchikof meteu-os na mala e fugiu para onde a polícia russa o não
pudesse alcançar.
Visconde de Ouro Preto.

Creio que entenderam; vejam agora o meu plano, que é tão fino como esse,
e muito mais honesto. Sabem que a honestidade é como a chita; há de todo o
preço, desde meia pataca.
Suponha o leitor que possuía duzentos escravos no dia 12 de maio, e que
os perdeu com a lei de 13 de maio. Chegava eu ao seu estabelecimento, e
perguntava-lhe:
– Os seus libertos ficaram todos?
– Metade só; ficaram cem. Os outros cem dispersaram-se; consta-me que
andam por Santo Antônio de Pádua.
– Quer o senhor vender-mos?
Espanto do leitor; eu, explicando:
– Vender-mos todos, tanto os que ficaram, como os que fugiram.
O leitor assombrado:
– Mas, senhor, que interesse pode ter o senhor…
– Não lhe importe isso. Vende-mos?
– Libertos não se vendem.
– É verdade, mas a escritura da venda terá a data de 29 de abril; nesse
caso, não foi o senhor que perdeu os escravos, fui eu. Os preços marcados na
escritura serão os da tabela da lei de 1885; mas eu realmente não dou mais de
dez mil-réis por cada um.
Calcula o leitor:
– Duzentas cabeças a dez mil-réis são dois contos. Dois contos por
sujeitos que não valem nada, porque já estão livres, é um bom negócio.
Depois refletindo:
– Mas, perdão, o senhor leva-os consigo?
– Não, senhor: ficam trabalhando para o senhor; eu só levo a escritura.
– Que salário pede por eles?
– Nenhum, pela minha parte, ficam trabalhando de graça. O senhor pagar-
lhes-á o que já paga.
Naturalmente, o leitor, à força de não entender, aceitava o negócio. Eu ia a
outro, depois a outro, depois a outro, até arranjar quinhentos libertos, que é até
onde podiam ir os cinco contos emprestados; recolhia-me à casa, e ficava
esperando.
Esperando o quê? Esperando a indenização, com todos os diabos!
Quinhentos libertos, a trezentos mil-réis, termo médio, eram cento e cinquenta
contos; lucro certo: cento e quarenta e cinco.
Porquanto, isto de indenização, dizem uns que pode ser que sim, outros que
pode ser que não; é por isso que eu pedia o dinheiro a casamento. Dado que
sim, pagava e casava, (com a leitora, por exemplo); dado que não, ficava
solteiro e não perdia nada, porque o dinheiro era de outro. Confessem que era
um bom negócio.
Eu até desconfio que há já quem faça isto mesmo, com a diferença de ficar
com os libertos. Sabem que no tempo da escravidão, os escravos eram
anunciados com muitos qualificativos honrosos, perfeitos cozinheiros, ótimos
copeiros, etc. Era, com outra fazenda, o mesmo que fazem os vendedores, em
geral: superiores morins, lindas chitas, soberbos cretones. Se os cretones, as
chitas e os escravos se anunciassem, não poderiam fazer essa justiça a si
mesmos.
Ora, li ontem um anúncio em que se oferece a aluguel, não me lembro em
que rua – creio que na do Senhor dos Passos, –, uma insigne engomadeira. Se
é falta de modéstia, eis aí um dos tristes frutos da liberdade; mas se é algum
sujeito que já se me antecipou… Larga, Tchitchikof de meia-tigela! Ou então
vamos fazer o negócio a meias.
BOAS NOITES.
a casamento
Significava fazer um negócio em parceria com outra pessoa, que assumiria
os riscos financeiros, expressão aparentemente inventada pelo próprio
Machado.i

monte de socorro
Referência à Caixa Econômica do Monte de Socorro da Corte, inaugurada
em 4 de novembro de 1861 e cujas finalidades eram: conceder empréstimos,
por módico juro (6% a.a.) e sob penhor, e estimular a poupança entre as
classes menos abastadas – mesmo os escravos, que podiam manter
depósitos para comprar suas cartas de alforria.

Santo Antônio de Pádua


Localidade no vale do Paraíba, perto de Campos, no rio Pomba, onde
grupos de libertos vagavam desde a Abolição.ii

tabela
Os escravos eram avaliados de acordo com tabelas oficiais. A última delas
é de 1885, cujos preços serviam de base para as manumissões, segundo a
Lei do Ventre Livre de 28.09.1871.iii

indenização
Pleiteada (sob o slogan ameaçador “Indenização ou República!”) logo
depois da Abolição por fazendeiros mais conservadores, principalmente do
estado do Rio de Janeiro, a indenização, mesmo não aprovada na Câmara
dos Deputados e no Senado, provocava discussões públicas e tornou-se o
principal assunto dos jornais nesse momento. As “indenizações”, que
acabaram implementadas, e os “auxílios à lavoura” não guardavam qualquer
referência com a quantidade de escravos libertados ou previamente havidos
por um dado tomador.
12. [o acionista é uma bela concepção…]
23 DE FEVEREIRO DE 1889, BONS DIAS!, GAZETA DE NOTÍCIAS

Outra crônica sobre a condição do acionista, localizada no momento em que


é preciso substituir o barão de Cotegipe, na presidência do Banco do Brasil.
Cotegipe deixara a posição de primeiro-ministro em 9 de março de 1888, e
assumira a presidência do banco em 5 de dezembro do mesmo ano. Em 13 de
fevereiro de 1889 faleceu, foi substituído pelo vice, o visconde de São
Francisco, efetivado em seguida, a 7 de março, embora não se o considerasse
a solução definitiva para os desafios que o banco haveria de enfrentar.
Machado escreve antes desta solução se apresentar, e alude a nomes que não
incluíam o que foi finalmente escolhido e empossado em 12 de outubro de
1889, o senador, conselheiro e também antigo presidente do Conselho de
Ministros Manuel Pinto de Souza Dantas.1 Mais um ex-chanceler do Império,
escolhido, porém, pouco mais de um mês antes da República. A definição da
presidência do Banco do Brasil, em vista da vasta influência do governo em
seus negócios, não era mesmo para se fazer num contexto de “democracia do
talento”, ou da livre e transparente escolha do pequeno acionista. A “mão
invisível”, a “cabala”, ou “os de dentro”, que mandavam na eleição, não eram
verdadeiramente os acionistas; o “dono da casa” era o governo.

BONS DIAS!
Mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa. Confesso o meu pecado; estou
pronto a purgá-lo esbofeteando-me em público. Só assim mostra um homem
que realmente se arrependeu, e se acha contrito. Certo é que o meu erro não
era da vontade, mas de inteligência; não menos certo, porém, é que tranquei
sempre os ouvidos a qualquer demonstração que me quisessem opor, e esta
inclinação a recusar a verdade é que define bem a pertinácia do ânimo ruim.
Vamos ao pecado. Os meus amigos sabem que nunca admiti o acionista,
senão como um ente imaginário e convencional. O raciocínio que me levara a
negá-lo, posto que de aparência lógica, era radicalmente vicioso. Dizia eu
que, devendo ser o acionista um interessado no meneio dos capitais e na boa
marcha da administração de uma casa ou de uma obra, não se podia combinar
esta noção com a ausência dele no dia em que os encarregados da obra lhe
queriam prestar contas. Vi caras de diretores vexados e tristes. Um deles,
misturando a troça com as lágrimas, virava pelo avesso um adágio popular, e
dizia-me em segredo:
– Não se pode ser mordomo com tais juízes.
Diziam-me depois, que o acionista aparecia, ao fim de três chamadas,
ouvia distraído o relatório, puxava o relógio, recebia uma cédula, metia-a na
urna, e punha-se a panos. Não, retorquia eu, é impossível; se ele fosse um
simples fiscal, podia fazer o que faz o da minha freguesia. Mas ele é o próprio
capital, é o fundo, é super hanc petram. Sem ele não há casa nem obra… Mas
então como explica? Não explico, ignoro; só sei que o acionista é uma bela
concepção. Homero fazia dos sonhos simples personagens, mandados do céu
para trazer recados dos deuses aos homens. O acionista há de ser a mesma
coisa, sem a beleza genial de Homero.
Tal era a minha convicção. Queriam demonstrar o contrário; alguns, mais
fogosos, chamavam-me nomes feios, que não repito por serem muitos, não por
vergonha. Homem contrito perde os respeitos humanos. Para isto basta dizer
que me chamavam camelo, paspalhão, lorpa. Creio que quem confessa estes
três apodos, pode calar o resto.
Pois bem, achei o acionista, confesso o acionista, juro pelas tripas do
acionista, pelas barbas do acionista, por todas as ações do acionista. Não
grito: eureka! porque deixei esta palavra estrompada e quase morta nos
debates políticos de 1860; e demais podia dar ideia de presunção que não
tenho.
Como e onde o achei? Nada mais simples. Desde alguns dias que não
pergunto aos amigos senão estas duas coisas: Já teve a febre amarela? Quem
substituirá o Barão de Cotegipe no Banco do Brasil?
A esta segunda pergunta não me respondiam nada, porque nenhum dos
meus amigos possui outras ações, além das que pratica. Abri de mão o
interesse puramente gratuito que tenho no negócio, mas abri também os jornais,
e foi isto que me trouxe a luz.
Não gosto de fazer grandes comparações comigo; lá vai uma, e é a última.
Achei-me na estrada de Damasco, tal qual S. Paulo, e ouvi, à semelhança
daquele divino apóstolo, estas palavras, iguais às do Senhor: “Por que me
persegue?” A diferença é que S. Paulo – tamanho foi o seu deslumbramento –
perdeu a vista, não podendo mais que ouvir a voz misteriosa. Eu, ao contrário,
vi tudo: a resposta que eu pedia sobre a presidência do Banco do Brasil, é
dada de diferentes maneiras, mas sempre por um acionista na assinatura. Se
fosse o nome da pessoa, não me convencia, porque eu podia muito bem assinar
uma opinião, sem ter nada com o banco; mas é sempre um acionista, só, sem
nada. Recordações de Mendes Leal. “Como te chamas? – Pedro. – Pedro de
quê? – Pedro sem mais nada.” No presente caso, não há Pedro, não há iniciais;
são os próprios acionistas que, vendo que se trata do primeiro lugar, correm a
dar a sua opinião.

Desenho da fachada do antigo


prédio do Banco do Brasil,
na rua da Alfândega.

E tudo se explica. Não correm às assembleias, pela confiança que lhes


merecem, não digo os dividendos, mas os divisores. Agora, porém, trata-se
justamente de completar os divisores, por acordo prévio, e eita que metem a
mão nos dividendos.
Verdade é que um dos artigos, que não é de acionista, dá por escusada
qualquer competência, porque há um candidato do dono da casa. Imaginei que
esse candidato era eu, e corri a procurar o dono da casa, isto é, do prédio em
que está o banco, e disseram-me que o prédio é do próprio banco.
– Mas quem é então o dono da casa?
– Não há; o dono é o próprio acionista.
Aqui é que senti um pouco da turvação de S. Paulo; mas era tarde, a
conversão estava feita.
BOAS NOITES.
super hanc petram
Embora a tradução literal da frase seja “sobre esta pedra” – que Magalhães
Júniori sustenta ter Machado empregado com o sentido de “pedra angular” –
a expressão integra versículo bíblico: “Também eu te digo que tu és Pedro, e
sobre esta pedra edificarei minha igreja” [Mateus, 16:18].

estrompada
Tornada inútil, fatigada, deteriorada.

debates políticos de 1860


Referência à campanha do liberal Teófilo Otoni (1807-1869) – político e
empresário, deputado provincial, deputado geral e senador –, que criticava
o regime corrupto resultante da “Conciliação”, pregava a redução do poder
do imperador e eleições mais democráticas. Embora vencedora no Rio de
Janeiro, a campanha não gerou efeito prático: a Câmara dos Deputados, de
minoria liberal, foi dissolvida em 1863, gerando uma forte frustração no
idealismo de muitos, à época, inclusive do jovem Machado.ii

assinatura
Machado refere-se às assinaturas postas nas cartas (“Um acionista,
“Acionista de 200 ações” etc.) publicadas na seção “A pedidos” (como os
“classificados” de hoje) dos jornais, depois da morte de Cotegipe, nas quais
muitas pessoas, inclusive altas figuras políticas, propunham suas respectivas
candidaturas, ou indicavam outros, para a presidência do banco.iii

Mendes Leal
Referência à peça Pedro, de José Mendes Leal Júnior – dramaturgo
português – sobre a qual Machado publicara uma resenha em 1860, em que
destacava, como mais uma demonstração de seu idealismo de juventude, o
que denominou “democracia do talento”: “É a democracia do talento que
reage sobre a nobreza do brasão, um elemento poderoso que procura
suplantar uma força gasta.” iv
13. [uma moeda nossa …o cruzeiro]
30 DE MARÇO DE 1889, BONS DIAS! GAZETA DE NOTÍCIAS

Foram anos e anos de discussão sobre a necessidade de uma reforma


monetária que aliviasse problemas crônicos de liquidez, notadamente nas
épocas de safra, agravados pela Abolição e a consequente disseminação do
trabalho assalariado, e também pela efervescência financeira do final da
década de 1880. Depois de muita discussão, aprova-se finalmente a Lei
3.403/88, cujo instrumento regulamentador, a Lei 10.144, de 5 de janeiro de
1889, previa uma ambiciosa reorganização bancária, que acabou falhando de
forma inesperada: nenhum interessado apareceu para formar bancos de
emissão no figurino da nova lei, que estabelecia a emissão com lastro em
apólices e sob o princípio da “pluralidade emissora” – princípio segundo o
qual diversos bancos privados poderiam ter o privilégio de emitir notas com
“curso legal”, ou seja, aceitáveis como dinheiro para liquidação de
pagamentos. O aparente desconforto com a “pluralidade” de moedas
nacionais, assunto de outras crônicas, misturava-se, neste momento, com o que
parecia uma dádiva: em consequência de uma bonança externa inesperada, o
câmbio valorizara-se para além, inclusive, do valor correspondente à
longamente perseguida paridade de 1846 – 27 pence por mil-réis. Pois bem,
estando a taxa de câmbio no valor correspondente a esta paridade legal, uma
libra esterlina deveria ser aceita pelo Estado, em pagamento de impostos, por
exemplo, ao valor de 8$880, que eram os mesmos 27 pence, medidos “de
cabeça para baixo”, em termos de mil-réis por libra esterlina. Ocorre, todavia,
que, neste momento incomum, o “preço de mercado” da libra esterlina,
expresso na taxa de câmbio, era menor! Havia, portanto, uma vantagem em se
pagar impostos com moeda estrangeira ou metálica. Havia razoável
quantidade de “soberanos” (a moeda de ouro de uma libra) e também de
diversas outras moedas metálicas brasileiras e espanholas em circulação;
essas moedas estavam muito procuradas para seu uso nas estações públicas.1
Esse estado de coisas traz a reflexão, que se repete nos anos posteriores,
sobre a inadequação formal do “mil-réis” como padrão monetário;2 era uma
moeda cuja expressão era o seu múltiplo, mil-réis, cuja origem era o real
português, que terminou substituído pelo escudo em 1911. O “mil-réis”, além
disso, encontrava certa dificuldade no fracionamento e também na
multiplicação; a primeira tentativa séria de substituí-lo pelo cruzeiro foi em
1926, quando foi criada a Caixa de Estabilização, mas a implantação
definitiva do cruzeiro apenas se deu em 1942 (DL 4.791/42).3

Machado, aos 35 anos.

BONS DIAS!
Quantas questões graves se debatem neste momento! Só a das farinhas de
Pernambuco e da moeda bastam para escrever duas boas séries de artigos.
Mas há também a das galinhas de Santos – aparentemente mínima, mas
realmente ponderosa, desde que a consideremos do lado dos princípios. As
galinhas cresceram de preço, com a epidemia, chegando a cinco e creio que
sete mil-réis. Sem isso não há dieta.
De relance, faz lembrar o caso daquele sujeito contado pelo nosso João
(veja Almanaque do velhinho, ano 5º, 1843) que, dando com um casebre a
arder, e uma velha sentada e chorando, perguntou a esta:
– Boa velha, esta casinha é sua?
– Senhor, sim, e o triste buraco em que morava; não tenho mais nada, perdi
tudo.
– Bem; deixa-me acender ali o meu cigarro?
E o homem acendeu o cigarro na calamidade particular. Mas os dois casos
são diferentes; no de Santos rege a lei econômica, e contra esta não há quebrar
a cabeça. Diremos, por facécia, que é acender dois ou três charutos na
calamidade pública; mas em alguma parte se hão de acender os charutos.
Ninguém obsta a que se vendam as galinhas por preço baixo, ou até por nada,
mas então é caridade, bonomia, desapego, misericórdia – coisas alheias aos
princípios e às leis que são implacáveis.
Não examinei bem o negócio das farinhas pernambucanas, mas não tenho
medo que os princípios sejam sacrificados.

Quanto aos das libras esterlinas, não tendo nenhuma no bolso, não me
julgo com direito de opinar. Contudo, meteu-se-me na cabeça que não nos
ficava mal possuir uma moeda nossa, em vez de dar curso obrigatório à libra
esterlina. Um velho amigo, sabedor destas matérias, acha este modo de ver
absurdo; eu, apesar de tudo, teimo na ideia, por mais que me mostrem que
daqui a pouco ou muito lá se pode ir embora o ouro, nacional ou não.
Mas, principalmente, o que vejo nisto é um pouco de estética. Tem a
Inglaterra a sua libra, a França o seu franco, os Estados Unidos o seu dólar,
por que não teríamos nós nossa moeda batizada? Em vez de designá-la por um
número, e por um número ideal – vinte mil-réis – por que lhe não poremos um
nome – cruzeiro – por exemplo? Cruzeiro não é pior que outros, e tem a
vantagem de ser nome e de ser nosso. Imagino até o desenho da moeda; de um
lado a efígie imperial, do outro a constelação… Um cruzeiro, cinco cruzeiros,
vinte cruzeiros. Os nossos maiores tinham os dobrões, os patacões, os
cruzados, etc., tudo isto era moeda tangível; mas vinte mil-réis… Que são
vinte mil-réis? Enfim, isto já me vai cheirando a neologismo. Outro ofício.
Prefiro expandir a minha dor, a minha compaixão… Oh! mas compaixão
grande, profunda, dessas que nos tornam melhores, que nos levantam deste
mundo baixo e cruel, que nos fazem compartir das dores alheias. J’ai mal
dans ta poitrine, escreveu um dia a boa Sévigné à filha adoentada, e fez muito
bem, porque me ensinou assim um modo fino e pio de falar ao mais lastimável
escrivão dos nossos tempos, ao escrivão Mesquita. Mesquita, j’ai mal dans ta
poitrine.

Não te conheço, Mesquita; não sei se és magro, ou gordo, alto ou baixo;


mas para lastimar um desgraçado não é preciso conhecer as suas proporções
físicas. Sei que és escrivão; sei que leste o processo Bíblia, composto de mil
e tantas folhas, em voz alta, perante o tribunal de jurados, durante horas e
horas. Foi o que me disseram os jornais; leste e sobreviveste. Também eu
sobrevivi a uma leitura, mas esta era feita por outro, numa sociedade literária,
há muitos anos; um dos oradores, em vez de versos, como se esperava, sacou
do bolso um relatório, e agora o ouvirás. Tenho ainda diante dos olhos as
caras com que andávamos todos nas outras salas, esguiando pelas portas, a ver
se o homem ainda lia; e ele lia. O papel crescia-lhe nas mãos. Não era
relatório, era solitária; quando apareceu a cabeça, houve um Te Deum
laudamus nas nossas pobres almas.
O mesmo foi contigo, Mesquita; crê que ninguém te ouviu. Os poucos que
começaram a ouvir-te, ao cabo de uma hora mandaram-te ao diabo, e
pensaram nos seus negócios. Mil e tantas folhas! Duvido que o processo
Parnell seja tão grosso como o do testamento do Bíblia. A própria Bíblia
(ambos os testamentos) não é tão grande, embora seja grande. Não haverá
meio de reduzir essa velha praxe a uma coisa útil e cômoda? Aviso aos
legisladores.
BOAS NOITES.
Ação ao portador da empresa formada para empreender o canal do Panamá,
fundada e presidida por Ferdinand de Lesseps, de que fala Machado.
farinhas de Pernambuco
Refere-se aos protestos no Recife contra a exportação de farinha de
mandioca, que causou forte aumento no preço.i

galinhas de Santos
Menção à epidemia de gripe aviária no porto de Santos, que ata cou a
cidade e logo propagou-se pelo interior de São Paulo.

ponderosa
Aqui empregado como grave, notável, convincente.

Almanaque do velhinho
Refere-se a João Velhinho, colega de Machado na Gazeta de Notícias. Vale
considerar uma brincadeira machadiana com o ano de 1843, quando surgiu o
cartão de boas festas, levando a crer que, à la Machado, o “velhinho”
pudesse também ser uma referência a Papai Noel, numa típica invenção
ficcional, pois nunca existiu tal almanaque.

cigarro
Esta história é uma de muitas que Machado repete em diferentes textos.ii

facécia
Gracejo, brincadeira.

Sévigné
Na tradução literal do francês: “Eu sinto as dificuldades dentro do seu
peito.” Madame de Sévigné (1626-1696), autora famosa de muitas cartas, a
maioria para sua filha – cuja saúde era debilitada –, dizia sentir, nesta
passagem, ela própria as dores da filha.

o processo Bíblia
Referência ao julgamento dos falsificadores do testamento de Custódio José
Gomes, vulgo “o Bíblia” – que Machado também comentou em crônica da
série Gazeta de Holanda (1886-88).iii

Te Deum laudamus
Te Deum é um hino litúrgico católico atribuído a santo Ambrósio e a santo
Agostinho, iniciado com as palavras: Te Deum laudamus (A Vós, ó Deus,
louvamos), cujo texto original foi musicado por vários compositores, entre
eles Henry Purcell, W. Amadeus Mozart e Franz Haydn; também o
imperador Pedro I do Brasil compôs um Te Deum.

o processo Parnell
Charles Stewart Parnell (1846-1891), líder nacionalista irlandês que em
1885 conseguiu, depois de grande batalha parlamentar, a queda do governo
conservador de Gladstone, na Inglaterra. Em 1886 foi denunciado pelo
jornal Times por conivência em atos criminosos, processado e julgado por
uma comissão de juízes da Suprema Corte, por ser parlamentar. Provou sua
inocência e foi absolvido.iv
14. [se começarem a fazer das sociedades
pequenos parlamentos…]
19 DE JUNHO DE 1892, A SEMANA

A crônica é sobre a redação das atas das assembleias de acionistas, que um


banco (significativamente nomeado Iniciador de Melhoramentos, parecendo
fictício, mas verdadeiro) passaria a reproduzir na forma extensiva e não mais
na linguagem resumida, restrita às deliberações. A Lei Societária de nossos
dias permite as duas formas, mas mesmo a redação mais ampla, que inclui a
discussão que antecede as deliberações, não é uma transcrição, como a dos
debates parlamentares. É interessante refletir, nessa nossa época onde a
transparência elevou-se à condição de valor inatacável, sobre o efeito que a
forma de registro tem sobre o conteúdo da decisão. Muitos comitês
executivos, como, por exemplo, o famoso Copom (Comitê de Política
Monetária do Banco Central), em vez de caminhar na direção da transmissão
ao vivo pela TV, como certa vez sugeriu um senador da República, aboliu até
mesmo as gravações. O efeito dos holofotes, como amiúde demonstrado em
comissões no Congresso, parece ser deletério ao conteúdo, e conduz ao
exibicionismo dos iluminados e ao fastio do público, que conviria evitar,
como observa o cronista, mesmo em detrimento da forma. O fato é que
processos decisórios objetivos podem se corromper, em razão do registro, e
levarem o grupo, no caso uma assembleia de acionistas, a funcionar como um
pequeno parlamento. O “melhoramento”, portanto, apenas servia para
aumentar a vazia solenidade das assembleias. O Banco Auxiliador de
Melhoramentos, que registrou seus estatutos na Associação Comercial em
1889, com um capital de 31 mil contos, não foi mesmo muito adiante.

OBANCO INICIADOR DE MELHORAMENTOS acaba de iniciar um


melhoramento, que vem mudar essencialmente a composição das atas das
assembleias gerais de acionistas.
Estes documentos (toda a gente o sabe) são o resumo das deliberações dos
acionistas, quer dizer uma narração sumária, em estilo indireto e seco, do que
se passou entre eles, relativamente ao objeto que os congregou. Não dão a
menor sensação do movimento e da vida dos debates. As narrações literárias,
quando se regem por esse processo, podem vencer o tédio, à força de talento,
mas é evidentemente melhor que as coisas e pessoas se exponham por si
mesmas, dando-se a palavra a todos, e a cada um a sua natural linguagem.
Tal é o melhoramento a que aludo. A ata que aquela associação publicou
esta semana, é um modelo novo, de extraordinário efeito. Nada falta do que se
disse, e pela boca de quem disse, à maneira dos debates congressionais. –
“Peço a palavra pela ordem” – “Está encerrada a discussão e vai-se proceder
à votação. Os senhores que aprovam queiram ficar sentados.” Tudo assim,
qual se passou, se ouviu, se replicou e se acabou.
E basta um exemplo para mostrar a vantagem da reforma. Tratando-se de
resolver sobre o balanço, consultou o presidente à assembleia se a votação
seria por ações, ou não. Um só acionista adotou a afirmativa; e tanto bastava
para que os votos se contassem por ações, como declarou o presidente mas
outro acionista pediu a palavra pela ordem. “Tem a palavra pela ordem.” E o
acionista: “Peço a V. Exª, sr. presidente, que consulte ao sr. acionista que se
levantou, se ele desiste, visto que a votação por ações, exigindo a chamada,
tomará muito tempo.” Consultado o divergente, este desistiu, e a votação se fez
per capita. Assim ficamos sabendo que o tempo é a causa da supressão de
certas formalidades exteriores; e assim também vemos que cada um, desde que
a matéria não seja essencial, sacrifica facilmente o seu parecer em benefício
comum.
O pior é se corromperem este uso, e se começarem a fazer das sociedades
pequenos parlamentos. Será um desastre. Nós pecamos pelo ruim gosto de
esgotar todas as novidades. Uma frase, uma fórmula, qualquer coisa, não a
deixamos antes de posta em molambo. Casos há em que a própria referência
crítica ao abuso perde a graça que tinha, à força da repetição; e quando um
homem quer passar por insípido (o interesse toma todas as formas), alude a
uma dessas chatezas públicas. Assim morrem afinal os usos, os costumes, as
instituições, as sociedades, o bom e o mau. Assim morrerá o universo, se se
não renovar frequentemente.
Quando, porém, acabará o nome que encima estas linhas? Não sei quem
foi o primeiro que compôs esta frase, depois de escrever no alto do artigo o
nome de um cidadão. Quem inventou a pólvora? Quem inventou a imprensa,
descontando Gutenberg, porque os chins a conheciam? Quem inventou o
bocejo, excluindo naturalmente o Criador, que, em verdade, não há de ter visto
sem algum tédio as impaciências de Eva? Sim, pode ser que na alta mente
divina estivesse já o primeiro consórcio e a consequente humanidade. Nada
afirmo, porque me falta a devida autoridade teológica; uso da forma
dubitativa. Entretanto, nada mais possível que a Criação trouxesse já em
gérmen uma longa espécie superior, destinada a viver num eterno paraíso.
Eva é que atrapalhou tudo. E daí, razoavelmente, o primeiro bocejo.
– Como esta espécie corresponde já à sua índole! diria Deus consigo. Há
de ser assim sempre, impaciente, incapaz de esperar a hora própria. Nunca os
relógios, que ela há de inventar, andarão todos certos. Por um exato, contar-se-
ão milhões divergentes, e a casa em que dois marcarem o mesmo minuto, não
apresentará igual fenômeno vinte e quatro horas depois. Espécie inquieta, que
formará reinos para devorá-los, repúblicas para dissolvê-las, democracias,
aristocracias, oligarquias, plutocracias, autocracias, para acabar com elas, à
procura do ótimo, que não achará nunca.
E, bocejando outra vez, terá Deus acrescentado:
– O bocejo, que em mim é o sinal do fastio que me dá este espetáculo
futuro, também a espécie humana o terá, mas por impaciência. O tempo lhe
parecerá a eternidade. Tudo que lhe durar mais de algumas horas, dias,
semanas, meses ou anos (porque ela dividirá o tempo e inventará almanaques),
há de torná-la impaciente de ver outra coisa e desfazer o que acabou de fazer,
às vezes antes de o ter acabado.
Compreenderá as vacas gordas, porque a gordura dá que comer, mas não
entenderá as vacas magras; e não saberá (exceto no Egito, onde porei um
mancebo chamado José) encher os celeiros dos anos graúdos, para acudir à
penúria dos anos miúdos.1 Falará muitas línguas, beresith, ananké, habeas
corpus; sem se fixar de vez em uma só, e quando chegar a entender que uma
língua única é precisa, e inventar o volapuque, sucessor do parlamentarismo,
terá começado a decadência e a transformação. Pode ser então que eu povoe o
mundo de canários.
Mas se assim explicarmos o primeiro bocejo divino, como acharmos o
primeiro bocejo humano? Trevas tudo. O mesmo se dá com o nome que
encima estas linhas. Nem me lembra em que ano apareceu a fórmula. Bonita
era, e o verbo encimar não era feio. Entrou a reproduzir-se de um modo
infinito. Toda a gente tinha um nome que encimar algumas linhas. Não havia
aniversário, nomeação, embarque, desembarque, esmola, inauguração, não
havia nada que não inspirasse algumas linhas a alguém, – às vezes com o
maior fim de encimá-las por um nome. Como era natural, a fórmula foi-se
gastando – mas gastando pelo mesmo modo por que se gastam os sapatos
econômicos, que envelhecem tarde. E todos os nomes do calendário foram
encimando todas as linhas; depois, repetiram-se:

Si cette histoire vous embête


Nous allons la recommencer.
beresith, ananké, habeas corpus
Beresith é a primeira palavra da Bíblia, em hebreu, e significa “no
começo”. Ananké significa “destino”, em grego.i habeas corpus é a
expressão latina usada para o recurso jurídico destinado a assegurar a
liberdade de ir e vir.

volapuque
Língua artificial, para ser adotada internacionalmente, como segunda língua
universal, criada pelo padre alemão Johann Schleyer em 1879, e que chega
a ter mais de um milhão de adeptos, mas declina a partir da virada do
século, sendo sucedida pelo esperanto, criada por Lazarus L. Zamenhof em
1887, que teve seu apogeu nos anos 1920, mas ainda possui alguns milhões
de adeptos.

recommencer
Trecho de uma canção popular francesa “Il était un petit navire” (Ele era um
pequeno navio), cuja letra era: Si cette histoire vous amuse / Nous pouvons
la recommencer (Se esta história lha diverte / Nós podemos recomeçá-la).
Na paródia machadiana, a tradução literal seria: “Se esta história lhe
aborrece? Nós vamos recomeçá-la.” ii
15. [o negócio das debêntures …
e o habeas corpus]
31 DE JULHO DE 1892, A SEMANA

A primeira de várias crônicas que tratam de debêntures, tendo como pano de


fundo as emitidas pela Companhia Geral de Estradas de Ferro, empresa
formada pelo lendário Henry Lowndes, o conde de Leopoldina, um dos mais
destacados e extravagantes financistas do Encilhamento. Lowndes foi um dos
principais personagens do romance à clef de visconde de Taunay (comentado
adiante no Capítulo 22), com o nome de William Drowns, visconde de
Petrolina. Mesmo a Raymundo Faoro,1 que dedica todo um capítulo às
carruagens na obra de Machado, escapa o fato de que Lowndes tenha
ultrapassado todas as possibilidades em se tratando de “o homem mostrar-se
através de sua carruagem”: seu landau – um tipo de carruagem de quatro
rodas, duas séries de bancos, frente a frente, e capota dupla movível – era
puxado pelas ruas do Rio de Janeiro por uma parelha de zebras2 especialmente
importadas para esta finalidade.3 As “debêntures da Geral” foram, com efeito,
“a grande coqueluche da última fase da bolha especulativa”,4 especialmente
após as ações começarem a fraquejar a partir de 1891. O volume em
circulação era substancial e as cotações foram de 110 mil-réis na máxima,
para 6 mil-réis em 1891. Em seu retrospecto anual para 1891, o Jornal do
Commercio descreveria a falência da Geral, ainda não inteiramente
consumada ao final do ano, como “a desgraça máxima da nossa praça”.5 Para
piorar as coisas, em meio a mercados subitamente desfavoráveis, Lowndes
teria financiado a conspiração contra Floriano em 1892 e, por conta disso,
fora preso, exilado e perseguido. Ruy Barbosa atuou como advogado de todos
os presos, inclusive Lowndes, em julgamento que adquiriu fortíssimos
contornos políticos e teve como bombástica novidade um pedido de habeas
corpus em favor de seus clientes ao Supremo Tribunal Federal. Ruy fez no
tribunal “uma de suas longas e retumbantes defesas”, mas perdeu por 10 votos
contra um, e “apesar da derrota, foram grandes os efeitos do pedido de habeas
corpus impetrado por Ruy Barbosa, para muito além da demonstração técnica
do uso desse recurso jurídico tão pouco conhecido no Brasil”.6 Isto foi, aliás,
exatamente o que confundiu o pobre amigo do cronista, o chacareiro iletrado,
seguramente, na linguagem de nossos dias, um investidor “não qualificado”,
que sabia tanto de debêntures quanto de habeas corpus.

Imagem rara de cautela de ações da Geral.

ESTA SEMANA FURTARAM a um senhor que ia pela rua mil debêntures; ele
providenciou de modo que pôde salvá-los. Confesso que não acreditei na
notícia, a princípio; mas o respeito em que fui educado para com a letra
redonda fez-me acabar de crer que se não fosse verdade não seria impresso.
Não creio em verdades manuscritas. Os próprios versos, que só se fazem por
medida, parecem errados, quando escritos à mão. A razão por que muitos
moços enganavam as moças e vice-versa é escreverem as suas cartas, e
entregá-las de mão a mão, ou pela criada, ou pela prima, ou por qualquer outro
modo, que no meu tempo era ainda inédito. Quem não engana é o namorado da
folha pública: “Querida X, não foste hoje ao lugar do costume; esperei até às
três horas. Responde ao teu Z.” E a namorada: “Querido Z. Não fui ontem por
motivos que te direi à vista. Sábado, com certeza, à hora costumada; não
faltes. Tua X.” Isto é sério, claro, exato, cordial.
A razão que me fez duvidar a princípio foi a noção que me ficou dos
negócios de debêntures. Quando este nome começou a andar de boca em boca,
até fazer-se um coro universal, veio ter comigo um chacareiro aqui da
vizinhança e confessou que, não sabendo ler, queria que lhe dissesse se
aqueles papéis valiam alguma coisa. Eu, verdadeiro eco da opinião nacional,
respondi que não havia nada melhor; ele pegou nas economias e comprou uma
centena delas. Cresceu ainda o preço e ele quis vendê-las; mas eu acudi a
tempo de suspender esse desastre. Vender o quê? Deixasse estar os papéis que
o preço ia subir por aí além. O homem confiou e esperou. Daí a tempo ouvi um
rumor; eram as debêntures que caíam, caíam, caíam… Ele veio procurar-me,
debulhado em lágrimas; ainda o fortaleci com uma ou duas parábolas, até que
os dias correram, e o desgraçado ficou com os papéis na mão. Consolou-se um
pouco quando eu lhe disse que metade da população não tinha outra atitude.

Lowndes no exílio.

Pouco tempo depois (vejam o que é o amor a estas coisas!) veio ter
comigo e proferiu estas palavras:
– Eu já agora perdi quase tudo o que tinha com as tais debêntures; mas
ficou-me sempre um cobrinho no fundo do baú, e como agora ouço falar muito
em habeas corpus, vinha, sim, vinha perguntar-lhe se esses títulos são bons, e
se estão caros ou baratos.
– Não são títulos.
– Mas o nome também é estrangeiro.
– Sim, mas nem por ser estrangeiro, é título; aquele doutor que ali mora
defronte é estrangeiro e não é título.
– Isso é verdade. Então parece-lhe que os habeas corpus não são papéis?
– Papéis são; mas são outros papéis.
A ideia de debênture ficou sendo para mim a mesma coisa que nada, de
modo que não compreendia que um senhor andasse com mil debêntures na
algibeira, que outro as furtasse, e que ele corresse em busca do ladrão.
Acreditei por estar impresso. Depois mostraram-me a lista das cotações. Vi
que não se vendem tantas como outrora, nem pelo preço antigo, mas há algum
negociozinho, pequeno, sobre alguns lotes. Quem sabe o que elas serão ainda
algum dia? Tudo tem altos e baixos.
O certo é que mudei de opinião. No dia seguinte, depois do almoço, tirei
da gaveta algumas centenas de mil-réis, e caminhei para a Bolsa,
encomendando-me (é inútil dizê-lo) ao Deus de Abraão, Isaac e Jacó.
Comprei um lote, a preço baixo, e particularmente prometi uma debênture de
cera a S. Lucas, se me fizer ganhar um cobrinho grosso. Sei que é imitar
aquele homem que, há dias, deu uma chave de cera a S. Pedro, por lhe haver
deparado casa em que morasse; mas eu tenho outra razão. Na semana passada
falei de uns casais de pombas, que vivem na igreja da Cruz dos Militares, aos
pés de S. João e S. Lucas. Uma delas, vendo-me passar, quando voltava da
Bolsa, desferiu o voo, e veio pousar-me no ombro; mostrou-se meio agastada
com a publicação, mas acabou dizendo que naquela rua, tão perto dos bancos e
da praça, tinham elas uma grande vantagem sobre todos os mortais. Quaisquer
que sejam os negócios – arrulhou-me ao ouvido –, o câmbio para nós está
sempre a 27.
Não peço outra coisa ao apóstolo; câmbio a 27 para mim como para elas,
e terá a debênture de cera, com inscrições e alegorias. Veja que nem lhe peço
a cura da tosse e da coriza que me afligem, desde algum tempo. O meu
talentoso amigo Dr. Pedro Américo disse outro dia na Câmara dos Deputados,
propondo a criação de um teatro nacional que se, por um milagre de higiene,
todas as moléstias desaparecessem, “não haveria faculdade, nem artifícios de
retórica capazes de convencer a ninguém das belezas da patologia nem da
utilidade da terapêutica”. Ah! meu caro amigo! Eu dou todas as belezas da
patologia por um nariz livre e um peito desabafado. Creio na utilidade da
terapêutica; mas que deliciosa coisa é não saber que ela existe, duvidar dela e
até negá-la! Felizes os que podem respirar! Bem-aventurados os que não
tossem! Agora mesmo interrompi o que ia escrevendo para tossir; e continuo a
escrever de boca aberta para respirar. E falam-me em belezas da patologia…
Francamente, eu prefiro as belezas da Batalha de Avaí.

A rigor, devia acabar aqui; mas a notícia que acaba de chegar do


Amazonas obriga-me a algumas linhas, três ou quatro. Promulgou-se a
Constituição, e, por ela, o governador passa-se a chamar presidente do estado.
Com exceção do Pará e Rio Grande do Sul, creio que não falta nenhum. Sono
tutti fatti marchesi. Eu, se fosse presidente da República, promovia a
reforma da Constituição, para o único fim de chamar-me governador. Ficava
assim um governador cercado de presidentes, ao contrário dos Estados Unidos
da América, e fazendo lembrar o Imperador Napoleão, vestido com a modesta
farda lendária, no meio dos seus marechais em grande uniforme.
Outra notícia que me obriga a não acabar aqui, é a de estarem os rapazes
do comércio de S. Paulo fazendo reuniões para se alistarem na Guarda
Nacional, em desacordo com os daqui, que acabam de pedir dispensa de tal
serviço. Questão de meio; o meio é tudo. Não há exaltação para uns nem
depressão para outros. Duas coisas contrárias podem ser verdadeiras e até
legítimas, conforme a zona. Eu, por exemplo, execro o mate chimarrão; os
nossos irmãos do Rio Grande do Sul acham que não há bebida mais saborosa
neste mundo. Segue-se que o mate deve ser sempre uma ou outra coisa? Não;
segue-se o meio; o meio é tudo.
chacareiro
No sentido de dono de uma chácara.

a 27
Taxa de câmbio medida em pence de libra esterlina por mil-réis
correspondente à paridade de 1846, muito raramente alcançada durante o
Segundo Reinado, mas que, por menos de um ano, foi mantida durante os
últimos meses do Império, em razão de condições internacionais favoráveis.
Como estar abaixo de 27 era muito mais a regra que a exceção, dizer a um
cliente que se aceita seus mil-réis sempre a 27 é uma forma de oferecer um
desconto. No caso das pombas que sobrevoam a Bolsa, a observação sugere
a posse de “informação privilegiada”.

Pedro Américo
Pedro Américo de Figueiredo e Melo (1843-1905), pintor, desenhista e
escritor brasileiro, considerado um dois mais famosos artistas de sua época,
celebrizado pelas telas O Grito do Ipiranga e Batalha do Avaí, além de Paz
e Concórdia, esta em Florença, Itália. Dedicou-se também à política, sendo
eleito deputado em 1891.

Sono tutti fatti marchesi


“Estão todos feitos marqueses”, frase cunhada por Fernando II das Duas
Sicílias ao escapar de um atentado e ser felicitado por seus súditos:
expressão citada por Machado também na crônica de 12 de junho de 1892. i
16. [para que meter o deficit entre
as minhas preocupações?]
21 DE AGOSTO DE 1892, A SEMANA

A crônica é publicada pouco antes da demissão de Rodrigues Alves, quando


este ocupou o Ministério da Fazenda pela primeira vez. Era o primeiro
ministro da Fazenda realmente conservador desde o início da República, a
despeito de ser um favorito da cafeicultura paulista. Rodrigues Alves vinha se
batendo pelo saneamento do meio circulante, sem muito sucesso a esta altura,
e pelo combate ao deficit público. Com este intuito em particular, introduziu
uma sobretaxa de 50% sobre todas as tarifas aduaneiras, de longe o nosso
imposto mais importante, que eram cobradas ad valorem e, por conta disso,
tinham sido consideravelmente erodidas em seu valor real, ou em ouro, com a
depreciação da taxa de câmbio. A sobretaxa era menos eficaz do que a
cobrança dos direitos em ouro, como estivera em vigor anteriormente, por
breve período, e vigoraria a seguir. Rodrigues Alves teria sua demissão
atribuída a divergências de ordem política com Floriano.1 Mais adiante, em
1896, Rodrigues Alves seria chamado de volta para a Fazenda pelo presidente
Prudente de Moraes, desta vez com amplos poderes para avançar com o
projeto de sanear as finanças e liquidar os excessos do Encilhamento. A essa
altura, todavia, as finanças públicas começavam a demonstrar uma fraqueza
que não se via no Império talvez desde a Guerra do Paraguai. Eram os efeitos
da desvalorização cambial sobre receitas e despesas, que ainda se fariam
sentir de forma mais profunda nos anos a seguir. Enquanto não era muito
grande, o deficit merece do cronista nada mais que a indiferença.

EX FUMO DARE LUCEM. Tal seria a epígrafe desta semana, se a má fortuna


não perseguisse as melhores intenções dos homens. Velha epígrafe, mais ou
menos velha que a sé de Braga, pois que nos veio da poesia latina para a
fábrica do gás; mas, velha embora, nenhuma outra quadrava tão bem ao
imposto dos charutos e ao fechamento das portas das charutarias. Ex fumo
dare lucem.
Lucem ou legem, não me lembra bem o texto, e não estou para ir daqui à
estante, e menos ainda à fábrica do gás. Seja como for, quando eu via as portas
fechadas, na segunda-feira, imaginei que íamos ter uma semana inteira de
protesto, e preparei-me para contar as origens do tabaco e do imposto, o uso
do charuto e do rapé, e subsidiariamente a história de Havana e a de Espanha,
desde os árabes.
Vinte e quatro horas depois, abriram-se novamente as charutarias, e os
fumantes escaparam a uma coisa pior que o naufrágio da Medusa. Os
náufragos comiam-se, quando já não havia que comer; mas como se haviam de
fumar os náufragos? Vinte e quatro horas apenas; quase ninguém deu pela festa;
eu menos que ninguém, porque não fumo. Não fumo, não votei o imposto, não
sou ministro. Sou desinteressado na questão. Um amigo meu, companheiro de
infância, diz-me sempre que, quando a gente não tem interesse em um pleito,
não se mete nele, seja particular ou público; e acrescenta que não há nada
público. De onde resulta (palavras suas) que no dia em que vi os jornais
darem notícia do deficit, nem por isso as caras andaram mais abatidas. Uma
coisa é o Estado, outra é o particular. O Estado que se agüente.

Rodrigues Alves.

Quando um homem influi sobre outro, como este amigo em mim, é difícil,
ou ainda impossível recusar-lhe as opiniões. A própria notícia do deficit, que
me afligira tanto, parece-me agora que nem a li. Realmente, se me não incumbe
cobri-lo, para que meter o deficit entre as minhas preocupações, que não são
poucas? Se houvesse saldo, viria o Estado dividi-lo comigo?
E disse adeus ao deficit, que afinal de contas não me amofinou tanto como
a parede das charutarias, não propriamente a parede, mas o contrário, a
abertura das portas. As causas desta amofinação são tão profundas, que eu
prefiro deixá-las à perspicácia do leitor. Não; não as digo. Acabemos com
este costume do escritor dizer tudo, à laia de alvissareiro. A discrição não há
de ser só virtude das mulheres amadas, nem dos homens mal servidos.
Também os varões da pena, os políticos, os parentes dos políticos e outras
classes devem calar alguma coisa. No presente caso, por exemplo, vamos ver
se o leitor adivinha as causas do meu tédio, quando as charutarias abriram as
portas, após um dia de manifestação. Diga que lhe parecer; diga era a minha
ferocidade que se pascia no mal dos outros; diga até que tudo isto não passa
de uma maneira mais expedita para acabar um período e passar a outro.
Em verdade, aqui está outro; mas, se pensas que vou falar da carne verde,
não me conheces. Já bastou a aborrecida incumbência feita ao Sr. Deputado
Vinhais para comunicar ao povo a parede dos boiadeiros. Por fortuna recaiu a
escolha em pessoa que tomou sobre si os interesses e o bem-estar da classe
proletária; mas supõe que recaía em mim, cuja repugnância aos estudos sociais
é tamanha, que não a pode vencer a natural e profunda simpatia que essa
classe merece de todos os corações bons. Talvez eu esteja fazendo injustiça a
mim próprio; há pessoas (e já me tenho apanhado em lances desses) que levam
o empenho de dizer mal ao ponto de maldizer de si mesmas. Outras têm a
virtude do louvor, e cometem igual excesso. Pode se que de ambos os lados
haja muita mentira. A mentira é a carne verde do demônio, abundante e de
graça.
Não procures isso em Bourdaloue nem Mont’Alverne. Isso é meu. Quando
a ideia que me acode ao bico da pena é já velhusca, atiro-lhe aos ombros um
capote axiomático, porque não há nada como uma sentença para mudar a cara
aos conceitos.
Também não procures em nenhum grande orador católico, francês ou
brasileiro, este pequeno trecho: Ecce iterum Crispinus. Nem o aceites no
mesmo sentido deprimente com que Alencar o foi buscar ao satírico romano.
Crispim aqui é o parlamentarismo, cuja orelha reapareceu esta semana, por
baixo de uma circular política. Ainda bem que reapareceu; ela há de trazer o
corpo inteiro; vê-lo-emos surgir, crescer, dominar, não só pelo esforço dos
seus partidários, mas pelo dos indiferentes e até dos adversos. Não será fácil
grudá-lo ao federalismo, é certo; mas basta que não seja impossível, para
esperar que o bom êxito coroe a obra. A dissolução da Câmara será
necessária? Dissolva-se a Câmara.

Com o parlamentarismo tivemos longos anos de paz pública. Certo é que o


imperador, não vendo país que lhe enviasse câmaras contrárias ao governo,
tomou a si alternar os partidários, para que ambos eles pudessem mandar
alguma vez. Quando lhe acontecia ser maltratado, era pelo que ficava de
baixo; mas, como nada é eterno, o que estava de baixo tornava a subir,
transmitida a cólera ao que então caía, e recitava por sua vez a ode de
Horácio: “Aplaca o teu espírito; eu buscarei mudar em versos doces os versos
amargos que compus.”
Agora, como a opinião há de estar em alguma parte, desde que não esteja
nos eleitores, nem no chefe do Estado, é provável que passe ao único lugar em
que fica bem, nos corredores da Câmara, onde se planearão as quedas e as
subidas dos ministros – poucas semanas para tocar a todos, – e assim
chegaremos a um bom governo oligárquico, sem excessos, nem afronta, e
natural, como as verdadeiras pérolas.v
Ex fumo dare lucem
Trecho de Arte poética, de Horácio, adotado como lema pela companhia de
gás do Rio de Janeiro. Na íntegra: Non fumum ex fulgore, sed ex fumo dare
lucem. Tradução literal: “Não tirar fumaça do relâmpago, mas luz da
fumaça.”

legem
legem, em latim, significa “legalidade”. O lema de Horácio adquire novo
sentido: “Tirar leis da fumaça.”

o naufrágio da Medusa
Referência à fragata Méduse, que naufragou em 1816 em decorrência de
uma revolta dos marinheiros contra os oficiais.i

deficit
Referência ao deficit orçamentário (dado a público na semana anterior),
“muito superior a 100 mil contos de réis”, que se sustentava ser causado
pelo excesso de emissões por parte dos bancos e proclamava-se como
solução o governo encampá-las.ii

e saldo
Termo empregado no sentido de superavit.

parede
Termo empregado no sentido de greve, ou mais especificamente o lock-out
das charutarias.

pascia
Termo empregado no sentido de pastar.

Vinhais
Presidente do Centro do Partido Operário, de cunho anarquista.

boiadeiros
Os boiadeiros paralisaram suas atividades reivindicando o pagamento de
cerca de 500 contos de réis que alegavam dever-lhes o governo.iii
Mont’Alverne
Pregadores cristãos, Louis Bourdaloue (1631-1704) e frei Francisco de
Mont’Alverne (1784-1858).iv

satírico romano
“Volto a um assunto já tratado antes”: expressão cunhada pelo poeta satírico
romano Juvenal, foi utilizada por José de Alencar (1839-1877) em seus
pouco conhecidos escritos políticos.

ode de Horácio
Odes de Horácio, onde o poeta pede perdão a uma mulher que satirizou.vi
17. [as percentagens são as primeiras flores do capital]
4 DE SETEMBRO DE 1892, A SEMANA

A crônica ganhou o título “O sermão do Diabo”, quando republicada em


Páginas recolhidas.1 Não é a primeira nem a única onde há alusões ao Diabo
relacionadas às inovações e trampolinagens financeiras da ocasião, ou mais
genericamente aos aspectos heréticos do “papel-moeda”. Há certa impressão
de déjà vu, pois o parentesco com o conto “A Igreja do Diabo”, de 1884, é
bastante evidente.2 Como já observamos, o tema é paradigmático; o caráter
profano do papel assusta desde quando Marco Pólo relatou, no século XIII,
que “o Grande Khan faz pedaços de papel serem gastos como dinheiro o
Grande Senhor domina a alquimia perfeitamente”.3 Pelo menos, até o colapso
definitivo e formal do “padrão ouro” nos anos 1930, o papel-moeda é muito
frequentemente descrito como uma “criatura do Mal”.4 Talvez a mais
sensacional de todas as manifestações literárias com este teor tenha sido o
Fausto de Goethe, na sua menos conhecida “parte 2”, acrescentada pelo autor
ao fim da vida, entre 1825 e 1831, quando já tinha testemunhado, inclusive, a
experiência de John Law na França. No relato, Mefistófeles, numa noite de
Carnaval, diante de um sonolento imperador, “inventa o papel-moeda”, como
instrumento de redenção de um reino em dificuldades. “Rápidas e festivas
como raios de primavera, essas levíssimas folhas de papel espalham-se pelo
Império”, e assim “a economia moderna nasce, pois, nas últimas horas de uma
noite de Carnaval, na fantasia de um diabo que procura distrair o tédio de um
Imperador sem pensamentos”.5 O que poderia ser mais próprio para a aventura
do Encilhamento, o objeto da alegoria machadiana, onde o “evangelho” do
Diabo, que lhe foi entregue por alguém alto e magro que falava alemão como
Mefistófeles? A despeito desta propalada imoralidade, genérica e
especificamente perpetrada por Ruy, contudo a “inovação” representada pela
moeda puramente fiduciária se impõe no mundo inteiro. Conforme explica
Marshall Berman: “Fausto vinha fingindo não só para os outros como para si
mesmo, que podia criar um novo mundo com as mãos limpas; ele ainda não
está preparado para aceitar a responsabilidade sobre a morte e o sofrimento
humano que abrem caminho. Primeiro, firmou contrato com o trabalho sujo do
desenvolvimento; agora lava as mãos e condena o executante da tarefa, tão
logo ela é cumprida. É como se o processo de desenvolvimento, ainda quando
transforma a terra vazia em deslumbrante espaço físico e social, recriasse a
terra vazia no coração do próprio fomentador. É assim que funciona a tragédia
do desenvolvimento.”6

O SERMÃO DO DIABO

Nem sempre respondo por papéis velhos; mas aqui está um que parece
autêntico; e, se o não é, vale pelo texto, que é substancial. É um pedaço do
evangelho do Diabo, justamente um sermão da montanha, à maneira de S.
Mateus. Não se apavorem as almas católicas. Já Santo Agostinho dizia que “a
igreja do Diabo imita a igreja de Deus. Daí a semelhança entre os dois
evangelhos. Lá vai o do Diabo.
“1º E vendo o Diabo a grande multidão de povo, subiu a um monte, por
nome Corcovado, e, depois de se ter sentado, vieram a ele os seus discípulos.
“2º E ele, abrindo a boca, ensinou dizendo as palavras seguintes.
“3º Bem-aventurados aqueles que embaçam, porque eles não serão
embaçados.
“4º Bem-aventurados os afoitos, porque eles possuirão a terra.
“5º Bem-aventurados os limpos das algibeiras, porque eles andarão mais
leves.
“6º Bem-aventurados os que nascem finos, porque eles morrerão grossos.
“7º Bem-aventurados sois, quando vos injuriarem e disserem todo o mal,
por meu respeito.
“8º Folgai e exultai, porque o vosso galardão é copioso na terra.
“9º Vós sois o sal do money market. E se o sal perde a força, com que
outra coisa se há de salgar?
“10º Vós sois a luz do mundo. Não se põe uma vela acesa debaixo de um
chapéu, pois assim se perdem o chapéu e a vela.
“11º Não julgueis que vim destruir as obras imperfeitas, mas refazer as
desfeitas.
“12º Não acrediteis em sociedades arrebentadas. Em verdade vos digo
que todas se consertam, e se não for com remendo da mesma cor, será com
remendo de outra cor.
“13º Ouvistes que foi dito aos homens: Amai-vos uns aos outros. Pois eu
digo-vos: Comei-vos uns aos outros; melhor é comer que ser comido; o lombo
alheio é muito mais nutritivo que o próprio.
“14º Também foi dito aos homens: Não matareis a vosso irmão, nem a
vosso inimigo, para que não sejais castigados. Eu digo-vos que não é preciso
matar a vosso irmão para ganhares o reino da terra; basta arrancar-lhe a última
camisa.
“15º Assim, se estiveres fazendo as tuas contas, e te lembrar que teu irmão
anda meio desconfiado de ti, interrompe as contas, sai de casa, vai ao encontro
de teu irmão na rua, restitui-lhe a confiança, e tira-lhe o que ele ainda levar
consigo.
“16º Igualmente ouvistes que foi dito aos homens: Não jurareis falso, mas
cumpri ao Senhor os teus juramentos.
“17º Eu, porém, vos digo que não jureis nunca a verdade, porque a
verdade nua e crua, além de indecente, é dura de roer; mas jurai sempre e a
propósito de tudo, porque os homens foram feitos para crer antes nos que
juram falso, do que nos que não juram nada. Se disserdes que o sol acabou,
todos acenderão velas.
“18º Guardai-vos; não façais as vossas obras diante de pessoas que
possam ir contá-lo à polícia.
“19º Quando, pois, quiserdes tapar um buraco, entendei-vos com algum
sujeito hábil, que faça treze de cinco e cinco.
“20º Não queirais guardar para vós tesouros na terra, onde a ferrugem e a
traça os consomem, e donde ladrões os tiram e levam.
“21º Mas remetei os vossos tesouros para algum banco de Londres, onde a
ferrugem, nem a traça os consomem, nem os ladrões os roubam, e onde ireis
vê-los no dia do juízo.
“22º Não vos fieis uns nos outros. Em verdade vos digo, que cada um de
vós é capaz de comer o seu vizinho, e boa cara não quer dizer bom negócio.
“23º Vendei gato por lebre, e concessões ordinárias por excelentes, a fim
de que a terra se não despovoe das lebres, nem as más concessões pereçam
nas vossas mãos.
“24º Não queirais julgar para que não sejais julgados; não examineis os
papéis do próximo para que ele não examine os vossos, e não resulte irem os
dois para a cadeia, quando é melhor não ir nenhum.
“25º Não tenhais medo às assembleias de acionistas, e afagai-as de
preferência às simples comissões, porque as comissões amam a vanglória e as
assembleias as boas palavras.
“26º As porcentagens são as primeiras flores do capital; cortai-as logo,
para que as outras flores brotem mais viçosas e lindas.
“27º Não deis conta das contas passadas, porque passadas são as contas
contadas, e perpétuas as contas que se não contam.
“28º Deixai falar os acionistas pronósticos; uma vez aliviados, assinam de
boa vontade.
“29º Podeis excepcionalmente amar a um homem que vos arranjou um bom
negócio; mas não até o ponto de o não deixar com as cartas na mão, se
jogardes juntos.
“30º Todo aquele que ouve estas minhas palavras, e as observa, será
comparado ao homem sábio, que edificou sobre a rocha e resistiu aos ventos;
ao contrário do homem sem consideração, que edificou sobre a areia, e fica a
ver navios…”
Aqui acaba o manuscrito que me foi trazido pelo próprio Diabo, ou alguém
por ele; mas eu creio que era o próprio. Alto, magro, barbícula ao queixo,
falava alemão, como Mefistófeles. Fiz-lhe uma cruz com os dedos e ele sumiu-
se. Apesar de tudo, não respondo pelo papel, nem pelas doutrinas, nem pelos
erros de cópia.
Já agora parece que estou em dia de fantasmas. Mal pingava o ponto final
do outro parágrafo, quando me apareceu um senhor, que me disse ser defunto e
haver-se chamado Barão Louis.
– Conheço muito, disse-lhe eu: tenho ouvido a sua célebre máxima: “Dai-
me boa política e eu vos darei boas finanças.”
– Ah! meu caro senhor, acudiu o barão; essa máxima tem-me tirado o sono
da eternidade. Já não a posso ouvir, sem tédio. Quer ajudar-me a publicar uma
troca de palavras que fiz, mudando o sentido, a ver se pegam na segunda forma
e deixam-me em descanso a primeira?
– Senhor barão…
– Escute-me. Em vez de: “Dai-me boa política e eu vos darei boas
finanças”, arranjei esta outra forma: “Dai-me boas finanças e eu vos darei boa
política.” Promete-me?
– Pois não!
– Não esqueça: “Dai-me boas finanças e eu vos darei boa política.”
embaçados
O termo é empregado no sentido de lograr, acepção devida ao próprio
Machado.

Barão Louis
Barão Louis Louis-Henri des Saucles de Freyceinet (1755-1837) foi
ministro da Fazenda da França logo após as Guerras Napoleônicas. É
frequentemente citado por Machado por conta do chavão logo a seguir
satirizado: “Dai-me boa política e eu vos darei boas finanças.”
18. [a emissão bancária nasceu tão grossa…]
11 DE SETEMBRO DE 1892, A SEMANA

No começo de setembro de 1892, a Comissão de Orçamento da Câmara,


encabeçada pelo deputado Leite e Oiticica, mandou a plenário um projeto seu
e também assinado por Leopoldo de Bulhões, destacado financista
conservador, que posteriormente ocuparia o Ministério da Fazenda (1902-6).
Sob a aparência de uma restauração da Lei 3.403/88, o projeto estabelecia que
os bancos emissores que não fossem capazes de tornar as suas emissões em
circulação conversíveis em ouro e à vista, mantida a paridade de 1846, 27
pence por mil-réis, ficariam seriamente limitados em suas práticas
operacionais e teriam suas notas “encampadas” pelo Estado gratuitamente.1 O
projeto não era realista, tinha claro ingrediente “confiscatório”, ao menos na
ocasião, e não estava fadado a prosperar. Havia pouca dúvida que o crescente
descontrole dos bancos de emissão acabaria em alguma forma de
“encampação” ou “estatização” das emissões privadas. O problema era que
esta operação não pode deixar de ser entendida como uma forma de o Estado
“comprar” as emissões dos bancos privados, afinal, independentemente dos
pontos de vista sobre a emissão bancária, era disso que era formada a moeda
nacional em circulação,2 de modo que para converter estas emissões em notas
do Tesouro, era preciso conduzir negociações muito difíceis com os bancos.
Não totalmente desprovido de razão, todavia, Oiticica observava que o BRB
devia 150 mil contos ao governo, e seu capital era de 130 mil contos, de modo
que nada havia para ser indenizado.3 Negociações individuais foram
entabuladas com os bancos menores, para que desistissem de suas emissões,
realizadas e por acontecer, e apenas alguns anos mais adiante, quando o poder
de emitir se concentrou em um só estabelecimento, cuja situação financeira foi
se tornando insustentável, conseguiu-se finalmente a encampação sem custos
significativos para o Tesouro. A encampação, todavia, ainda estava a mais de
quatro anos à frente desta crônica.
UMA VEZ DEI aqui a minha teoria das ideias grávidas. Vou agora à das ações
JÁgrávidas, não menos interessante, posto que mais difícil de entender.
Em verdade, há de custar a crer que uma ação nasça pejada de outra, e,
todavia, nada mais certo. Para não nos perdermos em exemplos estranhos,
meditemos no caso do Chaucer. O Chaucer vinha entrando a nossa barra,
quando da fortaleza de Santa Cruz lhe fizeram alguns sinais, a que ele não
atendeu e veio entrando. A fortaleza disparou um tiro de pólvora seca, ele veio
entrando; depois outro, e ele ainda veio entrando; terceiro tiro, e ele sempre
entrando. Quando vinha já entrando de uma vez, a fortaleza soltou a bala do
estilo, que lhe furou o costado. Correram a socorrê-lo, mas já a gente de bordo
tinha por si mesma tapado o buraco, e a companhia escreveu aquela carta,
declarando protestar e esperar que tudo acabasse bem e depressa, sem
intervenção diplomática. Pólvora seca, à espera de bala.
Nega o Chaucer que visse sinais, nem ouvisse tiros. Devo crer que fala
verdade, pois que nada o obriga a mentir, tanto mais quanto, antes de ser
navio, Chaucer era um velhíssimo poeta inglês, que já perdeu a vista e as
orelhas, tendo perdido a saúde e a vida. Mas nem todos pensam assim; e, para
muita gente, a ação do navio foi antes de pouco caso da terra e seus
moradores. Ora, tal ação, ainda que sem esse sentido, desde que parecia tê-lo,
podia nascer grávida de outra, e foi o que aconteceu; daí a dias, dava-se a
ocorrência da bandeira da rua da Assembleia. Desdém chama desdém. Um
homem a quem se puxa o nariz, acaba recebendo um rabo de papel. Ação
pejada de ação. Felizmente o movimento de indignação pública e as palavras
patrióticas que produziu, e mais a pena do culpado, farão esperar que esta
outra ação haja nascido virgem e estéril.
Podia citar mais exemplos, e de primeira qualidade; mas se o leitor não
entende a teoria com um não a entenderá com três. Direi só um caso, por estar,
como lá se diz, no tapete da discussão. A emissão bancária nasceu tão grossa,
que era de adivinhar a gravidez da encampação. Nem falta quem diga que
estes gritos que estamos ouvindo, são as dores do parto. Uns creem nele, mas
afirmam que a criança nasce morta. Outros pensam que nasce viva, mas
aleijada. Há até um novo Encilhamento, onde as apostas crescem e se
multiplicam, como nos belos dias de 1890. Eu, sobre esse negócio de
encampação, sei pouco mais que o leitor, porque sei duas coisas, e o leitor
saberá uma ou nenhuma. Sei, em primeiro lugar, que é uma medida urgente e
necessária, para que se restaure o nosso crédito; e, em segundo lugar, sei
também que é um erro e um crime. Aristote dit oui et Galien dit non.
Quiseram explicar-me porque é que era crime; mas eu ando tão aflito com
a simples notícia dos narcotizadores, que não quis ouvir a explicação do
crime. Basta de crimes. Demais, são finanças. E as finanças vão chegando ao
estado da jurisprudência. Muitas famílias, quando viram que os bacharéis em
direito eram em demasia, começaram a mandar ensinar engenharia aos filhos.
Hoje, família precavida não deve esperar que venha o excesso de financeiros.
A concorrência é já extraordinária. Antes a medicina. Antes a própria
jurisprudência.
Demais, eu gosto de explicações palpáveis, concretas. Desde que um
homem começa a raciocinar e quer que eu o acompanhe pelos corredores do
espírito, digo-lhe adeus. Debêntures, por exemplo. Um deputado disse há dias
na Câmara que certo banco do interior as emitira clandestinamente. Não lhe
dei crédito. Mas uma senhora, que jantou comigo ontem, disse-me rindo e
agitando uns papéis entre os dedos: Aqui estão debêntures. O crédito que
neguei ao deputado, dei-o à minha boa amiga. A razão é que, sobre este gênero
de papéis, tive duas ideias consecutivas antes da última. A primeira é que
debênture era uma simples expressão, uma senha, uma palavra convencional,
como a da conjuração mineira: Amanhã é o batizado. A segunda é que era
efetivamente um bilhete, mas um bilhete que seria entregue pelo agente
policial, por pessoa de família, ou pelo próprio alienista, um atestado, em
suma, para legalizar a reclusão. Quando vi, porém, que aquela senhora tinha
tais papéis consigo, e peguei neles, e os li, adquiri uma terceira ideia, exata e
positiva, que a minha amiga completou dizendo com rara magnanimidade:
– O que lá vai, lá vai.
E agora, adeus, querida semana! Adeus, cálculos do Sr. Oiticica, que
dizem estar errados! Adeus, feriados! Adeus, níqueis!
Os níqueis voltam certamente; mas há de ser difícil. Ou estarão sendo
desamoedados, como suspeita o Governo, ou andam nas mãos de alguma
tribo, que pode ser a dos narcotizadores, e também pode ser a de Shylock.
Creio antes em Shylock. Se assim for, níqueis, não há para vós habeas corpus,
nem tomadas da Bastilha. Não perdeis com a reclusão, meus velhos; ficais
luzindo, fora das mãos untadas do trabalho, que vos enxovalham. Para sairdes
à rua, é preciso alguma coisa mais que boas razões ou necessidades públicas;
e não saireis em tumulto, nem todos, mas devagarinho e aos poucos, conforme
a taxa. “Trezentos ducados, bem!”
Também não digo adeus aos chins, porque é possível que eles venham,
como que não venham. O Diário de Notícias, contando os votos da Câmara
favoráveis e desfavoráveis, dá 64 para cada lado. Numa questão intrincada
era o que melhor podia acontecer; as opiniões entestavam umas com outras, na
ponte, como as cabras da fábula. Mas pode haver alterações, e há de havê-
las. Para isso mesmo é que se discute. E a balança está posta em tal maneira,
que a menor palha fará pender uma das conchas. Nunca um só homem teve em
suas mãos tamanho poder, isto é, o futuro do Brasil, que ou há de ser próspero
com os chins, conforme opinam uns, ou desgraçado, como querem outros.
Espada de Breno, bengala de Breno, guarda-chuva de Breno, lápis, um simples
lápis de Breno, agora ou nunca é a tua ocasião.
A vós, sim, tumultos de circo, a vós digo eu adeus, porque se adotarem o
que proponho aos homens, não há mais tumultos nesse gênero de espetáculos,
ou seja nos próprios circos, ou seja nas casas cá de baixo, onde se aposta e se
espera a vitória pelo telefone; modo que me faz lembrar umas senhoras do meu
conhecimento, que têm ouvido todas as óperas desta estação lírica, indo para a
praia de Botafogo ver passar as carruagens das senhoras assinantes. Não
haverá tumultos, porque faço evitar a fraude ou suspeita dela aposentando os
cavalos e fazendo correr os apostadores com os seus próprios pés. Cansa um
pouco mais que estar sentado, mas cada um ganha o seu pão com o suor do seu
rosto.
ideias grávidas
Numa crônica de 27 de setembro de 1892, Machado comenta um artigo
apócrifo que defendia a encampação da Geral. Na proposta, o governo
assumiria ativos e passivos da empresa, mas a dívida seria substituída por
apólices e os acionistas nada receberiam por suas ações. Contudo, os que
tivessem subscrito suas ações apenas em parte, nada teriam a pagar.
Machado captou o detalhe indecente do plano. Segundo ele, a ideia que
“aparentemente aguarda um esposo, já nasceu grávida”.i

Chaucer
Refere-se ao incidente com o navio inglês com este nome que, devido a uma
epidemia de cólera na Europa, teria de submeter-se a tratamento sanitário ao
chegar ao porto do Rio. O Chaucer não atendeu aos avisos para parar, ao
entrar da Baía da Guanabara.ii

poeta inglês
Geoffrey Chaucer (13401400), escritor, filósofo e diplomata inglês, cuja
principal obra é Contos de Cantuária.

bandeira
Naquela semana, um sobrado dessa rua exibiu uma bandeira brasileira com
o dístico “colchões e pinicos” (em lugar de “ordem e progresso”): o
proprietário, que era português, foi preso sob intenso clamor público e
ameaçado de deportação.iii

Aristote dit oui et Galien dit non


Em francês, literal: “Aristóteles diz sim, Galileu diz não.” Machado aqui
deturpa o trecho de Les folies amoureuses, de J.F. Regnard (1655-1707),
poeta e dramaturgo francês: “Hippocrate dit oui, mais Galien dit non” (em
francês literal: “Hipócrates diz sim, Galileu diz não”), geralmente usado
para ilustrar divergência entre cientistas.

narcotizadores
Referência à notícia de que ladrões narcotizavam suas vítimas depois de
entrar em suas casas.iv
desamoedados
Referência ao problema do troco decorrente da desvalorização do mil-réis.
Com o aumento do preço, em mil-réis, do ouro, e também do cobre e do
níquel, era lucrativo derreter as moedas de troco para vender o metal por
preço maior.

Shylock
Banqueiro judeu, protagonista da peça O mercador de Veneza, de William
Shakespeare (1564-1616). Quando sua filha Jessica foge com parte de sua
fortuna, parece preocuparse muito mais com os ducados que com a filha.

Trezentos ducados, bem!


Machado adapta uma fala de Shylock, na referida peça.v

adeus aos chins


Referência à proposta de imigração de trabalhadores chineses (para “trazer
braços para a lavoura”, justificavam seus defensores, liderados pelo barão
de Cotegipe), apresentada em outubro de 1888, mas ainda bastante discutida
no Congresso Nacional e na imprensa.

as cabras da fábula
Provável referência à fábula russa na qual duas cabras viviam em duas
montanhas ligadas por uma ponte. Uma ia pastar na montanha da outra sem
problemas até que um dia as duas se encontraram no meio da ponte. Sem
disposição para recuar, entrelaçaram seus chifres e acabaram as duas caindo
no rio, de onde saíram uma reclamando da teimosia da outra.

Breno
Breno, chefe celta que invadiu Roma. Ao exigir resgate para sair da cidade,
usou peso falso para obter mais ouro. Quando reclamaram, jogou a espada
na balança, com a frase famosa: “vae victis” (“Ai dos vencidos”).vi
19. [balanço de comércio …
excesso de emissões … um fastio]
9 DE OUTUBRO DE 1892, A SEMANA

A crônica a seguir apareceu originalmente com o título “Uma nota idílica”.


Alfredo Bosi destaca esta crônica, que define como “vagamunda e
caprichosa”, como emblemática de uma “estilística do distanciamento”,
através da qual “o sujeito se põe e se declara existencialmente alheio à
conjuntura que tinha virado manchete em todos os jornais”.1 A técnica estava
longe de ser incomum na crônica machadiana, pelo que já vimos nesta
antologia, ainda mais quando as manchetes concentravam-se mais e mais na
batalha entre “metalistas” e “papelistas”, e em detalhes já incompreensíveis
ao cidadão comum, este, porém, vítima inocente de tudo o que se passa. Não
há mais a mesma fascinação nas promessas econômicas trazidas pela jovem
República, mas uma imensa confusão financeira a evocar, senão os custos do
progresso, a imensa dificuldade de entender o sentido da “modernização” a
partir do noticiário econômico. Como observa Bosi: “A modernização raras
vezes humaniza as relações humanas; quase sempre degenera em competição
de nações pelo poder e pela riqueza e, como tal, aguça o pessimismo do
cronista.”2 As mortes do poeta laureado Tennyson e de Renan, o ídolo da
geração de Machado jovem, fornecem uma pausa providencial no turbilhão
financeiro a que Machado assistia, e mais alimento para a melancolia do
cronista.

UMA NOTA IDÍLICA

Eis aí uma semana cheia. Projetos e projetos bancários, debates e debates


financeiros, prisão de diretores de companhias, denúncia de outros, dois mil
comerciantes marchando para o palácio Itamarati, a pé, debaixo d’água,
processo Maria Antônia, fusão de bancos, alça rápida de câmbio, tudo isso
grave, soturno, trágico ou simplesmente enfadonho. Uma só nota idílica entre
tanta coisa grave, soturna, trágica ou simplesmente enfadonha; foi a morte de
Renan. A de Tennyson, que também foi esta semana, não trouxe igual caráter,
apesar do poeta que era, da idade que tinha. Uma gravura inglesa recente dá,
em dois grupos, os anos de 1842 e 1892, meio século de separação. No
primeiro era Southey que fazia o papel de Tennyson; e o poeta laureado de
1842, como o de 1892, acompanhava os demais personagens oficiais do ano
respectivo, o chefe dos tories, o chefe dos whigs, o arcebispo de Cantuária. A
rainha é que é a mesma. Tudo instituições. Tennyson era uma instituição, e há
belas instituições. Os seus oitenta e três anos não lhe tinham arrancado as
plumas das asas de poeta; ainda agora anunciava-se um novo escrito seu. Mas
era uma glória britânica; não teve a influência nem a universalidade do grande
francês.
Renan, como Tennyson, despegou-se da vida no espaço de dois telegramas,
algumas horas apenas. Não penso em agonias de Renan. Afigura-se-me que ele
voltou o corpo de um lado para outro e fechou os olhos. Mas agonia que fosse,
e por mais longa que haja sido, ter lhe-á custado pouco ou nada o último adeus
daquele grande pensador, tão plácido para com as fatalidades, tão prestes a
absolver as coisas irremissíveis.
Comparando este glorioso desfecho com aquele dia em que Renan subiu à
cadeira de professor e soltou as famosas palavras: “Alors, un homme a
paru…”, podemos crer que os homens, como os livros, têm os seus destinos.
Recordo-me do efeito, que foi universal; a audácia produziu escândalo, e a
punição foi pronta. O professor desceu da cadeira para o gabinete. Passaram-
se muitos anos, as instituições políticas tombaram, outras vieram, e o
professor morre professor, após uma obra vasta e luminosa, universalmente
aclamado como sábio e como artista. Os seus próprios adversários não lhe
negam admiração, e porventura lhe farão justiça. “J’ai tout critiqué (diz ele
em um dos seus prefácios), et, quoi qu’on en dise, y j’ait tout maintenu.” O
século que está a chegar criticará ainda uma vez a crítica, e dirá que o ilustre
exegeta definiu bem a sua ação.
A morte não pode ter aparecido a esse magnífico espírito com aqueles
dentes sem boca e aqueles furos sem olhos, com que os demais pecadores a
veem, mas com as feições da vida, coroada de flores simples e graves. Para
Renan a vida nem tinha o defeito da morte. Sabe-se que era desejo seu, se
houvesse de tornar à terra, ter a mesma existência anterior, sem alteração de
trâmites nem de dias. Não se pode confessar mais vivamente a bem-
aventurança terrestre. Um poeta daquele país, o velho Ronsard, para igual
hipótese, preferia vir tornado em pássaro, a ser duas vezes homem. Eu
(falemos um pouco de mim), se não fossem as armadilhas próprias do homem
e o uso de matar o tempo matando pássaros, também quisera regressar
pássaro.

Machado de Assis (à frente) com


Joaquim Nabuco, em 1906.

Não voltou o pássaro Ronsard, como não voltará o homem Renan. Este irá
para onde estão os grandes do século, que começou em França com o autor de
René, e acaba com o da Vida de Jesus, páginas tão características de suas
respectivas datas.
Não faço aqui análises que me não competem, nem cito obras, nem
componho biografia. O jornalismo desta capital mostrou já o que valia o autor
de tantos e tão adoráveis livros, falou daquele estilo incomparável, puro e
sólido, feito de cristal e melodia. Nada disso me cabe. A rigor, nem me cabe
cuidar da morte. Cuidei desta por ser a única nota idílica, entre tanta coisa
grave, soturna, trágica ou simplesmente enfadonha.
Em verdade, que posso eu dizer das coisas pesadas e duras de uma
semana, remendada de códigos e praxistas, a ponto de algarismo e citação?
Prisões, que tenho eu com elas? Processos, que tenho eu com eles? Não dirijo
companhia alguma, nem anônima, nem pseudônima: não fundei bancos, nem me
disponho a fundi-los; e, de todas as coisas deste mundo e do outro, a que
menos entendo é o câmbio. Não é que lhe negue o direito de subir; mas tantas
lástimas ouvi pela queda, quantas ouço agora pela ascensão – não sei se às
mesmas pessoas, mas com estes mesmos ouvidos.
Finanças das finanças, são tudo finanças. Para onde quer que me volte, dou
com a incandescente questão do dia. Conheço já o vocabulário, mas não sei
ainda todas as ideias a que as palavras correspondem, e, quanto aos
fenômenos, basta dizer que cada um deles tem três explicações verdadeiras e
uma falsa. Melhor é crer tudo. A dúvida não é aqui sabedoria, porque traz
debate ríspido, debate traz balança de comércio, por um lado, e excesso de
emissões por outro, e, afinal, um fastio que nunca mais acaba.
>

enfadonho
Referência aos debates sobre a reforma bancária, ao escândalo envolvendo
a Geral em maio de 1892, aos protestos pela crise na Estrada de Ferro
Central apresentados ao presidente Floriano Peixoto e ao assassinato brutal
de Maria de Macedo, em setembro, que comoveu a opinião pública.i

Renan
Ernest Renan (1823-1892), que morrera sete dias antes desta coluna ser
publicada. Escritor, filósofo, filólogo e historiador francês, célebre pela
obra Vida desmistificadora de Jesus e muito admirado por Machado.

Tennyson
Alfred Tennyson (1809-1892), poeta inglês, de obra laureada e morto três
dias antes desta coluna ser publicada.

Southey
Robert Southey (1774-1843), historiador, escritor prosador e poeta inglês, e
biógrafo de Wesley e de lorde Nelson. Autor de History of Brazil, livro
monumental, editado em três volumes (1810, 1817 e 1819), que o tornou
uma espécie de precursor dos brasilianistas. Apesar da pretensão de tornar-
se um “Heródoto” para o Brasil, nunca esteve aqui. ii

Alors, un homme a paru…


Na tradução literal do francês: “Então, um homem apareceu.”

j’ait tout maintenu


Na tradução literal do francês: “Eu critiquei tudo, e apesar do que dizem,
mantive tudo.” Da obra Prêtre de Nemi, de 1885.iii

Ronsard
Pierre de Ronsard (1524-1585), escritor e poeta francês.

René
Obra (publicada em 1820) de François-René de Chateaubriand (1778-
1848), escritor, ensaísta, diplomata e político francês.
20. [grande Law! … de celebridade a … embromador]
23 DE OUTUBRO DE 1892, A SEMANA

As finanças continuam na ordem do dia, o escape para o efêmero parece


novamente a estratégia do cronista, que entroniza ninguém menos que John
Law, o precursor e inventor de tudo isso, na categoria dos “embromadores” e
“lava-pratos”. Todavia, a alusão às vítimas do bonde, das máquinas e dos
navios, além das finanças, leva a uma especulação sobre um relato que, com
todas as suas transições, tem como sujeito o progresso, que não pode ser
paralisado pelos que caem nos trilhos do bonde, ou pelos naufrágios, mesmo
os financeiros. A velocidade do bonde elétrico, assim como novas
perspectivas sobre o tempo, até mesmo o financeiro, sintomas basilares da
modernidade, perturbavam o cronista. A partir dos anos 1880, a tecnologia
(incluindo o bonde, e também o telégrafo) e as finanças, mas também
inovações na área da cultura – a novela joyciana (ou shandiana), a psicanálise,
a relatividade – mudavam radicalmente a consciência do homem no que tange
à sua percepção do tempo e do espaço.1 A confusão entre passado e futuro,
deslumbramento e nostalgia estão na raiz dos “projetos grandiosos” do
cronista a indicar o lado positivo da modernização em que se metia o país.
Parece claro, mais uma vez, que as inovações tecnológicas ditas
“schumpeterianas” parecem sempre impressionar positivamente muito mais
que outras, igualmente revolucionárias, porém de natureza institucional, como
a moeda fiduciária, da qual John Law teria sido o precursor.

TODAS AS COISAS têm a sua filosofia. Se os dois anciãos que o bonde


elétrico atirou para a eternidade esta semana, houvessem já feito por si
mesmos o que lhes fez o bonde, não teriam entestado com o progresso que os
eliminou. É duro dizer; duro e ingênuo, um pouco à La Palice, mas é verdade.
Quando um grande poeta deste século perdeu a filha, confessou, em versos
doloridos, que a criação era uma roda que não podia andar sem esmagar
alguém. Por que negaremos a mesma fatalidade aos nossos pobres veículos?
Há terras, onde as companhias indenizam as vítimas dos desastres
(ferimentos ou mortes) com avultadas quantias, tudo ordenado por lei. É justo;
mas essas terras não têm, e deviam ter, outra lei que obrigasse os feridos e as
famílias dos mortos a indenizarem as companhias pela perturbação que os
desastres trazem ao horário do serviço. Seria um equilíbrio de direitos e de
responsabilidades. Felizmente, como não temos a primeira lei, não precisamos
da segunda, e vamos morrendo com a única despesa do enterro e o único lucro
das orações.
Falo sem interesse. Dado que venhamos a ter as duas leis, jamais a minha
viúva indenizará ou será indenizada por nenhuma companhia. Um precioso
amigo meu, hoje morto, costumava dizer que não passava pela frente de um
bonde sem calcular a hipótese de cair entre os trilhos e o tempo de levantar-se
e chegar ao outro lado. Era um bom conselho, como o Doutor Sovina era uma
boa farsa, antes das farsas do Pena. Eu, o Pena dos cautelosos, levo o cálculo
adiante: calculo ainda o tempo de escovar-me no alfaiate próximo. Próximo
pode ser longe, mas muito mais longe é a eternidade.
Em todo caso, não vamos concluir contra a eletricidade. Logicamente,
teríamos de condenar todas as máquinas, e, visto que há naufrágios, queimar
todos os navios. Não, senhor. A necrologia dos bondes tirados a burros é assaz
comprida e lúgubre para mostrar que o governo de tração não tem nada com os
desastres. Os jornais de quinta-feira disseram que o carro ia apressado, e um
deles explicou a pressa, dizendo que tinha de chegar ao ponto à hora certa,
com prazo curto. Bem; poder-se-iam combinar as coisas, espaçando os prazos
e aparelhando carros novos, elétricos ou muares, para acudir à necessidade
pública. Digamos mais cem, mais duzentos carros. Nem só de pão vive o
acionista, mas também da alegria e da integridade dos seus semelhantes.
Convenho que, durante uns quatro meses, os bondes elétricos andem muito
mais aceleradamente que os outros, para fugir ao riso dos vadios e à toleima
dos ignaros. Uns e outros imaginam que a eletricidade é uma versão do
processo culinário à la minute, e podem vir a enlamear o veículo com
alcunhas feias. Lembra-me (era bem criança) que, nos primeiros tempos do
gás no Rio de Janeiro, houve uns dias de luz frouxa, de onde os moleques
sacaram este dito: o gás virou lamparina. E o dito ficou e impôs-se, e eu
ainda o ouvi aplicar aos amores expirantes, às belezas murchas, a todas as
coisas decaídas.
Ah! se eu for a contar memórias da infância, deixo a semana no meio,
remonto os tempos e faço um volume. Paro na primeira estação, 1864, famoso
ano da suspensão de pagamentos (ministério Furtado); respiro, subo e paro em
1867, quando a febre das ações atacou a esta pobre cidade, que só arribou à
força do quinino do desengano. Remonto ainda e vou a…
Aonde? Posso ir até antes do meu nascimento, até Law. Grande Law!
Também tu tiveste um dia de celebridade, depois, viraste embromador e caíste
na casinha da história, o lugar dos lava-pratos. E assim irei de século a século,
até o paraíso terrestre, forma rudimentária do Encilhamento, onde se vendeu a
primeira ação do mundo. Eva comprou-a à serpente, com ágio, e vendeu-a a
Adão, também com ágio, até que ambos faliram. E irei ainda mais alto, antes
do paraíso terrestre, ao Fiat lux, que, bem estudado ao gás do entendimento
humano, foi o princípio da falência universal.
Não; cuidemos só da semana. A simples ameaça de contar as minhas
memórias diminuiu-me o papel em tal maneira, que é preciso agora apertar as
letras e as linhas.
Semana quer dizer finanças. Finanças implicam financeiros. Financeiros
não vão sem projetos, e eu não sei formular projetos. Tenho ideias boas, e até
bonitas, algumas grandiosas, outras complicadas, muito 2%, muito lastro,
muito resgate, toda a técnica da ciência; mas falta-me o talento de compor, de
dividir as ideias por artigos, de subdividir os artigos em parágrafos, e estes
em letras a b c; sai-me tudo confuso e atrapalhado. Mas por que não farei um
projeto financeiro ou bancário, lançando lhe no fim as palavras da velha
praxe: salva a redação? Poderia baralhar tudo, é certo, mas não se joga sem
baralhar as cartas; de outro modo é embaçar os parceiros.
Adeus. O melhor é ficar calado. Sei que a semana não foi só de finanças,
mas também de outras coisas, como a crise de transportes, a carne, discursos
extraordinários ou explicativos, um projeto de estrada de ferro que nos põe às
portas de Lisboa, e a mulher de César, que reapareceu no seio do parlamento.
Vi entrar esta célebre senhora por aquela casa, e, depois de alguns minutos, vi-
a sair. Corri à porta e detive-a: – “Ilustre Pompeia, que vieste fazer a esta
casa?” – “Obedecer ainda uma vez à citação da minha pessoa. Que queres tu?
Meu marido lembrou-se de fazer uma bonita frase, e entregou-me por todos os
séculos a amigos, conhecidos e desconhecidos”.
La Palice
Seigneur de La Palice, Jacques II de Chabannes (1470-1525), pensador e
militar, serviu sob três reis da França, recebendo em 1511 o título de Grand
maître de France. A alusão é a uma verdade óbvia, que tem origem numa
canção sobre o Seigneur de La Palice: “Un quart d’heure avant la mort / il
était encore en vie” (em uma tradução literal do francês: “Um quarto de hora
antes de morrer / ele estava ainda vivo”).i

perdeu a filha
Referência à morte, em 1843, de Léopoldine, filha de Victor Hugo (1802-
1885), escritor, poeta e dramaturgo francês, autor de Os miseráveis e de
Notre-Dame de Paris, entre outras obras.ii No seu A Veillequier, de 1846,
de Les contemplations (1856) diz: “Que la création est une grande roue / que
ne peut pas se mouvoir sans écraser quelqu’un”, como traduzido por
Machado de Assis, na crônica.

Pena
Referência a Luis Carlos Martins Pena (1815-1848), dramaturgo, dito
introdutor da comédia de costumes no Brasil, às vezes tomado como “o
Molière brasileiro”.

toleima
Termo aqui empregado no sentido de tolice, inépcia.

à la minute
Em uma tradução literal do francês: “imediato.”

tempos do gás
Os primeiros lampiões a gás no Rio de Janeiro apareceram em 1854,
quando Machado tinha 15 anos.iii

1864
Ano em que se deu “a quebra do Souto”, a que Machado alude em algumas
crônicas. Com o fechamento inesperado, em 10 de setembro de 1864, da
Casa A.J.A. Souto e Cia., espalhou-se o pânico no Rio de Janeiro,
provocando uma crise financeira. Na época, Francisco José Furtado (1818-
1870) era presidente do Conselho de Ministros.

febre das ações


Não há registro de qualquer febre de ações em 1867, tampouco em 1876.
Machado pode ter se confundido com as datas. Em uma crônica de 15 de
julho de 1876, ele observaiv que naquela semana só se fa lou na bolsa, o que
tinha a ver com a nova lei (a 6.132, de 4 de março de 1876), que reformava
o funcionamento dos pregões. Mas nada que se parecesse com uma “bolha”
teve lugar em 1876 e menos ainda em 1867.v

Law
John Law (1671-1729), financista escocês famoso pelas ideias sobre bancos
de emissão que acabaram postas em prática na França, produzindo um dos
mais extraordinários episódios de euforia e pânico financeiro. É capítulo
obrigatório em qualquer antologia sobre pioneiros no ramo das finanças.vi

às portas de Lisboa
Os comerciantes protestavam contra a Estrada de Ferro Central do Brasil,
que vinha prestando serviços de má qualidade alegando aumento excessivo
do tráfego. Os fornecedores de carne de Santa Cruz diziam ter estoques
muito baixos, e fora anunciado um projeto de uma estrada de ferro ligando o
Rio ao Recife e que poria a capital “a 28 horas de distância de Pernambuco
e o Brasil a 6 dias da Europa”.vii

desconhecidos
Tal como Gledson, também não logramos identificar esta senhora
comparada à mulher de César.
21. [não havia dividendos mas divididos]
11 DE DEZEMBRO DE 1892, A SEMANA

A “questão Chopim” era uma de muitas histórias de formação de sindicatos


para captação de recursos na Bolsa através de ofertas públicas iniciais de
ações. A Companhia Estreito e São Francisco ao Chopim ganhou em 1890 a
concessão para a construção de uma estrada de ferro de 2.288km, de Estreito,
no estado de Santa Catarina, até a boca do rio Chopim, no Paraná. Seus
acionistas, além de outros privilégios, tinham uma “garantia de juros”, ou uma
remuneração mínima assegurada sobre seu capital comprometido, de 6% ao
ano. O decreto nº 164/90, de 17 de janeiro de 1890, feito por Ruy Barbosa e
publicado no mesmo dia da sua Lei de Reforma Bancária, regia a formação
das sociedades anônimas. Machado, repetidamente, se refere ao dia 17 de
janeiro de 1890 como “o primeiro ano da criação”. De acordo com o decreto,
as companhias se formam quando um décimo do seu capital é efetivamente
subscrito e integralizado. Pois bem, em janeiro de 1891, a publicação do
prospecto da companhia dava conta que do capital total de 60 mil contos, 12
mil contos tinham sido efetivamente pagos, mas em uma semana o dinheiro foi
gasto em retribuições aos advogados, a diversos indivíduos, talvez acionistas,
um deles o próprio conde de Figueiredo (de acordo com o referido decreto era
lícito “estabelecer-se em favor de fundadores e terceiros, que hajam
concorrido para a formação da companhia, qualquer vantagem consistente em
parte dos lucros líquidos”) e aos titulares da “garantia de juros”, que incidia
sobre os 60 mil contos de capital “comprometido”, e não sobre a parcela
efetivamente subscrita.1 Histórias como esta estão por toda a superfície da
crônica do Encilhamento,2 notadamente no romance do visconde de Taunay,
mas também nos detratores da República, de Ruy e dos bancos de emissão.

DIZEM AS SAGRADAS LETRAS que o homem nasceu simples, mas que ele
próprio se meteu em infinitas questões. O mesmo direi das questões. Nascem
simples; depois complicam-se… Vede a questão Chopim.
A questão Chopim é a mais antiga de todas as questões deste mundo.
Nasceu com o primeiro homem. Toda gente sabe que o paraíso terreal foi obra
de um sindicato composto de Adão e Eva, para o fim de pôr a caminho a
concessão da vida. O serviço da organização era gratuito; mas a serpente
persuadia aos dois organizadores da companhia que o art. 3º § 3º do Decreto
no 8 do primeiro ano da criação (data transferida mais tarde para 17 de
janeiro de 1890) autorizava a tirar as vantagens e prêmios do capital
realizado, e não dos lucros líquidos. Adão e Eva recusaram crer, a princípio;
achavam o texto claro. Não desmaiou a serpente, e provou-lhes: 1º que as
publicações do Senhor eram incorretas pela ausência obrigada da imprensa; 2º
que muitas outras companhias se tinham organizado, de acordo com a
explicação que ela dava, a das abelhas, a dos castores, a das pombas, a dos
elefantes, e a dos lobos e cordeiros; estes fizeram uma sociedade juntos, assaz
engenhosa, porque não havia dividendos, mas divididos.
Adão e Eva cederam à evidência. Não faço ao cristão que me lê, a
injustiça de supor que não conhece as palavras do Senhor a Adão: “Pois que
comeste da árvore que eu te havia ordenado que não comesse (o art. 3º § 3º), a
terra te produzirá espinhos e abrolhos.” Daí as calamidades deste mundo; e,
para só falar de Chopim, um processo, uma reunião, uma desunião, lutas,
capotes rasgados, capotes cerzidos, capotes outra vez rasgados, o diabo!

Ruy Barbosa.

Agora, se notarmos que ao pé de uma tal questão teve esta semana muitas
outras de vário gênero… Melhor é não falar de nenhuma. Que direi do conflito
Paula Ramos, se o não entendo? Há telegramas que atribuem o
nãodesembarque daquele cavalheiro a agentes da autoridade; outros afirmam
que foi o povo. Os primeiros dizem que a indignação é geral; outros que, ao
contrário, só é geral a alegria.
Outra questão complicada é (ornitologicamente falando) a dos pica-paus e
dos vira-bostas, que são os nomes populares dos partidos do Rio Grande do
Sul. Eu, quanto à política daquela região, sei unicamente um ponto, é que a
Constituição política do estado admite o livre exercício da medicina.
Conquanto seja lei somente no estado, não faltará quem deseje vêla aplicada,
quando menos ao Distrito Federal; eu, por exemplo. Neste caso, entendo que
não se pode cumprir a notícia dada pelo Tempo de hoje, a saber, que vai ser
preso um curandeiro conhecidíssimo, do qual é vítima uma pessoa de posição
e popular entre nós.
Não há curandeiros. O direito de curar é equivalente ao direito de pensar e
de falar. Se eu posso extirpar do espírito de um homem, certo erro ou absurdo,
moral ou científico, por que não lhe posso limpar o corpo e o sangue das
corrupções? A eventualidade da morte não impede a liberdade do exercício.
Sim, pode suceder que eu mande um doente para a eternidade; mas que é a
eternidade senão uma extensão do convento, ao qual posso muito bem conduzir
outro enfermo pela cura da alma? Não há curandeiros, há médicos sem
medicina, que é outra coisa.
Não menos complexa foi a ressaca. Deixem-me confessar um pecado; eu
gosto de ver o mar agitado, encapelado, comendo e vomitando tudo diante de
si. Compreendo a observação de Lucrécio. Há certo prazer em ver de terra os
náufragos lutando com o temporal. Nem sempre, é verdade; agora, por
exemplo, não gostei de ver naufragar uma parte da ponte da Companhia de
Melhoramentos da Cidade do Rio de Janeiro – não porque seja acionista, nem
por qualquer sentimento estético; mas porque tenho particular amor às obras
paradas. As montanhas-russas da Glória são a minha consolação. O tapume
da Carioca deu-me horas deliciosas.
E não param aqui as questões complicadas. Um telegrama de França,
noticiando os trabalhos da comissão de inquérito parlamentar acerca do canal
do Panamá, acrescenta: “Documentos achados por ela constituem novas
provas da pirataria exercida em torno daquele extraordinário empreendimento.
Os jornais de maior circulação bradam que os crimes cometidos precisam de
um castigo correspondente à lesão enorme que sofre o povo com o processo
da empresa.”
Tudo o que abala aquele país, pode dizer-se que abala também o nosso.
Pelo que respeita especialmente à patifaria Panamá, repitamos, com o Times
de 16 do mês passado, que a decisão que mandou meter em processo Lesseps
e outros diretores da companhia, “é um choque para o mundo civilizado”.
Na verdade, será triste e duro que Lesseps, carregado de glórias e de anos
(oitenta e oito!) vá acabar os seus dias na cadeia. Esperemos que nada lhe seja
achado. Oremos pelo autor de Suez. Oxalá que, no meio das provas
descobertas e das que vierem a descobrir-se, nada haja que obrigue a justiça a
puni-lo. A lei que se desafronte com outros, saindo ileso e sem mácula o nome
do grande homem, que a folha londrina considera o maior dos franceses vivos.
Não faltam réus na porcaria Panamá; sejam eles castigados, como merecem. O
que eu desejo, e o que a França não pode me levar a mal, porque não lhe
aconselho frouxidões próprias de uma sociedade inconsciente, é que Lesseps
saia puro. Quando um homem tem a glória de Suez e o perpétuo renome, é
triste vê-lo metido com papeluchos falsos.
infinitas questões
Eclesiastes, 7:30.

Paula Ramos
O delegado federal de Inspetoria de Terras, Paula Ramos, fora proibido
pelo vice-presidente de Santa Catarina de desembarcar no estado, não se
sabe bem a razão.i

partidos
Partido Federalista (de Gaspar Silveira Martins) e Partido Republicano
Rio-Grandense (de Julio de Castilhos).

Lucrécio
O título da obra de Lucrécio, De rerum naturae, era uma das citações
favoritas de Machado, e o início de um de seus mais belos poemas.ii

tapume
A ponte integrava um projeto de aterrar uma parte da baía da Guanabara; as
“montanhas russas” faziam parte do projeto de instalação de um parque de
diversões na Glória, muito criticado; e o tapume, erguido junto ao chafariz
do Largo da Carioca, pela Companhia Metropolitana, recebeu ordem de
remoção do então prefeito da cidade do Rio de Janeiro, Cândido Barata
Ribeiro, que se empenhava pela “racionalização e modernização” da
cidade.iii

lesão
O projeto francês de 1885 de construir um canal no istmo do Panamá
provocou 22 mil mortes e acusações de administração ineficiente e
corrupção política.iv

Lesseps
Ferdinand de Lesseps (1805-1894), diplomata francês que concebeu e
coordenou a construção do canal de Suez, no Egito, de 1859 a 1869 (criando
a Companhia Universal do Canal Marítimo de Suez e adquirindo os direitos
de abertura e exploração pelo período de 99 anos): fez o mesmo para o
canal do Panamá, mas a empresa montada via-se agora sob processo.v
22. [este é o Encilhamento…]
18 DE DEZEMBRO DE 1892, A SEMANA

O Encilhamento foi a denominação dada à “bolha” especulativa na Bolsa de


Valores do Rio de Janeiro, que começa no final do Império, tem grande
impulso com a reforma monetária e na lei societária feita por Ruy Barbosa, e
experimenta a sua decadência lenta e dolorosa no anos posteriores à crise
cambial de 1891. O termo vem do momento em que os cavalos de corrida
eram encilhados para o páreo, e quando, supostamente, entabulavam-se as
combinações de resultado. Ficou célebre o romance à clef escrito pelo
visconde de Taunay em 1893, em folhetins e sob o pseudônimo de Heitor
Malheiros, trazendo um vívido retrato da cena carioca durante os anos críticos
da especulação.1 Perto da superlativa descrição de Taunay, a apresentação do
Encilhamento como um ajuntamento de pessoas em torno da Bolsa do Rio
parece mesmo distante e alienada; que não se perca de vista que Machado
voltou a este tema muitas vezes, inclusive em seus romances. É firme o
paralelo entre a descrição do Encilhamento em Esaú e Jacó, escrito em 1904,
e o relato de Taunay, porém, no relato de Machado, não há “nenhum sentimento
anti-republicano, pelo menos aparentemente”, como observa Faoro.2 As
nuances sobre o Encilhamento nas visões dos amigos Machado e Taunay já
foram discutidas no Prefácio desta obra. Esta crônica, tão alheia às jogadas
financeiras, é uma indicação interessante do distanciamento do cronista desse
assunto, coisa que não se vê em Taunay.

ONTEM, QUERENDO ir pela rua da Candelária, entre as da Alfândega e


Sabão (velho estilo), não me foi possível passar, tal era a multidão de gente.
Cuidei que havia briga, e eu gosto de ver brigas; mas não era. A massa de
gente tomava a rua, de uma banda a outra, mas não se mexia; não tinha a
ondulação natural dos cachações. Procissão não era; não havia tochas acesas
nem sobrepelizes. Sujeito que mostrasse artes de macaco ou vendesse drogas,
ao ar livre, com discursos, também não.
Estava neste ponto, quando vi subir a rua da Alfândega um digno ancião, a
quem expus as minhas dúvidas.
– Não é nada disso, respondeu-me cortesmente. Não há aqui procissão
nem macaco. Briga, no sentido de murros trocados, também não há, – pelo
menos, que me conste. Quanto à suposição de estar aí alguma pessoa
apregoando medalhinhas e vidrilhos, como os bufarinheiros da Rua do
Ouvidor, esquina da do Carmo ou da Primeiro de Março, menos ainda.
– Já sei, é uma seita religiosa que se reúne aqui para meditar sobre as
vaidades do mundo, – um troço de budistas…
– Não, não.
– Adivinhei: é um meeting.
– Onde está o orador?
– Esperam o orador.
– Que orador? Que meeting? Ouça calado. O senhor parece ter o mau
costume de vir apanhar as palavras dentro da boca dos outros. Sossegue e
escute.

Visconde de Taunay.

– Sou todo ouvidos.


– Este é o célebre Encilhamento.
– Ah!
– Vê? Há mais tempo teria tido o gosto dessa admiração, se me ouvisse
calado. Este é o Encilhamento.
– Não sabia que era assim.
– Assim como?
– Na rua. Cuidei que era uma vasta sala ou um terreno fechado, particular
ou público, não este pedaço de rua estreita e aborrecida. E olhe que nem há
meio de passar; eu quis romper, pedi licença… Entretanto, creio que temos a
liberdade de circulação.
– Não.
– Como não?
– Leia a Constituição, meu senhor, leia a Constituição. O art. 72 é o que
compendia os direitos dos nacionais e estrangeiros; são trinta e um parágrafos;
nenhum deles assegura o direito de circulação… O direito de reunião, porém,
é positivo. Está no § 8.°: “A todos é lícito reunirem-se livremente e sem
armas, não podendo intervir a polícia, senão para manter a ordem pública.”
Estes homens que aqui estão trazem armas?
– Não as vejo.
– Estão desarmados, não perturbam a ordem pública, exercem um direito,
e, enquanto não infringirem as duas cláusulas constitucionais, só a violência os
poderá tirar daqui. Houve já uma tentativa disso. Eu, se fosse comigo, recorria
aos tribunais, onde há justiça. Se eles ma negassem, pedia o júri, onde ela é
indefectível, como na velha Inglaterra. Note que a violência da polícia já deu
algum lucro. Como as moléculas do Encilhamento, por uma lei natural,
tendiam a unir-se logo depois de dispersadas, a polícia, para impedir a
recomposição, fazia disparar de quando em quando duas praças de cavalaria.
Mal sabiam elas que eram simples animais de corrida. As pessoas que as viam
correr, apostavam sobre qual chegaria primeiro a certo ponto. – É a da
esquerda. – É a da direita. – Quinhentos mil-réis. – Aceito. – Pronto. – Chegou
a da esquerda; dê cá o dinheiro.
– De maneira que a própria autoridade…
– Exatamente. Ah! meu caro, dinheiro é mais forte que amor. Veja o
negócio do chocolate. Chocolate parece que não convida à falsificação; tem
menos uso que o café. Pois o chocolate é hoje tão duvidoso como o café.
Entretanto, ninguém dirá que os falsificadores sejam homens desonestos nem
inimigos públicos. O que os leva a falsificar a bebida não é o ódio ao homem.
Como odiar o homem, se no homem está o freguês? É o amor da pecúnia.
– Pecúnia? chocolate?
– Sim, senhor, um negócio que se descobriu há dias. O senhor, ao que
parece, não sabe o que se passa em torno de nós. Aposto que não teve notícia
da revolução de Niterói?
– Tive.
– Eu tive mais que notícia, tive saudades. Quando me falaram em
revolução de Niterói, lembrei-me dos tempos da minha mocidade, quando
Niterói era Praia Grande. Não se faziam ali revoluções, faziam-se patuscadas.
Ia-se de falua, antes e ainda depois das primeiras barcas. Quem ligou nunca
Niterói e S. Domingos a outra ideia que não fosse noite de luar, descantes,
moças vestidas de branco, versos, uma ou outra charada? Havia presidente,
como há hoje; mas morava do lado de cá. Ia ali às onze horas, almoçado,
assinava o expediente, ouvia uma dúzia de sujeitos cujos negócios eram todos
a salvação pública, metia-se na barca, e vinha ao teatro lírico ouvir a
Zecchini. Havia também uma assembleia legislativa; era uma espécie do
antigo Colégio de Pedro II, onde os moços tiravam carta de bacharel político,
e marchavam para S. Paulo, que era a assembleia geral. Tempos! tempos!

Capa de O Encilhamento

– Tudo muda, meu caro senhor. Niterói não podia ficar eternamente Praia
Grande.
– De acordo; mas a lágrima é livre.
– É talvez a coisa mais livre deste mundo, senão a única. Que é a
liberdade pessoal? O senhor vinha andando, rua acima, encontra-me, faço-lhe
uma pergunta, e aqui está preso há vinte minutos.
– Pelo amor de Deus! Tomara eu destes grilhões! São grilhões de ouro.
– Agradeço-lhe o favor. Nunca o favor é tão honroso e grande como
quando sai da boca ungida pelo saber e pela experiência; porque a bondade é
própria dos altos espíritos.
– Julga-me por si; é o modo certo de engrandecer os pequenos.
– O que engrandece os pequenos é o sentimento da modéstia, virtude
extraordinária; o senhor a possui.
– Nunca me esquecerei deste feliz encontro.
– Na verdade, é bom que haja Encilhamento; se o não houvesse, a rua era
livre, como a lágrima, eu teria ido o meu caminho, e não receberia este favor
do céu, de encontrar uma inteligência tão culta. Aqui está o meu cartão.
– Aqui está o meu. Sempre às suas ordens.
– Igualmente.
– (À parte) Que homem distinto!
– (À parte) Que estimável ancião!
multidão de gente
Referência à área de grande movimento e concentração de pessoas, porque
nela localizava-se a bolsa de valores. A rua do Sabão é a atual rua Buenos
Aires, no centro da cidade do Rio de Janeiro.i

falua
Aqui empregado como espécie de bote grande, com velas, usado na
descarga de navios.

descantes
Aqui empregado como cantiga popular acompanhada de instrumento ou
desafio entre cantadores.

Zecchini
Giuseppina Zecchini, cantora lírica italiana que se apresentara no Brasil em
1855.ii
23. [Banco da República … a arte culinária chama de
roupa velha]
1° DE JANEIRO DE 1893, A SEMANA

A crônica trata da fusão do Banco do Brasil, a vetusta instituição que havia


sido organizada em 1866, quando dela saiu o visconde de Mauá, com o Banco
da República dos Estados Unidos do Brasil (Breub), este por sua vez,
resultante da fusão do Banco dos Estados Unidos do Brasil (Beub), fundado
em 1890 pelo conselheiro Mayrink, e do Banco Nacional do Brasil (BNB),
uma redenominação do Banco Internacional, fundado pelo visconde de
Figueiredo anos antes (ver Capítulo 6). Os dois maiores financistas do
Encilhamento, que estavam unidos desde o final de 1890, agora juntavam-se
ao até então aparentemente impoluto Banco do Brasil, do qual Machado talvez
tivesse sido acionista, para formar o Banco da República do Brasil (BRB). Os
detalhes da fusão tinham sido anunciados em 19 de dezembro de 1892, através
de um decreto que se impunha face ao impasse que se verificava no
Parlamento em torno da “questão bancária”.1 Foi, na verdade, o ministro da
Fazenda Serzedello Correia quem chamou os presidentes dos dois bancos,
Manuel Pinto de Souza Dantas pelo BB, e o visconde de Guahy, pelo Breub,
para promover a fusão, tendo em vista que ambos estavam falidos. Juntos
talvez resistissem, ou, mais plausível, melhor se encaixassem na máxima “too
big to fail”. Foi assim que, da tribuna, posteriormente, após deixar o
ministério, Serzedello descreveu a situação de ambos os bancos.2 Vale o
registro de que o ativo do BB cresceu de 220 mil contos ao final do exercício
de 1888/89, para 720 mil contos em 1891/92, mas, no início de 1893,
calculava-se conservadoramente que provisões da ordem de uns 98 mil contos
deveriam ser feitas, praticamente exaurindo o seu patrimônio.3 Há pouca
dúvida de que Serzedello tinha razão. Não obstante, Calógeras definiu a fusão
como “o grande, o imperdoável erro de 1892”, pois “conservara todos os
germes de destruição criados pela gestão desastrosa, dilapidadora, desses
dois institutos”.4 Ademais, vale um outro registro do historiador oficial do
BB: “Um dos piores erros que se assinalaram na atuação do BB durante os
anos da crise, foi a predominância dada aos interesses dos acionistas,
principalmente o da distribuição de dividendos relativos a lucros que eram
realmente fictícios, pois resultavam de lançamentos de juros a débitos de
contas que realmente estavam estagnadas, insuficientemente garantidas e só
iriam ser liquidadas com grandes abatimentos.”5 Foram 32 mil contos em
dividendos “indevidos” pagos ao longo de quatro exercícios; fictícios que
fossem, não seriam suficientes para explicar o deperecimento do ativo do BB,
bem maior que isso. É claro, todavia, que se havia uma “garantia implícita”
por parte do governo, que estava, através da fusão, sendo “chamada”, por que
a administração haveria de se amolar em não distribuir dividendos?

INVENTOU-SE ESTA semana um crime. O nosso século tem estudado


criminologia como gente. Os italianos estão entre os que mais trabalham. Um
dos meus vizinhos fronteiros, velho advogado, com as reminiscências que lhe
ficaram do antigo teatro Provisório (O’bell’alma innamorata! – Gran Dio,
morir sì giovane, – Eccomi in Babilônia etc. etc.), vai entrando pelos livros
florentinos e napolitanos, como o leitor e eu entramos por um almanaque. Pois
assegurou-me esse homem, há poucos minutos, que o crime agora inventado
não existe em tratadista algum moderno, seja de Parma ou da Sicília.
Julgue o leitor por si mesmo. O crime foi inventado em sessão pública do
conselho municipal. Três intendentes, não concordando com a verificação de
poderes, a qual se estava fazendo entre os demais eleitos, tinham recorrido ao
presidente da República e aos tribunais judiciários, os quais todos se
declararam incompetentes para decidir a questão. Não alcançando o que
pediam, resolveram tomar assento no conselho municipal. Um deles, em
discurso cordato, moderado e elogiativo, declarou que, no ponto a que as
coisas chegaram, ele e os companheiros tinham de adotar um destes dois
alvitres: renunciar ou tomar posse das cadeiras. “Renunciar (disse)
entendemos que não podíamos fazê-lo, porquanto seria um crime…”
Deus me é testemunha de ter vivido até hoje na persuasão de que renunciar
um mandato qualquer, político ou não político, era um dos direitos do homem.
Cincinnatus foi o primeiro que me meteu esta ideia na cabeça, quando
renunciou, ao cabo de seis dias, a ditadura que lhe deram por seis meses.
Agora mesmo, um deputado inglês, e dos melhores, Balfour, sendo presidente
de uma companhia que faliu, julgou-se inabilitado para a Câmara dos Comuns,
e renunciou a cadeira, como se falência e parlamento fossem incompatíveis;
mas cada um tem a sua opinião.
Hoje, não digo que tenha mudado inteiramente de parecer, mas vacilo.
Talvez a renúncia seja realmente um crime. Os crimes nascem, vivem e
morrem como as outras criaturas. Matar, que é ainda hoje uma bela ação nas
sociedades bárbaras, é um grande crime nas sociedades polidas. Furtar pode
não ser punido em todos os casos; mas em muitos o é. Nunca me há de
esquecer um sujeito que, com o pretexto (aliás honesto) de estar chovendo,
levou um guarda-chuva que vira à porta de uma loja; o júri provou-lhe que a
propriedade é coisa sagrada, ao menos, sob a forma de um guarda-chuva, e
condenou-o não sei a quantos meses de prisão.

Conselheiro Francisco de Paula Mayrink

Pode ter havido excesso no grau da pena; mas a verdade é que de então
para cá não me lembra que se haja furtado um só guarda-chuva. As amostras
vivem sossegadas às portas das fábricas. É assim que os crimes morrem; é
assim que a própria ideia de furto ou fraude (sinônimos neste escrito) irá
acabando os seus dias de labutação na terra. Um publicista inglês, tratando do
recém-finado Jay Gould, rei das estradas de ferro, aplica-lhe o dito atribuído
a Napoleão Bonaparte: “Os homens da minha estofa não cometem crimes.”
Dito autocrático: a democracia, que invade tudo, há de pô-lo ao alcance dos
mais modestos espíritos.
Não falando na renúncia atribuída ao presidente do Estado do Rio de
Janeiro – notícia desmentida –, tivemos esta semana a do Banco da República,
relativamente à sua personalidade, e vamos ter, na que entra, a do Banco do
Brasil, para formarem o Banco do Estado. Já se fala na fusão de outros, não
porque os alcance o recente decreto, mas porque um pão com um pedaço é pão
e meio. Primo vivere. Crer que tornará o banquete de 1890-1891 é grande
ilusão. “Acabaram-se os belos dias de Aranjuez.”
Sintamos bem a melancolia dos tempos. Compreendamos a inutilidade das
brigas diárias e públicas entre companhias e trechos de companhia, entre
diretorias e trechos de diretoria. Melhor é ajuntar os restos do festim, mandar
fazer o que a arte culinária chama roupa velha, e comê-la com os amigos, sem
vinho. Café sim, mas de carnaúba e milho podre.
Há fatos mais extraordinários que a desolação de Babilônia. Há o fato de
um preto de Uberaba, que, fugindo agora da casa do antigo senhor, veio a
saber que estava livre desde 1888, pela lei da abolição. Faz lembrar o velho
adágio inglês: “Esta cabana é pobre, está toda esburacada; aqui entra o vento,
entra a chuva, entra a neve, mas não entra o rei.” O rei não entrou na casa do
ex-senhor de Uberaba, nem o presidente da República. O que completa a cena,
é que uns oito homens armados foram buscar o João (chama-se João) à casa do
engenheiro Tavares, onde achara abrigo. Que ele fosse agarrado, arrastado e
espancado pelas ruas, não acredito; são floreios telegráficos. Ainda se fosse
de noite, vá; mas às 2 horas da tarde… Creio antes que a polícia prendesse já
dois dos sujeitos armados e esteja procedendo com energia. Agora, se a
energia irá até o fim, é o que não posso saber, porque (emendemos aqui o
nosso Schiller) os belos dias de Aranjuez ainda não acabaram.
Renunciar ao escravo é um crime, terá dito o senhor de Uberaba, e já é
outro voto para a opinião do nosso intendente. Também os mortos não
renunciam ao seu direito de voto, como parece que sucedeu na eleição da
Junta Comercial. Vieram os mortos, pontuais como na balada, e sem
necessidade de tambor. Bastou a voz da chamada; ergueram-se, derrubaram a
laje do sepulcro e apresentaram-se com a cédula escrita. Se assinaram o livro
de presença, ignoro; a letra devia ser trêmula – trêmula, mas bem-pensante.
Quem me parece que renuncia, sem admitir que comete um crime, é o
Senhor Deus Sabbaoth, três vezes santo, criador do céu e da terra. Consta-me
que abandonou completamente este mundo, desgostoso da obra, e que o passou
ao diabo pelo custo. O diabo pretende organizar uma sociedade anônima,
dividindo a propriedade em infinitas ações e prazo eterno. As ações, que ele
dirá nos anúncios serem excelentes, mas que não podem deixar de ser
execráveis, conta vendê-las com grande ágio. Há quem presuma que ele fuja
com a caixa para outro planeta, deixando o nosso sem diabo nem Deus. Outros
pensam que ele reformará o mundo, contraindo um empréstimo com Deus, sem
lhe pagar um ceitil. Adeus, boas saídas do outro e melhores entradas deste.
italianos
John Gledson especula que Machado pensa em Cesare Lombroso (1835-
1909), médico e cientista italiano, autor de O homem delinquente e para
quem a criminalidade resultaria de fatores hereditários e fisiológicos.i

Eccomi in Babilònia etc.


Trechos e excertos de árias de óperas.ii

Cincinnatus
De acordo com relatos da mitologia romana, trata-se de uma das mais
importantes figuras lendárias dos primórdios de Roma, que defendeu a
cidade da invasão dos équos.iii

Balfour
Jabez Spencer Balfour (1843-1916), empresário e político inglês, acusado
de praticar fraude financeira.

Jay Gould
Gould, na verdade Jason Gould (1836-1892), foi um dos mais famosos
magnatas norteamericanos. Fez fortuna com especulação em metais, grãos e
com ferrovias, não sem o seu nada modesto quinhão de controvérsia.

presidente
Na época (e até 1894), José Thomaz da Porciúncula (1854-1901).

Primo vivere
Tradução literal do italiano: “Antes de tudo, viver.”

dias de Aranjuez
Trecho da cena inicial da peça Dom Carlos (1787), de Friedrich Schiller
(1759-1805), poeta, dramaturgo, filósofo e historiador alemão. Imagem
usada seguidamente por Machado para assinalar o final da euforia do
Encilhamento.

a desolação de Babilônia
Da mesma peça.
eleição
Corriam denúncias, pela imprensa, de que Antonio José Goulart elegera-se
por meios ilegais.iv

Sabbaoth
Javé Sabbaoth, “o Senhor dos Exércitos” (Samuel 1:3).

ceitil
Antiga moeda portuguesa, que valia um sexto de real.
24. [chovem assuntos modernos…]
29 DE JANEIRO DE 1893, A SEMANA

A “arte das transições” aqui opera uma extraordinária mágica. A fusão dos
dois grandes bancos da capital, BB e Breub, era um encontro de falidos, um
problema de “risco sistêmico”, a se usar a linguagem de nossos dias, como já
observado no capítulo anterior. Dado que ambos os bancos tinham em suas
carteiras nacos de quase todos os empreendimentos do Encilhamento, portanto,
amostras dos mais estranhos animais, é certo dizer que sua sobrevivência e
viabilidade, em boa medida, ofereciam um teste para a “verdade” contida nos
desígnios de progresso implícitos ao Encilhamento. Esta curiosa união é
tratada analogicamente, embora de forma nada explícita, junto com a
demolição do cortiço conhecido como “cabeça de porco”, por obra do
prefeito Barata Ribeiro, de onde saíram, também, os mais inesperados
moradores. Em boa medida, o Banco da República, a união de todos os
exóticos moradores da euforia do Encilhamento, “os resíduos de todas as
loucuras da Bolsa”, como diria, anos depois, o ministro da Fazenda Joaquim
Murtinho,1 também estava condenado.2 Este cortiço, em contraste com o
“cabeça de porco”, não podia ser derrubado, seja porque fizesse sentido
preservar o que, para todos os efeitos, era um banco de Estado, o equivalente
da época aos bancos centrais de hoje, seja porque havia “risco sistêmico”, ou
seja, a possibilidade de se prejudicar um universo muito maior de vítimas
inocentes como os depositantes. Velha e polêmica questão! A fusão podia ser
mais uma “ideia grávida” (Capítulo 18) de um bebê que era a estatização do
banco e de suas emissões. Mas em vez desta sua imagem, o cronista alude
sucessivamente a um remédio destinado a males gástricos, mas que interrompe
a gravidez, e também a moedas falsas, e a debêntures. São os assuntos
modernos e difíceis, entre eles, a crise em um grande banco, ou em vários
deles.
DESTE HOMEM pequeno e magro chamado Barata Ribeiro, prefeito
GOSTO
municipal, todo vontade, todo ação, que não perde o tempo a ver correr as
águas do Eufrates. Como Josué, acaba de pôr abaixo as muralhas de Jericó,
vulgo Cabeça de Porco. Chamou as tropas segundo as ordens de Javé; durante
os seis dias da escritura, deu volta à cidade e depois mandou tocar as
trombetas. Tudo ruiu, e, para mais justeza bíblica, até carneiros saíram de
dentro da Cabeça de Porco, tal qual da outra Jericó saíram bois e jumentos. A
diferença é que estes foram passados a fio de espada. Os carneiros, não só
conservaram a vida mas receberam ontem algumas ações de sociedades
anônimas.
Outra diferença. Na velha Jericó houve, ao menos, uma casa de mulher que
salvar, porque a dona tinha acolhido os mensageiros de Josué. Aqui nenhuma
recebeu ninguém. Tudo pereceu portanto, e foi bom que perecesse. Lá estavam
para fazer cumprir a lei a autoridade policial, a autoridade sanitária, a força
pública, cidadãos de boa vontade, e cá fora é preciso que esteja aquele apoio
moral, que dá a opinião pública aos varões provadamente fortes.
Não me condenem as reminiscências de Jericó. Foram os lindos olhos de
uma judia que me meteram na cabeça os passos da Escritura. Eles é que me
fizeram ler no livro do Êxodo a condenação das imagens, lei que eles
entendem mal, por serem judeus, mas que os olhos cristãos entendem pelo
único sentido verdadeiro. Tal foi a causa de não ir, desde anos, à procissão de
S. Sebastião, em que a imagem do nosso padroeiro é transportada da catedral
ao Castelo. Sexta-feira fui vê-la sair. Éramos dois, um amigo e eu; logo depois
éramos quatro, nós e as nossas melancolias. Deus de bondade! Que diferença
entre a procissão de sexta-feira e as de outrora. Ordem, número, pompa, tudo
o que havia quando eu era menino, tudo desapareceu. Valha a piedade, posto
não faltaram olhos cristãos, e femininos – um par deles – para acompanhar
com riso amigo e particular uma velha opa encarnada e inquieta. Foi o meu
amigo que notou essa passagem do Cântico dos Cânticos. Todo eu era pouco
para evocar a minha meninice…
E, tu, Belém Efrata… Vede ainda uma reminiscência bíblica; é do profeta
Miqueias… Não tenho outra para significar a vitória de Teresópolis. De
Belém tinha de vir o salvador do mundo, como de Teresópolis há de vir a
salvação do estado fluminense. Está feito capital o lindo e fresco deserto das
montanhas. Peso de Campos (agora é imitar o profeta Isaías), peso de
Vassouras, peso de Niterói. Não valeram riquezas, nem súplicas. A ti, pobre e
antiga Niterói, não te valeu a eloquência do teu Belisário Augusto, nem sequer
a rivalidade das outras cidades pretendentes. Tinha de ser Teresópolis. “E tu,
Belém Efrata, tu és pequenina entre as milhares de Judá…” Pequenina também
é Teresópolis, mas pequenina em casas; terras há muitas, pedras não faltam,
nem cal, nem trolhas, nem tempo. Falta o meu velho amigo Rodrigues – ora
morto e enterrado – que possuía uma boa parte daquelas terras desertas. Ai,
Justiniano! Os teus dias passaram como as águas que não voltam mais. É ainda
uma palavra da Escritura.
Fora com estes sapatos de Israel. Calcemo-nos à maneira da rua do
Ouvidor, que pisamos, onde a vida passa um burburinho de todos os dias e de
cada hora. Chovem assuntos modernos. O banco, por exemplo, o novo banco,
filho de dois pais, como aquela criança divina que era, dizia Camões, nascida
de duas mães. As duas mães, como sabeis, eram a madre de sua madre, e a
coxa de seu padre, porque no tempo em que Júpiter engendrou esse
pequerrucho, ainda não estava descoberto o remédio que previne a concepção
para sempre, e de que ouço falar na rua do Ouvidor. Dizem até que se
anuncia, mas eu não leio anúncios.
No tempo em que os lia, até os ia catar nos jornais estrangeiros. Um
destes, creio que americano, trazia um de excelente remédio para não sei que
perturbações gástricas; recomendava, porém, às senhoras que o não tomassem,
em estado de gravidez, pelo risco que corriam de abortar… O remédio não
tinha outro fim senão justamente este; mas a polícia ficava sem haver por onde
pegar do invento e do inventor. Era assim, por meios astutos e grande
dissimulação, que o remédio se oferecia às senhoras cansadas de aturar
crianças.
A moeda falsa, que previne a miséria, não a previne para sempre, visto
que a polícia tem o poder iníquo de interromper os estudos de gravura e meter
toda uma academia na Detenção. Já li que se trata de demolir caracteres, e
também que a autoridade está atacando o capital. Eu, em se me falando esta
linguagem, fico do lado do capital e dos caracteres. Que pode, sem eles, uma
sociedade?
Um criado meu, que perdeu tudo o que possuía na compra de
desventuras… perdoem-lhe; é um pobre homem que fala mal. Ensinei-lhe a
correta pronúncia de debêntures, mas ele disse-me que desventuras é o que
elas eram, desventuras e patifarias. Pois esse criado também defende o
capital; a diferença é que não se acusa a si de atacar o dos outros, e sim aos
outros de lhe terem levado o seu. Quanto aos caracteres, entendo que, se
alguma coisa quer demolir, não são os caracteres, mas as próprias caras, que
são os caracteres externos, e não o faz por medo da polícia.
Lê tudo o que os jornais publicam, este homem. Foi ele que me deu notícia
da nova denúncia contra a Geral; ele chama-lhe nova, não sei se houve outra.
Contou-me também uma história de discursos, paraninfos e retratos, e mais um
contrabando de objetos de prata dentro de um canapé velho.
– Não ganho dinheiro com isto, conclui ele; mas consolo-me das minhas
desventuras.
– Debêntures, José Rodrigues.

Charges da época sobre o Encilhamento, de autoria de Pereira Netto.


Barata Ribeiro
Cândido Barata Ribeiro (1843-1910) foi nomeado prefeito do Distrito
Federal por Floriano Peixoto, de quem era amigo pessoal. De início, teve a
sua indicação recusada pelo Senado, que o aprovou somente por pressão do
presidente. Passou à história pelas tentativas de “modernizar a cidade”, uma
década antes de Pereira Passos.

Cabeça de Porco
Referência ao episódio de demolição do grande cortiço próximo à Central
do Brasil. A opinião pública e a publicada, inclusive a da Gazeta de
Notícias, eram favoráveis à derrubada, mas Machado tinha dúvidas sobre
os caminhos da modernização da cidade.i

carneiros
Comentário ferino sobre a empresa Melhoramentos do Brasil e talvez a
outras, que teriam a ganhar com a derrubada do cortiço, usando, mais uma
vez, a imagem do carneiro acionista.ii

opa
Espécie de capa sem mangas, com aberturas por onde se enfiam os braços,
usada pelas confrarias e irmandades religiosas.

a vitória de Teresópolis
Um projeto, em votação na Assembleia Estadual em 22 de janeiro, de mudar
a capital do estado, consequentemente a do país – “para outra cidade que
não fique sendo um prolongamento da rua do Ouvidor”, ironizara Machado
–, sob o mesmo argumento de “interiorização” que anos depois justificaria
Brasília, dera vitória a Teresópolis, contra Niterói, Campos, Vassouras,
Nova Friburgo. Mas a medida não foi aprovada pelo governo republicano.

Belisário Augusto
Belisário Augusto de Oliveira Pena (1868-1939), médico, sanitarista,
participou de várias campanhas de saúde pública, também escritor, ensaísta,
poeta e memorialista.

filho de dois pais


Referência à fusão entre o BB e o Breub, constituindo o BRB, aludida no
Capítulo 22.

nascida de duas mães


Refere-se a Baco, inimigo dos portugueses nos Lusíadas, e que “sempre a
mocidade / Tem no rosto perpétua, e foi nascido / de duas mães” (II, 10). No
Canto I, 73, ele é “o grão Tebano, / que da paternal coxa foi nascido”.iii

se anuncia
O anúncio foi feito pelo médico Abel Parente.iv

José Rodrigues
Criado do cronista, que aparecia em diversas outras crônicas. Adiante, no
Capítulo 27, aparece no pesadelo de Machado como Horácio, na cena do
cemitério de Hamlet.
25. [falsas estão para as verdadeiras, como o quilo mal
pesado]
5 DE FEVEREIRO DE 1893, A SEMANA

Esta crônica se desenvolve em torno de um problema que foi recorrente na


ocasião, relativo à convivência entre diferentes tipos de moedas e cédulas,
cujos diferenciais de “qualidade” vão se ampliando. Não se tratava apenas
das diferenças de valor entre as moedas de ouro, prata e as divisionárias (de
cobre e níquel), de diferentes pesos e origens, e entre estas e as cédulas.
Havia cédulas de emissões de vários bancos, alguns em avançado estado de
decomposição, outros nem tanto, ou pelo contrário. Além das do BRB, havia
as notas dos bancos de Crédito Popular, União de São Paulo, Emissor de
Pernambuco, Emissor da Bahia, Emissor do Norte, do Banco da Bahia, e
também as notas do Tesouro. Havia ainda emissões clandestinas e regionais de
vários tipos, conforme veremos no Capítulo 27, e cédulas falsas. Esta
“decomposição” da moeda era uma expressão de uma crise que se agravava, e
que ainda teria muito espaço para avançar. Esta face mais cotidiana do
problema, referente ao cidadão que se defronta com determinado meio de
pagamento, registra uma experiência que já foi racionalizada, por exemplo,
através da Lei de Gresham, segundo a qual o indivíduo sempre vai “passar
adiante” a moeda de pior qualidade. Nessa mesma linha, o “quilo mal pesado”
é a reação do comércio diante da necessidade de ágios ou descontos para
pagamentos feitos com diferentes tipos de moeda, ou também como reação ao
controle de preços, como abundantemente demonstrado durante a vigência dos
congelamentos nos planos econômicos heterodoxos da década de 1980.
ONTARAM ALGUMAS folhas esta semana, que um homem, não querendo pagar
C por um quilo de carne preço superior ao taxado pela prefeitura, ouvira do
açougueiro que poderia pagar o dito preço, mas que o quilo seria mal pesado.
Pára, amigo leitor; não te importes com o resto das coisas, nem dos
homens. Com um osso, queria o outro reconstruir um animal, com aquela só
palavra, podemos recompor um animal, uma família, uma tribo, uma nação, um
continente de animais. Não é que a palavra seja nova. É menos velha que o
diabo, mas é velha. Creio que no tempo das libras, já havia libras mal
pesadas, e até arrobas. O nosso erro é crer que inventamos, quando
continuamos, ou simplesmente copiamos. Tanta gente pasma ou vocifera diante
de pecados, sem querer ver que outros iguais pecados se pecaram, e ainda
outros se estão pecando, por várias outras terras pecadoras.
Andamos em boa companhia. Não nos hão de lapidar por atos que são
antes efeito de uma epidemia do tempo. Ou lapidem-nos, mas no sentido em
que se lapida um diamante, para se lhe deixar o puro brilho da espécie. Neste
ponto, força é confessar que ainda há por aqui impurezas e defeitos graves;
mas o belo diamante Estrela do Sul, que hoje pertence a não sei que coroa
europeia, não foi achado na Bagagem prestes a ser engastado, mas
naturalmente bruto. Há impurezas. Há inépcia, por exemplo, muita inépcia.
Quando não é inépcia, são inadvertências. Apontam-se diamantes que tanto
têm de finos como de pataus, e só o longo estudo da mineralogia poderá dar a
chave da contradição.
Mas, sursum corda, como se diz na missa. Subamos ao alto valor
espiritual da resposta do açougueiro. Um quilo mal pesado. Pela lei, um quilo
mal pesado não é quilo, são novecentos e tantos gramas, ou só novecentos.
Mas a persistência do nome é que dá a grande significação da palavra e a
consequente teoria. Trata-se de uma ideia que o vendedor e o comprador
entendem, posto que legalmente não exista. Eles creem e juram que há duas
espécies de quilo – o de peso justo e o mal pesado. Perderão a carne ou o
preço, primeiro que a convicção.
Ora bem, não será assim com o resto? Que são notas falsas, se acaso estão
de acordo com as verdadeiras, e apenas se distinguem delas por uma tinta
menos viva, ou por alguns pontos mais ou menos incorretos? Falsas seriam, se
se parecessem tanto com as outras, como um rótulo de farmácia com um
bilhete do Banco Emissor de Pernambuco, para não ir mais longe; mas se
entre as notas do mesmo banco houver apenas diferenças miúdas de cor ou de
desenho, as chamadas falsas estão para as verdadeiras, como o quilo mal
pesado para o quilo de peso justo. Excluo naturalmente o caso de emissões
clandestinas, porque as notas de tais emissões nunca se poderão dizer mal
pesadas. O peso é o mesmo. A alteração única está no acréscimo do
mantimento, determinado pelo acréscimo dos quilos. Quanto ao mais, falsas ou
verdadeiras, valha-nos aquela benta francesia que diz que tout finit par des
chansons.

Pañuelo a la cintura,
Pañuelo al cuello,
Yo no sé donde salen
Tantos pañuelos!

Saiam donde for, basta que enfeitem a moça andaluza. Não lhe faltarão
guitarras nem guitarreiros, que levantem até à lua os seus méritos, ainda que
eles sejam mal pesados. Que valem cinquenta ou cem gramas de menos a um
merecimento, se lhe não tiram este nome? Tudo está no nome. Vi estadistas que
tinham de ciência política um quilo muito mal pesado, e nunca os vi gritar
contra o açougueiro; alguns acabaram crendo que o peso era justo, outros que
até traziam um pedaço de quebra…
– Isto prova, interrompe-me aqui o açougueiro, que o senhor entende
pouco do que escreve. Se realmente tivesse ideias claras, saberia que não há
só quilos mal pesados; também os há bem pesados. Mas quem os recebe da
segunda classe, não corre às folhas públicas. Creia-me, isto de filosofia não se
faz com a pena no papel, mas também com o facão na alcatra. Saiba que o
mundo é uma balança, em que se pesam alternadamente aqueles dois quilos,
entre brados de alegria e de indignação. Para mim, tenho que o quilo mal
pesado foi inventado por Deus, e o bem pesado pelo Diabo; mas os meus
fregueses pensam o contrário, e daí um povo de cismáticos, uma raça perversa
e corrupta…
– Bem; faça o resto da crônica.
animal
Palavras do naturalista francês George Cuvier (1769-1832), que se gabava
de poder inferir o resto da anatomia de um animal a partir da evidência de
um só osso.i

Estrela do Sul
Este diamante (de 261 quilates), o maior jamais encontrado no Brasil, foi
descoberto por uma escrava em 1853. Foi exibido na Exposição de Londres
de 1862, e posteriormente vendido ao Gaekwar (dinastia de marajás) de
Baroda, Índia, a quem pertence até hoje.ii

pataus
Parvos, ignorantes.

sursum corda
Em latim, “elevemos os corações”.

Banco Emissor de Pernambuco


Na semana anterior, tinham sido presos, em Minas Gerais, falsários que
trabalhavam com as notas do Banco Emissor de Pernambuco.iii

tout finit par des chansons


Em tradução literal do francês: “Tudo acabado pelas canções.” É a frase
final do último trecho da peça As bodas de Fígaro, de Pierre-Augustin de
Beaumarchais (1732-99), dramaturgo francês, também autor de O barbeiro
de Sevilha, que Machado traduziu em 1866.

pañuelos!
Em tradução literal do espanhol: “Lenço na cintura / Lenço no pescoço /
Tantos lenços.” Alusão à letra de uma Zamacueca, dança chilena encenada
por uma companhia espanhola de grande sucesso na época.

andaluza
Referência a Suzanna, também de As bodas de Fígaro, que vai se casar com
Fígaro. Ambos são servos do conde de Almeviva, que quer fazer valer o
“direito de senhor” segundo o qual poderia deitar-se com Suzanna antes do
casamento.

cismáticos
Aqui empregado no sentido de aquele que se separou da comunhão de uma
igreja.
26. [papel-moeda e moeda-papel …
fusão e encampação]
25 DE JUNHO DE 1893, A SEMANA

O debate entre papelistas e metalistas em nada arrefeceu em razão da fusão


que resultou no BRB. Embora o decreto de 17 de dezembro de 1892 tenha
adotado diversos pontos dos projetos que estiveram em discussão no
Parlamento, seu enunciado acabava procurando agradar a ambas as correntes,
além de procurar preservar os dois grandes bancos em dificuldades. O decreto
da fusão extinguia a faculdade emissora do novo estabelecimento, atendendo
aos favoráveis à encampação, mas o ministro Serzedello, conhecido pelas
suas simpatias industrialistas, criou a figura dos “Auxílios à Indústria”, ao
autorizar o BRB a emitir até 100 mil contos em “bônus”, para “as indústrias
nacionais que tenham condições de vitalidade”; nos “considerandos” do
decreto, o ministro afirmava que a emissão de “bônus”, embora em pequenas
denominações e ao portador “não importava em emissão de papel-moeda”.1
Um clássico da política: cravo e ferradura atingidos. Não obstante, em maio
de 1893, foi aberta a sessão ordinária do Congresso e logo recebida a
mensagem presidencial com o decreto. Seguiu-se acérrima discussão da qual
resultou a aprovação do decreto na Câmara, a despeito desta reputá-lo
“inconstitucional”. No Senado, a aprovação ocorre em seguida, em agosto.2
Tenha-se claro que o impasse não se reduzira em um centímetro sequer, o
projeto estava longe de representar qualquer consenso, mas o pior cenário
seria, por certo, o de se rejeitar a iniciativa do governo, uma vez que o
Parlamento não tinha nada para colocar no lugar. É nesse contexto que o
cronista se diverte com a linguagem e a complexidade das finanças, e com os
impasses e dúvidas dos financistas.
CRIANÇA, ouço dizer que aos condenados à morte cumprem-se os
DESDE
últimos desejos. Dá-se-lhes doce de coco, lebre, tripas, um cálice de
Tócai, qualquer coisa que eles peçam. Nunca indaguei se isto era exato ou
não, e já agora ficaria aborrecido, se o não fosse. Há nesse uso uma tal mescla
de piedade e ironia, que entra pela alma da gente. A piedade, só por si, é
triste; a ironia, sem mais nada, é dura; mas as duas juntas dão um produto
brando e jovial.
Li até que um condenado à morte, perguntando-se-lhe, na manhã do dia da
execução, o que queria, respondeu que queria aprender inglês. Há de ser
invenção; mas achei o desejo verossímil, não só pelo motivo aparente de
dilatar a execução, mas ainda por outro mais sutil e profundo. A língua inglesa
é tão universal, tem penetrado de tal modo em todas as partes deste mundo,
que provavelmente é a língua do outro mundo. O réu não queria entrar
estrangeiro no reino dos mortos.
Pois, senhores, antes de pegar na pena para contar-lhes a semana, vendo
que esta foi, entre todas, financeira, tive ideia de ir aprender primeiro
finanças. O meu cálculo era fino; suspendia por algum tempo esta obrigação
hebdomadária, e descansava. Mas a pessoa a quem consultei sobre o método
de aprender finanças disse-me que havia dois, além do único. O mais fácil
ensinava-me em duas horas ou menos, muito a tempo de escrever estas linhas;
consistia em decorar um pequeno vocabulário de algibeira, e não de entender
a teoria do câmbio. O segundo método pedia mais algum tempo; era escrever
um opúsculo sobre o deficit ou sobre os saldos, publicá-lo e confiá-lo aos
amigos, que fariam o resto. Como a maior parte dos homens não sabe finanças,
disse-me ele, ainda que os sabedores me atacassem, o público ficava em
dúvida, se a razão estava comigo ou com eles, porque de ambas as partes
ouvia falar em conversão de dívida e impostos. Quando o católico ouve missa,
uma vez que o padre diga o que está no missal, não saber se ele sabe latim, ou
se quem o sabe, é o padre do altar fronteiro. Tudo é missa, tudo são finanças.
Considerei que realmente esse homem tinha razão, ou parecia tê-la, o que
vem a dar na mesma. Há um ano ouvi dizer o diabo de um plano financeiro;
ouço agora dizer o diabo do plano contrário, e provavelmente dir-se-á o diabo
de algum terceiro plano que apareça e vingue. Salvo o diabo, tudo é missa. Já
cheguei a suspeitar que todos estão de acordo, não havendo outra divergência
mais que na escolha do vocábulo, querendo uns que se diga encampação, em
vez de fusão; outros fusão, em vez de encampação; mas pessoa que reputo
hábil nestas matérias afirmou-me que as duas palavras exprimem coisas
diferentes – o que eu acredito por ser pessoa, além de hábil, sisuda.
Conheci um banqueiro… Era no tempo em que um homem só, ou com
outro, podia ser banqueiro, sem incomodar acionistas, sem gastar papel com
estatutos, sem dividendos, sem assembleias. Simples Rothschilds. Era
banqueiro e voou na tormenta de 1864. Anos depois, descobria que havia
diferença entre papel-moeda e moeda-papel, e não encontrava um amigo a
quem não repetisse as duas formas. Depois de as repetir, explicava-as; depois
de as explicar, repetia-as. Se tem demorado em banqueiro, talvez não as
soubesse nunca.
O que ele fazia com os dois papéis, farei eu com a fusão e a encampação.
Já lá vão alguns anos, deu-se na Câmara dos Deputados um incidente que
devia estar gravado em letras de bronze na memória da nação, se nós
tivéssemos outra memória, além da que nos faz lembrar o que almoçamos hoje.
Um deputado desenvolvia as suas ideias políticas, e era interrompido por dois
colegas, um liberal, outro conservador. A cada coisa que ele dizia querer,
acudia o liberal: “É liberal!” e o conservador: “É conservador!” Isto durou
cerca de dez minutos, calculados pelo trecho impresso, e dificilmente se
imaginará mais completo acordo de espíritos. Quantos desconcertos seriam
evitados, se todos imitassem aqueles três membros do parlamento!
Repito, vou aprender finanças. Vou aprender igualmente a teoria da
propriedade, e particularmente a da propriedade intelectual, para assistir ao
debate do tratado literário na Câmara esta semana. A maioria da comissão
nega o tratado, que os Srs. Nilo Peçanha e Spencer defendem, defendendo o
direito de propriedade. A sessão há de ser brilhante. A matéria não é das que
inflamam os homens; ao contrário, é um tema para dissertações pausadas,
sossegadas, em que Homero, se for chamado, desarmará primeiro Aquiles e
Heitor, para que eles possam ocupar um lugar na tribuna dos diplomatas.
Vênus, se baixar aos combates, não sairá ferida pelas armas dos combatentes,
a não ser com beijos. Será uma ressurreição dos torneios, à maneira da que
fizeram agora em Roma – espetáculo sem sangue, rutilante e festivo.
Vou também aprender a ourives, para falar das joias de Sarah Bernhardt,
aprender também um pouco de história (pelos livros de Dumas) para
compará-las ao colar da rainha. Onde estarão essas esquivas joias? Como é
que diamantes, em que terra de diamantes, se lembram de deixar o colo, o
cinto e os pés de Cleópatra? Oh! Bela filha do Egito! Talvez haja no roubo um
símbolo. Pode ser até que seja menos um roubo que uma ideia, como se o
autor quisesse dizer que todas as joias do mundo não valem a única joia do
Nilo. Não confundas com a de Sardou. Quem sabe se não vai nisso também
uma lição? A Cleópatra falsa de Sardou pedia pedras verdadeiras; a de
Shakespeare contentar-se-ia com pedras falsas, como devem ser as de cena,
porque as verdadeiras seriam unicamente ele e tu. Em cena, ó grande
imperatriz, tudo é postiço, exceto o gênio.
Que mais irei aprender? Nada mais que tirar o chapéu com graça, arrastar
o pé e sair. Não posso aprender sequer a acender pistolas e tirar sortes de S.
João. São talentos desaprendidos. Meu bom S. João, companheiro do
romantismo, da idade em flor, e de várias relíquias que os santos de outra
idade levaram consigo. Vejo as moças e os moços em volta da mesa, livro de
sortes aberto, dados no copo, copo na mão, e o leitor do livro lendo o título da
página: “Se alguém lhe ama em segredo.” A moça deitava os dados: cinco e
dois. O leitor corria ao número sete, onde se dizia por verso que sim, que
havia uma pessoa, um moço que, por sinal, estava com fome. “É o Rangel!
bradava um gracioso; tragam o chá, que o Rangel está com fome.” E riam
moços e moças, e continuavam o copo, os dados, as quadras, o leitor do livro,
o Rangel, o gracioso, até que todos iam dormir os seus sonos desambiciosos,
sem querer saber da fusão, nem de encampação, nem de tratados literários,
nem de joias, nem de Cleópatras, nem de nada.
tormenta de 1864
Referência à chamada “Crise do Souto”, causada pela falência da casa
bancária A.C. Souto & Cia., que provocou inadimplência generalizada,
falência de empresas e grave crise financeira.

defendem
Dias depois da publicação da crônica, Nilo Peçanha (1867-1924), à época
deputado, faria vigoroso pronunciamento em defesa da propriedade
intelectual, literária em particular.

joias
Refere-se ao furto de todas as joias da atriz francesa (1844-1923) em sua
casa na praia de Botafogo. Sarah Bernhardt fazia uma excursão pela
América do Sul entre 1891 e 1893.

pelos livros de Dumas


Referência ao episódio do roubo do colar da rainha no romance Os três
mosqueteiros, de Alexandre Dumas (1802-1870).

Sardou
Victorien Sardou (1831-1908), dramaturgo francês, autor da peça
Cleópatra, escrita especialmente para Bernhardt (assim como as peças
Fedora, Théodora e La Tosca).

acender pistolas
Expressão que refere-se a fogos de artifício.
27. [não eram bem títulos nem bem caveiras]
3 DE JUNHO DE 1894, A SEMANA

A crônica que teve o título abaixo, quando republicada em Páginas


recolhidas,1 nos remete à primeira cena do quinto ato de Hamlet, que se inicia
com dois coveiros a conversar animados e continua com a chegada do
príncipe e seu fiel amigo Horácio, para o enterro de Ofélia, que se matara e ia
ser sepultada em seguida. Hamlet e Horácio ponderam sobre quem foram os
usuários de diversas das caveiras disponíveis no local: político, cortesão,
jurista, comprador de terras e também Yorick, o bobo do rei, que Hamlet
conhecera. “Onde estão seus gracejos? As suas cabriolas?”, ele pergunta. Em
seguida, entra o cortejo, com o rei Cláudio, tio de Hamlet e assassino de seu
pai, a rainha Gertrudes, mãe de Hamlet, agora mulher de Cláudio, e Laerte,
irmão de Ofélia que vinha de Paris para o funeral. Durante a cerimônia, a
rainha lamenta que Ofélia não tenha se casado com Hamlet, mas Laerte
pragueja contra ele: “Que as desgraças todas / se multipliquem sobre esse
maldito / cujo delito horrendo lhe roubou / o juízo. Não a cubram já de terra /
que espere a terra ainda mais alguns momentos / até que uma vez mais lhe
estenda os braços.” E salta dentro da cova, no mesmo momento em que Hamlet
aparece, e ambos põem-se a lutar dentro da cova.

A CENA DO CEMITÉRIO

Não mistureis alhos com bugalhos; é o melhor conselho que posso dar às
pessoas que leem de noite na cama. A noite passada, por infringir essa regra,
tive um pesadelo horrível. Escutai; não perdereis os cinco minutos de
audiência.
Foi o caso que, como não tinha acabado de ler os jornais de manhã, fi-lo à
noite. Pouco já havia que ler, três notícias e a cotação da praça. Notícias da
manhã, lidas à noite, produzem sempre o efeito de modas velhas, donde
concluo que o melhor encanto das gazetas está na hora em que aparecem. A
cotação da praça, conquanto tivesse a mesma feição, não a li com igual
indiferença, em razão das recordações que trazia do ano terrível (1890-91).
Gastei mais tempo a lê-la e relê-la. Afinal, pus os jornais de lado, e, não
sendo tarde, peguei de um livro, que acertou de ser Shakespeare. O drama era
Hamlet. A página, aberta ao acaso, era a cena do cemitério, ato V. Não há que
dizer ao livro nem à página; mas essa mistura de poesia e cotação de praça, de
gente morta e dinheiro vivo, não podia gerar nada bom; eram alhos com
bugalhos.
Sucedeu o que era de esperar; tive um pesadelo. A princípio, não pude
dormir; voltava-me de um lado para outro, vendo as figuras de Hamlet e de
Horácio, os coveiros e as caveiras, ouvindo a balada e a conversação. A
muito custo, peguei no sono. Antes não pegasse! Sonhei que era Hamlet; trazia
a mesma capa negra, as meias, o gibão e os calções da mesma cor. Não sei se
vos lembrais ainda de Rossi e de Salvino? Pois era a mesma figura. Era mais:
tinha a própria alma de príncipe da Dinamarca.
Até aí nada houve que me assustasse. Também não me aterrou ver, ao pé de
mim, vestido de Horácio, o meu fiel criado José Rodrigues. Achei natural; ele
não o achou menos. Saímos de casa para o cemitério; atravessamos uma rua
que nos pareceu ser a Primeiro de Março e entramos em um espaço que era
metade cemitério, metade sala. Nos sonhos há confusões dessas, imaginações
duplas ou incompletas, mistura de coisas opostas, dilacerações,
desdobramentos inexplicáveis; mas, enfim, como eu era Hamlet e ele,
Horácio, tudo aquilo devia ser cemitério. Tanto era que ouvimos logo a um
dos coveiros esta estrofe:

Era um título novinho,


Valia mais de oitocentos;
Agora está velhinho
Não chega a valer duzentos.
Entramos e escutamos. Como na tragédia, deixamos que os coveiros
falassem entre si, enquanto faziam a cova de Ofélia. Mas os coveiros eram ao
mesmo tempo corretores, e tratavam de ossos e papéis. A um deles ouvia
bradar que tinha trinta ações da Companhia Promotora das Batatas
Econômicas. Respondeu-lhe o outro que dava cinco mil-réis por elas. Achei
pouco dinheiro e disse isto mesmo a Horácio, que me respondeu pela boca de
José Rodrigues: “Meu senhor, as batatas desta companhia foram prósperas
enquanto os portadores dos títulos não as foram plantar. A economia da nobre
instituição consistia justamente em não plantar o precioso tubérculo; uma vez
que o plantassem, era indício certo da decadência e da morte.”
Não entendi bem; mas os coveiros, fazendo saltar caveiras do solo, iam
dizendo graças e apregoando títulos. Falavam de bancos, do Banco União, do
Banco Eterno, do Banco dos Bancos, e os respectivos títulos eram vendidos
ou não, segundo oferecessem por eles sete tostões ou duas patacas. Não eram
bem títulos nem bem caveiras; eram as duas coisas juntas, uma fusão de
aspectos, letras com buracos de olhos, dentes por assinaturas. Demos mais
alguns passos, até que eles nos viram. Não se admiraram; foram indo com o
trabalho de cavar e vender. – Cem da Companhia Balsâmica! – Três mil-réis.
– São suas. – Vinte e cinco da Companhia Salvadora! – Mil-réis! – Dois mil-
réis! – Dois mil e cem! – E duzentos! – E quinhentos! – São suas.
Cheguei-me a um, ia falar-lhe, quando fui interrompido pelo próprio
homem: – “Pronto Alívio! Meus senhores! Dez do Banco Pronto Alívio! Não
dão nada, meus senhores? – Pronto Alívio! senhores… Quantos dão? Dois
tostões? Oh! Não! Não! Valem mais! Pronto Alívio! Pronto Alívio!” O homem
calou-se afinal, não sem ouvir de outro coveiro que, como alívio, o banco não
podia ter sido mais pronto. Faziam trocadilhos, como os coveiros de
Shakespeare. Um deles, ouvindo apregoar sete ações do Banco Pontual, disse
que tal banco foi realmente pontual até o dia em que passou do ponto à
reticência. Como espírito, não era grande coisa; daí a chuva de tíbias que caiu
em cima do autor. Foi uma cena lúgubre e alegre ao mesmo tempo. Os
coveiros riam, as caveiras riam, as árvores, torcendo-se aos ventos da
Dinamarca, pareciam torcer-se de riso, e as covas abertas riam, à espera que
fossem chorar sobre elas.
Surdiram muitas outras caveiras ou títulos. Da Companhia Exploradora de
Além-Túmulo apareceram cinquenta e quatro, que se venderam a dez réis. O
fim desta companhia era comprar para cada acionista um lote de trinta metros
quadrados no Paraíso. Os primeiros títulos, em março de 1891, subiram a
conto de réis; mas se nada há seguro neste mundo conhecido, pode havê-lo no
incognoscível? Esta dúvida entrou no espírito do caixa da companhia, que
aproveitou a passagem de um paquete transatlântico, para ir consultar um
teólogo europeu, levando consigo tudo o que havia mais cognoscível entre os
valores. Foi um coveiro que me contou este antecedente da companhia. Eis
aqui, porém, surdiu uma voz do fundo da cova, que estavam abrindo. Uma
debênture! Uma debênture!
Era já outra coisa. Era uma debênture da Geral. Cheguei-me ao coveiro, e
perguntei que era que estava dizendo. Repetiu o nome do título. Uma
debênture? – Uma debênture da Geral. – Da Geral! Deixe ver, amigo. E,
pegando nela, como Hamlet, exclamei, cheio de melancolia:
– Alas, poor Yorick! Eu o conheci, Horácio. Era um título magnífico.
Estes buracos de olhos foram algarismos de brilhantes, safiras e opalas. Aqui,
onde foi nariz, havia um promontório de marfim velho lavrado; eram de nácar
estas faces, os dentes de ouro, as orelhas de granada e safira. Desta boca
saíam as mais sublimes promessas em estilo alevantado e nobre. Onde estão
agora as belas palavras de outro tempo? Prosa eloquente e fecunda, onde
param os longos períodos, as frases galantes, a arte com que fazias ver a gente
cavalos soberbos com ferraduras de prata e arreios de ouro? Onde os carros
de cristal, as almofadas de cetim? Dize-me cá, José Rodrigues.
A antiga Primeiro de Março.

– Meu senhor…
– Crês que uma letra de Sócrates esteja hoje no mesmo estado que este
papel?
– Seguramente.
– Assim que, uma promessa de dívida do nobre Sócrates não será hoje
mais que uma debênture escangalhada?
– A mesma coisa.
– Até onde podemos descer, Horácio! Uma letra de Sócrates pode vir a ter
os mais tristes empregos deste mundo; limpar os sapatos, por exemplo. Talvez
ainda valha menos que esta debênture.
– Saberá Vossa Senhoria que eu não dava nada por ela.
– Nada? Pobre Sócrates! Mas espera, calemo-nos, aí vem um enterro.
Era o enterro de Ofélia. Aqui o pesadelo foi-se tornando cada vez mais
aflitivo. Vi os padres, o rei e a rainha, o séquito, o caixão. Tudo se me fez
turvo e confuso. Vi a rainha deitar flores sobre a defunta. Quando o jovem
Laertes saltou dentro da cova, saltei também; ali dentro atracamonos,
esbofeteamo-nos. Eu suava, eu matava, eu sangrava, eu gritava…
– Acorde, patrão! Acorde!
ano terrível
É como Machado sempre se refere a este período. Na crônica de 11 de
fevereiro de 1894, lê-se “no tempo do dilúvio (1890-91)”.i

Rossi
Ernesto Rossi (1827-1896), ator italiano, considerado um dos grandes
intérpretes e diretores de Shakespeare. Esteve no Brasil em 1871, quando
Machado escreveu em 25.06.1871, para A semana ilustrada, uma crônica
sobre ele.

Primeiro de Março
Referência às cercanias da Bolsa de Valores.

Batatas
Tinham significado especial no léxico machadiano, a julgar pelo famoso
bordão “ao vencedor as batatas”, que era o resumo da louca e darwinista
filosofia de Quincas Borba, e o título de celebrada obra crítica de Roberto
Schwarz.

Banco União
Banco Único no original. Porém, na crônica da semana seguinte, Machado
corrige-se: “Saiu Banco União em vez de Banco Único.”ii A correção deve-
se provavelmente ao fato de que existiam vários bancos com este nome,
como o Banco União de São Paulo, ainda vivo neste momento, e
supostamente respeitável, enquanto que todas as denominações de empresas
falecidas e ridículas na crônica são fictícias.

Geral
Nova menção à Companhia Geral de Estradas de Ferro (ver Capítulo 15).

Alas, poor Yorick!


O bobo da corte, no Hamlet, de Shakespeare.

letra de Sócrates
No Capítulo 39, há uma passagem esclarecedora: “Não há só letras
bancárias, também as há literárias.” A “letra de Sócrates” aqui tem o sentido
de um papel escrito, cujo conteúdo era de enorme valor, e que ao pó
retornou, pois era apenas papel.
28. [nossa moeda municipal]
12 DE AGOSTO DE 1894, A SEMANA

Com a República, e o agravamento do problema do troco, começa a se


disseminar entre Estados e também Câmaras Municipais a prática de se emitir
apólices ao portador, em pequenas denominações, como se fossem pequenos
empréstimos, chamados às vezes de estampilhas, e usados para o pagamento
das contas do ente público. Muitas emissões privadas também proliferaram.
Tais papéis, tal como os modernos patacones argentinos – moedas provinciais
emitidas com o mesmo rito da emissão de títulos, porém em pequenas
denominações ao portador1 –, ganharam as mais diversas denominações:
borós, fichas, livranças, sampaios, calcários, guilhermes, ficas, recibos, vales,
haja-paus, grotadas. Em Pernambuco, os “sampaios” vinham do diretor da
Companhia de Ferro Carril, cuja assinatura estava nas passagens. Os “borós”
do Ceará correspondiam a “restos de folha de fumo ou refugo”, e os
“guilhermes” (apólices de 100 réis que circulavam em Fortaleza) assim se
chamaram por conta da assinatura do intendente Guilherme Cezar da Rocha.
Os “borrusqués” de Minas Gerais tinham esse nome por conta de um
comerciante estrangeiro que os emitia. Em muitas outras partes, diante do
problema de escassez do dinheiro miúdo, muitas comissões formadas por
representantes do comércio foram criadas para disciplinar a emissão de
“vales” por seus membros. As emissões municipais do Maranhão, assunto da
crônica que se segue, eram chamadas de “ficas” porque de seu texto constava
“que fica depositado no cofre do Município…”. Apenas em 1898, uma lei
proibiu expressamente a emissão dessas “moedas de emergência”.2

ANTEONTEM, DEZ DE AGOSTO, achando-se reunidas algumas pessoas, falou-


se casualmente da emissão de trezentos contos de títulos, autorizada pela
assembleia do Maranhão. Queriam uns que fosse papel-moeda, outros que não.
Dos primeiros alguns davam o ato por legítimo, outros negavam a
legitimidade, mas admitiam a conveniência. Travou-se debate. O mais
extremado opinou que o direito de emitir era inerente ao homem, qualquer
podia imprimir as suas notas, e tanto melhor se as recebessem. Citou, como
argumento, os bilhetes que circulam no interior, e concluiu sacando do bolso
uma cédula de duzentos réis, que apanhou em Maragogipe, impressa na mesma
casa de Nova York que imprime as nossas notas públicas.
Nesse terreno o debate foi não só brilhante mas fastidioso. As matérias
financeiras e econômicas são graves. Geralmente, os espíritos que não
conseguem ver claro nem dizer claro dão para a economia política e as
finanças, atribuindo assim à ciência de muitos varões ilustres a obscuridade
que está neles próprios. Conheci um homem, primor de alegria, que andou
carrancudo um ano inteiro, por haver descoberto que papel-moeda era uma
coisa e moeda-papel outra; não dizia mais nada, não dava bons-dias, mas
papel-moeda, nem boas-noites, mas moeda-papel. Era lúgubre; um cemitério,
ainda com chuva, ainda de noite, era um centro de hilaridade ao pé daquele
desgraçado. Melhorou no fim de um ano, mas já não era o mesmo. A alegria,
trazia-lhe não sei que ar torcido que mais parecia escárnio…
Do debate travado saiu, entretanto, uma ideia, a ideia de termos aqui a
nossa moeda municipal. Contra ela protestavam os que eram pela unidade da
emissão; os outros pegaram deles pelos ombros e os puseram na rua,
esquecendo que as assembleias não se inventaram para conciliar os homens,
mas para legalizar o desacordo deles. Ficamos nós. A ideia foi estudada e
desenvolvida. Chegamos a formular um projeto autorizando o prefeito a emitir
até dois mil contos de réis. Um, mais escrupuloso, queria que a emissão fosse
garantida pelas propriedades municipais; mas esta subideia não foi aceita.
Com efeito, a propriedade municipal é incerta e difícil de definir. As árvores
das ruas são próprios municipais? No caso afirmativo, como se explica que o
meu criado José Rodrigues as tenha comprado ao empreiteiro dos calçamentos
do bairro, para me poupar as despesas da lenha? A discussão tornou-se
bizantina, resolvemo-nos pela emissão pura e simples, sem garantia, além da
confiança do contribuinte e da lealdade do emissor. Concluído o projeto,
acrescentou-se que um de nós iria dá-lo de presente ao conselho municipal.
Mas aqui surgiu uma dúvida: Haverá conselho municipal? A legislação era
pela afirmativa. A imprensa diária, superficialmente lida, não o era menos.
Vários fenômenos, porém, faziam suspeitar que o conselho municipal não
existia. A linguagem atribuída ao seu presidente, na sessão de quarta-feira, era
um desses fenômenos. Disse ele (pelo que referem os jornais) que o conselho,
convocado desde o dia 3 do mês passado, raras vezes se reunira; assim, vendo
que os membros não compareciam, ia oficiar-lhes pessoalmente chamando-os
aos trabalhos. Há aí contradição nos termos, porquanto, se o conselho foi
convocado desde mais de um mês, e não se reunia, é que não tinha membros, e
se não tinha membros não era conselho. Um dos presentes defendeu,
entretanto, a probabilidade da existência.
– Há razões para crer que o conselho existe, disse ele. A primeira é que a
vinte e oito do mês passado houve sessão, proferiram-se alguns discursos,
resolvendo-se afinal que era preciso ler e meditar as matérias sujeitas a
deliberação. Deu-se até um incidente que explica até certo ponto a falta de
sessão nos outros dias. Um dos intendentes, referindo-se a um velho projeto,
disse: “Estando a comissão em dúvida sobre alguns pontos do projeto,
desejava que o seu autor aparecesse nesta casa, a fim de interrogá-lo; S. Exª,
porém, não tem aparecido…” Daqui se pode concluir que não há frequência,
que um intendente aparece, às vezes, que é recebido com demonstrações de
saudade: “Ora seja muito bem aparecido!” Mas não parece clara a conclusão
contra a existência do conselho. A segunda razão que me faz vacilar na
negativa da existência é que, intimados pessoalmente, no dia 7, o conselho fez
sessão logo a 9. Verdade é que já hoje, 10, não houve sessão. Enfim, tenho um
indício veemente de que o conselho existe, é a resignação do cargo por dois
de seus membros. Está nos jornais.
A maioria não aceitou este modo de ver. A publicação dos atos do
conselho não era prova da existência deste, podiam ser variedades literárias.
A literatura, como Proteu, troca de formas, e nisso está a condição da sua
vitalidade. Podia ser também um processo engenhoso de mostrar a
necessidade de termos um conselho municipal. Quem se não lembra da famosa
Batalha de Dorking, opúsculo publicado há anos, descrevendo uma batalha
que não houve, mas pode haver, se a Inglaterra não aumentar as forças navais?
Já se escreveu uma História do que não aconteceu. Demais, é necessidade da
imprensa agradar aos leitores, dando-lhes matéria interessante, e
principalmente nova. Ora, se o conselho municipal não existe, nada mais novo
que supô-lo trabalhando.
Essa opinião da maioria irritou os poucos que admitiam a probabilidade
da existência, dando em resultado afirmarem agora o que antes era para eles
simples presunção. Um da minoria ergueu-se e demonstrou a existência do
conselho pela consideração de que o município é a base da sociedade e
dizendo coisas latinas acerca do município romano. Naturalmente, a maioria
indignou-se. Um, para provar que o preopinante errava, chamou-lhe asno, ao
que retorquiu aquele que as suas orelhas eram felizmente curtas. Essa alusão
às orelhas compridas do outro fez voar um tinteiro e ia começar a dança das
bengalas, quando me ocorreu uma ideia excelente.
– Meus amigos, disse eu, peço-vos um minuto de atenção. Estamos aqui a
discutir a existência do conselho municipal, a propósito da emissão de títulos
maranhenses, que talvez não exista, tal qual o conselho. Mas, dado que a
emissão de títulos seja real, é certo que há de durar pouco, tanto mais que é
por antecipação de receita, enquanto que aqui está outra emissão do
Maranhão, muito mais duvidosa que essa. Este dia 10 de agosto é o
aniversário do nascimento de Gonçalves Dias. Há setenta e um anos que o
Maranhão no-lo deu, há trinta que o mar no-lo levou, e os seus versos de
grande poeta perduram, tão viçosos, tão coloridos, tão vibrantes como
nasceram. Viva a poesia, meus amigos! Viva a sacrossanta literatura! como
dizia Flaubert. Não sei se existem intendentes, mas os Timbiras existem.
vitalidade
Uma das grandes e frequentemente repetidas frases de Machado, utilizada a
propósito de seus pressupostos teóricos para o exercício da tradução.i
Proteu era um personagem da mitologia grega que tinha o dom da
premonição.

forças navais
Referência à obra A batalha de Dorking (1871), do inglês George Tomkyns
Chesney, exemplo do que foi chamado “literatura da invasão”, que surgiu,
não por acaso, na época, nas ilhas britânicas: eram temores surgidos
imediatamente depois de a Prússia derrotar a França de Napoleão III e
fundar o Segundo Reich alemão.

Timbiras
Poema indianista de Gonçalves Dias, escrito em 1857, que ficou incompleto
pois durante o naufrágio em que o poeta morreu perderam-se também os
textos.
29. [o primeiro mistério anda já tão safado … é o
câmbio]
16 DE DEZEMBRO DE 1894, A SEMANA

Depois da crise cambial, ou da grande desvalorização, de 1891, o país


viveu sob o regime de taxas de câmbio assumidamente flutuantes, experiência
de modo algum intencional ou desejada. Antes pelo contrário, era o
excepcional tornado regra, mais uma vez, e agora em um contexto de acentuada
instabilidade política e econômica. As influências financeiras sobre o câmbio,
a especulação, a arbitragem, elementos familiares aos mercados financeiros
modernos, aí se manifestavam em um esplendor, ou em uma magnitude, que
não se havia testemunhado naquele século. O funcionamento do mercado de
câmbio, nessas condições, parecia introduzir mais um dos novos e grandiosos
mistérios da modernidade republicana. O fato é que a moeda incorpora muita
carga simbólica, é como a bandeira e o hino. Ainda não pertence à época a
referência ao “mercado” e às interpretações que este produz do noticiário
cotidiano: o mercado reage às notícias sempre de modo surpreendente. Este
fenômeno, hoje bem conhecido, era considerado vicioso, e sua explicação era
associada ao que se entendia como uma distorção: a moeda fiduciária
inconversível. A instabilidade do câmbio, aí uma ou duas oitavas acima do
que se experimentou ao longo do Segundo Império, apenas acentuava a
sensação de desamparo própria das épocas de mudança, sempre sensível a
influências espúrias, boatos, manipulações e teorias conspiratórias.

UM TELEGRAMA de S. Petersburgo anunciou anteontem que a bailarina


Labushka cometeu suicídio. Não traz a causa; mas, dizendo que ela era amante
do finado imperador, fica entendido que se matou de saudade.
Que eu não tenha, ó alma eslava, ó Cleópatra sem Egito, que eu não tenha a
lira de Byron para cantar aqui na tua melancólica aventura! Possuías o amor
de um potentado. O telegrama diz que eras amante “declarada”, isto é, aceita
como as demais instituições do país. Sem protocolo, nem outras etiquetas, pela
única lei de Eros, dançavas com ele a redowa da mocidade. Naturalmente eras
a professora, por isso que eras bailarina de ofício; ele, discípulo, timbrava em
não perder o compasso, e a Santa Rússia, que dizem ser imensa, era para vós
ambos infinita.
Um dia, a morte, que também gosta de dançar, pegou no teu imperador e
transferiu-o a outra Rússia ainda mais infinita. A tristeza universal foi grande,
porque era um homem bom e justo. Daqui mesmo, desta remota capital
americana, vimos os grandiosos funerais e ouvimos as lamentações públicas.
Não nos chegaram as tuas, porque há sempre um recanto surdo para as dores
irregulares. Agora, porém, que tudo acabou, eis aí reboa o som de um tiro, que
faltava para completar os funerais do autocrata. Rival da morte, quiseste ir
dançar com ele a redowa da eternidade.
Há aqui um mistério. Não é vulgar em bailarinas essa fidelidade
verdadeiramente eterna. Muitas vezes choram; estanques as lágrimas,
recolhem as recordações do morto, outras tantas lágrimas cristalizadas em
diamantes, contam os títulos de dívida pública, estão certos; as sedas são
ainda novas, todos os tapetes vieram da Pérsia ou da Turquia. Se há um
palacete, dado em dia de anos, as paredes, que viram o homem, passam a ver
tão somente a sombra do homem, fixada nos ricos móveis do salão e do resto.
Se não há palacete, há leiloeiros para vender a mobília. Como levá-la à velha
hospedaria de outras terras, Belgrado ou Veneza, aonde a meia viúva se abriga
para descansar do morto, e de onde sai, às vezes, pelo braço de um marido,
barão autêntico e mais autêntico mendigo?
Eis o que se dá no mundo da pirueta. O teu suicídio, porém, última
homenagem, e (perdoem-me a exageração) a mais eloquente das milhares que
recebeu a memória do imperador, o teu suicídio é um mistério. Grande
mistério, que só o mundo eslavo é capaz de dar. Foi telegrama o que li? Foi
alguma página de Dostoievski? A conclusão última é que amavas. Sacrificaste
uma aposentadoria grossa, a fama, a curiosidade pública, as memórias que
podias escrever ou mandar escrever, e, antes delas, as entrevistas para os
jornais, os interrogatórios que te fariam sobre os hábitos do imperador e os
teus próprios hábitos, e quantos copos de chá bebias diariamente, as cores
mais do teu gosto, as roupas mais do teu uso, quem foram teus pais, se tiveste
algum tio, se esse tio era alto, se era coronel, se era reformado, quando se
reformou, quem foi o ministro que assinou a reforma, etc., um rosário de
notícias interessantes para o público de ambos os mundos. Tudo sacrificaste
por um mistério.
Mistérios nunca nos aborrecem; a prova é que folgamos agora diante de
dois mistérios enormes, dois verdadeiros abismos (insondáveis). Sempre
gostamos do inextricável. Este país não detesta as questões simples, nem as
soluções transparentes, mas não se pode dizer que as adore. A razão não está
só na sedução própria do obscuro e do complexo, está ainda em que o obscuro
e o complexo abrem a porta à controvérsia. Ora, a controvérsia, se não nasceu
conosco, foi pelo fato inteiramente fortuito, de haver nascido antes; se se não
tem apressado em vir a este mundo, era nossa irmã gêmea; se temos de a
deixar neste mundo, é porque ainda cá ficarão homens. Mas vamos aos nossos
dois mistérios.
O primeiro deles anda já tão safado, que até me custa escrever o nome: é o
câmbio. Está outra vez no “tapete da discussão”. O segundo é recente, é
novíssimo, começa a entrar no debate: é o bacilo vírgula. Os mistérios da
religião não nos acendem uns contra os outros; para crer neles basta a fé, e a fé
não discute. Os do Encilhamento aturdiram por alguns dias ou semanas; mas
desde que se descobriu que o dinheiro caía do céu, o mistério perdeu a razão
de ser. Quem, naquele tempo, pôs uma cesta, uma gamela, uma barrica, uma
vasilha qualquer, ao luar ou às estrelas, e achou-se de manhã com cinco, dez,
vinte mil contos, entendeu logo que só por falsificação é que fazemos dinheiro
cá embaixo. Outro puro e copioso é o que cai do eterno azul.
Eu, quando era pequenininho, achei ainda uma usança da noite de S. João.
Era expor um copo cheio d’água ao sereno, e despejar dentro um ovo de
galinha. De manhã ia-se ver a forma do ovo; se era navio, a pessoa tinha de
embarcar; se era uma casa, viria a ser proprietária, etc. Consultei uma vez o
bom do santo; vi, claramente visto – vi um navio; tinha de embarcar. Ainda
não embarquei, mas enquanto houver navios no mar, não perco a esperança.
Por ocasião do Encilhamento, a maior parte das pessoas, não podendo sacudir
fora as crenças da meninice, não punham gamelas vazias ao sereno, mas um
copo com água e ovo. De manhã, viam navios, e ainda agora não veem outra
coisa. Por que não puseram gamelas? Vivam as gamelas! Ou, se é lícito citar
versos, digamos com o cantor dos Timbiras:
… Paz aos Gamelas!
Renome e glória…

Há quem queira filiar o câmbio atual aos costumes do Encilhamento. A


pessoa que me disse isto, provavelmente soube explicar-se; eu é que não
soube entendê-la. É uma complicação de dinheiro que se ganha ou se perde,
sem saber como, anonimamente, com designação geral de baixistas e altistas.
Um embrulho. Mas há de ser ilusão, por força. Quem se lembra daqueles belos
dias do Encilhamento, sente que eles acabaram, como os belos dias de
Aranjuez. Onde está agora o delírio? Onde estão as imaginações? As estradas
na lua, o anel de Saturno, a pele dos ursos polares, onde vão todos esses
sonhos deslumbrantes, que nos fizeram viver, pois que a vida es sueño,
segundo o poeta?
Tais sonhos ainda são possíveis com o mistério do bacilo vírgula. Toda
esta semana andou agitado esse bicho da terra tão pequeno, para citar outro
poeta, o terceiro ou quarto que me vem ao bico da pena. Há dias assim; mas
eu suponho que hoje esta afluência de lembranças poéticas é porque a poesia é
também um mistério, e todos os mistérios são mais ou menos parentes uns dos
outros. Suponho, não afirmo; depois do que tenho lido sobre o famoso bacilo,
não afirmo nada; também não nego. Autoridades respeitáveis dizem que o
bacilo mata, pelo modo asiático; outras também respeitáveis juram que o
bacilo não mata.
Hippocrate dit oui, et Gallien dit not.
Machado de Assis já mais velho, em foto de Marc Ferrez.
redowa
Um tipo de valsa.

autêntico mendigo
Evocações machadianas à literatura russa, especificamente a situações dos
romances Ana Karenina, de Tolstoi, e Dama das espadas, de Pushkin.

Timbiras
Alusão a Gonçalves Dias.

Aranjuez
Trecho da cena inicial da peça Dom Carlos (1787), de Friedrich Schiller
(1759-1805), poeta, dramaturgo, filósofo e historiador alemão. Imagem
usada seguidamente por Machado para assinalar o final da euforia do
Encilhamento.

poeta
Provável referência à peça do poeta e dramaturgo espanhol Pedro Calderón
de la Barca (1600-1681).

bacilo vírgula
Durante o ano de 1893, o Instituto Bacteriológico do estado de São Paulo,
criado em 1892, detectou na capital um surto de cólera-morbo,
identificando, por meio de cultura, o “bacilo vírgula”, causador da doença.

outro poeta
De Camões, Os Lusíadas, canto II.

not
Na tradução literal do francês: “Hipócrates diz sim, e Galileu diz não.”
Trecho de Les folies amoureuses, de J.F. Regnard (1655-1707), poeta e
dramaturgo francês (ver Capítulo 19).
30. [a sensibilidade nervosa do câmbio]
10 DE FEVEREIRO DE 1895, A SEMANA

O boato, os bancos e a especulação ofereciam as explicações mais fáceis


para movimentos que pareciam estranhos, mas eram a nova realidade dos
mercados financeiros. A moderna literatura acadêmica trata a influência de
“notícias” sobre a determinação das taxas de câmbio de forma bem mais fria,
concluindo, em geral, que as “notícias” podem aumentar a volatilidade, mas
não a direção das coisas, que é dada por “fatores fundamentais”, nada muito
diferente do que dizia um especialista da época, J.P. Wileman,1 sobre a
experiência brasileira. No terreno dos “fundamentos”, deveras, o ano de 1895
começava com a percepção de que havia um “passivo a liquidar”.2 Os
excessos eram os do Encilhamento, isto é certo, mas também e principalmente,
eram de dívidas, obrigações e garantias oferecidas pelo Estado em valor
fartamente excedente à sua capacidade financeira, como era próprio de
situações de precariedade política: o Império buscando sobreviver, a jovem
República tentando se afirmar, as revoltas de norte a sul, e tudo isso sob uma
conjuntura externa ingrata e no contexto de uma crise bancária latente. A lenta
agonia do câmbio ao sabor das notícias e boatos perturba o cronista, como no
capítulo anterior, talvez tanto quanto as “soluções” oferecidas para todos esses
problemas. A encampação (ou estatização) das emissões dos bancos dependia
dos rumos que se quisesse dar ao BRB, em sérias dificuldades, e fadado a
arrastar com ele todo o sistema. O deficit público crescia, bem como a dívida
pública; o custo das “garantias de juros em ouro”, oferecidas a inúmeras
ferrovias e outros empreendimentos, se tornava particularmente proibitivo em
razão da desvalorização cambial. O reescalonamento das obrigações do
Estado, combinado com alguma solução para a questão bancária, parecia
inevitável. Como alternativa, volta e meia emergiam ideias como a venda ou o
arrendamento de ativos do Estado, sendo a estrada de ferro Central do Brasil
o que hoje chamaríamos, no contexto de programas de privatização, de “a joia
da coroa”. Os Rothschilds foram muito insistentes, ao longo de muitas
tratativas sobre o equacionamento das dívidas brasileiras, na necessidade ou
conveniência de se arrendar a Central. Esta perspectiva, curiosamente, parecia
sobressaltar mais o cronista que a possibilidade, já nítida de alguma forma, de
moratória sobre as apólices da dívida pública.3 Por hora, todavia, a hesitação
dominava os artífices da política econômica, não havendo consenso sobre o
que fazer; tampouco havia sucesso nas negociações com os bancos emissores,
ou com possíveis arrendatários para a Central.

AS PESSOAS QUE foram crianças, não esqueceram decerto a velha questão


que se lhes propunha, sobre qual nasceu primeiro, se o ovo, se a galinha. Eu,
cuja astúcia era então igual, pelo menos, à de Ulisses, achava uma solução ao
problema, dizendo que quem primeiro nasceu foi o galo. Replicavam-me que
não era isto, que a questão era outra, e repetiam os termos dela, muito
explicados. Debalde citava eu o caso de Adão, nascido antes de Eva e de
Caim; fechavam a cara e tornavam ao ovo e à galinha.
Esta semana lembrei-me do velho problema insolúvel. Com os olhos – não
nos camarotes da quarta ordem, ao fundo, e o pé na casinha do ponto, como o
Rossi, mas pensativamente postos no chão, repeti o monólogo de Hamlet,
perguntando a mim mesmo o que é que nasceu primeiro, se a baixa do câmbio,
se o boato. Se ainda tivesse a antiga astúcia, diria que primeiro nasceram os
bancos. Onde vai, porém, a minha astúcia? Perdi-a com a infância. A
inocência em mim foi uma evolução, apareceu com a puberdade, cresceu com
a juventude, vai subindo com estes anos maduros, a tal ponto que espero
acabar com a alma virgem das crianças que mamam.
Não citei os bancos e continuei a recitar o monólogo. O enigma não queria
sair do caminho. Quem nasceu primeiro? Não podia ser a baixa do câmbio.
Esta semana, quando ele entrou a baixar, disseram-me que era por efeito de um
boato sinistro; logo, quem primeiro nasceu foi o boato. Mas também me
referiram que depois da baixa é que o boato nasceu; logo, a baixa é anterior.
Os primeiros raciocinam alegando a sensibilidade nervosa do câmbio, que
mal ouve alguma palavra menos segura, fica logo a tremer, enfraquecem-lhe as
pernas, e ele cai. Ao contrário, redargúem os outros, é quando ele cai que o
boato aparece, como se a queda fosse, mal comparando, a própria dor do
parto. O diabo que os entenda, disse comigo; mas o problema continuava
insolúvel, com os seus grandes olhos fulvos espetados em mim.
Nisto ouço uma terceira opinião, aqui mesmo, na Gazeta, uma pessoa que
não conheço, e que em artigo de quinta-feira opinou de modo parecido com a
minha solução do galo. Quem primeiro nasceu foi o papel-moeda; esse peso
morto é a causa da baixa, e uma vez que se elimine a causa, eliminado fica o
efeito. O remédio é reduzir o papel-moeda, mandando vir ouro de fora, e,
como não seja possível mandá-lo vir a título de empréstimo, “é chegada a
oportunidade de vender a estrada de ferro Central do Brasil”.
A queda que este final do período me fez dar, foi maior que a do câmbio;
fiquei a 8 15/16. Se o período concluísse pela venda das Pirâmides, da ponte
de Londres ou da Transfiguração, não me assombraria mais. Esperava
câmbio, papel-moeda, ouro, depois mais ouro, mais papel-moeda e mais
câmbio, mas estava tão pouco preparado para a Central do Brasil, que nem
tinha arrumado as malas. Entretanto, o artigo não ficou aí; depois da venda da
Central, lembra o resgate da estrada de Santos a Jundiaí, em 1897, venda
subsequente, e mais ouro. Em seguida, começam os milhões de libras
esterlinas e os milhares de contos de réis, crescendo e multiplicando-se, com
tal fecundidade e cintilação, que me trouxeram à memória os grandes
discursos de Thiers, quando ele despejava na câmara dos deputados, do alto
da tribuna, todos os milhões e bilhões do orçamento francês e da aritmética
humana. O câmbio, pelo artigo, não tem outro remédio senão subir a 20 e a 24;
não logo, logo, mas devagar, para o fim de não produzir crises. Acaba-se a
baixa, e resolve-se o problema.
O conhecimento que tenho de que a economia política não é a particular,
impede-me dizer que também eu recebo, não milhões, mas milhares de réis, e,
se não há deselegância em comparar o braço humano ao trilho de uma estrada
de ferro, e a cabeça a uma locomotiva, dão-me esse dinheiro pela minha
Central; mas tão depressa me dão, como me levam tudo, visto que o homem
não vive só da palavra de Deus, mas também de pão, e o pão está caro. A
economia política, porém, é uma outra coisa; ouro entrado, ouro guardado. Por
saber disto é que não me cito; além de que, não é bonito que um autor se cite a
si mesmo.
Há só uma sombra no quadro cintilante do câmbio alto pelo ouro entrado.
É que o Congresso Nacional resolveu, por disposição de 1892, examinar um
dia se há de ou não alienar as estradas federais, todas ou algumas, ou se as há
de arrendar somente, ou continuar a trafegá-las; e, porque não se possa fazer
isso sem estudo, ordenou primeiro um inquérito, que o governo está fazendo,
segundo li nas folhas públicas, há algumas semanas. A disposição legal de que
trato, arreda um pouco a data dos deslumbramentos cambiais, e pode ser até
que quando a União tiver resolvido transferir ao particular alguma estrada, já
o câmbio esteja tão alto, que mal se lhe possa chegar, trepado numa cadeira.
Não digo trepado num banco, para não parecer que faço trocadilho – cette
fiente de l’esprit, qui vole –, como se dizia em não sei que comédia do
Alcazar.
Aos demais, o Congresso não tinha em vista o câmbio, e menos ainda o
desta semana. E, francamente – sem tornar ao problema da anterioridade do
câmbio ou do boato –, quem é que pode com o primeiro destes dois amigos?
Contaram-me que na quinta-feira, tendo a alfândega suspendido o serviço e
fechado as portas, em regozijo da solução das Missões, lembrou-se um
inventivo de dizer que a causa da suspensão e do fechamento era a revolução
que ia sair à rua. O câmbio esfriou, como se estivesse na Noruega, e caiu.
E em que dia, Deus de paz e de conciliação! No próprio dia em que uma
sentença final e sem apelação punha termo à nossa velha querela diplomática.
Quando nos alegrávamos com a vitória, e repetíamos o nome do homem
eminente, Rio Branco, filho de Rio Branco, a cuja sabedoria, capacidade e
patriotismo confiáramos a nossa causa, é que o câmbio desmaia ao primeiro
dito absurdo. Não, não creio na anedota; a prova é que a alfândega já reabriu
as portas, e o câmbio continua baixo. Por S. Crispim e S. Crispiniano, metam-
lhe uns tacões debaixo dos pés!
Rossi
Famoso ator e diretor shakespeareano.

fulvos
Aqui empregado no sentido de cor amarela tostada.

8 15/16
A taxa de câmbio em fevereiro de 1895 flutuou entre 9 17/32 e 10 5/32. Ao
dizer que “ficou a 8 15/16”, o cronista quer dizer que sofreu queda
acentuada, além de mostrar merecido sarcasmo para o formato “fracionário”
pelo qual eram cotados os pence de libra esterlina por mil-réis.

Transfiguração
Célebre tela de Rafael (1518-20) baseada na transfiguração de Jesus Cristo,
hoje como na época, na Pinacoteca Apostólica do Vaticano.

estrada
Ferrovia concebida e iniciada pelo barão de Mauá, e inaugurada em 1865
com a denominação original de São Paulo Railway – SPR. Diferente do que
diz Machado, seu controle foi transferido para os ingleses em 1867.
Assumiu o nome de E.F. Santos a Jundiaí após sua encampação pelo Estado,
em 1946.

Thiers
Louis Adolphe Thiers (1797-1877), estadista e historiador francês. Foi
primeiro-ministro sob o reinado de Luís Felipe e presidente da França
durante a Terceira República.

qui vole
Na tradução literal do francês: “Estas fezes (de pássaros) do espírito, que
voa.”

Alcazar
Casa noturna inaugurada em 1866, na antiga rua da Vala, atual Uruguaiana,
tida como a precursora da vida noturna do Rio de Janeiro, inovando as
peças teatrais, ao transformá-las em operetas e ações curtas, todas de
caráter satírico de inspiração francesa.

Missões
Referência ao litígio contra a Argentina em torno de boa parte do território
dos estados de Santa Catarina e Paraná, que tinha sido resolvido a favor do
Brasil através de arbitragem do presidente norte-americano Stephen Grover
Cleveland. Era uma das vitórias de José Maria da Silva Paranhos Júnior
(1845-1912), o barão do Rio Branco.

pés
Na Igreja católica, os irmãos Crispim e Crispiniano, cristãos fugidos de
Roma, torturados e degolados na Gália, são os padroeiros dos sapateiros.
31. [uma vertigem de capitais, de emissões, de valores ]
03 DE NOVEMBRO DE 1895, A SEMANA

Parecer da Comissão de Orçamento, em fins de 1895, trazia um


impressionante algarismo para a dívida pública, 1,8 milhão de contos, mais
que o dobro do valor para 1890. Boa parte da dívida pública era definida em
ouro, ou, para usar a linguagem de nossos dias, era dívida denominada em
moeda estrangeira, ou sujeita a “correção cambial”, isto é, com valores em
mil-réis dados conforme a variação cambial. Esses credores do governo
estavam, portanto, protegidos das desvalorizações cambiais, e caso vivessem
de rendas oriundas desses títulos, as veriam crescer em proporção com a
baixa do câmbio. Os deficits nas contas públicas começam a ficar realmente
problemáticos depois de 1891: de 1888 (um exercício com três semestres,
para fazer coincidir o exercício fiscal com o ano civil) a 1891, o deficit
acumulado é de 11 mil contos, enquanto que de 1892 a 1896 é de 260 mil
contos,1 sendo que as despesas que se conhecia como “diferenças de câmbio”,
em 1892-96, somaram 175 mil contos.2 Eram despesas como as do serviço da
dívida, denominadas ou indexadas ao valor do ouro, mas pagas em moeda
nacional, e, portanto, diretamente afetadas pela variação cambial. O
orçamento estimava a despesa com base em alguma hipótese, geralmente
conservadora, sobre a taxa de câmbio. Quando esta se desvalorizava mais que
o valor tomado como parâmetro, a diferença era lançada em uma conta
específica, que permitia que se observasse diretamente os efeitos da baixa do
câmbio sobre o fluxo de despesas do governo. O efeito do câmbio
desvalorizado sobre o estoque da dívida era bem maior, posto que não se
restringia às despesas devidas no exercício fiscal corrente, mas sobre todo o
estoque. Mesmo impressionado com o algarismo da dívida, é de se registrar
que, em seu testamento, Machado declarava possuir apólices do empréstimo
nacional de 1895, operação feita em 17 de julho daquele ano, no valor de £
7,4 milhões, ao preço (“tipo”) de 85% para o público e de 80,6% para os
banqueiros (estes, estavam amortizando operação de curto prazo de £ 2,0
milhões feita em janeiro de 1895), prazo de 30 anos, juros de 5% e diversas
“lambujens”: 2% para os banqueiros, 0,5% para o “selo inglês”, 0,25% de
corretagem e 0,175% para despesas eventuais.3 Ao fim, para se obter £ 6,0
milhões o Tesouro endividara-se em £ 7,4 milhões. Para o investidor, tendo
em vista o desconto, a taxa interna de retorno era bastante atraente. Isto e mais
a conveniência da proteção contra o câmbio talvez tenham levado o cronista
investidor a desconsiderar o custo que isto representaria para o Estado, e
consequentemente o risco de moratória. As apólices de 1895 seriam
apanhadas pela moratória de 1898, e pela de 1914 e a de 1931, como veremos
adiante.

NÃO SEI POR ONDE comece, nem por onde acabe. Ante mim tudo é confuso,
os fatos giram, cavalgam outros fatos, sobem ao ar e descem à terra, como
estão fazendo as pedras e lavas do vulcão Llaima. Alguns deles começam,
mas não acabam mais, como o parecer da comissão do orçamento, apresentado
ao senado esta semana. Só os algarismos desse documento…
Tenho visto muito algarismo na minha vida, variando de significação,
segundo o tamanho e a matéria. Vivi por aqueles tempos diluvianos, em que a
gente almoçava milhares de contos de réis, jantava dezenas de milhares, e
ainda lhe ficava estômago para uns duzentos ou trezentos contos. Os que
morreram logo depois, terão gozado muito pouco este mundo. Para falar
francamente, arrependo-me hoje de não ter inventado qualquer coisa, um
paladar mecânico, horas baratas, fósforos eternos, calçamento uniforme para
as ruas, cavalos e cidadãos, uma de tantas ideias que acharam dinheiro vadio,
e quando um homem não o tinha em si, ia buscá-lo à algibeira dos outros, que
é a mesma coisa. A minha esperança é que tais dias não morreram
inteiramente, mas a minha tristeza é que, quando eles convalescerem e vierem
alumiar outra vez este mundo, provavelmente estarei fora dele. Se alguma
coisa merecem os meus pecados, peço a Deus a vida precisa para nesses dias
futuros incorporar uma companhia, receber 20% das entradas, levantar um
empréstimo para fazer a obra, não fazer a obra, fazer as malas e fazer a viagem
do céu com escala pela Europa.
Pois, senhores, nem por ter visto tantos e tamanhos algarismos pude ler
friamente os do parecer da comissão. Já o Sr. senador Morais e Barros havia
chamado a nossa atenção para a simples conta total da dívida, que, se não
anda na memória de todos os brasileiros, não é por falta de algarismos; será
antes por falta de memória. Mas a memória, apesar dos pesares, não vale a
imaginação, e há um meio seguro de não doerem as dívidas, é imaginar que
são poucas, e essas poucas fecundíssimas, não as pagando a gente, porque não
quer, e ainda por se não prejudicar. Que é pagar uma dívida? É suprimir, sem
necessidade urgente, a prova do crédito que um homem merece. Aumentá-la é
fazer crescer a prova.
A comissão – ou o relator, se é certo que o parecer é apenas um projeto,
segundo li, mas já me disseram que afinal fica sendo o parecer de todos –, a
comissão diz muita coisa sobre dívidas, despesas, juros, depósitos, emissões,
amortizações, e outros atos e fenômenos, mas tudo tão compacto, que não me
atrevo a entrar por eles. Os algarismos mal dão passagem aos olhos; é um
mato cerrado, alguns com espinhos agudíssimos, outros tão folhudos que
cegam inteiramente. Com dez sinais árabes, é incrível o que se pode variar na
despesa e na correspondente escrituração. O parecer tem a vantagem de já
trazer tudo somado, de maneira que não há necessidade de andar procurando a
quanto sobem quatro parcelas de quinhentos; ele mesmo conclui que são dois
mil. Se a conta não é redonda, o serviço torna-se inestimável. Vai um homem
somar as seis grandes porções da dívida, há de acabar cansado, aborrecido e
incerto; mas o parecer, somando tudo, dá este total, que é o mesmo
recomendado pelo Sr. senador Morais e Barros à memória dos seus
concidadãos: 1.888.475:667$000.
Melhor é desviar os olhos, descansar a cabeça e ir a outra parte. Não digo
que nos falte confiança; é necessário tê-la, e basta aplicar a nós o lema
italiano: Brasilia farà da sè. Confiança e circunspeção. Mas o pior é que tudo
o que ora me cerca, são algarismos, e os mais deles grandes. Vede este quadro
de títulos e ações, organizado pelo Jornal do Commercio e publicado hoje,
dia de finados: é uma vertigem de capitais, de emissões de valores nominais e
efetivos. Pegue deste banco: 10.000:000$000 de capital. Cada ação?
200$000. Entrada? 150$000. Última venda? 600 rs.; ou, por extenso, para
evitar erros, seiscentos réis, menos de duas patacas, quando havia árvore das
patacas. A partida é sempre numerosa, como sucede às tropas que marcham
para a guerra; são dez mil, vinte, trinta, cem mil. A volta é diminuída; faz
lembrar o final de uma das óperas do judeu:

Tão alegres que fomos,


Tão tristes que viemos.

Sim, é melhor ir a outra parte, repito; mas aonde? Parece que o teatro é um
bom lugar de distração; a verdade, porém, é que aí mesmo esperam-me
algarismos tremendos. Não me refiro ao orçamento do teatro municipal, que o
prefeito acaba de sancionar. Não é quantia de escurecer a vista; mas responda
o público às boas intenções. Não me refiro ao orçamento; refiro-me ao número
de papéis dos atores.
Quando eu ia ao teatro, os atores não representavam mais de um papel em
cada peça; às vezes, menos. Caso havia em que os papéis eram dados por
metade, um terço, um quinto. Nunca me esqueceu uma atriz (cujo nome perdi
na memória) que chegou ao mínimo de uma só frase. Resmungava
enfastiadamente as outras; aquela era o cavalo da batalha da noite. Apertada
pelo pai, tinha que negar não sei que carta ou que quer que era, denúncia de
namoro. Deixava o pai de lado, vinha à frente, fitava a plateia, esticava o
braço, levantava o dedo, e bradava, sublinhando: “Eu, papai, nunca tive um
namorado só na minha vida!” Compreende-se a intenção da moça, contrária à
do autor, mas muito mais acertada, porque a plateia ria a bandeiras
despregadas. O contrário da Dalila. Ria o público, os bancos riam, as
arandelas riam, só eu não ria, por haver já desaprendido de rir.
Aqui temos agora uma peça em que a atriz Palmira, que nunca vi nem ouvi,
representa não menos de vinte e quatro papéis. Entre a simples frase da outra e
estes vinte e quatro papéis, há um abismo e um mundo. É o menos que posso
dizer: mil abismos, mil mundos não são demais. Fregoli revelou-nos o modo
de ver uma infinidade de pessoas, em cinco minutos, pessoas e vozes, que as
tinha todas. Palmira, sem as vozes, dará os papéis, mas não ficaremos aqui.
Outros artistas virão, com o duplo e o triplo dos papéis, e o quíntuplo dos
aplausos. Não se conclua que execramos as individualidades únicas, nem que
amamos os que são propriamente multicores. É ser temerário; concluamos
antes, que a variedade deleita.
Llaima
Vulcão próximo à cidade de Temuco, no Chile, historicamente de constantes
erupções, hoje mais esparsas (a última foi em 1994).

Morais e Barros
Manuel de Morais e Barros, senador da República, irmão mais velho de
Prudente José de Morais e Barros, à época presidente da República.

Brasilia farà da sè
Na tradução literal do italiano: “O Brasil fará por si.”

Tão triste que viemos


Está entre as citações contumazes de Machado relacionadas por Magalhães
Júnior.i Trecho de Vida do grande Dom Quixote de La Mancha e do gordo
Sancho Pança de Antônio José da Silva (1705-39), dramaturgo e escritor
brasileiro, de religião judaica, que viveu em Portugal e lá sofreu
perseguição.

Palmira
Palmira Martins de Sousa Bastos (1875-1967), considerada um dos maiores
nomes do teatro português, com apresentações de muito sucesso no Brasil
em 1893.

Fregoli
Leopold Fregoli (1867-1936), ilusionista italiano, de grande sucesso com
suas imitações e paródias na Itália e por todo o mundo.
32. [impostos sobre produtos farmacêuticos]
22 DE DEZEMBRO DE 1895, A SEMANA

O principal assunto da crônica é bem conhecido do economista: o


protecionismo que procura gerar a chamada “substituição de importações”,
processo que Albert Fishlow1 demonstrou ter se iniciado neste período,
especialmente na indústria têxtil. Para o cidadão comum e consumidor, o
mesmo assunto, visto do seu ponto de vista, também não tem nada de novo:
elevação de tarifa de importação força pessoas necessitadas de determinado
produto a pagar mais caro, geralmente muito mais caro, ou a consumir produto
nacional de baixa qualidade. Tratando-se de remédios em particular, o pobre
consumidor indefeso não tem para onde correr: há pouca substituição de
importação neste segmento, pois as fórmulas pertencem a seus inventores, que
delas derivam rendas que cabem a quem inova. Nada disso tem a ver com a
criação do novo partido político, o Partido Monarquista, que passa à história
por originar o dito impagável: “Basta ser partido para não ser inteiro.”

Cédula de 500 mil-réis do Banco da República

dos Estados Unidos do Brasil (Breub).


A SEMANA QUE ORA acaba, for condenada perante a eternidade, não será por
SEfalta de acontecimentos. Teve-se máximos, médio e mínimos. Toda ela foi
de orçamentos e impostos novos. Criou-se um segundo partido político. A
mensagem de Cleveland estourou como uma bomba, entre o mundo novo e o
velho. Chegou a proposta de arbitramento para o negócio da ilha da Trindade.
Juntai a isto os discursos, os boatos, as denúncias de contrabando, as
divergências de opiniões, e confessai que poucas semanas levarão a alcofa tão
cheia.
A questão dos impostos, força é dizê-lo, sendo a mais imediata, é a que
menos tem agitado os espíritos. Em verdade, as outras são maiores, e
entendem com interesses mais altos. Impostos revogam-se ou cerceiam-se um
dia. A Trindade tem de ser resolvida eficaz e perpetuamente. A doutrina de
Monroe pode alterar a situação política do mundo, e trazer guerra, a não ser
que traga paz. O futuro descansa nos joelhos dos deuses. Creio que isto é de
Homero.
Dos impostos, o único discutido nas folhas públicas é o que recai sobre
produtos farmacêuticos. As drogas importadas vão pagar mais do duplo, a ver
se as da terra se desenvolvem. Um boticário já me avisou que hei de pagar
certo remédio por mais do dobro do que ora me custa, e não é pouco. Deste
cidadão sei que há cerca de dois anos tentou fazê-lo no próprio laboratório,
mas saiu-lhe uma droga muito ordinária, como me confessou e eu acreditei. A
não ser que alguém falsifique o preparado e o dê por pouco menos, não me
resta mais que dispensá-lo e beber outra coisa.
Eu, quando quero dizer algum disparate que não magoe o próximo,
costumo anunciar que a farmácia há de ser a última religião deste mundo. E
dou por fundamento que o homem estima mais que nenhuma outra coisa a
saúde e a vida, e não precisa que a farmácia lhe dê uma e outra, basta que ele
o suponha. Não nego que o homem tenha necessidades morais; concedo o
vigário, mas não me tirem o boticário. E assim vou rindo por aí adiante, sem
grande dispêndio de ideias. Uma ideia só, renovada pela ocasião, pela
disposição, pelos ouvintes, dá muito de si. Há tal, que o próprio autor supõe
inteiramente nova.
Pois, senhores, estou com vontade de me declarar, não cismático, que é
escolher entre a droga importada e cara e a fabricada aqui mesmo e pouco
menos cara, mas ateu, totalmente ateu. Se a saúde vai subir tanto de preço,
melhor é ficar com a doença barata. Padecese, mas sempre haverá com que
matar uma galinha para a dieta. E – quem sabe? pode ser que a saúde tenha
mudado de domicílio, nos saia de qualquer outro armazém ou dos ares da
Tijuca. Caso haverá em que ela resida em nós mesmos, salvo a parte enferma,
e vai senão quando, amanheçamos curados.
Quando o cólera-morbo aqui apareceu, não sei se da primeira, se da
segunda vez, morreu muita gente. Era eu criança, e nunca me esqueceu um
farmacêutico de grandes barbas, que inventou um remédio líquido e escuro
contra a epidemia. Se curativo ou preservativo, não me lembro. O que me
lembra, é que a farmácia e a rua estavam cheias de pessoas armadas de
garrafas vazias, que saíam cheias e pagas. O preço era do tempo em que os
medicamentos também se vendiam por moedas fracionárias; havia remédios de
200 réis, de 600 réis, etc. A contabilidade atual exige uma gradação certa:
mil-réis, mil e quinhentos, dois mil-réis, dois mil e quinhentos, três, quatro,
cinco, seis, oito, dez, quinze, vinte, etc. O das grandes barbas ajuntou um bom
pecúlio; mas por que levou o segredo para a sepultura? Por que não imprimiu
e distribuiu a fórmula? Agora, se tal moléstia cá voltar, teremos de inventar
outra coisa, que terá a novidade por si, é verdade, mas a velhice também
recomenda.
Vede Ayer. Há quantos anos este homem, com um simples peitoral e umas
pílulas, tem restituído a saúde ao mundo inteiro! Conheci-lhe o retrato moço;
agora é um velho. Mas os anos não têm feito mais que desenvolver os efeitos
da invenção. Ayer chega a servir naquilo mesmo que não cura: a angina
diftérica. “Quando se descobrem os primeiros sintomas da doença (diz o
Manual de Saúde, de 1869), e enquanto o médico não chega, a garganta deve
ser gargarejada ou pintada com sumo puro de lima ou limão. Produz também
efeito o pó de enxofre assoprado na garganta. Pode também dar-se com
vantagem uma dose alta de peitoral de cereja, do Dr. Ayer. Depois da angina
diftérica, tome-se a salsaparrilha do Dr. Ayer, para remover da circulação o
vírus da doença e reconstruir o sistema.” Um chapeleiro do Texas confirma
isto, escrevendo que, depois de curado da angina, ficou com a garganta em
mau estado, constipava-se a miúdo, e receava que a doença tornasse;
experimentou o peitoral de Ayer, ficou bom e perdeu o medo. Whartenberg
chama-se este chapeleiro. Quem sabe se o chapéu que trago, não saiu das mãos
dele, aos pedaços, para ser depois composto e vendido aqui?
Suponhamos que o imposto alto recaia no peitoral e nas pílulas do Dr.
Ayer. Não examinei este ponto; mas a conclusão é interessante. Whartenberg
continuará a mandar-nos os seus chapéus, aos pedaços, e nós não poderemos
ingerir o peitoral que restituiu a saúde a Whartenberg. Estudem isso os
competentes; eu passo à organização do partido democrático federal.
Segundo li, contrapõe-se este partido ao republicano federal, para formar
os dois partidos necessários “ao livre jogo das instituições”, segundo dizem
os publicistas. Eu julgo as coisas pelas palavras que as nomeiam, e basta ser
partido para não ser inteiro. Assim, por mais vasto que seja o programa do
partido republicano federal, não podia conter todos os princípios e
aspirações, alguma coisa ficou de fora, com que organizar outro partido. A
regra é que haja dois. O dia faz-se de duas partes, a manhã e a tarde. O homem
é um composto de dualidades. A principal delas é a alma e o corpo; e o
próprio corpo tem um par de braços, outro de pernas, os olhos são dois, as
orelhas duas, as ventas duas. Finalmente, não há casamento sem duas pessoas.

Machado de Assis em desenho de Raul Pederneiras para a revista Fon Fon.

Pode haver casamentos de três pessoas, mas tal casamento é um triângulo.


Não confundam com o nosso triângulo eleitoral. Repito o próprio nome que
lhe dá Ibsen, ou antes um dos seus personagens. Os Estados Unidos da
América, com o seu jovem partido populist, já estão de triângulo, e a
Inglaterra também com o partido irlandês; dado que este fique desdobrado em
parnellistas e não parnellistas, haverá quatro, e será o caso de dançarem uma
quadrilha, como dizia outro dramaturgo, Dumas, também pela boca de um dos
seus personagens, falando de mulheres. Os partidos franceses, se levarmos em
conta as indicações dos seus lugares na câmara, chegam a dançar uma
quadrilha americana.
Entre nós a quadrilha, mais que americana, americaníssima, poderá entrar
em uso, se convertermos os partidos em simples bancadas, desde a bancada
mineira até a bancada goiana. Seria um desastre. Antes o triângulo, se vingar o
partido monarquista. Se não, fiquemos com a simples valsa, o varão e a dona
enlaçados, ele vestido de autoridade, ela toucada de liberdade, correndo a
sala toda, ao som da orquestra dos princípios.
impostos novos
Referência ao debate sobre as mudanças no imposto sobre o consumo.

partido político
Partido Monarquista, então criado, sem muito sucesso.

Cleveland
Stephen Grover Cleveland (1837-1908), o presidente dos EUA na ocasião,
levou mensagem ao Congresso sobre a questão limítrofe entre a Venezuela e
a Guiana britânica em que se baseou na Doutrina Monroe para arbitrar a
favor da Venezuela.

ilha da Trindade
Em 1895, a Inglaterra tentou obter a posse da ilha da Trindade, de
estratégica posição no Atlântico Sul, no litoral do Espírito Santo. A questão
concluiu-se apenas em 1896, com o arbitramento de Portugal.

alcofa
Cesto flexível de vime.

doutrina de Monroe
Doutrina criada em 1823 pelo presidente dos EUA James Monroe. Consistia
da não criação de novas colônias nas Américas, da não intervenção nos
assuntos internos dos países americanos e da não intervenção dos EUA em
conflitos relacionados às nações europeias. Ficou conhecida pelo lema “A
América para os americanos.”

cólera-morbo
Doença infecciosa aguda, contagiosa, epidêmica, que surgiu pela p19rimeira
vez no Brasil em 1856.

Ayer
O Almanak e Manual de Saúde do Dr. Ayer era publicado todos os anos,
desde a década de 1830, contendo “um tratado sobre as principais doenças”
e trazendo informações sobre os “prodigiosos remédios que curam os
principais sintomas”. Machado tinha prazer especial em citar o doutor Ayer
em suas crônicas.

Ibsen
Henrik Johan Ibsen (1828-1906), dramaturgo norueguês, que trabalhou com
diversas “situações triangulares” em suas peças, como O pequeno Eyolf e
Hedda Gabler. Machado parece referir-se ao personagem Brack, o juiz que,
nesta última, diante da complexa situação criada por Hedda, sentencia: “É
um triângulo!”

parnellistas
Relativo a Charles Stewart Parnell (ver Capítulo 13).
33. [que magnésia há contra o câmbio?]
08 DE MARÇO DE 1896, A SEMANA

A baixa (desvalorização) do câmbio é vista como um flagelo, pior que o


líder abexim que derrotou os exércitos da gloriosa Itália unificada em solo
etíope; é como um ataque a um dos pilares mais importantes da “civilização”
do Segundo Império, a estabilidade do custo de vida. É Faoro a observar que,
de 1829 a 1887, o custo de vida aumenta cerca de 1,5% ao ano, ao passo que
de 1887 a 1896, 11,5% anuais, “números nunca vistos no Império”.1 Neste
momento, pouco se avançou na “questão bancária”, vale dizer, nos termos da
praticamente inevitável encampação das emissões, e na solução do problema
do deficit e dívidas públicas. Novamente o cronista se debruça sobressaltado
sobre o possível arrendamento ou venda (privatização) da Estrada de Ferro
Central do Brasil, ou a Leopoldina. Esta, todavia, estava em situação
financeira delicada, devendo a bancos, de tal sorte que o seu valor talvez nem
fosse positivo. Se o governo assumisse a Leopoldina e a vendesse
(privatizasse) sem dívidas, é claro que o preço seria razoável, ajudando o
projeto de encampação das emissões e resgate (extinção) das garantias de
juros em ouro das ferrovias. Talvez complicado na superfície, mas, na
essência, esses projetos envolviam discussões complexas sobre a fronteira
entre o público e o privado e, em particular, o que Celso Furtado denominou,
certa vez e em outro contexto, de “socialização dos prejuízos”.2 Furtado tinha
em mente os efeitos da desvalorização cambial no sentido de “distribuir” os
efeitos de uma crise externa; “estatizar” alguns desses prejuízos, como no caso
em tela, podia ocorrer por decisão política, para se evitar um mal maior, ou
não. O fato é que no momento em que se discute esta “estatização de
prejuízos” o cronista, não por acidente ou coincidência, faz menção ao
presidente norte-americano Stephen Glover Cleveland e sua visão crítica do
conceito de “paternalismo”, que poderia ser o nosso “patrimonialismo” ou a
privatização do Estado por corporações; nas palavras dele, o sistema dos que
querem “fazer do governo um pai”. A menção, todavia, não é totalmente
honrosa, parece haver certa tonalidade monarquista: Cleveland, diz o cronista,
“nada pode contra a natureza. O Estado não é mais que uma grande família,
cujo chefe deve ser pai de todos”.

NO TEMPO DO ROMANTISMO, quando o nosso Álvares de Azevedo cantava,


repleto de Byron e Musset:

A Itália! sempre a Itália delirante!


E os ardentes saraus e as noites belas!
A Itália era um composto de Estados minúsculos, convidando ao amor e à
poesia, sem embargo da prisão em que pudessem cair alguns liberais. Há
livros que se não escreveriam sem essa divisão política, a Chartreuse de
Parme, por exemplo; mal se pode conceber aquele conde Mosca senão sendo
ministro de Ernesto IV de Parma. O ministro Crispi não teria tempo nem gosto
de ir namorar no Scala de Milão a duquesa de Sanseverina. Era assim
parcelada que nós, os rapazes anteriores à tríplice aliança e apenas
contemporâneos de Cavour, imaginávamos a Itália e passeávamos por ela.

Agora a Itália é um grande reino que já não fala a poetas, apesar do seu
Carducci, mas a políticos e economistas, e entra a ferro e fogo pela África,
como as demais potências europeias. O grande desastre desta semana, se foi
sentido por todos os amigos da Itália, é também prova certa de que a
civilização não é um passeio, e para vencer o próximo imperador da Etiópia é
necessário haver muita constância e muita força. Os italianos mostraram essa
mesma opinião dando com Crispi em terra – por quantos meses? Eis o que só
nos pode dizer o cabo, em alguma bela manhã, ou bela tarde, se a Notícia se
antecipar às outras folhas. Quanto à guerra, é certo que continuará e o mesmo
ardor com que o povo derribou Crispi saudará a vitória próxima e maiormente
a definitiva. Cumpra-se o que dizia o poeta naqueles versos com que
Machiavelli fecha o seu livro mais célebre:

Che l’antico valore


Nell’italici cuor non è ancor morto.

Nós cá não temos Menelick, mas temos o câmbio, que, se não é abexim
como ele, é de raça pior. Inimigo sorrateiro e calado, já está em oito e tanto e
ninguém sabe onde parará; é capaz de nem parar em zero e descer abaixo dele
uns oito graus ou nove. Nesse dia, em vez de possuirmos trezentos réis em
cada dez tostões, passaremos a dever os ditos trezentos réis, desde que a
desgraça nos ponha dez tostões nas mãos. Donde se conclui que até a ladroeira
acabará. Roubar para quê?

O mal do câmbio parece-se um pouco com o da febre amarela, mas, para a


febre amarela, a magnésia fluida de Murray, que até agora só curava dor de
cabeça e indigestões, é específico provado neste verão, segundo leio impresso
em grande placa de ferro. Que magnésia há contra o câmbio? Que Murray já
descobriu o modo certo de acabar com a decadência progressiva do nosso
triste dinheiro e com as fomes que aí vêm, e os meios luxos, os quartos de
luxo, e outras consequências melancólicas deste mal?
Um economista apareceu esta semana lastimando a sucessiva queda do
câmbio e acusando por ela o ministro da fazenda. Não lhe contesta
inteligência, nem probidade, nem zelo, mas nega-lhe tino e, em prova disto,
pergunta-lhe à queima-roupa. Por que não vende a estrada Central do Brasil?
A pergunta é tal que nem dá tempo ao ministro para responder que tais
matérias pendem de estudo, em primeiro lugar, e, em segundo lugar, que ao
Congresso Nacional cabe resolver por último.
Felizmente, não é esse o único remédio lembrado pelo dito economista. Há
outro, e porventura mais certo: é auxiliar a venda da Leopoldina e suas
estradas. Desde que auxilie esta venda, o ministro mostrará que não lhe falta
tino administrativo. Infelizmente, porém, se o segundo remédio pode concertar
as finanças federais, não faz a mesma coisa às do Estado do Rio de Janeiro,
tanto que este, em vez de auxiliar a venda das estradas da Leopoldina, trata de
as comprar para si. Cumpre advertir que a eficácia deste outro remédio não
está na riqueza da Leopoldina, porquanto sobre este ponto duas opiniões se
manifestaram na assembleia fluminense. Uns dizem que a companhia deve
vinte e dois mil contos ao Banco do Brasil e está em demanda com o
Hipotecário, que lhe pede seis mil. Outros não dizem nada. Entre essas duas
opiniões, a escolha é difícil. Não obstante, vemos estes dois remédios
contrários: no Estado do Rio a compra da Leopoldina é necessária para que a
administração tome conta das estradas, ao passo que a venda da Central é
também necessária para que o governo da União não a administre. Vérité en-
deçà, erreur au-delà.
Neste conflito de remédios ao câmbio e às finanças, invoquei a Deus,
pedindo-lhe que, como a Tobias, me abrisse os olhos. Deus ouviu-me, um anjo
baixou dos céus, tocou-me os olhos e vi claro. Não tinha asas; trazia a forma
de outro economista, que publicou anteontem uma exposição do negócio assaz
luminosa. Segundo este outro economista, a compra da Leopoldina deve ser
feita pelo Estado do Rio de Janeiro, porque tais têm sido os seus negócios
precipitados e ilegais (emprega ainda outros nomes feios, dos quais o menos
feio é mixórdia) que não haverá capitalistas que a tomem. Não havendo
capitalistas que comprem a Leopoldina, cabe ao Estado do Rio de Janeiro
comprá-la, atender aos credores, e não devendo administrar as estradas,
“porque o Estado é péssimo administrador”, venderá depois a Leopoldina a
particulares. Foi então que entendi que a verdade é só uma, en-deçà e au-
delà, a diferença é transitória, é só o tempo de comprar e vender, ainda com
algum sacrifício, diz o economista! No intervalo mete-se uma rolha na boca
dos credores. Sabe-se onde é que os alfaiates põem a boca dos credores.
Talvez algum americanista, exaltado ou não, ainda se lembre da palavra de
Cleveland quando pela segunda vez assumiu o governo dos Estados Unidos. A
palavra é paternalismo e foi empregada para definir o sistema dos que querem
fazer do governo um pai. Cleveland condena fortemente esse sistema; mas ele
nada pode contra a natureza. O Estado não é mais que uma grande família, cujo
chefe deve ser pai de todos.

Aliviado como fiquei do conflito, abri novamente o último livro de Luís


Murat e pus-me a reler os versos do poeta. Deus meu, aqui não há estradas
nem compras, aqui ninguém deve um real a nenhum banco, a não ser o banco
de Apolo; mas este banco empresta para receber em rimas, e o poeta pagou-
lhe capital e juros.
Posto que ainda moço, Luís Murat tem nome feito, nome e renome
merecido. Os versos deste segundo volume das Ondas já foi notado que
desdizem do prefácio; mas não é defeito dos versos, senão do prefácio. Os
versos respiram vida íntima, amor e melancolia; as próprias páginas da
Tristeza do Caos, por mais que queiram, a princípio, ficar na nota impessoal,
acabam no pessoal puro e na desesperança. O poeta tem largo fôlego. Os
versos são, às vezes, menos castigados do que cumpria, mas é essa mesma a
índole do poeta, que lhe não permite senão produzir como a natureza; os
passantes que colham as belas flores entre as ramagens que não têm a mesma
igualdade e correção. Luís Murat cultiva a antítese de Hugo como Guerra
Junqueiro; eu pedir-lhe-ia moderação, posto reconheça que a sabe empregar
com arte. Por fim, aqui lhe deixo as minhas palavras; é o que pode fazer a
crônica destes dias.

Cautela de ações da Leopoldina.


noites belas
Trecho do poema Italia, de Manuel Antonio Álvares de Azevedo (1831-
1852), divulgador, no Brasil, de Lord Byron (1788-1824) e de Alfred Louis
Charles de Musset (1810–1557), que influenciaram o romantismo brasileiro.

Chartreuse de Parme
A cartuxa de Parma, obra do francês Henri-Marie Beyle, conhecido como
Stendhal (1783-1842). Na obra, Fabrício Del Dongo, jovem de família
nobre, vai lutar em Waterloo, vê-se em apuros e recebe ajuda da tia Gina
Pietranera, a duquesa Sanseverina.

Crispi
Francesco Crispi (1819-1901), político, foi primeiro-ministro da Itália por
duas vezes.

Cavour
Camilo Benso, o conde de Cavour (1810-61), primeiro-ministro da Itália
entre março e junho de 1861. Sob sua liderança, de Mazzini e de Garibaldi,
o processo de unificação da Itália delineou-se em 1861. Vítor Emanuel II foi
coroado rei, e a união foi concluída em 1870 com a anexação de Roma,
antes a capital dos Estados Pontifícios. Com isso, a Itália cresceu
econômica e militarmente, criando um Império colonial na África. Em 1889,
o premier e ministro dos Assuntos Exteriores, Francesco Crispi, reivindicou
a colônia da Eritreia, mas o malogrado avanço para a Etiópia culminou em
uma derrota decisiva (1896) na batalha de Adowa, para os abexins
liderados por Menelick.

Carducci
Giosuè Carducci (1835-1907), poeta italiano, que receberia o Prêmio Nobel
de Literatura em 1906.

morto
Na tradução literal do italiano: “Este antigo valor / Neste meu coração
italiano, ainda está morto.” Trecho de O Príncipe, de Nicolau Maquiavel
(1469-1527), seu livro mais famoso, escrito em 1512, mas publicado
postumamente em 1532.
Vérité au-deçà, erreur au-delà
Na tradução literal do francês: “Verdade cá, erro lá.”

au-deçà e au-delà
Na tradução literal do francês: “Cá e lá.”

Cleveland
Stephen Grover Cleveland (1837-1908), presidente dos Estados Unidos em
dois períodos, neste momento em seu segundo mandato.

Luís Murat
Luís Morton Barreto Murat (1861-1929), jornalista combativo, poeta
romântico e político liberal, autor de A última noite de Tiradentes, Ondas
(em três séries) e Poesias.

de Hugo como Guerra Junqueiro


Victor Hugo (1802-1885), escritor e poeta francês, e Abílio Guerra
Junqueiro (1850-1923), político, jornalista, escritor e poeta português, duas
das mais fortes influências sobre Luís Murat.
34. [incluamos paternalismo nos dicionários]
19 DE JULHO DE 1896, A SEMANA

Poucos meses depois de uma primeira alusão com leves tonalidades críticas
à crítica ao “paternalismo”, tal como enunciada pelo presidente norte-
americano Stephen Grover Cleveland, o cronista volta ao tema um tanto mais
assertivo, após contar sobre duas refeições gratuitas de que desfrutou durante
a semana. A encampação das emissões de bancos está bem próxima, a lei
passaria em dezembro de 1896, mas sua discussão no Parlamento e com os
bancos emissores já ia bem avançada. Contas bem detalhadas, examinadas por
Andrada,1 sobre o custo da “estatização” das emissões em 305 mil contos mais
as “indenizações” de 14,6 mil contos, pagas ao Banco União de São Paulo,
Banco Emissor da Bahia e Banco Emissor do Norte, totalizando 319 mil
contos. Contando os prejuízos decorrentes das dívidas dos bancos emissores
para com o Tesouro que acabaram não sendo pagas, o custo total da
encampação teria sido de 440 mil contos. O plano de encampação era, na
essência, o de Rodrigues Alves, pela segunda vez ministro e agora forte.
Restava o problema da dívida externa e da garantia de juros em ouro; muitas
contas para pagar, todas, de alguma forma, “socializadas”. Se o “acionista”
não se importa que o Estado assuma tantas obrigações, é difícil evitar que o
“dividendo” não fique diminuído. Afinal, não existem refeições gratuitas, ou,
como disse certa vez o cronista: “Não se pode ir à Glória sem pagar o bonde.”

ESTE QUE AQUI vedes jantou duas vezes fora de casa esta semana. A primeira
foi com a Revista Brasileira, o jantar mensal e modesto, no qual, se não
faltam iguarias para o estômago, menos ainda as faltam para o espírito. Aquilo
de Pascal, que o homem não é anjo nem besta, e que quando quer ser anjo é
que fica besta, não cabe na comunhão da Revista. Podemos dizer sem
desdouro nem orgulho que o homem ali é ambas as coisas, ainda que se
entenda o anjo como diabo e bom diabo. Sabe-se que este era um anjo antes da
rebelião no céu. Nós que já estamos muito para cá da rebelião, não temos a
perversidade de Lúcifer. Enquanto a besta come, o anjo conversa e diz coisas
cheias de galanteria. Basta notar que, apesar de lá estar um financeiro, não se
tratou de finanças. Quando muito, falou-se de insetos e um tudo-nada de
divórcio.
Uma das novidades de cada jantar da Revista é a lista dos pratos. Cada
mês tem a sua forma “análoga ao ato”, como diziam os antigos anúncios de
festas, referindo-se ao discurso ou poesia que se havia de recitar. Desta vez
foram páginas soltas do número que ia sair, impressas de um lado, com a lista
do outro. Quem quis pode assim saborear um trecho truncado do número do
dia 15, o primeiro de julho, número bem composto e variado. Uma revista que
dure não é coisa vulgar entre nós, antes rara. Esta mesma Revista tem
sucumbido e renascido, achando sempre esforço e disposição para continuá-la
e perpetuá-la, como parece que sucederá agora.

O segundo jantar foi o do Dr. Assis Brasil. Quatro ou cinco dezenas de


homens de boa vontade, com o chefe da Gazeta à frente, entenderam prestar
uma homenagem ao nosso ilustre patrício, e escolheram a melhor prova de
colaboração, um banquete a que convidaram outras dezenas de homens da
política, das letras, da ciência, da indústria e do comércio. O salão do Cassino
tinha um magnífico aspecto, embaixo pelo arranjo da mesa, em cima pela
agremiação das senhoras que a comissão graciosamente convidou para ouvir
os brindes. De outras vezes esta audiência é o único doce que as pobres damas
comem, e, sem desfazer nos oradores, creio ser órgão de todas elas dizendo
que um pouco de doce real e peru de verdade não afiaria menos os seus
ouvidos. Foi o que a comissão adivinhou agora. Mas, ainda sem isso, a
concorrência seria a mesma, e ainda maior se não fora o receio da chuva, tanta
havia caído durante o dia.
O que elas viram e ouviram deve tê-las satisfeito. O aspecto dos convivas
não seria desagradável. Ao lado desse espetáculo, os bons e fortes
sentimentos expressos pelos oradores, as palavras quentes, a cordialidade, o
patriotismo de par com as afirmações de afeto para com a antiga metrópole –
nota que figurou em todos os discursos, –, tudo fez da homenagem a Assis
Brasil uma festa de família. O nosso eminente representante foi objeto de
merecidos louvores. Ouviu relembrar e honrar os seus serviços, os seus dotes
morais e intelectuais; e as palavras de elogio, sobre serem cordiais, eram
autorizadas, vinham do governo, do jornalismo, da diplomacia. As letras e o
senado não falaram propriamente dele, mas sendo ele o centro e a ocasião da
festa, todas as coroas iam coroá-lo.

Não quisera falar de mim; mas um pouco de egotismo não faria mal a um
espírito geralmente desinteressado. As pessoas que me são íntimas sabem que
estou padecendo de um ouvido, e sabem também que na noite do banquete
fiquei pior. Atribuí à umidade o que tinha a sua causa em uma igreja de Porto
Alegre. Com efeito, no dia seguinte, abrindo os jornais, dei com telegrama
daquela cidade noticiando que o reverendo padre Júlio Maria continuou na
véspera as suas conferências, e que os aplausos tinham sido calorosos. Estava
explicada a agravação da moléstia. Digo isto, porque a moléstia apareceu
justamente no dia 13, em que o mesmo padre fez a primeira conferência da
segunda série, conforme anterior telegrama, o qual acrescentava: “Auditório
enorme; a igreja sem um lugar vazio. No final retumbantes palmas; verdadeira
ovação ao orador.”
Essas palmas dentro da igreja foram tão fortes que repercutiram no meu
gabinete e me entraram pelo ouvido, a ponto de o fazer adoecer. Quando ia
melhor, em via de cura, continua o padre as conferências, e repetiram-se as
palmas. Eis-me aqui numa situação penosa. Desejo que as conferências
prossigam, uma vez que espalham verdades e rendem ovações ao orador; mas
não desejo menos ficar curado, e para isso era preciso que não fosse com
palmas que dessem ao padre Maria notícia do efeito da sua grande eloquência.
O silêncio, um triste silêncio de contrição, de piedade, de arrependimento, não
viria pelo telégrafo, nem me faria adoecer; mas seria preciso pedi-lo, e eu não
pediria jamais uma coisa que me aproveitasse em detrimento de um princípio.
Melhor é sofrer com paciência, até que acabe esta segunda série.
Não esqueçais, ou ficai sabendo que a matéria da primeira conferência foi
este tema: “Como muitos católicos são ateus práticos.” Posto que esse tema
pareça prenhe de alusões pessoais, é fora de dúvida que foi bem escolhido, e
as palmas mostraram ao orador que havia falado a pessoas conversas. Dessa
triste categoria de católicos ateus poucos conheço pessoalmente, e esses
mesmos têm o ateísmo tão diminuto que, se ouvissem o orador, teriam rasgado
as luvas com frenéticos aplausos.

Alvoroço, na porta do Banco União, entre a rua da Candelária e a rua da


Alfândega.

Adeus, leitor. Mal tenho tempo de dizer que, pela segunda vez, acabo de
ler em Cleveland a palavra paternalismo. Não sei se é de invenção dele, se de
outro americano, se dos ingleses. Sei que temos a coisa, mas não temos o
nome, e seria bom tomá-lo, que é bonito e justo. A coisa é aquele vício de
fazer depender tudo do governo, seja uma ponte, uma estrada, um aterro, uma
carroça, umas botas. Tudo se quer pago por ele com favores do Estado, e, se
não paga, qu e o faça à sua custa. O presidente dos Estados Unidos execra esse
vício, e assim o declarou em mensagem ao congresso, negando sanção a uma
lei que abre 417 créditos no valor de oitenta milhões de dólares. O presidente
falou sem rebuço; aludiu a interesses locais e particulares, condenou o
desamor ao bem público, chamou extravagante a lei, somou as contas enormes
que o governo já tem de pagar este ano, e escreveu esta máxima que, por
óbvio, não serve menos de lição aos povos: “A economia privada e a despesa
medida são virtudes sólidas que conduzem à poupança e ao conforto…” O
congresso leu as razões do veto, e, por dois terços, adotou definitivamente a
lei, dando ao tesouro mais esta carga. A ciência política há de descobrir um
processo de conciliar, nestas matérias, todos os Capitólios e todas as Casa-
Brancas. O que não impede que incluamos paternalismo nos dicionários.
Adeus, leitor.
Revista Brasileira
Fundada em 1857 pelo crítico e historiador literário José Veríssimo Dias de
Matos (1857-1916), foi primeiramente dirigida por Cândido Batista de
Oliveira, depois por Nicolau Midosi, de 1879 a 1881. Veríssimo dirigiu sua
terceira fase, aglutinando na redação (travessa do Ouvidor nº 31, no centro
da cidade do Rio de Janeiro) os grandes escritores da época, como
Machado de Assis, Joaquim Nabuco, visconde de Taunay, Lúcio de
Mendonça, entre outros. De lá saíram a ideia e as articulações para a
criação da Academia Brasileira de Letras, em 1896/97.

Dr. Assis Brasil


Joaquim Francisco de Assis Brasil (1857-1938), advogado, diplomata,
político, escritor, poeta e fundador do Partido Libertador: nesse ano,
publicara o livro Governo presidencial na República brasileira.

Gazeta
Referência a Ferreira de Araújo, fundador e proprietário da Gazeta de
Notícias.
35. [mete dinheiro na bolsa…]
02 DE AGOSTO DE 1896, A SEMANA

A crônica é a fartamente citada por Nicolau Sevcenko no volume de nossa


história da vida privada, para ilustrar “o íntimo da consciência da nova
burguesia argentária”, a partir de construção feita pelo cronista de uma
paródia de uma fala de Iago, o vilão de Otelo.1 O mote da crônica é uma
previsão de um espírita, profissional que sempre mereceu de Machado
considerável dose de sarcasmo, até mais que o dedicado aos financeiros. Esta
é uma das poucas crônicas em que Machado fala desabridamente de
corrupção. Com o fim do dinheiro, seria menor a roubalheira? Enquanto isso,
a discussão sobre o padrão monetário, ouro ou bimetalismo, se torna o tema
central da campanha presidencial nos EUA, que opõe William McKinley pelo
Partido Republicano, defensor do padrão-ouro, a William Jennings Bryan,
candidato pelos partidos Democrata e Populista, que defendia o bimetalismo.
Uma nação avançada como os EUA tinha discussões parecidas com as nossas
sobre a natureza do dinheiro;2 como um espírita poderia profetizar o seu fim?
Enquanto não se cumpre o vaticínio, resta válida a imagem que o cronista
resgata de Iago, o falso amigo e subordinado preterido de Otelo, um dos mais
notáveis vilões da galeria shakespeariana. Na terceira cena do primeiro ato,
Iago conversa com Rodrigo, o rico e desesperado veneziano apaixonado por
Desdêmona. Rodrigo cogita suicidar-se, pois acabara de saber que Otelo e
Desdêmona haviam se casado. Em uma mesma fala, Iago repete oito vezes, não
“três ou quatro”, como supõe o cronista, o conselho a Rodrigo: “Mete dinheiro
na bolsa”, pois precisavam se preparar, a guerra contra os turcos se
avizinhava, e ambos tencionavam conspirar contra o Mouro, cada qual com
suas razões.

AVIZINHAM-SE OS TEMPOS. Este século, principiando com Paulo e Virgínia,


termina com Alfredo e Laura. Não é já o amor ingênuo de Port-Louis, mas um
idílio trágico, como lhe chamou a Gazeta de anteontem, sem dúvida para
empregar o título do último romance de Bourget. Em verdade, esse
adolescente de quatorze anos, que procurou a morte por não poder vencer os
desdéns da vizinha de treze anos, faz temer a geração que aí vem inaugurar o
século XX. Que os dois se amassem vá.
Tem-se visto dessas aprendizagens temporãs, ensaios para voos mais altos.
Que ela não gostasse dele, também é possível. Nem todas elas gostam logo
dos primeiros olhos que as procuram; em tais casos, eles devem ir bater à
porta de outro coração, que se abre ou não abre, e tudo é passar o tempo à
espera do amor definitivo. Mas aquela aurora de sangue, aquela tentativa de
fazer estourar a vida, na idade em que tudo manda guardá-la e fazê-la crescer,
eis aí um problema obscuro – ou demasiado claro, pois tudo se reduz a um
madrugar de paixões, violentas. E o amor de Alfredo era ainda mais temporão
do que parece; vinha desde meses, muito antes dos quatorze anos, quando ela
teria pouco mais de doze.
Repito, os tempos se avizinham. Agora o amor precoce; vai chegar o amor
livre, se é verdade o que me anunciou, há dias, um espírita. O amor livre não é
precisamente o que supões – um amor a carnet e lápis, como nos bailes se
marcam as valsas e quadrilhas, até acabar no cotilhão. Esse será o amor
libérrimo: durará três compassos. O amor livre acompanha os estados da
alma; pode durar cinco anos, pode não passar de seis meses, três semanas ou
duas. Aos valsistas plena liberdade. O divórcio, que o senado fez cair agora,
será remédio desnecessário. Nem divórcio nem consórcio.
Antigo prédio da Bolsa de Valores na rua Primeiro de Março.

Mas a maior prova de que os tempos se avizinham é a que me deu o


espírita de que trato. Estamos na véspera da felicidade humana. Vai acabar o
dinheiro. À primeira vista, parece absurdo que a ausência do dinheiro traga a
prosperidade da terra; mas, ouvida a explicação (que eu nunca li os livros
desta escola), compreende-se logo; o dinheiro acaba por ser inútil. Tudo se
fará troca por troca; os alfaiates darão as calças de graça e receberão de graça
os sapatos e os chapéus. O resto da vida e do mundo irá pelo mesmo processo.
O dinheiro fica abolido. A própria ideia do dinheiro perecerá em duas
gerações.
Assim que, o mal financeiro e seu remédio, tema de tantas cogitações e
palestras, acabará por si mesmo, não ficando remédio nem mal. Não haverá
finanças, naturalmente, não haverá tesouro, nem impostos, nem alfândegas
secas ou molhadas. Extinguem-se os desfalques. Este último efeito diminui os
inquéritos, – falo dos inquéritos rigorosos, nem conheço outros. A virtude,
ainda obrigada, é sublime. Os desfalques andam tão a rodo que a gente de
ânimo frouxo já inquire de si mesma se isto de levar dinheiro das gavetas do
Estado ou do patrão é verdadeiramente delito ou reivindicação necessária.
Tudo vai do modo de considerar o dinheiro público ou alheio. Se se entender
que é deveras público e não alheio, mete-se no bolso a moral, a lei e o
dinheiro, e brilha-se por algumas semanas. É sabido que dinheiro de desfalque
nunca chega a comprar um pão para a velhice. Vai-se em folgares, e a pessoa
que se dê por muito feliz, se não perde o emprego.
Acabado o dinheiro, os anglo-americanos não assistirão à luta do ouro e
da prata, como esta que se trava agora, para eleger o candidato à presidência
da República. Nunca amei o espírito prático daquela nação. Partidos que se
podiam distinguir sonoramente, por meio de teorias bonitas, e, em falta delas,
por algumas daquelas palavras grandes e doces, que entram pela alma do
eleitor e a embebedam, preferem escrever umas plataformas de negociantes.
Dou de barato que não haja teorias nem palavras, mas simples pedidos de rua,
distribuição de cartões pelo correio, um ou outro recrutamento para não fazer
da Constituição uma peça rígida, mas flexível, alguma ameaça e o resto; tudo
isso é melhor que discutir ouro e prata em casarões, diante de centenas de
delegados, e votar por um ou outro desses metais. E qual vencerá em
dezembro próximo? Parece-me que o ouro, se é certo que dizem os ouristas;
mas afirmando os pratistas que é a prata, melhor é esperar as eleições. Ouro
ou prata há de ser difícil que o rei Dólar abdique, como quer o espiritismo.
Uma folha, em que vem gravada a apoteose de McKinley, candidato do
partido republicano, anuncia um casamento que se deve ter efetuado a 7 do
mês passado. A noiva conta vinte anos e possui quatro milhões de dólares.
Não é muito em terra onde os milhões chovem; mas esta qualidade parece ser
tão principal que duas vezes o noticiarista fala nela. “Miss Uobarts, a
despeito dos seus quatro milhões de dólares…” E mais abaixo: “Os bens da
noiva são calculados em quatro milhões de dólares.” Como é que numa
região destas se há de abolir o dinheiro e restringir o casamento a uma troca
de calças e vestidos?
Pelo lado psicológico e poético, perderemos muito com a abolição do
dinheiro. Ninguém entenderá, daqui a meio século, o bom conselho de Iago a
Rodrigo, quando lhe diz e torna a dizer, três e quatro vezes, que meta o
dinheiro na bolsa. Desde então, já antes, e até agora é com ele que se
alcançam grandes e pequenas coisas, públicas e secretas. Mete dinheiro na
bolsa – ou no bolso, diremos hoje, e anda, vai para diante, firme, confiança na
alma, ainda que tenhas feito algum negócio escuro. Não há escuridão quando
há fósforos. Mete dinheiro no bolso. Vende-te bem, não compres mal os
outros, corrompe e sê corrompido, mas não te esqueças do dinheiro, que é com
que se compram os melões. Mete dinheiro no bolso.
Os conselhos de Iago, note-se bem, serviriam antes ao adolescente
Alfredo, que tentou morrer por Laura. Também Rodrigo queria matar-se por
Desdêmona, que o não ama e desposou Otelo; não era com revólver, q ue
ainda não havia, mas por um mergulho na água. O honesto Iago é que lhe tira a
ideia da cabeça e promete ajudá-lo a vencer, uma vez que meta dinheiro na
bolsa. Assim podemos falar ao jovem Alfredo. Não te mates, namorado; mete
dinheiro no bolso, e caminha. A vida é larga e há muitas flores na estrada.
Pode ser até que essa mesma flor em botão, agora esquiva, quando vier a
desabrochar, peça um lugar na tua botoeira, lado do coração. Make money. E
depressa, depressa, antes que o dinheiro acabe como quer o espiritismo, a não
ser que o espírita Torterolli acabe primeiro que ele, o que é quase certo.
Alfredo e Laura
Alfredo e Laura eram personagens de um crime passional noticiado pela
Gazeta. Paulo e Virginia são personagens que dão título do romance de
Jacques-Henri Bernardin de Saint-Pierre (1737-1814), escritor e botânico
francês, publicado originalmente em 1787 na França e editado em Portugal
em 1811. Machado referia-se à edição portuguesa, que circulou no Brasil.

Bourget
Paul Charles Joseph Bourget (1852-1935), escritor e crítico francês; autor
de romances psicológicos, como Une Idylle tragique, publicado em 1896,
ao qual Machado se refere.

cotilhão
Aqui empregado no sentido de dança de muitos pares, entremeada de várias
músicas e distribuição de brindes, pela qual se usava terminar um baile.

McKinley
William McKinley (1843-1901), presidente dos Estados Unidos, governou
de 1897 a 1901, quando foi assassinado pelo anarquista Leon Czolgosz. A
primeira dama, Ida Saxton, casou-se com McKinley em 1871, mas desde
1876 estava paraplégica e seriamente doente. A notícia sobre o casamento,
no texto que se segue, nada tem a ver com Ida Saxton McKinley.
36. [esse algarismo, que eu presumia nunca ver nas
tabelas cambiais]
23 DE AGOSTO DE 1896, A SEMANA

Esta crônica foi republicada recentemente em uma coletânea intitulada As


cem melhores crônicas brasileiras, organizada por Joaquim Ferreira dos
Santos, que deu-lhe o título “O câmbio e as pombas”.
O câmbio havia tocado os 8 pence por mil-réis em fevereiro e março de
1896, mas depois de agosto, de fato, fixou-se neste patamar, inclusive, caindo
abaixo disso vez por outra. Desde a última vez em que a paridade de 1846, 27
pence por mil-réis, tinha sido atingida em novembro de 1889, a
desvalorização acumulada tinha ultrapassado todos os limites. As
controvérsias sobre os determinantes da taxa de câmbio nesses anos se
estendem aos nossos dias, quando o instrumental estatístico permite uma
segregação bastante fina entre diversos elementos de causalidade, ou seja,
teses papelistas e metalistas se misturam numa avaliação mais eclética do
episódio.1 Os metalistas foram vitoriosos na prática, visto que em 1898
levariam suas ideias às últimas consequências. O programa de “saneamento”
implementado a partir daí revalorizou o mil-réis para a região dos 12 pence
nos primeiros anos do século XX, e para 16 pence, em seguida, quando os
preços do café experimentaram sensível melhoria, organizou-se o Convênio de
Taubaté (1906) e o país retornou ao padrão ouro, porém, desta vez, com uma
paridade de 15 pence por mil-réis. Mas independentemente da fria avaliação
das causas do fenômeno, aos contemporâneos, o número que assustava o
cronista era uma indicação poderosa de irreversibilidade da queda, ou de que
o país havia entrado numa nova fase, onde já não se podia mais falar, genérica
ou especificamente, na “estabilidade dos valores”.

ONTRASTES DA VIDA, que são as obras de imaginação ao pé de vós! Vinha eu


Cdediretas
um banco, aonde fora saber notícias do câmbio. Não tenho relações
com o câmbio; não saco sobre Londres, nem sobre qualquer outro
ponto da terra, que é assaz vasta, e eu demasiado pequeno. Mas tudo o que
compro caro, dizem-me que é culpa do câmbio. “Que quer o senhor que eu
faça com este câmbio a 9?”, perguntam-me. Em vão leio os jornais; o câmbio
não sobe de 9. O que faz é variar; ora é 9 1/8, ora 9 1/4, ora 9 3/8. Dorme-se
com ele a 9 5/16, acorda-se a 9 3/4. Ao meio-dia está a 9 1/2. Um eterno
vaivém na mesma eterna casa. Sucedeu o que se dá com tudo; habituei-me a
esta triste especulação de 9, e dei de mão a todas as esperanças de ver o
câmbio a 10.
De repente, ouço dizer na rua que o câmbio baixara à casa dos 8. A
princípio não acreditei; era uma invenção de mau gosto para assustar a gente,
ou algum inimigo achara aquele meio de me fazer mal. Mas tanto me repetiram
a notícia, que resolvi ir às casas argentárias saber se realmente o câmbio
descera a 8. Em caminho quis calcular o preço das calças e do pão, mas não
achei nada, vi só que seria mais caro. Entrei no primeiro banco, a mão, e até
agora não sei qual foi. Gente bastante: todos os olhos fitavam as tabelas. Vi um
8, acompanhado de pequenos algarismos, que a cegueira da comoção não me
permitiu discernir. Que me importavam estes? Um quarto, um oitavo, três
oitavos, tudo me era indiferente, uma vez que o fatal número 8 lá estava. Esse
algarismo, que eu presumia nunca ver nas tabelas cambiais, ali me pareceu
com os seus dois círculos, um por cima do outro. Pareceu-me um par de olhos
tortos e irônicos.
Perguntei a um desconhecido se era verdade. Respondeu-me que era
verdade. Quanto à causa, quando lhe perguntei por ela, respondeu-me com
aquele gesto de ignorância, que consiste em fazer cair os cantos da boca. Se
bem me lembro, acrescentou o gesto de abrir os braços com as mãos
espalmadas, que é a mesma ignorância em itálico. Compreendi que não sabia a
causa; mas o efeito ali estava, e todos os olhos em cima dele, sem a
consternação nem o terror que deviam ter os meus. Saí; na rua da Alfândega,
esquina da da Candelária, havia alguma agitação, certo burburinho, mas não
pude colher mais do que já sabia, isto é, que o câmbio baixara a 8. Um
perverso, vendo-me apavorado, assegurava a outro que a queda a 7 não era
impossível. Quis ir ao meu alfaiate para que me reduzisse a nova tabela ao
preço que teria de pagar pelas calças, mas é certo que ninguém se apressa em
receber uma notícia má. Que pode suceder? Disse comigo; chegarmos à
arazoia; será a restauração da nossa idade pré-histórica, e um caminho para o
Éden, avant la lettre.
Enquanto seguia na direção da rua Primeiro de Março, ouvia falar do
câmbio. Quase a dobrar a esquina, um homem lia a outro as cotações dos
fundos. Tinham-se vendido ações do Banco Emissor de Pernambuco a mil e
quinhentos; as debêntures da Leopoldina chegaram a obter seis mil setecentos
e cinquenta; das ações da Melhoramentos do Maranhão havia ofertas a quatro
mil e quinhentos, mas ninguém lhes pegava. Dobrei a esquina, entrei na rua
Primeiro de Março, em direção ao Carceler. Ia costeando as vitrinas de
cambistas, cheias de ouro, muita libra, muito franco, muito dólar, tudo
empilhado, esperando os fregueses. Vinha de dentro um fedor judaico de
entontecer, mas a vista das libras restituía o equilíbrio ao cérebro, e fazia-me
parar, mirar, cobiçar…
– Vamos! exclamei, olhando para o céu.
Que vi, então, leitor amigo? Na igreja da Cruz dos Militares, dentro do
nicho de S. João, estavam três pombas. Uma pousava na cabeça do apóstolo,
outra na cabeça da águia, outra no livro aberto. Esta parecia ler, mas não lia,
porque abriu logo as asas e trepou à cabeça do apóstolo, e a que estava na
cabeça do apóstolo, desceu à cabeça da águia, e a que estava na cabeça da
águia, passou ao livro. Uma quarta pomba veio ter com elas. Então começaram
todas a subir e a descer, ora parando por alguns segundos, e o santo quieto,
deixando que elas lhe contornassem o pescoço e os emblemas, como se não
tivesse outro ofício que esse de dar pouso às pombas.

Parei e disse comigo: Contrastes da vida, que são as obras da imaginação


ao pé de vós? Nenhuma daquelas pombas pensa no câmbio, nem na baixa, nem
no que há de vestir, nem no que há de comer. Eis ali a verdadeira gente cristã,
eis o sermão da montanha, a dois passos dos bancos, às próprias barbas destas
casas de cambistas que me enchem de inveja. Talvez na alma de algum destes
homens viva ainda a própria alma de um antigo que ouviu o discurso de Jesus,
e não trocou por este o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó. Cuida das libras,
como eu, que visto e me sustento pelo valor delas, mas eis aqui o que dizem as
pombas, repetindo o sermão da montanha: “Não andeis cuidadosos da vossa
vida, que comereis, nem para o vosso corpo, que vestireis… Olhai para as
aves do céu, que não semeiam, nem regam, não fazem provimentos nos
celeiros; e contudo, vosso pai celestial as sustenta… E por que andais vós
solícitos pelo vestido? Considerai como crescem os lírios do campo; eles não
trabalham nem fiam… Não andeis inquietos pelo dia de amanhã. Porque o dia
de amanhã a si mesmo trará o seu cuidado; ao de hoje basta a sua própria
aflição.” (S. Mateus)
Realmente, não cuidavam de nada aquelas pombas. Onde é o ninho delas?
Perto ou longe, gostam de vir aqui à águia de Patmos. Alguma vez irão ao
apóstolo do outro nicho. S. Pedro, creio; mas S. João é que as namora, neste
dia de câmbio baixo, como para fazer contraste com a besta do Apocalipse, a
famosa besta de sete cabeças e dez cornos – número fatídico –, talvez a taxa
do câmbio de amanhã (7/10).

Afinal deixei a contemplação das pombas e fui-me à farmácia, a uma das


farmácias que há naquela rua. Ia comprar um remédio; pediram-me por ele
quantia grossa. Como eu estranhasse o preço, replicou-me o farmacêutico:
“Mas, que quer o senhor que eu faça com este câmbio a 8?” Como ao grande
Gama, arrepiaram-se-me as carnes e o cabelo, mas só de ouvi-lo. A vista era
boa, serena, quase risonha. Quis raciocinar, mas raciocínio é uma coisa e
medicamento é outra; saí de lá com o remédio e um acréscimo de quinhentos
réis no preço. Contaram-se que já não há tostões nas farmácias, nem tostões,
menos ainda vinténs. Tudo custa mil-réis ou mil e quinhentos, dois mil-réis ou
dois mil e quinhentos, e assim por diante. Para a contabilidade é, realmente,
mais fácil; e pode ser que o próprio enfermo ganhe com isso – a confiança,
metade da cura.
Na rua tornei a erguer os olhos às pombas. Só vi uma, pousada no livro.
Que tens tu? Perguntei-lhe cá de baixo, por um modo sugestivo. Se é a besta de
sete cabeças, não te importes que venha, contanto que não lhe cortes nenhuma.
Já temos a de oito: menos de sete cabeças é nada. Pagarei nove mil-réis pelo
remédio, mas antes nove que quatorze, no dia em que a besta ficar
descabeçada, porque então o mais barato é o melhor de todos os remédios. E a
pomba, pelo mesmo processo sugestivo:

– Que tenho eu com remédios, homem de pouca fé? O ar e o mato são as


minhas boticas.
Quis pedir socorro ao apóstolo; mas o mármore – ou a vista me engana, ou
o apóstolo gosta das suas pombas amigas, – o mármore sorriu e não voltou a
cara para desmentir o estatuário. Sorriu, e a pomba saltou-lhe à cabeça, para
lhe tirar comida, pagar, ou para lhe dar um beijo.
arazoia
Aqui empregada provavelmente no sentido de “arazoia”, variação de
“araçoia”: cinto de penas usado pelos índios do Brasil.

avant la lettre
Na tradução literal do francês: “Adiante de seu tempo.”

Carceler
Boulevar Carceler, como era conhecido o trecho da rua Primeiro de Março
com a rua do Ouvidor, no centro da cidade do Rio de Janeiro, por causa da
Confeitaria Carceler (a primeira sorveteria do Brasil) ali estabelecida.

águia de Patmos
A águia era o animal simbólico de João, de acordo com a visão do profeta
Ezequiel (Mateus-homem, Marcos-leão, Lucas-novilho). Patmos foi a ilha
onde João se encontrava desterrado e na qual teve “A visão da Revelação
da Pessoa de Jesus Cristo”(Apocalipse 1:9).

Gama
Provavelmente Vasco da Gama assustado diante de algum evento; não lhe
faltariam motivos em Os Lusíadas.
37. [essas notas… rasgadas, vi-as chegar catitas e
alegres]
01 DE NOVEMBRO DE 1896, A SEMANA

O cronista parece estar parodiando Goethe ao falar das alegres notas que
festejaram durante a noite, dormiram a sonhar com ouro, e acordaram surradas
e rasgadas. Às vésperas da encampação, o saldo dos excessos monetários era
o seguinte: nos vinte anos entre 1869 e 1889 a oferta de moeda oscilou entre
180 e 210 mil contos, com ligeira tendência ascendente. A inflação acumulada
nessas duas décadas foi de 17%. De 1889 a 1894, o papel-moeda emitido vai
de 206 a 712 mil contos (uma variação de 500 mil contos), onde permanecera
até o final de 1896. A inflação acumulada foi de aproximadamente 100% de
1889 a 1896. Os salários haviam crescido cerca de 40% entre 1869 e 1889
(uns vinte e poucos por cento em termos reais), e cerca de 50% entre 1889 e
1896, ou seja, uma perda real de 50%.1 A despeito da grande imprecisão dos
números para preços e salários, ainda que se pudesse dizer que a inflação foi
bem menor que a expansão monetária poderia sugerir, a erosão dos salários
reais dificilmente deixaria de ser impressionante como os números indicam. A
irritação com o custo de vida repousa sobre amplos motivos, e se sobrepõe ao
tom nostálgico, de festa terminada, que já prevalece há algum tempo. As
soluções dolorosas estão a caminho e virão em rápida sucessão a partir da
encampação das emissões, que é de dezembro, um mês depois.

OPÃO LONDRINO está tão caro como a nossa carne, e na Inglaterra não falta
ouro, ao que parece. Em compensação, se o pão dobrou de preço, os nossos
títulos baixaram mais, como se houvéssemos de pagar a diferença do valor do
trigo. Tudo afinal cai nas costas do pobre; digo pobre, não porque não sejamos
ricos de sobejo, mas é que a riqueza parada é como a ideia que o alfaiate de
Heine achava numa sobrecasaca: o principal é aventála e pô-la em ação.
Entretanto, não sendo verdade que o mal de muitos seja consolo, como quer o
adágio, importa-nos pouco ou nada que o pão custe caro em Londres, se nos
falta, além da carne, o ouro com quem mercá-la.
Se o mal dos outros não nos consola, é certo que a lembrança do bem dá
certa alma nova. Nestes dias de escasso dinheiro é doce reler aquele discurso
que o Dr. Ubaldino do Amaral proferiu no senado, no mês de agosto de 1892.
S. Exª analisou o projeto de um banco emissor, no qual havia este artigo: “Fica
o banco autorizado antecipadamente a fazer uma emissão de trezentos mil
contos de réis.” Escrevi por extenso a quantia, para que não escape algum
erro; mas, como a fileira dos algarismos dá mais na vista, aqui vai ela:
300.000:000$000. É um regimento; o 3, bem observado, parece o coronel; o
cifrão é o porta-bandeira. Valha-me Deus! Creio até que ouço a marcha dos
algarismos; leiam com ritmo: trezentos mil contos, trezentos mil contos,
trezentos mil contos…
É verdade que o senado, ouvindo a revelação do senador, exclamou
espantado: Santo Deus! O que não está claro é qual haja sido o sentimento da
exclamação. Assombro, decerto; mas vinha ele da imensidade da quantia, não
obstante andarmos, o senado e eu, afogados em milhões, ou era antes uma
expressão de escárnio por achar escassa a emissão antecipada? Trezentos mil
contos! Mas quem é que por aqueles tempos não tinha trezentos mil contos? Se
os não tinha, devia-os a alguém, que era a mesma coisa. Nem sei se era ainda
melhor devê-los que possuí-los.
Não me lembro bem agora do preço da carne e do pão; mas, qualquer que
fosse, como o dinheiro era infinitamente maior, não havia que gemer nem
suspirar, era só comer e digerir. Essas notas de bancos emissores, que por aí
andam surradas, rasgadas, emendadas, consertadas com pedacinhos de papel
branco, estavam na flor dos anos, novinhas em folha, com as letras ainda
úmidas do preto. Vi-as chegar, catitas e alegres, como donzelas que vão ao
baile para dançar, e dançaram que foi um delírio. Eram valsas, polcas,
quadrilhas de toda casta, francesas, americanas, de salteadores, toda a
coreografia moderna e antiga. Segundo aquela chapa que as gazetas trazem já
composta para concluir as notícias de festas, “as danças prolongaram-se até o
amanhecer”. As belas emissões foram dormir cansadas, sonhando com ouro,
muito ouro.
Recordar tudo isso com este câmbio a 8 e menos de 8, que uns acham
natural, outros postiço, não se pode dizer que não seja agradável. A memória
revive o espetáculo. Nem foi há tanto tempo que não ouçamos ainda os ecos da
orquestra e o rumor dos passos… Os espetáculos remotos dão o mesmo efeito,
mas a tristeza cede ainda mais à doçura, e a alma transporta-se quase
integralmente aos tempos acabados. Quero referir-me à narração que a Notícia
está fazendo de coisas antigas, não sei se por um, se por muitos colaboradores,
mas muitos que sejam, é certo que são todos homens maduros, se já não caíram
do pé.
Conta aquela folha as águas passadas desta cidade, com tal minudência,
que parece estar vendo-as. Quando eu era pequeno, conheci homens de certa
idade que, por tradição, falavam das águas do monte, um dilúvio que aqui
houve no tempo de D. João VI; afinal ninguém mais falou nelas, e foi um alívio
para aqueles outros mais velhos, que seriam pequenos quando elas caíram. A
cantiga popular ainda as conservou por anos; mas a cantiga seguiu e exemplo
das águas, e foi atrás delas. As que a Notícia revive nos últimos dias, são as
da primeira imprensa periódica e as do finado Alcazar.
Aquelas não são comigo; não conheci essa multidão de gazetas e
gazetinhas, cujos títulos hão de interessar os Taines do próximo século. Dão
eles a nota dos costumes e da polêmica. Quanto ao número, quase que era uma
folha para cada rua. Toda a gente sentia necessidade de dizer coisas
aborrecíveis ou agudas, divulgar alcunhas e mazelas, ou, para usar a expressão
vulgar e enérgica, “pôr os podres na rua a alguém”. Partidos, influências
locais, simples desocupados, simplíssimos maldizentes, vinham de mistura
com almas boas e chãs, que não inventaram folhas senão para ensaiar os voos
poéticos ou dizer em prosa palavrinhas doces às moças; doces não,
adocicadas.
As recordações do Alcazar estão mais perto, e são coisas sabidas; mas
não se trata só de coisas sabidas, trata-se também de cousas sentidas, que é
diferente; nestas é que as memórias velhas trajam roupas novas, e as árvores
secas e nuas reverdecem de repente, como sucede em outros climas. Talvez
aquela gente e aquelas cousas não valessem nada, como quer a Notícia, mas
lembrai-vos da pergunta de Dante… Não, não; deixemos os versos divinos do
poeta. O que eu queria dizer, era por alusão ao tempo da adolescência e da
mocidade, não só o dos dolci sospiri, como o da sua rima dubbiosi desiri.
Não caberia aqui contar como Francesca:
Questi che mai da me non fia diviso,

visto que o tempo e o cansaço, que são a melhor polícia das ruas desta vida,
dispersaram o ajuntado e desfizeram a multidão com pouco mais do que é
preciso para contá-lo aqui. Segredos da natureza.

Os dos homens são menos escuros, mas também duram menos. Ninguém
ignora que nesta cidade os segredos fazem a sua hora de rua do Ouvidor, todos
os dias, entre quatro e cinco. É uso antigo; raros se deixam estar em casa.
Ainda agora andaram por aí dois, acerca da operação do presidente da
República; um dizia que esta se faria depois do dia 7, outro que depois do dia
15 de novembro. Embora os dois virtualmente se desmentissem, não se
zangavam nem se descompunham; quando muito, piscavam o olho ao público,
dando de cabeça para o lado do contrário, sorrindo. Era esse modo de avisar:
“Não acreditem no que ele diz; é um boato disfarçado.” No mais, risonhos,
palreiros, falando uma ou outra vez ao ouvido, mas sem cochicho, no tom geral
da conversação.
Enquanto eles andavam na rua, às escâncaras, havia um terceiro segredo,
que não aparecia a ninguém, nem dizia palavra. Os outros dois chegaram a ir
às imediações do morro do Inglês; vi-os ambos, no próprio dia da operação, à
noite, em casa que fica pouco abaixo do morro, insistindo convencidamente
nas datas de 7 e de 15; mas já então a operação estava acabada, com o
resultado que sabemos. O grão de areia de Cromwell, por não vir a lume,
produziu os efeitos que Pascal resumiu em dez linhas do seu grande estilo; este
outro, maior que aquele, acertou de ser contemporâneo da cirurgia moderna, e
não complicou doença com política.
Heine
Christian Johann Heinrich Heine (1797-1856), poeta alemão e um dos mais
importantes do século XIX. Celebrado por sua poesia lírica, boa parte da
qual orquestrada por vários compositores célebres, como Schumann e
Wagner.

Dr. Ubaldino do Amaral


Ubaldino do Amaral Fontoura (1843-1920), senador em 1892 (renunciou ao
mandato para ocupar o cargo de ministro do Supremo Tribunal Federal em
1894), seria prefeito da cidade do Rio de Janeiro de novembro de 1897 a
novembro de 1898; ocupou ainda o cargo de diretor do Banco da República.

agosto de 1892
Assunto tratado na crônica de 7 de agosto de 1892, quando escreveu, a
propósito da emissão “temporária” de 300 mil contos: “Um abismo que se
abre aos pés do homem, um terremoto, um flagelo, um ciclone.”i

Taines
Referência a Hippolyte Adolphe Taine (1828-93), filósofo, crítico e
historiador francês, figura exponencial do positivismo e grande teórico do
naturalismo francês, autor de Les philosophes français du XIXe siècle,
Histoire de la littérature anglaise e De l’intelligence.

dolci sospiri
Na tradução literal do italiano: “doces suspiros.”

dubbiosi desiri
Na tradução literal do italiano: “desejos dúbios.”

diviso
Na tradução literal do italiano: “Este, que nunca seja-me apartado.” No
limbo, Dante dialoga com Francesca da Rimini, que narra as circunstâncias
de seu adultério com o cunhado Paolo Malatesta, que ocorreu, segundo
Francesca, porque liam o romance do rei Artur, exatamente na parte em que
a virtuosa rainha Guinevera é seduzida pelo leal e corajoso Lancelote.
operação do presidente
Por motivo de doença, o presidente Prudente de Morais afastou-se do cargo
entre 10 de novembro de 1896 e 4 de março de 1897, quando o vice-
presidente Manuel Vitorino Pereira assumiu a Presidência da República.

estilo
Refere-se a um comentário de Pascal sobre pequenas coisas que afetam os
destinos do mundo, como o nariz de Cleópatra e o “grão de areia” nas vias
urinárias de Cromwell, que resultou em sua morte.
38. [o contribuinte sou eu, és tu]
10 DE JANEIRO DE 1897, A SEMANA

A crônica trata de assunto fiscal na sua integralidade: é preciso contrair


dívida pública, para custear determinada obra, cuja necessidade resta
firmemente estabelecida no campo da saúde pública. O prefeito da cidade,
Furquim Werneck, que era médico, interessou-se particularmente pelos
assuntos de saúde pública e saneamento em uma cidade onde esses serviços
eram nada menos que caóticos. Na verdade, problemas como os de habitação
(os cortiços), abastecimento de água e esgoto, a saúde pública, o transporte,
tudo isso parecia prenunciar os grandes movimentos de renovação da
infraestrutura urbana que acometem várias capitais mundo afora, e também o
Rio.1 A crônica menciona um empréstimo para obras de saneamento que
acabou sem ser feito, e tampouco as obras executadas. Mas o cronista não
sabe disso, e discute o assunto na qualidade de contribuinte, pois o
empréstimo teria de ser pago gradualmente, por meio de mais impostos. No
Capítulo 16, numa crônica de agosto de 1892, o cronista não revelava
preocupação alguma com o deficit nas contas públicas, pois “não me incumbe
cobri-lo”. Com mais alguns anos de desajuste fiscal, financeiro e cambial, o
cronista parece perceber que é o “acionista” que há de pagar, via impostos,
maior custo de vida, ou “calote” em seu “dividendo”, vale dizer, no serviço
das apólices da dívida pública. Ou todas essas alternativas combinadas. Vale
registrar que o cronista parece deixar-se tributar por impostos de forma
aparentemente mais tranquila que através de inflação e desvalorização
cambial.

FALEMOS DE DOENÇAS, de mortes, de epidemias. Não é alegre, mas nem


todas as coisas o são, e algumas há mais melancólicas que outras. Estamos em
pleno estio, estação dos grandes obituários, que por ora não sobem da usual
craveira; morre-se como em maio ou setembro. A velha hóspede importuna
(não é preciso dizer o nome) ainda se não levantou da cama; pode ser até que
lá fique. Também há anos em que, por se levantar tarde, não come menos,
ainda que mais depressa; mas esperemos o melhor.
Apesar de tudo, o conselho municipal votou, creio eu, a lei do empréstimo
de saneamento. Não afirmo que sim nem que não, porque é mui difícil para
mim extrair de um longo debate o que é que realmente se votou ou não votou.
Quando os vereadores falavam uns para os outros, e só eram conhecidos cá
fora os votos coletivos, poder-se-iam ter presentes as leis, então chamadas
posturas, e mal chamadas assim. As galinhas não põem silenciosamente os
ovos; cacarejam sempre. Ora, os vereadores punham calados as suas leis.
Também não se lhes sabia a opinião, e podiam pensar diversamente no
princípio e no fim de agosto, conquanto fossem firmes todo o ano; mas
podiam. Agora que, por uma razão justa, os discursos são apanhados,
impressos, postos em volume, tudo se sabe do debate, o que é dele e o que não
é. Mas vá um homem tomar pé no meio de tantas orações!
Demais, o contribuinte, bem examinado, não quer saber de orçamentos nem
de empréstimos. O contribuinte sou eu, és tu; tu és um homem que gostas de
dizer mal, de ler veementes discursos, mormente se trazem muitos apartes e
não tratam da matéria em discussão, espírito fluido, avesso às asperezas de
imposto e às realidades da soma. Deem-nos bons debates, algum escândalo,
meia dúzia de anedotas, e o resto virá. Ninguém se há de negar a pagar os
impostos. Quando forem muitos e grossos, que tornem a vida cara, farão o
ofício do calor e da trovoada, que é dar princípio às conversações de pessoas
que não tenham outra coisa que dizer. Iniciada a palestra, desaparecem.
Creio, porém, que está votado o empréstimo. Dado que sim, convirá
proceder já às obras, ou será melhor esperar que o mal comece? Tudo está em
saber o que é o mal. Aparentemente é só aquela visita de 1850, que ainda não
saiu cá de casa, por mais que recorramos às superstições da terra contra os
cacetes; mas bem pode ser que haja outro: a arteriosclerose. Já se morre muito
desta doença. Há coisa de dez ou quinze anos ninguém conhecia aqui
semelhante flagelo, nem de figura, nem sequer de nome. Não conseguira
transpor a barra: não pensava sequer nisso. Um dia, caiu não se sabe donde e
pegou um descuidado, que não resistiu e foi para o obituário entre uma vítima
de tuberculose e outra de tifo; estava em casa. Daí para cá, a arteriosclerose
tem feito as suas vítimas certas. Outras doenças podem matar ou aleijar, e
também podem não fazer nada, não aparecer sequer; aquela é segura. É
sorrateira. Uma pessoa adoece, não mostra de quê, por mais que se investigue,
apalpe, analise; dá-se-lhe tudo, contra vários males, e a vida diminui, diminui,
até que se vai inteiramente. Só então o terrível mal põe a orelha de fora, e
passa um defunto para o cemitério com esta pecha de haver dissimulado a
causa da morte, última e mais hedionda das hipocrisias.
O que há de pior nessa moléstia, não é decerto o nome. O nome é bonito, é
científico, não é de pronúncia fácil, e dito de certo modo pode matar por si
mesmo. Ora, é sabido que os nomes valem muito. Casos há em que valem tudo.
Na política é que se vê o valor que podem ter as palavras, independente do
sentido. Agora mesmo veio um telegrama não sei de que Estado, tratando das
últimas eleições. Conta fatos condenáveis, atos de violência e de fraude, e,
referindo-se ao governo do Estado, chama-lhe nefasto. Ninguém ignora o que
é um telegrama, tudo se paga. Todos sabem que há adjetivos trágicos, próprios
da grande correspondência, das proclamações, dos artigos de fundo,
impróprios da via telegráfica. Nefasto parece estar nesse caso. É palavra
grossa, enérgica, expressiva – um tanto gasta, é possível, como bandido e
perverso; mas sempre serve. Por mais gasto que esteja, nefasto tem ainda certo
vigor; maior uso tem perverso, e há muito quem o empregue com bom êxito.
Bandido, que é o mais surrado dos três, tem na harmonia das sílabas alguma
coisa que lhe compensa o uso; e não é a qualquer que se lança este nome de
bandido. Tu não és bandido; eu não sou bandido.
Pois, meu amigo, o correspondente não hesitou em mandar nefasto pelo
telégrafo. Tal é o efeito de um adjetivo de certa gravidade. A suposição de que
o telégrafo só conta e resume os fatos, vê-se que é gratuita. Também as paixões
andam por ele, e as paixões não se exprimem com algarismos e sílabas soltas
e pecas. Paixões são paixões. Chamam nefasto ao nefasto, sublime ao sublime,
e não olham a dinheiro para transmitir o termo próprio. Se se há de falar de um
governo adverso sem se lhe chamar nefasto, também não se poderá dizer de
um governo amigo que é benemérito; não se poderá dizer nada. O telégrafo
fica sendo um serviço sem explicação, sem necessidade, mero luxo, e, em
matéria de administração, luxo e crime são sinônimos. Tanto não é assim, que
esta mesma semana tivemos outra amostra de telegramas. Li alguns que, depois
de qualificarem certo ato com palavras duras e cortantes, concluíam por
chamá-lo inqualificável. Dois ou três, ao contrário, começam por declará-lo
inqualificável, e acabam dando-lhe as devidas qualificações – tudo por
eletricidade, que é instantâneo. A contradição é só aparente; inqualificável
aqui é um termo superlativo, cúmulo dos cúmulos, uma coisa que encerra
todas as outras. Sem esta faculdade de fazer estilo, o telégrafo não passaria de
um edital de praça, quando o que lhe cumpre é ser catálogo de leilão.
Tudo isto veio a propósito de quê? Ah! Sa arteriosclerose. Dizia eu que o
pior desta moléstia não é o nome. Em verdade, o pior é que ninguém lhe
escapa. Não conheço pessoa que diga de si haver estado muito mal de uma
arteriosclerose; o enfermo sabe da enfermidade quando a notícia da morte está
no obituário, e os obituários publicam-se com alguma demora. É mal
definitivo. Talvez conviesse fazer escapar alguns atacados, ainda que por
poucos meses, um ou dois anos. Não é muito, mas a maior parte da gente,
tendo de escolher entre morrer agora ou em 1899, prefere a segunda data,
quando menos com o pretexto de ver acabar o século. É uma ideia; um
específico contra a arteriosclerose, não salvando a todos, mas uns cinco por
cento, podia muito bem ser aplicado, sem deixar de enriquecer o inventor, que
afinal também há de morrer.
Realmente estou demasiado lúgubre. On ne parle ici que de ma mort, diz
um personagem de não sei que comédia. Sacudamos as asas; fora com a poeira
de cemitério. Venhamos à vida, ao saneamento. Uma folha estrangeira
perguntava há pouco quais eram as duas condições essenciais da salubridade
de uma cidade, e respondia a si mesma que eram a água corrente em
abundância e a eliminação rápida dos resíduos da vida. Depois, com um riso
escarninho, concluía que tudo estava achado há vinte séculos pelos romanos. E
lá vinham os famosos aquedutos… Mas, entre nós, os aquedutos, com o trem
elétrico por cima, dão a imagem de um progresso que os romanos nem podiam
sonhar. E quanto aos banhos, não há de que se orgulhem os antigos. O tal
chafariz da Carioca tem lavado muito par de pernas, muito peito, muita
cabeça, muito ventre; na menor das hipóteses, muito par de narizes. Não tem
nome de banho público, mas what’s in a name?, como diz a divina Julieta.
craveira
Termo aqui empregado no sentido de estalão ou padrão para se medir o
tamanho dos cadáveres, para lhes achar o correto modelo de caixão.

pecas
Aqui empregado no sentido de definhadas, murchas.

que de ma mort
Na tradução literal do francês: “não falemos senão de minha morte.”

chafariz da Carioca
Deu nome ao largo e recebeu a denominação por acolher, em sua
inauguração primeira, em 1723, água das nascentes do rio Carioca. Foi a
primeira grande obra de engenharia executada na cidade do Rio de Janeiro.
Em 1750, foi substituído por um outro, abastecido pelos aquedutos que
vinham do morro de Santa Teresa, e em 1848 deu lugar a um terceiro
chafariz, projetado pelo arquiteto Grandjean de Montigny, e demolido em
1925.

what’s in a name?
Na tradução literal do inglês: “o que há em um nome?”, da peça Romeu e
Julieta, de Shakespeare.
39. [o acionista … é … credor de dividendo]
4 DE NOVEMBRO DE 1900, A SEMANA

A série “A Semana” foi interrompida em 28 de fevereiro de 1897.


Posteriormente, Machado escreveu apenas duas crônicas adicionais para a
série: a que se segue e outra em 11 de novembro. A crônica de 4 de novembro,
a penúltima, serve como uma magnífica despedida para esta antologia, e
mesmo para “A Semana”, pois parece completar a jornada do acionista. Com
efeito, o acionista reaparece numa assembleia, ocorrida trinta anos antes, do
Banco Rural e Hipotecário, que encerrara atividades naquela semana. Ainda
mais antigo que o Rural, que nascera em 1854, era o outro falecido da semana,
o sineiro da Igreja da Glória, um ex-escravo cedido à igreja em 1853, e que
badalou por todos os eventos posteriores, terremotos e revoluções, sem as
distinguir; além de batizados, casamentos e passagem do ano. Machado
escreveu crônicas para uma série denominada “Badaladas”, e em “Bons
Dias!” indicou que o autor era um ex-relojoeiro, de nome Policarpo, talvez,
como o cronista, insatisfeito com o fato de os relógios andarem mais rápido
desde a Guerra do Paraguai, como dizia. O acionista-cronista não mudou nada
em seu modo de perceber sua condição; certos princípios são eternos, diz o
cronista. O mesmo não pode ser dito sobre os bancos: o BRB, assim como o
Rural, tinha sofrido corridas em 12 de setembro de 1900, e nesse mesmo dia
fechou seus guichês. Logo em seguida, em 20 de setembro, uma nova lei
estabelecia um regime de estatização de facto do BRB: seus débitos foram
saldados com títulos do governo, que nomeou todos os diretores, que se
puseram a liquidar o banco. Um regime de liquidação semelhante foi criado
para os outros bancos, o Rural inclusive, e este, e mais alguns outros
decidiram, nesses termos, encerrar a sua existência.1 O Banco do Brasil, tal
como o conhecemos hoje, foi fundado em 1905, a partir dos destroços do
BRB.
ENTRE TAIS E TÃO TRISTES casos da semana, como o terremoto de
Venezuela, a queda do Banco Rural e a morte do sineiro da Glória, o que mais
me comoveu foi o do sineiro.
Conheci dois sineiros na minha infância, aliás três – o Sineiro de S.
Paulo, drama que se representava no teatro S. Pedro –, o sineiro da Notre
Dame de Paris, aquele que fazia um só corpo, ele e o sino, e voavam juntos,
em plena idade média, e um terceiro, que não digo, por ser caso particular. A
este, quando tornei a vê-lo, era caduco. Ora, o da Glória, parece ter lançado a
barra adiante de todos.
Ouvi muita vez repicarem, ouvi dobrarem os sinos da Glória, mas estava
longe absolutamente de saber quem era o autor de ambas as falas. Um dia
cheguei a crer que andasse nisso eletricidade. Esta força misteriosa há de
acabar por entrar na igreja e já entrou, creio eu, em forma de luz. O gás
também já ali se estabeleceu. A igreja é que vai abrindo a porta às novidades,
desde que a abriu à cantora de sociedade ou de teatro, para dar aos solos a
voz de soprano, quando nós a tínhamos trazida por D. João VI, sem despir-lhe
as calças. Conheci uma dessas vozes, pessoa velha, pálida e desbarbada;
cantando, parecia moça.
O sineiro da Glória é que não era moço. Era um escravo, doado em 1853
àquela igreja, com a condição de a servir dois anos. Os dois anos acabaram
em 1855, e o escravo ficou livre, mas continuou o ofício. Contem bem os anos,
quarenta e cinco, quase meio século, durante os quais este homem governou
uma torre. A torre era ele, dali regia a paróquia e contemplava o mundo.
Em vão passavam as gerações, ele não passava. Chamava-se João. Noivos
casavam, ele repicava às bodas; crianças nasciam, ele repicava ao batizado;
pais e mães morriam, ele dobrava aos funerais. Acompanhou a história da
cidade. Veio a febre amarela, o cólera-morbo, e João dobrando. Os partidos
subiam ou caíam, João dobrava ou repicava, sem saber deles. Um dia
começou a guerra do Paraguai, e durou cinco anos; João repicava e dobrava,
dobrava e repicava pelos mortos e pelas vitórias. Quando se decretou o ventre
livre das escravas, João é que repicou. Quando se fez a abolição completa,
quem repicou foi João. Um dia proclamou-se a República, João repicou por
ela, e repicaria pelo império, se o império tornasse.
Não lhe atribuas inconsistência de opiniões; era o ofício. João não sabia
de mortos nem de vivos; a sua obrigação de 1853 era servir à Glória, tocando
os sinos, e tocar os sinos, para servir à Glória, alegremente ou tristemente,
conforme a ordem. Pode era até que, na maioria dos casos, só viesse a saber
do acontecimento depois do dobre ou do repique.
Pois foi esse homem que morreu esta semana, com oitenta anos de idade. O
menos que lhe podiam dar era um dobre de finados, mas deram-lhe mais; a
Irmandade do Sacramento foi buscá-lo à casa do vigário Molina para a igreja,
rezou-se-lhe um responso e levaram-no para o cemitério, onde nunca jamais
tocará sino de nenhuma espécie; ao menos, que se ouça deste mundo.

Repito, foi o que mais me comoveu dos três casos. Porque a queda do
Banco Rural, em si mesma, não vale mais que a de outro qualquer banco. E
depois não há bancos eternos. Todo banco nasce virtualmente quebrado; é o
seu destino, mais ano, menos ano. O que nos deu a ilusão do contrário foi o
finado Banco do Brasil, uma espécie de sineiro da Glória, que repicou por
todos os vivos, desde Itaboraí até Dias de Carvalho, e sobreviveu ao Lima,
ao “Lima do Banco”. Isto é que fez crer a muitos que o Banco do Brasil era
eterno. Vimos que não foi. O da República já não trazia o mesmo aspecto; por
isso mesmo durou menos.
Ao Rural também eu conheci moço; e, pela cara, parecia sadio e robusto.
Posso até contar uma anedota, que ali se deu há trinta anos e responde ao
discurso do Sr. Júlio Ottoni. Ninguém me contou; eu mesmo vi com estes olhos
que a terra há de comer, eu vi o que ali se passou há tanto tempo. Não digo que
fosse novo, mas para mim era novíssimo.
Estava eu ali, ao balcão do fundo, conversando. Não tratava de dinheiro,
como podem supor, posto fosse de letras, mas não há só letras bancárias;
também as há literárias, e era destas que eu tratava. Que o lugar não fosse
propício, creio; mas, aos vinte anos, quem é que escolhe lugar para dizer bem
de Camões?
Era dia de assembleia geral de acionistas, para se lhes dar conta da gestão
do ano ou do semestre, não me lembra. A assembleia era no sobrado. A pessoa
com quem eu falava tinha de assistir à sessão, mas, não havendo ainda número,
bastava esperar cá embaixo. De resto, a hora estava a pingar. E nós falávamos
de letras e de artes, da última comédia e da ópera recente. Ninguém entrava de
fora, a não ser para trazer ou levar algum papel, cá de baixo. De repente,
enquanto eu e o outro conversávamos, entra um homem lento, aborrecido ou
zangado, e sobe as escadas como se fossem as do patíbulo. Era um acionista.
Subiu, desapareceu. Íamos continuar, quando o porteiro desceu
apressadamente.
– Sr. secretário! Sr. secretário!
– Já há maioria?
– Agora mesmo. Metade e mais um. Venha depressa, antes que algum saia,
e não possa haver sessão.
O secretário correu aos papéis, pegou deles, tornou, voou, subiu, chegou,
abriu-se a sessão. Tratava-se de prestar contas aos acionistas sobre o modo
por que tinham sido geridos os seus dinheiros, e era preciso espreitá-los,
agarrá-los, fechar a porta para que não saíssem, e ler-lhe à viva força o que se
havia passado. Imaginei logo que não eram acionistas de verdade; e, falando
nisto a alguém, à porta da rua, ouvi-lhe esta explicação, que nunca me
esqueceu:
– O acionista, disse-me um amigo que passava, é um substantivo
masculino, que exprime “possuidor de ações” e, por extensão, credor dos
dividendos. Quem diz ações diz dividendos. Que a diretoria administre, vá,
mas que lhe tome o tempo em prestar-lhe contas, é demais. Preste dividendos;
são as contas vivas. Não há banco mau se dá dividendos. Aqui onde me vê,
sou também acionista de vários bancos, e faço com eles o que faço com o júri,
não vou lá, não me amolo.
– Mas, se os dividendos falharem?
– É outra coisa; então cuida-se de saber o que há.
Pessoa de hoje, a quem contei este caso antigo, afirmou-me que a pessoa
que me falou, há trinta anos, à porta do Rural, não fez mais que afirmar um
princípio, e que os princípios são eternos. A prova é que aquele ainda agora o
seria, se não fosse o incidente da corrida e dos cheques há dois meses.
– Então, parece-lhe…?
– Parece-me.
Quanto ao terceiro caso triste da semana, o terremoto de Venezuela,
quando eu penso que podia ter acontecido aqui, e, se aqui acontecesse, é
provável que eu não tivesse agora a pena na mão, confesso que lastimo
aquelas pobres vítimas. Antes uma revolução. Venezuela tem vertido sangue
nas revoluções, mas sai-se com glória para um ou outro lado, e alguém vence,
que é o principal; mas este morrer certo, fugindo-lhes o chão debaixo dos pés,
ou engolindo-os a todos, ah!… Antes uma, antes dez revoluções, com trezentos
mil diabos! As revoluções servem sempre aos vencedores, mas um terremoto
não serve a ninguém. Ninguém vai ser presidente de ruínas. É só trapalhada,
confusão e morte inglória. Não, meus amigos. Nem terremotos nem bancos
quebrados. Vivam os sineiros de oitenta anos, e um só, perpétuo e único
badalo!
terremoto
Ocorrido naquela semana, teve forte repercussão mundial.

Sineiro de S. Paulo
Sineiro de S. Paulo, peça francesa, de autor não identificado, traduzida para
o português, em Portugal, por João Baptista Ferreira e nesta versão
encenada no Brasil.

de Paris
O popular Quasímodo, de O corcunda de Notre Dame, romance de autoria
de Victor Hugo (1802-1885), publicado em 1831.

responso
Aqui empregado no sentido de versículos cantados ou rezados
alternativamente por dois coros.

Itaboraí
Joaquim José Rodrigues Torres, visconde de Itaboraí (1802-1872),
jornalista e político, primeiro presidente da Província do Rio de Janeiro,
presidente do Banco do Brasil, ministro da Marinha, ministro da Fazenda,
conselheiro de Estado e senador do Império.

Dias de Carvalho
José Pedro Dias de Carvalho (1808-1881), jornalista e político, foi também
presidente do Banco do Brasil, ministro da Fazenda, conselheiro de Estado
e senador do Império.

incidente
Referência ao fato de que, durante a corrida bancária do dia 12 de setembro
de 1900, sofrida pelo BRB, o banco pagou depositantes com cheques
visados.
40. [o testamento]

Os testamentos ocupam lugar de destaque na obra ficcional de Machado de


Assis, como observa Magalhães Júnior,1 mas o verdadeiro testamento de
Machado foi muito simples. Ao longo desta antologia o leitor talvez tenha
entretido a ideia que o acionista pudesse ter ultrapassado os limites da
alegoria. Com efeito, em fevereiro de 1888, quando Malvólio confessa-se
acionista do Banco do Brasil, o leitor teria amplos motivos para pensar que o
cronista era, de fato, também acionista, como discutimos demoradamente no
Prefácio. Lucia Miguel Pereira observa que, nos últimos anos do Império,
Machado “já tinha então algumas economias, poderia ter comprado casa.
Parece mesmo ter pensado nisso; mas preferiu não fazê-lo, temendo que,
vendo-lhe próspero, pudessem os outros suspeitar de sua honestidade”.2 Se
não comprou a casa, onde colocou suas economias? Não seria nada estranho
que Malvólio estivesse dizendo a verdade. Os fingidores, às vezes, fingem o
que deveras sentem. Mas a verdade estava bem próxima: o acionista-cronista
escreveu o seu primeiro testamento em julho de 1898, “quando aos cinquenta e
nove anos começou a pressentir a aproximação da morte”,3 e ali deixou
consignado que o principal item de seu patrimônio era o conjunto de sete
apólices do empréstimo de 1895, 7 contos de réis, que deixava para sua
herdeira universal, sua esposa Carolina. Mais tarde, em maio de 1906, com a
morte de Carolina, Machado fez novo testamento, no qual declarava possuir
12 apólices, do empréstimo de 1895 e outras, algumas dessas correspondentes
aos juros do período, pagos com novas apólices. A trajetória desse patrimônio
nos anos que se seguiram foi nada menos que trágica para quem dele
necessitasse para a sua renda corrente. Em 1896 e 1897, Machado recebeu
cerca de 700 mil-réis de juros e cerca de 11 mil-réis de amortização, e
ficamos praticamente nisso: os pagamentos foram suspensos de 1898 a 1910,
restabelecidos apenas entre 1911 e 1913, e novamente alcançados por uma
segunda moratória em 1914.4 Os pagamentos permaneceram suspensos até
1927, quando reiniciaram e continuaram até 1931, quando novamente foram
suspensos. Nos 40 anos entre 1895 e 1935, menos de 18% do empréstimo foi
amortizado, e os juros foram pagos apenas em 12 anos. Um acordo conhecido
como “Esquema Aranha” teria início em 1934, o que permitiu alguns
pagamentos, interrompidos por um default completo em 1937 e, em seguida,
em 1943, uma renegociação resultou em pagamentos, mas também em
substanciais descontos.5 Independentemente, a inflação já havia devastado o
que havia sobrado. Como observado no Capítulo 1 a propósito das apólices
do empréstimo de 1883, em 1967 o valor dessas “dívidas velhas” era tão
insignificante que o governo foi autorizado por um decreto a resgatar a
totalidade dos juros e amortizações, mas poucos credores apareceram para o
resgate: as cautelas desses empréstimos valiam mais como objeto de
decoração. Machado faleceu em 1908, quando a ortodoxia financeira,
combinada à bonança cafeeira, já tinham recolocado o Brasil no padrão ouro à
paridade de 15 pence por mil-réis. Mas a menina Laura, sua herdeira pelo
testamento de 1906, não poderia ser rentista, ou “acionista”, como seu
benfeitor. Tinham acabado os belos dias de Aranjuez.

TESTAMENTO DE 30 DE JULHO DE 1898

Em nome de Deus, amém.


Eu, Joaquim Maria Machado de Assis, morador à rua do Cosme Velho, nº
18, querendo fazer o meu testamento, efetivamente o faço, para que se cumpra
e guarde como expressão da minha derradeira vontade, nos termos seguintes:
Sou natural da cidade do Rio de Janeiro, tendo aqui nascido a 21 de junho
de 1839, filho legítimo de Francisco José de Assis e de Maria Leopoldina
Machado de Assis. Sou casado com Carolina Augusta de Novais Machado de
Assis, filha legítima de Antonio Luís de Novais e de Custódia Emília Xavier
de Novais, natural da cidade do Porto, reino de Portugal.
Declaro que sou possuidor de sete apólices do empréstimo de 1895 do
valor de um conto de réis cada uma, e uma da dívida pública do mesmo valor,
de cinco ações da Sociedade Anônima “Gazeta de Notícias” do valor de
duzentos mil-réis cada uma, e da quantia de três contos e setenta e nove mil
seiscentos e sessenta e três réis, que tenho depositada na Caixa Econômica, em
caderneta n. 14.304, (2ª série), e que de todos esses títulos e quantias, bem
como da propriedade das minhas obras publicadas e por publicar, dos meus
móveis e livros, deixo por minha única e universal herdeira a minha dita
mulher.
Outrossim, declaro que sou contribuinte do Montepio obrigatório, criado
pelo Decreto n. 942-A de 31 de outubro de 1890, como diretor-geral adido da
Secretaria de Estado dos Negócios da Indústria, Viação e Obras Públicas do
Ministério da Indústria, Viação e Obras Públicas, e que à dita minha mulher,
em virtude da declaração que oportunamente fiz, de acordo com o art. 27
daquela instituição, destino o proveito que possa e haja de resultar das
contribuições realizadas.
Nomeio meus testamenteiros, em primeiro lugar a dita mulher, em segundo
lugar ao meu amigo Visconde de Thayde, e em terceiro lugar ao meu compadre
Capitão Bonifácio Gomes da Costa.
Salvo o caso de necessidades judiciais, não desejo que este meu
testamento seja divulgado nas folhas públicas.
E assim termino este meu testamento, que vai escrito de meu próprio
punho, e é por mim assinado.

Rio de Janeiro, 30 de julho de 1898.


Jm.M. Machado de Assis
Casa de Machado de Assis, no Cosme Velho.

TESTAMENTO DE 31 DE MAIO DE 1906

Eu, Joaquim Maria Machado de Assis, morador à rua do Cosme Velho, nº 18,
querendo fazer o meu testamento, efetivamente o faço, para que se cumpra e
guarde como expressão da minha derradeira vontade, nos termos seguintes:
Sou natural da cidade do Rio de Janeiro, tendo aqui nascido a 21 de junho
de 1839, filho legítimo de Francisco José de Assis e de Maria Leopoldina
Machado de Assis, ambos falecidos.
Fui casado, desde 12 de novembro de 1869 com Carolina Augusta de
Novais Machado de Assis, filha legítima de Antônio Luís de Novais e de
Custódia Emília Xavier de Novais, natural da cidade do Porto, reino de
Portugal, a qual faleceu em 20 de outubro de 1904, e está sepultada no
cemitério de S. João Baptista.
Declaro que, por ocasião da morte de minha mulher, fiz partilha amigável
com minha cunhada Adelaide Xavier de Novais e sobrinhos Sara Braga da
Costa, Arnaldo Artur Ferreira Braga e Ariosto Arcádio de Novais Braga.
Inutilizei o testamento que havia feito em 30 de julho de 1898, aprovado pelo
tabelião Pedro Evangelista de Castro, o qual instituía minha única e universal
herdeira a dita minha mulher.
Declaro que sou possuidor de (12) doze apólices gerais da dívida pública
do valor de um conto de réis cada uma e do juro de 5% ao ano, de números
197.635, 197.636, 197.637, 197.638, 197.639, 197.640, 197.641, 197.642,
197.643, 197.644, 197.645, 197.646, as quais se acham depositadas no
London and Brasilian Bank, Limited. Possuo também algum dinheiro
depositado em conta corrente no mesmo banco e várias quantias recolhidas à
Caixa Econômica em caderneta n. 14.304 (2ª série).
Das doze apólices citadas, dos dinheiros recolhidos à Caixa Econômica e
dos depositados no London Bank and Brasilian Bank, Limited, dos meus
móveis, livros e demais objetos a mim pertencentes nomeio herdeira a menina
Laura, filha da minha sobrinha e comadre Sara Braga da Costa e de seu esposo
e meu compadre Major Bonifácio Gomes da Costa.
A propriedade das minhas obras literárias pertence ao meu editor H.
Garnier, rua do Ouvidor nº 71, Rio de Janeiro e rue des Saints-Pères, nº 6,
Paris.
Desejo ser enterrado na mesma sepultura de minha mulher, cemitério de S.
João Batista, nº 1.359, jazigo perpétuo.
Salvo o caso de necessidades judiciais, não desejo que este meu
testamento seja divulgado nas folhas públicas.
Nomeio meus testamenteiros, em primeiro lugar o dito meu compadre
Major Bonifácio Gomes da Costa, em segundo lugar o meu amigo Dr. Heitor
Basto Cordeiro e em terceiro lugar o meu amigo Julien Lansac, gerente da
Casa Garnier.
E assim termino este meu testamento, que vai escrito de meu próprio
punho, e é por mim assinado.

Rio de Janeiro, 31 de maio de 1906.


Jm. M. Machado de Assis

Carolina, mulher de Machado.


NOTAS

PARTE I Introdução
A crônica do tempo
1. A crônica machadiana começa em 1858, em O Paraíba (de Petrópolis),
para o qual escreveu até 1859. Seguiu-se a colaboração para o Correio
Mercantil (1859-64) e para O Espelho (1859-60); para o Diário do Rio de
Janeiro (1860-63: “Comentários da Semana”; 1864-67: “Ao acaso”), O futuro
(1862-63), A Semana ilustrada (1865-75: “Crônicas do dr. Semana”,
“Correio da semana”, “Novidades da semana”, “Pontos e vírgulas” e
“Badaladas”), Illustração Brasileira (1876-78: “Histórias de 15 dias”,
“Histórias de 30 dias”), O Cruzeiro (1878: “Notas Semanais”), Revista
Brasileira (1879), Gazeta de Notícias (1881-1900: “Balas de estalo”,
“Gazeta de Hollanda”, “Bons dias!” e “A semana”) e para a Imprensa
Acadêmica (1888).
2. J. Gledson in J.M. Machado de Assis, Bons dias! Crônicas, 1990, p.12.
3. Ibid., p.11.
4. Idem.
5. Sobre isso, ver L. Lopes, Machado de A a X, p.89-90.
6. G. Betella, Bons dias!, p.58.
7. J. Gledson, Por um novo Machado de Assis, p.209.
8. R. Faoro, Machado de Assis: a pirâmide e o trapézio, p.3.
9. Ibid., p.486.
10. Crônica de 28 de agosto de 1892: J.M. Machado de Assis, A semana:
crônicas, p.111.
11. G. Betella, op.cit., p.12-4.
12. H. Bloom, Hamlet poema ilimitado, p.686-93.
13. E. Duarte (org.), Machado de Assis, p.7.
14. J. Gledson, Machado de Assis, p.149-50.
15. J. Gledson, op.cit., p.151.
16. J. Gledson (in J.M. Machado de Assis, Bons dias!, p.23) limita-se a
mencionar que “após o Encilhamento, o assunto se tornaria uma obsessão”.
Faoro (R. Faoro, Machado de Assis, p.250), todavia, avança um tanto mais ao
associar, ainda que de modo superficial e indicativo, o acionista ao Estado.
17. L. Pereira, Machado de Assis, p.187.
18. J.M. Machado de Assis, Obras completas, Cap.14.
19. R. Faoro, Machado de Assis, p.215.
20. Ibid., p.219-20.
21. Como o definiu o próprio visconde de Ouro Preto (em V. de Ouro
Preto, A década da República, p.86).
22. R. Faoro, Machado de Assis, p.204.
23. Ibid., p.24.
24. Ibid., p.204.
25. Ibid., p.259.
26. Ibid., p.252.
27. J. Caldeira, A nação mercantilista, p.391.
28. J. Gledson, Machado de Assis, p.72. Lembrar que Quincas Borba
começou a ser escrito sob o formato de folhetins em 1886 e teve sua versão
final, depois de diversas interrupções, apenas em 1891.
29. J. Gledson, Por um novo Machado de Assis, p.142-3. Como o leitor
verá, a série era “assinada” pelo cumprimento “Boas noites!”. Em vários de
seus textos o cronista se apresenta como um ex-relojoeiro, de nome Policarpo,
nascido em 1826, como explicado em R. Magalhães Júnior, Diálogos e
reflexões, p.5.
30. J. Gledson in J.M. Machado de Assis, Bons dias!, p.20.
31. Destacadamente através do estudo de S. Stein, Origens e
evolução,1979 [1957]; e mais especificamente o de A. Fishlow, Origens e
consequências, 1972. Ver também H. Lima, História política e econômica,
1976; e mais recentemente o de W. Suzigan, Indústria brasileira,1986.
32. Wilson Martins, em sua História da Inteligência Brasileira, observa
que o livro de Taunay é, ao mesmo tempo, “o grito de revolta de uma vítima,
de um dos esfolados”; “a vingança amarga do monarquista contra os vitoriosos
do novo regime”; a expressão da “mentalidade arcaica resistindo às
transformações inevitáveis do progresso” e ao “impulso modernizador e
industrializante”; e, ainda, o inconformismo “não tanto com a imoralidade da
nova classe”, mas com “uma nova moralidade que então se formulava”. Ver
M.M. Moreira, em seu prefácio a N. Carvalho, O Encilhamento, p.13. Ver
também M.B. Levy, “O Encilhamento”, em p.Neuhaus (org.), Economia
brasileira, 1980.
33. Ver M.M. Moreira, em seu prefácio a N. Carvalho, op.cit., p.18.
34. Sobre isso, ver J.M. Carvalho, Os bestializados, p.24.
35. R. Faoro, Machado de Assis, p.7.
36. Ibid., p.266.
37. Ibid., p.266.
38. Idem.
39. Ibid., p.398.
40. M. Berman, Tudo que é sólido desmancha no ar, p.71-3.
41. J. Gledson in J.M. Machado de Assis, A semana, 1996.
42. R. Faoro, Machado de Assis, p.262.
43. Ibid., p.265.
44. Ibid., p.268.
45. Ibid., p.265.
46. J.M. Carvalho, Os bestializados, p.26-7.
47. R. Faoro, Machado de Assis, p.52.
48. J. Gledson, Por um novo Machado de Assis, p.222.
49. J. Gledson in J.M. Machado de Assis, A semana, p.22.
50. R. Faoro, Machado de Assis, p.210.
51. Em A Semana Ilustrada, de 1865 a 1873.

Aspectos editoriais da coletânea


1. J. Gledson, Machado de Assis, p.121.
2. J. Gledson, Por um novo Machado de Assis, p.208.
3. Magalhães Júnior., 1958.
4. J. Gledson, Por um novo Machado de Assis, p.32.
5. Plínio Doyle, 1959.

PARTE II O olhar oblíquo do acionista


1. uma lambujem ao intermediário

De texto
1. As condições não eram boas em relação a empréstimos seguintes. Em
1886, com juros de 5%, o preço foi de 95%. Em 1888, a 4,5%, o preço foi de
97%. Os valores para os empréstimos de 1886 e 1888 foram idênticos – £ 6
milhões – e as “lambujens” menores, ambas de 1,25%. (L.C. Carreira,
História financeira, p.569-71.)
2. V.F. Bouças, História da dívida externa, p.369.

De comentário
i. Sobre isso, ver A.C.R. de Andrada, Bancos de emissão, p.358-9; e A.
Guanabara, A Presidência Campos Salles, p.189.
ii. M.F. Campos Salles, Da propaganda à Presidência, p.202.
iii. Magalhães Júnior em seu prefácio a: J.M. Machado de Assis, Crônicas
do Lélio, p.3.
iv. J.M. Machado de Assis, Obras completas, vol.15, p.133-4; e
especialmente em Memórias póstumas de Brás Cubas, cap.88 (“O enfermo”).
v. Sobre isso, ver J.M. Machado de Assis, Obras completas, vol.5, p.244.

2. o carneiro … acionista

De texto
1. R. Faoro, Machado de Assis, p.183, 250s.

3. equinócio do dividendo

De texto
1. Anísio Salatiel Carneiro da Cunha, deputado pela Paraíba, engenheiro e
empresário que em 1871 recebeu, da princesa Isabel, juntamente com Diogo
Cavalcanti de Albuquerque e André Rebouças, o privilégio de construir e
explorar a estrada de ferro ligando a sede da província da Paraíba à vila de
Alagoa Grande. A concessão foi posteriormente transferida a The Conde d’Eu
Railway Company Limited, formada em Londres em 1875, que acabou não
indo adiante com a ferrovia.
2. C. Pacheco, História do Banco do Brasil, p.213-4.
De comentário
i. Sobre isso, ver A. Cândido, “Esquema Machado de Assis”, p.27.
ii. Sobre isso, ver J.M. Wisnik, “Machado maxixe”, p.17.
iii. R. Magalhães Júnior, Machado de Assis desconhecido, p.214-5.
iv. Sobre polca, sua transfiguração em maxixe, e a música dançante dessa
época, ver J.M. Wisnik, op.cit., p.31-41s.

6. que será do novo banco? Um barranco… uma enchente

De texto
1. Conforme os balanços para junho de 1888, o Banco do Brasil era o
maior banco do país. Em depósitos tinha 58 mil contos, contra 28 mil contos
do Banco Rural e Hipotecário, e o Banco Internacional era o quarto colocado,
com 9 mil contos, atrás do Banco Comercial do Rio de Janeiro. Em capital, o
Internacional era o segundo, com 12 mil contos, contra 33 mil contos do Banco
do Brasil.
2. Sobre isso, ver R. Magalhães Júnior, Vida e obra de Machado de Assis,
p.102.
3. Machado já praticara essa forma híbrida, confeccionando crônicas em
estilo versificado, em três experiências anteriores em A Semana Ilustrada, na
qual colaborou de 1865 a 1873, com o pseudônimo de Dr. Semana: as
crônicas em Novidades da Semana (9 de setembro de 1866), Pontos e
Vírgulas (de 1º de dezembro de 1867) e Badaladas (de 15 de outubro de
1871, esta toda em francês).
De comentário
i. Sobre isso, ver R. Graham, Britain & the Onset, p.199.
ii. J.M. Machado de Assis, Bons dias!, p.148.

7. eu acionista do Banco do Brasil

De texto
1. C. Pacheco, História do Banco do Brasil, p.274-5.

8. anda alguma coisa no ar

De texto
1. Gledson refere-se a esta crônica, à seguinte – de 19 de maio –, também
aqui reproduzida, e à de 20-21 de maio, que não incluímos nesta coletânea,
vez que se trata de descrição alegórica do processo político da Abolição,
tema que escapa ao escopo da nossa antologia. (J. Gledson, Por um novo
Machado de Assis, p.153.)
2. G.K. Betella, Bons dias!, 2006.
3. E. de A. Duarte (org.), Machado de Assis, 2007.
4. Ibid., p.243.
5. R. Schwarz, Um mestre na periferia do capitalismo, p.43.
6. Ibid., p.47.
7. Sobre isso, ver L.L.R.p.Lopes, Machado de A a X, p.89-90.
De comentário
i. J. Gledson in J.M. Machado de Assis, Bons dias!, p.57.
ii. R. Magalhães Júnior, Diálogos e reflexões, 1956.
iii. J.M. Machado de Assis, Obras completas, vol.15, 1946.
iv. Sobre isso, ver R. Magalhães Júnior, op.cit., p.81; e J. Gledson in J.M.
Machado de Assis, Bons dias!, p.58.
v. Idem.

9. um ordenado pequeno, mas que há de crescer

De texto
1. J. Caldeira, A nação mercantilista, p.301, 385s.
De comentário
i. Sobre isso, ver R. Magalhães Júnior, Diálogos e reflexões, p.83; e J.
Gledson in J.M. Machado de Assis, Bons dias!, p.62.
ii. Sobre isso, ver J. Gledson in J.M. Machado de Assis, op.cit., p.62.
iii. Sobre isso, ver J. Gledson, Por um novo Machado de Assis, p.159.
iv. Sobre isso, ver C. Renault, O dia a dia, p.206 e 215; e John Gledson in
J.M. Machado de Assis, op.cit., p.63.

10. questão de federalismo

De texto
1. Sobre isso, ver J.R. Faria, Ideias teatrais, p.63; e R. Magalhães Júnior,
Diálogos e reflexões, p.90.
De comentário
i. Sobre isso, ver E. de A. Duarte (org.), Machado de Assis afro-
descendente, p.251.
ii. Sobre isso, ver R. Magalhães Júnior, op.cit, p.92.
iii. Idem.
11. esperando a indenização

De texto
1. Jornal do Commercio, Retrospecto Anual de 1889, p.5.
2. Sobre isso, ver G.H.B. Franco, Reforma monetária, p.83-90; e também
J. Schulz, A crise financeira da Abolição, p.78-9.
De comentário
i. Sobre isso, ver J. Gledson in J.M. Machado de Assis, Bons dias!, p.84;
e R. Magalhães Júnior, Diálogos e reflexões, p.109.
ii. Sobre isso, ver J. Gledson in J.M. Machado de Assis, op.cit., p.85.
iii. Sobre isso, ver Idem; e R. Magalhães Júnior, op.cit., p.111.

12. o acionista é uma bela concepção

De texto
1. C. Pacheco, História do Banco do Brasil, vol.III, p.276-7.
De comentário
i. R. Magalhães Júnior, Diálogos e reflexões, p.216.
ii. Sobre isso, ver J. Gledson in J.M. Machado de Assis, Bons dias!,
p.168.
iii. Sobre isso, ver ibid., p.169.
iv. Idem e R. Magalhães Júnior, op.cit, p.217.

13. uma moeda nossa … o cruzeiro

De texto
1. Conforme o Retrospecto Comercial do Jornal do Commercio de 1888,
as estações públicas estavam obrigadas a aceitar as moedas metálicas
considerando a paridade de 27 pence como referência, ou seja, o “soberano”
deveria ser aceito a 8$890 e os patacões, pesos duros e patacas por valores
que especificava em tabelas retiradas de dispositivos legais do passado.
(Sobre isso, ver: C.I de Souza, A anarquia monetária, p.XV.)
2. “Se Portugal ancião legou ao Brasil os seus métodos monetários
viciosos, fraudulentos e desviados da verdade, soube o herdeiro guardar-lhe,
intangível o triste legado.” (J.M. Machado de Assis, Bons dias!, p.184.)
3. F. dos S. Trigueiro, Dinheiro no Brasil, p.130-3.
De comentário
i. J. Gledson in J.M. Machado de Assis, Bons dias!, p.184.
ii. Sobre isso, ver ibid., p.185; e R. Magalhães Júnior, Diálogos e
reflexões, p.235. Aparece em Quincas Borba: J.M. Machado de Assis, Obras
completas, vol.6, Capítulo CXVII.
iii. Sobre isso, ver R. Magalhães Júnior, op.cit., p.331.
iv. Sobre isso, ver ibid., p.238; e J. Gledson in J.M. Machado de Assis,
op.cit., p.186.

14. se começarem a fazer das sociedades pequenos parlamentos


(p.101-4)

De texto
1. Gênesis 41: 33-36.
De comentário
i. Sobre isso, ver J. Gledson in J.M. Machado de Assis, A Semana:
crônicas, p.77.
ii. Idem.

15. o negócio das debêntures … e o habeas corpus

De texto
1. R. Faoro, Machado de Assis, p.40-53.
2. Faoro chega a falar de cavalos “mosqueados como onça-pintada”, mas
não de zebras. (R. Faoro, Machado de Assis, p.48.)
3. J.M. de Carvalho, Os bestializados, p.63.
4. Ibid. p.185.
5. Retrospecto Anual, Jornal do Commercio, 1891, p.8.
6. J.F. Gonçalves, Rui Barbosa, p.82.
De comentário
i. Ibid., p.98.

16. para que meter o deficit entre minhas preocupações?

De texto
1. O Retrospecto Comercial do Jornal do Commercio de 1892 escreveu
sobre a saída de Rodrigues Alves: “Não lhe foi possível alcançar do Chefe de
Estado franca adesão às suas ideias de encampação das emissões bancárias.”
(apud A.C.R. de Andrada, Bancos de emissão no Brasil, p.301)
De comentário
i. Sobre isso, ver J. Gledson in J.M. Machado de Assis, A Semana:
crônicas, p.107.
ii. Idem.
iii. Ibid., p.108.
iv. Idem.
v. Ibid., p.109.
vi. Idem.

17. as percentagens são as primeiras flores do capital

De texto
1. Machado de Assis, J.M. Páginas recolhidas, Editora Garnier, Rio de
Janeiro, 1899.
2. Em J.M. Machado de Assis, Obras completas, vol.15. Vale também
mencionar que a imagem é retomada depois, em 1899, no Capítulo 9 de Dom
Casmurro (ibid., vol.7).
3. M. Shell, Money, Language and Thought, p.99.
4. G.H.B Franco, O desafio brasileiro, p.194-9.
5. Citações da “interpretação” em prosa do Fausto 2, de Citatti (Citatti,
Piero. Goethe, Companhia das Letras, 1990, p.233-5).
6. M. Berman, Tudo que é sólido desmancha no ar, p.67.

18. a emissão bancária nasceu tão grossa

De texto
1. C. Pacheco, História do Banco do Brasil, p.369-70. Conforme
observou Andrada: “A extinção e a encampação das emissões bancárias eram
o objetivo do novo tentame, que a elas não se propunha de modo franco e
direto, mas de forma dissimulada, embora certeira.” (A.C.R. de Andrada,
Bancos de emissão no Brasil, p.302.)
2. J. Schulz, A crise financeira, p.104.
3. Ibid., p.109.
De comentário
i. J. Gledson in J.M. Machado de Assis, A Semana: crônicas, p.62-4.
ii. Ibid., p.116.
iii. Sobre isso, ver ibid., p.117 e R. Magalhães Júnior, Diálogos e
reflexões, p.93.
iv. J. Gledson in J.M. Machado de Assis, A Semana: crônicas, p.70.
v. Ibid., p.119.
vi. Idem.

19. balanço de comércio … excesso de emissões … um fastio

De texto
1. A. Bosi, Brás Cubas, p.61-4.
2. Ibid., p.66.
De comentário
i. Sobre isso, ver J. Gledson in J.M. Machado de Assis, A Semana:
crônicas, p.132.
ii. Sobre isso, ver R. Vainfas, Dicionário do Brasil imperial, p.655-6.
iii. J. Gledson in J.M. Machado de Assis, op.cit, p.133.

20. grande Law! … de celebridade a … embromador

De texto
1. Para um belíssimo estudo, ver S. Kern, The Culture of Space and Time,
1983.
De comentário
i. Sobre isso, ver J. Gledson in J.M. Machado de Assis, A Semana:
crônicas, p.139.
ii. Idem.
iii. Ibid., p.140.
iv. Em Illustração Brasileira: J.M. Machado de Assis, Obras completas,
vol.22, p.83-4.
v. Sobre isso, ver M.B. Levy, “O Encilhamento”, p.103.
vi. Sobre isso, ver J. Gleeson, O inventor do papel, 2005[1999].
vii. Sobre isso, ver J. Gledson in J.M. Machado de Assis, A Semana:
crônicas, p.141.

21. não havia dividendos mas divididos

De texto
1. Sobre isso ver J. Gledson in J.M. Machado de Assis, A Semana:
crônicas, p.163-4.
2. Para ficar em relatos mais recentes, ver J. Schulz, A crise financeira,
p.88; e J.M. de Carvalho, Os bestializados, 2003.
De comentário
i. Sobre isso ver J. Gledson in J.M. Machado de Assis, A Semana:
crônicas, p.164.
ii. Ibid., p.165.
iii. Idem.
iv. Ibid., p.166.
v. Idem.

22. este é o Encilhamento

De texto
1. Taunay usou a mesma fórmula de Émile Zola que publicou a novela
L’Argent sob o formato de um folhetim diário, entre 30 de novembro de 1890 e
4 de março de 1891, onde narra as peripécias de Émile Bonfoux, dono do
Banque Union Generalle, retratados no romance como Saccard e Banque
Universelle, respectivamente, da sua criação em 1875 até sua liquidação em
1882. (J.M. de Carvalho, Os bestializados, p.35.)
2. R. Faoro, Machado de Assis, p.262.
De comentário
i. J. Gledson in J.M. Machado de Assis, A Semana: crônicas, p.167.
ii. Ibid., p.169.

23. Banco da República … a arte culinária chama de roupa velha

De texto
1. As correntes metalista e papelista vinham tentando montar um projeto de
consenso sobre a questão da reorganização das emissões e do Breub, mas o
esforço resultou em um impasse. A fusão já tinha sido “vazada” e desmentida
algumas vezes nos meses anteriores ao efetivo anúncio. (Sobre isso, ver:
A.C.R. de Andrada, Bancos de emissão no Brasil, p.310-3.)
2. C. Pacheco, História do Banco do Brasil, p.338.
3. J.p.Calógeras, A política monetária do Brasil, p.256-7.
4. Ibid., p.340 e 345.
5. C. Pacheco, op.cit., p.337s.
De comentário
i. J. Gledson in J.M. Machado de Assis, A Semana: crônicas, p.173.
ii. Idem.
iii. Ibid., p.174.
iv. Ibid., p.175.

24. chovem assuntos modernos

De texto
1. A.C.R. de Andrada, Bancos de emissão no Brasil, p.353.
2. Em 1902, o relatório do liquidante do banco observaria que “talvez
nenhuma sociedade anônima surgiu no Encilhamento que não tivesse ações e
debêntures na carteira do banco”. (A.C.R. de Andrada, Bancos de emissão no
Brasil, p.356.)
De comentário
i. J. Gledson in J.M. Machado de Assis, A Semana: crônicas, p.186.
ii. Ibid., p.188.
iii. Ibid., p.190.
iv. Ibid., p.197-8.

25. falsas estão para as verdadeiras, como o quilo mal pesado

De comentário
i. J. Gledson in J.M. Machado de Assis, A Semana: crônicas, p.192.
ii. Idem.
iii. Ibid., p.190.

26. papel-moeda e moeda-papel … fusão e encampação

De texto
1. A.C.R. de Andrada, Bancos de emissão no Brasil, p.316-8.
2. Ibid., p.325.
27. não eram bem títulos nem bem caveiras

De texto
1. Machado de Assis, J.M. Páginas recolhidas, Editora Garnier, Rio de
Janeiro, 1899.
2. H. Bloom, Hamlet, p.298s.
De comentário
i. J.M. Machado de Assis, Obras completas, vol.27, p.36.
ii. Ibid., p.112

28. nossa moeda municipal

De texto
1. Sobre isso ver: “Os patacões e a conversibilidade”, em G.H.B. Franco,
Crônicas da convergência, p.578.
2. F. dos Santos Trigueiro, Dinheiro no Brasil, p.76-7.
De comentário
i. Sobre isso, ver M. Rosso, “Machado eterno enigma”, p.108; e E.F.C.
Ferreira, Para traduzir o século XIX, p.191.

30. a sensibilidade nervosa do câmbio

De texto
1. J.p.Wileman, Brazilian Exchange, p.231.
2. J.p.Calógeras, A política monetária do Brasil, p.282.
3. Ainda não se pode dizer com certeza que o cronista era possuidor de
apólices. Poucos meses adiante, em julho, seria lançado o empréstimo
nacional de 1895, cujas apólices Machado pode ter comprado por ocasião do
lançamento.

31. uma vertigem de capitais, de emissões, de valores


De texto
1. IBGE, Estatísticas históricas do Brasil, p.616.
2. A.C.R. de Andrada, Bancos de emissão no Brasil, p.339.
3. V.F. Bouças, História da dívida externa, p.162.
De comentário
i. R. Magalhães Júnior, Machado de Assis desconhecido, p.224.

32. impostos sobre produtos farmacêuticos

De texto
1. A. Fishlow, “Origens e consequências da substituição de importações
no Brasil”, 1972.

33. que magnésia há contra o câmbio?

De texto
1. R. Faoro, Machado de Assis, p.182.
2. C. Furtado, Formação econômica do Brasil, p.188.

34. incluamos paternalismo nos dicionários

De texto
1. A.C.R. de Andrada, Bancos de emissão no Brasil, p.334-5.

35. mete dinheiro na bolsa

De texto
1. Para uma discussão detalhada, ver M. Friedman e A.J. Schwartz, A
Monetary History of the United States, p.116-8.

36. esse algarismo, que eu presumia nunca ver nas tabelas cambiais
De texto
1. Destaque-se: G.H.B. Franco, Reforma monetária, 1983;
C.p.Kindleberger, “International propagation of financial crises: the
experience of 1888-93”; G.H.B. Franco, “Taxa de câmbio e oferta de moeda,
1880-1897”, 1986; A. Fishlow, “Lições dos anos 1890 para os 1980”, 1987; e
mais recentemente G. Triner, International capital and the Brazilian
Encilhamento, 2001.

37. essas notas … rasgadas, vi-as chegar catitas e alegres

De texto
1. Os números para a oferta de moeda (papel-moeda emitido) são do IBGE
(Estatísticas históricas do Brasil, 1990) e os de preços, de Goldsmith (R.W.
Goldsmith, Brasil 1850-1984, p.31 e 91), que trabalha com uma média
simples de estimativas para a inflação da época feitas por outros autores em
diferentes métodos e formatos (Olivier Onody, Mircea Buescu, Eulália Lobo e
Dorival Vieira). Os dados de salários são trabalhados a partir dos números de
Eulália Lobo.
De comentário
i. Sobre isso ver J. Gledson in J.M. Machado de Assis, A Semana:
crônicas, p.102.

38. o contribuinte sou eu, és tu

De texto
1. T.A. Meade, “Civilizing” Rio, p.79.

39. o acionista é... credor de dividendo

De texto
1. J.p.Calógeras, A política monetária do Brasil, p.348-50.
40. o testamento

De texto
1. R. Magalhães Júnior, Machado de Assis desconhecido, p.318.
2. L.M. Pereira, Machado de Assis, p.187.
3. R. Magalhães Júnior, op.cit., p.333.
4. Nos oito anos decorridos entre os dois testamentos, Machado recebeu
apólices do funding loan, correspondentes a juros e amortizações
reescalonados das apólices de 1895, podendo ter vendido alguma dessas
novas apólices. Uma hipótese é a de que as 12 apólices que tinha em 1906
eram as sete originais mais oito do funding loan menos as três que vendeu.
5. Prevalece um certo debate sobre o que foi, afinal, a efetiva
rentabilidade desses empréstimos, a despeito dos diversos reescalonamentos.
As taxas internas de retorno ex post (yield to maturity) não são muito distantes
das que o investidor teria de títulos do governo britânico, embora
significativamente inferiores das taxas ex ante, vale dizer, as do contrato.
Todavia, cálculos como estes, que consideram a taxa interna de retorno ao
longo de períodos amplos, desconsideram o problema de liquidez criado para
um proprietário de apólices que permanece vários anos sem receber coisa
alguma.
De comentário
i. M. de p.Abreu, “Os funding loans brasileiros”, 2002; e “Brasil, 1824-
1957”, 1999.
CRÉDITOS DAS ILUSTRAÇÕES

1 Certificado ao portador do empréstimo externo de 1888. Fonte: Iconografia de valores


impressos do Brasil, editado pelo Banco Central do Brasil.
2 Walter Rothschild em sua carruagem de zebras. Fonte: Ferguson, N. The World’s Bankers: The
History of the House of Rothschild. Londres, Weindenfeld & Nicolson, 1998.
3 Desenho de Machado de Assis em bico de pena. Fonte: Academia Brasileira de Letras.
4 Foto de visconde de Figueiredo. Fonte: Franco, G.H.B. O papel e a baixa do câmbio. Rio de
Janeiro, Reler, 2005.
5 Cédulas de 50 mil-réis do Brasil imperial. Fonte: Centro Cultural Banco do Brasil.
6 Visconde de Ouro Preto. Fonte: Carvalho, N. O Encilhamento: Anatomia de uma bolha
brasileira, CNB e Bovespa, 2003.
7 Desenho de antigo prédio do Banco do Brasil. Fonte: Centro Cultural Banco do Brasil.
8 Foto de Machado de Assis, aos 35 anos. Fonte: Academia Brasileira de Letras.
9 Ação ao portador de empresa formada para empreender o Canal do Panamá. Fonte: coleção
particular do autor.
10 Cautela de ações da Geral. Fonte: Coleção particular de Ney Carvalho.
11 Foto de Henry Lowndes no exílio. Fonte: Carvalho, N. O Encilhamento: Anatomia de uma
bolha brasileira, CNB e Bovespa, 2003.
12 Foto de Rodrigues Alves. Fonte: Carvalho, N. (org.). Bolsa de Valores do Rio de Janeiro – 150
anos – A história de um mercado. Rio de Janeiro, Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, 1995.
13 Machado de Assis com Joaquim Nabuco. Fonte: Biblioteca Nacional.
14 Foto de Ruy Barbosa. Fonte: Carvalho, N. O Encilhamento: Anatomia de uma bolha
brasileira, CNB e Bovespa, 2003.
15 Foto do Visconde de Taunay. Fonte: Carvalho, N. O Encilhamento: Anatomia de uma bolha
brasileira, CNB e Bovespa, 2003.
16 Capa de O Encilhamento.
17 Foto do conselheiro Francisco de Paula Mayrink. Fonte: Carvalho, N. O Encilhamento:
Anatomia de uma bolha brasileira, CNB e Bovespa, 2003.
18 Charges de Pereira Netto sobre o Encilhamento. Fonte: Carvalho, N. O Encilhamento:
Anatomia de uma bolha brasileira, CNB e Bovespa, 2003.
19 Foto da antiga Primeiro de Março. Fonte: Instituto Moreira Salles.
20 Foto de Machado de Assis feita por Marc Ferrez: Instituto Moreira Salles.
21 Foto de Machado de Assis em desenho de Raul Pederneiras. Fonte: Academia Brasileira de
Letras.
22 Cautela de ações da Leopoldina. Fonte: Iconografia de valores impressos do Brasil, editado
pelo Banco Central do Brasil.
23 Foto do Banco União. Fonte: Carvalho, N. (org.). Bolsa de Valores do Rio de Janeiro – 150
anos – A história de um mercado. Rio de Janeiro, Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, 1995.
24 Prédio da Bolsa de Valores no Rio de Janeiro. Fonte: Carvalho, N. (org.). Bolsa de Valores do
Rio de Janeiro – 150 anos – A história de um mercado. Rio de Janeiro, Bolsa de Valores do
Rio de Janeiro, 1995.
25 Casa de Machado de Assis no Cosme Velho. Fonte: Academia Brasileira de Letras.
26 Foto de Carolina, mulher de Machado de Assis. Fonte: Academia Brasileira de Letras.
27 Reprodução do testamento de Machado. Fonte: Doyle, P. “O testamento de Machado de Assis”,
Revista da Sociedade dos Amigos de Machado de Assis, n.3, 29 set 1959.
BIBLIOGRAFIA

ABREU, Marcelo de Paiva. “Os funding loans brasileiros – 1898-1931”,


Pesquisa e Planejamento Econômico, vol. 32, n.3, dez 2002.
______. “Brasil, 1824-1957: bom ou mau pagador?”, Departamento de
Economia PUCRio, Texto para Discussão, n.403, ago 1999.
ANDRADA, Antonio Carlos Ribeiro de. Bancos de emissão no Brasil. Rio de
Janeiro, Leite Ribeiro, 1923.
ARRIGUCCI Júnior, Davi. “Fragmentos sobre a crônica”, in Enigma e
comentário: ensaios sobre literatura e experiência. São Paulo,
Companhia das Letras, 1987.
BETELLA, Gabriela Kvacek. Bons Dias! O funcionamento preciso da
inteligência em terra de relógios desacertados: as crônicas de
Machado de Assis. Rio de Janeiro, Revan, 2006.
BERMAN, Marshall. Tudo que é sólido se desmancha no ar: a aventura da
modernidade. São Paulo, Companhia das Letras, 1987.
BLOOM, Harold. Hamlet – poema ilimitado. Rio de Janeiro, Objetiva, 2004.
______. Gênio: os 100 autores mais criativos da história da literatura. Rio
de Janeiro, Objetiva, 2003.
BOSI, Alfredo. Brás Cubas em três versões: estudos machadianos. São
Paulo, Companhia das Letras, 2006.
______. Machado de Assis: o enigma do olhar. São Paulo, Ática, 2000.
BOUÇAS, Valentim F. História da dívida externa. Rio de Janeiro, Edições
Financeiras, 1950.
CALDEIRA, Jorge. A nação mercantilista: ensaio sobre o Brasil. São Paulo,
Ed. 34, 1999.
CALÓGERAS, João Pandiá. A política monetária do Brasil. São Paulo,
Companhia Editora Nacional, 1960. [tradução do original em francês de
1910.]
CAMPOS SALLES, Manuel Francisco. Da propaganda à Presidência.
Brasília, UNB/Fundação Roberto Marinho, 1983.
CANDIDO, Antonio. “Esquema Machado de Assis”, in Vários escritos. São
Paulo, Duas Cidades, 1970.
CARREIRA, Liberato Castro. História financeira e orçamentária do Império
do Brasil. Brasília, Senado Federal/Fundação Casa de Rui Barbosa,
1980 [1889].
CARVALHO, José Murilo de. Os bestializados: o Rio de Janeiro e a
República que não foi. São Paulo, Companhia das Letras, 1987.
CARVALHO, Ney. O Encilhamento: anatomia de uma bolha brasileira. Rio
de Janeiro/São Paulo, Comissão Nacional das Bolsas/Bolsa de Valores
de São Paulo, 2003.
CHALHOUB, Sidney. Machado de Assis historiador. São Paulo, Companhia
das Letras, 2003.
CITATTI, Piero. Goethe. São Paulo, Companhia das Letras, 1990.
DOYLE, Plínio. “O testamento de Machado de Assis”, Revista da Sociedade
dos Amigos de Machado de Assis, n.3, 29 set 1959.
DUARTE, Eduardo de Assis (org.). Machado de Assis afro-descendente,
escritos de caramujo (antologia). Rio de Janeiro/Belo Horizonte,
Pallas/Crisálida.
FAORO, Raymundo. Machado de Assis: a pirâmide e o trapézio. São Paulo,
Companhia Editora Nacional, Série Brasiliana, vol.356, 1976.
FARIA, João Roberto. Ideias teatrais: o século XIX no Brasil. São Paulo,
Perspectiva/Fapesp, 2001.
FERREIRA, Eliane F.C. Para traduzir o século XIX, Machado de Assis. São
Paulo/Rio de Janeiro, Annablume/Academia Brasileira de Letras, 2004.
FISHLOW, Albert. “Lições dos anos 1890 para os 1980”, Pesquisa e
Planejamento Econômico, vol.17, n.3, abr 1987.
______. “Origens e consequências da substituição de importações no
Brasil”, Estudos Econômicos, USP, vol.2, n.6, 1972.
FRANCO, Gustavo H.B. Crônicas da convergência: ensaios sobre temas já
não tão polêmicos. Rio de Janeiro, Topbooks/BM&F, 2006.
______. e Winston Fritsch. “Aspects of the Brazilian experience with the
gold standard”, in Pablo Martin Aceña e Jaime Reis (orgs.). Monetary
Standards in the Periphery: Paper, Silver and Gold, 1854-1933.
Londres, Macmillan Press, 2000.
______. O desafio brasileiro: ensaios sobre desenvolvimento, globalização
e moeda. São Paulo, Ed. 34, 1999.
______. A década republicana: o Brasil e a economia internacional, 1889-
1900. Rio de Janeiro, Ipea, 1991.
______. “Taxa de câmbio e oferta de moeda, 1880-1897: uma análise
econométrica”, Revista Brasileira de Economia, vol.40, n.1, mar 1986.
______. Reforma monetária e instabilidade durante a transição
republicana. Rio de Janeiro, BNDES, 1983.
FRIEDMAN, Milton e Anna Jacobson Schwartz. A Monetary History of the
United States, 1867-1960. Princeton, Princeton University
Press/National Bureau of Economic Research, 1963.
FURTADO, Celso. Formação econômica do Brasil. São Paulo, Companhia
Editora Nacional, 12ª ed. revista, 1974 [1959].
GLEDSON, John. Por um novo Machado de Assis, ensaios. São Paulo,
Companhia das Letras, 2006.
______. Machado de Assis ficção e história. São Paulo, Paz e Terra, 1986.
GLEESON, Janet. O inventor do papel: a verdadeira história do pai das
finanças modernas. Rio de Janeiro, Rocco, 2005 [1999].
GOLDSMITH, Raymond W. Brasil 1850-1984: desenvolvimento financeiro
sob um século de inflação. São Paulo, Harper & Row do Brasil, 1986.
GONÇALVES, João Felipe. Rui Barbosa: pondo as ideias no lugar. Rio de
Janeiro, FGV, 2000.
GRAHAM, Richard. Britain & the Onset of Modernization in Brazil, 1850-
1914. Cambridge, Cambridge University Press, 1972.
GUANABARA, Alcindo. A Presidência Campos Salles. Brasília, UNB,
Fundação Roberto Marinho, 1983 [1902].
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Estatísticas históricas
do Brasil, séries econômicas, demográficas e sociais de 1550 a 1988.
Rio de Janeiro, Séries Estatísticas Retrospectivas, vol.3 , 2ª ed. revista e
atualizada, 1990.
KERN, Stephen. The Culture of Space and Time, 1880-1918. Cambridge,
Harvard University Press, 1983. Jornal do Commercio – Retrospecto
Anual, vários números.
KINDLEBERGER, Charles P. “International propagation of financial crisis: the
experience of 1888-93”, in Keynesianism vs. Monetarism And Other
Essays in Financial History. Londres, George Allen & Unwin, 1985.
LEVY, Maria Bárbara. “O Encilhamento”, in Paulo Neuhaus (org.). Economia
brasileira: uma visão histórica. Rio de Janeiro, Campus, 1980.
______. História da Bolsa de Valores do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro,
Ibmec, 1977.
LIMA, Heitor Ferreira. História político-econômica e industrial do Brasil.
São Paulo, Companhia Editora Nacional,1976.
LOPES, Lucia Leite Ribeiro Prado. Machado de A a X: um dicionário de
citações. São Paulo, Ed. 34, 2001.
MACHADO DE ASSIS, Joaquim Maria. A semana: crônicas (1892-1893).
Edição, introdução e notas de John Gledson. São Paulo, Hucitec, 1996.
______. Bons Dias! Crônicas (1888-1889). Edição, introdução e notas de
John Gledson. São Paulo, Hucitec/Unicamp, 1990.
______. Crônicas do Lélio. Edição de Raymundo Magalhães Jr. Rio de
Janeiro, Civilização Brasileira, 1958.
______. Obras completas de Machado de Assis. Rio de Janeiro, W.M.
Jackson Inc., 1957.
______. Diálogos e reflexões de um relojoeiro. Organização, prefácio e
notas de Raymundo Magalhães Júnior. Rio de Janeiro, Civilização
Brasileira, 1956.
Magalhães Júnior, Raymundo. Vida e obra de Machado de Assis: volume 3,
Maturidade. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, INL/MEC, 1981.
______. Artur Azevedo e sua época. São Paulo, Lisa-Livros Irradiantes,
1971.
______. Ideias e imagens de Machado de Assis. Rio de Janeiro, Civilização
Brasileira, 1956.
______. Machado de Assis desconhecido. Rio de Janeiro, Civilização
Brasileira, 2ª ed. refundida, aumentada e corrigida, 1955.
MEADE, Teresa A. “Civilizing” Rio: reform and resistence in a Brazilian
city, 1889-1930. Pennsylvania, The Pennsylvania State University Press,
1997.
OLIVEIRA, Luiz Rodrigues de. “Banques et institutions de crédit”, in M.F.-J.
de Santa-Anna Nery (org.). Le Brésil en 1889. Paris, Librairie Charles
Delagrave, 1889.
OURO PRETO, Visconde de. “Finanças”, in A década republicana, vol.1. Rio
de Janeiro, Cia. Typographica do Brazil, 1900.
PACHECO, Cláudio. História do Banco do Brasil (história financeira do
Brasil de 1808 a 1951), vol.3, Brasília, 1979.
PEREIRA, Lucia Miguel. Machado de Assis (estudo crítico e biográfico). Rio
de Janeiro, José Olympio, 5ª ed. revista, 1955.
PIZA, Daniel. Machado de Assis, um gênio brasileiro. São Paulo, Imprensa
Oficial do Estado de São Paulo, 2005.
REGO, Enylton de Sá. O calundu e a panaceia: Machado de Assis, a sátira
menipeia e a tradição luciânica. Rio de Janeiro, Forense Universitária,
1989.
RENAULT, Celso. O dia a dia no Rio de Janeiro segundo os jornais 1870-
1889. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira/INL, 1982.
ROSSO, Mauro. “Machado eterno enigma”, in Contexto, Ufes, ano 6, n.4,
2006.
SANTOS, Joaquim Ferreira dos. As cem melhores crônicas brasileiras. Rio
de Janeiro, Editora Objetiva, 2007.
SCHWARZ, Roberto. Um mestre na periferia do capitalismo, Machado de
Assis. São Paulo, Livraria Duas Cidades/Ed. 34, 4ª ed., 2000 [1990].
SCHULZ, John. A crise financeira da Abolição (1875-1901). São Paulo,
USP/Instituto Fernand Braudel, 1996.
SEVCENKO, Nicolau. “A capital irradiante: técnica, ritmos e ritos do Rio”, in
Fernando Novais e Nicolau Sevcenko (orgs.). História da vida privada
no Brasil, vol.3, República: da Belle Époque à Era do Rádio. São
Paulo, Companhia das Letras, 1998.
SHELL, Marc. Money, Language and Thought: Literary and Philosophic
Economies From the Medieval to The Modern Era. Baltimore/Londres,
The John Hopkins University Press, 1993 [1982].
SOUZA, Carlos Inglês de. A anarquia monetária e suas consequências. São
Paulo, Monteiro Lobato et Cia, 1924, p.15.
SOUZA, J. Valente de. Bibliografia de Machado de Assis. Rio de Janeiro,
Instituto Nacional do Livro, 1955.
STEIN, Stanley. Origens e evolução da indústria têxtil no Brasil –
1850/1950. Rio de Janeiro, Campus, 1979 [1957].
SUZIGAN, Wilson. Indústria brasileira: origem e desenvolvimento. São
Paulo, Brasiliense, 1986.
TAUNAY, Visconde de. O Encilhamento: cenas contemporâneas da bolsa do
Rio de Janeiro em 1890, 1891 e 1892. Rio de Janeiro, Melhoramentos, 2ª
ed, 1923 [1893].
TRIGUEIRO, F. dos Santos. Dinheiro no Brasil. Rio de Janeiro, Reper, edição
comemorativa do 1º aniversário do Banco Central da República do
Brasil, 1966.
TRINER, Gail. International Capital and the Brazilian Encilhamento, 1889-
1892: An Early Example of Contagion Among Emerging Market
Economies. Mimeo, 2001.
VAINFAS, Ronaldo (org.). Dicionário do Brasil imperial, 1822-1889. Rio de
Janeiro, Objetiva, 2002.
WILEMAN, J.P. Brazilian Exchange: A Study Of An Inconvertible Currency.
Nova York, Greenwood Press, 1969 [1896].
WISNIK, José Miguel. “Machado maxixe”, in Sem receita: ensaios e
canções. São Paulo, Publifolha, 2004.
AGRADECIMENTOS

Nossos agradecimentos se iniciam por Mauro Rosso, colaborador e


consultor, e principalmente o “machadólogo” a nos apontar o caminho das
crônicas para que dali se produzisse um volume como este. Mauro Rosso teve
participação fundamental na seleção das crônicas, na produção das notas de
contextualização e na orientação deste que vos escreve no fascinante mundo de
Machado de Assis. É com ele o nosso primeiro e principal débito de gratidão.
Um número relativamente grande de pessoas nos ajudou em questões
pontuais e em esclarecimentos sobre os incontáveis enigmas apresentados nas
crônicas. Nossos agradecimentos em especial para Miriam Leitão, que
primeiro me deu notícia do testamento de Machado de Assis, a ela repassado
pelo dr. José Mindlin. Miriam relata que o testamento é matéria de que sempre
se serve quando precisa discutir o assunto controverso dos “calotes” sobre a
dívida pública e da maldade que isto pode representar.
A estes deve se acrescentar Rogério Werneck, Manuel Correa do Lago,
Luis Correa do Lago, Denise Barreto, Carlos e Cristina Laet, Alberto da Costa
e Silva, Sergio Paulo Rouanet e Arthur Ituassu.
Copyright da organização, introdução
e comentários © 2008, Gustavo H.B. Franco
Copyright desta edição © 2008:
Jorge Zahar Editor Ltda.
rua Marquês de S. Vicente 99 – 1º
22451-041 Rio de Janeiro, RJ
tel (21) 2529-4750 / fax (21) 2529-4787
editora@zahar.com.br
www.zahar.com.br

Todos os direitos reservados.


A reprodução não-autorizada desta publicação, no todo
ou em parte, constitui violação de direitos autorais. (Lei 9.610/98)

Composição: Letra e Imagem


Capa: Miriam Lerner
Foto de capa: Machado de Assis por Marc Ferrez/Instituto Moreira Salles
e rua Direita, Arquivo Geral da Cidade/RJ

ISBN: 978-85-378-0316-5