Você está na página 1de 543

Organização:

Heloiza Matos
Patrícia Gil

Comunicação, políticas públicas


e discursos em conflito
DOI: 10.11606/9788572052474

1.ª edição

São Paulo
ECA – USP
2019
Copyright © ECA-USP.

Organização: Heloiza Matos e Patrícia Gil.


Capa, editoração e projeto gráfico: Irene Sesana.
Preparação de originais, revisão e edição: Patrícia Gil.

É permitida a reprodução parcial ou total desta obra, desde


que citada a fonte e autoria, proibindo qualquer uso para fins
comerciais.

Catalogação na Publicação
Serviço de Biblioteca e Documentação
Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo

C741 Comunicação, políticas públicas e discursos em conflito [recurso eletrônico] / organização


Heloiza Matos, Patrícia Gil. – São Paulo: ECA-USP, 2019.
543 p.: il.

ISBN 978-85-7205-247-4
DOI 10.11606/9788572052474

1. Comunicação – Aspectos políticos 2. Comunicação pública 3. Políticas públicas


I. Matos, Heloiza II. Gil, Patrícia

CDD 23.ed. – 302.2

Elaborado por: Alessandra Vieira Canholi Maldonado CRB-8/6194


SUMÁRIO

CONTEXTO E DESAFIOS

21 O domínio da imagem obscena ou o esvaziamento da


comunicação política no Brasil

39 Comunicadores Artificiais, Comunicação Política e


Comunicação Pública: uma trajetória de pesquisa

COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SAÚDE

77 Guia Alimentar para a População Brasileira: deficiências


no diálogo entre o Estado e a sociedade

118 Políticas públicas no âmbito da OMS: fato ou irrealidade


nos discursos dos ministros da Saúde

154 A disputa sobre o nascimento no Brasil: interacionismo


simbólico, ciberativismo e políticas públicas sobre a
epidemia de cesáreas

COMUNICAÇÃO PÚBLICA E GÊNERO

201 Disputas comunicativas em torno de gênero: cruzadas e


resistências no Brasil e na Nossa América

COMUNICAÇÃO PÚBLICA E EDUCAÇÃO

237 O agonismo do Projeto Escola sem Partido: estratégias


comunicativas de coalizões em choque
COMUNICAÇÃO PÚBLICA E CIÊNCIA

279 “Falando grego”: o caso #existepesquisanobr como


tentativa de divulgação da ciência

COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SEGURANÇA

323 Discursos políticos, mídias e violência: percursos teóricos


e notas de pesquisa

362 O mundo do crime no embalo do funk: articulação


metodológica para uma análise situada da comunicação

COMUNICAÇÃO PÚBLICA E INCLUSÃO

403 Atenção às Pessoas com Deficiência: uma análise das


propostas dos candidatos à Presidência da República em
2018

COMUNICAÇÃO PÚBLICA E MIGRAÇÃO

451 Políticas públicas em rede: o cooperativismo de


entidades em prol do acolhimento

COMUNICAÇÃO PÚBLICA E MORADIA

475 Política pública de habitação sob a perspectiva


comunicacional: Uma análise sobre o programa Minha
Casa, Minha Vida

COMUNICAÇÃO PÚBLICA E TRANSPORTE

511 O papel da imprensa na implantação de políticas


públicas metropolitanas na América Latina
APRESENTAÇÃO

Heloiza Matos1

Este texto introdutório reflete uma trajetória do Grupo de


Pesquisa em Comunicação Pública e Comunicação Política (Com-
pol), registrado no Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientí-
fico e Tecnológico (CNPq) e na Pró-Reitoria de Pesquisa da Univer-
sidade de São Paulo (USP). Ele é o terceiro volume de uma série e
vem fechar um ciclo, uma trilogia.
A ideia de fundar um grupo de pesquisa sobre essa temática
surgiu em 2011, quando retornei ao PPGCOM/USP (Programa da
Pós-Graduação em Ciências da Comunicação/USP) para dar con-
tinuidade às minhas atividades acadêmicas. Venho trabalhando
com ambos os ramos da comunicação (pública e política) desde
o final de 1980, quando defendi minha tese de doutorado sobre
a censura e a propaganda política no período do ex-presidente
Emílio Garrastazu Médici. A partir daí, tenho pesquisado a liber-
dade de opinião, o processo de redemocratização e as conquistas
advindas dele, as campanhas eleitorais e os diversos programas
de comunicação do governo federal.

1 Pós-Doutora em Comunicação pela Université Stendhal, Doutora e Mestre


em Comunicação pela Universidade de São Paulo, Jornalista pela Universidade
Federal de Juiz de Fora. Pesquisadora Sênior da Pós-Graduação da ECA/USP e
coordenadora do Grupo de Pesquisa em Comunicação Pública e Comunicação
Política (Compol). E-mail: heloizamatos@gmail.com.

7
A pesquisa de doutorado, envolvendo o período autoritá-
rio, me levou a perceber que a “comunicação governamental”
(entendida como as atividades de comunicação da gestão pú-
blica em dado tempo) permitia estudar as ações do governo no
que tange à propaganda política, a censura e os temas de inte-
resse do poder estabelecido dirigidos aos governados. No caso
de governos autoritários, esses recursos se destinavam a impor
atos antidemocráticos e punir os cidadãos em casos de desvios
às normas estabelecidas. Mas diante de situações democráticas,
foi também possível identificar um potencial educativo na comu-
nicação governamental.
A promulgação da nova Constituição em 1988 trouxe a
possibilidade de amplos debates (entre vários setores da socie-
dade), lançando as bases para pesquisas interessadas sobre as
complexidades do “viver em uma democracia”. Nas comunica-
ções, a redemocratização aportou uma multiplicidade de concei-
tos aplicáveis na busca do conhecimento científico sobre a parti-
cipação cidadã, a origem e a formação da opinião pública, além
dos processos deliberativos.
A partir do ano 2000, grandes mudanças aconteceram nas
relações entre o Estado e a sociedade: já se observava ampla
participação dos cidadãos para expressarem suas demandas,
pela ampla cobertura da mídia às ações do Estado (não somen-
te sobre políticas públicas propostas) e o crescente envolvimen-
to do governo com as necessidades expressas pelos cidadãos.
Nesse contexto, o conceito de comunicação pública começava
a se aproximar ao de comunicação governamental, tomando
forma e evoluindo para significar o efetivo diálogo entre gover-
nantes e governados.

8
Até fins do século XX, portanto, o diálogo possível se dava
sob o domínio do governo e as formas de “comunicação com o
cidadão” continuavam a assumir o caráter de “propaganda go-
vernamental” – o que se manteve até a gestão do ex-presidente
Fernando Henrique Cardoso (1995-2002). Nesta etapa, algumas
políticas públicas (especialmente na educação, saúde e econo-
mia) trouxeram mudanças positivas no nível de vida do cidadão.
No entanto, a propaganda gratuita no rádio e na televisão, onde
o governo, por direito, poderia dar seu recado à sociedade, se-
guia com poucas alterações de formato e conteúdo.
Assim, durante a chamada Nova República (mesmo com al-
gumas variações no tom e nos temas), a conversação cívica entre
Estado e sociedade assumia uma abordagem de “prestação de
contas” por parte do governo – mas com baixo envolvimento do
cidadão nas políticas implementadas. No período FHC, por exem-
plo, o governo decidiu privatizar várias empresas, sem promover
um debate amplo e público com os cidadãos acerca dessas medi-
das (por meio de uma efetiva “comunicação pública”).
O mesmo pode ser dito sobre as discussões no Congresso:
por exemplo, as mudanças no sistema de previdência no período
FHC foram objeto de críticas e debates na mídia, mas acabaram
sendo implementadas praticamente à revelia de consulta e deba-
te entre governo e opinião pública. Características semelhantes
se mantiveram também na apresentação de políticas públicas
que até então não mobilizavam adequadamente os movimen-
tos sociais – cujas organização e força foram mais desenvolvidas
posteriormente.
No processo de consolidação da sociedade civil participa-
tiva, organizações passaram a negociar formas de adensamento

9
cívico, complexificando a organização social à medida que inclu-
íam outros atores na mediação política, como partidos, associa-
ções, grupos de lobby e movimentos sociais dispersos.
Nesse período, a ascendência do Partido dos Trabalhadores
por meio da eleição de Luiz Inácio Lula da Silva, numa conjuntura
econômica e financeira bastante favorável, foi marcada por polí-
ticas públicas que beneficiaram as classes desfavorecidas (como
a Bolsa Família) e os estratos que desejavam uma ascensão social
(por meio de políticas educacionais, entre outras). Mas as dispu-
tas nas entranhas do poder cresceram sobremaneira durante os
14 anos de gestão petista no governo federal, culminando no
impeachment de Dilma Rousseff e, em seguida, na eleição de Jair
Messias Bolsonaro à Presidência da República.
A ascensão de Bolsonaro contou com o apoio dos conser-
vadores do Congresso que já vinham apresentando sinais de con-
vergência com as pautas dos religiosos e militares em outros te-
mas (tais como a liberação do uso de armas pelo cidadãos como
forma de combate à violência). Essas propostas tiveam a adesão
de eleitores que alimentavam a expectativa de uma mudança po-
lítica radical à direita.
O quadro de profunda divisão política entre os brasileiros
redundou também no afastamento entre o Estado e os cida-
dãos. Enquanto, de um lado, a sociedade civil se organizava para
ampliar sua capacidade de expressão pública, de outro o Estado
se manteve avesso à discussão.
A esse quadro se somou mais recentemente a problemática
da desvalorização das mediações institucionais clássicas na polí-
tica e sua substituição pelas mediações tecnológicas digitais (das
quais as redes sociais tornaram-se a face mais visível). Assim, sem

10
ações concretas (tanto por parte do Estado quanto da sociedade
civil) que poderiam impulsionar a redefinição da “comunicação
pública”, o que se observa atualmente é seu esvaziamento. Mais
lamentável ainda, as próprias atitudes do governo federal vêm re-
forçar, ao contrário, a antiga “comunicação governamental”, exer-
cida equivocadamente com o nome de “comunicação pública”.
Esse breve percurso histórico permite esclarecer, de uma
vez por todas, a diferença entre comunicação governamental e
comunicação pública. Mas, para além dessa distinção pragmática
e conceitual, a revisão de nossa recente história política também
permite situar esta obra que aqui se apresenta como a terceira
produção coletiva do Grupo de Pesquisa.
Quando o Compol iniciou suas atividades, num período an-
terior ao meu retorno para a pós-graduação da USP, eu já havia
publicado dois livros sobre temas para a discussão nessa trajetó-
ria: o primeiro sobre Capital Social, e o segundo, uma coletânea
sobre Comunicação e Política (cujo subtítulo continha os temas
“capital social, reconhecimento e deliberação”), em parceria com
Ângela Marques.
Estas duas obras (e a bibliografia em que se baseavam) fo-
ram importantes subsídios para os trabalhos iniciais do Grupo de
Pesquisa, e consolidaram discussões que, posteriormente, evolu-
íram para o primeiro volume da trilogia – cujo título é “Comuni-
cação Pública e Comunicação Política: interlocuções, interlocuto-
res e perspectivas”. Naquela obra, nosso intuito era o de mostrar
os diferentes elementos que conectam os dois campos da comu-
nicação, abrangendo seus sujeitos, os temas de abrangência e
novas abordagens que ocupavam alguns dos pesquisadores de
nosso grupo.

11
O segundo volume da série, “Pesquisas em comunicação
pública e política: vertentes teóricas e metodológicas”, foi o
resultado de três anos de pesquisa no Compol, e se baseou no
estudo de obras publicadas no exterior, ainda inéditas no Brasil
– que foram, claro, trabalhadas no contexto da bibliografia na-
cional disponível. Três obras merecem destaque aqui: o livro de
Jürg Steiner, The Foundations of Deliberative Democracy; a cole-
tânea de Erick Bucy e Lance Holbert, The Sourcebook for Political
Communication Research; e a obra de Robert Craig e Heidi Muller,
Theorizing Communication.
Da bibliografia nacional, destaco importantes contribui-
ções de Maria Immacolatta V. Lopes, José Luiz Braga, Luiz Cláu-
dio Martino, Ciro Marcondes, Wilson Gomes, Luis Felipe Miguel,
Rousiley Maia e Ângela Marques.
A partir dessas inspirações, o intuito do grupo foi o de enri-
quecer as discussões sobre possibilidades teórico-metodológicas
nos estudos de comunicação pública e política – contribuindo,
assim, para a fundamentação e para a criatividade científica.
Este terceiro volume, “Comunicação, políticas públicas e
discursos em conflito” busca , portanto, a retomada da valoriza-
ção da comunicação pública e de tudo que ela implica, a saber,
o diálogo frutífero entre Estado e sociedade, a participação ci-
dadã no desenvolvimento e implantação das políticas públicas,
o amadurecimento dos processos democráticos e, por que não
dizer, a demonstração de que é bem mais que simples “comuni-
cação governamental”. Após uma perspectiva mais teórica e me-
todológica, corre agora uma virada pragmática entre os estudos
do grupo. As preocupações se voltam para pesquisas específicas
e aplicadas sobre políticas públicas.

12
Registro a seguir breve um comentário sobre cada um dos
capítulos deste volume, destacando as autoras e autores, bem
como as possibilidades apontadas pelos textos para o aprofun-
damento da comunicação pública.
Na primeira seção da coletânea, dois textos debatem de-
safios do atual contexto tanto para os estudos quanto para ini-
ciativas práticas em comunicação pública. No primeiro, o filósofo
Paulo Ghiraldelli Jr. se debruça sobre o esvaziamento das narra-
tivas informativas e a preponderância da imagem na sociedade
contemporânea. De forma crítica e provocativa, o olhar do autor
é para o atual cenário político brasileiro após a vitória eleitoral de
Jair Bolsonaro à Presidência da República. Ao situar sua análise, ele
também expande a interpretação sobre um tempo em que a ima-
gem perdeu qualquer enredo. No campo da política, isso anula a
possibilidade de debate e troca de ideias na “sociedade do espetá-
culo” (Debord) – o que, no Brasil, levou a uma transição de governo
baseado numa exposição crua, sem discurso, sem propostas.
No segundo artigo da primeira seção, Guilherme Fráguas
Nobre e eu registramos inquietações construídas ao longo de
pesquisas conjuntas que vão convergindo para a seguinte per-
gunta: é possível conceber comunicadores públicos artificiais,
e comunicadores políticos artificiais? Temos aqui uma reflexão
sobre os desafios apresentados pela tecnologia e a reconfigura-
ção dos sujeitos de comunicação baseados em softwares e algo-
ritmos programáveis. A consequência dessas inovações sobre a
qualidade dos discursos ainda é pouco discutida entre os estudos
de comunicação.
A parceria do artigo se baseia na longa trajetória entre os
dois pesquisadores, onde Nobre, desde 2002, em sua tese de

13
doutorado sob minha orientação, já trilhava seu caminho em
torno de questões teóricas das novas tecnologias e dos agentes
comunicacionais, enquanto eu me concentrava na comunicação
pública do ponto de vista de entes humanos e sociais. A apro-
ximação entre os pesquisadores trouxe a oportunidade de No-
bre contribuir para o desenvolvimento teórico da comunicação
pública. Neste artigo, nos reunimos para celebrar, finalmente, as
contribuições mútuas.
Na sequência, os capítulos estão organizados de acordo
com as políticas públicas a que se dedicam. É necessário ressal-
tar aqui que as discussões apresentadas pelos autores refletem
os acontecimentos políticos a partir das eleições de 2014 e, na
sequência, do impeachment da presidente eleita, Dilma Rousseff
– substituída pelo vice Michel Temer, num processo que marca
o desmonte do Estado voltado para o social. E em 2018, temos
como pano de fundo a campanha de Jair Bolsonaro, que assumiu
o poder em 2019.
Na seção sobre Comunicação Pública e Saúde, há três ar-
tigos sobre temas específicos desse segmento. O primeiro deles,
escrito por Devani Salomão, é fruto de uma pesquisa de pós-dou-
torado sobre o Guia Alimentar para a População Brasileira, mos-
trando como uma política pública de combate à obesidade pode
ser alvo de críticas. Sua reflexão se inicia com o questionamento
sobre o que é um problema público e como sua tematização leva
à formulação de políticas públicas.
O artigo de Salomão, Carvalho, Machado, Foschi e Sellwood
apresenta uma análise de conteúdo dos discursos dos diversos
ministros da Saúde do Brasil entre 2001-2017, no âmbito da
Assembleia Mundial da Saúde, da OMS. Esta metodologia é um
importante recurso nos estudos da comunicação pública, permi-
14
tindo identificar como as diferentes vozes em torno de políticas
públicas (neste caso, de saúde) ganham espaços de representa-
ção – mais ou menos distantes do Estado e da conformação de
programas que efetivamente alcancem os interesses sociais mais
prementes.
O terceiro capítulo na seção sobre Comunicação Pública e
Saúde é assinado por Foschi, Gil e Diniz. O texto trata do debate
sobre o parto humanizado vis-à-vis a epidemia de cesáreas em
hospitais públicos e privados brasileiros – apresentando critica-
mente os argumentos que justificariam esta opção. No estudo, o
interacionismo simbólico de George Mead e Herbert Blumer ofe-
rece a perspectiva necessária para investigar como opera a comu-
nicação para a tomada de decisões na assistência ao nascimento.
Na seção seguinte, Gean Gonçalves e Nelson Neto analisam,
do ponto de vista da comunicação pública, as disputas discursi-
vas sobre gênero – no contexto da eleição recente de candidatos
que reforçam o chamado combate à “ideologia de gênero”. Os
autores oferecem uma visão contextualizada sobre a moralização
dos discursos políticos em toda a Nossa América (num tratamen-
to decolonial sobre a América Latina) e abordam as dificuldades
para a elaboração de uma política pública inclusiva e diversa de
gênero, constrangida por discursos de intolerância.
Para abordar a relação entre Comunicação Pública e Educa-
ção, Gil, Oliveira e Gorgueira lidam com o debate sobre o Projeto
da Escola Sem Partido (ESP), analisando as disputas e os conflitos
argumentativos dos vários atores sociais sobre o tema – e o fa-
zem pela perspectiva interpretativa de Chantal Mouffe. Os estu-
dos indicam a dificuldade na sociedade brasileira de dar vazão à
uma discussão antagonística sobre a política educacional.

15
Os entraves comunicativos são tema também do texto que
aborda a relação entre Comunicação Pública e Ciência. Mônica
Santos e Túlio Fonseca tratam das dificuldades de compreen-
são (e comunicação) de mensagens divulgadas no Twitter com
a hashtag #ExistePesquisaNoBR, devotada à divulgação da pes-
quisa científica como forma de protesto à ameaça de cortes de
verbas públicas para incentivo da ciência. O texto aponta para
uma longa trajetória ainda a ser percorrida para a valorização da
comunicação da ciência, além do jornalismo científico.
Entre os textos que se dedicam à análise do discurso das
mídias na conformação das políticas públicas, está o capítulo ela-
borado por Henrique Macedo e Jacqueline Sinhoretto, na seção
Comunicação Pública e Segurança. Os autores estudam o discurso
político e das mídias sobre a violência, mostrando como tem do-
minado o viés populista e punitivista sobre o tema.
Na mesma seção, Luciana Moretti Fernández busca “as vo-
zes do crime” nas letras do funk proibido, tentando entender se
há relação entre o mundo representado nas músicas e as po-
líticas públicas de segurança – numa potencial falta de comu-
nicação entre os universos da criminalidade, encarceramento
massivo e marginalização da cultura periférica. O capítulo é uma
contribuição particular para os estudos metodológicos baseados
na Grounded Theory, com o uso de mapas conforme a proposta
da Análise Situacional (de Adele Clark). A proposta é triangulada
com a teoria dos dspositivos comunicacionais, de José Luiz Braga,
oferecendo um exemplo de criativa e fundamentada metodolo-
gia de pesquisa em comunicação.
Artur Roman investiga, via comunicação política, as pro-
postas dos candidatos à Presidência da República durante as elei-

16
ções de 2018, mapeando quais deles incluíam (ou não) planos
de políticas públicas para as pessoas com deficiência. O mapea-
mento dos discursos eleitorais oferece a possibilidade de avaliar
a coerência programática dos partidos políticos, instituições fun-
damentais de mediação do interesse público.
O viés institucional foi escolhido por Mota, Nogueira e Bu-
zzoni para avaliar como a Secretaria Municipal de Direitos Huma-
nos e Cidadania de São Paulo tem usado o trabalho em rede para
viabilizar a aplicação de políticas públicas de acolhimento a mi-
grantes. Este formato exige uma comunicação mais estruturada
para relacionar as diferentes contribuições para o funcionamento
de uma política integrada.
Também com uma perspectiva institucional integrada com
a análise sobre a vida nas cidades, as autoras Oliveira, Oliveira e
Nader se debruçam sobre o programa Minha Casa, Minha Vida
como fio condutor da pesquisa que relaciona comunicação públi-
ca e moradia. A análise que elas oferecem pode contribuir para a
configuração de melhores políticas públicas de habitação.
Por fim, Zanei Ramos Barcellos faz um estudo comparativo
da cobertura sobre transporte público entre os jornais El Tiempo,
de Bogotá, na Colômbia, e Gazeta do Povo, de Curitiba (Sul do
Brasil) – mostrando como ambos têm estado distantes do cida-
dão comum. O capítulo reforça o conjunto de textos que, nesta
coletânea, valorizam o papel das mídias na discussão sobre polí-
ticas públicas, contribuindo ainda para ampliar nosso campo de
visão para o contexto mais amplo da América Latina.
Como coordenadora do Compol, sinto-me novamente hon-
rada de trazer à luz mais essa contribuição científica para nosso
País, que é, vale repetir, a valorização e o engrandecimento da

17
comunicação pública. Como apresentado, os textos deste volume
relacionam a comunicação pública com a saúde, com a educa-
ção, com a tecnologia, com as políticas públicas para a habitação,
a migração, a segurança pública, o transporte metropolitano, as
relações de gênero, a inclusão de deficientes e a própria popu-
larização da ciência. Se durante boa parte de minha carreira me
vi impelida a repetir incessantemente que comunicação públi-
ca não deve ser confundida exclusivamente com comunicação
governamental, hoje posso afirmar, com alívio, que nos últimos
anos a comunicação pública conquistou maturidade como con-
ceito acadêmico e prática profissional – aportando contribuições
fundamentais para a sociedade.
Registro, por fim, os agradecimentos pelo apoio recebido
pelo Compol: muito obrigada à USP, à Escola de Comunicações
e Artes e ao CRP (Departamento de Propaganda, Relações Públi-
cas e Turismo), que nos acolhem; à Pro-Reitoria de Pesquisa e à
Comissão de Pesquisa da ECA, pelo incentivo à ciência; e muito
especialmente à coordenação do Programa de Pós-Graduação
em Ciências da Comunicação (PPGCOM). Nossa publicação é fruto
de trabalho e de apoio institucional de todos. Agradeço, também
aos orientandos e membros pioneiros e novos e também aos
convidados desta terceira coletânea.

São Paulo, maio de 2019.

18
CONTEXTO E DESAFIOS
CONTEXTO E DESAFIOS

O DOMÍNIO DA IMAGEM OBSCENA


OU O ESVAZIAMENTO DA COMUNICAÇÃO
POLÍTICA NO BRASIL

Paulo Ghiraldelli Jr.1

RESUMO

O presente capítulo apresenta um olhar filosófico atual so-


bre uma comunicação pública e principalmente política domi-
nada pelas imagens sem enredo. A partir da análise da ausência
de discursos e propostas na campanha do atual presidente bra-
sileiro, Jair Messias Bolsonaro, o texto amplia a discussão sobre
a predominância das imagens cruas no contexto de uma outra
modernidade. Esvaziadas de enredo, legenda, ideias e discursos,
as imagens prevalecem em sua forma obscena ou pornográfica,
apenas com valor de exposição. A reflexão se aprofunda ao lado
de autores como Guy Deobord, Walter Benjamin e Thomas Ma-
cho, numa crítica necessária ao contexto político nacional.

PALAVRAS-CHAVE: imagens, espetáculo, face e cara, Bolsonaro,


discursos.

1 Doutor e mestre em Filosofia pela USP. Doutor e mestre em Filosofia da


Educação pela PUC-SP. Bacharel em Filosofia pelo Mackenzie e Licenciado em
Ed. Física pela UFSCar. Pós-doutor em Medicina Social pela UERJ. Professor
titular pela Unesp. Autor de mais de 40 livros e referência nacional e
internacional em sua área, com colaborações nos jornais Folha de S. Paulo e
O Estado de S.Paulo. Professor no exterior e no Brasil. Pesquisador convidado
da ECA-USP com atuação no Grupo de Pesquisa em Comunicação Pública e
Comunicação Política (Compol). Jornalista profissional. E-mail: ghiraldelli.
filosofia@gmail.com

21
INTRODUÇÃO

Em 1776, ano da Independência Americana, Adam Smith


publicou o seu célebre Inquérito sobre a natureza e as causas da
riqueza das nações. Nesse livro, o autor, um dos principais arau-
tos do liberalismo, fez questão de evocar a necessidade da edu-
cação pública, de modo a tornar a população de um país capaz
de julgar seus governantes de modo racional, sem idiossincra-
sias, abstendo-se do que ele qualificou como movimentos brus-
cos conduzidos por paixões não ponderadas. Na verdade, Smith
estava preocupado antes com comunicação que com educação.
Ao gosto de outros iluministas, ele apostava que a educação po-
deria tornar um povo mais dócil, exatamente por ganhar enten-
dimento das leis e projetos governamentais, quando do recebi-
mento de informações do governo a esse respeito.
Na linguagem atual, diríamos que Adam Smith estava in-
teressado em fenômenos de comunicação política e comunica-
ção pública.
Os liberais nunca deixaram de acreditar, ainda que com
variações, na capacidade dos governantes de explicitar funções
aos governados e, nesse movimento, serem não só entendidos
quanto aceitos. A fé nas narrativas produzidas de um polo para o
outro, mesmo em períodos os mais turbulentos, nunca se dissi-
pou. De certo modo, os liberais sempre advogaram que, em boa
medida, uma nação rica não poderia ter conseguido sua riqueza
sem ter um povo afinado com as narrativas vindas do poder.
Talvez essa seja, ainda, uma das principais características
da política liberal, em oposição à política conservadora (tomando

22 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


CONTEXTO E DESAFIOS

aqui a nomenclatura americana). Todavia, seria arriscado dizer


que, nos dias atuais, mesmo os liberais mais confiantes na inte-
ração entre humanos, entre governantes e governados, não te-
nham lá alimentado algum ceticismo sobre isso. Afinal, é difícil
não ver que as coisas não são mais as mesmas. Algo ocorreu com
as narrativas informativas de um modo geral no mundo atual.
Nossa modernidade, ao menos no âmbito da comunicação públi-
ca e política, é uma outra modernidade.
O texto que segue fala sobre vicissitudes dessa moderni-
dade tardia quanto ao que entendemos como “fenômeno co-
municativo”.

1.

Quando o ator brasileiro Ney Latorraca viu a capa da revista


“Manchete” estampando uma foto de Fernando Collor, então com
40 anos, alto e esguio, estendendo a mão para o eleitor-leitor, ele
afirmou com segurança: “é a candidatura do corpo”. Tinha tudo
para vencer as eleições. E venceu. Mas hoje eu diria: a imagem
do corpo nada mais era que a antessala da preponderância da
imagem enquanto imagem. Do que se trata? Aponto aqui para
a imagem em favor do espetáculo, ou, mais acertadamente, a
imagem que se faz importante por ser imagem, nada mais.
Naquela época da eleição de Collor, olhamos a mata e vi-
mos só a árvore, não a floresta. Ficamos com a imagem do corpo,
quando na verdade o que tínhamos de notar era a preponde-
rância da imagem enquanto imagem. Isso, na época, ainda não
estava claro. É que Collor ainda tinha um discurso, uma narrativa,

23
um texto. Collor foi de um tempo em que imagens ainda pediam
legendas. Ele não se furtou em fornecê-las. Mas fez isso de um
modo inusitado.
Nos primeiros dias de governo, deixou para a imprensa
uma foto em que pilotava um jato da FAB. Sucesso total. Passou
então a se comunicar com a população sem mediações, através
de frases que colocava em sua camiseta, num peito viril. Toda
manhã, ficava-se sabendo de seus planos e disposições pelos di-
zeres da camiseta. Na época, foi Marilena Chauí quem notou, na
Folha de S. Paulo, sabiamente, a técnica fascista embutida nessa
prática. Mas deveríamos ter visto mais que isso. Não vimos. Ainda
não era o tempo.
Collor era o homem da imagem, mas esta ainda não se
desvinculava do texto, não o anulava ou o desdenhava. A situa-
ção para a qual caminhamos, e que só agora efetivamente alcan-
çamos, é bem diferente.
Só agora entendemos a vassoura de Jânio Quadros e o uso
do corpo por Collor. Pois só agora chegamos ao que chegamos:
vimos Jair Messias Bolsonaro se transformar no primeiro candida-
to à Presidência da República a se apresentar única e exclusiva-
mente pela imagem, sem qualquer texto e proposta. Nem corpo
nem vassoura. Apenas a pantomima e abstenção da atividade
neuronal. Uma imagem pouco mensageira do logos, um raio de
silhuetas de objetos em favor do gesto estereotipado. Trata-se
da imagem sem qualquer enredo que diga algo interessante. A
imagem que nada é senão o ato, a ação, o brusco. Eis o que é o
conteúdo da imagem atual: a fanfarronice dos objetos – a mesa
dançante aludida por Marx em O Capital –, o vazio dos atos cir-
censes a esmo, a histeria sem busca de divã ou clínica. Sim: antes

24 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


CONTEXTO E DESAFIOS

histeria que depressão, pois o sujeito contemporâneo está mais,


realmente, para o histérico.2
Bolsonaro nos trouxe a infância irrequieta, a puerilidade
perigosa, a imagem pela imagem. Sua campanha em 2018 foi,
pela primeira vez, a campanha da imagem sem criatividade. A
imagem sem a narrativa tradicional a ela acoplada e sem qual-
quer coisa senão a repetição do próprio imaginário tosco e infan-
til de um senso comum idiotizado.
Bolsonaro fez da imagem o que ela já prometia e o que,
afinal, era o que ela própria havia desejado. A imagem no capi-
talismo, ao se tornar peça central, nunca quis outra coisa senão a
sua emancipação em relação à legenda.
Ele, Bolsonaro, chegou ao seu público por fotos e vídeos
que se tornaram memes. Sua foto chutando o boneco de Lula
com pijama de priosioneiro tornou-se uma coqueluxe durante a
campanha. Seus filhos se mostraram armados em comícios, pro-
positalmente – para que fossem assim fotografados. Ele propa-
gou os gestos obscenos de atirar com as mãos e dedos. Ele agar-
rou a câmera de TV e fez dela uma metralhadora para “eliminar
a petralhada”. Nenhum outro candidato fez esses gestos ou usou
de apetrechos em comícios – não dessa maneira. Em vídeos, ele
inseriu o dedo em um orifício de um livro de educação sexual,
imitando um pênis. Como fazem muitos candidatos, ele não se
importou em corrigir sua arcada dentária, que pende para um

2 Sobre o homem contemporâneo, vale a pena mensurá-lo tendo em conta


a seguinte observação de Peter Sloterdijk: “O processo do mundo, no seu
conjunto, tem muitos pontos em comuns com uma ‘party’ de suicidários de
grande escala do que com uma organização de seres racionais que visem a
sua autoconservação”. Sloterdijk, P. A intoxicação voluntária. Lisboa: Fenda,
1999. p. 12.

25
lado, muito menos educou sua voz, que é incômoda por causa
de um problema de língua presa. Afinal, o que importava é que a
imagem nua e crua prevalecesse no imaginário dos toscos de es-
pírito – aqueles a quem as narrativas e legendas não fazem falta.
O segredo dos tempos: que exista um imaginário que de-
nota primitividade, para servir de aderência – esta é a palavra –
para as imagens lançadas pelos memes de Bolsonaro.
Foi a primeira vez que a imagem de candidato político veio
despida de texto. Ela veio apenas como imagem, ou seja, como o
que surge para excitar, quase como uma pornografia. Ou melhor:
de fato como pornografia.
No que segue, falo desse assunto em três partes. No tópi-
co 2, abordo a preponderância da imagem na sociedade atual,
utilizando-me de Guy Debord. No tópico 3, abordo a imagem do
rosto em nossos tempos, seguindo a dualidade valor de culto e
valor de exposição, de Walter Benjamim. No tópico 4, que finaliza
este texto, lembro de análises de Thomas Macho para falar do
rosto entalhado e de como a personalidade assume esse entalhe.
Em todo o texto, a ideia básica é percorrer o fenômeno “Bolsona-
ro” como estrela de uma campanha autenticamente contempo-
rânea, aquela campanha em que o essencial é ser não simples,
mas praticamente simplório, e altamente eficaz na capacidade
de produzir imagens que já estavam em nossas retinas há muito.

2.

As imagens produzidas por Bolsonaro, como se apresenta-


ram na sua campanha política, fizeram o Brasil finalmente entrar

26 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


CONTEXTO E DESAFIOS

na narrativa que foi traçada por Guy Debord, ao falar da “socie-


dade do espetáculo”. Demorou, mas o gesto de cerrar os punhos
ou fazer o “V” da vitória ou coisa parecida perdeu espaço para os
gestos histriônicos com uso de objetos. O personagem propria-
mente humano passou para segundo plano, deixando a imagem
do grotesco, enquanto pura imagem de espetáculo circense, ga-
nhar o papel de protagonista da campanha. Bolsonaro não tinha
o que dizer, então disse o que os nossos tempos dizem: que tudo
seja para ver, não para pensar.
Ver o quê? Do que é composto o espetáculo? Ora, do ar-
remedo do circo, do arremedo da guerra, do arremedo de Ram-
bo, da imagem que não pode mais comunicar outra coisa senão
as onomatopeias do “bum”, “ratatará”, “bang”. “Mito” – eis a
palavra-chave para imagens de onipotência feitas não só com
pessoas, mas principalmente com objetos, ou com pessoas que
imitam objetos. Ou objetos que se mostram abjetos.
Chutar um boneco de um adversário político – por que
isso? Duvido que isso tenha sido feito em qualquer outra época
ou país. Nem Hitler foi combatido assim pela indústria cinemato-
gráfica de propaganda de Guerra, dos experts americanos da mí-
dia. Caso Donald Trump tivesse usado tal técnica, Hillary Clinton
teria vencido a eleição presidencial nos Estados Unidos em 2016.
O Brasil atingiu a espetacularização completa antes dela vingar
no centro do capitalismo.
Mas como chegamos a isso?
Dizem que as características dos pais nunca se explicitam
nos filhos, mas sim em sobrinhos, ou seja, as coisas vingam com
clareza nas periferias. O capitalismo é assim. Não o vemos de
todo na Inglaterra ou na Alemanha ou nos Estados Unidos se não

27
acompanhamos as caricaturas nascidas nas periferias. Que o Bra-
sil tenha sido um dos lugares a trazer a espetaculização profeti-
zada por Debord de modo mais aviltante, segue essa regra.
O que Debord afirmou está em um dos mais proféticos pa-
rágrafos postos em um livro:

A primeira fase da dominação da economia sobre a vida


social acarretou, no modo de definir toda da realização
humana, uma evidente degradação do ser para o ter. A
fase atual, em que a vida social está totalmente tomada
pelos resultados acumulados da economia, leva a um des-
lizamento generalizado do ter para o parecer, do qual o
ter efetivo deve extrair seu prestígio imediato e sua fun-
ção última. (DEBORD, 2015, p. 18, grifo meu).

E Debord acrescenta, logo em seguida: “quando o mun-


do real se transforma em simples imagens, as simples imagens
tornam-se seres reais e motivações eficientes de um comporta-
mento hipnótico”. (DEBORD, 2015, p. 18).
Bolsonaro, chutando o boneco de Lula ou metralhando
gente, trouxe a imagem do espetáculo que temos hoje na com-
preensão de nossas retinas: o vídeo game, a guerra, o cinema da
violência e das explosões. Punhos cerrados são para o velho movi-
mento operário e para candidatos que perderam o bonde da his-
tória. Não se deve tentar trazer a imagen para uma semântica his-
tórica carregada de intenções emancipadoras, mas sim para uma
protossemântica já amalgamada no imaginário popular infanti-
lizado, posto pela imagem como substituta definitiva do texto. A
imagem pela imagem não vem da indústria cinematográfica, mas

28 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


CONTEXTO E DESAFIOS

do movimento do capitalismo que faz o que tem que fazer para


que tudo vire imagem e só tenha o que dizer como imagem. Dizer
o quê? Nada! Apenas tornar as relações humanas ainda possíveis
pelo seu arremedo de serem peças das relações do mercado.
Fazer do mundo uma época em que as imagens são sua
realidade é a especialidade da sociedade de mercado. Debord,
claro, se inspirou em Marx para falar o que falou. Do que se trata?
A sociedade capitalista como sociedade de mercado é o
lugar em que o produto perde seu valor de uso para se trans-
formar em mercadoria e, então, só portar e comportar valor de
troca – ou simplesmente valor. No mundo mercadorizado nada é
para ser usado. Tudo é valor enquanto valor abstrato, enquanto
horas de trabalho incorporadas e, portanto, trocável por horas
de trabalho incorporadas. Troca de equivalentes é uma forma de
trazer todos nós para o campo da abstração. Ao mesmo tempo,
para que isso ocorra, é necessária a separação entre o produto e
o trabalhador. Essa separação garante o mercado, sua existência,
o fim da visão que olha para as coisas como contendo utilidades,
e a protagonização da visão que olha para as coisas como objetos
que, uma vez sem utilidade, sem valor de uso, se transformam
em substitutos de obras de arte. As mercadorias ensinam todos
a se transformarem em expectadores. Eis um aprendizado que
nos molda irreversivelmente. Elas inauguram a vitrine e, portan-
to, mais tarde, pela tecnologia, a TV, até o momento de poderem
fazer com que todos também se tornem imagens como elas, nos
celulares. Do fim do valor de uso em favor do valor de troca para
se chegar à vitrine física até a vitrine que acolhe a nós mesmos
como modelos através de vídeos e fotos dos celulares, percorre-
mos pouco mais de quinhentos anos.

29
Nessa sociedade, a imagem logo poderia ser imagem por
ela mesma, sem qualquer enredo. Uma imagem sem texto, que
se sustente por ela mesma, precisa ser uma imagem do que já
está no imaginário. O histrionismo de Bolsonaro veio das peripé-
cias de “O Gordo e o Magro”, passando por “Rambo” e chegando
ao rolar de Neymar. Da imagem rica para a imagem desalmada,
desespiritualizada, empobrecida. É preciso um picadeiro de se-
mântica pobre para que o imaginário pobre dos pobres de espí-
rito, que somos todos nós, nos dê o entretenimento necessário.
Bolsonaro fez o show. Chutou Lula. Metralhou. Ousou pe-
gar a criança e ensiná-la a fazer arma com os dedos. Quebrou o
pudor. Não à toa, deixou-se fotografar junto com um ator pornô
que confessou estupro, em plena TV (Alexandre Frota no progra-
ma de Rafinha Bastos, na Band). Pois a imagem pela imagem é
a obscenidade completa. A mercadoria, sabemos nós, é obscena.
Mas, afinal, por que todos os outros candidatos não atua-
ram assim? Por uma razão simples: todos que disputaram com
Bolsonaro eram candidatos antiquados. Perderam o laço com
a nossa contemporaneidade. Insistiram em fazer da imagem a
imagem do rosto, chamando o olhar para as suas bocas e olhos,
uma vez que suas imagens ainda estavam associadas ao que é
proferido por esses órgãos, ou seja, a narrativa do discurso, a nar-
rativa racional que visa convencer pela exposiçao de ideias. Mas
quem está interessado em discurso e ideias? Como o próprio Bol-
sonaro disse: “quem está interessado em aluno crítico?”.

30 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


CONTEXTO E DESAFIOS

3.

Aqui, para entendermos como o rosto é e não é um proble-


ma para os contemporâneos, nada melhor que recorrer à noção
de Walter Benjamin de “valor de exposição”.
Benjamin notou que, junto da oposição entre valor de uso
e valor de troca, surgiu o valor de exposição. Agamben comenta
assim essa descoberta benjaminiana:

a fim de caracterizar a transformação que a obra de arte


sofre na época de sua reprodutibilidade técnica, Benjamin
havia criado o conceito de ‘valor de exposição’. Nada po-
deria caracterizar melhor as novas condições dos objetos
e até mesmo do corpo humano na idade do capitalismo
realizado do que esse conceito. Na oposiçao marxiana en-
tre o valor de uso e o valor de troca, o valor de exposição
sugere um terceiro termo, que não se deixa reduzir aos
dois primeiros. Não se trata do valor de uso, porque o que
está exposto é, como tal, subtraído à esfera do uso; nem
se trata de valor de troca, porque não mede, de forma
alguma, uma força-trabalho. (AGAMBEN, 2007, p. 77-78).

Benjamin opôs “valor de exposição” a “valor de culto”. O


valor de culto tem a ver com a obra que está velada e que possui
sua aura. Ela perde importância no capitalismo avançado, en-
quanto o valor de exposição ganha importância. Ele exemplifica
essa ideia ao tratar da popularização da fotografia. O elemento
de resistência, então, é o rosto humano. Como ele diz, “sua últi-
ma trincheira é o rosto humano”.

31
Não é por acaso que o retrato era o principal tema das pri-
meiras fotografias. O refúgio derradeiro do valor de culto
foi o culto da saudade, consagrado a amores ausentes ou
defuntos. A aura acena pela última vez na expressão fugaz
de um rosto, nas antigas fotos. É o que lhes dá sua beleza
melancólica e incomparável. Porém, quando o homem se
retira das fotografia, o valor de exposição supera pela pri-
meira vez o valor de culto. (BENJAMIN, 1987, p. 174).

Essa situação é aquela da qual só Bolsonaro, entre todos


os candidatos, poderia aproveitar. Não tendo nada para dizer, o
melhor seria compactuar com o êxito do valor de exposição. A
regra: não enfatizar o rosto, que uma vez presente lembra a fala,
o discurso, a narrativa racional. Então, o melhor é que saia o ho-
mem e entre o espalhafato, ou seja, a arma ou o corpo como uma
peça armada (ou imitação da arma), então, que saia o homem e
entre o chute e o boneco. O homem é o rosto, mas o rosto atrai
o culto, o rito, a oração, a narrativa. Sem o homem, só com o his-
trionismo de objetos e mãos que fazem objetos, a imagem ganha
o que tem de ganhar em uma “sociedade do espetáculo”, a sua
ampliação como valor de exposição.
Mas, inserido entre os seus pares, então voltados para uma
campanha política tradicional, Bolsonaro também tinha de ser
um rosto. Como ele conciliou uma tal situação? Ora, ele não pre-
cisou se esforçar. Tudo conspirou a seu favor.
Logo ele se adaptou, também aí, ao momento mais con-
temporâneo. Se o rosto tinha de surgir, não deveria emergir
como rosto e, sim, como face. Esta, segundo Byung Chul Han, é o
que não aparece nas velhas fotos, mas no Facebook e na produ-

32 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


CONTEXTO E DESAFIOS

ção do photoshop (HAN, 2017, p. 29). Aqui, nesses locais, não há


nenhuma aura e, enfim, o que se faz presente é o mesmo, o que
se repete, o que é mera superfície sem rugas e sem expressão
humana, mas com expressão caricaturesca, burlesca, como se
todos fossem objetos, bonecos de mesmo olhar. As fotos atuais,
todas seguindo o padrão Facebook (que nome, heim?), mostram
moças que posam de maneira igual, com rostos (ou melhor, fa-
ces!) iguais, montados pela maquiagem padrão. Tudo é feito para
o máximo de exposição. Nenhuma face assim lembra a fala, a
narrativa ou o discurso. Nenhuma face quebra a imagem ou a se-
cundariza por meio de um pedido por discurso. Também o rosto
de Bolsonaro, quando não podia ser evitado, passou a apresentar
uma só configuração, se fazendo face: um sorriso um tanto sar-
cástico, com a mesma abertura da boca para qualquer situação.
O sorriso estereotipado evita que se peça um discurso, uma fala,
uma ideia, do mesmo modo que as meninas do Facebook postam
carinhas com bico, beijo, enquanto os meninos, como o Neymar,
fazem as fotos com a língua para fora. Não há o que dizer, dizem
essas faces. É a face, ou seja, o rosto em estilo superfície – a cara
de Bolsonaro. A face da cena que é a face obscena.
Nessa situação, Byung-Chul Han comenta: “na sociedade
expositiva cada sujeito é seu próprio objeto-propaganda; tudo
se mensura em seu valor positivo. A sociedade exposta é uma
sociedade pornográfica; tudo está voltado para fora, desvelado,
despido, desnudo, exposto” (HAN, 2017, p. 31-32). Mas isso ocor-
re porque o que é despido não possui rugas ou história, não se
faz como rosto humano.
Ninguém se colocou tão a nu em uma campanha quanto Bol-
sonaro. A facada que ele levou fechou o quadro. Ele foi apresentado,

33
então, com a barriga aberta, sem camisas, ou de pijama, trazido para
a imagem, em máxima exposição, como aquele que continuava seu
show de peripécias mesmo após a peripécia máxima. Fotografado
no hospital em uma aparência deplorável, ele se fez ainda mais
aquele que, então, nem poderia de fato falar. Se havia ainda, em
sua imagem, algum rosto, ali ele desapareceu de vez. Bolsonaro se
recolheu e, não podendo chutar o boneco de Lula, se calou de vez.
Quando falou, foi agressivo, mas já eram os últimos dias da campa-
nha, quando então poderia falar, pois não seria mais em um debate.
Sua cara então falou, mas falou como toda cara contemporânea fala:
aos gritos de frases simplórias que poderiam vir pelo Twitter.
Todos ficaram procurando Bolsonaro para o debate. O de-
bate é onde há a celebração do valor do culto, uma quase ceri-
mônia religiosa. A adoração do logos. Bolsonaro não foi. Claro, ele
continuou cativo e ao mesmo tempo soberano, abusando das pe-
ripécias já tratadas, já fotografadas. Dali em diante, vieram então
as danças de rua, as coreografias de pessoas imitando robôs e se
dizendo bolsonaristas. Todas dispostas a andar juntas, contanto
que nenhum discurso racional fosse necessário. E não era. Não é.
Para esse tipo de gente, jamais será.

4.

O segredo de Bolsonaro para apresentar o rosto (e, ao mes-


mo tempo, dar-lhe característica apenas de face, de cara, impe-
dindo assim que alguém viesse a dar atenção para a sua boca
como algo humano, ou seja, que emite palavras) é revelado se
trazemos à tona as observações feitas por Thomas Macho.

34 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


CONTEXTO E DESAFIOS

Este, comentando “O homem que ri”, de Victor Hugo, de-


dica-se a analisar a figura do Coringa, aquele representado pelo
ator norte-americano Heath Ledger. Nesse caso, o Coringa é al-
guém que tem o seu sorriso não por efeito da natureza, mas por
um talho feito por seu pai. Desse modo, o Coringa se transforma
em Coringa, aquele que ri em qualquer situação. Estando sorrin-
do em qualquer situação, graças ao talho, ele assume seu rosto e
o transforma em face, em caricatura, em cara. Sua personalidade
incorpora a sua face. E então, ele realmente ri de tudo, inclusive
da própria desgraça (GHIRALDELLI JR., 2017, p. 106).
É verdade que muitos de nós nos tornamos o nosso rosto
transformado em face. Pois nossa face chama os outros e os faz
dizerem coisas para nós que nos dão o parâmetro de quem so-
mos, ou melhor, de quem seremos. Ao fim e ao cabo, somos de
fato os que sorriem por meio de um talho. Os outros entalham
uma personalidade em nós, que é própria do rosto que lhes apre-
sentamos. Chegamos então a celebrar nossa transformação em
viventes voltados para o exterior, em objetos obscenos, porno-
gráficos. Apresentamos na alma o despudor do rosto, uma vez
ensinado pelos outros que, afinal, somos aquela cara. Na época
da sociedade do espetáculo, ficamos com cara de observadores.
Mas, ao mesmo tempo, se também somos os elementos do palco,
nos apresentamos segundo a regra da imagem preponderante:
aparecemos com o rosto imóvel, a cara, a caricatura, ou seja, a
face entalhada. Todos somos como que bailarinas do programa
Domingão do Faustão (TV Globo): fazemos o show e ao mesmo
tempo o vemos, mas sempre com o rosto do sorriso entalhado,
fabricado por longo branqueamento de dentes e outros apetre-
chos padronizáveis. Fazer micagens como são os lindos sorrisos

35
largos é uma forma de perder o rosto e ganhar a face, que se
mostra como cara.
Bolsonaro soube mostrar o rosto como cara. Apresentou-se
entalhado (e depois, literalmente, esfaqueado). Quem iria cobrar
outra coisa de um Coringa que não um sorriso único e uma men-
sagem sarcástica? Sabemos que o forte do Coringa não é o falar,
e sim o trabalho de armar arapucas. Mas esperar o quê de um
personagem cujo rosto é uma arapuca para si mesmo?
Nas milhares de foto que Bolsonaro apresentou, com um
sorriso estereotipado e fazendo o gesto de atirar com as duas
mãos, ele foi mostrando ser o candidato efetivamente com mais
chances de ser sincero, ainda que uma sinceridade, digamos, ani-
mal ou cínica. Pois o que o entalhamento do rosto faz é produzir
uma fusão entre cara e personalidade, de modo que todos aca-
bam por não encontrar nenhuma fissura entre ambos. Por mais
que a situação esteja ruim, o Coringa sempre está rindo. Quem o
acusaria de ser falso?
O trunfo do Coringa é a fraqueza de seu adversário: Bat-
man. Enquanto a justiça arbitrária precisa de máscara, ele, Corin-
ga, abomina máscaras. Para que mascarar aquilo que é sua força?
Ei-la: seu rosto preparado para rir até mesmo quando torturado
por Batman na prisão.
Todo rosto, dizem Deleuze e Guatari, se rostifica e produz
uma “organização forte” (GHIRALDELLI JR., 2017, p. 188-189). Eu
diria, passam a compor uma cara. Essa organização forte desfaz-
-se da dicotomia tipicamente moderna de interior e exterior. O
rosto tornado cara é sincero, ou melhor, obsceno, porque não
tem exterior, nada pode esconder sendo só cara. Os personagens

36 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


CONTEXTO E DESAFIOS

de Nicolas Cage e John Travolta, no filme de John Woo (Face/Off),


trocam de rosto, e em pouco tempo perdem suas personalidades
anteriores adquirindo a personalidade dada pela cara, uma vez
que esta já carrega consigo todas as relações possíveis do antigo
hospedeiro. Bolsonaro ganhou uma cara entalhada por nunca ter
usado do rosto, da boca e dos olhos, pois nunca teve qualquer
ideia que viesse a necessitar da boca para expô-la. Coube-lhe
bem, então, o silêncio, o uso da cara que lhe coube e que, por
sorte, era a sua mesma. Isso lhe deu enorme vantagem na pro-
dução das imagens próprias para o nosso tempo. Somos a época
do espetáculo. Mas não de qualquer espetáculo. Somos a época
em que o aparecer, que é o que conta, deve aparecer em conexão
com o próprio cultivo de imagem pela imagem. Bolsonaro é a
comemoração da morte da legenda.

37
REFERÊNCIAS

AGAMBEN, G. O elogio da profanação. In: AGAMBEN, G. Profana-


ções. São Paulo: Boitempo, 2007. p. 65-80.

BENJAMIN, W. A obra de arte na era da sua reprodutibilidade téc-


nica. In: Obras escolhidas I. São Paulo: Brasiliense, 1987.

DEBORD, G. Sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto,


2015.

GHIRALDELLI JR., P. Para ler Sloterdijk. Rio de Janeiro: Via Véritas,


2017.

HAN, B. C. A sociedade da transparência. Petrópolis: Vozes, 2017.

SLOTERDIJK, P. A intoxicação voluntária. Lisboa: Fenda, 1999.

38 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


CONTEXTO E DESAFIOS

COMUNICADORES ARTIFICIAIS, COMUNICAÇÃO


POLÍTICA E COMUNICAÇÃO PÚBLICA:
UMA TRAJETÓRIA DE PESQUISA

Guilherme Fráguas Nobre1


Heloiza Matos2

RESUMO

O artigo analisa a possibilidade de existência de comunica-


dores políticos artificiais e de comunicadores públicos artificiais.
Antes, tenta fazer convergir duas linhas de pesquisa dos autores:
a primeira, sobre comunicadores artificiais, e a segunda, em co-
municação pública e política. Em formato de minimemorial, traça
a trajetória de pesquisa em comunicadores artificiais, propondo
modelos de tratamento da língua teoricamente programáveis
em máquinas, e expondo, também, experimentos de máquinas
já capazes de comunicação; e traça, igualmente, a evolução da
pesquisa em comunicação política (anterior, e já programadas
em máquinas) e em comunicação pública (posterior, e relativa-

1 Doutor em Comunicação pela Universidade de São Paulo e Doutor em


Economia pela Universitat de Girona, Mestre em Economia pela Universidade
Federal do Paraná, Economista pela Universidade Federal de Minas Gerais.
E-mail: fraguas@usp.br.
2 Pós-Doutora em Comunicação pela Université Stendhal, Doutora e Mestre
em Comunicação pela Universidade de São Paulo, Jornalista pela Universidade
Federal de Juiz de Fora. Pesquisadora Sênior da Pós-Graduação da ECA/USP e
coordenadora do Grupo de Pesquisa em Comunicação Pública e Comunicação
Política (Compol). E-mail: heloizamatos@gmail.com.

39
mente alheia às máquinas). A conclusão é a de que já existem
comunicadores políticos artificiais (algoritmos que buscam inter-
ferir nas escolhas públicas) e comunicadores públicos artificiais
(algoritmos que tentar interferir na conversação pública).

PALAVRAS-CHAVE: comunicadores artificiais, comunicação políti-


ca, comunicação pública, comunicadores políticos artificiais, co-
municadores públicos artificiais.

INTRODUÇÃO

Este artigo busca convergir duas linhas de pesquisa: de um


lado, o tratamento automatizado da língua (TAL) e os agentes ar-
tificiais, e de outro lado, a comunicação política e a comunicação
pública. Pensado para ser um minimemorial de pesquisa − que
repassa, geralmente baseado em publicações próprias, as ideias
e sua evolução encadeada no tempo –, o texto quer, afinal, apor-
tar dois conceitos: o de “comunicadores políticos artificiais” e o
de “comunicadores públicos artificiais”.
As seções introduzem diversos experimentos acerca de
agentes artificiais, muitos deles comunicacionais, e sugerem dois
modelos de abordagem da língua (a matéria da comunicação):
um modelo matemático-estatístico e um modelo de coordena-
das cartesianas. A oferta de ambos modelos para, eventualmen-
te, equipar máquinas comunicacionais, tem em mente a relativa
escassez de modelos programáveis em máquinas originados em
departamentos de comunicação. A comunicabilidade em máqui-

40 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


CONTEXTO E DESAFIOS

nas tem sido geralmente objeto de experimentos dos departa-


mentos de computação − e quase nunca dos de comunicação.
Então, ao longo da trajetória de pesquisa sobre TAL e
agentes artificiais, buscou-se por modelos de comunicação pro-
gramáveis em máquinas (com origem nos departamentos de co-
municação) e por modelos de comunicação já programados em
máquinas (com origem nos departamentos de computação). Au-
sentes, no primeiro caso. No segundo caso, há uma curiosidade:
as máquinas não são programadas para comunicarem; são, isso
sim, programadas para interagirem, analisarem essa interação,
e corrigirem “erros” percebidos (aprendendo e se autorrepro-
gramando) – surgindo a comunicação como um by-product evo-
lutivo. Daí, eis uma pergunta: podem os agentes comunicativos
artificiais prescindir das ciências da comunicação?
Se essas publicações em TAL e agentes artificiais são em
sua maioria de autoria individual – com exceções para duas cola-
borações com o pesquisador brasileiro Dr. Artur Matuck (NOBRE;
MATUCK, 2016; MATUCK; NOBRE, 2016) −, por outro lado, quando
se trata da trajetória de pesquisa acerca da comunicação política
e da comunicação pública, o quadro se inverte: as publicações
são majoritariamente coautoradas com a Dra. Heloiza Matos e
Nobre (MATOS; NOBRE, 2014, 2016), e poucos são os casos de au-
toria individual. Vale notar, inclusive, que aqui se trata sempre
de relações exclusivamente interpessoais (humanas). Pesquisas
sobre agentes políticos artificiais já são registradas a partir de
1998. Neste campo, é fundamental discutir a possibilidade de
que máquinas/algoritmos interfiram nas interações comunica-
cionais da esfera pública e até mesmo na tomada de decisões
concretas acerca da coisa pública. No primeiro caso, tratar-se-

41
-ia de “comunicadores públicos artificiais”; no segundo caso, de
“comunicadores políticos artificiais”. Nas palavras de Treré (2016,
p. 127, tradução nossa), “ferramentas digitais já foram usadas
com sucesso por partidos e governos para fabricar consensos,
sabotar dissidências, ameaçar ativistas e reunir dados pessoais
sem o consentimento dos cidadãos”3. Mas há mais por vir. Com a
proposta de explorar algumas das aplicações destas tecnologias
na comunicação pública e política, este texto vai convergir uma
linha de pesquisa que tem sido exclusiva de humanos, com outra
onde os agentes artificiais permeiam todas as esferas.

1. A FACE MATERIAL DA COMUNICAÇÃO

Pode a comunicação ser medida e controlada? Porque se


não pode, tudo o que se diz acerca dela é retórica e aporia: eu
digo, tu desdizes, nós redizemos; valendo cada possibilidade o
mesmo. Mas, na prática, se a comunicação possuir uma face ma-
terial, potencialmente tratável pela matemática e estatística, en-
tão a ‘ciência da comunicação’ (para além da teoria) talvez seja
possível. O primeiro passo dessa jornada de pesquisa começa
afirmando o seguinte:

A tecnologia comunicacional é o uso técnico que se faz da


invariante comunicacional: a língua natural. Portanto, é
o uso técnico que se faz da língua natural com o objetivo

3 No original: “digital tools have been successfully deployed (by) parties and
governments in order to manufacture consent, sabotage dissidence, threaten
activists, and gather personal data without citizens’ consent”. (TRERÉ, 2016, p.
127).

42 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


CONTEXTO E DESAFIOS

de incrementar a comunicabilidade. Não é propriamente


a língua, mas o seu uso. (...) A tecnologia comunicacional
permite navegar não propriamente pela língua, mas pelas
atualizações da língua – que formam um estoque de re-
gistros processáveis. A busca de padrões nestes registros
e sua posterior repetição junto ao interlocutor fonte é que
teriam a capacidade de comunicar. O uso estatístico des-
sas atualizações em contexto eleitoral, por exemplo, po-
deria angariar empatia a quem melhor controlasse esse
fluxo formal de/para o público interlocutor – o que nos
leva à comunicação política. (NOBRE, 20124, p. 262).

Elege-se, pois, a face material da comunicação, isto é, seu


veículo físico, registrável: a língua. Claro, principalmente a língua
com que se fala e com que se escreve, mas não apenas – dado
que as outras modalidades expressivas (como os gestos) também
possuem uma instância material registrável. É o uso da língua
que permite comunicar – e seria desejável, desde um ponto de
vista científico, entender como os diferentes usos da língua co-
municam diferentemente. Breve, deve-se submeter os arranjos
materiais da língua à matemática (e.g. análise combinatória e
teoria dos conjuntos) e à estatística (e.g. análise probabilística de
justaposição) – em busca de controlar a comunicabilidade.

A ciência da comunicação, aqui, estuda as formas da


competência linguística do interlocutor. Ou seja, ela não
se interessa necessariamente por unidades mínimas de

4 Embora a referência original para tais ideias esteja na Tese de Doutorado de


2002 (NOBRE, 2002), preferiu-se utilizar o artigo publicado no mesmo ano –
cujo acesso via internet não apresenta dificuldades.

43
sentido (semantema). Antes, lida com arranjos vazios de
significação. O uso estatístico que faz da língua não é di-
retamente gerador de sentidos: estes, quem os retira é o
interlocutor, quando o arranjo expresso o pertence. É a
prévia propriedade das formas que torna possível a co-
municação. Quando o locutor repete formas contidas na
competência linguística do interlocutor, ele garante auto-
maticamente sua inteligibilidade e, mais, sua comunica-
ção. Como só é possível falar em redundância num quadro
de repetição, junto à determinada competência de termos
já contidos nessa mesma competência, torna-se forçoso
reconhecer a comunicação como sanção de tendência es-
tatística preexistente. Assim, a comunicação, entendida
como sintonia formal da expressão do locutor à compe-
tência impressiva do interlocutor, é não somente a tabu-
lação da redundância do interlocutor, mas igualmente sua
confirmação e fortalecimento. Esse reforço da redundân-
cia alheia ratifica a coação anterior ao estabelecimento da
relação, e a comunicação daí resultante torna-se uma re-
compensa sem surpresa. Se a comunicação pode prever,
é porque sua previsão é autorrealizável. A comunicação
entendida como capacidade de corroboração formal é,
por definição, regressiva. No limite, poder-se-ia dizer que
a comunicação perfeita se dá sob redundância perfeita.
(NOBRE, 2012, p. 271).

Aqui, há uma clivagem fundamental: de um lado, os sujei-


tos da comunicação, que fazem uso (reproduzem e consomem) da
face material da comunicação; e de outro lado, a própria face ma-
terial da comunicação (um repertório finito e customizável). Em
teoria, um programa de computador com um corpus (base de da-
dos) estatisticamente representativo dos usos (lexicais, sintáticos

44 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


CONTEXTO E DESAFIOS

e frasais) que alguém faz da língua poderia, em um experimento


do tipo Teste de Turing5, “realmente comunicar” com essa pessoa.
Vale notar: o software apenas repetiria padrões matemático-esta-
tísticos, oferecendo réplicas prováveis para dados contextos; mas
caberia à pessoa julgar se houve (ou não) comunicação – e em
qual medida. Esse julgar cabe ao sujeito subjetivo, enquanto que
a oferta do que vai material e potencialmente comunicar deve
pertencer à tecnologia-ciência da comunicação. Para além dessa
comunicação eminentemente linguística (língua falada e escrita),
haveria uma comunicação “extralinguística” que recebe atenção
específica nesta pesquisa: a comunicação política.

A comunicação política é uma ação mediada sobre a ação


do outro. Mediada pela língua, que nas trocas sucessivas
de sua matéria vai tecendo a comunicação. A comunica-
ção política é a crença de que o verbo pode interferir no
mundo físico, controlando-o. É uma espécie de fé: de um
lado, palavras; e de outro lado, coisas. Mas fé especial-
mente sobre o que neles pode se irmanar – já que, para
surtir o efeito desejado, é preciso haver um encontro, uma
comunicação, entre o que há dentro e fora da língua. Em
suma, a comunicação política é um encantamento. Par-
tindo do princípio de que todos os falantes são coagidos
pela estrutura da língua, a comunicação política seria a
tentativa de interferir não mais sobre o livre-arbítrio, mas
sobre as coerções linguísticas. Neste sentido, é uma luta
entre a coação estabelecida e a que se pretende alojar.

5 “[C]riad(o) por Alan Turing, o conhecido pai da computação, (o teste),


desenvolvido nos anos 50, consiste em observar a capacidade de uma
máquina em exibir um comportamento equivalente ao de um ser humano.”
(YUGE, 2018). Ver: https://tinyurl.com/y3toafn9.

45
Deixando de ser uma violação da total liberdade, a comu-
nicação política se justifica como “uma proposta a mais”
no mercado discursivo: se todos trocam signos, sinais e
símbolos, nada mais natural do que fazer o mesmo. A co-
municação política devota-se ao encantamento, quando
confere à língua poder de desdobrar-se na realidade; e
encanta também a realidade: traz tudo o que há fora, para
dentro da língua. A comunicação política defende que a
eficácia física da comunicação acontece menos no mundo,
e mais na competência linguística impressiva do sujeito
da comunicação. Isto é, acontece no mundo que é função
dessa competência linguística. (NOBRE, 2012, p. 270).

Quando se diz “comunicação extralinguística”, existe uma


referência a tudo que existe supostamente fora da língua, no
mundo. Logo, se a comunicação linguística é a que busca agir
dentro do sujeito subjetivo, argumentando e contra-argumen-
tando com vistas a mudar um estado interno, por exemplo, de
pensamento; a comunicação política busca uma ação no mundo,
na polis, portanto, visa a uma ação objetiva fora do sujeito sub-
jetivo – enfim, é um argumentar e contra-argumentar com vistas
a mudar um estado externo, por exemplo, a construção de uma
ponte. Caberia ao comunicador político, que usou da face ma-
terial da língua para levar outrem a agir no mundo, julgar quão
bem-sucedido foi. Como essa instância extralinguística também
é, para quem a recebe via os cinco sentidos, uma “face material
da comunicação”, caberia perguntar: poderia um software que
comunica politicamente julgar se foi bem-sucedido no mundo,
na polis?

46 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


CONTEXTO E DESAFIOS

2. O USO MATERIAL DA COMUNICAÇÃO

Argumentar que a comunicação possa sofrer uma enge-


nharia reversa, com a matemática e a estatística analisando sua
materialidade linguística, e que algum software poderia propor,
a partir daí, uma síntese na forma de réplicas comunicacional-
mente viáveis (i.e. satisfatórias para a pessoa A no contexto B), foi
o primeiro passo. O segundo passo foi buscar o estado da arte do
uso material da comunicação: haveria alguém com experimentos
avançados nessa abordagem tecnológica da comunicação? Bus-
cou-se, em princípio, iniciativas originadas nos departamentos
de comunicação e nos departamentos de computação. Agora, a
ideia de comunicadores artificiais está colocada claramente. Mais
ainda, de comunicadores políticos artificiais.

Este artigo é uma visão geral da literatura sobre a interface


entre ciências da comunicação e ciências da computação.
Ao fazer isso, eu quero mostrar como a persuasão tem
sido trabalhada por agentes artificiais em um contexto
político. Aqui, computadores não são apenas uma ferra-
menta ou uma mídia, eles são concebidos também como
atores sociais [21]. Especificamente, como comunicadores
artificiais para interações políticas. É por isso que eu busco
abordagens computacionais para a comunicação e os co-
municadores. Assim, este texto se debruça sobre a relação
entre ciências da computação, política e persuasão, de um
lado; e agentes artificiais, política e persuasão, de outro
lado. Esta é a essência de minha pesquisa sobre agentes
artificiais que são capazes de persuadir pessoas (por meio
da comunicação) sobre temas políticos. Aqui, a potencial
função a ser exercida pelas ciências da comunicação é im-

47
portante, especialmente porque persuasão é um tipo de
comunicação [25]. Eu acredito que as teorias das ciências
da comunicação e seus autores podem ajudar a desen-
volver modelos e sistemas computacionais aplicáveis na
política, por exemplo, agentes comunicativos artificiais
“atuando” como políticos. (NOBRE, 2008, p. 1, tradução
nossa).6

Duas ideias foram, nessa época, cruciais: a de que com-


putadores podem ser igualmente uma ferramenta, uma mídia e
um ator social (FOGG, 1998), e a de que as pessoas podem tratar
computadores como iguais (a chamada Media Equation) (REEVES;
NASH, 1996). A ideia da Media Equation relativizava (ou descarta-
va) o Teste de Turing: enquanto o Teste de Turing supunha uma
máquina escondida tentando se passar por uma pessoa, cuja
performance seria tão natural quanto a de um ser humano, a
Media Equation sugeria que as pessoas poderiam se identificar,
relacionar, e até desenvolver sentimentos por máquinas, mesmo

6 No original: “This paper is an overview of literature concerning the interface


between communication sciences and computer sciences. In so doing, I wish
to show how persuasion has been worked by artificial agents in a political
context. Here, computers are not only a tool or media, they are conceived as
social actors as well [21]. Specifically, as artificial communicators to political
interactions. That is why I seek computational approaches to communication
and communicators. So, this paper looks into the relationship between
computer sciences and communication, politics and persuasion, on one hand;
and artificial agents, politics and persuasion, on the other. This is the gist of
my research on artificial agents that they are capable of persuading people
(thorough communication) about political issues. Here, the potential role to be
played by communication sciences is significant, not least because persuasion
is a type of communication [25]. I believe that communication sciences’
theories and authors can help to develop applicable computational models
and systems in politics, for example artificial communicative agents “acting”
as politicians.” (NOBRE, 2008, p. 1).

48 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


CONTEXTO E DESAFIOS

sabendo que são máquinas – e cujo desempenho nem precisaria


ser perfeitamente humano. Já a ideia de Fogg sugeria uma Social
Equation: a de que máquinas pudessem ascender à esfera da so-
cialização humana – onde seriam potencialmente tratadas como
iguais. Vale notar o salto: se antes buscava-se teorizar a possibi-
lidade de controle matemático-estatístico sobre a comunicação
(via língua), agora parte-se para compilar o que os outros tinham
feito tecnologicamente acerca da comunicação.

Determinados autores têm trabalhado com simulações


computacionais de emergência e evolução da comuni-
cação [33]. Algumas vezes eles usam uma simulação por
softwares, outras vezes eles preferem dispositivos incor-
porados fisicamente [43]. Em qualquer caso, a pesquisa
com simulação por robôs computacionais demonstra que
a comunicação emerge espontaneamente e evolui para
se tornar uma ferramenta eficaz para solucionar tarefas
sociais específicas. O que é mais impressionante é que os
sistemas não estavam inteiramente equipados com uma
orientação específica para a comunicação, isso precisou
ser aprendido. Esse processo pode ser chamado de robó-
tica evolutiva (agentes), uma vez que é baseado em um
algoritmo biolike [i.e. que imita a “vida”] – e.g. Lamarkia-
no ou Darwiniano. (NOBRE, 2008, p. 2, tradução nossa).7

7 No original: “Certain authors have been working with computer simulations of


communication emergence and evolution [33]. Sometimes they use a software
simulation, at other times they prefer physically embodied devices [43]. In any
case, the computer-robot simulation research shows that communication arises
spontaneously and evolves to become an effective tool to solve particular social
tasks. The most remarkable is that the systems were not at all equipped with
a specific drive for communication, this had to be learnt. This process can be
called evolutionary robotics (agents), since it is based on a biolike algorithm –
eg. Lamarkian or Darwinian.” (NOBRE, 2008, p. 2).

49
Rapidamente ficava claro o seguinte: o tratamento tecnoló-
gico da comunicação estava sendo feito pelos departamentos de
computação, e os experimentos visavam à emergência e à evolução
da comunicação em máquinas – com pouco ou nada de referências
aos autores ou teorias produzidas pelos departamentos de comuni-
cação. Mas não ficava claro como tais experimentos definiam, mo-
delavam ou programavam a comunicabilidade em máquinas; pois,
às vezes, as próprias máquinas criavam sua própria língua/comu-
nicação. Também, muitos dos experimentos tratavam de interação
máquina-máquina, ainda que alguns já elegessem a interação ho-
mem-máquina. Seja como for, fica difícil aceitar ou refutar qualquer
das ideias desenvolvidas na seção 1, cujo objetivo foi justamente
prover um método de tratamento da matéria da comunicação.

Até onde sabemos, não é usual aplicar teorias da comu-


nicação e autores para modelar e programar sistemas
computacionais. Estou me referindo a aplicações origina-
das no campo das ciências da comunicação. No entanto,
alguns esforços nessa direção podem ser encontrados, a
maior parte no campo das ciências da computação. Al-
guns autores mencionados por Histoires des Théories
de la Communication [37] valem ser citados: Bourdieu,
Habermas, Peirce, Saussure, Shannon, Wiener. Grice [53]
e Searle merecem ser adicionados a esta lista. (NOBRE,
2008, p. 2, tradução nossa).8

8 No original: “As far as we know, it is not usual to apply communication theories


and authors to modelling and programming computer systems. I am referring to
applications originating in the field of communication sciences. However, some
efforts in this direction can be found, mostly in the field of computer sciences.
Some authors referred to by Histoires des Théories de la Communication [37], are
worth citing: Bourdieu, Habermas, Peirce, Saussure, Shannon, Wiener. Grice [53]
and Searle deserve to be added to this list.” (NOBRE, 2008, p. 2).

50 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


CONTEXTO E DESAFIOS

Mesmo quando os cientistas da computação usavam


Bourdieu, Habermas e outros, o faziam de um modo dificilmente
reconhecível pelos cientistas da comunicação. Assim, o primeiro
choque provocado por esse estágio da pesquisa foi: como podem
os experimentos ligados à tecnologia da comunicação (isto é, acer-
ca da estrutura material da comunicação e de potenciais comunica-
dores artificiais) seguirem alheios e à parte do que se faz nos depar-
tamentos da comunicação – e vice-versa? Mais: como saber se os
modelos de comunicação utilizados pela computação têm ou não
relação com os originados nos departamentos de comunicação?
Será que os departamentos de comunicação lidam apenas com a
instância intersubjetiva entre humanos, pouco ou nada se interes-
sando por modelos programáveis de comunicação em “máquinas
passíveis de interação com pessoas”? Desses questionamentos sur-
giu o artigo intitulado “Agentes Comunicativos Políticos” (NOBRE,
2008), que visava justamente máquinas políticas, capazes de even-
tualmente persuadir pessoas – através de diálogo e argumentação.

Eu tenho procurado por agentes artificiais incorporados


que sejam capazes de persuadir pessoas (por meio da co-
municação) sobre questões políticas. Esses artefatos polí-
ticos muito especiais devem fazer política por si mesmos,
então eles são supostamente artefatos políticos autôno-
mos. De fato, eles são planejados para serem artefatos
políticos, por exemplo: e-político, e-cidadão, e-deputado,
e-candidato, e-eleitor, assistente de e-campanha. Em sín-
tese, sistemas autônomos, inteligentes, proativos, adap-
táveis, evolutivos, criativos, comunicativos que podem
pensar, argumentar, negociar, e debater sobre temas
políticos para persuadir as pessoas a se tornarem mais e

51
mais realistas. Nós podemos ir mais longe e imaginar an-
droides [46] e humanoides [59] como artefatos políticos,
representando emoções, humor, polidez, lisonja e se tor-
nando mais naturais, como humanos e como seres vivos.
(NOBRE, 2008, p. 3, tradução nossa).9

Nesse estágio da pesquisa foi possível encontrar dezenas


de experimentos sobre máquinas comunicantes – inclusive em
contexto político. Os departamentos de computação pululam de
pesquisas aplicadas em comunicação: no que venho chamando
de comunicação artificial e comunicadores artificiais. Todavia,
para além do fato de que máquinas desenvolveram habilidades
comunicativas sem para isso terem sido expressamente progra-
madas, não foi possível checar quais modelos de comunicação
foram utilizados – quando existiram. Por outro lado, já que al-
gumas máquinas foram programadas para interagir e aprender
com seus interlocutores humanos, corrigindo e evoluindo, é vá-
lido dizer que essa mimetização ancorada “na matéria da inte-
ração” evoca, de alguma forma, parte do que foi dito na seção 1.

9 No original: “I have been looking for embodied artificial agents which


are capable of persuading people (through communication) about political
issues. These very special political artifacts must do politics by themselves,
so they are supposed to be autonomous artifact politics. As a matter of fact,
they are intended to be politician artifacts, for example: e-politician, e-citizen,
e-deputy, e-candidate, e-elector, e-campaign assistant. In sum, autonomous,
intelligent, proactive, adaptive, evolving, creative, communicative systems
that can reason, argue, bargain and debate about political subjects in order to
persuade people are becoming more and more realistic. We can go further and
imagine androids [46] and humanoids [59] as politician artifacts, performing
emotions, humor, politeness, flattery and becoming more natural, human-like
and life-like.” (NOBRE, 2008, p. 3).

52 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


CONTEXTO E DESAFIOS

3. COMUNICADORES ARTIFICIAIS

O terceiro passo da pesquisa se detém na ideia de uma ci-


dade real (a polis) permeada por tais comunicadores artificiais, e
também de uma cidade virtual (internet) – onde agentes virtuais
interagiriam com as pessoas. Tais máquinas sociais agem, intera-
gem, comunicam; às vezes possuem um corpo material, como um
robô ou androide, mas outras vezes é apenas um software (ou al-
goritmo), uma persona ‘imaterial’ na internet. Vale notar que um
software é uma codificação linguística (língua artificial) que, tal
qual a língua natural (como o português), possui uma materiali-
dade passível de análise e síntese automáticas. Por isso é possível
que softwares escrevam outros softwares, e que até mesmo se
reescrevam – evoluindo. Eis um grande deslumbramento: textos
linguísticos (artificiais) podem originar máquinas (algoritmos) ca-
pazes de executar diferentes atividades (e.g. aplicativos) em um
mesmo suporte físico (e.g. computador ou smartphone).

A inteligência em máquinas sociais incluiria, nas palavras


de Nardi (2002), os seguintes atributos: a) comunicação: o
agente pode obter, capturar, lembrar, inferir, testar, e che-
car informação socialmente relevante, tais como o nome,
idade e trabalho da pessoa, sentimentos sobre si e sobre
outros, valores, etc. incluindo informação de “processo”
como o estilo de interação-social da pessoa; b) afiliação
social: o agente é capaz de intercambiar informação entre
ou de ligar pessoas diferentes que constituem sua rede
social, pode checar o valor social do que aprendeu, falar
de terceiros, determinar o comportamento apropriado
ao seu círculo social, tirar vantagens de oportunidades,

53
etc.; c) Auto-acesso: o agente pode examinar, monitorar,
mudar, atualizar, e avaliar sua própria programação en-
quanto interage, e pode engajar-se numa conversa con-
sigo mesmo para se entender e obter auto-estima, nos
mesmos termos que faz com outra pessoa; d) Contexto: o
agente inteligente comunica em tempo real com mais de
uma pessoa, fazendo escolhas contextualmente dirigidas.
Basta imaginar esses agentes sociais artificiais da Web
3.0 navegando, como usuários inteligentes e autônomos,
pela Web 2.0. Essa idéia permite conceber pessoas e má-
quinas trabalhando juntas, sociabilizando e cooperando,
compartilhando informações e comunicando em rede.
(NOBRE, 2009, p. 1101).

Vale frisar a complexidade da modelagem e programação de


máquinas sociais artificialmente inteligentes, onde as habilidades
comunicacionais são apenas um dos muitos aspectos relevantes.
Ainda assim, é preciso insistir: existe convergência entre os modelos
comunicacionais teóricos (dos departamentos de comunicação) e
os aplicados (dos experimentos computacionais)? Creio ser conve-
niente para as ciências da comunicação se dedicar a modelos pro-
gramáveis em máquinas – até para fazerem sugestões de ajustes,
para o caso de futuras interações homem-máquina se mostrarem
insatisfatórias. Um começo seria, claro, checar quais têm sido os
modelos de comunicação utilizados pelos cientistas da computação.

Todavia, a introdução de mídias autônomas e inteligen-


tes, capazes de sociabilização com humanos dentro e
fora da internet, significou um passo além, quiçá exigin-
do um novo termo para um novo conceito: a iMediapolis.
Esta realidade repleta de homens-máquinas e máquinas-

54 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


CONTEXTO E DESAFIOS

-humanas tornou a tarefa de pensar a cidade algo difícil:


se os próprios edifícios se tornam inteligentes e, eventu-
almente, atores sociais capazes de interação, é a noção
de espaço e ambiente que está em crise. Mas, ainda que
seres e coisas possuam status de agentes sociais, e que as
‘construções’ da cidade (prédios, carros, objetos) tenham
deixado de ser apenas locais no espaço, lançando-se ati-
vamente para interagir inteligentemente com as pesso-
as, resta ainda por desenvolver mais apropriadamente o
conceito proposto de iMediapolis – aqui simplesmente es-
boçado pela primeira vez. A introdução de novos agentes
sociais artificiais é a novidade na/da polis, visto que cons-
tituem, em parte, a própria cidade em sua materialidade.
Logo, é a cidade que se eleva a mídia, em meio a mídias
que se elevam a agentes sociais. Enfim, é a própria cidade
a tornar-se um ator social. (NOBRE, 2015, p. 43).

Agora parte-se de uma realidade (os agentes artificiais já


estão entre nós) para pensar esse novo mundo real (polis) e vir-
tual (internet) de convivência homem-máquina. Já não se dedica
a um modelo de análise/síntese da face material da comunica-
ção (seção 1), nem a compilar os experimentos dos cientistas da
computação (seção 2). O objetivo aqui é especular sobre nosso
papel nessa nova realidade, nesses novos mundos. A tão propa-
lada Internet of Things (IoT), ou Internet das Coisas, é justamente
a interligação dos objetos via internet; mas de objetos artificial-
mente inteligentes, capazes de aprender, interagir, socializar, co-
municar – e evoluir. E de que os comunicadores artificiais possam
efetivamente funcionar como relações públicas, publicitários,
propagandistas e até jornalistas. Do ponto de vista comunicacio-
nal, as máquinas têm um futuro promissor.

55
4. UM MODELO LINGUÍSTICO-ESPACIAL

Uma variante ao modelo matemático-estatístico proposto


na seção 1, que é uma linguística estatística aplicada a corpo-
ra (isto é, vários corpus), seria um modelo traduzível em coor-
denadas cartesianas – eminentemente espacial. Assim, letras,
palavras, frases e textos seriam traduzidos em pontos, linhas e
hiperplanos; uma espécie de QR Code tridimensional; o que (em
teoria) haveria de facilitar a análise/síntese automática, ou seja,
a análise/síntese da língua feita por máquinas. Este método teria
a vantagem de poder ser, inclusive, aplicado em outras modali-
dades expressivas, como os gestos, que poderiam, igualmente,
“desenhar” uma assinatura espacial específica para cada contex-
to de comunicação.

Um método cego (especial/numérico) vai permitir que


máquinas façam apenas análises objetivas sobre a lin-
guagem, gerando réplicas exclusivamente baseadas em
aspectos materiais formais da linguagem. Além disso,
máquinas deveriam ser programadas para procurar, tes-
tar e descobrir o funcionamento da linguagem (não a
repetir ou reforçar os preconceitos humanos). Aqui é ad-
missível pensar em uma diferente gramática subjacente
à linguagem humana – obtida apenas por pesquisadores
artificiais ingênuos. Uma vez que a linguagem humana é
um sistema autocontido e autorreferenciado, tornando-o
redundante e viciado, a pesquisa não cega não “vê” fora
da caixa. Em vez de tentar modelar contextos interacio-
nais extralinguísticos, por exemplo, um caminho melhor
é permitir que máquinas construam suas próprias infe-
rências e deduções intralinguísticas. (...) Robôs se torna-

56 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


CONTEXTO E DESAFIOS

rão melhores comunicadores quando programados com


habilidades linguísticas cegas. Com linguagem traduzida
para uma notação espacial ou numérica, programadores
podem confiar na orientação das máquinas para estabe-
lecer regras da linguagem, estrutura e funcionamento.
Programar máquinas como pesquisadores de linguagem
autônoma poderia melhorar dramaticamente a interação
homem-máquina. A comunicação multimodal (além da
modalidade da linguagem) entre agentes naturais e ar-
tificiais é também provável de ganhar muito ao deixar os
métodos cegos aos programadores. Quando sinais, letras,
palavras, frases e textos podem ser estabelecidos como
assinaturas espaciais, réplicas comunicacionais de robôs
devem ser pensadas da mesma maneira. Quando frases e
textos podem ser vistos como palavras ou letras (porque
eles todos cabem na mesma fórmula geral), então réplicas
comunicacionais de robôs podem ser entendidas como
uma simples extensão coordenada cartesiana em um grá-
fico tridimensional. (NOBRE, 2014, p. 4, tradução nossa).10

10 No original: “A blind method (spatial/numerical) will permit machines to


do only objective analysis over the language, generating replicas exclusively
based on the language formal-material aspects. Furthermore, machines
should instead be programmed to search, test, and discover the functioning
of the language (not to repeat and re-enforce the human’s prejudices). Here,
it is admissible to think about a different grammar underlying the human
language – attainable only by artificial naïve researchers. Since human
language is a self-contained and self-referred system, making it redundant
and vicious, non-blind research does not “see” outside the box. Instead of
trying to model extra-linguistic interactional contexts for instance, a better
way is to allow machines to make their own intra-linguistic inferences and
deductions. (…) Robots will become better communicators when programmed
with blind language abilities. With language translated to spatial or numeric
notation, programmers can rely on machines’ guidance to establish language
rules, structure and functioning. Programming machines as autonomous
language researchers could dramatically improve the man-machine
interaction. Multimodal communication (beyond language modality) between

57
O objetivo é permitir que máquinas automatizem a análise/
síntese da língua (e de outras modalidades expressivas), de modo
que possam se constituir mais adequadamente em comunicado-
res artificiais. A ideia de traduzir a língua em, por exemplo, coor-
denadas cartesianas, visa aproximar a matéria da comunicação
das linguagens de máquina – e.g. binária, linguagens de progra-
mação, que são até certo ponto “ilegíveis” para pessoas, mas efe-
tivas para a performance das máquinas. Nesse sentido, é um mé-
todo para tornar as máquinas pesquisadores independentes das
modalidades expressivas humanas – e da língua natural. Tal mé-
todo (ou outro que, a ele nisso similar, habilitasse a máquina a re-
gistrar, analisar, sintetizar, comparar, retificar, aprender e evoluir)
não partiria de modelos/autores pré-estabelecidos pelas ciências
da comunicação. Tal método tornaria as máquinas independentes
do que nós, humanos, pensamos acerca da língua natural – de
como concebemos sua composição, estrutura e dinâmica.

5. MÁQUINAS CRIATIVAS E MODELOS DE COMUNICAÇÃO

Estreitamente relacionada à ideia de máquinas como pes-


quisadoras linguísticas independentes, está a possibilidade de
programar máquinas para serem criativas. Quando se juntam os
conceitos de inteligência artificial, algoritmos genéticos e ma-

natural and artificial agents is also likely to gain a lot from making methods
blind to programmers. When signs, letters, words, phrases and texts can be set
as spatial signatures, communicational replicas from robots may be thought
in the same way. When phrases and texts can be seen as words or letters
(because they all fit in the same general formula); then communicational
replicas from robots may be understood as a simple Cartesian coordinate
extension into a three-dimensional graphic.” (NOBRE, 2014, p. 4).

58 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


CONTEXTO E DESAFIOS

chine learning, o resultado permite pensar em máquinas autô-


nomas (que funcionam sem intervenção humana), capazes de
aprender e de evoluir – eventualmente se reprogramando. Nesse
sentido, já há exemplos de software/algoritmos artistas (que pin-
tam, compõem música, escrevem poemas etc.), cientistas (que
elaboram e testam hipóteses, que fazem descobertas inéditas e
que propõem produtos patenteáveis) e comunicadores (desen-
volvendo atividades de jornalistas, relações públicas, de propa-
ganda e até escrevendo resumos e artigos científicos).
Como exemplos de que as diversas áreas das comunica-
ções já estão permeadas pelas atividades de agentes artificiais,
vale registar: para o jornalismo (MONTAL; REICH, 2017; AIRES,
2016; CARLSON, 2015; WEEKS, 2014); para as relações públicas
(GALLOWAY; SWIATEK, 2018; GREGORY, 2017; ZERFASS et al., 2016;
PHILIPS, 2015); para a propaganda (EUROPEAN PARLIAMENT,
2018; LIGHTFOOT, 2017; WOOLLEY; GUIBEAULT, 2017; ARNAUDO,
2017; WOOLLEY; HOWARD, 2016 e 2018); e para a publicidade
(KIETZMANN; PASCHEN; TREEN, 2018; DELOITTE, 2017; SHIOMI et al.
2013). Para o caso específico das relações públicas, Gregory prevê
que “até 70% do trabalho profissional poderia ser feito por robôs
dentro dos próximos cinco a dez anos” (GREGORY, 2017, tradução
nossa).11 Mas resta aberta a questão: como tais máquinas são
programadas para comunicar, ou, dito de outra forma, como ne-
las a comunicação é modelada?

O que se depreende dos experimentos conduzidos pelos


cientistas da computação é que: primeiro, a comunicação surge

11 No original: “up to 70% of the profession’s work could be done by robots


within the next five to 10 years”. (GREGORY, 2017).

59
“espontaneamente” nos casos em que as máquinas não foram
programadas com nenhum modelo de comunicação, mas foram
programadas ‘apenas’ para interagir, observar, aprender, evoluir;
e, segundo, que as máquinas têm sido programadas com módu-
los de interatividade, intencionalidade, aprendizagem, com um
sistema de valores e crenças, e que a habilidade de comunicar
surgiria desse complexo, como um by-product, ou produto de-
rivado – e não como um módulo previsto e programado. A se
confirmar tal estado de coisas, seria desnecessário um modelo
específico de comunicação, o que, em si, traria implicações para
as ciências da comunicação. A não ser que os modelos e teo-
rias das pesquisas comunicacionais venham a ser relevantes, não
para programar previamente as máquinas, mas sim para ‘fisca-
lizá-las’ em suas relações com as pessoas – já no desempenho
como agente social.

6. COMUNICAÇÃO POLÍTICA E COMUNICAÇÃO PÚBLICA

A comunicação política tem sido um objeto de pesquisa


desde o primeiro momento (como expresso na seção 1), e já era
concebida dentro da lógica de tratamento matemático-estatísti-
co da língua: na interação entre locutor-interlocutor, caberia ao
locutor julgar o grau de sucesso de sua comunicação teleológica.
Um exemplo seria um agente artificial que, após dar uma ordem
(ou fazer um pedido) a uma pessoa, fosse capaz de julgar se sua
ordem/pedido foi acatada – surtindo o efeito planejado. Tal má-
quina teria que comunicar a ordem/pedido, observar e analisar
o desdobramento da instância linguística no mundo extralin-

60 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


CONTEXTO E DESAFIOS

guístico, e chegar a uma conclusão acerca do elo “falar-contigo-


-para-que-faças-no-mundo”. Na seção 1, chamava-se a atenção
para o seguinte: para tal máquina, a leitura da ação da pessoa no
mundo (bem como sua consequência final) teria que ser igual-
mente traduzida linguisticamente – sendo, portanto, abordável
do ponto de vista da análise/síntese automática. A isso se cha-
maria “agente político comunicacional”.

O uso da língua como tentativa de influenciar a conduta


alheia quase se confunde (se não o faz de todo) com a co-
municação. Se a comunicação política pode ser entendida
como persecução de estados ambientais (interlocutor +
mundo), a comunicação pode ser compreendida como a
busca de estados pessoais do interlocutor. Na comunica-
ção, as relações são claramente interpessoais; já na comu-
nicação política, as relações entre pessoas transbordam
para o mundo, modificando-o. A comunicação política
tem tudo o que a comunicação possui, acrescentando-
-lhe intenção, estratégia e expectativa acerca do mundo.
Intenção de mudar o mundo, estratégia de como fazê-lo
melhor, expectativa de eficácia das medidas adotadas. (...)
Se na comunicação consagram-se as formas usadas, na
comunicação política consagram-se os efeitos dos usos.
(NOBRE, 2012, p. 269).

Já a comunicação pública tardou um pouco em se tornar


um objeto de pesquisa, e foi sempre abordada como assunto
exclusivamente humano. Isso fica claro na seguinte tentativa de
definição: “O objeto da comunicação pública (é) o assunto (de)
interesse público. (Seu) público-alvo (é) todo cidadão que vive
em sociedade. (E seu) objetivo (é) único: promover o bem-estar

61
dos indivíduos vivendo em sociedade” (NOBRE, 1998). Posterior-
mente, passou-se a trabalhar no contraste entre a comunicação
política e a comunicação pública. A comunicação pública passou
a ser entendida como exclusivamente linguística (a esfera do dis-
curso e as trocas comunicacionais), ao passo que a comunicação
política seguia com desdobramentos extralinguísticos (ações to-
madas no mundo real, cujas consequências podem ser mais ou
menos bem-sucedidas). Vale notar: uma é continuação/depen-
dente da outra.

Logo, a comunicação pública pode ser pensada como um


embate político de ideias e discursos, em que os cidadãos
trabalham juntos para chegar a um entendimento. Neste
sentido restrito, seria democracia por tratar do governo,
não da coisa pública, mas da palavra pública. Cabe à co-
municação pública produzir um acordo acerca dessa pa-
lavra pública; que será, depois, levada para a esfera polí-
tica – que a vai traduzir em ação concreta na sociedade.
(...) Assim, a comunicação pública envolve a política, pois
os cidadãos estão tentando governar, juntos, a discussão
dos temas públicos; e a comunicação política envolve o
debate, pois estão tentando decidir, juntos, a ação sobre
a coisa pública. (...) Os debates na comunicação pública (o
que saber) alimentam os debates na comunicação política
(o que fazer). A comunicação pública debateria e decidiria
sobre assuntos em nível de discurso; enquanto a comu-
nicação política debateria e decidiria sobre como verter
tais discursos em prática. (NOBRE; NOBRE, 2013, p. 22-23).

A comunicação pública buscaria uma convergência de sig-


nificados (através de trocas linguísticas), e a comunicação políti-

62 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


CONTEXTO E DESAFIOS

ca buscaria uma convergência de ações (com impactos extralin-


guísticos na polis). A comunicação pública seria uma atividade
eminentemente parlamentar (um falar-contigo), e a comunica-
ção política seria uma atividade precipuamente executiva (um
fazermos-no-mundo). Mais tarde, pensou-se em como treinar
cidadãos em ambas as modalidades. Isto é, partindo-se do prin-
cípio de que ninguém nasce necessariamente bom comunicador
(público ou político), de que seria preciso oferecer oportunidades
de formação para “comunicadores públicos” e “comunicadores
políticos”. Por fim, sugeriu-se a possibilidade de um mau uso da
comunicação pública, que, a exemplo do capital social, também
teria um “lado escuro da força”.

Inicialmente, é um avanço considerar a comunicação pú-


blica como uma habilidade técnica transferível. Em segun-
do lugar, é interessante pensar na comunicação pública
como uma ação civil e vice-versa: as interações parla-
mentares civis como ação pública, e as ações executivas
civis como dotadas de carga expressiva na esfera pública.
Isso eleva a comunicação pública a um novo patamar: a
de ser um dos pilares da vida civil (inter civis), algo inde-
pendente de Estado e mercado. Ou seja, a comunicação
pública pode atuar e propor questões não apenas rela-
cionadas com as proposições das políticas públicas, mas
outras questões percebidas e propostas pelos cidadãos;
da mesma forma, questões essenciais sobre mobilidade,
segurança e sustentabilidade podem ser propostas pelos
cidadãos. De outro ponto de vista, evidencia-se a função
social da comunicação pública: gerir conflitos e promover
a paz e a coesão social. (NOBRE; NOBRE, 2016, p. 44).

63
Se a seção 2 já admitia claramente a possibilidade de co-
municadores políticos artificiais, o que se poderia dizer sobre co-
municadores públicos artificiais? Todavia, é mais fácil encontrar
trabalhos que relacionam a comunicação política com os agentes
artificiais e com a inteligência artificial. Por exemplo: os “political
bots” (robôs políticos) e a “algorithmic political communication”
(comunicação política algorítmica) são trabalhados por Howard,
Woolley e Calo (2018). Enquanto Murthy et al. (2016) buscam saber
como a conversação política pode ser influenciada por robôs, Bessi
e Ferrara (2016) analisam como os bots em mídias sociais afetam
a discussão política, e Woolley e Howard (2016 e 2018) pesquisam
como esses mesmos bots políticos podem manipular a opinião pú-
blica . Do ponto de vista das políticas públicas, eles também têm
sido ativos, assim como se fazem presentes nas disputas eleitorais
e em crises políticas, segundo Kollanyi, Howard e Woolley (2016).
Ainda sobre as pesquisas que já avançam sobre a comuni-
cação pública, Plaza (2007, p. 15) usa uma lógica proposicional
para comunicações públicas, buscando reduzir a complexidade
dos algoritmos computacionais. Wang e Fan (2013) reforçam a li-
nha de trabalho que compreende a comunicação pública em sua
abrangência a todos os agentes. Por outro lado, Dennis (2018)
mostra que uma comunidade mais inteligente pode abordar a
comunicação pública na medida em que a gerencia por meio dos
mais diferentes signos e meios (de simples sinais até veículos co-
nectados). Essa proposta de compreender o aspecto multimo-
dal e de múltiplas linguagens da comunicação pública é ainda
o tema de uma pesquisa do Departamento de Comunicação da
Universidade de Boston. A equipe dedica-se a coletar diferentes
textos, sinais, imagens nas mais variadas plataformas – usando,

64 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


CONTEXTO E DESAFIOS

para isso, técnicas de machine learning para examinar o fluxo da


comunicação pública (BOSTON UNIVERSITY, 2018). A Technische
Universität Ilmenau (2018), na Alemanha, anunciou recentemen-
te que está investindo em uma pesquisa voltada ao uso da inte-
ligência artificial na comunicação pública, bem como nos riscos
percebidos pela sociedade. Finalmente, Davis (2016) argumenta
que a inteligência artificial pode ser usada para analisar a co-
municação pública dirigida não apenas a organismos formais do
Estado, mas a todo canal eletrônico disponível.

CONCLUSÕES

Este artigo objetivou, primeiro, traçar uma convergência en-


tre duas linhas de investigação, a saber, o tratamento automático da
língua (no contexto de agentes comunicacionais artificiais) e a co-
municação pública e política; e, segundo, sugerir a existência/pos-
sibilidade de comunicadores políticos artificiais e de comunicadores
públicos artificiais. No primeiro caso, optou-se por registrar a rela-
ção da trajetória de pesquisa em “modelagem da língua” vis-à-vis
a compilação de experimentos em agentes artificiais; e no segundo
caso, limitou-se a apresentar breve bibliografia disponível na área.
Ainda no primeiro caso, observa-se um padrão: a oscila-
ção entre apresentar um modelo teórico para aplicar sobre a face
material da comunicação (seções 1 e 4), e a compilação de ex-
perimentos disponíveis de comunicadores artificiais (seções 2 e
3). Já no segundo caso, ficou patente que há mais exemplos para
“agentes artificiais políticos” (como bots e algoritmos) do que
para “agentes artificiais públicos”.

65
De modo geral, a trajetória de pesquisa evidencia duas fra-
gilidades: a primeira, a de que não houve jamais oportunidade
de testar os modelos teóricos propostos (o matemático-estatísti-
co e o de coordenadas cartesianas); a segunda, a de que não foi
possível averiguar em profundidade como os cientistas da com-
putação modelam/programam a comunicação (as habilidades
comunicativas) em máquinas. A primeira fragilidade deve-se à
ausência de habilidades computacionais nos próprios pesquisa-
dores; já a segunda deriva do pertencimento a um Departamento
de Comunicação, ao invés de a um Departamento de Computação
(onde a quase totalidade dos experimentos têm sido realizados).
Acerca dos exemplos bibliográficos apresentados sobre a
interface entre a comunicação pública e a inteligência artificial,
vale notar que o conceito de “comunicação pública” é diversa-
mente compreendido: enquanto alguns autores a consideram
apenas como um “falar em público”, outros a confundem com o
“interagir com o público”, com o próprio “espaço público”, com
as mídias/fóruns sociais, ou ainda com a comunicação com inter-
locutores públicos (agências governamentais). Ou seja, raramen-
te tangenciando o sentido da comunicação pública enquanto
convergência de significados e convergência comunitária. Con-
vergência de significados na medida em que visa o entendimen-
to mútuo via diálogos; e convergência comunitária porque deve
voltar-se à coesão social, em última instância (MATOS; NOBRE,
2014), para uma vida em comum mutuamente frutífera. Ainda
estão por vir tais “comunicadores públicos artificiais”.
A oferta de experimentos práticos e bibliográficos de “co-
municadores políticos artificiais” é bem mais ampla. Entretanto,
quando se define a comunicação pública como um “falar-conti-

66 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


CONTEXTO E DESAFIOS

go” e a comunicação política como um “fazermos-no-mundo”,


fica claro que parte dos experimentos (aqui apresentados) esta-
ria mais relacionada com a comunicação pública. Por exemplo:
bots/algoritmos que buscam influenciar a conversação pública e
manipular a opinião política estariam mais próximos desse “fa-
lar-contigo” – numa instância interpessoal exclusivamente lin-
guística. Por outro lado, bots/algoritmos capazes de participar/
distorcer escolhas públicas (a saber, na opção por um candidato,
partido ou política) usariam a comunicação para intervir na po-
lis, no espírito de “fazermos-no-mundo” − aqui numa instância
igualmente extralinguística, fora dos agentes envolvidos.
Seja como for, em 2008 Nobre já sugeria a emergência
de um “political robot” (robô político) e um “robotic politician”
(político robótico). Ia além, propondo o Billbot e o Obamabot,
e o Robotican e o Democrobot (dos partidos norte-americanos
Republicano e Democrata), e apresentava um experimento de ví-
deo capaz de fazer qualquer pessoa (quer dizer, sua imagem em
vídeo) dizer qualquer coisa que o criador do vídeo determinasse,
produzindo mensagens para uso político por meio de tecnologias
persuasivas (NOBRE, 2008, p. 4). Dez anos depois um vídeo falso
de Barack Obama fazendo um discurso que nunca aconteceu12 se
tornou viral: chegou a era do deepfake (falso profundo). Segundo
a revista Fortune, basta imaginar vídeos falsos apresentando po-
líticos e candidatos nas mais controversas cenas, como molestan-
do crianças, incitando violência contra minorias ou soldados co-
metendo crimes de guerra. Nas palavras do The Guardian (2018,
tradução nossa), “O espectro de deep fakes de motivação política
interrompendo eleições está no topo das (...) preocupações.”

12 Disponível em <https://youtu.be/cQ54GDm1eL0>.

67
REFERÊNCIAS

AIRES, J. P. B. Automatic Generation of Sports News. Porto, Portugal,


2016. Dissertação (Mestrado em Engenharia) – Universidade do Porto.

ARNAUDO, D. Computational Propaganda in Brazil: Social Bots during


Elections. Computational Propaganda Research Project, Working Paper
n. 2017.8, University of Oxford, UK, 2017.

BESSI, A.; FERRARA, E. Social bots distort the 2016 U. S Presidential


election online discussion. First Monday, v. 21, n. 11, 2016.

BOSTON UNIVERSITY. BU research team awarded $1,000,000 NSF


grant to analyse public communication. 13 set. 2018. Disponível em
<https://tinyurl.com/ybnmnuc8>. Acesso em 5 mar. 2019.

CARLSON, M. The robotic reporter – automated journalism and the


redefinition of labor, compositional forms, and journalistic authority.
Digital Journalism, v. 3, n. 3, p. 416-431, 2015.

DAVIS, J. Artificial intelligence can streamline public comment for


federal agencies. The Hill, 10 nov. 2016. Disponível em <https://tinyurl.
com/yaop4cuo>. Acesso em 5 mar. 2019.

DELOITTE. In Japan, an artificial intelligence has been appointed


creative director. Artificial Intelligence Innovation Report, 2017, p.
13. Disponível em <https://tinyurl.com/y4jmncq7>. Acesso em 5 mar.
2019.

68 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


CONTEXTO E DESAFIOS

DENNIS, J. How Cities Are Getting Smarter Using Artificial Intelligence.


UrbanSDK, 2 nov. 2018. Disponível em <https://tinyurl.com/y7slztvr>.
Acesso em 5 mar. 2019.

EUROPEAN PARLIAMENT. Computational propaganda techniques.


European Parliament Think Thank, 18 out. 2018. Disponível em
<https://tinyurl.com/yan55vup>. Acesso em 5 mar. 2019.

FOGG, B. J. Persuasive computers: perspectives and research directions.


In: CH198 CONFERENCE OF THE ACM/SIGCHI. Proceedings… New York:
ACM Press, 1998.

FORTUNE. How faking videos became easy – and why that’s so scary.
Fortune, 11 set. 2018. Disponível em <https://tinyurl.com/ybvbzq7p>.
Acesso em 5 mar. 2019.

GALLOWAY, C.; SWIATEK, L. Public relations and artificial intelligence: It’s


not (just) about robots. Public Relations Review, v. 44, n. 5, p. 734-
740, dez. 2018.

GREGORY, A. Automation of Public Relations. Research Talk. CNM Blog,


Department of Communications & New Media, National University
of Singapore, 3 mar. 2017. Disponível em <https://tinyurl.com/
ycv5z9g6>. Acesso em 5 mar. 2019.

HOWARD, P. N.; WOLLEY, S.; CALO, R. Algorithms, bots, and political


communication in the US 2016 election: the challenge of automated
political communication for election law and administration. Journal of
Information Technology & Politics, v. 15, n. 2, p. 81-93, 2018.

69
KIETZMANN, J.; PASCHEN, J.; TREEN, E. R. Artificial Intelligence in
Advertising: How Marketers Can Leverage Artificial Intelligence Along
the Consumer Journey. Journal of Advertising Research, v. 58, n. 3,
p.263-267, set. 2018.

KOLLANYI, B.; HOWARD, P. N.; WOOLLEY, S. C. Bots and Automation


over Twitter during the U. S. Election. Data Memo 2016.4, Project on
Computational Propaganda, Oxford, UK, 2016.

LIGHTFOOT, S. Political Propaganda Spread Through Social Bots.


Researchgate, 18 Dez. 2017. Disponível em <https://doi.org/10.13140/
rg.2.2.26725.91365>. Acesso em 5 mar. 2019.

MATOS, H. H. G.; NOBRE, G. F. ‘Public Communication’ Education and


Extension: civic skills to talk and act on polis. Revista Observatório, v. 2,
p. 176-189, 2016.

MATOS, H. H. G.; NOBRE, G. F. Comunicação para a cidadania e


democracia: capacitação em comunicação pública e política. In:
CONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO, XXXVII, 2014,
Foz do Iguaçu. Anais..., v. 1, p. 1-11, 2014.

MATUCK, A.; NOBRE, G. F. Communicative and Artistic Machines: a survey


of models and experiments on artificial agents. Word Academy of
Science, Engineering and Techonology, v. 10, n. 10, p. 1668-1672,
2016.

MONTAL, T.; REICH, Z. I, Robot. You, Journalist. Who is the Author? Digital
Journalism, v. 5, n. 7, p. 829-849, 2017.

70 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


CONTEXTO E DESAFIOS

MURTHY, D. et al. Bots and Political Influence: a sociotechnical


investigation of social network capital. International Journal of
Communication, v. 10, n. 20, p. 4952-4971, 2016.

NOBRE, G. F. Agentes Comunicativos Artificiais e Web Social. LUSOCOM,


8., 2009, Lisboa. Anais... Lisboa: Universidade Lusófona, 2009, p. 1096-
1106.

_____. Comunicação política e tecnologia linguística. In: MATOS, H. (Org.)


Comunicação Pública: interlocuções, interlocutores e perspectivas. 1ed.
São Paulo: ECA/USP, 2012, p. 261-274.

_____. Comunicação Política e Tecnologia Linguística: abordagem


quantitativa da língua natural com fins fáticos e conativos. São Paulo,
2002. Tese (Doutorado em Ciências da Comunicação) – Escola de
Comunicações e Artes, Universidade de São Paulo.

_____. Comunicação Pública. São Paulo: Instituto Ciência-Tecnologia da


Comunicação, 1998.

_____. iMediapolis: cidade, tecnologia e política. Revista Eletrônica do


Programa de Pós-Graduação em Mídia e Cotidiano, v. 6, n. 6, p. 30-45,
2015.

_____. Língua Cega para Robôs Comunicacionais. Simpósio


Internacional de Artemídia e Cultura Digital, 2014, São Paulo.
ACTAMEDIA XI, 2014. Disponível em <https://tinyurl.com/y47vc28h>.
Acesso em 5 mar. 2019.

71
NOBRE, G. F. Political communicative agents. In: BANDYOPADHYAY, A.
et al. (Org.). Proceedings of WMSCI / IMSCI / IMETI 2008. 3ed. Orlando:
International Institute of Informatics and Systemics (IIIS), p. 88-93,
2008.

NOBRE, G. F.; MATUCK, A. Communicative and Artistic Machines: some


remarks on authorship, copyright, and liability. International Journal of
Humanities and Applied Sciences, v. 5, n. 2, p. 145-149, 2016.

NOBRE, H. H. M.; NOBRE, G. F. A função social da comunicação pública:


extensão universitária e habilidades executivas civis. In: ROTHBERG,
D.; LUVIZOTTO, C. K.; LOSNAK, C. J. (Org.). Mídia e sociedade em
transformação. Bauru: Cultura Acadêmica, 2016, p. 29-47.

_____; Comunicação Pública e Comunicação Política: por uma interação


entre cidadania e democracia. Revista Organicom, v. 10, n. 19, p. 16-
26, 2013.

PHILLIPS, D. The automation of public relations: A perspective on the


development of automation affecting public relations. Woodbridge,
UK: BLURB, 2015.

PLAZA, J. A. Logics of public communications. Synthese, V. 158, N. 2, pp


165–179, 2007.

REEVES, B.; NASS, C. The media equation: how people treat computers,
television, and new media like real people and places. Cambridge:
Cambridge University Press, 1996.

72 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


CONTEXTO E DESAFIOS

SHIOMI, M. et al.. Recommendation Effects of a Social Robot for


Advertisement-Use Context in a Shopping Mall. International Journal of
Social Robotics, Vol.5, n. 2, p 251–262. abr. 2013.

TECHNISCHE UNIVERSITÄT ILMENAU. Artificial intelligence & risk


communication. Group for Research In Public Relations and
Communication of Technology, 2 ago. 2018. Disponível em <https://
tinyurl.com/y8pll5hx>. Acesso em 5 mar. 2019.

THE GUARDIAN. You thought fake news was bad? Deep fakes are where
truth goes to die. The Guardian, 12 nov. 2018. Disponível em <https://
tinyurl.com/y7mcrysq>. Acesso em 5 mar. 2019.

TRERÉ, E. The dark side of digital politics: understanding the


algorithmic manufaturing of consent and the hindering of online
dissedence. IDS Bulletin, v. 47, n. 1, Brighton, UK, 2016.

WANG, Y.; FAN, J. Knowing that, knowing what, and public


communication: public announcement logic with Kv operators. 23rd
International Joint Conference on Artificial Intelligence, August 3-9
2013, Beijing, China, p. 1147-1154, 2013.

WEEKS, L. Media law and copyright implications of automated


journalism. Journal of Intellectual Property and Entertainment Law,
New York University, vol. 4, n. 1, p. 67-94, 2014.

73
WOOLLEY, S, C.; GUIBEAULT, D. R. Computational Propaganda in
the United States of America: Manufacturing Consensus Online.
Computational Propaganda Research Project, Working Paper n. 2017.5,
University of Oxford, UK, 2017.

WOOLLEY, S. C.; HOWARD, P. N. Computational propaganda: political


parties, politicians, and political manipulation on social media. Oxford
Studies in Digital Politics, Oxford University Press, Oxford, UK, 2018.

_____. Political Communication, Computational Propaganda, and


Autonomous Agents. International Journal of Communication, vol. 10,
9, p. 4882–4890, 2016.

ZERFASS, A. et al.. Automation in PR and communication management.


European Communication Monitor 2016. Exploring trends in big data,
stakeholder engagement and strategic communication. Brussels: EACD/
EUPRERA, Quadriga Media Berlin, 2016.

74 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SAÚDE
COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SAÚDE

GUIA ALIMENTAR PARA A POPULAÇÃO BRASILEIRA:


DEFICIÊNCIAS NO DIÁLOGO ENTRE O ESTADO
E A SOCIEDADE

Devani Salomão1

RESUMO

O artigo relata pesquisa de pós-doutorado que evidenciou


as deficiências de comunicação e de resultados do Guia Alimentar
para a População Brasileira2, proposto pelo Ministério da Saúde

1 Pós-doutora pela Universidade de São Paulo (2018) com o projeto “Políticas


públicas visando controle da obesidade”, quando fez a análise da comunicação
pública do Guia Alimentar para a População Brasileira como instrumento de
política pública na prevenção e controle de doença crônica não transmissível,
especificamente a obesidade. Pós-doutora pela Universidade de São Paulo
(2014), com pesquisa financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento
Científico e Tecnológico (CNPq), cujo tema foi a averiguação da existência de
gestão sustentável em indústrias farmacêuticas, analisando os discursos e
práticas gerenciais em algumas multinacionais deste setor. Pós-doutora pela
Universidade Metodista de São Paulo (2011), Cátedra UNESCO de Comunicação
para o Desenvolvimento Regional e Cátedra “Prefeito Celso Daniel” de Gestão
de Cidades, oportunidade em que foi analisada a funcionalidade do Manual de
Prevenção de Quedas da Pessoa Idosa, um veículo de comunicação do Instituto
de Assistência Médica ao Servidor Público do Estado de São Paulo. Doutora
(2005) e mestre (1999) em Relações Públicas pela Escola de Comunicações e
Artes da Universidade de São Paulo. E-mail: devani.salomao@gmail.com
2 A elaboração do Guia foi orientada por cinco princípios: alimentação é
mais que ingestão de nutrientes; recomendações sobre alimentação devem
estar em sintonia com seu tempo; alimentação adequada e saudável deriva
de sistema alimentar socialmente e ambientalmente sustentável; diferentes
saberes geram o conhecimento para a formulação de guias alimentares; e
guias alimentares ampliam autonomia nas escolhas alimentares (BRASIL,
2014, p. 15-21).

77
para os portadores de doenças crônicas não transmissíveis (DCNT)
que utilizam o serviço público de saúde na cidade de São Paulo.
O estudo exploratório, com abordagem qualitativa e quantitativa,
buscou gerar conhecimentos para utilização prática dessa política
pública de combate à obesidade. Dados coletados por meio de
entrevistas individuais indicaram que as prescrições do Guia não
proporcionaram autonomia entre seus leitores acerca da escolha
de uma alimentação saudável. As respostas apontaram consumo
maior de alimentos ultraprocessados – um risco à saúde que se
combina com o sedentarismo –, comprovando que a aplicação do
Guia é inócua para grande parte da população pesquisada.

PALAVRAS-CHAVE: comunicação pública, doenças crônicas, guia


alimentar, políticas públicas, saúde pública.

INTRODUÇÃO

Uma comunicação pública e didática tornou-se nos últimos


anos a principal tática do governo brasileiro para enfrentar o cres-
cimento alarmante da obesidade no País. Diante do desafio de con-
ter o problema, o Ministério da Saúde produziu o Guia Alimentar
para a População Brasileira (GAPB)3, cuja segunda edição foi lança-
da em 2014 (BRASIL, 2014). O presente texto, ancorado na tradição

3 Tendo por pressupostos os direitos à saúde e à alimentação adequada


e saudável, o Guia é um documento oficial que aborda os princípios e as
recomendações de uma alimentação adequada e saudável para a população
brasileira, configurando-se como um instrumento de apoio às ações de
educação alimentar e nutricional no SUS e também em outros setores.

78 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SAÚDE

dos estudos de comunicação pública no contexto de saúde pública,


aprofunda-se na análise da aplicabilidade do Guia, interpretando-
-o à luz da realidade socioeconômica e educacional do brasileiro,
como destinatário da cartilha. O artigo sintetiza os resultados da
pesquisa de pós-doutorado defendida pela autora na Universidade
de São Paulo, abordando as motivações e os resultados de uma das
políticas públicas nacionais para o combate às chamadas Doenças
Crônicas Não Transmissíveis (DCNT), como a obesidade4.
Consonante com muitos países que consideram as DCNT
um grave problema de saúde pública, o Guia adverte (BRASIL,
2014, p.5): “o Brasil vem enfrentando aumento expressivo do so-
brepeso e da obesidade5 em todas as faixas etárias, e as doenças
crônicas são a principal causa da morte entre adultos. O excesso
de peso acomete um em cada dois adultos e uma em cada três
crianças brasileiras”. Uma das formas de desafiar essas estatís-
ticas, segundo a própria publicação, é a combinação de ações
intersetoriais que contribuam para promover uma alimentação
saudável entre a população atendida pelos serviços do Sistema
Único de Saúde (SUS). A tarefa do governo deve ser, portanto, am-

4 A autora se vincula aos estudos da comunicação pública no contexto de


saúde pública desde 1996, quando desenvolveu pesquisa de mestrado
sobre a relação entre médico e paciente no Hospital do Servidor Público
Estadual Francisco Morato de Oliveira, na capital paulista. Suas investigações
de doutorado e estágios de pós-doutoramento foram se ampliando e
aprofundando nessa linha de pesquisa.
5 O Índice de Massa Corporal (IMC) é uma medida internacional usada para
avaliar o nível de gordura de cada pessoa e adotado pela OMS como preditor
de sobrepeso e obesidade. O IMC é calculado pela divisão da massa de
cada indivíduo, em quilogramas, pelo quadrado da sua altura, em metros.
Resultados de IMC em adultos entre 25 e 30 são classificados como sobrepeso,
entre 30 e 35 como obesidade grau I, entre 35 e 40 como obesidade grau II
(severa) e acima de 40 como obesidade grau III (mórbida) (WHO, 2019a).

79
pla o suficiente para redirecionar o atendimento para orientações
que, ao final do processo, resultem na promoção de saúde. Isso
inclui incentivar o desenvolvimento de habilidades pessoais do
cidadão, estimulando, apoiando e protegendo a saúde (BRASIL,
2014, p. 5-6). Tal perspectiva – ou seja, a de geração de autono-
mia nos pacientes para realizar suas próprias escolhas alimenta-
res – é, na pesquisa que relatamos aqui, um dos principais indi-
cadores de análise do Guia sob a ótica da comunicação pública.

AS PROMESSAS DO GUIA E A ATENÇÃO BÁSICA À SAÚDE

Em 2014, o Guia havia sido lançado nacionalmente com


alarde. Na ocasião, experts davam depoimentos sobre como as
prescrições nesse instrumento poderiam atenuar as DCNT6. Diante
da magnitude das promessas de resultados que o Guia traria para
o cidadão, concluiu-se que era preciso entender todo o processo
de sua idealização e as motivações que levaram à sua produção.
Para tanto, os métodos iniciais de investigação incluíram entre-
vistas com os gestores dos Ministérios da Saúde e do Combate à
Fome e Desenvolvimento Social (MDS), bem como do Núcleo de
Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da Universida-
de de São Paulo. Os dados e os documentos oficiais comprova-
ram que o Guia, de fato, estava ocupando um lugar central como
política pública intersetorial. Especificamente na cidade de São

6 Algumas dessas projeções foram discutidas no I Seminário de Nutrição da


Atenção Básica, “Comida de verdade e a verdade da comida”, promovido pela
Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo para capacitar seus profissionais
diante das estratégias de enfrentamento das DCNT. A autora testemunhou os
debates realizados no evento.

80 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SAÚDE

Paulo, a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) lançou também em


2014 a Linha de Cuidado de Sobrepeso e da Obesidade, intitula-
da “Saúde Muito Além da Mesa – Qualidade de Vida é a Melhor
Dieta”, integrando ações nas Unidades Básicas de Saúde (em cujo
contexto a pesquisa relatada aqui se desenvolveu).
As atuações dirigidas ao combate à obesidade e ao sobre-
peso são prioritárias na atenção à saúde, visto que a obesidade
é considerada um problema complexo – não somente individual,
mas também populacional –, além de ser um fator de risco para
diversas doenças crônicas. Em São Paulo, a proposta de estrutu-
rar “Linhas de Cuidado” permite organizar as ações, ampliar o
acesso aos serviços e oferecer atenção integral à população do
município. O trabalho inicia-se com a avaliação do cidadão por
uma equipe multiprofissional da atenção básica. É feito o diag-
nóstico do estado nutricional e condição de saúde do paciente, a
partir do qual se estabelece o plano terapêutico individual com
as metas a serem alcançadas. O papel do nutricionista é impor-
tante porque ele enxerga o paciente de forma integral. O cidadão
recebe orientações sobre como se alimentar de forma saudável e
perdendo peso, caso necessário.

NÍVEIS ALARMANTES DE DCNT

A ênfase nas políticas públicas para as DCNT e, especificamen-


te, a obesidade, fundamenta-se no fato de estarmos diante de uma
epidemia global. Contudo, os esforços para sua prevenção ainda são
incipientes. As previsões sugerem que as altas taxas de obesidade
serão calamitosas para o bem-estar e gastos da população, assim

81
como da saúde pública. Até agora, são poucos os governos, em suas
diferentes instâncias, que têm mostrado boa administração em pro-
gramas preventivos. A base de evidências sobre como prevenir a
obesidade é limitada e precisa ser ampliada para além de estudos
randomizados controlados e incluir as avaliações de experiências,
mudanças de políticas públicas e análises de custos (GORTMAKER et
al., 2011). Esse quadro não será revertido sem a liderança dos go-
vernos, regulação e investimento em programas, monitoramento
dos mesmos e pesquisa (em parceria com as universidades).
A obesidade, além de ser uma doença em si, é um fator de
risco para várias DCNT. Hábitos de vida como a dieta desregrada
e a falta de exercícios físicos continuam causando alto índice de
doenças crônicas no País, como a hipertensão arterial, diabetes
e depressão. Dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), em
levantamento inédito, feito em 2013, do Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística (IBGE), mostram que as doenças crônicas
ainda são o grande problema de saúde do País (ELY, 2014).
As DCNT são atualmente responsáveis pela maioria das doen-
ças e mortes em muitos países, sejam de alta, média ou baixa condi-
ção socioeconômica. Uma medida de tal “carga global da doença”,
desenvolvido pela Organização Mundial da Saúde (OMS), é o ano de
vida ajustado por incapacidade (DALY)7. O DALY parte do pressuposto
de que a maneira mais adequada de calcular os efeitos das doenças
crônicas é medir o tempo gasto ou perdido por doença ou morte
prematura. Um DALY equivale a um ano de vida saudável perdido.

7 As métricas DALYs para uma doença ou condição de saúde são calculadas


como a soma dos anos de vida perdidos (YLL) devido à mortalidade prematura
na população e os anos perdidos devido a incapacidade (YLD) para pessoas
que vivem com a condição de saúde ou suas consequências: DALY=YLL+YLD.
(WHO, 2019b)

82 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SAÚDE

O projeto da OMS sobre carga global de doença, intitula-


do The Global Burden of Disease (WHO, 2008), mostra estima-
tivas sobre a incidência, a prevalência, a gravidade, a duração
e a mortalidade para mais de 130 causas principais. Ele inclui
dados desde o ano 2000, demonstrando quão impactante é o
número de DALY e de mortes no mundo, independentemente do
status socioeconômico dos países. Em 2005, por exemplo, as do-
enças cardiovasculares causaram 5,07 milhões ou 52% de todas
as mortes no mundo, com carga de doença equivalente a mais
de 34 milhões de DALY. Assim, a grande diferença entre países
de renda baixa e alta é que, nos primeiros, a carga de doenças
transmissíveis, condições maternas e perinatais ainda é superior
(embora apenas ligeiramente, em alguns casos) à das DCNT. Já
nos países ricos, bem como nas categorias intermediárias de ren-
da, as DCNT sobrepujam largamente as demais causas.
Ainda assim, os índices de morte por DCNT já estão mais
elevados em países de baixa e média renda do que em países
ricos. Quase dois terços das mortes prematuras em adultos (en-
tre 15 e 69 anos) e três quartos de todas as mortes adultas são
atribuíveis às Doenças Crônicas Não Transmissíveis. Pode-se dizer
que em todos os países do mundo as DCNT constituem o principal
problema de saúde pública, seja para homens ou para mulheres
e um grande desafio para todos os sistemas de saúde pública.
A idade é outro fator a ser considerado. Os idosos, geralmen-
te considerados com o grande grupo de risco, não estão sozinhos
como vítimas das doenças crônicas, pois há evidências suficientes,
em escala mundial, a respeito do crescente número de jovens e
pessoas de meia idade com algum tipo de problema crônico de
saúde. Neste aspecto, a OMS já estimou que 72% das mortes antes

83
dos 60 anos de idade podem ser ocasionadas por DCNT em países
de renda alta, ao passo que as doenças transmissíveis representa-
ram apenas 8% e as lesões, 21%. No mesmo ano, 68% dos DALY
perdidos para doenças crônicas em países de renda alta ocorre-
ram entre aqueles em idade produtiva. Esses resultados sugerem
que a doença crônica não pode mais ser considerada apenas um
problema de idosos (de forma inequívoca nos países de alta ren-
da, mas com forte tendência também nos demais países).

DCNT e fatores de risco

Em termos de fatores de risco, as doenças crônicas podem


ser assim elencadas: hipertensão; tabagismo; colesterol alto;
baixo consumo de frutas e hortaliças; sobrepeso e obesidade;
sedentarismo, bem como consumo abusivo de álcool. Estudos
demonstram que esses fatores afetam significativamente as es-
tatísticas de mortes e DALY, tendo um peso alto e progressivo. A
hipertensão arterial, por exemplo, é atualmente responsável por
quase 8 milhões de mortes em todo o mundo (13,5% de todas
as mortes), das quais 6,22 milhões ocorrem em países de renda
baixa e média e 1,39 milhão em países de renda alta.
Já o tabagismo, o consumo de alimentos com altas taxas
de gorduras trans e saturadas, o sal e o açúcar em excesso, o
sedentarismo e o consumo excessivo de álcool, causam mais de
dois terços de todos os novos casos de DCNT, além de aumentar o
risco de complicações em pessoas que já sofrem destas doenças.
O consumo de alimentos com altas taxas de gorduras sa-
turadas e trans, de sal e de açúcar é a causa de ao menos 14 mi-

84 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SAÚDE

lhões de mortes ou de 40% de todas as mortes anuais por DCNT.


O sedentarismo causa cerca de 3 milhões ou 8% das mortes anu-
ais por DCNT. O consumo de álcool leva a 2,3 milhões de mortes
ao ano, 60% das quais dentro do quadro de DCNT.
Mudanças no ambiente social e econômico fizeram com
que os fatores de risco de DCNT se tornassem generalizados. As
escolhas dos cidadãos em relação ao consumo de álcool e taba-
co, assim como à realização de dietas e atividades físicas, são
influenciadas por forças que estão além do controle individual,
incluindo a pressão das indústrias e do comércio.

DCNT no Brasil e São Paulo

Dados da pesquisa Vigilância de Fatores de Risco e Prote-


ção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico de 2017 indi-
cam que 54,0% dos brasileiros estão acima do peso e 18,9% são
obesos. Os percentuais são 26% e 66% superiores aos registra-
dos em 2006, quando as proporções eram 43,0% e 11,4%, res-
pectivamente. O Ministério da Saúde destaca ainda que 68,3% da
mortalidade no Brasil está relacionada às doenças crônicas não
transmissíveis. Por isso, há a necessidade de avaliar os fatores de
risco na população, como a obesidade. Além do excesso de peso,
a pesquisa analisou aspectos como a prática de atividade física e
o consumo de bebida alcoólica, entre outros (BRASIL, 2019).
Mais da metade da população paulista (52,6%) está acima do
peso, segundo levantamento divulgado em 2014 pela Secretaria de
Saúde do Estado de São Paulo (MACIEL, 2014). Foram entrevistadas
5,7 mil pessoas da capital e do interior com objetivo de avaliar os

85
fatores de risco e de proteção para doenças crônicas. Na análise por
gênero, os homens apresentam um percentual um pouco maior do
que as mulheres – 54,9% e 50,4%, respectivamente.
O sobrepeso entre a população paulista está acima da
média nacional, de 51%. “É necessário monitorar como está o
hábito da nossa população e desenvolver políticas públicas que
deem resposta a esses índices elevados”, apontou Marco Antônio
de Moraes, do Centro de Vigilância Epidemiológica da Secretaria.
A média de obesidade é menor, em torno de 19%.

POLÍTICA E COMUNICAÇÃO PÚBLICA

Esses números evidenciam a necessidade de esforços de


comunicação com foco em mudança de hábitos e em esclareci-
mentos sobre modelos de vida mais saudáveis como uma das ên-
fases das políticas públicas nesse campo. Antes de adentrarmos
a esse conceito melhor definir o que é um “problema público”.
Gusfield (2014. p. 21) cita John Dewey (1927)8 para dizer que

a problematização de uma situação está irremediavel-


mente associada à constituição de seus públicos. A defini-
ção de uma situação problemática (isto é, a maneira pela
qual é identificada, caracterizada, analisada, esclarecida
e resolvida) e a composição das comunidades afetadas
(ou seja, o surgimento de uma preocupação com a situa-
ção, o trabalho de determinar de que consiste seu caráter

8 A obra original The public and its problems possui duas traduções para o
espanhol: DEWEY, J. El público y sus problemas. España: Ágora, 1958; e DEWEY,
J. La opinión pública y sus problemas. Madrid: Ediciones Morata, 2004.

86 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SAÚDE

problemático, o desenvolvimento e a imputação de ações


para enfrentá-lo, e assim por diante) são dois aspectos
de um único processo. É uma situação problemática para
uma conjuntura que provoca questionamentos, e que,
portanto, chama a busca, o exame, a discussão; em suma,
para a investigação.

As políticas públicas da área da saúde são uma responsa-


bilidade do Estado, que é cumprida por meio dos seus governos.
Política pública não envolve apenas decisões de atores governa-
mentais, mas também decisões factíveis, isto é, condizentes com
o ambiente institucional circundante. Anderson (1984) define
política pública introduzindo um elemento central: a percepção
da existência de um problema que merece atenção por parte dos
atores. Em suas palavras, trata-se de “um curso de ação intencio-
nal seguido por um ator ou conjunto de atores para lidar com um
problema ou foco de preocupação” (ANDERSON, 1984, p. 3).
Com essas definições, podemos verificar que se trata de um
fluxo de decisões públicas, orientado a manter o equilíbrio social
ou a introduzir desequilíbrios destinados a modificar essa reali-
dade. Tais decisões são condicionadas pelo próprio fluxo e pe-
las reações e modificações que elas provocam no tecido social. É
possível considerá-las como estratégias que apontam para diver-
sos fins, todos eles, de alguma forma, desejados pelos diversos
grupos que participam do processo decisório (SARAVIA, 2006). A
finalidade última de tal dinâmica é a consolidação da democra-
cia, justiça social, manutenção do poder, felicidade das pessoas.
Fábio Konder Comparato (1989) diz que

87
O government by policies, em substituição ao govern-
ment by law, supõe o exercício combinado de várias tare-
fas que o Estado liberal desconhecia por completo. Supõe
o levantamento de informações precisas sobre a realidade
nacional e mundial, não só em termos quantitativos (para
o qual foi criada a técnica da contabilidade nacional), mas
também sobre fatos não redutíveis a algarismos, como em
matéria de educação, capacidade inventiva ou qualidade
de vida. Supõe o desenvolvimento da técnica previsional,
a capacidade de formular objetivos possíveis e de orga-
nizar a conjunção de forças ou a mobilização de recursos
– materiais e humanos – para a sua consecução. Em uma
palavra, o planejamento. (COMPARATO, 1989, p. 102).

Quanto à definição do que sejam situações problemáticas,


ampliou-se, para além das estruturas e dos órgãos do Estado,
a capacidade coletiva da sociedade para problematizar e parti-
cipar na formulação de agendas públicas, com a intensificação
do exercício de cidadania e do desenvolvimento de uma cultura
política compatível. A sociedade teve sua estrutura e sua dinâ-
mica fortemente modificadas graças à revolução tecnológica, à
reorganização do capitalismo e às expressivas alterações que se
fizeram sentir no modo de vida dos cidadãos, dos grupos dos
indivíduos e das classes sociais. Novos problemas surgiram e se
articularam com antigos dilemas, requalificando-os. (GIOVANNI;
NOGUEIRA, 2015, p. 19).
A própria situação estrutural das sociedades contemporâ-
neas passou a exigir que a expressão “políticas públicas” alcan-
çasse uma nova conceituação para superar uma visão mais res-
trita e tecnicista que as considera apenas como uma intervenção

88 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SAÚDE

governamental em áreas consideradas problemáticas (GIOVANNI;


NOGUEIRA, 2015, p. 19).
A política pública passa a ser tratada, então, como uma
forma de exercício do poder em sociedades democráticas, resul-
tante de uma complexa interação entre Estado e sociedade. E é
nessa interação que se definem as situações sociais consideradas
problemáticas, bem como as formas, os conteúdos, os meios, os
sentidos e as modalidades de intervenção. Em sua determinação,
pesam diferentes aspectos da economia, da estrutura social, do
modo de vida, da cultura e das relações sociais. Trata-se de uma
intervenção estatal, de uma modalidade de regulação política e
de um expediente com o qual se travam lutas por direitos e por
distribuição (GIOVANNI; NOGUEIRA, 2015, p. 19).

DEBATE PÚBLICO E CIDADANIA

Na comunicação pública o receptor é a um só tempo clien-


te, consumidor, contribuinte, eleitor, voluntário – em suma: cida-
dão. Temos sérias dúvidas se, de fato, os emissores dos serviços
públicos de saúde estão conscientes de todos esses papéis assu-
midos pelo cidadão.
A comunicação é uma importante ferramenta na vivência
da cidadania, seja para viabilizar o acesso à informação, estimular
os debates das questões públicas, disponibilizar canais de comu-
nicação e facilitar a participação em esferas deliberativas. Den-
tre os vários espaços por onde transita a comunicação pública,
a mídia é o mais valorizado pelas instituições. Ela estabelece um
espaço público indispensável de informação e formação da opi-

89
nião nas democracias contemporâneas. “A divulgação por meio
da mídia é a visão jornalística da comunicação pública” (BRAN-
DÃO, 2012, p.13). Ali circulam informações consideradas impor-
tantes e interessantes para a formação da opinião do público so-
bre acontecimentos e problemáticas que fazem parte da agenda
pública. Algumas dessas proposições são questões relacionadas
à saúde, direitos da mulher, meio ambiente, formação de blocos
econômicos e muitos outros que dizem respeito à coletividade e,
em geral, envolvem tomadas de decisão – transitando, assim, da
agenda pública para as midiáticas e políticas.
Para Matos e Gil (2012, p. 161), para que a comunicação
pública se efetive rumo ao reconhecimento dos diferentes agen-
tes e, numa fase além, rumo à deliberação, é preciso empoderar a
sociedade para a participação. As autoras acreditam que é possí-
vel a construção de vínculos entre os projetos de redução de desi-
gualdade (de renda, por exemplo) e experiências de exercício po-
lítico como forma de buscar a paridade de todos os interessados.
O processo deve ser educacional, cultural, econômico e contínuo.
Escudero (2015, p. 113) vê a comunicação pública como
um processo que requer compromisso metodológico do comuni-
cador com as transformações da realidade, que vem a se concre-
tizar por meio de posicionamento político e engajado desse pro-
fissional na construção democrática do seu entorno. Assumindo
postura política transformadora, o profissional trabalha na me-
diação entre os interesses públicos colocados na esfera pública e
as diferentes forças que concorrem dentro delas.
Ainda segundo Escudero (2015, p. 119), a consolidação da
comunicação pública como um direito depende, primeiramente,
que ela seja incluída no rol das políticas públicas já existentes no

90 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SAÚDE

país (de saúde, educação, assistência social, moradia e segurança


etc.), de modo a garantir ao cidadão o direito de participação na
esfera pública deliberativa com autonomia.

O GUIA ALIMENTAR

Como política pública que se concretiza em um produto


comunicacional, os guias dietéticos baseados nos alimentos têm
objetivo de favorecer a educação nutricional, utilizando termos
que sejam compreensíveis, simples e claros para a maioria dos
consumidores e indicando as modificações necessárias nos pa-
drões alimentares. Além ser um instrumento de educação ali-
mentar e nutricional, eles são documentos indutores de políticas
públicas, para além do setor da saúde. A proposta de produção
de um guia está sintonizada com o conceito de Segurança Ali-
mentar e Nutricional, abordando a qualidade da alimentação por
meio da oferta de alimentos mais saudáveis, diversificados e que
respeitem a cultura local.
Desde 1996, o Comitê de Alimentação e Nutrição da Or-
ganização Mundial de Saúde sugere a elaboração dos guias ali-
mentares e vários países os desenvolveram de acordo com essas
recomendações. A OMS propõe que os governos forneçam infor-
mações à população para facilitar a adoção de escolhas alimen-
tares mais saudáveis em uma linguagem que seja compreendida
por todas as pessoas e que leve em conta a cultura local – ofere-
cendo condições e ampliando as possibilidades de seus leitores
desenvolverem um processo autônomo e consciente de definição
de um estilo alimentar saudável.

91
O processo inicial para a concepção do primeiro Guia no
Brasil foi conduzido pela Câmara Interministerial de Segurança
Alimentar e Nutricional (Caisan)9. Ela foi criada pelo Decreto nº
6.273, em 2007, e está sob a coordenação da Secretaria Nacio-
nal de Segurança Alimentar e Nutricional (Sesan). Também fazia
parte do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome
(MDS) e foi transferida em 2019, no governo do presidente Jair
Bolsonaro, para a Secretaria Especial do Desenvolvimento Social,
vinculada ao Ministério da Cidadania.
Em consenso com as recomendações da OMS de atualizar as
informações sobre alimentação adequada e saudável, o Ministério
da Saúde desencadeou em 2011 o processo de elaboração da se-
gunda edição do Guia Alimentar para a População Brasileira, em
parceria com o Núcleo de Pesquisa Epidemiológica em Nutrição e
Saúde da Universidade de São Paulo (Nupen/USP) e com o apoio
da Organização Panamericana da Saúde (OPAS). Esta moderniza-
ção foi incluída como uma das metas do Plano Plurianual e do I
Plano Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, ambos re-
lativos ao período de 2012 e 2015. O Guia pretende ser nacio-
nalmente conhecido já que na sua introdução consta: “Este guia
é para todos os brasileiros (...). Almeja-se que ele seja utilizado
nas casas das pessoas, nas unidades de saúde, nas escolas e em
todo e qualquer espaço onde atividades de promoção de saúde
tenham lugar, como centros comunitários, centros de referência

9 A Câmara Interministerial de Segurança Alimentar e Nutricional (CAISAN)


é uma instância governamental responsável pela coordenação e pelo
monitoramento intersetorial das políticas públicas, na esfera federal,
relacionadas à segurança alimentar e nutricional, ao combate à fome, e à
garantia do Direito Humano à Alimentação Adequada.

92 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SAÚDE

de assistência social, sindicatos, centros de formação de trabalha-


dores e sedes de movimentos sociais” (BRASIL, 2014, p.11).
A publicação está dividida em cinco capítulos, baseando-se
nos cinco princípios que a fundamentaram. O primeiro apresen-
ta uma descrição geral da fundamentação do Guia, tratando da
relação entre alimentação e saúde e seus diferentes integrantes.
O segundo capítulo é dedicado às recomendações gerais sobre
a escolha dos alimentos, propondo que os itens in natura ou
minimamente processados sejam a base da alimentação. O ca-
pítulo três traz orientações sobre como combinar alimentos em
refeições. Em seguida, o quarto capítulo aborda o próprio ato de
comer e a comensalidade, referindo-se às circunstâncias – tempo
e foco, espaço e companhia – que influenciam o aproveitamen-
to dos alimentos e o prazer da alimentação. O último capítulo
examina os fatores que podem ser obstáculos para a adesão das
pessoas às recomendações do guia – informação, oferta, custo,
habilidades culinárias, tempo e publicidade – e propõe para a sua
superação a combinação de ações no plano pessoal, familiar e no
exercício da cidadania. As recomendações são oferecidas de for-
ma sintetizada em “Dez passos para uma Alimentação Adequada
e Saudável” (BRASIL, 2014).

PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

Para a realização da pesquisa que originou este artigo,


as entrevistas seguiram uma amostragem não probabilística
por conveniência. Após a realização da etapa de coleta de in-
formações com gestores das esferas de governo (já citada), fo-

93
ram aplicadas 30 entrevistas com as nutricionistas responsáveis
pelos cuidados relativos à saúde e segurança alimentar em 51
Unidades Básicas de Saúde (UBS) na Zona Sul de São Paulo10. O
objetivo foi desvendar e analisar os resultados da aplicação dos
cinco princípios que orientaram a elaboração do Guia quanto à
prevenção, monitoramento e controle das pessoas com sobrepe-
so ou obesas.
Duas hipóteses principais guiaram a investigação. A pri-
meira delas era a de que a prescrição do Guia não ampliou a au-
tonomia das pessoas com sobrepeso ou obesas, que utilizam o
serviço público de saúde, nas escolhas alimentares. A segunda
hipótese considerou que a “regra de ouro” do Guia (a recomen-
dação pelo consumo de alimentos in natura) não é seguida pelos
usuários do sistema de saúde.
Para a realização das entrevistas, foi utilizado um questio-
nário dividido em seis eixos, com suas respectivas variáveis, con-
forme exposto no Quadro 1.

10 O projeto de pesquisa foi submetido à autorização do Comitê de Ética


em Pesquisa da Secretaria Municipal de Saúde (CEP/SMS-SP), que é um
colegiado interdisciplinar independente, de caráter consultivo, deliberativo e
educativo, criado para defender os interesses dos sujeitos da pesquisa em sua
integridade e dignidade e para contribuir no desenvolvimento da pesquisa
dentro dos padrões éticos.

94 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SAÚDE

QUADRO 1 – Eixos e variáveis considerados no instrumento utili-


zado na pesquisa

EIXOS VARIÁVEIS ANALISADAS


I – Identificação Nome, idade, se estudou comunicação,
especialização, mestrado, doutorado.
II – Atuação Tempo de exercício da profissão e na área da
saúde pública, horas trabalhadas nas UBS,
descrição do atendimento na UBS.
III – Utilização do Há quanto tempo utiliza o guia, benefícios
Guia que ele traz no controle e prevenção da
DCNT para o profissional e para o paciente;
se as recomendações respeitam o momento
socioeconômico da família brasileira; a opinião
sobre o impacto de fertilizantes orgânicos ou
sintéticos nos alimentos, bem como sobre
o plantio de sementes transgênicas; níveis
de confiança sobre as informações que o
consumidor recebe das características dos
alimentos que vai ingerir; como avalia que o
indivíduo desenvolve autonomia na escolha de
alimentos; quais os fatores de natureza física,
cultural, econômica, política e social para
adotar uma alimentação saudável.
IV – Alimentos recomendados no café da manhã,
Aconselhamento almoço, jantar, lanches.
de alimentação
saudável e saúde

95
V – Os alimentos e Piores alimentos ultraprocessados; dificuldades
a alimentação para a pessoa escolher alimentos in natura,
higienizá-los e conservá-los; ambientes onde
as pessoas se alimentam no que se refere à
limpeza, conforto, tranquilidade.
VI – Informação Informação sobre a quantidade, qualidade e
sobre alimentação grau de confiabilidade de notícias disponíveis
saudável e saúde sobre alimentação saudável e saúde em guias,
internet, rádio, revistas, TV, palestras, amigos,
familiares e dos profissionais de saúde.
Melhores canais para informar sobre
alimentação saudável e saúde.
Fatores que podem influenciar na
compreensão do que é alimentação saudável
e saúde (por exemplo: educação formal,
nível socioeconômico, habilidades culinárias,
publicidade e custo).
Dificuldades ou não para o paciente mudar
a alimentação. Alimentação baseada em
carboidratos e proteínas.
Definição de alimentação balanceada.
Opinião sobre horta comunitária e alimentos
orgânicos. Principais fatores de sobrepeso
ou obesidade: alimentação inadequada,
desmame precoce, estresse, fatores
demográficos, genéticos, psicológicos,
fumo e álcool, nível de escolaridade, status
socioeconômico, pais obesos e sedentarismo.

Fonte: a autora.

96 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SAÚDE

A NARRATIVA DOS GESTORES

De acordo com a gestora do Ministério do Desenvolvimen-


to Social e Combate à Fome (MDS)11, o programa de segurança
alimentar e nutricional do governo federal, que deu origem ao
Guia, envolveu 23 ministérios e baseou-se na Lei Orgânica de Se-
gurança Alimentar e Nutricional (Lei 11.346, de 15 de julho de
2006) (BRASIL, 2006a). Nos cinco anos seguintes ao início da vi-
gência da lei, cada ministério mapeou suas ações sobre seguran-
ça alimentar e nutricional, com definição orçamentária para sua
implementação.

“A diferença é estarmos prestando serviço público para o


mesmo cidadão. Se eu moro no interior de São Paulo eu
vou para a unidade básica de saúde, eu vou para a escola,
eu quero acesso aos alimentos adequados. Quem vai me
possibilitar isso? Os vários servidores públicos em diferen-
tes frentes de atuação. Isso que é o diferencial do segmen-
to de segurança alimentar e nutricional.” (Gestora do MDS)

Para a entrevistada, a segunda edição do Guia Alimentar


para a População Brasileira distingue-se fundamentalmente da
primeira publicação em uma dimensão importante em termos
de comunicação pública.

“O [Guia] de 2006 é mais voltado à parte nutricional, fala


de porções. O de 2014 se propõe a dialogar com o cida-

11 Graduada em Nutrição, especialista em gestão de Políticas de Alimentação


e Nutrição e mestre em Nutrição.

97
dão. Qual era o desafio? Percebíamos que o [primeiro]
guia conversava com o nutricionista, mas ele não dialoga-
va com a população. O segundo foi inovador. Foi pensado:
como conversar com a população?”. (Gestora do MDS)

Outra inovação do Guia, na visão da entrevistada, é a apre-


sentação dos alimentos em três formas diferentes: naturais,
processados e ultraprocessados. Ao ser questionada sobre a real
acessibilidade da população aos itens considerados mais saudá-
veis, a gestora argumentou que a retirada do Brasil do chamado
“mapa da fome”, elaborado pela FAO (Organização das Nações
Unidas para a Alimentação e a Agricultura), reposicionou a ên-
fase da política pública na área para a qualidade da alimentação
(uma vez que o crescimento da renda per capita teria providen-
ciado a superação das dificuldades de acesso ao alimento). Estas
e outras ponderações dos representantes do MDS na pesquisa de-
monstram que a diversidade regional da população (em termos
de renda, acessibilidade e costumes alimentares) é ignorada na
política pública do ministério.
Já para a gestora do programa no Ministério da Saúde
(MS) , a estratégia da política alimentar “é a mesma para todos
12

os brasileiros” e abrange o processo completo que se inicia na


produção do alimento, na logística para que ele chegue na mesa
do brasileiro (e a que preço), até as formas como o indivíduo es-
colhe a composição de suas refeições.

12 Graduada em Nutrição, com especialização em Gestão de Política de


Alimentação e Nutrição, mestrado em Ciências da Saúde e doutorado em
Nutrição Humana.

98 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SAÚDE

“Na verdade, o que temos em conta no Ministério da Saú-


de é que as pessoas tenham as informações para serem
mais autônomas em suas decisões.” (Gestora do MS)

A diversidade do público brasileiro atendido por essa polí-


tica seria inerente à própria estrutura do sistema, que se funda-
menta na prestação local (no município) dos serviços públicos.

“A estratégia nutricional acontece lá no município, onde


eu tenho: a escola, a unidade de saúde, (...) um Centro
de Referência de Assistência Social – CRAS, que é como o
MDS chega lá. Esse material [o Guia] vai ser traduzido, vai
fundamentado pela nossa rede que está nos municípios.
Hoje essa unidade básica de saúde já tem como pressu-
posto trabalhar ações de educação e saúde com base na
realidade local. É pressuposto ter uma equipe de atenção
básica e saber quem é a população lá inscrita. (...) Essa
equipe precisa fazer o planejamento das ações com base
na realidade local. (...) Quando produzimos os materiais,
sempre temos o cuidado que eles sejam adequados à re-
alidade. Quem vai saber adaptá-lo à realidade é aquele
profissional.” (Gestora do MS)

A gestora do Ministério da Saúde respondeu ainda que as


campanhas educativas para ampliar a visibilidade e o impacto
das políticas alimentares esbarram em restrições orçamentárias
relacionadas ao custo publicitário. Uma alternativa tem sido o
uso de mídias gratuitas, como os canais oficiais do MS na internet
e as emissoras públicas de televisão (como TV NBR e TV Cultura).
Nenhuma campanha específica voltada ao enfrentamento do so-
brepeso e da obesidade foi realizada.

99
Os gestores da política pública alimentar, tanto no MDS
quanto do MS, defendem os programas que implementam sem
questionar ou colocar em discussão as brechas ainda existentes
para garantir os resultados planejados. Nossa análise sobre esse
comportamento nos remete ao que Bourdieu (2001) denominou
de habitus:

É um sistema de disposições, modos de perceber, sentir,


fazer, pensar, que nos leva a agir de determinada forma
em uma circunstância dada. As disposições não são nem
mecânicas, nem determinísticas. São plásticas, flexíveis.
Podem ser fortes ou fracas. Refletem o exercício da facul-
dade de ser condicionável, como capacidade natural de
adquirir capacidades não-naturais, arbitrárias”. (BOUR-
DIEU, 2001 p. 189).

São adquiridas pela interiorização das estruturas sociais.


Portadoras da história individual e coletiva, são de tal forma
internalizadas que chegamos a ignorar que existem. São as ro-
tinas corporais e mentais inconscientes, que nos permitem agir
sem pensar.

A VISÃO DOS PROFISSIONAIS NAS UBSs

O perfil das nutricionistas entrevistadas na pesquisa apon-


ta que há uma concentração de profissionais com especialização
em nutrição clínica (33% da amostra), seguidos por aqueles com
uma formação mais aprofundada em saúde da família (13%) e
em terapia nutricional (10%). Há uma abundância de especiali-

100 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SAÚDE

zações disponíveis entre as nutricionistas que trabalham nas 51


Unidades Básicas de Saúde da Zona Sul de São Paulo – levando à
conclusão de uma considerável pulverização de conhecimentos
especializados entre essas profissionais.
Do total de 30 nutricionistas entrevistadas, 13 (ou 43% da
amostra) possuem mais de nove anos de atuação na profissão –
ante uma maioria (57%) com experiência abaixo desse patamar.
Esses dados devem ainda ser contrapostos ao quadro que indica
o tempo específico de trabalho dessas profissionais nas UBSs em
que se encontravam no momento da aplicação dos questioná-
rios. Ele comprova que apenas 17% (ou 5) tinham um vínculo su-
perior a cinco anos naquele posto e 67% estavam na respectiva
UBS há menos de quatro anos.
Acreditamos que o tipo de atendimento da nutricionista,
ao fazer o diagnóstico nutricional, pode influenciar na aceitação
do plano alimentar. Por isso descrevemos sucintamente o nosso
resultado: 23 respostas indicam que o atendimento foi específico,
individual ou compartilhado; 13 entrevistadas afirmaram realizar
o atendimento por meio de discussões com o paciente; 12, por
matriciamento13; 11, por nutrição ambulatorial; 5, por anamnese

13 O correto entendimento da expressão “apoio”, que é central na


proposta dos NASFs, remete à compreensão de uma tecnologia de
gestão denominada “apoio matricial”, que se complementa com
o processo de trabalho em “equipes de referência”. Equipes de
referência representam um tipo de arranjo que busca mudar o padrão
dominante de responsabilidade nas organizações: em vez das pessoas
se responsabilizarem por atividades e procedimentos (geralmente
uma responsabilidade quantitativa), o que se busca é construir a
responsabilidade de pessoas por pessoas (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2010,
p. 11).

101
nutricional14 e igual número por recordatório15.
Diante do perfil das entrevistadas de curto tempo de traba-
lho na UBS, passamos então a interpretar mais especificamente
a utilização do Guia Alimentar na relação entre a nutricionista e
os pacientes. A maioria das profissionais (53%) afirmou utilizar
o material parcialmente, enquanto apenas 37% o utilizam cons-
tantemente e outros 10% simplesmente não o fazem.
Embora a maioria afirmasse utilizar o Guia parcialmente ou
sempre na ocasião da entrevista, esta ainda era uma experiência
nova para 60% das entrevistadas: 10% o aplicavam há menos de
seis meses; 43%, entre seis e 12 meses, e 7% não o utilizavam
até então. Outros 40% o aplicavam há mais de um ano. O tempo
de utilização do Guia é importante, na medida em que algumas
formas de uso podem ser retificadas, além de possibilitar a aferi-
ção de resultados empíricos.
Apesar de a maior parte das entrevistadas ter pouco tempo
de experiência na aplicação do Guia entre os pacientes, muitas
identificam a importância desse produto para a população, seja
por prover informações úteis, seja por combater as Doenças Crô-
nicas Não Transmissíveis (DCNT). As nutricionistas puderam es-
colher mais de uma resposta sobre os benefícios do Guia para o
controle das DCNT, mas chamou a atenção que muitas tenham

14 Anamnese Nutricional é um questionário onde são coletadas informações


do paciente com foco na alimentação, antecedentes familiares e doenças
pessoais. É a primeira etapa da consulta e deve ser de preferência rápida
e objetiva. Com uma anamnese bem feita pode-se identificar possíveis
patologias e quais serão os tratamentos.
15 O recordatório alimentar é uma ferramenta muito utilizada por
nutricionistas para coleta de dados sobre a alimentação do paciente e
avaliação do conteúdo calórico e de nutrientes

102 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SAÚDE

avaliado especificamente a importância das sugestões de ali-


mentação nesse tipo de mídia, considerado também como um
“norteador” para sua prática profissional. Quando questionadas
sobre a importância do Guia para o paciente, houve uma concen-
tração de respostas relacionadas ao didatismo do material, o que
o tornaria mais facilmente compreensível pela população.
Mais precisamente, 60% das entrevistadas avaliaram que o
Guia é coerente com os hábitos e condições da família brasileira
no que diz respeito à ingestão de alimentos minimamente pro-
cessados (arroz, feijão, mandioca, batata, mandioca, legumes e
verduras). Outros 37% avaliam que o conteúdo do material con-
sidera a cultura apenas parcialmente, enquanto outros 3% admi-
tiram não conhecer o Guia.
Ao analisarmos o conteúdo das falas das entrevistadas,
identificamos ainda que as profissionais reconhecem no Guia o
uso de informações adaptadas a alimentos de cada região, mos-
trando como elas podem compor uma refeição balanceada, utili-
zando apenas alimentos minimamente processados ou in natura
como ingredientes. As condições financeiras da população aca-
bam por prejudicar principalmente o consumo de verduras, fru-
tas e legumes, segundo as nutricionistas ouvidas na pesquisa. As
estatísticas já apresentadas aqui comprovam que, infelizmente,
a família brasileira deixou o consumo de alimentos minimamen-
te processados e aumentou o de ultraprocessados, acrescendo
o risco de obesidade e outras DCNT. A população em geral tem
ampliado o consumo de alimentos ultraprocessados que muitas
vezes são substituídos pelos minimamente processados (80%
dos entrevistados afirmaram que seus pacientes consomem
sempre alimentos ultraprocessados e 90% fazem uso corriqueiro

103
dos processados em suas refeições). Quando questionados sobre
a influência negativa que os alimentos ultraprocessados podem
causar sobre a cultura alimentar, 80% das nutricionistas ouvidas
concordam com essa hipótese, em alguma medida, enquanto
apenas 3% discordam e outros 17% não revelaram uma posição
assertiva sobre o tema.
Diante dessa problemática, seria desejável que o Guia fosse
capaz de reverter essa tendência de consumo de alimentos ultra-
processados, à medida que alerta para seu uso e indica maneiras
práticas para sua substituição em refeições mais saudáveis. No
entanto, os pacientes ainda se encontravam “divididos” sobre o
que realmente são os alimentos in natura, de acordo com o tes-
temunho das nutricionistas entrevistadas. O não entendimento
pode levar a erros na escolha dos ingredientes recomendados.
O cenário se agrava quando se trata do termo “minima-
mente processado”. Segundo as profissionais entrevistadas, a
grande maioria dos pacientes (57%) compreende e aceita ape-
nas parcialmente o que são estes ingredientes, enquanto outros
20% não o compreendem de forma alguma.
A necessidade de a nutricionista explicar os termos utiliza-
dos aponta problemas na composição do Guia, que se complicam
à medida que os pacientes também resistem a determinadas re-
comendações de uma alimentação mais saudável. Quase a totali-
dade das entrevistadas (93%) afirmou, por exemplo, que enfren-
tava dificuldades em ter suas recomendações sobre o consumo
de açúcar seguidas pelos pacientes. Um número ligeiramente
menor (90%) concordou (plenamente ou não) que essas resis-
tências também ocorrem em relação ao consumo de gorduras.

104 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SAÚDE

Além da escolha dos alimentos, o Guia trata também de


sua manipulação em termos de qualidade higiênico-sanitária.
Mas este aspecto foi considerado menos problemático pelas nu-
tricionistas: a maioria (53%) não demonstra uma opinião clara
sobre a adequação dos métodos usados por seus pacientes, ante
27% que avaliam que há problemas na qualidade higiênico-sa-
nitária e 20%, discordam.
Diante das recomendações do Guia sobre o hábito das re-
feições, os problemas reconhecidos pelos entrevistados também
são menos graves do que aqueles referentes à compreensão so-
bre a escolha dos alimentos mais saudáveis e à aderência às reco-
mendações sobre a composição das refeições. Quase a totalidade
das nutricionistas (93%) avalia que seus pacientes se alimentam
nos horários sugeridos pelo Guia (sempre ou parcialmente), mas
87% frisaram que as refeições são apenas parcialmente realiza-
das em ambientes apropriadamente limpos, confortáveis (90%)
e tranquilos (80%).
Diante desse contexto, a importância dos guias como a
melhor fonte de informação sobre alimentação saudável e saúde
foi restrita, na avaliação das nutricionistas ouvidas. Apenas 23%
consideraram essa opção, mas 53% reforçaram a importância
dos profissionais de saúde nessa função. As diferentes mídias e
os conselhos de familiares e amigos foram citados, cada um, por
apenas 3% das respondentes. Para 53% delas, a compreensão
desses conteúdos é claramente influenciada pelo grau de educa-
ção formal do paciente (outros 40% responderam que essa influ-
ência é parcial), enquanto um percentual ainda maior, 63%, ava-
liou que o nível socioeconômico representa um evidente impacto
na apreensão desses conteúdos (e outros 33% afirmaram que

105
esse impacto é parcial). A potencial baixa apreensão dos conte-
údos sobre alimentação saudável pelas camadas desfavorecidas
economicamente, por sua vez, se soma ao custo dos alimentos
para dificultar o nível de adesão às práticas nutricionais reco-
mendadas seja pelos profissionais de saúde, seja pelos guias ou
demais fontes. Entre as entrevistadas, 37% creem parcialmente
que o preço dos alimentos influencia a qualidade da alimentação
e a saúde da população, enquanto 63% concordam integralmen-
te com essa afirmação.
Os dados apontam um elevado grau de concordância en-
tre as nutricionistas entrevistadas acerca da grande relevância
da alimentação saudável e do sedentarismo entre os fatores de
obesidade, seguidos por motivações psicológicas e por situações
de estresse vivenciadas pelos pacientes. Surpreendeu-nos que os
fatores genéticos, como ter pais obesos, além do fumo e do ál-
cool não tenham sido considerados como causas fundamentais
dessa condição.

CONCLUSÕES

A pesquisa sobre a eficiência do Guia como estratégia de


enfrentamento da obesidade nos permitiu avaliar, com mais
ênfase e profundidade, a interface da comunicação pública na
saúde pública. Esta ainda é uma área pouco explorada no Bra-
sil pelos comunicólogos. Deduzimos que o campo da nutrição
tem aflorado nos últimos anos porque está atrelado à parte do
problema e da solução no que se refere ao enfrentamento das
Doenças Crônicas Não Transmissíveis e, especificamente, da obe-

106 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SAÚDE

sidade. A pesquisa de campo identificou a importância da pres-


tação de serviços especializados em nutrição tanto nas Unidades
Básicas de Saúde (UBSs) quanto no Núcleo de Apoio a Saúde da
Família (NASF), onde os profissionais especialistas trabalham em
equipe, possibilitando a troca de conhecimento e agilidade no
cumprimento de metas e objetivos compartilhados para a efetiva
implementação dessa política pública.
Compreende-se, portanto, que o profissional de nutrição é
um mediador entre o Estado e o usuário dos serviços de saúde pú-
blica. Nessa área, o diálogo surge como uma dimensão transversal.
Essa interação comunicativa entre profissional e paciente é essen-
cial, pois o que está em jogo não é o monitoramento hegemônico
dos hábitos do paciente, mas a compreensão mais ampla do outro,
seguindo suas emoções, intenções e domínios simbólicos. Tais as-
pectos abrem caminhos para o necessário esclarecimento (e não a
imposição) ao paciente acerca das suas necessidades nutricionais.
À medida que o questionário usado como principal ins-
trumento de pesquisa com as nutricionistas fora formatado para
espelhar o conteúdo da segunda edição do Guia Alimentar, as
respostas a cada pergunta permitiram avaliar como, de fato, os
cinco princípios básicos para a elaboração dessa mídia são apli-
cados e interpretados. A partir disso, questionamos a eficiência
desse instrumento como estratégia de comunicação pública apli-
cada a uma política pública em saúde. Considerando as duas hi-
póteses iniciais dessa pesquisa, concluímos que:

1. A prescrição do Guia não ampliou a autonomia das


pessoas com sobrepeso ou obesas, que utilizam o ser-
viço público de saúde, nas escolhas alimentares;

107
2. A “regra de ouro” do Guia (a preferência por alimentos
in natura ou minimamente processados) não é seguida
pelas pessoas com sobrepeso ou obesas que utilizam
o serviço público de saúde na Zona Sul de São Paulo.

Apesar do Guia ser um possível norteador para o combate


e controle das DCNT, grande parte da população brasileira con-
some alimentos ultraprocessados e processados, em detrimento
daqueles in natura. Os fatores que levam a esse evento são mui-
tos: a crise econômica é um deles, visto que o índice de desem-
prego no Brasil atingiu 12% no trimestre encerrado em outubro
de 2018, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de
Domicílio Contínua, divulgados em novembro de 2018, pelo Ins-
tituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Ao mudarem seus costumes alimentares, desprezando a
diversidade de alimentos frescos, essa população aumenta o ris-
co de obesidade e outras DCNT.
Segundo as nutricionistas, é preciso sensibilizar os pacien-
tes e também aqueles que ainda nem chegaram aos serviços de
saúde pública, revelando os malefícios das gorduras, sal e açúcar
em excesso. É necessário que tenham acesso às informações que
possam beneficiar as escolhas na rotina alimentar. Para tanto,
fica evidente a ausência de uma comunicação pública compe-
tente a partir dos órgãos responsáveis pela gestão das políticas
públicas relacionadas a este tema.
A conquista de autonomia na escolha de alimentos é um
ponto crucial em tais políticas. Conforme a Estratégia Global da
Política Nacional de Alimentação e Nutrição (PNAN), que orienta
a confecção do Guia Alimentar, a alimentação saudável se refere à

108 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SAÚDE

melhor prática alimentar atribuída pelos próprios sujeitos, capaz


de contribuir para prevenir o avanço das DCNT (OMS, 2004; BRA-
SIL, 2003, 2005, 2006b, 2012).
Para tanto, está em jogo um contexto bem mais amplo de
produção de alimentos e de relações sociais. Nas 152 páginas do
Guia, houve espaço para muitas ponderações: “A depender de
suas características, o sistema de produção e distribuição de ali-
mentos pode promover justiça social e proteger o ambiente; ou
ao contrário, gerar desigualdades sociais e ameaças aos recursos
naturais e à biodiversidade.” (BRASIL, 2014, p.18).
Ao avaliarmos especificamente os indicadores relativos à jus-
tiça social (IBGE, 2017), lembramos que uma parcela considerável
de brasileiros se encontra em situação de pobreza e exclusão social,
sem condições dignas de moradia e sem acesso à educação – ou
seja, sem os recursos sociais, econômicos e institucionais que ve-
nham a proporcionar seu ajuste na sociedade como homens livres.
Esses fatores exercem influência fundamental nas oportunidades
alimentares e de saúde que serão apresentadas a esses indivíduos.
O Guia apela para o empoderamento dos cidadãos, tanto
no que se refere à escolha dos alimentos quanto às ações cole-
tivas para a comercialização de produtos in natura, ou minima-
mente processados a preços acessíveis. A política nacional ainda
abrange a oferta de restaurantes populares16 e cozinhas popula-

16 O Restaurante Popular faz parte do Programa Acesso à Alimentação,


desenvolvido em 2006 pelo governo federal. De acordo com o Instituto de
Pesquisa Aplicada (Ipea), o programa “tem como objetivo garantir à população
em situação de insegurança alimentar o acesso à alimentação digna, regular
e adequada à nutrição e à manutenção da saúde humana” (BRASIL, 2010).
Existiam, em 2010, 89 Restaurantes Populares em funcionamento no Brasil,
distribuídos em 65 municípios brasileiros.

109
res. O cidadão é encorajado a se engajar em políticas fiscais para
batalhar contra o encarecimento dos alimentos ultraprocessados.
No entanto, é inevitável lembrar que este cidadão que re-
cebe tal incumbência do Estado é o mesmo a quem foi negado
o direito à moradia, educação, saneamento básico, transporte e
saúde. Parece-nos uma convocação injusta que, sem condições
imprescindíveis para lutar por direitos sociais básicos, ele seja
chamado a abraçar atos para resoluções de problemas que o Es-
tado não tem conseguido solucionar.
O Guia recomenda que é preciso “dedicar tempo para lim-
par geladeira, fogão, armários, prateleiras, chão, paredes” porque
essas medidas contribuem para preservar a qualidade dos ali-
mentos (BRASIL, 2014, p. 19). O que nos chamou a atenção sobre-
maneira foi o desconhecimento do cidadão sobre como higienizar
os alimentos. O desconhecimento sobre como salubrificar os ali-
mentos é um problema grave diante da própria política alimentar,
que incentiva o consumo de frutas e hortaliças em virtude dos
benefícios que trazem à saúde do consumidor. A adequada higie-
nização durante o preparo das hortaliças para o consumo pode
assegurar a qualidade higiênico-sanitária desses alimentos.
Ao final do questionário abordamos os entrevistados sobre
a quantidade e confiabilidade de informações acerca da alimen-
tação saudável. As respostas enfatizaram a importância de pales-
tras aos cidadãos, seguidas pelo próprio contato com os profissio-
nais de saúde como fontes principais de orientações. Em termos
de quantidade de informações, os guias receberam importância
equiparável à internet. No entanto, quando a variável foi a confia-
bilidade dessas informações, os guias foram melhor pontuados,
seguidos pelas palestras e pelos profissionais de saúde.

110 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SAÚDE

No que se refere ao melhor canal ou outros meios para


buscar informações sobre alimentação saudável e saúde, as nu-
tricionistas optaram pelos profissionais de saúde como fontes
mais qualificadas. Avaliamos que não houve inconsistência nas
respostas. Os guias ficaram com a segunda posição.
As respostas demonstram que, para os nutricionistas, a
educação formal do cidadão é vista como um limitante maior do
que seu nível socioeconômico na compreensão do que é uma ali-
mentação saudável. E o aspecto que mais compromete a alimen-
tação é a publicidade sobre os produtos ultraprocessados, seguida
pelo tempo dedicado ao preparo dos alimentos e pelo custo.
A mudança alimentar foi considerada um acontecimento
que dependerá da cultura e do acesso aos alimentos (o que inclui
a problemática do custo). A mudança sobre esse conjunto amplo
de fatores implica em processos difíceis e lentos.
As condições que levam à obesidade foram também ques-
tionadas. O sedentarismo e a alimentação inadequada tiveram
percentual alto de respostas, seguidos pelos fatores psicológicos,
o estresse e a descendência de pais obesos.
Assim, o Guia foi elaborado como um dos instrumentos de
política pública de saúde, especialmente diante do aumento de
incidência das DCNT. Como produto midiático, seu conteúdo foi
produzido pelos órgãos públicos que coordenam essa política.
Ele partiu de “um sistema de decisões públicas que visa a ações
ou omissões, preventivas ou corretivas, destinadas a manter ou
modificar a realidade de um ou vários setores da vida social, por
meio da definição de objetivos e estratégias de atuação e da alo-
cação dos recursos necessários para atingir os objetivos estabe-
lecidos” (SARAVIA, 2006, p. 13).

111
Se o Guia é um instrumento de política pública, como afir-
mado pelos gestores dos dois ministérios e demais entrevistados,
ele não foi “resultante de uma complexa interação entre Estado
e sociedade” (GIOVANNI; NOGUEIRA, 2015, p. 19). Pois se é “nessa
interação que se definem as situações sociais consideradas pro-
blemáticas, bem como as formas, os conteúdos, os meios, os sen-
tidos e as modalidades de intervenção”, deduzimos que faltou
“ouvir e dialogar” com técnicos de saúde e usuários dos serviços
públicos de saúde, entre eles as UBSs, antes mesmo da elabora-
ção do conteúdo do Guia.
A comunicação pública, tão importante nas organizações,
estaria bem elaborada no Guia caso não se destinasse à maioria
do público das Unidades Básicas de Saúde. Anuo com Matos e
Gil (2012, p. 161) ao afirmarem “que é possível a construção de
vínculos entre os projetos de redução de desigualdade (...) e (...)
como a prática da cidadania, como forma de buscar a parida-
de de todos os interessados. O processo deve ser educacional,
cultural, econômico e contínuo”. Inferimos que as prescrições
apresentadas no Guia não são compatíveis para muitas cidadãs e
cidadãos do Brasil.
Escudero (2015, p. 119) percebe a importância da comuni-
cação pública quando afirma “ser condição fundamental para a
consolidação da comunicação como um direito que ela faça parte
do rol das políticas públicas já existentes no País: saúde, educa-
ção, assistência social, moradia e segurança, de modo a garantir
ao cidadão o direito de participação na esfera pública deliberati-
va com autonomia.”
Revendo as hipóteses da pesquisa, os dados indicam que
as pessoas não ganham autonomia com as prescrições do Guia.

112 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SAÚDE

Quanto ao consumo dos alimentos ultraprocessados, evidencia-se


que ele é maior do que o de ingredientes minimamente proces-
sados ou in natura. Concluímos que as prescrições do Guia podem
ajudar apenas uma pequena parcela da população com DCNT,
pois a maioria não está conscientizada dos graves problemas que
a alimentação não saudável e o sedentarismo produzem. Quiçá
quando os investimentos dos governos aumentarem em educa-
ção formal em todos os níveis, teremos uma população conscien-
te de que o cuidado com a saúde física e mental deve começar, no
mínimo, no atendimento pré-natal a mulheres gestantes.

113
REFERÊNCIAS

ANDERSON, J. E. Public Policy-Making: An Introduction, 3rd ed.


Boston: Houghton Miflin, 1984.

BOURDIEU, P. Meditações Pascalinas. Rio de Janeiro: Bertrand Bra-


sil, 2001.

BRANDÃO, E. Conceito de comunicação pública. In: DUARTE, J.


(Org.). Comunicação Pública: Estado, Mercado, Sociedade e Inte-
resse Público. São Paulo: Editora Atlas, 2012. p.1-33.

BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria nº 648, de 28 mar. 2006


(a). Aprova a Política Nacional de Atenção Básica, estabelecendo
a revisão de diretrizes e normas para a organização da Atenção
Básica para o Programa Saúde da Família (PSF) e o Programa
Agentes Comunitários de Saúde (PACS). Disponível em < https://
bit.ly/2H55JBG >. Acesso em 26 abr. 2011.

_____. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Coorde-


nação Geral da Política de Alimentação e Nutrição. Guia alimentar
para a população brasileira: promovendo a alimentação saudá-
vel. Brasília, DF, 2005. (Série A. Normas e Manuais Técnicos).

_____. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Depar-


tamento de Atenção Básica. Diretrizes do NASF: Núcleo de Apoio

114 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SAÚDE

a Saúde da Família. Cadernos de Atenção Básica, n. 27. Brasília,


2010. (Série A: Normas e Manuais Técnicos)

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. De-


partamento de Atenção Básica. Guia alimentar para a população
brasileira. 2. ed., Brasília, 2014.

_____. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Depar-


tamento de Atenção Básica. Política Nacional de Alimentação e
Nutrição. 2 ed. rev. Brasília: 2003.

_____. Ministério da saúde. Secretaria de Atenção Básica. Depar-


tamento de Atenção básica. Política Nacional de Atenção Básica.
Brasília: Ministério da Saúde, 2012. (Série E: Legislação em Saúde)
108 p.

_____. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Política


Nacional de Promoção da Saúde. Brasília, 2006(b) (Série B. Textos
Básicos em Saúde).

_____. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde.


Departamento de Vigilância de Doenças e Agravos Não Trans-
missíveis e Promoção da Saúde. Vigitel Brasil 2017: Vigilância de
fatores de risco e proteção para doenças crônicas por inquérito
telefônico. Brasília: 2019.

COMPARATO, F. K. Para viver a democracia. São Paulo: Brasiliense,


1989.

115
ELY, L. Quase metade dos brasileiros sofre com doenças crôni-
cas, aponta IBGE. Pesquisa nacional de saúde mostra a relação
dos brasileiros com o corpo e revela as mazelas de cada região
do país. GaúchaZH, 10 dez. 2014. Disponível em <https://bit.
ly/2GLEugb>. Acesso em 15 dez. 2014.

ESCUDERO, R. Comunicação pública: a voz do cidadão na esfera


pública. Construindo um novo paradigma profissional. Curitiba:
Appris, 2015.

GIOVANNI, G. di; NOGUEIRA, M. A. (Org.) Dicionário de políticas pú-


blicas. 2. Ed. São Paulo: Ed. UNESP, Fundap, 2006.

GORTMAKER, S. L. et al. Changing the future of obesity: science,


policy, and action. Lancet, v. 378, p. 838–847, 2011.

GUSFIELD, J. R. La cultura de los problemas públicos: el mito del


conductor alcoholizado versus la sociedade inocente. Buenos Ai-
res: Siglo XXI Editores, 2014, p. 21.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Coor-


denação de População e Indicadores Sociais. Síntese de indica-
dores sociais: uma análise das condições de vida da população
brasileira. Rio de Janeiro: IBGE, 2017. 141p.

MACIEL, C. Maioria da população do estado de São Paulo está aci-


ma do peso. Agência Brasil. 3 fev. 2014. Disponível em <https://
bit.ly/1lyl5yJ>. Acesso em 13 mar. 2019.

116 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SAÚDE

MATOS, H; GIL, P. G. Quem é o cidadão na comunicação pública?


Uma retrospectiva sobre a forma de interpelação da sociedade
pelo Estado em campanhas de saúde. In: MATOS, H. H. (Org.) Co-
municação pública: interlocuções, interlocutores e perspectivas.
São Paulo: ECA/USP, 2012. p. 89-105.

ORGANIZACIÓN MUNDIAL DE LA SALUD (OMS). 57 Asamblea Mun-


dial de La Salud. Estrategia mundial sobre régimen alimentario,
actividade física y salud. Ginebra: WHO, 2004.

SARAVIA, E. Política Pública: dos clássicos às modernas aborda-


gens. Orientação para a leitura. In: SARAVIA, E.; FERRAREZI, E. Po-
líticas Públicas. ENAP Coletânea - Volume 1. Brasília: ENAP, 2006.
p. 13-18.

WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). The Global Burden of Dise-


ase: 2004 Update WHO Library Cataloguing-in-Publication Data,
2008. Disponível em <https://bit.ly/2E9AEK0>. Acesso em 10 ago.
2015.

_____. Body mass index – BMI. Disponível em <https://bit.


ly/1EoQZYh>. Acesso em 26 fev. 2019(a).

_____. Disability-Adjusted Life Year (DALY). Disponível em <https://


bit.ly/2PDKVlE>. Acesso em 26 fev. 2019(b).

117
POLÍTICAS PÚBLICAS NO ÂMBITO DA OMS:
FATO OU IRREALIDADE NOS DISCURSOS
DOS MINISTROS DA SAÚDE

Devani Salomão1
Simone Alves de Carvalho2
Tariana Brocardo Machado3
Beatriz Fioretti-Foschi4
Claudia Sellwood5

RESUMO

A Assembleia Mundial da Saúde, como principal órgão deci-


sório da Organização Mundial da Saúde (OMS), reúne anualmente
ministros e autoridades sanitárias de 194 países, em Washington,

1 Jornalista, mestre, doutora e pós-doutora em Ciências da Comunicação


– ECA-USP. Integrante do Grupo de Pesquisa em Comunicação Pública e
Comunicação Política (Compol), coordenado pela professora Dra. Heloiza
Helena Matos e Nobre, pesquisadora sênior da ECA-USP. E-mail: devani@usp.br
2 Relações públicas, mestre e doutora em Ciências da Comunicação – ECA-USP.
Docente universitária na ECA-USP para graduação e especialização. Integrante
do Compol. E-mail: simonecarvalho@usp.br
3 Jornalista, mestre e doutoranda em Ciências da Comunicação – ECA-USP.
Integrante do Compol. E-mail: tariana@gmail.com
4 Publicitária, mestre em Medicina Interna e Terapêutica pela UNIFESP,
doutora em Saúde Pública pela FSP-USP. Desenvolve projetos de comunicação
em saúde. Integrante do Compol. E-mail: bfioretti@uol.com.br
5 Publicitária especialista em marketing de serviços. Integrante do Compol.
E-mail: claudia.sellwood@gmail.com

118 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SAÚDE

D.C. (EUA) e Genebra (Suíça), tendo como principais atribuições de-


terminar as políticas da OMS. Durante o período de 2001 a 2017,
ministros e representantes do governo brasileiro participaram des-
se evento, quando fizeram seus discursos sobre os temas propostos
na agenda. Este artigo analisa o conteúdo de tais discursos e apre-
senta as temáticas mais presentes nas falas dos representantes do
governo brasileiro à luz da literatura relacionada a políticas públi-
cas e assuntos relacionados, como problemáticas de saúde pública
mundiais, com abordagem de prevenção e contenção para doen-
ças sazonais. As análises apresentam discrepâncias entre os discur-
sos e as políticas implantadas, além de omissões do setor público.

PALAVRAS-CHAVE: análise de conteúdo, doenças, OMS, políticas de


saúde, saúde pública.

INTRODUÇÃO

A Assembleia Mundial da Saúde é o órgão decisório da Or-


ganização Mundial de Saúde (OMS). Tem a participação de dele-
gações de todos os Estados membros da OMS e concentra-se em
uma agenda de saúde específica preparada pelo Conselho Execu-
tivo. As principais funções da Assembleia são determinar as po-
líticas da Organização, nomear o diretor-geral, supervisionar as
políticas financeiras e aprovar o orçamento proposto. Esse evento
é realizado anualmente em Genebra, na Suíça.
Os princípios da Constituição da OMS são:

119
1. A saúde é um estado de completo bem-estar físico,
mental e social e não apenas a ausência de doença ou
enfermidade.
2. É um dos direitos fundamentais de todo ser humano
o gozo do mais alto padrão atingível de saúde, sem
distinção de raça, religião, crença política, condição
econômica ou social.
3. A saúde de todos os povos é fundamental para assegu-
rar a paz e a segurança e depende da cooperação entre
indivíduos e Estados.
4. A conquista da promoção e proteção da saúde é de va-
lor para todos, inclusive para qualquer Estado.
5. O desenvolvimento desigual em diferentes países na
promoção da saúde e controle de doenças, especial-
mente doenças transmissíveis, é um perigo comum.
6. O desenvolvimento saudável da criança é de importân-
cia fundamental; a capacidade de viver harmoniosa-
mente num ambiente total em mudança é essencial
para esse desenvolvimento.
7. Os conhecimentos médico, psicológicos e afins devem
ser estendidos a todos os povos, com o objetivo de al-
cançar plenamente a saúde.
8. A opinião informada e a cooperação ativa por parte do
público são da maior importância para a melhoria da
saúde das pessoas.
9. Os governos são responsáveis pela saúde de seus po-
vos, que necessitam provisão de medidas sanitárias e
sociais adequadas. (WHO, 2018.)

120 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SAÚDE

A OMS é a autoridade diretora e coordenadora em saúde


internacional dentro do sistema das Nações Unidas. Faz isso por
meio das seguintes diretrizes: a) fornecer liderança em questões
críticas para a saúde e envolvimento em parcerias onde é ne-
cessária uma ação conjunta; b) moldar a agenda de pesquisa e
estimular a geração, tradução e disseminação de conhecimento
valioso; c) estabelecer normas e padrões e promover e monitorar
sua implementação; d) articular opções políticas éticas e basea-
das em evidências; e) fornecer apoio técnico, catalisar mudanças
e construir capacidade institucional sustentável; e f) monitorar a
situação da saúde e avaliar as tendências da área (WHO, 2018).
O Brasil é um dos Estados membros da OMS, que reúne
anualmente ministros e autoridades sanitárias de 194 países na
Assembleia Mundial da Saúde. O ato de comunicar internacio-
nalmente as ações em saúde realizadas no País demonstra as
principais preocupações do governo brasileiro com o setor, bem
como a destinação de recursos e parcerias internacionais com
outros estados ou regiões.

SAÚDE NO ÂMBITO PÚBLICO

O Ministério da Saúde (2018) tem a função de oferecer condi-


ções para promover, proteger e recuperar a saúde da população, re-
duzir as enfermidades, controlar as doenças endêmicas e parasitárias
e melhorar a vigilância à saúde, dando, assim, melhor qualidade de
vida ao brasileiro. Seu desafio é garantir o direito do cidadão ao aten-
dimento à saúde e dar condições para que esse direito esteja ao al-
cance de todos, independentemente da condição social do indivíduo.

121
Os assuntos de competência do Ministério da Saúde são:
Política Nacional de Saúde; coordenação e fiscalização do Siste-
ma Único de Saúde; saúde ambiental e ações de promoção, pro-
teção e recuperação da saúde individual e coletiva, inclusive a
dos trabalhadores e dos índios; informações de saúde; insumos
críticos para a saúde; ação preventiva em geral, vigilância e con-
trole sanitário de fronteiras e de portos marítimos, fluviais e aé-
reos; vigilância de saúde, especialmente drogas, medicamentos
e alimentos; pesquisa científica e tecnologia na área de saúde.
A estrutura central do Ministério da Saúde é composta por
sete Secretarias responsáveis por elaborar, propor e implementar
as políticas de saúde, sendo as executoras das atividades finalísticas
do órgão. Outras unidades que compõem o Ministério são a Secre-
taria-Executiva, o gabinete do ministro e a consultoria jurídica, res-
ponsáveis por assessoria e assistência direta às ações do ministro.
No âmbito das políticas públicas, segundo Aguiar (2015),
administração pública se refere ao conjunto de órgãos e entida-
des que compõem a administração dos Poderes Executivo, Legis-
lativo e Judiciário (no Brasil: da União, Estados, Distrito Federal e
municípios). Segundo a Constituição brasileira, é formada pela
administração pública direta, conjunto de órgãos ligados direta-
mente ao poder central; e indireta, entidades com personalidade
jurídica própria e criadas pelo Estado para realizar atividades de
forma descentralizada ou informal. O verbo latino administrar
(transitivo direto e intransitivo) significa exercer o governo de;
governar; dirigir, administrar o país, porém a administração pú-
blica envolve tomada de decisão, planejamento, coordenação,
execução de esforços em função de objetivos ligados ao Estado,
ao público.

122 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SAÚDE

De acordo com Reis (2015), a arena política é a delimitação


do campo onde se travam as disputas da política, que envolve to-
mada de decisão coletivamente impositiva; e suas características
determinam a vida política.

A conjunção da promoção de saúde e epidemiologia

A promoção da saúde demanda que a prática da atenção


à saúde transcenda os conceitos normativos da medicina, em
suas expressões clínicas e/ou de saúde pública, precisando ser
construída e reconstruída em reconhecimento da realidade das
experiências de vida dos pacientes, do significado existencial das
suas condições e situações. Do ponto de vista dos âmbitos fede-
rais de gestão pública, isso implica também a consideração da
participação política da sociedade civil organizada. A importância
da discussão sobre a medicina, a saúde pública e a promoção da
saúde devem-se ao entrelaçamento desses processos de desen-
volvimento do cuidar da saúde, seja individual, seja coletiva.
Na perspectiva da apropriação de conteúdos das ciências
sociais, o debate configura um imperativo à conformação da
construção social da ciência e das práxis. O entendimento do
processo histórico dimensiona os fatos da realidade social, aqui
relacionados à saúde, em cada contexto de suas ocorrências, o
que certamente pode permitir uma compreensão mais abran-
gente das categorias sob análise. Nesse aspecto, nenhum con-
ceito ligado à promoção da saúde é consensual nem objetivo, o
que implica não se poder isolar ou colocar o fiel da balança na
comunidade ou nas instituições, sendo este um jogo onde todos
têm suas responsabilidades.

123
A promoção da saúde precisa ser compreendida como um
processo em permanente construção e reconstrução, demandador
de todos os conhecimentos do saber médico, da apropriação dos
saberes da saúde pública, bem como de todos os outros campos
do conhecimento. E, certamente, sem prescindir da participação
consciente da sociedade civil e/ou dos indivíduos isoladamente,
nem da interdisciplinaridade, a depender das questões analisa-
das. Este é um requisito fundamental para que a atuação do âm-
bito central do sistema de saúde considere a realidade social, a
partir de suas múltiplas e complexas dimensões (RABELLO, 2010).
De acordo com Nogueira (2015), um objetivo importante
do estudo de políticas de saúde é identificar as mudanças pelas
quais estas passam, de acordo com os distintos contextos históri-
cos dos atores Estado e sociedade. Daí evoluem as políticas para
a promoção da saúde e a importância da comunicação pública
para consolidação da noção de saúde como direito.
A relação entre as áreas de comunicação e de saúde deve
apontar na direção de um diálogo mais próximo, pois a comuni-
cação efetiva pode tanto melhorar o atendimento do setor, como
contribuir para a educação do cidadão (CARVALHO, 2012). A co-
municação da saúde insere-se no âmbito da comunicação públi-
ca por ser de interesse público e por dar-se no ambiente público,
para e com todos os cidadãos. Para Matos (2011), a comunicação
pública exige a participação da sociedade e de seus segmentos.
Eles, no entanto, não são apenas receptores da comunicação do
governo, mas sim produtores ativos no processo comunicacional.
Nesse contexto, as políticas de comunicação para a saúde
são relevantes para compreender a relação do setor com a socie-
dade. De acordo com Moraes (2015), políticas de comunicação têm

124 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SAÚDE

relação com as ações de instituições estatais, segmentos da socie-


dade civil e do setor privado de toda sorte que influenciam a cria-
ção, produção e consumo de produtos de comunicação e cultura.
Assim, o ato de comunicar as ações e preocupações com
saúde em nível internacional por parte do governo brasileiro
atraiu o olhar das autoras, com o objetivo de compreender quais
são as questões prementes no segmento ao longo do século XXI
na perspectiva do Estado brasileiro.

PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

Para analisar como as temáticas pautadas anualmente pela


Organização Mundial de Saúde (OMS) foram apresentadas pelos
representantes do Brasil, pesquisaram-se os discursos realizados
nas edições da Assembleia Mundial da Saúde compreendidas en-
tre 2001 e 2017, dando conta das falas proferidas neste milênio.
Das 17 edições anuais, há 15 discursos disponíveis e públicos
para a realização da análise, estando ausentes as falas dos anos
de 2004 e 20066. Assim, foi realizado um estudo exploratório, em
que se objetiva a descrição de fenômenos e verificação de sua
frequência, baseando-se nas falas dos representantes do gover-
no brasileiro. Com base em dados secundários, a amostra é não
probabilística e não aleatória. A interpretação dos resultados foi
feita com base na técnica de análise de conteúdo.
Entre as especificidades da análise de conteúdo, escolheu-
-se a categorial, que permite estabelecer conexões temáticas com

6 Não há registro sobre os motivos dessas abstenções.

125
a literatura escolhida para endereçar o tema. Os assuntos inves-
tigados foram escolhidos entre verbetes selecionados do “Dicio-
nário de políticas públicas” organizado por Giovanni e Nogueira
(2015). Nesta modalidade, foram identificadas as categorias em
cada fala e os códigos de texto que emergem do conteúdo (BAR-
DIN, 2011). Na etapa de análise deste estudo, as categorias são
amparadas no referencial teórico proposto, sendo resultado da
classificação analógica e progressiva dos elementos.

O que é discurso

A palavra discurso tem diferentes significados. No sentido


comum, discurso é simplesmente fala ou exposição oral. Às vezes
a noção pode ser empregada com sentido pejorativo, significan-
do fala vazia ou cheia de palavreado ostentoso.
Foucault (1979) concebe os discursos como uma dispersão,
isto é, como sendo formados por elementos que não estão liga-
dos por nenhum princípio de unidade. Cabe à análise do discurso
descrever essa dispersão, buscando o estabelecimento de regras
capazes de reger a formação dos discursos. Tais regras, chamadas
por Foucault de “regras de formação”, possibilitariam a determi-
nação dos elementos que compõem o discurso. Essas regras que
determinam, portanto, uma “formação discursiva”, apresentam-
-se sempre como um sistema de relações entre objetos, tipos
enunciativos, conceitos e estratégias. São elas que caracterizam a
singularidade do discurso e possibilitam a passagem da dispersão
para a regularidade, que é atingida pela análise dos enunciados.
Assim, “um discurso é um conjunto de enunciados que tem seus

126 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SAÚDE

princípios de regularidade em uma mesma formação discursi-


va” (FOUCAULT, 1979, p. 146). A partir dessa definição, a análise
de uma formação discursiva consistirá, então, na descrição dos
enunciados que a compõem. Porém, a noção de enunciado em
Foucault é contraposta à noção de proposição e de frase (unida-
des, respectivamente, constitutivas de lógica e linguística), conce-
bendo-o como a unidade elementar, básica, que forma o discurso.
Foucault enumera quatro características constitutivas do
enunciado. A primeira diz respeito à relação do enunciado com seu
correlato que ele chama de “referencial”. O “referencial”, aquilo
que o enunciado enuncia, “é a condição de possibilidade do apa-
recimento, diferenciação e desaparecimento dos objetos e relações
que são designados pela frase” (FOUCAULT, 1979, p. 46). Assim, o
enunciado, por sua função de existência, “relaciona as unidades
de signos que podem ser proposições ou frases com um domínio
ou campo de objetos” (MACHADO, 1981, p. 168), possibilitando-as
que apareçam com conteúdos concretos no tempo e no espaço.
A segunda característica diz respeito à relação do enuncia-
do com seu sujeito. Foucault situa-se na vertente oposta a uma
concepção idealista do sujeito que, interpretado como o funda-
dor do pensamento e do objeto pensado, vê a história como um
processo sem ruptura em que os elementos são introduzidos
continuamente no tempo concebido como totalização. Critica,
dessa forma, uma concepção do sujeito enquanto instância fun-
dadora da linguagem:

Poder-se-ia dizer que o tema do sujeito fundador permite


elidir a realidade do discurso. O sujeito fundador (...) está
encarregado de animar diretamente “com seu modo de

127
ver” as formas vazias da língua: e ele que, atravessando
a espessura ou a inércia das coisas vazias, retoma, intui-
tivamente, o sentido que aí se encontra depositado; e ele
igualmente que, para além do tempo, funda horizontes de
significação que a história, em seguida, só terá de explici-
tar, horizontes onde as proposições, as ciências, as unida-
des dedutivas encontrarão no fim de contas o seu funda-
mento. Em sua relação com o sentido, o sujeito fundador
dispõe de signos, de marcas, de traces, de letras. Mas não
tem necessidade, para os manifestar, de passar pela ins-
tância singular do discurso. (FOUCAULT, 1974, p. 49).

Atribuindo à instância singular do discurso um estatu-


to privilegiado, para ele, “descrever uma formulação enquanto
enunciado não consiste em analisar as relações entre o autor e o
que ele diz (ou quis dizer, ou disse sem querer); mas em determi-
nar qual é a posição que pode e deve ocupar todo indivíduo para
ser seu sujeito” (FOUCAULT, 1979, p. 119-20).
Dessa forma, se o sujeito é uma função vazia, um espaço a
ser preenchido por diferentes indivíduos ao formularem o enun-
ciado, deve-se rejeitar qualquer concepção unificante do sujeito.
O discurso não é atravessado pela unidade do sujeito e sim pela
sua dispersão. E essa dispersão é decorrente das várias posições
possíveis de serem assumidas por ele no discurso: “as diversas
modalidades de enunciação em lugar de remeter à síntese ou
à função unificante de um sujeito, manifestam sua dispersão”
(FOUCAULT, 1979, p. 69).
A dispersão reflete a descontinuidade dos planos de onde
fala o sujeito que pode, no interior do discurso, assumir diferentes
estatutos. Esses planos “estão ligados por um sistema de relações,

128 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SAÚDE

o qual não é estabelecido pela atividade sintética de uma consci-


ência idêntica a si, muda ou prévia a qualquer palavra, mas pela
especificidade de uma prática discursiva” (FOUCAULT, 1979, p. 70).
A concepção de discurso como um campo de regularidades,
em que diversas posições de subjetividade podem manifestar-se,
redimensiona o papel do sujeito no processo de organização da
linguagem, eliminando-o como fonte geradora de significações.
Para Foucault, o sujeito do enunciado não é causa, origem ou
ponto de partida do fenômeno de articulação escrita ou oral de
um enunciado nem a fonte ordenadora, móvel e constante das
operações de significação dos enunciados.
A terceira característica do enunciado é a que diz respeito à
existência de um domínio, ou seja, de um “campo adjacente” ou
“espaço colateral”, associado ao enunciado integrando-o a um
conjunto de enunciados, já que, ao contrário de uma frase ou
proposição, não existe um enunciado isoladamente:

Todo enunciado se encontra assim especificado: não exis-


te enunciado em geral, enunciado livre, neutro e inde-
pendente; mas, sempre um enunciado fazendo parte de
uma série ou de um conjunto, desempenhando um papel
no meio dos outros, apoiando-se neles e se distinguin-
do deles: ele se integra sempre em um jogo enunciativo.
(FOUCAULT, 1979, p. 124).

Por fim a quarta característica constitutiva do enunciado é


aquela que o faz emergir como objeto: refere-se a sua condição
material. Para caracterizar essa materialidade, Foucault faz uma
distinção entre enunciado e enunciação. Esta se dá toda vez que

129
alguém emite um conjunto de signos; enquanto a enunciação
se marca pela singularidade. Hipoteticamente, enunciações dife-
rentes podem encerrar o mesmo enunciado. No entanto, como a
repetição de um enunciado depende de sua materialidade, que
é de ordem institucional, uma frase dita no cotidiano, inserida
num romance ou inscrita num outro tipo qualquer de texto, ja-
mais será o mesmo enunciado, pois em cada um desses espaços
possui uma função enunciativa diferente.
Para a análise do conteúdo das falas dos ministros da Saú-
de nas Assembleias da OMS, utilizaremos os conceitos de Fou-
cault para exame de partes dos discursos dessas autoridades.

Análise de conteúdo

Este artigo usa como método a técnica de análise de conte-


údo para avaliar os dados obtidos nos 15 discursos dos ministros
brasileiros da Saúde na Assembleia Mundial de Saúde, no período
de 2001 a 2017. Escolhemos esse escopo de tempo porque os
respectivos pronunciamentos estão disponíveis para acesso livre.
Segundo Bardin, a análise de conteúdo pode ser definida
como:

Um conjunto de técnicas de análise de comunicação vi-


sando obter, por procedimentos sistemáticos e objetivos
de descrição do conteúdo das mensagens indicadores
(quantitativos ou não) que permitem a inferência de co-
nhecimentos relativos às condições de produção/recep-
ção destas mensagens. (BARDIN, 1979, 42).

130 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SAÚDE

O fator comum dessas múltiplas técnicas, desde o cálculo


de frequência que fornece dados cifrados, até a extração de es-
truturas traduzíveis em modelos, é uma hermenêutica baseada
na dedução.
Do ponto de vista metodológico, Berelson (1971) e Lazar-
sfeld (1972) se projetaram na Universidade de Columbia (NY) e
de Chicago, sistematizando as preocupações epistemológicas da
época. Eles resumem assim os critérios fundamentais então exi-
gidos para garantir o rigor científico: a) trabalhar com amostras
reunidas de maneira sistemática; b) interrogar-se sobre a vali-
dade dos procedimentos de coleta e dos resultados; c) trabalhar
com codificadores que permitam verificação de fidelidade; d) en-
fatizar a análise de frequência como critério de objetividade e
cientificidade; e) ter possibilidade de medir a produtividade da
análise (MINAYO, 1993, p. 201).

Técnicas de análise de conteúdo

Esse tipo de análise trabalha com indicadores lexicais, como


o estilo, o encadeamento lógico, o arranjo de sequências e a es-
trutura da narrativa. Sua aplicação mais comum tem sido a inves-
tigação da autenticidade dos documentos, para a psicologia clíni-
ca, para a análise de discursos políticos e/ou persuasivos (BARDIN,
1979; UNRUG, 1974).
A hipótese aqui implícita é a de que existe uma correspondên-
cia entre o tipo de discurso e as características do locutor e seu meio.
Por isso, há a necessidade de conhecer os traços pessoais do autor
que fala, sua situação social e os dados culturais que o moldam.

131
Osgood (1959) propõe a seguinte sequência de procedi-
mentos para análise de co-ocorrências: a) escolha da unidade de
registro (essa pode ser uma palavra-chave, por exemplo) e a ca-
tegorização por temas; b) escolha das unidades de contexto e o
recorte de texto em fragmentos (pode ser, por exemplo, parágra-
fos); c) presença ou ausência de cada unidade de registro em cada
unidade de contexto; d) cálculo de co-ocorrências; e representa-
ção e interpretação de resultados. A utilidade maior da análise
de co-ocorrências tem sido no esclarecimento das estruturas da
personalidade, na avaliação das preocupações latentes tanto indi-
viduais quanto coletivas, para estudo de estereótipos e de repre-
sentações sociais (BARDIN, 1979; OSGOOD, 1959; UNRUG, 1974).

Análise de avaliação ou representacional

Elaborada por Osgood (1959), a análise de avaliação ou re-


presentacional tem por finalidades medir as atitudes do locutor
quanto aos objetos de que fala (pessoas, coisas, acontecimentos).
Seu pressuposto é de que a linguagem representa e reflete quem a
utiliza. Portanto podemos nos contentar com os indicadores explí-
citos na comunicação para fazer inferências a respeito do emissor.

Análise temática

A noção de tema está ligada a uma afirmação a respeito


de determinado assunto. Ela comporta um feixe de relações e
pode ser graficamente apresentada através de uma palavra, uma
frase, um resumo. Segundo Bardin (1979, p.105), “o tema é a

132 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SAÚDE

unidade de significação que se liberta naturalmente de um texto


analisado segundo critérios relativos à teoria que serve de guia
à leitura”.
Fazer uma análise temática consiste em descobrir os nú-
cleos de sentido que compõem uma comunicação cuja presença
ou frequência signifiquem alguma coisa para o objetivo analí-
tico visado. A análise temática se encaminha para a contagem
de frequência das unidades de significação como definidoras do
caráter do discurso.

Interpretação da análise de conteúdo

Quanto à interpretação, a análise de conteúdo transita en-


tre dois polos: o rigor da objetividade e a fecundidade da subje-
tividade. É uma técnica refinada, que exige do pesquisador disci-
plina, dedicação, paciência e tempo. Faz-se necessário também,
certo grau de intuição, imaginação e criatividade, sobretudo na
definição das categorias de análise, jamais esquecendo o rigor e a
ética como fatores essenciais (FREITAS; CUNHA; MOSCAROLA, 1997).
A condução da análise dos dados abrange várias etapas, a
fim de que se possa conferir significação aos dados coletados (AL-
VES-MAZZOTTI; GEWANDSZNAJDER, 1998; CRESWELL, 2007; FLICK,
2009; MINAYO, 2001). No que tange às diferentes fases inerentes
à análise de conteúdo, autores diferenciam-se no uso de termi-
nologias, embora possam existir também algumas semelhanças
(TRIVIÑOS, 1987). Tendo em vista tamanha diversidade, mas ain-
da assim, aproximação terminológica, optou-se por tomar como
balizador deste estudo as etapas propostas por Bardin (2011),

133
uma vez que sua obra é a mais citada em estudos qualitativos
na área de comunicação em saúde. Essas etapas são organizadas
em três: 1) pré-análise, 2) exploração do material e 3) tratamento
dos resultados, inferência e interpretação.
A primeira fase, pré-análise, é desenvolvida para sistema-
tizar as ideias iniciais colocadas pelo quadro referencial teórico
e estabelecer indicadores para a interpretação das informações
coletadas. A fase compreende a leitura geral do material eleito
para a apreciação, também de acordo com métodos específicos
de organização. Se nos servimos da análise temática (que é o
caso presente), prosseguimos com a contagem de um ou vários
temas numa unidade de significação previamente determinada.
Por exemplo: em uma reportagem, a frase (limitada por dois si-
nais de pontuação) tende a ser a unidade de codificação mais
comum. O resultado dessa contagem nos conduz à formulação
das hipóteses e objetivos, para então elaborarmos os indicadores
que serão usados para a interpretação do material coletado.
Ao seguir esses passos, foram definidos os seguintes temas
de análise: acesso aos cuidados em saúde, desenvolvimento, Bra-
sil, saúde em âmbito mundial, política e medicamentos. Estes,
de acordo com Bardin (2004), não constituem apenas uma or-
dem linguística, mas psicológica: podem indicar um tema, uma
afirmação, uma alusão. Fazer uma análise temática consiste em
descobrir os “núcleos de sentido” que compõem a comunicação
e cuja presença ou frequência de aparição pode significar algo
para o objetivo analítico.

134 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SAÚDE

Nossas hipóteses

a) Os discursos dos ministros da Saúde são sobre um Brasil


com muitas desigualdades sociais, onde o sistema de saú-
de pública não oferece equidade aos seus usuários;

b) Os discursos dos ministros da Saúde são eminentemente


políticos sobre um Brasil inovador, discutindo a participa-
ção do sistema de saúde pública na prevenção e controle
de doenças graves e sazonais, para que a maioria da popu-
lação possa usufruir dos benefícios desse aparelho.

CATEGORIAS DE ANÁLISE

As categorias do estudo são administração pública, are-


na social e política, saúde pública, doenças e comunicação. De
acordo com a metodologia adotada, elas se baseiam na literatura
escolhida para amparar a análise e seus códigos emergem da
observação dos discursos proferidos pelos governantes brasilei-
ros nas reuniões da Assembleia Mundial da Saúde. Isso permite
identificar quais são as principais preocupações com saúde ex-
ternadas pelos representantes brasileiros nesses eventos, majo-
ritariamente compostos por ministros da pasta (BRASIL, 2018a).
A categoria “administração pública” observa aspectos re-
lacionados ao âmbito administrativo relacionado com a pasta da
Saúde, tendo os códigos: cooperação entre nações no âmbito da
Assembleia Mundial de Saúde; ausência ou destinação de recur-

135
sos para a saúde e menções a autoridades específicas; presença
de valores da administração pública, como transparência, ética
etc.; menções ao povo brasileiro e citações de diferentes regiões
ou povos do planeta.
A categoria “arena social e política” dá conta das tratati-
vas da arena da política no âmbito público e é composta pelos
códigos: papel de protagonista do Brasil; desenvolvimento sus-
tentável; pobreza ou fome; direitos humanos, políticos e sociais;
administrações políticas específicas; e desigualdade social.
Já “saúde pública” é uma categoria que reúne as preocu-
pações efetivamente ligadas à temática ampla da saúde no Bra-
sil, proferidas pelos representantes em suas falas. Ela é composta
pelos códigos: ideal do papel de protagonismo a ser desempe-
nhado pela OMS ou pela Organização Pan-Americana da Saúde
(OPAS); política assistencial e de saúde; acesso à saúde pública;
risco epidemiológico e menções a doentes ou afetados; medica-
mentos genéricos; e importância das vacinas.
“Doenças” é a categoria que compila todas as menções às
enfermidades mais lembradas pelos representantes da saúde bra-
sileira em âmbito internacional. São elas: zika / microcefalia; chi-
kungunya; dengue; febre amarela; nutrição/ obesidade; doenças
crônicas não transmissíveis; HIV/AIDS; hepatite; doenças transmis-
síveis; mortalidade infantil / expectativa de vida; influenza; saram-
po; tabagismo / alcoolismo / drogas; ebola; saúde mental; malá-
ria; cólera; doenças respiratórias; hipertensão / diabetes; câncer;
doença de Chagas; poliomielite; tuberculose; hanseníase; doenças
tropicais; mortes no trânsito; leishmaniose; esquistossomose; he-
mofilia; SARS (síndrome respiratória aguda grave, do inglês).

136 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SAÚDE

Por fim, em “comunicação” buscou-se observar a preocu-


pação do governo brasileiro tanto com o compartilhamento de
informações sobre saúde quanto com planos de comunicação e
ação específicos para a saúde.

OS ATORES: MINISTROS DA SAÚDE E OUTROS

Segundo Bardin (2004, p. 100), é importante estabelecer


um perfil de acordo com as características ou atributos do per-
sonagem (traços de caráter, papel, estatuto social, familiar, idade
etc.). Nossos atores são ministros da Saúde e outros políticos que
os representaram no evento entre os anos de 2001 e 2017 (ex-
ceção para os anos de 2004 e 2006). Na sequência, descrevemos
brevemente estes ministros, com base na “Galeria de Ministros”
(BRASIL, 2018b).
José Serra foi o ministro da Saúde entre os anos de 1998
e 2002, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso. En-
genheiro, atuou no Senado Federal e no governo de São Paulo.
Como ministro, regulamentou planos e seguros de saúde.
O ano de 2002 ainda teve Barjas Negri no Ministério, eco-
nomista que atuou em todas as esferas do governo. Ele também
foi secretário-executivo do Ministério da Saúde.
Entre 2003 e 2005 o ministro da Saúde foi Humberto Sér-
gio Costa Lima, médico e jornalista, além de deputado estadual e
federal e vereador em Recife (PE). Sua atuação foi marcada pelos
projetos de atendimento aos soropositivos pelo Sistema Único de
Saúde (SUS) e pela criação do Serviço de Atendimento Móvel de
Urgência (SAMU).

137
A gestão seguinte foi de José Saraiva Felipe, entre 2005 e
2006. Médico, foi secretário municipal e estadual nas pastas de
Saúde (em Montes Claros e no governo de Minas Gerais) e Ciência
e Tecnologia (subpasta do próprio Ministério da Saúde).
José Agenor Álvares da Silva, bioquímico e sanitarista, foi
secretário de Planejamento do Ministério da Saúde, antes de as-
sumir a pasta entre 2006 e 2007. Foi também consultor da Orga-
nização Pan-Americana da Saúde (OPAS).
O médico José Gomes Temporão foi o ministro entre 2007 e
2010 e atuou também no Instituto Vital Brazil.
O médico e infectologista Alexandre Padilha coordenou
pesquisas em conjunto com a OPAS e OMS antes de assumir o
Ministério da Saúde entre 2011 e 2014.
Arthur Chioro, médico sanitarista, participou da gestão do
Ministério da Saúde entre 2003 e 2005 e assumiu a pasta entre
2014 e 2015.
Entre 2015 e 2016, o médico Marcelo Costa e Castro, funcio-
nário público de carreira, assumiu o Ministério da Saúde.
O último ministro da Saúde que teve seu discurso analisa-
do neste trabalho foi o engenheiro civil Ricardo José Magalhães
Barros, que foi anteriormente prefeito de Maringá (PR) e deputa-
do estadual.

138 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SAÚDE

RESULTADOS E ANÁLISES

GRÁFICO 1 – Menções às categorias de análise.

ARENA SOCIAL E ADMINISTRAÇÃO


POLÍTICA; 24,64% PÚBLICA; 18,72%

COMUNICAÇÃO;
2,88%

DOENÇAS; SAÚDE PÚBLICA;


20,32% 33,44%

Fonte: as autoras.

Como demonstra o gráfico 1, a categoria com mais men-


ções foi “saúde pública”, com 33,44%, seguida de “doenças”,
com 24,64%. A terceira categoria mais citada foi “arena política
e social”, com 20,32%, seguida de “administração pública”, com
18,72%, e “comunicação”, com 2,88%. Observamos, portanto, a
preponderância do assunto saúde e doença nos discursos pro-
nunciados. A comunicação teve pouca ênfase, o que é compreen-
sível dado que não é o objeto teórico nem da OMS nem dos mi-
nistros, que apresentam enfoque mais pragmático em suas falas.

139
GRÁFICO 2 – Menções aos códigos da categoria “ADMINISTRAÇÃO
PÚBLICA”.

DESTINAÇÃO E ESCASSEZ
DE RECURSOS; 23,93%
COOPERAÇÃO ENTRE
NAÇÕES NO ÂMBITO DA
ASSEMBLEIA MUNDIAL
DA SAÚDE; 40,17%

AUTORIDADES; 11,11%

VALORES DA
ADMINISTRAÇÃO
PÚBLICA; 10,26% DIFERENTES REGIÕES E
POVO BRASILEIRO; POVOS DO PLANETA;
8,55% 5,98%

Fonte: as autoras.

Já as menções aos códigos que compõem a categoria “ad-


ministração pública”, como demonstra o gráfico 2, são mais fre-
quentes os que tratam da “cooperação entre nações no âmbito
da Assembleia Mundial de Saúde”, com 40,17%, o que é com-
preensível em um mundo com fronteiras cada vez mais fluidas,
com a prática do turismo de lazer ou negócios em crescimento e
com as imigrações (legais ou não, incluindo a situação de refu-
giados). Em seguida, estão as menções à ausência ou destinação
de recursos para a saúde, com 23,93% − um problema grave pois
se trata da própria continuidade dos programas de saúde. Os de-
mais quase 40% são divididos entre menções a “autoridades”,
com 11,11%; “valores da administração pública”, com 10,26%;
menções ao “povo brasileiro”, com 8,55%; e citações de “diferen-
tes regiões ou povos do planeta”, com 5,98%.

140 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SAÚDE

GRÁFICO 3 – Menções aos códigos da categoria “ARENA SOCIAL E


POLÍTICA”.

POBREZA/FOME; 18,91%
PAPEL PROTAGONISTA
DO BRASIL; 29,13%

DESENVOLVIMENTO
SUSTENTÁVEL; 18,11%

DESIGUALDADE SOCIAL;
7,87%

DIREITOS HUMANOS, ADMINISTRAÇÃO


POLÍTICOS E SOCIAIS; POLÍTICA ESPECÍFICA;
14,17% 11,81%

Fonte: as autoras.

Na categoria “arena social e política”, 29,13% das citações


foram destinadas ao “papel de protagonista do País” segundo
as falas de seus representantes da Saúde, como demonstra o
gráfico 3. O segundo código mais mencionado, com 18,90%, foi
a “pobreza ou fome”, seguido por “desenvolvimento sustentá-
vel”, com 18,11%, e “direitos humanos, políticos e sociais”, com
14,17%. Já menções a “administrações políticas específicas” fo-
ram 11,81% e a “desigualdade social” respondeu por 7,87% do
total das citações nesta categoria. Observamos certo equilíbrio
entre os temas que são sensíveis ao Brasil em sua situação de
país que efetivamente não erradicou a pobreza extrema.

141
GRÁFICO 4 – Menções aos códigos da categoria “SAÚDE PÚBLICA”.

POLÍTICA ASSISTENCIAL E PAPEL DA OMS/OPAS;


DE SAÚDE; 23,92% 31,10%

ACESSO À SAÚDE GENÉRICOS; 3,83%


PÚBLICA; 21,52%

VACINAS; 3,83%

DOENTES/AFETADOS;
RISCO EPIDEMIOLÓGICO; 4,80%
11,00%

Fonte: as autoras.

No que tange à “saúde pública”, categoria mais apontada


de maneira geral nos discursos dos ministros, o gráfico 4 mostra
o ideal do papel de protagonismo a ser desempenhado pela OMS
ou pela OPAS, totalizando 31,10% das menções. Esse resultado
pode ser interpretado tanto como uma deferência aos órgãos
promotores do evento ou como uma crítica a como estes mes-
mos órgãos atuam no Brasil. Na sequência, aparece a “política
assistencial e de saúde”, com 23,92%, seguida pelo “acesso à
saúde pública”, com 21,53%, e “risco epidemiológico”, com 11%
–, sendo estes três últimos diretamente ligados à atuação do Mi-
nistério da Saúde. Com menos representatividade na categoria
aparecem menções a “doentes ou afetados”, com 4,78%; a im-
portância dos medicamentos “genéricos”, política de muita rele-
vância na saúde pública brasileira; e as “vacinas”, assunto alvo de
controvérsias recentes no País, com apenas 3,98% cada.

142 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SAÚDE

GRÁFICO 5 – Menções aos códigos da categoria “DOENÇAS” (em %).

Fonte: as autoras.

143
Como demonstra o gráfico 5, a categoria “doenças” foi a
que apresentou mais diversidade de menções aos códigos que a
compõem. “HIV/AIDS” tiveram a maior representatividade, com
18,18% das citações, seguidos de doenças crônicas não trans-
missíveis (“DCNT”), com 9,09%. Com 7,14% ficaram “obesidade/
nutrição”, “mortalidade infantil / expectativa de vida” e “taba-
gismo / alcoolismo / drogas”. Na sequência, “doenças transmis-
síveis”, “influenza” e “tuberculose” vêm cada uma com 4,55%
das menções. Com 3,9% das menções, aparecem “zika / micro-
cefalia”, “saúde mental”, “malária” e “mortes no trânsito”. As
doenças “dengue”, “hepatite”, “hipertensão /diabetes” e “han-
seníase” tiveram cada uma 2,6% do total de menções. Por sua
vez, “chikungunya”, “febre amarela”, “doenças respiratórias” e
“câncer” ocuparam, cada uma, apenas 1,3% das menções. Com
0,65% das menções ficaram: “SARS”, “hemofilia”, “esquistosso-
mose”, “leishmaniose”, “doenças tropicais” não especificadas,
“poliomielite”, “doença de Chagas”, “cólera”, “ebola” e “saram-
po”. Podemos observar que as menções às doenças não necessa-
riamente correspondem àquelas que causam maior taxa de mor-
talidade no País, assim como algumas que já possuem vacinas e
tratamentos tiveram destaque.
Em nossa última categoria de análise, “comunicação” (que
teve 2,88% do total de menções entre todas as categorias), os
ministros citaram o compartilhamento de informações e as po-
líticas de comunicação / ações em saúde, com 50% de menções
a cada uma. Confirmamos assim que o foco dos discursos não
estava na comunicação sobre a saúde ou doença.

144 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SAÚDE

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Em relação às categorias analisadas, observamos que a


preocupação com comunicação é mínima em relação às outras
temáticas discutidas pelo Brasil no âmbito das Assembleias. Isso
retrata em parte a preocupação da área da saúde no País sobre
a comunicação com a sociedade. Ainda, ao tratar das temáticas
da arena social e política, os representantes brasileiros colocam
mais enfoque no papel do Brasil como protagonista do que em
todos os outros aspectos, o que nos posiciona como vaidosos e
frágeis, uma vez que esse papel de suposta liderança não pode
ser confirmado no dia a dia da precariedade da saúde no País,
embora existam algumas ilhas de excelência em serviços presta-
dos à população. Também nessa categoria, 11% das citações são
para enaltecer gestões e governantes específicos, o que remete
mais à retórica do que à ação aplicada em saúde no País.
Atos de cooperação internacional para a saúde foram ampla-
mente valorizados nas menções situadas na categoria “administra-
ção pública”, bem como a preocupação com a disponibilidade de
recursos financeiros para a saúde. Entretanto, menções a autorida-
des específicas superaram as citações ao povo brasileiro, o que de-
nuncia as relações hierárquicas de poder. A questão da destinação
de recursos para a saúde, sobretudo a escassez de investimentos, é
um dos destaques da categoria, demonstrando uma preocupação
constante e que se reflete entre os cidadãos brasileiros.
Sobre as doenças mais mencionadas pelos ministros du-
rante os eventos da OMS, pode-se observar que HIV/AIDS seguem
na liderança isolada em menções, com 18,18%. É o reflexo de
toda uma política de alguns anos voltada para o tema. Não sem

145
razão, pois os índices de contaminação seguem subindo entre
diferentes grupos sociais neste milênio. Ainda, doenças crônicas
não transmissíveis estão em alta na preocupação dos governos,
bem como o a obesidade, que tem crescido no Brasil nos últimos
anos. Ademais, o tabagismo, alcoolismo e consumo de drogas,
além da mortalidade infantil, também aparecem em evidência.
Já a descoberta realizada por pesquisadores brasileiros de que o
zika vírus pode ser responsável por gerar microcefalia em fetos
foi responsável por somente 3,9% das menções, percentual igual
ao de mortes no trânsito.
A globalização não diminuiu – ao contrário, diríamos que
até ressaltou – a problemática epidemiológica. Percebemos que
as fronteiras político-econômicas continuam sendo um fator de-
cisivo para os territórios onde as políticas de saúde e educação
não se constituem, apesar dos discursos políticos, ponto prioritá-
rio dos investimentos e preocupações nacionais. Essa avaliação
se acentua especialmente quando consideramos a orientação
pré-estabelecida dos interesses econômicos que guiam muitas
iniciativas no campo da saúde, caracterizadas pelo imediatismo
dos empreendimentos lucrativos que tendem a negligenciar as
questões ligadas ao desenvolvimento social, incluindo neste con-
texto um descaso pela saúde pública da população das regiões
historicamente pobres.
Para Ribeiro, Piola e Servo (2007), há um crescimento mun-
dial na “preocupação com a eficiência, efetividade e equidade
nos gastos” com a saúde. Embora seja importante a busca do
equilíbrio entre receitas e despesas, o financiamento da saúde
não pode se resumir a uma simples equação contábil. A discus-
são do financiamento deve se dar sobre o volume de recursos a

146 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SAÚDE

ser destinado à saúde, mas também sobre como prover acesso


oportuno da população a serviços de qualidade, eficazes, seguros
e, também, custo-efetivos, com vistas a atingir os princípios e as
diretrizes do SUS.
Mesmo com a definição na Constituição dos princípios bá-
sicos do SUS (acesso universal e igualitário), das suas diretrizes
(descentralização, atendimento integral e participação da comu-
nidade), e da forma como este deve ser financiado, há necessida-
de de aprofundamento das discussões sobre sua sustentabilida-
de. Informações sobre a distribuição de recursos governamentais,
extraídos da Contabilidade Nacional, indicam prioridades estabe-
lecidas politicamente.
Há que se considerar a qualificação dos postulantes aos
postos mais elevados da hierarquia da saúde do País. Em nos-
so entendimento, a posição de ministro da Saúde não deveria
ser objeto de acordos de coalização partidária. O Brasil teve bons
ministros da Saúde, que honraram o cargo, mas intercalou esses
exemplos de sucesso com personagens inexpressivos, efêmeros,
que se detiveram a canalizar recursos da saúde para o seu terri-
tório eleitoral.
Nesse contexto, o governo do ex-presidente Michel Temer
(2016-2018) impôs novos e graves contornos à dinâmica da crô-
nica crise vivida pela saúde e produziu a mais grave ameaça ao
SUS em três décadas. A indicação de um engenheiro e deputado
federal do Partido Progressista (Ricardo José Magalhães Barros)
para o comando do Ministério da Saúde, em um movimento de
recomposição da base de apoio do Executivo no Congresso Nacio-
nal, revestiu-se de fundamental importância para a sustentação
do projeto liberal e conservador das forças políticas e empresa-

147
riais que se apoderaram do governo federal. A composição do MS
com quadros sem trajetória no SUS e na reforma sanitária poten-
cializou a utilização da máquina pública, inclusive para atender a
interesses privados.
As temáticas apresentadas pelo Brasil junto à OMS por meio
da participação nas edições anuais da Assembleia Mundial da
Saúde somente em parte refletem as grandes questões enfren-
tadas pelo País no setor. Questões como verbas, acesso amplo à
saúde, as diversas doenças sazonais ou situações que envolvem
risco de epidemia estão majoritariamente presentes, ainda que
não devidamente exploradas. Entretanto, observa-se um deter-
minado uso político do espaço para enaltecer administrações
específicas e posicionar o País constantemente em posição de
protagonista, minimizando as questões relevantes do segmento
para o povo brasileiro.
Sentimos falta de falas sobre a consequência inevitável
da queda de recursos que trará a perda de qualidade nos ser-
viços de saúde, com redução da cobertura de atendimento em
um contexto em que o Ministério da Saúde alega trabalhar para
ampliar a cobertura e melhorar a qualidade. No momento em
que os cortes no orçamento da saúde chegam, cai a capacidade
de resposta do sistema justamente quando este precisa ser re-
forçado para fazer frente às demandas em alta por atendimento
gratuito – especialmente diante da redução de beneficiários de
planos privados de saúde.
Nesse sentido, algumas propostas como a PEC 241/2016
(HORTA, 2017), que prevê o congelamento de investimentos so-
ciais em saúde e educação por 20 anos, podem soar como um
golpe final ao sistema gratuito. Uma das consequências espera-

148 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SAÚDE

das é a diminuição no gasto per capita com saúde (o Brasil já é


um dos países com menos recursos aplicados em saúde por cada
cidadão). O congelamento de recursos imposto pela PEC deve
reduzir esse indicador ao mesmo tempo em que a população
de idosos no Brasil vai dobrar. Estudos (MIRANDA; MENDES; SIL-
VA, 2016) mostram que o envelhecimento da população é uma
das causas do aumento dos gastos porque há demanda por mais
tratamentos, cirurgias, medicamentos, entre outros. Os impactos
que também se preveem sobre as demais políticas sociais, como
saneamento, habitação, transporte, segurança pública, apontam
para um cenário preocupante. Mas os discursos dos ministros no
principal palco mundial de debate em saúde são omissos diante
de tais perspectivas de futuro. Na contramão desse processo, este
artigo oferece uma reflexão sobre o tema e convida população e
academia a reforçarem os apelos sobre as necessidades de aten-
ção à saúde além da retórica política.

149
REFERÊNCIAS

ALVES-MAZZOTTI, A.; GEWANDSZNAJDER, F. O método nas ciências


naturais e sociais: pesquisa quantitativa e qualitativa. São Paulo:
Pioneira, 1998.

AGUIAR, C. Administração pública. In: GIOVANNI, G.; NOGUEIRA, M.


(Orgs). Dicionário de políticas públicas. São Paulo: Fundap, 2ª ed.,
2015. p.51-53.

BARDIN, L. Análise de conteúdo. Lisboa, Edições 70, 1979.

_____. Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70, 2004.

_____. Análise de conteúdo. Trad. Luís Antero Reto, Augusto Pi-


nheiro. São Paulo: Edições 70, 2011.

BERELSON. B. Content analysis in communication research. New


York: University Press, 1971.

BRASIL. Ministério da Saúde. Discursos do Brasil na Assembleia


Mundial da Saúde. Disponível em < http://portalms.saude.gov.br/
noticias/aisa/42660-discursos-do-brasil-na-assembleia-mun-
dial-da-saude>. Acesso em 24 jul. 2018(a).

_____. Galeria de Ministros. Disponível em <http://portalms.saude.


gov.br/galeria-de-ministros>. Acesso em 4 ago 2018(b).

150 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SAÚDE

CARVALHO, S. Os desafios da comunicação interpessoal na saúde pú-


blica brasileira. Organicom: Comunicação e Saúde, n.16-17, ano 9,
São Paulo, ECA- USP/ PPGCom/ Gestcorp/ Abrapcorp, p. 242-253.

CRESWELL, J. Projeto de pesquisa: métodos qualitativo, quantita-


tivo e misto. 2ª. ed. Porto Alegre: Artmed, 2007.

FLICK, U. Introdução à pesquisa qualitativa. São Paulo: Artmed,


2009.

FOUCAULT, M. A verdade e as formas jurídicas. Rio de Janeiro: Ca-


dernos PUC, 1974.

_____. Microfísica do poder. Org. e trad. Roberto Machado. Rio de


Janeiro: Graal, 1979.

FREITAS, H.; CUNHA, M.; MOSCAROLA, J. Aplicação de sistemas de


software para auxílio na análise de conteúdo. Revista de Adminis-
tração da USP, v. 32, n. 3, pp. 97-109, jul./set. 1997.

GIOVANNI, G.; NOGUEIRA, M. (Orgs). Dicionário de políticas públi-


cas. 2ª ed. São Paulo: Fundap, 2015.

HORTA, G. Regras fiscais no Brasil: uma análise da PEC 241. Revista


do BNDES. 4 jun. 2017. Disponível em <https://web.bndes.gov.br/
bib/jspui/handle/1408/14022>. Acesso em 10 set 2018. p. 259-
308.

151
LAZARSFELD, P. Qualitative analysis. Boston: Allyn and Bacon,
1972.

MACHADO, R. Ciência e saber: a trajetória da arqueologia de Fou-


cault. Rio de Janeiro: Graal, 1981.

MATOS, H. A comunicação pública na perspectiva da teoria do re-


conhecimento. In: KUNSCH, M. (Org.). Comunicação pública, socie-
dade e cidadania. São Caetano do Sul, SP: Difusão, 2011. p. 39-59.

MINAYO, M. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em


saúde. 2ª. ed. São Paulo-Rio de Janeiro: Hucitec Abrasco, 1993.

MINAYO, M. (Org.). Pesquisa social: teoria, método e criatividade.


Rio de Janeiro: Vozes, 2001.

MORAES, D. Políticas de comunicação. In: GIOVANNI, G. Di; NOGUEI-


RA, M. A. (Orgs). Dicionário de políticas públicas. 2ª ed. São Paulo:
Fundap, 2015. p. 777-779.

NOGUEIRA, R. Políticas de saúde. In: GIOVANNI, G. Di; NOGUEIRA,


M. A. (Orgs). Dicionário de políticas públicas. 2ª ed. São Paulo:
Fundap, 2015. p.732-737.

OSGOOD, C. Representational model and relevant research con-


tent analysis. In: POLL, I. (Org.). Trends in content analysis, Urba-
na: University of Illinois Press, 1959.

152 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SAÚDE

RABELLO, L. Promoção da saúde: a construção social de um con-


ceito em perspectiva comparada. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz,
2010.

REIS, B. Arena política. In: GIOVANNI, G. Di; NOGUEIRA, M. A. (Orgs).


Dicionário de políticas públicas. 2ª ed. São Paulo: Fundap, 2015.
p. 84-88.

RIBEIRO, J.; PIOLA, S.; SERVO, L. As novas configurações de antigos


problemas: financiamento e gasto com ações e serviços públicos
de saúde no Brasil. Rio de Janeiro: CEBES, 2007.

TRIVIÑOS, A. Introdução à pesquisa em ciências sociais: a pesqui-


sa qualitativa em educação. São Paulo: Atlas, 1987.

UNRUG, M. Analyse de contenu et acte de parole. Paris. Delarges.


Ed. Universitaires, 1974.

WHO. World Health Assembly Disponível em <http://www.who.


int/mediacentre/events/governance/wha/en/>. Acesso em 7
maio 2018.

153
A DISPUTA SOBRE O NASCIMENTO NO BRASIL:
INTERACIONISMO SIMBÓLICO, CIBERATIVISMO E
POLÍTICAS PÚBLICAS SOBRE A EPIDEMIA DE CESÁREAS

Beatriz Fioretti-Foschi1
Patrícia Guimarães Gil 2
Carmen Simone Grilo Diniz3

RESUMO

O presente trabalho visa fazer uma abordagem sobre os


ritos, mitos e narrativas utilizadas na cena do nascimento em
hospitais públicos e privados do Brasil. Será traçado um parale-
lo teórico entre os estudos sobre o interacionismo simbólico de
George H. Mead e Herbert Blumer, e as análises sobre as práticas
de assistência ao parto apresentadas por duas autoras: Robbie
Davis-Floyd, com sua perspectiva antropológica sobre a realida-

1 Publicitária, mestre em Medicina Interna e Terapêutica pela UNIFESP,


doutora em Saúde Pública pela FSP-USP. Desenvolve projetos de comunicação
em saúde. Integrante do Grupo de Pesquisa em Comunicação Pública e
Comunicação Política (Compol). E-mail: bfioretti@uol.com.br
2 Jornalista, mestre e doutora em Ciências da Comunicação pela ECA-USP.
Mestre em Políticas Públicas e Governança pela University of New South
Wales (Austrália). Professora na ESPM e integrante do Compol da USP. E-mail:
pgil1976@gmail.com.
3 Médica (UFRN), mestre e doutora em Medicina Preventiva (FM-USP).
Professora titular da Faculdade de Saúde Pública, Universidade de São Paulo.
E-mail: sidiniz@usp.br

154 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SAÚDE

de norte-americana, e Carmen Simone Grilo Diniz, que enfatiza o


tema na saúde pública brasileira. A realidade obstétrica brasilei-
ra é motivo de preocupação, com dois problemas identificados
(partos vaginais com intervenções desnecessárias e excesso de
cesáreas sem indicações clínicas). Várias medidas surgiram para
reverter esta situação em defesa do parto humanizado, oriun-
das de iniciativas públicas e de movimentos sociais, com ações
judiciais que chegaram a influenciar as políticas governamentais
e a assistência privada. As dimensões comunicacionais dessas
iniciativas foram fundamentais nesse processo, mobilizando o
debate público à medida que colocou em circulação um conjun-
to de narrativas concorrentes para romper com o mito mais ou
menos cristalizado das cesarianas como “padrão ouro” da assis-
tência. No centro do debate está a disputa narrativa (e os valores
subjacentes) acerca da universalização de intervenções médicas
como norma social para a experiência do gestar e do parir.

PALAVRAS-CHAVE: epidemia de cesáreas, interacionismo simbóli-


co, nascimento, parto humanizado, ativismo feminimo.

INTRODUÇÃO

As discussões sobre assistência ao nascimento são usual-


mente polarizadas entre as práticas da cirurgia cesárea (CC) e o
parto vaginal ou normal. Um terceiro modelo de cuidados está
sendo oferecido, em menor escala, conhecido como parto natu-
ral fisiológico ou parto humanizado, dentro do ambiente hospi-

155
talar, em casas de parto ou em domicílio. Este termo diz respeito
à mudança do modelo de assistência, propondo o uso seletivo
de intervenções movido pela preocupação com a segurança e
o bem-estar da paciente. Ao invés do uso acrítico de interven-
ções agressivas no parto, propõe-se uma assistência baseada
em evidências científicas e nos direitos humanos das pacientes.
Para Diniz (2005), além da mudança técnica nas intervenções, o
“termo humanização expressa uma mudança na compreensão
do parto como experiência humana e, para quem o assiste, uma
mudança no ‘que fazer’ diante do sofrimento do outro”. (DINIZ,
2005, p.628).
Para melhor compreender o contexto do excesso de CC des-
necessárias em gestações de baixo risco no Brasil, recorremos ao
modelo interpretativo do interacionismo simbólico. Encontramos
nas explicações sobre construção de significados sociais a possi-
bilidade de analisar melhor por que o País ainda vive uma epide-
mia de CC, mesmo quando seus riscos já foram explicitados pela
ciência, indicando que seus benefícios não justificam as escolhas
pela cirurgia em detrimento do parto natural.
O trabalho de parto e nascimento vai além dos aspectos
fisiológicos. Ele é um fenômeno cultural vinculado à própria re-
alidade (HOTIMSKY, 2007), cercado de narrativas explicativas que
se transformam em crenças e mitos (ELIADE, 2000). A própria in-
terpretação do que é normal e natural é uma construção cultural
(HOTIMSKY, 2007), que pode ser avaliada a partir da perspectiva
teórica do interacionismo simbólico e sua abordagem dos estu-
dos da vida e do comportamento humanos (BLUMER, 1988). Para
Nogueira (2013), a humanização tem demonstrado que o parto
espontâneo “desprovido de filtros e parafernálias” permite que

156 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SAÚDE

a mulher tenha uma “vivência profunda e transcendente” (NO-


GUEIRA, 2013, p.64). O modelo de parto fisiológico/humanizado
resgata raízes ancestrais – o que Eliade (2000) chama de mitos
de origem. Entender o nascimento como processo natural e ter
acesso às práticas conhecidas como “humanizadas” podem tra-
zer muitos desfechos positivos, abrindo a possibilidade de uma
experiência positiva para a mulher e a criança, além de reduzir
custos de saúde, a curto e longo prazos.

PARTO HUMANIZADO, BAIXO RISCO E CUSTO

Um parto humanizado, acolhedor, com manejo e prevenção


da dor através de métodos não farmacológicos; com liberdade de
movimentos no pré-parto e escolha de posição de parto; com a
presença de acompanhante de escolha da mulher; com a garantia
de contato pele a pele entre a mãe e o bebê e com corte tardio
do cordão umbilical é o modelo ideal para uma gestante de baixo
risco (BRASIL, 2017). Esta prática exige do profissional de saúde
muito treinamento, dedicação e observação para perceber qual
método é mais adequado para cada fase durante o pré-parto e
parto, além de conhecer todos sintomas e manejo das intercor-
rências, caso seja necessária uma intervenção (DINIZ, 2005).
No modelo humanizado, procura-se evitar intervenções
tecnológicas desnecessárias, permitindo que a mulher seja pro-
tagonista em suas escolhas, sem artifícios para acelerar o parto.
Ela também não estará imobilizada em uma cama e se alimenta-
rá conforme solicitar (DINIZ, 2004). Entre os benefícios descritos
na literatura médica, estão: melhor recuperação fisiológica para

157
a mãe, com menor risco de infecção, morbidade, mortalidade e
menor chance de depressão pós-parto. Entre as vantagens do
parto vaginal para a criança estão: melhor maturação pulmonar,
acompanhada do menor risco de doenças alérgicas e pulmona-
res, de anemia e de doenças crônicas na idade adulta (DINIZ;
DUARTE, 2004). Além disso, permite-se a colonização de um mi-
crobioma (flora) saudável, formado por bactérias presentes na
vagina, no intestino e na pele da mãe, o que está diretamente
associado ao fortalecimento do sistema imunológico. Contra-
riamente, as crianças nascidas por CC têm mais riscos de desen-
volverem alergias, doenças crônicas e problemas de imunidade
(CHO; NORMAN, 2013).
A oportunidade de acesso ao parto humanizado tem im-
pacto tanto na saúde quanto na formação do vínculo mãe/bebê,
além de fortalecer o sentido da experiência em termos psicoló-
gicos (HODNETT, 2002). No entanto, esta forma de nascer só será
consolidada com um modelo de assistência multidisciplinar, in-
cluindo enfermeira obstétrica e obstetriz – o que exige reformar
o modelo atual de assistência ao parto e aprimorar a formação
de profissionais de saúde (HOTIMSKY, 2007). O parto fisiológico
ou humanizado representa uma economia de gastos de saúde, a
curto e longo prazos, para o usuário do sistema e para o agente
financiador, seja público ou privado (HODNETT, 2002)
Diante da necessidade de mudança da prática obstétrica,
o Ministério da Saúde (MS) tem desenvolvido estratégias e políti-
cas públicas para incentivar o parto humanizado. No ano 2000, o
órgão dirigiu uma publicação denominada “Assistência ao Parto
Normal – Um guia Prático”, voltada a enfermeiras obstetras, obs-
tetrizes e médicos obstetras (DINIZ, 2005), ação que não produziu

158 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SAÚDE

impacto na assistência. Em 2011, o MS instituiu a portaria da Rede


Cegonha, que disponibilizou recursos para infraestrutura hospita-
lar e ampliação da oferta de exames pré-natal. Esta iniciativa tem
como princípio o respeito e a proteção para a realização dos di-
reitos humanos” (BRASIL, 2011) e abrange uma rede de cuidados
para o pré-natal, parto, puerpério, além de oferecer apoio para o
planejamento reprodutivo. Em 2015 e 2017 o MS lançou novas
diretrizes para assistência ao parto e CC com a colaboração da Co-
missão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS, ao lado
de representantes de universidades, associações médicas, entida-
des de classe e profissionais de saúde (BRASIL, 2015, 2017).

CESÁREA: MITOS, METAS E RISCOS

A CC é um procedimento cirúrgico de grande porte que


quando devidamente indicada pode evitar danos para a saúde
da gestante e do seu bebê e salvar vidas (LOW, 2009). Mas como
toda cirurgia, pode também causar complicações significativas e
até mesmo a morte, assim como deixar sequelas permanentes.
Idealmente, uma CC deveria ser realizada apenas quando real-
mente necessária, do ponto de vista clínico. A taxa de CC reco-
mendada por estudos internacionais está entre 10% e 15%. Não
há registros de melhoras populacionais com taxas superiores a
20%, que podem ainda estar associadas ao aumento dos riscos
materno e neonatal (YE et al., 2014; BETRÁN et al., 2015).
A CC é a cirurgia mais praticada no mundo (BETRÁN et al.,
2007). Nos últimos 15 anos, estima-se que mundialmente a taxa
de CC tenha passado de 12% para 21% (dados de 2015) (BOERMA

159
et al., 2018). Souza et al. (2010) advogam que seu riscos a curto
e longo prazos deveriam ser considerados com mais ênfase.
O Brasil se destaca no cenário mundial como um dos paí-
ses com uma epidemia de CC, tanto no sistema público de saúde
quanto no privado (LEÃO et al., 2013), onde a maioria das inter-
venções são realizadas em gestantes de baixo risco (BOERMA et
al., 2018). Desde 2010 o Ministério da Saúde vem implementan-
do medidas para redução de CC no Brasil, que começaram a ter
resultados entre 2014 e 2015, quando a média nacional de CC
passou de 57% para 55,6%, em 2016. Porém, na saúde suple-
mentar a taxa de CC está em torno de 84% (BRASIL, 2016).
Os riscos da CC estão relacionados à mãe e ao bebê duran-
te a cirurgia. No curto prazo, a CC aumenta os riscos de hemor-
ragias, infecção, internações em UTI e reinternação hospitalar.
A longo prazo, para a mulher, há riscos de trombose, embolia,
aderência da placenta e rotura uterina, e aborto na próxima gra-
videz. O bebê que teve uma CC agendada fora do trabalho de
parto enfrenta ainda o risco de prematuridade, problemas respi-
ratórios, anemia, asma, condições do espectro autismo, além de
maior possibilidade de problemas crônicos quando adulto (entre
eles, diabete, hipertensão, leucemia, entre outros) (ALKEMA et al.,
2016). O risco de morte materna após o nascimento é quase três
vezes maior com CC do que com parto vaginal, devido ao risco
maior de hemorragia pós-parto e complicações derivadas de
anestesia (ESTEVES-PEREIRA et al., 2016).
O excesso de CC no Brasil pode ser comparado aos “óculos
sociais” citado por Fleury (1996), usados para recrutar interesses
de classes, aglutinando diferentes aspectos, como: gestão de sis-
temas, formação e atuação dos profissionais responsáveis, ques-

160 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SAÚDE

tões sociais e econômicas. Esta visão condicionada da assistência


ao parto acabou por estabelecer mitos sobre o nascimento que
culminaram na construção de uma cultura de valorização da ce-
sariana em detrimento do parto normal. O fato da CC ser valori-
zada socialmente e associada à escolha das mulheres e famílias
mais ricas e escolarizadas, e mesmo dos profissionais de saúde,
não quer dizer que seja a melhor alternativa em termos de re-
sultados de saúde ou de uma melhor experiência. O que define o
“padrão ouro” da assistência ao parto não são necessariamente
as evidências científicas ou os direitos das mulheres e bebês, mas
sim outros fatores sociais, culturais e econômicos predominan-
tes (DINIZ, 2009). Esta valorização é socialmente aceita, criando
narrativas que justifiquem a predominância das distorções. Tais
mitos são então tratados como “conhecimento autoritativo” (DA-
VIS-FLOYD, 2003), ou seja, aquele que independentemente de ser
mais verdadeiro é o que organiza as práticas sociais

O INTERACIONISMO SIMBÓLICO DIANTE DAS NARRATIVAS


SOBRE PARTO

O interacionismo simbólico tem sido utilizado na área


de saúde por vários autores por ser uma teoria que enfatiza o
significado das ações individuais e coletivas construídas a par-
tir da interação entre as pessoas, conforme o contexto social ao
qual pertencem (LOPES; JORGE 2005). Muitos autores tiveram
papel relevante para construir essa teoria, como: Charles Horton
Cooley, Florian Znaniecki, William James, Mark Baldwin, John
Dewey, Louis Wirth, Robert Redfield, Thomas Robert e Park.

161
George H. Mead, da Escola de Chicago, foi quem inaugurou essa
teoria, apresentando, em suas aulas e artigos, os fundamentos
principais da descrição do comportamento humano. Mas foi
Herbert Blumer, em 1937 (COULON, 1995) quem compilou os tex-
tos de Mead, organizando a abordagem teórico-metodológica e
nomeando-a como “interacionismo simbólico”.
Mead é considerado o pai da psicologia social. Sua premis-
sa é que a história social do indivíduo é prévia a toda e qualquer
interação. Em um tempo quando se discutia entre o psicologis-
mo (para o qual, o desenvolvimento individual ocorre antes e
a despeito de qualquer contexto social) e o sociologismo (que
considera a estrutura social como determinante para a identida-
de humana), Mead (1972) sugeriu uma terceira via. Para ele, a
individualidade de um sujeito consciente de si mesmo se forma
a partir da internalização dos diferentes papéis sociais desem-
penhados pelos outros com quem ele interage. Ou seja, é como
membro de uma coletividade – e só por isso – que o despertar
da autoconsciência pode ocorrer. Surge então a pessoa em seu
caráter social e não externa ao social nem dependente dele.
Nesse processo, é a linguagem que organiza o conteúdo
e o significado da experiência humana (MEAD, 1972). Por meio
da interação mediada, o indivíduo desenvolve a capacidade de
reconhecer a ação e a linguagem do outro. Surgem, assim, co-
munidades de significado – como as que estão envolvidas em
todo processo de assistência ao parto e nascimento. É o processo
comunicacional nessas comunidades que permite o compartilha-
mento de sentido.
Como ex-aluno de Mead, Herbert Blumer (1988) sistema-
tizou a proposta de um modelo de pesquisa que refletisse os

162 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SAÚDE

princípios do interacionismo simbólico. Para tanto, sugeriu três


premissas: (1) o ser humano direciona suas ações em relação aos
objetos de acordo com o significado que tenham para sua vida
cotidiana; (2) os significados desses objetos provavelmente deri-
vam da interação social vivenciada pela pessoa, mas (3) podem
ser manipulados e modificados através do processo de interpre-
tação (BLUMER, 1988).
A origem do “significado” pode ser descrita como uma par-
te intrínseca das coisas, assim como uma casa é uma casa, um
contrato é um contrato; mas também o “significado das coisas”
pode incluir sensações, sentimentos, ideias, memórias e atitu-
des que expressem a organização psicológica e social de cada
um. Os atos dos seres humanos, além de serem manifestações
de significados já estabelecidos, são também processos sujeitos
a reinterpretações. Cada um dos agentes de uma ação seleciona,
verifica, exclui, reagrupa e transforma os significados de acordo
com novas situações enfrentadas.
Mead propõe dois níveis em que os processos sociais se
tornam significantes: o primeiro ocorre por meio de uma “con-
versação de gestos”, em que a pessoa responde à ação de outra
sem interpretar o significado do ato; o segundo nível é chamado
de “uso de símbolos significativos”, quando o ato e seu significa-
do são interpretados. O gesto possui, portanto, um símbolo signi-
ficante que é partilhado pelos indivíduos que estão em interação.
Quando há um “encontro” de entendimentos ou tradu-
ções desses gestos, surge a linguagem. Na visão de Mead (1972,
p. 92), o processo social em que se dá a identificação recíproca
de símbolos e gestos é a comunicação. Ordens, mandatos, su-
gestões, afirmações, súplicas são gestos vocais que oferecem à

163
pessoa uma ideia de intenção, produzindo no interlocutor uma
reação à palavra (MEAD, 1972, p. 106) O autor ressalta o papel
de cada indivíduo envolvido na conversação para estabelecer o
seu “lugar”.
Assim, o interacionismo simbólico prevê quatro movimen-
tos distintos no processo de desenvolvimento social. O primeiro
deles diz respeito à troca simples de gestos, em que o indivíduo
se dá conta da própria particularidade ao perceber que seu ato
produziu alguma reação em outra pessoa. À medida que essa
consciência se torna mais complexa, o indivíduo reconhece a
existência de um outro e, ao notar suas reações, passa a moldar
novos gestos (neste ponto, gestos já significativos porque foram
resultados de adaptações refletidas). O terceiro movimento inclui
a linguagem vocal e o uso da palavra em busca de uma compre-
ensão recíproca sobre as palavras. Por fim, o indivíduo passa a se
perceber não apenas como parte de um dueto de relações, mas
como membro de uma coletividade maior. Ele então internaliza
não apenas o significado para “um” outro, mas passa a interna-
lizar o “outro generalizado” – ou seja, a sociedade propriamente
dita, com suas normativas, expectativas e discursos dominantes
(MEAD, 1972, p. 184).
Desse processo formativo do indivíduo, Mead desenvol-
ve então sua teoria a partir dos pontos cardeais da filosofia
(BLUMER, 1988, p. 54):

1. o “si mesmo” – O ser humano é considerado um agen-


te com índole social, capaz de formular respostas, fa-
zer indicações e interpretar questões em um nível sim-

164 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SAÚDE

bólico. Neste processo reflexivo, ele é capaz de criar,


perceber-se, conceituar, interagir consigo, se perguntar
e se responder, reformular-se e, por sua autointeração,
considerar-se objeto de seus próprios atos. Nesta pers-
pectiva, ele deixa de ser um organismo que apenas res-
ponde e passa a ser um influenciador capaz de afrontar
o mundo e orientar sua própria conduta;
2. o ato – Ao formular e interpelar a si mesmo, o indiví-
duo cria uma linha de ação no enfrentamento com o
mundo. Isso não garante que ações não possam ser
mal-interpretadas, que se faça um julgamento banal,
que erros sejam cometidos e que sejam tomadas atitu-
des obstinadas, mas estas características também são
respostas de uma elaboração reflexiva. Para Mead, o
ser humano é um organismo ativo por direito próprio,
que afronta, assume e atua com respeito aos objetos
que sinaliza. Cada ação é uma conduta elaborada pelo
ator em interação com o outro e não uma resposta pre-
figurada de sua organização pessoal;
3. a interação social – É a resposta interpretativa das
ações por meio da qual ocorre o processo de formação
de si mesmo;
4. o objeto – É tudo aquilo que pode ser sinalizado ou
referenciado. Pode ser físico, imaginário, abstrato, ina-
nimado, inclusivo, restrito. Os “mundos” que existem
para seres humanos e grupos sociais são compostos
por objetos decorrentes de produtos de uma interação
simbólica. Na definição do objeto está tudo que pode
ser indicado, tudo que pode ser sinalizado ou o que

165
pode ser referido. Os objetos podem ser classificados
em três categorias: a) físicos; b) sociais: estudantes,
sacerdotes, presidente, mãe, médico; c) abstratos:
princípios morais, doutrinas, ideais, valores de justiça
e sentimentos como compaixão. A natureza de um
objeto consiste no significado e no modo como uma
pessoa o vê, como ela o refere e como foi definido pe-
los interagentes. A ambiência é dada pelo significado
anexado aos objetos e o que eles representam para os
grupos de pessoas. Indivíduos ou grupos que ocupam
os mesmos espaços geográficos podem viver mundos
com significados diferentes;
5. a ação conjunta – Esta expressão substitui a “ação so-
cial”. Para Mead, é uma forma de ação coletiva mais
ampliada, constituída por uma somatória de linhas de
condutas e articulações de vários participantes onde
cada um ocupa uma participação distinta. Para o in-
teracionismo simbólico, a sociedade humana tem um
processo diversificado em que as pessoas se veem
obrigadas a criar ações conjuntas para resolver situ-
ações com as quais se defrontam. Esta descrição de
sociedade contrasta de modo significativo com os pon-
tos de vista predominantes da sociologia e psicologia
(BLUMER, 1988).

166 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SAÚDE

CONSTRUÇÃO SOCIAL DA CESÁREA

Uma vez que os “mundos” existentes para seres humanos


e grupos sociais são compostos por objetos decorrentes de inte-
rações simbólicas, eles também levam à construção de estere-
ótipos, opiniões e costumes. As ideologias nascem a partir dos
estereótipos (ELIADE, 2000). Da mesma forma, o mito da CC está
apoiado em muitas vertentes:

• O tipo de parto vaginal praticado rotineiramente é


muito mais doloroso do que deveria ser devido ao ex-
cesso de intervenções potencialmente danosas e des-
necessárias (DINIZ, 2009);
• Apesar da crença generalizada do medo da dor do par-
to e de que as cesarianas seriam menos doloridas (MC-
COURT et al., 2007), a pesquisa Nascer no Brasil (LEAL;
GAMA, 2014) mostrou que apenas 20% das mulheres
iniciam a gestação desejando uma CC. Mas as crenças
sociais vão se incorporando no decorrer da gestação.
Ao final, a porcentagem se inverte e poucas mulheres
passam a desejar o parto “normal” (LEAL; GAMA, 2014);
• O profissional de saúde quer otimizar o tempo de per-
manência no hospital, alinhar sua agenda de consul-
tas, cirurgias e vida pessoal, já que o parto normal é
um evento imprevisível quanto à data e duração (TOR-
LONI et al., 2011);
• A CC agendada permite um sistema de produção de ser-
viços hospitalares em escala, o que os torna mais rentá-

167
veis. Apesar da cirurgia necessitar de uma equipe médi-
ca especializada, numerosa e custosa, há uma economia
de escala, já que a rotatividade dos leitos cirúrgicos é
mais rápida, o tempo de permanência das equipes é
menor e a duração da internação é maior (DINIZ, 2009);
• Na cultura sexual brasileira, reforçada em textos médi-
cos e tratada como conhecimento autoritativo, depois
de um parto vaginal a mulher teria uma “frouxidão irre-
versível” da vagina, perdendo a atratividade sexual. Por
isso, sua vagina deveria ser corrigida no parto vaginal
(episiotomia e “ponto do marido”) ou poupada deste
problema através de uma CC (DINIZ; CHACHAM, 2006);
• Há uma corrente antropológica que defende que para
tornar o abuso de CCs aceitável, é fundamental manter
o significado do parto vaginal o mais doloroso e da-
noso possível, se preciso negando as evidências cien-
tíficas às quais a prática médica supostamente deveria
aderir (DAVIS-FLOYD, 2016).

O PARTO VAGINAL E A REALIDADE DA ASSISTÊNCIA NO


BRASIL

No Brasil, 98% dos nascimentos acontecem em ambiente hos-


pitalar, com médicos obstetras como os principais responsáveis pelos
nascimentos e que supervalorizam sua especialidade. Nos países de-
senvolvidos, os partos normais em mulheres de baixo risco são aten-
didos por enfermeira obstétrica e obstetriz, sendo que a função do
médico é de estar de prontidão para resolver eventuais problemas.

168 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SAÚDE

Do ponto de vista do interacionismo simbólico, a vida de


um grupo humano é um processo através do qual os objetos
vão sendo criados, desenvolvidos, afirmados e transformados.
A vida e os atos dos indivíduos vão se modificando forçosamen-
te à medida que mudanças acontecem também em torno dos
objetos (BLUMER, 1988). Um exemplo desta explicação pode ser
notado no próprio contexto do sistema de saúde e suas resultan-
tes sobre a preponderância das CC. Como os hospitais trabalham
com excesso de gestantes, pouco recurso de profissionais e sob a
pressão por produtividade, houve um incentivo para padroniza-
ção das intervenções que agilizam o parto como em um sistema
de produção.
Para a valorização social em torno de tecnologia, da ci-
ência e das instituições modernas, não poderia haver melhor
transmissor de valores e crenças do que os procedimentos hos-
pitalares (DAVIS-FLOYD, 2016). O mito de que a mulher não é
capaz de parir em função da dor do parto – e de que durante
o processo evolutivo humano, foi perdendo esta capacidade –
pode ser comparado às narrativas que estabelecem um para-
digma (DAVIS-FLOYD, 2016) e reforçam o mito (ELIADE, 2000).
Independentemente dessas narrativas serem ou não comprova-
das, tais mitos reforçam as crenças sobre os danos que podem
surgir durante o parto e nascimento, legitimando uma cascata
de intervenções que, por sua vez, são responsáveis pela maioria
dos danos à mulher e ao bebê.
A restrição da autonomia e da autoridade da mulher favo-
receu a transferência das decisões para o profissional de saúde,
implicando em uma subestimação dos riscos das intervenções,
e de superestimação dos riscos do parto normal. Desta forma, é

169
criado um conjunto de tecnologias de controle do parto que su-
postamente “auxiliariam a mulher” – mas que frequentemente
ampliam o desconforto físico e emocional do parto. Esses sofri-
mentos e riscos adicionais são então creditados ao “parto” e não
às intervenções (DINIZ, 2009).
A antropóloga Robbie Davis-Floyd buscou no filósofo
Arnold Van Gennep (2014) o conceito de que as grandes tran-
sições da vida são sempre ritualizadas. Independentemente do
lugar e do tempo, o nascimento sempre será um ritual cultural
de passagem, o que legitima a impressão de que é a própria
sociedade que faz as transformações no indivíduo. Nesta ótica,
uma série de ritos criará e reforçará os mitos circulantes na socie-
dade. Os rituais transmitem seu significado através de símbolos
que são representados por um objeto, uma ideia ou ação e estão
carregados de significados culturais. A mensagem dos símbolos
poderá ser percebida através do corpo e da emoção, por meio
da interação social, e seu efeito final pode ser extremamente po-
deroso. Dentro do mito de que a mulher não é capaz de parir,
colocá-la em uma cadeira de rodas, na chegada ao hospital é
reforçar o significado e dizer, de forma simbólica, que seu corpo
é deficiente; deixá-la nua com uma bata hospitalar e colocá-la
em uma cama produz a percepção de estar vulnerável e doente
(DAVIS-FLOYD, 2003). Floyd relata o depoimento de uma gestante
que durante o trabalho de parto se sentia no controle, com sua
respiração ritmada até a colocarem em uma cadeira de rodas. Ao
se sentar na cadeira, sentiu que não estava mais no controle de si
mesma (DAVIS-FLOYD, 2003)
O trabalho de parto passou a ser um ato médico, com recor-
rentes práticas não recomendadas pela Organização Mundial de

170 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SAÚDE

Saúde (OMS) (BRASIL, 2017). A partir do momento da internação


hospitalar, os rituais são cada vez mais marcados, o que reforça a
autoridade do profissional de saúde – que, por sua vez, é perce-
bida pela gestante durante a interação mediada não apenas pela
linguagem verbal, mas pelo conjunto de símbolos e gestos que
cercam o sistema de assistência ao nascimento. Os rituais de par-
to hospitalar são profundas expressões simbólicas e metafóricas
da vida tecnocrática (DAVIS-FLOYD, 2016).
No modelo brasileiro é recorrente a mulher ficar deitada
sem alimento ou líquidos para beber durante todo trabalho de
parto (a dieta zero ocorre em 74,8% dos partos), o que pode
reduzir suas forças. Uma das primeiras ações, e das mais fre-
quentes, que o profissional de saúde faz ao iniciar o processo
de atenção à gestante é colocar um cateter intravenoso (74,9%)
(LEAL; GAMA, 2014), conectando a mulher à instituição, como um
cordão umbilical – uma experiência arquetípica. Estamos todos
conectados à tecnologia de cabos, baterias, canos e fios elétricos.
Este cateter tem uma finalidade de introduzir soro com ocitocina
para aumentar o ritmo das contrações. Esta é uma prática que
potencializa a dor e é uma tecnologia superada cientificamente
(DAVIS-FLOYD, 2003), embora usada em 36,4% dos partos no Bra-
sil, da mesma forma que furar propositalmente a bolsa de água
para acelerar o nascimento é uma ação registrada em 39% das
gestantes (LEAL; GAMA, 2014).
O excesso de tecnologia pode invisibilizar o ser humano. O
ápice do parto tecnocrático é quando a equipe de saúde passa a
monitorar a tecnologia, controlando apenas o funcionamento das
máquinas. Uma mulher relatou a Davis-Floyd (2016) que a partir
do momento em que foi conectada ao monitor de batimentos

171
fetais, os olhares dos profissionais de saúde direcionaram-se para
a tela do aparelho e ela passou a sentir que era a máquina quem
teria o bebê, e não ela própria.
Para além da dor fisiológica do parto, as intervenções po-
dem ser muito mais dolorosas, aumentando as chances da ne-
cessidade de anestesia farmacológica (devido à indução com
ocitocina, que aumenta artificialmente as contrações), ou mes-
mo tornando a anestesia obrigatória, como na episiotomia, no
uso de fórceps ou na CC. Se a mulher suportar as intervenções
do pré-parto, ela será levada para a sala de partos onde ficará
fisicamente imobilizada em uma maca, com as pernas pra cima
– mais de 90% das mulheres brasileiras em 2011-2012 tiveram
seus partos nesta posição (LEAL; GAMA, 2014). Esta é uma posição
disfuncional, que prejudica a circulação do sangue entre a mãe
e o bebê, dificulta a melhor utilização da musculatura pélvica e
abdominal pela mulher e impede o efeito da gravidade no parto.
A mulher literalmente fica de pernas “para o ar” e com seus geni-
tais expostos. Dentro do sistema de crenças, este ritual preserva
a cultura de poder, valoriza o médico (que terá o controle exclu-
sivo do processo) e reflete em seus símbolos a superioridade de
atributos masculinos sobre o feminino – necessitado de tutela e
subordinação (DAVIS-FLOYD, 2016).
Estudos qualitativos mostram que quanto menor for a con-
dição social da gestante, mais vulnerável ela estará a abusos ver-
bais voltados para a humilhação sexual (como: “quando você fez,
você gostou”), tidos como uma forma de disciplinar as pacientes,
desmoralizando seu sofrimento. Ao mesmo tempo, ela receberá
menos intervenções médicas voltadas ao seu conforto (MATTAR;
DINIZ, 2012).

172 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SAÚDE

OS MITOS DE QUE O PARTO VAI “ESTRAGAR A MULHER”

Manter o parto vaginal mais doloroso e danoso, com a utili-


zação de práticas obsoletas e sem fundamentação por evidências
científicas, favorece o mito e a construção simbólica coletiva do
corpo feminino defeituoso (DINIZ et al., 2016). A episiotomia (cor-
te no períneo entre a vulva e o ânus) era praticada no Brasil em
53,5% das mulheres em um estudo de 2011-2012 (LEAL; GAMA,
2014). Essa intervenção tem a intenção de ampliar o canal de par-
to e foi desmistificada há mais de 20 anos porque pode provocar
muito mais danos do que benefícios, já que além de cortar a mus-
culatura, pode cortar nervos e vasos da vulva e vagina. O corte
desconstrói a vagina (que é um músculo elástico e flexível, cultu-
ralmente ligado ao sexo e prazer). Ao reconstruí-la, o profissional
de saúde acaba por ritualizar o “sexo socialmente construído” de
acordo com a crença cultural e o sistema de valores.
Um dos ritos médicos que mais se relacionam às questões
de gênero é “o ponto do marido”, que significa dar um ponto a
mais na vulva que foi cortada por uma tesoura ou bisturi, durante
a episiotomia, para deixar a mulher “mais apertada” (DINIZ, 2006).
A consequência será uma cicatriz fibrosa e reta em uma muscu-
latura que não tinha forma definida. O rito da episiotomia valida
ações culturais que a legitimam como uma prática que, apesar de
retrógrada, ainda se mantém pela força e adesão da sua estrutura
simbólica (DAVIS-FLOYD, 2016). No Reino Unido, o ativismo femini-
no promoveu um movimento de ação penal por lesão corporal aos
médicos que fizessem episiotomia sem consentimento esclareci-
do. Esta ação impactou diretamente nas taxas de ocorrência desse
procedimento, que caíram vertiginosamente (DINIZ et al., 2016).

173
Outro aspecto relevante no Brasil é a lei do acompanhante
que apesar de ser uma Lei Federal nº 11.1084, promulgada em
2005, dados selecionados em um estudo entre 2011-2012 de-
monstraram que menos de 20% das mulheres se beneficiaram
com a presença contínua (durante todo tempo de internação hos-
pitalar) de um acompanhante de sua escolha (LEAL; GAMA, 2014).
Os procedimentos intervencionistas utilizados durante o
trabalho de parto ampliam os signos sobre a crença na supe-
rioridade da tecnologia sobre a natureza, reforçando a primeira
premissa do interacionismo simbólico de que o ser humano dire-
ciona suas ações em relação à ação/situação conforme o signifi-
cado destas em sua vida cotidiana (BLUMER, 1988). A forma como
essas intervenções atuam neste modelo de nascimento favorece
a força do mito, com uma construção simbólica coletiva do corpo
defeituoso, levando à interpretação de que o parto vaginal seja
reconhecido como excessivamente arriscado para o bebê e para
a mãe (DINIZ et al., 2016).
De acordo com a segunda premissa (do interacionismo
simbólico), esse conjunto de significados deriva da interação
social e do reforço dos mitos, já que uma série de danos esta-
tisticamente comprovados está associada às intervenções desse
modelo de nascimento. O nascimento é retratado na mídia e em
filmes como fruto de um parto doloroso, descontrolado e que
fomenta o medo. Os possíveis danos não estariam vinculados
se fosse respeitada a fisiologia do parto, se fossem usadas prá-
ticas humanizadas e se a tecnologia fosse usada somente por

4 Mais conhecida como Lei do Acompanhante, determina que todos serviços


de saúde do SUS são obrigados a permitir à gestante o direito à presença de
acompanhante durante todo período de trabalho de parto e pós-parto.

174 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SAÚDE

demanda fisiológica. As intervenções são feitas, frequentemente,


para acelerar o tempo de nascimento e aumentar a produtivida-
de e rotatividade dos leitos (DINIZ et al., 2016). Quando surgem
sequelas decorrentes do manejo inadequado das intervenções,
elas são redescritas formalmente e aceitas socialmente como um
dano “natural” do parto – não ao excesso ou inadequações das
intervenções que acabam invisibilizadas.
Por fim, a terceira premissa do interacionismo simbólico
prevê que os significados que as coisas ou ações têm para cada
indivíduo podem ser manipulados e modificados através do pro-
cesso de interpretação desenvolvido pela pessoa (BLUMER, 1988).
No caso tratado neste texto, os significados em torno do parto
são transformados diante das práticas médicas amplamente usa-
das, exercendo pressão pela proliferação das CCs no Brasil.
Nesse contexto, a demanda pela CC no Brasil seria sobretu-
do uma demanda por dignidade, já que o modelo de parto “nor-
mal” típico é intervencionista e traumático (MAIA, 2010), cercado
que está de crenças sobre danos e dores. Trata-se de “uma es-
colha entre o ruim e o pior”, entre duas formas de vitimização.
Nas palavras de uma parturiente, “se tiver que cortar é melhor
cortar por cima, porque em baixo é uma área mais nobre” (DINIZ,
2009 p.321). No Brasil, a assistência ao parto está relacionada
ao pior dos dois mundos: o adoecimento e a morte por falta de
tecnologia apropriada, e o adoecimento e a morte por excesso de
tecnologia inapropriada (DINIZ, 2009).

175
FONTES DE INFORMAÇÃO E TOMADA DE DECISÃO

Os profissionais de saúde e obstetras são tradicionalmente


considerados os principais provedores de informação sobre cuida-
dos na gestação, no parto e pós-parto. O processo de tomada de
decisão das mulheres é frequentemente iniciado a partir da busca
por informações nos diversos meios de comunicação, onde espe-
ram encontrar respostas confiáveis e precisas para responder suas
dúvidas e perguntas (BROWN et al., 2002). As mulheres também
obtêm informações de familiares, amigas, livros e meios de comu-
nicação (CARRILLO-LARCO et al., 2012). A mídia em geral (filmes,
programas de televisão, anúncios publicitários, revistas e internet)
pode exercer um efeito poderoso no conhecimento, nas crenças e
expectativas da mulher em questões relacionadas à gravidez e ao
parto (THEROUX, 2011). A mídia tem contribuído na manutenção
dos mitos do parto vaginal, cercados de histeria, dor, sujeira, gritos
e, não raro, a morte da mãe e/ou do bebê (MAIA, 2010).
Os artefatos da comunicação tornam-se os dados primários
para o estudo da ação social (LITTLEJOHN, 1988). A internet, por
exemplo, tem impacto significativo na vida cotidiana (MCCAUGHEY;
AYERS, 2003). O perfil de usuários em uma plataforma de saúde
popular no Brasil concluiu que a maioria dos acessos era pro-
veniente do sexo feminino, 62% passavam de 5 a 35 horas por
semana navegando na web e 90% das vezes realizavam buscas
para responder dúvidas relacionadas à própria saúde. A grande
maioria (86%) considerava a internet uma de suas principais fon-
tes de informação em saúde (MORETTI; OLIVEIRA; SILVA, 2012).
Um estudo (FIORETTI et al., 2015) sobre qualidade das in-
formações sobre CC na internet, em português, verificou que as

176 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SAÚDE

informações são de baixa confiabilidade. Os temas com maior co-


bertura foram indicações para CC, citados por mais de 80% das
páginas web, dos quais apenas 30% possuíam embasamento clí-
nico. Possíveis benefícios da CC foram mencionados por 56% dos
sites. O elevado volume de indicações de CC na internet coincide
com o resultado de outro estudo, segundo o qual 84% das cesa-
rianas no Brasil são realizadas antes do início do trabalho de par-
to (ESTEVES-PEREIRA et al., 2016). Diversos motivos não médicos
para a realização de CC, tais como conveniência materna e/ou do
médico e dor da mãe, ficaram no topo da lista de indicações mais
frequentemente citadas nas páginas web (FIORETTI et al., 2015).
Como os atos dos seres humanos também são processos
sujeitos à interpretação (BLUMER, 1988), o volume de indicações
de CC na internet pode contribuir para a “normalização” da inter-
venção cirúrgica, minimizando seus riscos. Uma pessoa, ao pla-
nejar a realização de um ato, desencadeará uma ação conjunta
com outros atores. Se o significado desta ação for o mesmo para
ambos, estes o compreenderão mutuamente (BLUMER, 1988). Um
exemplo claro é o da conveniência do profissional de saúde e da
gestante para decisão pela realização da CC ao longo da gravidez.

POLÍTICAS DE MUDANÇAS DO PARADIGMA DO NASCIMENTO

Uma forma de influenciar uma mudança de paradigma e


valores simbólicos mais ou menos cristalizados é a implantação
de mudanças provenientes de políticas públicas novas e radical-
mente transformadoras. Um dos grandes avanços no campo da
saúde materna foi a universalização do acesso à assistência pré-

177
-natal e ao parto (DINIZ, 2014a). Desde 1998 o governo brasileiro
tem realizado medidas para redução do número de CC desne-
cessárias, condicionando, nos hospitais do SUS, o reembolso dos
nascimentos com os índices de CC (Diniz, 2006). Mesmo assim as
taxas de CC tiveram uma curva ascendente até 2015: 32% (1994),
38% (2002), 44% (2006), 45,9% (2008), 52% (2010), 54% (2012),
chegando no seu ápice em 57% (2014) (LABOISSIÈRE, 2017). Em
2010, o Ministério da Saúde implantou medidas de avaliação,
monitoramento, treinamento e incentivos para redução de CC e
introdução do parto humanizado/fisiológico na rede pública. As
iniciativas foram promovidas com o objetivo de reduzir a morbi-
-mortalidade materna e alcançar as metas do milênio definidas
pela ONU. Muitos serviços do SUS têm se esforçado para melhorar
o atendimento oferecido às mulheres, alguns com excelentes re-
sultados. Entre 2012 e 2016, por exemplo, houve mudanças sig-
nificativas na prevenção de procedimentos dolorosos, promoção
dos métodos não farmacológicos de manejo da dor, abertura à
presença de acompanhantes, com oferta de massagens, banhos,
liberdade de movimentos e de posição de partos. No sistema pú-
blico já foram obtidos resultados significativos (DINIZ, 2014b).
Entre as iniciativas com impacto social está a exposição
interativa e itinerante, “Sentidos do Nascer”, que objetivou con-
tribuir na redução da cesariana desnecessária e da prematu-
ridade iatrogênica5 no Brasil. Ela explorou o imaginário social
sobre o parto e nascimento, com instalações que estimularam

5 Prematuridade iatrogênica refere-se a riscos de efeitos adversos que alcança


entre 10% e 17,8% dos recém-nascidos oriundos de uma cesárea eletiva
a termo (idade gestacional entre 37 a 39 semanas). Após a 39ª semana, o
risco desses efeitos para os neonatos em cesárea eletiva será de 1,5 a 4,6%
(FRANCISCO; ZUGAIB, 2013).

178 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SAÚDE

relações efetivas sobre o parto normal e reflexões sobre a CC


(SPITZ et al., 2017)
As mudanças são mais fáceis de serem implantadas no
sistema público, sobre o qual o Ministério da Saúde tem gover-
nança direta. Nos serviços de saúde suplementar, no entanto,
há mais resistência, embora seja notório que iniciativas como o
Parto Adequado podem trazer resultados positivos. Os diversos
governos também não têm conseguido ter adequada regulação
sobre a prática da formação profissional das Faculdades de Medi-
cina. Mesmo cientes dos danos comprovados por evidências cien-
tíficas, os médicos e muitos profissionais de saúde subordinados
a eles preservam práticas obsoletas, com resistências ao trabalho
em equipe e modelos de assistência que relativizem a hegemo-
nia da sua autoridade (DINIZ et al., 2015). Novas práticas implica-
riam em mudanças nas relações de poder que exercem por meio
da força de trabalho e dos controles sofisticados desenvolvidos
como forma de persuasão (FLEURY, 1996).

ASSOCIAÇÃO DE CLASSES, RESISTÊNCIAS E MANUTENÇÃO


DO STATUS QUO

Para as mulheres brancas de alto poder aquisitivo, a CC é


oferecida como tecnologia superior, segura e mais moderna, por-
que evitaria as dores do parto e os danos sexuais, sem que sejam
informadas acerca dos riscos da cirurgia. Para conveniência de
todos, a cirurgia pode ser feita antecipadamente para que a mu-
lher não corra o risco de entrar em trabalho de parto. A relação
médico-paciente no sistema privado é estabelecida desde o iní-

179
cio da gestação, criando vínculos com a gestante que busca ser
assistida por um mesmo profissional durante o pré-natal, parto e
pós-parto. Esta continuidade do cuidado com o mesmo profissio-
nal mostrou-se relacionada à prevalência de CC eletiva (FREITAS
et al., 2015). Dados apontam que três entre quatro mulheres que
tiveram o primeiro filho no setor privado prefeririam um parto
normal ao invés de CC, enquanto no setor público esse índice é de
oito entre dez gestantes (DOMINGUES et al., 2014).
A medicalização do parto (“normal” ou CC) é uma realida-
de brasileira vinculada ao poder aquisitivo e às classes sociais –
quanto mais recursos de financiamento da saúde, maior o grau
de medicalização do usuário, assim como o risco do excesso de
intervenções. Quanto menor o recurso de financiamento da saú-
de, maior a dor e o sofrimento físico e psicológico, assim como os
riscos por falta de intervenções necessárias (DINIZ, 2009).
Segundo a perspectiva do interacionismo simbólico, as
grandes organizações sociais são uma ordenação de pessoas
vinculadas reciprocamente em seus atos respectivos (BLUMER,
1988). As narrativas intervencionistas dos profissionais de saúde
são consensuadas por um grande número de obstetras. Poderí-
amos presumir que a resistência às mudanças provém da for-
mação acadêmica, em que mudar a prática seria negar a própria
trajetória profissional. Mas o fato é que a mudança traria impac-
tos financeiros para o profissional médico (que teria que deixar
a enfermeira obstétrica ou obstetriz atuar), bem como sobre sua
conveniência, uma vez que deveria estar disponível para esperar
pelo parto durante o tempo necessário (DINIZ, 2009).
A organização e interdependência têm lugar entre os atos
e indivíduos interligados em diferentes pontos (BLUMER, 1988).

180 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SAÚDE

Apenas alguns profissionais cientes da necessidade da mudança


preconizada pela ciência a adotam, mesmo sofrendo discrimina-
ção entre colegas com recorrentes perseguições pelos próprios
conselhos de classe. Fleury politizou a definição de cultura como

um conjunto de valores e pressupostos básicos, expressos


em elementos simbólicos, os quais, em sua capacidade
de ordenar, atribuir significações, construir a identidade
organizacional, tanto agem como elementos de comuni-
cação e consenso, como ocultam e instrumentalizam as
relações de dominação. (FLEURY, 1996, p.66).

Esta definição é claramente identificada no comportamen-
to corporativista dos obstetras intervencionistas e sua contínua
influência sobre as decisões das gestantes, bem como sobre a
cristalização das crenças em torno do parto.

AÇÃO DOS MOVIMENTOS SOCIAIS ORGANIZADOS



A sociedade humana tem processos diversificados em que
as pessoas se veem impelidas a criar ações conjuntas para resolver
situações com as quais se defrontam (LITTLEJOHN, 1988). Desde
1993, a Rede de Humanização do Parto e Nascimento (REHUNA)
luta pela valorização do parto humanizado. Ela também integra
profissionais de saúde e de entidades de classe e gestores, esti-
mulando a troca de experiências por meio de uma comunicação
em rede (RATTNER et al., 2010). A internet favoreceu a articulação
de pessoas que compartilhavam os mesmos ideais, problemas

181
e propostas de soluções, oferecendo arenas públicas e virtuais
de conversação com capacidade de reunir públicos concernidos,
mesmo que localizados em distintos territórios.
Os movimentos de ciberativismo surgiram no final do século
XX, à medida que os recursos dispostos pela internet se expandi-
ram, alimentando redes cívicas. O termo “ciberativismo” refere-se
aos movimentos globais com causas locais que usaram arquitetu-
ras de informação em rede para difundir e promover discussões
na web. Este movimento não se resume apenas à incorporação
da internet aos processos de comunicação do ativismo; ele re-
presenta a forma como a web vem transformando radicalmente
tais processos e seus componentes, como o espaço democrático,
a identidade coletiva, as estratégias políticas, os conceitos de par-
ticipação e as estratégias de ação (MCCAUGHEY, 2003).
O ativismo praticado pelos movimentos sociais tem se
sobressaído na mídia e na web nos últimos anos, ampliando a
conscientização dos benefícios do parto normal e advogando
pela redução do excesso de intervenções obstétricas para “ven-
der” cesáreas. Várias iniciativas de produção de conteúdo em for-
mato de filmes são disponibilizadas e lançadas periodicamente,
produzidas por ativistas, com financiamento e distribuição pelo
movimento social, tornando-se fenômenos de audiência na mí-
dia e na internet (DINIZ, 2014b).
Em 2006, a ONG Parto do Princípio (PP), Mulheres em Rede
pela Maternidade Ativa (PARTO DO PRINCÍPIO, 2015), formada por
usuárias do SUS e ativistas em defesa da promoção dos direitos
sexuais e reprodutivos da mulher, apresentou uma denúncia ao
Ministério Público quanto ao abuso de CC praticadas no Brasil.
Assim, o MPF exerceu o papel de “ponte” entre a comunicação

182 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SAÚDE

pública organizada e o Estado. Os movimentos cívicos pelos di-


reitos das mulheres relacionados ao parto e nascimento tiveram,
certamente, uma força de mobilização potencializada pela inter-
net. Mas consolidaram-se como esfera pública ao processar as
demandas da sociedade para o interior do sistema político (GO-
MES, 2006, 2008). O portador oficial dessa demanda foi o MPF,
que fez uma representação contra a Agência Nacional de Saúde
(ANS). A denúncia apresentada pela PP teve como objetivo pro-
mover o direito à informação e prestação de serviços médicos
obstétricos adequados para garantir melhores condições para o
nascimento (PARTO DO PRINCIPIO, 2015).
Em 2010, o MPF propôs uma Ação Civil Pública contra a
ANS, que foi deferida em 2015, dando a ANS um prazo de 60 dias
para implantar as seguintes medidas para redução de CC: a) ado-
ção do partograma como documento obrigatório, com histórico
de avaliação para uma possível indicação de CC; b) obrigatorieda-
de de informação dos percentuais de CC e partos normais efetu-
ados pelos obstetras e hospitais que prestam serviço de atenção
obstétrica, caso o usuário de saúde solicite; c) utilização do Car-
tão da Gestante como documento obrigatório; d) credenciamen-
to de enfermeiras obstétricas e obstetrizes; e) desenvolvimento
de indicadores para qualificações dos hospitais que reduzirem CC
e humanizarem sua prática; f) remuneração para o parto normal
ser significativamente maior do que a CC, como incentivo aos pro-
fissionais de saúde que assistem às gestantes.
A implantação dessas medidas no sistema privado de saú-
de desencadeou outras iniciativas, como o projeto denominado
Parto Adequado, criado pela ANS, pelo Hospital Israelita Albert
Einstein e pelo Institute for Health Improvement (IHI), com apoio

183
do Ministério da Saúde. Ele foi implementado em hospitais pri-
vados e públicos (DINIZ et al., 2018). Trata-se de uma iniciativa
piloto baseada nas melhores evidências científicas que indicam
ganho de qualidade e segurança da atenção ao nascimento,
incentivando o parto normal e reduzindo CC “desnecessárias”
(MARCOLIN, 2014).
No setor público, o Ministério da Saúde lançou o Parto
Cuidadoso (2018), inspirado nos princípios do Parto Adequado
(2017), como um sistema de monitoramento on-line para acom-
panhar a quantidade de CC no SUS (BRASIL, 2018). Mas a redução
de CC é uma preocupação também universal. No início de 2018,
a OMS lançou um manual com 56 diretrizes que visam reduzir
intervenções desnecessárias no parto (WHO, 2018).
Estes exemplos comprovam que há uma pressão pela mu-
dança da prática. A perspectiva do interacionismo simbólico pode
contribuir para análise sobre o ponto reflexivo, para promover o
cuidado interativo interpessoal entre profissionais e usuários de
saúde. Em uma ação conjunta e ampliada, o discurso social pro-
cura ressignificar o parto e o nascimento com uma metanarrativa
poderosa de igualdade e liberdade de direitos com base cientí-
fica. De um lado, uma política pública proposta pelo Ministério
da Saúde a partir da forte mobilização de um movimento social
de mulheres; do outro lado, um sistema protocolar intervencio-
nista mantido por profissionais e associações médicas resiste às
mudanças. Fleury (1996) ressalta que uma determinada cultura
adquire um caráter político quando, na ameaça do seu conjunto
de valores e pressupostos, passa a desenvolver habilidades de
ordenar, atribuir significados e construir uma identidade organi-
zacional através de ações de comunicação. É preciso estar atento,

184 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SAÚDE

porém, para o risco de esta cultura, na realidade, ocultar a instru-


mentalização de relações de dominação (FLEURY, 1996) – o que
pode ser claramente identificado no comportamento corporati-
vista da cultura da CC desnecessária.
Para Lukes (2005), a dominância de certa prática ou po-
lítica pública indica uma forma de poder exercido por meio da
preponderância de um “mainstream” de ideais, símbolos, ritos e
mitos. A partir deles, os interesses dos mais poderosos são pro-
tegidos e os menos poderosos são marginalizados no processo
de informação e decisão, perdendo possibilidades de ação so-
bre si próprios (LUKES, 2005). No Brasil, a existência de um senso
comum em torno da realização de cesáreas (como uma cultura
estabelecida) passa a ser ameaçada mais recentemente apenas
quando as práticas médicas e do sistema de saúde (imerso em
sua estrutura de poder) são problematizadas.
Para Colebatch (2009, p. 30-33), a “formação de políticas
públicas é vista, pelo paradigma da construção social como re-
sultado de problematizações sobre a natureza e as razões dos
problemas a serem combatidos”. Trata-se, portanto, de uma
forma de interpretação dos problemas, o que leva a respectivas
formas de produzir respostas que sejam apropriadas à tal visão.
O conjunto de medidas definidas pela ANS e os projetos criados
pelo Ministério da Saúde foram definidos exatamente em função
de uma interpretação acerca da natureza econômica, cultural e
política (como fruto da relação de poder no binômio médico-pa-
ciente) e da prática generalizada de CC desnecessárias no Brasil.
Assim, a política pública pode também ser tratada como um dis-
curso (FISCHER; FORESTER, 1993) .

185
CONSIDERAÇÕES FINAIS

O caso brasileiro de reação e combate à epidemia de CC


indica a participação de iniciativas coletivas que representam
diferentes narrativas sobre o parto e as alternativas às interven-
ções desnecessárias, muitas coordenadas por grupos segmenta-
dos. Vale ressaltar aqui o risco de pulverização desses esforços
de mobilização por uma política pública a favor do parto huma-
nizado, especialmente porque os desafios de comunicação pú-
blica e argumentação sobre o tema incluem negociação com os
representantes de cada novo governo federal, com seus próprios
enquadramentos e suas interpretações sobre o problema.
As recentes conquistas alcançadas pelos movimentos de
mulheres e pelo MPF atingiram importante repercussão no siste-
ma de saúde e na assistência obstétrica, mas não necessariamen-
te provocaram mudanças sociais mais amplas. A humanização do
nascimento reivindica o reconhecimento de um discurso e espaço
político que está em disputa, tendo por um lado, a legitimidade
baseada em evidência científica e direitos humanos, e por outro, a
política da organização assistencial intervencionista com procedi-
mentos de rotina cercados por intervenções desnecessárias tanto
no parto vaginal como na CC sem indicação (NIY, 2018).
Estudos em instituições de saúde que adotaram o uso de
boas práticas como a presença de acompanhante demostraram
desfechos positivos tanto na satisfação da mulher quanto na mu-
dança de conduta do profissional de saúde (DINIZ et al., 2014a;
MONGUILHOTT et al., 2018). Está claro na lei que a presença de
um acompanhante deverá ser em todas as fases do processo de

186 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SAÚDE

parto, o que deveria acontecer em todos hospitais do País, o que


não tem ocorrido. Isto demonstra que mesmo leis promulgadas
não legitimam a prática. As mudanças têm que ir além dos ser-
viços de saúde para garantir um apoio contínuo e institucional
dos governos locais e federal e de organismos internacionais. É
necessário ainda sensibilizar os responsáveis pela formação e ca-
pacitação dos profissionais de saúde, além de garantir serviços e
informação de qualidade, que esclareça as mulheres quanto aos
riscos e benefícios das escolhas no parto, como parte dos seus di-
reitos reprodutivos (WHO, 2012). A humanização do parto e nas-
cimento reivindica legitimidade política na defesa dos direitos da
mulher de ter um parto seguro e poder decidir e consentir sobre
as intervenções que possam se fazer necessárias no seu corpo.

187
REFERÊNCIAS

ALKEMA, L. et al. Global, regional, and national levels and trends


in maternal mortality between 1990 and 2015, with scenario-
-based projections to 2030: a systematic analysis by the UN Ma-
ternal Mortality Estimation Inter-Agency Group. Lancet, London
(England), v. 387, n. 10017, p. 462–74, 2016.

BETRÁN, A. P. et al. Rates of caesarean section: analysis of global,


regional and national estimates. Paediatric and perinatal epide-
miology, v. 21, n. 2, p. 98–113, 2007.

_____. What is the optimal rate of caesarean section at population


level? A systematic review of ecologic studies. Reproductive He-
alth, 21. Jun. 2015.

BLUMER, H. Symbolic interactionism: perspective and method.


London, The British journal of Sociology, v.39, n. 2, p.292-295,
jun. 1988.

BOERMA, T. et al. Optimising caesarean section use 1 Global epi-


demiology of use of and disparities in caesarean sections. The
Lancet, v. 392, p. 1.341-1.348, 2018.

BRASIL. Ministério da Saúde. Gabinete do Ministro. Portaria no


1.459, de 24 de junho de 2011. Institui no âmbito do Sistema
Único de Saúde - SUS - a Rede Cegonha. Diário Oficial da União,

188 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SAÚDE

Poder Executivo, Brasília, DF, n. 121, 27 jun. 2011. Seção 1, p. 109,


2011. Disponível em <http://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/
gm/2011/prt1459_24_06_2011.html>. Acesso em 19 nov. 2018.

BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Ministério da Saúde e ANS publi-


cam regras para estimular parto normal na saúde suplementar.
Blog da Saúde, 6 jan. 2015. Disponível em <http://www.blog.sau-
de.gov.br/34963-ministerio-da-saude-e-ans-publicam-regras-
-para-estimular-parto-normal-na-saude-suplementar>. Acesso
em 11 nov. 2018.

_____. Ministério lança protocolo com diretrizes para parto cesa-


riana, 2015. Portal MS, 4 abr. 2016. Disponível em <http://por-
talms.saude.gov.br/noticias/agencia-saude/22946-ministerio-
-lanca-protocolo-com-diretrizes-para-parto-cesariana>. Acesso
em 11 nov. 2018.

_____. Secretaria de Ciência, tecnologia e Insumos Estratégicos.


Demaprtamento de Gestão e Incorporação de Tecnologias em
Saúde. Diretrizes Nacionais de Assistência ao Normal Parto: ver-
são resumida [recurso eletrônico] Brasília: Ministério da Saúde,
2017.

BROWN, J. B. et al. Women’s decision-making about their health


care: Views over the life cycle. Patient Education and Counseling,
v. 48, n. 3, p. 225–231, 2002.

189
CARRILLO-LARCO, R. M. et al. Evaluation of the quality of informa-
tion about pregnancy found in webpages according to the pe-
ruvian guidelines. Revista Peruana de Medicina Experimental y
Salud Publica, v. 29, n. 1, p. 76–81, 2012.

CHO, C. E.; NORMAN, M. Cesarean section and development of the


immune system in the offspring. American Journal of Obstetrics
and Gynecology, v. 208, n. 4, p. 249–254, 2013.

COLEBATCH, H. K. Policy. Third Edition. Berkshire: Open University


Press, 2009. (Concepts in the Social Sciences)

COULON, A. B. Escola de Chicago. Tradução Tomás R. Bueno. Cam-


pinas, SP: Papirus Editora 1995.

DAVIS-FLOYD, R. Birth as an American rite of passage. London:


University of California Press, 2003.

_____. The International MotherBaby Childbirth Initiative (IMBCI)


A Human Rights Approach to Optimal Maternity Care. Midwifery
Today With International Midwife, Spring, n. 117, p. 50-53, 2016.

DINIZ, C. S. G. Humanização da assistência ao parto no Brasil: os


muitos sentidos de um movimento. Ciência & Saúde Coletiva, v.
10, n. 3, p. 627–637, 2005.

190 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SAÚDE

DINIZ, C. S. G.; CHACHAM, A. S. O “corte por cima” e o “corte por


baixo”: o abuso de cesáreas e episiotomias em São Paulo. Ques-
tões de Saúde Reprodutiva, v. 1, n. 1, p. 80–91, 2006.

DINIZ, S. G. Gênero, saúde materna e o paradoxo perinatal. Rev.


Bras. Crescimento Desenvolvimento Hum, v. 19, n. 2, p. 313–326,
2009.

DINIZ, S. G.; DUARTE, A. C. Parto normal ou cesárea? O que toda


mulher deve saber (e todo homem também). Rio de janeiro: Edi-
tora. UNESP, 2004. (Coleção Saúde e cidadania)

DINIZ, S. G. et al. Abuse and disrespect in childbirth care as a pu-


blic health issue in Brazil: Origins, definitions, impacts on mater-
nal health, and proposals for its prevention. Journal of Human
Growth and Development, v. 25, n. 3, p. 377–382, 2015.

DINIZ, C. S. G. et al. A vagina-escola: seminário interdisciplinar


sobre violência contra a mulher no ensino das profissões de
saúde. Interface - Comunicação, Saúde, Educação, v. 20, n. 56, p.
253–259, mar. 2016. Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.
php?script=sci_arttext&pid=S1414-32832016000100253&lng=e
n&nrm=iso&tlng=pt>. Acesso em 10 out. 2018.

191
DINIZ, C. S. G. et al. Implementação da presença de acompanhan-
tes durante a internação para o parto: dados da pesquisa nacio-
nal Nascer no Brasil. Cadernos de Saúde Pública, v. 30, supl. 1, p.
S140–S153, 2014(a).

DINIZ, S. G. O renascimento do parto, e o que o SUS tem a ver


com isso. Interface: Comunicação, Saúde, Educação, v. 18, n. 48,
p. 217-2020, 2014(b).

DOMINGUES, R. M. S. M et al. Processo de decisão pelo tipo de par-


to no Brasil: da preferência inicial das mulheres à via de parto fi-
nal. Cadernos de Saúde Pública, v. 30, supl. 1, p. S101–S116, 2014.

ELIADE, M. Mito e realidade. 6ª ed. São Paulo: Editora Perspectiva,


2000.

ESTEVES-PEREIRA, A. P. et al. Caesarean delivery and postpartum


maternal mortality: A population-based case control study in Bra-
zil. PLoS ONE, v. 11, n. 4, p.1-13, 2016.

FIORETTI, B. T. S. et al. Googling caesarean section: A survey on


the quality of the information available on the Internet. BJOG: An
International Journal of Obstetrics and Gynaecology, v. 122, n. 5,
p. 731–739, 2015.

FISCHER, F.; FORESTER, J. The argumentative turn in policy analysis


and planning. Duke University Press, 1993.

192 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SAÚDE

FLEURY, M. T. L., O Simbólico nas Relações de Trabalho. In: FLEURY,


M. T. L; FISHER, R. M. Cultura e Poder na organizações. 2ª Ed. São
Paulo: Atlas, 1996. p.113–127.

FRANCISCO, R.P.V.; ZUGAIB, M. Intercorrências neonatais da cesá-


rea eletiva antes de 39 semanas de gestação. Revista da Associa-
ção Médica Brasileira, v. 59, n. 2, p. 93-94, mar./ abr. 2013.

FREITAS, P. F. et al. O parecer do Conselho Federal de Medicina,


o incentivo à remuneração ao parto e as taxas de cesariana no
Brasil. Cadernos de Saúde Pública, v. 31, n. 9, p. 1839–1855, 2015.

GOMES, W. Apontamentos sobre o conceito de esfera pública po-


lítica. In: MAIA, R.; CASTRO, M. C. P. S. Mídia, Esfera Pública e Iden-
tidades Coletivas. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2006. p.49-61.

GOMES, W. Esfera pública política e comunicação em Direito e De-


mocracia de Jürgen Habermas. In: GOMES, W.; MAIA, R.C. M. Comu-
nicação e democracia: Problemas e Perspectivas. São Paulo: Ed.
Paulus, 2008. p. 69-115.

HODNETT, E. D. Pain and women’s satisfaction with the experience


of childbirth: a systematic review. American Journal of Obstetrics
and Gynecology, v. 186, n. 5, Suppl Nature, p. S160-S172, 2002.

HOTIMSKY, S. N. A formação em obstetrícia: competência e cuida-


do na atenção ao parto. Tese (Doutorado em Ciências). Departa-

193
mento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da Uni-
versidade de São Paulo, São Paulo, 2007.

LABOISSIÈRE, P. Número de cesarianas cai pela primeira vez no


Brasil. Agência Brasil, 10 mar. 2017. Disponível em <http://agen-
ciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2017-03/numero-de-cesaria-
nas-cai-pela-primeira-vez-no-brasil>. Acesso em 22 nov. 2018.

LEAL, M. do C.; GAMA, S. G. N. da. Nascer no Brasil: Sumário Execu-


tivo. Cadernos de Saúde Pública, v. 30, n. 1, p. 1–8, 2014.

LEÃO, M. R. de C. et al. Reflexões sobre o excesso de cesarianas no


Brasil e a autonomia das mulheres. Ciência & Saúde Coletiva, v.
18, n. 8, p. 2395–2400, 2013.

LITTLEJOHN, S. W. Fundamentos teóricos da comunicação huma-


na. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1988.

LOPES, C. H. L. F. ; JORGE, M. S. B. . Interacionismo simbólico e a


possibilidade para o cuidar interativo em enfermagem. Revista
Escola de Enfermagem USP, v. 39, n. 1, p. 103-108, 2005.

LOW, J. Caesarean section past and present. Journal of Obstetrics


and Gynaecology; Canada, v. 31, n. 12, p. 1131-1136, 2009.

LUKES, S. Power : a radical view. Basingstoke: Palgrave Macmillan,


2005.

194 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SAÚDE

MAIA, M. B. Humanização do parto: política pública, comporta-


mento organizacional e ethos profissional. Rio de Janeiro: Editora
Fiocruz, 2010.

MARCOLIN, A. C. Até quando o Brasil será conhecido como o país


da (CC)? Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, v. 36, n. 7,
p. 283-289, 2014.

MATTAR, L. D.; DINIZ, C. S. G. Hierarquias reprodutivas: Maternida-


de e desigualdades no exercício de direitos humanos pelas mu-
lheres. Interface: Comunicação, Saúde, Educação, v. 16, n. 40, p.
107–119, 2012.

MCCAUGHEY, M.; AYERS, M. D. Cyberactivism: Online Activism in


Theory and Practice. Contemporary Sociology: A Journal of Re-
views, v. 33, n. 3, p. 347–348, 2003.

MCCOURT, C. et al. Elective cesarean section and decision making:


a critical review of the literature. Birth, Berkeley (California), v. 34,
n. 1, p. 65–79, 2007.

MEAD, G. Mind, self, and society. Chicago: The University of Chica-


go Press, 1972.

195
MONGUILHOTT, J. J. da C. et al. Nascer no Brasil: The presence of a
companion favors the use of best practices in delivery care in the
South region of Brazil. Revista de Saúde Pública, v. 52, p. 1-11,
2018.

MORETTI, F. A.; OLIVEIRA, V. E. de; SILVA, E. M. K. da. Access to health


information on the internet: a public health issue? Revista da As-
sociação Médica Brasileira, v. 58, n. 6, p. 650-658, 2012.

NIY, D. Y. Desafios para a implementação de uma assistência


“amiga da mulher”: a presença de acompanhantes e a mobili-
dade no parto em uma maternidade do SUS em São Paulo. Tese
(Doutorado em Ciências). Programa Ciclos de Vida e Sociedade,
Faculdade de Saúde Pública, Universidade de São Paulo. São
Paulo, 2018.

NOGUEIRA, A. T. A Alma do Parto. São Paulo: Biblioteca 24horas,


2013.

PARTO DO PRINCIPIO. Parto do Princípio e a resolução 368 da ANS.


Parto do Princípio - Mulheres em Rede pela Maternidade Ativa.
Disponível em <http://www.partodoprincipio.com.br/single-
-post/2015/01/12/Parto-do-Princípio-e-a-resolução-368-da-
-ANS>. Acesso em 18 nov. 2018.

196 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SAÚDE

RATTNER, D. et al. ReHuNa – A Rede pela Humanização do Parto


e Nascimento. Tempus Actas de Saúde Coletiva, v. 4, n. 4, p. 215-
228, 2010.

SOUZA, J. et al. Caesarean section without medical indications is


associated with an increased risk of adverse short-term maternal
outcomes: the 2004-2008 WHO Global Survey on Maternal and
Perinatal Health. BMC Medicine, v. 8, p. 71-81, 2010.

SPITZ, R. et al. Sentidos do Nascer: efeitos de uma exposição inte-


rativa na transformação da percepção sobre o parto e nascimen-
to. DIS, Universidade Ibéroamericana, Año 1, n. 1, p. 126–134,
2017.

THEROUX, R. Media as a Source of Information on Pregnancy and


Childbirth. Nursing for Women’s Health, v. 15, n. 1, p. 62–67, 2011.

TORLONI, M. R. et al. Portrayal of caesarean section in Brazilian


women’s magazines: 20 year review. Bmj, v. 342, n. 7792, p. 324-
332, 2011.

VAN GENNEP, A. Os ritos de passagem. São Paulo: Editora Vozes,


2014. (Coleção Antropologia)

197
WHO. WORLD HEALTH ORGANIZATION. The prevention and elimi-
nation of disrespect and abuse during facility-based childbirth.
International Journal of Rheumatic Diseases, 2012. Disponível
em <https://apps.who.int/iris/bitstream/handle/10665/134588/
WHO_RHR_14.23_eng.pdf?sequence=1>. Acesso em 21 nov. 2018.

_____. WORLD HEALTH ORGANIZATION. WHO recommendations


non-clinical interventions to reduce unnecessary caesarean sec-
tions. Geneva: World Health Organization; 2018.

YE, J. et al. Searching for the Optimal Rate of Medically Necessary


Cesarean Delivery. Birth, v. 41, n. 3, p. 237–244, 2014.

198 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E GÊNERO
COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO
COMUNICAÇÃO PÚBLICA E GÊNERO

DISPUTAS COMUNICATIVAS EM TORNO DE GÊNERO:


CRUZADAS E RESISTÊNCIAS NO BRASIL
E NA NOSSA AMÉRICA

Gean Gonçalves 1
Nelson Neto2

RESUMO

Nossa América, nos últimos anos, enfrenta um brusco


avanço do neocolonialismo patriarcal capitalista branco que re-
sultou na eleição de políticos de condutas que colocam em jogo
um retrocesso de direitos de cidadãs e cidadãos. Neste sentido, a
emergência está em perceber como estão constituídas as dispu-
tas comunicativas em torno de gênero, principalmente, a cruza-
da antigênero e as resistências tanto no Brasil quanto nos países
nossosamericanos. Este trabalho tem como objetivo, a partir de

1 Jornalista e doutorando no Programa de Pós-Graduação em Ciências da


Comunicação da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo
(USP). Bolsista de Doutorado do CNPq. Como pesquisador, volta-se aos direitos
da população LGBT, aos temas de gênero e sexualidade na comunicação social.
E-mail: geangoncalves@usp.br.
2 Jornalista, pós-graduado em Direitos Humanos na América Latina e
mestrando no Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Estudos
Latino-Americanos da Universidade Federal da Integração Latino-Americana
(UNILA). Pesquisador visitante na Escuela de Estudios de Género da Facultad de
Ciencias Humanas, na Universidad Nacional de Colombia, em Bogotá. Bolsista
de mestrado UNILA/DS e PROGRAD para participação de eventos. E-mail:
nelsonscneto@gmail.com.

201
uma perspectiva decolonial, expor alguns elementos importan-
tes dessa cruzada e propor uma mirada interseccional situada
que tenha como eixo central uma tomada urgente de consciência
de si entre os movimentos sociais que foram assaltados, como no
Brasil, inclusive no direito ao acesso a uma comunicação pública.
A perspectiva proposta se mostra essencial para a discussão de
políticas públicas inclusivas de gênero e defensoras de direitos
humanos que se encontram fortemente ameaçadas.

PALAVRAS-CHAVE: comunicação pública, LGBT, estudos de gênero,


estudos decoloniais, movimentos sociais.

INTRODUÇÃO

Em 1º de janeiro de 2019, o primeiro discurso de Jair Bol-


sonaro, como 38º presidente da República do Brasil, trouxe como
compromisso: “Vamos unir o povo, valorizar a família, respeitar
as religiões e nossa tradição judaico-cristã, combater a ideolo-
gia de gênero, conservando nossos valores” (FOLHA DE S.PAULO,
2019a, grifo nosso). A afirmação foi uma resposta às promessas
eleitorais e sinalizou que, no exercício do poder, o governo se
comprometia a livrar o País de “amarras ideológicas”.
Nas primeiras semanas da mais recente gestão federal, o
que se seguiu foram episódios envolvendo Damares Alves, ad-
vogada e pastora evangélica, que alcançou a função de ministra
da Mulher, Família e Direitos Humanos. Entre os mais marcantes,
há uma fala registrada em vídeo e veiculada nas redes sociais e

202 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E GÊNERO

pelo jornalismo nacional3, em que a ministra anuncia uma “nova


era” para o Brasil, onde “menino veste azul e menina veste rosa”.
Damares reagiu às críticas e à repercussão pública exaltando que
desejou fazer uma metáfora contra a “ideologia de gênero”.
Diferente do que pode transmitir a ênfase dada por Jair
Bolsonaro e seus representantes ao perigo “ideológico” dos de-
bates de gênero, não estamos diante de uma nova pauta pú-
blica estimulada desde a campanha de outubro de 2018 ou de
polêmicas que envolvem o comportamento humano. O combate
à ideologia de gênero reflete ações transnacionais movidas por
uma retórica reacionária antifeminista e anti-LGBT, de ataque à
pesquisa e às teorias sobre gênero, principalmente, quando cer-
tos sujeitos e grupos identificam tais debates como prejudiciais
aos arranjos tradicionais de família e à formação sexual de crian-
ças e adolescentes.
Enquanto fenômeno que pode ser observado pela ótica
das teorias da comunicação, principalmente na interface entre
deliberação social, política e comunicação pública, há indícios
de que uma cruzada antigênero faz parte da linguagem po-
lítica do cotidiano, em virtude da ação de atores sociais que
projetam, com cada vez mais afinco, apelos ao poder público.

3 Como nos exemplos de notícias a seguir: ‘Menino veste azul e menina


veste rosa’, diz Damares Alves (Folha de S. Paulo, 3 jan. 2019b, disponível em
<https://www1.folha.uol.com.br/poder/2019/01/menino-veste-azul-e-menina-
veste-rosa-diz-damares.shtml>; ‘Menino veste azul e menina veste rosa’, diz
Damares Alves em vídeo (Clarissa Pains, em O Globo, 3 jan. 2019, disponível em
<https://oglobo.globo.com/sociedade/menino-veste-azul-menina-veste-rosa-
diz-damares-alves-em-video-23343024>; ‘Fiz uma metáfora contra ideologia
de gênero’, diz Damares sobre vídeo (André Borges, em O Estado de S. Paulo, 3
jan. 2019, disponível em <https://brasil.estadao.com.br/noticias/geral,menino-
veste-azul-e-menina-veste-rosa-diz-damares-alves,70002665826>).

203
Ao mesmo tempo, reafirmam-se as tensões e resistências pro-
vocadas pelos movimentos de mulheres e pelos movimentos
LGBT na atualidade.
Este artigo tem a proposta de apresentar o gênero como
elemento que estimula discursos e fazeres na comunicação pú-
blica e na comunicação política. Assim, este texto considera na
última década as movimentações em torno da categoria gênero,
a começar pelo discurso antigênero de matriz católica, que teve
adesões de outras denominações religiosas, sobretudo as igre-
jas neopentecostais, alcançando uma centralidade nos temas de
interesse social e público por meio da política. O capítulo expõe
ainda alguns dos principais aspectos da gênese da expressão de
guerrilha “ideologia de gênero” e como ela está em disputa na
comunicação pública no Brasil e em nosso continente.

DE QUE GÊNERO ESTAMOS FALANDO?

Os estudos que analisam as lutas por direitos sexuais e


reprodutivos indicam que, em relação aos avanços sociais de
determinados grupos, montou-se em paralelo uma reação polí-
tico-moral contra intelectuais, ativistas, artistas, políticos e edu-
cadores em virtude da forte atuação desses nos temas de direi-
tos humanos, direitos das mulheres e direitos LGBT (JUNQUEIRA,
2017; CORRÊA, 2018; MISKOLCI, 2018). No Brasil, tal movimento
é fortemente sentido na esfera pública e midiática, a partir das
reações discursivas sentidas pela circulação de termos como “kit

204 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E GÊNERO

gay”4, “ideologia de gênero”5 e “escola sem partido”6.


Quanto ao fantasma que ronda a palavra gênero, ressalta-
-se que se trata de um conceito científico e político cunhado das
ciências sociais e humanas para referir-se à construção cultural
e social do sexo. Segundo a historiadora e antropóloga brasileira
Maria Luiza Heilborn (1994), o conceito de gênero se alinha à
noção de cultura. “Essa noção aponta para o fato da vida social,
e os vetores que a organizam como, por exemplo, tempo, espaço
ou a diferença entre os sexos, são produzidos e sancionados so-
cialmente através de um sistema de representações” (HEILBORN,
1994, p. 1). Dessa maneira, gênero é uma dimensão sociocultural
com base na distinção corporal e que impacta a organização da
vida pessoal, das relações afetivas e coletivas, além de apontar as
diferentes formas de desigualdades, privilégios e desvantagens
entre os sexos.

4 A expressão “kit gay” diz respeito ao material de formação sobre questões


de gênero e sexualidade do programa “Escola sem homofobia” em elaboração
pelo Ministério da Educação em 2011. O material foi apelidado dessa maneira
frente à oposição dos grupos conservadores e recebeu um veto da Presidência
da República, o que impossibilitou sua veiculação e distribuição.
5 A noção de “ideologia de gênero” marca o pânico moral contemporâneo
contra a emergência de debates sobre gênero e sexualidade nas sociedades
ocidentais. Foi cunhado por setores religiosos, mais especificamente nos textos
do então cardeal Joseph Aloisius Ratzinger (Papa Bento XVI), e como discurso
político é acionado contra avanços nos direitos de mulheres e LGBT.
6 Escola sem Partido é o modo como se tornou conhecida a reação às práticas
educacionais classificadas como “doutrinação política e ideológica” em sala de
aula. No Brasil, os defensores dessa ideia propõem a criação de leis municipais,
estaduais e federais contra o que denominam como abuso da liberdade de
ensinar, segundo eles, visões ideológicas, políticas e partidárias (ver mais
sobre o tema no capítulo sobre Comunicação Pública e Educação deste livro).

205
O conceito aponta para os sentidos de gênero ao redor do
mundo, para os movimentos de mulheres em prol de igualdade,
para o reconhecimento de identidades, de práticas e de desejos,
além de indicar sentidos e disputas em torno dos projetos de
homossexualidade, heterossexualidade, masculinidade, família,
violência, educação, saúde e justiça. Portanto, o gênero tornou-
-se uma das categorias analíticas mais significativas da atualida-
de para compreender o mundo e diz muito sobre a tarefa ética de
prescrever soluções às desigualdades. É sem dúvida um conceito
devedor do pensamento ocidental feminista e seus desdobra-
mentos nos séculos XX e XXI.
O sociólogo brasileiro Rogério Diniz Junqueira (2017)
expressa que o tom alarmista brandido contra o gênero e as
teorias de gênero decorrem de uma luta voltada a reafirmar
e impor valores morais tradicionais e pontos doutrinais da fé
católica e protestante. Para o autor, “ideologia de gênero” é um
sintagma inventado pela Igreja Católica e acolhido pelas diver-
sas denominações evangélicas após a Conferência das Nações
Unidas sobre a Mulher, realizada em Pequim em 1995. Como
discurso, se espraiou como um poderoso slogan na arena polí-
tica de dezenas de países.
Junqueira (2017) observa que, a partir de interpretações
do Vaticano, registradas em documentos da Cúria Romana, “ide-
ologia de gênero” é tratada como sinônimo de teoria de gênero
e não considera as vertentes plurais dos estudos de gênero. O
efeito desse rótulo político fabricado foi a frequente oposição
às ações voltadas a legalizar o aborto, criminalizar a homofobia
e a transfobia, legalizar o casamento igualitário, reconhecer a
homoparentalidade, estender o direito de adoção a casais do

206 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E GÊNERO

mesmo sexo, bem como políticas educacionais de igualdade de


gênero e de promoção do reconhecimento da diversidade sexual
e de gênero.
A ativista feminista e pesquisadora brasileira Sonia Corrêa
(2018) registra que o uso do conceito de gênero nos acordos
internacionais representou um movimento preocupante para o
Vaticano: o conceito de gênero trouxe consigo para a agenda de
direitos humanos demandas envolvendo especialmente o abor-
to, a contracepção e a homossexualidade. Corrêa (2018) também
alerta que a tensão em torno do gênero provocou ainda aproxi-
mações inesperadas, como entre o Vaticano e estados islâmicos.
Desde então, os ataques a gênero percorrem as arenas
transnacionais e a política da maioria das nações, com especial
intensidade em Nossa América. Há conexões pouco percebidas e
compreendidas, por exemplo, entre os ataques a Judith Butler7 e
as disputas eleitorais brasileiras de 2018.
Os sintagmas formulados passaram a circular midiatica-
mente de forma muito eficaz, além de ocupar um significativo
lugar na comunicação pública, visto que se prestam a promover
polêmicas, ridicularizações, intimidações e ameaças à implemen-
tação de legislações, políticas sociais e ações educacionais.
No contexto brasileiro, Corrêa (2018) chama atenção para
o modo como estamos a experimentar os efeitos dos discursos e
das práticas políticas antigênero:

7 Judith Butler é uma teórica norte-americana e professora da Universidade


da Califórnia, em Berkeley. Em 2017, foi alvo de protestos e de hostilidades
quando veio ao Brasil para um evento com o tema “Os fins da democracia”.
Explica-se que os episódios ocorreram em virtude de a autora ser uma das
mais relevantes referências contemporâneas dos estudos de gênero e da
teoria queer.

207
O extenso e profundo legado colonial do Catolicismo e os
impactos da expansão evangélica dos últimos vinte anos
nos fizeram interpretar a recente ira contra gênero como
“mais do mesmo”, ou seja, apenas como mais uma nova
onda de ataque religioso dogmático contra as pautas de-
mocráticas de gênero e sexualidade. (CORRÊA, 2018, p. 12).

Tais cruzadas antigênero têm tomado corpo no contexto


da expansão da influência evangélica no Poder Legislativo – o
que remonta à criação de uma bancada evangélica desde a Cons-
tituinte de 1988 – e da crise do Estado laico, proporcionada prin-
cipalmente pela crescente capacidade de mobilização eleitoral
das igrejas e pelo estímulo dos dirigentes partidários para que
religiosos ocupem a esfera pública.
O sociólogo brasileiro Richard Miskolci (2018) chama aten-
ção para o fato de que logo após o reconhecimento das uniões
entre pessoas do mesmo sexo pelo Supremo Tribunal Federal
brasileiro, o então deputado Jair Bolsonaro encabeçou um mo-
vimento contra um material em preparação pelo Ministério da
Educação que teria como finalidade enfrentar a discriminação e a
violência contra homossexuais, bissexuais, travestis e transexuais
nas escolas. O material foi popularizado pelo deputado como “kit
gay”, que logo contou com a oposição da bancada evangélica e,
de forma menos visível, mas até mais numerosa, de congressis-
tas católicos e demais parlamentares conservadores.

O interesse evangélico, sobretudo neopentecostal, de pro-


tagonismo em um congresso majoritariamente católico
fez com que a cobertura midiática passasse a impressão

208 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E GÊNERO

de que eram só eles a evocarem o fantasma, à época, de


um suposto perigo homossexual. Tal espírito ganhou força
maior com a igualação jurídica das uniões entre pessoas
do mesmo sexo com o casamento, em 2013, ano em que –
não por acaso – o Governo Dilma Rousseff permitiu que se
transferisse a presidência da Comissão de Direitos Huma-
nos da Câmara para o pastor Marcos Feliciano e o deputa-
do Anderson Ferreira (PR-PE) apresentou o PL 6583/2013
propondo o Estatuto da Família. (MISKOLCI, 2018, p. 6).

O que se seguem são os debates em torno dos planos na-


cional, estaduais e municipais de educação. O movimento Escola
Sem Partido, que buscava combater o que definia como doutri-
nação marxista e política nas escolas, passa a ter como alvo a
“ideologia de gênero”. Tais discursos serão capturados cada vez
mais por políticos e por correligionários a ponto de garantir uma
centralidade discursiva nos embates eleitorais de 2018.

O espectro “ideologia de gênero” delimita um campo dis-


cursivo de ação que podemos reconhecer como unindo
imaginariamente uma suposta ameaça de retorno do co-
munismo ao pensamento acadêmico feminista estabele-
cendo um enquadramento da política em torno do medo
de mudanças na ordem das relações entre homens e mu-
lheres e, sobretudo, da extensão de direitos a homossexu-
ais. Discussões macropolíticas são substituídas por uma
retórica que traz à opinião pública o diagnóstico de que
a origem de problemas sociais resulta de mudanças com-
portamentais que precisariam ser combatidas. (MISKOLCI,
2018, p. 7).

209
A CRUZADA ANTIGÊNERO E A COMUNICAÇÃO PÚBLICA

A pesquisadora das ciências da comunicação Heloiza Ma-


tos (2006) explica que o conceito de comunicação pública este-
ve por muito tempo relacionado com a comunicação estatal e
a implantação da radiodifusão, e, mais tarde, com a televisão
pública. Contudo, o conceito é mais amplo e engloba a relação
comunicacional de exposição, negociação e tomada de decisões
relativas à vida pública do país.
Neste caso, os ataques a gênero implicam em discursos
que adentram e repercutem no senso comum político. Matos
(2006) percebe que a comunicação pública se desloca de uma
interpretação coletiva do conteúdo midiático para o espaço inter-
disciplinar da política, onde se articulam os interesses públicos e
sociais com o exercício do poder.
Todavia, é imprescindível lembrar que no contexto brasilei-
ro as mídias são um dos principais espaços do teor missionário
da fé protestante. Os meios de comunicação como rádio, tele-
visão e internet são agentes da religião quando abrem espaço
para conteúdos religiosos de pregação ou quando são domínios
(aquisições e concessões públicas) de lideranças evangélicas. O
estudioso brasileiro da comunicação Richard Romancini (2018)
aponta que, para os grupos evangélicos,

talvez o principal marco de sua entrada na mídia seja a in-


serção no mercado televisivo, com a compra da Rede Re-
cord de Televisão pela IURD [Igreja Universal do Reino de
Deus], em 1989. Esta emissora já possuía cobertura nacio-
nal e passou a ser modernizada pela igreja. O movimen-

210 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E GÊNERO

to feito pela IURD, que parte da sublocação de horários


nas grades de programação de rádios e televisões para a
compra de emissoras, é almejado por outras igrejas, no
entanto, depende de estrutura empresarial que poucas
atingem. (ROMANCINI, 2018, p. 93, interpolação nossa).

O que se percebe é que a aquisição de visibilidade pelas li-


deranças religiosas (que também são sujeitos institucionais da
política) representa uma possibilidade desses agentes ocuparem
uma interlocução majoritária nas discussões políticas. Nos temas
de gênero, percebe-se que a informação transmitida por tais agen-
tes, nas mensagens e contextos de fala, é na atualidade moldada
por uma cruzada moralizante, que tem como finalidade modificar
a justiça e a política, mas que no fundo cerceia as liberdades e as
conquistas legais de grupos ainda mantidos no limbo da cidadania.
Apesar da proximidade com o fenômeno, para nós, é percep-
tível que o processo eleitoral brasileiro de 2018 foi impactado por
estratégias discursivas antigênero, já que contou com a circulação
por meio de aplicativos de comunicação e de redes de sociabilidade
digitais de notícias falsas (fake news) e informações com o intuito
de interferir de forma ilegítima no debate público sobre as candi-
daturas. Se a desinformação não é, propriamente, um fenômeno
novo na comunicação coletiva, a circulação de rumores e a difusão
de informações deturpadas no ambiente digital (incluindo redes e
aplicativos de diálogo) tornam-se componentes preocupantes ao
jornalismo, para a comunicação social e para a democracia.
A Justiça Eleitoral brasileira tem, como missão, zelar pela
veiculação de discursos políticos propositivos e de eventuais crí-
ticas às propostas e programas de governos dos candidatos. Po-

211
rém, o que se percebeu no cotidiano da disputa eleitoral de 2018
foi algo de outra natureza. A calúnia e a maledicência ocuparam
a centralidade da política, evidenciando que o sucesso de muitas
das fake news se dá com base nos discursos de ódio e no atraves-
samento de ataques a gênero, sem uma intervenção tempestiva
da Justiça durante o período de campanha política.
Para tentar compreender tal hipótese, podemos tentar iden-
tificar a natureza das principais fake news que ganharam projeção
no período eleitoral de 2018. Apoiados nos projetos jornalísticos de
fact-checking, isto é, o serviço técnico de verificação da veracidade
das notícias, trouxemos a seguir as principais versões de notícias
políticas que envolviam moralidades e temas de gênero e sexuali-
dade encontradas na Agência Lupa (primeira empresa especializa-
da em checagem do Brasil), no projeto Fato ou Fake (do Grupo Glo-
bo) e no projeto Aos Fatos (mantido por uma rede de profissionais).

QUADRO 1 – Principais informações identificadas como falsas e


relativas a sexo e gênero durante a campanha eleitoral

• Livro exibido por Bolsonaro no Jornal Nacional


era parte do Kit Gay e a Câmara realizou
seminário LGBT infantil
• A candidata à vice-presidente Manuela D’Ávila
usou camiseta com frase “Jesus é Travesti”
• Haddad disse que criança vira propriedade
do Estado aos 5 anos e pode ter seu gênero
escolhido

212 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E GÊNERO

• Jean Wyllys declarou que pretende criar lei


para obrigar casamento gay em igrejas
• Haddad criou ‘kit gay’ para crianças de seis
anos
• Simulação de sexo em peça de teatro tem
relação com Haddad
• Ilustração de ato sexual foi usada em cartilha
do MEC para crianças
• Haddad é acusado de estuprar menina de 11
anos
• Livro de Haddad defende ‘relação sexual entre
pais e filhos’

Fonte: Conteúdo pinçado pelos autores nos sites <piaui.folha.uol.com.br/lupa>,


<g1.globo.com/fato-ou-fake> e <aosfatos.org>.

Além desse conteúdo, foi frequente a circulação de imagens


e vídeos alterados que envolviam cenas de sexo, pedofilia, inces-
to, produtos para estimular a sexualidade infantil. Observa-se a
ideia de que certos agentes políticos são inimigos das crenças
religiosas. Há ainda a imagem da criança sob ameaça, estratégia
bem-sucedida para atrair a atenção popular e conseguir o veto
dos possíveis eleitores a determinadas candidaturas.
Retomam-se, no caso de Jair Bolsonaro, as “polêmicas”
em torno do material educacional de combate à discriminação
em virtude da identidade de gênero e da orientação sexual que
deram visibilidade em sua carreira política, mas com a novidade

213
de apresentar um livro infantil que nunca fez parte do material
didático. A encenação foi realizada em pleno Jornal Nacional (TV
Globo), espaço jornalístico de mais prestígio e audiência da tele-
visão brasileira.
Tentar entender a produção dessas notícias falsas ajuda a
denunciar como operam os discursos antigênero, principalmente
aqueles com fins políticos na comunicação pública. Contribui ain-
da para identificar quem são os atores envolvidos nessas ofensi-
vas, seus interesses, formas de financiamento e estratégias, além
de perceber seus limites e contradições. Para nós, é enganosa a
ideia de que os grupos que as formam são “ferrenhos fundamen-
talistas religiosos”. Talvez possam ser vistos como agentes mo-
rais de ocasião que temem a expansão dos direitos sexuais e de
gênero ou como agentes com padrões mais conservadores com
propostas à direita, mas que sobretudo sabem instrumentalizar
as novas e velhas mídias, elaborar alianças e entrelaçar discursos
políticos para frear proposições discordantes.
Dentro das instituições religiosas há sujeitos adeptos e en-
gajados em lutas por reconhecimento dos direitos feministas e
LGBT, assim como dentro de grupos vulneráveis há quem tenha
aceito as propostas de uma direita religiosa pela descrença com o
Estado e com os agentes políticos. Com isso se instaura um novo
dilema na complexa comunicação pública: será possível tecer di-
álogos e alianças com os agentes de um governo que se vale do
combate à ideologia de gênero? Devemos fazê-lo para garantir
políticas públicas? Ou partir para uma reação radical? Com quem
fazê-lo? Talvez, a saída seja deslocar nossa atenção para novas
possíveis interlocuções.

214 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E GÊNERO

NOSSA AMÉRICA, REGIONAL E GLOBAL: DESAFIOS, DIÁLO-


GOS E ALIANÇAS

O contexto político, cultural e social em que se insere este


trabalho obriga um posicionamento crítico. O(a) leitor(a) já deve
ter percebido que neste trabalho o termo adotado não será de
‘América Latina’ para a nossa região e sim ‘Nossa América’. Nos-
sa América que avança para além do histórico ensaio do cubano
José Martí8, mas que considera uma reapropriação e olhar deco-
lonial dos saberes, culturas, política e própria história a partir de
pensadoras e pensadores contemporâneos como da chicana Glo-
ria Anzaldúa (e sua obra The New Mestiza9), de Lélia Gonzalez (e
sua contribuição em Améfrica Ladina10) e tantos outros e outras
nossamericanos intelectuais e ativistas por uma Nossa América
menos colonial e que:

a pesar de situarse en el ámbito de la producción ideo-


lógica, el discurso sobre el ‘mestizaje’ [e nossamericano]
no es, para decirlo de algún modo, un asunto meramente
‘superestructural”. (...) el discurso sobre el mestizaje no
es superestructural porque acaba por forjar identidades,
estratégias de ascenso socio-economico, conductas ma-
trimonales e imaginários colectivos. (SILVIA, 2010, p. 116,
interlopolação e omissão nossas).

8 MARTÍ, J. Nuestra América. Buenos Aires: Losada, 1980.


9 ANZALDÚA, G. La conciencia de la mestiza: rumo a una nova consciencia.
Revista Estudos Feministas, v. 13, n. 3, p. 704-719, 2005.
10 GONZALEZ, L. Por um feminismo afro-latino-americano. Revista Isis
Internacional, vol. IX, p.133-141, 1988.

215
Portanto, avaliamos como importante este posicionamento
teórico-político que coloque em evidência vozes outras por vezes
marginalizadas dentro de uma lógica acadêmica colonialista. O
que estamos classificando como ‘cruzada antigênero’ não é um
fenômeno isolado e particular do Brasil, mas uma cruzada que faz
parte de um processo maior do que nomearemos, em concordân-
cia com bell hooks (2017), como ação neocolonial patriarcal capita-
lista branca que já se articula há algum tempo por Nossa América.
Recentemente a Argentina protagonizou um intenso debate sobre
a legalização do aborto voluntário no país que mobilizou centenas
de milhares de mulheres às ruas, e assim mesmo houve discursos
inflados da oposição ao direito das mulheres de abortar: “Al otro
lado del valado predominan las familias arropadas por imágenes
religiosas, telas celestes y un feto gigante. ‘Dicen que no tiene vida,
dicen que no tiene voz, aquí estamos lo que luchamos por las dos
vidas’” (CENTENERA, 2018). Neste ponto, o debate sobre o dever
do Estado em garantir, por meio de políticas públicas, o direito ao
aborto já estava tomado por um discurso moralizante de gênero, e
‘desde allí, el colectivo ‘mujeres’ aparece en la agenda de políticas
públicas” (FORTUNA; MARTÍN; ANDRADE, 2013, p. 54).
É preciso um extenso trabalho, e ainda muito ficará de fora,
para demonstrar como se articulam, em suas individualidades e
em sua complexidade, as cruzadas – agora não mais no singular
– antigênero em Nossa América. Estes discursos aparecem mais
evidentes em processos de debates nas câmaras de Senado, de
deputados e até mesmo nas esferas mais altas da Justiça – como
no México, em que é possível ler notícias como “Ofensiva en Mé-
xico para incluir aborto e ideología de género en la Constituición”
(ACTUALL, 2019).

216 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E GÊNERO

Essa agenda conservadora e capitalista emergiu também


em países como Paraguai11, Venezuela12, Guatemala13 e em tan-
tos outros de Nossa América. Neste sentido, algumas questões
estão postas por esta pauta que se articula nos mais diversos
estratos da vida pública e privada da população nossamericana.
Essa articulação restringe o debate sobre gênero a um lugar li-
mitado de ação, negando as conquistas progressistas de gênero
que vinham alcançando um lugar significativo tanto na acade-
mia, como na cultura e na política.
O debate restrito acerca das relações de opressão de classe
já está colapsado (hooks, 2017), o que não significa que esteja
superado em sua interseccionalidade com outras categorias. O
mesmo vale para o debate que se restringe ao que chamamos de
“gênero e sexualidade”. O que tal momento nos pede? Chegamos
ao ponto em que o neocolonialismo patriarcal capitalista e suas
muitas cruzadas antagonistas ao progresso nos exigem dar um
passo atrás. A filósofa afro-americana bell hooks alerta, trazendo
a voz das feministas brancas aliadas, que “no entender el neoco-
lonialismo es no vivir totalmente el presente” (hooks, 2017, p. 69).

11 EFE. Gays se casan simbólicamente en Paraguay por el matrimonio


igualitario. El Nuevo Herald. América Latina. 18 de jul. 2015. Disponível
em <https://www.elnuevoherald.com/noticias/mundo/america-latina/
article27700561.html>. Acesso em 9 mar. 2019.
12 VOCES VISIBLES. Venezuela necesita una Ley de Igualdad de Género.
Voces Visibles. 3 de jul. 2015. Disponível em <http://www.vocesvisibles.com/
protagonistas-en-femenino/ley-de-igualdad-en-venezuela>. Acesso em 9 mar.
2019.
13 BABIO, C. Q. Guatemala, el segundo país con mayor desigualdad de género
en Latinoamérica. Plaza Pública, 21 mar. 2017. Disponível em <https://
www.plazapublica.com.gt/content/guatemala-el-segundo-pais-con-mayor-
desigualdad-de-genero-en-latinoamerica>. Acesso em 9 mar. 2019.

217
Assim surge a urgência de uma análise crítica-social que
considere os diversos marcadores, a ponto de nos perguntamos:
de qual mulher estamos falando? De qual homem estamos falan-
do? De quais LGBTI? E para além disso, com quais perspectivas?
Estas perguntas nos desafiam a compreender a complexidade em
que estamos sujeitados a partir de diferentes marcadores e pode-
remos encontrar relações de poder em gênero nos mais diversos
temas da vida cotidiana e política de Nossa América, em nível re-
gional e global. Mais à frente, traremos de exemplos relacionados
à situação dos refugiados e refugiadas da região nossamericana
e um caso comparativo entre o pós-apartheid sul-africano e o
processo de paz na Colômbia – ou sobre como estamos perden-
do a oportunidade, sobretudo dentro da comunicação pública,
de refletirmos e agirmos sobre os ‘pactos de gênero’ que geram
precarizações de direitos e prejuízos à dignidade humana.
Muitos movimentos políticos e intelectuais, sobretudo com-
postos por mulheres, já compreenderam internamente que a su-
jeição para a constituição de sujeitos está construída e atravessa-
da por diversas categorias que operam na distribuição de poderes
e, ao mesmo tempo, de vulnerabilizações e precarizações da vida
cotidiana, pública e privada. Teorias feministas e de gênero con-
temporâneas, sobretudo aquelas acionadas através dos movi-
mentos feministas negros nossamericanos, também já reconhe-
ceram as limitações do debate somente em torno de gênero ou de
classe. Em vez disso, avaliam que é preciso situar os sujeitos em
outras categorias como raça, geografia, capital econômico, cultu-
ral, político e social, além de muitas outras, configurando o que
é denominado como interseccionalidade situada (YUVAL-DAVIS,
2015). Esta visão ampliada permite novas formas de articulações

218 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E GÊNERO

de resistência e, portanto, outras pontes de aliança e diálogos


frente aos desafios impostos pela nova agenda conservadora. Não
é fácil refletir e agir a partir destas intersecções, pois exige de cada
grupo auto-organizado uma autoconsciência de si, do particular
ao coletivo de sua história e do seu lugar de fala (RIBEIRO, 2017).

La única posibilidad de que emerja una América autocons-


ciente es la de encontrar el modo de unir Latinoamérica
en el plan de sus elites sindicales, culturales y políticas – y
evidentemente de pensamiento – para que generacional-
mente, en grupo, sentimiento y haciendo sentir sus exis-
tencia comience, por primera vez, la unidad independien-
te y autónoma de la que fue una América Latina unida,
pero colonial, y siempre heterónoma – heteronomía cuyo
centro se ha situado en Europa y desde hace algún tiempo
igualmente en Estados Unidos. (DUSSEL, 1983, p. 144).

O que está em jogo é o desafio de como se podem articular


pautas de modo regional e global em uma Nossa América que
enfrenta estes avanços conservadores, em que “el pensamiento
neocolonial es la base de muchas prácticas culturales dentro de
la cultura occidental patriarcal capitalista supremacista blanca”
(hooks, 2017, p. 67).
Trazemos neste ponto o exemplo presente nos movimen-
tos diaspóricos de “migração” e “refúgio” em Nossa América. De
acordo com dados publicados pelo Alto Comissariado das Nações
Unidas para Refugiados (ACNUR)14 no Brasil, em 2017, das cinco

14 ARCOVERDE, L.; SOUSA, V; ARAÚJO, P. Brasil registra número recorde de


solicitações de refúgio em 2017. G1 Mundo, 10 jan. 2018. Disponível em

219
nacionalidades que mais solicitaram refúgio ao País, três são de
nacionalidades de Nossa América: Venezuela, Cuba e Haiti.
Neste sentido, se tivesse ocorrido, de fato, uma agenda
ampla de debate em torno da integração nossamericana, estas
mulheres e homens estariam em uma condição de solicitantes
de refúgio ou apenas em fluxo de mobilidade entre os países
da região? E quem são estes sujeitos, sua cor, gênero, sexuali-
dade, classe, capital social, econômico, político e cultural? Como
as agendas dos movimentos negros, feministas, de sexualidade,
sindicatos e outros grupos podem ser integradas de maneira a
enfrentar a questão migratória e/ou da precarização da vida das
pessoas afetadas?
Ainda no mesmo exemplo diaspórico, não há como deixar
de lembrar que em 201815, o primeiro grupo de migrantes, em
sua maioria de hondurenhas e de hondurenhos, que atraves-
saram Nossa América central rumo ao norte eram dezenas de
lésbicas, gays, transgêneros, que foram barrados na fronteira do
México com os Estados Unidos por tropas que armaram barrica-
das e cercas de arame.
Uma pergunta, dentre muitas outras, pode ser posta aqui:
como, nestes dois casos explicitados, em especial o segundo, os
marcadores de gênero – a partir da perspectivas dos sujeitos en-
volvidos – mudam das questões de gênero e sexualidade para o

<https://g1.globo.com/mundo/noticia/brasil-registra-numero-recorde-de-
solicitacoes-de-refugio-em-2017.ghtml>. Acesso em 22 de fev. 2018.
15 G1. “Primeiros migrantes de caravana chegam à fronteira México-EUA”.
G1 Mundo, 14 nov. 2018. Disponível em <https://g1.globo.com/mundo/
noticia/2018/11/14/migrantes-centro-americanos-chegam-a-fronteira-
mexico-eua.ghtml>. Acesso em 22 de fev. 2018.

220 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E GÊNERO

marcador de diaspóricos (ou refugiados)? E ademais, o que se per-


de ao deixarmos de pensar questões de relações de gênero, nestes
casos, e focarmos apenas em termos de migração e refúgio?
Quando não interseccionadas de modo situado, essas pau-
tas nos levam a perder não somente o debate em torno das desi-
gualdades de gênero, mas perdemos, sobretudo, a oportunidade
de apostarmos em outras possíveis sociedades menos violentas,
menos desiguais, mais livres e democráticas. Passamos para uma
reflexão breve e comparativa sobre dois casos em que, aparente-
mente, ‘não caberia’ um debate em torno das relações de gêne-
ro, dentro da comunicação pública, que são os casos do debate
público pós-apartheid na África do Sul e sua comparação com o
atual processo de paz na Colômbia.
No caso da África do Sul, Robert Morrell (2000) expõe como
as relações de gênero estiveram no centro do debate institucio-
nal pós-apartheid resultando em mudanças significativas não só
na representatividade de mulheres em postos de trabalho públi-
cos, como também desafiando os homens sul-africanos a aceitar
estas mudanças. Os homens começaram então a se questionar:
quem (e o quê) é o homem sul-africano? Não é difícil imaginar
que, junto a um processo de liberação tanto das mulheres quanto
dos homens, houve e ainda há resistências ao que muitos movi-
mentos feministas sul-africanos estão propondo como sociedade
pós-apartheid. Ainda não se pode perder de vista o que Morrell
(2000, p. 107) destaca: não há como levar a sério uma análise de
gênero que não leve em consideração os marcadores de raça e
classe, mesmo na África do Sul. Pois reduzir o debate ao marcador
de gênero é fragilizar as estratégias políticas, sociais e culturais
oportunizando o assalto da agenda pelo neocolonialismo branco.

221
De fato, Morrell aponta que entre o fim do século XIX e início do
século XX, o Congresso sul-africano chegou a ser ocupado por
25% por mulheres. A África do Sul foi ainda um dos primeiros pa-
íses a legalizar a união entre pessoas do mesmo sexo e a aplicar
estas mudanças em um debate amplo em sua sociedade.
Passamos então ao caso do processo de paz ocorrido na
África do Sul pós-apartheid para o atual processo de paz pelo qual
a Colômbia passa após décadas de um intenso conflito armado16
envolvendo Estado, paramilitares, guerrilheiros e as FARC – o que
remete a quase 6,5 milhões de pessoas forçadamente deslocadas
pelos conflitos em todo o país. Dentro deste número estão:

• 3.301.848 mulheres e 3.441.64 homens;


• 35% menores de 18 anos;
• 7% maiores de 60 anos;
• 87% das pessoas forçadamente deslocadas são de zo-
nas rurais do país.

Falar sobre o conflito armado na Colômbia ultrapassa a


figura conhecida de Pablo Escobar e do narcotráfico. Não trata-
remos neste trabalho de historicizar todo o processo que se ini-
ciou nos anos 1960 com uma forte resistência de esquerda frente
ao liberalismo econômico que, em seu momento mais extremo
(anos 2000) já havia se convertido em um pesado financiamento

16 Os dados e informações que seguem foram recolhidos em visita do autor


Nelson Neto à exposição “El Testigo: memorias del conflicto armado colom-
biano en la lente y la voz de Jesús Abad Colorado” no Museu Caustro de San
Agustin da Universidad Nacional de Colombia, no dia 9 de março de 2019.

222 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E GÊNERO

armamentista a partir do narcotráfico. Dentro dos grupos mais


violentos estão o de ultradireita chamado Autodefesas Unidas da
Colômbia (AUC).
Houve dentro desse violento conflito um recorte de gênero.
Foram registrados, de 1960 até 2019, 15.738 vítimas de violência
sexual, das quais 15.673 são civis que não estavam envolvidas em
qualquer lado do conflito e apenas 64 eram combatentes. Tanto
paramilitares, agentes do Estado e guerrilha são responsáveis por
estas ações de violência sexual. Dentre os delitos identificados:

• 5.286 casos foram de autoria dos paramilitares;


• 4.829 casos foram cometidos pela Guerrilha;
• 315 casos foram cometidos pelo Estado.

Quando, em março de 2016, o país iniciou um largo pro-


cesso de paz que inclui o desarmamento tanto de paramilitares
alinhados à direita e ultradireita, quanto da Guerrilha, ainda hou-
ve 980 casos de violência sexual identificados já como “grupo
desmobilizado”, ou seja, os grupos tanto de paramilitares como
guerrilheiros desarmados.
Com estes dados, reduziremos o debate do conflito armado
na Colômbia apenas ao narcotráfico (“guerra contra as drogas”),
ou vamos incluir também outros marcadores e recortes intersec-
cionais como raça-etnia, geografia (campesinos e vida urbana),
geração, e gênero?
Por exemplo: durante o conflito armado na Colômbia houve
uma brusca invasão paramilitar a uma comunidade étnica cha-
mada Wayúu. Esta comunidade é conhecida pelo importante pa-

223
pel da mulher em sua comunidade, o que resulta em um sistema
de relação de poder entre gêneros em que “el matriarcado es una
consecuencia indirecta del modo de vida” (HOSTEIN, 2010, p.7).
Sobre invasão podemos encontrar a resistência e a reivindicação
de uma de suas líderes wayúu Suiza Karmen Ramízez Boscán:

Los abusos sexuales contra niñas, niños y mujeres wayúu,


comenzaron a mostrarse cuando llegaron los paramilita-
res a las comunidades a hacer de las suyas.
(…) Dice que lamentablemente siempre fue difícil manejar
el tema por cuestiones de honor en las familias y que es
triste que solo 38 casos hayan podido ser investigados.
Reflexiona sobre la solución al problema y dice que aunque
la mujer wayúu pueda participar en las tomas de decisio-
nes y tener posesiones, no significa que ella tenga el pode
aunque así lo parezca y aunque así lo repliquen algunas de
ellas, por lo tanto ‘el Estado debe tomar cartas en el asun-
to, el pueblo wayúu debe iniciar transformaciones y deben
ser las mismas mujeres, las que los juzguen y condenen’”
(EL HERALDO, 2016, destaque e omissões nossas).

Pensar e construir uma comunicação pública que enfrente


estas cruzadas é também nos colocar um desafio sobre quais so-
ciedades possíveis desejamos. Como podemos ver, essa cruzada
antigênero é apenas uma microdinâmica de contraposição frente
a uma série de iniciativas antidireitos fundamentais da pessoa
humana que incluem debates amplos e que transpassam cotidia-
namente a constituição de sujeitos, sociedades e suas culturas.
Neste sentido:

224 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E GÊNERO

El problema de los derechos humanos no puede seguir


circunscrito a la esfera de lo público, como una repetición
monótona de las normas que deben acatar tanto el Estado
como los ciudadanos. Su presencia, como temática caden-
te del mundo contemporáneo, es en principio producto de
un cambio en la sensibilidad colectiva que afecta nuestra
manera de entender tanto el quehacer político como las
relaciones amorosas, modulación afectiva que sólo de ma-
nera secundaria busca expresión en las estructuras legis-
lativas. La tradicional división entre público y lo privado,
revela en este caso su carácter arbitrario, pues al tratarse
de la estética social (…), es posible no trascender el umbral
del ágora o la calle para adentrarnos en las raíces afecti-
vas, familiares y interpersonales, de la que se alimente la
ética ciudadana. Pensar dentro de la lógica excluyente de
lo público y lo privado es colocarnos en una perspectiva
que desconoce la dimensión delante de lo afectivo, como
si la acción política nada tuviera que ver con las reacciones
de poder que se establecen en la intimidad. Es hora de
superar un planteamiento sobre los derechos humanos
desde la juridicidad visible de los macro discursos ordena-
dores del Estado y la nación, macro expositivo que no deja
ningún espacio para abordar, en su carácter de conflictos
actuales de poder, aspectos hasta ahora relegados a la
sombra de la dinámica familiar y la vida privada. (RESTRE-
PO, 1994, p. 11, omissão nossa).

Ainda diante nas interseccionalidades que devem mar-


car a presente análise, é interessante a interpolação da filósofa
afro-americana Angela Davis (2018) ao afirmar que é preciso ser
mais do que contra o racismo: é necessário ser antirracista. O que
se constrói nessa lógica frente às agendas neocoloniais em Nos-

225
sa América e a um globalismo capitalista, está em uma possível
ação mobilizadora política, cultural, social e intelectual: é preci-
so que também os movimentos sejam anticapitalistas, anticolo-
niais, antissexistas, antilgbtfóbicos, antimisóginos, exigindo uma
alfabetização radical dos afetos frente às desigualdades e vio-
lências colocadas na atual agenda. “El tema de la afectividad es
una magnifica puerta de entrada para emprender una reflexión
sobre el maltrato y la intolerancia que cunden, de manera sutil, el
mundo contemporáneo”. (RESTREPO, 1994 p.25).
Ainda é preciso avançar no campo dos afetos para que,
estrategicamente, a interseccionalidade entre as mais distintas
agendas dos movimentos afetados pelo neocolonialismo patriar-
cal capitalista branco possam se articular a um movimento de
real ação contra as desigualdades e violências.

(...) padecemos de un analfabetismo afectivo (...). Anal-


fabetismo que nos impide encontrar claves para mejorar
nuestra vida cotidiana. Basta echar una ojeada a la familia
para darnos cuenta del monto de sufrimiento que carga-
mos y constatar que aquello que por definición debería ser
un nido de amor se convierte con frecuencia en foco de
violencia. Hasta husmear en la relación de pareja para dar-
nos cuenta del maltrato y el dolor que se anidan en la con-
vivencia diaria. (RESTREPO, 1994, p. 29, omissões nossas).

Esta pedagogia do afeto como importante ferramenta à


construção de pontes fundamentais entre os diversos movimen-
tos sociais, políticos, econômicos e culturais exige um processo
de escuta bastante profundo de alteridade para os encontros das
agendas, sobretudo no campo da comunicação pública.

226 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E GÊNERO

O que podemos fazer? Como? Com quem? Que táticas


devem ser usadas? Como definir uma estratégia que seja
acessível a todas as pessoas, incluindo um público amplo
cujos níveis de despolitização são capazes de fazer atroci-
dades parecerem aceitáveis? Qual é nossa visão? Como as-
segurar que “nós estamos falando a “todas as pessoas”?
Como catalisar e estabelecer conexões entre movimentos
sustentáveis, transfronteiriços e radicais? Esses são os ti-
pos de perguntas que um grande número de ativistas se
faz diariamente, perguntas que estão ancoradas no pre-
sente e que darão forma a nosso futuro.
É fácil percebermos o ânimo e simplesmente desistirmos.
Não há vergonha nisso. Afinal, nós nos dedicamos a uma
luta que, quando observada a partir de um referencial po-
lítico convencional e pelo prisma dos meios de comunica-
ção de massa, parece invencível. Por outro lado, se dermos
um passo para trás, olharmos os fatos a partir de um ân-
gulo mais amplo, refletindo sobre o que está acontecendo
em todo o mundo e sobre a história de luta, a história dos
movimentos de solidariedade, fica mais nítido, às vezes
até óbvio, que, graças à vontade, aos sacrifícios e às ações
do povo, forças aparentemente indestrutíveis podem ser
facilmente destroçadas. (DAVIS, 2018, p. 17).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Exploramos até aqui os modos como vem se constituindo


uma cruzada antigênero no Brasil e os modos como tal cruzada
se espraia nos discursos midiáticos e nas ações de políticos, de
modo a condicionar a comunicação pública a uma falsa interpre-
tação sobre o que querem e como atuam grupos de mulheres

227
e movimentos LGBT. Em seguida, passamos a exercitar o olhar
para a percepção da presença dessa cruzada na Nossa América
em diferentes contextos e cenários. Completamos essa trajetória
com a proposição de uma mirada interseccional como modo de
compreender as desigualdades de gênero em outros aspectos
contemporâneos das nossas sociedades, além de propor a inter-
seccionalidade como instrumento que promove alianças afetivas
entre diferentes protagonistas sociais que se colocam no comba-
te às cruzadas (no plural) que afetam a consolidação de culturas
de justiça, liberdade e igualdade na Nossa América.
Desse modo, a autoconsciência sobre nossa sujeição deve
ser uma busca constante contra as várias cruzadas conservado-
ras que estão se apresentando em Nossa América. Angela Davis
(2018) afirma que a liberdade é uma luta constante. E “la libertad
es más libre en la medida en que tiene clara consciencia de todos
los datos que constituyen su ser personal”. (DUSSEL, 1983, p. 139).
Analisar as disputas comunicativas em torno das relações
de poder de gênero fora das teorias feministas, sobretudo das te-
orias feministas nossamericanas negras e interseccionais, parece-
-nos limitar o olhar e correr o risco de leituras, proposições e ações
rasas e colonialistas. A comunicação social propõe uma interdisci-
plinaridade aos agentes do campo de modo que possam agir na
mediação social. O que se percebe agora é que para lidar com es-
tes desafios moralizantes que tendem a marcar o debate em torno
de políticas públicas de gênero, os agentes da comunicação terão
ainda que repensar a comunicação pública como espaço de leitura
da complexidade da vida e dos sujeitos – um caminho possível
para tecer alianças entre agendas e protagonistas sociais, mas
principalmente, como estratégia de resistência em Nossa América.

228 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E GÊNERO

REFERÊNCIAS

ACTUALL. Ofensiva en México para incluir aborto e ideología de


género en la Constituición. Actuall. Vida, 11 fev. 2019. Disponível
em <https://www.actuall.com/vida/ofensiva-en-mexico-para-in-
cluir-aborto-e-ideologia-de-genero-en-la-constitucion/>. Acesso
em 9 mar. 2019.

ANZALDÚA, G. La conciencia de la mestiza: rumo a una nova cons-


ciencia. Revista Estudos Feministas, v. 13, n. 3, p. 704-719, 2005.

ARCOVERDE, L.; SOUSA, V; ARAÚJO, P. Brasil registra número recor-


de de solicitações de refúgio em 2017. G1 Mundo, 10 jan. 2018.
Disponível em <https://g1.globo.com/mundo/noticia/brasil-
-registra-numero-recorde-de-solicitacoes-de-refugio-em-2017.
ghtml>. Acesso em 22 fev. 2018.

BABIO, C. Q. Guatemala, el segundo país con mayor desigualdad


de género en Latinoamérica. Plaza Pública, 21 mar. 2017. Dis-
ponível em <https://www.plazapublica.com.gt/content/guate-
mala-el-segundo-pais-con-mayor-desigualdad-de-genero-en-
-latinoamerica>. Acesso em 9 mar. 2019.

BORGES, A. ‘Fiz uma metáfora contra ideologia de gênero’,


diz Damares sobre vídeo. O Estado de S. Paulo, Geral, 3 jan.
2019. Disponível em <https://brasil.estadao.com.br/noticias/
geral,menino-veste-azul-e-menina-veste-rosa-diz-damares-al-
ves,70002665826>. Acesso em 15 fev. 2019.

229
CENTENERA, M. Buenos Aires, dividida entre ‘verde’ y ‘celes-
tes’ por el aborto’. El País, 8 ago. 2018. Argentina. Disponível
em <https://elpais.com/internacional/2018/08/08/argenti-
na/1533718936_046269.html>. Acesso em 9 mar. 2019.

CORRÊA, S. A “política do gênero”: um comentário genealógico.


Cadernos pagu, Campinas, n. 53, 2018, p. 1-16.

DAVIS, A. A liberdade é uma luta constante. Belo Horizonte: Boi-


tempo, 2018.

DUSSEL, E. ¿El ser latino-americano tiene pasado y futuro? In: AL-


VEZ, L. J. G. (Org.) Filosofia de la historia Latinoamericana. Bogotá:
Editora El Buho, 1983. p. 133-151.

G1. “Primeiros migrantes de caravana chegam à fronteira México-


-EUA”. G1 Mundo, 14 nov. 2018. Disponível em <https://g1.globo.
com/mundo/noticia/2018/11/14/migrantes-centro-americanos-
-chegam-a-fronteira-mexico-eua.ghtml>. Acesso em 22 fev. 2018.

HEILBORN, M. L. De que gênero estamos falando? Sexualidade,


Gênero e Sociedade, ano 1, n° 2, CEPESC/IMS/UERJ, p. 1-4, 1994.

EFE. Gays se casan simbólicamente en Paraguay por el matrimo-


nio igualitario. El Nuevo Herald. América Latina. 18 de jul. 2015.

230 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E GÊNERO

Disponível em <https://www.elnuevoherald.com/noticias/mun-
do/america-latina/article27700561.html. Acesso em 9 mar. 2019.

EL HERALDO. “Los abusos sexuales se evidenciaron con la llegada de


los paramilitares”: defensora de derechos humanos. El Heraldo, 19
abril de 2016. Disponível em <https://www.elheraldo.co/la-guaji-
ra/los-abusos-sexuales-llegaron-con-los-paramilitares-defensora-
-de-derechos-humanos-255529>. Acesso em 09 mar. 2019.

FOLHA DE S. PAULO. Leia a íntegra do discurso de Bolsonaro na


cerimônia de posse no Congresso. Folha de S. Paulo. Poder, 1
jan. 2019(a). Disponível em <https://www1.folha.uol.com.br/
poder/2019/01/leia-a-integra-do-discurso-de-bolsonaro-na-ce-
rimonia-de-posse-no-congresso.shtml>. Acesso em 15 fev. 2019.

FOLHA DE S. PAULO. ‘Menino veste azul e menina veste rosa’, diz


Damares Alves. Folha de S. Paulo. Poder, 3. jan. 2019(b). Dispo-
nível em <https://www1.folha.uol.com.br/poder/2019/01/meni-
no-veste-azul-e-menina-veste-rosa-diz-damares.shtml>. Acesso
em 15 fev. 2019.

FORTUNA, C. D. R.; MARTÍN, M. G.; ANDRADE, M. P. Políticas y géne-


ro en Argentina. Aportes desde la antropología y el feminismo.
Encrucijadas - Revista Crítica de Ciencias Sociales, v. 5, p. 54-65,
2013.

231
GONZALEZ, L. Por um feminismo afro-latino-americano. Revista
Isis Internacional, vol. IX, p.133-141, 1988. Disponível em <http://
www.encrucijadas.org/index.php/ojs/article/view/64>. Acesso
em 09 de mar 2019.

HOOKS, b. El feminismo es para todo el mundo. Madrid: Ed. Trafi-


cante de Sueños, 2017.

HOSTEIN, N. El pueblo wayuu de la Guajira colombo-venezola-


na: un panorama de su cultura. Cuadernos de Antropología, v.
20, n. 1, 2012. Disponível em http://repositorio.ucr.ac.cr/hand-
le/10669/13272. Acesso em 9 de mar. 2019.

JUNQUEIRA, R. D. “Ideologia de gênero”: a gênese de uma catego-


ria política reacionária – ou: como a promoção dos direitos huma-
nos se tornou uma “ameaça à família natural”. In: RIBEIRO, P. R. C.;
MAGALHÃES, J. C. (Orgs). Debates contemporâneos sobre Educação
para a sexualidade. Rio Grande: Ed. da FURG, 2017. p. 25-52.

MARTÍ, J. Nuestra América. Buenos Aires: Losada, 1980.

MATOS, H. H. Comunicação Política e Comunicação Pública. Orga-


nicom, São Paulo, v. 3, n. 4, p. 58-73, 1º sem. 2006.

232 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E GÊNERO

MISKOLCI, R. Exorcizando um fantasma: os interesses por trás do


combate à “ideologia de gênero”. Cadernos pagu, Campinas, n.
53, p. 1-14, 2018.

MORRELL, R. “South African men in the post-apartheid era: res-


ponses, dangers and opportunities. In: BREINES, I.; CONNELL, R.;
EIDE, I. (Eds.). Male roles, masculinities and violence. A Culture of
peace perspective. Paris: PUF/Unesco. 2000.

PAINS, C. ‘Menino veste azul e menina veste rosa’, diz Damares


Alves em vídeo. O Globo. Sociedade, 3. jan. 2019. Disponível em
<https://oglobo.globo.com/sociedade/menino-veste-azul-meni-
na-veste-rosa-diz-damares-alves-em-video-23343024>. Acesso
em 15 fev. 2019.

RESTREPO, C. L. El derecho a la ternura. Bogotá: Arango Editores,


1994.

RIBEIRO, D. O que é lugar de fala? Belo Horizonte: Ed. Letramento,


2017.

ROMANCINI, R. Do “KitGay” ao “Monitor da Doutrinação”: a reação


conservadora no Brasil. Contracampo, Niterói, v. 37, n. 2, p. 87-
108, ago/nov 2018.

233
SILVIA, R. C. Violencias (re) encubiertas en Bolivia. Bolivia: Editorial
Piera Rota. 2010.

YUVAL-DAVIS, N. Situated intersectionality and Social Ineguality.


Raisons politiques, v. 2, n. 58, p. 91-100, 2015.

VOCES VISIBLES. Venezuela necesita una Ley de Igualdad de Gé-


nero. Voces Visibles, 3 de jul. 2015. Disponível em <http://www.
vocesvisibles.com/protagonistas-en-femenino/ley-de-igualdad-
-en-venezuela>. Acesso em 9 mar. 2019.

234 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E EDUCAÇÃO
COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO
COMUNICAÇÃO PÚBLICA E EDUCAÇÃO

O AGONISMO DO PROJETO ESCOLA SEM PARTIDO:


ESTRATÉGIAS COMUNICATIVAS DE COALIZÕES EM CHOQUE

Patrícia Guimarães Gil1


Maria José da Costa Oliveira2
Maria Cristina Gorgueira 3

RESUMO

Com o objetivo de contribuir com uma moldura que pos-


sibilite o aprofundamento dos estudos em comunicação pública,
este artigo trata do processo formativo de políticas públicas, com
foco em educação. Considerando as disputas e os conflitos que
marcam o atual cenário da comunicação pública no Brasil, busca-
-se analisar a construção do adensamento argumentativo entre

1 Doutora e mestre em Ciências da Comunicação pela USP; mestre em Public


Policy and Governance pela University of New South Wales (UNSW, Australia);
especialista em Novas Tecnologias da Comunicação e Educação (UFPR). Graduada
em Jornalismo pela UFPR. Professora na ESPM-SP e integrante do Grupo de
Pesquisa em Comunicação Pública e Comunicação Política (Compol) da USP.
E-mail: pgil1976@gmail.com.
2 Pós-Doutora, Doutora e Mestre em Ciências da Comunicação pela USP.
Graduada em Relações Públicas e especialista em Administração de Marketing.
Foi professora e coordenadora de cursos de comunicação em instituições de
ensino superior durante trinta e dois anos. Presidiu a ABRAPCORP (gestão
2016-2018). Atualmente é vice-coordenadora do Compol. Autora de artigos e
livros na área de Comunicação. E-mail: zezecoliveira@gmail.com.
3 Graduada em Jornalismo pela Cásper Líbero. Pós-graduanda em Marketing
Político e Campanha Eleitoral pela ECA-USP. Membro do Compol. E-mail: cristina.
gorgueira@gmail.com.

237
duas coalizões antagônicas em suas posições sobre o Projeto Es-
cola Sem Partido. Com uma perspectiva interpretativa, o artigo
apóia-se no agonismo político defendido por Mouffe (2015), que
se mostra mais adequado para a análise do tema do que a teoria
argumentativa habermasiana. A metodologia analítica seguiu o
modelo da Advocacy Coalition Framework, capaz de oferecer um
quadro mais amplo para o entendimento das disputas em torno
de uma proposta de política pública.

PALAVRAS-CHAVE: comunicação pública, Escola Sem Partido, ad-


vocacy, política pública em educação.

INTRODUÇÃO

O alcance, os princípios e as promessas da comunicação


pública estão em teste no Brasil. Uma das provas de fogo vem
de um dos mais debatidos temas nos últimos três anos, mais
acentuadamente após o impeachment da ex-presidente Dilma
Rouselff, em 2016, e durante as eleições gerais de 2018: o proje-
to Escola Sem Partido (ESP). Ele representa a semente ideológica
de uma nova política pública educacional (ou da ausência de
uma política para o segmento que seja fruto de amplo debate
cívico). A forma como essas discussões se organizaram até então
apresenta um desafio para os estudos comunicacionais que vi-
sam compreender o engajamento conversacional de cidadãos e
grupos em busca de reconhecimento de suas demandas4. Quais

4 Conceito de comunicação púbica proposto por Gil e Matos e Nobre (2013).

238 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E EDUCAÇÃO

possibilidades teóricas e metodológicas podem ser pensadas


para responder a este desafio?
Este texto oferece uma proposta interdisciplinar para a aná-
lise dos debates mobilizados em torno de políticas públicas con-
flitantes. O estudo das discussões sobre o projeto ESP permite a
aproximação entre a comunicação pública e teorias relacionadas
a políticas que emergem entre intensas disputas na sociedade.
Abordar o processo formativo das políticas públicas exa-
tamente a partir dos conflitos, mais do que da racionalidade e
do entendimento, é uma das primeiras propostas deste artigo. A
clássica perspectiva habermasiana, que marca os estudos em co-
municação pública no Brasil, demonstra-se insuficiente para com-
preender disputas conversacionais e políticas como as que cercam
o Escola Sem Partido. Por outro lado, estamos preocupadas em
analisar o processo de adensamento argumentativo em torno das
diferentes propostas ligadas a esta política. Assim, o antagonismo
presente nessas discussões é nosso ponto de partida.
Seguimos então uma perspectiva interpretativa sobre a
formação de políticas públicas como derivadas de discursos orga-
nizados entre coalizões (para usar o termo em inglês “advocacy
coalition”, que originou uma moldura de análise a ser detalhada
mais adiante).
Para tanto, a próxima seção apresenta o objeto específico
de estudo, o projeto Escola Sem Partido. Na sequência, colocamos
em discussão as propostas usadas para a análise da emergência
dessa política. Por fim, algumas considerações são sintetizadas
de forma prospectiva para novos estudos que vinculem comuni-
cação pública e formação de políticas públicas.

239
O PROJETO ESCOLA SEM PARTIDO

O Movimento Escola Sem Partido (MESP) surgiu em 2004 a


partir da iniciativa individual do advogado Miguel Nagib, que se
tornou desde então seu principal porta-voz. A repetição acerca
do lançamento desse movimento colabora para o fortalecimento
de seu “mito fundador” (MOURA, 2016; MIGUEL, 2016). A partir
dele, construiu-se uma narrativa a favor da proposta de regula-
ção e cerceamento do papel do professor em sala de aula, esten-
dendo-se para a discussão acerca de temas morais e da relação
escola-família.
A história relatada por Miguel Nagib é a de que, um ano
antes, sua filha lhe contara que uma professora havia comparado
Ernesto Che Guevara a São Francisco de Assis. A proximidade en-
tre os dois seria o fato de que ambos abandonaram tudo o que
tinham em nome de uma ideologia (política e religiosa, respecti-
vamente). Para Nagib, a comparação elevava Che Guevara à posi-
ção de um santo católico, o que significava uma equiparação mo-
tivada pela “doutrinação” ideológica de esquerda imposta pelo
docente sobre os alunos (BERDINELLI, 2016). Ele então criou um
canal on-line para denúncias e relatos de “vítimas” (os alunos)
da “doutrinação”. Assim, o MESP surgiu no próprio ambiente das
redes eletrônicas e foi a partir da internet que se espalhou princi-
palmente a partir de 2010, ancorado em meios conservadores e
sustentado pelo apoio político de empresários e parlamentares5.

5 É inevitável apontar a escalada dos movimentos da direita política associada


ao “libertarionismo” e ao conservadorismo religioso, culminando no
impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (2016) e na eleição presidencial
de Jair Bolsonaro (2018) (MIGUEL, 2016).

240 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E EDUCAÇÃO

Segundo o site do MESP, seu principal objetivo é impedir a


“doutrinação ideológica” promovida por um “exército organiza-
do de militantes travestidos de professores”. Estes estariam im-
pondo sua própria “visão de mundo” aos alunos sob o pretexto
do estímulo a uma “crítica da realidade”, o que seria favorecido
pela “liberdade de cátedra” e pela “cortina de segredo das salas
de aula” (ESCOLA SEM PARTIDO, 2018c).
A “doutrinação” é descrita pelo MESP como uma inculcação
marxista. Segundo o site, o movimento estudantil estaria “a ser-
viço dos partidos de esquerda” (ESCOLA SEM PARTIDO, 2018a) e
de pensadores mundialmente reconhecidos como mobilizadores
das classes populares por meio de uma educação crítica (como
Paulo Freire).
Em nome de uma pretensa neutralidade e da pluralidade
do pensamento nas escolas, o principal instrumento da campa-
nha do MESP é o projeto de lei que propõe instituir a obriga-
toriedade de afixação de um cartaz em todas as salas de aula
(do ensino fundamental ao superior). Ele contém seis normas a
serem seguidas pelo professor, incluindo a (1) proibição de reali-
zar “propaganda político-partidária”; (2) promover suas próprias
opiniões (de cunho religioso, moral, político etc); (3) não preju-
dicar alunos com visões opostas às do docente; (4) apresentar
diferentes perspectivas e teorias sobre os assuntos ensinados; (5)
respeitar a primazia das famílias sobre a educação moral dos fi-
lhos; (6) não permitir que terceiros desrespeitem essas mesmas
regras em sala de aula (ESCOLA SEM PARTIDO, 2018b).
Uma leitura rápida pode conduzir à interpretação de que
tais preceitos são universalmente aceitos como razoáveis. A justi-
ficativa do MESP é a de que o cartaz permite que os alunos conhe-

241
çam seus direitos à liberdade de consciência, crença e de apren-
der, previsto na Constituição Federal e na Convenção Americana
sobre Direitos Humanos. Mas como os estudantes são tratados
como vítimas ou reféns de “sequestro intelectual pelos professo-
res” (ESCOLA SEM PARTIDO, 2018d), são também convocados pelo
MESP a apresentar denúncias contra os docentes e a encaminhar,
por meio dos pais, notificações extrajudiciais à escola (cujo mo-
delo é oferecito no site).

PROFUSÃO DE PROPOSTAS DE LEI

À medida que o movimento articulou apoios entre outras


instituições representantes da direita (como os canais de expo-
sição de Olavo de Carvalho6, o Instituto Millenium7, o Instituto
Plínio Corrêa de Oliveira8 e o Instituto Liberal9), o MESP ganhou

6 Escritor e autodenominado filósofo autodidata, é considerado um dos


principais influenciadores da ascensão acentuada da direita nos últimos anos.
Surpreendentemente, em novembro de 2018 Olavo de Carvalho publicou
um vídeo na internet em que se manifestava a favor dos princípios do Escola
Sem Partido (contra a “manipulação de comportamento” dos alunos), mas
integralmente contrário aos métodos utilizados pelo MESP, a começar a pela
via jurídica. Chegou a sugerir que o projeto passasse a ser chamado “Escola
Sem Censura” – exatamente a abordagem utilizada por seus oponentes
(BOLETIM DA LIBERDADE, 2018)
7 O Instituto Millenium é um think tank criado em 2005 para a defesa do
Estado mínimo, direito à propriedade, economia de mercado e direitos
individuais, com inspiração no pensamento de teóricos como Ludwig von
Mises (da Escola Austríaca de Pensamento Econômico).
8 Uma divisão da Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e
Propriedade (TFP).
9 O Instituto Liberal foi criado na década de 1980 para propagar o ideal
do liberalismo econômico de fundamentação austríaca. Um de seus

242 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E EDUCAÇÃO

força suficiente para encaminhar diversos anteprojetos de lei. O


primeiro deles (PL 7180/2014) foi proposto pelo deputado Erivel-
ton Santana (então PEN-BA) ao Congresso Nacional. O texto pro-
punha alteração da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB)
para defender a premissa da família na definição de temas mo-
rais e religiosos.
Foi exatamente o texto deste projeto que significou uma
reviravolta no Movimento, dando-lhe uma força moralista que
não estava prevista inicialmente em seu combate à “doutrina-
ção marxista” (MIGUEL, 2016). As discussões foram encorpadas
pelos parlamentares católicos e evangélicos, a favor do limite da
autonomia do professor frente à prioridade familiar. Além disso,
a bancada religiosa no Congresso e outras organizações defen-
soras do conservadorismo lideraram os protestos contra o Pro-
grama Escola Sem Homofobia. Proposto pelo MEC para comba-
ter a violência motivada por intolerância à orientação sexual de
estudantes, o programa foi vetado pela então presidente Dilma
Rousseff (PT) em 2011, sob pressão dos parlamentares. O mate-
rial que seria distribuído para escolas de ensino médio passou a
ser conhecido como “kit gay”, como se propusesse incentivar a
opção dos alunos pelo homossexualismo. O tema tornou-se, na
argumentação dos setores conservadores, um símbolo da supos-
ta “doutrinação” da “teoria de gênero”10.

representantes e colunistas é o economista do Instituto de Pesquisa


Econômica Aplicada (Ipea), Adolfo Sachsida, que manifesta-se enfaticamente
a favor do projeto Escola Sem Partido em suas redes sociais. É um dos
conselheiros econômicos informais do presidente da República eleito em 2018,
Jair Bolsonaro (PSL).
10 Nas eleições gerais de 2018, o tema do “kit gay” foi usado amplamente
pela campanha do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL-RJ) como se tivesse

243
Assim, a discussão de gênero foi incorporada nos Pro-
jetos de Lei que se seguiram, muitos apensados uns aos ou-
tros, formando um bloco de iniciativas na mesma direção. O PL
7181/2014, por exemplo, sugere também que as propostas do
ESP sejam incorporadas aos Parâmetros Curriculares Nacionais.
No Senado, o PL 192/2016, encaminhado pelo então senador
Magno Malta (PR-ES), explicita a proibição das discussões sobre
gênero na escola, vinculando diretamente o amadurecimento do
estudante a sua identidade biológica de sexo. E o Plano Nacional
de Educação, apresentado em 2010, fora aprovado apenas em
2015 sob a condição de que a palavra “gênero” fosse retirada de
seu texto (BERGAMIM JR., 2015). Ampliando essa limitação, outro
projeto (PL 5487/2016) proíbe a distribuição de livros às escolas
sobre orientação sexual. Mas a “marca” específica “Escola Sem
Partido” surgiu de fato um pouco antes, em um PL (867/2015)
apresentado em 2015 pelo deputado católico Izalci Lucas (PSDB-
-DF), com fundamentação amparada nos argumentos do MESP.
Em outras esferas, projetos semelhantes começaram a se
multiplicar pelo País (como “franquias” com a mesma “marca”),
alcançando pelo menos 15 dos 27 estados brasileiros e 66 muni-
cípios (ROCHA, 2017). A Assembleia Legislativa de Alagoas chegou
a aprovar uma lei com o nome de Escola Livre, mas a mesma
foi suspensa em 2017 pelo ministro Luís Roberto Barroso, do Su-
premo Tribunal Federal (STF), que a considerou inconstitucional

sido implantado na gestão do então ministro da Educação, Fernando


Haddad (do PT e opositor de Bolsonaro). Foi considerado uma das principais
notícias falsas distribuídas com o objetivo de convencimento ao voto entre
conservadores. Ao lado deste tema, o Escola Sem Partido foi considerado um
dos “motores de Bolsonaro” em sua campanha à Presidência da República em
2018 (SALDAÑA, 2018).

244 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E EDUCAÇÃO

(VASSALLO; AFFONSO, 2017), acatando parecer da Procuradoria


Geral da República (MADEIRO, 2016b)11. Outras decisões em tribu-
nais têm derrubado iniciativas semelhantes aprovadas em Câma-
ras de Vereadores (SP) (TUROLLO JR.; CANCIAN, 2018)12.
Baseado na decisão no STF, o Ministério Público Federal
passou a alertar para a inconstitucionalidade da matéria, com
ofícios encaminhados às casas legislativas em que as propostas
tramitavam (RODRIGUES, 2017; UOL, 2016). O argumento é o de
que o ESP fere os princípios de proteção ao pluralismo e à tole-
rância, previstos na Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB).
Em 2017, foi a vez do Alto Comissariado de Direitos Hu-
manos da Organização das Nações Humanas (ONU) se posicio-
nar contra os projetos de lei motivados pelo ESP. Três relatores
da ONU assinaram carta em que alertaram o governo brasileiro
sobre o risco de coibir a livre expressão de ideias e opiniões
de professores e alunos, contrariando acordos internacionais de
defesa de direitos civis e políticos assinados pelo Brasil (OHCHR,
2017). O documento avaliou que a qualificação apresentada
nos projetos de lei sobre “doutrinação política e ideológica” era
imprecisa e abria espaços para interpretações subjetivas que
poderiam fomentar uma injustificada restrição à liberdade de
expressão. O texto também afirmou que a proposta limitava

11 A Advocacia Geral da União também se manifestou contrária à aprovação do


projeto em Alagoas, considerando sua ilegalidade (MADEIRO, 2016a). O parecer
constou de Ação de Inconstitucionalidade apresentada ao STF pela Confederação
Nacional dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino (CNTEE).
12 Outros casos são as cidades de Campo Grande (MS) e Picuí (PB), que
também aprovaram leis municipais baseadas no ESP, mas foram depois
vetadas pelo Executivo após protestos de grupos opositores. A lei está
aprovada e vigente desde 2015 no município de Santa Cruz do Monte Castelo
(PR) (IANDOLI, 2017).

245
espaços de discussão sobre diversidade e direitos de minorias
(TOKARNIA, 2017).
Diante da tensão e das diferentes estratégias regimentais
adotadas pelos parlamentares de oposição ao ESP na Câmara
dos Deputados, o PL (juntamente com todos os projetos de lei
apensados a ele) foi arquivado em dezembro de 2018, no final
daquela legislatura. Assim, as discussões voltaram à estaca zero.
Sua retomada é esperada ainda para 2019, mas o trâmite, len-
to e burocrático por comissões e relatórios, deve ser recomeça-
do a partir de seus estágios iniciais, caso algum deputado peça
seu desarquivamento (OLIVEIRA, 2018). Enquanto isso, ainda se
aguarda a decisão do plenário do STF acerca da inconstitucio-
nalidade da matéria, o que pode frear os projetos estaduais e
municipais em definitivo.

DUAS GRANDES COALIZÕES

Paralelamemte ao crescimento do ESP, surgiram iniciati-


vas opostas de grande visibilidade. O governo do Maranhão, por
exemplo, editou em novembro de 2018 o decreto que passou
a ser conhecido como Escola Sem Censura para garantir a livre
opinião no ambiente escolar. O texto inclui a norma de que filma-
gens só poderão ser feitas na escola com prévia autorização de
quem está sendo gravado (VALADARES, 2018). A medida é uma
resposta à iniciativa da deputada estadual de Santa Catarina elei-
ta pelo PSL em 2018, Ana Caroline Campagnolo, que divulgou na
internet um canal de denúncias, incitando os alunos a filmar pro-
fessores que criticassem a eleição do presidente Jair Bolsonaro

246 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E EDUCAÇÃO

(PAINS, 2018). Uma decisão judicial em primeira instância deter-


minou que o PSL retirasse do ar todas as indicações de incentivo
à filmagem (FOLHA DE S.PAULO, 2018), mas a decisão foi suspen-
sa em janeiro de 2019 pelo Tribunal Regional de Santa Catarina
(AGÊNCIA ESTADO, 2019).
Em 2016, um projeto de lei oposto foi apresentado ao Con-
gresso Nacional pelo então deputado federal Jean Wyllys (PSOL-
-RJ) e denominado de Escola Livre13. Mas o slogan que se tornou
mais popular para se contrapor ao MESP foi o da Escola Sem Mor-
daça, que também deu nome em 2016 a uma Frente Nacional
formada por movimentos sociais, parlamentares e entidades re-
presentativas do segmento educacional. Uma das primeiras ini-
ciativas dessa frente foi mobilizar participantes na enquete on-
-line realizada no portal do Senado sobre o projeto Escola sem
Partido. “Ainda em seus primeiros dias de existência, nos mobi-
lizamos para derrotar nossos adversários no campo deles, o da
internet, e conseguimos ficar à frente naquela que foi a maior
enquete em participação na história do portal”, afirmou a Frente
em seu site (FRENTE ESCOLA SEM MORDAÇA, 2018)14.
No ringue da internet, outros movimentos se espalharam,
diluindo e ao mesmo tempo ampliando a mobilização contrária
ao ESP. É o caso do Movimento dos Professores contra o Escola

13 Outras propostas de lei estadual contrárias ao ESP ganharam nomes como


“Projeto Escola sem Mordaça” (RS), “Escola com Liberdade” (SP) e “Escola para
a Democracia” (RJ).
14 O portal e-Cidadania, do Senado Federal, tornou-se um dos principais
canais de consulta popular on-line no Brasil sobre projetos em tramitação
na Casa. A enquete sobre o ESP reuniu pouco mais de 410 mil participações
e, com apertada margem (51,33%), a maioria dos “votos” foi contrária ao
projeto (SENADO FEDERAL, 2018).

247
sem Partido (desdobrando-se, em 2016, no Movimento Educação
Democrática), que possui um blog com referências sobre o tema
e monitoramento dos projetos em tramitação no País15. Outro
exemplo, embora mais indireto, é o da Campanha Nacional pelo
Direito à Educação16, que possui uma pauta mais ampla de de-
mandas na área do ensino público. A atuação desses grupos no
Congresso Nacional foi responsável pelo arquivamento do Proje-
to de Lei e seus anexos no final de 2018.
Para a avaliação das estratégias de comunicação pública e
dos argumentos em disputa, este texto concentra-se mais especi-
ficamente na análise das posições de duas grandes coalizões for-
madas em torno do ESP: (1) a que é liderada pelo próprio MESP,
com o apoio da bancada religiosa na Câmara e segmentos da
chamada nova direita brasileira; e (2) a Frente Nacional da Escola
sem Mordaça, com o apoio principalmente de professores e mo-
vimentos civis relacionados à educação.
Ambas as coalizões utilizaram os meios digitais para am-
plificar seus argumentos e lhes conferiram características especí-
ficas. Seus portais e blogs são repositórios de conteúdos, além de
dar visibilidade a denúncias – seja de pais e alunos com críticas
ao posicionamento ideológico de professores, seja de professores
que denunciam a perseguição de pais e alunos em função de
conteúdos expostos em aula.
O canal oficial do MESP na internet, no entanto, apresenta
ferramentas que se aproximam mais claramente de uma cam-
panha de advocacy (JARAMILLO LÓPEZ, 2012, p. 2) à medida que

15 http//professorescontraoescolasempartido.com.br
16 http://campanha.org.br

248 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E EDUCAÇÃO

diversifica suas ações de persuasão e oferece mais serviços de


mobilização à audiência. É o caso de indicação de livros didá-
ticos que defendem sua ideologia à direita; possibilidade de
download do cartaz proposto no projeto de lei a ser afixado
em sala de aula (sugerindo que escolas, pais e alunos tomem a
iniciativa de imprimi-lo antes mesmo de uma regulamentação
legal); dicas para “flagrar um doutrinador”, com uma lingua-
gem dirigida especialmente aos alunos; e proposta de um “dia
nacional de luta contra a doutrinação nas escolas” (5 de outu-
bro, em que “qualquer pessoa” é estimulada a “baixar” uma re-
presentação e um arquivo com “provas” de “doutrinação” para
encaminhar ao Ministério Público de cada cidade) (ESCOLA SEM
PARTIDO, 2018e).
Por sua vez, o site da Frente Nacional Escola sem Mordaça
também oferece recursos de download de materiais como carti-
lhas, panfletos, manifestos, projetos de lei, entre outros. Seu prin-
cipal apelo, no entanto, é para uma postura de vigilância em rela-
ção à agenda de votações e discussões parlamentares. Para tanto,
o movimento se dividiu em frentes estaduais ou municipais para
mobilizar ações locais de contenção dos projetos em apreciação
em Assembleias Legislativas e Câmaras de Vereadores.
Já o MESP se organiza localmente graças às alianças par-
tidárias à direita do espectro político, especialmente ligadas ao
fundamentalismo religioso. Assim, representantes estaduais e
municipais desses partidos seguiam a agenda nacional, impul-
sionados pela alta visibilidade e pelo apelo popular provocado
pela discussão desses projetos em suas bases eleitorais.
Em termos de linguagem, o MESP utiliza uma comunica-
ção recheada de termos vocativos e imperativos (“Senhores pais,

249
[...] processem por dano moral as escolas e professores [...]”). A
ironia é um gênero comum nos textos que comentam as ma-
nifestações contrárias ao projeto. A Frente Nacional Escola Sem
Mordaça, por sua vez, utiliza-se de termos como “proposições”,
“deliberações”, “desejo de ampliar a base” e outras expressões
que apontam para a formação negociada de apoios. O didatismo
é o tom comum nos materiais de esclarecimento sobre o projeto.
A organização, os modelos de convocação à participação
dos públicos e as fundamentações reunidas por ambas as co-
alizões indicam que não se trata exclusivamente de uma con-
trovérsia em torno de um projeto de lei. O que está em disputa
são visões opostas sobre os princípios da educação brasileira. O
momento é de transição entre um modelo estabelecido e uma
nova política pública que propõe rever o papel da escola, da fa-
mília e do professor, mas também o objetivo de formação de
crianças e jovens.
No contexto de disputas entre as duas coalizões, Fernando
Penna (citado por MOURA, 2016, p. 35) avalia que há uma ten-
tativa de “tornar a educação uma questão de foro privado e de
responsabilidade exclusiva das famílias”. O apelo à família como
núcleo da constituição da cidadania representou outro impulso
para o ESP, esvaziando a função escolar.
A controvérsia em torno do projeto também pôs em dis-
cussão as instâncias decisoras das políticas educacionais. A pro-
fusão dos projetos de lei em municípios e estados desconsidera
a premissa da União para qualquer alteração na LDB – o que am-
parou os pareceres técnicos contrários emitidos pela Procurado-
ria-Geral da República e pela Advocacia-Geral da União, além da
própria decisão do ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo

250 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E EDUCAÇÃO

Tribunal Federal, sobre a insconstitucionalidade da lei aprovada


em Alagoas.
Uma mudança específica na forma de organização do de-
bate público sobre políticas educacionais merece destaque aqui.
Ao mesmo tempo em que cresceu o movimento de restrição dis-
cursiva nas escolas, também foi interrompido o rito progressivo
de discussão de políticas educacionais, definido desde o início
da década de 200017. Tal rito consiste na mobilização das discus-
sões por meio de fóruns representativos da sociedade civil em
diferentes estágios de deliberação (em conferências municipais,
estaduais e, por fim, federal) (AÇÃO EDUCATIVA, 2014)18.
As dificuldades de comunicação em torno de políticas de
educação ficaram também evidentes durante debate promovido
pela Folha de S.Paulo em 2016 sobre o ESP. As duas coalizões fo-
ram consideradas “inconciliáveis” não apenas em seus argumen-
tos, mas também na foma de exposição de suas razões – “com
gritos e troca de ofensas” durante o evento (SALDAÑA, 2016).
A improbabilidade de consenso acerca do projeto – e da
reformulação da política educacional que ele implica – nos con-
duz, na próxima seção, à crítica à teoria deliberativa (HABERMAS,
2012) como perspectiva para analisar esse processo de discus-
são. Em contraposição, propomos uma avaliação do ESP segundo
a abordagem de Chantal Mouffe (2015).

17 Um sinal claro dessa mudança foi o adiamento intempestivo da Conferência


Nacional de Educação (Conae) em 2014.
18 A Conae-2014 foi realizada apenas em novembro de 2014. A mudança
de data de sua realização foi amplamente comentada na ocasião como um
sinal de retrocesso no processo de comunicação aberta para a formulação de
políticas públicas.

251
UM NOVO OLHAR TEÓRICO PARA A COMUNICAÇÃO PÚBLICA

O debate movido pelo consenso

Tradicionalmente, os estudos sobre comunicação pública


que são infuenciados pela teoria deliberativa habermasiana de-
bruçam se sobre a forma como as argumentações políticas são
conduzidas19. Pesquisas sobre a qualidade dessas discussões são
conduzidas segundo os procedimentos sugeridos por Habermas,
como a igualdade de participação de todos no debate; a prepon-
derância do interesse público na defesa das opiniões; a raciona-
lidade do argumento; a publicização da discussão; a ausência de
constrangimentos à livre manifestação e a consideração dos di-
ferentes pontos de vista (HABERMAS, 2012; GOMES, 2008; COHEN,
2008; STEINER et al., 2004; STEINER, 2012; FISHKIN et al., 2012;
PARKINSON, 2006; STROMER-GALLEY, 2007; WESOLOWSKA, 2007).
Esses pressupostos decorrem também da interpretação de
Habermas sobre o conceito de esfera pública (HABERMAS, 2014;
GOMES, 2006). Ele oferece um ângulo interessante para a ava-
liação da trajetória discursiva em torno do ESP. A esfera pública
caracteriza-se como espaço aberto e inclusivo de debates, loca-
lizado entre o Estado e o espaço maior da sociedade (ou mundo

19 No Brasil, a linha predominante de pesquisas em comunicação pública


confunde este conceito com comunicação governamental, concentrando
as discussões sobre as estratégias e os recursos empregados por órgãos de
governo para aproximar os cidadãos do Estado (DUARTE, 2011; HASWANI,
2013; KUNSCH, 2011; ROLANDO, 2010). Acercam-se, portanto, muito mais dos
estudos em comunicação organizacional do que em comunicação pública,
aqui entendida como a que se dedica à análise das esferas discursivas mais
amplas e vinculadas ao engajamento cívico.

252 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E EDUCAÇÃO

da vida). Neste imenso ambiente, formam-se diversas arenas e


fluxos comunicativos em disputa por visibilidade e legitimida-
de (HABERMAS, 2014). O adensamento dessas múltiplas esferas
ocorre em função de sua capacidade de captar as demandas da
sociedade e projetá-las por meio de trocas comunicativas – cada
vez mais rápidas e interconectadas em virtude das redes digitais.
A comunicação pública é o que dinamiza a esfera pública.
O surgimento e o fortalecimento do MESP, criando uma are-
na intensa de discussões de viés conservador, podem ser analisa-
dos como uma nova arena. Ela passou a incluir sujeitos que as-
sumiram um papel representativo mais incisivo – com influência
direta no encaminhamento de projetos de lei, no interior mesmo
do campo decisivo da política. Em contraste, os movimentos or-
ganizados para o combate ao ESP, capitaneados seja pela Frente
Nacional da Escola Sem Mordaça, pela rede Professores contra o
Escola Sem Partido ou por suas subdivisões, já possuíam uma or-
ganização motivada por outros eventos de grande mobilização
comunicativa na esfera pública – por exemplo, em torno do Fó-
rum Nacional da Educação. Mas os vínculos se estreitaram, pelo
menos temporariamente, para concentrar esforços contra o pro-
jeto, aglutinando-se comunicativamente (nas redes; nos debates
em Casas Legislativas; em espaços midiáticos etc).
Por outro lado, as possibilidades de embates argumenta-
tivos entre as duas coalizões se mostraram, até o momento, in-
viáveis. Confirma-se a crítica de Esteves (2003) acerca da impos-
sibilidade de concretização de um espaço público movido pelo
consenso. Em vez disso, o espaço público se fragmenta e se dilui
em posições dispersas. A comunicação pública torna-se, então, re-
fém da barganha política e da intolerância ao argumento opositor.

253
Tal retrato não convém ao quadro maior do pensamen-
to habermasiano, em que os processos de tomada de decisão
enfatizam a predisposição ao entendimento e ao consenso
(HABERMAS, 2008, p. 138-139). E esses, por sua vez, concentram
se na troca de argumentos, o que pressupõe um arrazoado de
opiniões com fundamentação empírica – ou seja, sem pré julga-
mentos morais, religiosos ou ideológicos. O consenso só pode
ocorrer após o teste de validade dos argumentos por meio do
debate.
Três princípios fundamentais regem a teoria argumentati-
va do filósofo alemão e não se encontram presentes no ambiente
discursivo em torno do ESP: o princípio da reversibilidade (em
que os participantes do debate estão abertos para rever suas po-
sições, trocar de lado e tomar diferentes partidos); o princípio da
universalidade (em que todos os concernidos se veem incluídos
no debate – pressupondo encontros para as trocas de opiniões);
e o princípio da reciprocidade (em que os diferentes pontos de
vista, inclusive opostos, são considerados) (HABERMAS, 2008, p.
127). O modelo de democracia deliberativa reconhece a existên-
cia de conflitos na vida social, mas prevê que eles serão articula-
dos sob condições de cooperação (BENHABIB, 2009, p. 117-119) e
diálogo (BOHMAN, 2009, p. 52).
A atual animosidade entre as duas coalizões, no entanto,
torna improvável que tais preceitos sejam aplicados aos debates
sobre o ESP. A ausência de dialogicidade e de predisposição ao
entendimento demandam outro modelo explicativo para esse
caso, como o sugerido por Chantal Mouffe (2015).

254 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E EDUCAÇÃO

O agonismo banhado em conflito

Em seu livro “Sobre o Político”, Mouffe (2015) valoriza o


campo discursivo em que a democracia se molda. Mas seu ponto
de partida é o avesso de Habermas. A articulação política só pode
ocorrer, segundo ela, mediante a clara distinção de alternativas
entre os grupos que se alinham em torno das propostas antagô-
nicas. Ou seja, é o conflito e não a mobilização para o consenso
que está na essência política e na constituição das identidades
coletivas. Ancorada no pensamento de Carl Schmitt, que estabe-
lece a divisão entre o “nós” e o “eles” (amigos e inimigos) na
conformação do político, Mouffe não só vê o conflito como um
elemento inexorável das disputas por hegemonia, como o consi-
dera necessário (MOUFFE, 2015, p.2).
A autora se refere à diluição de conflitos políticos discursi-
vos que tende a produzir uma visão idealizada da sociabilidade
humana. Ela seria responsável, na prática, pelo apagamento do
debate político, neutralizando o embate entre direita e esquerda.
No lugar dele, teria prevalecido a visão liberal que prega a racio-
nalidade das decisões. O resultado desse processo foi o estabele-
cimento de um modelo globalizante e unânime que empurrou o
conflito para a esfera da moral.
Essa tendência moralista merece destaque aqui por duas
razões. A primeira delas é a apropriada comparação com a dire-
ção tomada pelo debate sobre o Escola sem Partido. Como descri-
to anteriormente, a escalada da temática das relações de gênero,
da primazia dos valores familiares sobre a educação escolar e dos
princípios morais / religiosos no currículo foi o que mobilizou as

255
atenções em torno do projeto. A segunda razão para enfatizar o
caráter moralista do atual estágio democrático, segundo Mouffe,
é sua relação com um contexto de transição hegemônica no Bra-
sil, marcado pelo fortalecimento do conservadorismo de direita.
O ESP esteve no centro desse processo, que culminou com a elei-
ção de Jair Bolsonaro (PSL) à Presidência da República em 2018
– um candidato sustentado pelo discurso moralizante e pela li-
derança religiosa dentro e fora das instituições políticas formais.
Para Mouffe (2005, p. 16-20), as práticas hegemônicas são
“práticas de articulação por meio das quais se estabelece uma
determinada ordem e se determina o significado das instituições
sociais”. O papel da escola, da família, da igreja e do Estado é
valorizado de acordo com a ordem estabelecida num contexto de
contingência.
No caso brasileiro, o cenário recente de reacomodação de
valores favoreceu as tentativas de evidenciar a proposta do ESP e
torná-lo palatável para um contingente relevante da população.
Essa nova ordem pressionou a abertura das comportas do siste-
ma político, com a tramitação em massa de projetos de lei que
respondem a um clamor moral a despeito dos questionamentos
sobre sua constitucionalidade.
Todo esse estado de coisas pode ser desestabilizado na
democracia plural, produzindo antíteses que também se articu-
lam – caso das redes contra o ESP. Para tanto, Mouffe aposta na
radicalidade da discussão até que se encontre uma saída para o
antagonismo entre os adversários políticos, transformando-o em
agonismo.

256 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E EDUCAÇÃO

Enquanto o antagonismo é uma relação nós/eles em que


os dois lados são inimigos que não possuem nenhum
ponto em comum, o agonismo é uma relação nós/eles
em que as partes conflitantes, embora reconhecendo que
não existe nenhuma solução racional para o conflito, ain-
da assim reconhecem a legitimidade de seus oponentes.
Eles são “adversários”, não inimigos. Isso quer dizer que,
embora em conflito, eles se consideram pertencentes ao
mesmo ente político, partilhando de um mesmo espaço
simbólico dentro do qual tem lugar o conflito. Poderíamos
dizer que a tarefa da democracia é transformar antago-
nismo em agonismo. (MOUFFE, 2015, p. 19).

O agonismo leva à discussão política a um extremo argu-


mentativo. É pelo enfrentamento do conflito (e não pelo consen-
so) que se busca alcançar uma saída para o antagonismo. Mouffe
(2015) insiste que o confronto de opiniões deve ocorrer por meio
de canais que permitam a expressão das diferentes posições para
além da discussão entre o certo e o errado, ou seja, da moral. É
neste ponto que ela e Habermas se encontram: na proposta de
criar espaços para o debate.
O impasse criado em torno do ESP e a forma como os
adversários se posicionam como inimigos indicam não apenas
uma briga de posições, mas também a ausência de processos e
instrumentos de comunicação para a tomada de decisões sobre
políticas educacionais. Mouffe (2015, p. 20) alerta que a falta de
canais legítimos para a manifestação das vozes discordantes ten-
de a fazer com que a discordância assuma formas violentas. Em
vez disso, a disputa pela hegemonia nas decisões sobre políticas
públicas pode se organizar argumentativamente.

257
O debate, no entanto, não surge no vácuo. Articula-se em
torno das forças socioeconômicas que engendram os diferen-
tes lados da discussão, como prevê o enquadramento teórico e
metodológico da Advocacy Coalition Framework20. Proposta no
campo de estudos sobre políticas públicas, esta teoria, aplicada
a seguir, colabora para uma compreensão mais complexa sobre
o processo coletivo de construção e interpretação de um projeto
tão controverso como o Escola sem Partido.

Políticas públicas em disputa

Nascido dentro do paradigma da construção social para


a análise de políticas públicas21 (COLEBATCH, 2009, p. 29-33), a
Advocacy Coalition Framework valoriza as dinâmicas sociais e es-
truturais que dão sentido às narrativas antagônicas sobre deter-
minada política pública. Esse processo de estruturação não surge
isoladamente no momento da formulação de um projeto de lei
ou de um programa social. Em vez disso, considera que o ato de

20 Conhecido em inglês como Advocacy Coalition Framework, a expressão tem


difícil tradução literal para o português. Ela propõe uma “moldura” teórica
e metodológica para analisar como se formam coalizões em disputa para
influenciar uma determinada política pública.
21 A disciplina de análise de políticas públicas possui três paradigmas
dominantes: o da “authoritative choice” (escolha autoritativa), que avalia
as decisões oficiais e mandatárias de políticas no interior dos governos; o
da “structured interaction” (interação estruturada), que busca analisar a
negociação entre os diferentes entes envolvidos na política pública para a
formulação e administração de propostas mais abrangentes; e o da “social
construction” (construção social), que procura analisar como as demandas
às novas políticas são problematizadas e interpretadas no quadro maior
dos públicos concernidos – um viés discursivo que avalia narrativas e
argumentações dos grupos sobre o tema em discussão (COLEBATCH, 2009).

258 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E EDUCAÇÃO

constituí-lo faz parte de um contexto cultural maior de formação


de preferências, motivadas por diferentes fatos, valores e inter-
pretações. Com o tempo, surgem visões dominantes em torno da
política, aglutinando formas diferentes de perceber o problema
original e de endereçar soluções a ele (SABATIER; JENKINS-SMITH,
1993; WEIBLE; SABATIER, 2006).
Como vimos, o projeto Escola sem Partido vem sendo
gestado há cerca de 15 anos, inicialmente com uma proposta
à margem de um modelo educacional que estava estruturado
dentro de um arcabouço de valores progressistas (inspirados pela
Constituição de 1988, entre outros inputs). Na análise de Miguel
(2016), o cenário político brasileiro assistiu a uma virada notável
neste quadro, especialmente a partir de 2010, quando discursos
abertamente conservadores vieram à superfície. A bancada re-
ligiosa, que se tornara uma das forças políticas mais significati-
vas no Legislativo, foi a mola propulsora para a expansão do ESP,
baseada no fundamentalismo “que anula qualquer possibilidade
de debate” (MIGUEL, 2016, p. 593). Essa pauta surgiu em meio a
princípios religiosos e valores culturais adjacentes, como a con-
denação do aborto, o combate a políticas inclusivas de gênero,
a defesa do modelo tradicional de família e o anticomunismo
(sobreposto à aversão ao Partido dos Trabalhadores a partir de
2014, exatamente quando emerge a agenda do ESP no Congres-
so Nacional).
O modelo de Advocacy Coalition sugere analisar o quadro
maior de acontecimentos e valores que desafiam o status quo
com a proposta de uma política nova – neste caso, na área edu-
cacional. O cenário dominante no Brasil desde a década de 1990
inclui uma visão da educação voltada à formação de cidadãos

259
críticos que, como sujeitos políticos, devem ser capazes de ques-
tionar suas realidades. Para tanto, foram incentivadas diferentes
iniciativas de estímulo à livre comunicação e à adesão a agremia-
ções em estabelecimentos públicos e privados de ensino (OLIVEI-
RA, 2016).
O principal embasamento teórico para essa política públi-
ca educacional veio da obra de Paulo Freire (1982; 2000; 2001),
que contrapõe uma educação crítica e problematizadora àquela
qualificada como “bancária” – em que o saber é uma doação dos
que se julgam detentores do conhecimento aos que são avaliados
como seres vazios e dependentes (como folhas em branco ou tá-
bulas rasas, em que se “depositam” conteúdos). A proposta freire-
ana prevê a promoção do saber a partir da relação dialógica entre
educador-educando, sem restrições temáticas ou ideológicas.
Foi em torno dessa moldura teórica, metodológica, cultu-
ral, política e legal que os movimentos sociais ligados à educação
se articularam ao longo das últimas décadas. Seus principais re-
presentantes são os que se reuniram numa coalizão de combate
ao ESP. No ambiente político, o reforço ao papel e funcionamento
das instituições democráticas era acompanhado por um discur-
so prevalecente de defesa de direitos humanos e pelo combate
à desigualdade. O insurgimento contra esses ideais era tratado
como excentricidade (MIGUEL, 2016, p. 592).
O quadro que situava esse discurso à margem, no entanto,
sofreu uma reviravolta a partir de um conjunto de fatores que a
moldura da Advocacy Coalition sugere avaliar. Ela põe em con-
traposição os antagonismos entre os grupos que divergem sobre
o tema e desafiam os valores razoavelmente estáveis, podendo
resultar em nova hegemonia em torno da política pública.

260 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E EDUCAÇÃO

A análise da disputa entre coalizões é ilustrada por um


diagrama que propõe um olhar mais abrangente sobre o caldo
cultural que ampara as trocas argumentativas (WEIBLE; SABATIER,
2006; WEIBLE; SABATIER; MCQUEEN, 2009). Aplicamos essa pro-
posta sobre o caso do ESP (na Figura 1), que consiste principal-
mente em identificar os valores defendidos pelas coalizões: uma
delas é a dominante no momento (identificada como a Frente
Nacional da Escola sem Mordaça – ESM); a outra é a que pressiona
pela mudança (representada pelo ESP).
O embate entre as duas coalizões se localiza num “subsis-
tema de política pública” que concentra as estratégias, os resul-
tados e impactos da disputa (conforme se pode notar também
na Figura 1, na página à direita). O diagrama sintetiza o processo
cultural mais amplo em discussão, bem como os movimentos
adotados pelos grupos dentro de uma perspectiva discursiva,
com outputs que variam entre normas institucionais e mudanças
comportamentais. Estes, por sua vez, desafiam constantemente
os valores proclamados pelas coalizões.

261
FIGURA 1 – Diagrama da Advocacy Coalition Framework – Escola
sem Partido versus Escola sem Mordaça.

VALORES RELATIVAMENTE ESTÁVEIS (ESM) Há a hegemonia desses


valores. Coalizão que
• Escola como espaço de fortalecimento
os representa oferece
democrático por meio do livre diálogo;
resistência à mudança
• Direitos humanos e sociais são substanciados
proposta pelo Escola
na livre expressão;
Sem Partido.
• Formação escolar deve ser problematizadora
para renovar valores sociais;
• Fóruns e conferências são espaços ideais para ARGUMENTOS DE
a formulação de políticas; PRESSÃO E RECURSOS
• O Estado laico tem a prerrogativa de definir as DO SUBSISTEMA DE
bases educacionais e curriculares (seculares); ATORES:

• Professor tem liberdade de ensinar e • Pluralidade na


promover o confronto de ideias. escola é limitada
pela hegemonia das
doutrinas de esquerda
entre os professores;
• Neutralidade é
FATORES EXTERNOS; VALORES DESAFIADORES (ESP) impossível em sala de
• Agremiações políticas e religiosas ganham aula;
força e visibilidade; • Política educacional
• Ultraliberalismo é promovido por entidades é questão de foro
da direita que substituem a defesa dos direitos público e não privado;
humanos pela meritocracia individual; • Pressão em
• Denúncias de corrupção e antipetismo audiências públicas e
promovem a ascensão de um governo aliado a ações de advocacy pela
forças conservadoras; internet;
• A família tem primazia sobre o Estado na • Alunos são vítimas
definição de valores morais e conteúdos e precisam ser
escolares; protegidos;
• Aspectos morais e religiosos devem prevalecer • Professores devem
sobre conteúdo curricular. ser denunciados ao
• Liberdade de ensinar do professor deve ser abusarem da liberdade
limitada. de cátedra.

262 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


SUBSISTEMA DE POLÍTICA PÚBLICA

ESCOLA SEM PARTIDO (ESP) ESCOLA SEM MORDAÇA (ESM)

Com valores desafiadores Com valores estáveis

ESTRATÉGIAS ESTRATÉGIAS
• Aliança com bancada religiosa; • Rede com movimentos
• OFENSIVA: profusão de sociais, sindicatos e
projetos de lei; parlamentares de esquerda;

• Persuasão de pais e alunos • DEFENSIVA: burocratização


para encaminhar denúncias do trâmite parlamentar;
(evidência empírica de • Esfera judicial: ações de
“doutrinação”); inconstitucionalidade (STF).
• Difusão on-line.

NORMAS INSTITUCIONAIS
SOB REVISÃO

RESULTADOS: Alta visibilidade ao ESP; projetos aprovados em


circunscrição limitada; projeto arquivado no Congresso Nacional.

IMPACTOS: moralização da pauta educacional;


expansão do debate público sobre a relação professor-
aluno; resgate à atenção familiar sobre a formação
escolar; defesa de princípios constitucionais sobre os
objetivos da educação plural.

Fonte: as autoras.
263
CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este texto evitou assumir uma posição política e ideológica


acerca da disputa entre as duas coalizões em destaque, ainda que
os ideais da comunicação pública estejam intrinsecamente entre-
laçados com uma proposta de educação libertária e plural. No en-
tanto, a própia defesa dos princípios da comunicação pública re-
quer o aprofundamento de modelos interpretativos que possam
ampliar as possibilidades de análise adequadas aos objetos empí-
ricos em investigação. Avaliamos que a crítica oferecida por Mou-
ffe (2015) e o modelo da Advocacy Coalition Framework formaram
um quadro teórico e metodológico coerente para a avaliação do
debate público sobre o Projeto Escola sem Partido. Nosso objetivo
foi contribuir com uma moldura que possibilite o aprofundamen-
to dos estudos em comunicação pública. Propusemos ampliar seu
alcance para além das esferas governamentais e dos conteúdos
isolados para lançá-los no quadro maior da cultura, onde a ex-
pressão cívica ocorre de forma necessariamente conflituosa.
Trata-se, segundo Renaut (1998, p. 37), da possibilidade
de existência e avaliação de espaços públicos em que a comu-
nicação tem como objetivo não apenas a expressão de opiniões
particulares, mas também sua confrontação para se chegar a um
acordo mínimo sobre normas e valores irredutíveis a interesses
particulares. Para tanto, as pesquisas no campo comunicacional
devem se inscrever nesse espaço de discussão argumentativa.
Nele, o único princípio de legitimidade reside na capacidade de
os cidadãos se colocarem na posição uns dos outros (RENAUT,
1998, p. 37), o que presssupõe a disposição de oportunidades
para os debates agonísticos, como defende Mouffe (2015).

264 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E EDUCAÇÃO

A conclusão alcançada sobre o subsistema da política pú-


blica proposta pelo ESP é a de que os canais de discussão entre
as coalizões têm suas comportas fechadas. E cada lado procurou
vias de saída e pressão baseadas na barganha política (em am-
bas as coalizações) e na judicialização (no caso da Escola sem
Mordaça).
A proposta de análise apresentada neste texto pode se es-
tender à pesquisa sobre outras políticas públicas e em diferentes
setores. Seu pressuposto interdisciplinar enriquece a abordagem
metodológica, ampliando as possibilidades de investigação no
campo da comunicação pública.

265
REFERÊNCIAS

AÇÃO EDUCATIVA. Posicionamento Público: Cancelar a Conae-2014


foi decisão arbitrária, mas não desmobilizará a defesa de um PNE
pra Valer. Disponível em <http://acaoeducativa.org.br/blog/edi-
toriais/posicionamento-publico-cancelar-a-conae-2014-foi-de-
cisao-arbitraria-mas-nao-desmobilizara-a-defesa-de-um-pne-
-pra-valer> Acesso em: 30 out. 2018.

AGÊNCIA ESTADO. Justiça permite que deputada volte a incitar


alunos a denunciar professores. Correio Braziliense, 25 jan. 2019.
Disponível em <https://www.correiobraziliense.com.br/app/
noticia/brasil/2019/01/25/interna-brasil,732810/ana-caroline-
-campagnolo-volte-a-incitar-alunos-a-denunciar-professores.
shtml>. Acesso em 25 jan. 2019.

BENHABIB, S. Rumo a um modelo deliberativo de legitimidade de-


mocrática. In: MARQUES, A. C. S. (Org. e Tradução). A deliberação
pública e suas dimensões políticas e comunicativas: textos funda-
mentais. Belo Horizonte (MG): Autêntica Editora, 2009, p. 109-141.

BERGAMIM JR., G. Câmara aprova plano de educação sem questões


de gênero. Folha de S. Paulo, 26 ago.2015, p. B-6.

BOHMAN, J. O que é deliberação pública? Uma abordagem dialó-


gica. In: MARQUES, A. C. S. (Org. e Tradução). A deliberação pública
e suas dimensões políticas e comunicativas: textos fundamen-
tais. Belo Horizonte (MG): Autêntica Editora, 2009, p. 31-84.

266 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E EDUCAÇÃO

BOLETIM DE LIBERDADE. Olavo de Carvalho critica “Escola sem


Partido” e fala que não apoia o projeto. Disponível em <https://
www.boletimdaliberdade.com.br/2018/11/15/olavo-de-carva-
lho-critica-escola-sem-partido-e-fala-que-nao-apoia-o-proje-
to/> Acesso em 4 nov. 2018.

COHEN, J. Deliberação e legitimidade democrática. In: MARQUES,


A. C. S. (Org. e Tradução). A deliberação pública e suas dimensões
políticas e comunicativas: textos fundamentais. Belo Horizonte
(MG): Autêntica Editora, 2009, p. 85-108.

COLEBATCH, H. K. Policy. Third Edition. Berkshire: Open University


Press, 2009. (Concepts in the Social Sciences)

DUARTE, J. Sobre a emergência do(s) conceito(s) de comunicação


pública. In: KUNSCH, M. M. L. (Org.). Comunicação pública, socie-
dade e cidadania. São Caetano do Sul (SP): Difusão Editora, 2011,
p. 121-134. (Série Pensamento e Prática, vol. 4)

ESCOLA SEM PARTIDO. Movimento Estudantil. Disponível em


<http://www.escolasempartido.org/movimento-estudantil>.
Acesso em 10 nov. 2018(a).

_____. Por uma lei contra o abuso da liberdade de ensinar. Dispo-


nível em <https://www.programaescolasempartido.org/>. Aces-
so em 10 nov. 2018(b).

267
ESCOLA SEM PARTIDO. Quem somos. Disponível em <http://www.
escolasempartido.org/quem-somos>. Acesso em 10 nov. 2018(c).

_____. Síndrome de Estocolmo. Disponível em <http://www.esco-


lasempartido.org/sindrome-de-estocolmo> Acesso em 10 nov.
2018(d).

_____. 5 de Outubro: Dia Nacional de Luta Contra a Doutrinação


nas Escolas. Disponível em <http://www.escolasempartido.org/
dia-nacional-de-luta-contra-a-doutrinacao-politica-e-ideologi-
ca-nas-escolas> Acesso em 10 nov. 2018(e).

ESTEVES, J. P. Espaço Público político. In: ESTEVES, J. P. Espaço pú-


blico e democracia: comunicação, processo de sentido e identi-
dade social. São Leopoldo, Unisinos, 2003.

FISHKIN, J. et al. Deliberating across Deep Divides. Political Stu-


dies, vol. 62, Iss.1, 2012, p. 116-135.

FOLHA DE S.PAULO. Justiça manda deputada eleita não incitar alu-


nos a denunciar professores. Folha de S. Paulo, 1º nov 2018. Dis-
ponível em <https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2018/11/
justica-manda-deputada-eleita-nao-incitar-alunos-a-denunciar-
-professores.shtml>. Acesso em 2 nov, 2018.

FREIRE, P. Educação como prática da liberdade. 25ª. ed. São Paulo:


Paz e Terra, 2001.

268 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E EDUCAÇÃO

FREIRE, P. Pedagogia da esperança: um reencontro com a peda-


gogia do oprimido. 7ª. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2000.

_____. Pedagogia do oprimido. 11ª. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra,


1982.

FRENTE ESCOLA SEM MORDAÇA. O que é a Frente? Disponível em


<http://escolasemmordaca.org.br/o-que-e-a-frente/>. Acesso em
16 out. 2018.

GIL, P. G.; MATOS e NOBRE, H. H. A deliberação justa no mundo do


possível: articulações entre Habermas, Rawls e Amartya Sen. Re-
vista Compolítica, vol. 2, n. 3, p. 258-277, jul-dez. 2013.

GOMES, W. Apontamentos sobre o conceito de esfera pública polí-


tica. In: MAIA, R.; CASTRO, M. C. P. S. (Orgs.). Mídia, Esfera Pública e
Identidades Coletivas. Belo Horizonte (MG): UFMG, 2006, p. 49-61.

_____. Esfera pública política e comunicação em Direito e Demo-


cracia de Jürgen Habermas. In: GOMES, W.; MAIA, R. C. M., Comu-
nicação e democracia: Problemas & Perspectivas. São Paulo: Pau-
lus, 2008, p. 69-115. (Coleção Comunicação)

HABERMAS, J. Consciencia moral y acción comunicativa. Trad. Ra-


món Cotarelo García. Madrid: Editorial Trotta, 2008.

269
HABERMAS, J. Direito e Democracia: entre facticidade e validade.
Tradução de Flávio Beno Siebeneichler. 2ª reimp. Ed. Revist. Rio
de Janeiro (RJ): Tempo Brasileiro, 2012, v. 1.

_____. Mudança estrutural da esfera pública. Trad. Denilson Werle.


São Paulo: Editora Unesp, 2014.

HASWANI, M. F. Comunicação pública: bases e abrangências. São


Paulo: Editora Saraiva, 2013.

IANDOLI, R. O que aconteceu com as propostas da Escola sem Par-


tido. Nexo, 5 set. 2017. Disponível em <https://www.nexojornal.
com.br/expresso/2017/09/05/O-que-aconteceu-com-as-propos-
tas-da-Escola-sem-Partido-pelo-Brasil>. Acesso em 31 out. 2018.

JARAMILLO LÓPEZ, J. Propuesta general de comunicación pública.


Strategy & Management Business Review, v.3, n.2, 2012, p.1-17.

KUNSCH, M. M. K. Comunicação pública a serviço da sociedade e do


cidadão. In: KUNSCH, M. M. K. (Org.). Comunicação pública, socie-
dade e cidadania. São Caetano do Sul (SP): Difusão Editora, 2011,
p. 13-19. (Série Pensamento e Prática, vol. 4).

MADEIRO, C. AGU recomenda suspensão de lei que proíbe profes-


sor de opinar na sala de AL. UOL Educação, 22 jul. 2016(a). Dis-
ponível em <https://educacao.uol.com.br/noticias/2016/07/22/

270 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E EDUCAÇÃO

agu-recomenda-suspensao-de-lei-que-proibe-professor-de-opi-
nar-na-sala-em-al.htm>. Acesso em 10 out. 2018.

MADEIRO, C. Janot diz que lei de AL que proíbe opinião de profes-


sor é inconstitucional. UOL Educação, 20 out. 2016(b). Disponível
em <https://educacao.uol.com.br/noticias/2016/10/20/janot-
-diz-que-lei-de-al-que-proibe-opiniao-de-professor-e-inconsti-
tucional.htm>. Acesso em 13 nov. 2018.

MIGUEL, L. F. Da “doutrinação marxista” à “ideologia de gênero”:


Escola Sem Partido e as leis da mordaça no parlamento brasi-
leiro. Direito e Práxis. Rio de Janeiro, v.7, n.15, 2016. Disponível
em <http://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/revistaceaju/
article/view/25163>. Acesso em 10 dez. 2016.

MOUFFE, C. Sobre o Político. São Paulo: Martins Fontes, 2015.

MOURA, F. P. de. “Escola Sem Partido”: Relações entre Estado,


Educação e Religião e os Impactos no Ensino de História. Dis-
sertação (Mestrado em Ensino de História). Disponível em <
https://educapes.capes.gov.br/bitstream/capes/174584/2/
Disserta%C3%A7%C3%A3o%20Fernanda%20Pereira%20
de%20Moura.pdf>. Acesso em 3 nov. 2018.

OLIVEIRA, E. Escola Sem Partido: entenda o que ocorre após


o arquivamento e o que está em jogo com o projeto de lei. G1
Educação, 11 dez 2018. Disponível em <https://g1.globo.com/

271
educacao/noticia/2018/12/11/escola-sem-partido-entenda-o-
-que-ocorre-apos-o-arquivamento-e-o-que-esta-em-jogo-com-
-o-projeto-de-lei.ghtml>. Acesso em 25 jan 2019.

OLIVEIRA, M. J. C. Comunicação pública e educação para a cidada-


nia: uma análise sobre o papel da escola com base na teoria crítica.
In: Matos, H. (org.). Pesquisas em Comunicação Pública e Política:
vertentes teóricas e metodológicas. São Paulo, ECA/USP, 2016.

PAINS, C. Deputada eleita por partido de Bolsonaro cria polê-


mica ao pedir que estudantes denunciem professores. O Globo,
21 out. 2018. Disponível em <https://oglobo.globo.com/socie-
dade/educacao/deputada-eleita-por-partido-de-bolsonaro-
-cria-polemica-ao-pedir-que-estudantes-denunciem-professo-
res-23195716>. Acesso em 22 out. 2018.

PARKINSON, J. Deliberating in the Real World. New York: Oxford


University Press, 2006.

RENAUT, A. O indivíduo: reflexão acerca da filosofia do sujeito. Rio


de Janeiro: Difel, 1998.

ROCHA, C. O mapa que registra projetos da Escola sem Partido no


país. Nexo, 12 nov. 2017. Disponível em < https://www.nexojornal.
com.br/expresso/2017/11/12/O-mapa-que-registra-projetos-da-
-Escola-sem-Partido-no-pa%C3%ADs>. Acesso em 10 out. 2018.

272 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E EDUCAÇÃO

RODRIGUES, L. Ministério Público alerta para inconstitucionalidade


do projeto Escola sem Partido em Minas Gerais. Radioagência Na-
cional, 28 ago. 2017. Disponível em <http://radioagencianacional.
ebc.com.br/educacao/audio/2017-08/ministerio-publico-alerta-
-para-inconstitucionalidade-do-projeto-escola-sem>. Acesso em
10 out. 2018.

ROLANDO, S. Comunicação pública: interesses públicos e privados.


Conferência de abertura no IV Congresso Brasileiro Científico de
Comunicação Organizacional e de Relações Públicas, 2010.

SABATIER, P.; JENKINS-SMITH, H. C. Policy Change and Learning: An


Advocacy Coalition Approach. Boulder, CO: Westview Press, 1993.

SALDAÑA, P. Debate expõe visões ‘inconciliáveis’ sobre ideologia


em sala de aula. Folha de S.Paulo, 4 ago. 2016. Disponível em
<https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2016/08/1798773-
-em-debate-projeto-de-escola-sem-partido-e-chamado-de-au-
toritario.shtml>. Acesso em 2 out. 2018.

_____. Motores de Bolsonaro, Escola sem Partido e ideologia de


gênero têm raízes religiosas. Folha de S.Paulo, 23 out. 2018. Dis-
ponível em <http://www1.folha.uol.com.br/educacao/2018/10/
motores-de-bolsonaro-escola-sem-partido-e-ideologia-de-ge-
nero-tem-raizes-religiosas-shtml>. Acesso em 13 nov. 2018.

273
SENADO FEDERAL. Consulta Pública. PL 193/2016. Dis-
ponível em <https://www12.senado.leg.br/ecidadania/
visualizacaomateria?id=125666>. Acesso em 17 nov. 2018.

STEINER, J. et al. Deliberative Politics in Action: Crossnational Stu-


dy of Parliamentary Debates. Cambridge, UK: Cambridge Univer-
sity Press, 2004.

STEINER, J. The Foundations of Deliberative Democracy. Empirical


Research and Normative Implications. New York: Cambridge Uni-
versity Press, 2012.

STROMER-GALLEY, J. Measuring Deliberation´s Content: a Coding


Scheme. Journal of Public Deliberation, vol. 3, Iss. 1, Article 12,
2007, p. 1-35. Disponível em <http://www.arjournals.annualre-
views.org>. Acesso em 10 fev. 2015.

TOKARNIA, M. ONU alerta para impactos do projeto Escola sem


Partido na educação brasileira. Agência Brasil, 13 abril 2017.
Disponível em <http://agenciabrasil.ebc.com.br/educacao/noti-
cia/2017-04/onu-alerta-para-impactos-do-projeto-escola-sem-
-partido-na-educacao>. Acesso em 4 out. 2018.

TUROLLO JR., R.; CANCIAN, N. STF pode antecipar destino da Escola


Sem Partido ao julgar lei semelhante de AL. Folha de S.Paulo, 12
nov. 2018. Disponível em <https://www1.folha.uol.com.br/educa-
cao/2018/11/stf-pode-antecipar-destino-da-escola-sem-partido-
-ao-julgar-lei-semelhante-de-al.shtml>. Acesso em 13 nov. 2018.

274 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E EDUCAÇÃO

OHCHR (OFFICE OF THE HIGH COMMISIONER FOR HUMAN RIGHTS).


Mandates of the Special Rapporteur on the right to education; the
Special Rapporteus on the promotion and protection of the right
to freedom of opinion and expression; and the Special Rappor-
teur on freedom of religion or belief. OHCHR, 13 April 2017. Dis-
ponível em <https://www.ohchr.org/Documents/Issues/Opinion/
Legislation/OLBrazileducation.pdf>. Acesso em 30 out. 2018.

UOL. Escola sem Partido é inconstitucional e contra o pluralismo,


afirma MPF. UOL Educação, 22 jul. 2016. Disponível em <https://
educacao.uol.com.br/noticias/2016/07/22/escola-sem-partido-
-e-inconstitucional-e-contra-o-pluralismo-afirma-mpf.htm>.
Acesso em 20 out. 2018.

VALADARES, J. Contra Escola sem Partido, governo do MA edita de-


creto por ‘escola sem censura’. Folha de S.Paulo, 12 nov. 2018. Dis-
ponível em <https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2018/11/
contra-escola-sem-partido-governo-do-ma-edita-decreto-por-
-escola-sem-censura.shtml>. Acesso em 13 nov. 2018.

VASSALLO, L.; AFFONSO, J. Barroso suspende programa inspirado


no Escola sem Partido em Alagoas. O Estado de S.Paulo, 22 mar.
2017. Disponível em <https://politica.estadao.com.br/blogs/
fausto-macedo/barroso-suspende-programa-inspirado-no-esco-
la-sem-partido-em-al/>. Acesso em 3 out. 2018.

WEIBLE, C. M.; SABATIER, P. A. A Guide to the Advocacy Coalition


Framework. In: FISHER, F.; MILLER, G. J. (Eds.) Handbook of Pu-

275
blic Policy Analysis. CRC Press, 2006. Disponível em <https://
ebookcentral-proquest-com.wwwproxy1.library.unsw.edu.au/
lib/unsw/detail.action?docID=283245>. Acesso em 17 Abril 2017.

WEIBLE, C. M.; SABATIER, P. A.; MCQUEEN, K. Themes and Variations:


Taking Stock of the Advocacy Coalition Framework. The Policy Stu-
dies Journal, v. 37, n. 1, p. 121-140, 2009.

WESOLOWSKA, E. Social processes of antagonism and synergy in


deliberating groups. Swiss Political Science Review, v. 13, n. 4, p.
663-681, 2007. Disponível em <http://onlinelibrary.wiley.com/
doi/10.1002/j.1662-6370.2007.tb00093.x/pdf>. Acesso em 13
nov. 2014.

276 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E CIÊNCIA
COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO
COMUNICAÇÃO PÚBLICA E CIÊNCIA

“FALANDO GREGO”:
O CASO #EXISTEPESQUISANOBR COMO TENTATIVA
DE DIVULGAÇÃO DA CIÊNCIA

Mônica Farias dos Santos1


Túlio Braga Fonseca2

RESUMO

O artigo recorre à análise de um evento recente no Twitter


brasileiro – a divulgação e projeção da hashtag #ExistePesquisa-
NoBR – para compreender seu potencial de ação de comunicação
pública. O ponto de partida é a revisão de autores que resgatam
a história e o contexto atual da divulgação da ciência, como o
espanhol Alfredo Marcos e a brasileira Graça Caldas. A reflexão
abrange, ainda, o papel da comunicação pública, com destaque
para a mobilização social, seguindo as propostas de Jaramillo Ló-
pez. O texto apresenta o resultado da análise de conteúdo reali-
zada segundo os procedimentos propostos por Laurence Bardin,
nas modalidades categorial e da enunciação. O estudo desven-
dou a forma de comunicação dos pesquisadores que aderiram à

1 Jornalista, mestre em Ciências da Comunicação pela ECA-USP. Integrante


do Grupo de Comunicação em Comunicação Pública e Comunicação Política
(Compol). E-mail: monicafarias68@gmail.com
2 Publicitário, especialista em Gestão Pública Municipal pela Pontifícia
Universidade Católica de Minas Gerais. Integrante do Compol. E-mail:
tuliofonseca.13@gmail.com.

279
mobilização por meio da hashtag: mensagens com vocabulário
técnico, hermético, distante da realidade do público a quem pro-
curavam expor seus objetos de estudo.

PALAVRAS-CHAVE: comunicação pública, comunicação da ciência,


divulgação científica, redes sociais, análise de conteúdo.

“O que é a comunicação? Eu falo com você, você não me


escuta, você não me entende e você me responde. É uma
espécie de diálogo dos surdos; o jogo do mal-entendido”.
Dominique Wolton, em McLuhan ne répond plus (2009,
p. 100).

INTRODUÇÃO

Em 30 de julho de 2018, no programa Roda Viva, da TV Cul-


tura, o então candidato à Presidência da República, Jair Messias
Bolsonaro, afirmou − em resposta a um dos jornalistas da ban-
cada − que não existe pesquisa científica no Brasil. Dias depois,
em 2 de agosto de 2018, o universo acadêmico nacional foi sur-
preendido pela divulgação de que o Ministério do Planejamento
reduziria em 11% o orçamento global do Ministério da Educa-
ção (MEC) para o exercício de 2019 e que os cortes chegariam à
Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior
(Capes), podendo afetar quase 200 mil pesquisadores bolsistas.
A preocupação e reação de cientistas, pesquisadores e aca-
dêmicos, tanto em relação às declarações do candidato (que, ao

280 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E CIÊNCIA

final do pleito, foi eleito presidente da República), quanto em re-


lação à possibilidade de cortes no orçamento da Capes, levaram o
assunto “ciência” ao topo da rede social Twitter no Brasil. No pla-
no analógico, mobilizações surgiram em vários pontos do País.
Instituições se pronunciaram e grupos se organizaram para levar
o protesto às ruas. No ambiente virtual, espontânea e individu-
almente, pesquisadores procuraram unir forças sob a hashtag
#ExistePesquisaNoBR (e variações, tais como #ExisteCienciaNo-
BR) e usaram seus perfis nas mídias sociais para falar sobre o tra-
balho que desenvolvem nas universidades e centros de pesquisa.
Nas mídias sociais, pesquisadores dedicados à comunica-
ção em meios digitais, dentre os quais Felipe Soares (2018), iden-
tificaram3 uma repercussão significativa da hashtag #ExistePes-
quisaNoBR, tanto em velocidade como em poder de propagação,
alcançando níveis que muitos sonham obter quando o objetivo é
divulgação da ciência brasileira. Aos autores do presente artigo,
porém, apresentou-se a necessidade de verificar qual o teor das
mensagens carreadas pela hashtag em questão − selecionadas
da rede social Twitter. Segundo nossa percepção como pesqui-
sadores em Comunicação Pública, o movimento converteu-se
em manifestação reativa e orgânica desse campo do saber, tanto
em sua clássica face de tornar pública a informação à sociedade,
quanto em seu aspecto de advocacy, ou seja, de promover enga-
jamento a causas.
A compreensão dessa ação de “Comunicação Pública da Ci-
ência” enquanto tentativa será estudada, inicialmente, a partir de
um resgate histórico das primeiras experiências de comunicação

3 Estudos foram realizados por meio de métricas específicas utilizadas para


analisar padrões de engajamento em redes sociais.

281
e divulgação da ciência no Brasil, assim como a própria compre-
ensão da diferença entre esses dois termos: comunicação e di-
vulgação. Além desses temas, servirão ao propósito de completar
o pano de fundo da análise, a apresentação do recente cenário
exposto por pesquisa sobre o interesse dos brasileiros a respeito
de temas da ciência; as tentativas de consolidar políticas públicas
de comunicação sobre ciência, tecnologia e inovação; e o direito
da sociedade em receber informações sobre a produção científica
no Brasil, conforme ensinam os princípios da Comunicação Públi-
ca. A partir dessas referências, será estudado o “grito”, à guisa de
advocacy, dos pesquisadores no Twitter, cujas mensagens serão
alvo da análise de conteúdo orientada pelo método de Laurence
Bardin (1977) (nas modalidades categorial e da enunciação) para
compreender de que maneira buscaram cumprir o propósito de
informar e esclarecer a sociedade a respeito de suas pesquisas.
Tal análise completa o quadro sobre o qual serão tecidas as con-
siderações finais.
Mesmo em se tratando de um evento específico, extraor-
dinário e de curto prazo, nosso objetivo é que este estudo possa
contribuir para a ampliação e qualificação da forma de divulgar
a ciência no Brasil.

ALGUM TEMPO ATRÁS

No caminho proposto para essa análise, quatro variáveis


precisam ser contextualizadas historicamente. São elas: comu-
nicação, mídia, divulgação e ciência no Brasil. Para esse resgate
no tempo, propomos um recorte cronológico para destacar fatos

282 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E CIÊNCIA

que podem contribuir para a compreensão do relacionamento


dos atores envolvidos no processo de comunicação e ciência em
nosso País. Com isso, buscamos clarear como se deu o embate
entre o político, o público e o privado em situações que envolve-
ram nascimento e o desenvolvimento daquelas variáveis.
Voltamos ao ano de 1783, em Belém do Pará, quando
uma equipe de viajantes desbravou o centro-norte da colônia,
numa viagem de nove anos, em que percorreram 40 mil quilô-
metros. Baliana e Fernandes (2018, p. 153) revelaram que apesar
do pioneirismo, “a empreitada não teve o esperado impacto na
comunidade acadêmica na época” e que, devido a um misto de
negligência e má sorte, os relatos, memórias e desenhos per-
maneceram em manuscritos, sem revisão por quase um século.
A análise histórica revela que os pesquisadores tiveram receio,
já naquela ocasião, de que as informações fossem apropriadas
irregularmente por outras pessoas e, por isso, mantiveram suas
notas apenas originais.
Mais tarde, no início do século XIX, a vinda da corte portu-
guesa para o País propiciou “a circulação de informação na colô-
nia, especialmente após a criação da Imprensa Régia, em 1810”
(FIOCRUZ, 2009). Nessa época, a divulgação de temas relacio-
nados à ciência era pouco expressiva. Conforme destaca Oliveira
(1999), a política de D. João foi o “estopim de todo o processo
de gestação da cultura científica brasileira”, aglutinando “as as-
pirações, os desejos e as necessidades dos velhos e dos novos
residentes no Brasil”. O autor revela ainda que com recursos hu-
manos escassos, havia necessidade de formação, principalmente
de engenheiros, médicos e militares, o que movimentou a vida
intelectual em uma sociedade colonial ainda marcada pelo anal-

283
fabetismo. “Era necessário estimular o uso de uma linguagem
que pudesse ser lida e ouvida” (FIOCRUZ, 2009)4. O jornalismo
assumia ali finalidades pedagógico-políticas para conseguir es-
clarecer a incipiente opinião pública daquela época.
No período Regencial, entre 1831 e 1840, surgiram outros
periódicos e também as primeiras sociedades técnico-científicas.
Já durante o segundo Império, a partir de 1841, ocorreram “o de-
senvolvimento da imprensa no País, a ampliação da publicidade
e a ligação entre o Brasil e a Europa pelo cabo submarino” (FIO-
CRUZ, 2009). Houve então um aumento significativo no número
de publicações e também de tipografias.

A partir de 1850, as atividades de divulgação se intensifi-


caram em todo o mundo, acompanhando as esperanças
sociais crescentes acerca do papel da ciência e da tecno-
logia, que se intensificaram com a segunda revolução in-
dustrial na Europa. O Brasil, ainda que em menor escala,
também foi atingido por essa onda de interesse pela di-
vulgação científica. (FIOCRUZ, 2009).

Moreira e Massarani (2002, p. 56) identificaram, durante as


duas primeiras décadas do século XX, o interesse maior de um
pequeno grupo de cientistas e acadêmicos do Rio de Janeiro na
divulgação de seus estudos, já em função melhores condições
para o desenvolvimento da pesquisa básica. Ainda existiam pou-
cas instituições de ensino superior, “quase todas voltadas para
a formação profissional de engenheiros ou médicos” (MOREIRA;

4 A Fundação Oswaldo Cruz mantém o site Brasiliana, que relata a história da


divulgação científica no País desde o século XVIII.

284 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E CIÊNCIA

MASSARANI, 2002, p. 46). Mesmo com analfabetismo próximo de


80% da população, neste período foi mais intensa a utilização
de jornais, revistas e livros para a difusão das ideias científicas.
Foram também organizadas conferências abertas ao grande pú-
blico. Em 1916, nasceu a Sociedade Brasileira de Ciências, que se
transformaria mais tarde na Academia Brasileira de Ciências. “Co-
meçaram a ser feitas também as primeiras tentativas sistemáti-
cas voltadas para a criação de faculdades de filosofia, ciências e
letras” (MASSARANI, 1998, p. 51).

O SURGIMENTO DOS SUPORTES AUDITIVO E VISUAL

A primeira transmissão de rádio no Brasil ocorreu em 7 de


setembro de 1922. Surgia a primeira rádio brasileira, a Rádio So-
ciedade, com início efetivo e regular das transmissões apenas a
partir de 20 de abril de 1923, conquistando uma audiência con-
centrada na elite social, econômica e intelectual.5 Paralelamente,
a divulgação científica também ganhava grande impulso na dé-
cada de 20 (MASSARANI, 1998, p. 52). A história da mídia, da ci-
ência e da educação continuou a se entrelaçar quando, em 1927,
foi criado o Instituto Internacional de Cinematografia Educativa,
mantido com verbas do governo italiano. A iniciativa abriu o ca-
minho para que, no ano seguinte, a reforma no setor da educação
realizada por Fernando de Azevedo determinasse que nas esco-
las brasileiras deveriam existir “salas de projeção de filmes para
fins educativos” (MASSARANI, 1998, p. 130). Em 1936, funda-se

5 Esta emissora pioneira foi doada ao Ministério da Educação em 1936,


transformando-se na Rádio MEC.

285
o Instituto Nacional do Cinema Educativo, que passa a produzir
“vários filmes com fins educativos e também de documentação
cientifica, técnica e artística, incluindo temas como prevenção e
tratamento de doenças, costumes, plantas, animais” (MASSARANI,
1998, p. 131).
Nos anos 1960, os serviços de telecomunicações no Brasil
foram regulados através do Código Nacional de Telecomunica-
ções, aprovado pelo Congresso Nacional em 1962, e posterior-
mente regulamentado pelo Decreto 52.795/63. Ficaram estabe-
lecidos seus objetivos como “educacionais e culturais, mesmo
nos seus aspectos informacional e de entretenimento” (JAMBEI-
RO, 2001, p. 59).

DIVULGAÇÃO, COMUNICAÇÃO, JORNALISMO CIENTÍFICO:


ESCLARECENDO TERMOS

Ainda na fase de alinhamento conceitual, destacamos ter-


minologias importantes para a compreensão da divulgação da
ciência. Utilizaremos, de maneira rápida, a abordagem do pes-
quisador espanhol Alfredo Marcos (2010). Para ele, a difusão ou
disseminação científica se refere a uma comunicação ampla e
irrestrita a toda a sociedade, sem necessidade de adaptação de
mensagem ao receptor. Já o termo divulgação faz referência ao
receptor muito específico. Para o autor, a divulgação “é um tipo
de comunicação entre a comunidade científica e a sociedade com
adaptação da mensagem ao receptor6 (MARCOS, 2010, 184-185).

6 Tradução livre do trecho “es un tipo de comunicación entre la comunidad


científica y la sociedad con adaptación del mensaje al receptor”.

286 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E CIÊNCIA

Por fim, o jornalismo científico guarda semelhanças estruturais


com o jornalismo tradicional. E para isso Marcos chama atenção
para o relacionamento destes dois atores no processo:

Muitos cientistas já entendem que a continuidade de sua


pesquisa depende muito da percepção da sociedade so-
bre a mesma. Como é compreensível, por outra parte, que
o jornalista veja na tecnociência um tema apaixonante
sobre o qual informar ou opinar. Também são muitos os
jornalistas que têm captado o interesse social pela tecno-
ciência e pelas enormes implicações vitais que esta tem
hoje em dia”. (MARCOS, 2010, 185) 7.

Ao expor a diferença dessas terminologias, Marcos (2010)


defende a elaboração de teoria da comunicação da ciência que
permita melhorar a comunicação com a sociedade. Ele parte, en-
tão, do entendimento de que a ciência é um fato social e que é
ação e não apenas resultados. Com isso, ele procura mostrar um
leque ampliado de conteúdo a ser produzido, uma vez que a di-
vulgação da ciência não deve ter como foco apenas o resultado
final das investigações. Marcos (2010, 192) alerta que a ciência
e a notícia científica estão também “na atividade dos laborató-
rios, das aulas, dos escritórios, (...) e em todos os lugares onde os
efeitos da aplicação tecnológica são percebidos”8. Isso também

7 Tradução livre do trecho “Ya muchos científicos entienden que la continuidad


de su investigación depende en gran medida de la percepción social de
la misma. Como es comprensible, por outra parte, que el periodista vea
en la tecnociencia un tema apasionante sobre el que informar u opinar.
También son muchos los periodistas que han captado el interés social por la
tecnociencia y las enormes implicaciones vitales que ésta tiene hoy día”.
8 Tradução livre do trecho “en la actividad de los laboratórios, de las aulas, de

287
implica em que o jornalismo científico explore os mais diferentes
canais e de formatos de mensagens para alcançar o público mais
amplo possível (notícias, reportagens, entrevistas, publicidade,
textos de opinião, humor e conteúdo interativo).
Com relação ao receptor, o autor o define de forma simples,
apesar dos diversos interesses:

(...) a pessoa interessada pelo conhecimento do universo;


os consumidores de tecnologia, de produtos industriais e
serviços produzidos por meios tecnológicos; o eleitor e o
cidadão que querem informação e opinião sobre política
I+D+i [Investigação, Desenvolvimento e inovação]; os afe-
tados pelos impactos sociais e ambientais da tecnocência,
etc. (MARCOS, 2018, p. 215)9

CIÊNCIA E TECNOLOGIA (C&T), PERCEPÇÃO DA SOCIEDADE

Passamos agora a discutir os efeitos da divulgação cien-


tífica na sociedade e a percepção do cidadão sobre a C&T. Nessa
linha, o governo brasileiro vem realizando uma série de enquetes
sobre percepção pública da C&T feita no País. Levantamentos so-
bre “a ciência e a tecnologia no olhar dos brasileiros” foram reali-

los despachos, (...) y en todos los lugares donde se dejen sentir los efectos de
la aplicación tecnológica”.
9 Tradução livre do trecho “(...) la persona interesada por el conocimiento
del universo; los del consumidor de tecnologia, de productos industriales y
servicios producidos por medios tecnológicos; los del votante y ciudadano que
quiere información y opinión sobre políticas de I+D+i [Investigación, Desarrollo
y innovación]; los del afectado por los impactos sociales y ambientales de la
tecnociencia, etc.”.

288 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E CIÊNCIA

zados em 1986, 2006, 2010 e 2015. Nesse último ano, foi lançado
o livro “A ciência e a tecnologia no olhar dos brasileiros. Percep-
ção pública da C&T no Brasil – 2015” (BRASIL, 2017), elaborado
pelo Centro de Gestão e Estudos Estratégicos – CGEE, organização
social supervisionada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia, Ino-
vações e Comunicações. Em editorial dessa publicação, o então
presidente do CGEE, Mariano Francisco Laplane, apontou que

Conhecer a percepção dos brasileiros sobre os benefícios


e os impactos da ciência e tecnologia em suas vidas é de
grande relevância, não somente para auxiliar as tomadas
de decisão em relação à área, como também ampliar a
participação da sociedade nessas escolhas. (BRASIL, 2017,
p. 7).

Os levantamentos revelam que seis em cada dez brasileiros


declaram ter muito interesse por temas de ciência e de tecnolo-
gia no País.

Para se ter uma ideia, trata-se de um índice mais alto do


que assuntos como “esportes” (56%) e “moda” (34%). Na
mesma pesquisa, no entanto, nove em cada dez entre-
vistados não conseguem mencionar o nome de um cien-
tista ou de uma instituição científica nacional. Brasileiros
dizem que gostam, mas desconhecem a ciência do país.
(RIGHETTI, 2018, p. 24).

Herton Escobar (2018, p. 31), jornalista especializado em


mídia científica, alerta sobre as deficiências na divulgação cientí-

289
fica no Brasil que, segundo ele, estão se aprofundando. Ele desta-
ca ainda dados revelados pela pesquisa como a confiança que as
pessoas no Brasil têm nos cientistas – acima da credibilidade em
médicos, jornalistas ou outros profissionais. “A comunidade cien-
tífica precisa tirar proveito dessa confiança – no bom sentido” (ES-
COBAR, 2018, p.32). Castelfranchi et al. (2013, p. 1169) enfatizam
que 62% dos entrevistados se declaram “muito interessados” ou
“interessados” em C&T, sendo que 86% destes também se de-
claram “informados” ou “muito informados”. Os autores alertam
para a necessidade de problematizar a relação entre interesse e
acesso à informação sobre C&T. “Diversos indícios mostram que
uma parte significativa do público pode realmente ter interesse
em C&T, mas não busca ativamente informação ou não está em
condições de fazê-lo.” (CASTELFRANCHI et al., 2013, p. 1.171).
Para Jonatas Simião (2018, p. 118), a divulgação científi-
ca “não tem sido suficiente para engajar a população em ações
mais práticas e novas alternativas precisam ser pensadas”. Ele
destaca o posicionamento do presidente da SBPC (Sociedade Bra-
sileira para o Progresso da Ciência) na gestão 2017-2019, Ildeu
de Castro Moreira, que diz: “precisamos ter estratégias melhores,
trabalhando mais as mídias sociais, já que a imprensa ainda dá
pouco espaço para a ciência no Brasil”.
A questão pendente diante deste cenário positivo quanto
à receptividade de grande parte dos cidadãos à informação cien-
tífica, passa a ser, então, por que a ciência brasileira não chega
à grande mídia? “Não falta assunto de ciência brasileira para ser
divulgado”, garante a pesquisadora Sabine Righetti (2018, p. 25).
Ela embasa sua afirmação em consulta feita em 2018 ao portal de
indicadores bibliométricos baseados em citações, o Scimago Jor-

290 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E CIÊNCIA

nal & Country Rank (SJR). De acordo com o levantamento, o Brasil


produz cerca de 2% de toda a ciência mundial, alcançando quase
69 mil estudos publicados em 2016 (RIGHETTI, 2018, p. 25). A
pesquisadora destaca também que é significativa a comunidade
de jornalistas de ciência em atuação no Brasil, com capacidade
de relatar os estudos, mas que faltam estratégias de visibilidade
à produção científica nacional, o que a deixa escondida da gran-
de mídia (ao contrário da ciência estrangeira). Em todo o mundo,
jornalistas e veículos cadastrados têm acesso a plataformas como
a EurekAlert, um serviço global de notícias operado pela AAAS
– Associação Americana para o Avanço da Ciência (sigla em in-
glês), que disponibiliza conteúdo inédito de alto impacto, o que
garante informação de qualidade toda semana para publicação.
Ocorre que a EurekAlert dá prioridade para pesquisas feitas nos
Estados Unidos. Isso faz com que seja mais fácil também para os
jornalistas brasileiros escrever sobre pesquisas estrangeiras do
que nacionais.
É fundamental que os cientistas brasileiros entendam que
a lógica de produção de conteúdo hoje exige velocidade na pro-
dução e uma divulgação que atenda ao interesse da mídia por
novidades. Para o jornalista Herton Escobar (2018, p. 33) a comu-
nidade científica deveria “acordar para a realidade, sair da sua
torre de marfim acadêmica, e começar a dialogar direta e diaria-
mente com a sociedade”. E diz ser necessário que as instituições
de pesquisa brasileiras criem programas de iniciação científica
“bem estruturados, bem financiados e com recursos humanos
qualificados na área de comunicação” (ESCOBAR, p. 34).

291
O QUE SE COMUNICA E O QUE SE ENTENDE

O pesquisador Carlos Teixeira divide entre jornalistas e


comunicadores científicos a função de difundir a ciência, tendo
ambos a tarefa de traduzir “para uma linguagem acessível à so-
ciedade em geral informações de ciência e tecnologia” (TEIXEIRA,
2013, p. 66). Ele trata de forma rigorosa a utilização dos termos
divulgação, disseminação e difusão científicas. Em apertada sínte-
se, Teixeira trata divulgação como comunicação envolvendo toda
a sociedade, que tem como objetivo transmitir informações. Já a
ação de disseminar estaria ligada à comunicação entre cientistas
e pesquisadores por meio dos “periódicos científicos revisados
por pares, as comunicações em congressos, os relatórios técnicos,
entre outros.” (TEIXEIRA, 2013, p. 66). Por fim, o termo difusão
científica englobaria os dois últimos, seja quando os estudiosos
comunicam-se entre si, com códigos de linguagem próprios ou
quando “traduzem para uma linguagem acessível à sociedade em
geral informações de ciência e tecnologia” (TEIXEIRA, 2013, p. 66).
Graça Caldas (1998) chega a tratar como desserviço à opinião
pública a narrativa meramente factual sobre a ciência. Para ela, “o
jornalista não pode esquecer-se de seu papel educativo” e o cientis-
ta deve “procurar compreender o imediatismo dos meios de comu-
nicação e colaborar com o jornalista na divulgação de sua pesquisa”
(CALDAS, 1998). Neste ponto, importante lançar o entendimento de
Paulo Freire sobre o processo de comunicação e seu posicionamen-
to crítico ao monologismo da comunicação. A abordagem freireana
aplicada ao nosso objeto de estudo reforça a importância da cons-
trução adequada de conteúdo e o diálogo com a sociedade em de-
trimento da simples transmissão da mensagem científica.

292 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E CIÊNCIA

Só se comunica o inteligível na medida em que este é co-


municável. Esta é a razão pela qual, enquanto a signifi-
cação não for compreensível para um dos sujeitos, não é
possível a compreensão do significado à qual um deles já
chegou e que, não obstante, não foi apreendida pelo ou-
tro na expressão do primeiro (FREIRE, 1975, p. 68).

COMUNICAÇÃO COM DIÁLOGO

Contrariamente à premissa de Freire, autores como Aman-


da Chevtchouk Jurno (2017, p. 58) apontam dificuldades de falar
sobre ciência, uma vez que ela “é planejada para alijar logo de
cara a maioria das pessoas”. Diante desse distanciamento, ela
defende a ênfase do divulgador científico na tarefa de criar “pon-
tes entre a linguagem da academia e a linguagem do dia a dia
dos leitores” (JURNO, 2017, p. 58).
Nesse processo, cria-se a reciprocidade tão cara à comunica-
ção defendida por Freire (1975, p. 67). Isso afeta definitivamente a
difusão científica se a entendermos como um processo e as formas
de comunicação como meios − e não como fins. Entendemos que
há aspectos diversos que devam ser analisados para efetivamen-
te discutir efeitos e contribuições da comunicação para a ciência.
Lima (2011) destaca o processo dialógico idealizado por Paulo
Freire, em que o cidadão deve ser considerado um participante
ativo da comunicação e não apenas como mero receptor. Segundo
esta noção, a comunicação, assim como a educação, não transfere
saberes, mas é resultado de diálogos entre sujeitos envolvidos.
Na verdade, a comunicação perpassa todas as três dimensões
da cidadania, constituindo-se, ao mesmo tempo, em direito civil —

293
liberdade individual de expressão; em direito político — através do
direito à comunicação, que vai além do direito de ser informado; e
em direito civil — através do direito a uma política pública demo-
crática de comunicação que assegure pluralidade e diversidade na
representação de ideias e opiniões (LIMA, 2006, p.11).

COMUNICAÇÃO PÚBLICA DA CIÊNCIA: QUESTÃO DE DIREITO


DA SOCIEDADE

O pesquisador Carlos Teixeira, em estudo de 2013, propõe


a introdução da discussão da ciência e do acesso à informação
científica como direito social. Seu estudo considera a divulgação
científica como comunicação pública que, portanto, deve envol-
ver toda a sociedade. A população, que é quem paga impostos,
tem o direito de ter acesso a informações das universidades pú-
blicas, o que inclui o conhecimento científico produzido por elas.
A associação feita por Teixeira entre o direito social à infor-
mação científica e a comunicação pública é pertinente. A introdu-
ção dos conceitos e práticas da comunicação pública no Brasil, e
que atraiu os olhares da academia para o campo, deu-se por meio
dos estudos do francês Pierre Zémor. Heloiza Matos foi uma das
primeiras pesquisadoras no País a ter contato com a produção do
pesquisador francês e a compreender a pertinência dos estudos
da comunicação pública em meios acadêmicos, ao observar, à
época da redemocratização brasileira, a existência de grupos so-
ciais imbuídos do propósito de dar visibilidade midiática a suas
diversas demandas políticas e sociais – um momento em que os
atores sociais se diversificavam, permitindo a ativação de uma

294 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E CIÊNCIA

esfera pública até então incipiente. O afastamento no tempo em


relação às primeiras manifestações públicas de demandas per-
mitiu à autora elaborar seu conceito inicial com maior precisão,
ao propor que “comunicação pública seja compreendida como
processo de comunicação instaurado em uma esfera pública que
englobe Estado, governo e sociedade, além de um espaço para
o debate, a negociação e a tomada de decisões relativas à vida
pública do país” (MATOS, 2009, p. 105).
Recorrendo e apoiando-se no filósofo alemão Jürgen Ha-
bermas, a comunicação pública no Brasil estabeleceu-se como
a prática própria e inerente à esfera pública habermasiana. Nas
palavras do autor:

Esfera ou espaço público é um fenômeno social elemen-


tar, do mesmo modo que a ação, o ator, o grupo ou a cole-
tividade; porém, ele não é arrolado entre os conceitos tra-
dicionais elaborados para descrever a ordem social (...). Do
mesmo modo que o mundo da vida tomado globalmente,
a esfera pública se reproduz através do agir comunicativo,
implicando apenas o domínio de uma linguagem natural;
ela está em sintonia com a compreensibilidade geral da
prática comunicativa cotidiana. (HABERMAS, 1997, p. 92).

A esfera pública é definida por diferentes autores das ciências


sociais como o espaço de compartilhamento e disputa de significa-
dos, onde todos os atores sociais têm acesso, voz e vez, e cujo pro-
pósito é buscar, por meio da palavra, das conversações e da delibera-
ção, o bem comum. Wilson Gomes, em obra que aprofunda a análise
de diferentes conceitos do pesquisador alemão, compreende que

295
Neste esquema, a esfera pública é basicamente um meio
para a produção da opinião pública e o modo fundamen-
tal de existência da esfera pública é a comunicação públi-
ca, que se materializa em um conjunto de estruturas para
uma comunicação generalizada (quer dizer, não-restriti-
va, não-especializada, não excludente). A matéria básica
da comunicação pública (em outras palavras, aquilo que
responde à pergunta: qual é o objeto da comunicação ge-
neralizada?) são questões, ideias, formulações, problema-
tizações, sugestões provenientes das interações vitais da
vida em sociedade. (GOMES, 2008, p. 85).

Consoante às suas fundamentações no pensamento haber-


masiano, Maria José da Costa Oliveira, defende que a comunica-
ção pública “(...) pode ser entendida como aquela praticada no
espaço público democratizado, envolvendo os diferentes setores
da sociedade” (OLIVEIRA, 2009, p. 469). Mais adiante em sua pro-
dução, a autora aprofundou a compreensão a respeito do recep-
tor das mensagens da comunicação pública. Oliveira propõe o
abandono da histórica concepção de “públicos”, substituindo-a
pelo conceito de “cidadãos”.

(...) porque seu significado na sociedade democrática


envolve justamente participação na esfera pública. Isso
pressupõe relacionamentos entre atores sociais, tendo
como base o respeito aos direitos humanos, participação
nos negócios públicos, enfim, deveres e direitos, inclusive
os ecológicos, de gênero, étnicos, liberdade de expres-
são, respeito à individualidade e justiça social. (OLIVEIRA,
2011, p. 80).

296 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E CIÊNCIA

Compartilha do mesmo olhar sobre o público enquanto ci-


dadão, membro de uma comunidade, a pesquisadora Mariângela
Furlan Haswani. Em sua definição, a comunicação pública é a que

(...) tem por objeto os “negócios” de interesse geral (...),


aqueles que os ingleses definem como public affairs (...).
Os “negócios de interesse geral” são aqueles que contem-
plam toda a comunidade, que produzem efeitos, antes de
mais nada, sobre a interação entre os diversos sistemas
sociais nos quais esta se articula e, depois, sobre a esfera
privada envolvida. (HASWANI, 2011, p. 86).

O Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunica-


ções registra, nas publicações oriundas das Conferências Nacio-
nais de Ciência Tecnologia e Inovação (realizadas em 2001, 2005
e 2010), e também em documentos produzidos posteriormente,
como a publicação “Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e
Inovação: 2012 – 2015” (BRASIL, 2012), que a apropriação dos
temas científicos pela sociedade deve ser estimulada por meio de
ações de “Comunicação Pública da Ciência”.
Dentre as recomendações aprovadas pela 4ª Conferência,
em 2010, estava expresso esse olhar sobre a necessidade de pro-
mover o compartilhamento amplo dos assuntos da ciência com a
sociedade, ao se propor:

(...) a) O fortalecimento do Comitê Assessor de Divulga-


ção Científica do CNPq10, com participação de cientistas,
jornalistas e comunicadores da ciência, e uma política de

10 Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

297
editais periódicos em parceria com as FAPs11. Outras ações
importantes são o estímulo ao envolvimento da iniciativa
privada e a criação de mecanismos para apoiar atividades
de comunicação pública da ciência em todos os projetos
de pesquisa de maior porte. b) Valorizar as atividades de
popularização da C&T e promover a formação qualifica-
da de jornalistas científicos, comunicadores da ciência e
assessores de comunicação, bem como a capacitação de
cientistas, professores e estudantes para a comunicação
pública da ciência. Criar programas que atraiam jovens
de todas as camadas sociais para carreiras de C&T. c)
Criar uma Rede/Fórum Nacional para a popularização da
CT&I12, com participação da comunidade de C&T, governos
e sociedade civil.(...) d) atingir uma presença mais intensa
e qualificada da CT&I em todos os meios e plataformas
de comunicação na mídia brasileira, inclusive nas redes
sociais, e promover a produção/veiculação de programas
de divulgação e educação científica na TV, rádio e internet,
incluindo a TV Pública Digital (BRASIL, 2010, p. 92).

Esses destaques levaram a pesquisadora Graça Caldas a


avaliar que a divulgação científica havia entrado na agenda do
governo, “o que pode ser atestado nas políticas públicas de co-
municação da ciência registradas em documentos oficiais e nas
Conferências Nacionais de Ciência, Tecnologia e Inovação” (CAL-
DAS, 2011, p.20). Também revelou que, a partir dos anos 1990,
a opinião do público tem sido valorizada e seu direito de parti-
cipar respeitado nas decisões sobre políticas públicas de Ciência
e Tecnologia, dialogando com o conceito de Public Affairs, men-

11 Fundações de Amparo à Pesquisa (situados em cada estado).


12 Ciência, Tecnologia e Inovação

298 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E CIÊNCIA

cionado por Haswani (2011, p. 86). No entanto, Caldas reconhece


que esse posicionamento do Estado também foi alvo de críticas,
“por estar mais centrado na discussão das políticas científicas em
lugar da compreensão pública da ciência” (CALDAS, 2011, p. 21).
Em anos recentes, a publicação “Estratégia Nacional de Ci-
ência, Tecnologia e Inovação 2016/2022” ocupou duas tímidas
linhas de suas 130 páginas para afirmar que “a formação do
divulgador e do professor de ciências é um elemento-chave na
ampliação da cultura científica da sociedade brasileira” (BRASIL,
2016, p. 99). É a única referência, em todo o documento, à divul-
gação da ciência como componente de uma política pública de
ciência, tecnologia e inovação.
Embora as políticas públicas para a ciência, tecnologia e
inovação de anos passados tenham contemplado aspectos da co-
municação pública da ciência, elas não pareciam configurar, pre-
cisamente, uma política pública para a área. Em anos mais recen-
tes, o problema parece repetir-se. A carência de políticas públicas
exclusivas para a comunicação pública das conquistas da ciência
brasileira mantém o conhecimento científico desenvolvido no
País preso à dita “torre de marfim”, privando o público desses sa-
beres e resultando em declarações como a do então candidato à
presidência da República, de que “não existe pesquisa no Brasil”.

UM CAMINHO DA COMUNICAÇÃO DA CIÊNCIA PELA MOBI-


LIZAÇÃO

A ideia de sociedade enquanto interlocutor coletivo é de-


senvolvida pelo colombiano Juan Camilo Jaramillo López, em sua

299
Proposta Geral de Comunicação Pública (2011b). Em outro texto,
o autor colombiano também defende a comunicação pública em
seu aspecto de advocacy, que privilegia a mobilização para a sen-
sibilização a respeito de questões de interesse geral.

Advocacy, ou advocacia, é mobilização social. Portanto,


é uma ação de comunicação e, mais especificamente, de
comunicação pública. Trata-se de uma estratégia de con-
vocatória e construção de propósitos comuns, com o obje-
tivo de produzir significado e sentido compartilhados em
assuntos de interesse coletivo. (JARAMILLO LÓPEZ, 2011a,
p. 62).

Desenvolvida de acordo com a lógica do paradigma da


complexidade, a mobilização social não se constitui na dissemi-
nação de mensagens, slogans, materiais ou qualquer outra es-
tratégia semelhante. Para que se desenvolva nos interlocutores a
consciência de existência e sentidos compartilhados, a mobiliza-
ção busca “desencadear processos que trabalham sobre o mes-
mo problema e que atuam em rede” (JARAMILLO LÓPEZ, 2011a, p.
69). Em resumo, o autor define (2011a, p. 71-72), pontualmente,
os princípios da advocacy como estratégia “(...) por meio da qual,
diante de um propósito comum: 1) se convocam vontades; 2) se
espera um comprometimento definitivo; 3) e busca respaldo pú-
blico e participativo”.
Embora ainda na introdução do presente artigo tenha sido
exposto que a mobilização de cientistas brasileiros que será ana-
lisada a seguir tenha um caráter não planejado, não institucional
e até mesmo “orgânico” em seu desenvolvimento, o resgate dos

300 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E CIÊNCIA

autores da comunicação pública e dos conceitos por eles defen-


didos – em especial o princípio da advocacy como estratégia que
busca respaldo público – serão importantes para a compreensão
do fenômeno.

O CASO: A ORIGEM DO #EXISTEPERSQUISANOBR

Em 2 de agosto de 2018, um cientista da computação da


Unicamp compartilhou a seguinte mensagem em seu perfil de
Twitter:

(...) o @jairbolsonaro afirmou no @rodaviva que não te-


mos pesquisa no Brasil. Convido a todos que divulguem
suas pesquisas usando a hashtag #existepesquisanobr,
explicando também porque elas são importantes. Sem
briga, lacração (...).

A partir daí, criou-se uma corrente de pesquisadores bra-


sileiros, de diferentes áreas do saber, que responderam à con-
vocação de Siqueira e passaram a resumir, em 280 caracteres
(máximo permitido pelo Twitter para postagens únicas) qual a
natureza de suas pesquisas acadêmicas. Já em 3 de agosto, dia
seguinte ao chamamento, a hashtag #ExistePesquisaNoBR já al-
cançava o ranking de assuntos mais comentados (os trending to-
pics) do Twitter no Brasil.
Uma análise realizada pelo pesquisador em comunicação
e informação Felipe Soares (2018), do grupo de Pesquisa em Mí-
dia, Discurso e Análise em Redes Sociais da Universidade Federal

301
do Rio Grande do Sul, registrou que, em 3 de agosto, as intera-
ções no Twitter em torno da hashtag envolveram 2.607 usuários,
responsáveis pelo disparo de 6.565 mensagens até as 15 horas
daquele dia. O método utilizado pelo pesquisador foi o de Análise
das Redes Sociais, aplicado para observar conexões entre atores
sociais nas redes.
Por meio da análise de Soares, verificou-se que as mensa-
gens dos pesquisadores da Agronomia foram as que receberam
maior visibilidade. Também foi identificada a presença de muitos
pesquisadores da Astronomia, além da participação de pesquisa-
dores das Ciências Sociais, Ciências Humanas, Ciências Biológicas
e Ciências Exatas. “O mais interessante nesta rede é observar o
diálogo entre as diversas áreas da ciência brasileira”, registrou
Felipe Soares (2018). “Com a mobilização em torno de #existe-
pesquisanobr, usuários retuitaram pesquisadores de diferentes
linhas de pesquisa, dando visibilidade e ampliando a circulação
destes conteúdos em suas redes de conexões” (SOARES, 2018).
Outra análise, conduzida por Pedro Meirelles (2018), do
Instituto Brasileiro de Pesquisa e Análise de Dados, indica que
as mensagens com a hashtag para opinar sobre a manifestação
usaram palavras “(...) quase unanimemente de forma positiva
(elogiosa), o que pode de certa forma ser visto como um indi-
cativo de sucesso para o propósito de divulgação das pesquisas”
(MEIRELLES, 2018).
O site Buzzmonitor (2018) registrou aspectos do perfil dos
responsáveis pela propagação das mensagens a partir da hashtag
#ExistePesquisaNoBR. No monitoramento, os termos “pesquisa”,
“bolsas” e “ciência” estiveram entre os mais mencionados nes-
ses tweets. A maior parte dos perfis era identificada pela palavra

302 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E CIÊNCIA

“professor” ou “estudante”. Os responsáveis pelos tweets indi-


caram em seus perfis como residentes nos estados de São Paulo,
Rio de Janeiro e Paraíba.
Tais análises trouxeram importantes revelações de cunho
quantitativo, e que apresentam possibilidades de leituras qualita-
tivas pelos pesquisadores dedicados aos estudos da comunicação
e informação em redes sociais digitais. Para o presente artigo, in-
teressa investigar mais detalhadamente o conteúdo dessas inte-
rações provocadas pela hashtag #ExistePesquisaNoBR e verificar,
sob o olhar da comunicação pública, o que foi dito (e de que ma-
neira) pelos pesquisadores brasileiros sobre suas investigações.

ANÁLISE DE CONTEÚDO

A Análise de Conteúdo, conforme desenvolvida por Lau-


rence Bardin (1977), é empregada aqui para desvendar alguns
aspectos das mensagens produzidas no Twitter sob a hashtag
#ExistePesquisaNoBR no período compreendido entre 2 e 8 de
agosto de 2018. A coleta dos dados foi realizada por meio da
ferramenta de pesquisa de conteúdo do Twitter, utilizando como
termo de busca a própria hashtag. Não foram consideradas as
muitas variações de denominação que se destinavam ao mesmo
propósito, tais como #existepesquisadornobr, #existecienciano-
br, #existecientistanobr, #meuprojetocapes.
Foram coletados 105 tweets (mensagens na referida rede so-
cial) de até 280 caracteres, contendo a hashtag #ExistePesquisaNo-
BR. Do total, 99 explicam as pesquisas dos autores das mensagens.
Seis se referem a críticas e/ou preocupações em relação ao uso da

303
hashtag. Também foram coletados dois threads (encadeamento de
tweets), que explicam o trabalho do pesquisador no Brasil e como
é o funcionamento das bolsas de instituições de fomento.
A ferramenta de busca do Twitter limita a coleta de tweets,
excluindo da pesquisa os perfis que são definidos como privados.
No entanto, para o propósito deste trabalho, a amostra é repre-
sentativa.
Para aferir a preferência de abordagem manifesta nos
tweets, foi realizada a Análise Categorial de Conteúdo, conforme
proposta por Bardin. Segundo ele, “a categorização é uma opera-
ção de classificação de elementos constitutivos de um conjunto,
por diferenciação e, seguidamente, por reagrupamento segun-
do o gênero (analogia), com os critérios previamente definidos
(BARDIN, 1977, p. 117).
Dentre os possíveis critérios de categorização (semântico,
sintático, léxico e expressivo), a abordagem pelo viés léxico foi
avaliada como a mais adequada para o material em análise – tex-
tos curtos, de autores/emissores diversos (embora com a carac-
terística comum de serem todos pesquisadores), direcionados a
receptores indeterminados, com um tema subjacente (revelação
de pesquisas científicas).

PROCEDIMENTOS PARA A ANÁLISE CATEGORIAL DO CON-


TEÚDO

Conforme proposto por Bardin (1997, p. 96-98), a primeira


abordagem do conteúdo escrito alvo da análise deve partir da de-
nominada leitura flutuante, que inspira reflexões ao pesquisador

304 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E CIÊNCIA

para a formulação de hipóteses provisórias, que serão verificadas


ao longo do procedimento de análise. Dessa forma, a partir da
leitura flutuante, foram definidas três hipóteses provisórias:

1. Pesquisadores supostamente não habituados a divul-


gar/explicitar/externar seus objetos de pesquisa fora
dos meios acadêmicos o fazem em rede aberta de for-
ma pouco compreensível para o público em geral;
2. A rede social Twitter, com sua limitação de mensagens
a um total de 280 caracteres, não é o meio mais ade-
quado para a abordagem de temas complexos para o
público leigo;
3. A utilização de termos técnicos, de jargões de áreas
pouco acessíveis ao público em geral, tem o potencial
de afastar o leitor, mais do que aproximar.

O próximo passo dentro da metodologia é a codificação do


material (BARDIN, 1977, p. 103-105), o que implica na escolha da
unidade de análise, sua enumeração e agregação. Para o presen-
te estudo, em que se optou pela categorização léxica, a unidade
de registro que se mostra relevante é a palavra.
Dessa forma, foi apurado que, das 45 mensagens que tra-
tavam de pesquisas das Ciências Biológicas, houve 41 ocorrên-
cias de termos técnicos ou jargões da área, tais como “filogenia”;
“metagenômica”, “metilação”, “ecoepidemiologia”, entre outras.
Como exemplo de uma das ocorrências em que houve a utiliza-
ção de termos técnicos para apresentação da pesquisa, citamos:

305
A minha pesquisa é para procurar mutações no material
genético de pessoas que são portadoras de agenesia de
corpo caloso. 13

Dentre as 16 pesquisas apresentadas na área das Ciências


Exatas, os cientistas utilizaram 17 palavras e termos distantes do
público amplo, tais como “formas holomorfas pré-simpléticas”;
“variedades ADHM estáveis” e “espaços curvos”. Como exemplos,
registramos:

Acabei de me doutorar em gravitação e teoria quântica de


campos em espaços curvos. Estudo, principalmente, on-
das gravitacionais tanto no contexto astrofísico quanto na
tentativa de compreender as propriedades (relativamente
esquisitas) de nosso universo.

Eu faço pesquisa sobre as propriedades quânticas da luz


e dos lasers, para contribuir com o desenvolvimento de
novas tecnologias quânticas.

Dentre as 38 mensagens identificadas como de autoria de


pesquisadores das áreas das Ciências Humanas e Ciências Sociais,
foram encontradas cinco ocorrências com potencial de não tor-
narem explícitos os objetivos das investigações para um público

13 Avaliamos que a identificação da autoria de cada tweet não agrega


informação analítica, uma vez que buscamos o resultado de uma avaliação
sobre o coletivo de mensagens. Além disso, alguns perfis utilizam-se de nomes
que não permitem identificar claramente o indivíduo que possui a conta no
Twitter. Dessa forma, também por padronização na exposição dos dados,
definimos por utilizar apenas o teor das mensagens, sem mencionar seus
respectivos perfis.

306 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E CIÊNCIA

geral: “letramento”, “metodologia”, “elementos de contorno”,


“direitos civis” e “daltônicas”. Embora a utilização do léxico não
se destaque por características de exclusividade de uso por uma
comunidade científica, a questão semântica pareceu ser o ele-
mento que mais se aproxima do conceito de “vocabulário técni-
co”. Citamos:

Eu estudo e pesquiso a aplicação dos conceitos de Bour-


dieu e Marx na compreensão das relações internacionais
e na percepção da estruturação do Estado através da con-
junção e sobreposição de campos.

Concluí uma pesquisa em 2017 sobre o uso de elementos


jornalísticos na escrita biográfica usando a Maysa, de Lira
Neto, como objeto. Agora estudo interferências subjetivas
no processo constitutivo de narrativas autobiográficas, ten-
do como base Rita Lee.

CRÍTICAS DO PÚBLICO

Também foram registradas, sob a hashtag #ExistePesqui-


saNoBR, algumas mensagens de crítica ao conteúdo dos textos
dos pesquisadores, que expressaram desdém ou descrédito ao
que era divulgado. Mensagens como as três reproduzidas abaixo:

Eu sou de Humanas e tô aqui vendo as hashtags #Exis-


tepesquisanoBrasil #existepesquisanobr e rindo bem das
pesquisas conduzidas pelos colegas na área. É cada tema,
rapaz.

307
Gerador do #ExistepesquisanoBrasil:
1) algum sabor de cultura pop: série, cinema, videogame,
HQs, tatuagem;
2) alguma vertente de marxismo cultural: imagem da mu-
lher, do negro, do gay;
3) alguma embromation pseudoacadêmica: representati-
vidade, intersecção, processos cognitivos.

Lendo essa #existepesquisadornobr eu não sei quais são


reais e quem tá zoando, e isso me parece parte do pro-
blema.

Embora existam, dentre as 99 mensagens que apresentam


projetos de pesquisa, alguns textos elucidativos que utilizam
vocabulário corrente, o número de ocorrências na utilização de
jargões ou termos técnicos (total de 63) indica a ausência de pre-
paro dos autores para adaptar o discurso ao repertório leigo.

THREADS: UMA TENTATIVA DE SENSIBILIZAÇÃO

Do total de 99 tweets de autoria de pesquisadores, dois


deles se destacaram. Ambos são do campo da Astronomia e re-
gistraram em seus perfis que atuam na área da divulgação cien-
tífica, tanto nas redes sociais como em publicações não-digitais
dedicadas à ciência (como a Revista Galileu, da Editora Globo).
Eles abordaram, em uma sequência encadeada de tweets – ou
thread – os temas “financiamento à pesquisa” e “a realidade da
vida de um pesquisador no Brasil”. Cada thread representa um

308 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E CIÊNCIA

único texto sobre um mesmo tema, desenvolvido ao longo de


vários tweets.
Para a análise do conteúdo desse material, compreende-
mos que a opção pela enunciação era a mais adequada. De acor-
do com Bardin (1977, p. 170), “se o discurso for perspectivado
como processo de elaboração onde se confrontam as motivações,
desejos e investimentos do sujeito com as imposições do código
linguístico e com as condições de produção, então o desvio pela
enunciação é a melhor via para se alcançar o que se procura.”
Ao realizar a leitura flutuante de ambos os thread, identifi-
camos, primeiramente, três temas em destaque para cada autor.
Em um dos perfis, os temas encontrados foram:

1. Pesquisa científica depende de verbas;


2. As verbas para pesquisas sofrerão cortes;
3. A realidade da pesquisa no Brasil é ruim. Com os cortes,
tende a piorar.

No segundo perfil, destacaram-se os temas:

1. A precariedade material da vida de pesquisador;


2. A pressão constante vivida por pesquisadores;
3. A motivação para a pesquisa, apesar das dificuldades.

As figuras de retórica são elementos relevantes na análi-


se da enunciação. Dentre elas, observamos a repetição de um
mesmo tema e de uma mesma palavra (BARDIN, 1977, p 180).

309
A recorrência pode ser um indicador da importância do tópico.
E nos seis temas expostos acima, as palavras “dinheiro” (quatro
registros); bolsas (cinco registros); e cortes (três registros), além
das expressões “não têm” (sete registros); “não vão” (quatro re-
gistros) e “sem” (cinco registros), apontam para a principal pre-
ocupação dos pesquisadores e para a qual desejam chamar a
atenção do público. “Do mesmo modo que se postula um vínculo
proporcional entre a frequência relativa de um tema numa men-
sagem, pode adiantar-se que a repetição, insistência de um tema
que ressurge em momentos diferentes revela o investimento psi-
cológico da pessoa nesse tema” (BARDIN, 1977, p. 180).
Também foi possível registrar a ocorrência das chamadas
litanias, ou seja, a acumulação de repetições aproximadas ou a
ausência de progressão do tema, fato que pode revelar a paixão
do locutor pelo assunto ou a necessidade de aliviar uma tensão.
Para a autora, a interpretação da ocorrência das litanias pode ser
feita “em termos de descarga ou de tentativa de domínio de uma
representação (o referente é manejado sob todas as suas face-
tas, para que se torne familiar)” (BARDIN, 1977, p. 179). Podemos
ilustrar essa ocorrência no thread do segundo perfil analisado:

Eles não têm carteira assinada, ou seja, se ficarem doentes


não terão auxílio doença nem podem se afastar pra cuidar
da saúde. Eles não têm 13º salário no final do ano e nem
direito a férias remuneradas de 30 dias. Se a bolsa for
cortada, não vão receber auxílio desemprego. Como eles
não têm carteira assinada, não estão contando tempo de
trabalho (contribuição) para aposentadoria, ou seja, esses
anos de trabalho não vão contar na previdência deles (2
anos mestrado + 4 anos doutorado). São, no mínimo, 6

310 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E CIÊNCIA

anos “perdidos” de contribuição. E isso tudo recebendo


R$1.500,00 (mestrado) ou R$2.200,00 (doutorado). Não
é uma fortuna. Sem auxílio moradia, sem ticket refeição,
sem cobertura de plano de saúde, sem vale transporte.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao analisarmos todo o percurso da divulgação cientifica e


da comunicação pública da ciência, compreende-se que as bar-
reiras se mantêm tal qual se posicionavam ainda na época de D.
João VI. Se, no princípio, havia o medo do “roubo” de propriedade
intelectual, nos dias atuais há outras barreiras comunicacionais.
Embora estratégias de diferentes governos federais tenham
apontado para uma tentativa de desenvolvimento de cultura
científica no Brasil, seguida de ações de comunicação pública e
da divulgação da ciência, nenhuma dessas estratégias parece ter
adquirido robustez suficiente para se consolidar e se perpetuar. É
sintomático que pesquisas apresentadas ao longo deste trabalho
tenham revelado que, embora os brasileiros declarem ter inte-
resse pela ciência, não saibam nomear um cientista brasileiro ou
um assunto de pesquisa em desenvolvimento nas universidades
e centros de pesquisa do País.
No caso aqui estudado, a exposição da hashtag #Existe-
PesquisaNoBR evidenciou a ausência de um suporte oficial de
comunicação que se posicionasse ativamente ao lado desses
pesquisadores que divulgaram seus estudos. Destacou também
que a ciência praticada no Brasil ocorre à custa de sacrifícios e
incompreensões. Aos pesquisadores, no momento em que se

311
viram colocados diante da ameaça ao desenvolvimento de seu
trabalho, recorreram à única maneira que entenderam acessível
naquele momento: uma ferramenta digital de larga abrangên-
cia, com potencial de gerar visibilidade às suas pesquisas. Foi um
grito de socorro, por meio da mais limitada das redes sociais. Um
tweet de 280 caracteres não traduz – nem em termos técnicos,
nem em termos leigos – a complexidade de uma pesquisa cientí-
fica. Não a explica. Muito menos a simplifica.
A análise realizada sobre o material disponível não iden-
tificou elementos que levassem a conclusões ou inferências que
indicassem o sucesso da improvisada mobilização. A opção por
vocabulário técnico pode ter sido o responsável por manter o
tema em alta no Twitter brasileiro, mais destacadamente entre
os perfis que possuíam claro vínculo com o mundo acadêmico.
Falta ao pesquisador a habilidade para falar com as pessoas de
fora de seu círculo. O debate sobre a qualificação dos cientistas
para a comunicação precisa ter início na base da jornada acadê-
mica. Assim como é necessária a criação de uma cultura da ciên-
cia para o brasileiro, deve-se criar uma cultura de comunicação
para o pesquisador, seja ele um jovem da iniciação científica, seja
um pós-doutor. Sem essa qualificação, a comunicação pública
da ciência no Brasil tende a permanecer um não-diálogo, com
idiomas distintos de cada lado, onde a incompreensão mútua é
perpetuada.

312 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E CIÊNCIA

REFERÊNCIAS

BALIANA, F.; FERNANDES, L. “Viagem filosófica” do século XVIII


ilustra desafio histórico de divulgar ciência no Brasil. In: VOGT, C.;
GOMES, M.; MUNIZ, R. (Orgs.) ComCiência e divulgação científica.
Campinas, SP: BCCL/ UNICAMP, 2018. p. 155-165.

BARDIN, L. Análise de Conteúdo. Lisboa: Edições 70, 1977.

BRASIL. Ministério da Ciência e Tecnologia. Consolidação das reco-


mendações da 4ª Conferência Nacional de Ciência e Tecnologia e
Inovação para o Desenvolvimento Sustentável: conferências na-
cional, regionais e estaduais e Fórum Municipal de C,T&I. Brasília:
Ministério da Ciência e Tecnologia / Centro de Gestão e Estudos
Estratégicos, 2010.

BRASIL. Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Estratégia


Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação 2012 – 2015: balanço
das atividades estruturantes 2011. Brasília, 2012.

_____. Ciência, Tecnologia e Inovação para o Desenvolvimento Na-


cional. Estratégia Nacional de Ciência Tecnologia e Inovação 2016
– 2022. Brasília, 2016. Disponível em <http://www.mctic.gov.br/
mctic/export/sites/institucional/publicacao/ciencia/ENCTI/MC-
TIC_ENCTI_2016-2022_210x240mm_14.03.2017.pdf>. Acesso em
06 set. 2018.

313
BRASIL. Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. A ciência e a
tecnologia no olhar dos brasileiros. Percepção pública da C&T no
Brasil: 2015. Brasília, DF: Centro de Gestão e Estudos Estratégicos,
2017.

BUZZMONITOR. #existepesquisanobr: o que o monitoramento des-


ta hashtag nos revela? 10 ago. 2018. Disponível em <https://www.
buzzmonitor.com.br/blog/existepesquisanobr-o-que-o-monitora-
mento-desta-hashtag-nos-revela>. Acesso em 10 set. 2018.

CALDAS, G. Mídia, ciência e sociedade, ou Jornalistas e cientistas:


uma relação de parceria. Observatório da Imprensa, 20 jul. 1998.
Disponível em <http://observatoriodaimprensa.com.br/primei-
ras-edicoes/mdia-cincia-e-sociedade-oujornalistas-e-cientista-
suma-relao-de-parceria/>. Acesso em 30 ago. 2018.

_____.Mídia e políticas públicas para a comunicação da ciência. In:


PORTO, C. M.; BROTAS, A. M. P.; BORTOLIERO, S. T. (Orgs). Diálogos entre
ciência e divulgação científica: leituras contemporâneas. Salvador:
EDUFBA, 2011. p. 19-36. Disponível em <http://books.scielo.org/id/
y7fvr/pdf/porto-9788523211813-02.pdf.> Acesso em 30 ago. 2018.

CASTELFRANCHI, Y. et al. As opiniões dos brasileiros sobre ciência


e tecnologia: o paradoxo da relação entre informação e atitudes.
História ciência e Saúde-Manguinhos, Rio de Janeiro, v. 20, supl. 1,
p. 1.163-1.183, nov. 2013. Disponível em <http://www.scielo.br/
scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-59702013000501163
&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em 10 set. 2018.

314 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E CIÊNCIA

ESCOBAR, H. Divulgação científica: faça agora ou cale-se para


sempre. In: VOGT, C.; GOMES, M.; MUNIZ, R. (Orgs.) ComCiência e di-
vulgação científica. Campinas, SP: BCCL/ UNICAMP, 2018. p. 31-36.

FIOCRUZ. Núcleo de Estudos de Divulgação Científica. Os periódi-


cos de ciência no Brasil do século 19. Rio de Janeiro, 28 jan. 2009.
Disponível em <http://www.fiocruz.br/brasiliana/cgi/cgilua.exe/
sys/start.htm?infoid=77&sid=14>. Acesso em 5 set. 2018.

FREIRE, P.
Extensão ou comunicação? Tradução Rosisca Darcy de


Oliveira. 2ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1975.

GOMES, W. Esfera pública política e comunicação em Direito e De-


mocracia de Jürgen Habermas. In: GOMES, W.; MAIA, R. C. M. Co-
municação e democracia: problemas & perspectivas. São Paulo:
Paulus, 2008. p 69-115.

HABERMAS, J. Direito e democracia: entre facticidade e validade.


v.2. Trad. Flávio Beno Siebeneichler: Rio de Janeiro: Tempo Brasi-
leiro, 1997.

HASWANI, M. F. Comunicação pública 360 graus e a garantia de


direitos. In: KUNSCH, M. K. (Org.). Comunicação pública, sociedade
e cidadania. São Caetano do Sul: Difusão, 2011. p. 81-97.

JAMBEIRO, O. A TV no Brasil do século XX. Salvador: EDUFBA, 2001.

315
JARAMILLO LÓPEZ, J. C. Advocacy: uma estratégia de comunicação
pública. In: KUNSCH, M. M. K. (Org.). Comunicação pública, socie-
dade e cidadania. São Caetano do Sul: Difusão, 2011(a). p. 61-80.

_____. C. Proposta geral de comunicação pública. In: DUARTE, J.


Comunicação Pública: estado, mercado, sociedade e interesse
público. São Paulo: Atlas, 2011(b). p. 246-267.

JURNO, A. C. A fórmula da ciência no Facebook: conteúdo + lin-


guagem + usuários + algoritmos = alcance e visibilidade? In:
FAGUNDES, V.; SILVA JR., M. G. (Orgs.). Divulgação científica novos
horizontes: reflexões e experiências jornalístico-acadêmicas de-
senvolvidas no projeto Minas faz Ciência. Belo Horizonte: Mazza
Edições, 2017. p. 57-76.

LIMA, V. A. de. Comunicação poder e cidadania. Rastros – Revista


do Núcleo de Estudos de Comunicação, ano VII, n. 7, p. 8-16, 2006.
Disponível em <http://www.ielusc.br/aplicativos/ojs_necom/in-
dex.php/SECORD/article/view/124>. Acesso em 01 set. 2008.

_____. Comunicação e cultura: as ideias de Paulo Freire. 2ª. ed. rev.


Brasília: Editora da UnB, Fundação Perseu Abramo, 2011.

MARCOS, A. Ciencia y Acción – una filosofía práctica de la ciencia.


México: FCE, 2010.

MASSARANI, L. A divulgação científica no Rio de Janeiro: algumas


reflexões sobre a década de 20. Rio de Janeiro, 1998. Dissertação

316 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E CIÊNCIA

(Mestrado em Ciência da Informação) – Instituto Brasileiro de In-


formação em C&T (IBICT) e Escola de Comunicação, Universidade
Federal do Rio de Janeiro. 1998.

MATOS, H. Capital social e comunicação: interfaces e articulações.


São Paulo: Summus, 2009.

MEIRELLES, P. #existepesquisanobr: as narrativas na mobilização


em prol da ciência brasileira. Insightee, 6 ago. 2018. Disponível
em <http://insightee.com.br/blog/existepesquisanobr-as-nar-
rativas-na-mobilizacao-em-prol-da-ciencia-brasileira/>. Acesso
em 15 set. 2018.

MOREIRA, I. C.; MASSARANI, L. Aspectos históricos da divulgação


científica no Brasil. In: MASSARANI, L.; MOREIRA, I. C.; BRITO, F.
(Orgs.) Ciência e público: caminhos da divulgação científica no
Brasil. Rio de Janeiro: Casa da Ciência – Centro Cultural de Ciência
e Tecnologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro / Fórum
de Ciência e Cultura, 2002, p. 43-64.

OLIVEIRA, J. C. de. As ciências no paço de d. João. Hist. cienc. Saú-


de-Manguinhos, Rio de Janeiro, v. 6, nº 1, p. 165-179, mar. / jun.
1999. Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_
arttext&pid=S0104-59701999000200009&lng=en&nrm=iso>.
Acesso em 10 set. 2018.

OLIVEIRA, M. J. da C. Comunicação pública e as estratégias de rela-


ções públicas nas alianças intersetoriais. In: KUNSCH, M.M.K (Org).

317
Relações públicas: história, teorias e estratégias nas organizações
contemporâneas. São Paulo: Saraiva, 2009, p.465-484.

OLIVEIRA, M. J. da C. De públicos para cidadãos: reflexão sobre


relacionamentos estratégicos. In: FARIAS, L. A. (Org.). Relações pú-
blicas estratégicas. São Caetano do Sul: Difusão: 2011. p. 79-87.

RIGHETTI, S. Ciência na mídia: onde estão os estudos de pesquisa-


dores brasileiros? In: VOGT, C,; GOMES, M.; MUNIZ, R. (Orgs.) ComCi-
ência e divulgação científica. Campinas, SP: BCCL/ UNICAMP, 2018.
p. 23-29.

SIMIÃO, J. Por que os brasileiros se envolvem pouco nas políti-


cas públicas de ciência? In: VOGT, C,, GOMES,M., MUNIZ, R. (Orgs.)
ComCiência e divulgação científica. Campinas, SP: BCCL/ UNICAMP,
2018. p. 181-188.

SOARES, F. #existepesquisanobr: o corte de recursos da CAPES e


sua repercussão no Twitter. Midiars – Grupo de Pesquisa em Mí-
dia, Discurso e Análise de Redes Sociais, 8 ago. 2018. Disponível
em <https://wp.ufpel.edu.br/midiars/2018/08/08/existepesqui-
sanobr-o-corte-de-recursos-da-capes-e-sua-repercussao-no-
-twitter/>. Acesso em 13 set. 2018.

TEIXEIRA, C. A. A comunicação pública de ciência nos programas


de pós-graduação em saúde coletiva do Brasil: uma perspectiva a
partir da concepção de coordenadores. 2013. Tese (Doutorado em

318 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E CIÊNCIA

Saúde Materno Infantil). Faculdade de Saúde Pública, Universida-


de de São Paulo, São Paulo, 2013. Disponível em <http://www.
teses.usp.br/teses/disponiveis/6/6136/tde-23052013-143416/
pt-br.php>. Acesso em: 31 ago 2018.

WOLTON, D. McLuhan ne répond plus: communiquer c’est cohabi-


ter. La Tour d’Aigues:Édition de l’Aube, 2009.

319
COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO
COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SEGURANÇA
COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO
COMUNICAÇAÕ PÚBLICA E SEGURANÇA

DISCURSOS POLÍTICOS, MÍDIAS E VIOLÊNCIA:


PERCURSOS TEÓRICOS E NOTAS DE PESQUISA

Henrique de Linica dos Santos Macedo1


Jacqueline Sinhoretto2

RESUMO

Medo e insegurança têm sido capitalizados por discursos


políticos e empresas de comunicação, construindo uma comunica-
ção pública sobre a violência pautada em visão hegemônica, com
espaço reduzido para políticas públicas alternativas ou inovadoras.
O artigo recupera o debate sobre mídia e poder na teoria social,
bem como as principais pesquisas brasileiras sobre representações
sociais da violência e sobre a cobertura do tema nos jornais e nos
programas de TV. Nossas pesquisas apontam o uso de novas mídias
para fomentar uma comunicação pública baseada em discursos
populistas e punitivistas sobre políticas de segurança, indicando
um aprisionamento em práticas culturais que produzem violência.

PALAVRAS-CHAVE: mídia, violência, representações sociais, segu-


rança pública, novas mídias.

1 Mestre e Doutorando em Sociologia pela USFCar, pesquisador do Grupo de


Estudos sobre Violência e Administração de Conflitos (GEVAC), bolsista CAPES
(mestrado), bolsista CNPq (doutorado). E-mail: henrry_macedo@hotmail.com
2 Doutora em Sociologia pela USP, professora da UFSCar, coordenadora do
GEVAC, bolsista de produtividade do CNPq e pesquisadora do Instituto Nacional
de Ciência e Tecnologia – Instituto de Estudos Comparados em Administração
do Conflito (INCT-InEAC). E-mail: jacsinhoretto@gmail.com

323
INTRODUÇÃO

Nas três décadas de vigência da Constituição Federal de


1988, o Brasil passou por um dos seus maiores períodos demo-
cráticos. Conhecido como Nova República (BIROLI, 2017), o pe-
ríodo foi de consolidação do regime, com ampliação de direitos
sociais e participação política, tendo sido encerrado pelo golpe
contra a presidenta Dilma Rousseff, em 2016. Contudo, nos mes-
mos anos, a violência no País se ampliou e, em paralelo ao avan-
ço nos patamares de direitos humanos para diversas camadas
sociais, os homicídios intencionais não pararam de crescer, os cri-
mes patrimoniais se expandiram e as modalidades organizadas
de violência se estruturaram de forma não conhecida anterior-
mente (SINHORETTO; LIMA, 2015). As relações entre democracia
e violência tiveram a forma de um paradoxo (PERALVA, 2000), no
qual a garantia dos direitos políticos e sociais avançou mais do
que a garantia de direitos civis (CALDEIRA, 2000).
Durante o processo de abertura democrática, o aumento
do que se chamou de “criminalidade violenta” ou “criminalida-
de urbana” foi percebido, principalmente no que diz respeito a
furtos, roubos e a crimes de sangue. Desde essa época, os veícu-
los de comunicação já se detinham sobre o assunto e cobravam
das autoridades políticas e instituições de controle social alguma
providência para conter o avanço dos números (CALDEIRA, 2000;
PERALVA, 2000). Por outro lado, a persistência de outros fenô-
menos violentos, como a violência do Estado, a violência racial e
contra mulher, contra crianças, além da violência no campo e no
cárcere, foram temas com menor visibilidade nas mídias e tam-
bém nas políticas públicas (ADORNO, 2003).

324 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SEGURANÇA

Nas três últimas décadas, violência, crime, insegurança e


medo converteram-se em pautas diárias das mídias, gerando
intensos debates entre diversos setores da sociedade, numa co-
municação pública e política cada vez mais abrangente, mas ao
mesmo tempo limitada em seu conteúdo hegemônico. Embora
haja diversidade de leituras e propostas de enfrentamento da
questão, a tendência tem apontado para um discurso de “en-
durecimento contra o crime”, muito mais do que para reformas
institucionais e abordagens inovadoras. Pouco se questiona o
que poderia ser feito para que as instituições da segurança pú-
blica tivessem sucesso em reduzir a sensação de insegurança e
o medo. Paradoxalmente, o discurso de “guerra contra o crime”
ou de combate aos “bandidos” encoraja ações que intensificam
a violência institucional e apoiam a violação de direitos por parte
das polícias e das instituições carcerárias.
O apoio social à resposta violenta ao crime tem tido o efei-
to perverso de aumentar o medo e as experiências de violação
para parcelas sociais cujo sofrimento não faz manchetes de jor-
nal. As ações de violência policial, se são apoiadas por uma parte
da população, também despertam em praticamente metade dos
brasileiros um sentimento de desconfiança em relação à polícia3
(DATAFOLHA, 2015; 2017) por considerá-la violenta, desprepara-
da ou imprevisível. Os dados demonstram que há sentimentos

3 Reportagem do jornal Folha de S. Paulo de 6 de novembro de 2015 traz os


números da pesquisa de opinião do Datafolha. Disponível em <https://www1.
folha.uol.com.br/cotidiano/2015/11/1702899-60-dos-paulistanos-tem-medo-
da-pm-aponta-datafolha.shtml>. Acesso em 3 jul. 2017. Outra pesquisa
nacional do Instituto revelou que 49% dos brasileiros têm medo de sofrer
violência da Polícia Militar. Disponível em <https://www1.folha.uol.com.br/
cotidiano/2017/07/1897905-1-a-cada-3-brasileiros-tem-medo-de-violencia-
e-da-policia-aponta-pesquisa.shtml>. Acesso em 3 out. 2017.

325
misturados sobre o tema e colocados em relevo nas conversações
cívicas e cotidianas dos cidadãos – espaço original da comunica-
ção pública.
Não obstante, a experiência com a violência é intensamen-
te disseminada na sociedade brasileira, onde os padrões de medo
são bem elevados. As pessoas temem por si, mas também por
seus familiares, amigos e vizinhos (ADORNO; LAMIN, 2006). Um
evento que vitima um indivíduo geralmente produz um rastro
de medo muito mais amplo, pois cada pessoa próxima sente-se
atingida pelo ato. O medo gerado pela identificação com a vítima
é alimentado pela circulação de histórias sobre atos de violência
experienciados por terceiros.
Outro traço característico do período da Nova República
(1985-2016) é que o medo da violência e da insegurança fo-
ram capitalizados politicamente por setores da sociedade civil,
pelas instituições de controle, partidos políticos e por empresas
de comunicação de massa, assim como pelas empresas de se-
gurança patrimonial. O medo do crime tem sido pauta de po-
líticos que construíram suas carreiras explorando um discurso
padronizado que critica políticas de direitos humanos, promete
“dureza com os bandidos”, rechaça o controle da ação policial
e elogia os seus abusos, desde os anos 1980. Radialistas e po-
liciais se elegeram comunicando este discurso durante todo o
período democrático, configurando o que acabou sendo cha-
mado de “bancada da bala”.
O binômio crime e insegurança foi tema definidor das elei-
ções de 2018, tanto para o Executivo quanto para o Legislativo, nas
esferas federal e estaduais. Sempre nas pautas jornalísticas e nas
redes sociais, foi explorado como principal cabo eleitoral para a con-

326 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SEGURANÇA

quista de votos, ao lado do discurso de combate à corrupção e das


propostas conservadoras de retorno à “moral e bons costumes”.
O discurso de palanque baseia-se em “soluções fáceis”
e de viés salvacionista, como acesso irrestrito a armas de fogo,
ampliação de violências institucionais, (incluindo a letalidade),
elogio do punitivismo como “justiça” e como forma de restabe-
lecer “a ordem”. Nenhuma palavra é direcionada à necessida-
de de políticas integradas de segurança, prevenção à violência,
controle da corrupção policial. O efeito tem sido paradoxal, uma
vez que as redes políticas que se comunicam com esse discurso
encontram-se fortalecidas, ao passo que violência e crime persis-
tem como graves problemas sociais no País.
Nossas pesquisas têm apontado para o fortalecimento de
uma forma de comunicar “a questão do crime” que não se baseia
nem em evidências (estudos científicos ou análises de programas
alternativos que deram certo) nem na aplicação irrestrita da lei
(posto que inclui a defesa de métodos ilegais, como tortura e
execução de suspeitos). Temos coletado material que corrobora
o conteúdo e a forma discursiva que tem sido utilizada desde o
início da Nova República, segundo autoras que nos antecederam
nesse debate (CALDEIRA, 2000; PERALVA, 2000). Acompanhamos,
nos projetos do nosso grupo4, como as novas mídias vêm sendo
apropriadas para esse discurso e como novos temas são incorpo-

4 O Grupo de Estudos sobre Violência e Administração de Conflitos (GEVAC)


da Universidade Federal de São Carlos completa dez anos em 2019, tendo já
desenvolvido diversos projetos de pesquisa coletivos, associando-se a redes
de pesquisa com universidades em diversas regiões brasileiras. Já foram
defendidas no grupo cinco teses de doutorado e dez dissertações de mestrado,
nas quais os discursos sobre violência e crime foram sempre objeto de
cuidadosa análise.

327
rados às narrativas antigas (MACEDO, 2015a, 2015b; CEDRO, 2018;
SILVESTRE, 2018).
Neste artigo procuramos apresentar o contexto que dá
sentido aos discursos sobre o crime, seus elementos estruturan-
tes, além dos lugares comuns que reproduzem. Iniciamos com a
recuperação de estudos já realizados sobre o tema no Brasil, que
nos ajudam a organizar e interpretar os dados que apresentamos
na segunda parte do artigo.
De forma geral, identificamos que os discursos políticos
padronizados sobre o crime associam a “desordem” nacional, o
aumento do crime e da violência no Brasil, como já foi estudado
e documentado por vários autores – com destaque a Teresa Cal-
deira (2000). Se nas pesquisas da autora a “desordem” era asso-
ciada aos políticos democratas e às políticas de “humanização”
da segurança pública e da justiça criminal, em nosso campo de
pesquisa com operadores de segurança e justiça, a construção
narrativa da “desordem” aparece associada à agenda da demo-
cratização como pauta “ideológica” que teria promovido no País
uma “inversão de valores”. Este termo apareceu em nossas pes-
quisas (MACEDO, 2015a) desde 2011, nas conversas e entrevistas
com policiais militares de diversos graus hierárquicos, e se fez
recorrente também em falas nas diferentes mídias. Apesar das
variações, a circulação desse enunciado culpa setores progressis-
tas da sociedade e da política, especialmente o Partido dos Traba-
lhadores (PT), por terem promovido uma série de transformações
sociais que teriam causado a “degeneração social” de “valores
morais” que vigoravam anteriormente na sociedade como a fa-
mília, o trabalho, da religião, a educação e o respeito às institui-
ções de controle e à autoridade policial.

328 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SEGURANÇA

Os adversários escolhidos por esse discurso são “os direitos


humanos”, que há décadas são o moinho de vento da direita bra-
sileira (CARAPAÑA, 2018; ROCHA, 2018), utilizando lugares comuns
como “direitos de vagabundos”, restringindo a aplicação dos
“direitos humanos aos humanos direitos”. É veiculada a ideia de
que os políticos de esquerda “dão flores aos bandidos”. O debate
sobre segurança pública e direitos humanos não é visto como in-
trínseco ao espaço público (lugar de discordância legítima e pro-
blematização sobre o fracasso das políticas públicas e das práticas
abusivas), mas como resultado da “inversão de valores”.
Em nossa avaliação, a virulência dos discursos antagonis-
tas aos direitos humanos e aos políticos de esquerda esconde o
fato de que – dada a adesão majoritária ao punitivismo – bem
poucas políticas alternativas foram levadas a cabo, mesmo em
governos de partidos de esquerda. Ao contrário, os governos de
partidos destacados na oposição ao regime militar (PMDB e PT) e
de partidos consagrados pela democracia eleitoral (como o PSDB)
não promoveram grandes reformas na segurança pública e na
justiça criminal. O encarceramento cresceu vertiginosamente, o
número de pessoas mortas pelas polícias aumentou, penas alter-
nativas não se tornaram políticas de massa.
O campo de políticas de segurança pública tem sido consti-
tuído em movimentos de disputas entre visões e projetos distin-
tos, mas a verdade é que nenhum governo de direita ou esquer-
da deu centralidade à redução da violência e à proteção da vida.
Houve avanços e experiências bem-sucedidas, mas elas também
se dissolvem com muita facilidade em razão de (des)continui-
dades institucionais. Como resultado, não tivemos reformas sig-
nificativas na segurança, nas polícias, na justiça criminal e nas

329
prisões (SINHORETTO; LIMA, 2015). E a repetição das práticas do
passado é um entrave para novas visões, sendo solo confortável
para o crescimento do discurso autoritário sobre crime e violência
nas mídias e na comunicação pública e política, de forma geral.

MÍDIA, PODER E SOCIEDADE

São inegáveis as transformações recentes nas culturas pelo


avanço das tecnologias de informação. O debate das ciências hu-
manas e da filosofia, entretanto, conta com posições divergentes
sobre papel dos meios de comunicação e suas relações com a
mudança ou reprodução das relações de poder. Refletindo princi-
palmente sobre o vínculo entre a comunicação e o modo de pro-
dução capitalista, a teoria crítica, sobretudo escrita por autores
da Escola de Frankfurt, analisa os efeitos das mídias na cultura
e sua interferência na sociedade. Segundo essa linha, de forma
resumida, a entrada do modo capitalista na produção cultural
afetou-a de maneira substancial, tornando-a um bem de con-
sumo e esvaziando a capacidade de criação de culturas singula-
res, o que limitou as formas de expressão, interpretação e crítica
(BENJAMIN, 1987; ADORNO E HORKHEIMER, 1985; ADORNO, 1987b;
COHN, 1987).
Em seu texto O Narrador, Benjamin (1987) adota um tom
melancólico ao argumentar que a arte de narrar estava para ser
extinta. Para ele, as experiências das pessoas estavam em baixa,
já não conseguindo produzir qualquer forma de expressão comu-
nicável. O indício desta extinção para o filósofo era a forma como
a imprensa foi utilizada pela burguesia, tanto para produção de

330 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SEGURANÇA

romances – escritos e lidos de maneira solitária – quanto para a


produção de jornais que teriam inventado a informação. O autor
capta a fórmula essencial da informação na fala de um editor do
jornal francês Le Figaro: “para meus leitores [...] o incêndio num
sótão do Quartier Latin é mais importante que uma revolução
em Madri” (BENJAMIN, 1987, pág. 202). A produção da informa-
ção corrobora o afastamento geográfico e de tradições de outros
povos. Dessa forma, o imediatismo constrói a informação e não
permite o espaço para a divergência do leitor.
O impacto dos meios de comunicação em massa na vida
social seguiu sendo assunto central, ainda mais depois da che-
gada da televisão (ADORNO, 1987a; BOURDIEU, 1997). Adorno,
por exemplo, considerou a televisão uma invenção decisiva na
América do Norte, analisando-a nos aspectos sociais, técnicos e
artísticos. A relação intrínseca e inseparável destes aspectos per-
mitiu analisar as mensagens abertas ou ocultas que são trans-
mitidas ao telespectador, na mesma lógica vigente em toda a
indústria cultural e servindo como mais uma forma de influenciar
a consciência do público. Adorno (1987a) argumenta que a TV
completa o sequestro da existência privada, oferecendo o mundo
visível com símbolos e mensagens que expropriam a capacidade
de reflexão, por meio de mensagens que reforçam o status quo,
impedindo qualquer vislumbre de mudança.
Em outro texto, Adorno e Horkheimer (1985) explicam que
a indústria cultural produz homogeneização, expropriando das
massas a capacidade de criar e organizar suas próprias pautas e
suas manifestações culturais. Neste sentido, apontam a imprensa
como uma invenção burguesa destinada a informar esta classe e
a formá-la. Como produto da indústria cultural, a imprensa seria

331
um meio de representar e cristalizar as relações de poder, auxi-
liando na dominação de homens sobre os outros e sobre a natu-
reza. Desta forma, a imprensa, junto com o canhão e a bússola,
teria mudado a história da humanidade. Por isso, se o projeto fi-
losófico do esclarecimento era desencantar o mundo e libertar os
homens, a imprensa e outras tecnologias de informação teriam
servido ao projeto oposto – o de reencantar o mundo, mudando
até mesmo a forma como se conduzem as guerras e disputas
políticas. A Segunda Guerra Mundial teria sido o maior exemplo
até então da utilização dos meios de comunicação como parte
importante da propaganda fascista e nazista (ADORNO, 2015).
O sociólogo Pierre Bourdieu (1997) não tem uma visão
tão pessimista sobre a mídia, mas identifica o jornalismo como
amplamente pressionado pelo campo econômico em virtude das
exigências de audiência, submetendo a produção cultural à ló-
gica comercial – o que coloca em risco a democracia. Contudo, o
autor reconhece que apesar de largamente utilizado como for-
ma de opressão simbólica, o jornalismo possuiu a potência de
se tornar um instrumento em favor da democracia direta, sendo
campo de disputa por visões, versões e representações.
A incessante busca por audiência é o que levaria à busca
rotineira por “furos jornalísticos”, na qual a televisão desenvolve
métricas distintas para selecionar o que é dito ou não dito, o que
é importante e o que deve ser desconsiderado. A tendência de
entretenimento aliado à notícia condiciona escolhas pelo que é
considerado sensacional, espetacular e, ainda, ressalta nos fatos
essas características para torná-los vendáveis (BOURDIEU, 1997).
Ao situar o campo midiático, a socióloga brasileira Maria
Stella Grossi Porto (2009) discute as diferentes perspectivas so-

332 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SEGURANÇA

bre a mídia, seja a ideia de que ela é uma expressão cultural,


seja a problematização de sua autonomia no conjunto de de-
terminantes da vida coletiva. A respeito da relação entre mídia e
violência, a autora prefere seguir pela ótica da teoria das repre-
sentações sociais.

REPRESENTAÇÕES SOCIAIS DA VIOLÊNCIA

Porto (2002, 2009, 2014) vem argumentando em seus tex-


tos que as mídias são uma das principais produtoras de represen-
tações sociais, sobretudo nas democracias contemporâneas, sen-
do capazes de orientar as condutas de diferentes atores sociais e
fomentar as conversações cívicas na sociedade. Neste sentido, no
campo da segurança pública e das representações da violência,
a produção e recriação dos fatos pelos veículos de comunicação
têm proeminência na construção do imaginário social sobre esses
temas. Para a autora, existe influência dos meios de comunicação
nos debates e nas decisões sobre as políticas públicas, principal-
mente na área da segurança, visto que as representações sociais
veiculadas são meios privilegiados de expansão e maximização
de crenças, valores e anseios de alguns setores sociais.
As representações sociais são um conjunto de noções, teo-
rias e práticas construídas pelos indivíduos para compreenderem
o mundo em que estão inseridos, a fim de responder e explicar
os diferentes estímulos e fenômenos que se apresentam diaria-
mente. No nível coletivo, as representações são esquemas social-
mente compartilhados e capazes de orientar a prática social. Ao
pensar a violência pelos diferentes enunciados propagados pela

333
mídia, pode-se acessar o imaginário condicionante da experiên-
cia dos indivíduos (PORTO, 2014). Como máximas que orientam
condutas e podem formar conexões de sentido, as representa-
ções são substrato do imaginário social e matéria-prima do fazer
sociológico (PORTO, 2002, 2014).
O mundo “virtual” constantemente constrói o “real”, pro-
vocando fissuras, deslocamentos e outras transformações; essas
interferências, quando são iniciativa dos meios de comunicação
de massa, tendem à produção do real espetacularizado (PORTO,
2002). No plano das representações sociais construídas pela mí-
dia, a violência tem adquirido centralidade, especialmente em
manifestações de uma violência cruel.
A violência é um termo polissêmico, como lembra a autora,
e seu significado depende das diferentes significações culturais
que cada sociedade irá lhe atribuir (PORTO, 2014). Como decor-
rência, a violência não pode ser associada ou pontuada como
substância de qualquer grupo social ou território. A violência é
uma categoria de acusação que surge como um objeto de dispu-
ta na definição de normalidades. Compreender quem ou o que é
considerado violento para um grupo nos permite apreender sen-
tidos, valores e crenças estruturantes da vida social para aquele
grupo, como se dão os julgamentos morais e hierarquizações. A
acusação de ser violento é, inclusive, nas sociedades do presente,
uma justificativa para a existência instrumental da exclusão so-
cial (PORTO, 2002, 2014). Para a autora, os meios de comunicação
têm impacto na estruturação de sociabilidades violentas ao vei-
cularem representações espetacularizadas da violência que in-
fluenciariam sua utilização tanto como forma de distinção social,
quanto como meio de resolução de conflitos.

334 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SEGURANÇA

Considerando que as mídias são uma forma de mediação


entre o mundo e os indivíduos, por um lado elas possibilitam a
informação do “agora” a uma velocidade muito grande, e por
outro, produzem um conjunto de significados mesmo para os in-
divíduos que não tenham contato imediato com os “fatos” ou
“manifestações violentas” no seu cotidiano. Uma outra faceta é
que a escolha do que será ou não veiculado implica em silencia-
mentos de significados, narrativas e fatos que não serão apresen-
tados ao público. Desta forma, a violência se tornou um dos pro-
dutos mais rentáveis no mercado da informação: mesmo aqueles
que não a sentem no cotidiano das suas relações sociais passam
a consumi-la, ainda que de forma indireta ou mediada.
Transitando da teoria para os resultados das pesquisas fei-
tas no Brasil, Porto identifica as afirmações massificadas e reite-
radas pelos meios de comunicação: a violência é eminentemente
um problema urbano; é um fenômeno que só vem crescendo no
Brasil, sem sinal de melhora a curto prazo; a pobreza é uma das
causas da violência; a instituição familiar está em crise; a desa-
gregação moral provoca o enfraquecimento de valores e violên-
cia; o trabalho feminino fora do lar desestabilizou a família; a
religião deixou de ter papel preponderante como controle social
(PORTO, 2009).
Segundo a socióloga, a força dessas premissas se encontra
na repetição; sua veiculação reiterada produz um efeito de sua
cristalização como verdades. Por meio dessas representações so-
ciais, os meios de comunicação passam a chamar para si o papel
de interferir nas políticas públicas e fomentar soluções políticas
para o fenômeno – criando os contornos da comunicação e do
debate públicos sobre esses temas. As propostas são elaboradas

335
a partir deste conjunto de ideias, de “diagnósticos” sobre a vio-
lência com toda sua potência de adesão social e suas graves li-
mitações.
Um exemplo é a construção discursiva dos meios de comu-
nicação sobre o crime como barbárie, veiculando a imagem de
um território mergulhado no caos, como no caso recente do Rio
de Janeiro (2018), que deu causa à intervenção militar na área da
segurança pública. A dramatização midiática produz demandas
dos próprios meios de comunicação que cobram as autoridades.
Do Executivo é cobrada efetividade do trabalho policial, cobram-
-se punições ao Judiciário e do Legislativo pede-se o endureci-
mento das leis. A cobrança sempre reitera rigor e reforço punitivo.
No caso do Rio, as imagens de caos e descontrole no pe-
ríodo do carnaval de 2018 criaram uma representação que não
corresponde a nenhuma oscilação significativa dos eventos cri-
minais registrados na cidade no período. A representação social
veiculada pela TV propõe e endossa, por meio da narrativa de
crises, um tipo de solução para o fenômeno da violência que res-
ponde aos interesses de um território específico na cidade, de
grupos profissionais, de redes políticas, de uma classe social, de
uma visão de mundo específica. Ao mesmo tempo, são ocultados
fatos (como a estabilidade das ocorrências criminais no período),
interpretações divergentes e formas alternativas de políticas pú-
blicas para lidar com a questão. A comunicação pública sobre o
assunto, então, vai se moldando quase uniformemente em fun-
ção das referências massivas ofertadas pelas mídias.
Em matéria de enfrentamento da violência e redução de
crimes, as grandes mídias têm veiculado um diagnóstico muito
particular da questão e, apesar de constatarem o fracasso das

336 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SEGURANÇA

políticas públicas vigentes, reiteradamente propõem a intensi-


ficação das mesmas ações: endurecimento das leis, ações poli-
ciais militarizadas, ocupação policial e militar dos territórios de
favelas, sem discutir custos econômicos e sociais ou mesmo a
efetividade das ações já tentadas. Os movimentos sociais, ao con-
trário, têm denunciado a violência desmedida dessas ocupações
e a perversão de seus custos financeiros. Mas o ponto de vista dos
movimentos organizados das favelas ocupadas não tem espaço
de representação nas mídias tradicionais – o que constrange a
livre e ponderada comunicação pública ideal.
O conjunto analítico apresentado até aqui ganha ainda
mais força se lido em conjunto com os resultados da pesquisa re-
alizada pelo Centro de Estudos de Segurança Pública e Cidadania
(CESeC) em 2016, coordenada por Silvia Ramos e Anabela Paiva,
intitulada “Mídia e Violência – O que mudou em uma década”.
Os dados apresentados se referem à análise de conteúdo de três
jornais impressos de Rio de Janeiro, São Paulo e Ceará. A pesqui-
sa analisou 1.778 notícias representativas de cada semana entre
maio e setembro de 2015.
Entre os resultados, a investigação mostrou que os jornais
fluminenses são os que mais publicaram sobre violência urbana,
com foco mais regional do que nacional. Nos impressos de São
Paulo ocorre o oposto: há maior cobertura sobre os registros que
envolvem o Rio de Janeiro do que o próprio estado. Contudo, em
relação aos homicídios intencionais, os jornais não acompanha-
ram a mudança de cenário, com queda no número de ocorrên-
cias no Sudeste e aumento nas regiões Norte e Nordeste do País:
eles continuaram com a pauta regionalizada no Sudeste, dando
relevo ao crescimento das taxas de crimes contra o patrimônio,

337
cobrindo os eventos como a implementação das Unidades de Po-
lícia Pacificadora (UPPs) e casos de “ataques”, como os de 2006
em São Paulo (RAMOS; PAIVA, 2016).
Os territórios mais cobertos pela mídia são as favelas – es-
pecialmente as que foram ocupadas com a implementação das
UPPs. Ao mesmo tempo, há um silenciamento territorial em re-
lação às favelas ocupadas por milicianos e às cidades da baixada
fluminense que têm forte presença desses grupos.
As autoras descobriram que o foco das narrativas jornalísti-
cas não são os atos de violência, mas antes as ações de forças de
segurança, como a Polícia Militar e o Exército, com destaque me-
nor para a atuação da Polícia Civil. Os atos de violência aparecem
em segundo lugar, seguidos das notícias sobre decisões do Judi-
ciário e atuação do Ministério Público. O olhar para as decisões é
pautado pela cobrança para um agir punitivista. O que é menos
noticiado são temas como políticas de segurança pública, drogas
e sistema penitenciário.
O estudo aponta a importância da hierarquização das pau-
tas como mecanismo de formação de agenda do debate público.
As autoras argumentam que a força dos meios de comunicação
não está em transmitir conteúdos e formar opiniões, mas na
“atribuição de importância” a assuntos continuamente expostos
(RAMOS; PAIVA, 2016). A escolha do que o jornalismo deve ou
não cobrir acaba por determinar, em maior ou menor grau, a
pauta da própria ação dos atores políticos. Por isso, polícia e cri-
me, que somam mais da metade da cobertura da imprensa, tor-
nam-se os temas mais relevantes. A pesquisa desmente também
a versão de que os jornais somente criticam a atuação da polícia,
conforme argumentam aqueles apoiadores (como os políticos)

338 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SEGURANÇA

que têm a polícia como palanque. Dois terços das reportagens


analisadas (66%) trataram de operações que levaram a prisões
ou apreensão. No caso de jornais que dependem de venda em
banca, esse número cresce. Os casos de denúncias de abusos e
crimes cometidos por policiais representaram 13% da amostra.
O único jornal analisado que mais veiculou matérias sobre esse
assunto, a Folha de S. Paulo, atingiu 35% neste quesito − per-
centual ainda abaixo das notícias positivas e neutras sobre ações
policiais (RAMOS; PAIVA, 2016).
Ainda sobre a polícia, a pesquisa demonstra que boletins
de ocorrência e a fala de policiais são a principal fonte das re-
portagens. Ressaltam, contudo, que outras fontes (como as ví-
timas, parentes de vítimas e algumas testemunhas) passaram a
ter voz nos textos ao longo do tempo. O crescimento da impor-
tância do tema violência nas redações teria produzido aumento
de recursos e de profissionalismo. Contudo, o número de pes-
quisadores ouvidos pelas reportagens ou moradores dos locais
ainda é muito baixo.
Quanto a vítimas e agressores, é majoritária a descrição
por sexo e idade. Mas raça e etnia não aparecem nas reportagens.
A pertença racial, bem como a discussão sobre o racismo, quase
não é mencionada nas publicações sobre fatos no Brasil. Quando
aparecem, dizem respeito a casos em outros países, como nos
Estados Unidos, quando um “jovem negro” foi “agredido” ou
“assassinado” por policiais em 2015.
Além das ausências já citadas, a pesquisa descreve um “de-
serto de contextualização” nas notícias, em que elementos de
contexto praticamente não são relatados. Casos de violência con-
tra a mulher ou relacionados à “diversidade sexual” quase não são

339
veiculados pelos jornais. Existe sobrerrepresentação estatística de
algumas palavras como: mortes/homicídio/assassinato; polícia/
PM e ações; armas de fogo; medo/horror/pânico/assusta. A rela-
ção entre silêncios e sobrerrepresentações informa que, há pelo
menos uma década, constrói-se um círculo de significações para
retratar e explicar a violência ao público (RAMOS; PAIVA, 2016).

HIPERCRIME

Nos últimos anos, programas que mostram a ação policial
no formato reality show cresceram bastante no Brasil. A princí-
pio, inspirados em programas americanos, repórteres passaram a
acompanhar a rotina de alguns policiais, de unidades distintas. A
RedeTV é responsável por transmitir o programa Operação de Ris-
co5, que acompanha diversas ações da Polícia Civil e algumas uni-
dades de choque da Polícia Militar. A Rede Bandeirantes produzia
o programa Emergência 24 horas – que já não é transmitido –, e
passou a veicular o Polícia 24 horas6 (ainda no ar), acompanhan-
do ocorrências atendidas pela PM. Nos canais pagos, o AXN come-
çou a transmitir em 2016 o P.O.L.Í.C.I.A, produzido no Brasil, que
segue o mesmo formato dos demais. Todos são modalidades de
reality shows que pretendem, além de “mostrar o trabalho poli-
cial”, produzir uma forma de entretenimento, em que a “ação” é
o principal atrativo.
Programas que mesclam informação e entretenimento para
mostrar a violência não são novos. Há algumas décadas, o pro-

5 https://www.redetv.uol.com.br/operacaoderisco/
6 https://entretenimento.band.uol.com.br/policia24h/

340 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SEGURANÇA

grama Aqui Agora, do SBT, fez muito sucesso. Outros, como Brasil
Urgente7 (da Band) e Cidade Alerta8 (da Record), também acompa-
nharam a popularidade dos roteiros que priorizam ações policiais
e narram as “atrocidades” cometidas por “criminosos”. Dentre os
programas que utilizam a espetacularização da violência como
forma de entretenimento, destacamos o Linha Direta (da Globo),
objeto de estudo do sociólogo Alex Niche Teixeira (2002, 2009).
Teixeira (2002, 2009) argumenta que esse programa con-
seguiu articular duas tendências dos meios de comunicação de
massa de sua época. Ao dramatizar crimes “reais” e pedir auxílio
da população para informações sobre o caso ou sobre o paradei-
ro do “suspeito foragido”, o programa Linha Direta seguia a ten-
dência de mesclar informação com entretenimento e permitia a
interação da audiência com o programa. A dramatização permi-
tia incrementar a narrativa com uma carga emocional, buscan-
do no telespectador uma vinculação empática com a vítima. Isto
mobilizava a audiência para a utilização dos canais da emissora
para fazer denúncias.
Os homicídios intencionais foram retratados em 501 dos
608 episódios de Linha Direta que foram ao ar (o programa foi
exibido entre os anos de 1999 a 2007). A escolha pelo homicídio
intencional visava, por um lado, obter casos em que a polícia já
estava mais avançada na investigação e possuía elementos para a
dramatização, e por outro lado, a produção selecionava casos em
que a vítima e o agressor tinham um relacionamento prévio (téc-
nica semelhante à utilizada por programas norte-americanos).

7 https://noticias.band.uol.com.br/brasilurgente/videos/
8 http://recordtv.r7.com/cidade-alerta

341
As semelhanças não são casuais, segundo Teixeira (2009).
O primeiro a explorar este modelo foi um canal da Alemanha Oci-
dental que, em 1967, tentava obter informações para casos com-
plexos, em parceria com a polícia. Em 1984, o canal público inglês
BBC, inspirado no formato, criou o Crime Watch UK, também em
parceria com a polícia. Seu sucesso influenciou o canal FOX a pro-
duzir o igualmente famoso America’s Most Wanted, em 1988. O
surgimento destes programas na década de 1980 responde a um
contexto de transformações sociais, econômicas e culturais ense-
jadas pela popularização da televisão, o início da globalização e
o aumento das taxas criminais. Outro dado é que, no período, Es-
tados Unidos e Inglaterra haviam eleito governos neoconservado-
res, de Ronald Reagan e Margaret Thatcher, impulsionando a de-
manda por punitivismo e encarceramento. Logo, o crime passou
a ser construído como uma ameaça para a sociedade, legando à
comunidade a obrigação de lutar para se preservar, para “acabar
com o mal” uma vez que os controles sociais clássicos estavam
sobrecarregados. A propagação do neoliberalismo na economia
contaminava outros setores: por exemplo, a ideia de que o indi-
víduo deveria tomar para si a responsabilidade por sua própria
segurança impulsionou não só a participação nestes programas,
mas foi acompanhado da intensa busca por segurança privada
(TEIXEIRA, 2009).
No caso brasileiro, o programa Linha Direta não foi criado
em parceria com a polícia, o que propiciou explorar críticas ao
sistema de justiça criminal, contribuindo para deslocar a con-
fiança da população das instituições de controle sociais clássicas,
como polícia e justiça, para a emissora de televisão. Todavia, os
casos selecionados pelo programa já possuíam informações que

342 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SEGURANÇA

permitiam, quase sempre, uma narrativa de sucesso da polícia


em identificar e prender o acusado.
De maneira geral, os programas de diferentes nacionalida-
des impulsionaram a apresentação de um hipercrime, quer dizer,
um crime que deixava sua polifonia do “real” para ganhar contor-
nos narrativos do entretenimento “virtual” (TEIXEIRA, 2009). Neste
sentido, a primazia é da vítima, portadora de voz, ao mesmo tem-
po em que a narrativa direciona o telespectador a culpabilizar os
suspeitos. O crime ganha cenário, fotografia, efeitos sonoros, pós-
produção e roteiro; os envolvidos se tornam personagens comuns
em dramas, ganhando reforço em traços específicos de sua perso-
nalidade ou em fatos da sua história. No plano simbólico, a narra-
tiva acaba por fazer o papel de um promotor que se dirige ao júri.
Esta construção, como afirma Teixeira (2009, 2011), julga
e condena de maneira antecipada casos que ainda não haviam
passado da fase de investigação, em que não havia nem denúncia
formal ao sistema judicial, tampouco construção do contraditó-
rio. No plano geral, os programas que seguem esta linha alimen-
tam a ideia de que o crime é uma ameaça social, que a sociedade
como um todo deve fazer com que o responsável pela violência
seja punido com rigor, que a vigilância social deve ser maior e
que é o indivíduo, e não o Estado, o responsável por fazê-lo.

AS MÍDIAS DIGITAIS

Em poucos anos, as mídias digitais tiveram ampla difusão e


passaram a ser a forma prioritária de disseminação de conteúdo,
troca de mensagens e construção de narrativas. Em suas diver-

343
sas formas, se constituíram como a principal fonte de informa-
ção para um número muito grande de pessoas. Contudo, como
adverte Miskolci (2011), as mídias digitais são meios que trans-
formaram as formas de comunicação que as precederam (cartas,
jornais, rádio, TV). O avanço da tecnologia digital passou a criar,
manter ou aprofundar as relações sociais, mediadas pela interfa-
ce dos novos meios, criando uma relação contínua de interações
on/off-line. Os limites da interação pelas plataformas digitais e a
interação no cotidiano fora delas vão se tornando cada vez mais
borrados, ao passo que, ao invés de só consumirmos os conteú-
dos digitais, também passamos a produzi-los e compartilhá-los
(MISKOLCI, 2016).
A maioria das tecnologias comunicacionais foi desenvolvi-
da com estímulos estatais, principalmente durante e depois da
Segunda Guerra Mundial e da Guerra Fria, com objetivos estraté-
gicos nas áreas bélica e política. Apenas no final dos anos 1990
é que a internet se tornou um produto comercial e acessível,
com a difusão dos sites e das plataformas como Facebook, po-
pularizando-se definitivamente com a difusão da tecnologia nos
smartphones (CASTELLS, 2011; MARTINO, 2015; MISKOLCI, 2016;
SIBILIA, 2016).
Temos procurado entender o impacto dessa nova forma de
recepção e emissão de conteúdo relacionado à violência e con-
trole do crime. Um primeiro aspecto trata de compreender que a
internet não inaugurou uma nova forma de produção de conteú-
do sobre os fenômenos sociais. Ao contrário, ela permitiu que ou-
tros sujeitos pudessem produzir conteúdo. Quando o tema é vio-
lência, pudemos perceber em pesquisas realizadas no Grupo de
Violência e Administração de Conflitos – GEVAC (MACEDO, 2015a;

344 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SEGURANÇA

CEDRO, 2018) que diversos sujeitos passaram a ocupar tais es-


paços para difundir e compartilhar suas narrativas, valores, mo-
ralidades e opiniões sobre o tema. Ao lado das pessoas comuns,
observamos o destaque aos policiais (principalmente os policiais
militares) na difusão de conteúdo sobre crime e seu controle. Mas
também é interessante notar que mesmo as pessoas que inte-
gram os mercados ilegais produzem e difundem conteúdo nas
redes sobre suas atividades e modos de vida.
Em pesquisa realizada em Luziânia, no estado de Goiás, a
respeito do fenômeno dos homicídios intencionais, André Cedro
(2018) observou a formação de redes familiares e de vizinhança
voltadas à vigilância comunitária. Essas redes, que utilizam prin-
cipalmente o WhatsApp e o Facebook, foram criadas para com-
partilhamento de informações, sobretudo para monitoramento
de suspeitos e notícias de crimes. Em sua observação participante,
o autor identificou que o discurso dos que interagem é permeado
pela reprodução da dicotomia “cidadãos de bem” e “bandidos”,
na qual as representações sobre a violência seguem reproduzindo
diagnósticos e narrativas que já existiam antes dos meios digitais.
Cedro (2018) observou que as mídias digitais são utilizadas
por todos os envolvidos nas relações marcadas por crimes violen-
tos: moradores dos bairros, operadores do mercado ilegal e po-
liciais se comunicam em aplicativos para compartilhar informa-
ção. Além de páginas locais especializadas em notícias de crimes,
os moradores dos territórios estudados mantinham canal direto
com a Polícia Militar para comunicar atividades suspeitas, crimes
e outras informações, por meio de um grupo no WhatsApp.
A construção da suspeição nestes espaços segue a lógica de
reprodução de estereótipos sobre o estranho e sobre quem são os

345
“bandidos”. As redes sociais, porém, permitem acrescentar às nar-
rativas orais elementos como fotos e vídeos que às vezes ampliam a
polifonia sobre um evento criminal, às vezes contribuem para fixar
ainda mais os estereótipos. Dada a frequência da ocorrência de cri-
mes de sangue nos bairros estudados por Cedro (2018), as imagens
são muito buscadas pelos usuários para identificar se as vítimas ou
os agressores são pessoas conhecidas. Famílias que têm jovens es-
tão sempre preocupadas com sua segurança, o que as impulsiona
a colaborar na vigilância comunitária. A percepção de insegurança
não é amenizada pela participação nas redes − ao contrário, pode
ser dinamizada, pois todo e qualquer fato passa a ser conhecido
num curtíssimo intervalo de tempo por um número muito grande
de pessoas. Informações que antes eram transmitidas no ritmo dos
encontros presenciais com parentes e vizinhos, agora têm seu fluxo
acelerado. Essa velocidade, imediaticidade e o contato permanente
com as cenas violentas trocadas nos aplicativos podem ter contri-
buído para aprofundar a percepção de que antigamente a cidade
era tranquila e que hoje todos são vítimas do medo do crime.
Outra utilização mediada pelo aplicativo de mensagens
é a dos policiais, que também o usam para seus contatos pro-
fissionais e compartilhamento de informações sobre operações.
Segundo análise de Cedro (2018), os policiais recorrem ao apli-
cativo por diversos motivos, seja pela falta de equipamentos de
comunicação (como rádio), seja por entenderem que o aplicativo
constitui uma forma mais segura ou mais completa para dividi-
rem informações (compartilhando imagens, por exemplo), o que
o pesquisador chama de utilização para apoio tático.
Outra mídia utilizada por policiais é o Facebook, com o pro-
pósito de divulgação do seu próprio trabalho ou da corporação, a

346 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SEGURANÇA

fim de construir uma imagem positiva. A mídia social, neste as-


pecto, é um campo de disputa, e a participação dos policiais e das
polícias visa à construção de legitimidade e apoio populacional
para pedir mais investimentos aos governos. Para a Polícia Civil de
Goiás, a utilização das páginas no Facebook adquire relevância já
que seu trabalho é pouco visível se comparado ao da Polícia Militar.
André Cedro observou ainda que as redes sociais são tam-
bém utilizadas por pessoas vinculadas a mercados ilegais e inte-
grantes das chamadas “facções”. Um exemplo foi a ampla divul-
gação de fotos e vídeos de disputas entre grupos pela hegemonia
dos mercados ilícitos e do controle do sistema prisional em 2018,
principalmente nas regiões Norte e Nordeste do Brasil (CEDRO,
2018, pág. 155). A divulgação de cenas sangrentas, evidenciando
crueldade e destemor, funciona como ameaça, recado aos oposi-
tores, difusão de informação entre grupos distantes geografica-
mente e alinhamento estratégico.
Henrique Macedo (2015a, 2015b) encontrou em sua pes-
quisa duas formas distintas de utilização das mídias digitais,
principalmente do Facebook e do YouTube. Os vídeos disponíveis
nessas plataformas se tornaram um meio de acesso às opiniões e
pontos de vista de policiais e políticos sobre as políticas públicas
na área de segurança desenvolvidas de 2009 a 2012. Durante esse
período, no estado de São Paulo, foi muito alardeada uma política
de enfrentamento e “combate” a suspeitos de integrarem o PCC9.
As ações policiais contra eles tiveram o protagonismo das Rondas
Ostensivas Tobias de Aguiar (ROTA) – modalidade de policiamento
realizada pelo 1º Batalhão de Policiamento de Choque.

9 O Primeiro Comando da Capital – PCC é considerado a principal rede de crime


organizado no estado de São Paulo pelas autoridades da Segurança.

347
A análise do período de 2009 a 2012, quando a Secretaria
de Segurança Pública de São Paulo priorizou o enfrentamento
militarizado, identificou que as redes sociais Facebook e YouTube
foram utilizadas pelos responsáveis pelas ações policiais letais.
Duas figuras-chave para a implementação dessa política, Antô-
nio Ferreira Pinto, então Secretário de Segurança Pública, e Paulo
Lucinda Telhada – conhecido como coronel Telhada e comandan-
te da ROTA à época –, utilizaram essas plataformas como forma
de propaganda política. Eles conciliaram com as redes sociais a
sua projeção nas mídias convencionais por estarem à frente de
ações contra o “crime organizado”, impulsionando suas campa-
nhas para deputado federal e estadual em 2014. Coronel Telhada
conseguiu se eleger como o segundo deputado estadual mais
votado de São Paulo naquele ano, com 253 mil votos.
O sucesso do coronel e o fracasso do ex-secretário nas elei-
ções de 2014 podem estar relacionados ao modo como cada um
utilizou as mídias sociais. De um lado, o ex-secretário se apresen-
tou como o político responsável por valorizar a ROTA e implemen-
tar as condições necessárias para que aquela unidade pudesse
atuar contra o “crime organizado”. A imagem de político conju-
gada com uma baixa produção de conteúdos nas redes sociais
deve ter contribuído para que ele não ganhasse a projeção polí-
tica no pleito. O caso do Coronel Telhada (PP)10 é outro, tanto que
conseguiu sua reeleição em 2018 com 214 mil votos, sendo o
quarto deputado mais votado no estado. Durante 2014, a figura
de Telhada aparecia como um herói na Polícia Militar, símbolo do
“combate ao crime organizado”, figura central para representar

10 O atual partido do Coronel Telhada é o Partido Progressista (PP), mas ele se


elegeu em 2014 pelo Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB).

348 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SEGURANÇA

os policiais e os “cidadãos de bem” contra os “bandidos”. A estra-


tégia de Telhada para a disseminação de conteúdo contou com
a criação de uma página no Facebook que possui atualmente11
quase 2 milhões de curtidas e um perfil no Instagram com 449
mil seguidores.
Ambas as votações do deputado estadual permitem supor
que no primeiro pleito as pautas do “crime organizado” e do
“combate ao crime” eram mais presentes na mídia, o que pos-
sibilitou a sua projeção política; contudo, no segundo momento,
os jornais priorizaram a crise política nacional e a corrida presi-
dencial. Em São Paulo, por exemplo, a deputada estadual mais
votada em 2018 foi Janaína Paschoal, uma das responsáveis pelo
pedido do impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff, com
a marca de 2 milhões de votos. Mesmo que o coronel tenha per-
dido eleitores, dois policiais militares que serviram na ROTA sob
seu comando – e que seguiram sua estratégia nas redes sociais
– também se elegeram como deputados. São eles: o Major Mecca
(PSL), eleito deputado estadual com imagem atrelada ao então
candidato à Presidência, Jair Bolsonaro, e contando com 400
mil seguidores em sua página no Facebook, além de 46 mil no
Instagram; e o Capitão Derrite (PP), que se elegeu deputado fe-
deral, acumulando mais de um milhão de curtidas no Facebook
desde seu tempo como tenente na ROTA, e 235 mil seguidores
em seu perfil no Instagram. Ambos apareceram em diversos pro-
gramas policiais, como o Brasil Urgente.
Os dados expostos demonstram como as mídias sociais
servem, para além da divulgação do trabalho dos policiais, como

11 O levantamento do número de curtidas e seguidores nas duas plataformas


foi realizado em janeiro de 2019.

349
uma forma de palanque político a impulsionar suas candidaturas.
Todas as personagens citadas têm em comum pautas de recrudes-
cimento penal, fazendo coro com o punitivismo, o aumento dos
investimentos na Polícia Militar e a crítica à punição de policiais
que praticaram violência contra suspeitos (inclusive letal). Todos,
ao seu estilo e forma, construíram discursos políticos propondo
ações de “combate ao crime organizado”, encontrando eco no
debate público. Entender a formação de páginas nas mídias so-
ciais é importante, uma vez que essas plataformas se tornaram
o principal meio formador de opinião para muitos. Neste espaço,
verificou-se a utilização de pautas que despertam de alguma for-
ma as emoções das pessoas que interagem com tais conteúdos,
seja de forma crítica ou em demonstração de apoio.
O livro de Sarah Ahmed, La Política Cultural de las Emo-
ciones (2015), permite uma melhor compreensão de como as
emoções foram absorvidas pela esfera digital em um circuito de
produção e reprodução. A autora argumenta que as tecnologias –
produto da razão e da técnica – não isolam as emoções, mas am-
plificam um espaço densamente emocional, ativado tanto para
a comercialização de produtos, como para disputas políticas. As
emoções, como Ahmed as compreende, não são só um estado
psicológico, são também práticas culturais estruturadas social-
mente em um circuito de afetos.
Se a abordagem clássica considerou a esfera pública como
espaço de argumentação racional, a leitura de Ahmed propõe
que o isolamento das emoções efetivamente não acontece, espe-
cialmente com o advento das novas mídias. Sua análise considera
os afetos como parte do que acontece na esfera pública, já que
emoções são construídas e significadas por meio do imaginário

350 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SEGURANÇA

coletivo. As emoções estariam sempre endereçadas ao outro,


criando um sentido, um valor, conectando sujeitos, orientando
suas práticas e determinando como se posicionam e se engajam
politicamente. Assim, as emoções circulam em uma economia de
troca mediante discursos, produtos culturais, práticas e condu-
tas morais. Segundo a autora, essa movimentação de emoções
produz efeitos, tal como o ódio nos discursos fascistas e nazistas,
que operam justamente para atingir as emoções dos interlocu-
tores. O ódio visa produzir uma relação de afeto, criando histó-
rias que têm como objetivo gerar “medo”, criando uma ameaça
ao que se “ama” ou a um “bem maior”, produzindo um “outro”
ameaçador para materializar tais narrativas (AHMED, 2015).
Macedo (2015b), em outro momento de sua pesquisa, acom-
panhou a narrativa de “guerra” entre a polícia paulista e o PCC a
partir de páginas do Facebook cujos conteúdos estavam ligados
ao controle do crime. O estudo selecionou cinco páginas: duas que
tratavam de atividades do “mundo do crime” (“Quem não viu pa-
rou para ver” e “Nois Não Falha em missão 1533 pcc”); e três que
veiculavam conteúdos relacionados ao trabalho policial (“Admira-
dores da ROTA”, “Comando Especial” e “Fatos Policiais +18 – sem
censura”). A escolha das páginas correspondeu à necessidade de
monitorar a evolução do conflito enunciado pelos interlocutores
de pesquisa a partir de 2012, ano marcado por episódios violen-
tos em que a polícia executou diversas pessoas apontadas como
integrantes do PCC, enquanto um número muito alto de policiais
também foi morto, especialmente fora de serviço. Nessas páginas,
acompanhadas em 2014, a enunciação da “guerra” é nítida e as
postagens serviam para divulgar as mortes, construir seu significa-
do, articular as narrativas, enviar mensagens aos “inimigos”.

351
Os conteúdos veiculados nas páginas analisadas tinham como
principal objetivo a desumanização do “grupo inimigo”, ao passo
que construíam para o próprio grupo uma imagem positiva − o que
ocorria tanto nas páginas do “crime” quanto nas páginas vinculadas
aos policiais. A desumanização do Outro e a humanização do Nós, de
acordo com Macedo (2015b), era realizada mediante a apresentação
de notícias, fotos, vídeos que retratam ocorrências criminais, mor-
tes violentas, ações policiais, sempre acompanhados de legendas e
textos que transmitem discursos de ódio e ameaças ao outro grupo
ou de exaltação do próprio grupo. Assim, de um lado, as páginas
vinculadas aos policiais apresentavam corpos dilacerados, notícias
de crimes, balanços de ações policiais com mortes e discursos em ví-
deo. Todos os conteúdos fixavam a mensagem de que os “bandidos”
/ “vagabundos” são extremamente cruéis, que não são humanos,
que praticam atrocidades e colocam em risco a sociedade como um
todo – disto decorrendo que a única ação efetiva é o seu extermínio.
De outro lado, as páginas vinculadas “ao crime” retratavam
a letalidade policial e outras situações de abusos cometidos por
policiais, fixando com isso uma mensagem de desumanização e
ódio correspondente, a partir de palavras como “verme” e “rato
fardado” para descrever os policiais. O autor aponta que essa in-
teração on-line pautada no discurso de ódio não pode ser lida de
modo desconectado das ações violentas efetivamente praticadas
no “mundo real”. As narrativas de “guerra” alimentam um con-
flito que gera mortos constantemente e legitima o uso da vio-
lência como única forma de sobreviver perante a crueldade dos
“vermes”, do “lixo”, dos “monstros”. A utilização de notícias de
periódicos e imagens de episódios violentos é um dos elementos
que produzem o continuum on/off-line.

352 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SEGURANÇA

Em 2014, época do estudo, a página “Admiradores da ROTA”


possuía 396 mil curtidas; a “Comando Especial”, 147 mil; e a “Fatos
Policiais +18 – sem censura”, a mais explícita delas (com imagem
de pessoas morrendo, fotos e vídeos de tiroteios), possuía aproxi-
madamente 28 mil curtidas. “Quem não viu parou pra ver” contava
com 21 mil curtidas e a “Nois não falha em missão 1533 pcc”, 5 mil.
Em todas as páginas, a interação entre os produtores de con-
teúdo, os administradores e os consumidores era muito intensa.
Em virtude de novas normas de verificação e censura de conteúdo
criadas pelo Facebook, essas páginas deixaram de existir ou muda-
ram de nome, como constatamos no começo de 201912. Se existe,
pois, um discurso de “guerra”, também existe uma forte disputa
em torno da denúncia de postagens e da própria existência dessas
páginas. O Facebook (que também controla as redes sociais What-
sApp e Instagram) torna-se alvo de críticas de usuários insatisfei-
tos por julgarem que a empresa permite conteúdo “degradante”.

12 Apenas duas das cinco páginas estudadas permanecem funcionando. A


primeira a ser banida pela não adequação com as regras foi a “Fatos Policiais
+18”. O conteúdo explícito compartilhado pela página não caiu bem nem
mesmo para consumidores que demonstravam apoio à ideia de “bandido
bom é bandido morto”, que aparentemente achavam fortes as imagens que
seguiam da legenda “mais um CPF cancelado”. Outra que perdeu espaço foi
a “Admiradores da ROTA”, que não foi extinta, mas acabou esvaziada já que
outras com mesmo nome foram criadas. Ela foi uma iniciativa de não policiais e,
posteriormente, alguns passaram a integrá-la. Contudo, a ideia da página, com
o foco em ações da ROTA, resultou na criação da “ROTA é ROTA”, cuja declaração
de autoria é da “Central de Comunicação Publicitária do 1ºBPCHQ – ROTA”, que
possui mais de 300 mil curtidas. A página “Comando Especial” foi a única que se
manteve, ganhando ainda mais curtidas (198 mil, segundo dados de fevereiro
de 2019). A página “Nois Não Falha em missão” não existe mais, banida por
mostrar utilização de drogas, imagens de pessoas mortas e “apologia ao crime”.
A “Quem não viu parou pra ver” continua existindo, mas publicando poucos
conteúdos e perdeu curtidas, contando atualmente com apenas 8 mil.

353
O espaço de relações de poder que constituem as novas
mídias inclui, para além da disputa por quais conteúdos podem
ser compartilhados, uma (re)produção constante de quem pode
ser ou não reconhecido como humano. As páginas analisadas
por Macedo (2015b) eram muito carregadas com discursos desu-
manizadores de pessoas vinculadas ao estereótipo do “inimigo”,
contra quem o uso da violência e o extermínio são comemorados.
As páginas policiais ganharam mais força ao longo do
tempo, já que páginas ligadas ao “crime” passaram a ser alvo
de investigação seja da Polícia Civil, seja do serviço reservado da
Polícia Militar. Essa interferência do mundo off-line, que só ocor-
reu para um lado, levou à diminuição da interação dos usuários
nessas páginas. De outro lado, as polícias incorporaram nas suas
práticas a investigação do conteúdo on-line publicado nas redes
e a solicitação de quebra de sigilo de mensagens privadas troca-
das nos aplicativos, de modo que os elementos compartilhados
ou mostrados nas redes sociais vão se constituindo em “provas”
do real. Desta maneira, a disputa discursiva na plataforma virtual
é constantemente afetada pelo mundo fora das redes.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A análise sobre comunicação, mídias e violência proposta


neste artigo localiza-se no âmbito de uma leitura sobre o para-
doxo da democracia no Brasil, que mesmo em seus momentos
mais potentes, não priorizou a consolidação dos direitos civis,
embora tenha avançado em direitos políticos e sociais (não sem
o risco de retrocessos).

354 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SEGURANÇA

A mudança no padrão da violência na sociedade brasilei-


ra nos últimos 30 anos foi o esteio para o crescimento de uma
enorme proliferação de discursos sobre o crime, a violência, a
polícia e os criminosos. Na esteira do medo e da insegurança,
que são sentimentos que estruturam ações, discursos políticos
se consolidaram. Embora com antagonismos e resistências, as
narrativas majoritárias sobre violência apontam no sentido do
endurecimento das leis, do apoio à brutalidade policial e do en-
carceramento inconsequente.
Nas mídias mais tradicionais, como a imprensa e a TV,
embora em meio a disputas, as representações majoritárias da
violência endossaram políticas de segurança conservadoras e re-
forçaram a centralidade da polícia e da prisão, silenciando formas
alternativas de lidar com a questão, como diagnósticos dissonan-
tes, políticas públicas integradas ou experiências inovadoras.
Lastreadas num percurso de pesquisas anteriores cujo de-
senvolvimento teórico é elucidativo dos mecanismos de relação
entre o poder e as mídias, as pesquisas do GEVAC aqui apresen-
tadas têm demonstrado a importância das novas mídias digitais
para a veiculação do discurso populista e de ódio que acompa-
nha as representações da violência no Brasil contemporâneo.
As mídias sociais também são disputadas por movimentos
sociais de enfrentamento dos abusos policiais, por movimentos
feministas que lutam contra a violência e por grupos organizados
que denunciam o genocídio do povo negro no País. Existem redes
de policiais antifascistas e redes de policiais que assumem sua
identidade LGBT+, que também usam as plataformas digitais para
difundir suas ideias contestatórias e reivindicar uma segurança
pública pautada pelo respeito aos direitos humanos. Essas discus-

355
sões, silenciadas nas grandes mídias, encontram espaço de dispu-
ta nas mídias alternativas baseadas nas redes sociais. Contudo, no
momento atual, a representação majoritária é aquela veiculada
por redes de policiais e de políticos que têm obtido progressivo
sucesso eleitoral com o discurso do populismo penal, do endure-
cimento contra o crime e da “guerra contra os bandidos”.
O debate sobre reformas na segurança pública caminhou
muito pouco no espaço público off-line durante 30 anos. E isso
contribuiu para que o quadro de violência se agravasse e se
complexificasse. Essa ausência de discursos dissonantes nas re-
presentações hegemônicas da violência fez com que o quadro
de referências do debate ficasse preso de modo trágico à reite-
ração nauseante das mesmas propostas de ação: mais polícia,
mais leis, mais cadeia, mais violência, mais mortes. O discurso
reacionário da extrema-direita – que hoje colhe dividendos po-
líticos nos espaços on-line – está combinado com a ausência
de reformas mais profundas no campo da segurança durante a
Nova República, produzindo um quadro sui generis. As represen-
tações da violência, ao influenciar a formulação e condução das
políticas públicas de segurança apartadas da implementação
dos direitos humanos, compõem um cenário de aprisionamento
em práticas culturais que legitimam e reproduzem a violência na
sociedade brasileira.

356 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SEGURANÇA

REFERÊNCIAS

ADORNO, S. Lei e ordem no segundo governo FHC. Tempo social,


São Paulo, v. 15, n. 2, p. 103-140, nov. 2003.

ADORNO, S.; LAMIN, C. Medo, violência e insegurança. In: LIMA,


R.S; PAULA, L. de (Org.) Segurança Pública e Violência: O Estado
está cumprindo seu papel? São Paulo: Editora Contexto, 2006. p.
151-71.

ADORNO, T. W. Ensaios sobre psicologia social e psicanálise. São


Paulo: Editora UNESP, 2015.

_____. Televisão, consciência e indústria cultural. In: COHN, G.


(Org.). Comunicação e indústria cultural. 5.ª Ed. São Paulo: Nacio-
nal, 1987(a). p. 346-354.

_____. Indústria Cultural. In: COHN, G. (Org.). Comunicação e In-


dústria Cultural. 5.ª ed. São Paulo, Nacional, 1987(b). p. 287-295.

ADORNO, T.; HORKHEIMER, M. Dialética do esclarecimento. São


Paulo: Zahar, 1985.

AHMED, S. La política cultural de las emociones. Ciudad de México:


Universidad Nacional Autónoma de México, 2015.

357
BENJAMIN, W. Obras escolhidas I. Trad. Paulo Sérgio Rouanet. São
Paulo: Brasiliense, 1987.

BIROLI, Flávia. O fim da Nova República e o casamento infeliz en-


tre neoliberalismo e conservadorismo moral. In: BUENO, W.; BU-
RIGO, R.; PINHEIRO-MACHADO, J.; SOLANO, E. (Orgs.). Tem Saída?
Ensaios críticos sobre o Brasil. Porto Alegre: Editora Zouk, 2017.

BOURDIEU, P. Sobre a televisão. Rio de Janeiro: Zahar, 1997.

CALDEIRA, T. P. do R. Cidade de muros: crime, segregação e cida-


dania em São Paulo. São Paulo: Editora 34, 2000.

CARAPAÑA. A nova direita e a normalização do nazismo e do fas-


cismo In: GALLEGO, E. S. (Org.) O Ódio como política. A reinvenção
das direitas no Brasil. São Paulo: Boitempo, 2018.

CASTELLS, M. A Sociedade em Rede. Vol. 1. A Era da Informação:


Economia, Sociedade e Cultura. São Paulo, Paz e Terra, 2011.

CEDRO, A. A Violência letal intencional no Município de Luziânia-


-GO: Conflitos interpessoais e a reciprocidade de vingança. São
Carlos, 2018. Dissertação (Mestrado em Sociologia) – Programa de
Pós-Graduação em Sociologia, Universidade Federal de São Carlos.

358 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SEGURANÇA

COHN, G. A análise estrutural da mensagem. In: _____ (Org.) Comu-


nicação e Indústria Cultural. 5.ª ed. São Paulo: Nacional, 1987. p.
333-345.

DATAFOLHA. Imagem da Polícia. São Paulo: Instituto Datafolha,


2015.

_____. Medo e Violência. São Paulo: Instituto Datafolha, 2017.

MACEDO, H. L. S. “Confrontos” de ROTA: a intervenção policial com


“resultado morte” no estado de São Paulo. São Carlos, 2015(a).
Dissertação (Mestrado em Sociologia) – Programa de Pós-Gradu-
ação em Sociologia, Universidade Federal de São Carlos.

_____.”Polícia” contra “ladrão”: Notas sobre a construção e desu-


manização do Outro em páginas sobre polícia e crime no Face-
book. In: COLÓQUIO INTERNACIONAL JUSTIÇA, POLÍCIA E SOCIEDADE,
2015(b), São Carlos / UFSCAR. Anais... Disponível em <http://www.
coloquiojps.ufscar.br/?page_id=160>. Acesso em 05 out. 2016.

MARTINO, L. M. S. Teoria das Mídias Digitais: linguagens, ambien-


tes e redes. Petrópolis: Vozes, 2015.

MISKOLCI, R. Novas conexões: notas teórico-metodológicas para


pesquisas sobre o uso de mídias digitais. Cronos, Natal, UFRN,
v.12, n. 2, p. 9-22, 2011.

359
MISKOLCI, R. Sociologia Digital: notas sobre pesquisa na era da
comunicação em rede. Contemporânea - Revista de Sociologia da
UFSCar. São Carlos, v.6, n.2, p. 275-297, 2016.

PERALVA, A. Violência e paradoxo brasileiro: democracia. Rio de


Janeiro: Paz e Terra, 2000.

PORTO, M. S. G. Violência e meios de comunicação de massa na so-


ciedade contemporânea. Sociologias, v. 4, n. 8, p. 152-171, 2002.

_____. Mídia, segurança pública e representações sociais. Tempo


social, v. 21, n. 2, p. 211-233, 2009.

_____. Violência e Representações sociais In: LIMA, R. S.; RATTON,


J. L.; AZEVEDO, R. G. (Orgs.) Crime, Polícia e Justiça no Brasil. São
Paulo: Editora Contexto, 2014. p. 60-70

RAMOS, S.; PAIVA, A. Mídia e violência. Rio de Janeiro: Iuperj, 2007.

ROCHA, C. O boom das novas direitas brasileiras: financiamento


ou militância? In: GALLEGO, E. S. (Org.) O Ódio como política. A
reinvenção das direitas no Brasil. São Paulo: Boitempo, 2018. p.
148-172.

SIBILIA, P. O show do eu: a intimidade como espetáculo. 2.ª ed.


Rio de Janeiro: Contraponto, 2016.

360 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SEGURANÇA

SILVESTRE, G. Controle do Crime e seus Operadores: Política e Se-


gurança Pública em São Paulo. São Paulo: Editora Annablume,
2018.

SINHORETTO, J.; LIMA, R. S. de. Narrativa autoritária e pressões de-


mocráticas na segurança pública e no controle do crime. Revista
Semestral do Departamento e do Programa de Pós-Graduação
em Sociologia da UFSCar, v. 5, n. 1, p. 119-141, 2015.

TEIXEIRA, A. N. A espetacularização do crime violento pela televi-


são: o caso do programa Linha Direta. São Carlos, 2002. Disserta-
ção (Mestrado em Sociologia) – Programa de Pós-Graduação em
Sociologia, Universidade Federal de São Carlos.

_____. A produção televisiva do crime violento na modernidade


tardia. Porto Alegre, 2009. Tese (Doutorado em Sociologia) – Pro-
grama de Pós-Graduação em Sociologia, Universidade Federal do
Rio Grande do Sul.

_____. Televisão, hipercrimes e violências na Modernidade Tardia


In: SANTOS, J. V. T.; TEIXEIRA, A. N.; RUSSO, M. (Orgs.) Violência e
Cidadania. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2011. p. 39-55.

361
O MUNDO DO CRIME NO EMBALO DO FUNK:
ARTICULAÇÃO METODOLÓGICA PARA UMA ANÁLISE
SITUADA DA COMUNICAÇÃO

Luciana Moretti Fernández1

RESUMO

O capítulo explora as possibilidades de análise das vozes


do crime por meio das letras do funk proibido, relacionando o
contexto de marginalização dessa cultura com as políticas públi-
cas de segurança no Brasil. O estudo das narrativas do crime que
circulam no proibido fundamenta-se numa perspectiva prag-
matista da comunicação, elaborado a partir de uma exploração
teórico-metodológica que permite pesquisar o que é comunica-
cional no fenômeno descrito como uma prática social de repre-
sentar o mundo do crime. A articulação combina a proposta de
Análise Situacional, derivada da Grounded Theory, e a teoria dos
dispositivos ou arranjos comunicacionais do brasileiro José Luiz
Braga. O texto, inspirado na pesquisa doutoral da autora, sinteti-
za as principais reflexões sobre a potencialidade dessa metodolo-
gia, destacando a prática comunicacional constitutiva do mundo
do crime com seus aspectos simbólicos e discursivos – não leva-

1 Psicóloga pela Universidade de São Paulo, mestre e doutora em Ciências


da Comunicação pela ECA-USP e integrante do Grupo de Pesquisa em
Comunicação Pública e Comunicação Política (Compol). Atua como
pesquisasdora em comunicação e psicóloga clínica. E-mail: lmoretti.psi@
gmail.com.

362 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇAÕ PÚBLICA E SEGURANÇA

dos em conta em uma política de encarceramento massivo como


alternativa para o combate à violência.

PALAVRAS-CHAVE: violência, funk proibido, análise situacional,


mundo do crime, dispositivos interacionais.

INTRODUÇÃO

O mundo do crime e as letras do funk “proibidão” são qua-


se sempre tratados como parte da mesma história. Observar as
narrativas que circulam através das letras desse gênero musical
é uma forma de compreender as expressões simbólicas do crime
que ganham o terreno das práticas culturais para compor uma
forma específica de vida. Tal forma de vida inscreve-se em con-
textos que afetam populações que, à margem da sociedade, são
alvejadas pelas políticas públicas de segurança no Brasil.
Vídeos de funks “proibidos” disponíveis na rede de com-
partilhamento YouTube foram o objeto empírico da tese doutoral
em que este texto está amparado. A tese reflete, em parte, sobre
as possibilidades metodológicas de análise da comunicação do
crime no funk proibido com o objetivo de compreender como o
mundo do crime, entendido como mundo simbólico, se constitui
em práticas comunicacionais, presentificando-se reiteradamen-
te nesse espaço. Pensar a epistemologia e a metodologia para
a pesquisa em comunicação, conforme proposto aqui, é impor-
tante para que o aspecto comunicacional dos fenômenos sociais
esteja no centro do estudo. Especificamente no campo da comu-

363
nicação pública, inovadoras alternativas para se acercar desse
objeto indicam possibilidades para informar políticas públicas,
demonstrando faces ignoradas da problemática social em relevo.
A política pública de combate à criminalidade no Brasil é
um desses exemplos. Baseada no encarceramento massivo, im-
plica o necessário enfrentamento dos conflitos entre facções cri-
minosas que disputam o domínio dos presídios. De dentro das
muralhas das cadeias, os comandos também propagam normas
e códigos de ética que organizam as formas de viver principal-
mente nas periferias. O funk é um dos meios de organização des-
sas narrativas. As discussões apresentadas a seguir, no entanto,
indicam que o funk vai além: como um arranjo vivo e situado,
permite observar um movimento social e, como tal, abre espaços
para sujeitos em seus contextos específicos. As conexões e nós
discursivos identificados a partir do estudo das letras dessas mú-
sicas são exemplificados neste capítulo.
O texto a seguir está dividido em quatro seções. Na primei-
ra, apresento um panorama do contexto do crime relacionado
à política de encarceramento no Brasil, enfatizando a violência
no interior dos próprios presídios e sua relação com a estrutura
do crime fora das cadeias. A segunda seção trata da cultura do
funk e da forma como o crime o utiliza para tornar-se presente
e atualizar práticas sociais. Na sequência, ao longo da seção 3,
a articulação metodológica é relatada, discorrendo especifica-
mente sobre seu viés pragmatista que inspira tanto a proposta
da comunicação como processo tentativo do brasileiro José Luiz
Braga quanto a Análise Situacional de Adele Clark. Uma vez que
essa construção metodológica fica clara, a seção 4 aborda a re-
lação do discurso do crime com a comunicação pública. Por fim,

364 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SEGURANÇA

a seção 5 exemplifica a aplicação da articulação metodológica


proposta em mapas situacionais em torno das letras do funk. As
considerações finais sintetizam as principais reflexões apresen-
tadas ao longo do texto.

1. CRIME E POLÍTICA DE ENCARCERAMENTO

Os índices de homicídio no Brasil estão entre os mais al-


tos do mundo e seu motor propulsor está na população jovem,
com picos entre os 14 e 21 anos de idade (WAISELFISZ, 2014).
A violência letal no País é apenas a ponta do iceberg em um
contexto de violência prevalente, endêmica e estruturante. De
acordo com a décima edição do Anuário publicado pelo Fórum
de Segurança Pública, durante o ano de 2015 o país registrou,
em média, um assassinato a cada nove minutos, o que se apro-
xima de um total de 60 mil mortes violentas (FBSP, 2016). Os
números de mortes e os índices de encarceramento são maiores
em jovens do sexo masculino e negros, e a população juvenil é
a mais vulnerável para o ingresso na criminalidade. A exposição
ao risco começa na infância, quando crianças são incorporadas
ao tráfico desde cedo em funções auxiliares para se tornarem,
mais tarde, soldados do tráfico.
Os jovens que ingressam no crime expressam ter clareza
de que, para eles, a expectativa de vida é curta. A probabilidade
de morte prematura parece encontrar conforto na promessa de
continuidade dos soldados que substituem os caídos na guerra:

365
Essa minha história não acaba assim
Se daqui eu for vai vim (sic) outro por mim
A nossa guerra, eu sei, vai ter final feliz
Mais (sic) minha vontade de viver só depende de mim
(RESPEITO não se compra)

Para Zaluar (2007), o Brasil vive conflitos armados sem


que seu passado guarde traumas indeléveis e irreparáveis gera-
dos por disputas étnicas, religiosas ou ideológicas que possam
justificá-los. O número de mortes por homicídio no País são mais
altos do que o de mortes registradas em países em guerra decla-
rada. A grandeza de tais números é tal que, entre 2008 e 2011,
o total de homicídios (206.005 vítimas) foi muito superior aos
casos verificados nos 12 conflitos armados mais importantes no
mundo entre os anos de 2004 e 2007 (GLOBAL BURDEN OF ARMED
VIOLENCE, 2015). Se comparados com a Guerra na Síria, o Brasil
registrou mais vítimas de mortes violentas intencionais em cinco
anos (2011-2015): lá, o número oficial é de 256.124, enquanto o
Brasil registrou 279.567 mortos no mesmo período (FBSP, 2016).
Para chegar a este ponto, a história da criminalidade no
Brasil é profunda. Mas a proposta aqui é tratar das práticas co-
municacionais do mundo do crime, considerando suas disputas
específicas. A história da guerra nesse universo tem seu início
com o surgimento dos comandos no sistema prisional na déca-
da de 1990, quando ocorreu uma partidarização das disposições
heterogêneas entre os coletivos que lutavam pelo domínio das
cadeias e por um embate de forças contra as agências estatais
de segurança (BIONDI; MARQUES, 2010). Uma parte significativa
dessa guerra foi travada em rebeliões prisionais, que viabilizaram

366 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SEGURANÇA

a consolidação e o domínio de alguns desses grupos, entre eles o


Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho.
Para Salla (2006), a história das rebeliões prisionais no
Brasil poderia dividir-se em três grandes períodos. O primeiro,
correspondente à história das prisões brasileiras até o início de
1980, que se caracterizou pela ocorrência de rebeliões como for-
ma de protesto contra as duras e precárias condições de encar-
ceramento. O segundo período, que abrange o início da década
de 1980 até 1992, ano em que ocorreu o Massacre do Carandiru,
é marcado pelos ares da redemocratização, então recente, que
colocaram em pauta uma política de humanização dos presídios
– movimento que, por sua vez, sofreu resistências por parte das
administrações prisionais. O terceiro período estende-se do Mas-
sacre do Carandiru até os dias atuais. Nos últimos 27 anos, essa
fase evidencia a ausência do Estado na gestão dos presídios e sua
incapacidade de agir para a contenção dos grupos criminosos em
seu interior.
No início de 2017, o Brasil testemunhou uma das crises
mais importantes do sistema prisional brasileiro até a data. Na
ocasião, duas rebeliões prisionais sangrentas e macabras foram
interpretadas amplamente na imprensa como uma consequên-
cia da ruptura do acordo de paz entre o Comando Vermelho e o
PCC2. O primeiro sinal dessa ruptura ocorrera antes, em outubro
de 2016, quando presos ligados ao PCC mataram 10 detentos que
pertenciam ao Comando Vermelho na Penitenciária Agrícola de

2 O aumento do mercado de drogas e do número de detenções nos estados


levou, durante algum tempo, à costura de alianças dentro dos presídios entre
os comandos nacionais e as facções locais. Mas essa aparente estabilidade
teria sido rompida exatamente pela ampliação acentuada do PCC, ameaçando
os demais grupos.

367
Monte Cristo, o maior centro prisional de Roraima3. A “paz” entre
os dois principais comandos que dominam os presídios e o tráfico
de drogas no País rompeu-se quando o Comando Vermelho aliou-
-se à Família do Norte (FDN), grupo que controla não apenas os
presídios na região Norte do País, mas, fora deles, a chamada Rota
do Solimões – percurso do narcotráfico na tríplice fronteira entre
Brasil, Colômbia e Peru.
Mas a reação em massa, na forma de uma onda violenta
que assombrou o País, foi deflagrada logo em 1 de janeiro de
2017. Naquele dia, uma rebelião no Complexo Penitenciário Aní-
sio Jobim (Compaj) em Manaus4 deixou 56 mortos, fruto de con-
flitos entre o PCC e a FDN. A maior parte dos presos assassinados
pertencia ao PCC. O episódio ficou registrado como a segunda
rebelião mais sangrenta do sistema prisional brasileiro, depois
do Massacre do Carandiru em 1992, quando 111 presos foram
mortos pela polícia.
Logo depois, na madrugada de 6 de janeiro, um segundo
acontecimento deixou outros 31 presos mortos na mesma Peni-
tenciária Agrícola de Monte Cristo. Vídeos das execuções do dia 6
de janeiro que circularam na internet, mencionados na impren-
sa, sugerem que as mortes, na maioria de membros do Coman-
do Vermelho, ocorreram por um acerto de contas do PCC pelas

3 A Penitenciária Agrícola de Monte Cristo albergava em janeiro de 2017


aproximadamente 1.400 presos, cerca do dobro de sua capacidade.
4 O Compaj é o maior presídio do Amazonas e abriga uma população
carcerária de aproximadamente 1.200 detentos, o que totaliza quase o triplo
de sua capacidade. Segundo dados da Secretaria de Estado de Administração
Penitenciária (SEAP), apenas 12% da população carcerária masculina em
regime fechado dispõe de assistência jurídica independente. O restante, 88%
da população encarcerada depende de assistência jurídica pública.

368 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SEGURANÇA

matanças ocorridas antes em Manaus. O poder público refutou a


tese, afirmando que as mortes foram resultado de um acerto de
contas interno (ALESSI; BENITES, 2017). As matanças em Roraima
situam-se como a terceira maior do sistema prisional brasileiro.
Estes dois casos podem ser compreendidos como mais um
capítulo na guerra do tráfico instalada no território brasileiro,
travada entre comandos e grupos criminais e que conectam o
mundo prisional ao mundo do crime nas ruas. A guerra entre
comandos no sistema prisional, assim como em territórios nos
quais exercem influência, é ponto de chegada de políticas públi-
cas de combate ao crime baseadas no encarceramento massivo.
Essas ações incidem sobre uma parcela específica da população
e levam a um quadro de exaustão entre a população castigada
pelo crime e pela violência.

Dentro das muralhas

A política pública de segurança baseada no encarceramento


em massa mostra seus resultados estatísticos: o índice de presos
no Brasil aumentou 575% entre 1990 e 2014 segundo o Levan-
tamento Nacional de Informações Penitenciárias (BRASIL, 2014).
O encarceramento afeta principalmente homens jovens, negros
e pobres, sendo que cerca de 40% encontram-se em situação
provisória, ou seja, estão presos sem condenação e mantidos em
unidades prisionais superlotadas. O encarceramento provisório
está associado (1) ao dispositivo de prisão em flagrante que de-
tém o acusado sem julgamento e sem considerar a gravidade do
crime – fazendo equivaler, por exemplo, assassinato e porte de

369
pequenas quantidades de droga; (2) à morosidade no sistema
judicial de encaminhamento para a instância de competência
para analisar o caso e julgar a necessidade de encarceramento;
(3) a falta de recursos econômicos do detento (e sua família) para
fazer valer seus direitos constitucionais.
O encarceramento massivo fortalece os comandos. O jo-
vem sem recursos e sem meios de resistência, quando ingressa
na prisão, adentra um mundo hostil, no qual a proteção física
e psicológica é obtida apenas por meio da adesão aos coman-
dos. O compromisso feito durante o período de encarceramen-
to estende-se posteriormente para fora das muralhas, quando o
sujeito, agora criminoso, ex-detento e estigmatizado, provavel-
mente prosseguirá nas urdiduras do crime, nos fios condutores
do proceder e com conexões ainda mais profundas com o mundo
do crime.

2. FUNK PROIBIDO

A cultura do funk e a festa popular que se manifesta nos


bailes são um fenômeno amplo com tons de movimento social e
não podem ser associadas diretamente à criminalidade. De fato,
o funk foi declarado patrimônio cultural do Rio de Janeiro em
2009 (RIO DE JANEIRO, 2009), em uma reação ao enrijecimento
provocado pela Lei nº 3410, de 29 de maio de 2000, que proibia
as raves5 e bailes no estado do Rio. O apelo ao reconhecimento

5 As raves são festas de música eletrônica, em que diferentes DJs se revezam


em suas performances. Geralmente são realizadas em campos abertos e têm
longa duração.

370 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SEGURANÇA

do funk como manifestação cultural legítima reagiu também à


associação comumente feita entre essa cultura e o tráfico de dro-
gas, em parte nos bailes de corredor6.
A criminalização do funk e seu distanciamento do espaço
público e da legalidade deram-se pela relação construída entre
os bailes com a desordem, sinônimo de brigas, vandalismo e
mortes, além das acusações de apologia do crime e aliciamento
de jovens para o tráfico através das letras das músicas (VIANNA,
2006). Há certo consenso entre os antropólogos situando o ano
de 1992 como marco no processo de criminalização do funk,
quando a reprodução de um baile típico do morro na cidade foi
narrada pela mídia como uma ação violenta que ficou conhecida
como “arrastão”. A partir de 1995, as operações policiais Rio I e
II, que tinham como objetivo interditar os bailes, redundaram na
criminalização do funk através de sua vinculação com o crime
organizado (HERSCHMANN, 2002).
Após analisar a jurisprudência dos Tribunais de Justiça do
Rio de Janeiro e de São Paulo, Cymrot (2015) conclui que os pa-
receres legais interpretam que cantar e escutar o chamado funk
proibido é um indício da prática de tráfico de drogas – sinal de
uma juventude desvirtuada e evidência de falta disciplinar grave.
A criminalização do proibido, para Cymrot, não ocorre apenas por
parte da imprensa e da polícia, mas também do Ministério Públi-
co e do Poder Judiciário.

6 Os bailes de corredor foram uma tática criada pelos frequentadores das


festas funk para evitar que grupos rivais (as chamadas galeras, compostas por
moradores de determinadas comunidades) entrassem em confronto. Cada
uma situava de um lado do baile e um corredor as separava durante toda a
noite (FIGUEIRAS, 2014).

371
Considero que abrir a escuta para o funk proibido, incluin-
do aquilo que ele vem celebrar e exaltar permite, como propõe
Clarke (2005), registrar vozes e processos sociais que talvez este-
jam desconsiderados e excluídos de qualquer atenção dentro do
processo de análise social.
Essinger (2005) aponta para o problema das precondições
que criam o caldo de cultura para que associações instrumentais
entre o funk e o crime possam prosperar. O trecho a seguir foi
extraído do depoimento de um MC7 do Morro do Borel, no Rio de
Janeiro, e publicado por Essinger:

Eu moro na comunidade, tenho família lá. O cara (trafican-


te) escreveu uma letra em cima da nossa letra e pergun-
tou se dava para gente gravar dentro da nossa comunida-
de para eles escutarem. E aí gravamos. Não foi uma coisa
forçada, foi um pedido. A gente respeitava eles, respeita
até hoje. Mas não chegamos a passar a música para fora,
cantar em clube. Só que ela foi gravada, se espalhou. E
acabou que foi parar na mão da mídia, e eles acharam que
o original dela era esse. (ESSINGER, 2005, p. 238).

A fronteira entre o proibido de transgressão e o funk de


protesto social não é clara. No universo do funk, rap e hip-hop,
entendidos como movimentos sociais, a arma do MC é seu micro-
fone. No funk, o conteúdo associado à violência é nomeado pelos

7 MC significa Mestre de Cerimônia e indica, no funk, o animador do baile que


comanda a festa ao interpretar suas canções e também comandar as demais
atrações. Tornar-se um MC famoso implica em escolher um nome comercial e é
percebido como uma chance de ascensão social tão relevante como o futebol
para jovens da periferia (PAULO, [s.d]).

372 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SEGURANÇA

MCs como “funk de contexto” ou “proibido com ideologia” (MI-


ZRAHI, 2014). Apesar disso, parte dessas vozes assume a nome-
ação “proibido” ou “proibidão”, e posteriormente as nomeações
“funk de apologia”, “funk de facção” e “funk ousadia”, como é
possível observar em canais no YouTube nos quais essas músicas
circulam. Esse posicionamento da fala em negociação com a lei
ressalta o aspecto da oposição/transgressão, mas também enfa-
tiza a interação entre dispositivos sociais.
Vianna (1988) conta como o funk, ao sofrer a pressão da
criminalização, refugiou-se nas favelas e nos morros cariocas,
onde os funkeiros tiveram que pedir autorização a traficantes lo-
cais para fazer seus bailes. O palco, lugar de destaque, era ocupa-
do muitas vezes por pessoas com prestígio na favela, entre elas
por aqueles que exaltavam o crime. O proibido fez parte do início
de carreira de alguns MCs que posteriormente seguiram caminho
através de outros subgêneros, como o melody, ou cantando mú-
sicas com temas evangélicos.
Nas músicas analisadas anteriores à perseguição do funk
sob as leis de apologia do crime e de incitação ao crime (artigos
287 e 286, DL/2848-40) gerada pela Lei do Funk (RIO DE JANEIRO,
2000), a reivindicação da voz do crime e da voz do PCC é explíci-
ta nas letras do “proibidão”. Posteriormente, essas vozes vão se
reposicionando até que, com a elevação do funk a patrimônio
cultural em 2009, passaram a reivindicar nas músicas, muitas ve-
zes logo no início, o lugar de fala do artista, de cronista da favela
e da realidade, indicando uma tentativa de aproximação mais
eficiente para lidar com o aparelho legal.
O proibido situa-se num espaço que não cabe no campo de
poder do discurso oficial instaurado nem no campo da reivindica-

373
ção dos movimentos sociais amparados pela lógica democrática.
Esta limitação ocorre porque, apesar da atmosfera de reivindi-
cação social que pode haver quando o proibido realiza a crônica
da favela, o proibido em si mesmo cria uma cisão ao assumir o
lugar da subversão e da transgressão. Por isso, fica situado fora
também do campo compartilhado com outros movimentos rei-
vindicatórios que assumem uma faceta pacífica, artística e com-
prometida com a legalidade.
A proposta de pesquisar mais detalhadamente as tenta-
tivas comunicacionais feitas pelos autores e intérpretes do funk
proibido exigiu uma metodologia que permitisse compreender
este movimento de forma situada, ou seja, em seu contexto, sem
recorrer a teorias normativas. Para tanto, na próxima seção apre-
sento a construção metodológica e, na sequência, seus principais
resultados e análises.

3. ARTICULAÇÃO METODOLÓGICA

O ponto de partida para a construção epistemológica e me-


todológica foi o conceito de comunicação como um processo pro-
babilístico e tentativo, apresentado por José Luiz Braga. Suas teo-
rizações permitem estabelecer elos originais com a metodologia
da Análise Situacional, desenvolvida por Adele Clarke para análi-
se da ação social situada, nos caminhos da chamada Grounded
Theory. Ambas as propostas fundamentam-se nos princípios da
filosofia pragmatista, que valoriza o pluralismo de perspectivas
na análise de problemas práticos e de ideias ou ações que efeti-
vamente ocorrem na realidade (CRAIG; MULLER, 2007). Estes pi-

374 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SEGURANÇA

lares distinguem claramente o pragmatismo de outras correntes


teóricas que determinam pontos de vista apriorísticos e normati-
vos da comunicação, conduzindo, muitas vezes, para possibilida-
des metodológicas e interpretativas muito restritas.
Entendemos que a análise das relações sociais e dos senti-
dos propostos pelo funk proibido demanda uma abordagem mais
aberta e maleável para dar conta de um objeto fugidio, ou seja,
que dificilmente pode ser apreendido por uma visão idealista ou
padronizada de comunicação. Mais interessante é percorrer seus
rastros e, por meio deles, compreender as pontes comunicativas
construídas ou rompidas em seu próprio contexto. Isso significa
partir da própria experiência comunicacional para só então pen-
sar o problema em seu nível social.

A abertura pragmatista

A tradição pragmatista foi considerarda por Craig (1999;


2006) em seu metamodelo constitutivo para o campo da comuni-
cação por sugestão de Russil (2004, 2005). Russil defendeu que o
metamodelo fosse composto por oito (e não pelas sete tradições
teóricas, conforme a proposta inicial) para incorporar a concepção
de comunicação proposta por John Dewey (1859-1952). Como um
filósofo pragmatista, Dewey compreende a comunicação como
uma resposta prática da sociedade pluralista. Os problemas da
comunicação surgem, nessa perspectiva, da impossibilidade de
submeter diferentes pontos de vista a um único padrão.
A tradição pragmatista é uma resposta ao problema da in-
comensurabilidade e da indeterminação, em oposição aos mode-

375
los lineares da comunicação (que apresentam uma contingência
única, representada por A → B) (CRAIG, 2006). Nesse modelo li-
near (proposto, por exemplo, pelas teorias comportamentalistas
e informacionais do modelo matemático), A seleciona a mensa-
gem para influir em B. Os modelos baseados no interacionismo
ou nas perspectivas intersubjetivistas, por sua vez, são de dupla
contingência ou bidimensionais, e podem ser representados por
A <> B (demonstrando uma influência mútua, porém temporal).
A grande contribuição da tradição pragmatista, neste caso
através do pensamento de Dewey, é o modelo da tripla contin-
gência. Dewey inclui um terceiro elemento na relação: o público.
A e B são conscientes da existência desse terceiro elemento na
relação comunicativa. Ainda que ele não esteja visivelmente pre-
sente, A e B mantêm-se numa posição reflexiva à medida que
têm a expectativa de serem ouvidos e compreendidos de for-
ma mais geral. Na Teoria dos Públicos de Dewey, esse terceiro
elemento é representado pelo público pluralista, formado pelos
mais diferentes grupos de interesses que compõem o amplo qua-
dro social. Por isso, Dewey compreende que a comunicação de-
pende da visão de uma comunidade pluralista como contexto das
interações através de diferentes perspectivas incomensuráveis
(CRAIG, 2006). O problema central da comunicação é o problema
da incomensurabilidade, que tem suas raízes no empirismo radi-
cal de William James.
Esta proposta, que compreende a existência e a incorpora-
ção reflexiva do público na comunicação, é mais adequada para
a análise das letras do funk proibido que não se limitam a uma
relação linear, seja ela unidimensional ou de dupla contingência.
Compreender as diferentes relações e conexões que as músicas

376 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SEGURANÇA

suscitam exige uma escuta aberta à pluralidade de perspectivas


e às contingências. No próximo item, relacionamos os elementos
da tradição pragmatista com a teoria do brasileiro José Luiz Braga
sobre uma comunicação tentativa.

A comunicação como processo probabilístico e aproxi-


mativo

Braga propõe que a comunicação como prática social seja


observada a partir do movimento constitutivo que caracteriza as
interações comunicativas e os processos sociais. Esses movimen-
tos se caracterizam por serem aproximativos e tentativos. Nesse
meio, a comunicação ocorre exatamente quando é gerado algo
novo que até então estava ausente na interação. Trata-se de uma
concepção da comunicação com ênfase no processo constitutivo
mais do que no resultado “pronto”.
Ao dizer que a comunicação é um processo tentativo, Braga
propõe dois ângulos de observação. De um lado está o ponto de
vista probabilístico, já que em cada episódio de comunicação es-
pera-se que “alguma coisa relativamente previsível pode aconte-
cer” (BRAGA, 2010, p.79). Em outras palavas, as partes envolvidas
no processo de comunicação (individual ou coletivo) participam
do processo com alguma expectativa de escuta e de encontro. De
outro lado está o ponto de vista aproximativo, sinalizando que a
comunicação ocorre com algum grau possível de êxito, entre a
ausência total de certeza e a comunhão entre as partes. Ou seja:
para que haja comunicação, são necessárias tentativas sucessivas
para reduzir a incerteza – ou o isolamento, em termos interpes-

377
soais e sociais. A comunhão entre as partes é possível do ponto
de vista probabilístico, mas não é o que caracteriza a comunica-
ção, que ocorre no processo aproximativo.
Sob essa perspectiva probabilística e tentativa, a dinâmica
do processo de comunicação pode ser compreendida a partir das
incertezas e tensionamentos. São elas que apontam para aber-
turas que podem culminar em transformações sistêmicas. Braga
sugere, para tanto, que sejam observados dois elementos pre-
sentes em toda interação comunicativa: o código e a inferência.
É na incerteza, na abertura gerada quando o código não é mais
suficiente, que reside o potencial da comunicação como processo
constitutivo, que gera algo novo.
O código, previamente compartilhado entre os participan-
tes, proporciona à interação certo grau de certeza. A ideia de códi-
go diz respeito às formas consensuadas que conferem significado
compartilhado socialmente. Os espaços de incerteza da interação
comunicativa, por sua vez, são preenchidos por processos de in-
ferência (BRAGA, 2010, 2016; WILSON; SPERBER, 2004), nos quais
comparecem elementos situacionais e extralinguísticos. Quanto
maior a incerteza (ou seja, quanto menos cristalizado estiver o có-
digo), maiores são os graus de inferência, indicando potencial de
transformação diante do novo (BRAGA, 2010). Este é um aspecto re-
levante para a escuta de vozes sociais minoritárias ou silenciadas,
bem como vozes vetadas como as vozes do crime que observamos
por meio das letras do funk. Com seus códigos não sedimentados e
não hegemônicos, as possibilidades de inferência crescem.
Como processo constitutivo de práticas sociais, a dinâmica
de qualquer interação comunicativa, esteja ela situada no nível
micro ou macro, está inscrita em um certo contexto, sujeita a mo-

378 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SEGURANÇA

dificações e ajustes constantes. A competência comunicacional


do ser humano é o que viabiliza a “articulação de diferenças em
modos experimentais” (BRAGA, 2019), o que significa que essas
articulações dependem do contexto e das contingências dos par-
ticipantes e da situação. O ângulo de observação da comunicação
está na atenção aos modos como se relacionam as diferenças
entre os participantes e entre esses e outros mundos sociais.
Para observar o processo comunicacional in situ, Braga
propõe a noção de “arranjos disposicionais”, um conceito opera-
cional a modo de heurístico que procura enfatizar o aspecto pro-
cessual e inferencial da comunicação, mais do que o aspecto de
produto. A ideia de “arranjos disposicionais” é uma continuidade
da formulação anterior que podemos encontrar na obra de Braga
como “dispositivos interacionais”. Como o próprio autor explica,
e eis aqui uma amostra do processo aproximativo e tentativo in
vivo, a ideia de “arranjo” vem especificar a de “dispositivo” para
dar mais ênfase ao processo e à incerteza do que às regras de
funcionamento do dispositivo como algo “pronto”, evitando as-
sim a reificação (BRAGA, 2019).
Assim, é a própria construção do sistema de relações que
se torna o objeto de análise na pesquisa em comunicação. No
nível social, é possível observar como tais relações se configuram
localmente por meio de sucessivas tentativas de aproximação
diante do objetivo de articular as diferenças e ajustar as regras
(BRAGA, 2011). Esses arranjos construídos socialmente estão em
permanente movimento: sobrevivem e fenecem por seleção na-
tural à medida que atendem ou não às necessidades de seus con-
textos e, com eles, vão se transformando e estimulando novos
dispositivos.

379
Estudar o processo de comunicação implica prestar atenção
à “singularidade dos arranjos e das estratégias que os elaboram”
(Braga, 2019, p. 90). Braga especifica que identificar as regras é
relevante porque o arranjo se organiza em torno delas, mas não
porque sejam o fundamento social. Por outro lado, compreender
as estratégias específicas é o que permite conferir sentido às re-
gras. Sem as estratégias, as regras são vazias. Portanto, há uma
procura por uma análise situada da prática comunicacional em
torno daquilo que a caracteriza como tal: o ajuste aproximativo
entre diferenças para viabilizar uma interação articulada.
Do ponto de vista epistemológico, Braga sintetiza: “Se os
arranjos, as lógicas do jogo (com seus objetivos, suas regras de
funcionamento e suas táticas de ajuste) são a dinâmica central
do dispositivo (...), então devemos perceber a centralidade da co-
municação em todo e qualquer processo social.” (BRAGA, 2019,
p. 90). E conclui: “Arranjos disposicionais são, em si mesmos,
exercícios práticos da potencialidade comunicacional do ser hu-
mano”. (BRAGA, 2019, p. 90).
Para este estudo, especificamente, o funk proibido foi tra-
tado como dispositivo / arranjo interacional para a comunicação
do mundo do crime. A partir dessa forma de tratar o objeto de
estudo, o processo comunicacional está no centro dos questiona-
mentos. Buscamos identificar as estratégias e táticas utilizadas
pelo funk no contexto social em que convivem a criminalização
dessa cultura periférica, o cansaço generalizado da sociedade
diante da violência e as políticas públicas de segurança baseadas
no encarceramento.

380 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SEGURANÇA

Análise situacional: processo comunicacional como


prática situada

A teorização de Braga sobre a comunicação como proces-


so tentativo oferece um posicionamento epistemológico e uma
perspectiva de programa de pesquisa, incluindo um conceito
operacional que pode ser usado a modo de heurístico. Esta seção
descreve brevemente a Análise Situacional (Clarke, 2003) como
metodologia que possibilita a análise situada de práticas sociais
para sua aplicação ao problema comunicacional. As duas propos-
tas podem ser articuladas coerentemente ao se enraizarem na
tradição pragmatista.
A Análise Situacional é uma revisão pós-moderna inscrita
no tronco das revisões construcionistas da Grounded Theory (Te-
oria Fundamentada nos Dados) para a análise situada de práticas
sociais. Esta metodologia possibilita a construção empírica da si-
tuação analítica em forma de mapas situacionais. Sua unidade
de análise é a própria situação, avaliada em sua totalidade, arti-
culando os níveis micro e macrossocial. O resultado é um registro
gráfico que aponta múltiplos caminhos de processos e decisões
que permitem a redescrição dos dados. Para uma representação
completa, Clarke sugere que três mapas sejam construídos: o si-
tuacional, que inclui elementos humanos e não humanos; o de
mundos simbólicos, que permite identificar as diferentes esferas
sociais que coexistem na situação dada; e o de posicionamentos,
que especifica as diferentes posições (expressas ou silenciadas)
que marcam os eixos discursivos envolvidos.
A construção de mapas apresenta diversas vantagens analí-
ticas para o estudo da comunicação, bem como de outras ciências.

381
Esta proposta confere ao pesquisador a mobilidade necessária para
analisar o objeto, de forma descentrada e com múltiplas possibi-
lidades de reinterpretação dos processos traçados (Clarke, 2005).
No centro da Análise Situacional, está a importância das
práticas discursivas (e, portanto, das práticas comunicativas). É a
partir delas que os mundos sociais são mapeados como mundos
simbólicos. As narrativas permitem também identificar as intera-
ções em arenas sociais mais amplas, mesmo quando se formam
apenas temporariamente. Na medida em que os elementos se
relacionam entre si, em diferentes níveis, suas representações em
mapas tornam-se “cartografias de compromissos coletivos, rela-
ções e lugares de ação” (Clarke, 2005, p. XX).
Já que os discursos são tão importantes, Clarke sugere en-
tão que as posições e silêncios sobre um tema sejam registrados
sem uma relação direta com os atores. Isso permite dar ênfase
às narrativas mais do que aos sujeitos que as expressam. E, de
forma geral, a combinação dos três mapas propostos por esta
metodologia permite que o analista avalie a situação pelos mais
diferentes ângulos, revisando as diversas formas de interações
entre os elementos envolvidos (humanos ou não). Esta flexibili-
dade permite trazer à tona processos, posicionamentos e narra-
tivas que, de outra forma, continuariam obscuros para a análise
– e, portanto, invisíveis ou inaudíveis.

4. AS VOZES DO CRIME E A COMUNICAÇÃO PÚBLICA

Como mencionei no início deste texto, a articulação entre o


conceito de comunicação tentativa e probabilística com a Análise

382 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SEGURANÇA

Situacional surgiu como um caminho para analisar as vozes do


crime no funk proibido. A escolha desses dois corpos epistemoló-
gicos e metodológicos veio atender à necessidade de adotar uma
metodologia que permitisse trabalhar com um problema comple-
xo e escorregadio com ferramentas que prescindiam de conceitos
prévios e normativos, pois ideias pré-concebidas pareciam fechar
o problema ao reduzi-lo, impedindo de tocar o aspecto comuni-
cativo que entranha o uso do funk proibido pelo mundo do crime.
Tais decisões de pesquisa permitem o enlace com os estu-
dos de comunicação pública, cuja proposta central é a de identifi-
car as vozes que buscam o reconhecimento de suas demandas de
expressão na sociedade (MATOS E NOBRE; GIL, 2016). Mais do que
isso, as análises em comunicação pública pretendem identificar
“a trajetória dos excluídos no espaço público brasileiro, tentan-
do aferir o impacto potencial efetivo de sua presença-ausência
como comunicadores na esfera pública, ou seja, a repercussão de
sua atuação comunicacional em medidas efetivas de reconheci-
mento social, econômico, político” (MATOS, 2011, p. 41).
Uma das resultantes desse processo de reconhecimento é
justamente a influência sobre a formulação de políticas públicas.
No caso do funk e das atenções que suas letras tentam atrair, po-
der-se-ia pensar em políticas públicas de valorização da cultura
periférica; de incentivo à ascensão social do jovem para ajudá-lo
a escapar da cadeia do crime; de combate à violência policial ou
da promoção dos direitos humanos no cárcere. O trâmite entre a
expressão pública das demandas sociais e as diferentes decisões
políticas possíveis, no entanto, depende essencialmente da ca-
pacidade dos grupos se organizarem. A disputa por visibilidade
é apenas o primeiro passo nesse processo. Por isso é importante

383
“(...) compreender como os cidadãos às margens (ou na perife-
ria) do sistema instituído se envolvem em associações (grupos de
preservação cultural ou outros movimentos sociais), com o obje-
tivo de entender e superar sua exclusão, de modo a definir uma
posição diante das políticas públicas e dos atores administrati-
vos.” (MATOS, 2011, p. 42). Entre essas associações, podem estar
incluídos os comandos organizados que controlam os presídios e
o crime nas ruas, que compõem a sonoridade múltipla e plural de
vozes na sociedade. Identificar as trajetórias de expressão desses
grupos, como sugere Matos, requer compreender o contexto em
que suas formas de comunicação foram se definindo.
O crime no Brasil, que está no foco desta análise, é um mo-
vimento em expansão que ultrapassa os limites marcados pela
infração daquilo que está disposto no Código Penal. Sua expan-
são é simbólica, constituindo-se como um mundo social e como
força de referência normativa em ambientes vulneráveis expos-
tos às lógicas do crime e do tráfico. Os negócios ilícitos e o estilo
de vida (em termos subjetivos, econômicos, sociais e políticos)
dão o contorno para o uso da palavra “crime”. Ao seu redor, for-
ma-se um mundo do crime, que implica em uma forma de vida e,
necessariamente, em processos de comunicação. Isso pressupõe,
segundo Biondi (2010) e Biondi e Marques (2009, 2010), um tipo
específico de sociabilidade, com ética e com regras próprias de
conduta que permitam enfrentar as contingências do cotidiano.
Em seu movimento de expansão simbólica, o mundo do
crime constrói e reformula representações que soam paradoxais.
Feltran (2013) argumenta que a força de afirmação do crime
situa-se em torno dos valores que guiam a vida em comunida-
de, bem como da garantia da paz, justiça, liberdade e igualdade,

384 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SEGURANÇA

enquanto o crime em si situa-se exatamente no espectro oposto


do contrato social – ou seja, contra a lei e a ordem. Assim, a re-
-presentação do mundo do crime, entendido como um ato de
presentificação que se repete, ocorre em torno de um ideal nor-
mativo que rege a vida situada à margem do sistema (nas perife-
rias). O PCC, que está no centro da disputa simbólica e efetiva do
crime no País (como vimos no início desse texto), construiu seu
lema em torno desse ideal não para proclamar a clássica ban-
deira republicana, mas para enfatizar, nas margens do sistema,
sua objeção às expressões de desigualdade “nas interações face
a face, ainda que tolerada noutros planos” (FELTRAN, 2013, p. 65).
Ao aplicar a Análise Situacional (e seus mapeamentos des-
critos anteriormente) sobre as letras do funk proibido, identifi-
quei que este mundo do crime se constitui como um guardião de
valores políticos legitimados. Esta posição se estabelece por meio
de um certo proceder (MARQUES, 2010), definido e reafirmado no
interior do ambiente carcerário para então se expandir para as
ruas. Esta forma de agir normatiza a relação entre os iguais – “os
ladrões, os pretos, os da periferia” (FELTRAN, 2013, p. 65), assim
nominados pelo PCC. O que reúne esses iguais em torno de um
mesmo código inverte, por dentro e por completo, as premissas
da vida na sociedade: o que era para ser o errado torna-se acei-
to e correto no mundo do crime. Para enfrentar essa diretriz de
comportamento, seus integrantes devem demonstrar uma dis-
posição para seguir a normativa definida por seu mundo, o que
exige ter coragem, apetite, mente firme, coração blindado.

385
Nesse conflito tá tudo mudado
O errado tá agindo pelo certo
E o que era para ser certo tá agindo errado
(FAIXA DE GAZA 2, 20158)

Este exemplo de paradoxo abre espaço para as inferências


de que fala Braga (2010c) e que desafiam os códigos estabeleci-
dos, mostrando que é a incongruência que gera a abertura para
o fenômeno social em sua complexidade. No funk proibido, a ce-
lebração do crime ocorre a partir de uma divisão: há uma men-
sagem moral, a partir da qual se realiza uma crítica social em que
se defendem valores justos; mas há também uma mensagem re-
tórica ou apologética, que proclama a “glamourização” do crime
(FELTRAN, 2013, p. 47). Em várias ocasiões, este se torna um re-
curso defendido como resistência à perseguição das músicas que
celebram o crime pela polícia, o que indica um processo de sub-
jetivação do falante (FERNÁNDEZ, 2015a; 2015b; 2015c, 2015d).

5. DISPOSITIVOS REVELADOS PELOS MAPAS SITUACIONAIS

O mapa situacional apresentado a seguir foi construído a


partir da análise de vídeos de funk proibido publicados no You-
Tube cujo conteúdo exalta o mundo do crime. Para construir o
mapa situacional com foco na observação desse objeto comuni-
cacional, foi preciso fazer adaptações na metodologia. Por isso,
a representação gráfica a seguir não seguiu a organização por

8 Com exceção dos casos nos quais pude identificar a data da gravação das
músicas, usei nas citações as datas de postagem no YouTube, optando pelas
mais antigas que pude rastrear.

386 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SEGURANÇA

eixos estruturais conforme a proposta de Adele Clarke (2005). Em


vez disso, o mapa utiliza nós ou pontos de ligação que foram
criados a partir da análise das letras do funk proibido. Os nós
foram construídos a partir da codificação das letras com o progra-
ma NVivo e as relações entre os elementos que compõem cada
nó foi preservada. Na forma proposta por Clarke, os elementos
devem ser separados para depois serem rearticulados. No caso
de um objeto comunicacional, a articulação dada no uso social é
o foco de análise, pois as palavras só adquirem sentido em jogos
estabelecidos e praticados socialmente.
A partir do mapa situacional foi possível conceber o funk
proibido como um dispositivo interacional (seguindo com a te-
oria de Braga), ou seja, como um espaço-sistema ou um arran-
jo dinâmico que permite observar a comunicação do mundo do
crime com seus pares, com seus oponentes e com a sociedade.
Vejamos alguns detalhes desse mapa:

387
FIGURA 1 – O nó “Comunidade” cantado no funk proibido

estigma favelado
jovens negros figurações classes
sexo masc perigosas Descendente
Descendente Descendente

Luta por respeito


e legitimidade
Mortes por Figurações MC representar a
Descendente discursivas Mundo do crime lema da
homicídio favela
comunidade
Respeito,
elevação Dignidade e
Descendente Lealdade
homicídios 14-21
Descendente
anos
Descendente exaltar a
Guerra contra a Descendente Descendente Descendente comunidadeDescendente
polícia
Descendente
representar a
comunidade
Descendente
Descendente
Conflito armado Descendente
Descendente Descendente
narrar a
Descendente dificuldade da
vida com
violência nas
Disputas COMUNIDADE
lutar pelo comunidades
territoriais
respeito da
comunidade
Conflitos com
grupos inimigos Descendente
Descendente bairros
interrompidos
Descendente

lazer
Descendente Descendente
Condições de
habitação Descendente
Descendente
saúde pobreza
Funções sociais
deficiências
PCC Descendente saneamento
Descendente Descendente básico

Descendente
Descendente
Descendente
Descendente redução
Descendente homicídios
Descendente impedimentos
acesso
(ambulâncias, problemas com
bombeiros, os meios de
tribunais do crime polícia) transporte

assistência favela
jurídica serviços
cultura controlados por
assistência social máfias
famílias 1,1 (1x2)

Fonte: Elaboração da autora.

Neste extrato, o nó “Comunidade” representa a configu-


ração da “Paz Armada” gerada pela presença do PCC nas comu-
nidades. Os subnós são elementos situacionais que circulam no
funk proibido, incluindo as lógicas, códigos (conceitos, valores),
aspectos da subjetividade e elementos sociais estruturais. Como
descreve Braga, os dispositivos interacionais permitem captar
as articulações postas em uso nas práticas sociais. Esta é uma
adaptação importante aos métodos propostos por Clarke, já que

388 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SEGURANÇA

a proposta inicial da Análise Situacional é que o pesquisador es-


tabeleça articulações a partir da completa desconstrução da situ-
ação. Podemos observar como os elementos e articulações que
circulam sobre a “Comunidade” constituem um caldo de cultu-
ra e de vulnerabilidade para a constituição do mundo do crime
como movimento e como mundo social.
Vejamos agora outro fragmento, representado pela am-
pliação do nó “Mundo do Crime”, conforme os elementos e arti-
culações que circulam no proibido.

FIGURA 2 – Ampliação do nó “Mundo do Crime”

alternativa
econômica poder de fogo
rentável

narcotráfico poder simbólico


transnacional
Descendente

expansão Descendente
simbólica Tribunais do
Descendente
crime
Descendente Descendente
poder econômico
Descendente Descendente reconhecimento e
legitimação
Disciplina e
Descendente Descendente
proceder do
Comando Descendente

várias gerações Descendente


no crime redescrição no
Mundo do crime crime
Descendente
Descendente
Descendente
Descendente
sujeição criminal
guerra contra a Descendente Descendente
polícia crime como
caminhada, subjetivação no
início na infância crime
movimento

Descendente Proceder do Descendente


crime

Descendente
ingresso no crime Descendente efeitos vida Descendente
conquistar clandestina
sonhos perda de
Descendente encarceramento legitimidade e
Descendente
voz pública
Descendente Descendente Descendente

ser atravessado
pelo crime ruptura das redes
sociais legítimas

solidariedade isolamento social


ser revolucionário e político
confinada
1,1 (1x1)

Fonte: Elaboração da autora.

389
Este fragmento apresenta as articulações que circulam no
proibido como configuração do mundo do crime. Nele se des-
tacam os elementos de constituição da subjetividade no crime,
o processo de sujeição criminal e o conceito do proceder. Uma
vez que o crime atravessa a vida do sujeito, os efeitos da vida
clandestina, do encarceramento e da adesão às regras do proce-
der do crime determinam a redescrição do sujeito. Esse processo
sociopsicológico complexo é narrado no proibido.

Representar o crime como prática comunicacional

Antes de avançar, é preciso esclarecer que a palavra “re-


presentar” é utilizada neste texto não como uma forma de gerar
uma imagem da realidade, mas como uma prática comunicacio-
nal. Como disse anteriormente, a análise dos vídeos de exaltação
do crime publicados no YouTube e a construção do mapa situa-
cional permitiram conceber o funk proibido como um dispositivo
interacional no qual a comunicação do mundo do crime pôde ser
observada. A partir do mapeamento dos elementos situacionais
tendo como foco a comunicação como objeto, a prática comuni-
cacional de representar o crime no proibido configurou-se como
categoria analítica central.
A prática de representar o crime no proibido é complexa
e está organizada pela lógica do proceder, um código de ética e
de conduta que estabelece uma divisão entre quem está “com o
crime” e quem não está. Estar “com o crime” pode significar pra-
ticar o crime ou “correr junto”, o que implica colaborar, respeitar,
ser amigo, por oposição a ser inimigo. Assim, representar o crime

390 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SEGURANÇA

no proibido pode ser algo que o MC faz para “correr junto” com
o crime sem ser propriamente “do crime”, mas pode também
indicar que ele exerce a voz do crime através do proibido e com
isso faz valer o proceder – o que em certos aspectos inclui exaltar
ou fazer apologia do crime.
A prática de representar o crime no funk proibido abrange
processos tanto disposicionais como identitários. Ocorre sob a in-
fluência das regras que regem o mundo do crime e que se esta-
belecem por meio do jogo de linguagem no plano intersubjetivo
até se estenderem como prática coletiva. O ato de representar
configura uma confirmação do compromisso com o crime, o que
pode ocorrer de maneira mais indireta (ao demonstrar-lhe con-
sideração) ou direta (quando se convive com seus efeitos). Essa
ratificação da disposição para representar acaba tendo que ser
reforçada como uma estratégia de sobrevivência, que se atualiza
e se renova. Por isso, a disposição para representar o crime por
meio do funk proibido opera como uma presentificação no plano
social. E como tal, ela implica que seus atores expressem, por
meio desse gênero e de sua exposição no plano social, seu estado
de subjetivação no mundo do crime. Nesse estado complexo, em
que se tende a compreender que impera apenas uma condição
de “sujeição” ao crime organizado, é possível encontrar também
uma potência de transformação. Ela se deixa notar no processo
de constituição de um sujeito político que enuncia – ainda que o
faça a partir do mundo do crime.

391
CONSIDERAÇÕES FINAIS

O objetivo deste artigo foi apresentar contrastes entre a


política pública de segurança no Brasil, que é baseada no encar-
ceramento massivo, e as resistências encontradas na forma comu-
nicacional de representação do crime, por meio do funk proibido.
Para tanto, o texto expõe uma articulação teórica e metodológi-
ca entre a concepção de comunicação como processo tentativo e
probabilístico do brasileiro José Luiz Braga com a Análise Situacio-
nal – uma revisão da Grounded Theory proposta por Adele Clarke.
Para exemplificar a potência dessa proposta, apresentamos dois
fragmentos do mapa situacional construídos na tese de doutora-
do que analisou as vozes do crime no funk proibido.
Considero que a articulação foi produtiva, proporcionando
um corpo teórico e epistemológico importante para a compreen-
são da comunicação como processo. O funk proibido, perseguido
legalmente como crime de apologia e protegido pela Lei do Funk,
pôde ser compreendido com a noção de dispositivos interacionais
de Braga, significando um espaço-sistema ou arranjo no qual é
possível observar a comunicação como processo social vivo.
O crime, descrito no funk como uma estratégia de sobre-
vivência, pôde ser compreendido como um movimento e como
um mundo social e simbólico que atravessa territórios e vidas,
transformando-os, produzindo efeitos de isolamento que iniciam
processos de sujeição e redescrição do sujeito. A prática comu-
nicacional de representar o crime, encontrada como categoria
central da análise, é complexa à medida que implica processos
disposicionais e identitários. Ela opera no plano social como uma

392 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SEGURANÇA

presentificação para garantir a sobrevivência, seja do MC que


“corre junto” com o crime ou como forma de provar a disposição
regida pelo proceder do crime.
Para a análise, a discussão e a formulação de políticas pú-
blicas de segurança e combate à violência, a pesquisa relatada
aqui evidencia a centralidade dos aspectos simbólicos que garan-
tem ao mundo do crime sua expansão e confirmação. Enquan-
to a gestão pública tem que enfrentar as brutais consequências
do encarceramento, incluindo a violenta disputa de poder entre
os grupos organizados dentro dos presídios, do lado de fora a
representação do crime segue lógicas que as forças de controle
social dificilmente apreendem. Elas seguem fugidias pelas letras
do funk proibido e pelos complexos processos de sujeição das
comunidades situadas à margem da sociedade.

393
REFERÊNCIAS

ALESSI, G.; BENITES, A. Ao menos 31 presos morrem em Rorai-


ma em ação atribuída ao PCC. El País, 06 jan. de 2017. Dispo-
nível em <http://brasil.elpais.com/brasil/2017/01/06/politi-
ca/1483703548_179354.html>. Acesso em 12 fev. de 2017.

BIONDI, K. Junto e misturado. São Paulo: Terceiro Nome, 2010.

BIONDI, K.; MARQUES, A. Memória e historicidade em dois ‘coman-


dos’ prisionais. Lua Nova, n. 79, p. 39-70, 2010.

BRAGA, J. L. Dispositivos Interacionais. In: XX Encontro da Com-


pós (Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em
Comunicação), Porto Alegre, Universidade Federal do Rio Grande
do Sul, 2011.

BRAGA, J. L. Nem rara, nem ausente – tentativa. Revista MATRIZes,


vol. 4, n. 1, p. 65-81, 2010. Disponível em <http://www.revistas.
usp.br/matrizes/article/view/38276/41086>. Acesso em 30 out.
de 2014.

BRAGA, J. L. Perspectivas para um conhecimento comunicacional.


In: LOPES, M. I. V. (Org). Epistemologia da Comunicação no Brasil:
trajetórias autorreflexivas. São Paulo: ECA, USP, 2016, p. 123-141.
Disponível em <http://www.assibercom.org/download/Episte-
mologia_Ibercom_2015.pdf>. Acesso em 10 out. 2016.

394 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SEGURANÇA

BRAGA, J. L. Interagindo com Foucault – Os arranjos disposicio-


nais e a comunicação. Questões Transversais, vol. 6, nº 12, p. 81-
91, 2019. Disponível em <http://www.revistas.unisinos.br/index.
php/questoes/article/view/18081>. Acesso em 19 abr. 2019.

BRASIL. Ministério da Justiça. Departamento Penitenciário Na-


cional. Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias,
2014. Disponível em <https://www.justica.gov.br/noticias/mj-di-
vulgara-novo-relatorio-do-infopen-nesta-terca-feira/relatorio-
-depen-versao-web.pdf>. Acesso em 12 fev. de 2017.

CLARKE, A. Situational Analysis: Grounded Theory Mapping After


the Postmodern Turn. Symbolic Interaction, vol. 26, n. 4, p- 553-
576, 2003.

CLARKE, A. Situational Analysis: Grounded Theory After the Post-


modern Turn. California: Sage, 2005.

CRAIG, R. T. Communication theory as a field. Communication


Theory, vol. 9, p. 119-161, 1999.

CRAIG, R. T., MULLER, H. L. Theorizing communication: readings


across traditions. California: Sage Publications, 2007.

CRAIG, R. T. Pragmatism in the Field of Communication Theory.


Trabalho apresentado na Annual Conference of the International
Communication Association, Dresden (Alemanha), 2006.

395
CYMROT, D. Funk “Proibidão”: retrato da realidade ou apologia ao
crime? In: COSTA, M. C. C.; BLANCO, P. (Orgs). Liberdade de expres-
são e seus limites. São Paulo: ECA-USP, 2015.

ESSINGER, S. Batidão: uma história do funk. Rio de Janeiro: Re-


cord, 2005.

FILGUEIRAS, M. Pesquisador desvenda as lendas do funk. O Globo,


27 jul. 2014. Disponível em <https://oglobo.globo.com/cultura/
musica/pesquisador-desvenda-as-lendas-do-funk-13393757>.
Acesso em 7 abr. 2019.

FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA (FBSP). Anuário Bra-


sileiro de Segurança Pública. 10ª edição, 2016. Disponível em
<http://www.forumseguranca.org.br/storage/download//anua-
rio_site_18-11-2016-retificado.pdf>. Acesso em 02 jan. de 2017.

FELTRAN, G. de S. Sobre anjos e irmãos: cinquenta anos de ex-


pressão política do “crime” numa tradição musical das perife-
rias. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, n. 56, p. 43-72,
2013. Disponível em <http://www.revistas.usp.br/rieb/article/
view/68768>. Acesso em 05 dez. de 2016.

FERNÁNDEZ, L. M. A mídia do crime organizado: articulações me-


todológicas entre Análise Situacional e Jogos de Linguagem para
uma teoria fundamentada. Revista Fronteiras: Estudos Midiáticos,
vol. 7, n. 2, 2015(d). Disponível em: <http://revistas.unisinos.br/

396 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SEGURANÇA

index.php/fronteiras/article/view/fem.2015.172.04>. Acesso em
16 de set. de 2016.

FERNÁNDEZ, L. M. Análise Situacional: alternativa metodológica


para uma análise das vozes da integração nos comandos do cri-
me. Nova Perspectiva Sistêmica, nº 51, p. 83-101, 2015(a). Dispo-
nível em: <http://www.revistanps.com.br/index.php/nps/article/
view/176>. Acesso em 9 de dez. de 2016.

FERNÁNDEZ, L. M. La apología del crimen: la comunicación de los


comandos criminales en Brasil. Communication & Society, vol.
28, n. 3, p. 83-97, 2015(b). Disponível em <http://www.unav.
es/fcom/communication-society/es/resumen.php?art_id=540>.
Acesso em 09 dez. de 2016.

FERNÁNDEZ, L. M. PCC: Ações e Continuidades da Expressão da Vio-


lência Política no Mundo do Crime. Ação Midiática, n. 9. 2015(c).
Disponível em <http://revistas.ufpr.br/acaomidiatica/article/
view/40823>. Acesso em 9 dez. de 2016.

GLOBAL BURDEN OF ARMED VIOLENCE. The Geneva Declaration on


Armed Violence and Development. Geneva, 2015. Disponível em
<http://www.genevadeclaration.org/measurability/global-bur-
den-of-armed-violence/global-burden-of-armed-violence-2015.
html>. Acesso em 19 abr. 2019.

HERSCHMANN, M. O funk e o hip-hop invadem a cena. Rio de Ja-


neiro: Editora UFRJ. 2002.

397
MARQUES, A. “Liderança”, “proceder” e “igualdade”: uma etno-
grafia das relações políticas no Primeiro Comando da Capital. Et-
nográfica, vol. 14, n. 2, p. 311-335, 2010.

MATOS, H. A comunicação pública na perspectiva da teoria do re-


conhecimento. In: KUNSCH, M. M. K. (Org.) Comunicação pública,
sociedade e cidadania. São Caetano do Sul: Difusão Editora, 2011.
p. 39-59. (Série Pensamento e Prática, v. 4).

MATOS E NOBRE, H. H.; GIL, P. G. Habermas vai para a escola pú-


blica no Brasil: ação comunicatva e engajamento cívico. Revista
Latinoamericana de Ciencias de la Comunicación, v. 13, n. 25, p.
56-66, 2017.

MIZRAHI, M. A estética funk carioca: criação e conectividade em


Mr. Catra. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2014.

PAULO, P. P. O mundo do funk paulista – A academia do funk. G1


São Paulo, [s.d]. Disponível em <http://especiais.g1.globo.com/
sao-paulo/o-mundo-funk-paulista/a-academia-do-funk.html>.
Acesso em 7 abr. 2019

RIO DE JANEIRO (ESTADO). Lei nº 5543 de 22 de setembro de 2009.


Dispõe sobre o funk como movimento cultural e musical de cará-
ter popular. Disponível em <http://alerjln1.alerj.rj.gov.br/contlei.
nsf/f25571cac4a61011032564fe0052c89c/78ae3b67ef30f23a83
25763a00621702?OpenDocument>. Acesso em 11 set. de 2016.

398 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E SEGURANÇA

RIO DE JANEIRO (ESTADO). Lei nº 3410 de 29 de maio de 2000.


Dispõe sobre a realização de bailes tipo funk no território do Es-
tado do Rio de Janeiro e dá outras providências. Disponível em
<http://alerjln1.alerj.rj.gov.br/CONTLEI.NSF/e9589b9aabd9cac80
32564fe0065abb4/756831a75d413aa4032568ef005562d8?Ope
nDocument>. Acesso em 31 mar. de 2014.

RUSSIL, C. The road not taken: William James’s radical empiricism


and communication theory. The Communication Review, vol. 8, n.
3, p. 277-305, 2005.

RUSSIL, C. Toward a pragmatist theory of communication. Tese


doutoral. Pennsylvania State University, University Park, PA, 2004.

SALLA, F. As rebeliões nas prisões: novos significados a partir


da experiência brasileira. Sociologias, n. 16, p. 274-307, 2006.
Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_
arttext&pid=S1517-45222006000200011&lng=es&nrm=iso>.
Acesso em 30 jul. de 2014.

VIANNA, H. O funk como símbolo da violência carioca. In: VELHO,


G.; ALVITO, M. (Org.) Cidadania e Violência. São Paulo: Editora UFRJ
/ Editora FGV, 2006.

VIANNA, H. O mundo funk carioca. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Edi-


tor, 1988.

399
WAISELFISZ, J. J. Mapa da violência 2014: Os jovens do Brasil, 2014.
Disponível em <http://www.mapadaviolencia.org.br/pdf2014/
Mapa2014_JovensBrasil.pdf>. Acesso em 11 de nov. de 2014.

WILSON, D.; SPERBER, D. La teoría de la relevancia. Revista de In-


vestigación Linguística. Vol. VII, p. 233-282, 2004.

ZALUAR, Alba. Democratização inacabada: fracasso da segurança


pública. Estudos Avançados, vol. 21, n. 64, p. 31-49, 2007. Dispo-
nível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pi
d=S0103-40142007000300003>. Acesso em 30 de out. de 2015.
DOI: http://dx.doi.org/10.1590/S0103-40142007000300003.

400 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E INCLUSÃO
COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO
COMUNICAÇÃO PÚBLICA E INCLUSÃO

ATENÇÃO ÀS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA:


UMA ANÁLISE DAS PROPOSTAS DOS CANDIDATOS À
PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA EM 2018

Artur Roberto Roman1

RESUMO

O objetivo deste artigo é relatar o resultado de investiga-


ção em que se perguntou quais os candidatos à Presidência da
República no Brasil, nas eleições de 2018, apresentaram em seus
planos de governo propostas específicas para as pessoas com de-
ficiência, em conformidade com o que prevê a Constituição Fede-
ral (de 1988) e o Estatuto da Pessoa com Deficiência (de 2015).
Na sequência da investigação, fez-se um recorte dos partidos que
compunham as coligações de apoio aos candidatos que participa-
ram do segundo turno para se verificar se havia coerência entre
as propostas que defendiam e seus programas de governo, com
relação às pessoas com deficiência. Trata-se de uma pesquisa des-
critiva, documental, com análise de contéudo. O trabalho mostrou
que os candidatos Ciro Gomes, Fernando Haddad, Guilherme Bou-
los e Marina Silva apresentaram propostas relevantes, fundamen-
tadas e substanciais para as pessoas com deficiência. O candidato
Cabo Daciolo propôs apenas ações para alunos portadores de de-

1 Consultor em Comunicação Organizacional, Mestre em Linguística (UFPR),


Doutor em Ciências de Comunicação (ECA-USP) e Pós-Doutor em Sociologia
(Sorbonne-Paris). Aluno da Faculdade de Direito da Univali (SC). E-mail:
arturrobertoroman@gmail.com

403
ficiência. Geraldo Alckmin, José Maria Eymael e João Goulart Filho
limitaram-se a colocar em seus planos um parágrafo protocolar
e inexpressivo sobre o tema. Os candidatos Álvaro Dias, Henrique
Meirelles, Jair Bolsonaro, João Amoedo e Vera Lúcia ignoraram em
seus programas as pessoas com deficiência. O estudo estimulou
uma reflexão sobre as possibilidades de interface do Direito na
atuação do profissional de Relações Públicas e os desafios para os
que atuam na área da comunicação política. A importância desta
temática está vinculada à forma como a opinião pública é funda-
mentada para o exercício democrático do voto e para a formula-
ção de políticas públicas a favor das pessoas com deficiência.

PALAVRAS-CHAVE: pessoa com deficiência, eleição presidencial,


propostas de governo, comunicação política.

INTRODUÇÃO

A promulgação da Constituição de 1988 colocou o Brasil em


sintonia com as demandas civilizacionais contemporâneas em re-
lação aos direitos humanos e sociais. Nossa Carta Magna estabe-
leceu esses direitos e especificou os deveres e funções do Estado
para atendê-los e garanti-los. Em seu Art. 3o, IV, ela define como
um dos objetivos da nação “promover o bem de todos, sem pre-
conceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras for-
mas de discriminação” (CRFB, 1988). Nosso País, porém, por uma
série de razões históricas e políticas combinadas com uma distri-
buição de renda desigual e perversa, impede um grande contin-

404 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E INCLUSÃO

gente da população brasileira de ter acesso a direitos básicos es-


pecificados na Constituição. Dentre essa parcela mais distante do
exercício pleno da cidadania, cabe um destaque às pessoas com
deficiência, “a maior das minorias no Brasil”, tema deste artigo.
Segundo a mais recente pesquisa sobre o número de pes-
soas com deficiência, realizada em 2010 pelo Instituto Brasileiro
de Geografia e Estatística (IBGE, 2010), 45,6 milhões de pesso-
as no Brasil têm algum tipo de deficiência, o que corresponde
a 23,91% da população brasileira. A distância da sociedade em
relação às demandas dessa população passou a se evidenciar es-
pecialmente a partir das lutas promovidas pelas próprias pessoas
com deficiência. A Constituição Federal brasileira foi um marco
importante no avanço e, também, um referencial de proteção
por parte do Estado dos direitos humanos dessas pessoas. No
período de debates da Constituinte, os grupos de pessoas com
deficiência tiveram um protagonismo notável, conseguindo que
fossem estabelecidos na Constituição, em 12 artigos, seus direi-
tos em várias áreas, como educação, saúde, trabalho, transporte
e acessibilidade.
Mesmo se considerarmos essas conquistas e os avanços
nas últimas décadas, que podem ser comprovados por ações do
governo federal e de alguns exemplos municipais, em pratica-
mente todo o território nacional, grande parte das pessoas com
deficiência encontra-se em situação de segregação, distanciada
do poder público e com dificuldade de exercer sua cidadania ou
mesmo alguma atividade produtiva.
Em relação ao mercado de trabalho, apesar de crises polí-
ticas e econômicas que resultaram em desemprego massivo nos
últimos anos, o número de pessoas com deficiência empregadas

405
vem crescendo com regularidade, estimulado pela Lei 8.213/91
(BRASIL, 1991), que estabeleceu cotas para deficientes nas empre-
sas. Mesmo assim, segundo dados do Ministério do Trabalho, as
pessoas com deficiência representam menos de 1% dos vínculos
formais de trabalho (MINISTÉRIO DO TRABALHO, 2017). Uma pesqui-
sa da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH) realizada
em 2016 com gestores pode ajudar na reflexão sobre esse baixo
índice: 59% deles possuem alguma resistência quanto à contrata-
ção e 73% sentem a ausência de um programa de sensibilização
sobre inclusão (ASID, 2018), além do pouco interesse por parte das
empresas em cumprir a Lei de Cotas por falta de fiscalização.
Em 2018, a Constituição Brasileira completou 30 anos. Tam-
bém nesse ano, ocorreram eleições gerais no Brasil e tivemos, no
final de outubro, o segundo turno das eleições para a Presidência
da República. Esse marco comemorativo estimulou a discussão
apresentada neste artigo, cujo objetivo é relatar o resultado de
investigação em que se perguntou quais os candidatos à Presi-
dência da República no Brasil, nas eleições de 2018, apresenta-
ram em seus planos de governo propostas específicas para as
pessoas com deficiência, em conformidade com o que prevê a
Constituição Federal, de 1988, e o Estatuto da Pessoa com Defici-
ência, de 2015. Na sequência, fez-se um recorte dos partidos que
compunham as coligações de apoio aos candidatos no segundo
turno para verificar se havia coerência entre as propostas de go-
verno e seus programas com relação às pessoas com deficiência.
O programa do partido é documento oficial que comunica
ao cidadão as definições doutrinárias e seu direcionamento ideo-
lógico. Deve, portanto, guiar as propostas de governo que são os
documentos oficiais de cada candidato. São peças institucionais

406 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E INCLUSÃO

de comunicação dos partidos e dos candidatos e importantes fer-


ramentas discursivas para os processos interacionais com o cida-
dão e com o eleitor.
A expectativa era que as propostas de governo dos candi-
datos, bem como os programas dos partidos, contemplassem as
pessoas com deficiência, não apenas por sua significância esta-
tística, mas também por que essa parcela importante da popu-
lação demanda políticas públicas que lhe assegurem o exercício
da cidadania.

METODOLOGIA

Trata-se aqui de uma pesquisa descritiva, documental, com


análise de contéudo. Utilizamos como fontes documentais as
principais leis que têm por objeto as pessoas com deficiência, a
legislação sobre os partidos políticos, os programas dos partidos
políticos oficiais existentes no Brasil e, como corpus, as propos-
tas de governo dos 13 candidatos à Presidência da República em
2018, disponíveis nos sites oficiais das agremiações e do Tribunal
Superior Eleitoral (TSE, 2018).
Nos arquivos das propostas de governo e dos programas
dos partidos, foi feita busca da expressão “pessoa com deficiência”
ou equivalentes. Cada texto localizado foi então analisado para se
constatar se, de fato, referia-se a alguma proposta de implemen-
tação de ações ou políticas que envolvessem pessoas com defi-
ciência. Em caso positivo, o parágrafo foi destacado e analisado
no artigo, que apresenta também os candidatos que não fazem
qualquer referência em seu programa a pessoas com deficiência.

407
BREVE HISTÓRICO SOBRE A ATENÇÃO ÀS PESSOAS COM
DEFICIÊNCIA NO BRASIL

Em 2010, a Secretaria de Direitos Humanos editou o livro


“História do Movimento Político das Pessoas com Deficiência no
Brasil” (LANNA JÚNIOR, 2010) elaborado pela Secretaria Nacional de
Promoção dos Direitos da Pessoa com Deficiência. O texto remete ao
período do Brasil Colônia, quando o País não possuía grandes insti-
tuições de internação para pessoas com deficiência. Eram adotadas
práticas isoladas de exclusão: as pessoas com deficiência eram con-
finadas pela família, recolhidas às Santas Casas ou às prisões.
Já o Brasil Império foi marcado pela sociedade aristocrá-
tica, elitista, rural, escravocrata, avessa à assimilação das dife-
renças, principalmente as das pessoas com deficiência. Apenas
no Segundo Império, embora timidamente, se desenvolvem as
primeiras ações institucionais para atender esse grupo.
Em 1852, começa a funcionar o Hospício Dom Pedro II,
destinado privativamente para o tratamento de alienados. Nessa
época, a deficiência intelectual era considerada uma forma de
loucura e era tratada em hospícios. Em 1854, é instalado o Im-
perial Instituto dos Meninos Cegos (CABRAL, 2015a), para até 30
alunos, sendo dez admitidos gratuitamente, quando reconheci-
damente pobres, à custa do governo imperial. Em 1856, é criado
o Imperial Instituto dos Surdos-Mudos (CABRAL, 2015b) que ini-
cia suas atividades atendendo apenas três alunos, dois mantidos
pelo governo imperial e um com recursos próprios.
Ambos os Institutos foram criados com inspiração na expe-
riência francesa com ensino de pessoas com deficiência e tinham

408 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E INCLUSÃO

por objetivo aproximar o Império brasileiro das nações ditas civi-


lizadas da Europa − uma sociedade escravagista e segregadora,
cujos senhores negociavam gente como se fossem animais, que
acalmava sua consciência sustentando uma escola para atender
alguns poucos deficientes com educação de nível europeu.
A partir do Brasil República, a ação do Estado em relação
às pessoas com deficiência pouco se alterou. Mesmo com o sur-
gimento de instituições congêneres em outras regiões do Bra-
sil, era muito pequena a quantidade de pessoas atendidas em
relação à demanda nacional, além de contemplarem apenas a
cegueira e a surdez.
No contexto histórico de industrialização e urbanização
brasileiras, iniciado na década de 1920 e aprofundado nas dé-
cadas de 1940 e 1950, surgiram, por iniciativa da sociedade civil,
novas organizações voltadas para as pessoas com deficiência,
que passaram a atuar também na área da saúde, além da educa-
ção, e a atender outros tipos de deficiência.
Em meados da década de 1950, por exemplo, chegam ao
País modelos de reabilitação do pós-guerra, cuja finalidade era
proporcionar ao soldado lesado o retorno à vida em sociedade.
Embora no Brasil a principal causa da deficiência física não fosse
a guerra, os novos métodos foram incorporados nos centros bra-
sileiros de reabilitação criados na época para atender as pessoas
acometidas pelo grande surto de poliomielite.
Com a consolidação da urbanização e da industrialização
da sociedade (anos 60 a 80) e o êxito das campanhas nacionais
de vacinação, foi registrada a diminuição nos casos de sequelas
por poliomielite, ao mesmo tempo em que aumentaram os casos

409
de deficiência associados a causas violentas, principalmente aci-
dentes automobilísticos (carro e moto), de mergulho e ferimen-
tos ocasionados por armas de fogo.
O surgimento da reabilitação física suscitou o “modelo
médico” da deficiência, concepção segundo a qual o problema é
atribuído apenas ao indivíduo portador da deficiência. Essas difi-
culdades, de ordem pessoal, podem ser superadas pela interven-
ção dos especialistas, portadores do saber e principais protago-
nistas do tratamento. Cabe à pessoa com deficiência cumprir as
prescrições a ela determinadas. Segundo esse olhar, a deficiência
é vista como a causa primordial da desigualdade e das desvanta-
gens vivenciadas pelo indivíduo. O modelo médico ignora o papel
das estruturas sociais na opressão e exclusão das pessoas com
deficiência, bem como desconhece as articulações entre deficiên-
cia e fatores sociais, políticos e econômicos. O corpo do deficien-
te precisa ser “consertado” para se adaptar às possibilidades do
ambiente social do qual participa.
A promulgação da Constituição em 1988 significou uma
grande conquista para as pessoas com deficiência, especialmen-
te pela superação do “modelo médico” de deficiência substituído
pelo “modelo social”, adotado hoje, que considera a deficiência
como expressão da diversidade humana. O fator limitador é o
meio em que a pessoa vive e não a deficiência em si. Assim, cabe
à sociedade e ao Estado oferecerem condições, por meio de polí-
ticas públicas e legislação especial, para que a pessoa com defi-
ciência possa exercer sua cidadania, portadora que é de direitos
individuais que devem ser respeitados e atendidos.

410 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E INCLUSÃO

LEGISLAÇÃO SOBRE PESSOA COM DEFICIÊNCIA

A Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência


foi elaborada pela ONU com a participação de 192 países mem-
bros e de centenas de representantes da sociedade civil de todo o
mundo. O texto final foi aprovado em 2006. O Brasil é um dos 177
países que já ratificaram o documento e um dos 161 signatários2.
Ao aderir à Convenção, os países assumem o compromisso de res-
peitar as pessoas com deficiência não mais em razão apenas da le-
gislação interna, mas de uma exigência universal de solidariedade.
O Protocolo Facultativo à Convenção sobre os Direitos das Pes-
soas com Deficiência, que foi adotado simultaneamente com a Con-
venção, possibilita às pessoas ou entidades encaminhar ao Comitê
sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência da ONU denúncias de
violação das disposições da Convenção pelo Estado signatário.
Em 2008, o Brasil ratificou oficialmente os dois documen-
tos da ONU que passaram a ter valor de emenda constitucional,
em um esforço democrático para melhorar as condições de vida
dessa expressiva fração da população brasileira.

Estatuto da Pessoa com Deficiência – Lei 13.146/15

A Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência, tam-


bém conhecida como Estatuto da Pessoa com Deficiência (Lei
13.146/15), alinhou a legislação brasileira às determinações da
Convenção sobre os Direitos da Pessoa com Deficiência da ONU.

2 Disponível em <https://www.un.org/development/desa/disabilities/>.
Acesso em 23 set. 2018.

411
Seu objetivo, conforme se lê no primeiro artigo, é assegurar e
promover, em condições de igualdade, o exercício dos direitos,
da cidadania e das liberdades fundamentais da pessoa com defi-
ciência, visando à sua inclusão social.
A premissa dessa lei é que os impedimentos físicos, sen-
soriais, mentais e intelectuais das pessoas com deficiência não
são, na realidade, o que dificulta ou inviabiliza o exercício de seus
direitos. São, sim, barreiras produzidas socialmente que se mate-
rializam na organização do espaço público, padronizada adequa-
damente para uso das pessoas consideradas “normais”.

Pessoa com deficiência (PCD) e acessibilidade: conceitos

O Estatuto da Pessoa com Deficiência (Lei 13.146/15), em


seu artigo 2o, estabelece: “Considera-se pessoa com deficiência
aquela que tem impedimento de longo prazo de natureza física,
mental, intelectual ou sensorial, o qual, em interação com uma
ou mais barreiras, pode obstruir sua participação plena e efetiva
na sociedade em igualdade de condições com as demais pesso-
as”. (BRASIL, 2015).
As pessoas com deficiência já estavam categorizadas, com
algum detalhe, pelo Decreto 3.298/99 (BRASIL, 1999), que consi-
dera a pessoa com deficiência aquela que se enquadra em uma
das seguintes categorias: I – Deficiência física, II – Deficiência
auditiva, III – Deficiência visual, IV – Deficiência mental, V – De-
ficiência múltipla. O Estatuto da Pessoa com Deficiência, por sua
vez, especifica que a avaliação da deficiência, quando necessária,
será biopsicossocial, realizada por equipe multiprofissional e in-

412 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E INCLUSÃO

terdisciplinar e considerará os impedimentos nas funções e nas


estruturas do corpo; os fatores socioambientais, psicológicos e
pessoais; a limitação no desempenho de atividades; e a restrição
de participação.
No mesmo Estatuto, no Art. 8o, se lê:

É dever do Estado, da sociedade e da família assegurar à


pessoa com deficiência, com prioridade, a efetivação dos
direitos referentes à vida, à saúde, à sexualidade, à pa-
ternidade e à maternidade, à alimentação, à habitação,
à educação, à profissionalização, ao trabalho, à previdên-
cia social, à habilitação e à reabilitação, ao transporte, à
acessibilidade, à cultura, ao desporto, ao turismo, ao la-
zer, à informação, à comunicação, aos avanços científicos
e tecnológicos, à dignidade, ao respeito, à liberdade, à
convivência familiar e comunitária, entre outros direitos
decorrentes da Constituição Federal, da Convenção sobre
os Direitos das Pessoas com Deficiência e seu Protocolo
Facultativo e das leis e de outras normas que garantam
seu bem-estar pessoal, social e econômico. (BRASIL, 2015)

O Estatuto, portanto, traz um novo modelo de visão social


ao considerar que o próprio ambiente compromete a liberdade
da pessoa com deficiência de exercer sua cidadania. Nesse sen-
tido, seu Art. 53 consolida a acessibilidade como direito humano
fundamental, pois pode garantir à pessoa com deficiência viver
de forma autônoma e exercer seus direitos de cidadania e de par-
ticipação social. “Acessibilidade com autonomia” significa poder
utilizar e alcançar com autonomia, segurança e independência,
os espaços, mobiliários e os equipamentos urbanos, as edifica-

413
ções, os transportes públicos e os sistemas e meios de comunica-
ção de forma adequada. Para isso, é imprescindível a eliminação
de dificultadores que limitem ou impeçam a liberdade de movi-
mento, permitindo assim a circulação com total segurança − o
que trará dignidade e melhor qualidade de vida aos portadores
de deficiência. Para a eliminação dessas barreiras, são necessá-
rias estratégias políticas, jurídicas e sociais.

Cultura legisferante

O Brasil, por conta de uma cultura cartorial e bacharelesca,


é pródigo na produção de leis. Coerentemente com esse impulso
legisferante, temos uma farta produção de normativos para as
pessoas com deficiência. Não há, portanto, que reclamar da falta
de estatutos jurídicos. O reconhecimento de direitos específicos
das pessoas com deficiência parte da Constituição Federal e se
espraia por ampla coletânea de leis, decretos, resoluções, porta-
rias, ordens de serviço etc. Essa proliferação de textos legislativos,
porém, não tem resultado necessariamente em ampliação de di-
reitos e garantia da cidadania para as pessoas com deficiência. É
preciso sim cumprir as leis e também discutir melhor o alcance
das decisões legislativas.
A pessoa com deficiência, além de sua condição diferencia-
da, está ainda submetida à histórica distância social e econômica
que caracteriza a sociedade brasileira por conta da concentração
de renda. Ou seja, se a pessoa com deficiência vive em situação
de vulnerabilidade social, maiores serãos suas dificuldades e seu
desfavorecimento em relação à atenção do Estado. Essa diferen-

414 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E INCLUSÃO

ciação histórica que se faz às classes sociais no Brasil acaba re-


percutindo nas políticas públicas e na promulgação de regula-
mentos legais.
A Lei 8.989/95, por exemplo, que prevê desconto de até 30%
nos impostos para aquisição de veículos por parte de pessoas com
deficiência, de inegável repercussão social, não esconde um cer-
to casuísmo em sua formulação (BRASIL, 1995a). Esse normativo
legal, que favorece quem pode adquirir um carro e traz bons re-
sultados às montadoras de veículos, não alcança, porém, os ca-
deirantes e deficientes visuais que poderiam, por exemplo, ter sua
mobilidade muito facilitada com melhorias nas calçadas das ruas
das cidades, certamente com custo muito inferior à renúncia fiscal.

PROGRAMA DO PARTIDO E PROPOSTAS DE GOVERNO

Programa do partido

A Lei nº 9.096/95, conhecida como Lei dos Partidos Políti-


cos, estabelece que, para se criar um partido, é necessário, dentre
outras exigências, a apresentação do estatuto e programa publi-
cados no Diário Oficial quando da entrada do pedido de registro
no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O estatuto estabelece as re-
gras internas de funcionamento do partido, como os direitos e
deveres dos seus membros, enquanto o programa apresenta o
posicionamento político e ideológico do partido, incluindo suas
diretrizes doutrinárias (BRASIL, 1995b).
O TSE, porém, disponibiliza, em seu site, apenas os estatu-
tos do partido, além das propostas de governo dos candidatos à

415
Presidência da República. Tampouco se encontra o texto integral
do programa no site dos partidos, com raras exceções. O conteú-
do normalmente está diluído em pequenos textos ou vídeos. Lo-
calizamos uma publicação do Senado Federal (2014), intitulada
“Partidos políticos brasileiros: programas e diretrizes doutriná-
rias”, em que apresenta os programas dos 32 partidos existentes
naquele ano (35 partidos em 2018)3.

Propostas de governo

A Lei 9.504/97 estabelece que os partidos e coligações soli-


citem à Justiça Eleitoral o registro de seus candidatos até o dia 15
de agosto do ano em que se realizarem as eleições. O pedido deve
estar acompanhado das propostas defendidas pelo candidato a
prefeito, a governador e a presidente da República (BRASIL, 1997).
A legislação utiliza a expressão “propostas” para o que a
imprensa, a literatura técnica e mesmo os candidatos designam,
indistintamente, como “programa de governo”, “plano de gover-
no”, “plataforma de governo”, todos se referindo a uma espécie
de carta de intenções do candidato para futura e eventual aplica-
ção e execução, caso eleito.
A lei não prevê sanção para o caso de o candidato, se eleito,
não cumprir o que propunha no documento apresentado no pe-
dido de registro de sua candidatura. Cabe às instituições demo-
cráticas e representativas da sociedade estimular a opinião pú-
blica, via imprensa e redes sociais, a buscar o conhecimento das

3 Levantamento disponível em <http://www.tse.jus.br/partidos/partidos-


politicos/registrados-no-tse>. Acesso em 25 set. 2018.

416 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E INCLUSÃO

propostas de governo dos candidatos tão logo sejam divulgadas


e promover a crítica desses documentos por parte dos eleitores.

AS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA NAS PROPOSTAS DE GOVERNO

Como é próprio do jogo democrático, os partidos políticos


fazem articulações e parcerias entre si. Essas coligações deveriam
aproximar partidos com alguma base de identificação programáti-
ca e que uniriam forças nas eleições e durante o período legislativo.
Sabe-se, porém, que essas coligações, em muitos casos, atropelam
princípios doutrinários e ideológicos pois são feitas para atender
projetos eleitoreiros imediatos, articulados por grupos econômi-
cos que financiam os partidos e que querem ter seus interesses
defendidos e garantidos (se não no Executivo, no Congresso e As-
sembleias). Na disputa para a Presidência da República em 2018,
concorreram 13 candidatos organizados em coligações com 29
partidos. Dos 35 partidos existentes, portanto, seis não lançaram
candidato à Presidência, tampouco participaram de coligação.

Candidatos com propostas para pessoas com deficiência

A seguir, em ordem alfabética, os oito candidatos que con-


templaram em suas propostas de governo as pessoas com defici-
ência e os excertos que trazem essa referência4.

4 O número de página que consta dos excertos se refere ao exemplar da


proposta de governo encontrado no site do TSE em arquivo PDF. Disponível
em < http://www.tse.jus.br/eleicoes/eleicoes-2018/propostas-de-candidatos>.
Acesso em 12 out. 2018.

417
1) Candidato a Presidente: Cabo Daciolo (Patriota); Vice: Suelene
Balduíno Nascimento (Patriota). Partidos da Coligação: Patriota.

Proposta de governo: Plano de Nação para a Colônia Brasileira

No tocante à acessibilidade para alunos portadores de


deficiência, o índice é de 27% (39.076 escolas) apenas
de instituições com acessibilidade aos alunos com ne-
cessidades especiais. O índice de escolas com banheiros
com acessibilidade aos alunos portadores de deficiência
é de 37% (53.548 escolas), sendo um índice muito baixo.
Vamos trabalhar para que, no segundo ano de governo,
esse índice chegue a 50% das escolas, tendo como meta a
marca de 100% das escolas brasileiras possuindo banhei-
ros com acessibilidade aos alunos portadores de deficiên-
cia até 2022. (TSE, 2018, p.4 e 5, grifo nosso).

Vamos melhorar as técnicas de gestão de pessoas aplica-


das aos professores, assegurar aos alunos condições mais
favoráveis ao aprendizado e em especial, aos alunos por-
tadores de deficiências físicas, mentais e sensoriais. Essas
ações se darão por meio de programas de parcerias com
os governos estaduais e municipais voltados exclusiva-
mente para a melhoria das estruturas físicas das escolas,
aumento do número de bibliotecas, salas de leitura, la-
boratórios de informática e de ciências; para compra de
melhores materiais didáticos e para ampliação da dispo-
nibilidade do transporte público escolar aos estudantes
que vivem em áreas rurais. (TSE, 2018, p.6, grifo nosso).

418 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E INCLUSÃO

2) Candidato a Presidente: Ciro Gomes (PDT); Vice: Kátia Abreu


(PDT). Partidos da Coligação: PDT, Avante.

Proposta de governo: Diretrizes para uma Estratégia Nacional de


Desenvolvimento para o Brasil

10 RESPEITAR A TODOS OS BRASILEIROS


Em um país pobre e desigual como o nosso, ganham im-
portância as práticas afirmativas dirigidas a grupos que,
por serem infelizmente discriminados na sociedade, pre-
cisam de políticas específicas que reduzam essa discri-
minação e as decorrentes de desigualdades econômica,
social e no acesso a oportunidades. Os grupos que serão
contemplados nas nossas políticas afirmativas são as mu-
lheres, os negros, as comunidades LGBTI e as pessoas com
deficiências. (TSE, 2018, p.45, grifo nosso).

10.10 RESPEITO ÀS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA:


Também precisamos eliminar a discriminação e promover
a acessibilidade e mobilidade das pessoas com deficiên-
cia. Assim, um conjunto de ações se faz necessário:
• Garantir a implementação da LBI - Lei Brasileira de
Inclusão;
• Construção de ações para consolidar a inserção das
pessoas com deficiência no mercado de trabalho;
• Promoção de ações de assistência integral à saúde;
• Eliminação de restrições de acessibilidade e mobili-
dade em geral;

419
• Integração das pessoas com deficiência às atividades
de ensino direcionadas aos demais grupos sociais em
todas as escolas;
• Criação de Centros de Referência nas principais ma-
crorregiões para reabilitação e tratamento de Pessoas
com Deficiência;
• Criação de uma Rede Federal (ou fomentar isso atra-
vés dos Institutos Federais de Educação, Ciência e
Tecnologia ou Universidades Federais) de formação e
treinamento de professores e profissionais que aten-
dam, nas escolas públicas e privadas, crianças e jo-
vens com deficiência, aí incluídos em especial o TEA
(transtorno do espectro autista), Síndrome de Down,
Braille e Língua Brasileira de Sinais;
• Eliminação da impossibilidade de retorno ao exercício
de atividade remunerada por parte de pessoas que
recebam auxílios vinculados à ocorrência de alguma
deficiência, mais especificamente o Benefício de Pres-
tação Continuada. (TSE, 2018, p.52, grifo nosso).

3) Candidato a Presidente: Fernando Haddad (PT); Vice: Manuela


D’Ávila (PCdoB). Partidos da coligação: PT, PCdoB, PROS.

Proposta de governo: O povo feliz de novo – Plano de Governo

2.7 PROMOVER A INCLUSÃO DAS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA


O governo Haddad terá compromisso com a realização de
políticas públicas para o pleno desenvolvimento e a auto-
nomia das pessoas com deficiência. Para isso, o governo

420 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E INCLUSÃO

Haddad retomará o Plano Viver Sem Limites que prevê o


atendimento das pessoas com deficiência desde o nasci-
mento, a inclusão educacional, a formação de educadores,
a oferta do atendimento educacional especializado e a ar-
ticulação intersetorial das políticas públicas para as pes-
soas com deficiência. Serão fortalecidos os investimentos
em pesquisa, produção e acesso de pessoas com deficiên-
cia a tecnologias assistivas. Ademais, serão garantidas as
ações integradas para o acesso às políticas de assistên-
cia social, de atenção à saúde, de habitação, de formação
profissional e acesso ao emprego e promovidas ações de
acessibilidade arquitetônica, urbanística, nos transportes,
nas comunicações, atitudinais e tecnológicas. O governo
Haddad adotará todas as medidas apropriadas para elimi-
nar a discriminação baseada em deficiência e ampliará a
fiscalização para cumprimento pelas empresas das cotas
para esse grupo social, com a participação efetiva das pes-
soas com deficiência e observando a diversidade que as
compõem. (TSE, 2018, p. 22, grifo nosso).

3.2 SAÚDE COMO DIREITO FUNDAMENTAL


Além da saúde do trabalhador, o governo Haddad vai pro-
duzir políticas intersetoriais, por exemplo, para reduzir os
acidentes de trânsito e todas as formas de violência, com
a participação de diversas áreas do governo, para garantir
atenção especial e integrada às populações vulneráveis.
Serão implantadas ações voltadas para a saúde das mu-
lheres, pessoas negras, LGBTI+, idosos, crianças, juventu-
des, pessoas com deficiência, população em situação de
rua, população privada de liberdade, imigrantes, refugia-
dos e povos do campo, das águas e das florestas. (TSE,
2018, p.29, grifo nosso).

421
O governo Haddad retomará e ampliará programas de am-
plo reconhecimento popular e de especialistas, como o já
citado Programa Mais Médicos e a Estratégia de Saúde da
Família, o SAMU, o Farmácia Popular, Brasil Sorridente, a
Rede de Atenção Psicossocial (com os CAPS5 III e Residências
Terapêuticas) e a Rede de Atenção às Pessoas com Deficiên-
cia, entre outros, que estão sendo prejudicados e desconti-
nuados pelo governo golpista. (TSE, 2018, p.29, grifo nosso).

3.3 SUPERAÇÃO DA POBREZA E ASSISTENCIA SOCIAL


O governo criará o Programa Emergencial de Emprego
(ver capítulo seguinte) e restabelecerá as bases que estru-
turaram o SUAS6 nos marcos de um novo pacto federati-
vo, com revisão da partilha de recursos e responsabilida-
des dos entes federados. Essa mudança visa à expansão
qualificada dos benefícios e serviços do SUAS em todos
os territórios vulneráveis do Brasil, considerando as parti-
cularidades regionais e territoriais do país, fortalecendo a
proteção social às pessoas idosas, crianças e adolescentes,
jovens, mulheres, pessoas com deficiência, povos tradicio-
nais e indígenas, população em situação de rua, migran-
tes, entre outros. (TSE, 2018, p.30, grifo nosso).

3.6 AGENDA DE FUTURO PARA O ESPORTE BRASILEIRO


O governo Haddad investirá em todas as práticas esportivas
[…] O Plano Brasil Medalhas será relançado e aperfeiçoado,
bem como os investimentos na Rede Nacional de Treina-

5 Os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) são unidades especializadas em


saúde mental para tratamento e reinserção social de pessoas com transtorno
mental grave e persistente.
6 Sistema Único de Assistência Social (SUAS) é o modelo de gestão utilizado no
Brasil para operacionalizar as ações de assistência social.

422 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E INCLUSÃO

mento. Serão retomados os investimentos na infraestrutura


de equipamentos esportivos, sobretudo reforma e requali-
ficação de quadras nas escolas. O foco será nos equipamen-
tos voltados às juventudes e na acessibilidade para pessoas
idosas e com deficiência. (TSE, 2018, p.37, grifo nosso).

5.3.4 MOBILIDADE E ACESSIBILIDADE URBANA: UMA CIDADE


ÁGIL QUE VALORIZA A VIDA
A diretriz estratégica é o fomento ao transporte público
acessível e inclusivo para pessoas com deficiência e ido-
sos, que dê conforto e segurança aos passageiros e que
já antecipe o fato de, nos próximos 55 anos, haver mais
idosos do que crianças no Brasil. Além disso, o governo
Haddad municipalizará a CIDE combustível7 para assegu-
rar a redução das tarifas, expansão das gratuidades e do
transporte público. (TSE, 2018, p. 54 e 55, grifo nosso).

4) Candidato a presidente: Geraldo Alckmin (PSDB); Vice: Ana


Amélia (PP). Partidos da coligação: PSDB, PP, PTB, PSD, SD, PRB,
DEM, PPS, PR.

Proposta de governo: Diretrizes gerais 2018

Vamos zelar pelo cumprimento dos dispositivos da Lei


Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência e promo-
ver sua regulamentação. (TSE, 2018, p.11, grifo nosso).

7 A Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (CIDE cumbustível)


é um tributo federal incidente sobre a importação e a comercialização de
combustíveis.

423
5) Candidato a presidente: Guilherme Boulos (PSOL); Vice: Sônia
Guajajara (PSOL). Partidos da coligação: PSOL, PCB.

Proposta de governo: Vamos sem medo de mudar o Brasil

Outro ponto relevante reside na promoção de diversidade


e democratização nos quadros do Judiciário. Para tanto,
é preciso que sejam adotadas ações afirmativas capazes
de incluir na magistratura e nos quadros de servidores
públicos da justiça pobres, mulheres, negros, indígenas e
pessoas com deficiência. Essas ações afirmativas devem
ser gradativas de forma a incluir, na mesma proporção po-
pulacional, tais perfis. (TSE, 2018, p.32, grifo nosso).

7. Ampliar os critérios de acesso ao Benefício de Prestação


Continuada (BPC) para pessoas idosas e pessoas com de-
ficiência, de modo a: a) aumentar o critério per capita de
1⁄4 para 1⁄2 salário mínimo (como ademais até a justiça
quando acionada já vem admitindo); b) excluir do cálculo
da renda per capita, para concessão do BPC, os benefícios
previdenciários de até um salário mínimo; c) reduzir a
idade de acesso de 65 para 60 anos, em conformidade
com o Estatuto do Idoso.
8. Assegurar os direitos sociais da pessoa idosa e pessoas
com deficiência, tendo em vista criar condições de promo-
ver sua autonomia e fortalecer as relações sociais e fami-
liares, de modo a evitar todas as formas de discriminação
a que são muitas vezes submetidos. (TSE, 2018, p.155,
grifo nosso).

424 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E INCLUSÃO

XIV - PESSOAS COM DEFICIÊNCIA - POR UMA POLÍTICA PÚBLI-


CA INCLUSIVA
O congelamento dos gastos sociais por 20 anos, a preca-
rização das relações de trabalho, a tentativa de reforma
da previdência, revisão do benefício de prestação conti-
nuada, auxílios-doença e aposentadorias por invalidez
afetam diretamente os trabalhadores e trabalhadoras em
geral e as pessoas com deficiência em particular.
Com essa política, a reabilitação, a inclusão, a acessibili-
dade, a mobilidade, o direito ao emprego e renda e todos
os demais direitos desses 45 milhões de brasileiros fi-
cam ainda mais comprometidos. É preciso desmistificar a
questão do aumento dos gastos sempre como problemas.
Benefícios são investimentos, até por se tratar de uma dí-
vida social com uma classe historicamente marginalizada.
Investir em educação, saúde, emprego e renda, seguran-
ça e seguridade social, é a certeza de uma sociedade que
será, ciclicamente, criativa e altamente produtiva.
Por meio da dinâmica proposta pelo Sistema Nacional de
Democracia Direta, com a participação direta e popular,
acreditamos que será mais fácil percorrer as longas ques-
tões legislativas para a solidificação dos direitos adquiri-
dos e, também, ampliação destes. Podemos citar como
exemplos o monitoramento independente da Convenção
Internacional sobre os Direitos da Pessoa com Deficiên-
cia, a regulamentação da LBI – Lei Brasileira de Inclusão,
a aprovação de legislação infraconstitucional para conso-
lidação da Convenção Internacional, como tópicos de ur-
gente tomada de posição.
Assim, para a efetivação de políticas públicas consonantes
com as mais recentes tendências mundiais, nosso gover-

425
no ressignificará a SECRETARIA NACIONAL DA PESSOA COM
DEFICIÊNCIA para uma gestão popular, democrática, trans-
versal e inclusiva.
Essa alternativa de gestão tem o intuito de garantir di-
reitos, inclusão, participação social e o pleno exercício da
cidadania, propondo um novo sentido para as assim de-
nominadas “deficiências”.
A perspectiva adotada busca romper com o pressuposto
da “normalização” e da “adaptação” do indivíduo à so-
ciedade, e introduz o conceito das deficiências como di-
ferenças, colocando a questão no âmbito da afirmação de
direitos. Objetiva o desmonte dos mecanismos históricos
da exclusão, a garantia de direitos pessoais e sociais, des-
tacando tanto as necessidades individuais quanto à reor-
ganização da sociedade para derrubar as barreiras histó-
rica e culturalmente construídas.
A Secretaria Nacional da Pessoa com Deficiência irá:
1. Formular, implementar e coordenar a política para o
segmento (gestão e cogestão);
2. Atuar de maneira transversal, estimulando, orientan-
do e apoiando conceitual e tecnicamente o conjunto do
governo no processo de incorporação do recorte deficiên-
cia nas políticas;
3. Desconstruir gradativamente o “modelo médico”, que
considera a deficiência como doença, reproduzindo práti-
cas e políticas assistencialistas, substituindo-o pelo “mo-
delo biopsicossocial”, que compreende a deficiência como
expressão da diversidade humana e a concebe como a in-
teração do indivíduo com as barreiras ambientais;
4. Dialogar com o segmento e atores sociais (institui-
ções, lideranças, etc.), assim como estar em sintonia com
as demais políticas nacionais e internacionais de inclusão

426 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E INCLUSÃO

e participação social, na perspectiva da afirmação de di-


reitos e do empoderamento das pessoas com deficiência;
5. Desenvolver ações de informação, sensibilização e ca-
pacitação para servidores, articuladas com todas as áreas
do governo, de forma a promover mudanças atitudinais e
manter pessoal qualificado para o atendimento de pesso-
as com deficiência;
6. Alterar paradigmas e concepções na administração
pública, gestão e cogestão, subvertendo a tradição segre-
gadora da maioria das ações voltadas ao segmento;
7. Disseminar, de forma transversal, a concepção inclusi-
va em todas as áreas da administração pública, visando à
implementação de projetos e programas que permitam o
acesso das pessoas com deficiência;
8. Promover a articulação entre o Estado e entidades não
governamentais de atenção às pessoas com deficiência,
conveniadas quando necessário, objetivando o caráter in-
clusivo em todas as ações voltadas ao segmento;
9. Incentivar a pesquisa e o desenvolvimento de projetos
de melhoria da qualidade de vida das pessoas com defi-
ciências, no que diz respeito às acessibilidades arquitetô-
nica, tecnológicas, de comunicação, de transporte, entre
outras.;
10. Destinar recursos em ações que garantam o acesso
das pessoas com deficiência a todas as políticas voltadas
aos brasileiros. O cargo de titular dessa unidade deverá
ser ocupado por uma pessoa com deficiência, e o corpo
técnico por profissionais com militância e acúmulo em
políticas inclusivas de Estado. (TSE, 2018, p.166-169, grifo
nosso).

427
6) Candidato a Presidente: José Maria Eymael (DC); Vice: Hélvio
Costa (DC). Partidos da coligação: DC.

Proposta de governo: Diretrizes Gerais de Governo para construir


um novo e melhor Brasil

INCLUSÃO DAS PESSOAS COM NECESSIDADES ESPECIAIS


19. Propomos imediatas e necessárias providências para
assegurar ao deficiente o pleno exercício de seus direitos
de cidadão. (TSE, 2018, p.7, grifo nosso).

7) Candidata a Presidente: Marina Silva (Rede); Vice: Eduardo Jor-


ge (PV). Partidos da coligação: Rede, PV.

Proposta de governo: Brasil justo, ético, próspero e sustentável

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA PLENA


Em nosso governo, a inclusão de grupos historicamente
excluídos e o combate à qualquer forma de discriminação
será diretriz transversal, presente em todas as políticas
públicas, a ser implementada em especial por meio de
projetos de promoção de equidade. Definiremos políticas
específicas para superar as desigualdades que atingem
mulheres, população negra, povos e comunidades tradi-
cionais, pessoas com deficiência, LGBTI, juventudes e ido-
sos. (TSE, 2018, p.22, grifo nosso).

428 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E INCLUSÃO

Pessoas com deficiência


O paradigma da “inclusão”, que substituiu a ideia de “in-
tegração”, atribui maiores responsabilidades à sociedade
e ao Estado. As barreiras cotidianas a derrubar são de na-
tureza arquitetônica, funcional e de mobilidade, além das
mudanças de percepção da sociedade sobre o papel, as
necessidades e os direitos das pessoas com deficiências.
Para a garantia desses direitos, criaremos e fortaleceremos
políticas de promoção da autonomia e condições necessá-
rias para que sejam protagonistas de suas próprias vidas.
As estratégias serão de fortalecer sua cidadania, comple-
mentarmente ao seu acesso ao mercado de trabalho, às
atividades culturais e esportivas, à participação política e
ao acesso à educação e à saúde. Ampliaremos a fiscali-
zação sobre o cumprimento da lei de cotas e a oferta de
cursos de capacitação profissional para os candidatos às
vagas inclusivas. No campo da Educação, fortaleceremos
a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva
da Educação Inclusiva, ampliando e qualificando o debate
sobre sua implementação com todo os envolvidos e in-
teressados – educadores, gestores, comunidade escolar e
famílias. (TSE, 2018, p. 23 e 24, grifo nosso).

8) Candidato a Presidente: João Goulart Filho (PPL); Vice: Léo Al-


ves (PPL). Partidos da coligação: PPL.

Proposta de governo: Partido Pátria Livre - Programa de Governo


de João Goulart Filho/Léo da Silva Alves (2018-2022)

429
Nossa política será absolutamente intolerante com qual-
quer tipo de discriminação. Combateremos todas as for-
mas de preconceito e discriminação – econômico-social,
racial, étnica, religiosa, etária, regional, sexual, por defici-
ência – que dividem o povo e dificultam a sua união em
torno das causas nacionais. (TSE, 2018, p.11, grifo nosso).

9) Candidatos que não apresentam propostas para PCD

Nas propostas de governo dos seguintes candidatos a presidente


não há qualquer referência a pessoas com deficiência.

• Álvaro Dias (Podemos); Vice: Paulo Rabello de Castro


(PSC). Partidos da coligação: Podemos, PSC, PRP, PTC.
Proposta de governo: Plano de Metas 19 + 1 – Pela re-
fundação da República.
• Henrique Meirelles (MDB); Vice: Germano Rigotto (MDB).
Partidos da coligação: MDB, PHS. Proposta de governo:
Pacto pela confiança! Programa de Governo da Coliga-
ção “Essa é a solução”.
• Jair Bolsonaro (PSL); Vice: Hamilton Mourão (PRTB).
Partidos da coligação: PSL, PRTB. Proposta de governo:
O caminho da prosperidade - Proposta de Plano de Go-
verno.
• João Amoedo (Novo); Vice: Christian Lohbauer (Novo).
Sem coligação. Proposta de governo: Mais oportunida-
des. Menos privilégios.

430 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E INCLUSÃO

• Vera Lúcia (PSTU) ; Vice: Hertz Dias (PSTU). Sem coliga-


ção: PSTU. Proposta de governo: 16 pontos de um pro-
grama socialista para o Brasil contra a crise capitalista.

AS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA NOS PROGRAMAS DOS


PARTIDOS

Para esta análise, o recorte selecionou os partidos que for-


mam as duas coligações cujos candidatos participaram do segundo
turno das eleições de 2018: coligação O Brasil feliz de novo! ( PT,
PCdoB e PROS); e coligação O caminho da prosperidade (PSL e PRTB).
O objetivo foi verificar a coerência entre as diretrizes pro-
gramáticas e ideológicas expressas no programa do partido e as
propostas de governo no que tange às pessoas com deficiência.
Apenas o PCdoB e o PRTB têm um link específico, em seus sites,
para o texto do programa do partido. No site dos demais parti-
dos, encontramos referências parciais ao programa diluídas em
pequenos textos e vídeos.

Coligação O Brasil feliz de novo!


• Programa do partido PT
Alusão indireta às pessoas com deficiência aparece nas Re-
soluções aprovadas no 6o Congresso Nacional do PT que ocorreu
em São Paulo em julho de 2017, publicadas pelo Diretório Nacio-
nal do Partido dos Trabalhadores (PT, 2017).

431
Resoluções:
Garantir direitos por meio das Políticas Sociais
l) Combater todas as formas de discriminação e violência
contra os cidadãos. Defender incondicionalmente os Direi-
tos Humanos e os direitos civis. (PT, 2017, p. 20).

De inspiração antineoliberal, nossos governos implemen-


taram não apenas políticas públicas de inclusão social e
transferência de renda, mas principalmente de ampliação
de direitos. (PT, 2017, p. 24).

Esses excertos confirmam a coerência do programa do par-


tido com as propostas de governo com relação às pessoas com
deficiência.

• Programa do partido PCdoB


O Programa do PCdoB explicita com clareza sua definição
ideológica e proposta doutrinária:

O objetivo essencial deste Programa é a transição do capi-


talismo ao socialismo nas condições do Brasil e do mundo
contemporâneo. O socialismo tem como propósito pri-
mordial resolver a contradição essencial do capitalismo:
produção cada vez mais social em conflito crescente com
a forma de apropriação privada da renda e da riqueza.
Como sociedade superior, deve distribuir os bens e a ri-
queza conforme o resultado da quantidade e qualidade
do trabalho realizado. (PCdoB, 2018).

432 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E INCLUSÃO

O Programa do partido faz referência direta às pessoas com


deficiência:

O Estado combaterá as opressões e discriminações que


desrespeitem a liberdade religiosa, e a livre orientação
sexual. Garantia dos direitos de crianças, adolescentes, jo-
vens e idosos, e políticas de acessibilidade universal para
as pessoas com deficiência. Tratamento das tensões e di-
ferenças no âmbito do povo sempre em prol do fortaleci-
mento da unidade da Nação. (PCDOB, 2018, grifo nosso).

O programa do PCdoB alinha-se coerentemente com as


propostas de governo da coligação da qual faz parte.

• Programa do partido PROS (Partido Republicano da Ordem Social)


Lê-se na aba “Quem somos” do site oficial do PROS: “A prin-
cipal proposta do partido é a redução de impostos, pois atualmen-
te as altas cargas tributárias têm atrasado o desenvolvimento do
Brasil e causado uma grande injustiça social, pois as pessoas com
menos renda, proporcionalmente, são as que mais pagam impos-
tos e consequentemente são as mais prejudicadas.” (PROS, 2018).
O programa do PROS está disponível em um vídeo com o tí-
tulo “Programa Nacional do PROS”, em que um dos membros do
diretório do Partido conclama o espectador: “Vamos reagir para
respeitar e incluir os 45 milhões de brasileiros com deficiência”.
(PROS, 2018a).
Não há incompatibilidade entre o programa do partido
PROS e as propostas de governo da coligação da qual faz parte
com relação às pessoas com deficiência, mesmo porque o pro-

433
grama, como apresentado no vídeo, é superficial e generalista,
dificultando qualquer categorização ideológica do partido.

Coligação O caminho da prosperidade


• Programa do partido PSL (Partido Social Liberal)
Como já apontado, as propostas de governo desta coliga-
ção não fazem qualquer referência às pessoas com deficiência.
A leitura do programa de governo do PSL mostra coerência com
essa exclusão, ao enfatizar a necessidade de reduzir o tamanho
do Estado e, por consequência, os investimentos em políticas pú-
blicas afirmativas.
Na aba “Sobre”, do site oficial do partido, no tópico “Em
que acreditamos” (PSL, 2018), lê-se, como tarefas do partido:
“combate aos privilégios decorrentes de quotas que resultem na
divisão do povo, seja em função de gênero, opção sexual, cor,
raça, credo.” E continua:

Defendemos a focalização dos programas sociais para as


pessoas em condição de maior vulnerabilidade. O Estado
deve ampliar a oportunidade de acesso à educação e saú-
de de qualidade para os mais pobres, concentrando-se
no financiamento dos serviços em parceria com a gestão
da iniciativa privada, com a integração dos indivíduos ao
mercado, preservando o poder de decisão nas mãos dos
cidadãos através da adoção de Vale-Educação (voucher),
Escolas Comunitárias (charter-schools) e programas con-
gêneres. Devemos combater o clientelismo, diminuindo a
interferência de políticos e burocratas e fazendo com que
os próprios indivíduos sejam protagonistas de sua histó-
ria. (PSL, 2008, grifo nosso).

434 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E INCLUSÃO

Ao propor “parceria com a gestão da iniciativa privada”


e conclamar os indivíduos ao “protagonismo”, o programa, de
inspiração explicitamente liberal, quer afastar o Estado brasileiro
de suas funções constitucionais. O programa exalta os valores do
liberalismo econômico e transfere, coerentemente, para o indiví-
duo, a responsabilidade por suas dificuldades de ordem econô-
mica e por suas carências sociais.

• Programa do partido PRTB (Partido Renovador Trabalhista Bra-


sileiro)
O programa do PRTB tem apenas uma página e meia e
não faz qualquer referência às pessoas com deficiência. O texto é
superficial, generalista e inespecífico, não sendo possível extrair
com objetividade a filiação ideológica do partido, embora em
seu histórico afirme ter raízes no trabalhismo pós-varguista. Das
várias conclamações conciliadoras expressas no programa, lê-se:
“Nós do Partido Renovador Trabalhista Brasileiro, propugnamos
pela harmoniosa convivência Capital x Trabalho, que são molas-
-mestras para a construção do Progresso e do Desenvolvimento
pessoal e coletivo.” (PRTB, 2018).
Não se pode alegar incoerência entre o programa desse
partido e as propostas do candidato à presidência que apoia, es-
pecialmente por faltar elementos para esse cotejo.

435
COMUNICAÇÃO, DIREITO E DEMOCRACIA

A “Inclusive – Inclusão e Cidadania” é um projeto autô-


nomo e voluntário criado para promover a inclusão das pessoas
com deficiência através da difusão da informação via web. Em 20
de agosto de 2018, a organização publicou uma análise sobre as
propostas de governo apresentadas pelos candidatos à Presidên-
cia com relação às pessoas com deficiência (INCLUSIVE, 2018a).
Preocupados com a ausência ou inadequação de propostas e
pelo fato de o assunto ainda não ter sido abordado em debates
e entrevistas dos candidatos até aquele momento, os colabora-
dores da Inclusive produziram e divulgaram pelas redes sociais
o documento “Propostas para Candidatos às Eleições 2018” (IN-
CLUSIVE, 2018b), um texto bem fundamentado em informações
sobre pessoas com deficiência para subsidiar o debate e nortear
as propostas de candidatos a presidente, governador, senador,
deputado federal, estadual e distrital.
As análises feitas para este artigo reforçam o que foi consta-
tado pela Inclusive sobre o descaso de partidos e candidatos com
relação às pessoas com deficiência e mostram que as propostas
de governo e também os programas dos partidos mereceriam
uma melhor atenção em sua elaboração e em sua divulgação.
Não bastasse o pouco debate sobre questões relacionadas
às pessoas com deficiência, são insuficientes também as informa-
ções sobre esse público até mesmo em órgãos governamentais
que atuam na área. É o que mostra Granato (2016) ao referir que
a Secretaria Nacional da Promoção dos Direitos da Pessoa com
Deficiência possui apenas cerca de um terço de informação ne-

436 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E INCLUSÃO

cessária para orientar as políticas públicas para a área. A autora


alerta para a necessidade de se aperfeiçoar a comunicação públi-
ca digital e melhorar a qualidade e quantidade das informações
sobre políticas públicas de atendimento às pessoas com defici-
ência disponibilizadas nos sites oficiais (GRANATO, 2016, p.130).
Ou seja, os próprios canais digitais oficiais do governo sofrem a
insuficiência de informação.
Essas constatações apontam para a possível falta de um pro-
fissional de comunicação na gestão desses processos de interação
dos partidos e candidatos com o cidadão/eleitor. Os documentos
analisados (programa do partido e proposta de governo) compõem
importantes ferramentas desse processo, mas são subutilizados e
pouco referidos na interação comunicativa com a população.
Grande parte da sociedade brasileira tem ainda pouca com-
preensão dos princípios de cidadania e de seus direitos básicos.
As eleições representam o principal (para muitas pessoas, o úni-
co) momento de se discutir os melhores caminhos para a gestão
do País. O debate de ideias é fundamental em uma democracia.
Comunicar suas propostas ao público e apresentá-las aos eleito-
res é a forma de o político se posicionar e se aproximar daqueles
que se identificam com suas ideias. Infelizmente, na campanha
de 2018, não foi possível ver o candidato eleito a presidente (Jair
Bolsonaro, do PSL) se apresentar para discutir suas propostas de
governo, prática comum nas democracias.
Ainda que os debates televisivos e as entrevistas em rádio
sejam circunscritos pelos limites editoriais das emissoras que os
promovem, trata-se de um ritual importante para expor e deba-
ter as orientações doutrinárias do partido e, especialmente, os
projetos dos candidatos.

437
A disseminação magnífica das redes sociais virtuais, a ade-
são nada crítica do usuário padrão a grupos de discussão (sub-
metido que está ao conforto cognitivo da heurística8 conforma-
tiva e conformatória na avaliação das mensagens que recebe) e
a atração generalizada por caconomia9 fertilizaram o terreno em
que as conversações políticas foram realizadas no período eleito-
ral, contaminadas por falsas informações. Essa estratégia de alie-
nação política utilizada inicialmente, com ótimos resultados per-
niciosos, pelo governo russo (PAUL; MATTHEWS, 2016), mostrou
também sua eficácia na eleição de Trump nos EUA (KAKUTANI,
2018) e no prório Brasil (EUGÊNIO JR., 2018).
Nesse contexto, cresce a responsabilidade dos profissionais
de comunicação, especialmente daqueles que atuam na área
política. É necessário um debate crítico radical sobre o impacto

8 Heurística é um processo de busca de soluções para um problema que


escolhe o caminho mais fácil, mais óbvio, mais simples, mais imediato e
mais viável, ainda que a solução encontrada seja imperfeita e contrarie as
evidências objetivas. Desenvolvemos esse processo geralmente de forma
automática, intuitiva e inconsciente. Ver Kahneman, 2012.
9 Caconomias, no original Kakonomics, conceito criado por Gloria Origgi,
filósofa e pesquisadora italiana do Centre National de la Recherche Scientifique
(CRNS) Paris, se refere à preferência das pessoas por interações medíocres,
estabelecidas a partir de um acordo tácito de aceitarem trocas inúteis nos
processos relacionais: “Eu dou importância ao fato de você não cumprir
suas promessas, pois eu quero estar livre para não cumprir as minhas, sem
me sentir culpado.” Segundo a pensadora italiana, o grande problema do
Kakonomics − que no grego antigo significa a economia do pior – é que se
trata de uma forma de insanidade coletiva difícil de erradicar. Nessa troca em
que cada um assume o compromisso de entregar apenas produtos, serviços
ou discursos de baixa qualidade, os sujeitos ficam satisfeitos com o prejuízo
mútuo, pois o acordo foi cumprido e exigiu muito pouco de cada um. Esses
intercâmbios, a longo prazo, corroem os acordos sociais fundamentais em
uma sociedade civilizada. Discussão disponível em <www.edge.org/response-
detail/10993>. Acesso em 27 set. 2018.

438 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E INCLUSÃO

no espaço público virtual das novas possibilidades trazidas pelas


Tecnologias da Informação e da Comunicação (TICs) de última
geração e sobre o risco de comprometimento da democracia por
conta da ditadura digital. (HARARI, 2018).
Uma das atividades do profissional de comunicação, especial-
mente o Relações Públicas, é assessorar políticos, área de atuação em
que se imbricam a comunicação política e a comunicação pública10.
A facilidade para transitar no cipoal legislativo de nosso País
certamente pode contribuir para uma maior eficácia das ações de
comunicação e nos deixar, como profissionais de comunicação,
mais seguros, especialmente quando trabalhamos diretamente
com comunicação política11. No mínimo, o conhecimento da le-
gislação sobre os partidos poderá orientar a elaboração de docu-
mentos e textos oficiais de políticos e candidatos para que seus
discursos e cartas de intenções se mantenham em sintonia com
os preceitos estabelecidos em lei. É fundamental ficar atento a
questões que envolvem conquistas importantes civilizacionais,
consagradas na Constituição, e que são simplesmente ignoradas
na produção de uma carta de intenções oficial de candidatos.

10 Para uma discussão sobre as especificidades da comunicação pública, da


comunicação política e da comunicação governamental, ver Matos (2012) e
Brandão (2009).
11 A experiência que vivencio como aluno da Faculdade de Direito na
Universidade do Vale do Itajaí – Campus Balneário Camboriú (SC) ampliou
meu olhar de profissional de comunicação e está ganhando amplitude
interpretativa por incorporar um viés jurídico na leitura e diagnóstico dos
processos comunicacionais nas organizações. Agradeço aos Professores
Luiz Bráulio Farias Benítez, Newton Cesar Pilau e à Professora Eliane Maria
Benvegnú, coordenadores do Grupo de Estudos Efetividade dos Direitos das
Pessoas com Deficiências, da Univali, que me incentivaram para a elaboração
deste artigo, contribuindo com sugestões de abordagem.

439
CONSIDERAÇÕES FINAIS

Dos 13 candidatos à presidência, oito deles fizeram refe-


rência às pessoas com deficiência em suas propostas de governo.
Apenas quatro − Ciro Gomes, Fernando Haddad, Guilherme Boulos
e Marina Silva − apresentaram propostas substanciais e funda-
mentadas. Destacaram-se os textos elaborados pelas coligações
de apoio a Boulos (PSOL) e a Haddad (PT), por trazerem uma dis-
cussão mais densa, ampliada e atualizada sobre o tema e propos-
tas com ações integradas que vão muito além do assistencialismo.
Chama a atenção, em especial, a proposta do PSOL, sin-
tonizada com as demandas contemporâneas das pessoas com
deficiência e com os desafios da acessibilidade em sua dimen-
são social, política, econômica e cultural. O texto do PSOL é uma
espécie de tratado sobre a deficiência. Apresenta um histórico
do tratamento dado pela sociedade a essas pessoas, apontando,
então, propostas com o olhar voltado para o futuro.
O candidato Cabo Daciolo propôs apenas ações na área edu-
cacional, limitando seu projeto aos alunos portadores de deficiência.
Geraldo Alckmin, José Maria Eymael e João Goulart Filho limitaram-
-se a colocar um parágrafo protocolar e inexpressivo sobre o tema.
Cinco candidatos, Álvaro Dias, Henrique Meirelles, Jair Bol-
sonaro, João Amoedo e Vera Lúcia, embora pleiteiassem o cargo
de principal mandatário do País, desprezaram em suas propostas
45,6 milhões de brasileiros e ignoraram o Estatudo das Pessoas
com Deficiência e princípios constitucionais dedicados a estas.
Desses candidatos, apenas Vera Lúcia se localiza ideo-
logicamente à esquerda. Os demais pertencem a partidos con-

440 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E INCLUSÃO

servadores e afinados com o neoliberalismo, o que pode levar à


conclusão de que seria um constitutivo ideológico dos partidos
brasileiros de direita se eximir de contemplar as pessoas com de-
ficiência em suas propostas de governo, pela dificuldade, dentre
outras, de administrar diferenças e diversidades.
Um segundo objetivo do trabalho foi verificar se havia co-
erência entre as propostas de governo para as pessoas com defi-
ciência e as diretrizes programáticas e ideológicas expressas nos
programas dos partidos das coligações que apoiaram os dois can-
didatos do segundo turno. Com relação aos partidos PT, PCdoB e
PROS da coligação que apoiou Haddad, constatamos a coerência
doutrinária entre o que está expresso nos programas desses parti-
dos e na proposta de governo para as eleições de 2018. Coerência
também encontramos no cotejo da proposta de governo do can-
didato Bolsonaro com os programas dos partidos que compõem
a coalizão PSL e PRTB: nesses documentos, não há qualquer refe-
rência a pessoas com deficiência, descumprindo a Lei dos Partidos
Políticos (Lei nº 9.096/95) que especifica, em seus artigos iniciais,
que a agremiação destina-se a garantir o sistema democrático
representativo e a defender os direitos fundamentais da pessoa
humana estabelecidos na Constituição Federal. A ausência de qual-
quer referência às pessoas com deficiência pode estar sugerindo
descaso e despreocupação com aquelas pessoas que estão, de al-
guma forma, à margem da sociedade em relação a seus direitos de
cidadão, embora constituam perto de 1/4 da população brasileira.
Este estudo leva a concluir que a menção ou não às pesso-
as com deficiência nos documentos doutrinários e programáticos
pode revelar as vertentes ideológicas que sustentam os partidos
e com as quais se afinam os candidatos.

441
A Declaração Universal da ONU, de 1948, impôs limites
aos poderes estatais, permitindo aos indivíduos conviver em um
cenário de maior segurança, paz e dignidade em suas vidas. A
partir de então, expressões como “dignidade da pessoa huma-
na” assumem, a cada dia, papel mais importante no contexto
do Estado Democrático de Direito. Mas não precisamos, porém,
ir até a histórica Declaração da ONU. Nossa Carta Magna de 1988
(artigos dos Títulos I e II) estabelece os princípios, direitos e ga-
rantias fundamentais, reforça o respeito ao Estado de Direito e
regulamenta os direitos individuais, coletivos, sociais e políticos.
É preocupante, portanto, ver propostas de governo de
candidatos à Presidência que desconsideram importantes con-
quistas sociais das quais não pode abrir mão um país sintoniza-
do com a contemporaneidade. A ideologia conservadora, aliada
ao fundamentalismo religioso de vários matizes, está se exacer-
bando em muitos países do mundo em um desprezo às conquis-
tas inauguradas pela racionalidade iluminista que consagrou a
democracia, a liberdade e a fraternidade como pilares civiliza-
cionais. O descaso pelos valores básicos da dignidade humana
pode facilitar o retrocesso institucional, politico e social, e abrir
espaço para o populismo de extrema-direita em sua parceria
perversa com o fascismo – conjugação política e ideológica que
apela para a comunicação conformativa e deformativa, e sub-
mete a comunicação formativa e informativa fundamental em
uma democracia dialógica.

442 COMUNICAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DISCURSOS EM CONFLITO


COMUNICAÇÃO PÚBLICA E INCLUSÃO

REFERÊNCIAS

ASID (Ação Social para Igualdade das Diferenças). Panorama da


inclusão no Brasil. 2018. Disponível em <https://asidbrasil.org.br/
panorama-da-inclusao-no-brasil/>. Acesso em 24 set. 2018.

BRANDÃO, E. Conceito