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A produtora mineira que tem levado o cinema periférico

para o mundo
Simone Freire Da ponte pra cá 31 Maio 2019 31 Maio 2019

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Em uma década de história, Filmes de Plástico acumula quase uma centena de prêmios
nacionais e internacionais, além de um longa no catálogo da maior plataforma de
streaming mundial

Texto / Amanda Lira e Gabriel Araújo | Imagem / Arquivo Pessoal

Uma reportagem do Projeto Enquadro:


o cinema negro de BH em retratos jornalísticos

Foram oito meses desde o primeiro contato até conseguirmos, enfim, conversar com um dos representantes da
produtora audiovisual mineira Filmes de Plástico. Entrevistamos Thiago Macêdo, o produtor do grupo que também é
composto pelos cineastas André Novais Oliveira, Gabriel Martins e Maurílio Martins. A produtora que, em 2019,
completa uma década de existência, tem colhido os frutos do sucesso de um cinema pautado pela valorização da
simplicidade de um cotidiano urbano.

Da cidade de Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte, os cineastas são sucesso mundial: além de
passarem por 18 dos 27 estados brasileiros, já foram prestigiados em festivais tradicionais como os realizados em
Cannes, na França, e Rotterdam, na Holanda. Aliás, foi na fila de embarque em direção à França, onde participaria
do renomado Festival de Cannes, que Thiago nos concedeu alguns minutos de conversa. “Ficarei três meses fora,
então está uma loucura grande pra mim”, nos explicou em áudio antes de nos telefonar. Era 13 de maio, dia das
mães, e Thiago seria o último da produtora a embarcar para a Europa.
Arte: Infogram.

Enquanto Thiago decolava, Gabriel Martins, outro dos cineastas da produtora, já estava em Portugal. Lá, ele
acompanhava, ao lado de seu sócio e amigo Maurílio, a exibição de um de seus filmes, “No coração do mundo”,
apresentado no festival IndieLisboa. O retorno de Gabriel ao Brasil se deu exatamente uma semana após nosso papo
com Thiago. Aproveitamos a rara brecha na agenda para conversarmos também com ele.

Abaixo você confere os principais trechos da entrevista com os dois cineastas que têm conquistado grandes feitos no
cinema brasileiro contemporâneo.

Nesses dez anos, a Filmes de Plástico conquistou destaque não só no cinema negro ou mineiro, mas no cinema
nacional. Por que vocês chegaram a esse lugar?

Gabriel Martins: Eu não sei falar um porquê exato. A gente sempre filmou muito, o que fez com que os projetos
fossem melhorando ao longo do tempo. Acho também que os filmes são muito diferentes entre si. Penso que, por
isso, a gente conseguiu atingir muitos lugares diferentes. Talvez, se eu fosse atribuir a alguma coisa, seria realmente
a um empenho muito grande. E também aos elementos de sorte. O fato de a gente ter se encontrado, de estarmos,
muitas vezes, no lugar certo na hora certa, de cruzarmos com pessoas que se interessaram pelo nosso trabalho...

De que forma a cor dos integrantes da equipe influencia nos filmes produzidos?

Gabriel: Todos nós crescemos em ambientes fora do centro, periféricos, em que existe um contato muito forte e
intenso com pessoas negras e pessoas brancas que não necessariamente são pessoas ricas ou que têm grana. Acho
que a gente sempre teve contato com o lugar da negritude, por exemplo, como algo cotidiano. No caso, eu e o André
[Novais Oliveira, diretor de “Ela Volta na Quinta” e “Temporada”], sendo os negros na produtora, isso faz parte do
nosso olhar e da nossa experiência. Eu acho que só se tornou cada vez mais importante para a gente falar sobre isso.
No início talvez a gente não pensasse e falasse todos os dias, com todas as palavras, mas cada vez mais isso se
tornou importante. Acho que é uma coisa que diz respeito à experiência de vida.

Como as pessoas com quem a Filmes de Plástico cruzou ao longo desses dez anos marcaram a trajetória da
produtora?

Thiago Macêdo: O fato de a maior parte dos nossos filmes terem sido feito com atores não-profissionais já gera um
impacto. Os diretores gravam com pessoas que eles conhecem. É a nossa casa ali. Quando a gente acredita no
potencial dessas pessoas, que estão trabalhando em áreas totalmente diferentes da formação delas, e recebe em troca
não só o bom resultado mas também essa confiança, a gente é atravessado.
Não existiria Filmes de Plástico sem a família do André colaborando com a gente, por exemplo. Poucas coisas nos
trouxeram tanto orgulho como o que os pais do André conseguiram viver por conta do que a gente conseguiu viver
com o cinema. O próprio falecimento da mãe do André reverberou de forma internacional. As pessoas se
comoveram de modo muito forte. Isso mostra que as pessoas foram atravessadas por uma senhora negra da periferia
de Contagem. Ficamos muito contentes de saber que houve a possibilidade de inserção de carreira e de outras
perspectivas nessas vidas.

Em “Temporada”, Grace Passô, protagonista do filme, contracenou com Maria José Novais Oliveira, mãe de
André, diretor do longa. Dona Zezé, como era conhecida, realizou seu sonho de conhecer Paris graças às
personagens que ela interpretou nos filmes da produtora.

Qual foi o maior acerto e a decisão mais importante da Filmes de Plástico?

Thiago: Acho que o nosso maior acerto foi a gente continuar sendo sincero em relação àquilo que nos interessa. A
gente não faz o que não quer fazer. Quando a gente escreve, a gente está feliz. A gente não faz nada para agradar a
uma lógica de mercado ou porque está na moda. Estamos sempre de acordo com o que estamos mostrando. E isso
nos dá um orgulho muito grande. Obviamente, essas obras podem “não dar certo”, mas, da nossa parte, estamos
colocando sempre algo em que a gente acredita.

Gabriel: Acho que uma coisa importante foi ter tomado a decisão de, de fato, formar uma produtora, de sermos nós
quatro, de alugarmos uma sede para a produtora. Foram passos que foram nos desafiando a levar a produtora cada
vez mais a sério e a investir nossa energia toda nisso. Eu vejo também, acima de tudo, como as decisões mais
importantes para a gente foram as decisões de bancar ideias arriscadas. Nunca ter que medir as nossas ideias, nossos
esforços ou nossas energias para nada que não fosse o que nós quatro acreditávamos e sentíamos no coração. Tem
essa decisão de ser muito fiel e de ser muito intenso com o que era verdadeiro para a gente, independentemente de se
aquilo daria certo para as outras pessoas ou não.

O longa-metragem mais recente da Filmes de Plástico, “Temporada”, foi exibido em uma sala de cinema de
um dos principais shoppings de Contagem, cidade de origem da produtora. Como foi ocupar essa sala?

Thiago: Contagem sempre está nos filmes porque a gente decidiu sempre fazer obras sobre o que a gente conhece.
As narrativas se passam nos lugares onde os diretores nasceram e cresceram. Filmamos o quintal de casa, o que está
mais próximo de nós. Sinceramente eu acho que o que a gente faz hoje é o que a gente faz desde o início. A gente
chega no set do mesmo jeito que a gente chegava, com o mesmo espírito.
Por isso, a exibição em Contagem foi um dos momentos mais especiais que já vivemos no cinema. Sala lotada,
público super diverso, com muitas pessoas que nem tem por hábito ir ao cinema, mas que ficaram interessadas e
felizes de ver a cidade onde moram retratada na tela grande. Ao final da sessão e do debate, basicamente todas as
pessoas vieram nos cumprimentar na saída da sala, tal como uma fila de cumprimentos em casamentos. Foi um
momento muito maravilhoso.

Cinema cheio para a estreia de Temporada em sua cidade de origem, Contagem. Arquivo pessoal.

Além do reconhecimento - nacional e internacional - o filme trouxe algum significante retorno financeiro?
Como vocês lidam com a questão de público e de bilheteria?

Thiago: O filme está sendo vendido fora do Brasil e foi comercializado com o Canal Brasil e com a Netflix no
Brasil, além de ter sido lançado em circuito comercial e recebido prêmios em festivais. Isso tudo traz retorno
financeiro, partilhado com o Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), que tem participação no projeto através dos
Arranjos Regionais [por ter financiado o projeto, o FSA tem direito sobre os lucros do filme]. Sobre a questão do
público, especificamente nas salas de cinema, estamos vendo uma redução grande nos números de bilheteria para
filmes independentes e uma expansão interessante de acessos por outras mídias. O Temporada, por exemplo, desde
que entrou no catálogo da Netflix reverberou para um público imenso, super diverso e que não imaginaríamos poder
acessar se fosse exclusivamente pelas salas de cinema.

“Temporada” foi produzido a partir dos recursos do “Filme em Minas”, um edital estadual encerrado. Como
vocês veem o futuro da produtora com a incerteza das continuidades de políticas de fomento ao audiovisual?

Thiago: O Filme em Minas não existe mais, mas, até ano passado, os investimentos continuaram ativos através de
recursos da CODEMIG [à época, Companhia de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais, empresa
responsável pelo fomento à indústria criativa do Estado], administrados em editais em parceria com o FSA, através
dos Arranjos Regionais. Esperamos que o novo governo estadual dê atenção à continuidade desses financiamentos,
dada à clara contribuição cultural e econômica da classe.

O que você gostaria que as pessoas lessem nas entrelinhas de suas produções?

Gabriel: Eu desejo que as pessoas vejam os filmes e consigam, acima de tudo, se transformarem de algo:
transformar o olhar, ter um pouco mais de empatia e ver beleza nas pessoas. Acho que o que eu desejo é que o
público consiga ver essas histórias e, de alguma forma, conseguir ver complexidade no mundo. Conseguir ver o
mundo de uma forma menos óbvia, menos preta e branca. Que consiga ver cores no mundo. E que, nisso também,
tenha um pensamento crítico com relação às coisas. Só de ele olhar o mundo de uma forma mais complexa,
esquecendo um pouco de certos preconceitos, eu já fico feliz.
Acho que os personagens que a gente representa são personagens, em geral, muito marginalizados no mundo,
olhados no mundo de uma forma pouco solidária. Então eu acho que o que eu desejaria é isto: que esses filmes
sirvam, de alguma forma, para trazer um olhar um pouco mais solidário para o mundo.

Equipe da Filmes de Plástico. Da esq. para dir., André Novais, Maurílio Martins, Thiago Macêdo e Gabriel
Martins. Arquivo Pessoal

Existe algum ponto que a mídia nunca tenha lhes perguntado e que vocês gostariam de comentar sobre a
Filmes de Plástico?

Thiago: Tem algo que é uma realidade sobre nossos processos que não sei o quanto as pessoas de fato assimilam:
nossos filmes têm, realmente, os dedos de nós quatro em basicamente tudo. Por mais que uma pessoa eventualmente
esteja assinando um roteiro, ele é lido, debatido, modificado e revisado em processo aberto entre todos. Nos sets
estamos constantemente ouvindo e falando uns com os outros, propondo ideias e mudanças. A montagem é super
participativa e sempre batemos o martelo juntos quando estamos satisfeitos com o corte. Estamos envolvidos
integradamente nos filmes de modo muito intenso e orgânico. Por isso nunca verão um filme da Filmes de Plástico
assinado como “um filme de fulano”, pois é sempre de fato um filme de todos nós.

O que a Filmes de Plástico ainda quer alcançar? Quais são seus sonhos?

Gabriel: Um desejo nosso é, de fato, alcançar mais pessoas. Porque, na prática, nós somos uma produtora de dez
anos que tem muitas pessoas que nos conhecem, mas muitas dessas pessoas fazem parte de um universo mais
restrito do cinema. E a gente tem vontade de dialogar de uma forma mais ampla, né? Conseguir que a gente seja
visto em outras periferias, por mais gente. Acho que talvez um desejo muito forte nosso é que nosso filme tenha
mais público, seja onde for. Não necessariamente numa sala de cinema, apesar de que seria lindo. Mas que nossos
filmes consigam ser mais e mais vistos.