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Delírios religiosos em pacientes psiquiátricos Religious delusions in psychiatric patients

Delírios religiosos em pacientes psiquiátricos Religious delusions in psychiatric patients

José Alberto Gonçalves dos Santos 1

Elisabeth Mazeron Machado 2

Giovani de Quadros Piano 3

Luciana Tisser 4

1 Acadêmico do curso de Psicologia do Centro Universitário Ritter dos Reis. alberto.demoraes@outlook.com 2 Psicóloga. Socióloga. Mestra e Doutora em Sociologia. Professora do Curso de Psicologia do Centro Universitário Ritter dos Reis. Contato: mm.elisabeth@gmail.com.

3 Bacharel em Psicologia pela Universidade de Santa Cruz do Sul - UNISC. Pós-graduando em Psicologia Clínica Analítica. Contato: giovani.piano@hotmail.com.

4 Psicóloga. Mestre e Doutora em Ciências da Saúde/Neurociências. Professora do Curso de Psicologia do Centro Universitário Ritter dos Reis. Contato: lutisser@hotmail.com. Endereço para correspondência: Rua São Manoel, 1627 – 205 – Santana – Porto Alegre, RS. Cep. 90620-110.

Resumo: Diversos pacientes da internação psiquiátrica apresentam delírios com temática religiosa. Objetivos: Realizar um estudo que se propõem a verificar os delírios religiosos em pacientes psiquiátricos. Métodos: Revisão de literatura e observação de pacientes durante vivência prática de estágio num hospital público da região sul do Brasil. Conclusões: Delírios religiosos estão presentes em pacientes psiquiátricos. Considerações finais: Profissionais da saúde devem estar atentos aos ganhos e perdas clínicas que crenças ou práticas religiosas podem promover em pacientes com sintomas mentais a fim de desenvolver intervenções preventivas para a saúde mental.

Palavras-chave: religião; delírios; psicanálise; psicose; psicopatologia

Abstract: Several psychiatric hospitalization patients present delusions with religious themes. Objectives: To carry out a study aimed at verifying religious delusions in psychiatric patients. Methods: Literature review and patient observation during a practical internship in a public hospital in the southern region of Brazil. Conclusions: Religious delusions are present in psychiatric patients. Final considerations: Health professionals should be aware of the clinical gains and losses that religious beliefs or practices can promote in patients with mental symptoms in order to develop preventive interventions for mental health.

Keywords: religion; delusions; psychoanalysis; psychosis, psychopathology

INTRODUÇÃO

Este é um estudo realizado a partir de revisão de literatura e observações realizadas num hospital público da região sul do Brasil. Este estudo ocorreu durante estágio curricular do curso de Psicologia, do Centro Universitário Ritter dos Reis (UniRitter), numa unidade psiquiátrica de internação masculina, no período de março a junho de 2017. Tem por objetivo verificar os delírios religiosos em pacientes psiquiátricos.

Existem poucos estudos relacionando religiosidade e psicopatologia. Isto dificulta o estudo do tema bem como a teorização de instrumentos para tratamento ou prevenção da saúde mental destes pacientes, tendo em vista que a maioria dos artigos que tratam do tema religião e saúde se limitam a levantamento de dados sociais ou, ainda, informam somente os benefícios que a prática da religião pode trazer para o paciente.

Em se tratando de religião e saúde mental, os dados disponíveis ainda são escassos para determinados questionamentos. Segundo Koenig (2007), nas últimas décadas profissionais dessa área começaram a prestar mais atenção para a presença de delírios de fundo religioso em indivíduos que ou apresentavam surto psicótico ou que se tornaram pacientes psiquiátricos por demanda de algum outro sintoma mental.

Para Salimena et al (2016) os profissionais da área da saúde ainda dão pouca atenção para a dimensão espiritual e religiosa dos pacientes, pois o foco dos tratamentos ainda é a biomedicalização. Enquanto que para Silva et al (2010) estudos têm demonstrado a relação entre práticas e crenças religiosas e saúde mental. Enquanto que Cambuy (2016) informa que as questões religiosas, nos últimos tempos, não são apenas eventuais, mas sim recorrente em atendimentos clínicos de psicologia e apresentam-se vinculadas ao problema que é trazido para a psicoterapia.

Embora haja muito trabalho ainda a se fazer, evidencias têm-se acumulado para que se possa ter respostas mais objetivas às perguntas, tais como: qual a relação entre religião, espiritualidade e psicose? Pessoas psicóticas são mais religiosas? A religião conduz à psicose? A psicose conduz à religião? A conversão religiosa pode precipitar a psicose? A psicose pode precipitar a conversão religiosa? Qual a frequência dos delírios religiosos entre aqueles que são psicóticos? Como diferenciar experiências religiosas ou espirituais “normais” de sintomas psicóticos? Qual o efeito do envolvimento religioso no curso e evolução dos transtornos psicóticos? (KOENIG, 2007, p. 96).

RELIGIÃO, ANTROPOLOGIA E MITO

Para podermos verificar a intercorrência de delírios religiosos em pacientes psiquiátricos precisamos, antes, verificar os dados fornecidos pela antropologia. Esta ciência nos fornece informações a respeito das crenças totêmicas e religiosas dos povos antigos. De posse desses dados, podemos ter uma melhor compreensão da relação saúde mental diante da religiosidade presente atualmente no mundo.

Segundo Lévi-Strauss (2008), analisar os mitos e sua função em nossa sociedade

não é tarefa fácil, pois tendemos sempre a explicações simplistas demais para algo que tem o poder de nos revelar a vida de antigas culturas. De qualquer modo, devemos ter em mente que

o valor do mito continua, mesmo que ele venha com profundas alterações. Ele é uma

linguagem que existe num nível muito elevado e que sempre é percebido como mito. Por ser linguagem, ele e seu sentido consegue deslocar estruturas de linguagem para dar outros significados.

Segundo Campbell (2013), os rituais de antigas tribos, envolvendo nascimento, iniciação, casamento, funeral, etc., servem para simbolizar as crises e movimentações da vida do indivíduo em formas clássicas e impessoais. Para Eliade (1992) o homem, desde tempos antigos, esforça-se para se manter num mundo sagrado, no entanto, faz pouquíssimo tempo que ele descobriu que vive num mundo dessacralizado, perda de sagrado essa gerada por um conjunto de processos históricos.

A afirmação deste último autor, de que o homem se esforça para se manter num mundo sagrado, pode ser verificada na fala de muitos pacientes psiquiátricos. A grande maioria deles afirma que após o tratamento pretendem se entregar a Deus. Esses pacientes nunca se referem ao tratamento multidisciplinar que estão recebendo, mas somente a como Deus os está ajudando durante o período de internação.

No passado, os homens buscavam relacionar-se com um mundo invisível para achar soluções para seus problemas de ordem imediata, problemas pessoais ou que assolavam as pequenas comunidades. Atualmente, as práticas religiosas e os motivos da prática são muito semelhantes aos do passado. É que sugere Reinaldo (2012) ao dizer que o sofrimento e

a esperança da solução desse sofrimento é o que leva o indivíduo a buscar em crenças religiosas a solução do problema.

Segundo Brandão (1990), o surgimento do cristianismo é um elemento estranho no contexto de um mundo que ainda vivia as tradições do mundo helenístico. No entanto,

Jung (2015) sugere que é impossível criarmos um mundo cujas circunstâncias sejam diferentes de nossas próprias projeções. Segundo Hycner (1995) os indivíduos do século XIX viam-se como seres racionais, a consequência disso foi a opressão dos sentimentos ontológicos e espirituais da existência, o que acabou por tornar o processo de separação de nossos pais para desenvolvermos nossa própria identidade uma separação frágil demais.

Esse sentimento de um mundo dessacralizado, onde não há a presença de Deus, também foi verificado nas observações do estágio curricular. Alguns pacientes podem acreditar que as pessoas ao seu redor não estão entregues a Deus suficientemente, ou achar que estão repletas de pecado.

RELIGIÃO, PSICOLOGIA, SAÚDE E SOCIEDADE

Para melhor compreendermos o tema proposto neste estudo, é importante verificarmos a visão da Psicologia sobre como o homem se relaciona com sua religiosidade. Estes dados nos permitem melhor verificar como psiquismo pode se comportar diante das crenças ou práticas religiosas.

Segundo Neves et al (2006) a família tem a função de prover o desenvolvimento psíquico e social do indivíduo, porém, a era moderna tem demonstrado na família diversas lacunas oriundas de diversos fatores. Nessa linha de pensamento, Carvalho et al (2007) lembram que é necessário verificar com o paciente e a família os significados que eles atribuem ao tratamento recebido, já que a saúde e a doença surgem a partir de inter-relações estabelecidas.

Freud, logo no início de O Futuro de Uma Ilusão (1927), nos diz que a cultura é algo imposto a uma maioria por uma minoria que sabe se apoderar dos meios de convencimento. Ele também sugere, na mesma obra, que isto ocorre por que as formas de cultura até agora desenvolvidas possuem imperfeições. Essas imperfeições podem resultar naquilo que Watts (2001) chama de mito confundido com história: nesse momento ele deixa de ter uma aplicabilidade prática na vida interior do homem. E isso pode resultar numa espécie de vazio. Corroborando com essa linha de pensamento, Jung (2015) sugere que o indivíduo só se satisfaz com uma criação mítica quando ela consegue expressar o sentido da existência humana na criação, esta representação provém de uma criação partilhada entre o consciente e o inconsciente.

Jung (2013) sugere que a função de adorar uma deidade serve justamente para sanar fraquezas e inseguranças na vida pessoal, enaltecendo, de algum modo, o indivíduo. Este autor também levanta a hipótese de que a parte da libido que constrói ideações religiosas pode regredir para a mãe, pois é o laço que nos une à nossa origem. Seria, desse modo, a mãe a primeira imagem de algo a que desejamos nos religar.

A psicanálise sugere que o menino toma o pai como modelo, desejando ser como ele para, quem sabe algum dia, tomar seu lugar. Porém, se há uma lacuna da figura paterna na constituição do ego, o indivíduo poderá buscar essa figura externamente quando adulto. Nesse momento surge a ilusão criada pelas igrejas de que existe um “pai” que possa guiar este indivíduo em sua vida adulta. Porém, essa substituição do pai real por um pai artificial criado

pela religião, pode ser perigosa, pois é uma criação ilusória, baseada em pulsões libidinais, forças extremamente poderosas da psique humana e que podem sair de controle se não forem bem conduzidas (FREUD, 1921).

Segundo Braghetta et al (2011) mesmo com a maioria dos estudos apontando para uma relação positiva entre religião e saúde mental, a religiosidade pode também promover repercussões negativas em indivíduos com transtorno mental. Já a pesquisa conduzida por Oliveira et al (2012) reconhece a importância das religiões na vida de portadores de doença mental, porém sugere que estes pacientes podem ter seus sintomas agravados se sofrerem influências negativas na prática religiosa.

Bergeret (1988), falando sobre a grande oscilação da regulação emocional na esquizofrenia, sugere que no funcionamento esquizofrênico, as emoções não estão embotadas, pelo contrário, há uma super ativação em diversas funções do ego. Soeiro et al (2008, p. 794) revelam “que pacientes internados por transtornos psiquiátricos pertencentes a grupos evangélicos têm uma maior frequência de diagnósticos de psicoses.” No entanto, conforme os mesmos autores, esses dados não são conclusivos nem devem ser generalizados para toda a população.

DELÍRIOS RELIGIOSOS EM PACIENTES PSIQUIÁTRICOS

Durante o estágio curricular, foi verificado um padrão nos delírios religiosos trazidos pelos pacientes. Este padrão consiste no fato de esses delírios serem oriundos da mitologia judaico-cristã. Sendo o Brasil um país que acolhe diversas religiões originárias de várias partes do mundo, era de se esperar que o conteúdo religioso apresentado pelos pacientes em seus delírios também apresentasse tal diversidade, mas isto não ocorreu.

Na literatura pesquisada e nas observações feitas durante o estágio, os pacientes referem-se essencialmente a elementos da mitologia judaico-cristã: Deus, Diabo ou, ainda, palavras e frases da Bíblia são pronunciadas durante os delírios ou surtos psicóticos, ou mesmo em falas desconexas durante o período da internação. Durante os meses de observação, de março a julho de 2017, este quadro se manteve inalterado.

Aqui é importante nos questionarmos do por que não aparecerem delírios religiosos de matriz africana, por exemplo, tão presente no cotidiano do Brasil? Nas religiões judaico-cristãs o pai é central, enquanto que nas africanas as divindades são, em sua maioria, femininas (mães, terra, água) e, portanto, não atuariam como agentes da castração.

Outro padrão encontrado nesses pacientes é a presença ou de alucinações visuais ou auditivas. Este tipo de alucinação é referida por Ball (2015) em seus estudos, sugerindo que elas geralmente se iniciam com as visuais para depois surgir as auditivas. Uma das coisas que podem levar indivíduos a terem alucinações são as psicoses, sendo que muitas estão relacionadas a esquizofrenia. Conforme Paleari (2008) a psicose pode desintegrar o ego e os sentimentos de perda de si mesmo podem gerar grande sofrimento emocional. Nesse momento, sugere-se conduzir um tratamento multidisciplinar para auxiliar o paciente na reestruturação do ego, dando-lhe instrumentos para enfrentar os sintomas.

No entanto, deve-se ter cuidado no tratamento desses pacientes, pois nem sempre abordar, por exemplo, religião com pacientes que possuem alucinações religiosas pode ser benéfico para eles. Conforme Braghetta et al (2011), pacientes que sofrem intervenções espirituais durante seu tratamento podem apresentar maior incidência de recorrência psicótica, especialmente se já tiverem tendências para alucinações ou outros delírios religiosos. Enquanto que Paleari (2008), em um estudo de caso, informa que pacientes com transtornos mentais podem auto-inflingir mutilações em decorrência de suas crenças religiosas.

Também foi observado que o transtorno da esquizofrenia é constante em pacientes com delírios religiosos. Porém, com tratamento multidisciplinar, é possível auxiliar estes pacientes na redução significativa de seus sintomas. Segundo o DSM-V (2014), o espectro da esquizofrenia e outros transtornos psicóticos se caracterizam por anormalidades no funcionamento de um ou mais nos seguintes domínios: “delírios, alucinações, pensamento (discurso) desorganizado, comportamento motor grosseiramente desorganizado ou anormal (inclui catatonia) e sintomas negativos” (DSM-V, 2014, p. 87).

De acordo com Carvalho et al (2007, p. 166) “a esquizofrenia representa um pesado ônus à vida de todos os envolvidos, tendo em vista dificuldades, dúvidas, receios, discriminações e distâncias que os sintomas acarretam”. Conforme Paleari (2008), a esquizofrenia é mais frequente em homens a partir dos 20 anos, atingindo em torno de 1% da população mundial. Essa doença também é responsável por delírios e alucinações constantes.

Conforme Teixeira et al (2012) alguns casos de pacientes crônicos com esquizofrenia chamam a atenção pelo fato de muitos deles estudarem obsessivamente a Bíblia levando-os, em seguida, a interpretações literais de passagens que sugerem agressões. A consequência disso são tentativas (com ou sem sucesso) de auto ou hétero agressão.

Conforme já foi dito, este tipo de estudo é ainda escasso no Brasil, carecendo de dados mais plausíveis e mais atuais. A maioria das informações que obtemos são de estudos realizados em meados dos anos 2000. Nesse contexto temos o estudo conduzido por Soeiro et al (2008) que, com uma amostra de 515 indivíduos pertencentes às religiões evangélicas, verificou que nestas pessoas a incidência do alcoolismo é reduzida, porém foi encontrado uma prevalência dos sintomas depressivos.

Algumas religiões de matriz pentecostal são constantemente referidas pelos pacientes observados durante o estágio curricular no hospital público, porém, sempre associando elas com crenças místicas. É o que informa Reinaldo (2012) ao sugerir que as alucinações e delírios vem acompanhados de crenças oriundas do imaginário popular como “mau olhado”, “encosto”, “possessão”, etc.

INTERVENÇÕES E RECUPERAÇÃO

A respeito da recuperação dos pacientes foi observado, durante o estágio curricular, que, de um modo geral, os pacientes que estão em sua primeira internação recuperam-se mais rápido do que aqueles que estão reincidindo em duas ou mais internações. Outra observação relevante é o fato de os homens que vivenciam a paternidade demonstram encontrar na lembrança de seus filhos um forte motivo para aderirem ao tratamento, o que ajuda na evolução do quadro clínico.

Gabbard (2006) informa que atualmente ainda se pensa numa internação psiquiátrica como mero ato de conter e dar medicação. Por outro lado, o referido autor sugere que o quadro de um paciente tem a tendência de melhorar muito ao se unir o tratamento psiquiátrico tradicional sob uma visão psicodinâmica. Segundo Zimerman (1999) também é importante lembrar que atualmente há uma grande leva de pacientes de difícil acesso, em comparação com os pacientes puramente “histéricos”, “obsessivos” e “fóbicos” que apareciam para as primeiras gerações de psicólogos.

Outra característica que pôde ser observada durante o estágio curricular em pacientes com delírios religiosos foi o constante discurso de elementos presentes na Bíblia. Em suas falas, os pacientes sempre demonstram a fé de que o deus bíblico vai ajudar eles neste momento de dificuldade. Porém, é importante frisar que estes mesmos pacientes relatam ouvir as vozes de Deus que os orienta a praticar atos de auto ou hétero agressão.

As intervenções nesses pacientes devem ser cuidadosas, especialmente se o tema religião for abordado com eles. Salimena et al (2016) sugerem que é necessário capacitar profissionais da saúde, especialmente o enfermeiro, para que possam oferecer um cuidado espiritual/religioso no tratamento do paciente psiquiátrico. Por outro lado, Braghetta et al (2001) informam que até agora nenhum estudo, envolvendo intervenções religiosas, analisado e conduzido de modo rigoroso e randomizado, demonstrou eficácia comprovada nesse tipo de abordagem. Koenig (2007) nos diz que estudos tem identificado que o envolvimento religioso pode tanto ser a causa como o resultado de traços ou sintomas psicotiformes.

Outro fator que foi observado, durante o estágio, é que os pacientes que reinternam duas ou mais vezes o fazem por não aderência ao tratamento. Isto pode ocorrer por diversos motivos que vão desde a não compreensão da família quanto o tratamento de longo prazo, em Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) ou serviço especializado, até falta de

conhecimento a respeito da doença de seu familiar. Alguns pacientes que trazem delírios religiosos em seu discurso podem, às vezes, pertencer a núcleos familiares disfuncionais onde, algumas vezes, também pode haver forte envolvimento com religiões pentecostais.

Carvalho et al (2007) sugerem que as intervenções podem abranger as dimensões biológicas, psicológicas e sociais, levando-se em conta o contexto da vida do sujeito, valorizando os familiares como integrantes do tratamento. Montanari (2011) sugere que o psicótico deve projetar sua aflição sobre o terapeuta para que este possa, então, reposicionar o delírio no seu lugar. Segundo o mesmo autor, os delírios podem surgir justamente por que o paciente não consegue simbolizar. Essa poderia ser a dificuldade primária dessa população.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A revisão de literatura conjugada às observações realizadas durante o estágio curricular num hospital da região sul do Brasil demonstram que há incidência de delírios religiosos em pacientes psiquiátricos. Também demonstram que quadros de auto ou hétero agressão podem ser iniciados em virtude de estes pacientes terem dificuldades para simbolizar passagens bíblicas que sugerem a mutilação ou agressão. Também se observou que crenças religiosas podem fazer a manutenção de alguns sintomas mentais em alguns pacientes. As observações, durante o estágio, corroboram com a ideia dos autores citados de que algumas crenças religiosas podem ou ser o gatilho para uma psicose ou fazer a manutenção de sintomas mentais. Ainda, segundo os artigos pesquisados e algumas observações durante o estágio curricular, foi verificado que pode haver perdas clínicas em alguns pacientes cujos sintomas não lhes permitem uma relação simbólica com suas religiões. Porém, não podemos descartar a possibilidade de que as psicoses possam ser as causadoras do fervor religioso, sendo este último um sintoma. A questão ainda fica em aberto, necessitando de mais pesquisas na área.

Ainda são escassos os estudos que verifiquem a relação das religiões com saúde mental. Sendo os dados inconclusivos, é necessário ter um olhar atento sobre o material religioso que os pacientes trazem durante suas internações. De qualquer modo, é necessário que mais pesquisas sejam desenvolvidas para se pensar em orientações e abordagens protetivas da saúde mental em diversos indivíduos. Os dados analisados para este estudo, esclareceram, ao menos, que os delírios religiosos estão embasados principalmente na cultura judaico-cristã. Também foi observada a pouca ou nenhuma importância clínica dada para este material trazido pelos pacientes, o que acaba mantendo uma lacuna no entendimento deste evento. Por que a psiquiatria ainda não está estudando estes eventos e suas possíveis consequências para o paciente? É necessário que os movimentos culturais e religiosos das próximas décadas sejam observados com olhar atendo, tanto por antropólogos quanto por profissionais da saúde mental.

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