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Arte sobre foto de Marcos Santos

Combates à xenofobia,
ao racismo e à intolerância
Paulo Daniel Farah
resumo abstract

Numa conjuntura de crescente xenofobia, In a scenario of increasing xenophobia,


racismo, discriminações e generalizações racism, discrimination and anti-immigrant
contra imigrantes e refugiados, são and anti-refugee generalizations,
recorrentes os questionamentos sobre questionings have been recurrently raised
como mudar esse quadro e acerca do about how to change this picture and
papel do Sul global. Analisam-se aqui about the role of the Global South. Here we
iniciativas de judicialização contra analyze judicialization initiatives against
pessoas que incitam ao ódio e à violência, people who incite to hatred and violence;
e ações educativas e de conscientização/ and actions for education, awareness/
humanização, promovidas por um centro humanization, promoted by the Bibli-Aspa,
de pesquisa, educação, cultura e ações a center for research, education, culture and
sociais, a Bibli-Aspa, que tem entre social actions, which features migrations
suas temáticas principais as migrações and refugees among its main focus areas.
e refúgios. Entre outros programas Among others, there are educational
educativos, observam-se os de língua programs for Portuguese language and
portuguesa e cultura brasileira, língua e Brazilian culture, Arabic language and
cultura árabe, francês e cultura africana, culture, French and African, Arabic or
árabe ou haitiana, inglês e cultura Haitian culture; English and African or
africana ou árabe, espanhol e cultura Arabic culture; Spanish and South-American
sul-americana, crioulo haitiano, história, culture, Haitian Creole, History, literature,
literatura, arqueologia, gastronomia e archaeology, cooking and handicraft.
artesanato.
Key words: refugees; immigrants;
Palavras-chave: refugiados; imigrantes; xenophobia; racism; intolerance.
xenofobia; racismo; intolerância.
N
uma conjuntura (inter) suas temáticas principais a das migrações,
nacional de crescente refúgios e deslocamentos.
xenofobia, racismo, dis- Como se sabe, o fluxo migratório de refu-
criminações e generali- giados no Brasil, além de trazer novos desafios
zações contra imigrantes estruturais, tem incentivado o país a repensar
e refugiados, são recor- mitos como o da “democracia racial”1 e o de
rentes os questionamen- que no país “todos são bem-vindos” sem dis-
tos sobre como mudar tinção de origem, cor, religião, gênero, iden-
esse quadro e acerca tidade de gênero, orientação sexual, etc. De
do papel e do posicio- fato, bastam alguns números para pulverizar
namento do Sul global a idealizada autoimagem do Brasil.
nessas relações. Com Muitos haitianos e africanos vêm ao Bra-
efeito, faz-se necessário sil na esperança de viver em um ambiente
debater mais – no Brasil e no mundo – sobre
xenofobia, racismo e intolerâncias várias e
sobre formas de enfrentá-los em contextos 1 Em 2012, 56 mil pessoas foram assassinadas no Brasil.
que não se restrinjam a ações imediatistas Dessas, 30 mil (mais da metade, portanto) são jovens
entre 15 e 29 anos e, desse total, 77% são negros. A
pós-assassinatos e outras atrocidades. maioria dos homicídios envolve armas de fogo e me-
De um lado, observam-se iniciativas no nos de 8% dos casos chegam a ser julgados. Apesar
dos altíssimos índices de homicídio de jovens negros,
campo da judicialização que visam a deter normalmente o tema é tratado com indiferença na
agenda pública nacional. Discriminação na distribui-
pessoas que incitam ao ódio e à violên- ção da justiça e da renda e no acesso à educação e
cia. De outro, ações educativas promovem ao trabalho são apenas algumas das múltiplas faces
vergonhosas desse quadro de racismo no Brasil.
conscientização e humanização ao mesmo
tempo em que reduzem estranhamentos e
preconceitos. Analisar-se-ão algumas dessas
iniciativas no âmbito da atuação de um cen-
PAULO DANIEL FARAH é professor da FFLCH-
tro de pesquisa, educação, cultura e ações USP, diretor do NAP Brasil-África da USP e membro
sociais, a Bibli-Aspa, que tem como uma de do grupo Diálogos Interculturais do IEA-USP.

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sem ou com pouco racismo, ao adotar como e ações que envolvam a sociedade e políti-
residência um país majoritariamente negro, cas públicas capazes de desenvolver ações
mas o cotidiano lhes revela espaços segrega- afirmativas e integrativas.
dos, políticas segregativas e racismo estrutu- Inserido no contexto internacional e com-
ral, acompanhados de xenofobia. Com efeito, plexo das migrações, o Brasil passou a rece-
a repulsa ao estrangeiro, a xenofobia, revela o ber, a partir de 2010, de forma crescente e
traço comum a discriminações que incluem, num cenário migratório que se estende até
de acordo com o grupo, racismo (no caso a atualidade, refugiados e imigrantes em
de africanos e haitianos) e intolerância reli- elevado grau de vulnerabilidade. No perí-
giosa (especialmente no caso de muçulmanos odo compreendido entre 2010 e 2015, as
e adeptos de religiões de matriz africana). solicitações de refúgio aumentaram 2.868%
De acordo com a Secretaria Especial no Brasil e passaram de 966 em 2010 para
de Direitos Humanos do governo federal, 28.670 em 2015. Até 2010 havia apenas 3.904
cresceram nos últimos anos as denúncias de refugiados reconhecidos no Brasil e, ao final
xenofobia e intolerância religiosa no Brasil. do ano de 2015, computavam-se 8.863 refu-
Violações dos direitos de migrantes e refu- giados2. Percebe-se uma alteração significa-
giados, ou seja, atos xenófobos, aumentaram tiva nos números e dados relacionados ao
633% em 2014 e 2015 (330 denúncias foram refúgio emitidos por agências/autoridades
acolhidas em 2015, contra 45 no ano ante- governamentais que lidam com a matéria,
rior). O então secretário de Direitos Huma- a saber: Ministério da Justiça, Polícia Fede-
nos, Rogério Sottili, citou como exemplos ral, Comitê Nacional para os Refugiados
perseguições contra haitianos, palestinos e (Conare)3 e escritório do Alto Comissariado
nordestinos que vão para o sul do país. das Nações Unidas para Refugiados (Acnur)
Os números da Secretaria Especial de no Brasil4, ainda que os números absolutos
Direitos Humanos da Presidência da Repú- sejam muito pequenos se comparados às
blica mostram que os haitianos constituem cifras internacionais.
a maioria das vítimas (26,8%), seguidos Relatório emitido pelo Acnur recente-
por pessoas de origem árabe ou de religião mente revela que, ao final de 2016, havia
muçulmana (15,45%). “A abertura do Bra- cerca de 65,6 milhões de pessoas forçadas a
sil para receber refugiados foi o principal
motivo para um crescimento desenfreado
desse tipo de crime”, declarou Sottili. Nos 2 Informações das Nações Unidas, por meio do Acnur.
casos de intolerância religiosa, o aumento foi Disponível em: https://nacoesunidas.org/acnur-brasil-
-abriga-mais-de-8-mil-refugiados-e-28-mil-solicitantes-
de 273% em 2015, comparado aos números -de-asilo-destaca-governo/.
do ano anterior. Foram 556 denúncias no 3 Órgão interministerial, liderado pelo Ministério da
Justiça, criado pela Lei n. 9.474/1997 (Estatuto dos
período, contra 149 em 2014. Refugiados), cujo objetivo é coordenar as ações de re-
Pesquisadoras e pesquisadores devem bus- gularização e reconhecimento do refugiado como tal,
bem como elaborar medidas para garantir a proteção
car estratégias para combater a xenofobia, e segurança dessas pessoas.
o racismo e quaisquer formas de discrimi- 4 Dados disponibilizados por essas autoridades em:
nação. Destarte, o estudo da integração de http://dados.mj.gov.br/dataset/comite-nacional-para-
-os-refugiados, https://pt.slideshare.net/justicagovbr/
refugiados deve visar a formular estratégias sistema-de-refgio-brasileiro-balano-at-abril-de-2016.

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deixar seus locais de origem por diferentes No filme Brasil Cordial: Corações e
tipos de conflitos, entre as quais 22,5 milhões Refúgios, produzido pela Bibli-Aspa, cida-
são refugiadas5 (a maioria com menos de 18 dãos de países como Síria, Palestina, Senegal,
anos). Os números revelam que uma em cada Congo e Bolívia relatam, em línguas como
113 pessoas no mundo é solicitante de refú- árabe, francês, espanhol e português, situ-
gio, refugiada ou deslocada interna; 34 mil ações de xenofobia e outras discriminações
pessoas abandonam diariamente suas casas referentes à inserção no mercado de trabalho
por conflitos ou ameaças. Atualmente, a Síria (ao saber que se trata de um refugiado ou
é o país responsável pelo maior número de imigrante, é recorrente que o entrevistador
deslocados internos (7,6 milhões de pessoas) dispense a pessoa, relatam), à dificuldade
e de refugiados (5,58 milhões). de abrir uma conta no banco, de validar o
De fato, o Brasil não é mais um “país diploma e de ser tratado dignamente. Uma
de imigrantes”, ao contrário do que dita e imigrante boliviana conta que, ao entrar em
preconiza o imaginário nacional, uma vez um ônibus, é comum que alguns passageiros
que menos de 1% da população brasileira é tapem o nariz e façam gestos depreciativos
estrangeira (há aproximadamente 1,7 milhão como se ela não houvesse tomado banho.
de estrangeiros no país). A partir da década “A maior parte das pessoas acredita que,
de 1990, o Brasil passou a ser um país de quando você é negro ou vem da África, você
emigrantes, de modo que o número de bra- não tem capacidade intelectual. Na verdade,
sileiros no exterior ultrapassou a quantidade na África não é isso o que acontece. Lá exis-
de estrangeiros no país. Ainda assim, os tem muitas pessoas que são enormemente
discursos xenófobos persistem, embora não inteligentes”, afirma no filme um professor
incluam recomendações aos países que aco- senegalês que fala cinco idiomas fluente-
lhem brasileiros para que os expulsem ou mente; como se sabe, o multilinguismo é
os tratem de forma discriminada. muito mais presente na África do que na
Marcado por um histórico de massacres e América do Sul, assim se trata de apenas
humilhações contra indígenas e negros (con- uma das várias formas pelas quais o Brasil
traposto por resistências e dignidade), em se beneficia cultural, social, econômica e
prol de um projeto de embranquecimento da humanamente dessas interações.
população, o Brasil perde a oportunidade de O mesmo refugiado africano que relata
redimir um pouco essa mácula do ferrete e situações de xenofobia e racismo, e sur-
por fim tratar de forma digna e integrativa preende-se com a imagem estereotipada da
indígenas brasileiros e sul-americanos em África no Brasil, afirma no filme: “Quando
geral e negros brasileiros, africanos, haitia- você é educador, deve dar bom exemplo a
nos e de qualquer outra procedência, além todos”. Mesmo em um cenário desses, sua
de refugiados e imigrantes como um todo. preocupação como professor deveria inspirar
o sistema educacional no Brasil.
A instalação Odiolândia, da artista Giselle
5 Dados disponibilizados em: http://www.acnur.org/por- Beiguelman, reúne trechos de comentários
tugues/recursos/estatisticas/. Contribuíram para esses
dados também as crises na Síria, no Congo, no Sudão
publicados nas redes sociais sobre as ações
do Sul, no Iraque, no Afeganistão e na Colômbia. da Prefeitura de São Paulo e do governo do

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estado de São Paulo na Cracolândia. Majo- goleses, iraquianos, angolanos, palestinos,


ritariamente favoráveis ao uso de armas e à camaroneses, nigerianos, etc. Segundo dados
repressão, expressam ainda ódio a nordesti- do Conare, o Brasil possui (nos dados de
nos, muçulmanos, sem-terra e homossexuais, abril de 2016) 8.863 pessoas reconheci-
entre outros. das como refugiados de 79 nacionalidades
A cultura do ódio permeia comentá- distintas, entre os quais sírios, congoleses,
rios como “A maioria desses viciados são iraquianos, angolanos, palestinos, camaro-
nordestinos... O governo precisa enviá-los neses, nigerianos, etc. Desses 8.863, 28,2%
para suas terras de volta. Que Deus aben- são mulheres. Entre as nacionalidades que
çoe todas as pessoas e pau nos vagabundos. mais solicitam refúgio estão: 2.298 vindos
Era melhor ter deixado todos juntos e testar da Síria, 1.420 vindos de Angola, 1.100 da
nesses zumbis algumas armas químicas ou Colômbia, 968 da República Democrática
simplesmente tacar fogo em todos. Pra cima do Congo e 376 da Palestina6.
desses vermes dos direitos dos manos. São Por meio da Resolução Normativa do
Paulo livre das drogas, rumo ao progresso, Conare número 12, de 20/9/2013, prorro-
família cristã e trabalho! Vai, comunista, gada pela Resolução Normativa do Conare
engane mais um punhado de trouxas... Vai número 20, de 21/9/2015, o Brasil tem rece-
entregando São Paulo para os mulçumanos bido refugiados sírios num novo fluxo –
[sic]. Viva a ditadura!”. uma vez que há uma migração histórica
Exemplo desse discurso aparece em um de árabes, especialmente de sírios e liba-
vídeo publicado em redes sociais em agosto neses, para o país desde o século XIX. O
de 2017 que mostra um homem exaltado, Brasil abriga uma comunidade de aproxi-
em Copacabana, a gritar repetidas vezes madamente 16 milhões de árabes e des-
“Sai do meu país!”, ao mesmo tempo em cendentes, o que revela que o número de
que ostenta dois pedaços de madeira nas refugiados recentemente vindos da Síria é
mãos e ameaça Muhammad Ali, refugiado muito pequeno se comparado à presença
sírio residente há três anos no Brasil, no Rio de descendentes no país. É importante que
de Janeiro, onde trabalha a vender esfihas e se estude o referido fluxo migratório para
doces típicos. “O nosso país tá sendo inva- haver condições de implementar políticas
dido por esses homens bombas, que matam públicas que facilitem a integração dessa
crianças”, afirma o agressor. e de outras populações, com o intuito de
No Brasil,  xenofobia  é crime tipificado minimizar os conflitos que poderiam sur-
na Lei 9.459, de 1997. Seu primeiro artigo gir nessa recepção e posterior convivên-
diz: “Serão punidos, na forma desta lei, os cia entre tais povos. A compreensão desse
crimes resultantes de discriminação ou pre- fluxo migratório também permite que se
conceito de raça, cor, etnia, religião ou pro- adotem medidas, especialmente no campo
cedência nacional”. Apesar disso, quase não educacional, para evitar a xenofobia e o
há registros de denúncias que prosseguiram preconceito.
na Justiça ou de xenófobos punidos. 
Há refugiados no Brasil de quase 80
nacionalidades, entre os quais sírios, con- 6 Sobre o tema ver Dutra (2016).

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De fato, o aumento na migração traz ou opiniões políticas encontre-se fora de
alguns desafios ao Brasil, entre os quais se seu país de nacionalidade e não possa ou
destacam a integração na sociedade, a não não queira acolher-se à proteção de tal
violação de seus direitos humanos, o acesso país; II - não tendo nacionalidade e estando
a serviços públicos, a regularização de sua fora do país onde antes teve sua residência
situação migratória, entre outras questões que habitual, não possa ou não queira regres-
se acentuaram, especialmente pela situação sar a ele, em função das circunstâncias
de alta vulnerabilidade dos refugiados. Um descritas no inciso anterior; III - devido a
dos desafios encontrados foi o de lidar com grave e generalizada violação de direitos
um fenômeno novo e atípico por meio de humanos, é obrigado a deixar seu país
mecanismos legislativos antigos, ambientados de nacionalidade para buscar refúgio em
na época da ditadura militar (Estatuto do outro país”.
Estrangeiro, de 1980) e em período recente
após a redemocratização (Estatuto dos Refu- Inicialmente se observa que o Brasil
giados, de 1997). adotou uma definição ampla, que considera
Crises, perseguições, opressão e vio- pessoas fugitivas de “graves e generalizadas
lações de direitos humanos em determi- violações de direitos humanos” como sujei-
nada localidade forçam o deslocamento das tas à proteção na qualidade de refugiadas.
pessoas, originando a condição de refúgio Essa definição, que atende às diretrizes da
nos termos da legislação brasileira e do Declaração de Cartagena de 19848, é mais
direito internacional. O artigo 1º do Esta- abrangente se comparada à definição da
tuto dos Refugiados7 conceitua o refugiado Convenção de Genebra de 1951.
da seguinte forma: A definição prevista no Estatuto dos Refu-
giados serviu não apenas para aperfeiçoar
“Art. 1º Será reconhecido como refugiado o instituto do refúgio como também para
todo indivíduo que: I - devido a fundados diferenciar fluxos migratórios distintos de
temores de perseguição por motivos de acordo com as motivações que levaram ao
raça, religião, nacionalidade, grupo social deslocamento. A definição legal foi impor-
tante para distinguir fluxos migratórios mais
recentes de outros vivenciados no Brasil.
Até 1997, a política migratória brasileira era
7 O Estatuto dos Refugiados é produto do Programa
Nacional de Direitos Humanos de 1996, assim o pro- regida pelo Estatuto do Estrangeiro (1980),
jeto de lei em questão passou pela análise de diver- que fazia menção ao refugiado, mas não o
sas comissões, entre as quais Comissão dos Direitos
Humanos, Constituição e Justiça e Relações Exterio-
res. Em função da época em que foi promulgado,
período relativamente curto após a redemocratiza-
ção do país, o texto legal em análise ainda apresenta
resquícios dos princípios norteadores da ditadura 8 Conclusão pela extensão do conceito de refugiado,
militar, tendo por conceitos balizadores a segurança considerando a definição já adotada na Convenção
nacional e a ordem pública (entendimento também de Genebra de 1951 e no Protocolo Adicional de
encontrado no Estatuto do Estrangeiro), qualificando 1967, nos termos do item III, parágrafo terceiro da
o refugiado não como sujeito de direito, mas como Declaração. Disponível em: http://www.acnur.org/t3/
“intruso” e/ou “ameaça” ao território nacional (pode- fileadmin/Documentos/portugues/BD_Legal/Instru-
-se citar como exemplos do texto legal os artigos 7º, mentos_Internacionais/Declaracao_de_Cartagena.
§ 2º, 8º, 36, 39, II e III). pdf?view=1. Acesso em: 12/7/2017.

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definia9. Ademais, os outros destinatários do deslocamento forçado de milhões de pes-


Estatuto do Estrangeiro – imigrante perma- soas. Para Julia Bertino Moreira (2005, p.
nente, turista, em trânsito, etc. – não eram 59), “[...] Cabe destacar que os países da
definidos de forma precisa. América Latina se inseriram nesse contexto
Não obstante as dificuldades enfrentadas internacional, haja vista que, durante o pós-
pelo imigrante tanto na partida do país de -guerra, nos anos de 1947 a 1952, acolhe-
origem quanto na adaptação ao país recep- ram 100 mil refugiados europeus em seus
tor, a imigração ainda está condicionada territórios”.
à decisão do indivíduo. Isto é, exige uma Depois da Segunda Guerra Mundial sur-
reflexão prévia e um planejamento finan- giu a necessidade de criação de um instru-
ceiro e pessoal. É justamente o poder de mento que trouxesse a definição de refu-
decisão e a reflexão e o planejamento pré- giados e assim, em 1951, a ONU adotou a
vios que diferenciam o imigrante do refu- Convenção Relativa ao Estatuto dos Refu-
giado. Percebe-se que, pela descrição legal, giados, passando a vigorar a partir do dia
os refugiados são, em linhas gerais, a “con- 21 de abril de 1954. Nesse mesmo ano, a
sequência humana” de graves crises que ONU criou o Alto Comissariado das Nações
geram violações de direitos humanos. Nesse Unidas para Refugiados (Acnur), que tem,
cenário, a urgência da situação não permite entre suas inúmeras funções, a de assegu-
que o refugiado planeje ou reflita sobre a rar a proteção internacional dos refugiados.
sua partida, a decisão é tomada como con- Para a Convenção de Genebra de 1951,
sequência de um fenômeno extremo e se bem como para o Protocolo de 1967, são
reveste como fuga. Assim, é o aspecto de refugiadas todas as pessoas que se encontrem
emergência e fuga que reveste o instituto em fundado temor de perseguição por moti-
do refúgio com um alto grau de vulnerabili- vos de raça, religião, nacionalidade, opinião
dade do indivíduo, justificando a existência política ou que pertençam a determinados
de estruturas normativas e institucionais grupos sociais e estejam fora, a qualquer
diferenciadas para lidar com a situação, tempo, de seu país de origem e não pos-
distintas da situação imigratória. sam a ele retornar. O Protocolo de 1967
Os deslocamentos e as migrações no Bra- trouxe também, de forma expressa, a possi-
sil e no mundo ocorrem desde muito tempo, bilidade do surgimento de novas categorias
com maior frequência em alguns períodos de refugiados, bem como retirou a limita-
históricos, por motivos como desastres natu- ção temporal e geográfica. Assim dispõe o
rais, seca, fome, guerras, perseguições ou Protocolo de 1967:
simplesmente pela busca de uma vida melhor
em um local diferente. Para tanto, pode-se “[...] Considerando que, desde que a Conven-
utilizar a Segunda Guerra Mundial (1939- ção foi adotada, surgiram novas categorias
1945) como referência histórica no tocante de refugiados e que os refugiados em causa
aos refugiados, uma vez que ela gerou o podem não cair no âmbito da Convenção,
considerando que é desejável que todos os
9 Artigo 55, I, c do Estatuto do Estrangeiro (Lei n.
refugiados abrangidos na definição da Con-
6.815/1980). venção, independentemente do prazo de 1

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de janeiro de 1951, possam gozar de igual tuto, devendo ser classificadas apenas como
estatuto [...]”10. migrantes econômicos e, portanto, sujeitas
à deportação, caso estejam indocumentadas
De acordo com as atribuições conferidas ou tenham ingressado de forma irregular no
aos países membros da ONU, é competên- Estado (Ramos, 2011, p. 28).
cia do Alto Comissariado das Nações Uni- O cenário internacional indica níveis altís-
das para os Refugiados (Acnur) promover simos de deslocamentos e fluxos migratórios
instrumentos internacionais para a proteção forçados em razão de guerras, violências e
dos refugiados e supervisionar a sua apli- perseguições. Esses fluxos geram grandes e
cação. Dessa forma, qualquer Estado que emergenciais demandas e convidam à refle-
tenha ratificado a Convenção de 1951 ou o xão. De forma concomitante aos desafios
Protocolo de 1967 está obrigado a cooperar que vêm sendo enfrentados e questiona-
com o Acnur no desenvolvimento das suas dos, os indicadores continuam a aumentar
atribuições e a respeitar o Estatuto dos Refu- a cada ano, de modo que o último relatório
giados, ou seja, cumprir as normas básicas do Acnur mostra que, no ano de 2016, o
da Convenção de 1951, como, por exemplo: número de refugiados no Brasil subiu 9,3%
e o número de pedidos de refúgio também
“[...] Não discriminar ninguém em virtude aumentou em 23,6%, este último crescimento
da sua raça, religião, sexo e país de origem refletido na crise da Venezuela11.
e respeitar o princípio do ‘non refoulement’, A maior parte de solicitações no Bra-
ou seja, não poder ‘devolver’ ao país de ori- sil compreendidas entre 2010 e 2015 foi
gem alguém que no mesmo possa vir a ser feita por sírios e haitianos12. No primeiro
vítima de perseguição [...]”. grupo, há grande número de muçulmanos. No
segundo, uma população negra. Nesse qua-
Um dos princípios fundamentais esta- dro, observa-se que a xenofobia é agravada
belecidos no direito internacional, como se pela intolerância religiosa e pelo racismo. A
observa, é que os refugiados não devem ser crise na Síria é a maior registrada desde a
expulsos ou devolvidos a situações em que Segunda Guerra Mundial e tem afetado de
sua vida e liberdade estejam em perigo. Para forma drástica os países fronteiriços, espe-
André de Carvalho Ramos, as pessoas víti- cialmente Turquia, Líbano e Jordânia, que
mas de violações de direitos civis e políticos, recebem os refugiados em maior quantidade
em determinadas circunstâncias, encontram por questões geográficas.
amparo no Estatuto dos Refugiados, porém, Há um mito que diz que a maioria dos
as pessoas que sofrem violações de direitos refugiados vai para os países desenvolvidos.
básicos, como educação, saúde e alimenta-
ção, não podem encontrar respaldo no Esta- 11 Disponível em: http://agenciabrasil.ebc.com.br/
direitos-humanos/noticia/2017-06/relatorio-do-acnur-
-mostra-aumento-do-pedido-de-refugios-no-brasil.
Acesso em: 10/7/2017.
10 Protocolo de 1967 Relativo ao Estatuto dos Refugia-
dos. Disponível em: http://www.acnur.org/fileadmin/ 12 Disponível em: https://pt.slideshare.net/justicagovbr/
scripts/doc.php?file=fileadmin/Documentos/portu- sistema-de-refgio-brasileiro-balano-at-abril-de-2016,
gues/BD_Legal/Instrumentos_Internacionais/Protoco- acessado em 16/7/2017. Em 2015, contabilizaram-se 75
lo_de_1967. Acesso em: 7/7/2017. mil haitianos no Brasil.

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Historicamente, a maioria dos refugiados vai de 2011, está deslocada internamente ou


para os países em desenvolvimento. Em 2014, refugiada em outro país15.
verificou-se a maior porcentagem da histó- O Haiti, país caracterizado por um grande
ria de refugiados em países em desenvol- fluxo emigratório, justificado principalmente
vimento: 86% do total. O Líbano abriga o por sua trajetória de independência da França
maior número de refugiados per capita no no início do século XIX, tem sua história
mundo. Quase um quarto da população liba- marcada por uma sucessão de eventos e pro-
nesa (cerca de 25%) atualmente é formado cessos que contribuíram para o agravamento
por sírios; comparativamente, seria como se das condições de vida e situação econômica
o Brasil abrigasse por volta de 50 milhões no país desde então. Os embargos sofridos
de refugiados, ao passo que o país acolhe e os pagamentos de indenizações à França
menos de 0,1% de refugiados em relação à acordados no processo de independência
sua população total. produziram fragilidade econômica após a
A tentativa de escapar de conflitos e emancipação, sucedida por crises de insta-
outras mazelas por parte dos refugiados tem bilidade política, ocupações, guerras civis
gerado outros eventos marcantes e dramá- e catástrofes naturais. Além de todo esse
ticos, como os naufrágios no Mar Mediter- cenário histórico, político e econômico que
râneo, a política migratória da Europa e o contribuiu para os déficits estruturais do país,
crescimento da xenofobia e da extrema direita impedindo o desenvolvimento da população,
na região, o que gera repercussão mundial que enfrenta grandes desafios para o acesso a
sobre o tema. Só em 2015 foram registradas direitos e a serviços públicos básicos, surtos
4.913 mortes13 ocorridas na travessia. de cólera16, inundações, terremotos e fura-
A Síria enfrenta um conflito de proporções cões complementaram o rol de dificuldades
mundiais desde 2011 que vem se intensifi- encontradas pelo país para se reconstruir.
cando e que já gerou 5,58 milhões de refu- Em 2010, um terremoto de grande escala
giados e 7,6 milhões de deslocados internos14. assolou o país e prejudicou a estrutura básica
Entre os números de refugiados registrados mínima do Haiti. Após o terremoto, 45 mil
nos últimos anos no mundo, a crise na Síria pessoas ficaram sem acesso a eletricidade e
ainda é a responsável pela geração do maior 500 mil deixaram a capital haitiana, Porto
fluxo. E, como apresentado acima, trata-se do Príncipe, para outras regiões do país. Res-
maior número de refugiados atualmente no salta-se que a intensidade do terremoto não
Brasil. O conflito na Síria é um dos prin- foi a única responsável pelos impactos de
cipais responsáveis pelo crescente número destruição no Haiti, mas contribuiu para
de deslocamentos no mundo, sendo que dois intensificar toda a precariedade estrutural
terços da sua população, considerada antes proveniente do seu desenvolvimento histó-
rico, político e social deficitário.

13 D a d o s d i s p o n í v e i s e m : h t t p : // w w w. i b d m a r.
org/2017/01/travessia-do-mediterraneo-o-enorme-
-saldo-de-migrantes-e-refugiados-mortos-em-2016/. 15 Dados disponíveis em: http://www.acnur.org/portu-
Acesso em: 15/8/2017. gues/recursos/estatisticas/. Acesso em: 14/7/2017.
14 Dados disponíveis em: http://www.acnur.org/portu- 16 Surto relevante ocorrido em 2010, com grande núme-
gues/recursos/estatisticas/. Acesso em: 14/7/2017. ro de afetados e aproximadamente 4 mil mortos.

20 Revista USP • São Paulo • n. 114 • p. 11-30 • julho/agosto/setembro 2017


“Em relação aos fatores de atração do Brasil a segurança nacional e a ordem pública, o
como destino migratório para os haitianos, que causa certo antagonismo na identifica-
Silva (2012) aponta os mais relevantes: a ção dos seus destinatários finais. Ao consi-
visibilidade do país suscitada pela atuação derar o estrangeiro, de forma geral, como
do Exército brasileiro na liderança das forças ameaça à segurança nacional, a legislação
de paz da ONU desde 2004; a robustez da acaba por anunciar que o seu destinatário,
economia brasileira – a 6ª no ranking dos sujeito de direitos, é o próprio país, deixando
maiores PIBs mundiais no ano de 2010 – em em segundo plano os imigrantes e refugia-
face da desaceleração das economias euro- dos, que deveriam ser também considerados
peias; o aumento das restrições à entrada de protagonistas. Dessa forma, essa estrutura
migrantes nos países centrais; e o discurso legislativa passou a ser questionada de forma
da diplomacia brasileira no cenário inter- intensificada a partir de 2010, com o aumento
nacional, que se posiciona como defensora do fluxo migratório no Brasil18, estimulando
ativa dos direitos humanos e como incenti- a reflexão brasileira acerca da sua política
vadora da cooperação dos demais países na migratória e das estruturas disponíveis para a
reconstrução do Haiti” (Silva, 2016, p. 332). implementação de políticas públicas voltadas
para a recepção e a inserção de refugiados
Ao considerar que a situação dos haitianos no plano interno.
não se enquadrava na definição de refugiado Em 2013, foi apresentado o projeto de lei
prevista no Estatuto dos Refugiados, o Brasil para instituir a Lei de Migração e regular a
os recepcionou por meio do visto humanitá- entrada e a estada de estrangeiros no Bra-
rio previsto no Estatuto do Estrangeiro, Lei sil, tendo por justificava a criação de uma
n. 8.815/1980. Se o Estatuto dos Refugia- lei que trata o migrante como um sujeito
dos promulgado após a redemocratização do de direito e não mais como uma ameaça à
Brasil ainda mantém resquícios do regime segurança nacional.
militar, o Estatuto do Estrangeiro, promul- O projeto de lei enfrentou desafios
gado em 1980, época em que a ditadura justamente por tentar abarcar aspectos de
militar estava em pleno vigor, traz conceitos conteúdo polêmico em um único instru-
e diretrizes ainda mais marcantes no que mento legal19 (diversidade de destinatários,
tange à caracterização do imigrante como formas de entrada, permanência e expul-
“intruso” e “ameaça nacional”17. são no país, entre outros) e, ainda, manter
Até este ano de 2017, o Brasil tinha, no diretrizes voltadas à dignidade da pessoa
plano interno, essas duas legislações princi-
pais para reger a matéria de recepção e inte-
18 Entre 2010 e 2015 as solicitações de refúgio aumenta-
gração de refugiados e imigrantes: o Estatuto ram 2.868%, de acordo com os dados disponibilizados
dos Refugiados e o Estatuto do Estrangeiro,
pelas Nações Unidas, por meio do Acnur: https://
nacoesunidas.org/acnur-brasil-abriga-mais-de-8-mil-
de forma complementar. Ambos os aparatos -refugiados-e-28-mil-solicitantes-de-asilo-destaca-
-governo/.
legislativos têm por conceitos balizadores
19 Exemplo de como a questão migratória foi inter-
pretada de forma polêmica pela mídia disponível
em: https://oglobo.globo.com/brasil/senado-aprova-
17 Pode-se citar como exemplo o artigo 2º do Estatuto -polemica-lei-de-migracao-com-apoio-da-base-da-
do Estrangeiro. -oposicao-21226259. Acesso em 25/7/2017.

Revista USP • São Paulo • n. 114 • p. 11-30 • julho/agosto/setembro 2017 21


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humana, garantia de direitos básicos aos Latina que mais acolhe refugiados e solici-
refugiados e imigrantes em estado de vul- tantes de refúgio.
nerabilidade20, assim como outras disposi- Em relação ainda à cidade de São Paulo,
ções não previstas na legislação anterior como se sabe, a prefeitura do município
tais como a igualdade, a não discriminação tem a sua estrutura composta de secreta-
e o combate à xenofobia 21. rias temáticas, entre as quais a Secretaria
O Brasil, ao aderir no cenário interna- Municipal dos Direitos Humanos e Cidada-
cional aos principais tratados voltados aos nia (SMDHC), que foi criada pelo Decreto
refugiados e aos direitos humanos, bem como Municipal n. 53.685 de 1º de janeiro de 2013
ao internalizar referidos princípios em sua e tem por objetivo “aprimorar a articula-
Constituição Federal e ao discutir e apro- ção e a gestão transversal das políticas de
var (ainda que com vetos) um novo projeto direitos humanos e participação social na
de lei destinado ao migrante, demonstra prefeitura de São Paulo”22. Por sua vez, a
certo engajamento institucional para efeti- SMDHC é estruturada em unidades espe-
var referidos direitos sociais aos refugiados cíficas compostas de coordenadorias, entre
no país. Resta compreender se as priori- as quais a Coordenadoria de Promoção e
dades da regularização dos refugiados em Defesa de Direitos Humanos. Inserida nessa
território nacional atingirão diretamente a coordenadoria, encontra-se a Coordenação
formulação de ações na área da educação, de Políticas para Migrantes (CPMig), cuja
tanto em âmbito nacional quanto regional criação é fundamentada no artigo 242, VII,
e local. Até o momento, não parece haver da Lei Municipal n. 15.764/2013. A CPMig
indícios disso. tem por objetivo “articular as políticas públi-
Construída por migrantes internos e exter- cas migratórias no município de São Paulo
nos, além de refugiados, a maior cidade do e criar e implementar as políticas munici-
Brasil, São Paulo, é retrato da miscelânea pais para migrantes e de enfrentamento à
multicultural característica do país. Atual- xenofobia”23.
mente, é também morada de milhares de
refugiados de aproximadamente 80 nacio- ESTRATÉGIAS DE COMBATE
nalidades e representa a cidade da América
À XENOFOBIA, AO RACISMO
E À INTOLERÂNCIA
20 Nesse sentido, afirma o proponente do projeto de lei:
“A importância de se fixar princípios é de nortear o
setor por diretrizes claras e humanistas. Desse modo, Como demonstrado neste artigo, infeliz-
a considerar o tema como inserido no contexto da mente crescem as manifestações de into-
proteção internacional de direitos humanos, inicia-se
por destacar a interdependência, universalidade e lerância no Brasil e no mundo. Situações
indivisibilidade dos direitos humanos dos imigrantes,
decorrentes de tratados dos quais o Brasil seja parte”.
Trecho da Justificativa do Projeto de Lei do Senado n.
288/2013. Disponível em: file:///C:/Users/eliss/Downlo- 22 Disponível em: http://www.prefeitura.sp.gov.br/cida-
ads/sf-sistema-sedol2-id-documento-14081%20(2).pdf, de/secretarias/direitos_humanos/a_secretaria/index.
p. 35. php?p=148581. Acesso em: 18/9/2017.
21 Esses princípios e diretrizes estavam presentes desde 23 Disponível em: http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/
a primeira redação do projeto no artigo 2º, até a reda- secretarias/direitos_humanos/migrantes/coordenacao/
ção final sancionada. index.php?p=156223. Acesso em: 18/9/2017.

22 Revista USP • São Paulo • n. 114 • p. 11-30 • julho/agosto/setembro 2017


de preconceito, xenofobia e racismo contra da África, Arqueologia do Oriente Médio,
imigrantes e refugiados incluem discursos de Caligrafia Árabe, entre outros programas/
ódio em mídias sociais e agressões verbais e cursos. As professoras e professores provêm
físicas. Para citar um entre vários exemplos da Nigéria, Senegal, Camarões, Síria, Pales-
das violações observadas e pesquisadas pela tina, Haiti, Marrocos e Chile, entre outras
Bibli-Aspa – centro de pesquisa, cultura e localidades. Se, no passado, ao divulgar esses
ações sociais dedicado a temáticas árabes, programas, havia poucas manifestações de
africanas e sul-americanas, migração, refú- intolerância, nos últimos cinco anos essa
gio e deslocamentos –, registra-se que mui- realidade mudou. Ilustrações de bombas,
tas das ações dessa instituição costumam comentários xenófobos, racistas, religiosa-
receber manifestações de apoio nas mídias mente intolerantes, acompanhados de ima-
sociais. Por outro lado, os discursos de ódio gens depreciativas e discursos de incitação
e de incitação à violência contra refugiados à violência marcaram algumas das mani-
e imigrantes aumentaram significativamente festações nas mídias sociais da instituição.
nos últimos anos. Como resposta, adotaram-se medidas judi-
A Bibli-Aspa desenvolve desde 2003 pro- ciais contra alguns dos incitadores ao ódio e
gramas educativos, culturais e sociais que um fortalecimento das campanhas educativas.
envolvem imigrantes e refugiados. Nesses Ou seja, seguiu-se a fórmula de educação/
programas, desde o princípio, alia o ensino conscientização e judicialização.
de idiomas ao ensino de culturas, no enten- A pergunta que se faz ante os exem-
dimento de que é fundamental conhecer plos citados e o quadro atual no Brasil e
os aspectos culturais de uma sociedade no mundo é: “Como combater intolerâncias,
para uma comunicação efetiva e plena e racismo e xenofobia?”. A resposta inclui
também para obter inclusão e integração. necessariamente os princípios de promo-
O intercâmbio cultural entre brasileiros e ção da não violência, da cultura de paz e
migrantes/refugiados enriquece ambos os das expressões culturais de povos árabes,
lados, na medida em que promove apro- africanos e sul-americanos, entre outros, em
ximação e troca de experiências, saberes, benefício do respeito mútuo e da diversidade.
dizeres e fazeres. Cultura de paz significa, na definição da
A Bibli-Aspa desenvolve o Programa de Unesco, o comprometimento de promover e
Língua e Cultura Árabe, Programa de Lín- vivenciar o respeito à vida e à dignidade de
gua Francesa e Cultura Africana, Programa cada pessoa sem discriminação ou precon-
de Língua Francesa e Cultura Árabe, Pro- ceito, a rejeição a qualquer forma de vio-
grama de Língua Francesa e Cultura Árabe lência, o compartilhar de tempo e recursos
e Magrebina, Programa de Língua Inglesa com generosidade a fim de terminar com a
e Cultura Africana, Programa de Língua exclusão, a injustiça e a opressão política
Inglesa e Cultura Árabe, Programa de Lín- e econômica, desenvolver a liberdade de
gua Espanhola e Cultura Sul-Americana, expressão e diversidade cultural através do
Programa de Língua Francesa e Cultura diálogo e da compreensão do pluralismo,
Haitiana, Crioulo Haitiano e Cultura Hai- manter um consumo responsável respeitando
tiana, História do Oriente Médio, História todas as formas de vida e contribuir para

Revista USP • São Paulo • n. 114 • p. 11-30 • julho/agosto/setembro 2017 23


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o desenvolvimento da comunidade, área, de Apoio à Pesquisa (NAP) Brasil-África da


país e planeta.   USP, com a participação de Unesco, Acnur,
A Bibli-Aspa compartilha essa visão e Ministério das Relações Exteriores, Ministé-
tem se empenhado para que esses princípios rio Público Federal, Ministério Público Esta-
permeiem todas as ações que desenvolve, de dual, Defensoria Pública da União, Ministé-
forma interdisciplinar. Há mais de dez anos, rio da Justiça, USP e outras universidades,
desenvolve programas educativos e culturais centros de pesquisa e instituições vinculadas
tendo como visão a promoção da cultura de ao tema, além da fundamental participação
paz. Como consequência, obteve reconheci- dos próprios imigrantes e refugiados –, reme-
mento de órgãos nacionais e internacionais, tem a uma inquietação transversal às várias
como a ONU, a Unesco, o Mecanismo Aspa temáticas: a xenofobia, que, sob diferentes
(por meio de declarações firmadas por chefes óticas, foi tema de reflexão em muitas das
de Estado e ministros árabes e sul-ameri- oito mesas (e nas falas de vários dos 50
canos), a Presidência do Brasil, Ministérios palestrantes) que compuseram o seminário.
da Cultura, Educação e Relações Exterio- Teve um papel importante na realização
res e universidades do Brasil em particular do seminário o grupo de pesquisa Temá-
e da América do Sul em geral, da África, ticas, Narrativas e Representações Árabes,
do Oriente Médio e de outras regiões. A Asiáticas, Africanas, Sul-Americanas e de
Bibli-Aspa promove conscientização acerca Comunidades Diaspóricas, que contempla,
de migração e refúgio por meio de pales- entre suas linhas de pesquisa:
tras, debates, rodas de conversa, seminários,
publicações, exposições e ações culturais. 1) refugiados, educação, aprendizado de
O que significa ser refugiado? Por que português e aspectos linguísticos;
alguém se torna refugiado? Para onde essas 2) refugiados e inserção na sociedade;
pessoas vão e de onde elas vêm? Que direi- 3) refugiados, infraestrutura e ocupação
tos possuem? Como o Brasil tem se posi- urbana;
cionado? Quais os principais grupos de 4) refugiados e representação na mídia;
migrantes e refugiados que vivem no Brasil, 5) refugiados, direitos humanos e aspectos
na América do Sul, no Oriente Médio e na jurídicos;
África? Como suas culturas se caracterizam? 6) refugiados e democratização do acesso
Como é possível apoiar a integração e o aos serviços públicos;
bem-estar dessas pessoas e que iniciativas 7) refúgio e política externa brasileira;
são promovidas com esse intuito? Como 8) refugiados, aspectos culturais e produ-
combater toda e qualquer forma de xeno- ção artística;
fobia, racismo e intolerância? 9) turismo afro-árabe e refugiados;
Essas questões, amplamente debatidas, nos 10) refugiados, generalizações e discrimi-
dias 29 e 30 de março e 1º de abril de 2017, nação;
no “Seminário Internacional sobre Migra- 11) refugiados e aspectos psicológicos: do
ções, Refúgios e Deslocamentos” – organi- deslocamento à integração e inserção;
zado pela Bibli-Aspa, pelo Ministério das 12) refugiados: saúde, cultura e educação;
Relações Exteriores do Brasil e pelo Núcleo 13) refugiados e culinária.

24 Revista USP • São Paulo • n. 114 • p. 11-30 • julho/agosto/setembro 2017


A instituição congrega pesquisadores, em razão de intolerância religiosa, racismo
acadêmicos e artistas de mais de 40 países ou questões de gênero”.
nesse esforço de reflexão crítica.
Em outubro de 2016, a Bibli-Aspa ajudou PATRIMÔNIO INTELECTUAL
a organizar, com instituições como o NAP
E CULTURAL DE REFUGIADOS
Brasil-África da USP, a Secretaria Municipal
de Direitos Humanos e a DPU, entre outras,
o ciclo de debates “Muçulmanas e Muçulma- A instituição procura mostrar o patrimô-
nos no Brasil e Violações de seus Direitos nio intelectual e cultural dos refugiados e
Humanos”, cujos objetivos principais eram: como esse arcabouço  beneficia o Brasil,
a) analisar as configurações socioculturais renovando as artes brasileiras e tornando
do islã no Brasil; b) desconstruir o vínculo o país mais multilíngue e diverso.
entre islã e terrorismo; c) denunciar mani- A experiência da imigração e do refú-
festações de intolerância religiosa, xenofobia gio aparece de forma marcante em obras
e racismo no Brasil, particularmente contra literárias redigidas na Palestina, na Síria,
imigrantes oriundos do continente africano. no Líbano, no Iraque, no Egito, nos Emi-
Os debates realizaram-se em três dias de rados Árabes, na Jordânia, no Marrocos e
atividades com os seguintes temas: “Lei em outros países árabes e africanos e da
antiterrorismo e seus efeitos sobre a migração diáspora, como o Brasil – espaço literário
e o refúgio”; “Construção histórica da ideia privilegiado para árabes e descendentes desde
de terrorismo”; “Configurações socioculturais o século XIX.
do islã no Brasil”. Das viagens em busca de conhecimento
Dois meses antes, em agosto de 2016, (ver Farah, 2007; Battuta, 2010) – tradicio-
grupo similar havia emitido uma declaração nais na produção de saberes por parte de
“Em Prol dos Direitos Humanos”: populações árabes – aos fluxos migratórios
dos séculos XIX, XX e XXI, a temática do
“Considerando os marcos legais que assegu- deslocamento na literatura árabe retoma o
ram os direitos humanos, o direito à liber- vigor que caracterizou o final do século XIX
dade religiosa, à igualdade racial, à mobili- e o início do século XX. Nesse período,
dade e à migração, expressamos preocupação literatos árabes que viviam nas Américas
com as crescentes manifestações de into- (sobretudo em São Paulo e Nova York) cria-
lerância religiosa, xenofobia e racismo no ram significativas obras de prosa e poesia
Brasil [...]. Repudiamos as ameaças, as dis- que serviram de modelo aos autores árabes
criminações, os atos racistas, os constrangi- no Oriente Médio e ajudaram a revitalizar
mentos e todas as violações enfrentadas por essa literatura. Nesse movimento, denomi-
espaços religiosos, migrantes e refugiados, nado Adab al-Mahjar24, o exílio já se reve-
muçulmanas e muçulmanos, particularmente
imigrantes oriundos do continente africano
[...]. Manifestamo-nos a favor dos direitos 24 Literatura de migração. Mahjar significa, literalmente,
humanos em sua plenitude, da cultura de paz “lugar da migração”. Em geral, refere-se à literatura es-
crita no continente americano, sobretudo nos Estados
e contra qualquer forma de violência, seja Unidos, no Brasil e na Argentina.

Revista USP • São Paulo • n. 114 • p. 11-30 • julho/agosto/setembro 2017 25


dossiê interculturalidades Homenagem

lava revigorante intelectual e literariamente descreve como metafórica, ele se concentra


tanto na América Latina quanto na América nos intelectuais exilados que não se “ajus-
do Norte (Farah, 2010). tam” para viver no país anfitrião e “preferem,
Com efeito, há uma relação direta entre ao invés disso, continuar clandestinos, sem
refúgio/migração e criatividade, entre migra- se acomodarem, sem cooperar, a resistir”
ção e produção artística. Num texto sobre (Said, 1994, p. 52).
“Almufakkirún al‘arab filmahjar” (“Os pen- Num estudo sobre a relação entre lite-
sadores árabes na migração”), Halim Barakat ratura e exílio, David Bevan (1990, p. 4)
defende a existência de uma relação extre- diz que
mamente positiva entre a criatividade lite-
rária – definida, segundo Lukács (1964, p. “[...] tanto os teóricos quanto os próprios
114), em termos de uma capacidade mental e exilados [...] debatem há muito tempo se
emocional incomum, combinada com talen- [o exílio] é uma experiência que revigora
tos especiais e com uma forte motivação, ou mutila mais. Para alguns, o sentimento
para “descobrir inter-relações anteriormente de liberdade, de distância crítica, de uma
desconhecidas entre as coisas” – e o exílio. identidade renovada, de fusão ou choque de
Ele cita autores como Joseph Conrad, James culturas e mesmo de línguas é visto como
Joyce, Ezra Pound, Henry Miller, T. S. Eliot, algo produtivo, e a originalidade da visão
Ernest Hemingway, Aldous Huxley, Carlos deve quase necessariamente derivar da trans-
Fuentes, Jorge Luis Borges, Julio Cortázar, gressão das fronteiras. Contudo, para outros,
Gabriel García Márquez, Mahmud Darwich o deslocamento físico significa antes de tudo
e Jubran Khalil Jubran. rejeição, alienação, angústia e, bem possi-
Barakat (1987) também formula algumas velmente, suicídio”.
observações sobre as condições gerais que
contribuem para a criatividade na literatura O contato falto com os países árabes
árabe: o exílio, o “encontro de civilizações”, e a redução temporária do fluxo migrató-
o pluralismo cultural e os “santuários” que rio ao Brasil criaram, por certo período,
providenciam distâncias seguras dos centros a impressão de que a cultura árabe seria
de autoridade política, social e cultural nos algo do passado25; nada mais distante da
países de origem. O autor diz ainda que, no realidade, pois desfruta de um dinamismo
caso da literatura do Mahjar, “a condição notável, ainda que pouco conhecido no país.
metafórica de marginalidade é uma fonte O aumento do fluxo de refugiados e
básica de criatividade” (Barakat, 1987, p. 8). migrantes em geral ao Brasil, associado ao
Em Representations of the Intellectual número recorde de deslocamentos no mundo,
(Representações do Intelectual), Edward Said tem contribuído para alterar essa percepção
chama a atenção para a transformação do equivocada sobre a literatura, a cultura e
exílio, durante o século XX, de punição indi-
vidual a punição coletiva de povos inteiros.
25 Para muitos, ou houvera uma “idade de ouro” da lite-
Nessa categoria ele inclui os armênios, os ratura árabe desaparecida séculos atrás ou o “mundo
palestinos e outras vítimas de manipulações árabe” e suas culturas formavam um universo lon-
gínquo, estranho, complicado, um “mundo” de certo
territoriais. Por causa dessa condição que modo reservado aos especialistas, aos “orientalistas”.

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a sociedade árabe como algo do passado. tica em geral: nessa região muitas vezes não
Assim, além da circulação maior de obras encontraram a influência moderadora da cul-
literárias contemporâneas escritas nos países tura tradicional à qual seus compatriotas
árabes, há que se destacar a produção por estavam sujeitos. Os que imigraram para
parte de refugiados e imigrantes no Brasil, a América do Sul e do Norte sofreram um
entre outros países que atualmente recebem sentimento de exílio, de ausência de per-
cidadãos da Síria, do Iraque, da Palestina, tença. Ao viverem em países nos quais a
do Egito, de Marrocos, da Tunísia, etc. língua de seus esforços literários e de sua
No “Seminário Internacional sobre Migra- tradição não era falada, sentiram que sua
ções, Refúgios e Deslocamentos”, refugiados própria existência cultural estava em risco.
da Palestina, da Síria e de Marrocos, entre A isso se devem a reunião em sociedades
outros países, recitaram poemas escritos por e a fundação de revistas literárias a fim de
eles próprios e refletiram sobre o papel da guardar zelosamente seus interesses culturais
literatura e da cultura na conscientização e promover um órgão para expressar suas
das pessoas acerca do tema do refúgio e opiniões. Daí também a saudade de casa,
da migração em geral. intensificada pela consciência de ser estran-
Encontros literários promovidos por e/ou geiro. Esse sentimento é comum a muitos
com autores refugiados em São Paulo, como poetas migrantes e frequentemente ressalta
o sarau “Em Cantos e Versos” – que acon- o desejo de retornar à natureza e à vida
tece mensalmente na Bibli-Aspa, também têm rural simples.
destacado a importância da literatura, das Diversas são as questões colocadas nesse
artes e da cultura num cenário de crescente novo espaço de escritura, a começar pela
xenofobia, racismo e intolerância religiosa. própria possibilidade de atividade literária
Entre os autores mais difundidos pelos em espaços que não costumavam ser vistos
refugiados, estão Mahmud Darwich, Ghassan como espaços literários. Um exemplo dessa
Kanafani, Fadwa Tuqan, Leopold Senghor, possibilidade de criação sem censura e da
Chinamanda Ngozi Adichie, Aimé Césaire produção em línguas distintas das faladas
e Amilcar Cabral, entre outros. na região da América do Sul faz-se presente
Além dos autores árabes e africanos men- na obra da poetisa palestina contemporâ-
cionados, refugiados têm produzido obras nea Farah Chamma, que escreve em árabe,
literárias influenciadas pelo refúgio. Para inglês e francês. No poema “Al-jinsiyya” (“A
citar apenas alguns que vêm escrevendo, Nacionalidade”), de 2014, Farah declama:
geralmente em suas línguas nativas, men-
cionam-se o haitiano Jean Esteves Major (em “Concederam-me a nacionalidade brasileira
crioulo haitiano e francês), a chilena Mariela Concederam-me um passaporte
Pizarro (em espanhol), o sírio Ahmad Serie Uma identidade
(em árabe) e o marroquino Hamza Youguer- A mim concederam residência permanente
tene Mouridi (em tamazight e francês). Plano de saúde
No continente americano, escritores ára- E outros documentos
bes e africanos descobriram uma liberdade Com fotos pessoais
maior para a experimentação literária e artís- Um pouco sorridente

Revista USP • São Paulo • n. 114 • p. 11-30 • julho/agosto/setembro 2017 27


dossiê interculturalidades Homenagem

Por fazer parte da América Latina que inclui juízes, promotores, procuradores,
[...] advogados, professores, assistentes sociais,
Suas letras a pesar em minha língua árabe etc., reúnem-se para pensar coletivamente
Suas letras a pesar em minha língua árabe em estratégias de acolhida, integração, edu-
Ainda assim dominei a língua portuguesa cação, inserção no mercado de trabalho e
Por vezes, meu peito oprimido acesso a serviços públicos.
Por ser uma estranha nesse exílio sem fim A Bibli-Aspa recebe cerca de 300 refu-
Como pássaro afastado dos seus giados por semana, de mais de 40 naciona-
A buscar refúgio em qualquer grupo que lidades e 50 idiomas. A instituição desen-
[o acolha volve diversas ações gratuitamente, entre
Num céu distante, exilado as quais: programa de língua portuguesa
[...] e cultura brasileira para refugiados; cursos
Escrevi poesia em seus cafés de gastronomia, informática e outras espe-
Sem temer um só dia o efeito de minhas cialidades; alimentação (por vezes, a única
[palavras refeição do refugiado no dia); transporte
Ou de censura intelectual para o deslocamento do refugiado; materiais
[...] didáticos; campanhas para arrecadação de
Muitas fronteiras se fecharam à minha vestimentas, produtos de higiene, alimen-
[frente tos, etc.; auxílio com moradia; apoio para
Apenas por ser refugiada palestina inserção no mercado de trabalho; tradução
Por possuir um documento sírio e apoio para regularização de documen-
Ou um passaporte de uma autoridade tos e revalidação de diplomas; assistência
[ilusória jurídica; assistência psicológica; espaço de
Minha casa, um país no exílio”26. sociabilização; site em cinco idiomas com
informações para refugiados e imigrantes,
MOVIMENTO EM PROL DE além da sociedade brasileira; e encaminha-
mento e/ou acompanhamento e tradução/
IMIGRANTES E REFUGIADOS
interpretação em consultas médicas, ida a
órgãos públicos, etc.
A Bibli-Aspa ajuda a organizar reuniões A Bibli-Aspa construiu acordos de
e ações a favor da integração de refugia- parceria com as principais instituições
dos na sociedade brasileira. Destaca-se o públicas e privadas que atuam em prol
Movimento em Prol de Imigrantes e Refu- dos refugiados e procura ajudar a elaborar
giados, fundado na Bibli-Aspa em 2015. políticas públicas vinculadas ao tema. A
Regularmente, integrantes desse movimento instituição possui um Núcleo de Assistência
(em parceria com o Ministério Público Social, formado por profissionais da área,
Federal, Ministério Público Estadual, Minis- com o objetivo de atender às necessidades
tério Público Democrático, entre outros), dos refugiados. Atua de forma descentra-
lizada por meio de 17 núcleos, a saber:
26 Tradução do poema em árabe feita pelo autor deste
1) Ações Culturais, Eventos e Festivais
artigo. de Cultura (como o Saca); 2) Administra-

28 Revista USP • São Paulo • n. 114 • p. 11-30 • julho/agosto/setembro 2017


tivo e Comercial; 3) Assistência Social; -fonológicas e lexicais em língua oral e mor-
4) Biblioteca e Acervos; 5) Captação de fossintáticas em língua oral e escrita.
Recursos, Editais e Projetos; 6) Comuni- A relevância social desse projeto é
cação; 7) Gastronomia e Escola-Cozinha; expressiva na medida em que promove a
8) Jurídico; 9) Literatura; 10) Pedagógico/ integração e fornece meios para que eles
Educativo; 11) Pesquisa; 12) Psicologia; possam assegurar seus direitos de acesso a
13) Relações Institucionais; 14) Relações serviços públicos, além de procurar capa-
Internacionais; 15) Tradução (do português citá-los para encontrar trabalho, moradia,
para outras línguas e vice-versa); 16) T.I.; etc. O aprendizado do português também
17) Voluntariado. Os núcleos contam com permite que a voz dos refugiados seja mais
a participação de imigrantes e refugiados, ouvida. O combate à xenofobia e a qual-
que coordenam vários deles. quer tipo de intolerância deve envolver os
Entre os temas transversais, que dizem refugiados, em um esforço coletivo de bra-
respeito a todos os núcleos, destacam-se: sileiros e estrangeiros; é importante que a
cultura de paz; refugiados e imigrantes; comunicação seja em português para chegar
ações e militância em prol do combate à a mais brasileiros.
xenofobia, ao racismo, ao preconceito, à Exercer cultura de paz na atualidade
intolerância e à discriminação de qualquer necessariamente significa envolver-se com a
espécie; auxílio para formular e/ou alterar questão dos refugiados e manifestar-se em
políticas públicas; cultura africana; cultura prol da aproximação e intercâmbio entre os
árabe; cultura sul-americana. seres humanos, e essa solidariedade não
Como se sabe, a língua portuguesa repre- deve ser seletiva, pois não cabe a ninguém
senta um passaporte para a integração dos – e também não ao discriminado – pro-
refugiados na sociedade brasileira, assim, mover discriminação contra outros gru-
essa fase de formação na vida dos refugiados pos, como adeptos de uma dada religião
é essencial. O Programa de Língua Portu- que discriminam integrantes de outra ou
guesa e Cultura Brasileira desenvolvido pela rechaçam a diversidade sexual27. Nos países
instituição em sua sede em São Paulo, em onde vivem, os refugiados, os imigrantes
Curitiba e em Foz do Iguaçu oferece turmas e seus descendentes estimulam o diálogo
de português e cultura brasileira para refu- intercultural, a produção intelectual, a cria-
giados de mais de 40 nacionalidades. Além tividade, a inovação, o empreendedorismo
do idioma, os alunos entram em contato com e o crescimento econômico.
culturas e costumes do Brasil, no entendi- Como afirmou Graça Machel em passa-
mento de que a cultura é fundamental para gem por São Paulo, em setembro:
o aprendizado da língua. O aluno aprende os
diversos aspectos do idioma – expressão oral, “Sejam imigrantes sírios... africanos... o prin-
compreensão auditiva, leitura e escrita – de cipal e o fundamental é a dignidade humana.
forma prática e vinculada a situações reais
do cotidiano, estimulando a comunicação e
a cidadania. Assim, desenvolve habilidades 27 Destaca-se aqui a campanha “Eu Preciso Dizer que te
comunicativas, adquire estruturas fonético- Amo”, de sensibilização contra o suicídio de trans.

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dossiê interculturalidades Homenagem

É preciso conhecer, valorizar e respeitar a dig- A respeito da importância de promover


nidade de cada um [...]. Imigração é parte da conscientização e programas educativos para
vida humana, não vai parar de existir. Temos reduzir a xenofobia, o racismo e intolerân-
sim que revisitar aquilo que em cada um de cias múltiplas, Machel declarou: “A educação
nós nos faz reconhecer no outro a igualdade não é apenas para transmitir conhecimento
da dignidade humana. Reconhecendo isso, os científico, é o espaço privilegiado de desen-
medos vão deixar de nos separar”. volver valores”. Que assim seja.

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