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llO Ensaios e conferências

precisava pensar metafisicamente e somente assim. Isto não quer,


porém, dizer que este pensamento mais abissal não guarde e não - O QUE QUER DIZER PENSAR? -
vele algo não pensado e que, ao mesmo tempo, se fecha para o pen-
samento metafísico 3.

O que quer dizer pensar é algo que se nos revela se nós mes-
Tradução de Gilvan Foge! mos pensamos. Para que um tal tentam e seja bem-sucedido é preci-
so que nos disponhamos a aprender a pensar.
Tão logo nos entregamos a este aprendizado, admitimos que
ainda não estamos na capacidade de pensar.
O homem é, no entanto, visto como o ente que pode pensar. E
isso com razão, pois o homem é o ser vivo racional. A razão, porém,
a ratio, desdobra-se em pensamento. Enquanto ser vivo racional, o
homem, desde que queira, precisa poder pensar. Mas talvez o ho-
mem queira pensar e não possa. Em última instãncia, com este que-
rer-pensar o homem quer demais e, por isso, pode de menos.
O homem pode pensar à medida que tem a possibilidade para
tal. Tal ser-possível, porém, ainda não nos garante que o possamos.
Pois ser na possibilidade de algo quer dizer: permitir que algo, se-
gundo seu próprio modo de ser, venha para junto de nós; resguar-
dar insistentemente tal permissão. Sempre podemos somente isso
para o qual temos gosto - isso a que se é afeiçoado, à medida que o
acolhemos. Verdadeiramente só gostamos do que, previamente e a
partir de si mesmo, dá gosto. E nos dá gosto em nosso próprio ser à
medida que tende para isso. Através desta tendência, reivindica-se
nosso próprio modo de ser. A tendência é conselheira. A fala do
aconselhamento dirige-se ao nosso modo próprio de ser, para ele
nos conclama e, assim, nos tem. Na verdade, ater significa: cuidar,
guardar. O que nos atém ao modo próprio de ser aí nos atém so-
mente à medida que nós, a partir de nós mesmos, guardamos isso
que nos atém. Nós o guardamos, se nós não o deixamos fugir da
memória. A memória é a concentração do pensamento. Em relação
a quê? Em relação a isso que J;lOS atém ao modo próprio de ser, à
medida que, ao mesmo tempo, o pensamos cuidadosamente junto
3. Cf. a preleção Was heisst denken?, semestre de inverno 1951/1952, publicada em 1954 de nós. Em que medida isso que nos atém precisa ser cuidadosa-
pela editora M. Niemeyer, Tübingen. mente pensado? À medida que, por si mesmo, é o que cabe pensar
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cuidadosamente. Se isso é assim pensado, então é presenteado Os filósofos são os pensadores. São assim chamados porque o
com o pensar da lembrança. Nós lhe presenteamos o pensamento pensamento se passa privilegiadamente na filosofia. Ninguém ne-
que recorda porque dele gostamos como sendo a palavra conselhei- gará que hoje há um interesse pela filosofia. Mas haverá hoje algo
ra de nosso modo próprio de ser. pelo qual o homem não se interesse, no sentido em que o homem
de hoje entende o "interessar-se"?
Só podemos pensar se temos gosto pelo que em si é o que cabe
pensar cuidadosamente. Inter-esse quer dizer: ser sob, entre e no meio das coisas; estar
numa coisa de permeio e junto dela assim persistir. Para o interes-
Para que cheguemos a este pensamento, é preciso que, de nos· se atual, porém, vale só o interessante. O interessante faz com que,
sa parte, aprendamos a pensar. O que é aprender? O homem apren· no instante seguinte, já estejamos indiferentes e mesmo dispersos
de à medida que traz todos os seus afazeres e desfazeres para a em alguma outra coisa que, por sua vez, tampouco nos diz respeito
correspondência com isso que a ele é dito de modo essencial. quanto a anterior. Hoje, acredita-se frequentemente dignificar algo
Aprendemos a pensar à medida que voltamos nossa atenção para o achando-o interessante. Na verdade, com um tal juízo, subestima-
que cabe pensar cuidadosamente. mos o interessante levando-o para o domínio do indiferente e assim
Chamamos de "amigável" o que pertence à essência do amigo o empurramos para o âmbito daquilo que logo se tornará tedioso.
e dele procede. De forma correspondente, chamamos, agora, de O fato de mostrar-se um interesse pela filosofia ainda não reve-
"pensável" aquilo que cabe pensar cuidadosamente. Todo "pensá- la, de modo algum, uma disponibilidade para o pensamento. Mes-
vel" dá a pensar. Há, no entanto, uma tal doação somente e sempre mo que durante anos e anos nos ocupemos aplicadamente com os
à medida que o pensável, a partir de si mesmo, já é o que cabe pen- volumes e os escritos dos grandes filósofos, isso ainda não nos ga-
sar cuidadosamente. A partir de agora, denominamos "o que mais rante que realmente pensamos ou mesmo que estejamos dispostos
cabe pensar" àquilo que sempre e insistentemente dá a pensar, por- a aprender a pensar. A ocupação afanosa com a filosofia pode, de
que antes de toda e qualquer coisa outrora o deu e amanhã o dará. modo mais caturro e cego, iludir-nos com a aparência de que pensa-
mos porque, ora, afinal, "filosofamos".
O que cabe pensar mais cuidadosamente? Neste nosso tempo a
pensar, onde ele se mostra? Do mesmo modo, porém, parece presunçoso afirmar que ainda
não pensamos. A afirmação deve, no entanto, ressoar de outro
O que mais cabe pensar cuidadosamente mostra-se no fato de modo. Ela diz: o que mais cabe pensar mais cuidadosamente neste
ainda não pensarmos. Insistentemente ainda não, apesar da situa- nosso tempo é que ainda não pensamos. Na afirmação, fica indica-
ção mundial tornar-se cada vez algo a se pensar mais cuidadosa- do que o que cabe ser mais cuidadosamente pensado se mostra. De
mente. Este processo parece exigir, antes, que o homem atue, ao modo algum a afirmação se atreve a um juízo depreciativo, segun-
invés de discursar em conferências e congressos e assim mover-se do o qual imperaria, por toda parte, a mais completa falta de pensa-
em meras representações do que deveria ser e como precisaria ser mento. A afirmação de que ainda não pensamos também não quer
feito. Assim, parece que falta ação e de modo algum pensamento. estigmatizar nenhuma omissão. "O pensável" é o que dá a pensar.
A partir de si mesmo, ele nos fala de modo tal que nós nos volta-
E, no entanto ... Talvez, já desde séculos, o homem vem agindo
mos para ele - e, na verdade, pensando. "O pensável" de modo al-
demais e pensando de menos.
gum é proposto por nós. Ele jamais se ,funda no fato de que o
Mas como pode hoje alguém afirmar que ainda não pensamos, representamos. "O pensável" dá a pensar. Ele dá o que ele tem em
quando por toda parte se percebe o interesse pela filosofia, cada si. Ele tem o que ele próprio é. O que maximamente a partir de si
vez mais afanoso e crescente, de tal modo que todos querem saber mesmo dá a pensar - o que mais cabe pensar cuidadosamente -
o que se passa na filosofia? deve mostrar-se no fato de ainda não pensarmos. O que quer dizer
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Sim, é verdade: o que até agora foi dito e toda a discussão que
isso, agora? Resposta: ainda não atingimos propriamente o âmbi- se segue nada tem a ver com ciência e, sobretudo, se a discussão ti-
to disso que, a partir de si mesmo e antes de tudo e por tudo, ver o direito de ser um pensamento. A razão disso é que a ciência
"gostaria" de ser pensado. Por que ainda não atingimos tal ins- não pensa. Ela não pensa porque, segundo o modo de seu procedi-
tância? Seria, talvez, porque nós, homens, ainda não nos volta- mento e de seus recursos, ela jamais pode pensar - a saber, pensar
mos suficientemente para o que permanece como o que cabe segundo o modo dos pensadores. Que a ciência, porém, não possa
pensar cuidadosamente? Neste caso, o fato de que ainda não pen- pensar, isso não é uma deficiência e sim uma vantagem. Somente
samos seria uma mera negligência por parte do homem. Assim esta vantagem assegura à ciência a possibilidade de, segundo o
sendo, este mal precisaria poder ser humanamente remediado modo da pesquisa, introduzir-se num determinado domínio de ob-
através de medidas convenientes em relação ao homem. jetos e aí instalar-se. A ciência não pensa. Esta é uma afirmação
Ainda não pensamos. Isto, porém, de modo algum se dá por- que escandaliza a representação habitual. Deixemos à frase seu ca-
que o homem não se avia suficientemente para isso que, desde si ráter escandaloso, mesmo quando a esta segue-se uma outra, se-
mesmo, gostaria de ser pensado. Ainda não pensamos - isto se gundo a qual a ciência, tal como todo fazer e desfazer do homem
'
deve muito mais ao fato de que o próprio a-se-pensar se desvia do seria orientada pelo pensamento. A relação entre pensamento e
homem e até mesmo, de há muito, dele mantém-se desviado. ciência só se mostra autêntica e frutífera quando se torna visível o
abismo que há entre as ciências e o pensamento - na verdade,
Imediatamente queremos saber quando e de que maneira deu-
se esse desvio. Antes e ainda com maior curiosidade perguntaremos quando este abismo se revela intransponível. Das ciências para o
como, em última instância, podemos saber de um tal acontecimento. pensamento não há nenhuma ponte, mas somente salto. Este não
Perguntas desse tipo precipitam-se quando a propósito do que mais nos leva somente para um outro lado, mas para uma região inteira-
cabe pensar cuidadosamente chegamos mesmo a afirmar: isto, o que mente outra. O que se abre com este âmbito é algo que jamais se
realmente nos dá a pensar, não se desviou do homem algum dia, deixa demonstrar, caso demonstrar signifique: desde pressuposi-
num histórico datável, mas o a-se-pensar mantém-se desde sempre ções adequadas, derivar proposições sobre um estado de coisas
num tal desvio. Mas dá-se desvio somente onde já se deu um aviar-se. através de uma cadeia de conclusões. Quem quer ainda demons-
Se o que mais cabe pensar cuidadosamente mantém-se num desvio é trar e ter provado algo que somente se revela à medida que aparece
porque isso se dá precisamente e tão só no interior de seu "aviar-se", a partir de si mesmo e nisso que, ao mesmo tempo, se recolhe -
isto é, de tal modo, que ele já deu a pensar. Em todo desvio, o este, de modo algum, julga segundo um critério mais elevado e
a-se-pensar já se aviou para a essência do homem. Por isso; o homem mais rigoroso do saber. Ele pura e simplesmente calcula de acordo
de nossa história também sempre já pensou de um modo essencial. com uma medida, na verdade, inadequada. O que somente se anun-
Ele pensou mesmo o mais profundo. Na verdade, de uma maneira es- cia aparecendo no seu próprio recolher-se - a isso corresponde-
tranha, o a-se-pensar permanece sob a guarda deste pensamento. O mos, à medida que para isso acenamos e, assim, nós mesmos nos
pensamento até hoje vigente de modo algum considera o fato e em orientamos nisso que se mostra em deixando-o aparecer no seu
que medida o a-se-pensar também se retrai. próprio desencobrimento. Este mostrar-se simples é um traço fun-
damental do pensamento, o caminho para aquilo que, desde sem-
Mas, de que falamos? O falado não se configura como uma ca-
pre e para sempre, dá ao homem o que pensar. Tod~ e quâlquer
deia de afirmações vazias? Onde estão as provas? O exposto tem 1
coisa se deixa demonstrar, isto é, derivar a partir de pressuposições
um mínimo sequer a ver com ciência? Bom será se, pelo menos por
adequadas. Poucas coisas, porém, e estas ainda raramente, dei-
um bom tempo, insistirmos nesta atitude de resistência em relação
ao que se disse. Somente assim nos resguardaremos na distância xam-se mostrar, isto é, num aceno, liberar para um encontro.
necessária para um impulso, a partir do qual, talvez, conseguire- O que mais cabe pensar cuidadosamente em nosso tempo, que
mos saltar, de um modo ou de outro, para dentro do pensamento tanto nos dá a pensar, revela-se no fato de ainda não pensarmos.
do que cabe pensar mais cuidadosamente.
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Ainda não pensamos porque o que cabe realmente pensar se tes de mais nada é homem atraído no retrair-se, no elã para este e
des-via do homem e não porque o homem não se en-via, de maneira com isso sinalizador da retração. Seu modo próprio de ser consti-
suficiente, a isto que cabe pensar. O que cabe pensar desvia-se do tui-se nisso, a saber, em ser um tal sinalizador.
homem. O que cabe pensar retrai-se para o homem à medida que Chamamos de sinal àquilo que, segundo sua constituição mais
dele se retira. O que se retira, porém, sempre já se nos mostrou. O própria, é algo que sinaliza. Retraído no impulso para o retrair-se,
que se retrai no modo de um retirar-se não desaparece. Como en- o homem é um sinal.
tão saber o mínimo que seja a respeito disso que assim se retrai?
Mas porque este sinal sinaliza para o que se retrai, o sinalizar
Como sequer nomeá-lo? O que se retrai recusa o encontro. Retra- não pode esclarecer imediatamente o sentido do que. aí se retrai.
ir-se não é, porém, um nada. Retração é aqui retirada e enquanto Assim, o sinal permanece sem sentido.
tal - acontecimento. O que se retrai pode concernir ao homem de
Num esboço para um hino, Hõlderlin diz:
maneira mais essencial e reivindicá-lo de modo mais próprio do
que algo que aí está e o atinge e o afeta. De bom grado, costuma-se "Somos um sinal, sem sentido
tomar o que nos afeta através do real como o que constitui a reali- Sem nenhuma dor somos e, no estranho,
dade do real. Mas o ser-afetado através do real pode justamente Quase perdemos a linguagem."
bloquear o homem em relação a isso que lhe concerne - que lhe
Nos rascunhos para o hino, encontramos títulos como "A ser-
concerne certamente de uma maneira enigmática, segundo a qual pente", "A ninfa", "O sinal". Há um esboço intitulado "Mnemosy-
o concernir dele se desvia à medida que se retrai. Por isso, a retra- ne". Podemos traduzir a palavra grega para o alemão e teremos
ção, o retrair-se do que cabe pensar poderia agora, como aconteci- "Gediichtnis", memória. Em alemão, memória é um substantivo
mento, ser mais presente do que tudo quanto é mais atual. neutro, das Gediichtnis. Mas, em alemão, também se diz die (arti-
O que de nós se retrai à maneira mencionada, afasta-se para go feminino) Erkentnnis (o conhecimento), die (artigo feminino)
longe de nós. Mas precisamente isso nos leva junto e, à sua manei- Befugnis (a autorização). E novamente tem-se: das (artigo neutro)
ra, nos atrai. O que se retrai parece estar absolutamente ausente. Begriibnis (o sepultamento, o funeral), das (artigo neutro) Ges-
Mas essa aparência engana. O que se retrai se faz vigente - a saber, chehnis (o evento, o acontecimento). Kant, por exemplo, diz em
através do fato de nos atrair, quer percebamos agora, depois ou sua linguagem habitual, frequentemente muito próximo um do ou-
mesmo nunca. O que nos atrai já concedeu encontro. Tomados tro, ora die (artigo feminino) Erkenntnis, ora das (neutro) Erkenn-
pela atração da retração, já estamos no impulso para isso que nos tnis. Assim sendo, sem nenhuma violência e mantendo a correspon-
atrai, à medida que se retrai. dência com o feminino grego, poderíamos t raduzir "Mnemosyne"
Mas se somos aqueles assim atraídos no impulso para... isso por die Gediichtnis, a memória 1•
que nos atrai - então nosso modo próprio de ser já está cunhado
Hõlderlin vê na palavra grega Mvrn.1oaúvTJ o nome de uma Ti-
por esse "impulso para...". Como aqueles que assim são cunhados,
tanide. Ela é a filha do Céu e da Terra. Noiva de Zeus, Mnemosyne
acenamos para o próprio retrair-se. De modo geral, somos apenas
nós mesmos e apenas somos estes que somos à medida que acena- torna-se em nove noites a mãe das musas. Jogo e dança, canto e
mos para o que se retrai. Esse acenar é nosso modo próprio de ser.
Somos à medida que sinalizamos para o que se retrai. Enquanto o
que assim sinaliza, o homem é o sinalizador. Na verdade, o homem 1. Todo es!e c.~nte;:to se torna inteligível se considerarmos que, via de regra, em alemão,
não é primeiramente homem e então por acréscimo e talvez ocasio- a termmaçao -ms , que aparece nos exemplos, indica substantivos do gênero neutro
(das). He1degger mostra : xceções a essa regra, onde se usa o feminino (die), por exemplo
nalmente ainda um sinalizador, mas o homem antes de tudo e an- em Kant. Segundo ele, a1 poden a se enquadrar "die (fe minino) Cedãchtnis" a fi m de se
man ter no alemão o feminin o do grego e não mais o neutro, como em alemão [N.T.).
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poesia são os rebentos de Mnemosyne - da memória. Evidente- numa demora para a qual nenhuma contagem da ciência histórica
mente, a palavra memória evoca, aqui, outra coisa do que somente jamais implantará uma medida. No mesmo hino, Mnemosyne,
a capacidade imaginada pela psicologia de conservar o passado na lê-se: "Longo é o tempo ..." - a saber, aquele em que somos um sinal
representação. Memória2 pensa o pensado. Mas o nome da mãe das sem sentido. Isso, a saber, que somos um sinal e, na verdade, um si-
musas não evo~ "memória" como um pensar qualquer em qual- nal sem nenhum sentido- isso já não dá o suficiente a pensar? Tal-
quer algo pensável. Memória é, aqui, a concentração do pensamen- vez o que Hõlderlin nos diz nestas e nas seguintes palavras
to que, concentrado, permanece junto ao que foi propriamente pertença ao que se nos mostra como o que cabe pensar mais cuida-
pensado porque queria ser pensado antes de tudo e antes de mais dosamente, ou seja, que ainda não pensamos. Que ainda não pen-
nada. Memória é a concentração do pensar da lembrança daquilo samos, isso se funda no fato de sermos um sinal sem sentido e sem
que, antes de tudo e antes de mais nada, cabe pensar. Esta con- dor? Ou será o contrário, que somos um sinal sem sentido e sem
dor à medida que ainda não pensamos? Se esta última alternativa
centração guarda junto de si e abriga em si o que, sempre e antes
procede, então o pensamento, através do qual se presenteia aos
de mais nada, permanece e se anuncia como o a-se-pensar em
mortais a dor, é que daria sentido ao sinal pelo qual os mortais são
tudo o que anuncia como o vigente e o vigor de ter sido. Memória,
mortais. Tal pensamento nos coloca também de início num diálogo
o pensar concentrado da lembrança do que cabe pensar, é a fonte com a poética do poeta, cujo dizer, tal como nenhum outro, busca
da poesia. Por isso, o modo próprio de ser da poesia se funda no seu eco no pensamento. Se arriscamos acolher a palavra poética de
pensar. Isto nos diz o mito, ou seja, a saga. Seu dizer evoca o mais Hõlderlin no âmbito do pensamento, então, seguramente, precisa-
antigo. O mais antigo não somente porque, segundo a ordem cro- mos tomar cuidado para não igualar impensadamente o que Hõl-
nológica, é o mais anterior, mas porque, desde sempre e para sem- derlin diz poeticamente com o que nos convoca a pensar. O dito
pre, e segundo seu modo próprio de ser, permanece o mais digno poético e o dito do pensamento jamais são iguais. Mas um e outro,
de se pensar. Enquanto representarmos o pensamento segundo o de modos diferentes, podem dizer o mesmo. Isto só mesmo tem êxi-
que sobre ele a lógica nos informa, enquanto não levarmos a sério to quando o abismo entre poesia e pensamento se abre clara e deci-
o fato de a lógica ter se fixado num modo particular de pensamen- didamente. E isto acontece quando a poética é elevada e o
to - enquanto imperar este estado de coisas, jamais poderemos pensamento profundo. Também isto soube Hõlderlin. Tomamos
considerar com atenção que e em que medida o poetar funda-se no seu saber de duas estrofes, assim intituladas:
pensar da lembrança. Sócrates e Alcibíades
Toda criação poética surge quando se cultiva o pensar da lem- "Por que, divino Sócrates, insistentemente
brança. Veneras este jovem? Não conheces nada maior?
Por que, tal como sobre deuses, voltas
Sob o título Mnemosyne, diz Hõlderlin: Com amor teu olhar sobre ele?"
"Somos um sinal, sem sentido ... " A resposta é dada na segunda estrofe:
Nós, quem? Nós, os homens de hoje, os homens de um hoje "Quem o mais profundo pensou, ama o mais vivo
que já dura de há muito, que ainda durará muito, numa duração e Quem olha fundo no mundo, este compreende a elevada ju-
ventude
2. A palavra alemã para dizer memória, Cedachtnis, compõe-se do prefixo "Ce" ~ concentra­
E muitas vezes, ao fim, os sábios se inclinam diante da beleza."
ção, reunião e "dachtnis", formada pelo particípio "gedacht" d~ ~erbo pensar "denken". Isso
possibilita a Heidegger enfatizar o nexo essencial entre memona e pensamento [N.T.].
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O verso que nos interessa é: Em que devemos observar isso que desde sempre e antes de
tudo dá a pensar ao homem? Como o que cabe mais cuidadosamen-
"Quem o mais profundo pensou, ama o mais vivo." te pensar se mostra para nós? Dir-se-ia: em nosso tempo, que muito
dá a pensar, o que cabe mais cuidadosamente pensar mostra-se no
Facilmente negligenciamos as palavras que, neste verso, são o fato de ainda não pensarmos, isto é, de ainda não corresponder-
dizer e que por isso realmente o sustentam. As palavras que dizem mos propriamente ao que mais cuidadosamente cabe pensar. Até
são os verbos. Ouvimos o verbal do verso quando o acentuamos de agora ainda não nos introduzimos no modo próprio de ser do pen-
um modo diferente, inabitual ao ouvido habitual: samento para aí habitarmos. Neste sentido, ainda não pensamos
propriamente. Mas isso quer justamente dizer que nós já pensa-
"Quem o mais profundo pensou, ama o mais vivo." mos, mesmo que, não obstante toda lógica, ainda não estejamos fa-
miliarizados com o elemento no qual o pensamento pensa propria-
A proximidade imediata dos dois verbos, "pensar" e "amar",
mente. Daí por que ainda não se sabe com suficiência em que ele-
forma ·o meio do verso. Com isso, consideramos que o amor se mento já se move o pensamento até hoje vigente, à medida que é
funda no fato de pensarmos o mais profundo. Tal "ter pensado" um pensamento. A característica fundamental do pensamento até
provém presumivelmente daquela memória, no pensar da qual hoje vigente é o perceber (das Vernehmen). A faculdade de perce-
funda-se o próprio poetar e com ele toda arte. Mas então o que ber denomina-se razão (die Vernunft) 3•
quer dizer pensar? Jamais aprendemos, por exemplo, o que é na-
O que percebe a "razão"? Em que elemento apega-se o perce-
dar através de um manual sobre natação. O que é nadar é dito sal-
ber de tal modo que através desse elemento se dá um pensamento?
tando na correnteza. Somente assim conhecemos o elemento em
Perceber é a tradução da palavra grega noein que significa: captar
que o nadar precisa se mover. Qual é, porém, o elemento em que algo presente; e, captando algo, destacá-lo e, assim, tomá-lo como
se move o pensamento? vigente. Este perceber que destaca é um re-presentar, no sentido
Suposta verdadeira a afirmação de que ainda não pensamos, simples, amplo e, ao mesmo tempo, essencial de deixar algo vigente
então ela está ao mesmo tempo dizendo que nosso pensamento estar e pôr-se diante de nós tal como está e se põe.
ainda não se move no seu elemento próprio e isso, na verdade, por- Dentre os primeiros pensadores gregos, aquele que determinou
que e realmente o a-se-pensar retrai-se para nós. Isto que assim, de exemplarmente a essência do pensamento ocidental até hoje vigen-
um tal modo, de nós se retira e, por isso, permanece impensado, te, quando se ocupa do pensamento, nunca considera isso que deno-
não podemos por nós mesmos coagir ao encontro. E nem mesmo minaríamos o mero, o puro pensar. Antes, a determinação essencial
tomando-se o caso mais oportuno, a saber, que nós nitidamente já do pensamento funda-se precisamente no fato de a essência perma-
pressentimos o que de nós se retrai. necer determinada por e a partir disso que, enquanto "percepção",
o pensamento percebe, ou seja, o real em seu próprio ser.
Então, só nos resta uma coisa. Só nos resta esperar - esperar
até que "o a-se-pensar" se nos anuncie. Mas esperar aqui não signifi- Parmênides diz no fragmento VIII, 34/ 36:
ca, de modo algum, adiar o pensamento. Esperar quer dizer aqui: Talnàv cS'E:ml vodv TE Kal ouvEKEV EGTL vÓrJI.J.Çc
manter-se alerta e, na verdade, no interior do já pensado em direção ou yàp avw Tou E:óvToç , [v 4i TTE<j>aTLGIJÉvov [an v,
ao impensado, que ainda se guarda e se encobre no já pensado. Atra- EÚp ~anç TO vodv.
vés de uma tal espera, justamente já pensando, estamos em via de
nos encaminharmos para o que cabe pensar. Esta via pode ser um 3. A palavra alemã que traduz o latim ratio, razão, é Vernunft. Trata·se de um substantivo
extravio. Ela permaneceria porém marcada pela disposição de cor- derivado de vernehmen, aqui traduzido por perceber, no sentido de captar, levar em conta,
tomar em atenção. Em alemão, o nexo entre razão e percepção está dado imediatamente na
responder àquilo que cabe pensar mais cuidadosamente. proximidade linguística dos termos vernehmen e Vernunft [N.T.].
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"O mesmo é, porém, tanto perceber como também isso em ra- 4


sentação . Ora, por que o fundamento funda-se no perceber? Por
zão do qual se dá o perceber. Não encontrarás o perceber sem que no representar desdobra-se o perceber? Por que representar é
o ser do real no qual ele o perceber é enquanto e como dito." re-apresentação?
A partir dessas palavras de Parmênides, evidencia-se: enquan- A filosofia procede como se aí nada houvesse a perguntar.
to e como perceber, o pensamento recebe do ser do real a sua es-
Que o pensamento até hoje vigente se funda no representar e
sência própria. Mas o que quer dizer aqui e para os gregos e, que este se funda na re-apresentação - isto tem sua longa prove-
posteriormente, para todo o pensamento ocidental até hoje vigen- niência. Esta proveniência se encobre num acontecimento inapa-
te - enfim, o que quer dizer: ser do real? A resposta a essa pergun- rente: no começo da história do Ocidente, o ser do real aparece ao
ta, até hoje jamais colocada, porque demasiado simples, é: ser do longo desse percurso como presença, como vigência. Esse aparecer
real diz vigência do vigente, presença do presente. A resposta é um do ser como a vigência do vigente é o próprio começo da história
salto no escuro. ocidental, desde que compreendamos a história não só segundo
Enquanto perceber, o pensamento percebe o presente em sua seus eventos, mas que a pensemos, primeiro e sobretudo, segundo
presença. Nela, o pensamento toma a medida para o seu modo pró- o que através dela antecipadamente se envia sob a forma de desti-
prio de ser enquanto perceber. Assim sendo, o pensamento é uma no, atravessando assim todos os eventos e neles predominando.
tal apresentação do que está presente, que entrega o que é vigente Ser diz vigorar, presença (Anwesen). Esse caráter fundamen-
em sua vigência e, assim, o põe à nossa frente, de modo que esta- tal de ser, o vigorar, a presença, aqui ingenuamente enunciado, tor-
mos diante do que é ou está vigente e, então, nesse âmbito mesmo, na-se misterioso no instante em que despertamos e nos damos
suportamos esse pôr-se. Enquanto esta apresentação, o pensamen- conta para onde isso que denominamos vigência, presença, envia
to libera o que é vigente na relação conosco; ele o põe de volta para nosso pensamento.
nós. Por isso, a apresentação é re-apresentação. Posteriormente, a Vigente é o que dura - o que vige a partir e no âmbito do de-
palavra repraesentatio torna-se o nome corrente para este repre- sencobrimento. Vigorar só acontece onde prontamente impera de-
sentar (Vorstellen). sencobrimento. Algo é vigente, presente, porém, à medida que
O caráter fundamental do pensamento até hoje vigente é o de dura no e a partir do desencobrimento e, assim, se faz presente.
representar. Segundo a antiga doutrina do pensamento, esse repre- Por isso, pertence ao vigorar, à presença, não somente desenco-
sentar realiza-se no Myoc,, que aqui significa enunciado, juízo. Por brimento, mas também presente. Este presente imperante no vigo-
isso, a doutrina do pensamento, do Myoç, denomina-se lógica. Ao rar é um caráter do tempo. Seu modo próprio de ser, porém, jamais
determinar o ato fundamental do pensamento, a saber, o juízo, se deixa apreender através do conceito tradicional de tempo.
como a representação de uma representação do objeto, Kant sim-
No ser, que aparece como vigorar, permanece todavia igual-
plesmente retoma a caracterização tradicional do pensamento
mente impensado tanto o desencobrimento aí imperante como o
como representação (cf. Crítica da razão pura A 68, B 93). Quan-
modo próprio de ser aí também imperante de presente e de tempo.
do, por exemplo, ajuizamos que "este caminho é pedregoso", en-
Presumivelmente, enquanto modo próprio de ser do tempo, desen-
tão, no juízo, representa-se a representação do objeto, isto é, do
cobrimento e presente se copertencem. À medida que percebemos
caminho, a saber, como pedregoso.
o que é o real em seu ser, à medida que, dito à maneira moderna, re-
O caráter fundamental do pensamento é o representar. No re-
presentar, desdobra-se o perceber. O próprio representar é re-apre-
4. "Das Vorstellen selbst ist Re-Prasentation".
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presentamos o objeto em sua objetividade, nós já pensamos. Deste - CONSTRUIR, HABITAR, PENSAR -
modo, de há muito, já pensamos. Não obstante, ainda não pensamos
realmente enquanto permanecer desconsiderado em que se funda o
ser do real quando ele aparece como vigência, como presença.
A proveniência essencial do ser do real está impensada. O que
realmente cabe pensar mantém-se retraído. Isso ainda não se tornou As páginas que se seguem são uma tentativa de pensar o que
para nós digno de ser pensado. Por isso, nosso pensamento ainda significa habitar e construir. Esse pensar o construir não pretende
não ganhou propriamente seu elemento. Propriamente, ainda não encontrar teorias relativas à construção e nem prescrever regras à
pensamos. E, por isso, perguntamos: o que quer dizer pensar? construção. Este ensaio de pensamento não apresenta, de modo al-
gum, o construir a partir da arquitetura e das técnicas de constru-
ção. Investiga, bem ao contrário, o construir para reconduzi-lo ao
Tradução de Gilvan Foge!
âmbito a que pertence aquilo que é.
Perguntamos:
1. O que é habitar?
2. Em que medida pertence ao habitar um construir?

Parece que só é possível habitar o que se constrói. Este, o cons-


truir, tem aquele, o habitar, como meta. Mas nem todas as constru-
ções são habitações. Uma ponte, um hangar, um estádio, uma usina
elétrica são construções e não habitações; a estação ferroviária, a
autoestrada, a represa, o mercado são construções e não habitações.
Essas várias construções estão, porém, no âmbito de nosso habitar,
um âmbito que ultrapassa essas construções sem limitar-se a uma
habitação. Na autoestrada, o motorista de caminhão está em casa,
embora ali não seja a sua residência; na tecelagem, a tecelã está em
casa, mesmo não sendo ali a sua habitação. Na usina elétrica, o
engenheiro está em casa, mesmo não sendo ali a sua habitação.
Essas construções oferecem ao homem um abrigo. Nelas, o homem
de certo modo habita e não habita, se por habitar entende-se sim-
plesmente possuir uma residência. Considerando-se a atual crise ha-
bitacional, possuir uma habitação é, sem dúvida, tranquilizador e
satisfatório; prédios habitacionais oferecem residência. As habita- .,
ções são hoje bem divididas, fáceis de se administrar, economica-