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Programa de Cinco Semanas

para Montessori em Casa

1
Em Montessori, buscamos uma educação que ajude o
cérebro da criança, que respeite seu desenvolvimento, e
que vá ao encontro da individualidade dos filhos e dos
alunos. Há muitas formas de ajudar as crianças quando
respeitamos a ciência de seu desenvolvimento. Neste
programa, vamos conhecer algumas delas.
Montessori começou seu método há 110 anos. Mas só
nos últimos 10 anos é que as ciências do cérebro têm
conseguido alcançar os insights de Montessori, e
comprovar pelos métodos atuais aquilo que Montessori
descobriu observando o comportamento infantil. Aqui,
vamos ver algumas das sugestões de Montessori e como
aplicá-las no dia a dia de uma família.
Você pode imprimir este programa ou pode só usar as
ideias dele. Pode compartilhar com os amigos ou pode
sugerir que eles baixem o documento lá do Lar
Montessori. Eu sugiro que você comece hoje mesmo.
Não deixe para amanhã, aproveite que você tem as
ferramentas e comece agora.
Um abraço,
Gabriel
2
Neste programa, vamos explorar cinco formas de usar a
ciência de Montessori para melhorar a vida de sua
família. Você implementa uma forma por semana, e em
cinco semanas terá uma transformação na maneira
como se relaciona com seu filho. Para ajudar você, cada
semana traz um ou mais textos, uma sequência de
exercícios e uma reflexão.
Você vai encontrar várias pequenas atividades ao longo
deste programa. Faça todas. São breves, mas são muito
importantes para que a transformação aconteça de
verdade.
Por meio do Lar Montessori, milhares de famílias já
mudaram a forma de se relacionar com seus filhos, e até
o relacionamento entre os adultos. Este programa foi
criado para que você também possa fazer isso.
Aproveite!

Este documento é livre, pode ser compartilhado sem autorização prévia e não deve ser
alterado. Trechos de texto, exercícios e técnicas podem ser divulgadas isoladamente, e os
créditos ao site www.larmontessori.com e ao autor, Gabriel Salomão, devem ser mantidos.

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Passo 0 – Preparar o Ambiente
Antes de começar, vamos deixar a casa adequada para que tudo funcione da
melhor forma possível para sua(s) criança(s) e sua família.

Semana 1 – Observar o seu Filho


Para viver melhor com as crianças, precisamos conhecê-las de verdade. Por isso,
você vai aprender a observar seu(s) filhos e as necessidades deles.

Semana 2 – Poucos e Bons Brinquedos


A indústria quer que seu filho queira brinquedos. Mas ele só quer brincar.
Você poderá escolher melhor quais brinquedos dar ao seu filho.

Semana 3 – Ajudar seu Filho a se Concentrar


A concentração é uma porta para a felicidade e para um desenvolvimento
integral saudável. Você aprenderá a ajudar seu filho nesse caminho.

Semana 4 – Falar de um Jeito que seu Filho Escute


Quantos conflitos humanos são só falha de comunicação? Traga paz para as
relações em sua família se comunicando de uma maneira nova.

Semana 5 – Como Funciona a Birra Revolta do seu Filho


Nós achamos que a birra existe e que sabemos o que ela é. Descubra o que são a
revolta e o desespero da criança, de verdade, e viva em paz com seu filho.

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Preparar o
Ambiente

5
Para o passo zero, quero ajudar você a criar as condições físicas necessárias para
que o Programa de 5 Semanas para Montessori em Casa funcione de verdade.
Para isso, leia os dois textos abaixo e siga as orientações deles.

1. É Pra Ser Simples


Leia aqui: https://larmontessori.com/2014/04/04/e-pra-ser-simples/

2. O que Realmente Importa


Leia aqui: https://larmontessori.com/2014/03/10/o-que-realmente-importa/

Você também pode assistir a um video que mostra algumas casas


montessorianas e se inspirar.
Voila Montessori
Veja aqui: https://www.youtube.com/watch?v=vc6YQiIWyPg

Finalmente, pode passear por um blog com fotografias maravilhosas.


How We Montessori
Navegue aqui: http://www.howwemontessori.com/

Depois de preparar o ambiente, dê três dias de intervalo até começar o Programa


de 5 Semanas para Montessori em Casa. Nesses três dias, dedique-se a observar
seu ambiente e refinar tudo o que puder. Não se preocupe, nem fique ansiosa(o)
com coisa alguma. Nós ainda teremos pelo menos trinta e cinco dias juntos e
poderemos resolver tudo aos poucos.

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Observar o
seu Filho

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Observar é um ato de amor. Não há como observar sem amor. Se observamos sem
amor, detalhes escapam, e sentimentos negativos se intrometem na observação.
Sem amor, nós nos distraímos e a tarefa se torna enfadonha. Encarar a observação
como um ato de amor – tanto quanto a amamentação, o preparo do almoço ou o
beijo de boa noite – ajuda. Ela se torna mais agradável, e fazê-la todos os dias se
torna mais prazeroso e, aos poucos, se percebe como é um ato de amor precioso.

Observar é tentar enxergar o que a criança nos diz sobre si mesma, sem articular
verbalmente. A criança nos ensina a psicologia da infância, dizia Montessori. Estar
atento à criança é estar atento a como o ser humano se desenvolve, como uma
espécie vem a ser o que é. Ao mesmo tempo, é uma atividade despretensiosamente
familiar, de um amor de mãe para filho, de professor para aluno, e uma atividade de
investigação científica que pode revolucionar – como fez Montessori – a forma como
o adulto compreende a criança. Decididamente, revoluciona a forma como cada um
de nós compreende cada um deles.

Tenha um caderninho. Ele tem que ser querido, então você pode comprar um de que
goste ou fazer um para você, encapar um com um tecido agradável ao toque. É bom
que seja um caderno pequeno, porque é mais fácil de carregar com você e mais
discreto. Ele vai ser um caderninho de observações sobre as crianças com as quais
você convive. A outra opção é ter um bolinho de folhas de papel em cada cômodo de
sua casa com uma caneta que deve permanecer sobre ele, e utilizar as folhas
sempre. Depois, você pode arquivar as folhas em uma pasta ou encaderná-las. A
caneta com a qual você vai escrever precisa ser gostosa para você também. Vale
tudo para tornar a tarefa gostosa!

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Todos os dias, sente-se para assistir sua criança fazer qualquer coisa: tomar banho,
dormir, comer, assistir TV (eu não gosto de TV, e faz mal, mas demora para a gente
aceitar tirar isso da vida de nossas crianças), brincar, conversar com amigos.
Observe como ele faz, por quanto tempo se concentra, em quais atividades
permanece mais tempo, se precisa de você e com qual intensidade precisa. Anote
tudo. Veja se ele acordou mais disposto quando você mudou o colchão para o chão
e veja se organizar tudo muito direitinho ajuda no humor dele. Escreva as alterações
que acontecem conforme você insere o banquinho, a barra, o espelho, as estantes e
as escolhas. Registre as mudanças que vão acontecendo conforme você estrutura a
rotina e aprende a ser claro e direto, mesmo quando gentil, e conforme você
substitui os prêmios e castigos pela autodisciplina. Anote tudo.

Se você fizer isso todos os dias, vai começar a notar padrões de comportamento,
aprender o que é que ajuda seu filho, o que o torna mais tranquilo e o que o agita, o
que o deixa feliz e equilibrado e o que só o alegra. Vai começar a distinguir
pequenas crises de humor e o desejo de ficar sozinho para trabalhar, e vai ser capaz
de ajudá-lo em seu desenvolvimento com muito mais eficiência. Quando não
observamos, e não registramos por escrito, nossa visão, opinião e vontade se
intromete no que achamos que é percepção objetiva dos fatos, e então impomos às
nossas crianças aquilo que nós acreditamos ser o melhor naquele momento. Não
nos cabe esta tarefa. Nosso trabalho é ver o que ela nos diz que é melhor, e prover
aquilo que ela pede. Só a observação, como ato de amor, pode fazer isso por nós, e
por isso, assim como a falta de observação é a raiz de quase todos os erros,
também é a sustentação de todos os acertos.

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Nesta semana, você vai observar sua(s) criança(s) duas vezes por dia, por dez
minutos de cada vez. Abaixo, assinale os quadradinhos para controlar suas
observações.
Dia 1 Dia 2 Dia 3 Dia 4 Dia 5 Dia 6 Dia 7

Abaixo, copie suas observações. Busque ser objetiva(o) nela, e evitar opiniões, ou as
registre separadamente. Tudo bem se você escrever mais do que cabe aqui.
Dia Observação 1 Observação 2
1

Dia Observação 1 Observação 2


2

Dia Observação 1 Observação 2


3

Dia Observação 1 Observação 2


4

Dia Observação 1 Observação 2


5

Dia Observação 1 Observação 2


6

Dia Observação 1 Observação 2


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Abaixo, reflita sobre o que mudou em sua casa na última semana. Você também pode
pensar sobre o que foi mais fácil de fazer e quais foram as dificuldades maiores.

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Poucos e Bons
Brinquedos

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Para esta semana, você lerá dois textos:

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Sobre Brinquedos que Brincam Sozinhos

Leia aqui:

https://larmontessori.com/2014/05/03/sobre-brinquedos-que-brincam-sozinhos/

|2|

Sobre Montessori e Porque Não Devemos Estimular Crianças

Leia aqui:

https://larmontessori.com/2015/07/19/montessori-e-porque-nao-precisamos-estimular-criancas/

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Você pode imprimir cópias dos checklists se quiser.

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No dia 1, observe sua(s) criança(s) com brinquedos e anote o que viu.

No dia 2, observe sua(s) criança(s) com brinquedos e também outros objetos da casa.

No dia 3, aplique os checklists da página anterior para escolher brinquedos e objetos


para sua(s) criança(s), exclua alguns, inclua outros, e então observe seu(s) filho(s)
usando-os.

No dia 4, 5 e 6, repita o dia 3, refinando as escolhas de objetos a partir de


observação.

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Abaixo, reflita sobre o que mudou em sua casa na última semana. Você também pode
pensar sobre o que foi mais fácil de fazer e quais foram as dificuldades maiores.

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Ajudar seu Filho
a Se Concentrar

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Seu filho passa dez minutos brincando no banho, e isso o faz dormir melhor. Você
decide deixar que ele brinque com as panelas, e fica mais fácil estudar depois.
Crianças que têm mais liberdade para brincar também são crianças de convivência
suave. Crianças de qualquer temperamento e personalidade, uma vez concentradas,
são mais felizes, têm mais iniciativa, mais sucesso no que fazem, lidam melhor com
frustração e compreendem melhor orientações. Por quê? E como ajudar a criança a se
concentrar?

A criança que se concentra é imensamente feliz.

A frase é de Maria Montessori, mas poderia ser de qualquer grande universidade


contemporânea. A concentração é uma das características-chave do desenvolvimento
infantil, e embora isso tenha sido descoberto pela primeira vez no começo do século
XX, recentemente a concentração foi relacionada a um grupo de funções cerebrais
chamadas funções executivas e diretamente relacionada a um desenvolvimento
emocional positivo, a melhor desempenho acadêmico e a uma socialização mais
saudável. Por que isso acontece?

Quando a criança se concentra, penetra em uma realidade interior que não é


acessada sem concentração. Sem concentração, a criança precisa só fazer coisas.
Precisa dar conta de tarefas, cumprir ordens, obedecer, controlar-se. Mas não entra
em contato com o que acontece dentro dela mesma. Está ocupada demais fora.

Quando se concentra, acontece o contrário. O mundo exterior só existe até as mãos


dela. O interior aparece. Ela lida com a sua resiliência, com frustrações, com novos
desafios, com a sensação de sucesso e vitória, e a sensação de fracasso, lida com
pensamentos, emoções, com seu discurso interior… E na medida em que compreende
melhor o que acontece dentro dela, consegue viver melhor fora. 18
ç

A concentração está mesmo relacionada à felicidade. Mas é mais que isso. Ela está
relacionada a propósito. Quando a criança se concentra, não faz as coisas por fazer. Faz
porque as coisas fazem sentido. E isso é raro nas vidas das crianças e dos adultos. Num
mundo em que na maior parte do tempo se faz coisas porque elas têm que ser feitas, ou
porque queremos nos distrair, a concentração é um portal. Para um mundo diferente. Para
um desenvolvimento saudável.

A criança sabe de tudo isso. Intuitivamente. Lá dentro. Porque nasceu para se concentrar e se
desenvolver da melhor maneira que puder. Por isso ela busca as panelas. Por isso ela tira as
calças assim que consegue colocá-las. Por isso ela demora com os brinquedos no banho.

Nós podemos ajudar a criança a se concentrar. Em um texto sobre o assunto, explicamos


como:

“Como nasce a concentração? A concentração nasce do trabalho. Um trabalho muito


especial, que envolva as mãos, a mente e o coração. Que seja interessante, agradável e
envolva movimento. De todos os tipos possíveis de trabalho, os que conduzem mais
facilmente à concentração são as atividades de independência – que em Montessori nós
chamamos de atividades de Vida Prática”.

As atividades de Vida Prática são as que permitem à criança se tornar independente do


adulto. A criança sempre quer fazer coisas. Nos primeiros seis anos de vida o que mais quer é
aprender a fazer as coisas sozinha. Para isso, precisa de nossa ajuda. Veja na próxima página
algumas coisas que podemos fazer para ajudar.

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ç

■ Abaixar ítens da casa para que fiquem acessíveis para a criança.

– Bandejas, travessas, utensílios de cozinha. Livros, roupas, sapatos. Vassouras,


rodos, panos. Regadores para plantas, esponjas de banho, sabonete em pedaços.

■ Demonstrar como se usa cada um desses ítens.

– Atividades de cortar, regar, lavar, limpar…

– Podemos demonstrar em silêncio, para que a criança não se distraia com nossa
voz, ou podemos falar sobre o que vamos fazer, com poucas palavras, e então
fazer em silêncio.

– Devemos demonstrar devagar, como se alguém estivesse nos ensinando a fazer


algo muito, muito complexo.

– E aí devemos convidar a criança para fazer.

■ As coisas que a criança já sabe usar devem ficar disponíveis para ela, enquanto houver
interesse.

– O interesse depende do desafio. Quando não houver mais desafio, o interesse


desaparece.

– Isso é um sinal de que podemos oferecer um desafio mais complexo naquela


direção.

■ Depois que a criança estiver trabalhando, não interrompa.

– “Nunca interrompa uma criança em alguma coisa que ela acha que pode fazer
sozinha” – Montessori

– “Nunca interrompa uma criança que progride, não importa quão lentamente” –
Montessori

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ç

No começo pode ser um desafio entender que a criança deseja de verdade se concentrar, e
pode ser um desafio maior ainda achar atividades que promovam a concentração. Não se
intimide. A criança não vai se concentrar de uma vez. Primeiro ela vai se interessar, depois se
tranquilizar, aí começar a ter algum foco, e só então se concentrar de verdade. A tranquilidade
já é um presente precioso. Para ajudar você, escolhi alguns vídeos do incrível Voila
Montessori, que estão numa playlist abaixo. Não se limite às ideias dos vídeos. Siga sua
criança e os interesses dela.

Playlist: https://www.youtube.com/watch?list=PLt4bdlrehqZlgXPGh7bzkttTWF-
fpJGhf&v=WKpjbugCyzM

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No dia 1, observe sua(s) criança(s) em atividade livre. Anote o que viu.

No dia 2, convide a criança e mostre algo que ela pode gostar de aprender a fazer.
Observe.

No dia 3, repita o dia 2. Observe a criança, com discrição. Convide-a para mais uma
atividade. Você pode mostrar mais de uma coisa por dia, ou demonstrar algo outra
vez.

No dia 4, 5 e 6, repita, refinando a sua observação para mostrar o que interessa à


criança.

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Abaixo, reflita sobre o que mudou em sua casa na última semana. Você também pode
pensar sobre o que foi mais fácil de fazer e quais foram as dificuldades maiores.

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Falar de um Jeito
que Seu Filho Escute

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í –
Comunicamos muito. Comunicamos verdadeiramente o tempo todo. Algumas vezes usando
as cordas vocais ou sinais das mãos. Algumas digitando. Lendo, escrevendo, tirando fotos.
Comunicamos demais. E fazêmo-lo bastante com as crianças também. Sendo uma de nossas
ações mais frequentes, a comunicação é a fonte de muitos de nossos afetos, é o que garante
as relações que mantemos com nossos pares, é o que sustenta a socialização, e,
infelizmente, é o que gera as guerras. Mas felizmente, é o que pode gerar a paz. Há formas de
falar com a criança que garantem paz, garantem bem estar, exprimem respeito e reverência.
São essas as formas que investigaremos aqui.

Fala Pacífica

O modo de falar pacífico é na verdade óbvio, e pode ser descoberto por cada um de nós,
isoladamente, sem muito do auxílio de um texto. Feche seus olhos e imagine uma fala de paz.
Deverá vir à sua mente uma voz talvez conhecida, em um ritmo e volume que serão
associados diretamente a uma sensação interna de tranquilidade e de certeza de que está
tudo bem. Essa fala tem algumas características e, de forma interessante, se assemelha
muitíssimo à forma de dizer aconselhada por Montessori aqueles que lidam com a Criança.

Imagine-se por um momento descobrindo uma trilha na floresta, sendo guiado por alguém de
sua confiança.

Se o seu guia fala muito alto, ele não permite que você preste atenção ao caminho. É
importante que ele fale em um volume que permita a você reconhecer o som das folhas e dos
galhos se movendo ao vento, o som das águas correndo entre pedras, dos animais
caminhando, pulando e cantando nos galhos. Falar muito alto distrai você, monopoliza sua
atenção para o guia e, depois de algum tempo, sequer há trilha à sua volta, você só percebe a
fala dele à sua frente.

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í –
Com a criança funciona do mesmo jeito. Se falamos muito alto, tiramos dela a chance de
apreciar os outros sons do mundo. De uma maneira ou de outra, nos colocamos acima do
mundo que a cerca e trazemos toda sua atenção para nós. Por isso, em Montessori, falamos
baixo (1). Quando não estamos ensinando nada à criança, falamos baixo perto dela para não
atrapalhar seus esforços individuais. E quando estamos ensinando algo, falamos baixo e
falamos pouco, para que ela fique atenta à informação principal e, se for o caso, às ações de
nossas mãos, muitas vezes mais importantes do que os sons de nossa boca.

Ainda quanto ao guia, lhe agradaria se ele falasse sempre de forma tranquila (2),
certamente. O sossego na voz nos dá a certeza de que está tudo bem e de que podemos
estar seguros quanto à pessoa em quem confiamos. Quando alteramos nossa voz com as
crianças, na escola, em casa, e em espaços públicos, denunciamos nosso próprio
desequilíbrio – que existe, a criança sabe que existe, e tudo bem também. Entretanto, é bom
que ela saiba que não é um copo quebrando (e portanto sua falta de segurança motora), ou
um choro longo (e portanto seu desespero emocional), ou um atraso para a escola (e
portanto seu ritmo natural, diferente do nosso) que provocam abalos sísmicos em nossas
emoções. Deixemos o desequilíbrio para situações nas quais de fato não consigamos nos
manter estruturados. Nas outras, no dia a dia, a voz tranquila é o sinal de que vamos dar um
jeito, de que os adultos estão aí para ajudar.

Já falamos em outros textos sobre a necessidade de uma fala clara (3), bem articulada.
Especialmente para a criança pequena, isso importa para a aquisição de vocabulário. Falar
de forma bastante clara é nitidamente de auxílio para a compreensão da criança e para a
vocalização posterior dos termos que você usou. Ela te entende melhor e consegue
incorporar palavras e estruturas de frases que você usa.

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í –
Quando falamos, enfim, com a criança, precisamos respeitar suas necessidades mais
básicas, para que a comunicação funcione. Por isso, é importante falar pausadamente (4),
dando tempo para a criança processar (exatamente como você gostaria que seu guia fizesse,
se houvesse um tronco, uma cobra ou uma teia de aranha em seu caminho. Você gostaria
que ele avisasse antes e devagar). Caso contrário, exatamente como aconteceria na trilha, a
criança tropeça. Ela não consegue fazer exatamente o que esperávamos, ela se atrapalha.
Falar uma vez, claramente. Esperar. Repetir apontando com a mão, se possível. Esperar.
Geralmente, uma fala e uma repetição, com ritmo pausado, resolvem muita coisa.

Alguém disse que noventa por cento dos problemas da humanidade são problemas de
comunicação. E parece bem verdade. Falássemos mais lentamente uns com os outros, sem
o rodamoinho de mensagens, falas, músicas, anúncios em que vivemos, possivelmente
teríamos uma vida com uma quantidade de mal-entendidos muito menor. Também por isso é
tão importante que falemos com a criança de forma pacífica. Ela previne conflitos. Não é
possível brigar com ninguém falando de forma tranquila, clara, pausada e baixa. Falar
devagar nos dá o tempo necessário para pensar no que estamos dizendo, e ter de manter a
voz tranquila, baixa e clara nos faz falar mais devagar. Assim, portanto, se garante menos
problemas em casa, menos problemas de comunicação e, por que dizer diferente, menos
problemas para a humanidade.

É um desafio, e ninguém discorda disso. É um dos maiores desafios que encontramos, e não
resta dúvidas de que em casa serão necessárias repetidas tentativas. Mesmo assim, vale a
pena. Você terá um lar mais tranquilo, emocionalmente mais seguro, com um nível de tensão
muito reduzido e, vale dizer, uma criança que fala baixo, grita pouco e tem prazer em uma
comunicação que, se é admirável em adultos, é ainda mais bela vista entre os pequenos
líderes da civilização.

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No dia 1, pare algumas vezes para analisar a comunicação entra você e a(s)
criança(s).

No dia 2, comunique-se o melhor possível com sua(s) criança(s). Observe os efeitos.

Nos dias 3 e 4, repita o dia 2. Observe os efeitos de uma comunicação melhor, mais
cuidada e mais preocupada com a construção de uma relação pacífica entre vocês.

Nos dias 5 e 6, além de repetir o que vem fazendo, anote também mudanças
interiores que passem a ocorrer com você a partir dos novos esforços de comunicação
pacífica.

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Abaixo, reflita sobre o que mudou em sua casa na última semana. Você também pode
pensar sobre o que foi mais fácil de fazer e quais foram as dificuldades maiores.

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Como Funciona a
Birra Revolta do
seu Filho

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Estamos em um restaurante. Ele pega uma colher de comida e deixa cair no chão. Eu fico
bravo e o mando limpar aquilo do chão. Eu uso as palavras "nojento" e "mal educado"
enquanto falo alto. A vergonha sobe depois da raiva, quando percebo que as mesas em
volta me assistem. Ele se nega a limpar. Eu o seguro pelo braço e digo: "Se você não limpar,
nós vamos para casa. Isso é muito nojento e você não pode fazer isso. É muito nojento.". Ele
me olha com os olhos cheios d'água, com o rosto retorcido, e diz que NÃO vai limpar. Agora
a raiva e a vergonha estão juntas. Minhas duas piores guias. Eu o puxo pelo braço e digo
entre dentes que vamos para casa agora. Ele faz seu corpo pesar para o chão, deita de
bruços, e eu o puxo até ficar de pé. Ao longo do caminho para casa, ele chora, eu travo os
dentes, puxo seu braço até chegarmos. Chegando, eu o mando para o quarto gritando, ele
vai, se deita, e chora. Eu não sei o que fazer.

Isso aconteceu de verdade, com várias famílias. Mas você sabe que isso é comum, e talvez
isso tenha acontecido com você é seu filho, em um shopping, uma loja de brinquedos, uma
calçada, ou na casa dos seus pais. O mundo acha que isso é birra e que a criança fez e faz
escândalos ou dá pitís. Este texto é um manual para entender o que isso é na verdade (dica:
não é birra, escândalo, nem pití) e como fazer para que esse problema não faça parte da
vida da sua família.

O que é a "birra"?

A primeira coisa que precisamos entender é que birra não existe. Chamar "birra" de birra é
um jeito de entregar para a criança a responsabilidade sobre um problema que é social e,
em geral, causado pelos adultos. A "birra" é uma resposta desesperada e revoltada da
criança a sofrimentos que sofreu, no momento da explosão ou antes e de forma acumulada.
"Birra", na verdade, é desespero e revolta. Quando dizemos que uma criança faz birra, o
problema é ela. Veja alguns exemplos na próxima página:

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- Pedro fez uma birra gigante hoje no restaurante. - o problema é o Pedro. A situação
começa e termina nele.

- Ana deu um escândalo no caminho para casa. - o problema é a Ana, seu comportamento.
Mais nada.

Agora vamos substituir as palavras:

- Pedro ficou revoltado hoje no restaurante. - Naturalmente, a pergunta que segue é: "Por
que ele se revoltou?".

- Ana ficou desesperada no caminho para casa. Qualquer um pergunta, então, "Por que ela
ficou desesperada?".

Quando mudamos as palavras, temos a chance de olhar de novo para a situação é achar a
causa verdadeira do comportamento. Quais são, então, as causas mais comuns de
desespero e revolta na vida de uma criança?

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De onde o desespero e a revolta vêm?

As causas mais comuns de desespero e revolta são: falta de ordem, rotina e consistência no
comportamento dos adultos; falhas repetidas de comunicação entre adultos e criança; falta
de oportunidades de escolha; e falta de oportunidades de independência. Vamos examinar
todas essas causas.

1. Falta de ordem - a criança precisa de ambientes organizados e previsíveis, poucos


objetos, bem escolhidos, sempre no mesmo lugar, com ambientes limpos, claros e simples.
Um segundo tipo de ordem necessário é a rotina. A criança precisa de dias iguais,
especialmente no começo e no final do dia. Não importam tanto os horários, mas importa a
sequência dos acontecimentos e os rituais da rotina. Um terceiro tipo de ordem importante
é a consistência no comportamento dos adultos. Temos de ter poucos limites, e eles
precisam ser sempre respeitados. É importante arrumar a vida de um jeito que a criança
seja livre para que as proibições sejam poucas, mas elas devem ser constantes, e os
adultos precisam ser firmes com elas, embora amorosos, para que a criança sinta
segurança e sossego. Qualquer ausência de ordem leva ao desespero muito facilmente, e
isso é especialmente verdade entre os dois e os quatro anos, durante o Período Sensível da
Ordem.

2. Falhas repetidas de comunicação - pais e mães em geral conversam pouco com os


filhos, e utilizam muitos comandos e negações. Uma vida na qual a maior parte da
comunicação seja uma obediência a comandos e negações é cansativa e monótona.
Quando a criança fala, damos pouca atenção e tentamos terminar rápido a conversa com
respostas genéricas. Isso é frustrante e humilhante. Quando ela está aprendendo a falar, é
mais frustrante ainda, porque a chance de sucesso já é pequena se nós prestarmos
atenção, e sem atenção é quase nula. É terrível nunca ser compreendido, nunca ser
escutado, e nunca ser importante o suficiente para te dizerem algo que não seja um
comando ou uma negação. Precisamos conversar com nossos filhos e sempre que nossos
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filhos disserem qualquer coisa, inclusive um "não!", precisamos ouvir o que está sendo dito
e o motivo pelo qual aquilo nos foi dito daquele jeito e naquela hora. Esta é a parte mais
importante de todo este texto.

3. Falta de oportunidades de escolha - crianças precisam escolher. Nós precisamos


escolher. Imagine uma vida sem escolhas. Agora imagine a vida da criança. Nunca ter
escolhas, sempre seguir ordens, sempre fazer o que foi decidido por outra pessoa, e quando
foi decidido, é ruim. Ter que parar o que você está fazendo porque alguém decidiu que é
hora de parar para fazer outra coisa... é chato quando acontece de vez em quando. É
insuportável se acontece o tempo todo. Deixe seu filho escolher tudo o que for possível:
roupas, atividades, locais... aí, quando não for possível escolher porque aquilo precisa ser
escolhido por um adulto, a criança vai obedecer em paz. É muito mais fácil abrir mão de
uma escolha de vez em quando, do que abrir mão de todas o tempo todo. Pode exigir
negociação no começo, mas fica fácil depois, conforme a criança compreende que você dá
escolhas sempre que pode, e só faz a escolha para ela quando não tem outro jeito.

4. Falta de oportunidade de independência - a grande busca da vida da criança é se


tornar independente dos seus adultos. Fazer as coisas sozinha, tentar adquirir uma nova
habilidade, insistir quando está difícil. Tudo isso é importante para ela. Quando nós fazemos
tudo pela criança, sua personalidade não tem força. Ela fica emocionalmente instável e
frágil. Sem concentração, sem base, sem chão. E aí, qualquer coisa a desespera e revolta
muito mais facilmente. A conquista da independência pelo próprio esforço é o chão do
desenvolvimento emocional da criança. Sem isso, tudo é desesperador.

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Como prevenir?

Se você conhece as causas do desespero e da revolta da criança, conhece a solução para o


problema.

Dê um ambiente organizado a ela. Com poucos brinquedos e objetos, e com um ambiente


limpo e claro, é mais fácil.

Dê uma rotina de rituais repetidos na mesma ordem e do mesmo jeito a ela. Especialmente
quando ela acordar e antes de dormir.

Dê a ela chances de conversar com você. Ela te ama mais do que você imagina! E tem um
mundo de coisas interessantes para dizer e revelar, se você der a ela algum tempo todos os
dias. Quando ela estiver ansiosa, tensa, dê mais chances de comunicação ainda. Ela
precisa disso.

Deixe que ela escolha tudo o que for possível e que busque independência. É incrível a paz e
o bem-estar que um pouco de escolhas podem trazer. Deixe que ela descubra escolhas
certas e erradas, como colocar as calças do avesso, por exemplo. Impeça as que fariam mal
óbvio a ela, mas permita esforços e progressos, mesmo que sejam lentos. Não interrompa
se ela achar que é capaz de fazer sozinha.

O que fazer quando já está dando tudo errado?

Você pode estar pensando que é fácil ler tudo isso, mas é difícil fazer, e que provavelmente
vai viver mais algumas situações difíceis de verdade antes das coisas começarem a
melhorar. E pode ser. Mas essas situações não precisam chegar a extremos se você seguir
alguns passos simples.

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• Não se desespere. Basta o desespero do seu filho. Não há nada que uma criança possa
fazer contra você. A vergonha, a impotência e a humilhação são só sensações, e você pode
olhar para elas e agir sem que elas comandem sua ação.

• Respire. A sério. É uma dica maravilhosa. Faça questão de respirar no seu dia a dia, para
sentir alegrias mais profundamente, para aproveitar melhor momentos e, em horas difíceis,
respire no mínimo seis vezes para não permitir que as sensações comandem seu
comportamento.

• Não alimente a espiral negativa. Seu filho está desesperado por um motivo. Você não
precisa saber qual é imediatamente. Mas também não precisa piorar as coisas. Não dê
mais motivos para desespero. Fale baixo. Fale baixo. E aí fale devagar. E aí respirando veja a
beleza que ainda está nos olhos do seu filho e o sofrimento que deu origem ao desespero e
à revolta dele. Ele também queria estar em outra situação, sentindo outra coisa.

• Use o amor. O amor não é uma palavra. É um poder. O maior poder humano. Um poder ao
qual ninguém resiste. O amor pode aparecer no seu olhar. No respeito ao espaço que seu
filho precisa. No tempo que ele precisa, e você também, para se acalmar. No olhar sem
urgência. No ouvido capaz de compreensão. Na voz curiosa e carinhosa. Na firmeza
necessária à segurança. O amor tem muitas roupas. Mas é todo-poderoso. Use esse imenso
poder e transforme a situação. Depois, converse. Entender é amar, e amar é compreender.

Uma vida nova?

O que acontecerá quando você colocar este texto em prática não é uma modificação
milagrosa, repentina, de sua relação com sua criança. Vai exigir esforço, é claro. E de vez em
quando vai parecer que você está se esforçando e ela não. Continue. Ela está se esforçando
sempre. Ela ama você mais do que você imagina. Mas precisa de algumas coisas. Dê essas
coisas a ela. E quando as coisas ficarem difíceis, não pare de dar o que ela precisa. No fim,
você vai receber mais do que esperava, também.
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No dia 1, note se houve diminuição dos episódios de revolta, ou da intensidade do
desespero de sua(s) criança(s) pelas modificações que fizemos em sua convivência.

No dia 2, note as causas e suas respostas aos episódios de desespero e revolta da


criança. Funciona?
Episódio Causa Sua resposta Funcionou?

Com o que você aprendeu no dia 2, faça os ajustes que puder e continue o trabalho
nos dias 3 e 4. Anote o que aprender e o que observar, e faça modificações de acordo.

Se necessário, releia o texto desta semana e continue o trabalho de refletir sobre as


causas do desespero da criança nos dias 6 e 7. Note também o que vem dando certo,
e continue no caminho de seus acertos. Perceba como se faz uma relação de paz.

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Abaixo, reflita sobre o que mudou em sua casa na última semana. Você também pode
pensar sobre o que foi mais fácil de fazer e quais foram as dificuldades maiores.

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Abaixo, reflita sobre o que mudou em sua casa ao longo do Programa de 5 Semanas.
Escreva sobre o que melhorou, e escreva também sobre dificuldades e frustrações.
Finalmente, proponha-se, por escrito, a continuar seus esforços nas direções em que achar
importante.

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Parabéns, de verdade!
Provavelmente, as últimas cinco semanas foram de muito trabalho
para você e sua família. Primeiro, quero dizer obrigado. Sua(s)
criança(s) tem sorte de ter você com tanta disposição para melhorar.
Tenho certeza de que vocês foram longe. Talvez você também sinta
isso. Esforços intensos valem a pena, e valem mais a pena quanto
mais o tempo passa. Por isso este programa é longo.
Pode ser que você sinta alguma frustração. Que alguma coisa não
esteja como você gostaria. Está tudo bem. As coisas nunca estão como
a gente gostaria. A parte importante é continuar. Montessori, e a vida
de sua(s) criança(s) não são algo que se resolva em um mês e alguns
dias.
Há uma vida pela frente, e agora que nos conhecemos e confiamos um
no outro, podemos fortalecer nossos esforços. O Lar Montessori tem
vários textos e vídeos, um minicurso e um livro para você. Aproveite
tudo o que quiser, e entre em contato quando precisar.
Se você chegou até aqui, eu quero ouvir como foi. Por favor, escreva
uma mensagem contando sua experiência com o
Programa de 5 Semanas para Montessori em Casa.

Grande abraço,

gabrielmsalomao@gmail.com

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