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Capitulo y, ) Puxando pela memoria) ‘A Revolugdo Indust fee vas classes ou grupos sociais se tornarem os. Drincipals protagonistas a histéria, substiuindo 5 nobres ¢ os ‘campaneses. Quais foram esses grupos? ‘Cena de um dia de mercado em Londres durante 0 periodo das primeira transformagdes ra indistria yrdnca. Percebese a imagem @ renresertarao do “grande mercado consumidor ingles do final do séou'o XVEE eum vislumbre dos jé comuns problemas habiacionais € turbanos,ntensiicados com a Revolugdo Industria, por canta 4a concentracSo da populardo ‘nas maiores cidades. Market Day, leo sobre tea de autor descanhecido, 1765. (Sotheby's, ‘Londres, Reino Unido) A locomotiva em marcha, a Revolucao Industrial As primeiras locomotivas, no século XIX, puxavam somente vagoes de carga. Com 0 tempo, também passaram gp, vagSes para passageiros. Depois, 0 vapor impulsionou navios, Foi ura verdadeira revolugao nos transportes. Nas palavras do historiado, gre Hobsbawm, “o mundo ficou menor”. Como se pode encontrar uma expressdo quantitativa para 0 fato, aye, ‘em dia poucos poderiam negar, de que a Revoluedo Industrial criou 0 mung, ais feio no qual 0 homem jamais vivera, como testemunhavam as ig {étidas e enevoadas vielas dos bairros baixos de Manchester [cent inguey, da Inglaterra]? (...) Ninguém podia negar que havia uma pobreza espantcs, ‘Muitos sustentavam que estava mesmo aumentando e se aprofundanda ¢ ainda assim, pelos eternos critérios que medem os triunfos da indistia egg ciéncia, poderia até mesmo o mais lGgubre dos observadores racionakstas sustentar que, em termos materiais, 0 mundo estava em condigdes piores qp que em qualquer época anterior (...)? Nao poderia. (WOBSBAWM, Erie J. A Era das Revolueées 176516 Rio de Joneio: Pare Tera, 1973.5 32135, £0 processo de transicao do mundo ocidental dos camponeses, artesdos e aristocratas para o mundo burgués, operdrio e capitalista, tendo como pioneira a Inglaterra e sua Revolucdo Industrial, que vamos analisar neste capitulo. ‘A locomotiva em marcha: a Revolucéo Industrial O que foi a Revolucdo Industrial? Denomina-se Revolugdo Industrial as transformagbes econdmicas ocorridas na Inglaterra a Partir das tiltimas décadas do século XVIII, tempo em que a maquina a ‘vapor passou a ser sistematicamente utilizada na produgdo de mercadarias, em espe cial na fabricagio de tec los, na mineragao e na metalurgia. Essas mudangas levaram a implantagao da industria contemporanea. Criaram-se, ainda, novos mercados consumidores, muitos pela forga das armas. Afinal, 8 medida ue se industrializavam, os paises precisavam ampliar mercados em varias partes do mundo, Essas mudangas nao foram rapidas: ocorriam desde o inicio da Epoca Moderna, com a expansio maritima, que colocou em contato regides muito distantes. Mas foi na segunda metade do século XVIII e inicio do XIX que as mudangas se aceleraram, configurando a Revolugao Industrial. Alguns historiadores distinguem, na verdade, dois momentos da Revolugdo Industrial: Primeira Revolucio Industrial, compreendida entre fins do século XVIII ea dé- cada de 1830. O foco foia renovacio do sistema fabril ligado & producio de tecidos de algodio; * Segunda Revolugao Industrial, cujo apogeu ocorreu a partir de 1850 e é caracte- izada pelo avanco da metalurgia, sobretudo da industria do ferro, e pela constru- Gho de ferrovias, Os motivos do pioneirismo inglés No século XVIII, «Inglaterra era um pais rico, com a maioria da populacio vivendo 1no campo, Em 1700, a populacio girava em torno de 6 milhdes de pessoas, com cerca de 70% ocupadas nas atividades agririas. A produgio agricola, entretanto, vinha sofrendo mudangas importantes. Nos campos e pastos antes deixados em pousio (sem cultura para descanso e recu- peragdo dos nutrientes do solo), introduziu-se o plantio de outras culturas, em especial ‘ado nabo ¢ da batata, que nao desgastavam o solo e forneciam mais alimentos. Alguns estudiosos denominam essa etapa de “revolucio agricola’ Na pecudria,aestocagem de forragens, como o feno, methorou a qualidade do gado bovino e ovino — este, a principal fonte de matéria-prima da manufatura inglesa: 213. Foi importante também o rapido aumento no processo de cercamento das terras co- runs, que ocorria ha séculos na Inglaterra, mas que sofreu enorme impulso na segunda metade do século XVIII e inicio do século XIX. As terras comuns eram aquelas que ‘0s camponeses ¢ 0s aldedes, embora nio fossem os proprietarios, tinham o direito de utilizar para cagar, pescar, retirar lenha e madeiras ¢ usar como pasto para seus animais. Por meio dos chamados cercamentos (enclosures), 0 governo inglés livrava os pro- prietérios de qualquer tipo de restrigio quanto ao uso de suas terras,incluindo as ter ras comuns, podendo dispor delas como quisessem, vendendo-as ou arrendando-as. Houve, na verdade, uma redefinigao da propriedade agriria e das relagdes de trabalho no campo. [Asli que permitram aos propritaris vender ou lugar asters inclusive as tras comuns foram deterrinadas plo Pas allenvel possiel |_Como todas as terras, inluindo as terras comuns, passaram a s " wid «ae servendida. ‘ camponeses nao puderam mais usi-las em proveito proprio, Pasgra My, por jornada para os proprietarios ou arrendatarios mais ricos ou mgs "ba gran tros lugares. Bram pe © rompimento da forma tradicional com a qual 0 trabalhadors ry cionavam coma terrae as novas condigoes agrétias representaram um. campesinato:o contrato de trabalho passou a ser individual, e nig maa familiar, Embora n ido um processo imediato, a verdade é gy, th camponés familiar” desapareceu ae en Op) ido tenha Os proprietéros ingleses ou os atrendatitios mals ricospuderam,g camento dos campos, introduzir novos métodos agricolas ede cing. como o rodizio de cultura, as ampliages dos usos do arado triangular (oc custo de preparagio do solo), da semeadeira mecanica ede adubos,c, dla produtividade das terras em decorréncia das novas técnicas, 6 ag ricos, o prego do arrendamento subi muito €até mesmo os pequeros ares rio puderam mais arcar com o aluguel. Acabaram expulsos da terra, agi camponeses proprietarios de pequenos lotes, pressionados a vendé-los, Oe, ing (auercin® OM sung €ssitsaag im ony Em 1700, estima-se que metade das terras cultivaveis inglesas ainda er por meio da exploragao dos campos comuns. Ao fim do século XVII, mente jé nio existiam. O fim das terras comuns e 0 cercamento dos camp. traram a propriedade fundidria nas maos de cada vez menos pessoas, Ug as Prati. 05 cong TOPE eanynuy Batata e industria A batata é um tubérculo origindrio dos Andes, ra regiao da serra peruana e boiiviana, na ‘América. Foi introduzida na Europa no século XVI, mas 86 para consumo dos animais. Havia grande preconceito em utiizéla para alimentagéio humana, pois a base da alimentagao europeia eram os cereais, como 0 trigo e o centelo, ¢ consideravam tubérculos indignos para alimentagao humana. Foi na Inlanda que seu consumo se popularizou desde 0 século XVIl, mas somente no século XVIll a batata passou a ser um dos principais alimentos das populagdes mais pobres na Inglaterra, A grande vantagem da batata é& seu alto grau de resisténcia, pois suas raizes A pintura Comedores de batata, de Vincent van Gogh, de 1885. retrata camponeses holandeses no momento da refeicso. Aveta ficam armazenadas e preservadas no solo, brotando sem necessidade de novo plantio. ‘aparece como 0 tnicoalimento,evidenciando a vulfarzags0de S* ‘consumo entre populagie mais pobre da Europa.