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2.1.

Economia dos Recursos Naturais


Objetivos

 Conhecer a classificação dos recursos naturais:
exauríveis e renováveis
 Conhecer a proposta de classificação de MacKelvey
 Conhecer a regra de Hotelling e as implicações deste
princípio sobre a sustentabilidade
 Identificar a lógica geral da decisão de extração de
recursos renováveis

Economia e meio ambiente Mônica


Aula 5 2
Yukie Kuwahara
 A economia dos recursos
naturais lida com os
aspectos da extração e
exaustão dos recursos
naturais ao longo do
tempo.
 “Emerge das análises
neoclássicas a respeito
da utilização das terras
agrícolas, dos minerais,
dos peixes, dos recursos
florestais madeireiros
etc” (SILVA, 2003, p.34)

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 A Economia dos Recursos Naturais analisa os
recursos ambientais no seu papel de matérias-
prima, de inputs para os processos produtivos.
 Vinculada à abordagem neoclássica, mantém-se
fundamentada no utilitarismo, no individualismo
metodológico e no equilíbrio, realizando,
portanto, análises sobre as formas de “uso
ótimo” dos recursos.

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 “Um recurso que é
O principal critério
extraído mais rápido
para a classificação do que é reabastecido
por processos naturais
é a capacidade de é um recurso não-
recomposição de um renovável. Um recurso
que é reposto tão
recurso no horizonte rápido quanto é
extraído é certamente
do tempo de um recurso
renovável”
decisão humana

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Os recursos
Economia e meio ambiente Aula 5
Mônica Yukie Kuwahara

• Renováveis, ou • Não renováveis, ou


reprodutíveis: solos, exauríveis, esgotáveis
ar, águas, florestas, ou não reprodutíveis:
fauna e flora no geral minérios,
combustíveis
Recursos exauríveis
 “A relação entre o tempo em que os processos
naturais necessitam para a concentração dos
minérios em jazidas comercializáveis e o
tempo em que estes são extraídos é que leva a
considerá-los como exauríveis.” (SILVA,
2003:36)
 Há uma diferença entre os recursos estarem
efetivamente disponíveis ou potencialmente
disponíveis.
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Reservas ≠ Recurso
 “A reserva mineral implica algum tipo de
medição física que tenha sido feita sobre o
teor e a quantidade de concentração mineral
in situ e, além disso, que sua extração seja
viável do ponto de vista tecnológico”
(SILVA, 2003, p.36)
 Já o recurso, embora saibamos que exista, não
temos informações para saber quando
poderemos utilizá-lo de forma comercial.
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Recursos hipotéticos
 “São todos os recursos conhecidos e não
conhecidos, mas possíveis de existir numa
determinada porção da crosta terrestre, e
capazes de serem utilizados no futuro”
(SILVA, 2003: 36)
 McKelvey apresenta estas distinções em
termos de critérios tecnológicos e
econômicos.
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Recursos Totais
Grau de certeza da existência crescente

Graus de praticabilidade econômica


Econômico

(medida pelo preço/custo)


Recursos hipotéticos
Relação Preço/custo

De recuperação crescente
(>1)

Reservas
Sub-Econômico

Recursos
(<1)

Conhecidos Desconhecidos
Figura 3. Caixa de McKelvey – critério para delimitaçãoAula 5
Reservas naturais
Interpretando a Caixa de McKelvey

 O nível de conhecimento do solo determina as


separações no topo e na base da caixa, configurando
critérios técnicos portanto
 As laterais são divididas por critérios econômicos
(preço/custo)
 Canto inferior esquerdo: existe, mas é caro...

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Interpretando a caixa...

 Ao classificar os recursos em termos técnicos, dividindo-os


em reservas provadas, prováveis e possíveis, e em termos
econômicos, dividindo-os em comerciais e sub-comerciais,
McKelvey foi o primeiro a incorporar as incertezas e a
viabilidade econômica na análise de exploração econômica
do recurso.

 MCKELVEY, V. E. 1972. Mineral resource estimates and


public policy. American Scientist, vol 60. p.32-40.

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Economia dos recursos naturais
envolve decisões intertemporais
 Dado que uma das preocupações da economia
dos recursos naturais é a utilização dos
recursos ao longo do tempo, defrontamo-nos
com problemas de alocação intertemporal da
extração.
 A otimização intertemporal estaria garantindo
a utilização de um recurso exaurível da
melhor forma socialmente possível ao longo
do tempo.
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Alocação intertemporal ótima
 Esta alocação seria obtida através da
maximização de utilidade com a inclusão do
conceito de custo de oportunidade e do
procedimento de desconto dos valores
ambientais futuros a valor presente,
determinando-se assim o nível "ótimo" ou
taxa “ótima” de extração

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Decisões intertemporais
 Implicam em opções feitas no presente, mas
que apresentam conseqüências no futuro. No
caso de recursos exauríveis, envolvem
decisões sobre a época adequada de
exploração.
 As variáveis críticas para análise de decisões
intertemporais são a taxa de juros (ou taxa de
desconto) e o Valor Presente Líquido (VPL)
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VALOR PRESENTE LÍQUIDO - VPL

 t t
 Se VPL > 0, indica
viabilidade, e as
ações podem ser
B  C
(1  d )
ordenadas de acordo t
com a magnitude de
VPL.

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Taxa de desconto (d)
A taxa de desconto pode ser uma decomposta em um
de dois conjuntos de considerações, ou de ambos,
simultaneamente
 1. Taxa social de preferência no tempo ou taxa de
desconto de consumo – seria uma taxa pela qual
indivíduos mostrar-se-iam dispostos a postergar
consumo (s)
 2. Custo de oportunidade do capital ou taxa de
retorno do capital – seria uma taxa que indicasse
quanto tomadores de recursos estariam dispostos a
pagar pelo recursos (r)
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Interpretando a taxa de desconto
 s depende do valor que a sociedade dá ao consumo
presente, associando-se à taxa esperada de
crescimento do consumo per capita
 r depende do risco e do crescimento, associando-se
à rentabilidade média do conjunto de projetos da
economia
 QUAL DELAS? Depende da fonte de financiamento
do projeto ou do destino dos benefícios

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Problemas relacionados à “d”
 A taxa varia ao longo do tempo, à medida
que variam as expectativas
 Uma taxa baixa pode levar à uma decisão
econômica ótima, mas ambientalmente não
sustentável porque o valor presente passaria a
ser bem maior que o valor futuro,
antecipando a exaustão.

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Hotelling
 Em seu artigo de 1931 "The
Economics of Exhaustible
Resources", estabeleceu a
formulação básica para a Economia
dos recursos naturais.
 Constitui-se um modelo que encara
os recursos naturais privadamente
extraídos e comercializados no
mercado, tornando-os matérias
primas, inputs, do sistema.

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Pressupostos do modelo
 Detentor da reserva é um proprietário privado
atuando em um mercado concorrencial
 A procura acumulada que esgota o estoque do
recurso D(q) é decrescente em relação ao
preço do recurso que, por sua vez, se esgota
na data t
 O volume (estoque) inicial da reserva é
conhecido
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Pressupostos do modelo
 O custo marginal é nulo ou constante
 A informação é perfeita ao longo de toda a
extração
 A taxa de preferência do produtor (taxa de
atualização ou de desconto) é constante e
igual à taxa de juros

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Solow (1974) descreve:
 "A única maneira pela qual um depósito de
recurso deixado no solo pode produzir um
retorno corrente para seu proprietário é por sua
apreciação em valor. (...).
 Como os depósitos de recursos naturais possuem
a propriedade peculiar de não render dividendos
enquanto estiverem no solo, em equilíbrio o
valor do depósito de um recurso deve estar
crescendo a uma taxa igual à taxa de juros.
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Solow (1974) descreve
 Como o valor de um depósito é também o
valor presente de suas vendas futuras, após a
dedução dos custos de extração os
proprietários do recurso devem esperar que o
preço líquido do minério cresça
exponencialmente a uma taxa igual à taxa de
juros. (Solow, 1974 apud AMAZONAS,
2004)
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(para pessoal de economia: a condição de otimização)

Solow (1974) descreve


 Se a indústria mineradora é competitiva, o
preço líquido é o preço de mercado menos o
custo marginal de extração. (...). Se a indústria
é mais ou menos monopolista, como é
freqüentemente o caso na indústria extrativa,
será o lucro marginal (receita marginal menos
custo marginal) que deverá estar crescendo, e
esperado crescer, proporcionalmente à taxa de
juros"
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Custo de oportunidade intertemporal
 Correspondente às receitas líquidas e que deve
crescer a uma taxa igual à taxa de juros, é a renda
de escassez (rent).
 com o aumento progressivo da escassez de um
recurso, ocorre o aumento de seu preço. Se com isso
espera-se que o valor deste estoque vá crescer, há
assim uma motivação para que este não seja extraído
agora e sim em algum momento posterior.
(AMAZONAS, 2004)
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Estoques
 Dado que o valor deste estoque é o valor presente de
suas vendas futuras, em equilíbrio intertemporal a
taxa de retorno segundo a qual este valor deve
crescer é a taxa de juros, e portanto, com base no
desconto a esta taxa, determina-se assim as
quantidades ótimas a serem extraídas a cada
momento no tempo, ou seja, determina-se a taxa
ótima de extração. (AMAZONAS, 2004)

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Sistematizando...
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• SE recurso só tem valor qdo extraído (slide 23)


• SE o valor de um depósito (VP) é também o
valor presente de suas vendas futuras (PF), ao
longo do tempo (t) de extração (slide 24)
• SE a renda da escassez representa o custo de
oportunidade intertemporal (slide 26)
• SE estoque pode ser interpretado como o valor
presente de vendas futuras (slide 27)
• A lógica indica que se aumenta a renda da
escassez, então é melhor aumentar o
estoque, ou seja não extrair hoje, mas
deixar para extrair no futuro
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REGRA DE HOTTELING
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• SEJA o valor presente das vendas futuras


𝑃𝐹
• 𝑉𝑃 = 𝑡
1+𝑑
• SEJA o custo de oportunidade intertemporal
representado pela diferença entre RO (royalty ou
premio da escassez) e os preços atuais
representados por PH (preço liquido hoje)
• RO = VP – PH
• CONSIDERANDO que o equilíbrio
intertemporal depende da taxa de retorno dos
estoques ser equivalente à sua remuneração
• ENTÃO:
REGRA DE HOTTELING: a extração

 Quanto MAIOR for a diferença entre as vendas


futuras esperadas e o preço liquido praticado
hoje (que é determinada pela taxa de desconto),
MAIOR o estímulo a conservar estoques (ΔQ) e,
portanto, MENOR a extração hoje.

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O que significa?
 Os recursos guardados em estoque devem ser tão
atrativos quanto os demais ativos.
 O fato de haver esgotamento da reserva, elevaria o
preço por afetar a oferta ao longo do tempo, até o
ponto onde o preço é tão elevado que cessa a
procura.
 Os preços estariam se elevando com a taxa de juros,
haja vista a remuneração ser comparável à
remuneração (ou gastos) com estoques....
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UM EXEMPLO NUMÉRICO Economia e meio ambiente


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• Sendo tempo = 10 anos, taxa de juros de 10% ao


ano, o valor futuro = 1.000 e o preço hoje (ph)
de 500 (custo marginal), haveria extração hoje
ou haveria formação de estoques?

1000 1000
• ROi= VP – PH = 1,10 10
-500= 2,59
-500=385-500 = - 115

• Não se formariam estoques:


• Preço e hoje projetado no futuro, a esta taxa de juros,
seria de 1.297
• Similarmente, o valor futuro esperado, a preços de hoje
seria de 385
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UM EXEMPLO GRÁFICO
• Suponha que uma nova tecnologia permita que
se extraia o recurso com custos menores. Demais
variáveis constantes, a extração de hoje
aumentaria ou diminuiria se comparada a
situação descrita no exemplo numérico?
• (resposta no quadro)
Críticas ao modelo de Hotelling
 Existência de falhas de mercado
 Desconhecimento da demanda futura
 Discrepâncias entre as taxas de desconto
social e de mercado
 Existência de tecnologia de fundo

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Extração de recursos renováveis

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37 Aula 5

Teoria dos recursos renováveis


 “A particularidade dos recursos
renováveis é que eles são governados
por fenômenos biológicos” (SILVA, 2003,
48)
 Eles podem se esgotar e se tornarem não
renováveis
 O principal desafio é identificar qual a
trajetória de crescimento ou extinção do
recurso a um dado nível de exploração

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Os Modelos
 São semelhantes aos da teoria dos recursos
não renováveis derivados de Hotelling. A
particularidade está na inclusão de recursos
vivos. Alguns modelos:
 Modelo Geral de Exploração
 Gordon-Schafer e Beverton-Holt – para pesca
 Fischer e Faustman – para recursos florestais
 Gordon-Schafer-Clark – para recursos da
biodiversidade
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Modelo Geral de Exploração
X = G(x(t)) – h(t) (1)
X = mudança no estoque do recurso G em qq tempo t
G(x(t)) = tx natural de recomposição de x
h(t) = tx de utilização de x
 = [x(t);h(t);t] (2)

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Modelo Geral de Exploração
X = G(x(t)) – h(t) (1)
 = [x(t);h(t);t] (2)

Regra de produtividade  'x


marginal da G'x  
acumulação ótima do
capital, a produtividade
 'h
marginal de G’x é igual
à taxa de desconto

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Problema dos recursos de propriedade
comum
 Os recursos de propriedade comum não são
controlados por um único indivíduo e podem
ser utilizados sem que seja necessário pagar
por isso.

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Referências
• AMAZONAS, Mauricio de Carvalho . Economia Ambiental
Neoclássica e Desenvolvimento Sustentável. In: NOBRE M. e
AMAZONAS, M. de C.. (Org.). Desenvolvimento Sustentável: A
Institucionalização de um Conceito. Brasília: Edições IBAMA, 2002,
v. 1, p. 107-146
• ENRIQUEZ, M.A. “Economia dos recursos naturais” in” MAY,
P.(org). Economia do Meio Ambiente. Rio de Janeiro: Campus, 2010,
pp 49-78 na edição antiga, o mesmo texto: SILVA, M.A.R. “Economia
dos recursos naturais” in” MAY, P.; LUSTOSA, M.C. ; VINHA, V.
(orgs) Economia do Meio Ambiente. Rio de Janeiro: Campus, 2003,
pp 33-60 (Trata-se do mesmo texto. A autora se casou e mudou o
nome na edição nova do livro)

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