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Acerca do vocabulário embriológico-filosófico

da Ideia duma História Universal


em Prospetiva Cosmopolita
Ubirajara Rancan de Azevedo Marques

O texto da Ideia concentra perto de quatro dezenas de ca-


sos de emprego de disposição [Anlage], disposições [Anlagen],
disposição natural [Naturanlage], disposições naturais
[Naturanlagen], disposições originais [ursprüngliche Anlagen],
germe [Keim] e germes [Keime]. Na verdade, com exceção da
Sexta Tese da mesma, todas as demais partes da Ideia, inclusive
as palavras inicias de Kant nela, fazem uso de tais vocábulos.
Na primeira, segunda, quarta e oitava teses, semelhantes ter-
mos comparecem já no texto das mesmas, propriamente ditas,
além de nos corolários que de pronto respectivamente se lhes
seguem. Esse emprego, então, relativamente abundante – quer
no âmbito de tal opúsculo, quer, comparativamente, frente a
outros escritos do filósofo –, torna-se ali, ademais de filosofica-
mente uniforme, conceitualmente unívoco. Tendo-se presente
aqueles termos serem considerados provenientes da embriolo-
gia, e, pois, servirem à filosofia como que por empréstimo e me-
taforicamente, essas uniformidade e univocidade deles na Ideia
poderão não ser de somenos importância, quer no âmbito mais
geral da linguagem kantiana [no de seu metaforismo biológico,
em tal caso], quer no mais restrito da posição embriológica de
Kant [indiretamente exposta no opúsculo em pauta].

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Por outro lado, se o filósofo já se valera desse mesmo acer-


vo terminológico, em particular no Ensaio sobre as Diferentes
Raças Humanas1, de 1775, mais proximamente o empregara –
se com bem menos intensidade do que na Ideia, também com
alcance conceitual – na primeira edição da Crítica da Razão
Pura2, de 1781, e nos Prolegômenos3, de 1783. Se naquele
Ensaio esse conjunto encontrava-se na confluência entre em-
briológico, geográfico, antropológico, nestas duas obras, em
contrapartida, sua presença dá-se preferencialmente em clave
analógico-especulativa.
Na Ideia, contudo, está-se diante dum escrito em que tais
noções comportam-se tanto como um veículo a conduzir muitas
das afirmações nele avançadas, quanto como um tipo de mol-
de a definir os contornos destas. Noutras palavras: tal nomen-
clatura, ao mesmo tempo que ali o conduz – desenvolvendo-o,
facultando-lhe um percurso –, exibe o raciocínio kantiano de
acordo com peculiaridades conceituais cujo viés supostamente
original, embriológico, suficientemente estabelecido no arco da
teoria preformista e com ela identificado, nem por isso con-
diz – melhor: justamente por isso não condirá – com a posição
respectiva de Kant, tampouco com a especificidade de seu dis-
curso na Ideia. Desse modo, o léxico embriológico presente em
tal opúsculo, ao invés de embriológico-filosoficamente compro-
metedor [na medida que preformista], mostrar-se-á filosofica-
mente reconfigurado, sua reconfiguração podendo servir como
testemunho indireto da posição embriológica de Kant [contrá-
ria a’«o sistema da pré-formação individual»], pois, atingindo de
ricochete essa «teoria da evolução», tal reconfiguração lexical
de caráter embriológico-filosófico antecipa a adesão formal do
filósofo [em 1790] ao «sistema da pré-formação genérica»4.

1
Cf. kanT, VvRM, AA 02: 434-5; AA 02: 442.
2
Cf. kanT, KrV: B 91; B 697; B 805; B 862.
3
Cf. kanT, Prol: AA 04: 274; AA 04: 279; AA 04: 353; AA 04: 362-5; AA
04: 368.
4
kanT, KU, AA 05: 423. Destaques originais.

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O que ao longo desse estudo interessa-me averiguar é a re-


presentatividade conceitual de alguns vocábulos empregados
na Ideia, o alcance do brilho [tido por originalmente coadju-
vante] dum léxico como que tomado de empréstimo à [futura]
biologia. Nos limites dessas breves considerações introdutórias,
porém, o único vocábulo a ser tido efetivamente em conta será
Anlage. Por outro lado, das nove teses da Ideia serão aqui exa-
minadas somente as três primeiras. Com isso, o texto a seguir
compor-se-á de três tópicos: 1. Considerações crítico-filológicas
sobre Anlage; 2. Exame histórico-textual duma passagem do
Ensaio sobre as Diferentes Raças Humanas; 3. Abordagem intro-
dutória da Ideia a partir de suas teses pressupositivas.

Considerações crítico-filológicas sobre Anlage

Conforme Adelung, Anlage é substantivo proveniente «do


verbo anlegen»5. Tendo em conta essa derivação regressiva [o
substantivo provir do verbo, não o contrário], e de acordo com
o Dicionário dos Irmãos Grimm, anlegen, por sua vez, cor-
responde aos verbos latinos «apponere, imponere, inferre, ins-
truere». Supondo-se – no uso embriológico-filosófico de tal
expressão – que Anlage refira-se preferencialmente a appone-
re, o étimo germânico, nesse caso, poderia ser talvez mais bem
traduzido para o vernáculo por aposição, adjunção, adjacência,
contiguidade. Com isso, poderia haver alguma impropriedade
de natureza etimológica em sua tradução por disposição [igual-
mente por predisposição], pois o prefixo “dis-” indica separa-
ção, distribuição, o que não parece condizer com os sentidos
de aposição, adjunção, adjacência, contiguidade. Seja como
for, a eventual correção dessas últimas opções estaria assentada
em viés de natureza preferencialmente etimológica, não, pois,
de natureza semântica. Mas o mesmo Dicionário dos Irmãos
Grimm relaciona indoles, impositio e – justamente – dispositio

5
J.C. aDelung, Grammatisch-kritisches Wörterbuch der Hochdeutschen
Mundart: “Die Anlage”. Disponível em: http:// www.zeno.org/ Adelung-1793/
K/ adelung-1793-01-0329 Acesso em: 07 jan. 2017.

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como os substantivos latinos a que Anlage corresponde6. No


caso de dispositio pode-se tomá-lo como referindo-se a um con-
junto de partes, umas em relação às outras, da mesma forma
que – e, então, além dele, indoles e impositio – dizendo res-
peito a características naturais que determinem condutas ou
concepções morais ou a elas conduzam. Também Sulzer, agora
em contexto estético, assim conceituou Anlage: «A apresenta-
ção das partes mais essenciais duma obra, por meio da qual
ela é determinada no todo. […] Na disposição é determina-
do o plano da obra, com as partes principais da mesma […]
Se a disposição for completa, nada mais de essencial, então,
precisará poder incorporar-se à obra»7. Essa conceituação de
Anlage aproxima-se claramente do que Kant definiria [na estei-
ra de Baumgarten e Lambert] como Architektonik8. De fato,
na Metafísica Baumgarten compreendia tal termo como: «com-
por [um] dado bem-ordenado»9. Já Lambert, na Disposição
para a Arquitetônica ou Teoria do Simples e do Primeiro no
Conhecimento Filosófico e Matemático, afirmava: «Sobre o tí-
tulo da obra, tenho somente a observar que tomei a palavra
‘arquitetônica’ da Metafísica de Baumgarten, à medida que ela
é um [substantivo] abstrato de arte-de-construir, e tem, em
relação ao edifício do conhecimento humano, um significado
completamente similar [ao deste], especialmente se referida aos
primeiros fundamentos, à primeira disposição, aos materiais e
sua preparação e ordenação em geral, de modo que, a partir
disso, pressuponha-se venha a ser feito um todo conforme [um]

6
Cf. Deutsches Wörterbuch von Jacob Grimm und Wilhelm Grimm
[“ANLAGE”]. Disponível em: http:// woerterbuchnetz.de/ DWB/ ?sigle=-
DWB &mode=Vernetzung &lemid=GA04230#XGA04230 Acesso em 30
jan. 2017.
7
J.G. sulzeR, Allgemeine Theorie der Schönen Künste in einzeln, nach alpha-
betischer Ordnung der Kunstwörter auf einander folgenden, Artikeln abgehan-
delt […], Erster Theil, von A bis J, bey M.G. Weidemanns Erben und Reich,
Leipzig 1771, pp. 55-56.
8
Cf. kanT, KrV, A 832/B 860.
9
A.G. BauMgaRTen, Metaphysica, in kanT, GS, AA 15: 27.

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fim»10. Nessa passagem, notar-se-á uma diferença entre disposi-


ção [Anlage] e ordenação [Anordnung], pela qual, ao passo que
ordenação parece estar diretamente alinhada com materiais e
sua preparação, disposição parece encontrar-se no mesmo pa-
tamar d’«os primeiros fundamentos».
Mas vários outros significados associam-se ainda a Anlage,
de modo que, entre outras possibilidades, ela pode referir-se a:
área de recreação, parque ou jardim [öffentliche Anlagen, com
efeito, são parques ou jardins públicos], instalação, no sentido
de instalação elétrica [elektrische Anlage], predisposição ou in-
clinação, em sentido médico [por exemplo: Anlage zu Allergien
haben], talento, em sentido artístico [por exemplo: Anlage zur
Musik], investimento, taxa ou tributo, em sentido econômico.
Doutra parte, no campo da biologia, já a partir do Oitocentos,
a compreensão e tradução do mesmo termo alemão vem cau-
sando dificuldade e propondo alternativas11. Em O Problema
Biológico de Hoje. Pré-formação ou epigênese? A base duma teo-
ria do desenvolvimento orgânico, obra do embriologista e anato-
mista comparativo alemão Oscar Hertwig, publicada em 1892
e traduzida para o inglês pelo zoólogo Peter Chalmers Mitchell
quatro anos depois, nela, na Introdução do Tradutor, lê-se:
«Após não pouca hesitação, verti a palavra alemã “Anlage” por
“rudimento” [rudiment]. É verdade que um duplo significado
foi inserido na palavra inglesa [rudiment], e ela é amplamen-
te empregada para significar uma estrutura não desenvolvida,
sem discriminação entre caráter incipiente e vestigial. Uso-a no
sentido etimológico, como uma estrutura incipiente»12. Aqui,
claro, “sentido etimológico” refere-se à palavra inglesa [rudi-
ment], não à alemã, com o que, então, essa tradução de Anlage

10
J.H. laMBeRT, Anlage zur Architektonik oder Theorie des Einfachen und
Ersten in der philosophischen und mathematischen Erkenntniß, Johann
Friedrich Hartknoch, Riga 1771, Bd. 1, pp. XXVIII-XXIX.
11
M. BalDWin, “Anlage” and “Rudiment”, «Nature», 61 (1899), pp. 29-29.
12
O. heRTWig, The Biological Problem of Today: Preformation or Epigenesis?
The Basis of a Theory of Organic Development, Authorized Translation by P.
Chalmers Mitchell, with an Introduction by the translator and a Glossary of
the technical terms, The Macmillan Company, New York 1900, p.v.

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não é de natureza etimológica, mas semântica, de acordo, em tal


caso, com o sentido assumido pela expressão no contexto bio-
lógico. Noutros casos, Anlage foi simplesmente estandardizada,
tornando-se, como tal, um conceito da nomenclatura biológica
contemporânea13.

Exame histórico-textual duma passagem do Ensaio sobre as


Diferentes Raças Humanas

É conhecida a passagem inicial da terceira parte do Ensaio


sobre as Diferentes Raças Humanas: «Os fundamentos dum de-
terminado evolvimento14, jazentes na natureza dum corpo orgâ-
nico (planta ou animal), quando esse evolvimento concerne a
partes particulares, [tais fundamentos] chamam-se germes; mas
quando [tal evolvimento] concerne somente à grandeza ou à
proporção das partes entre si, [tais fundamentos], então, no-
meio-os disposições naturais»15.
Numa das pontas dessa passagem, os fundamentos dum
qualquer evolvimento; noutra, as delimitações que conceituam
germes e disposições naturais, delimitações conceituais cujo
credenciamento ocorre em função das características do evolvi-
mento. Com isso, tais delimitações reportam-se aos fundamen-
tos dum qualquer evolvimento, os quais, pelas diferenças neste
havidas, serão de dois tipos: referidos a «partes particulares»
[germes] e referidos «à grandeza ou à proporção das partes en-
tre si» [disposições naturais]. A propósito de tal nomenclatura,
observe-se que o texto, ao introduzir o primeiro tipo de funda-
mentos, diz: «Os fundamentos dum determinado evolvimento

13
Cf. D.R. caRTeR – G.S. BeaupRÉ, Skeletal Function and Form: Mechanobiology
of Skeletal Development, Aging, and Regeneration, Cambridge University
Press, Cambridge 2001, p. 21; p. 73; p. 75; p. 87; p. 88; p. 106; p. 110; p. 114;
pp. 117-118; pp. 123-127.
14
Em apoio à tradução de “auswickeln” por “evolver”, cf. Deutsches
Wörterbuch von Jacob Grimm und Wilhelm Grimm [“AUSWICKELN”].
Disponível em: http:// woerterbuchnetz.de/ DWB/ ?sigle=DWB &mode=-
Vernetzung &lemid=GA09358#XGA09358 Acesso em: 30 jan. 2017.
15
kanT, VvRM, AA 02: 434.

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[…], quando esse evolvimento concerne a partes particulares,


chamam-se germes», ao passo que, ao introduzir o segundo
tipo de fundamentos, ele afirma: «quando [tal evolvimento]
concerne somente à grandeza ou à proporção das partes entre
si, [tais fundamentos], então, nomeio-os disposições naturais».
Ou seja: no primeiro caso, a definição dos «fundamentos dum
determinado evolvimento» será presumivelmente comum na
literatura respectiva, sendo permitido dizer, com isso, que tais
“fundamentos”, simplesmente, «chamam-se germes»; já no se-
gundo caso, a definição dos «fundamentos dum determinado
evolvimento» será presumivelmente incomum na literatura res-
pectiva, tanto assim que, a propósito, Kant afirma: «nomeio-os
disposições naturais».
Não por coincidência, tal, em parte, o rumo das seguintes
palavras de Sloan: «Se a linguagem dos Keime pré-formados,
no sentido de Haller-Bonnet, é amplamente encontrada na li-
teratura da embriologia e da filosofia alemã pós-1760, o con-
ceito de Anlage num uso técnico embriológico é muito menos
comum. Sugiro que a conjunção dessas duas noções seja uma
pista para a novidade dos próprios pensamentos de Kant sobre
essas matérias»16. O diagnóstico em pauta será plenamente acei-
tável no que se refira ao bem maior emprego de germes perante
disposições na «literatura da embriologia e da filosofia alemã
pós-1760». Já em Kant, o total de ocorrências de disposição,
disposições, disposição natural e disposições naturais é larga-
mente superior ao do total de ocorrências de germe e germes.
Mas nem por isso haveria algum reparo a fazer à sugestão de
Sloan, pois a discrepância entre os números dum e doutro ter-
mos em Kant poderá ser tida por uma confirmação às avessas
daquela mesma sugestão, já que o grande uso pelo filósofo de
disposição sinalizaria justamente a «novidade dos próprios pen-
samentos de Kant sobre essas matérias». Seja como for, o uso
conjuntivo, pelo filósofo, «dessas duas noções» [germes e dis-

16
P.R. sloan, Preforming the Categories: Eighteenth-Century Generation
Theory and the Biological Roots of Kant’s A Priori, «Journal of the History of
Philosophy», 40(2) (2002), pp. 229-53: 236.

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posições] – uso que dá azo à sugestão do estudioso norte-ame-


ricano – não ultrapassará, salvo engano, cinco ocorrências, três
das quais, por sinal, no mesmo Ensaio em pauta17. Com isso,
não será talvez tão simples aceitar «a conjunção dessas duas no-
ções» como sendo «uma pista para a novidade dos próprios
pensamentos de Kant sobre essas matérias», sobretudo pelo
fato que aquelas mesmas significações de germes e disposições
naturais não foram mais, ao que parece, utilizadas pelo filósofo
nem levadas rigorosamente em conta por ele. Nesse caso, Kant
não terá cumprido os significados uma vez por ele atribuídos
àqueles termos, praticando, ao contrário, o adentramento se-
mântico mútuo dum e doutro, o que, parece, comprometerá
qualquer pretensa universalização definitória que ali pudesse
haver de germes e disposições naturais.
A seguir, duas de várias passagens nas quais será patente
o emprego mesclado de germe e disposições e germe particu-
lar e disposição natural: «O mal não tem […] nenhum germe
particular, pois ele é simples negação e consiste simplesmente
na limitação do bem. Ele nada mais é senão a incompletude no
desenvolvimento do germe do bem a partir da brutidade. Mas
o bem tem um germe, pois ele é autônomo. Essas disposições
para o bem, que Deus colocou nos homens, têm de, porém, ser
primeiro desenvolvidas pelo próprio homem, antes que o bem
possa aflorar»18.
Nesse fragmento, tem-se uma como que relação de sino-
nímia tácita entre germe e disposições. Após o triplo emprego
de germe em três frases subsequentes, Kant, na quarta frase do
fragmento em questão, substitui-o por «[essas] disposições».
Prendendo-se cada um dos termos [germes e disposições] ao
mesmo objeto – a saber: o bem [embora o primeiro emprego de
germe refira-se a mal] – , não haverá dúvida sobre eles serem ali
tomados como sinônimos.

17
Cf. kanT, VvRM, AA 02: 434; 435; 436; Bestimmung des Begriffs einer
Menschenrace, AA 08: 97; KrV A 66/B 91.
18
kanT, V-Th/Volckmann, AA 28: 1188. Cf. kanT, RGV, AA 06: 45-46.

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Doutra parte, já no segundo parágrafo da terceira seção


do mesmo Ensaio, pouco depois, portanto, das significações
de germes e disposições naturais acima reproduzidas, lê-se:
«O acaso ou as leis mecânicas gerais não podem produzir tais
confluências. Portanto, temos de considerar semelhantes evol-
vimentos ocasionais como pré-formados. Mas mesmo lá onde
nada se mostre conforme-a-fim, a mera faculdade de propagar
seu caráter particular adquirido já é prova suficiente de ter sido
encontrado um germe particular ou disposição natural para isso
na criatura orgânica»19.
Também nesse ponto, salvo engano, germe particular e dis-
posição natural são claramente tomados como sinônimos, ou,
pelo menos, não é levada em conta nenhuma particularidade
dum e doutra, conforme a definição existente, pouco antes, no
mesmo texto. Assim ou não, observe-se que a particularidade
dum e doutra é sempre referente a um mesmo corpo orgânico,
cujo evolvimento, do modo como aí considerado, requerirá a
interferência de germes e disposições. Assim, se o evolvimento
referir-se às partes particulares dum corpo orgânico, os funda-
mentos dele serão germes; se à grandeza ou proporção dessas
mesmas partes particulares, tais fundamentos serão disposições
naturais. Com isso, uns e outras, embora com significações pró-
prias, têm de operar obrigatoriamente em conjunto, atendo-se
os germes à especificidade estrutural e funcional das partes par-
ticulares dum corpo orgânico [ou aos componentes anátomo-
fisiológicos do mesmo], as disposições naturais, por sua vez, à
extensão e proporcionalidade de tais partes dele.
Ainda com respeito a tal passagem, a correlação significa-
cional tácita entre germes e disposições naturais a que acima
aludi traz à lembrança as seguintes palavras de Kant numa de
suas Preleções de Física [Mrongovius] do ano de 1785, próximas,
portanto, da recente publicação da Ideia, e havia dez anos do
Ensaio: «[As] [c]apacidades orgânicas da natureza distinguem-
se muito de [suas capacidades] mecânicas e químicas. O homem

19
kanT, VvRM, AA 02: 435.

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não pode inspecionar [einsehen] o princípio da modificação or-


gânica da matéria, donde a gente servir-se, para esclarecimento,
da palavra germe – ou seja: fundamento ou disposição original»20.
Para além de em tal passagem haver mais um exemplo de
mescla entre germe e disposição original, nela tem-se ainda, por
outro lado, uma afirmação que à primeira leitura poderia nal-
guma medida perturbar. Com efeito, se no caso d’«o princípio
da modificação orgânica da matéria» – ou no próprio campo
do qual supostamente provenha ele –, o léxico embriológico-
filosófico limitar-se ao veículo dum modelo explicativo, que es-
perar do mesmo em âmbito especulativo [conforme passagens
da Razão Pura, também dos Prolegômenos], ou, como aqui
o caso, em registro histórico-teleológico? Pois, se o emprego
dessa nomenclatura der-se por conta dum déficit inspectivo –
«O homem não pode inspecionar o princípio da modificação
orgânica da matéria» –, que relevância terá o esclarecimento a
ser por ela proporcionado, proporcionado pelo uso «da pala-
vra germe – ou seja: fundamento ou disposição original»? Não
obstante o eventual impacto duma tal possível leitura – que,
se procedente, no limite lançaria suspeita sobre a pertinência
filosófica do rico metaforismo embriológico kantiano –, o con-
texto da passagem em causa parece permitir – até impor – que
a frase «para esclarecimento» [zur Erklärung]21 seja nela com-
preendida em sintonia com, por exemplo, as expressões «para
o uso»22 [zum Behuf] ou «em favor» [zu Gunsten]23, no con-

20
kanT, Vorlesungen über Physik [Mrongovius], AA 29: 118.
21
“[Z]ur Erklärung” é expressão normalmente empregada por Kant com o
imediato acompanhamento a que se refira; assim, por exemplo: kanT, KrV
B 478; kanT, KrV B 800; kanT, GMS, AA 04: 445; kanT, V-Met/Mron, AA
29: 906. Mas, afora a passagem em questão dessas Vorlesungsnachschriften,
há outros momentos nos quais o emprego da mesma expressão por Kant não
é feito com o imediato acompanhamento daquilo a que se refira; assim, por
exemplo: kanT, GMS, AA 04: 420; kanT, MS/TL, AA 06: 404; kanT, OP, AA
21: 350; 644; kanT, V-Met/Dohna, AA 28: 666.
22
Em apoio à tradução de “zum Behuf” por “para o uso”, cf. Deutsches
Wörterbuch von Jacob Grimm und Wilhelm Grimm [“BEHUF”]. Disponível
em: http:// woerterbuchnetz.de/ DWB/ ?sigle=DWB &mode=Vernetzung
&lemid=GB02833#XGB02833 Acesso em: 30 jan. 2017.
23
Cf. kanT: GMS, AA 04: 420; MS/TL, AA 06: 404; Refl, AA 16: 344; EE, AA

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texto em que uma e outra aparecem, por exemplo na Primeira


Introdução à Crítica da Faculdade do Juízo, também na própria
terceira Crítica. Na passagem a seguir, da Introdução da KU,
a expressão «zum Behuf» faz as vezes de operador a relacio-
nar a diversidade de produtos da natureza e nossos meios para
apreendê-los [ou a conformidade-a-fim pressuposta e nosso
juízo a respeito]: «Essa concordância da natureza com nossa
faculdade de conhecimento é pressuposta a priori pela faculda-
de de juízo para o uso de sua reflexão sobre a mesma, segundo
suas leis empíricas»24.
Se uma tal releitura da frase «para esclarecimento» for
pertinente, o que é afirmado naquela passagem da preleção de
Kant em 1785 não só não causará espécie, como poderá ser –
inda que retrospectivamente – mais um indício do que seria
formalmente alcançado e exposto na Primeira Introdução à KU
e nesta própria obra.

Abordagem introdutória da Ideia a partir de suas teses


pressupositivas

A Ideia poderá ter suas nove teses divididas, por exemplo,


em dois momentos: dum lado, as três primeiras; doutro, as cin-
co últimas. Entre ambas, a Quarta, que, por assim dizer, pode-
rá ser dita uma tese de transição dum momento a outro. Em
tal conjunto, as três primeiras teses serão caracteristicamente
pressupositivas, ao passo que as cinco últimas, caracteristica-
mente propositivas. Consoante o texto da menor entre elas, a
primeira – «Todas as disposições naturais duma criatura estão de-
terminadas a evolver-se completamente e conforme-um-fim»25] –,
nela haverá três pressuposições que, por sua vez, parecerão
desdobrar-se e autoaclarar-se ao longo das duas teses seguintes:
há disposições naturais; tais disposições naturais têm de «evol-

20: 204; 214; V-Lo/Pölitz, AA 24: 575; Vorlesungen über Rationaltheologie


[Mrongovius], AA 28: 1286.
24
kanT, KU, AA 05: 185.
25
kanT, IaG, AA 08: 18.

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ver-se completamente»; tais disposições têm de «evolver-se […]


conforme-um-fim».
Já a Segunda Tese desse opúsculo, sustenta: «No homem
(como a única criatura racional sobre a terra), aquelas disposições
naturais voltadas para o uso de sua razão devem desenvolver-se
por completo somente na espécie, não porém no indivíduo»26.
Com respeito à primeira, tal tese acrescenta-lhe um desdobra-
mento de caráter limitador, relativo ao evolvimento / desenvol-
vimento das disposições naturais. Para além do contexto em
que seja primeiro compreendida – já destacado pelo filósofo em
suas palavras iniciais no opúsculo, quando fala d’«uma marcha
regulada», d’«um desenvolvimento constantemente progres-
sivo, embora lento, das disposições originais da [inteira espé-
cie]», não obstante o “desregulado” que salta de pronto à vista
quando considerados os sujeitos individuais –, para além desse
contexto principal destacado, o raciocínio dessa Segunda Tese
dispõe ainda o mesmo fundo explicativo que permitirá harmo-
nizá-la com a posição de Kant em favor duma pré-formação ge-
nérica, não individual27. Assim, tal como as disposições naturais
no contexto da história universal hão de desenvolver-se «por
completo somente na espécie, não porém no indivíduo», do mes-
mo modo as disposições naturais, também os germes, ambos em
sentido embriológico, os quais, pré-formados, deverão limitar-
se uns e outros a um desenvolvimento genérico, não individual.
Contivessem neles próprios a inteireza dum corpo orgânico em
miniatura, germes e disposições pré-formados levariam à sim-
ples aumentação proporcionada de cada um duma multitude
indefinida de indivíduos. Contendo, em lugar disso, o plano de
construção comum a toda a espécie, germes e disposições pré-
formados – dessa forma o diz lapidarmente Bonsiepen, refere-
rindo-se a germe – «cont[ê]m em si o princípio da formação,
mas não a própria formação»28. A propósito, será bem por isso

26
Ibidem.
27
Cf. kanT, KU, AA 05: 423.
28
W. Bonsiepen, Die Begründung einer Naturphilosophie bei Kant, Schelling,
Fries und Hegel: mathematische versus spekulative Naturphilosophie, Vittorio
Klostermann, Frankfurt am Main 1997, p. 115.

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O vocabulário da Ideia duma História Universal 467

que, seis anos depois da publicação da Ideia, assim se lerá ao


final do “§ 81” da KU: «[…] com o menor empenho29 possível
do sobrenatural», o «modo de explicação» do «defensor da epi-
gênese» – pelo qual modo «a razão seria já de antemão tomada
de grande simpatia» –, «transfere à natureza tudo o que desde o
primeiro começo ocorre»30. Dessa maneira, houvesse um empe-
nho vigoroso, caracteristicamente metafísico-transcendente, do
sobrenatural, ele, em perspectiva embriológica, responderia por
germes e disposições pré-formados, em âmbito individual. Tal é
não só completamente rechaçado por Kant, como prontamente
contrabalançado por ele, pela transferência, «à natureza», de
«tudo o que desde o primeiro começo ocorre». Ora, «tudo o
que desde o primeiro começo ocorre» é o desenvolvimento dos
«fundamentos […] jazentes na natureza dum corpo orgânico»
[para voltarmos à terminologia do Ensaio], que ou se chamam
germes ou são nomeados disposições naturais. Em suma: «tudo
o que desde o primeiro começo ocorre» é o desenvolvimento
natural de germes e disposições atinentes a um plano de cons-
trução para a espécie, não para o indivíduo. Tal plano, oriundo
da arte-de-construir que distingue a arquitetônica, não é outro
senão a ideia do todo31.
Notar-se-á que o «envolto e desregulado» decorrente da
consideração do indivíduo singular, não do conjunto da es-
pécie, mostra-se em confronto com o inteiro acabamento do
homúnculo pré-formado, cujo evolvimento não é mais do que
pura aumentação. Com isso, o veículo a conduzir o raciocínio
do filósofo ao longo da Ideia, tal como o molde a definir-lhe
os contornos, nem um nem outro poderiam jamais mirar-se no
preformismo embriológico propriamente dito, não obstante a
presença, nesse opúsculo, duma nomenclatura cuja legitimida-
de científica então se confundia, em boa medida, com a fortuna
dessa perspectiva teórica.

29
Cf. Deutsches Wörterbuch von Jacob Grimm und Wilhelm Grimm
[“AUFWENDEN”].
30
kanT, KU, AA 05: 424.
31
Cf. kanT, KrV: B 89; B 673; B 860-861.

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468 Ubirajara Rancan de Azevedo Marques

Já na terceira e última das teses pressupositivas da Ideia,


lê-se: «A natureza quis que o homem produzisse completamente
a partir de si mesmo tudo o que vá além da ordenação mecânica
de sua existência animal, e não participasse de nenhuma outra
felicidade ou perfeição, senão da que, livre de instinto, ele propor-
cionou a si mesmo pela própria razão»32.
Um pouco mais à frente, no corolário dessa mesma tese,
lembrando a doação ao homem, pela natureza, de razão e liber-
dade da vontade, Kant conclui: «[O homem] não deveria ser
guiado pelo instinto ou provido e ensinado pelo conhecimento
inculcado; ele deveria, antes, extrair tudo de si mesmo»33. Em
minha leitura, inculcado traduz anerschaffen. Tendo-se em con-
ta o correspondente termo latino desse étimo alemão, o qual,
segundo o Dicionário dos Irmãos Grimm, é o verbo ingignere,
essa expressão – em viés meramente etimológico – deixaria ver-
ter-se por conhecimento engendrado34, opção que, porém, pou-
co ou nada significaria no presente contexto, no qual, por certo,
ela indica a recusa duma certificação transcendente. Assim, ten-
do-se em conta o contexto em que esse termo é empregado por
Kant [aqui e alhures], melhor será dizer, talvez: conhecimen-
to inculcado, pois inato [que normalmente traduz angeboren,
angeborne, eingeboren], é por vezes utilizado pelo filósofo em
sentido positivo35.
Seja como for com tal expressão, essa parte do corolário da
Terceira Tese complementa o que pouco antes se lera na pró-
pria, na qual como que se contrapõem, dum lado, instinto e me-
canicidade animal, doutro, o que o homem produza «a partir de
si mesmo» ou lhe seja proporcionado «pela própria razão». Em
verdade, «a partir de si mesmo» e «pela própria razão» tornam-

32
kanT, IaG, AA 08: 19.
33
Ibidem.
34
Cf. Deutsches Wörterbuch von Jacob Grimm und Wilhelm Grimm
[“ANERSCHAFFEN”]. Disponível em http:// woerterbuchnetz.de/ DWB/
?sigle=DWB &mode=Vernetzung &lemid=GA03604#XGA03604 Acesso
em: 14 jan. 2017.
35
Cf. kanT, RGV, AA 06: 21-22; 29; 31; kanT, MS/RL, AA 06: 237-238;
kanT, Anth, AA 07: 226; kanT, ÜE, AA 08: 222.

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O vocabulário da Ideia duma História Universal 469

se aí expressões perfeitamente intercambiáveis, remissíveis, no


âmbito do conteúdo das duas primeiras teses, às disposições
naturais que constituem em ambas a substância das mesmas.
Por outro lado, se a determinação própria a desenvolver-
se completa e conformemente-a-fim das disposições naturais
viesse a ser tida por autossuficiente – vale dizer: pré-formada
in totum –, ela encontraria um claro contrapeso nessa “Terceira
Tese” da Ideia; a bem dizer: um contrapeso explícito, manifesto
tanto na parte negativa quanto na positiva desse mesmo trecho
de seu corolário; pela negativa: «[O homem] não deveria ser
guiado pelo instinto ou provido e ensinado pelo conhecimen-
to inculcado»; pela positiva: «[o homem] deveria […] extrair
tudo de si mesmo». Não se podendo dizer que no homem se
encontrem conhecimentos, germes, disposições infundidos36,
tampouco se dirá que, extraindo tudo de si, o homem seja a
um só tempo tábula rasa e, então, provedor originalíssimo de si
próprio, pois que, justamente, há “disposições naturais” a de-
senvolver-se completa e conformemente-a-fim. Mas extrair tudo
de si – desprezando-se uma suposta ênfase retórica pronomi-
nal – será fazer desenvolverem-se – completa e conformemente
-a-fim – as disposições inerentes à natureza humana, entre elas
o antagonismo e a insociável sociabilidade com a qual terão lu-
gar «os primeiros verdadeiros passos [no caminho] da rudeza
para a cultura»37, despertados pela intratabilidade, a vaidade,
inveja, sem as quais «todas as excelentes disposições naturais
[existentes] na humanidade dormiriam eternamente não de-
senvolvidas»38. Ou seja: guardadas as proporções, do mesmo
modo como, no plano especulativo, não nos aperceberíamos
das representações elementares sem ser por ocasião da expe-

36
Kant parece adotar tacitamente uma distinção referida por Baumgarten
no “§ 577” de sua Metafísica, a qual, de resto, já aparece em São Boaventura,
quem, também a propósito do “habitus”, distinguia as mesmas três possibi-
lidades referidas pelo autor alemão; cf. BauMgaRTen, Metaphysica, in kanT,
GS; Refl, AA 15: 23; s. BonavenTuRa, Opera omnia, Ludovicus Vivès, Parisiis
1866, p. 372.
37
kanT, IaG, AA 08: 21.
38
Ibidem.

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470 Ubirajara Rancan de Azevedo Marques

riência [bei Gelegenheit der Erfahrung], aqui também, não fos-


sem tais qualidades individualmente negativas, mas altamente
benéficas para a conformação social da espécie, as disposições
naturais não se desenvolveriam.

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