Você está na página 1de 60

LETRAS PORTUGUÊS e ESPANHOL

LITERATURA COMPARADA

Edgar Cézar Nolasco

Campo Grande, MS - 2011

LICENCIATURA
SUMÁRIO

Introdução 4

CAPÍTULO I
O que é, afinal, Literatura Comparada? 11

1.1 Abane a cabeça, leitor 13


1.2 Objeto e Método próprios 20
1.3 Conceitos indisciplinados 23

CAPÍTULO II
Literatura Comparada e Crítica Brasileira 29

2.1 Décadas de 50 e 60: Antonio Candido


e a Formação da Literatura comparada 31
2.2 Décadas de 70 e 80: Duas visadas críticas 37
2.2.1 Silviano Santiago 37
2.2.2 Roberto Schwarz 44
2.3 Década de 90 e depois:
a crítica brasileira contemporânea 50

CAPÍTULO III
Literatura Comparada e Estudos Culturais 57

3.1 Estudos culturais: um começo 59


3.3 Estudos culturais em Mato Grosso do Sul 66
3.3.1 - Entre o pedagógico e o
performático: esboço para uma análise cultural 66
3.4 Estudos culturais hoje 71
3.5 Teoria comparatista hoje 78
CAPÍTULO IV
INTRODUÇÃO
Literatura Comparada na Fronteira 91

4.1 Sob a égide de uma associação ao sul 94


4.2 A literatura comparada no extremo oeste do Brasil 98
4.3 Estudos Culturais Comparados 109 Ao leitor aprendiz de Literatura comparada

Prezado leitor, procurei tornar o caminho, pelo qual você


percorrerá, o menos árduo possível, por todo o livro. Para tanto,
sempre que pude, convoquei sua presença ao meu lado, como
forma de segurar sua mão, ou estar ao seu lado, na hora de
contornar alguma passagem, ou conceito, mais difíceis. Todavia
confesso que não procurei amenizar as problematizações que o
estudo da disciplina de Literatura comparada impõe ao seu leitor
aprendiz, uma vez que ela é eminentemente uma reflexão crítico-
comparatista. Pelo contrário, fui na direção onde as comparações
podem ser possíveis de ser tramadas, como forma de mostrar a você,
sobretudo, que o método comparativo não é único, totalizante, nem
exclusivo, nem muito menos da ordem da repetição. Entre todos
os cuidados que eu deveria ter, desde o início de nosso diálogo,
privilegiei o que achava, e continuo achando, o mais importante,
que é a natureza interdisciplinar que está na base da Literatura
comparada. Para que essa preocupação maior não se perdesse, bem
como você, leitor, estabelecesse inter-relações comparatistas na
leitura que fosse fazendo, o livro encontra-se dividido em quatro
capítulos que, ressalvadas suas particularidades, se complementam
entre si.
No primeiro capítulo, sintomaticamente denominado de O
que é, afinal, Literatura comparada?, procurarei, ao invés de tentar
definir o que seja Literatura comparada, mostrar a problemática
que está em sua conceituação. Tal dificuldade conceitual, aliás,
foi apontada e discutida desde os primórdios da disciplina. Abane
a cabeça, leitor nomeia esta parte introdutória que, não por acaso,
alude ao enigma que ronda a literatura do escritor Machado de
Assis que, já naquele contexto, demandava a presença crítica
do leitor. Depois de nos determos em torno da problemática
da conceituação, passamos para o Objeto e Método Próprios da
Literatura comparada. Como já sinaliza o título desta segunda
parte, defendemos a ideia de que a disciplina tem um objeto e um
método específicos; contudo, contorná-los demanda uma grande
e velha discussão comparatista. Acercamo-nos de comparatistas
renomados para elucidar um pouco mais a discussão sobre o
assunto. Desde já adiantamos ao leitor que, na verdade, todos os
Manuais de Literatura comparada, nesses quase duzentos anos de crítica anterior. Com isso, o leitor também poderá compreender que
existência da disciplina, trouxeram a problemática, quase insolúvel, a prática da releitura não deixa de ser uma prática mais moderna
que repousa em torno do seu objeto e método próprios. Confesso da crítica comparatista. Nessa parte, o leitor verá mencionados os
que este Manual, ressalvadas as diferenças, não fugiu à regra. A autores e respectivos livros mais importantes dessa década, quando
terceira e última parte do primeiro capítulo, intitulada de Conceitos o assunto for Literatura comparada e Estudos culturais no Brasil.
indisciplinados, arrola inúmeras conceituações do que seja Literatura No terceiro capítulo, chamado de Literatura comparada e Estudos
comparada, com o objetivo maior de que o próprio leitor, depois culturais, a discussão centra-se no que ficou apenas anunciado no
de ler todas, procure formular seu próprio conceito. Tal proposição final do capítulo anterior: a inter-relação entre os estudos culturais
justifica-se porque quando visamos conceituar a disciplina, toda e os estudos comparados. Na verdade, confessamos ao leitor que
uma reflexão sobre o seu próprio campo (objeto e método) se faz nossa preocupação interdisciplinar prioriza, de forma gradativa,
necessária. O leitor também poderá, tendo por base os conceitos esta aproximação, por entendermos ser impossível, hoje, pensar a
transcritos, estabelecer o exercício da comparação entre todos eles, literatura por fora desse atravessamento cultural que mina qualquer
visando pontuar as semelhanças e diferenças. O título desta parte reflexão contemporânea. Na primeira parte, Estudos culturais:
antecipa um caráter indisciplinado que está na própria definição da um começo, como já antecipa o título, fizemos de forma breve um
Literatura comparada. histórico dos Estudos culturais. Na parte seguinte, Estudos literários
No segundo capítulo, intitulado de Literatura comparada e Culturais, mostramos as aproximações e distanciamentos entre os
e crítica brasileira, a discussão crítica centrar-se-á em torno da estudos, mas sempre querendo pontuar a importância dos estudos
relação entre a disciplina e a crítica brasileira. Diferentemente do culturais para os comparados. Na parte seguinte, Estudos culturais
que fizemos no capítulo anterior, neste nos interessa pontuar não em Mato Grosso do Sul, nossa preocupação resumiu-se em mostrar
apenas o que a crítica disse sobre a disciplina, mas como a ajudou que o lócus no qual estamos inseridos é crucial para as leituras que
em sua consolidação dentro do país. Para facilitar a vida do leitor e a fazemos. Nessa parte, esboçamos a ideia de uma análise cultural que
nossa, respeitamos a ordem cronológica dos fatos e dos textos sobre não deixa de ser comparatista também. Já na quarta parte, Estudos
o assunto. Na primeira parte, denominada de Décadas de 50 e 60: culturais hoje, mostramos a importância dos estudos culturais para
Antonio Candido e a Formação da Literatura comparada, procuramos as reflexões que são feitas no presente, sobretudo quando o contexto
mostrar a importância que o crítico brasileiro teve para a formação é o acadêmico. Essa parte complementa-se com a seguinte, que se
da Literatura brasileira. Tal formação é correlata à consolidação da intitula de Teoria comparatista hoje. Nossa intenção maior foi a de
própria Literatura comparada, segundo comentário do próprio mostrar que os estudos culturais hoje e a teoria comparatista hoje se
crítico. Nessa parte, visamos mostrar ao leitor que estudar Literatura somam em proveito de uma leitura transdisciplinar, leitura esta que
comparada no Brasil passa, obrigatoriamente, pela leitura básica deve embasar toda e qualquer leitura nos dias atuais.
de Formação da Literatura Brasileira, do mestre Antonio Candido. No quarto e último capítulo, denominado de Literatura
Não é por acaso que todos os comparatistas brasileiros, posteriores comparada na fronteira, propomo-nos pensar a prática da Literatura
a Candido, trataram de mostrar a importância que o livro da comparada na fronteira. Não por acaso, o conceito de fronteira foi
Formação teve para o estudo tanto da literatura quanto da cultura mais um dos conceitos encampados e retrabalhados pela Literatura
brasileiras. Na segunda parte, Décadas de 70 e 80: duas visadas críticas, comparada no Brasil e no mundo. Na abertura deste capítulo,
detivemo-nos em dois críticos mais representativos do período: tivemos o cuidado de transcrever dois conceitos de Literatura
Silviano Santiago e Roberto Schwarz. Valendo-nos de dois ensaios comparada que trazem, no bojo de sua discussão conceitual, a
de cada um deles, procuramos mostrar a contribuição de ambos palavra e ideia de fronteira. Na verdade, confessamos ao nosso leitor
para a consolidação de uma leitura comparatista brasileira. Desde que foram tais conceitos que nortearam toda a ideia desenvolvida
já, adiantamos ao leitor, aprendiz de comparada, que a leitura de no decorrer do capítulo. Na primeira parte, intitulada de Sob
tais ensaios é fundamental para se compreender os rumos que o a égide de uma associação ao Sul, nossa intenção foi a de mostrar a
discurso crítico comparatista tomou no Brasil de lá para cá. Na importância que a Associação Brasileira de Literatura Comparada
terceira e última parte deste segundo capítulo, 90 e depois: a crítica (ABRALIC) teve para a consolidação da disciplina de Literatura
brasileira contemporânea, nosso objetivo maior foi o de mostrar a comparada dentro do país. Parodiamos, desde o título, o belo ensaio
forma como a crítica de depois de noventa estava relendo aquela da fundadora e primeira presidente da ABRALIC, a professora e
comparatista Tania Franco Carvalhal, que nos serviu de base para a
discussão proposta. Depois da região Sul, meu olhar comparatista
voltou-se para a minha biográfica região Centro-Oeste. Na segunda
parte, nominada de A Literatura comparada no extremo oeste do
Brasil, procurei informar ao leitor deste Manual o que temos aqui
de específico do campo da Literatura Comparada. E o material é
rico e variado e, como se não bastasse, consolidado. Encontramos
na pessoa do professor e comparatista Paulo Sérgio Nolasco dos
Santos (UFGD) o pioneiro dessa façanha comparatista nesta região
inóspita de uma fronteira sem lei. Aqui, já aprendemos que as
comparações não têm limites. Ao ler os livros mencionados nessa
parte, você também aprenderá a lição, leitor curioso. Na terceira e
última parte deste derradeiro capítulo, não por acaso intitulada de
Estudos culturais comparados, detivemo-nos no Núcleo de Estudos
Culturais Comparados (NECC-UFMS), como forma de informar ao
leitor o que vem sendo realizado no âmbito desse projeto de pesquisa
que tem a preocupação maior de desenvolver pesquisas assentadas
numa perspectiva transdisciplinar, dando especial atenção, num
primeiro momento, nos estudos culturais e comparados, para, num
momento a posteriori, ou concomitantemente, aos demais estudos,
como os estudos subalternos, por exemplo. A rubrica “Estudos
Culturais Comparados” já mostra a preocupação transdisciplinar
que visa fundir os discursos, os estudos, como forma de propiciar
uma reflexão crítica mais capaz de pensar os objetos, artefatos,
ou manifestações, que emergem da cultura. Nessa parte, o leitor
encontrará a menção aos Cadernos de Estudos Culturais que, de
forma atualizada, estendem as discussões levantadas aqui. Com
isso, aproveito para reiterar que as Leituras obrigatórias, elencadas
ao final de cada um dos capítulos, são, de fato, leituras que devem
ser feitas, como meio de se compreender melhor as questões crítico-
comparatistas e culturais apenas mencionadas neste Manual.
CAPITULO I

O QUE É, AFINAL, LITERATURA COMPARADA?

Sobre o Autor
Edgar Cézar Nolasco é mestre em Teoria da Literatura (UFMG) e doutor em
Literatura comparada (UFMG). É professor da Graduação e da Pós-Graduação
da UFMS. No Curso de Letras, em Campo Grande, ministra a disciplina de
Teoria da Literatura, além de projetos de ensino sobre Literatura comparada
e Estudos culturais. No Mestrado em Estudos de Linguagens, é responsável
pela disciplina obrigatória Literatura comparada: fundamentos, entre outras. É
coordenador do NECC: Núcleo de Estudos Culturais Comparados e editor dos
Cadernos de Estudos Culturais.
CAPÍTULO I

O QUE É, AFINAL, LITERATURA COMPARADA?

1.1 Abane a cabeça, leitor

Já que temos de começar por algum lugar, amigo leitor, que


comecemos por uma passagem do mestre Antonio Candido que, a
depender de minha intenção, ao mesmo tempo em que nos situa de
onde pensamos (Brasil), também marca o ponto inicial das inter-
relações que estabelecemos no mundo com o outro (outra cultura,
outra língua, outro contexto, outras produções culturais como a
literatura, por exemplo):

Há mais de quarenta anos eu disse que “estudar


literatura brasileira é estudar literatura comparada”,
porque a nossa produção foi sempre tão vinculada
aos exemplos externos, que insensivelmente os
estudiosos efetuavam as suas análises ou elaboravam
os seus juízos tomando-os como critérios de validade.
Daí ter havido uma espécie de comparatismo difuso
e espontâneo na filigrana do trabalho crítico desde
o tempo do romantismo, quando os brasileiros
afirmaram que a sua literatura era diferente da de
Portugal.
O primeiro sinal disso se encontra na mania de
referência por parte dos críticos. Eles pareciam sentir
melhor a natureza e a qualidade dos textos locais
quando podiam referi-los a textos estrangeiros, como
se a capacidade do brasileiro ficasse justificada pela
afinidade tranquilizadora com os autores europeus,
participantes de literaturas antigas e ilustres, que,
além de influência na nossa, vinham deste modo dar-
lhe um sentimento confortante de parentesco.1

Os dois parágrafos do crítico sintetizam, grosso modo, todas as


questões e discussões encontradas no campo específico da disciplina
de Literatura comparada. Daí competir-me dizer, desde este início,
que os desdobramentos que serão feitos por todo o decorrer deste
livro farão alusão, direta ou indiretamente, à passagem do autor de
a Formação da literatura brasileira.
Se “estudar literatura brasileira é estudar literatura comparada”,
como afirmou Candido, então podemos dizer que sempre se

1 CANDIDO. Recortes, p. 211.


14 LITERATURA COMPARADA EaD•UFMS EaD•UFMS O QUE É, AFINAL, LITERATURA COMPARADA? 15

praticou a literatura comparada em nosso país, quer tenha sido uma


A literatura comparada é a arte metódica, pela busca
espécie de comparatismo difuso ou não. Mas, nesse terreno da crítica
de ligações de analogia, de parentesco e de influência,
brasileira, não se passaram dois séculos (desde o Romantismo) de aproximar a literatura dos outros domínios da
em vão: aquele comparatismo difuso e espontâneo que existia na expressão ou do conhecimento, ou então os fatos
e os textos literários entre eles, distantes ou não no
filigrana do trabalho crítico brasileiro se desfez, num crescendo, tempo e no espaço, contanto que eles pertençam a
levando, por sua vez, não somente a crítica brasileira a uma melhor várias línguas ou várias culturas participando de
uma mesma tradição, a fim de melhor descrevê-los,
consolidação, como também abriu espaço para a disciplina de
compreendê-los e apreciá-los.2
Literatura comparada nos Cursos de Letras do país, sobretudo nos
Cursos de Pós-Graduação.
Essa formulação do que seja Literatura comparada se, por um
Com relação ainda ao primeiro parágrafo da passagem lado, mostrou que a disciplina estava presa ao século XIX, por outro
de Candido, chegamos mesmo a postular que nela se desenha lado, também assinala o quanto ela estava aberta para os avanços
uma possível conceituação do que se entende por Literatura teóricos que viriam, como as tendências teóricas de todo o século
comparada. Sobre isso, o leitor terá a possibilidade de constatar, XX. Mais adiante, paciente leitor, me deterei nessas proposições
e ao mesmo tempo estabelecer, a comparação quando, logo mais, teóricas que nortearam a discussão teórico-crítica no século XX,
for apresentada a definição, por mim escolhida, para nortear a no Brasil e no mundo. Convém registrar que, tanto na passagem
discussão aqui pretendida. Da passagem, interessa-me, por ora, do crítico brasileiro Antonio Candido, quanto nesta passagem de
chamar a atenção de meu atencioso leitor para aquele finalzinho Pichois e Rousseau, já são textualmente mencionados os conceitos
onde se lê que os brasileiros afirmaram que a sua literatura era diferente teóricos que serão depois desenvolvidos pela própria Literatura
da de Portugal. Uma literatura ser diferente da outra já demanda comparada.
uma comparação. O desejo de querer ser diferente também traz Como a Literatura comparada é hoje (séc. XXI) uma jovem
uma proximidade preexistente e histórica. Não é por acaso que foi velha senhora quase bicentenária, as ambiguidades que rondavam
entre o desejo de comparação entre as semelhanças e as diferenças que o campo comparatista, e inclusive o próprio termo Literatura
se consolidaram os primeiros estudos do que se podia chamar de “comparada”, estão esclarecidos. O livro Teoria da literatura (1948),
Literatura comparada no mundo. de Wellek e Warren, que se tornou um marco no campo da teoria
Já do segundo parágrafo da passagem, sobressaem algumas literária, sobretudo por ter questionado o comparatismo tradicional
palavras-chave que quase sempre estão no entorno do próprio e a história da literatura em geral, foi também um dos primeiros
conceito de Literatura comparada, como: “referência”, “textos a discutir a própria rubrica da disciplina. Como já sugere o nome
locais”, “textos estrangeiros”, “afinidade”, “autores europeus”, do capítulo, “Literatura geral, literatura comparada e literatura
“literaturas antigas e ilustres”, “influência” e “parentesco”. Como nacional”, os autores começam afirmando que “o termo literatura
vê, prezado leitor, a lista é longa e variada. Dessas palavras, as ‘comparada’ é problemático e, sem dúvida, essa é uma das razões pelas
mais importantes, ou pelo menos as mais usadas na história da quais esse importante modo de estudo literário teve menos do que o
Literatura comparada foram influência, parentesco, literaturas antigas sucesso acadêmico esperado.”3 Ainda no parágrafo introdutório, os
e ilustres e autores europeus, entre muitas outras. O conceito de autores lembram-nos de que “a comparação é um método usado por
Literatura comparada, que apresentaremos a seguir, reforça o que toda crítica e ciência e não descreve adequadamente, de nenhuma
Candido dissera, bem como o que acabamos de dizer sobre as tais maneira, os procedimentos específicos do literário.”4 Como se vê,
palavrinhas exploradas. caro leitor, o problema não residia, apenas, na terminologia, mas
Agora é hora de transcrever o conceito de Literatura comparada na própria falta de exclusividade da comparação por parte da
por mim escolhido. Trata-se do conceito proposto por Pichois e Literatura comparada. Nesse sentido, os termos Literatura geral,
Rousseau, no livro A literatura comparada(1967). Tal conceito, de uma
forma bem específica, sintetiza o que se entendeu por Literatura
comparada no século XX. De acordo com a comparatista brasileira 2 Apud PERRONE-MOISÉS. Flores da escrivaninha, p. 92.
3 WELLEK, WARREN. Teoria da literatura e metodologia dos estu-
Leyla Perrone-Moisés, essa definição “funciona como uma síntese
dos literários, p. 47.
de muitas outras anteriores”: 4 WELLEK, WARREN. Teoria da literatura e metodologia dos estu-
dos literários, p. 46.
16 LITERATURA COMPARADA EaD•UFMS EaD•UFMS O QUE É, AFINAL, LITERATURA COMPARADA? 17

Literatura nacional, Literatura universal, Literatura mundial e lição inicialmente proposta por Van Tieghem. Temos aí, atencioso
simplesmente o de Literatura foram sinônimos quase perfeitos de leitor, uma visada comparatista puramente historicista, deixando
Literatura comparada. o papel do comparatista restrito à pesquisa de “fatos comuns a
Nessa babel de termos, ou autores Wellek e Warren dizem que duas literaturas parecidas”. Foi preciso muito tempo e, sobretudo,
o termo possivelmente preferível seja o de “Literatura geral”, apesar de paciência para que esse binarismo fosse ultrapassado. Em
o mesmo trazer também suas desvantagens. Concluem os autores comparatismo, quando se fala em binarismo, fala-se em exaustão
que “talvez fosse melhor falar simplesmente de ‘literatura’”.5 Paul das semelhanças e na não prática das diferenças. Nesse sentido,
Van Tieghem pôs em contraste esse termo com o de “Literatura nem mesmo aquele conceito de Literatura comparada inicialmente
comparada: “a ‘literatura geral’ estuda os movimentos e modas da mencionado escapou do privilégio dado às semelhanças. Na
literatura que transcendem as fronteiras nacionais, ao passo que a verdade, paciente leitor, essa conversa ainda vai se delongar por
‘literatura comparada’ estuda as inter-relações entre duas ou mais aqui.
literaturas”6 Sandra Nitrini, outra comparatista brasileira, não por acaso
De acordo com a comparatista brasileira Tania Franco lembra-nos que a Literatura comparada, como disciplina, é uma
Carvalhal, na proposta de Van Tieghem “a literatura comparada “invenção dos franceses.” Ao deter-se no manual La littérature
passa a ser uma análise preparatória aos trabalhos de literatura comparée (1931), de Van Tieghem, Nitrini também mostra-nos que
geral.”7 Explica-nos a estudiosa que a intenção do comparatista o conceito de Literatura comparada, para o crítico francês, situa a
francês “era elaborar uma História Literária Internacional, que disciplina entre a história literária de uma nação e a história mais
se organizaria em três etapas: a história das literaturas nacionais, geral:
a literatura comparada (que se ocuparia com a investigação de
Já que todas as partes que compõem o estudo
afinidades) e, finalmente, a literatura geral, que sintetizaria os dados
completo de uma obra ou de um escritor podem ser
antes colhidos.”8 tratadas recorrendo-se unicamente à história literária,
Carvalhal lembra-nos de que a lição de Van Tieghem teve exceto a pesquisa e análise das influências recebidas e
exercidas, convém reservar esta para uma disciplina
uma legião de seguidores na França. Mesmo no Brasil, tivemos particular, que terá suas finalidades bem definidas,
um fiel discípulo da bíblia do comparatista francês. Mais adiante, seus especialistas e seus métodos. Ela prolongará
em todos os sentidos os resultados adquiridos para
retornamos ao precursor brasileiro da Literatura comparada. a história literária de uma nação, e os reunirá àqueles
Paul Van Tieghem via na Literatura geral uma vantagem que, por sua vez, foram adquiridos por historiadores
das outras literaturas; com esta rede complexa de
dupla: influências, constituirá um domínio à parte. Ela não
pretenderá absolutamente substituir as diversas
Antes de tudo permite, melhor ainda que a literatura histórias nacionais; completa-las-á e as unirá; e ao
comparada, ao historiador literário de uma nação mesmo tempo tecerá, entre elas e acima delas, as
compreender mais plenamente um escritor, uma malhas de uma história literária mais geral.10
obra, ao observá-lo mergulhado no meio literário
internacional ao qual ele pertence; em seguida, é por si
mesma uma disciplina histórica das mais penetrantes Apesar das implicações binaristas que repousam nas
e eficazes.”9 formulações de Van Tieghem, hoje a Literatura comparada, enquanto
“disciplina particular”, tem suas finalidades bem definidas, seus
Como se observa na passagem, o comparatista prende a especialistas e seus métodos, conforme afirmou o crítico na passagem.
Literatura comparada à historiografia literária e à Literatura geral. Aliás, se pudermos avançar no tempo, diríamos, sem uma rusga de
Nessa direção, vários outros comparatistas franceses seguiram a dúvida, que a disciplina Literatura Comparada já viveu seu auge,
inclusive no Brasil. Sua importância maior, neste século XXI, talvez
resida na abertura trans e multidisciplinar proporcionada por ela
5 WELLEK, WARREN. Teoria da literatura e metodologia dos estu-
dos literários, p. 51. com relação às demais disciplinas que foram surgindo na virada do
6 WELLEK, WARREN. Teoria da literatura e metodologia dos estu- século.
dos literários, p. 51. Outro termo que merece destaque, por ter sido exaustivamente
7 CARVALHAL. Literatura comparada, p. 17.
8 CARVALHAL. Literatura comparada, p. 17-18. estudado, desde os primórdios da Literatura comparada até os
9 Apud CARVALHAL. Literatura comparada, p. 18. 10 Apud NITRINI. Literatura comparada, p. 24.
18 LITERATURA COMPARADA EaD•UFMS EaD•UFMS O QUE É, AFINAL, LITERATURA COMPARADA? 19

dias atuais, como mostraremos, é o de Weltliteratur, traduzido e geral.”15


como “Literatura mundial”. O termo alemão foi criado pelo poeta Carvalhal, coerentemente, se pergunta qual significado teria,
romântico Wolfgang Goethe, em 31 de janeiro de 1827, para se hoje, a expressão “Literatura mundial”, “diante de uma dominante
contrapor à ideia de nationaltliteratur, traduzida como “Literatura globalização econômica e de uma proclamada mundialização
nacional”. De acordo com Wellek e Warren, o termo “Literatura cultural”16, quando conceitos como local e global, por exemplo,
mundial” foi empregado por Goethe “para indicar um tempo em apresentam-se, ao mesmo tempo, como tão atuais e problemáticos.
que todas as literaturas se tornariam uma. É o ideal da unificação Não é por acaso que a proposta maior de Carvalhal, no ensaio, é a de
de todas as literaturas em uma grande síntese, em que cada “revisar a noção de Weltliteratur com base em componentes distintos
nação desempenharia a sua parte em um concerto universal.11 dos anteriores, buscando novas estratégias de aproximação.”17
Para os autores, o próprio escritor alemão tinha percebido que tal Outro comparatista que faz uma revisão crítica do conceito é
proposta não passava de “um ideal muito distante”, uma vez que Wladimir Krysinki, em Dialéticas da transgressão(2007). Grosso modo,
“nenhuma nação está disposta a renunciar a sua individualidade”. assim resume o crítico sua proposta fundamental do livro como um
Amalgamadas ou não as literaturas nacionais em suas diversidades, todo: “no intuito de conceber hoje a literatura mundial em termos de
o fato é que o termo Weltliteratur espalhou-se pelo mundo da literatura estrutura coerente, de época, de sincronia, de patrimônio e de museu
ocidental, sobretudo, como sinônimo de “obras-primas”(cânone), o que vive e se renova sem parar, deve-se ligá-la à complexidade da
grande tesouro dos clássicos. realidade inter-humana que se desumanizou consideravelmente
Tania Franco Carvalhal, em Literatura comparada(1986), desde a celebração goethiana do cosmopolitismo, do qual a
explica que o termo goethiano, apesar de ter prestado para várias literatura mundial devia ser uma expressão sofisticada e pan-
interpretações, foi usado por Goethe em oposição à expressão humana.”18 No capítulo 1 do livro, intitulado “narrativa de valores:
“literaturas nacionais”, “para ilustrar sua concepção de uma os novos actantes da Weltliteratur”, o autor afirma: “coloco então que
literatura de ‘fundo comum’, composta pela totalidade das a literatura mundial se funda em uma dialética do reconhecimento
grandes obras, espécie de biblioteca de obras-primas.”12 Alargando cuja complexidade implica um movimento de cinco actantes: o local,
a significação do termo, Carvalhal diz que também podemos o nacional, o marginal, o institucional e o universal”19. Tendo por base os
compreendê-lo como “a possibilidade de interação das literaturas seus actantes, o autor mostra que a Weltliteratur (literatura mundial)
entre si, corrigindo-se umas às outras.”13 Dezessete anos depois, “está em formação constante, que permanece em equilíbrio instável
no livro O próprio e o alheio (2003), Tania Carvalhal dedica o ensaio, e que não pode ser senão uma utopia funcional a serviço de uma
sintomaticamente intitulado de “A Weltliteratur em questão”, à visão do mundo unitária que a realidade tem certa dificuldade
discussão do termo de Goethe. Como se vê, leitor atencioso, o em confirmar.”20Concordando, em parte com Goethe, e sobretudo
debate em torno de uma possível ideia de “Literatura mundial” avançando na discussão, o fato é que o autor de Dialéticas da
nunca saiu totalmente da agenda da Literatura comparada. Já na transgressão reinsere a discussão em torno do termo alemão nos dias
primeira nota de seu ensaio, Carvalhal informava ao seu leitor: atuais. Actantes como local, global, fronteira, margem, periferia,
“A literatura comparada, como disciplina científica, consolida- entre outros, que, de alguma forma, sustentam a discussão crítica
se paralelamente à noção de Weltliteratur. Observe-se ainda que contemporânea, contribuem para que o termo Weltliteratur seja
associações e departamentos de literatura comparada preservam relido, revisado de forma completamente diferente.
em sua designação os termos de literatura comparada e ‘literatura É curioso que Gerhard Kaiser, em Introdução à literatura
geral.’”14 Na “Introdução” que faz ao livro, a comparatista brasileira comparada (1980), diferentemente de Wellek & Warren e Carvalhal
atualiza e mostra a importância da reflexão sobre o termo nos dias mencionados, entre outros, traduz o termo Weltliteratur por
atuais: “pensar, hoje, esse termo significa articular a reflexão sobre
o universal com outros dados como o local, o nacional, o familiar, o
marginal, o institucional, o universal e noções como as de particular 15 CARVALHAL. O próprio e o alheio, p. 9 (Introdução)
16 CARVALHAL. O próprio e o alheio, p. 90.
11 WELLEK & WARREN. Teoria da literatura e metodologia dos es- 17 CARVALHAL. O próprio e o alheio, p. 93.
tudos literários, 50. 18 KRYSINSKY. Dialéticas da transgressão, p. 3. Tânia F. Carvalhal,
12 CARVALHAL. Literatura comparada, p. 12. no ensaio mencionado, já discutia o texto de krysinski.
13 CARVALHAL. Literatura comparada, p. 12. 19 KRYSINSKI. Dialéticas da transgressão, p. 3 (grifos do autor)
14 CARVALHAL. O próprio e o alheio, p. 89 (nota 1). 20 KRYSINSKY. Dialéticas da transgressão, p. 3-4.
20 LITERATURA COMPARADA EaD•UFMS EaD•UFMS O QUE É, AFINAL, LITERATURA COMPARADA? 21

“Literatura universal”. Claro que a diferença pode ser um mero mas porque, como recurso analítico e interpretativo, a comparação
problema de tradução. A tarefa da tradução, quase sempre, possibilita a esse tipo de estudo literário uma exploração adequada
enriquece o campo da leitura e suplementa os textos lidos. Agora, de seus campos de trabalho e o alcance dos objetivos a que se
quando opera um desvio, digamos conceitual, pode causar um mal- propõe.”23
estar irreparável. No tocante à substituição da rubrica de “Literatura Também Sandra Nitrini, em seu Literatura comparada, diz que
mundial” para a de “Literatura universal” pode ocorrer um modo o debate sobre a especificidade do objeto e método da Literatura comparada
diferente de ler e de compreender a própria Literatura comparada. atravessa o século XX, sem que se chegue a um desfecho consensual:
O segundo capítulo do livro de Kaiser, intitulado “’Weltliteratur’
No final deste século, críticos e teóricos continuam
(literatura universal) - sobre o objecto da literatura comparada,
interrogando-se sobre questões que já eram colocadas,
ilustra a discussão aqui levantada.21 O capítulo, assim como o livro há mais de cem anos, e que constituem o miolo
como um todo, por ter tradução portuguesa (Lisboa), parece justificar de uma discussão ininterrupta: qual é o objeto da
literatura comparada? A comparação pode ser objeto
que naquele país, naquela língua e cultura a expressão Weltliteratur de uma disciplina? Se literaturas específicas têm seu
ganha uma aura mais universal que mundial. Mais do que pontuar cânon, o que seria um cânon comparativo? Como o
comparatista seleciona o objeto da comparação? A
as diferenças, estamos querendo sinalizar que ambos os termos que literatura comparada constitui uma disciplina? Ou é
gravitaram em torno do de Literatura comparada movimentaram um simples campo de estudos?24
e continuam a mover a própria Literatura comparada para frente
(séc. XXI). Aprendemos, com as perguntas feitas pela comparatista
Mais adiante, na parte intitulada “Teoria comparatista hoje”, brasileira, que as dúvidas que rondam o objeto e método da disciplina
mencionarei dois exemplos de leituras contemporâneas que, ao apontam a direção na qual devemos ir, leitor curioso, ao invés de
discutirem o termo Weltliteratur, de forma bastante específica, querermos nos afastar delas. Nessa direção, a própria estudiosa nos
revisitam criticamente a disciplina Literatura comparada nesta esclarece e aponta um começo: “o objeto é essencialmente o estudo
virada de século. das diversas literaturas nas suas relações entre si, isto é, em que
medida umas estão ligadas às outras na inspiração, no conteúdo,
1.2 Objeto e Método próprios na forma, no estilo. Propõe-se a estudar tudo o que passou de uma
literatura para outra, exercendo uma ação, de variada natureza.”25
A Literatura comparada, como disciplina, tem seu objeto e Ainda em torno da Metodologia da Literatura comparada,
método próprios. Todavia, nem sempre foi assim. Sua história mostra Sandra Nitrini diz que, partindo-se do objeto da disciplina que
toda a problemática que se acercou especificamente em torno dessa se resume no descrever a passagem de um componente literário de
questão. A dificuldade, ou melhor, as diferenças conceituais que uma literatura para outra, pode-se estudá-la sob dois pontos de vista:
se impuseram na rubrica da disciplina, desde o início, comprovam “focalizando-se principalmente o objeto da passagem, ou seja, o que
que a delimitação tanto do objeto quanto do método rendeu muitas foi transposto (gênero, estilos, assuntos, temas, ideias, sentimentos)
discussões e discórdias críticas. A quantidade significativa de livros, e observando-se como se produziu a passagem.”26 A autora conclui
de manuais, que saíram publicados no decorrer de todo o século XX dizendo que, diante da complexidade e amplidão desse domínio,
reforça a problemática em pauta. Sobre isso, Tania Franco Carvalhal, “o comparatista deverá restringir-se a uma especialidade no tempo
em seu livrinho de leitura obrigatória, afirmou: “a dificuldade de e no espaço. Assim seu objeto de estudo poderá circunscrever-
chegarmos a um consenso sobre a natureza da literatura comparada, se às relações entre duas determinadas literaturas, num período
seus objetos e métodos, cresce com a leitura de manuais sobre o delimitado.”27
assunto, pois neles encontramos grande divergência de noções e de Mas Nitrini não é a única a fechar o estudo da relação
orientações metodológicas.”22 comparatista entre duas literaturas. Aliás, na verdade, em se
Carvalhal, depois de explicar que a Literatura comparada tratando de estudos acerca da Literatura comparada, parece ter
não pode sem entendida apenas como sinônimo de “comparação”, reitera 23 CARVALHAL. Literatura comparada, p. 7.
que “a Literatura comparada compara não pelo procedimento em si, 24 NITRINI. Literatura comparada, p. 23.
25 NITRINI. Literatura comparada, p. 24.
21 KAISER. Introdução à literatura comparada, p. 35. 26 NITRINI. Literatura comparada, p. 33.
22 CARVALHAL. Literatura comparada, p. 6. 27 NITRINI. Literatura comparada, p. 33.
22 LITERATURA COMPARADA EaD•UFMS EaD•UFMS O QUE É, AFINAL, LITERATURA COMPARADA? 23

sido mesmo um consenso o de centrar-se as comparações em dos conceitos atribuídos à Literatura comparada nesses quase
duas literaturas nacionais. O comparatista, já mencionado por duzentos anos de existência.
nós, René Wellek não por acaso afirmou que “outro sentido da
literatura ‘comparada’ limita-se ao estudo das relações entre duas
ou mais literaturas.”28 Também Paul Van Tieghem, ao pontuar a 1.3 Conceitos indisciplinados
diferença entre “Literatura geral” e “Literatura comparada”, diz
que esta “estuda as inter-relaçoes entre duas ou mais literaturas.”29 Além dos conceitos de Antonio Candido, Pichois e Rousseau,
Curiosamente, Tania F. Carvalhal, no Manual citado, afirma que Van Paul Van Tieghem e Leyla Perrone-Moisés até aqui mencionados,
Tieghem “define o objeto da literatura comparada como o estudo fizemos questão de destacar os que se sequem, para que o leitor
das diversas literaturas em suas relações recíprocas.”30 Como se vê, deste Manual possa ele mesmo tecer suas considerações e formular
leitor atento, Carvalhal não fala em “duas literaturas”, o que, numa por conta própria sua possível compreensão do que entende por
leitura comparatista, pode fazer toda a diferença. Literatura comparada. Para tanto, valemo-nos do livro Literatura
Quem também vai falar em duas ou mais literaturas é a comparada: textos fundadores, organizado pelos comparatistas
comparatista brasileira Leyla Perrone-Moisés em seu antológico brasileiros Eduardo de F. Coutinho e Tania Franco Carvalhal.
ensaio “Literatura comparada, intertexto e antropofagia”: Fizemos questão de acompanhar a ordem cronológica em que os
textos e seus respectivos autores aparecem no Sumário, como forma
Qualquer estudo que incida sobre as relações entre
de que o leitor entenda a necessidade de recorrer à leitura desses
duas ou mais literaturas nacionais pertence ao âmbito
da literatura comparada. Essas relações podem textos fundadores da Literatura comparada.
ser estudadas sob vários enfoques: relações entre
obra e obra; entre autor e autor; entre movimento e O método comparativo de adquirir ou comunicar
movimento; análise da fortuna crítica ou da fortuna conhecimento é, num certo sentido, tão antigo quanto
de tradução de um autor em outro país que não o seu; o pensamento, e, em outro, a glória peculiar do
estudo de um tema ou de uma personagem em várias nosso século XIX. Toda a razão, toda a imaginação,
literaturas etc.31 operam subjetivamente, e passam de indivíduo para
indivíduo objetivamente,com a ajuda de comparações
Essa questão de duas ou mais literaturas nacionais já foi e diferenças. (Hutcheson Macaulay Posnett. O método
comparativo e a literatura, p. 15-25)
levada à exaustão e virada do avesso pelos próprios estudos
comparados. Chegou-se ao ponto, inclusive, de uma leitura deter-se
Para que ela [Literatura comparada] tenha lugar
apenas na obra de um autor nacional e o trabalho estar circunscrito
nos estudos do gênero de que falamos, é preciso,
ao campo da investigação comparatista. Num crescendo, há uma com efeito, que uma literatura seja concebida como
tendência crítica que se quer impor na atualidade - talvez por mera a expressão de um estado social determinado, tribo,
clã ou nação do qual representa as tradições, o
precaução crítica e por conta dos relativismos e dualismos que às gênio e as esperanças. É preciso que ela possua um
vezes teimam em se impor nas leituras - que seria a de pegar pelo caráter nitidamente local, familiar ou nacional e que
a totalidade das obras que a constituem apresente um
menos três obras, ou três autores, sejam eles da mesma literatura certo número de traços comuns que lhes assegurem
nacional, ou de línguas ou culturas diferentes. A Trindade não faz uma espécie de unidade moral e estética. (Joseph
Texte. Os estudos de literatura no estrangeiro e na
milagres, mas pode contribuir para uma leitura comparatista mais França, p. 26-43)
eficaz. No próximo capítulo, intitulado “Literatura comparada e
crítica brasileira”, propomo-nos discutir, de forma mais detida, esta Somente uma abordagem comparada da literatura
questão da dualidade, entre outras. pode nos levar a uma compreensão das transformações
do sentimento das nações individuais, corrigir nossas
Como forma de ilustrar as dificuldades que gravitaram em
visões tradicionais e revelar todos os erros. Afinal de
torno do objeto e do método da disciplina, vejamos, então, alguns contas, esta disciplina fornece o material mais valioso
não só para a psicologia dos povos mas também para
28 WELLEK & WARREN. Teoria da literatura e metodologia dos es- a estética; quaisquer limitações ou gradações que
tudos literários, p. 48. impusermos, ela sempre tenderá para um objetivo
duplo: um conhecimento interno e profundo da
29 Ver WELLEK & WARREN. Teoria da literatura e metodologia dos
riqueza da natureza humana e a realização das
estudos literários, p. 51. palavras do poeta: Lasst alle Volker unter gleichem
30 CARVALHAL. Literatura comparada, p. 17. Himmel/ Sick gleicher Gabe wohlgemut erfreuen!
31 PERRONE-MOISÉS. Flores da escrivaninha, p. 91.
24 LITERATURA COMPARADA EaD•UFMS EaD•UFMS O QUE É, AFINAL, LITERATURA COMPARADA? 25

(Louis Paul Betz. Observações críticas a respeito da ela está obviamente correta (e produziu um grande
natureza, função e significado da história da literatura número de evidências para corroborar tal fato) na
comparada, p. 44-59) sua concepção de uma tradição literária ocidental
composta de uma rede de inúmeras inter-relações.
(René Wellek. A crise da literatura comparada, p. 108-
A literatura comparada busca as ideias ou temas 119)
literários e acompanha os acontecimentos, as
alterações, as agregações, os desenvolvimentos e as
influências recíprocas entre as diferentes literaturas. A literatura comparada por certo deseja superar
(Benedetto Croce. A “Literatura comparada, p. 60-64) preconceitos e provincianismos nacionais, mas
disso não resulta ignorar ou minimizar a existência
e a vitalidade das diferentes tradições nacionais.
Quanto mais indeterminada e fugaz é a matéria das Precisamos nos acautelar contra escolhas falsas e
nebulosas em fusão, tanto mais o núcleo em torno desnecessárias: precisamos tanto da literatura nacional
do qual ela [história literária] se move deveria ser quanto da geral, precisamos tanto da história quanto
definido e sólido. Da mesma forma, seria sobretudo, da crítica literárias, e precisamos da perspectiva ampla
a meu ver, a preparação de um novo humanismo o que somente a literatura comparada pode oferecer.
resultado de uma prática ampliada da literatura (René Wellek. O nome e a natureza da literatura
comparada, após a crise que ainda nos domina: uma comparada, p. 120-148)
espécie de arbitragem, de clearing, a que levaria o
esforço do “comparatismo”, abriria caminho para
certezas novas, humanas, vitais, civilizadoras, nas A literatura comparada é um dos mais eficazes
quais poderia novamente assentar o século em esforços dos historiadores e críticos literários das duas
que vivemos. (Fernand Baldensperger. Literatura últimas gerações para se libertarem das esmagadoras
comparada: a palavra e a coisa, p. 65-88) determinações doutrinais impostas a suas pesquisas
por mestres como Taine ou Lanson, na França,
De Sanctis ou Croce, na Itália, para se libertarem
Como todas as partes que compõem o estudo completo sobretudo da alternativa em que os encerram os dois
de uma obra ou de um escritor podem ser tratadas postulados do formalismo e do historicismo. (Robert
apenas com os recursos da história literária nacional, Escarpit. Os métodos da sociologia literária, p. 149-
exceto a pesquisa e a análise das influências sofridas 156)
e exercidas, convém reservar esta para uma disciplina
especial, que terá seus objetivos bem definidos, seus
especialistas, seus métodos. Ela prolongará em todos Um estudo de influência, quando integralmente
os sentidos os resultados obtidos pela história literária realizado, contém duas fases bastante diferentes,
de uma nação, reunindo-os com os que, por seu lado, uma vez que ele cruza a distância entre a origem do
obtiveram os historiadores das outras literaturas, e processo criativo e o poema propriamente dito. O
desta rede complexa de influência se constituirá um primeiro consiste, como já vimos, na interpretação
domínio à parte. Ela não pretenderá de modo algum dos fenômenos genéticos. O segundo passo é textual
substituir as diversas histórias literárias nacionais; há e comparativo, mas inteiramente dependente do
de completá-las e uni-las; e, ao mesmo tempo, tecerá, primeiro para atingir seu significado. (Claudio
entre elas e acima delas, as malhas de uma história Guillén. A estética do estudo de influências em
literária mais geral. Esta disciplina existe; seu nome literatura comparada, p. 157-174)
e Literatura comparada. (Paul Van Tieghem. Crítica
literária, história literária, literatura comparada, p. 89-
96) A literatura comparada é o estudo da literatura além
das fronteiras de um país específico e o estudo das
relações entre, por um lado, a literatura, e, por outro,
A literatura comparada é a história das relações diferentes áreas do conhecimento e da crença, tais
literárias internacionais. O comparatista se encontra como as artes (por exemplo, a pintura, a escultura,
nas fronteiras, linguísticas ou nacionais, e acompanha a arquitetura, a música), a filosofia, a história, as
as mudanças de temas, de ideias, de livros ou de ciências sociais (por exemplo, a política, a economia,
sentimentos entre duas ou mais literaturas. Seu a sociologia), as ciências, a religião etc. Em suma, é
método de trabalho deve-se adaptar á diversidade de a comparação de uma literatura com outra ou outras
suas pesquisas. Há, no entanto, condições prévias que e a comparação da literatura com outras esferas da
ele deve preencher, não importa qual seja a direção expressão humana. (Henry H. H. Remak. Literatura
que pretenda tomar: um certo “equipamento”, como comparada; definição e função, p. 175-190)
diz Van Tieghem, lhe é indispensável. (Marius-
François Guyard. Objeto e método da literatura
comparada, p. 97-107) A literatura comparada é o humanismo (René
Etiembre. Crise da literatura comparada, p. 191-198)

A literatura comparada tem o mérito de combater o


falso isolamento das histórias literárias nacionais: A comparação não destrói a particularidade do objeto
26 LITERATURA COMPARADA EaD•UFMS EaD•UFMS O QUE É, AFINAL, LITERATURA COMPARADA? 27

estudado, seja este individual, nacional ou histórico; comparada, p. 260-274)


pelo contrário, são precisamente os pontos de
similaridade e diferença entre os objetos comparados
que __ começando com uma justaposição elementar Trata-se de afirmar que nosso objeto de estudo, em
__ nos levam finalmente à sua explanação histórica. sua autonomia básica, está além de comparações.
Neste sentido, o estudo comparativo, dentro ou além (Harry Levin. Comparando a literatura, p. 275-294)
dos limites de uma literatura nacional, deve ser visto
como um princípio fundamental da pesquisa literária.
(Victor m. Zhirmunsky. Sobre o estudo da literatura Admite-se há bastante tempo que a expressão
comparada, p. 199-214) “literatura comparada”, corrente na Inglaterra desde
sua utilização fortuita por Matthew Arnold por volta
de 1840, não é, de modo algum, uma expressão feliz.
Que é literatura comparada? Perguntávamos. Nos (S. S. Prawer. O que é literatura comparada?, p. 295-
dois pontos essenciais __ objeto e método __, nossas 307)
ideias ganharam em clareza, mas a resposta continua
indecisa. De que trata a literatura comparada? Das
relações literárias entre dois, três, quatro domínios Ao postular que a literatura comparada se preocupa
culturais, entre todas as literaturas do globo? Sem em confrontar os produtos de literaturas nacionais
qualquer contestação, tal é hoje seu feudo natural. diversas, não afirmamos especificamente quais as
(Claude Pichois & André M. Rousseau. Para uma circunstâncias que deveriam estar subordinadas a esta
definição de literatura comparada, p. 215-2180 atividade. (Ulrich Weisstein. Literatura comparada:
definição, p. 308-333)

Quando, então, vemos surgir na história da literatura


as noções de literatura comparada e de literatura A própria expressão “literatura comparada” é uma
geral? Grosso modo podemos dizer que a literatura fonte de mal-entendidos, um exemplo dos perigos e
comparada data de cerca de 1830, enquanto que ciladas da terminologia crítica. Ela confirma a ideia
a literatura geral se afirma apenas na aurora do de que a literatura deve ser comparada, mas não
século XX. (Simon Jeune. Literatura geral e literatura indica os termos da comparação. (François Jost. Uma
comparada, p. 219-240) filosofia das letras, p. 334-347)

Nosso estudo de qualquer literatura nacional faz- Como forma de justificar a importância de ter transcrito as
nos, assim, constatar que, para uma compreensão conceituações em torno da Literatura comparada, para o leitor
autêntica das obras, gêneros e movimentos dessa
literatura, devemos ao mesmo tempo encará-los aprendiz, reproduzo as palavras dos comparatistas brasileiros
como partes integrantes de um todo internacional. que organizaram o livro que contempla todos os textos que foram
(Jan Brandt Corstius. Para o estudo comparativo da
literatura, p. 241-254) mencionados nas passagens:

Literatura comparada: textos fundadores surgiu


Concorda-se atualmente que a literatura comparada da necessidade de suprir a carência bibliográfica
não compara literaturas nacionais, no sentido de se enfrentada pelos pesquisadores brasileiros, trazendo
contrapor uma a outra. Ao invés disso, ela fornece um a público as questões que fundaram e consolidaram a
método de ampliação da perspectiva na abordagem disciplina e os rumos que as pesquisas vêm tomando
de obras literárias isoladas __ uma maneira de se olhar nos principais centros internacionais de investigação.
para além das estreitas fronteiras nacionais, a fim de Constando dos currículos de Letras de diversas
que sejam discernidos movimentos e tendências nas universidades, ainda há, contudo, dificuldades de
diversas culturas nacionais e de que sejam percebidas acesso aos textos sobre o assunto, particularmente
as relações entre a literatura e as demais esferas da aqueles que contribuíram para a constituição da
atividade humana. (A. Owen Aldridge. Propósito e disciplina e cujas propostas estão na base de muitas
perspectivas da literatura comparada, p. 255-259) perspectivas de trabalho desenvolvidas hoje. (Aba do
livro)

(...) penso que toda boa universidade deveria


também estabelecer aquilo que é comumente Nosso propósito, ao reproduzir as passagens elencadas, não
chamado de Currículo Interdepartamental de
Literatura Comparada, a fim de se manter sempre
o foi diferente. Mas que o leitor as tome como um convite para ler
informada sobre o constante fluxo de ideias, trabalhos o livro como um todo. Há, inclusive, além das “Notas explicativas”
literários e influências que acontecem além das
apostas a cada ensaio, uma parte sobre cada um dos autores cujos
fronteiras nacionais e linguísticas, e poder redefinir
constantemente a multiplicidade dos créditos e textos foram reproduzidos. Retomo, por fim, a Introdução dos
débitos que ocorrem no campo do cosmopolitismo
literário. (Werner Friederich. O desafio da literatura
28 LITERATURA COMPARADA EaD•UFMS

organizadores, os quais nos advertem que “importa remontar aos


textos antigos (..) para que se possa ter uma ideia clara do percurso
da Literatura Comparada em seu processo de constituição e
consolidação.”32
Leituras obrigatórias:
CARVALHAL, Tania Franco. Literatura comparada. 4ª edição revista
e ampliada. São Paulo: Ática, 1999. (Série princípios)
CARVALHAL, Tania Franco. O próprio e o alheio: ensaios de literatura
comparada. São Leopoldo: Editora Unisinos, 2003.
COUTINHO, Eduardo de F. & CARVALHAL, Tania F. Literatura
comparada: textos fundadores.(org.) Rio de janeiro: Rocco, 1994.
NITRINI, Sandra. Literatura comparada: história, teoria e prática. São
CAPITULO II
Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2000.

Demais Referências:
CANDIDO, Antonio. Recortes. São Paulo: Companhia das letras,
1993, p. 211-215: Literatura comparada.
KAISER, Gerhard R. Introdução à literatura comparada. Trad. de
Teresa Alegre. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1980.
KRYSINSKI, Wladimir. Dialéticas da transgressão: o novo e o moderno
na literatura do século XX. Trad. de Antonio Neis, Michel Peterson,
Ricardo Iuri Canko. São Paulo: Perspectiva, 2007.
PERRONE-MOISÉS, Leyla. Flores da escrivaninha. São Paulo;
Companhia das letras, 1990. 91-99: Literatura comparada, intertexto
e antropofagia.
WELLEK, René & WARREN, Austin. Teoria da literatura e metodologia
dos estudos literários. Trad. de Luis Carlos Borges. São Paulo: Martins
Fontes, 2003.

LITERATURA COMPARADA E CRÍTICA BRASILEIRA

32 COUTINHO & CARVALHAL. Literatura comparada: textos funda-


dores, p. 13 (Introdução)
CAPÍTULO II

LITERATURA COMPARADA E CRÍTICA BRASILEIRA

Tanto a literatura comparada quanto os estudos


culturais — e mais especificamente a crítica cultural
— não se definem mais como campos disciplinares
definidos e estáveis. Teorias sin disciplina [...] poderia
ser uma das saídas para a complexa discussão sobre o
campo disciplinar contemporâneo.

Eneida Maria de Souza. Tempo de pós-crítica, p. 151.

Chegou a hora, leitor crítico, depois de passarmos pela


discussão em torno da conceituação do que seja Literatura
comparada, assim como de seu objeto e método específicos, de
nos determos na crítica brasileira e no que esta disse a respeito da
Literatura comparada no Brasil. Transcrevemos várias definições do
que se entendeu por Literatura comparada. O leitor atento percebeu
que tinha para todos os gostos, estilos e épocas. Espero que ele tenha
compreendido também que conceituar Literatura comparada é tão
difícil, para não dizer impossível, quanto a responder a pergunta: o
que é literatura?

2.1 DÉCADAS DE 50 E 60: Antonio Candido e a Formação da


Literatura comparada

Se a assertiva do mestre Antonio Candido de que estudar


literatura brasileira equivale a estudar literatura comparada procede,
e quanto a isso parece haver um consenso crítico, então podemos
dizer, por conseguinte, que a questão da dependência cultural foi
e continua sendo, pelo menos em parte, uma pedra no meio do
caminho da crítica brasileira. Escolhemos o tópico da dependência
cultural, porque entendemos que foi nessa direção que os estudos
32 LITERATURA COMPARADA EaD•UFMS EaD•UFMS LITERATUTA COMPARADA E CRÍTICA BRASILEIRA 33

comparados brasileiros mais nos ajudaram a compreender as lucra em ser discutido à luz da dependência causada pelo atraso
semelhanças e diferenças culturais que se impunham entre nossa cultural é o das influências de vário tipo, boas e más, inevitáveis
cultura e a do outro. Não é por acaso que, desde a origem da e desnecessárias.”35 Prezado leitor, se você ainda não sabia, fique
Literatura comparada, apresentava-se a necessidade de destacar as sabendo que a discussão em torno da influência moveu a Literatura
semelhanças e as diferenças entre uma literatura e outra. comparada por um tempo a perder de vista. De modo que, em
Como a Literatura comparada sempre esteve atrelada a uma qualquer discussão de fundo comparatista, lá nos deparávamos
inter-relação entre literaturas e culturas, interessa-nos indagar com a palavra influência.
de que forma ela contribuiu para a resolução da problemática Convém abrirmos um parêntese aqui para reiterar que
da dependência no Brasil e, ao mesmo tempo, sinalizar o papel questões como dependência cultural e influência(origem), por exemplo,
e importância da disciplina no século XXI, no contexto da crítica podem estar mesmo completamente resolvidas tanto no plano da
brasileira. cultura quanto no plano artístico, quando se pensa no contexto
Para tanto, talvez convenha-nos começar por lembrar-se de cultural brasileiro. Aliás, e é bom que se diga, a crítica subsequente
uma conceituação do que se entendeu por Literatura comparada às décadas de 50 e 60 não fez outra coisa senão gastar tinta e papel
no século XX. Ficamos com a definição proposta por Pichois e na resolução e compreensão dessas questões culturais, entre outras.
Rousseau, no livro A literatura comparada (1967), que, de acordo A forma meio cronológica como os críticos e seus respectivos
com Leyla Perrone-Moisés, “funciona como uma síntese de muitas ensaios forem aparecendo neste texto testemunha a preocupação
outras anteriores”: crescente em torno do assunto, destacando-se, por conseguinte,
o tópico da “dependência cultural”. Se hoje, início do século XXI,
A literatura comparada é a arte metódica, pela busca
voltamos nessa página da crítica que, não só aparentemente, está
de ligações de analogia, de parentesco e de influência,
de aproximar a literatura dos outros domínios da bem resolvida, é porque entendemos que muitas das convicções,
expressão ou do conhecimento, ou então os fatos suspeitas e afirmações críticas feitas ali, a exemplo do que diz
e os textos literários entre eles, distantes ou não no
tempo e no espaço, contanto que eles pertençam a Antonio Candido em Formação da literatura brasileira, servem-nos
várias línguas ou várias culturas participando de para formular outras perguntas a respeito do papel e lugar da
uma mesma tradição, a fim de melhor descrevê-los,
compreendê-los e apreciá-los.33 literatura brasileira/comparada no mundo contemporâneo. Nesse
sentido, tinha razão o crítico que dissera que a crítica cresce por
Veja, leitor atento, que propositalmente mantivemos o mesmo digressão. Nosso desvio se resume em pontuar o que a crítica já
conceito empregado no capítulo inicial deste livro, como forma, disse sobre o assunto aqui em pauta (que se resume na assertiva de
simplesmente, de não confundir ainda mais sua cabeça pensante. Candido de que “estudar literatura brasileira é estudar literatura
Os demais motivos, da ordem da comparação, você entenderá com comparada”, considerando que lemos aí imbricado a questão da
o desenrolar deste texto. dependência cultural brasileira) para, como já sinalizamos, não só
Com base na passagem, mas pensando objetivamente na sabermos o lugar da Literatura brasileira/comparada, mas qual a
prática da Literatura comparada no Brasil, podemos dizer que os melhor forma de articulá-la criticamente dentro do contexto cultural
estudos comparados contribuiram, a seu modo, para a questão (e político) vigente.
da dependência cultural, uma vez que esta é “considerada como Justifica-se a relação comparatista entre a Literatura
derivação do atraso e da falta de desenvolvimento econômico.”34 brasileira/comparada e a dependência cultural o que Candido
Tornam-se ainda mais próximos os estudos comparados e os da dizia já no prefácio de Formação da Literatura Brasileira, “a nossa
dependência cultural quando se constata que ambos partem da literatura é galho secundário da portuguesa”36, e em “Literatura
discussão em torno da influência, palavra esta que está na origem e subdesenvolvimento”, “as nossas literaturas latino-americanas
da própria Literatura comparada. Antonio Candido, no ensaio [...] são basicamente galhos das metropolitanas”37, para voltarmos
“Literatura e subdesenvolvimento”, onde discute com propriedade a uma síntese conclusiva também encontrada no Prefácio:
sobre a problemática da dependência cultural no Brasil e na América
Latina, já advertia: “um problema que vem rondando este ensaio e 35 CANDIDO. A educação pela noite e outros ensaios, p. 151.

33 Apud PERRONE-MOISÉS. Flores da escrivaninha, p;92. 36 CANDIDO. Formação da literatura brasileira, p. 9.


34 CANDIDO. A educação pela noite e outros ensaios, p. 156. 37 CANDIDO. A educação pela noite e outros ensaios, p. 151.
34 LITERATURA COMPARADA EaD•UFMS EaD•UFMS LITERATUTA COMPARADA E CRÍTICA BRASILEIRA 35

“comparada às grandes, a nossa literatura é pobre e fraca. Mas é elitistas e hegemônicos, como o próprio conceito de texto. Queremos
ela, não outra, que nos exprime.”38 É escusado dizer que tudo isso entender que não se passou um cinquentenário em vão, desde as
já foi revisado criticamente e até mesmo virado do avesso, como afirmativas do mestre Candido; e a crítica subsequente tratou de
fizeram, por exemplo, os ensaios críticos de Silviano Santiago e avançar com relação às suas lições, como já dissemos. Mas o que
Roberto Schwarz, aos quais chegaremos depois. Coube aos ensaios não se pode mais hoje é repetir à exaustão toda a crítica anterior
subsequentes aos desses dois críticos o papel não só de estender como se ela servisse em sua integralidade para pensar o tempo
o que ambos propuseram, mesmo que por diferentes vertentes, presente. Voltar a ela, rediscutir sua lição primeira, pode ser uma
como também, e principalmente, avançar aquela leitura inicial forma de manter aquela crítica em ação. Repetir por repetir, puro
(a de Candido, entre outras) no tocante ao seu caráter dialético, e simplesmente, pode contribuir para o seu letal esquecimento.
binário par excellence. Nesse particular, registre-se que os ensaios O mesmo, entendemos, vale para comparar hoje: comparar por
de Santiago e de Schwarz encontram-se a meio caminho do fogo comparar pode não passar de uma ação inócua e estéril. Agora
cruzado do dualismo, podendo ser justificado pelo contexto crítico- quando se compara em todos os sentidos possíveis, respeitando
cultural e o fato de os ensaios serem datados historicamente. Logo, as diferenças e os contextos, inclusive no modo de tomar os textos
e considerando que aquela visada dualista já foi resolvida pela críticos do passado, comparar é uma ação política do crítico.
crítica mais contemporânea (Souza, Gomes, Cunha, entre outros), O conceito de Literatura comparada aqui destacado encontra
aliás, é aí que se centra o forte da crítica de depois de 90 no Brasil, respaldo nas afirmações de Antonio Candido. Quando o crítico
destacamos e voltamos às proposições de Candido por entendermos brasileiro frisa que “nossa literatura é ramo da portuguesa”, não deixa
que sobressaem dali perguntas que podem mediar os debates atuais de prendê-la a uma mesma tradição literária. Instaura-se aí a ideia
envoltos à Literatura comparada hoje. de parentesco, influência, semelhança e filiação, conforme se lê no
Se a Literatura comparada, como queriam Pichois e Rosseau, conceito destacado. Nesse sentido, concordamos com Tania Franco
“é a arte metódica, pela busca de laços de analogia, de parentesco Carvalhal que discorda da definição de Pichois e Rousseau que não
e de influência”, ao pensarmos hoje o mundo arbóreo de Candido, leva em conta as diferenças. Diz Carvalhal: “ao aproximar elementos
podemos nos perguntar: até que ponto os estudos comparados parecidos ou idênticos e só lidando com eles, o comparativista perde
brasileiro e latino-americano contribuíram para desfazer aquele de vista a determinação da peculiaridade de cada autor ou texto
ranço histórico-crítico subalterno que dormitava na melhor crítica e os procedimentos criativos que caracterizam a interação entre
da época? Se comparada às grandes literaturas, a nossa literatura era eles.”39 Lembramos que, em “Uma literatura empenhada”, Candido
pobre e fraca, como afirmava o crítico brasileiro, e se mesmo assim reiterava que o problema da autonomia, da definição do momento
era ela que nos exprimia como nação, então também podemos e motivos que distinguiam a Literatura brasileira da portuguesa era
nos perguntar agora como a Literatura comparada ajudou-nos algo superado.40 Exatamente aí nesse ponto, ele volta a repetir que
a compreender o atraso cultural implícito na fala de Candido e a “nossa literatura é ramo da portuguesa”, fala em não negar a dívida
resolver o descompasso subalterno de uma visada comparatista aos pais e chega a pensar na expressão “literatura comum” para
presa aos parentescos e às influências? pensar as duas literaturas. Bem, daí sobressai uma primeira questão:
Ressalvadas todas as diferenças que possam haver, hoje se estudar Literatura brasileira é estudar Literatura comparada,
podemos dizer que não acreditamos mais sequer na possibilidade logo estudar Literatura brasileira equivale a não negar a dívida?
de a Literatura brasileira nos exprimir, isto é, representar sua Numa perspectiva comparatista, não negar a dívida corresponde
nação, posto que, de lá para cá, as diferenças sociais e culturais a detectar as semelhanças ou as diferenças entre as literaturas?
grassaram em proporções inimagináveis por todos os cantos do Todavia cabe-nos uma outra pergunta: o mundo da floresta tropical
país. Aliás, fica explícito na Formação um conceito de literatura que dos galhos, ramos e jardim das Musas não emaranha a relação das
não corresponderia mais às diferenças em todos os sentidos que comparações, pondo sempre numa segunda ordem aquela literatura
pululam dentro da sociedade injusta e sumariamente excludente que veio depois? É curioso observar que quando Candido diz que
que impera no país. Nesse sentido, às vezes temos a impressão sua atenção se volta “para o início de uma literatura propriamente
de que a disciplina Literatura comparada corroborou o problema dita”, diz também que elas (a portuguesa e a brasileira) se unem tão
na medida em que não deixou de primar por conceitos estéticos
39 CARVALHAL. Literatura comparada, p. 31.
38 CANDIDO. Formação da literatura brasileira, p. 10. 40 CANDIDO. Formação da literatura brasileira, p. 28.
36 LITERATURA COMPARADA EaD•UFMS EaD•UFMS LITERATUTA COMPARADA E CRÍTICA BRASILEIRA 37

intimamente, a ponto de ele usar a expressão “literatura comum”. postulando aqui seria o fato de que, em sendo o livro Formação da
Ressalvadas as diferenças, podemos dizer que o termo “literatura literatura brasileira “um livro de crítica, mas escrito do ponto de vista
comum” pode ser comparado ao termo “literatura geral” de Goethe, histórico”46, esse livro de Candido poder ser lido, por conseguinte,
já que este termo, segundo Wellek e Warren, indica “um tempo em como um livro sobre a cultura e a sociedade brasileiras, podendo,
que todas as literaturas se tornariam uma. É o ideal da unificação inclusive, ser pensada a rubrica Formação da cultura brasileira. E
de todas as literaturas em uma grande síntese, em que cada nação talvez chegou a hora de lhe dizer uma coisa muito séria, leitor
desempenharia a sua parte em um concerto universal.”41 Também estudioso: toda sua compreensão do que seja Literatura comparada,
não deixa de lembrar a ideia de “literatura geral” de Paul Van cultura, ou simplesmente Literatura brasileira dar-se-á de forma
Tieghem, para quem “literatura geral” era diferente de “literatura mais saudável se você fizer, logo de começo, a leitura cuidadosa
comparada”, ficando esta ao estudo das inter-relações entre duas ou do livro Formação da literatura brasileira, do para sempre mestre
mais literaturas.42 O termo de Candido fica muito próximo também Antonio Candido. Parafraseando o próprio Candido, no final do
do que postularam Wellek e Warren, que não viam uma distinção primeiro capítulo “Literatura como sistema”, diríamos que seu
válida quando o assunto era influência literária. Cuidadoso quanto livro constitui uma história dos brasileiros no seu desejo de ter uma
ao problema das influências e a crítica, Candido advertia que “nunca cultura.47 Se considerarmos, hoje, que em Formação da literatura
se sabe se as influências apontadas são significativas ou principais, brasileira, Candido faz uma revisitação crítica da própria crítica
pois há sempre as que não se manifestam visivelmente, sem contar brasileira, e se considerarmos também que a Literatura comparada
as possíveis fontes ignoradas (autores desconhecidos, sugestões não se prende mais à ideia de linhagem, influência e parentescos,
fugazes), que por vezes sobrelevam as mais evidentes.”43 E concluía: então podemos dizer que os estudos comparados contribuíram
“todos sabem que cada geração descobre e inventa o seu Gôngora, o significativamente para a realização do desejo do povo brasileiro
seu Stendhal, o seu Dostoievski.”44 Wellek e Warren, no balanço que quanto a ter uma literatura e uma cultura próprias. Nesse sentido,
fazem entre literatura geral e literatura comparada, optam apenas talvez a melhor contribuição crítica de Candido estivesse mesmo no
por “literatura”, já que é evidente a falsidade da ideia de uma literatura método empregado por ele de rediscutir a própria crítica brasileira.
nacional fechada em si mesma. Aqui, de nosso ponto de vista, reside Não temos dúvida de que essa lição foi aprendida e apreendida
toda a lição do comparatista Antonio Candido. devidamente pela crítica brasileira subsequente.
Ressalvadas as diferenças, vemos uma aproximação entre o
termo “literatura comum” de Candido e o termo “cultura comum” 2.2 DÉCADAS DE 70 E 80: Duas visadas críticas
ou “cultura em comum”, de Raymond Williams, que faz toda
a diferença no modo do crítico galês não só propor os Estudos Esse pelo menos foi o caso dos críticos Silviano Santiago
Culturais, como também no modo de ler criticamente tais estudos na e Roberto Schwarz, quando pensamos, sobretudo, nas décadas
cultura. Nesse sentido, o que diz Maria Elisa Cevasco é esclarecedor: de 70 e 80 da crítica brasileira. Reiteramos que, como estamos
pensando a questão da dependência cultural pelo viés da Literatura
Uma cultura em comum seria aquela continuamente
comparada, ou seja, até que ponto essa disciplina de fato contribuiu
redefinida pela prática de todos os seus membros, e
não uma na qual o que tem valor cultural é produzido para a resolução de tal problemática, vamos nos valer tão-somente
por poucos e vivido passivamente pela maioria. Trata- dos ensaios, desses dois críticos, que mais desenvolveram aquela
se de uma visão de cultura inseparável de uma visão
de mudança social radical e que exige uma ética de proposição de Candido e que, ao mesmo tempo, mais foram relidos
responsabilidade comum, participação democrática e discutidos pela crítica subsequentes a eles. Trata-se dos ensaios
de todos em todos os níveis da vida social e acesso
igualitário às formas e meios de criação cultural.45 “O entre-lugar do discurso latino-americano” (1978) e “Apesar de
dependente, universal” (1982), de Silviano Santiago; e “As ideias
Numa perspectiva comparatista, o que estamos apenas fora do lugar” (1977) e “Nacional por subtração” (1987), de Roberto
41 WELLEK & WARREN. Teoria da literatura e metodologia dos es- Schwarz.
tudos literários, p. 50.
42 Cf WELLEK & WARREN. Teoria da literatura e metodologia dos
estudos literários, p. 51. 46 CANDIDO. Formação da literatura brasileira, p. 24.
43 CANDIDO. Formação da literatura brasileira, p. 36. 47 Sobre a aproximação Candido e Williams, ver CEVASCO. Dez
44 CANDIDO. Formação da literatura brasileira, p. 37. lições sobre estudos culturais, principalmente a décima lição: Estudos cul-
45 CEVASCO. Dez lições sobre estudos culturais, p. 139. turais no Brasil, p. 173-188.
38 LITERATURA COMPARADA EaD•UFMS EaD•UFMS LITERATUTA COMPARADA E CRÍTICA BRASILEIRA 39

até o presente por um método tradicional e reacionário cuja única


2.2.1 Silviano Santiago originalidade é o estudo das fontes e das influências?”50 Nem
precisava ser comparatista para ver que aí o crítico chamava às falas
Passados mais de trinta anos da publicação do primeiro a própria Literatura comparada, ou melhor, seu método disciplinar
ensaio de Santiago, podemos dizer hoje que ele, naquele momento, reacionário, posto que totalizante, elitista e quase sempre excludente.
contribuía significativamente para subverter as antinomias da Porque, nas práticas comparatistas, as literaturas subdesenvolvidas
própria Literatura comparada tradicional. E o faz ali quando se vinham sempre depois, a reboque, inclusive nos Manuais de ensino.
pergunta sobre o papel do intelectual latino-americano, sobretudo O problema é que isso era a norma, ou melhor, única condição. Ao
pela revisão crítica total dos conceitos de fontes e de influências que, decretar a falência do método crítico tradicional preso ao estudo
não por acaso, estão na gênese da própria Literatura comparada. das fontes e das influências naquela época, Santiago não deixa de
Perguntava o crítico há trinta anos: “qual seria pois o papel dar prosseguimento ao método crítico já iniciado por Antonio
do intelectual hoje em face das relações entre duas nações que Candido desde, pelo menos, Formação da literatura brasileira, como
participam de uma mesma cultura, a ocidental, mas na situação salientamos. Aqui, leitor atencioso, estamos desenvolvendo de
em que uma mantém o poder econômico sobre a outra?”48 A lição forma mais demorada aquela questão envolta ao Objeto e Método
crítica do próprio Silviano, legada a todos nesses últimos trinta próprios tratada inicialmente neste livro.
anos, elaborou parte da resposta cabível.49 Amigo leitor, dou-lhe, Interessa-nos falar desse método porque vemos esboçar-se
de graça, um conselho valioso: a produção intelectual de Silviano nele a própria prática da Literatura comparada como disciplina, o
Santiago é vastíssima, além de original em muitos sentidos. Como que só vem comprovar que ela não passaria mesmo de um método
leitor contemporâneo atento que é, você não poderá desconsiderá- de comparação. Assim, pensando nesse método que destruiria de
la. vez as fontes e as influências, talvez nos restasse perguntar como
Podemos dizer que, no tocante ao poder econômico, o país procedeu a Literatura comparada quando teve que abrir mão
não leva mais tanta desvantagem como dantes, podendo agora daquilo que a sustentou por anos a fio? E mais: será que ela abriu mão
caminhar com as próprias pernas. Nesse sentido, foi preciso que em sua integralidade, quando se trata de países subdesenvolvidos
surgisse uma crise mundial para que o Brasil mostrasse o Brasil aos como o nosso? Responder a perguntas dessa natureza equivale hoje
brasileiros. Eram duas nações, no dizer de Santiago, e continuam a nos perguntar sobre o papel, lugar e até mesmo importância da
duas nações, mas com culturas próprias e diferentes. Agora, e aí disciplina de Literatura comparada neste início de século. Quando
talvez esteja o maior legado do crítico, resta-nos ler a nossa cultura atribuímos a responsabilidade da resposta da pergunta de Silviano
em toda sua heterogeneidade e especificidades locais, porque, à Literatura comparada, é por não querermos ver em tal pergunta
mesmo que quiséssemos, não poderíamos mais ser bairristas e nem uma única saída possível para a problemática da dependência
provincianos, a não ser que não tivéssemos aprendido como se cultural. Entendemos que, naquele momento histórico, o crítico
deveria a lição. A outra pergunta que o crítico fazia era: “como o deveria ser enfático, até mesmo quando se perguntava, e que
crítico deve apresentar hoje o complexo sistema de obras explicado suas contribuições críticas trouxeram mudanças no modo de
ler a questão da dependência cultural brasileira que até hoje não
foram totalmente aferidas pela crítica subsequente, mas também
48 SANTIAGO. Uma literatura nos trópicos, p. 17.
49 Em nota recente (2002) à segunda edição do livro Nas malhas pensamos que não devemos tomar partido, como tem feito, grosso
da letra, S. Santiago faz o seguinte comentário sobre Uma literatura nos modo, a crítica brasileira contemporânea, por entendermos que,
trópicos: “Uma literatura nos trópicos viveu de certa euforia narcisista, de- agindo assim, simplificamos o próprio método crítico que o presente
corrente da teoria da dependência econômica aplicada ao conhecimento
e desenvolvimento das artes e das culturas nacionais do Terceiro Mundo. exige. Na verdade vemos esse tomar partido mais como uma
A euforia que sustenta os ensaios mais densos do livro, em particular “O questão subalterna interna mal resolvida dela, talvez ainda por não
entre-lugar do discurso latino-americano” e “Eça, autor de Madame Bo- ter conseguido se desvencilhar totalmente do ranço da discussão
vary”, foi perdendo o vigor nas duas últimas décadas e praticamente se
apagou com o século. Hoje pareceria um livro datado, se o novo milênio dualista fonte x influência, cópia x modelo, semelhança x diferença,
não nos tivesse trazido questões que ali forma expostas e discutidas. No interno x externo, particular x universal, marxista x não-marxista,
seu estertor, os novos tempos se alimentam de ideias que foram por ele sociológico x antropológico etc.
corroídas.”(SANTIAGO. Nota à segunda edição. In: Nas malhas da letra,
p. 9.) 50 SANTIAGO. Uma literatura nos trópicos, p. 17.
40 LITERATURA COMPARADA EaD•UFMS EaD•UFMS LITERATUTA COMPARADA E CRÍTICA BRASILEIRA 41

Entre outras perguntas, o crítico Silviano Santiago faz mais aqui, restando agora ao crítico de hoje ver o que daquele ritual ainda
estas duas em sequência: “poder-se-ia surpreender a originalidade nos serve para pensar melhor os conceitos latino-americanos.53
de uma obra de arte se se institui como única medida as dívidas Apesar de Silviano não ter mencionado uma vez sequer
contraídas pelo artista junto ao modelo que teve necessidade de a palavra “dependência” no ensaio “O entre-lugar do discurso
importar da metrópole? Ou seria mais interessante assinalar os latino-americano”, podemos dizer que em “Apesar de dependente,
elementos da obra que marcam sua diferença?”51 Numa perspectiva universal” o crítico dá continuidade à sua reflexão iniciada naquele
comparatista, é visível que o crítico aí declarava a falência do ensaio.54 Como se vê, diferentemente daquele, nesse ensaio, desde
método crítico comparatista vigente à época, por estar preso ao o título, o autor já sinaliza tratar-se da questão da dependência.
modelo original, à objetividade, ao conhecimento enciclopédico e Podemos dizer que se em “O entre-lugar do discurso latino-
ainda a uma verdade científica. americano” o crítico afastava de vez as “fontes” e as “influências”
Avançando em uma possível resposta, diríamos que o para melhor ler o particular em sua diferença; agora em “Apesar de
entrelugar foi a saída encontrada pelo crítico para o impasse que dependente, universal” ele universaliza o particular (a América
residia na comparação entre modelo e cópia. Mas a questão para Latina) de dentro para fora (do entrelugar). Se no primeiro ensaio
a qual queremos chamar a atenção é outra: ao mesmo tempo em “negava” mais o modelo, agora o reconhece sem medo de mencionar
que Santiago critica o “modelo” como única medida para medir a criticamente a dependência cultural que também constitui a cópia
originalidade de uma obra de arte, propõe a “diferença” como único (América Latina), mesmo que seja a custo de ultrapassá-la. Para
valor crítico.52 Se, naquele momento, a assertiva do crítico era de que usar uma palavra empregada por Santiago em seu primeiro ensaio,
a diferença era o único valor crítico, de lá para cá a nova crítica se e que depois se torna do campo dos estudos comparados, diríamos
consolidou a tal ponto que já podemos dizer que tanto no Brasil que a América latina contaminou o Universal do outro.
quanto na América Latina a diferença seria um dos valores que Como o que continua a nos interessar é a aproximação
ainda devem se fazer presente na crítica contemporânea(?), mas não comparatista que os ensaios mantêm com a Literatura comparada,
é, de forma alguma, o valor que deva prevalecer no discurso crítico. nesse segundo ensaio de Silviano vamos nos ater tão-somente
E isso se deu graças a leituras como a do próprio Santiago, bem nas passagens que aludem diretamente à disciplina, apesar de
como aos trabalhos efetuados pela Literatura comparada. entendermos que agora o crítico entra literalmente pela porta da
Silviano Santiago dizia, há mais de trinta anos, que a literatura frente da Literatura comparada, uma vez que se vale dela para
latino-americana propunha um texto e abria o campo teórico onde seria articular sua reflexão ao mesmo tempo em que questiona as
preciso se inspirar durante a elaboração do discurso crítico de que ela seria categorias e discute o objeto da disciplina. Nas duas partes iniciais
o objeto. Hoje, já sabemos que o campo teórico latino-americano de seu ensaio “Apesar de dependente, universal”,55 Santiago trata
se consolidou sobre diferentes abordagens teóricas, visando não
privilegiar nenhuma delas, e que o discurso crítico, por conseguinte,
está mais do que elaborado, e o reconhecimento internacional da
literatura latino-americana é a prova mais cabal de tal elaboração. O 53 A respeito do assunto, ver: COUTINHO, Eduardo F. Literatura
comparada na América latina.
discurso crítico latino-americano deste século XXI rejeita qualquer
54 Lembramos que o subtítulo do livro Uma literatura nos trópicos é
discurso pseudocrítico, ou seja, aquele discurso erigido aqui e “Ensaios de dependência cultural”.
que não trate da literatura e da cultura latino-americanas em suas
especificidades sociais, estéticas, políticas e culturais. Esse discurso, 55 Em nota recente (2002) à segunda edição do livro Nas malhas da
por sua vez, critica todo e qualquer discurso dualista, assim como letra, S. Santiago faz o seguinte comentário sobre Vale quanto pesa: “Vale
quanto pesa tentou conviver criticamente não só com os descalabros e im-
qualquer discurso crítico que se queira hegemônico (único), passes criados pela repressão e a censura às artes, decorrente do regime
propondo, por conseguinte, rediscutir o próprio conceito de implantado pela ditadura militar, como também com a emergência brutal
literatura nos dias atuais (Literatura comparada?) que se cristalizou dos problemas por que passou o artista no momento em que a economia
brasileira tornava-se por opção dos dirigentes do país uma economia de
na América Latina. Na esteira do que dizia Santiago no final de seu mercado. O nome do sabonete da minha infância servia de metáfora para
ensaio, concluímos que o ritual antropófago da Literatura latino- que se perguntasse qual era o peso e o valor da arte no momento em
americana (Literatura comparada?), da cultura, já se consolidou que a crítica perdia sentido e o consumidor se alçava à condição de árbi-
tro todo-poderoso.” (SANTIAGO. Nota à segunda edição. In: SANTIAGO.
51 SANTIAGO. Uma literatura nos trópicos, p. 17. Nas malhas da letra, p. 9)
52 SANTIAGO. Uma literatura nos trópicos, p. 19.
42 LITERATURA COMPARADA EaD•UFMS EaD•UFMS LITERATUTA COMPARADA E CRÍTICA BRASILEIRA 43

das descobertas marítimas, chega à descoberta do Novo Mundo, Além das categorias, Silviano detém-se na caracterização do
da América Latina, para mostrar-nos o drama do intelectual objeto da Literatura comparada. Para ele, “o objeto tem de ser duplo,
brasileiro e latino-americano no tocante à sua constituição (“nossa constituído que é por obras literárias geradas em contextos nacionais
inteligência?”), já que “nenhum discurso disciplinar o poderá fazer diferentes que são, no entanto, analisadas contrastivamente com o
sozinho.”56 Discutindo a separação entre “discurso histórico” e fim de ampliar tanto o horizonte limitado do conhecimento artístico,
“discurso antropológico”, explica-nos Santiago: “pela História quanto a visão crítica das literaturas nacionais.”61 Essa abordagem
universal, somos explicados e destruídos, porque vivemos uma do objeto por Silviano, perfeita por sinal naquele momento, servia
ficção desde que fizeram da história europeia a nossa estória. Pela muito bem para comparar a literatura, a cultura europeia, entretanto
Antropologia, somos constituídos e não somos explicados, já que não era tão simples quando se tinha em discussão a Literatura
o que é superstição para a História, constitui a realidade concreta latino-americana: “a situação da literatura latino-americana, ou da
do nosso passado.”57 Enfim, o crítico já estava mostrando ali que brasileira em particular, com relação à literatura europeia ontem e à
“nossa constituição” só poderia dar-se por fora de qualquer literatura americana do norte hoje, já não apresenta um terreno tão
visada dualista, isto é, disciplinar, e o faz pela alusão direta ao tranquilo”62, concluía o crítico. Como se vê, a reflexão de Silviano
seu conceito de “entrelugar”: “é preciso buscar a ‘explicação’ de encontra-se totalmente dentro dos postulados da Literatura
‘nossa constituição’ (vale dizer da nossa inteligência) através de um comparada naquele momento, o que foi sumamente enriquecedor
entrelugar,(...)”58 Para sair dessa perspectiva disciplinar e chegar a para a própria crítica brasileira que passou a ficar mais atenta em suas
uma perspectiva histórico-antropológica, ou seja, não-disciplinar, comparações críticas entre literaturas periféricas e da metrópole.63
Santiago faz um desvio, cujo objetivo é central para a perspectiva Se tais comparações mereciam cuidado, por outro lado
comparatista que estamos buscando aqui: “está servindo ele [o Silviano afirma “que a perspectiva correta para se estudar as
desvio] para justificar o questionamento das categorias fortes que literaturas nacionais latino-americanas é a da literatura comparada
servem de alicerce para a literatura comparada.”59 As categorias não há dúvida.”64 Nesse momento de seu ensaio, Santiago menciona
discutidas por Santiago aí são as fontes e as influências, por serem Antonio Candido, cuja passagem do crítico já foi por nós transcrita
de “fundo lógico e complementar para a compreensão dos produtos no início deste capítulo mas que vale a pena relembrá-la: “[...].
dominante e dominado”, exercitando, assim, à exaustão uma prática Comparada às grandes, a nossa literatura é pobre e fraca. Mas é
disciplinar. Para a revisão de tais categorias, Silviano propõe uma ela, não outra, que nos exprime.”65 Tais assertivas merecem, hoje,
força e um movimento paradoxal, “que por sua vez darão início a um algumas desconfianças, afinal tal crítica (Candido, Santiago) não se
processo tático e desconstrutor da Literatura comparada, quando tornou lição por acaso, nem o tempo se passou em vão: será que a
as obras em contraste escapam a um solo histórico e cultural perspectiva comparatista ainda seria a correta para se estudar as
homogêneo.”60 Pondo tal prática paradoxal e suplementar da crítica literaturas nacionais latino-americanas? Felizmente ou infelizmente
em ação, Santiago dá ênfase à diferença que o texto dependente não temos mais esta certeza, e pela simples razão do fato de não se
consegue inaugurar, mostrando, por conseguinte, que o texto saber mais o lugar e papel da disciplina Literatura comparada no
descolonizado da cultura dominada acaba por ser mais rico, “por conter Brasil, na América latina e no mundo(?). Cabe-nos, inclusive, uma
em si uma representação do texto dominante e uma resposta a pergunta: será que essa disciplina, de caráter aparentemente tão
esta representação no próprio nível da fabulação.” É interessante indisciplinar mas totalmente disciplinar (etnocêntrica), ainda existe
observar que aí o crítico estaria completamente fora de uma visada (no Brasil)?
etnocêntrica, assim como já estaria se valendo do processo tático Hoje, depois de quase trinta anos do ensaio de Santiago,
e desconstrutor empreendido à Literatura comparada que não
61 CANDIDO. Vale quanto pesa, p. 19.
deixa de sustentar a leitura do crítico. Também justifica e explica 62 SANTIAGO. Vale quanto pesa, p. 20.
o trocadilho do título do ensaio “dependente” e “universal”, posto 63 Tania Franco Carvalhal, em seu pequeno mas fundamental li-
que o dominado vela a presença (representação) do dominante. vro Literatura comparada, mais especificamente no Capítulo 5: “Literatura
comparada e dependência cultural”, mostra a importância que os dois en-
56 SANTIAGO. Vale quanto pesa, p. 17. saios de Santiago tiveram para a discussão em torno dos estudos compa-
57 SANTIAGO. Vale quanto pesa, p. 17.18. (grifos do autor) rados no país.
58 SANTIAGO. Vale quanto pesa, p. 18. 64 SANTIAGO. Vale quanto pesa, p. 20. (grifos do autor)
59 SANTIAGO. Vale quanto pesa, p. 19. 65 CANDIDO. Formação da literatura brasileira, p. 10. Apud SAN-
60 SANTIAGO. Vale quanto pesa, p. 22. TIAGO. Vale quanto pesa, p. 20.
44 LITERATURA COMPARADA EaD•UFMS EaD•UFMS LITERATUTA COMPARADA E CRÍTICA BRASILEIRA 45

podemos dizer que a nossa literatura, mesmo quando comparada às de lição, pensar na réplica: “Apesar de universal, particular”: hoje o
grandes, não é mais nem pobre nem fraca, mas já não podemos dizer universal é só para lembrar a todos que todo e qualquer universal
que ela continuaria a nos exprimir como afirmara Candido e como não passa da soma nunca aleatória do particular. É importante que o
ainda reforçava Santiago. Reforçando a perspectiva comparatista de leitor aprendiz saiba que, todas essas mudanças, quer elas tenham
Candido, Santiago observava que “colocar o pensamento brasileiro ocorrido para o bem ou para o mal, foram proporcionadas com a
comparativamente, isto é, dentro das contingências econômico- ajuda inconteste da Literatura comparada.
sociais e político-culturais que o constituíram, é evitar qualquer
traço do dispensável ufanismo.”66 Podemos dizer que hoje uma 2.2.2 Roberto Schwarz
certa dose de ufanismo não faz mal a nenhuma nação, nem muito
menos a nenhuma cultura; e que o pensamento brasileiro e latino- Oposta às perspectivas desenvolvidas com propriedade por
americano devem ser interpretados atravessados por todas as Silviano Santiago nos ensaios aqui discutidos, mas nem por isso
contingências levantadas por Santiago, mas sua interpretação não menos importante para a crítica brasileira (comparada), é a ideia
pode mais estar presa tão-somente a uma perspectiva comparatista que Roberto Schwarz desenvolve no ensaio “As ideais fora do
. Não por acaso o próprio crítico cobrava cuidado com o método lugar”, de mais de trinta anos. Na verdade, não temos sequer receio
empregado, com a abordagem dos objetos: “com a estratégia de em afirmar que esse ensaio, dentro do rol de ensaios que abordaram
leitura dos textos afins.”67 a questão da dependência cultural brasileira, foi o primeiro a
Cabe-nos aqui mais uma indagação: se a Literatura comparada enfrentar o problema com toda a seriedade crítica que o assunto
não passa de um método, como já dissemos, e se a questão do demandava, mesmo que para isso tenha corrido sob o fio de um
método, por sua vez, é inerente às leituras críticas brasileiras, dualismo perigoso, dialético por excelência, e de uma leitura muito
resta-nos perguntar, então, qual seria hoje o método da disciplina marcada historicamente. O certo é que todos os estudos comparados
Literatura comparada? Teria ela ainda um método auto-suficiente feitos no Brasil depois de 70 passaram por esse ensaio de Schwarz,
como outrora, pelo menos no Brasil? Ou seu método, se ainda existe, mesmo quando fosse para com ele discordar. O crítico pode não ter
encontra-se disseminado nos métodos das demais disciplinas, como tido ali uma preocupação comparatista, mas sua abordagem era de
a dos Estudos culturais? Ou os estudos culturais não seriam uma natureza comparatista e, se não bastasse, a temática da dependência
disciplina, nem muito menos teriam um método? De qualquer forma, cultural brasileira estava na pauta das discussões críticas brasileiras.
desde já adianto ao leitor que, no capítulo seguinte, deteremos-nos na Para ficarmos no campo semântico da comparação, detemo-
aproximação entre os Estudos Comparados e os Estudos Culturais. nos em algumas passagens do ensaio de Schwarz, principalmente
Parece-nos que nos dias atuais uma disciplina constituir-se com um naquelas que melhor nos levariam a pensar numa dependência de
método próprio (disciplinar) significa carimbar seu passaporte para ideias importadas, posto que partilhamos de que as ideias, para bem
o seu ultrapassamento? Parece-nos também que uma das formas de ou para mal, sempre foram mesmo importadas por aqui, servindo,
a disciplina Literatura comparada não se extinguir de vez seria a de por conseguinte, de base para todo e qualquer julgamento crítico
ela falar de um lugar anti-disciplinar por excelência, isto é, um lugar que aqui se fazia. O problema é que quase sempre foram usadas
do qual ela propõe rever seu próprio método em direção a um sem acriticamente, inclusive, e mais principalmente pela própria crítica.
disciplina/sem comparação. Como se não bastasse, a disciplina traz em Schwarz fala em três classes de população no Brasil: “o latifundiário,
seu nome um certo dualismo (comparação). Se há quase trinta anos, o escravo e o ‘homem livre’, na verdade dependente.”68 Dessas
Santiago reiterava que o objeto deveria ser duplo para não se incorrer classes, obviamente interessa ao crítico a dependente, já que os
em leituras binárias, neste século podemos reivindicar um objeto “homens livres” não são “nem proprietários nem proletários,
triplo, porque, assim, teríamos no mínimo três culturas, três nações, seu acesso à vida social e a seus bens depende materialmente do
três línguas, três produções etc e incorreríamos em menos chance de favor, indireto ou direto, de um grande.”69 Comparativamente e
pôr em prática uma leitura comparatista menos disciplinar talvez. contrastivamente, Schwarz mostra que enquanto a modernização
Lendo pelo avesso o título do ensaio de Santiago, “Apesar de europeia está centrada na autonomia do indivíduo, aqui no Brasil
dependente, universal”, poderíamos, depois desses quase trinta anos a política do favor, atrasada, defende a dependência pessoal e a

66 SANTIAGO. Vale quanto pesa, p. 20. 68 SCHWARZ. Ao vencedor as batatas, p. 16.


67 SANTIAGO. Vale quanto pesa, p. 20. 69 SCHWARZ. Ao vencedor as batatas, p. 16.
46 LITERATURA COMPARADA EaD•UFMS EaD•UFMS LITERATUTA COMPARADA E CRÍTICA BRASILEIRA 47

remuneração de serviços pessoais. Enfim, na passagem o crítico perdurou por muito tempo tanto na crítica brasileira, quanto nas
mostra que o “homem livre” está amarrado a uma estrutura social instituições todas e, como se não bastasse, no cerne da cultura
arcaica que não propunha um Estado moderno. brasileira. Sobre isso, afirmava o crítico: “ao longo de sua reprodução
Como se vê, leitor atento, as contradições sociais, políticas e social, incansavelmente o Brasil põe e repõe ideias europeias,
culturais eram grandes no país. Coube a Roberto Schwarz mostrar sempre em sentido impróprio.”72 Enfim, Schwarz mostrou “que no
que as ideias importadas quase sempre se encontravam fora do Brasil daquela época as ideias estavam fora do centro, em relação
lugar por aqui. Devemos dizer que, independente do momento ao seu uso europeu.”73 O propósito do crítico era mostrar que as
histórico no qual o crítico escreveu seu ensaio, não vemos nenhum ideias estavam fora do lugar, porque, como o emissor se identificava
problema, como assim o viu parte da crítica brasileira, por o com a cultura do outro, não havia uma adequação entre tais ideias
seu ensaio “as ideias fora do lugar” estar baseado na ideologia copiadas, nem muito menos uma adequação socioeconômica.
sociológica marxista. Aliás, como é facilmente perceptível hoje, Como já dissemos, o crítico mostra um descompasso social, cultural
naquele momento histórico as tendências críticas estavam sempre existente no século dezenove. O problema é quando constatamos
mais propensas a pender ora para o lado histórico e sociológico, que aquele problema atravessou todo o século vinte, pelo menos
ora para o lado histórico e antropológico, e vice-versa. Se o fundo por aqui nesse arrabalde latino-americano. Resta-nos saber se
era histórico, os demais vieses críticos, indistintamente, sempre neste século XXI ainda faz sentido falar em dependência cultural,
deveriam ter sidos bem-vindos. Pelo que se vê ainda hoje na crítica ou econômica, pelo ótica de uma disciplina que esta condenada ao
brasileira, isso não aconteceu, e quem pagou o pato foi a própria desaparecimento como a Literatura comparada. Aliás, será que tal
crítica brasileira. (A celeuma crítica existente entre os dois críticos questão ainda interessaria a alguma disciplina ou método crítico?
aqui em destaque ilustra o que estamos propondo. O problema é Podemos dizer que desde “As ideias fora do lugar”, aliás ensaio
que a crítica subsequente a deles acabou tomando partido; o que que serve de introdução ao livro como um todo, Roberto Schwarz
não deixa de mostrar certo ranço de atraso crítico que teima em disseca com desafio uma questão que poderia ser problemática à
resistir dentro da crítica brasileira.) época e que não por acaso encontra-se subintitulando seu livro,
Na sequência de seu ensaio, Schwarz mostra que o favor é “Forma literária e processo social nos inícios do romance brasileiro”,
a nossa mediação quase universal, de que ele pratica a dependência e a descreve com precisão mostrando os torcicolos que o país ditava ao
da pessoa, e conclui: “adotadas as ideias e razões europeias, elas gênero importado e ao literato inteligente. O que o crítico não percebeu
podiam servir e muitas vezes serviram de justificação, nominalmente à época, do nosso ponto de vista de hoje é bom que se diga, foi
‘objetiva’, para o momento de arbítrio que é da natureza do favor.”70 que novas ideias críticas e filosóficas do século XX começavam a
Virando do avesso a história da dependência que sempre reinou aportar por aqui e sem estarem mais fora do lugar, e ele, por estar
por esses trópicos, quase sempre equivocadamente, e tendo sempre acostumado a tão-somente uma forma de ver o homem, a sociedade, o
por trás um certo desejo de autenticidade, Schwarz mostra que mundo e suas relações, não soube tirar proveito daquelas tendências
“nas revistas, nos costumes, nas casas, nos símbolos nacionais, filosóficas e críticas que, com certeza, só teriam enriquecido sua
nos pronunciamentos de revolução, na teoria e onde mais for, [...] visão de literato inteligente que sempre fora.
sempre o desacordo entre a representação e o que, pensando bem, No ensaio “Nacional por subtração” Roberto Schwarz retoma
sabemos ser o seu contexto.”71 Por conta desse desajuste de ideias questões que já estavam presentes em “As ideias fora do lugar”.
importadas e sua recepção num país completamente diferente Começa afirmando que
da Europa socialmente, Schwarz mostrou, por todo seu ensaio, o
brasileiros e latino-americanos fazemos
mal-estar, o descompasso, o torcicolo cultural no qual o nosso país
constantemente a experiência do caráter postiço,
periférico se encontrava aqui naquele momento. inautêntico, imitado da vida cultural que levamos.
Passadas mais de três décadas da publicação do ensaio Essa afirmação tem sido um dado formador de nossa
reflexão crítica desde os tempos da independência.
de Schwarz, vemos hoje que ele tinha razão em demonstrar tal Ela pode ser e foi interpretada de muitas maneiras,
preocupação, porque aquela prática de enaltecer o que era de fora, por românticos, naturalistas, modernistas, esquerda,
direita, cosmopolitas, nacionalistas etc, o que faz
pela simples alegação de que era melhor valorativamente falando, supor que corresponda a um problema durável e de

70 SCHWARZ. Ao vencedor as batatas, p. 18. 72 SCHWARZ. Ao vencedor as batatas, p. 29.


71 SCHWARZ. Ao vencedor as batatas, p. 25. 73 SCHWARZ. Ao vencedor as batatas, p. 30.
48 LITERATURA COMPARADA EaD•UFMS EaD•UFMS LITERATUTA COMPARADA E CRÍTICA BRASILEIRA 49

fundo.74 que tal crítica encontra-se acostumada ao vício imitativo se a


compararmos com críticas de fora. A diferença, hoje, talvez se dê
Na perspectiva comparatista, essa afirmação do crítico nos
porque, se, antes, até a década de 80, a referência ainda era a crítica
lembra a questão do método, que sempre atravessou, como vimos,
europeia e a norte-americana, cada vez mais nossa crítica voltou-se
a crítica brasileira, pelo menos desde Antonio Candido. Queremos
para a latino-americana, ou pensada em espanhol, ou pensada por
pensar que os adjetivos pejorativos postiço, inautêntico e imitado
latinos em inglês (dos Estados Unidos). Na verdade, nossa crítica,
caem feito uma luva quando temos em discussão a prática da crítica
por não dar conta de se resolver internamente, talvez por sofrer de
brasileira. Parece ser fato inconteste mesmo que a crítica aqui foi
um ranço subalternista, estaria condenada a buscar anuência de
ao sabor do vento do que era pensado na Europa, como se essa
uma crítica pensada em língua hegemônica, como se este fator fosse
fosse a única condição de se fazer crítica por essas bandas latinas.
ainda decisivo para um julgamento crítico nos dias atuais.
O problema que vemos, por mais contraditório que possa parecer,
Seguindo seu raciocínio que se dá em torno do “mal-estar
é que Schwarz critica tal método copista e ao mesmo tempo,
intelectual” que é o assunto discutido em “Nacional por subtração”,
ressalvadas as diferenças, se pega preso pelo mesmo método
Schwarz critica “a filosofia francesa recente” (Foucault e Derrida)
sistemático. Tentemos explicar com mais uma passagem do ensaio:
por defender, segundo ele, “que o anterior prima sobre o posterior,
nos vinte anos em que tenho dado aula de literatura o modelo sobre a imitação, o central sobre o periférico.”76 Nessa
assisti ao trânsito da crítica por impressionismo,
linha filosófica, “ de atrasados passaríamos a adiantados, de desvio
historiografia positivista, nem criticism americano,
estilística, marxismo, fenomenologia, estruturalismo, a paradigma, de inferiores a superiores [...] isto porque os países
pós-estruturalismo e agora teorias da recepção. A lista que vivem na humilhação da cópia explícita e inevitável estão mais
é impressionante e atesta o esforço de atualização e
desprovincianização em nossa universidade. Mas é preparados que a metrópole para abrir mão das ilusões da origem
fácil observar que só raramente a passagem de uma primeira.”77 Na verdade, toda essa discussão, entre o que defende
escola a outra corresponde, como seria de esperar,
ao esgotamento de um projeto; no geral ela se deve Schwarz e o que defendem outros críticos brasileiros na esteira da
ao prestígio americano ou europeu da doutrina reflexão filosófica francesa, dá-se, sem sobra de dúvida, porque a
seguinte. Resulta a impressão — decepcionante — da
mudança sem necessidade interna, e por isso mesmo crítica brasileira constrói-se enquanto tal assentada num dualismo
sem proveito. O gosto pela novidade terminológica exagerado do qual nenhum dos críticos dessa época (até década
e doutrinária prevalece sobre o trabalho de
conhecimento, e constitui outro exemplo, agora no de noventa) consegue romper totalmente para ler as produções
plano acadêmico, do caráter imitativo de nossa vida culturais, nem muito menos a cultura brasileira. Se para eles, essa
cultural.75
era sua condição, inclusive imposta pelo contexto, para a crítica
Ou seja, o crítico se vale de sua própria vivência e experiência de depois de noventa a condição exigida esta bem posta: qualquer
profissional para constatar que tal prática imitativa sempre ocorrera olhar crítico que ainda fique preso a essa visada dualista, ou
dentro do país. Como crítico brasileiro, fica-nos a pergunta de como sequer preocupado com questões atinentes à dependência cultural
ele conseguira driblar tal prática, que se tornara natural na cultura brasileira, está tão-somente repetindo aquela lição magistralmente
brasileira, dentro da universidade? E mais: se isso sempre ocorrera arquitetada por seus precursores críticos. Exemplo desse dualismo,
aqui, como o crítico conseguiu se valer de um aparato teórico-crítico aliás presente em todos os ensaios até aqui discutidos, inclusive desde
que passasse ileso dessa prática tão manifesta na cultura? E mais: até os títulos, encontra-se nesta passagem de “Nacional por subtração”:
onde que seu recorte crítico não estava, naquele contexto dos anos “[...] em lugar da almejada europeização ou americanização da
80, contaminado por aquela confluência de teorias que migravam América Latina, assistiríamos à latino-americanização das culturas
de forma avassaladora entre os mundos, principalmente em direção centrais.”78 Não estamos dizendo com isso que o crítico concorda
com o que escreve, mas também não deixa de sinalizar que se trata
aos periféricos? Será que não seria mais interessante, mesmo que
ou de uma condição ou de outra, como se só uma dessas formas
mais difícil, pensar a experiência do postiço, do inautêntico, do
fosse a melhor para se compreender a dependência cultural aqui
imitado, já considerando as teorias da década de 80 que se dedicam
a questões dessas naturezas? Pensando especificamente na crítica
brasileira, não temos como não concordar com Schwarz, posto
76 SCHWARZ. Que horas são?, p. 35.
74 SCHWARZ. Que hora são?, p. 29. 77 SCHWARZ. Que horas são?, p. 36.
75 SCHWARZ. Que horas são?, p. 30. 78 SCHWARZ. Que horas são?, p. 36.
50 LITERATURA COMPARADA EaD•UFMS EaD•UFMS LITERATUTA COMPARADA E CRÍTICA BRASILEIRA 51

instalada. Nessa parte de seu ensaio, Schwarz menciona o ensaio “O cultural, desde a década de 70. Em contrapartida,
operam inversões, reversões e deslocamentos
entre-lugar do discurso latino-americano”, de Silviano Santiago, por de ênfases, pondo o foco, reincidentemente, em
nós antes discutido, e um outro de Haroldo de Campos, ambos os produções coloniais como a carta de pero Vaz de
Caminha, articulando-as à produção modernista e
ensaios embasados pela filosofia francesa e severamente criticados
contemporânea.79
pelo autor de “Nacional por subtração”. Se Schwarz critica a
vertente da crítica brasileira de perspectiva filosófica francesa, por Mesmo tomando partido do que defende Silviano Santiago,
esta criticar a perspectiva marxista, e se aquela critica a vertente Eneida Cunha mostra com precisão as diferenças que ancoram as
da qual Schwarz faz parte por ser de extração marxista, então só duas leituras críticas, para concluir que a incompatibilidade entre
nos resta dizer que ambas as vertentes precisam ser revistas neste as duas interpretações da dependência cultural brasileira está na
século que se inicia (sob pena de algum crítico contemporâneo forma como ambas as vertentes concebem a produção dos valores
menos desavisado ainda pensar que ser ou não-ser marxista poderia e dos sentidos: “para Schwarz, e para o pensamento de extração
render alguma crítica.) marxista, valores e sentidos fazem parte da superestrutura
ideológica, são produtos da determinação histórica, da determinação
2.2.3 DÉCADA DE 90 E DEPOIS: a crítica brasileira econômica e infra-estrutural dos interesses de classe”80, enquanto
contemporânea “nas reflexões de Santiago e, em grande parte, dos ‘filósofos da
descolonização’ com quem dialoga estão assimiladas as matrizes
Se, por um lado, a crítica contemporânea resolveu de vez todo do corte epistemológico que produz a crítica à perspectiva marxista
e qualquer dualismo que ainda poderia existir dentro da crítica e funcional da interpretação de Schwarz.”81
brasileira, por outro, podemos dizer que subsiste em seu interior Também Eneida Maria de Souza, no ensaio “O discurso crítico
um ranço que não deixa de lembrar certo atraso crítico. Trata-se, brasileiro”, principalmente na parte “O mal-estar da dependência
como já sinalizamos antes, de um partidarismo explícito da crítica e a alegria antropofágica,” esquadrinha, por meio dos ensaios de
estabelecido entre as duas vertentes críticas que se sobressaíram Santiago e Schwarz, os posicionamentos críticos que os diferenciam.
no Brasil, cujos representantes maiores são, de um lado, Silviano Em ordem cronológica, começa pelo ensaio “As ideias fora do lugar”
Santiago e, de outro, Roberto Schwarz. Fecharemos este texto (1977), onde reitera que o crítico “se baseia na ideologia sociológica
abrindo-o para essa discussão que acabou se impondo no cerne marxista, voltada para o questionamento das contradições
da crítica contemporânea, causando, pelo menos em parte, certa provocadas pela modernização nos países periféricos”82, passa para
“dualidade” no ensino da crítica na universidade. o ensaio de Santiago, “O entre-lugar do discurso latino-americano
Eneida Leal Cunha, em seu ensaio “Leituras de dependência (1972), no qual o crítico “subverte as antigas antinomias e hierarquias
cultural”, sintetiza muito bem as posições que diferenciam o próprias do discurso colonizado e ocidental”83, diz que em “Apesar
pensamento crítico de Silviano Santiago do de Roberto Schwarz, de dependente, universal” Santiago “confirma a sua posição diante
situando-as dentro de suas respectivas linhagens e preferências da perspectiva marxista de Schwarz”84, conclui, por fim, que Schwarz
analíticas: em “Nacional por subtração” (1987) reacende a polêmica entre o
seu pensamento teórico e o de Santiago e Haroldo de Campos, ao se
o confronto entre os ensaios “Apesar de Dependente,
Universal” e “Nacional por Subtração”, além de pôr
posicionar de forma distinta quanto às redefinições dos conceitos de
em cena sistemas interpretativos divergentes ou nacionalidade e de dependência cultural.”85 Mesmo sendo escusado
vertentes do pensamento ocidental, expõe o esboço
dizer que Souza partilha das ideias defendidas por Silviano, vale
de duas linhagens de intelectuais brasileiros e dois
modos de ler e avaliar as formações de identidade e a pena transcrever esta passagem: “no caso da concepção do
a experiência da dependência cultural. Ponto nuclear ‘entre-lugar’, não se trata de uma abstração ‘fora do lugar’, mas de
de uma dessas famílias de avaliadores da literatura e
da cultura no Brasil, a qual pertence Roberto Schwarz,
pode ser identificado na ascendência ilustrada da 79 CUNHA. Leituras de dependência cultural, p. 134.
“Formação” de Antonio Candido e no interesse 80 CUNHA. Leituras de dependência cultural, p. 132.
comum quase excludente pela produção literária 81 CUNHA. Leituras de dependência cultural, p. 132.
datada a partir de 1850, ou, dito mais largamente, 82 SOUZA. Crítica cult, p. 52.
pela produção moderna e pós-colonial. As leituras de 83 SOUZA. Crítica cult, p. 52.
Silviano Santiago vêm-se empreendendo da história 84 SOUZA. Crítica cult, p. 53.
85 SOUZA. Crítica cult, p. 54.
52 LITERATURA COMPARADA EaD•UFMS EaD•UFMS LITERATUTA COMPARADA E CRÍTICA BRASILEIRA 53

uma posição que visa representar a cultura brasileira entre outras, escolheu para seu congresso bianual o tema ‘Literatura Comparada
retirando novos objetos teóricos das obras ensaísticas e ficcionais.”86 = Estudos Culturais?’”88 Cita o presidente da Associação daquele
Por todo seu ensaio, Souza mostra com pertinência crítica todas as biênio, o crítico cultural Raúl Antelo, passa em revista todos,
diferenças existentes entre os posicionamentos críticos de Santiago digamos, formadores da cultura brasileira para deter-se no também
e de Schwarz. Aliás, o título da parte na qual Souza discute os textos crítico cultural Roberto Schwarz. Como discípula desse crítico,
de ambos, “O mal-estar da dependência e a alegria antropológica”, privilegia sua vertente, calcada na “produtividade de um modo
já sinaliza o lugar de cada posição crítica, reiterando as dualidades de ler dialético”, e passa a exemplificar tal modelo dessa tradição
das duas vertentes, além de demandar um posicionamento da de crítica cultural brasileira com uma leitura comparatista cultural
própria crítica brasileira contemporânea. Na sequência, Souza entre as obras Dom casmurro (1899), de Machado de Assis, e Minha
discute o ensaio “Da existência precária: o sistema intelectual vida de menina (1942), de Helena Morley, que no recorte feito por
no Brasil” (1981) de Luiz Costa Lima. O argumento exposto por Cevasco soa meio forçada. Mas a questão que se impõe na leitura
Costa Lima volta-se para questões ligadas à dependência cultural de Cevasco sobre a lição “Estudos culturais no Brasil” é de outra
brasileira, quando, segundo Souza, “considera ser a desorganização ordem: a que lugar Cevasco delegou ao crítico Silviano Santiago no
e a ausência de método no pensamento de um povo o grande rol dos críticos brasileiros que, pelo menos desde a década de 70,
fator para se consolidar a condição de dominado diante de outras vem se dedicando aos estudos de crítica cultural, como já sinalizava
culturas”: o subtítulo de Uma literatura nos trópicos: ensaios sobre dependência
E do ponto de vista do sistema intelectual, o pior do cultural? Em se tratando de crítica, recortes são feitos, predileções
autoritarismo é que ele acostuma a intelligentsia ao pensamento intelectuais são relevadas, relações interpessoais alteram qualquer
impositivo, que não precisa demonstrar, pois lhe basta apontar, julgamento, relações entre academias, mestres e discípulos têm sua
mostrar com o dedo, ‘a verdade’. No caso das nações econômica e história, mas apesar de tudo isso as lições críticas não podem sofrer
culturalmente periféricas, como a nossa, esta consequência ainda lesões de natureza particular e pessoal, porque quem sempre sai
se torna mais intensa, porque o seu horror à teorização própria as em desvantagem são os “estudantes de ciências humanas e demais
deixa duradouramente sujeitas à teorização alheia.”87 interessados no debate cultural contemporâneo”89, para ficar apenas
Meio pelo avesso do que diz Costa Lima, mas pensando nas com aqueles cujas Dez lições são dedicadas.
argumentações teórica e crítica próprias, isto é, feitas dentro do Brasil Por fim, Tania Franco Carvalhal, no ensaio “Vinte e cinco
na contemporaneidade, percebemos que às vezes os partidarismos anos de crítica literária no Brasil – notas para um balanço”, discute
(somados às intrigas domésticas), que não deixam de apresentar o contexto brasileiro no qual os ensaios por nós aqui privilegiados
laivos de um ranço de autoritarismo escolástico, pré-direcionam fazem parte. Começa seu ensaio dizendo que “voltar vinte e cinco
os julgamentos críticos possíveis de serem feitos da própria crítica anos atrás significa lançar uma olhar retrospectivo sobre os anos
brasileira. Querelas entre intelectuais, posicionamentos ideológicos oitenta, certamente uma das décadas mais representativas da crítica
contrários, ser ou não ser marxista por exemplo, formas diferentes de literária no Brasil. Esse momento não só catalisaria tendências
interpretar uma cultura e suas respectivas manifestações culturais, recorrentes anteriores, próprias a nossos estudos literários, como
são bem-vindos e podem contribuir definitivamente com a própria também seria portador do que estava por vir.”90 Na sequência, a
crítica, desde que essa crítica saiba articular-se de forma que não comparatista rastreia o que havia sido feito na crítica precedente
sonegue qualquer informação ou abalizamento crítico que são aos anos 80 para, num momento seguinte, constatar que “os anos
respaldados pela própria história pregressa da crítica. Ilustra o que noventa caracterizaram-se, certamente, por uma crítica atenta
estamos dizendo, de nosso ponto de vista, o que acontece no livro a essas orientações, do pensamento de Michel Foucault a Gilles
Dez lições sobre estudos culturais, de autoria de Maria Eliza Cevasco. Deleuze, de Jean-François Lyotard a Jacques Derrida.”91
Nele, a autora detém-se, na última lição, nos “estudos culturais no Apesar de entendermos que Carvalhal tem razão em afirmar
Brasil”. Reconhece que a data oficial de tais estudos no Brasil se que “os teóricos franceses obtiveram, no Brasil, um sucesso tão
deu em 1998, “ano em que a Associação Brasileira de Literatura grande quanto nos Estados Unidos”, queremos lembrar que tais
Comparada, Abralic, que reúne professores e pesquisadores da área, 88 CEVASCO. Dez lições sobre estudos culturais, p. 173.
89 CEVASCO. Dez lições sobre estudos culturais, p. 7.
86 SOUZA. Crítica cult, p. 52-53. 90 Apud SANTOS. Literatura e práticas culturais, p. 41.
87 Apud SOUZA. Crítica cult, p. 52. 91 Apud SANTOS. Literatura e práticas culturais, p. 47.
54 LITERATURA COMPARADA EaD•UFMS EaD•UFMS LITERATUTA COMPARADA E CRÍTICA BRASILEIRA 55

teóricos foram também rechaçados por parte da crítica brasileira, agiram vários outros críticos disciplinaristas. Quando Carvalhal
obviamente valendo-se de outros teóricos, a exemplo da vertente afirma que foi atribuído aos estudos culturais uma liberdade de ação
crítica defendida por Schwarz, como já mostramos. Entre as duas que não existe, vemos que quem perde com tal prerrogativa são os
décadas, Carvalhal lembra-nos da criação da Associação Brasileira estudos comparados que se fecham em sua perspectiva disciplinar
de Literatura Comparada (ABRALIC) no âmbito de um Seminário com receio das novas liberdades de ação críticas culturais que se
Latino-americano (1986), tornando-se “um meio de comunicação impõem com a chegada do novo século. Resta-nos perguntar onde,
privilegiado entre os pesquisadores brasileiros e aqueles dos ou em que momento, os estudos culturais procuraram afastar a
diversos países da América Latina, contribuindo para a fundação literatura, interrogar seu lugar e minimizar sua função estética,
de associações coirmãs em diferentes lugares.”92 Tania Carvalhal como adverte Carvalhal, se eles nascem dos próprios estudos
constata que, entre as manifestações universitárias dos 80 para literários? Se, na perspectiva comparativista disciplinar, sempre
os 90, ocorre uma retomada dos estudos culturais, entre outras se pressupõe que a “literatura permaneça como um dos termos da
direções, que orienta a reflexão crítica naquele momento. Apesar comparação”, então passou da hora do comparatista compreender
disso, Carvalhal é meio reticente com relação aos estudos culturais: que o outro termo pode ser o dos estudos culturais, já que estes
nunca se preocuparam mesmo com o comparatismo, mas, sim, com
o debate sobre os Cultural Studies fez emergir o risco
de ver desaparecer a abordagem literária, além de a liberdade de ação cultural.
evidenciar o perigo de que especialistas em literatura A Literatura comparada de ontem nos ajudou a entender
voltem-se para outros campos sem a dupla competência
indispensável aos estudos interdisciplinares. Mais do os estudos culturais de hoje; e os estudos culturais de hoje nos
que defender a especificidade da literatura ou tentar ajudam a compreender a literatura comparada de ontem. Se
evitar a redução de nosso campo de trabalho, ameaças
que pesam mais em outros lugares do que no Brasil estudar literatura brasileira era estudar literatura comparada, então
mesmo, é preciso salientar que se atribui aos ‘estudos podemos dizer que estudar estudos culturais hoje equivale ainda a
culturais’ uma liberdade de ação que, na realidade,
não existe. Em contrapartida, procurando, por vezes, estudar literatura brasileira numa perspectiva comparativista, já que
afastar a literatura, interrogar seu lugar dentre as ambas as disciplinas estão atravessadas por graus de dependência
práticas simbólicas e culturais e minimizar sua função
estética, os Estudos Culturais distanciam-se do
histórico-culturais.
comparatismo, que sempre pressupõe que a literatura Como se percebe, leitor comparatista, a discussão em torno
permaneça como um dos termos da comparação.93
da aproximação entre Literatura comparada e Estudos culturais
tornou-se inevitável, pelo menos no Brasil. Por conta disso,
Por tudo o que discutimos até aqui, principalmente quando se
deteremos-nos, no próximo capítulo, na aproximação dessas duas
tem em pauta aquela antiga afirmação de Candido, não por acaso
disciplinas indisciplinadas.
repetida num congresso da Abralic, de que estudar literatura brasileira
é estudar literatura comparada, podemos, neste século que se inicia,
Leituras obrigatórias:
afirmar que os estudos culturais, bem como demais estudos, não
CADERNOS DE ESTUDOS CULTURAIS: Literatura comparada
fizeram emergir o risco de desaparecer a abordagem literária, como
hoje. Campo Grande-MS: Ed. UFMS, v.1, n.2, p. 1-180, jul./dez. 2009.
apregoaram alguns críticos que pensaram que o lugar disciplinar,
CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira: momentos
como o da literatura comparada por exemplo, era imutável, apesar
decisivos. Belo Horizonte: Editora Itatiaia Limitada, 1997.
de defenderem uma perspectiva comparativista interdisciplinar.
CANDIDO, Antonio. Literatura e subdesenvolvimento. In:
O perigo do qual fala Carvalhal torna-se ultrapassado já naquele
CANDIDO, Antonio. A educação pela noite e outros ensaios. São Paulo:
contexto, posto que os especialistas em literatura foram orientados
Ática, 1989, p. 140-162.
no sentido de trabalhar a própria literatura numa perspectiva
NOLASCO, Edgar Cézar. Literatura comparada hoje. In:
histórica, cultural, inter, trans e multidisciplinar. Aliás, não por acaso,
CADERNOS DE ESTUDOS CULTURAIS: literatura comparada
essa foi a grande direção para a qual se mirou a literatura comparada
hoje. Campo Grande-MS: Ed. UFMS, v.1, n.2 p. 49-72
no decorrer de todo o século XX. O que Carvalhal faz, apesar de não
SANTIAGO, Silviano. Uma literatura nos trópicos: ensaios sobre
assumir, é sair em defesa da especificidade da literatura, com medo
dependência cultural. 2ª ed. Rio de Janeiro: Rocco, 2000.
de que esta perca terreno para os estudos culturais, como assim
SCHWARZ, Roberto. Ao vencedor as batatas: forma literária e processo
92 Apud SANTOS. Literatura e práticas culturais, p. 46.
93 Apud SANTOS. Literatura e práticas culturais, p. 47. social nos inícios do romance brasileiro. São Paulo: Duas Cidades;
56 LITERATURA COMPARADA EaD•UFMS

Ed. 34, 2008

Demais referências:
CADERNOS DE ESTUDOS CULTURAIS: estudos culturais. Campo
Grande-MS: Ed. UFMS, v. 1, n. 1, p. 1-135, jan./jun. 2009.
CARVALHAL, Tania Franco. Literatura comparada. São Paulo: Ática,
1999. (Coleção Série Princípios).
CARVALHAL, Tania Franco. Vinte e cinco anos de crítica literária
no Brasil: notas para um balanço. Trad. de Adriana Santos Corrêa.
In: SANTOS, Paulo Sérgio Nolasco dos (org.) Literatura e práticas
culturais. Dourados, MS: UFGD Editora, 2009, p. 41-48
CEVASCO, Maria Elisa. Dez lições sobre estudos culturais. São Paulo:
CAPITULO III
Boitempo Editorial, 2003.
CUNHA, Eneida Leal. Leituras de dependência cultural In: SOUZA,
Eneida Maria de, MIRANDA, Wander Melo (org.) Navegar é preciso,
viver. Belo Horizonte: Ed. UFMG; Salvador: EDUFBA;
Niterói: EDUFF, 1997, p. 126-139
PERRONE-MOISÉS, Leyla. Flores da escrivaninha: ensaios. São
Paulo: Companhia das Letras, 1990, p. 91-99: literatura comparada,
intertexto e antropofagia
SANTIAGO, Silviano. Vale quanto pesa: ensaios sobre questões
político-culturais. Rio de janeiro: Paz e Terra, 1982.
SANTIAGO, Silviano. Nas malhas da letra: ensaios. Rio de Janeiro:
Rocco, 2002.
SCHWARZ, Roberto. Que horas são?: ensaios.São Paulo: Companhia
das Letras, 1987.
SOUZA, Eneida Maria de. Crítica cult. Belo Horizonte: Ed. UFMG,
2002, p. 47-66: O discurso crítico brasileiro
WELLEK, René, WARREN, Austin. Teoria da literatura e metodologia
dos estudos literários. Trad. de Luís Carlos Borges. São Paulo: Martins
Fontes, 2003. (Coleção leitura e crítica)
LITERATURA COMPARADA E ESTUDOS CULTURAIS
CAPÍTULO III

LITERATURA COMPARADA E ESTUDOS CULTURAIS

Os estudos culturais acreditam, pois, que a prática


importa, que se espera que seu próprio trabalho
intelectual possa fazer uma diferença. [...] Os estudos
culturais não são nunca simplesmente uma prática
teórica, mesmo quando essa prática incorpora à
análise noções de política, poder e contexto. De fato,
o sentimento de que os estudos culturais oferecem
uma ponte entre a teoria e a cultura material — e
têm feito isso ao longo de toda a sua tradição — é
uma importante razão para seu apelo aos scholars
contemporâneos. Num momento de decrescente
entusiasmo pela teoria “pura” e implacavelmente
a-histórica, os estudos culturais demonstram a
diferença social que a teoria pode fazer. Nos estudos
culturais, a política da análise e a política do trabalho
intelectual são inseparáveis. A análise depende do
trabalho intelectual; para os estudos culturais, a teoria
é uma parte crucial desse trabalho.
Cary Nelson A. Treichler & Lawrence Grossberg. In:
SILVA. Alienígenas na sala de aula, p. 1

3.1 Estudos culturais: um começo

As lições de Jacques Derrida, de Roland Barthes, de


François Lyotard, de Michel Foucault, de Freud e
Lacan, para mencionar alguns entre tantos, podem
ser hoje revisadas — e digo revisadas, pelo fato de
já se constituírem como lições — por terem rompido
os limites dos campos disciplinares, estabelecendo a
60 LITERATURA COMPARADA EaD•UFMS EaD•UFMS LITERATURA COMPARADA E ESTUDOS CULTURAIS 61

cooperação entre arte, literatura e teoria, e por terem e transdisciplinares foi a Literatura comparada. Como o leitor
entendido que nessa relação, nomeada por David
Carrol de paraestética, o processo não implica o fim
deve ter percebido, a ideia de duas ou mais literaturas nacionais já
da teoria ou da arte, mas a sua revitalização mútua: demandava uma relação de intertextualidade. Não por acaso, esse
nem a idealização da estética, nem a supremacia da
conceito foi fundamental para os estudos comparados dentro e fora
teoria.
SOUZA. Crítica cult, p. 83-84. do país. Fontes, influências, intertextualidade, tradição, cânone e recepção
foram algumas das palavras mais encontradas nas discussões acerca
A história dos estudos culturais começa em Birmingham, do assunto.
Inglaterra, no campo dos estudos literários do pós-guerra, tendo Ao se aproximarem do vasto campo das práticas sociais e dos
como marco inicial a publicação das obras The uses of literacy, de processos históricos, os estudos culturais preocupam-se com os
Richard Hoggart, e Culture and Society, de Raymond Williams. produtos de cultura popular e contemporânea. Com a extensão do
Hoggart retoma ali o estudo da cultura de massa e começa a encarar significado de cultura — de textos e representações para práticas
a subjetividade como modo de investigar a cultura. Williams, por vividas —, considera-se foco toda produção de sentido. O ponto
sua vez, rompe com a Sociologia Positivista, e passa a estudar os de partida dos estudos culturais é a atenção sobre as estruturas
modos de vida individuais e prega o engajamento político. sociais (de poder) e o contexto histórico enquanto fatores essenciais
Com fortes influências das teorias materialistas, do para a compreensão da ação dos meios massivos, assim como o
estruturalismo e pós-estruturalismo, das ideias de Gramsci sobre deslocamento do sentido de cultura da sua tradição elitista para as
cultura e da Escola de Frankfurt sobre a tensão entre indústria práticas cotidianas. Ou seja, a relação entre cultura contemporânea
cultural e “alta” cultura, ambos os autores pretenderam ler e propor e sociedade, (suas formas culturais), instituições e práticas culturais,
outras formas culturais além da literatura e analisar os modos nos sociedade e mudanças sociais, compõem o eixo principal dos
quais tais formas e práticas produziram sua socialidade. estudos culturais.
Podemos dizer, grosso-modo, que os estudos culturais são
estudos que priorizam a diversidade dentro de cada cultura e 3. 2 Estudos literários e culturais
sobre as diferentes culturas, sua multiplicidade e complexidade.
São, também, estudos orientados pela hipótese de que entre as Os estudos literários nunca estiveram tão atravessados pelos
diferentes culturas existem relações de poder e dominação que estudos culturais como nos dias atuais, a ponto de já ser postulado,
devem ser questionadas; podem fundamentar as ações educativas por alguns estudiosos, a substituição daqueles pela rubrica destes.
comprometidas com a construção de uma escola democrática Sem querer radicalizar, o fato é que, hoje, a Cultura e, por extensão,
fundada na convivência entre identidades culturais e sociais as diferentes culturas locais e suas diferenças, se fazem presentes
múltiplas. nas narrativas que estruturam o pensamento contemporâneo: quer
Os estudos culturais não se definem por um método essas narrativas sejam teóricas, quer sejam ficcionais. Explicando
exclusivo, um objeto de estudo próprio, mas pela diversidade das melhor: seria como se a Cultura fosse pensada como uma narrativa
abordagens e dos temas. Daí seu caráter paradoxal e infinito, por discursiva que pode ser desconstruída e lida do avesso, sem ser
propor insistentemente questionar as certezas disciplinares, ideias jamais desconsiderada.
absolutas totalizantes e excludentes, enfim, verdades dualistas por No caso específico das narrativas ficcionais, é crescente a
excelência. constatação de que o começo do diálogo teórico-crítico com esse
Até onde conseguimos apreender o vasto campo dos estudos tipo de texto passa por seu “locus enunciativo”, ou “locus cultural”,
culturais, entendemos que eles devam ser vistos tanto sob ponto mesmo quando a leitura proposta por tal texto seja aquela que rasure
de vista político, na tentativa de continuação de um projeto político, os limites de qualquer cultura. Aqui sobressai um traço relevante e
quanto sob ponto de vista teórico, com a intenção de construir primordial para leitura culturalista e que foi incentivado, antes, pela
um novo campo de estudos. Na perspectiva teórica, refletem a leitura comparatista: o contexto. Se o locus cultural torna-se começo
insatisfação com os limites de algumas disciplinas, propondo, de conversa nas discussões dos estudos culturais, na Literatura
assim, a inter, ou transdisciplinaridade. comparada, quando se discutia as literaturas nacionais, tomava
No Brasil, antes da chegada dos Estudos culturais, quem relevo as particularidades culturais daquelas literaturas.
melhor levou à exaustão as relações intertextuais, interdisciplinares O fato é que, na pós-modernidade, os conceitos canônicos,
62 LITERATURA COMPARADA EaD•UFMS EaD•UFMS LITERATURA COMPARADA E ESTUDOS CULTURAIS 63

como o de Cultura, e o de Literatura, por exemplo, estão por enquanto suporte metodológico para o estudo da literatura, entram
serem revisitados, desconstruídos e repensados, tão gritantes são em cena, muito recentemente, na década de 90, principalmente no
as diferenças sociais, culturais, políticas e étnicas que hibridizam contexto da Literatura comparada no Brasil.
o mundo e as pessoas contemporâneos — afastando-os de um De acordo com Jonathan Culler, “o projeto dos estudos culturais
valor absoluto e indiscutível (como o de Verdade que só levaria ao é compreender o funcionamento da cultura, particularmente no
cansaço), bem como o de um conceito hegemônico qualquer. mundo moderno: como as produções culturais operam e como
Cada vez mais, estudos de literatura têm mostrado a as identidades culturais são construídas e organizadas, para
importância de se trabalhar o texto literário (re)considerando, indivíduos e grupos, num mundo de comunidades diversas e
simultaneamente, o locus cultural de onde emerge tal construção, misturadas, de poder do Estado, indústrias da mídia e corporações
com todos os acontecimentos políticos, sociais e culturais que o multinacionais.”94 Segundo o autor, tais estudos “surgiram como a
constituem. Nesse sentido, os assim chamados Estudos culturais aplicação de técnicas de análise literária a outros materiais culturais.
têm proporcionado teoricamente uma distensão do olhar lançado Tratam os artefatos culturais como textos a ser lidos e não como
sobre o texto literário. Só estamos querendo dizer que os Estudos objetos que estão ali simplesmente para serem contados.”95 Conclui
culturais somente vieram reforçar a importância dos loci culturais Culler dizendo que os estudos literários podem ganhar quando a
nas leituras literárias. É claro que ainda se sobressai uma diferença literatura é estudada como uma prática cultural específica e as obras são
basilar entre a Literatura comparada e os Estudos culturais neste relacionadas a outros discursos.96
tocante: enquanto aquela tem, ainda, como pelo menos um de seus Eneida Leal Cunha partilha e defende a importância dos
objetos de comparação, estes têm, digamos, qualquer produção Estudos culturais no âmbito da Literatura Comparada. Em seu
saída da cultura. Lá, privilegiava-se o texto; aqui, a cultura. De texto “Literatura Comparada e Estudos Culturais”, Cunha faz
modo que a soma apenas enriqueceria a leitura feita. uma ressalva com um propósito certo: “não estou considerando,
Considerando os avanços dos aportes teórico-críticos sobre a em relação ao Brasil e à nossa produção crítica, que o debate (e o
Literatura comparada, bem como o valor inconteste que os estudos dilema) entre Literatura Comparada e Estudos Culturais possa ser
culturais acrescentam à leitura na contemporaneidade, compete lido como uma passagem, substituição, transformação ou, muito
ao pesquisador, cada vez mais, estabelecer relações entre o texto menos, como uma degradação dos estudos literários, como vêm
literário e os acontecimentos sócio-político-culturais, mesmo dizendo alguns.”97
quando tal relação não passe de uma metáfora. Aqui, atento leitor, Valendo-se das palavras do crítico cultural Silviano Santiago, a
estamos privilegiando essa relação interdisciplinar, mas qualquer autora justifica e aponta a importância vital dos estudos culturais nos
outra aproximação apenas redobrava em importância aquela leitura debates contemporâneos: “foram solapadas as bases da separação
que ficasse presa a tão somente uma visada disciplinar. Estudos de sedimentada nos três últimos séculos da cultura da modernidade,
tipos os mais variados não faltam. Entre os mais contemporâneos, que dicotomizaram e hierarquizaram o erudito e o popular, o
podemos mencionar: os Estudos subalternistas, os Estudos Pós- literário e o não literário.”98 Daí “a imergência de uma nova política
Coloniais, entre outros. do valor, como privilégio da dimensão cultural sobre confinamento
Deve-se lembrar que o conceito de cultura que perpassa tal no literário, do ético-político sobre o estético, do cotidiano sobre a
relação seria aquele advindo não dá soma aleatória das diferenças, tradução letrada, do multicultural sobre o canônico (e ocidental).”99
mas, sim, aquele que respeita as mesmas enquanto tais. Ao falar-se Sob a rubrica de crítica cultural, o livro Crítica cult, de Eneida
de diferenças aqui, pensa-se, inicialmente, nas várias formas sociais, Maria de Souza, discute com propriedade e lucidez crítica sobre a
culturais e étnicas, que circundam uma nação; mas se pensa também importância dos Estudos culturais no espaço da literatura. Diz a
nos vários tipos de culturas que essa mesma nação propõe, como a autora, na aba do livro, que “com o avanço dos estudos de literatura
cultura de massa, cultura popular, cultura midiática etc. comparada e da crítica cultural no final da década de 1970 no Brasil,
O texto literário contemporâneo não passa incólume a essas
94 CULLER. Teoria literária: uma introdução, p. 52.
diferenças culturais propostas pela Pós-Modernidade. Daí os 95 CULLER. Teoria literária: uma introdução, p. 52.
estudos literários, num crescendo, expandirem-se para os estudos 96 Cf CULLER. Teoria literária uma introdução, p. 52.
culturais, apesar de não haver um consenso por parte da crítica 97 CUNHA. Literatura comparada e estudos culturais, p. 68.
98 CUNHA. Literatura comparada e estudos culturais, p. 68.
sobre tal aproximação, conforme já dissemos. Os Estudos culturais, 99 CUNHA. Literatura comparada e estudos culturais, p. 68.
64 LITERATURA COMPARADA EaD•UFMS EaD•UFMS LITERATURA COMPARADA E ESTUDOS CULTURAIS 65

o discurso crítico sobre literatura ganhou maior dimensão e vigor. percebeu que sua passagem já apareceu transcrita logo no início
Expandiram-se os objetos de análise, antes restritos à linguagem deste livro.
literária e ao funcionamento discursivo, o que motivou a abertura Explica-nos Candido que pelo motivo de nossa produção ser
para os fatos culturais”. sempre tão vinculada aos exemplos externos, isso acabou levando
Hoje o livro de Eneida Maria de Souza é uma referência no os estudiosos a efetuarem suas análises ou seus juízos de valor
Brasil de exemplo de crítica cultural, uma vez que a autora aborda tendo por parâmetro tais exemplos. Interessa-nos, por último,
as tendências críticas, biográficas, políticas e históricas, analisando, chamar atenção para o momento em que os brasileiros afirmam que a
por todo o livro, os descentramentos conceituais ocorridos na Pós- sua literatura era diferente da de Portugal. Tal diferença, por si só, já nos
Modernidade, conforme já aludem alguns títulos de ensaios, como: lembra da ideia de comparação embutida no nome da disciplina. Daí
“A teoria em crise” e “O não-lugar da literatura”. Adverte-nos podermos concluir que se comparava uma literatura nacional com
Souza, já na Apresentação, que os artigos representam “o convite outra, tendo por objetivo estabelecer as diferenças e as semelhanças.
à reflexão e a constante busca de uma voz crítica que não se deixa Talvez o problema tenha sido porque, mesmo buscando a diferença,
levar por uma dicção piegas ou pela angélica unanimidade do coro isto é, um traço nacionalista, privilegiou-se nessa leitura crítica as
dos contentes.”100 semelhanças. Ou seja, ao mesmo tempo em que se autenticava uma
Gostaríamos, aqui, apenas de lembrar o que dissera Antonio literatura nacionalista brasileira, tal conceito dava-se amparado
Candido no 1º Congresso da ABRALIC (Associação Brasileira de com base no julgamento das semelhanças, isto é, nossa literatura
Literatura Comparada), realizado em Porto Alegre em 1986: era a Literatura brasileira e não outra a partir de um olhar filtrado
pela metrópole.
Há mais de quarenta anos eu disse que ‘estudar
Daí se explica em parte que a Literatura comparada nasça
literatura brasileira é estudar literatura comparada’,
porque a nossa produção foi sempre vinculada aos voltada no sentido de detectar as fontes e as influências literárias.
exemplos externos que insensivelmente os estudiosos Ou melhor, toda uma leitura e, por conseguinte, uma explicação
efetuavam as suas análises ou elaboravam os seus
juízos tomando-os como critérios de validade. Daí causalista, hierárquica e progressista imperava no julgamento das
ter havido uma espécie de comparativismo difuso novas produções literárias, como a brasileira. A questão das fontes
e espontâneo na filigrana do trabalho crítico desde
o tempo do romantismo, quando os brasileiros e das influências denotava, por sua vez, que o que precisava ser
afirmavam que a sua literatura era diferente da de mais bem resolvido era a discussão em torno da dependência
Portugal.101
cultural. E aqui, criticamente falando, no Brasil sobressaíram, grosso
Candido trata da relação entre duas ou mais literaturas modo, duas vertentes críticas antagônicas, mas que, na verdade, se
nacionais, não importando que sejam hegemônicas e periféricas, complementam, pelo menos de nosso ponto de vista. Aqui, leitor
colonizadoras e colonizadas, metropolitanas e marginais. Também paciente, retomamos as discussões literárias e culturais propostas
estão explícitos conceitos como influência e dependência, particular tanto por Silviano Santiago, quanto por Roberto Schwarz, mas de
e universal, local e global, dentro e fora etc, na fala de Candido. forma mais disseminada do que no capítulo anterior.
Tais conceitos, por sua vez, ou categorias, que atravessam a relação Uma vertente privilegiou mais a ideia de cópia com relação
entre as literaturas nacionais, também se fazem presente hoje nos ao modelo, no sentido da desconstrução derridaiana. Nessa visada
debates em torno das relações interculturais. Enfim, podemos dizer crítica, pensamos em Silviano Santiago e Haroldo de Campos,
que discutir Literatura comparada ou a relação entre literaturas por exemplo, que defendem a supremacia da cópia, no caso da
nacionais hoje, especialmente na América Latina, demandam literatura periférica, com relação à literatura do centro. Aqui há um
considerar conceitos precisos em tal diálogo, como, por exemplo, os reconhecimento da dependência, da influência do outro, deixando
de transculturação, hibridação, regional/pós-regional, local/global, de haver, por conseguinte, o problema de atraso cultural, que sempre
nacional/universal, dependência cultural, história e memória mediou a produção cultural local. Há também uma preocupação
cultural, discurso hegemônico etc. Tais conceitos apenas alargam a “universalizante” que pode e deve ser depois discutida com mais
abordagem comparatista nos dias atuais. O comentário de Candido vagar. Como exemplo, lembramos do título do ensaio de Santiago
é tão ilustrativo dessa discussão que o leitor atencioso decerto já que se intitula sintomaticamente de “Apesar de dependente,
universal” (1980). Também discute tal questão, seu ensaio anterior
100 SOUZA. Crítica cult, p. 14.
101 Apud SOUZA. Crítica cult, p. 39. “O entre-lugar do discurso latino-americano” (1978).
66 LITERATURA COMPARADA EaD•UFMS EaD•UFMS LITERATURA COMPARADA E ESTUDOS CULTURAIS 67

A outra vertente não deixa de considerar a presença inventadas?


influenciadora da metrópole sobre a produção literária e cultural Na produção da nação como narração ocorre, segundo
brasileiras. Nesse caso, sempre haveria um diálogo permanente e Bhabha, uma cisão entre o pedagógico (a temporalidade continuísta,
hierárquico entre colonizador e colonizado. Ou seja, o modelo de cumulativa) e o performativo (estratégia repetitiva, recorrente). É
uma cultura letrada sempre estaria, de alguma forma, teleguiando por meio dessa cisão que a ambivalência conceitual da sociedade
a produção literária que veio depois, mas sem que houvesse, moderna se torna o lugar de escrever a nação. Bhabha usa os conceitos
necessariamente, uma dependência explícita (antes haveria uma de pedagógico e performativo para conceituar povo, ou nação.
dependência natural). No caso do Brasil, e em decorrência, as ideias Aqui, valemo-nos de tais conceitos para pensar melhor a relação
importadas sempre soariam em falso, fora do lugar. Ou seja, sempre estado e produção cultural local.
haveria um descompasso teórico, crítico e ficcional. Verdade ou não, Cada vez mais, a nação se transforma de símbolo da modernidade
o fato é que tal visada não pode ser simplesmente desconsiderada, em sintoma de uma etnografia (estudo descritivo das sociedades
posto que há, sim, uma presença mais do que fantasmática do outro humanas) do “contemporâneo” dentro da cultura moderna. Em
em nossa cultura. Dessa vertente, sobressaiu, principalmente, o que decorrência, a articulação tensa da nação seria, por um lado,
defende Roberto Schwarz em seus textos “As ideias fora do lugar” significar o povo como uma presença histórica (passado), um objeto
(1977) e “Nacional por subtração” (1986). Que o leitor não perca pedagógico e, por outro, construir o povo na performance narrativa
mais tempo e vá direto a esses textos seminais, viu leitor interessado. (presente). O pedagógico funda sua autoridade narrativa em uma
Grosso modo, toda a crítica subsequente a tais vertentes optou tradição do povo, ou seja, dá a ele um sentido homogêneo, coeso
ora por uma, ora por outra, como se só uma dessas abordagens e de “autogeração” (hierárquico). Já o performativo intervém na
fosse suficiente para explicar a cultura brasileira, com toda a sua soberania da “auto geração” da nação e lança uma sombra entre
diversidade e atraso culturais próprios (?). Queremos entender o povo como “imagem” (homogênea) e sua significação como signo
que a teoria da cópia que rivaliza com o modelo, bem como a diferenciador do Eu, distinto do Outro ou do Exterior. Ou seja, só se é
de importação, de independência, podem e devem ser levadas possível pensar o povo e, por extensão, a nação que o representa,
em consideração na tentativa de melhor ler a produção cultural a partir desse entre-lugar performático. Logo, aquela imagem
brasileira. Talvez seja em virtude de tais vertentes críticas que a crítica homogênea negociada pelo estado, pelo político, e veiculada
brasileira apresenta-se, pelo menos em parte, de forma binária, ou geralmente pela mídia e às vezes exposta em praça pública como
seja, calcada em tópicos como universal x particular, nacionalismo x signos vicários de um lugar não existe.
cosmopolitismo, dentro x fora, regional x não-regional etc, como se Todas as imagens cooptadas pelo estado (indistintamente
esta fosse a única forma de compreender a cultura brasileira. Ou é? de seu valor) como representantes de seu povo devem ser revistas
criticamente, posto que uma (povo) nação, qualquer nação,
3.3 Estudos culturais em Mato Grosso do Sul já se apresenta de forma dividida, diferencial no interior dela
própria. Pois seu objetivo talvez seja o de exatamente articular a
3.3.1 - Entre o pedagógico e o performático: esboço para uma heterogeneidade de sua população. Aqui, de nosso ponto de vista, está
análise cultural o grande problema a ser enfrentado: pois enquanto a nação se sabe
de natureza disseminada, o estado quer a todo custo pensar o povo
Na produção da nação como narração ocorre uma
como homogêneo e inclusive homogeneizar suas possibilidades
cisão entre a temporalidade continuista, cumulativa,
do pedagógico e a estratégia repetitiva, recorrente, do de representação. Às vezes, tais representações estatais são, ainda,
performativo. É através deste processo de cisão que mais pecaminosas: quando essas representações valorizadas e
a ambivalência conceitual da sociedade moderna se
torna o lugar de escrever a nação. divulgadas pelo Estado, repetindo-as por todas as cidades, praças
Bhabha. O local da cultura, p. 207. públicas e prédios à exaustão, são geradas no sentido de que o
Outro (o de fora) tenha uma “impressão” do de-dentro. O problema
Na esteira de Homi Bhabha, podemos dizer que as narrativas
aí é que se esboça uma visão totalizante do povo e, por extensão,
existem com a finalidade de produzir/narrar a nação. Mas
equivocada e distorcida.
poderíamos também nos perguntar se o contrário não seria menos
O estado-nação precisa saber que o povo não está mais contido
verdadeiro, ou seja, que a nação existe para que as narrativas sejam
naquele discurso nacional da teleologia do progresso (da ordem
68 LITERATURA COMPARADA EaD•UFMS EaD•UFMS LITERATURA COMPARADA E ESTUDOS CULTURAIS 69

e progresso), do anonimato de indivíduos (índios, paraguaios, de alegoria nacional). Ou seja, queremos entender que qualquer
bolivianos, paulistas, mineiros, gaúchos, sul-mato-grossense etc.), visada dualista, do tipo senhor-escravo, colonizador-colonizado,
da horizontalidade espacial da comunidade, do tempo homogêneo metrópole-periferia, está por ser desconstruída e lida pelo avesso. Ou
das narrativas sociais. Foucault, no texto “O que somos hoje?”, melhor, ainda: lida a partir das diferenças internas e heterogêneas
sugere que a “razão do estado” na nação moderna tem de proceder que caracterizam qualquer nacional (O mesmo, podemos dizer,
dos limites heterogêneos e diferenciados de seu território. A nação, serve para pensar o regional). Que o leitor fique atento à nossa
qualquer nação, não pode ser concebida de forma que não contemple proposição: porque não estamos tratando especificamente da
todos os matizes diferenciais (raciais, étnicas etc.) que fazem seu Literatura comparada aqui, mas queremos que nossa discussão
corpo, nem muito menos mantida por qualquer lei “boa”. tenha uma visada de fundo comparatista. Sem perceber que nossa
Para Michel Foucault: leitura ancora-se numa abordagem comparatista, a compreensão do
que estamos discutindo torna-se insuficiente.
Cada estado está em competição permanente com
Na esteira das linhagens do presente do pensamento de Ahmad,
outros países, outras nações... de modo que cada
estado não tem nada diante de si a não ser um futuro gostaríamos de lembrar que o conceito hegemônico de universal,
indefinido de lutas. A política tem agora de lidar com que imperou no mundo até a contemporaneidade, nada mais foi do
uma multiplicidade irredutível de estados lutando e
competindo numa história limitada... O Estado é sua que a soma “aleatória” de produções nacionais locais. Próximo do
própria finalidade.102 que queremos pensar, está a seguinte afirmação de Prasenjit Duara
sobre o nacional: “o nacionalismo é escassamente o nacionalismo da
Ainda na esteira do que diz Foucault, lembramos que uma
região e, no entanto, representa o lugar onde diferentes concepções
política da boa vizinhança, da boa amizade, que não mantenha
da nação disputam e negociam entre si.”104 Está implícita nessa
o respeito devido às diferenças culturais do outro, pode estar
afirmação a heterogeneidade defendida por Achugar em seu recente
somente reforçando a ideia de uma amizade fraternal, dominadora
livro Planetas sem boca. Para Achugar, “a heterogeneidade foi e é, de
e castradora. Nesse sentido, como em qualquer outro, as amizades
algum modo, uma reivindicação e uma característica do discurso da
devem se constituir respeitando, sempre, uma “boa distância”, pois
resistência, diante de um projeto homogeneizante, e está relacionado
é aí onde se instaura o político e se preservam as diferenças culturais
à heterogeneidade, à fragmentação do mercado, à fragmentação
locais.
cultural, à fragmentação da sociedade, entre outras.”105 Atento que
O próprio conceito de nacionalismo, que esteve na crítica
é, o leitor logo percebe que palavras como universal e nacionalismo
contemporânea em declínio de prestígio e, por conseguinte, de
não são estranhas ao mundo da Literatura comparada.
discussão, volta ao cenário teórico-crítico nos dias atuais, e, cada
Discutir o discurso nacional, discutir as diferentes concepções
vez mais, por decorrência, ou como consequência, das discussões
de nação, implica negociar o que pode ser “esquecido” e o que
culturais entre literaturas, países, culturas hegemônicas e periféricas.
deveria ser lembrado sobre o cidadão latino-americano. “Negociar a
Não é por acaso que o crítico cultural indiano Aijaz Ahmad discorda
narrativa implica negociar o esquecimento?”, se pergunta Achugar.
veementemente de F. Jameson, quando este afirma que “todos os
Segundo ele, somente uma memória democrática daria conta de
textos do Terceiro Mundo devem necessariamente... ser lidos como
abarcar todas as diferenças que compõem a heterogeneidade latino-
... alegorias nacionais.”103 Pergunta Ahmad: “a Índia pertence ao
americana. E mesmo assim, conclui Achugar, parte dessa história
Primeiro Mundo ou ao Terceiro? O Brasil, a Argentina, o México,
tão diversa e em nada homogênea estaria sempre ficando de fora.
a África do Sul?” (p. 88). Na perspectiva de Ahmad, Jameson
Se muitas memórias, histórias, esquecimentos menores,
simplifica ao homogeneizar a questão do nacionalismo no Terceiro
foram solapados da história oficial em prol de um interesse do
Mundo, uma vez que o “próprio nacionalismo não é uma coisa
discurso hegemônico, parece que sobrou ao presente se perguntar:
unitária com uma essência e um valor predeterminados” (p. 89). Para
“o que deve ser preservado, recordado, transmitido e o que deve ser
Ahmad, ao homogeneizar, absolutizar a diferença entre o Primeiro
descartado, esquecido, enterrado? (..) a partir de onde e de quem
Mundo e o Terceiro Mundo como Alteridade, desconsidera-se a
elaborar essa avaliação? Ou seja, a partir da região, da nação, da
heterogeneidade cultural do terceiro mundo, submergindo-a numa
identidade singular de “experiência” (é a isso que Jameson chama
102 Apud BHABHA. O local da cultura, 213. 104 Apud ACHUGAR. Planetas sem boca, p. 157.
103 Apud AHMAD. Linhagens do presente, p. 86. 105 ACHUGAR. Planetas sem boca, p. 155.
70 LITERATURA COMPARADA EaD•UFMS EaD•UFMS LITERATURA COMPARADA E ESTUDOS CULTURAIS 71

comunidade, da etnia, do gênero, da classe, da preferência sexual, melhor pensarmos o contexto que nos cerca e que nos faz ser do
do partido, do Estado? Ou, a partir dos técnicos e da Academia?”106 jeito que somos e nunca de outro jeito. Numa perspectiva crítico-
Devemos nos lembrar sempre de que o nacionalismo não é o que comparatista, essas práticas desconstrutivistas fazem toda a
parece ser, principalmente o que ele parece a si próprio. Os fragmentos diferença. Não é por acaso que hoje, na América Latina, os estudos
e retalhos culturais usados pelo nacionalismo são geralmente subalternistas vêm relendo criticamente os assim chamados de
invenções históricas arbitrárias e usados para construir um todo estudos culturais.
homogêneo. O problema maior que se inscreve aí é que geralmente
o estado, em nome de um Nacionalismo para todos e de todos,
deixa sempre de fora os fragmentos e retalhos menores (que nem
sempre são minorias). Parodiando Walter Benjamim, em “A tarefa
do tradutor”, que diz que, para reconstruir o todo de uma ânfora,
“os fragmentos devem combinar uns com os outros nos mínimos 3.3.4 Estudos culturais hoje
detalhes”, sem precisarem ser iguais, e que tais fragmentos são
Quero defender uma prática diferente de teorizar, uma
reconhecíveis como de uma mesma ânfora, entendemos que as
maneira diferente de politizar a teoria e de teorizar a
diferenças culturais de um povo ou lugar (local) podem e devem política. É isso que denomino estudos culturais.
constituir uma nação maior sem que tais diferenças precisem ser Grossberg

apagadas, desconsideradas.107
Dizem que quando Freud estava chegando aos Estados
O conceito de hibridismo na América Latina, cunhado por
Unidos, mais precisamente a Nova York, ao avistar a Estátua da
Néstor García Canclini na década de 80, hoje começa a ser discutido
Liberdade teria dito: “Ah se eles soubessem que eu vim trazer a
criticamente, por críticos como Alberto Moreiras. Entendemos
peste!” Apropriamo-nos dessa possível boutade freudiana para
que tal discussão soa boa e frutífera, porque impede a crítica de
pensar que os Estudos culturais vieram trazer, para o campo do
tornar o conceito estereotipado e, por extensão, hegemônico. Antes
saber acadêmico e disciplinar, a peste, o mal-estar no tocante aos
desse conceito, tivemos, também na América Latina, o conceito de
conceitos hegemônicos e sumariamente excludentes. Se não em
heterogeneidade, cunhado por Antonio Cornejo Polar, no final da
sua totalidade, pelo menos foram eles que deram o início. Claro
década de 70. Tal conceito, por sua vez, nasceu em oposição ou
que aí pensamos resolutamente na Cultura ocidental com “C”
suplementaridade ao conceito de transculturação de Fernando Ortiz
maiúscula, assim como nas produções culturais simbólicas todas
na década de 30, mas desenvolvido por Ángel Rama. Com isso,
que, grosso modo, sobressaíram-se ao preço de que inúmeras outras
queremos apenas lembrar que tais conceitos divergem e convergem
manifestações culturais, geralmente massiva e popular, ficassem de
numa tentativa de melhor compreender a cultura latino-americana.
fora da história.
Entendemos que a crítica cultural, os estudos culturais ajudam-nos
Um exemplo plausível aqui seriam as produções
a empregar tais conceitos de forma mais satisfatória para pensar
marginalizadas que receberam a alcunha de contracultura que,
o local e suas diferenças, por exemplo. Também não é demais
felizmente, só se inscreveram na cultura por seu alto grau de
lembrar que qualquer conceito na história da crítica nasce sempre
subversão num determinado contexto cultural específico. Por outro
em oposição a outro existente, mesmo quando precisa desse outro
lado, é escusado dizer que se a cultura não fosse à época tão elitista e
para se perpetuar na história do pensamento crítico. Sem sombra
“preconceituosa”, nem se precisaria ter falado em “contracultura”,
de dúvida, e por certo que o leitor pode estar pensando nisso, que
posto que o conceito de contracultura é criado justamente porque
a crítica cultural contemporânea alargou o campo da boa crítica
naquele momento as produções culturais que levaram essa rubrica
comparatista.
não se encaixaram no grande conceito de Cultura que endossava o
Enfim, os conceitos estão sempre, de alguma forma,
coro dos contentes de uma determinada classe social. Não é a toa
presididos por um determinado contexto histórico. De modo
que, atrelado ao termo contracultura, vem a palavra “subversivo”.
que, quer queiramos ou não, quer saibamos ou não, pululam na
Quer seja na música, pintura, literatura e outras manifestações
contemporaneidade os conceitos sempre já estereotipados para
culturais, o traço cultural era um traço subversivo perante a ordem
106 ACHUGAR. Planetas sem boca, 176. social e política. Andy Warhol, com a pop-art, Raul Seixas, com a
107 Apud BHABHA. O local da cultura, 238.
72 LITERATURA COMPARADA EaD•UFMS EaD•UFMS LITERATURA COMPARADA E ESTUDOS CULTURAIS 73

“sociedade alternativa”, Waly Salomão, com a poesia concretista, culturas, sua multiplicidade e complexidade. São, também, estudos
Caio F. Abreu com Morangos mofados, entre outras, ilustram bem orientados pela hipótese de que entre as diferentes culturas existem
a proposta contracultural alternativa que tinha que, antes de mais relações de poder e dominação que devem ser questionadas;
nada, chocar a sociedade, o estabelecido, o cristalizado, o instituído podem fundamentar as ações educativas comprometidas com a
e institucionalizado na Cultura. Está-se em pauta a transgressão construção de uma escola democrática fundada na convivência
a qualquer preço. Valendo-se de um espetáculo performático, a entre identidades culturais e sociais múltiplas. Neste tocante,
contracultura apropria-se da cultura popular e burla a sociedade, entendemos que os estudos culturais começam a desarticular um
os valores burgueses e ela própria. Por meio de um “radicalismo problema que na verdade só será desenvolvido a contento por
estético”, a contracultura borra as fronteiras entre a alta cultura e estudos a posteriori, como os estudos subalternos, pelo menos no
a cultura popular, por exemplo. Daí podermos dizer que palavras âmbito da América Latina. Todavia seria injusto não reconhecer
como contracultura, paraliteratura, “subcultura”, subliteratura, que os estudos culturais, no tocante à academia e, por extensão,
cultura menor, literatura policial e outros termos, todos não ao discurso acadêmico, propõem uma perspectiva educacional
passaram de nomes arranjados para encaixar aquelas produções que começa a descentralizar as teorias hegemônicas que veiculam
culturais que ficavam de fora da Cultura. (O preconceito aí é visível.) dentro da academia, principalmente quando abre brechas no ensino
Afirmamos isso porque podemos dizer que os Estudos para se perguntar a importância real das práticas educacionais.
culturais nascem também dessa preocupação de querer acabar de É bom que se diga que os estudos culturais têm, desde sua
vez qualquer pensamento dualista que imperava na Cultura e que, gênese, um caráter, digamos, prático, talvez pedagógico, ou seja, a
por sua vez, não lia as produções em sua diferença. Considerando utilização de sua teoria deve contribuir, sempre, para uma alteração
que falar de contracultura estritamente poderia parecer, hoje, certa direta na sociedade. Pelo menos o consenso crítico caminhou
excludência nas produções, posto que manifestações contraculturais nessa direção. Aqui estaria, da perspectiva culturalista, o primeiro
continuam a acontecer na cultura, passamos a falar de estudos desencontro entre a academia e a sociedade e, por conseguinte, entre
culturais como forma de melhor encampar a cultura com todas a academia e os estudos culturais. Como esse problema pedagógico
as diferenças que a constituem como cultura num determinado não se resolveria apenas com “boa vontade”, então resta rever e
contexto. virar do avesso o discurso acadêmico e a perspectiva disciplinar.
Antes de determo-nos em alguns tópicos os quais os Mas depois voltamos a essa questão.
estudos culturais corroboram o espaço acadêmico, historicizamos Sobre os estudos culturais, também podemos dizer que os
rapidamente sua origem. A história dos estudos culturais começa mesmos não se definem por um método exclusivo, um objeto de
em Birmingham, Inglaterra, no campo dos estudos literários do pós- estudo próprio, mas pela diversidade das abordagens e dos temas.
guerra, com a publicação dos livros de Richard Hoggart (The uses of Aqui já começa a se esboçar a necessidade de se trabalhar numa
literacy(1958)) e de Raymond Williams (Culture and society(1958)).108 perspectiva transdisciplinar, precisamente para que nesse jogo, ou
Mas o mais interessante talvez seja dizer que a teoria dos estudos leitura, nenhum discurso escolástico se sobreponha aos demais.
culturais é gerada a partir de aulas de Educação para Adultos. Sobre Nessa direção, podemos dizer também que os estudos culturais se
isso, vejamos o que diz Maria Elisa Cevasco: “os estudos culturais articulam por fora dos discursos hegemônicos, disciplinários e até
começaram como um empreendimento marginal, desconectado mesmo preconceituosos, posto que a cultura, qualquer cultura, é o
das disciplinas e das universidades consagradas, e começaram lugar onde reinam as diferenças culturais que só podem ser lidas
não porque este ou aquele intelectual os inventou, mas a partir da e compreendidas enquanto tais. Todavia, deve se observar que,
necessidade política de estabelecer uma educação democrática para neste exato momento, os estudos culturais já estão sendo revistos,
os que tinham sido privados dessa oportunidade”.109 pelo menos na América Latina, por teorias mais recentes como a do
Podemos dizer que os estudos culturais são estudos que Grupo Subalternista Latino-Americano. Nesse sentido, a academia
priorizam a diversidade dentro de cada cultura e sobre as diferentes ainda não se aparelhou suficientemente devido ao próprio lugar
108 Uma excelente Introdução aos Estudos Culturais encontra-se no que a caracteriza como tal na sociedade, ou seja, parece que
texto” Estudos Culturais: uma introdução”, de Cary Nelson, Paula A. Trei- ela está condenada a chegar tarde demais para se abrir para as
chler & Lawrence Grossberg. In: SILVA.(org.) Alienígenas na sala de aula, estratégias descentralizadas, transdisciplinares, mais heterogêneas
p. 7-38.
109 CEVASCO. Dez lições sobre estudos culturais, p. 62. que homogêneas, trabalhando no sentido da inclusão do que da
74 LITERATURA COMPARADA EaD•UFMS EaD•UFMS LITERATURA COMPARADA E ESTUDOS CULTURAIS 75

exclusão. A academia, grosso modo, sempre privilegiou a exclusão. o logos pode ser lido como desconstruir o lugar canônico das
Nela, pelo menos do jeito que o saber está instituído, os últimos disciplinas e dos discursos do poder que dormitavam nesses
nunca serão os primeiros. A retórica da academia é a do silêncio. discursos hegemônicos que imperavam e ainda imperam dentro
Diríamos que é contra constatações dessa natureza que os estudos da academia. A prática efetiva da transdisciplinaridade contribuiu
culturais irrompem na sociedade. para que o objeto, tanto na teoria quanto na prática, fosse olhando
É por tudo isso que os estudos culturais têm um caráter de vários ângulos diferentes. Talvez seja exatamente por isso que as
paradoxal e infinito, por proporem insistentemente questionar as teorias e as críticas na contemporaneidade não tenham mais total
certezas disciplinares (esse lugar restrito a uma única disciplina domínio do objeto a ser dissecado, não que elas sejam insuficientes;
não existe mais e, para seu regozijo, a academia ainda teima por mas principalmente porque os objetos propõem formas diferentes
esse discurso totalizante, soberano e único), as ideias absolutas de compreendê-los.
totalizantes e excludentes, enfim, verdades dualistas por excelência. Na prática, entendemos que as disciplinas continuam sendo
A academia, lugar onde reina e se produz saber, deveria muito estanques e fechadas em grades específicas na academia,
aprender de imediato, ou começo de conversa, com os estudos mas isso não poderia ser mais desculpa para justificar o despreparo
culturais, que as diferenças culturais encontradas na cultura teórico e crítico dos intelectuais nos dias de hoje. O professor que
produzem saberes diversificados que não dependem mais, não exerce um olhar, uma visada transdisciplinar, sobre a disciplina
exclusivamente, da academia. Se o povo, por exemplo, dependesse que atua, presta um desserviço à educação no mundo atual. A
da arte, poderíamos pensar especificamente na literatura, para ser, perspectiva disciplinar e, por extensão, o discurso acadêmico,
digamos, mais “educado”, o mundo e, por extensão, a maioria de acreditam haver produção do conhecimento independente do
qualquer nação, estariam perdidos. O que está em discussão aqui desejo e das circunstâncias que constituem o sujeito como sujeito. O
não é o valor indiscutível da arte em geral numa cultura, mas, sim, professor que visa à perspectiva transdisciplinar se reconhece, antes
que ela não pode mais servir como parâmetro para medir os saberes de mais nada, como sujeito ideológico, isto é, aquele que produz
que veiculam entre a classe massiva e popular. significados, aquele que sabe que suas escolhas, seus critérios e seus
Daí podermos dizer que, enquanto a academia continuar julgamentos, são consoantes à sua ideologia.
presa a uma perspectiva disciplinar e a um discurso homogêneo, Não é demais lembrar que os sentidos, as interpretações, os
o saber advindo dela soará no vazio e repercutirá num tempo significados encontrados, os valores estéticos, não estão nem são
homogêneo que mais se assemelhará a uma eternidade. Para resolver intrínsecos aos objetos. Partilhar da ideia de que os sentidos estão
tal problema, pelo menos em parte, é que os estudos culturais no texto e que só nos cabe ensinar ao outro resgatá-los é reforçar
devem ser vistos tanto de um ponto de vista político, na tentativa de a ideia de sentido sagrado e único. Antes se deveria ensinar que,
continuação de um projeto político, quanto de um ponto de vista como os sentidos não são resgatados mas atribuídos aos objetos,
teórico, com a intenção de construir um novo campo de estudos. nenhuma leitura poderia ser considerada correta ou incorreta,
Como se vê, a prática dos estudos culturais já seria a efetivação de posto que o leitor lê o que lê sempre a partir das suas circunstâncias
uma mudança na sociedade proporcionada pela academia. e das convenções presentes nas instituições e na sociedade. A
Dissemos que voltávamos a discutir um pouco a questão linguagem é uma convenção. Daí se poder pensar que qualquer
atinente ao discurso acadêmico e à perspectiva disciplinar, e o representação pela linguagem (qualquer linguagem) não passa
façamos pela única estratégia possível, de nosso ponto de vista, de uma performance. Não por acaso o pensamento contemporâneo
que é a transdisciplinaridade. Na verdade, já demos a entender um vai privilegiar a perspectiva performática em contraposição à
pouco sobre a importância que tal visada, ou prática, tem no contexto perspectiva pedagógica. Ou seja, enquanto o Estado trabalha no
do pensamento contemporâneo. Parece ser um consenso que a sentido de fazer imperar, de reproduzir os sentidos pedagógicos,
transdisciplinaridade só veio corroborar contra a ideia logocêntrica as produções humanas e as instituições responsáveis pela produção
que imperou nas ciências humanas no século XX, insistindo na do saber (e não pela mera reprodução do saber) devem privilegiar
declaração de um conceito de Verdade única e absoluta. Talvez quem o pensamento performático. Este visaria, grosso modo, articular-se
melhor contribuiu para que a prática transdisciplinar se efetivasse entre os saberes, os conceitos, as disciplinas, ou seja, tudo o que é
de fato nos trabalhos teórico-críticos tenha sido a guinada filosófica da ordem da reprodução, do gregário, do fechado, do instituído,
da desconstrução levada a cabo por Jacques Derrida. Desconstruir da esteriotipia. Na verdade, o pensamento performático ou liminar
76 LITERATURA COMPARADA EaD•UFMS EaD•UFMS LITERATURA COMPARADA E ESTUDOS CULTURAIS 77

articulam-se para além das lições, dos conceitos esteriotipados. podem se colar. Aqui seria interessante lembrar que as narrativas
Aliás, que lição e conceito não seriam da ordem do esteriótipo? O todas, mas nós pensaríamos em todas as produções culturais
lugar onde se veicula o saber, quer seja uma Sorbonne, quer seja uma humanas, existem, são pensadas e executadas como forma de fazer
escolinha primária de um arrabalde latino-americano qualquer, não a nação existir. Na perspectiva culturalista, as narrativas existem
deveria perder tempo em reproduzir conceitos e lições que circulam para tornar a nação real. Daí a necessidade premente de saber ler a
na cultura sem discutir, no mínimo, o que desses conceitos e lições nação nas produções culturais. Claro está aí que não se prioriza mais
ainda serve para compreender melhor o mundo que cerca o sujeito. somente o valor estético das produções, mas na mesma proporção
Sobre isso, todas as práticas pedagógicas devem ser eminentemente seu valor social e cultural. Privilegiar apenas o valor estético das
críticas, porque, quando isso não acontece, ocorre a reprodução de produções humanas hoje, num mundo das diferenças sociais, raciais
conceitos e lições ultrapassados para o sujeito. e sexuais, em todos os sentidos, é repetir um gesto castrador que
O que equivale a dizer que os conceitos e lições não existem imperou e sustentou todo o projeto moderno. Não é por acaso que,
para ser “aplicados”, mas para serem desconstruídos no sentido no âmbito da América Latina, o conceito de moderno está sendo
derridaiano do termo. Contribui para isso o professor, o pesquisador virado do avesso e lido detrás para diante, isto é, daqui para lá, do
saber que ele ocupa, na instituição, o lugar do sujeito-suposto-saber, presente para o passado. E tudo porque se esqueceu, durante muito
ou seja, aquele que não sabe mas que o outro(neste caso o aluno) tempo, que fomos colonizados e que vivemos uma América Latina
pensa que ele sabe. que não passou de um sonho do colonizador.
A prática transdisciplinar desenvolvida depois da metade do Aos olhos do projeto moderno, podemos dizer que a América
século XX, principalmente, trouxe uma contribuição significativa Latina não existiu. E aqui chegamos a outro ponto essencial para os
para as teorias e a práticas, como já dissemos, e acarretou, por estudos culturais, bem como para outras teorias contemporâneas.
conseguinte, um descentramento dos lugares dos conceitos e dos Trata-se da forma sincrônica de ler a história e, por extensão, as
sujeitos ao mesmo tempo. Ou seja, se as teorias das disciplinas não produções culturais que a caracterizam de alguma forma. Ou
se encontram mais em um lugar estanque como antes, se agora seja, o lugar de onde se pensa, articula o pensamento, o contexto
estão mais em um não-lugar (não é a toa que lugar, entre-lugar, cultural torna-se o mais significativo, posto que o leitor do presente
não lugares, são conceitos da reflexão contemporânea), o mesmo simplesmente não lê como outrora se lia no passado. Ilustra bem
podemos dizer que vale para o intelectual (e aqui chamamos o que queremos dizer o comentário que Walter Benjamin faz do
intelectual os pesquisadores acadêmicos, independente da Angelus Novus, de Paul Klee. O rosto do anjo da história esta voltado
categoria), uma vez que este não fala, ou pelo menos não deveria para o passado e, enquanto ele contempla ruínas, a tempestade
falar mais, de um lugar específico, quando se trata de reflexão chamada progresso o impele para o futuro. Ele vira as costas para
teórico-crítica. Melhor dizendo: o lugar do professor-intelectual é essa tempestade/progresso, mas enquanto faz isso um amontoado
um lugar fora do lugar, descentrado por excelência, para além de de ruína sobre ruína cresce a nossos pés até o céu, diz Benjamin. Ou
qualquer discurso uno e de qualquer disciplina, exatamente para seja, é o presente que nos espreita, que nos sobra, independente de
captar e traduzir melhor para o outro (o aluno) a contaminação ser do jeito que é. Logo é a partir dele que lemos e compreendemos
operada pelo e entre os discursos das disciplinas. a história, a cultura e a nós mesmos.
Isso, por sua vez, mostra-nos que os conceitos também Estamos condenados a estar com os dois pés fincados sobre
encontram-se minados e contaminados uns pelos outros, as ruínas do presente e, tal como o anjo, qualquer compreensão
independente da disciplina ou ciência da qual o conceito tenha nossa do passado, assim como qualquer vislumbre do futuro,
migrado. Como as produções culturais são construtos advindos de passam necessariamente por nossa lucidez do presente. Estamos
uma cultura local específica, então nos parece que mais importante afirmando, porque é isso que os estudos da cultura, assim como a
do que saber o que ela significa é saber de onde ela fala (o que estou Literatura comparada, nos fazem acreditar, que enquanto a leitura
chamando de lugar). Para tanto, o pesquisador da cultura em geral, logocêntrica, hegemônica, hierárquica, doxista, cartesiana, repetiu
bem como das produções culturais todas, principalmente se ele à exaustão um modo de ler linear e progressista, ou seja, preso à
for da academia, precisa saber que ele fala de um lugar híbrido, letra e à repetição, o pensamento contemporâneo, sem abrir mão da
transculturador, um lugar que não visa a captar o último sentido das história, nem muito menos do passado, propõe peerlaborar a história
coisas, um lugar por onde os saberes passam, transitam, mas não e suas respectivas produções culturais de onde estamos para o
78 LITERATURA COMPARADA EaD•UFMS EaD•UFMS LITERATURA COMPARADA E ESTUDOS CULTURAIS 79

passado. Os conflitos, as dificuldades, a peste à qual nos referimos nominada de “Locais da cultura”.
no início deste texto, não são lugares dos quais devemos fugir, mas O crítico uruguaio começa seu capítulo dizendo que o
lugares para os quais devemos ir. trabalho ali discutido deveria ser entendido como um “balbucio
Aqui, leitor esperto, nos detivemos mais especificamente teórico”, ou seja, uma categoria que, antes de ser pejorativa, pelo
nos Estudos culturais que nos Estudos comparados propriamente contrário, “pode ser considerada como uma forma de resistência
ditos. De modo que, toda a crítica que fizemos à visada disciplinar que tenta confrontar ou problematizar teorizações originadas no
vale, ressalvas pouquíssimas vezes, para a disciplina de Literatura Commonwealth e que se apresentam como universais.”110
comparada. Grifo a palavra universais porque, ao final do capítulo,
Achugar centra-se na pergunta: “O que é, então, o universal?”111
Comentando a cena primordial da história da literatura no ocidente
no diálogo de Goethe em 1827, Achugar reconhece, ali, alguns
3.5 Teoria comparatista hoje elementos dessa história: “cosmopolitismo versus exotismo ou
exótico, localismo versus universalismo, estranheza e familiaridade,
Tantas e tão profundas são as transformações do
assim como um movimento homogeneizador e inclusivo que, longe
quadro cultural por que passamos desde que Goethe
colocou em circulação o termo Weltliteratur, em de distingui-las, integra as diferenças em um ‘Todo’ qualificado
janeiro de 1827, que é necessário periodicamente como ‘razoavelmente burguês.’”112 Transcrevo, a seguir, a parte da
indagar se essa noção __ central desde o início para os
estudos de literatura comparada __ ainda ocupa neles cena (diálogo) que mais interessou ao crítico:
uma posição semelhante.
Hoje, a literatura nacional não significa grande coisa;
CARVALHAL. A Weltliteratur em questão. In: O chegou o momento da literatura mundial, e todos
próprio e o alheio, p. 88. devemos contribuir para apressar o advento dessa
época. No entanto, em nosso estudo do estrangeiro,
É do conhecimento de todos os comparatistas que a devemos cuidar de não nos limitarmos a considerar
uma só coisa como modelo. [...] Para satisfazer nossa
conceituação do que seja Literatura comparada no mundo está necessidade, devemos, de algum modo, retroagir aos
diretamente atravessada pela noção do termo alemão Weltliteratur, gregos, em cujas obras se expressa a beleza humana.
Devemos considerar o resto como puramente
criado por Goethe em 31 de janeiro de 1827. A noção foi histórico, apropriando-nos, quando possível, do que
traduzida como “literatura mundial” para se contrapor à ideia de eles tiveram de bom.113
nationaltliteratur, traduzida como “literatura nacional”.
Do conceito de “literatura mundial” para o de “literatura Depois de dizer que foi aí, pela primeira vez, que Goethe
universal”, ou mesmo de universal, é menos de um passo. Como o formulou a noção de Weltliteratur, na versão/tradução usada por
que me interessa, nesse primeiro momento, é o que guarda a ideia Achugar, como “literatura mundial”, e que, daí há meses, em 15
de universal (se é que ela ainda guarda alguma coisa importante), de julho, Goethe volta a usar o termo mas nesta ocasião traduzido
sempre em comparação a algo não-universal, como se esta fosse a como “literatura cosmopolita”, o crítico uruguaio conclui que o fato
condição para se compreender ainda hoje as produções humanas, de a noção de Weltliteratur ter sido traduzida como mundial, universal
vou me deter, sobretudo, em dois críticos culturais contemporâneos e cosmopolita “traz consigo alguns dos problemas presentes na atual
que, no mínimo, compreendem de modo diferente o que estava discussão teórica, tanto na academia do Primeiro Mundo quanto na
dizendo em 1827 o poeta romântico alemão Wolfgang Goethe. da América Latina.”114 Quero, aqui, apenas lembrar que o ensaio do
Refiro-me aos críticos Hugo Achugar (Uruguaio) e Homi crítico uruguaio é de 2003 e seu livro publicado em Montevidéu é
K. Bhabha (Indo-britânico). Do primeiro, vou me valer tão- de 2004.
somente do capítulo sintomaticamente intitulado “Weltliteratur: Achugar discute a “homogeneização do mundo” que Goethe
ou cosmopolitismo, globalização, ‘literatura mundial’ e outras realizou na passagem, além de mostrar que a passagem revela a
metáforas problemáticas”, do livro Planetas sem boca: escritos concepção de universalidade do mundo do poeta, ambas implicadas
efêmeros sobre arte, cultura e literatura. Do outro crítico, refiro-me 110 ACHUGAR. Planetas sem boca, p. 64.
111 ACHUGAR. Planetas sem boca, p. 78.
ao livro O local da cultura, especificamente a parte da “Introdução” 112 ACHUGAR. Planetas sem boca, p. 66.
113 Apud ACHUGAR. Planetas sem boca, p. 67 (grifos do autor)
114 ACHUGAR. Planetas sem boca, p. 67.
80 LITERATURA COMPARADA EaD•UFMS EaD•UFMS LITERATURA COMPARADA E ESTUDOS CULTURAIS 81

na noção de literatura mundial. Lembra-nos Achugar que Goethe, paradigmas não apresentam soluções na opinião de Apter e nem
ao formular, pela primeira vez, uma noção de “literatura mundial”, muito menos na de Achugar, fica entendido que deva haver um forte
inclui também em tal noção “uma espécie de imperativo estético debate no âmbito da teoria e da crítica literária, e não só em torno
que é também ético”. do Weltliteratur, “mas também das implicações políticas e culturais
De acordo com o autor de Planetas sem boca, o retorno aos gregos que esse instrumento teórico estabelece no debate contemporâneo,
em busca da “beleza humana” não é casual e reafirma a genealogia em termos de presente globalização.”118 Esse debate, nas palavras
hegemônica da chamada cultura ocidental, que é permanente e que do crítico, está associado a questões de “Literatura comparada”,
se contrapõe ao “resto”. É a partir desse sujeito do conhecimento mas também vinculado ao mais geral do universalismo versus
criado por Goethe, que ele se apropria do mundo outro, ou do mundo particularismo.
dos outros, nas palavras de Achugar. Sem concordar plenamente com Achugar, entendo que tais
Noutra cena de seu texto, na qual mostra que Marx e Engels conceitos endossam a discussão em torno de uma possível literatura
também mencionam o termo “literatura mundial” no Manifesto geral, na medida em que conceitos como local, pós-colonial,
comunista, Achugar argumenta que a noção esta “ligada tanto diaspórico, entre outros, discutem diferenças entre povos, nação,
ao estabelecimento de uma nova ordem mundial — na qual o línguas e, por conseguinte, manifestações culturais específicas. Que
nacional pareceria ter começado a perder significado — como ao o mundo, e por extensão, a cultura, é global, parece ser um consenso
desenvolvimento do mercado mundial.”115 Tendo por base o que deste século XXI; o que não parece, nem pode ser um consenso, seria
postula Achugar, e considerando a cultura do dinheiro na qual a convicção de que não se pode estudar as especificidades culturais
estamos imerso neste século XXI, posso dizer que o termo “literatura de uma nação, lugar ou local, sem passar, necessariamente, pelo
mundial” nunca esteve tão contextualizado e literalmente na moda global. Na verdade, o modo de ler tais especificidades já traz em
como nos dias atuais. sua episteme a consciência desse Universal Global, mas não pode
Mais adiante em seu texto, ao discutir o que propunha Franco ser mais a condição para se interpretar o traço caracterizador das
Moretti (2000), de que as metáforas árvores e ondas tentam resolver especificidades culturais locais.
a oposição dualista de Goethe (literatura nacional X literatura Após fazer a pergunta sobre o que fazer com a narrativa
mundial), o crítico uruguaio chega num dos pontos que mais nos contemporânea na América Latina, Achugar, na esteira de Volpi,
interessa em seu capítulo. Lembra-nos que Emily Apter mostra um Fuguet e outros presentes em seu ensaio, indaga que parece que
problema que Moretti deixa sem solução, e que, apesar de Apter não se deveria dissolver o nacional e também as categorias regionais. E, por
se deter na análise de Moretti, Apter considera e aponta diversos fim, refere-se ao tema dos universais implícito na noção goethiana
paradigmas: de Weltliteratur. Depois de perguntar se é válido discutir a categoria
de literatura universal, ou mundial, ou cosmopolita, Achugar se
‘literatura global’(Jameson; Masao Miyoshi),
pergunta: “podemos e, sobretudo, devemos escapar da armadilha
Cosmopolitismo (Bruce Robbins; Timothy
Bresinam), literatura mundial (Damrosch; Moretti), do dilema nacional versus global ou universal? Que sentido tem falar
transnacionalismo literário (Spivak), Estudos pós- da universalidade de Homero, Goethe, Borges, García Márquez,
coloniais e estudos diaspóricos (Said; Bhabha; Lionnet;
Chow). Ela esquece de mencionar o ‘Cosmopolitismo’ Clarice Lispector, Rigoberta Menchú, Paulo Lins, Paul Auster ou
à Appadurai, Chakrabarty, Mignolo e cia (que, Onetti? Ou, haverá universalidades mais universais que outras?”119
lamentavelmente, não tenho tempo de discutir neste
momento), mas considera críticos como Lowe, Gipta, Em vista do exposto, Achugar constata que essa discussão
Pratt, Balobar, Robbins e muitos outros.116 deveria levar o crítico, ou mesmo obrigá-lo, a repensar alguns
temas; entre os mais óbvios, destaca: “os das literaturas nacionais,
Na sequência, Achugar parece endossar as proposições de
das tradições locais, mas também o tema dos valores, do cânone
Apter, para quem tais paradigmas, mesmo quando prometem um
e, sobretudo, o que se supõe que devemos transmitir às gerações
compromisso vital com tradições não ocidentais, “não oferecem soluções
vindouras.”120 A outra questão a que isso obriga o crítico a repensar
metodológicas ao problema pragmático de como fazer críveis as
comparações entre diferentes línguas e literaturas.”117 Já que tais
115 ACHUGAR. Planetas sem boca, p. 71. 118 ACHUGAR. Planetas sem boca, p. 77.
116 ACHUGAR. Planetas sem boca, p. 77. 119 ACHUGAR. Planetas sem boca, p. 78.
117 ACHUGAR. Planetas sem boca, p. 77. 120 ACHUGAR. Planetas sem boca, p. 79.
82 LITERATURA COMPARADA EaD•UFMS EaD•UFMS LITERATURA COMPARADA E ESTUDOS CULTURAIS 83

as preocupações intelectuais e políticas, como as do próprio como Hamlet disse a Horácio. Nem tanto ao céu, nem tanto à
crítico uruguaio, trata-se do sujeito da narração que “construímos terra, quando o assunto for universal e particular, global e local,
para poder contar a história do que, até hoje, foi conhecido como sobretudo nos dias atuais. Só uma perspectiva não-binária nos
‘Literatura e cultura latino-americana’”. Ou seja, ainda nas palavras permitiria enfrentar tal dualismo sem grandes medos. Agora, uma
do crítico, repensar a questão do sujeito do conhecimento em termos do coisa é fato neste início de século, e isso quem vem nos ensinando
nacional, do regional, do universal, dos despossuídos, dos marginais, dos é a própria crítica nesta virada de século, a reflexão contemporânea
subalternos, do colonial. Nesse ponto, Achugar lembra de Said, que converge para o mapeamento dos localismos, como forma, talvez,
toma a acepção do sujeito como uma máscara ou personae poética, de de compreendermos melhor o universal do outro. Como já dissemos
Mary Louse Pratt que, ao discutir “literatura comparada na época em “Para onde devem voar os pássaros depois do último céu? “o
do multiculturalismo”, concebe o sujeito como um “cidadão global”, universal é alhures”. Que o crítico na contemporaneidade não esteja
descrevendo-o como “gente multilíngue” ou multicultural que tem com os dois pés no presente e olhando para o passando achando
uma “cidadania global”, e de Lídia Santos, que vê o sujeito como que, assim, compreenderá melhor o próprio presente. Ledo engano
um “sujeito cosmopolita”, além de lembrar do “sujeito migrante”, crítico.
de Antonio Cornejo Polar.121 Ao invés de querer entender que De agora em diante, detenho-me na “Introdução” ao livro
Achugar se volta para uma possível ideia de sujeito cosmopolita, de Bhabha, intitulada “Locais da cultura”, como já se disse. Antes,
quero pensar que ele esta propondo a discussão desse sujeito. E porém, convenha-nos dizer que a leitura de Achugar contrapõe-
mais: que repensar quaisquer dessas categorias, como a de sujeito se à de Bhabha, por ser esta uma leitura eminentemente pós-
subalterno, requer um posicionamento político-crítico próprio, bem colonial. No capítulo 2 de Planetas sem boca, intitulado “Leões,
como uma prática comparativista que saiba ler ambos os sujeitos caçadores e historiadores: a propósito das políticas da memória e
nela implicados na diferença. do conhecimento”, o crítico uruguaio deixa clara sua oposição. Da
Hugo Achugar termina seu texto lembrando-nos da “Introdução” de Bhabha, vamos chamar a atenção apenas para as
necessidade de se discutir noções como “literatura universal” e passagens que, de alguma forma, ilustram nossa discussão aqui
“cultura universal”, entre as diferentes comunidades acadêmicas, ou entre que se dá em torno do que Bhabha diz sobre a noção de “literatura
as diversas partes do mundo. A argumentação do crítico implica ainda mundial” de Goethe. Entendo que o modo como Bhabha lê a noção
descartar ou desconfiar da afirmação “de que o local é relevante de Weltliteratur, ou seja, de dentro de uma leitura assentada na
de um modo ou de uma maneira diferente; isto é, que as tentativas perspectiva pós-colonial, já mostra uma diferença entre sua leitura
de se escrever literatura universal, quer seja na Cidade do México, e a de Achugar. Talvez aqui resta-nos perguntar, com uma certa
Berlim, Filadélfia, Paris, Ancara, Montevidéu ou Moçambique, pode ironia, qual seria a perspectiva crítica que embasa a leitura do
ser um projeto eurocêntrico que necessita ser mais discutido.”122 crítico uruguaio, já que, como todos sabemos, ele fala do lugar/local
Sem querer discordar do crítico, mas levando-se em conta o chamado Uruguai.
contexto cultural e político no qual nos encontramos, entendo que o À página 23 de sua “Introdução”, Bhabha diz algo que marca
projeto de se escrever literatura, ou de fazer qualquer arte universal, a diferença de sua leitura:
hoje, é mais do que falido, posto que é impossível. Antes de mais
O presente não pode mais ser encarado simplesmente
nada, deveríamos nos perguntar: universal em relação a quem, ou
como uma ruptura ou um vínculo com o passado e
a quê? E mesmo se soubéssemos tal resposta, será que de fato nos o futuro, não mais uma presença sincrônica: nossa
interessaria saber? Ou melhor: teria um valor a mais? Talvez tivesse autopresença mais imediata, nossa imagem pública,
vem a ser revelada por suas descontinuidades, suas
um valor ético, estético, político, cultural, que fosse bom para toda a desigualdades, suas minorias. Diferentemente da
humanidade, mas que, no fundo, não passaria de utópico, uma vez mão morta da história que conta as contas do tempo
sequencial como um rosário, buscando estabelecer
que nunca realizável na face da terra. conexões seriais, causais, confrontamo-nos agora com
Crítico cuidadoso que é, Achugar conclui que esse assunto o que Walter Benjamin descreve como a explosão de
um momento monâdico desde o curso homogêneo da
em torno do universal merece especial atenção porque “há mais história, ‘estabelecendo uma concepção do presente
coisas entre o céu e a terra, Hugo, do que pode sonhar tua filosofia”, como o ‘tempo do agora’.123

121 Cf ACHUGAR. Planetas sem boca, p. 79.


122 ACHUGAR. Planetas sem boca, p. 80. 123 BHABHA. O local da cultura, p. 23.
84 LITERATURA COMPARADA EaD•UFMS EaD•UFMS LITERATURA COMPARADA E ESTUDOS CULTURAIS 85

Na sequência, Bhabha diz que cada vez mais “as culturas conflitos mútuos.”128 Até aí, tudo bem. E Bhabha, não diferente de
‘nacionais’ estão sendo produzidas a partir da perspectiva de outros, como Achugar, constata a leitura “eurocêntrica” de Goethe.
minorias destituídas. O efeito mais significativo desse processo Mas tendo por base a afirmação de Goethe, Bhabha propõe uma
não é a proliferação de ‘histórias alternativas dos excluídos, que inversão da literatura mundial: a “natureza interna de toda a nação,
produziriam, segundo alguns, uma anarquia pluralista.”124 Continua assim como a de cada homem, funciona de forma inconsciente.”129
dizendo que “a moeda corrente do comparativismo crítico ou do Quando isso ocorre, para Bhabha pode haver a ideia
juízo estético, não é mais a soberania da cultura nacional concebida,
de que a literatura mundial possa ser uma categoria
como propõe Benedict Anderson, como uma ‘comunidade
emergente prefigurativa, que se ocupa de uma forma
imaginada’ com raízes em um ‘tempo vazio homogêneo’ da de dissenso e alteridade cultural onde termos não
modernidade e progresso.”125 consensuais de afiliação podem ser estabelecidos
com base no trauma histórico. O estudo da literatura
Bhabha deixa claro que a crítica pós-colonial dá testemunho mundial poderia ser o estudo do modo pelo qual as
de países, comunidades e lugares constituídos “de outro modo que culturas se reconhecem através de suas projeções
de ‘alteridade’. Talvez possamos agora sugerir que
não a modernidade”. Para ele, tais culturas de contra-modernidade histórias transnacionais de migrantes, colonizados ou
pós-colonial “podem ser contingentes à modernidade, descontínuas refugiados políticos – essas condições de fronteira e
divisas – possam ser o terreno da literatura mundial,
ou em desacordo com ela, resistentes a suas opressivas tecnologias em lugar da transmissão de tradições nacionais, antes
assimilacionistas; porém, elas também põem em campo o o tema central da literatura mundial.130
hibridismo cultural de suas condições fronteiriças para ‘traduzir’, e
Veja, leitor sagaz, que Bhabha subverte por completo a
portanto reinscrever, o imaginário social tanto da metrópole como
proposta da Literatura Comparada no Ocidente: de cosmopolita,
da modernidade.”126 (Aqui vale a pena lembrar que o hibridismo
digamos, passaria a subalterna. Para ele, “o centro de tal estudo não
de Bhabha contrapõe-se radicalmente ao de Canclini em Culturas
seria nem a ‘soberania’ de culturas nacionais nem o universalismo
híbridas, posto que este parece ler a hibridez de-dentro do velho
da cultura humana, mas um foco sobre aqueles ‘deslocamentos
projeto moderno da América Latina. Podemos, por extensão, pensar
sociais e culturais anômalos’ que Morrison e Gordimer representam
que a hibridez de Bhabha contrapõe-se também à heterogeneidade
em suas ficções ‘estranhas.’”131 De meu ponto de vista, é a esse “nem
proposta por Achugar. Mas não é meu propósito discutir isso neste
o universalismo da cultura humana” que a leitura de Achugar não
momento.).
consegue rechaçar; muito pelo contrário, toda sua leitura converge
O que o autor de O local da cultura defende caminha na
para o fortalecimento desse humanismo demasiado humano.
contramão de um diálogo com a tradição e, por extensão, com um
Parece-me que a leitura defendida pelo crítico uruguaio reforça
possível cordão umbilical que se ligaria à origem, isto é, ao universal.
aquele velho projeto de modernidade ideal para se compreender
Nesse sentido, vejamos o que diz Bhabha:
a América latina. Quero pensar que enquanto a crítica endossa tal
o trabalho fronteiriço da cultura exige um encontro projeto, as produções culturais latino-americanas virão sempre a
com ‘o novo’ que não seja parte do continuum de reboque do que se fez em nome de uma também velha Civilização
passado e presente. Ele cria uma ideia do novo como ato
insurgente de tradução cultural. Essa arte não apenas Ocidental. O projeto da modernidade parece ter naufragado em
retoma o passado como causa social ou precedente meio às diferenças, ou heterogeneidades, que caracterizam os povos,
estético; ela renova o passado, refigurando-o como
um ‘entre-lugar’ contingente, que inova e interrompe as línguas e as culturas que constituem a América Latina com sua
a atuação do presente. O ‘passado-presente’ torna-se diversidade cultural ímpar.
parte da necessidade, e não da nostalgia, de viver.127
Parodiando Homi Bhabha, que se vale de uma frase da
Ao se referir à noção de “literatura mundial” de Goethe, escritora Morrison, diria que em se tratando do modo crítico de ler
Bhabha propõe uma leitura no mínimo inovadora. Segundo ele, a América latina e, por extensão, suas produções culturais, algo está
“Goethe sugere que a possibilidade de uma literatura mundial fora de controle, mas não fora da possibilidade de organização.132 Tal frase
surge da confusão cultural ocasionada por terríveis guerras e
128 BHABHA. O local da cultura, p. 32.
124 BHABHA. O local da cultura, p. 25. 129 Apud BHABHA. O local da cultura, p. 33.
125 BHABHA. O local da cultura, p. 25. 130 BHABHA. O local da cultura, p. 33.
126 Cf BHABHA. O local da cultura, p. 26. 131 BHABHA. O local da cultura, p. 33.
127 BHABHA. O local da cultura, p. 27. 132 Cf BHABHA. O local da cultura, p. 34.
86 LITERATURA COMPARADA EaD•UFMS EaD•UFMS LITERATURA COMPARADA E ESTUDOS CULTURAIS 87

da escritora torna-se, segundo o crítico, uma declaração sobre a manifestações culturais, como o próprio texto literário, por fora
responsabilidade política do crítico: “o crítico deve tentar apreender da perspectiva binária e moderna por excelência que predominou
totalmente e assumir a responsabilidade pelos passados não ditos, e ainda predomina nas leituras feitas das produções latino-
não representados, que assombram o presente histórico.”133 Nessa americanas. (Vale a pena lembrar aqui que discursos críticos, hoje,
direção, faço uma digressão crítica no tempo mas com a intenção que não sabem tratar devidamente de conceitos como local, lugar,
de avançar: se, antes, Roland Barthes falava em um compromisso regionalismos, locus cultural, zona de contato, estão caminhando
com a forma, talvez influenciado por um alto modernismo, agora, e para trás quando se trata da redefinição, inclusive conceitual, que
cada vez mais, podemos dizer que a responsabilidade do crítico deve estudos culturais (subalternos) têm propostos para uma nova
passar pelo conteúdo, ou seja, ler as produções culturais (culturas, América Latina.).
povos, histórias) de-dentro delas para fora, privilegiando, assim, o Todo o resto da “Introdução” ao livro de Bhabha dá-se em
locus, ou contexto histórico-cultural no qual elas foram geradas. torno da discussão do binarismo. Na esteira dos romances que
As formas ainda podem até ser importadas, mas os conteúdos analisa, bem como pelo que propõe Levinas, Bhabha lembra-
estão atravessados por seu bio e pelo bio do sujeito-produtor. De nos que “a ‘arte-mágica’ do romance contemporâneo reside em
tudo, uma coisa já ficou clara, pelo menos no campo da crítica na sua maneira de ‘ver a interioridade a partir do exterior.”135 Ver o
contemporaneidade: a necessidade de localização, de locus, do interior tendo por base o exterior, ou vendo o interior passando
sujeito crítico, como forma de não incorrer mais em leituras que pelo exterior, pode ser um alerta necessário para desbaratar aquela
poderiam soar em falso no tocante ao contexto cultural no qual o leitura binária que está calcada na relação fora e dentro, universal
objeto, ou produção cultural, foi pensado. Se pararmos para pensar e particular, antes e depois etc, como se esta fosse a condição à
atentamente, veremos que tal localização por parte da persona crítica qual estivéssemos condenados a respeitar. A lição ensinada por
também caminha na contracorrente daquele velho universalismo Bhabha requer um movimento de afastamento de um mundo concebido
que, quase sempre, encobria feito um fantasma que retorna num em termos binários, requer um afastamento do político como prática
contexto para o qual não pode ter nenhum valor. Devo lembrar pedagógica, ideológica, da política como necessidade vital do
aqui, na esteira do que postulam os estudos subalternos, que o cotidiano — a política como performatividade.
crítico nunca estaria completamente habilitado para falar pelo Nesse sentido, podemos dizer que também a crítica
outro, principalmente quando este outro se inscreve na cultura sob contemporânea, apesar de estar pensando aqui especificamente
a rubrica de minorias, uma vez que nunca ocuparia o lugar desse no comparatismo cultural hoje, não devesse passar, talvez, de uma
outro. Nessa direção, falar pelo outro implica reforçar aquela ideia performance, de natureza crítica e política ao mesmo tempo.
universalizante, ou pelo menos de um discurso universalizante que Para dar por encerrada essa breve discussão em torno do
partiria daquela ideia do “isso é bom para todos”. Não por acaso, papel e lugar da teoria comparatista nos dias atuais, retomo uma
Bhabha nos diz que a relação entre pergunta que Denílson Lopes faz ao abrir seu ensaio “Notas sobre
crítica e paisagens transculturais”: “qual seria o papel do crítico de
público e privado, passado e presente, o psíquico e
crítica de cultura e de arte diante dos desafios da globalização que
o social desenvolvem uma intimidade intersticial. É
uma intimidade que questiona as divisões binárias se intensificaram a partir dos anos 90, simbolicamente iniciados
através das quais essas esferas da experiência com a queda do Muro de Berlin e ampliados pelos eventos de 11
social são frequentemente opostas espacialmente.
Essas esferas da vida são ligadas através de uma de setembro?”136 Quero entender que, ressalvadas as diferenças
temporalidade intervalar que toma a medida de que possam haver, a mesma pergunta vale para o comparatista
habitar em casa, ao mesmo tempo em que produz uma
imagem do mundo da história. Este é o momento de cultural hoje. Desse modo, não resisto à tentação de perguntar
distância estética que dá à narrativa uma dupla face qual seria o papel do comparatista hoje depois da exaustão da
que, como o sujeito sul-africano de cor, representa um
hibridismo, uma diferença ‘interior’, um sujeito que própria disciplina Literatura comparada? A pergunta fundamenta-
habita a borda de uma realidade ‘intervalar’.134 se quando constatamos que a disciplina teve que acompanhar as
demais tendências críticas que surgiram nesta virada de século,
Intimidade intersticial, temporalidade intervalar, hibridismo
como os Estudos culturais e os Estudos subalternos, por exemplo.
e realidade intervalar são palavras que nos ajudam a ler as
133 BHABHA. O local da cultura, p. 34. 135 BHABHA. O local da cultura, p. 38.
134 BHABHA. O local da cultura, p. 35. 136 LOPES. A delicadeza, p. 21.
88 LITERATURA COMPARADA EaD•UFMS EaD•UFMS LITERATURA COMPARADA E ESTUDOS CULTURAIS 89

Nunca é demais lembrar que a disciplina que, pelo menos no Brasil, continental que torna a periferia um fetiche.”140
sempre defendeu a abertura, como a interdisciplinaridade e a Veja, leitor incansável, que a Literatura comparada continua
transdisciplinaridade, teve parte de seus estudos recuados frente aos a propor desafios sem parar, ao invés de propor comparações
Estudos culturais. Constata-se tal afirmação em livros específicos de relativistas, dualistas e reducionistas.
Literatura comparada publicados no país nas duas últimas décadas.
Sobre isso, já sinalizamos as pistas; que o leitor saiba correr atrás Leituras obrigatórias:
para se informar melhor sobre tal discussão. ACHUGAR, Hugo. Planetas sem boca: escritos efêmeros sobre arte,
Corrobora nossa discussão o que Lopes afirma na sequência: cultura e literatura. Trad. de Lyslei Nascimento. Belo Horizonte:
“defendo a importância de um crítico que saiba transitar por Editora UFMG, 2006.
fronteiras culturais e não seja necessariamente especialista em BHABHA, Homi K. O local da cultura. Trad. de Myriam Ávila, Eliana
uma cultura nacional, nem procure resgatar esta categoria, nem se Lorenço de Lima Reis, Gláucia Renate Gonçalves. Belo Horizonte:
situa apenas a partir de um olhar abstrato, teórico, filosófico, sem Editora UFMG, 1998.
se relacionar com as obras artísticas, produtos culturais e práticas Demais referências:
sociais.”137 AHMAD, Aijaz. Linhagens do presente. Trad. De Sandra G.
Entendemos que se encontra aí uma possível conceituação Vasconcelos. São Paulo: Boitempo Editorial, 2002.
para o que podemos chamar de comparatista cultural hoje, uma CADERNOS DE ESTUDOS CULTURAIS: estudos culturais. Campo
vez que compete a essa figura ocupar um não-lugar, ou entre-lugar Grande-MS: Ed. UFMS, v. 1, n. 1, p. 1-135, jan./jun. 2009.
(S. Santiago) por excelência, situando-se numa relação intervalar CADERNOS DE ESTUDOS CULTURAIS: Literatura comparada
entre os discursos e as disciplinas, que saiba cruzar as fronteiras de hoje. Campo Grande-MS: Ed. UFMS, v.1, n.2, p. 1-180, jul./dez. 2009.
linguagens sem se voltar para um nacionalismo chinfrim. Assim, CARVALHAL, Tania Franco. O próprio e o alheio: ensaios de literatura
um comparatista cultural hoje seria aquela persona “que dialoga, comparada. São Leopoldo: Editora Unisinos, 2003.
que tem gosto, opinião, que intervém, que faz apostas.” 138 CEVASCO, Maria Elisa. Dez lições sobre estudos culturais. São Paulo:
Curiosamente, Denílson Lopes lança outra pergunta que, a seu Boitempo Editorial, 2002.
modo, poderia ter desencadeado a discussão que propomos aqui: CULLER, Jonathan. Teoria literária: uma introdução. Trad. de
“para onde foi parar a fecundidade do comparatismo brasileiro nos Sandra G. Vasconcelos. São Paulo: Beca Produções Culturais Ltda,
estudos literários tão produtivos dos anos 70 aos anos 90?”139 Grosso 1999.
modo, entendemos que a saída pode estar na atitude do crítico CUNHA, Eneida Leal. In: MARQUES, Reinaldo e BITTENCOURT,
comparatista cultural não agir mais de forma dualista, disciplinar, Gilda Neves (org.). Limiares críticos. Belo Horizonte: Autêntica, 1998,
supervalorizando como outrora ocorrera com a própria Literatura p. 65-71: Literatura comparada e estudos culturais.
comparada. Podemos dizer que nos anos 70 e 80 era até entendível LOPES, Denílson. Notas sobre crítica e paisagens transculturais. In:
o discurso crítico ser mais fechado numa visada disciplinar, como CADERNOS DE ESTUDOS CULTURAIS: crítica contemporânea.
de fato ocorrera, mas que, depois de metade dos anos 90, qualquer Campo Grande-MS: Ed. UFMS, v.1, n.3, p. 1-155, jan./jun. 2010 p.
leitura crítica que não leve em conta aquela tarefa cumprida à 21-28.
exaustão pela própria Literatura comparada, no tocante à quebra de NOLASCO, Edgar Cézar. Literatura comparada hoje: estudar
paradigmas, por exemplo, está fadada ao esquecimento. Compete literatura brasileira é estudar literatura comparada? In: CADERNOS
ao comparatista cultural buscar criar novos conceitos, novas formas de DE ESTUDOS CULTURAIS: literatura comparada hoje. Campo
ver o mundo. Grande-MS: Ed. UFMS, v.1, n.2, p. 1-180, jul./dez.2009.
Por fim, como reitera Lopes, “os desafios são tantos e o SOUZA, Eneida Maria de. Crítica cult. Belo Horizonte: Editora da
tempo tão pouco, muito há para se construir para além de um UFMG, 2002.
universalismo ocidentocêntrico mas que ao ocidente não recusa,
para além da ilusão de um provincianismo localista, nacionalista ou

137 LOPES. A delicadeza, P. 21.


138 LOPES. A delicadeza, p. 21.
139 LOPES. A delicadeza, p. 24. 140 LOPES. A delicadeza, p. 25.
CAPITULO IV

LITERATURA COMPARADA NA FRONTEIRA


CAPÍTULO IV

LITERATURA COMPARADA NA FRONTEIRA

Para a discussão que propomos neste último capítulo, e


seu título já prenuncia, duas conceituações do que seja Literatura
comparada, ambas antes transcritas por nós entre várias outras,
ilustram ao mesmo tempo em que contornam o limite de nossa
proposição. A primeira é a do comparatista francês Marius-François
Guyard, na qual ele afirma que “a literatura comparada é a história
das relações literárias internacionais”, para dizer em seguida que “o
comparatista se encontra nas fronteiras, linguísticas ou nacionais,
e acompanha as mudanças de temas, de ideias, de livros ou de
sentimentos entre duas ou mais literaturas.”141 Na verdade, da
discussão proposta pelo comparatista interessa-nos, aqui, apenas
essa ideia de situação de fronteira, de margem, na qual se encontra
todo comparatista para ele. Mas, em todo caso, vejamos a definição
de Guyard na íntegra:

A literatura comparada é a história das relações


literárias internacionais. O comparatista se encontra
nas fronteiras, linguísticas ou nacionais, e acompanha
as mudanças de temas, de ideias, de livros ou de
sentimentos entre duas ou mais literaturas. Seu

141 Apud COUTINHO & CARVALHAL. Literatura comparada: textos


fundadores, p. 97.
94 LITERATURA COMPARADA EaD•UFMS EaD•UFMS LITERATURA COMPARADA NA FRONTEIRA 95

método de trabalho deve-se adaptar á diversidade de agosto de 1985, na Place de la Sorbonne, os brasileiros
suas pesquisas. Há, no entanto, condições prévias que presentes decidiram criar a Associação Brasileira de
ele deve preencher, não importa qual seja a direção Literatura Comparada. Assim, a ABRALIC surgiu
que pretenda tomar: um certo “equipamento”, como em 1986, em Porto Alegre, no âmbito do I Seminário
diz Van Tieghem, lhe é indispensável. (Marius- Latino-americano de Literatura Comparada,
François Guyard. Objeto e método da literatura realizado de 8 a 10 de setembro na Universidade
comparada, p. 97-107) Federal do Rio Grande do Sul, com a participação
de comparatistas europeus e latino-americanos. A
imagem reproduzida no cartaz, nos folders e, depois,
Os organizadores do livro Literatura comparada: textos
nos Anais, era expressiva: o fragmento da cena
fundadores, Eduardo de F. Coutinho e Tania F. Carvalhal, resumiram canibalesca que emoldura a reedição fac-similada
muito bem a proposta conceitual de Guyard: da Revista de Antropofagia em suas “dentições” de
1928 e 1929. A Antropofagia foi então o emblema,
por sua radicalidade estética e enquanto proposta de
A definição de Guyard tem o interesse de conferir um reinterpretação cultural do país.
tônus mais científico à disciplina e de acentuar seu
caráter internacional, mas está bastante comprometida
com a perspectiva historicista, e o livro peca pelo Essa passagem, ou melhor, a criação da ABRALIC, de alguma
teor excessivamente normativo e pela ênfase que dá forma é ilustrativa do que dissera Guyard, quando afirma que a
aos estudos de fontes e influências. Com tudo isso,
porém, é um texto que não pode passar despercebido
Literatura comparada é a história das relações literárias internacionais:
ao estudioso da Literatura Comparada.142 os brasileiros tiveram a ideia da criação da ABRALIC na Europa
e depois fundaram, de fato, a Associação não por acaso dentro de
Que o comparatista brasileiro, desde o início, se encontrava um Seminário latino-americano de Literatura comparada. Paris
numa condição de fronteiriço, por sua condição de homem fora do (Europa), Porto Alegre (Brasil) e América Latina traduzem não
grande centro, fora da metrópole (Europa), vivendo na periferia apenas as relações literárias, ao que acrescentamos agora culturais,
do mundo civilizado é um fato histórico que pode ter servido de internacionais, de que fala o comparatista francês na passagem,
estofo para uma boa aceitação e compreensão dos postulados da como também explicita as fronteiras linguísticas, nacionais e
Literatura comparada nos trópicos. culturais nas quais se encontra todo comparatista. Sabedora que
Mas, dessa vez, não é necessariamente para a figura do era dessa sua função e papel multi e transdisciplinar, a ABRALIC,
comparatista que queremos chamar a atenção. E sim para a criação desde sua fundação(1986), exerceu o trabalho de descentralização,
da Associação Brasileira de Literatura Comparada (ABRALIC), na permitindo que seu Encontro ocorresse em instituições brasileiras
Universidade federal do Rio Grande do Sul, em Porto alegre, cujo diferentes, a cada biênio. Além desse caráter descentralizador e
Estado faz fronteira com os países Uruguai e Argentina. congregador que marca a história da ABRALIC dentro do país, a
Associação também, tendo como representante e porta-voz um de
4.1 Sob a égide de uma associação ao sul seus fundadores e primeira presidente a comparatista brasileira
Tânia Franco Carvalhal (UFRGS), espraiou-se por quase toda a
Esclareço, antes de mais nada, e ao mesmo tempo informo América latina, na medida em que outras associações foram criadas
ao meu leitor sedento, que parte das informações aqui oferecidas naqueles países vizinhos.
encontram-se no endereço eletrônico www.abralic.org.br. Sobre isso, no número 8 da Revista Brasileira de Literatura
Encontramos, por exemplo, esta breve História da ABRALIC: Comparada, aliás número especial que contém o dossiê “ABRALIC:
o passado, o presente e o futuro”, Carvalhal faz um balanço
No verão europeu de 1995, Paris foi sede do XI
Congresso da Associação Internacional de Literatura significativo da associação:
Comparada. As salas da antiga Sorbonne foram escassas
para o número de participantes. Nelas circularam Vinte anos depois de sua fundação na Universidade
especialistas vindos de todos os lugares e era possível Federal do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre,
encontrar figuras chaves na história do comparatismo. a Associação Brasileira de Literatura Comparada
Para os jovens estudiosos, principalmente aqueles consolidou-se plenamente como entidade capaz
oriundos de países como o Brasil, a participação no de reunir estudiosos de Literaturas e de áreas
Congresso AILC/ICLA significou integrarem-se em afins, constituindo-se em um pólo convergente de
um universo de debates onde cruzavam-se línguas, inquietantes e discussões intelectuais não só no Brasil
culturas e diversas vertentes metodológicas. Naquele como em outros países da América Latina. A partir da
142 COUTINHO & CARVALHAL. Literatura comparada: textos funda-
dores, p. 353 (Autores)
96 LITERATURA COMPARADA EaD•UFMS EaD•UFMS LITERATURA COMPARADA NA FRONTEIRA 97

ABRALIC, o movimento associativo ganhou corpo na trocas de conhecimento, constituindo-se uma comunidade que se
Argentina, no Uruguai e no Peru e está por alcançar
outras regiões sob o estímulo do Comitê de Estudos
organiza e que atua de acordo com aquilo a que a cada etapa se
Latino-americanos da Associação Internacional de propõe.”147
Literatura Comparada (AILC/ICLA) que tem entre
Sob a égide do cavaleiro errante pelas fronteiras culturais, a
seus objetivos centrais a 143constituição de novas
associações na área que facilitem os contatos entre Literatura comparada vive, segundo a comparatista, a aventura
estudiosos e o intercâmbio intelectual entre eles.144 dos tempos e enfrenta, na formulação de perguntas, a sua permanente
validação. Temos aqui, leitor persistente, mais do que uma possível
Os motivos que tornam a leitura do texto de Carvalhal
conceituação do que seja Literatura comparada, uma orientação
obrigatória são muitos. Destaco dois aspectos relevantes: o primeiro
sobre o papel e a função do comparatista nos dias atuais: “o
é que a criação de uma Associação como a ABRALIC “respondeu
comparatista contrasta os textos e as personagens em uma reflexão
não só à necessidade cultural de um momento dado, mas continua
que permite a releitura dos mitos e das lendas, dos gêneros e da
a atender aos interesses de seus associados.” O segundo é que a
ideia de romance até o ponto de se interrogar sobre o que mudou no
ABRALIC, “para atender o comparatismo na variedade de suas
mundo e nas relações humanas para que um cavaleiro passe de uma
práticas e no amplo campo interdisciplinar a que corresponde,
presença que se impõe a sua própria invisibilidade.”148 Nessa altura,
acolheu diversos especialistas, não só de literatura mas de áreas
leitor companheiro, você já deve ter percebido que as leituras quase
afins, favorecendo o desenvolvimento de múltiplas orientações
todas são meio comparatistas, permitindo, por conseguinte, que
teórico-críticas.”145
tomemos a figura do leitor como aquele verdadeiro comparatista.
No mesmo texto, Carvalhal pontua a importância que a
Veja que até você foi pressa fácil desse mundo que propõe associações
Associação teve para a consolidação da disciplina Literatura
e comparações as mais variadas literárias e culturalmente falando.
comparada no Brasil:
Ainda no sítio da Associação, encontramos esta Apresentação
Se pensarmos na história de nossa disciplina, da ABRALIC:
faz-se necessário sublinhar que ela adquiriu um
funcionamento sistemático e tornou-se muito mais A Associação Brasileira de Literatura Comparada _
do que uma atividade acadêmica discreta e por ABRALIC é uma associação civil de caráter cultural,
vezes marginal. Hoje, a literatura comparada tem sem fins lucrativos, que congrega professores
seu espaço próprio no mundo universitário de universitários, pesquisadores e estudiosos de
vários países e agrada-nos pensar que as associações Literatura Comparada em âmbito nacional. Os
literárias, como a Abralic e a AILC/ICLA, tiveram objetivos fundamentais de nossa entidade são os
um papel fundamental para o seu reconhecimento de fomentar os estudos comparatistas nos cursos
institucional. O movimento associativo, certamente, de graduação e pós-graduação em Letras por
ajudou o funcionamento da literatura comparada meio da promoção de seminários, simpósios e
em sua condição de prática crítica e de instrumento cursos destinados ao público acadêmico. Desde
legitimador, o que facilitou a difusão da disciplina.146 sua fundação, a ABRALIC mantém publicações
especializadas em Literatura Comparada e realiza
O que diz a comparatista na passagem justifica sobremaneira a divulgação de obras científicas e literárias dessa
área de interesse, assim como estimula o intercâmbio
o fato de estarmos tratando, mesmo que de forma breve, sobre a cultural com outras entidades congêneres nacionais e
Associação. Fica evidente que foi devido à ABRALIC que se efetivou, de âmbito internacional.
no país, a consolidação do ensino da disciplina. O objetivo para o
Com base na passagem, convém dizer ao leitor interessado
qual este MANUAL está sendo produzido ilustra, de forma ímpar,
que, nesses 25 anos de existência, a ABRALIC acolheu professores
os rumos diversos e variados que a Literatura comparada tomou
de todas as formações literárias e áreas afins, estimulando um
no país. Nesse sentido, podemos afirmar que até a distância (EAD:
debate literário e cultural profícuo para todos os envolvidos nos
Educação Aberta e a Distância), de forma aberta e plural, a disciplina
eventos. Aliás, não seria demais lembrar novamente do que dissera
conseguiu chegar para todos desse país de proporções territoriais
o crítico brasileiro Antonio Candido de que estudar literatura
imensas. Sempre na esteira de Carvalhal, as associações “favorecem
brasileira é estudar literatura comparada. Redobra-se em importância
os contatos, consolidam-se trabalhos em conjunto e efetuam-se
143 CARVALAHL. Sob a égide do cavaleiro errante, p. 11-12.
a afirmativa de Candido quando lembramos que sua conferência
144 CARVALHAL. Sob a égide do cavaleiro errante, p. 11. fora proferida exatamente no 1° Congresso da ABRALIC, realizado
145 CARVALHAL. Sob a égide do cavaleiro errante, p. 11. 147 CARVALHAL. Sob a égide do cavaleiro errante, p. 15.
146 CARVALHAL. Sob a égide do cavaleiro errante, p. 15. 148 CARVALHAL. Sob a égide do cavaleiro errante, p. 17.
98 LITERATURA COMPARADA EaD•UFMS EaD•UFMS LITERATURA COMPARADA NA FRONTEIRA 99

no Instituto de Letras da Universidade Federal do Rio Grande a partir da fronteira seca de nosso país, está condenada a olhar
do Sul, em Porto Alegre.149 Além de comparatistas nacionais, sobre o front.
pesquisadores de modo geral, a ABRALIC sempre primou pela
presença de intelectuais convidados de outros países que trouxeram
suas valiosas contribuições críticas. Não convém aqui, leitor
esperto, mencionar o nome de todos os pesquisadores estrangeiros 4.2 A literatura comparada no extremo oeste do Brasil
que estiveram no Congresso. Sugiro que o leitor mais interessado
visite o endereço eletrônico da ABRALIC. Na página, entre outras Antes de mais nada, retomo a segunda conceituação de
informações, o leitor encontrará os números publicados da Revista Literatura comparada mencionada no parágrafo inicial deste
Brasileira de Literatura Comparada e outras publicações vinculadas à capítulo por captar, como já disse, o mundo semovente das relações
Associação. Pelos textos arrolados na Revista, tem-se uma história fronteiriças que especificam essas regiões de contato (região
que se desenha da crítica brasileira nesses últimos vinte e cinco anos, Sul e Centro-Oeste) do país. Dessa vez, trata-se do que dissera o
bem como uma história da própria ABRALIC e, por conseguinte, da comparatista Henry Remak:
institucionalização da Literatura comparada no Brasil.
A literatura comparada é o estudo da literatura além
Tendo como proposta temática Centro, centros; ética, estética, o
das fronteiras de um país específico e o estudo das
XII Congresso Internacional da Associação Brasileira de Literatura relações entre, por um lado, a literatura, e, por outro,
Comparada (ABRALIC) será realizado na Universidade Federal diferentes áreas do conhecimento e da crença, tais
como as artes (por exemplo, a pintura, a escultura,
do Paraná (UFPR), em Curitiba (PR), entre os dias 18 e 22 de julho a arquitetura, a música), a filosofia, a história, as
de 2011. Como justificativa e esclarecimento ao leitor da proposta ciências sociais (por exemplo, a política, a economia,
a sociologia), as ciências, a religião etc. Em suma, é
escolhida, lê-se na página inicial da Associação: a comparação de uma literatura com outra ou outras
e a comparação da literatura com outras esferas da
A ABRALIC completa seus 25 anos de fundação expressão humana.150
num momento decisivo para a área de Literatura
comparada. A partir do início dos anos de 1990 fomos
tomados por uma forte desconfiança, de natureza ética, Além das fronteiras de um pais específico, como se lê na
que levou a disciplina a questionar tanto seu objeto passagem, além das fronteiras de um região específica, além de um
– a literatura – quanto alguns de seus pressupostos
básicos – a centralidade do estético, o conceito de local, traduzem o lugar aqui denominado de extremo oeste do Brasil
nacional. Na primeira década do novo século, no : o estado de Mato Grosso do Sul, mais especificamente em sua
entanto, tem sido possível retomar, por meio da
revisitação a um conceito como o de Weltliteratur, por
condição de fronteiriço com os países Paraguai e Bolívia. É para esse
exemplo, esse mesmo objeto e esse mesmo conceito. locus que direcionamos nosso olhar, leitor atento, para arrolarmos
Sem abrir mão das desconfianças, por um lado, e, por
as produções culturais específicas da área da Literatura comparada
outro, tirando partido do lugar que o Brasil ocupa,
o momento é propício para discutir a retomada da em nosso estado.
centralidade dos Estudos Literários para a Literatura Ante, porém, vejamos o que os organizadores do livro
Comparada, o papel das teorias nesse contexto, além
da própria lógica centro-periferia. Num mesmo Literatura comparada: textos fundadores, Eduardo de F. Coutinho e
movimento, o centro e os centros, o ético e o estético. Tania F. Carvalhal, disseram sobre a definição de Remak:

A palavra centro, que está na proposta do próximo congresso, Para ele, a Literatura Comparada não tem de ter
também converge para o fora do centro, o des-centramento, para uma metodologia exclusiva, podendo servir-se
de uma pluralidade de métodos e dos aportes de
o centro da margem, para o que se encontra na fronteira, como o variadas correntes teórico-críticas. Do mesmo modo,
próprio estado (Paraná) que sediará o Congresso, o qual se avizinha ela inclui a comparação da literatura com outras
formas de manifestações artísticas, como pintura,
dos países Paraguai e Argentina. Centro, centros; ética, estética, uma escultura, arquitetura e música, e de outras áreas
questão que pode ser da ordem da comparação na diferença. A do conhecimento, dentre as quais filosofia, história,
Literatura comparada, sempre que for convocada para ser pensada

149 Sobre uma leitura crítica do que dissera Candido no Congresso,


sugiro que se veja: SOUZA. O espaço nômade do saber, p. 39-46 (In: 150 Apud COUTINHO & CARVALHAL. Literatura comparada: textos
SOUZA. Crítica cult). fundadores, p. 175.
100 LITERATURA COMPARADA EaD•UFMS EaD•UFMS LITERATURA COMPARADA NA FRONTEIRA 101

ciências sociais (política, economia, sociologia), Aberta e a Distância (EAD), da Universidade Federal de Mato
ciências em geral e religião.151
Grosso do Sul, sai na frente quando leva os conhecimentos envoltos
Veja, leitor sagaz, que a definição de Remak endossa uma à disciplina de Literatura comparada aos lugares mais longínquos e
perspectiva interdisciplinar da disciplina Literatura comparada, diferentes desse estado.
e a observação de Coutinho e Carvalhal reforça tal relação. Na segunda parte de seu texto, intitulado de “A consolidação
Estamos chamando a atenção para tal abordagem porque os da pesquisa em Literatura e a criação do Programa de Pós-
estudos comparatistas realizados no extremo oeste tiveram, desde Graduação em letras da UFMS”, o comparatista Paulo Nolasco dos
o seu princípio, o cuidado de valorizar em suas leituras a relação Santos, além de desenhar todo o percurso da implantação da Pós
interdisciplinar e transcultural, como forma de melhor atender a na universidade, esclarece que a partir de 1999 passou a ministrar
exigência de fronteiridade que marca, de alguma forma, todos os a disciplina “Introdução à Literatura Comparada”, no Programa de
estudos feitos nessa zona de contato do país. Mestrado em Letras do Campus de Três lagoas/ UFMS, do qual era
O ensaio “Uma trajetória de pesquisa: a literatura no extremo professor-fundador, juntamente com demais colegas da área. A
oeste do Brasil”, do qual tiramos o título desta parte, de autoria do saída do pesquisador daquele Programa está diretamente ligada
comparatista Paulo Sérgio Nolasco dos Santos, não só serviu de à criação da Pós-Graduação em Letras na Universidade Federal
base para nossa discussão, como é o trabalho mais completo sobre da Grande Dourados (UFGD), antes campus da UFMS. Nesse
a produção comparatista na região. Na qualidade de professor Programa, como já o era na graduação desde 1992, como vimos, a
de Teoria da literatura e Literatura (comparada) na Universidade Literatura comparada é uma disciplina consolidada.
Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), o comparatista revisita, por Como já dissemos, leitor paciente, o ensaio do comparatista
todo o artigo, “a história de uma vivência em torno da literatura na traça o histórico mais completo do ensino da Literatura comparada
UFMS, do seu surgimento como campo de pesquisa institucional, na universidade pública do estado. Nele encontramos arrolados,
e de como ela oferece perspectivas, tornando-se, hoje, um campo ainda, todos os eventos, colóquios, projetos de pesquisa etc, que
de pesquisa para inúmeros estudiosos no estado de Mato Grosso foram sendo desenvolvidos nesses quase vinte anos. Aqui, vamos
do Sul.”152 Na verdade, o que fica visível para todos, leitor atento, nos deter apenas nos livros publicados, por entender que eles
por todo o ensaio, é que a vida do comparatista confunde-se com condensam e consolidam os projetos realizados. Para você, leitor
a própria vida da disciplina Literatura comparada na instituição, curioso, tal informação torna-se necessária porque, por meio
uma vez que coube a ele implantar a disciplina no curso, conforme dela, você toma conhecimento do que temos publicado acerca da
o autor constata: Literatura comparada em nosso estado. Assim, este Manual vai
cumprindo outro lado de seu objetivo, quando nomeia a produção
Queremos registrar o que vimos construindo na significativa que temos no estado da disciplina que leva sua rubrica:
UFMS em termos de estudos literários, considerando,
primeiro, a teoria literária, disciplina tradicional
Literatura comparada.
no nosso curso de Letras e, em seguida, a literatura O primeiro livro a tornar-se uma referência sobre a Literatura
comparada que passa a constar do currículo da UFMS,
comparada no estado intitula-se Ciclos de literatura comparada,
do campus de Dourados mais especificamente, e por
iniciativa nossa, a partir de 1992.153 publicado pela editora da UFMS, em 2000. Sobre a importância e
contribuições que o livro trazia para os meios comparatistas naquele
No texto de 2005, o autor já advertia que o curso de Letras da momento histórico (2000), vejamos o que o próprio organizador, o
cidade de Dourados era o único no estado a oferecer a disciplina de professor Paulo Sérgio Nolasco dos Santos, disse a respeito:
Literatura comparada. Passados cinco anos, essa realidade continua
a mesma, exceto o oferecimento da disciplina no âmbito da Pós Sob o título Ciclos de literatura comparada, o livro por
nós organizado, atendia e refletia, pioneiramente, o
Graduação da UFMS (campus de Três Lagoas, a partir de 1999; e resultado de um longo percurso de pesquisa iniciado
campus de Campo Grande, desde a criação do curso, em 2005). Não com os eventos anteriores. Em primeiro lugar,
porque trazia para a comunidade acadêmica uma
podemos deixar de registrar aqui, leitor cúmplice, que a Educação significativa reunião de textos nos quais seus autores
151 COUTINHO & CARVALHAL. Literatura comparada: textos funda- desenvolviam reflexões sobre os mais diversos temas
dores, p. 358 (Autores) da produção artístico-cultural sul-mato-grossense.
Assim, por meio desses textos, outros pesquisadores
152 SANTOS. O outdoor invisível: crítica reunida, p. 13.
153 SANTOS. O outdoor invisível: crítica reunida, p. 15.
102 LITERATURA COMPARADA EaD•UFMS EaD•UFMS LITERATURA COMPARADA NA FRONTEIRA 103

poderiam resgatar o que tinha sido tratado durante


os diversos Ciclos, especialmente o que se referia é um trabalho que visa a atender a diversas facetas
à temática em questão, bem como poderiam dar da vida universitária em nossa instituição _ a UFMS.
continuidade às reflexões ali formuladas, (...).154 Bem ao sabor de uma demanda pela publicação,
ele é o produto, por assim dizer, das atividades
Sobressaem vários pontos importantes da passagem, os quais, extensionistas que vimos desenvolvendo no
Departamento de Comunicação e Expressão, Campus
leitor atento, precisam ser destacados: primeiro que o comparatista de Dourados, desde o ano de 1986, quando realizou o
frisa que o livro era pioneiro no assunto, quando se tratada de I Ciclo de Literatura.155

estudos comparatista no estado de Mato Grosso do Sul. Grifo a


Não vamos, aqui, mencionar os diversos e variados ensaios que
palavra pioneiro e recorro ao Dicionário Houaiss da língua portuguesa
constituem o livro como um todo. Deixamos para o leitor estudioso
para buscar o significado da mesma: primeiro, refere-se àquela
de Comparada a tarefa de ler e estabelecer as devidas comparações
figura que está entre os primeiros que penetram ou colonizam uma
entre os 19 textos do livro. Aliás, estamos, com isso, propondo
região; desbravador; segundo, refere-se também àquele que vai
uma atividade comparatista para o leitor deste Manual. Reitero a
adiante, que anuncia algo de novo ou se antecipa a alguém ou a
importância de tal leitura porque ali o leitor encontrará referências
algo; precursor; terceiro, quem antecipa uma pesquisa etc. Com base
diretas às produções culturais do estado de Mato Grosso do Sul.
no exposto, podemos dizer que não foi apenas o livro de Literatura
Dos dezenove ensaios do livro, chamo a atenção para o do próprio
comparada que foi pioneiro nesta região extremada e fronteiriça do
organizador, cujo título sintomático era “A literatura comparada no
país, porque o comparatista, num ato de pioneirismo, e exercendo
Extremo Oeste do Brasil”. Nele, assim como no ensaio anteriormente
o papel de um desbravador e de um precursor, pôs-se a colonizar
citado, o comparatista Paulo Nolasco dos Santos já fazia um balanço
na região sul do estado (Dourados) a importância da Literatura
dos estudos atinentes à Literatura comparada no estado. Comentava
comparada para todos os estudantes, professores e pesquisadores,
a respeito do percurso que fizera como comparatista:
especialmente para os da área de Letras.
Outro ponto que merece ser destacado da passagem refere-se O percurso que fizemos dos caminhos da Literatura
ao momento em que o autor diz que a publicação do livro “trazia para Comparada, na UFMS, nos permite concluir indicando
o amplo quadro cultural que se pode delinear na
a comunidade acadêmica uma significativa reunião de textos nos região sul do Mato Grosso, e de um modo especial
quais seus autores desenvolviam reflexões sobre os mais diversos na região de Dourados (região fronteiriça) que se
mostra ao comparatista como objeto de investigação,
temas da produção artístico-cultural sul-mato-grossense.” Como se que vai dos estudos culturais regionais aos estudos
vê, tais estudos envoltos ao comparatismo permitiram que demais interculturais.156
manifestações artístico-culturais locais fossem sendo estudadas pela
Academia, ao invés de deterem-se apenas na literatura nacional. Outro livro, do mesmo organizador, que merece destaque por
Sem sombra de dúvida que os estudos comparados realizados aqui tratar-se de um compêndio de estudos comparados realizados no
contribuíram para dar uma melhor visibilidade aos escritores sul- estado, é o Literatura comparada: interfaces & transações (2001). Esse
mato-grossense. livro contempla os trabalhos apresentados no Colóquio Literatura
Destaco, ainda, que o Ciclo tornou-se um evento anual dentro Comparada: interfaces e transições que, por sua vez, foi realizado
do Curso de Letras do campus de Dourados, possibilitando que dentro do IX Ciclo. Segundo o responsável pelo Colóquio, o professor
houvesse, cada vez mais, um diálogo crítico-comparatista entre Paulo Nolasco dos Santos, o evento foi
os professores e discentes locais com os convidados e demais
de grande repercussão no meio acadêmico, seja
participantes do evento. É salutar informar ao leitor que o primeiro pela grandeza do evento e participação de vários
evento do Ciclo ocorreu em 1986. De lá para cá, o evento cresceu pesquisadores da Anpoll [ASSOCIAÇÃO NACIONAL
DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA EM LETRAS E
enormemente, encampando, inclusive, outros eventos nacionais. LINGUÍSTICA],ali presentes, seja pelos resultados
Em 2009 foi realizado o XIII Ciclo de Literatura, cuja temática geral apresentados com a publicação de um livro que se
tornou uma referência para os pesquisadores da linha
era “Seminário Internacional: As Letras em tempo de Pós.” de estudos regionais, fortalecendo, assim, a área de
Na Apresentação que o organizador fez ao livro Ciclos de concentração em estudos literários.157
literatura comparada (2000), lê-se que o livro 155 SANTOS. Ciclos de literatura comparada, p. 5. (Apresentação)
156 SANTOS. Ciclos de literatura comparada, p. 20. (Grifos do autor)
154 SANTOS. O outdoor invisível, p. 19. 157 SANTOS. O outdoor invisível, p. 27.
104 LITERATURA COMPARADA EaD•UFMS EaD•UFMS LITERATURA COMPARADA NA FRONTEIRA 105

realização da programação do Colóquio, as palavras


“interfaces” e “transições” procuraram traduzir _
O comentário a seguir que o comparatista faz do Colóquio
novamente um sinônimo _ as interfaces sígnicas da
dialoga diretamente com o título deste capítulo, qual seja, Literatura literatura e da cultura. Ou, de um modo mais amplo,
comparada na fronteira, sobretudo quando o pesquisador pontua como nos ensinam as epistemologias do nosso tempo,
todo conhecimento passa a residir na articulação dos
o locus cultural onde se reúnem pesquisadores do país todo para suportes, no agenciamento das interfaces.159
discutirem a respeito dos estudos comparados. Veja, leitor atento,
que desde o subtítulo, interfaces & transições, o evento propõe O livro é composto por dezoito ensaios, os mais variados
contemplar o lado de cá e de lá da fronteira que, de alguma forma, possíveis, mas todos, grosso modo, contemplando as proposições
nos especifica como desse lugar, assim como os trabalhos realizados do evento. Entre todos os textos, aqui farei menção apenas a dois,
desta banda fronteiriça do país. Transitar entre as faces étnicas e por motivos bastante óbvios. O ensaio que abre o livro, intitulado
culturais pode ser um modo comparatista de se compreender o “Interfaces da Literatura comparada”, é de autoria da comparatista
homem-fronteira que se situa nessa região híbrida e multifacetada brasileira Tania Franco Carvalhal. O outro ensaio é de autoria do
por excelência. Diante disso, vejamos o comentário do autor: próprio organizador do livro, tendo como título o de “Nomes e
faces de uma região”. Desde os títulos, ambos os ensaios reforçam as
Além da pertinência dos temas aí desenvolvidos, numa temáticas propostas e tratadas no decorrer do evento. Carvalhal, em
extensa programação que envolveu a participação
de renomados pesquisadores, o solo geográfico e as seu ensaio, retoma a definição de Literatura comparada proposta
condições que se experimentam em torno do centro por Remak e por nós transcrita neste capítulo, e o faz explicando-
geodésico, numa região encravada no coração da
América, culturalmente marcada pelo hipertexto
nos a importância da definição:
fronteiriço, este colóquio interfaciou reflexões
comparatistas e o tensionado chão de fronteira, A definição de Remak amplia razoavelmente as
passagem, que constitui o extremo oeste do Brasil. anteriores, apontando para o fato de que a literatura
Por meio de conferência, três mesas-redondas e três comparada, além de ser uma forma específica de
mini-cursos, reuniram-se no Campus de Dourados interrogar os textos literários acima de fronteiras
mais de setecentos participantes. Os trabalhos ali nacionais, atua em interação com outros textos,
apresentados, inclusive as setenta comunicações, literários ou não, e outras formas de expressão. Nesse
foram amplamente debatidos, grande parte dos caso, sua vocação não é somente a de cruzar limites
quais publicados no livro com título homônimo do nacionais quando se trata de confrontos interliterários
evento.158 mas também de indagar sobre os processos de
intersecção da literatura com outras formas de
arte ou conhecimento. Assim, sob a iniciativa da
Nesse hipertexto fronteiriço, interfacear reflexões
literatura comparada, o estudo das letras começou
comparatistas nessa zona de contato que nos constitui e constitui progressivamente a ser interdisciplinar tanto quanto
o extremo oeste do Brasil tem sido o papel crítico dos estudos de interliterário.160

Literatura comparada. Com base em tudo o que expusemos até aqui


Veja, leitor esperto, que a comparatista, com base nas
neste capítulo, pode-se afirmar que é função e papel incontestes
proposições de Remak esta nos dizendo que uma comparação pode
da disciplina de Literatura comparada discutir, culturalmente,
ser estabelecida entre textos literários e não literários, e entre textos
as aproximações e distanciamentos entre as culturas dos países
literários e outros textos artísticos. Veja, também, que os estudos
vizinhos, como o Paraguai e a Bolívia. Apenas para ilustrar o exemplo
comparados propiciaram que os estudos das letras se tornassem
de leitura comparatista que defendemos anteriormente, por todo o
interdisciplinar, isto é, passa a haver um diálogo teórico-crítico maior
decorrer deste livro, reiteramos que a tríade Brasil/Paraguai/Bolívia
entre os discursos das disciplinas, propiciando, por conseguinte, que
propicia leituras comparatistas importantes e originais neste século
o próprio discurso literário se embasasse em outros discursos que
XXI.
não apenas o literário. Com isso, a Literatura comparada propiciou
Vejamos, agora, a forma como o organizador do livro Literatura
que novos estudos fossem feitos do objeto literário, trazendo para o
comparada: interfaces e transições justificava o título do mesmo e,
bojo da discussão, por exemplo, as relações interculturais. É nessa
por extensão, o livro como um todo:
direção que devemos entender o que Carvalhal diz na sequência:
O título deste livro Literatura comparada: interfaces
e transições justifica-se na medida em que, durante a 159 SANTOS. Literatura comparada: interfaces & transições, p. 6.
160 Apud SANTOS. Literatura comparada: interfaces & transições, p.
158 SANTOS. O outdoor invisível, p. 29. 14.
106 LITERATURA COMPARADA EaD•UFMS EaD•UFMS LITERATURA COMPARADA NA FRONTEIRA 107

O comparatismo restituiu então à literatura uma Essa região, encravada no coração da América,
posição central no campo cognoscitivo, pois, na assim caracterizada, parece ter sido, por força de um
prática interdisciplinar, a literatura é mais do que magnetismo próprio _ centro geodésico _, alvo dos
uma arte; sendo ela mesma uma forma especial de afetos dos grandes escritores que por ali estiveram
expressão, abre-se para outras formas de experiência e viveram, ou, ainda, por efeito de seus próprios
humana acima de fronteiras disciplinares, tornando encantos que teriam feito imprimir nas melhores
evidente que a rígida separação de disciplinas por páginas da literatura brasileira sua natural vocação
especializações podem levar a um contraprodutivo e marcada por riquezas culturais, ecológicas, turísticas
paralisante isolamento.161 e econômicas que, por motivações poéticas literárias
ainda mais justificadas, fertilizaram um dos mais
representativos textos do escritor mineiro, Guimarães
Interfaceando a Literatura comparada com outras faces,
Rosa, bem como a obra do escritor sul-mato-grossense,
literárias ou não, mas com certeza culturais, assim também se Manoel de Barros.”163
arquiteta o ensaio “Nomes e faces de uma região”, do comparatista
Paulo Sérgio Nolasco dos Santos. A leitura comparatista que Santos Os motivos, leitor comparatista, para que sejam lidos os
executa no ensaio, além de valer-se de escritores renomados cuja dois ensaios aqui mencionados, bem como todos os demais que
escrita apresenta em pano de fundo a região sulina do estado, como compõem o livro Literatura comparada: interfaces & transições, são
João Guimarães Rosa e Manoel de Barros, também oferece um muitos e variados, dado o alto grau de discussão que cada um deles
ensino histórico-cultural da própria história local que aqui foi se oferece, sobretudo no tocante a uma abordagem comparatista. Entre
desenhando. É ilustrativo disso já o primeiro parágrafo: interfaces, faces, nomes e transições, todos eles, de alguma forma,
sinalizam que os estudos comparados convergem para o lado da
fronteiras, sejam estas literárias ou culturais, reais ou imaginadas.
O cronista da famosa expedição Langsdorff, Hércules O terceiro e último livro, de autoria do comparatista Paulo
Florence, cruzando o extremo oeste do Brasil, em
1827, com o olhar do descobridor europeu, registrou
Sérgio Nolasco dos Santos, intitula-se oportunamente de Divergências
as “maravilhas” de um eldorado que não conhecia e convergências em Literatura comparada (2004). Consequência de um
fronteiras, nem limites, quer sejam dos domínios
Colóquio, esse livro arrola vinte ensaios de pesquisadores de várias
e posses dos largos campos e sertões, quer seja na
perspectiva do imaginário dos bandeirantes que partes do país. Vejamos o que diz o organizador do livro logo em
ocupavam a vasta depressão da planície pantaneira, seu parágrafo inicial:
constituída pelos amplos horizontes do Planalto do
Brasil Meridional. Em um de seus relatos, o cronista
assim teria anotado: Havia na província de Mato O Colóquio Divergências e Convergências em
Grosso uma região chamada Firme. Essa região Literatura Comparada Hoje, realizado nos dias 15,
foi batizada por Fazenda Firme, que foi habitada 16 e 17 de outubro de 2003, no Campus de Dourados
pelo pioneiro Nheco, de onde derivou o nome da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul,
Nhecolândia.162 constituiu-se programação do X Ciclo de Literatura
e Encontro do GT de Literatura Comparada da
ANPOLL _ Associação Nacional de Pós-Graduação e
Ressalvadas todas as diferenças, leitor astuto, o olhar Pesquisa em Letras e Linguística. A realização deste
observador do comparatista deste século XXI, que se inicia, deverá Ciclo de Literatura, já na 10ª edição anual, garantindo
a periodicidade de um evento consagrado em nível
ser correlato ao do cronista daquele século. Hoje as fronteiras e nacional, pelos desdobramentos e participação
os limites já são bem mais conhecidos geograficamente, restando- registrada de vários e ilustres pesquisadores
brasileiros, além de atender às expectativas do
nos aprender a compará-los melhor criticamente e culturalmente.
público-alvo, reveste-se de significativa importância,
A disciplina de Literatura comparada, numa visada histórica, já na medida em que acolhe o Encontro Intermediário
deu o primeiro passo, como podemos depreender da passagem do GT de Literatura Comparada da ANPOLL.164

acima. “Nome e faces de uma região” se, por um lado, propõe um


Com um olhar comparatista, leitor esperto, vamos percebendo
amálgama de nomes e faces diferentes que se conjugam num olhar
que as divergências e as convergências desbaratam qualquer
comparativo, por outro, volta-se, de modo específico, para a região
possível olhar dualista e sumariamente excludente, não apenas
sulina do extremo oeste do país. O desenho desse locus fica em
relevo nesta passagem: 163 SANTOS. Literatura comparada: interfaces & transições, p. 104-
161 Apud SANTOS. Literatura comparada: interfaces & transições, p. 105.
14. 164 SANTOS. Divergências e convergências em Literatura compara-
162 SANTOS. Literatura comparada: interfaces & transições, p. 101. da, p. 9.
108 LITERATURA COMPARADA EaD•UFMS EaD•UFMS LITERATURA COMPARADA NA FRONTEIRA 109

quando se trata de comparar literaturas mas, também, culturas. digamos, histórico, torna-se uma exigência de qualquer bom
Divergências e convergências pode ser a forma de um olhar saudável, trabalho acerca dos estudos comparados aqui (MS) realizados.
uma vez que a perspectiva desse olhar (comparatista) centra-se Dos vinte ensaios que compõem o livro Divergências e
na diferença. Divergir e convergir podem ser verbos de ação que convergências em Literatura comparada, quero deter-me tão-somente
embaralham aquele velho costume comparatista que, grosso modo, no ensaio da comparatista e crítica cultural Eneida Maria de Souza,
sempre privilegiava as semelhanças em detrimentos das diferenças intitulado de “Nas margens, a metrópole”. O ensaio de Souza
literárias e culturais. Na direção de um olhar fronteiriço que nos ilustra de forma exemplar as discussões apresentadas no Colóquio
move neste capitulo, podemos dizer que as divergências culturais em questão, bem como endossa a ideia que move este capítulo no
que existem entre o Brasil, mais especificamente o Estado de Mato tocante à condição de fronteiridade na qual se encontra os estudos
Grosso do Sul, e os países lindeiros Paraguai e Bolívia obrigam-nos, envoltos à Literatura comparada, pelo menos nessa região do país.
enquanto comparatistas ou estudiosos de Literatura comparada, a Soma-se em importância o que Souza discute, no bojo do que aqui
convergir, comparativamente, para o que difere entre uma literatura propomos, quando entendemos que não há mais lugar para as
e outra, uma cultura e outra. As palavras do organizador do livro reflexões dualistas nas leituras comparatistas e culturais. Nessa
são esclarecedoras da importância da realização de um evento de direção, vejamos o que afirma a crítica brasileira:
Literatura comparada na fronteira (Dourados), sobretudo porque
Na proliferação de metáforas utilizadas na construção
para aquele locus convergiram diversos comparatistas brasileiros:
do imaginário crítico da América Latina, a “cidade
letrada” se impõe como uma das mais rentáveis. No
Tenho a satisfação pelo privilégio de organizar, mais entender do crítico uruguaio Ángel Rama, autor do
uma vez, um encontro de professores e pesquisadores livro de mesmo nome, é através dessa imagem que se
brasileiros que, reunidos em Dourados, nesta região de modelou todo o processo histórico-cultural americano,
fronteira com o Paraguai, vêm dedicar-se aos estudos iniciado com a colonização. A configuração espacial
de Literatura Comparada. Pelo que se anuncia, então, da cidade, com suas leis e hierarquias, seus planos
como locus de nossa situação geográfica, assinala- e mapas, se converteu, para Rama, em lugar teórico
se como objetivo maior deste encontro, há tanto que representaria, em miniatura, a narrativa letrada
desejado e pacientemente construído, o de propiciar da história latino-americana. No centro urbano,
efetiva concretização à integração e ao diálogo demarcado por prédios governamentais, bibliotecas,
do nosso Grupo de Trabalho com pesquisadores universidade, teatros e livraria, estava representado
representantes da literatura e da cultura do nosso o modelo do poder adotado na região, que resultou
país vizinho – o Paraguai. Em muitos aspectos, a na criação da esfera pública e na modernização da
nossa condição fronteiriça favorece o debate sobre as cidade. Uma das mais contraditórias heranças da
divergências e as convergências. O momento em que colonização tem sido a associação direta entre escrita e
se realiza este Encontro é de convergência de esforços poder, considerando como “letrado” todo aquele que,
e atitudes comuns, quer seja pela constante insistência tomando parte do grupo de religiosos, educadores,
de membros do GT, particularmente e tomado como escritores e servidores intelectuais, “manejava a
missão pela Professora Tânia Franco Carvalhal, vice- pena”.166
presidente da AILC/ Associaton Internationale de
Littérature Comparée, quer seja por nossa iniciativa
já presente em outros Ciclos e, recentemente, pelos
A ideia de aproximação estabelecida entre Literatura
contatos com representantes paraguaios por ocasião comparada e fronteira, priorizada neste capítulo, de alguma forma
do Encuentro de Escritores del MERCOSUR/ Segunda
contrapõe-se à cidade letrada tão bem discutida criticamente por
Reunión de Presidentes de Sociedades de Escritores
de América Latina y el Caribe y Feria Del Libro Eneida Maria de Souza. Parodiando o belo título do ensaio de
latinoamericano, em Asunción/2002.165 Souza, “Nas margens, a metrópole”, poderíamos dizer que aqui nos
propusemos pensar “Nas fronteiras, a Literatura comparada”. Este
Passagens como essa vão reforçando um dos objetivos
capítulo, leitor aprendiz, já foi iniciado, como nos mostram os livros
basilares deste capítulo que é o de pontuar a condição histórica da
e textos aqui mencionados, mas não foi devidamente terminado.
disciplina de Literatura comparada no estado de Mato Grosso do
Sinalizo, portanto, um caminho pelo qual você poderá percorrer de
Sul. Tal contextualização faz-se necessária porque, em se tratando
agora em diante.
da disciplina em questão, o estudioso precisa saber que sua reflexão
comparatista passa, de alguma forma, pelo que já se discutiu sobre
4.3 Estudos Culturais Comparados
o assunto nesse locus cultural em destaque. Esse conhecimento,
165 SANTOS. Divergências e convergências em Literatura compara- 166 Apud SANTOS. Divergências e convergências em Literatura
da, p. 9-10. comparada, p. 15-16.
110 LITERATURA COMPARADA EaD•UFMS EaD•UFMS LITERATURA COMPARADA NA FRONTEIRA 111

do Programa, a disciplina Literatura Comparada: fundamentos.


Estudos Culturais Comparados é título de um Projeto de Como já sugere o nome da disciplina, nela se discute todos os
Extensão da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), fundamentos didáticos e metodológicos da Literatura Comparada,
mais precisamente intitulado de NECC: NÚCLEO DE ESTUDOS bem como sua inter-relação com as demais disciplinas das Ciências
CULTURAIS COMPARADOS. Como já sugere o título, o projeto, Humanas. Nesse sentido, o referido projeto vem suprir lacunas,
centrado numa perspectiva transdisciplinar, visa intercambiar ou descobertas, que, de alguma forma, foram desencadeadas
reflexões críticas contemporâneas, dando atenção especial aos pela execução prática da disciplina. A passagem acima também
estudos envoltos à Literatura comparada e aos Estudos culturais. menciona da disciplina Literatura Comparada e Estudos Culturais:
Antes de tudo, convêm-nos fazer um esclarecimento ainda referente uma introdução. Na verdade, trata-se de um projeto de ensino,
ao título: estudos culturais comparados procura deter-se na cultura, cuja finalidade maior é proporcionar que a comunidade acadêmica
bem como nas manifestações culturais, de forma comparatista, e geral tenham um acesso básico mas fundamental da discussão
ou seja, estabelecendo relações interculturais entre ambas, de que ambas as disciplinas podem oferecer nesses dias atuais. Não
modo a pontuar as diferenças inerentes tanto à cultura quanto às é demais registrar que o Núcleo dialoga diretamente não apenas
suas respectivas produções. A ideia de comparação aí tem uma com a disciplina do Mestrado, mas também com todos os demais
base da disciplina de Literatura comparada, mas tem, sobretudo, projetos a ele agregados. Mais adiante mencionaremos os Cadernos
a consciência crítica de que todos os estudos contemporâneos já de Estudos Culturais, como exemplo de projeto que melhor consegue
precisam articular-se depois das quebras de paradigmas do século aquilatar a proposta de ensino, pesquisa e extensão, assim como a
XX, especificamente com relação à ideia reducionista da perspectiva cultural e a política.
disciplinar e acadêmica. Daí, conforme mostraremos, ao nos A Proposta do projeto endossa o que estamos dizendo:
valermos do texto do próprio projeto, a proposta fundamental ter
O projeto do Núcleo tem por objetivo oportunizar
um caráter transdisciplinar, ou melhor, sem disciplina, por excelência.
a um número maior de estudantes de Graduação e
Logo no início do texto do projeto, encontramos uma de Pós-Graduação, bem como a pesquisadores em
justificativa que também reforça o objetivo maior do projeto como geral, o debate contemporâneo em torno dos Estudos
Culturais e da Literatura Comparada, sempre
um todo: privilegiando uma perspectiva transdisciplinar, o
que, por sua vez, justifica a própria rubrica do NECC –
O NECC – Núcleo de Estudos Culturais Comparados Núcleo de Estudos Culturais Comparados – UFMS. O
– UFMS visa, basicamente, proporcionar espaço espaço físico do Núcleo, enquanto tal, visa abrir espaço
para que ocorram discussões em torno da cultura para um diálogo cultural maior entre graduandos,
quanto da Literatura Comparada. Além da disciplina pós-graduandos, orientadores e pesquisadores,
Literatura Comparada: fundamentos, como disciplina por meio de encontros, seminários, debates, como
obrigatória do Programa de Mestrado Estudos também por meio das publicações sistematizadas,
de Linguagens, onde a maioria dos mestrandos que serão geradas pelo próprio Núcleo, a exemplo dos
envolvidos no projeto tem acesso a uma perspectiva Cadernos de Estudos Culturais. Deve-se registrar que
comparatista, encontra-se em execução a disciplina os estudos atinentes ao Núcleo têm uma tendência
Literatura Comparada e Estudos culturais: uma crítica em voltar-se para o contexto latino-americano,
introdução ofertada a todos os orientandos do sendo escusado dizer a atenção especial despendida
professor-coordenador do projeto e comunidade ao estado de Mato Grosso do Sul.168
acadêmica em geral.167
Além da preocupação transdisciplinar que se encontra no
Como vê, leitor atento, o projeto propõe a criação de um cerne da discussão do Núcleo, os trabalhos a ele arrolados, como
espaço, no âmbito da universidade, para que ocorram discussões em os projetos de Pós-Graduação por exemplo, têm seu olhar voltado,
torno tanto dos estudos culturais quanto dos estudos comparados, num primeiro momento, para a cultura local sul-mato-grossense,
procurando atender, além dos acadêmicos envolvidos, a comunidade e, num segundo, para a América Latina.169 Aqui não é demais frisar
em geral. Convêm-nos explicar, seguindo a passagem transcrita, que 168 Projeto de extensão NECC: Núcleo de Estudos Culturais Compa-
o Mestrado Estudos de Linguagens, Programa este no qual o projeto rados, cadastrado na PREAE: Pró-Reitoria de Extensão, Cultura e Assun-
tos Estudantis, p. 6
esta vinculado, oferece regularmente, como disciplina obrigatória
169 Em torno da cultura local, indicamos a leitura do livro: babelocal:
167 Projeto de extensão NECC: Núcleo de Estudos Culturais Compa- lugares das miúdas culturas (2010), de autoria de Edgar Cézar Nolasco.
rados, cadastrado na PREAE: Pró-Reitoria de Extensão, Cultura e Assun- Já sobre a América latina, sugerimos o livro: A reinvenção do arquivo da
tos Estudantis, p. 3-4. memória cultural da América Latina (2010), com organização de Edgar
112 LITERATURA COMPARADA EaD•UFMS EaD•UFMS LITERATURA COMPARADA NA FRONTEIRA 113

par ao leitor atento que os trabalhos desenvolvidos no espaço do comparada. Eis aí, então, alguns dos objetivos que não apenas
NECC dialogam diretamente com a proposta deste capítulo, cuja ancorariam a importância e necessidade premente deste Manual
temática central é a Literatura comparada e a fronteira. Nesse introdutório de Literatura comparada, como também sinalizam
sentido, podemos reiterar que os discursos defendidos no âmbito os encaminhamentos que o próprio aprendiz da disciplina deve
do Núcleo encontram-se numa condição de fronteira disciplinar ter. Em sendo os Cadernos de natureza temática, podemos dizer
por excelência, posto que há uma política para que não se privilegie que os estudos neles contemplados vêm completar os estudos
nenhum discurso sobre outro, mas que, antes, tome-se ambos os comparados. O número um, cuja temática foi Estudos Culturais,
discursos numa mesma proposição de validação conceitual. Como atendia não apenas o próprio nome dos Cadernos, como também, a
estamos aqui, leitor atento, dando especial atenção aos Estudos seu modo, propunha um diálogo crítico entre os estudos culturais
comparados e aos Culturais, resta-nos dizer que o Núcleo tem e os estudos literários. Podemos dizer que no bojo da discussão
priorizado tais estudos, talvez como forma de mostrar o quanto sobressaia a questão cultural, mas quase sempre os exemplos eram
essas disciplinas podem contribuir com a reflexão contemporânea. retirados de uma página da literatura. Composto por nove ensaios,
Já sobre os Cadernos de Estudos Culturais, sem sombra de quero mencionar aqui apenas dois, por tratar-se de autoria de dois
dúvida a maior publicação presa ao Núcleo e, por conseguinte, o grande professores de literatura: o primeiro, de autoria de Eneida
projeto que mais dá visibilidade aos trabalhos desenvolvidos como Maria de Souza, intitula-se “Babel multiculturalista”. O segundo,
um todo, podemos dizer que a disciplina de Literatura comparada intitulado “Destino: globalização. Atalho: nacionalismo. Recurso:
alcançou um lugar de notoriedade exemplar, pelo menos quando cordialidade”, de autoria de Silviano Santiago. No primeiro, a autora
o espaço é a Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) faz uma exercita uma leitura crítica cultural comparada, uma vez
e o locus é o estado de Mato Grosso do Sul. Antes, porém, de nos que toma como suporte o filme “Babel” e põe em diálogo crítico-
determos especificamente na publicação dos Cadernos, convêm- comparatista deferentes abordagens críticas, priorizando, por todo
nos informar ao leitor os objetivos gerais do projeto intitulado o ensaio, as discussões da ordem cultural. No ensaio, Souza discute
CADERNOS DE ESTUDOS CULTURAIS: com propriedade, entre outros conceitos, o de multiculturalismo,
conceito este, aliás, também estudado pela Literatura comparada.
1) Dar continuidade às discussões realizadas no espaço
Já no segundo ensaio, Silviano Santiago, como bom crítico cultural
da disciplina obrigatória Literatura Comparada:
fundamentos, do Programa de Pós-Graduação – que é, não foge à regra e discute a cultura brasileira. Como já sugere
Mestrado em Estudos de Linguagens – UFMS; 2) o título do ensaio, os conceitos discutidos por Santiago são os de
criar um espaço para o debate crítico, tendo por
base os ensaios críticos dos intelectuais convidados globalização, nacionalismo e cordialidade. Grosso modo, podemos
para participar dos Cadernos; 3) oportunizar aos dizer que ambos os conceitos, mas mais especificamente os dois
mestrandos, que desenvolvem projetos sobre a
cultura local, ou cultura latino-americana, que tornem últimos, foram exaustivamente estudados quando se estudou a
públicas suas pesquisas acadêmicas; 4) discutir com literatura brasileira, principalmente quando as discussões davam-
mais propriedade intelectual a cultura local fronteiriça
do estado de Mato Grosso do Sul (Brasil, Paraguai, se em torno de sua formação. A leitura desconstrutora do crítico
Bolívia); 5) incentivar o intercâmbio cultural entre brasileiro mantém um traço comparatista, especificamente no
o estado de Mato Grosso do Sul (Brasil) e seus dois
países vizinhos (Paraguai e Bolívia); 6) repensar em
modo como o estudioso articula e chama para a discussão crítica os
conjunto as divergências e convergências instauradas conceitos quase sempre importados. Não vem ao caso aqui deter-
em torno da diversidade cultural que diferencia a
se na análise crítica de tais ensaios. Pelo contrário, leitor esperto,
cultura local sul-mato-grossense, assim como em
um pseudo-conceito de cultura que quase sempre o estamos apenas pontuando a importância de todos os nove ensaios
estado quer fazer prevalecer.170 que compõem os Cadernos de Estudos Culturais, bem como sua leitura
de todos eles.171
Ressalvadas as diferenças que possam haver, podemos
O número dois dos Cadernos oportunamente intitulou-se
dizer, leitor comparatista, que os mesmos objetivos citados
Literatura Comparada hoje. A temática, dessa vez, atendia basicamente
valem sobremaneira para o ensino da disciplina de Literatura
dois propósitos essenciais: um, porque os Cadernos davam atenção
Cézar Nolasco & Marcos Antônio Bessa-Oliveira. especial à disciplina obrigatória do Mestrado em Estudos de
170 Projeto de extensão CADERNOS DE ESTUDOS CULTURAIS, Linguagens que assina pela rubrica de “Literatura comparada:
cadastrado na PREAE: Pró-Reitoria de Extensão, Cultura e Assuntos Es-
tudantis, p .2-3. 171 CADERNOS DE ESTUDOS CULTURAIS: Estudos culturais
114 LITERATURA COMPARADA EaD•UFMS EaD•UFMS LITERATURA COMPARADA NA FRONTEIRA 115

fundamentos.” Com isso, os Cadernos cumpriam uma exigência de vez discutem assuntos atuais, como pós-modernismo e cultura popular,
seu projeto fundador que era a de propiciar o diálogo entre a tríade paisagens críticas transculturais, crítica cultural local, crítica literária
ensino, pesquisa e extensão. Não é demais lembrar que o projeto e valor estético, crítica cultural marxista, ficção-crítica contemporânea,
agrega tanto alunos de graduação quanto de pós-graduação da entre outros. Como se vê, leitor esperto, esses assuntos encontram-se
UFMS. O outro propósito resumia-se na reunião de ensaios atuais na pauta de qualquer discussão crítica comparatista nos dias atuais,
cuja preocupação maior era pontuar o papel e o lugar da disciplina sobretudo quando se leva em conta a abordagem transdisciplinar
de Literatura comparada hoje, sobretudo no Brasil. Treze ensaios defendida pela própria comparada. Estudos culturais, estudos
compõem os Cadernos dessa vez. Sendo a temática geral a Literatura comparados, estudos pós-modernos, estudos subalternos, estudos
comparada, os autores detiveram-se em questões específicas da pós-coloniais, estudos literários, entre outros, articulam o campo
disciplina e que gravitam em torno de sua problemática, como: crítico que norteia as discussões na contemporaneidade. Desse
espaços da comparação na América Latina, a inter-relação entre a modo, leitor atento, estudar Literatura comparada hoje não deixa
Literatura comparada e a brasileira, a emergência da cultura e da crítica de exigir um olhar multi e transdisicplinar do comparatista como
cultural, o campo expansivo da Literatura comparada, a situação da forma de compreender melhor abrangência do próprio presente em
Literatura comparada em países periféricos, a questão do cânone, a prática que vivemos. Apenas para retomar a questão da fronteira que está
e a pesquisa da Literatura comparada hoje, a Literatura comparada como no cerne deste capítulo, lembramos que quando se trata de discurso
uma estética humanística, a intertextualidade, entre outras. É por essas crítico nos dias atuais, seja ele de natureza comparatista ou não, as
e outras questões discutidas ao longo dos Cadernos de Literatura fronteiras discursivas literalmente esfumaçaram.173
comparada que o leitor, aprendiz de comparada, deve dedicar-se Os Cadernos de número quatro trazem a temática da Crítica
à leitura desse número dos Cadernos, uma vez que ali encontrará biográfica.174 Como o leitor pode perceber de imediato, esse tipo de
o volume mais recente que propicia uma compreensão geral da crítica vem se somar àqueles estudos mencionados no parágrafo
Literatura comparada hoje. Já que dessa vez não vou me deter em anterior. Na verdade, a crítica biográfica, num sentido bem específico,
nenhum dos ensaios, convêm informar ao leitor que a disciplina de é um desdobramento dos estudos já consolidados, como os estudos
Literatura comparada é discutida no bojo de outras questões não comparados, os estudos psicanalíticos e os mais atuais estudos
menos essenciais, como o próprio conceito de cultura e a teoria dos culturais. Os onze ensaios apresentados discutem, cada um a seu
Estudos culturais. Na verdade, os Cadernos dessa vez mostram que modo, a inter-relação entre o sujeito e o objeto, ou seja, a forma como
qualquer estudo de ou sobre Literatura passa, cada vez mais, pela o sujeito escritor, ou crítico, se inscreve em sua produção, quer esta
contextualização das obras em discussão.172 Não é demais explicar seja ficcional ou crítica. Verdade seja dita, um dos grandes méritos
ao leitor atento deste Manual que, ressalvadas as diferenças que da crítica biográfica foi o de reconhecer a presença do intelectual
possam haver, a perspectiva crítica adotada aqui encontra respaldo nas discussões feitas, sejam elas de que natureza for. Tratando
nas discussões propostas pelos ensaios dos Cadernos. Daí espera-se especificamente desse tipo de crítica, podemos dizer, leitor atento,
que o leitor entenda que sua leitura deste livro completar-se-á com que ele congrega os mais diversos tipos de estudos, talvez por ter e
a leitura dos Cadernos de Literatura comparada hoje. ser de natureza compósita (Souza). Dos onze ensaios, gostaria apenas
Os Cadernos de número três, cuja temática é Crítica de mencionar o de autoria de Eneida Maria de Souza, intitulado
contemporânea, arrolam os estudos dos dois Cadernos anteriores, a “crítica biográfica, ainda”, por tratar-se de uma estudiosa brasileira
saber, tanto os Estudos culturais, do primeiro, quanto os Estudos pioneira no assunto, já que coube a ela introduzir esse tipo de crítica
comparados, do segundo. Essa junção crítica, por sua vez, só entre nós. Podemos dizer que somente uma crítica como Eneida de
vem mostrar que, num crescendo, os estudos críticos articulam- Souza, que mesmo passando por diversas tendências críticas, ao
se numa perspectiva transdisciplinar, aliás prática essa defendida invés de priorizar uma em detrimento de outra, tomou-as todas e
pela Literatura comparada, como já mostramos. Composto por as pôs em diálogo crítico, podia propor a articulação inovadora e
dez ensaios, o número três dos Cadernos dá-nos uma ideia geral saudável que a crítica biográfica defende nesta virada de século.
do que se vem refletindo em torno da crítica literária e cultural na
contemporaneidade. De uma perspectiva geral, os Cadernos dessa
173 Cf CADERNOS DE ESTUDOS CULTURAIS: Crítica contemporâ-
172 Ver CADERNOS DE ESTUDOS CULTURAIS: Literatura compa- nea.
rada hoje 174 Ver CADERNOS DE ESTUDOS CULTURAIS: Crítica biográfica.
116 LITERATURA COMPARADA EaD•UFMS EaD•UFMS LITERATURA COMPARADA NA FRONTEIRA 117

Ao nos determos aqui nos quatro números dos Cadernos um passo. Como se vê, leitor atento, os estudos comparados ainda
de Estudos Culturais, mesmo que de forma breve, esperamos ter podem ser um bom e produtivo começo para o diálogo crítico.
mostrado ao leitor a importância que o Núcleo de Estudos Culturais
Comparados (NECC\UFMS) tem ocupado enquanto fomentador
da pesquisa, do ensino e da extensão no âmbito institucional. A Leituras obrigatórias:
publicação dos Cadernos ilustra as variadas atividades desenvolvidas CADERNOS DE ESTUDOS CULTURAIS: estudos culturais. Campo
no espaço do Núcleo. Nesse sentido, podemos dizer que os Cadernos Grande: Editora da UFMS, v.1, n.1, p. 1-135, jan.\jun. 2009.
dão visibilidade às publicações externas do Núcleo, uma vez que a CADERNOS DE ESTUDOS CULTURAIS: literatura comparada
maioria dos pesquisadores que participam dos Cadernos é de fora, hoje. Campo Grande: Editora da UFMS, v.1, n.2, p. 1-180, jul.\dez.
inclusive do país. Já a produção interna do Núcleo, de autoria dos 2009.
membros do NECC, mais conhecidos como neccenses, encontra-se CADERNOS DE ESTUDOS CULTURAIS: crítica contemporânea.
publicada nos livros O objeto do desejo em tempo de pesquisa: projetos Campo Grande: Editora da UFMS, v. 2, n.3, p. 1-155, jan.\jun. 2010.
críticos na Pós-Graduação I (2008)175 e O objeto do desejo em tempo CADERNOS DE ESTUDOS CULTURAIS: crítica biográfica. Campo
de pesquisa: projetos críticos na Pós-Graduação II (2010).176 Ambos Grande: Editora UFMS, v.2, n.4, p. 1-181, jul.\dez. 2010.
os livros dão-nos uma visibilidade do tipo de pesquisa e, por CARVALHAL, Tania Franco. Sob a égide do cavaleiro errante. In:
conseguinte, de leituras que vêm sendo desenvolvidas no espaço do Revista brasileira de Literatura comparada. Rio de Janeiro, n.8, p. 1-199,
Núcleo. Tais pesquisas têm feito justiça ao nome do Núcleo de Estudos 2006, p. 11-17.
Culturais Comparados, uma vez que, no geral, todos os trabalhos SANTOS, Paulo Sérgio Nolasco dos (org.) Ciclos de Literatura
ora voltam-se para os estudos comparados, ora para os estudos comparada. Campo Grande: Editora da UFMS, 2000.
culturais. Muitas vezes, inclusive, e num crescendo, as pesquisas SANTOS, Paulo Sérgio Nolasco dos (org.) Literatura comparada:
têm desenvolvido uma prática transdisciplinar, posto que se valem interfaces & transições. Campo Grande: UCDB\ Editora UFMS,
de ambos os estudos concomitantemente. 2001.
Grosso modo, podemos dizer por último, leitor paciente, que SANTOS, Paulo Sérgio Nolasco dos (org.) Divergências e convergências
o Núcleo vem abrindo o Arquivo cultural do locus fronteiriço de em Literatura comparada. Campo Grande: Editora da UFMS, 2004.
Mato Grosso do Sul, num primeiro momento, e da América Latina, SANTOS, Paulo Sérgio Nolasco dos. O outdoor invisível: crítica
num segundo. O que esses pesquisadores, envoltos a esses estudos reunida. Campo Grande: Editora UFMS, 2006.
de natureza comparada e cultural, têm encontrado nessa região
fronteiriça, que se situa do lado de lá e de cá ao mesmo, com certeza Demais referências:
propiciará estudos que estão apenas começando. Isso vem nos COUTINHO, Eduardo de F. & CARVALHAL, Tania Franco.
mostrar, entre outras coisas, leitor esperto, que quando se tem o Literatura comparada: textos fundadores. Rio de Janeiro: Editora
aparato teórico-crítico certo nas mãos, já pode ser meio caminho Rocco, 1994.
para a consolidação de uma leitura produtiva para todos. Estamos NOLASCO, Edgar Cézar & BESSA-OLIVEIRA, Marcos Antônio
afirmando, com isso, que os estudos comparados e os estudos (org.) A reinvenção do arquivo da memória cultural da América Latina.
culturais, quando tomados numa perspectiva transdisciplinar, São Carlos: Pedro & João Editores, 2010.
podem nos ajudar a compreender melhor o mundo (contexto) que NOLASCO, Edgar Cézar. babeLocal: lugares das miúdas culturas.
nos cerca. Daí, para a abertura para novos estudos, é menos de Campo Grande: Life Editora, 2010.
NOLASCO, Edgar Cézar (org.). O objeto do desejo em tempo de pesquisa:
projetos críticos na Pós-Graduação I. Rio de Janeiro: Corifeu Editora,
175 Publicado em 2008, pela Editora Corifeu, do Rio de Janeiro, o 2008.
volume arrola 21 capítulos, sendo cada um de um membro do Núcleo, NOLASCO, Edgar Cézar (org.). O objeto do desejo em tempo de pesquisa:
onde cada um apresentava a pesquisa que desenvolvia naquele momento
dentro do espaço do Núcleo. projetos críticos na Pós-Graduação, 2010.
176 Publicado em 2010, pela Editora Pedro & João Editores, de São
Carlos (São Paulo), o volume compreendia 14 capítulos, sendo cada um
de um membro do Núcleo, onde cada um apresentava a pesquisa que
desenvolvia naquele momento dentro do espaço do Núcleo.
118 LITERATURA COMPARADA EaD•UFMS

EAD - UFMS

Projeto Gráfico:
Lennon Godoi

Editoração Eletrônica:
Marcos Paulo de Souza