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TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO

COMARCA DE CAMPINAS
FORO DE CAMPINAS
1ª VARA DO JUIZADO ESPECIAL CÍVEL
AV. Francisco Xavier de Arruda Camargo, 300, Bloco B - Térreo - Cidade
Judiciária de Campinas, Jardim Santana - CEP 13089-530, Fone: 19
3756-3695, Campinas-SP - E-mail: campinas1jec@tjsp.jus.br
Horário de Atendimento ao Público: das 12h30min às18h00min

TERMO DE AUDIÊNCIA

Processo Digital nº: 1034896-11.2017.8.26.0114


Classe - Assunto Procedimento do Juizado Especial Cível - Indenização por Dano
Material
Requerente: CARLOS ROBERTO MARQUEZ, CPF 031.681.848-88
Requerido: UBER DO BRASIL TECNOLOGIA LTDA, CNPJ 17.895.646/0001-87
Data da audiência: 09/11/2017 às 10:20h

AUDIÊNCIA DO DIA: 09/11/2017

JUIZ DE DIREITO: DR. FABIO HENRIQUE PRADO DE TOLEDO

09/11/17 10:20: Instrução e Julgamento


Processo:1034896-11.2017.8.26.0114: Procedimento do Juizado Especial Cível
Assunto principal : Indenização por Dano Material
Reqte: Carlos Roberto Marquez (presente)
Advogado: OAB 350582/SP Vinícius de Andrade Vieira (presente)
Reqdo: Uber do Brasil Tecnologia Ltda. Representada pelo preposto: Vitoria Cristina
Mazzola, CPF: 432.120.728-22 (presente)
Advogada: OAB 286350 Erika Ines Cortes Zanatta (presente)

Iniciados os trabalhos, pelo advogado do autor foi solicitado prazo de 48 horas para
regularização do Substabelecimento (fls.104), o que foi deferido, a seguir, a conciliação
restou infrutífera. Pela advogada da requerida foi dito que sua contestação já se
encontra nos autos. Encerrada a instrução, foi proferida a seguinte sentença:
“Dispensado está o relatório, nos termos do art. 38 da Lei Federal nº 9099/95. Decido. A
questão preliminar se confunde com o mérito, posto que relacionada com a
responsabilidade pelo evento danoso e, como tal, será apreciada nesta sentença. No
mérito, o pedido inicial é procedente. Cumpre aferir a responsabilidade da ré perante
aqueles a quem chama de “motoristas parceiros”. A relação contratual que se
estabelece no caso em questão tem uma estrutura triangular. Vejamos. A UBER
estabelece um vínculo contratual com os motoristas por ela credenciados. Essa relação
possui direitos e obrigações reciprocas. Basta notar, a título de exemplo, sem esgotar o
feixe de direitos e obrigações instituídos por esta relação, que o motorista assume a
obrigação de atender aos usuários cadastrados pela UBER, ao passo que esta assume
a obrigação de pagar ao seus motoristas credenciados, cobrando um valor por isso, no
mais das vezes, deduzidos de parte dos valores pagos pelos usuários. E também se
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estabelece um vínculo contratual entre os passageiros (usuários do serviços) e a UBER.


É necessário um cadastro prévio na plataforma disponibilizada pela UBER. Concluída
essa operação, a UBER assume a obrigação de disponibilizar motoristas nas localidades
em que essa se estabeleceu em vários sítios do planeta. O usuário, por seu turno,
assume a obrigação de pagar pelo serviços de transporte que lhes forem prestados. E
também, por fim, estabelece-se um relação contratual entre o motorista e o usuário. Um
vez feito o chamado pelo aplicativo, quando o usuário adentra no veículo, inicia-se a
execução de um contrato de transporte, também com direitos e obrigações reciprocas
entre usuário e transportador. Assim delimitada, de maneira deveras sucinta, a natureza
das relações contratuais que se estabelecem a partir da disponibilização da plataforma
mantida pela ré, cumpre estabelecer os limites da sua responsabilidade perante os
motoristas credenciados pela UBER para a prestação dos serviços de transportes. E
tenho que não se trata de relação de consumo, ao contrário do que sustenta o autor.
Esse não é usuário final de um serviço. Ao contrário, vale-se do contrato firmado com a
UBER para a obtenção de outros contratos (de transporte), esses que lhes assegura a
remuneração almejada pelo exercício dessa atividade. Com isso, não se configuram os
requisitos para uma relação de consumo, tal como definida nos artigos 2º e 3º do Código
de Defesa do Consumidor. Mas afastada a incidência dessa norma, tenho que ainda
assim se pode estabelecer a responsabilidade da ré no caso presente. E essa se funda
na “culpa in eligendo”. Isso porque os chamados “motoristas parceiros” se
comprometem a atender os usuários cadastrados na plataforma da UBER. Ora, se essa
cadastra bandidos em relação aos quais o motorista é instado a transportar, é inegável
que responde a UBER por isso. Com efeito, não é concebível que a pessoa jurídica ré
faça o cadastrado de pessoas de má índole, atribua aos seus motoristas a obrigação de
transportá-las para, em seguida, eximir-se da responsabilidade pelos atos ilícitos desses
usuários previamente cadastrados pela UBER. Poder-se-ia sustentar ausência de culpa
da ré, dado que no ato de cadastrar os usuários não teria como aferir se estaria ou não
a credenciar criminosos. De fato, tal argumento é razoável. No entanto, é de se
reconhecer que, ao menos nesse aspecto (credenciamento indiscriminado de usuários),
a atividade da ré é de risco, dado que pode a qualquer momento estar credenciando
como usuários potenciais criminosos. Assim, a sua responsabilidade independe de
culpa, nos termos do parágrafo único do artigo 927 do Código Civil. Mas há ainda um
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aspecto relevante a se considerar para o reconhecimento da responsabilidade da ré. É


que há cláusula no contrato firmado com o motorista que a isenta de responsabilidade
no caso de roubo. No entanto, tenho que tal cláusula é invalida, posto que exclui
obrigação decorrente da própria natureza do negócio (artigo 424 do Código Civil). Isso
porque, como apontado, os motoristas não exercem qualquer ingerência no ato de
credenciamento de usuários. Também não podem recusar, em tese, as corridas, ou
quando menos não tem como saber de antemão detalhes sobre os usuários. Nesse
contexto, somente a ré detém poder de escolha desses usuários. Por consequência,
deve responder pelos danos que causarem aos seus motoristas parceiros quando da
execução de contrato de transporte. No que tange ao montante da indenização por
danos patrimoniais, isso restou provado por documentos cujo valor comprobatório não
foi firmado com êxito (fls.36 e 37). E também é devida a indenização por danos morais.
O autor foi vitima de roubo, do qual redundou lesão à integridade física, bem como sério
risco de vida. Notório, portanto, que experimentou lesão a direito da personalidade. E
isso é o que basta para que se caracterize o dano moral. No que tange ao montante da
indenização, tenho que o valor pleiteado na inicial é razoável e apto a compensar a
lesão, deveras intensa, que padeceu. Ante o exposto, JULGO PROCEDENTES os
pedidos contidos na inicial. Faço-o para condenar a requerida a pagar ao requerente a
importância de R$ 17.168,16, a título de indenização por danos patrimoniais, corrigida
monetariamente desde a data do fato. Outrossim, condeno a ré a pagar indenização por
danos morais, arbitrada em R$ 10.000,00, com correção monetária desde a data desta
sentença (Súmula 362 do STJ). Ambos os valores serão acrescidos de juros de mora de
1% ao mês, esses contados da citação, posto que se trata de responsabilidade
contratual (artigo 405 do Código Civil). Não há custas e despesas processuais, nem são
devidos os honorários advocatícios (art. 54 e 55 da LJE). Sentença publicada em
audiência. Saem intimados os presentes. Saem também cientes de que o prazo recursal
é de 10 dias, contados desta audiência (artigo 42 da LJE). Registre-se. Cumpra-se e
comunique-se. Nada mais”. Encerrados os trabalhos, foi lavrado este termo, que vai
assinado por mim. Nada mais. Eu, _______________Maricila L.P. de Camargo,
escrevente técnico judiciário, digitei e subscrevi, certifico e dou fé que estiveram
presentes as partes e advogados constantes da parte inicial do presente termo, os quais
participaram do presente ato e tomaram ciência de todos seus termos e decisão
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proferida. Certifico também que, conforme determina o Provimento CG nº 21/2014, o


presente termo, já devidamente assinado eletronicamente pelo MM. Juiz foi impresso,
assinado fisicamente por mim Maricila L.P. de Camargo, escrevente técnico judiciário,
que o digitei, bem como por todos os presentes e, em seguida, foram entregues aos
advogados das partes.

M.M. JUIZ: (assinado digitalmente, conforme impressão à margem direita)


AUTOR:
ADVOGADO DO AUTOR:
REPRESENTANTE DA RÉ:
ADVOGADA DA RÉ: