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UNIVERSIDADE FEDERAL DE JUIZ DE FORA

CAMPUS GOVERNADOR VALADARES


INSTITUTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS APLICADAS
DEPARTAMENTO DE DIREITO

DISCIPLINA: DIREITO DOS CONTRATOS


PROFESSOR: DANIEL AMARAL CARNAÚBA
ALUNO: LEONARDO RODRIGUES DE JESUS - 201604100GV

CONTRATOS DE LONGA DURAÇÃO, UMA ANÁLISE SEGUNDO A BOA-FÉ


OBJETIVA

Esse texto propõe mostrar como devem ser analisados os contratos de prazo
indeterminado e de trato sucessivo com a mudança paradigmática nas relações
contratuais apontadas pela Renata Steiner em seu livro “Descumprimento Contratual:
Boa fé e Violação Positiva do Contrato”, no qual ela entende a relação obrigacional
como um processo e propõe uma nova forma de inadimplemento obrigacional, a
violação positiva do contrato.

Primeiramente, é necessário explicar brevemente o que aconteceu para que


ocorresse essa mudança de paradigma e como ela afetou a forma de se encarar os
contratos, tendo foco aqui naqueles tipos contratuais que perduram por um longo
período de tempo. Fruto de um contexto das revoluções liberais, a primeira fase é
aquela em que as relações obrigacionais e por consequência o contrato eram regidos
apenas pela autonomia da vontade das partes. O contrato nada mais era que o
instrumento que permitiu a circulação da propriedade das mãos dos antigos donos
para a classe em ascensão, a burguesia. Eles eram regidos basicamente por três
princípios: 1) liberdade contratual; 2) força obrigatória dos contratos (pacta sunt
servanda); e 3) Relatividade dos contratos. Cada um dizendo, respectivamente, que
partes escolhem ou não contratar, que os contratos nascem para serem cumpridos,
por mais onerosos que sejam, e que o contrato só vincula aqueles que manifestaram
sua vontade. Como principal referência dessa fase temos o Código Civil Francês de
1804.
Entretanto, aos poucos foi se percebendo que essa política de intervencionismo
mínimo e de plena liberdade acabava por esconder um problema sério, a
desigualdade material entre as partes de uma relação jurídica. Assim, de maneira
paulatina foi se admitindo o Estado começasse a intervir nas relações privadas, com
intuito de proteger o contratante ou parte mais fraca da relação. Apesar de ainda ser
controverso o limite dessa intervenção, o que pode ser observado nos debates sobre
a aplicabilidade direta ou não dos direitos fundamentais nas relações privadas, é
inegável uma limitação da liberdade contratual por certos valores sociais e
econômicos, o que ficou conhecido como dirigismo contratual. Aqueles três princípios
clássicos foram relativizados e hoje os contratos devem seguir basicamente outros
três princípios: 1) boa-fé objetiva; 2) função social do contrato; e 3) equilíbrio
contratual, sendo o primeiro o de maior importância para este estudo.

Dessa forma, a vontade vem deixando de ser considerada a única fonte de


direitos e obrigações e ao lado dela se encontra, principalmente, a boa-fé objetiva.
Esta deve ser diferenciada por sua vez da boa-fé subjetiva, que está mais ligada ao
estado de consciência ou psicológico do sujeito. A boa-fé objetiva, pelo contrário, é
um padrão de comportamento, um standard, que exige das partes que compõem uma
relação jurídica obrigacional um comportamento pautado na probidade, honestidade,
lealdade e confiança. Ela exerce basicamente três funções, primeiro a função
interpretativa dos negócios jurídicos (art. 113, CCB/2002), depois uma função
limitativa ou de controle, onde visa evitar o abuso de direito (art. 187, CCB/2002) e por
fim, uma função integrativa, criando deveres laterais, ou seja, deveres para além
daqueles principais propostos pelas partes (art. 422, CCB/2002). É principalmente
essa última função que permite entender a relação obrigacional como um processo,
ou seja, que os deveres e responsabilidades de uma obrigação só tem sentido quando
analisados em conjunto.

Dessa forma, mais do que objeto principal e imediato da relação obrigacional,


o dever de prestação deve ser visto também enquanto meio que conduz ao
objetivo final - o cumprimento da prestação e satisfação do credor - em
processo no qual há verdadeira cadeia de meios e fins. Para além da simples
junção de conceitos abstratos, deve-se ter em mente que os sujeitos
envolvidos em uma relação obrigacional não são meros sujeitos de direitos
abstratos, mas além disso, pessoas concretas cuja dignidade não pode ser
ferida pela relação obrigacional. (STEINER, 2004, p.81).
Partindo dessa nova noção de dignidade e de colaboração entre as partes, é
que se pretende aqui estudar os contratos de prazo indeterminados e de tratos
sucessivos. Os contratos de prazo indeterminados são aqueles que nenhuma das
partes emite uma vontade com intuito de limitar a duração do contrato. Elas, no
momento de celebração, não pensam no fim da relação contratual, e para que isso
ocorra, em um primeiro momento, é necessário apenas um ato unilateral, conforme o
art. 720 do CCB/2002. Por sua vez, os contratos de trato sucessivos são aqueles em
existe uma renovação periódica da obrigação, elas são cíclicas. Neles o pagamento
não resulta na extinção obrigacional, uma vez que ela ressurge. Exemplo clássico é o
contrato de aluguel, em que o pagamento não tem efeito liberatório.

Esses dois tipos contratuais podem ser considerados contratos de longa


duração - o primeiro pelo seu prazo indeterminado e o segundo pela prática reiterada
das partes - e isso acaba implicando algumas consequências jurídicas pelos efeitos
que o tempo produz nas relações entre os partícipes da obrigação. Nos contratos de
longa duração, muito maior que os demais, é a dependência econômica entre as
partes. O tempo faz com que os deveres de cooperação, confiança e solidariedade
se tornem mais fortes, e acaba por gerar uma expectativa de que a relação será
contínua e duradoura, mesmo que seja passível de modificações devido às atuais
necessidades das partes. É a crença nessa longa durabilidade da relação que faz os
contratantes nessa situação realizarem investimentos, os quais não podem ser
frustrados. Sendo nesse sentido, que o principal dever lateral a ser observado é a
aquele que veda o comportamento contraditório de uma parte, com a finalidade de
preservar as expectativas legítimas do contratante, verine contra factum proprium.

Assim, é preciso analisar a resilição unilateral prevista nos arts. 473 e 720 do
CCB/2002 de forma conjunta com os padrões comportamentais exigidos pela boa-fé
objetiva. Isso não significa dizer que fica proibida a extinção contratual e que os
contratos devem ser mantidos a qualquer custo, pelo contrário, a vontade de se
contratar ainda é importante e deve ser considerada. Entretanto, uma parte, ao decidir
acabar com uma relação obrigacional de forma unilateral, deve observar os fins
econômicos e sociais, os bons costumes e em especial as expectativas geradas, com
o intuito de evitar danos a outra parte, e em caso de ocorrência, estes devem ser
reparados em toda sua extensão. É importante lembrar que esses deveres laterais
são independentes em relação àqueles da obrigação principal, então mesmo que
ocorra o cumprimento do que foi acordado, isso não exclui a necessidade de
reparação por violação positiva do contrato.

Dessa maneira, não é permitido a nenhum dos contratantes usar da liberdade


contratual e sua autonomia como justificativa para encerrar ou não renovar um
contrato sem o devido aviso em tempo suficiente para que o outro possa recuperar
seus investimentos e organizar sua vida. Assim, o prazo de 90 dias do art. 720 deve
ser estendido dependendo do caso analisado.

Nesse entendimento é que a ministra Nancy Andrighi do STJ, deu provimento


a um recurso especial, onde um consumidor alegava a infringência da boa-fé objetiva
por parte de uma seguradora de um plano de saúde, que após 30 anos de sucessivas
renovações de um convênio de saúde, decidiu encerrar o contrato e oferecer outras
alternativas bem mais caras para o cliente. Assim, ela reconheceu a falta de
colaboração por parte da seguradora e exigiu a reparação dos danos causados pela
violação dos deveres laterais de conduta.

DIREITO DO CONSUMIDOR. CONTRATO DE SEGURO DE VIDA,


RENOVADO ININTERRUPTAMENTE POR DIVERSOS ANOS.
CONSTATAÇÃO DE PREJUÍZOS PELA SEGURADORA, MEDIANTE A
ELABORAÇÃO DE NOVO CALCULO ATUARIAL. NOTIFICAÇÃO, DIRIGIDA
AO CONSUMIDOR, DA INTENÇÃO DA SEGURADORA DE NÃO RENOVAR
O CONTRATO, OFERECENDO-SE A ELE DIVERSAS OPÇÕES DE NOVOS
SEGUROS, TODAS MAIS ONEROSAS. CONTRATOS RELACIONAIS.
DIREITOS E DEVERES ANEXOS. LEALDADE, COOPERAÇÃO,
PROTEÇÃO DA SEGURANÇA E BOA FÉ OBJETIVA. MANUTENÇÃO DO
CONTRATO DE SEGURO NOS TERMOS ORIGINALMENTE PREVISTOS.
RESSALVA DA POSSIBILIDADE DE MODIFICAÇÃO DO CONTRATO,
PELA SEGURADORA, MEDIANTE A APRESENTAÇÃO PRÉVIA DE
EXTENSO CRONOGRAMA, NO QUAL OS AUMENTOS SÃO
APRESENTADOS DE MANEIRA SUAVE E ESCALONADA. [...] (STJ - REsp:
1073595 MG 2008/0150187-7, Relator: Ministra NANCY ANDRIGHI, Data de
Julgamento: 23/03/2011, S2 - SEGUNDA SEÇÃO, Data de Publicação: DJe
29/04/2011)

Além de reconhecer a observância de deveres acessórios oriundos da boa-fé


objetiva, a ministra atesta que nos contratos de trato sucessivos, os diversos contratos
renovados não devem ser analisados de forma estanque ou separada: "trata-se, na
verdade, de uma única relação jurídica, desenvolvida mediante a celebração de
diversos contratos, cada um deles como a extensão do outro."

Assim, com a necessidade de entender os contratos dentro do contexto social


em que se inserem, é inadmissível que os analise apenas como uma declaração de
vontade entre duas ou mais partes, sendo esta considerada a única fonte de direitos
e obrigações. Com a lenta substituição do princípio clássico pacta sunt servanda pela
boa-fé objetiva, as relações jurídicas obrigacionais devem ser compreendidas como
um processo, em que não se tem apenas o dever de prestação da obrigação principal,
mas também deveres laterais de proteção. Dessa forma, a autonomia deve ser vista
como um dos pilares de um princípio maior, a dignidade da pessoa humana, e
portanto, a extinção unilateral permitida nos contratos de tempo indeterminado e de
trato sucessivo deve ser permitida desde que se tenha tomadas as devidas condutas,
segundo a boa-fé objetiva, para que não cause danos a outra parte.

REFERÊNCIAS:

BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Recurso especial no 1.073.595/MG. Relator:


Ministra Nancy Andrighi. Diário de Justiça Eletrônico. Brasília, 2015. Disponível em:
<https://ww2.stj.jus.br/processo/revista/documento/mediado/?componente=ITA&seq
uencial=843530&num_registro=200801501877&data=20110429&formato=PDF>.
Acesso em: 19 maio 2018.

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