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CONSIDERAÇÕES SOBRE A IMPENHORABILIDADE DO BEM DE FAMÍLIA

LOCADO A TERCEIRO EM CONFORMIDADE AO ENUNCIADO 486 DO


SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA

Patrine Marques Weil1

RESUMO
O presente trabalho possui grande relevância no ordenamento jurídico, sendo matéria bastante
corriqueira nos Tribunais brasileiros. Trata-se do instituto do bem de família, introduzido na lei
8.009/1990 e no Código Civil. Assim sendo, o foco do presente trabalho científico possui como
finalidade dissertar sobre a proteção de eventual constrição judicial do bem de família facultativo e
obrigatório, com ênfase na área de locação à terceiro. Para tanto, buscou-se desenvolver estudo
sobre os direitos e garantias fundamentais incorporados na Constituição Federal de 1988, pertinentes
ao Instituto do bem de família, uma vez que indispensáveis para o surgimento da proteção
assegurada pelo Estado. Analisou-se a evolução histórica do bem de família, suas espécies e demais
aspectos correlacionados ao instituto. Por conseguinte, desenvolveu-se estudo na área de locação de
imóvel, e sobre a possibilidade deste prédio sofrer constrição judicial. Por fim, realizou-se uma análise
no tocante ao enunciado 486 do Superior Tribunal de Justiça, o qual dispõe acerca de eventual
penhora judicial do imóvel locado à terceiros, sua aplicabilidade e compatibilidade com a doutrina
majoritária.

Palavras-Chave: Bem de família. Locação. Penhora. Legislação especial.

ABSTRACT
The present work has great relevance in the legal system, being very common matter in the Brazilian
Courts. It is the institute for the family’ welfare, introduced by Law 8.009 / 1990 and by the Civil Code.
Thus, the present scientific work focus is to discuss the protection of eventual compulsory judicial
constriction by a family’s property, with emphasis on the area of renting to the third party. Therefore,
we have been developed a study about the fundamental rights and guarantees incorporated in the
Federal Constitution by 1988, pertinent to the family welfare Institute, since they are indispensable for
the emergence of the protection provided by the State. It has been analyzed the historical evolution
about family property, its species and other aspects correlated to the institute. Thereafter, it has been
developed a study in the property leasing area and about the possibility of this building suffering
judicial constriction. Finally, it has been analyzed about the 486 Superior Court of Justice’s sentence,
which provides for judicial attachment of the leased property to third parties, its applicability and
compatibility with the majority doctrine.

Keywords: Family’s properties. Location. Attachment. Special Legislation.

1Graduação, Universidade do Contestado - UnC, Rua Joaquim Nabuco, 314, Bairro Cidade Nova,
Porto União/ SC, CEP: 89.400-000, e-mail: patrineweil@hotmail.com.
1 INTRODUÇÃO

Nas palavras de Silvio de Salvo Venosa, é possível conceituar o bem de


família como sendo “uma porção de bens que a lei resguarda com os característicos
de inalienabilidade e impenhorabilidade, em benefício da constituição e permanência
de uma moradia para o corpo familiar” (2018, p. 452).
O instituto do bem de família no ordenamento jurídico brasileiro possui duas
espécies: o bem de família facultativo ou convencional e o bem de família obrigatório
ou legal. A primeira espécie é regida pelo Código Civil de 2002, enquanto a segunda
encontra-se em legislação especial, a saber, pela lei 8.009/1990.
Nesse sentido, o ordenamento jurídico brasileiro dispõe no artigo 1º da Lei
8.009/1990 que, o imóvel residencial não responderá por qualquer dívida contraída
pela entidade familiar proprietária, desde que residam no imóvel, salvo nas
hipóteses previstas na respectiva lei.
Ademais, o art. 5º da referida lei também dispõe que, para efeitos de
impenhorabilidade, considera-se residência o único imóvel utilizado pelo casal ou
entidade familiar para moradia permanente.
É possível perceber que o legislador condicionou ao devedor a proteção pelo
instituto do bem de família legal, mediante o preenchimento indispensável de dois
requisitos, quais sejam: o imóvel deve ser de propriedade do casal ou entidade
familiar e, ainda, servir de moradia permanente.
Considerando os requisitos indispensáveis para caracterização do instituto do
bem de família, existe a polêmica que os Tribunais Brasileiros e operadores do
direito vêm enfrentando com o denominado bem de família locado à terceiro, uma
vez que a lei n.º 8.009/1990 condiciona o devedor a residência permanente no
imóvel.
Assim, a dúvida que paira é a seguinte: a regra de impenhorabilidade do
único bem de família existente no ordenamento jurídico brasileiro atinge o imóvel
locado à terceiro?
O Enunciado 486 do Superior Tribunal de Justiça, dispõe que o imóvel locado
à terceiro, desde que a renda da respectiva locação seja utilizada para subsistência
do devedor e de sua família não sofrerá constrição judicial, desobedecendo
frontalmente o requisito essencial contido no art. 1 da lei n.º 8.009/1990 da moradia
permanente no imóvel.
Contudo, apesar da divergência existente entre a súmula e a referida lei, tem-
se que, via de regra, o único imóvel da entidade familiar locado a terceiro estará
sujeito a proteção da impenhorabilidade do bem de família elencado na Lei
8.009/1995, sem descumprir o requisito da moradia permanente, haja vista ser o
Estado o detentor dos direitos fundamentais do ser humano.
Sendo assim, o objetivo geral do presente trabalho visa demonstrar que o
único imóvel locado à terceiro está sujeito a proteção da impenhorabilidade
consoante disposto na lei 8.009/90, desde que o rendimento auferido na locação
seja utilizada para a subsistência do devedor e de sua família.
Para tanto, buscou-se desenvolver estudo sobre os princípios constitucionais
que garantem a proteção do Estado relativamente a dignidade da pessoa humana, à
moradia, à família e a propriedade. Logo, desenvolveu-se estudo sobre a natureza
jurídica do instituto do bem de família, sua evolução histórica, bem como o momento
da adoção deste instituto no ordenamento jurídico brasileiro pelo CC de 1916 e pela
Lei n.º 8.009/90.
Por conseguinte, realizou-se estudo na área de locação de imóvel, levando-se
em consideração o Enunciado 486 da Súmula do Superior Tribunal de Justiça, o
qual dispõe acerca da penhora do imóvel locado à terceiros, bem como o atual
entendimento jurisprudencial e doutrinário.
Por fim, será possível demonstrar que o prédio locado à terceiros estará
sujeito a proteção do Estado pelo instituto do bem de família, desde que preencha
os requisitos essenciais, bem como a comprovação de que a renda auferida na
locação é destinada exclusivamente para a subsistência da entidade familiar.

2 MATERIAIS E MÉTODOS

2.1. Quanto à Abordagem

O método de abordagem utilizado no presente trabalho foi de pesquisa


qualitativa. Segundo Minayo et al. (2002), a pesquisa qualitativa trabalha com o
universo de significados, motivos, aspirações, crenças, valores e atitudes, o que
corresponde a um espaço mais profundo das relações, dos processos e dos
fenômenos que não podem ser reduzidos à operacionalização de variáveis.
2.2 Quanto à Natureza

Quanto à natureza, o método utilizado se deu mediante a pesquisa básica,


com o objetivo de gerar conhecimento científico, sem aplicação imediata dos
resultados obtidos (APPOLINÁRIO, 2011).

2.3 Quanto aos Objetivos

O método utilizado quanto aos objetivos se deu pela pesquisa exploratória,


visando proporcionar ao indivíduo maior familiaridade com o problema com vistas a
torná-lo explícito ou a construir hipóteses (GIL, 2002).

2.4 Quanto aos Procedimentos

O presente trabalho foi realizado através de pesquisa bibliográfica, a qual é


desenvolvida com base em material já elaborado, constituído principalmente de
livros e artigos científicos (GIL, 2002).

3 RESULTADOS E DISCUSSÕES

3.1 DIREITOS E GARANTIAS FUNDAMENTAIS

3.1.1 À Dignidade da Pessoa Humana

A Constituição Federal (CF) de 1988 teve como um dos seus principais


objetivos garantir a construção de uma sociedade livre, justa e altruística, alicerçada
na cidadania e dignidade da pessoa humana, para que os Direitos e Garantias
fundamentais pudessem ser desempenhados não sob o prisma do autoritarismo,
mas, sim, das verdadeiras essencialidades da pessoa humana e nas lutas daqueles
que possuem avidez por justiça (CRUZ; SARMENTO; SEIXAS; 2014).
Ingo Wolfgang Sarlet (2012, p. 62), conceitua a dignidade da pessoa humana
como sendo, in litteris:
A qualidade intrínseca e distintiva reconhecida em cada ser humano que o
faz merecedor do mesmo respeito e consideração por parte do Estado e da
comunidade, implicando, neste sentido, um complexo de direitos e deveres
fundamentais que asseguram a pessoa tanto contra todo e qualquer ato de
cunho degradante e desumano, como venham a lhe garantir condições
existenciais mínimas para uma vida saudável, além de propiciar e promover
sua participação ativa e co-responsável nos destinos da própria existência e
da vida em comunhão com os demais seres humanos, mediante o devido
respeito aos demais seres que integram a rede da vida.

A dignidade da pessoa humana possui prevalência hierárquica quanto às


demais normas jurídicas, dominando a posição mais importante dentro da ordem
jurídica nacional, sendo dever do Estado garantir seu conteúdo mínimo.

3.1.2 Direito À Moradia

No tocante ao Direito à Moradia, este foi abordado primeiramente na


Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH), a qual foi aprovada em 1948
pela Assembleia Geral das Nações Unidas, tendo sido ratificada pelo Brasil em
27.03.1968. A DUDH estabelece em seu art. 25, §1, que:

1. Todo ser humano tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar a


si e à sua família saúde, bem-estar, inclusive alimentação, vestuário,
habitação, cuidados médicos e os serviços sociais indispensáveis e direito à
segurança em caso de desemprego, doença invalidez, viuvez, velhice ou
outros casos de perda dos meios de subsistência em circunstâncias fora de
seu controle.

Assim sendo, o direito à moradia é constituído a partir de um direito social,


estando hierarquicamente superior aos direitos fundamentais, ou seja, encontra-se
no auge do ordenamento jurídico brasileiro. Assim, para a consumação efetiva do
direito à moradia, que é um pressuposto para a dignidade da pessoa humana, e
estando ele corporificado em instrumentos nacionais e internacionais, é dever de
todos zelar pela sua proteção e preservação.

3.1.3 À Proteção da Família

A família corresponde a um núcleo social primário disciplinado, in verbis:

(...) constitucionalmente em capítulo específico, no Título da Ordem Social e


em alguns dispositivos esparsos. A proteção deferida à família pelo Estado
se funda na importância que este grupo social desenvolve na formação
psicossocial do indivíduo. É na família que a pessoa recebe as primeiras
orientações para a vida coletiva e é neste organismo que os atos de
solidariedade e de ajuda mútua acontecem mais recorrentemente. Não sem
razão, a família tem deveres constitucionais, como o de assegurar às
crianças a sociabilidade, a educação básica e a saúde, bem como o de
proteção e cuidado com a pessoa do idoso (MENEZES, 2008, p. 2).

O legislador construiu o caput do art. 226, reconhecendo à família especial


proteção do Estado, sem enclausurar a instituição em um conceito, apenas fazendo
alusão à família como base da sociedade, contudo, não estabeleceu a opção por
modelos específicos, mesmo citando três deles (a família matrimonial, aquela
decorrente de união estável e a monoparental) nos parágrafos do mesmo diploma
(MENEZES, 2008).
Portanto, não se pode, consequentemente, pretender uma interpretação
restritiva da família mencionada na CF, aos padrões previstos nos parágrafos do art.
226. A família é uma experiência cultural, vivida pelos protagonistas da sociedade.
E, segundo as experiências da sociedade brasileira, a família contemporânea
apresenta uma diversidade de modelos, o que envolve a família anaparental,
homoafetiva e até mesmo a família originária do concubinato (MENEZES, 2008).

3.1.4 À Propriedade

O legislador constitucional procurou enquadrar a propriedade não apenas


como mero direito subjetivo oponível contra todos que a violarem, mas inclinou-se
sobre tudo por ressaltar a função social que há de incidir-se sobre as faculdades de
usar, gozar, dispor e reivindicar o domínio de quem impropriamente o detenha
(PUCCINELLI JÚNIOR, 2015).
Distante de ser absoluta, a proteção garantida à propriedade encontra-se
sujeita a várias restrições, com o objetivo de assegurar o seu uso racional. Tais
restrições interligam-se tanto a outros particulares, protegidos das implicações
maléficas do exercício tirânico do direito de propriedade, quanto ao Poder Público,
autorizado a impor limitações em nome do interesse público e da função social da
propriedade. Assim, a tributação, a desapropriação e o poder de polícia são
ferramentas de apropriação estatal de bens particulares e de restrição do direito de
propriedade (PUCCINELLI JÚNIOR, 2015).
Portanto, é dever do legislador pesar o equânime equilíbrio entre o individual
e o social, a fim de inibir os exageros no caso em concreto sempre que lhe couber.

3.2 Do Instituto do Bem de Família

O instituto do bem de família teve sua origem no início do século XIX, em


consequência de uma grave crise econômica que atingiu os Estados Unidos da
América do Norte. (GONÇALVES, 2018).
Devido à crise, o Estado do Texas promulgou uma lei chamada de
Homestead Act2 no ano de 1839, a qual tinha como objetivo proteger da penhora a
pequena propriedade do devedor, desde que a propriedade fosse sua residência
(GONÇALVES, 2018).
Após a criação da lei, o instituto do homestead foi adotado em grande parte
da legislação dos Estados norte-americanos, bem como passou a integrar a
legislação de outros países (GONÇALVES, 2018).
Outrossim, conforme conceitua Silvio de Salvo Venosa (2018, p. 452) tem-se
que o bem de família constitui-se em uma porção de bens que a lei resguarda com
os característicos de inalienabilidade e impenhorabilidade, em benefício da
constituição e permanência de uma moradia para o corpo familiar.
Neste sentido, o ordenamento jurídico brasileiro adotou o instituto do bem de
família pelo CC de 1916, bem como na Constituição Federal de 1988, em benefício
do pequeno produtor rural, dispondo que “a pequena propriedade rural, assim
definida em lei, desde que trabalhada pela família, não será objeto de penhora para
pagamento de débitos decorrentes de sua atividade produtiva, dispondo a lei sobre
os meios de financiar o seu desenvolvimento” (GONÇALVES, 2018).
Posteriormente, foi promulgada a Lei n.º 8.009 de 29 de março de 1990, a fim
de regular a impenhorabilidade do bem de família do casal ou em defesa da
entidade familiar, bem como conceituando o instituto de bem de família em seu
artigo 1º, observa-se:

Art. 1º. O imóvel residencial próprio do casal, ou da entidade familiar, é


impenhorável e não responderá por qualquer tipo de dívida civil, comercial,
fiscal, previdenciária ou de outra natureza, contraída pelos cônjuges ou

2 Homestead Act – Lei da Propriedade Rural.


pelos pais ou filhos que sejam seus proprietários e nele residam, salvo nas
hipóteses previstas nesta lei.

Outrossim, consagrou-se no ordenamento jurídico brasileiro a dualidade de


regimes, admitindo-se duas modalidades de bem de família: o bem de família
convencional e o bem de família legal (DUARTE, 2014).
Adveio, então, o CC de 2002, o qual manteve a dualidade de regimes,
disciplinando o bem de família convencional, introduzindo-o no livro do direito de
família, deixando a cargo da lei 8.009/90 a disciplina sobre o bem de família legal
(DUARTE, 2014).
O bem de família facultativo ou voluntário tem como finalidade permitir ao
casal ou a entidade familiar que possui vários imóveis utilizados como residência, a
opção de escolher um dos imóveis para torna-lo impenhorável, ou seja, tal imóvel
restará condicionado aos interesses da família enquanto viver um dos cônjuges ou
até que os filhos completem a maioridade civil.
No tocante ao bem de família legal, este possui como instituidor o próprio
Estado, que a impõe diretamente da lei em defesa do núcleo familiar, independente
de ato constitutivo, tornando impenhorável o imóvel residencial do casal ou da
entidade familiar, ou seja, o imóvel do devedor não responderá por qualquer tipo de
dívida civil ou de qualquer outra natureza, salvo nas hipóteses de fiança em contrato
de locação, pensão alimentícia, impostos e taxas referentes ao imóvel
(GONÇALVES, 2018).
Ademais, o prédio deve servir de residência permanente da entidade familiar
ou habitante singular, conforme dispõe o caput do art. 5º, da Lei sob análise,
segundo o qual: “para os efeitos de impenhorabilidade, de que trata esta lei,
considera-se residência um único imóvel utilizado pelo casal ou pela entidade
familiar para moradia permanente.”

3.3 DO IMÓVEL LOCADO À TERCEIROS

Conforme exposto no tópico anterior, tem-se que o ordenamento jurídico


brasileiro adotou dois regimes distintos, coexistindo harmoniosamente e
simultaneamente: o bem de família convencional ou voluntário, instruído pela
legislação codificada, e o bem de família legal, disciplinado pela Lei n. 8.009/90.
Como ponto de discussão, tem-se a polêmica que os Tribunais e operadores
do direito vêm enfrentando com o denominado: bem de família locado à terceiro,
haja vista que a lei n. 8.009/90 condiciona ao devedor a residência permanente no
imóvel.
Ocorre que, tal dispositivo não deve ser interpretado de maneira absoluta, sob
pena de comprometer a finalidade do instituto do bem de família.
O instituto da impenhorabilidade do bem de família, bem como qualquer
impenhorabilidade existente no ordenamento jurídico brasileiro, afasta o princípio
costumeiro e geral do Direito das Obrigações, no qual estabelece no caput dos arts.
391 e 392 do Código Civil que, o patrimônio do devedor responderá pelas suas
dívidas.
Ademais, é possível asseverar que tal instituto modera o princípio da
efetividade da execução, o qual encontra-se elencado no caput do art. 797 do
Código de Processo Civil, no qual processa-se a execução no interesse do credor.
Apesar da excepcionalidade apresentada, a predisposição do Superior
Tribunal de Justiça é de estender a interpretação das normas legais de ocorrência
de eventual restrição. De fato, ao analisar a lei 8.009/1990, a jurisprudência tem
ampliado seu entendimento, o que remete ao aumento de ocorrências práticas em
que se manifesta a impossibilidade da constrição judicial em relação a determinados
bens do devedor.
Dessa forma, alcança-se o objetivo social almejado pelo legislador, a saber, o
de não dificultar a vida do executado, uma vez que tal medida poderá direciona-lo à
marginalidade, transformando-o em um possível problema social para o Estado. O
escopo de tal interpretação da norma não é de proteger o devedor, mas de manter o
endividado com o mínimo existencial necessário.
Com efeito, o intuito da lei é proteger a entidade familiar e, em hipóteses que
tais, a renda auferida na locação do imóvel pode ser utilizada para a subsistência
do devedor e de sua família, bem como para o pagamento de eventuais dívidas.
Assim, com a finalidade de assegurar o direito à moradia e a proteção da
entidade familiar, o STJ consolidou a súmula n. 486, com o objetivo de garantir o
mínimo necessário a entidade familiar, estabelecendo que “é impenhorável o único
imóvel residencial do devedor que esteja locado a terceiros, desde que a renda
obtida com a locação seja revertida para a subsistência ou a moradia da sua família”
(BRASIL, 2012).
3.4 DA APLICABILIDADE DA SÚMULA 486 DO SUPERIOR TRIBUNAL DE
JUSTIÇA

A respeito da aplicabilidade de súmula 486 do STJ, tem-se que os operados


de direito, majoritariamente, adotaram a interpretação teleológica da norma, senão
veja-se:

AGRAVO DE INSTRUMENTO. CUMPRIMENTO DE SENTENÇA.


PENHORA. ALEGAÇÃO DE QUE A CONSTRIÇÃO RECAIU
INDEVIDAMENTE SOBRE BEM DE FAMÍLIA. TESE REFUTADA NA
ORIGEM. AUSÊNCIA DE PROVAS DE QUE OS VALORES AUFERIDOS
COM A LOCAÇÃO DO BEM CONSTRITADO SEJAM UTILIZADOS PARA
A LOCAÇÃO DO IMÓVEL QUE SERVE DE MORADIA HABITUAL DO
AGRAVANTE E SUA ESPOSA. ELEMENTOS CARREADOS AOS AUTOS
QUE, ADEMAIS, EVIDENCIAM LOCAÇÃO EM DATA POSTERIOR À
PENHORA. INEXISTINDO CABAL DEMONSTRAÇÃO DA DESTINAÇÃO
DAS RENDAS DO IMÓVEL LOCADO PARA SUBSISTÊNCIA OU
MORADIA DA FAMÍLIA DO DEVEDOR EM OUTRO IMÓVEL,
INCOGITÁVEL SE REVELA A INCIDÊNCIA DO VERBETE SUMULAR 486
DO STJ. RECURSO CONHECIDO E DESPROVIDO (SANTA CATARINA,
Tribunal, Ag. nº 40001954420188240000, 2018).

Ademais, importante mencionar que o instituto do bem de família locado à


terceiro é aplicado também na esfera trabalhista, com base na interpretação
teleológica do dispositivo, conforme decisão no Tribunal Regional do Trabalho da 9ª
Região – TRT9, nos autos de Embargos à Execução n.º 307200119905, em data de
28.10.2010, observa-se:

BEM DE FAMÍLIA LOCADO A TERCEIROS. RENDIMENTOS


REVERTIDOS PARA PAGAMENTO DE ALUGUEL RESIDENCIAL.
PROTEÇÃO LEGAL DE IMPENHORABILIDADE MANTIDA. Não há
necessidade imperiosa de que a entidade familiar resida no imóvel
qualificado como bem de família, senão que extraia dali os frutos de sua
sobrevivência. O escopo protecionista da Lei nº 8.009/90 não tem base
patrimonial e sim ética, visando evidenciar a função social da propriedade,
assegurando à família o direito natural à moradia. A impenhorabilidade se
mantém ainda que o bem tenha sido locado a terceiros, uma vez que é o
único imóvel do devedor, restando comprovado que os rendimentos
obtidos com o aluguel garantem a moradia da família em outra localidade.

Portanto, resta pacificado no ordenamento jurídico brasileiro, a incidência da


súmula 486 do Superior Tribunal de Justiça, cuja finalidade é proteger a entidade
familiar, a fim de assegurar o mínimo existencial necessário, e aplicar a lei tendo em
vista os fins sociais a que ela se destina.
4 CONCLUSÃO

Apresentada a pesquisa e tecidas algumas considerações sobre os aspectos


civis e constitucionais do instituto do bem de família, é possível alçar algumas
conclusões.
A moradia figura no rol das necessidades mais indispensáveis do ser
humano, estando intimamente ligada ao instituto da dignidade da pessoa humana,
de modo que, para que cada pessoa desenvolva suas aptidões e incorporar-se
socialmente na comunidade, é imprescindível dispor de morada, uma vez que se
trata de tema pertinente a própria subsistência. Assim, dificilmente um ser humano
poderia manter-se por muito tempo desabrigado, considerando os eventos naturais
ou até mesmo aqueles decorrentes da própria intervenção humana.
Ademais, verificou-se que a propriedade está listada como princípio de ordem
constitucional econômica, uma vez que se encontra vigorosamente associada à
satisfação das indispensabilidades humanas primordiais, a saber, assegurar a
todos a existência digna. Além disso, evidenciou-se a especial proteção do Estado
no tocante à entidade familiar, tendo em vista a importância que este grupo social
potencializa na formação psicológica e social do sujeito.
Assim, pode-se afirmar que o instituto do bem de família, seja aquele
instituído por meio do Código Civil ou pela Legislação Especial, a saber, a Lei n.º
8.009/90, procurou dar apoio à entidade familiar, a fim de evitar que permaneçam
em cenários precários, o que, inclusive, já ocorre no Brasil.
Outro ponto perceptível, é que tal instituto não busca beneficiar devedores
fraudulentos, e sim, amparar aqueles que agem de boa-fé, de forma a preservar a
ordem pública, e não subvertê-la. Isto é, o legislador, conduzido por questões
sociais, pode abrandar alguns princípios alicerçados no ordenamento jurídico, com o
escopo de garantir o mínimo existencial de cada cidadão.
Deveras, ao uniformizar a Súmula 486 do STJ, na qual o legislador,
acertadamente, estendeu a impenhorabilidade do bem de família para aqueles
imóveis que estejam locados à terceiros, aplicou a lei tendo em vista os fins sociais a
que ela se norteia, a saber, preservar o mínimo existencial do executado e de sua
família, considerando que tal medida poderá direciona-los a marginalidade,
transformando-os em um possível problema social para o Estado.
Contudo, é importante frisar que, a impenhorabilidade do bem imóvel locado à
terceiros é uma exceção a norma legal, devendo ser interpretada com muita cautela
no caso em concreto, considerando que, via de regra, o Código Civil estabelece que
o patrimônio do devedor responderá por suas dívidas, de modo a proteger os
credores e evitar o enriquecimento ilícito.

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