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Universidade Católica de Pernambuco - UNICAP

Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião - PPGCR


Curso de Doutorado em Ciências da Religião
Disciplina: Gênero e Religião
Professora: Valdenice José Raimundo
Aluno: João Elton de Jesus
Data: 31/05/2019

Assistir ao filme “Pense como eles” (2012) sob a perspectiva de sexo e gênero faz com
que possamos observar diversos aspetos na relação entre homens e mulheres em nossa
sociedade contemporânea ocidental e capitalista. O filme conta a história de um grupo de 5
amigos que veem o comportamento das mulheres alterado depois que elas começam a ler e a
seguir os conselhos de Steve Harley, que diz que as mulheres devem agir com uma dama, mas
pensar como homem.
É interessante verificar que o filme, de um lado, apresenta os cinco protagonistas a
partir de alguns estereótipos de masculinidade. São eles: o jogador, o filhinho da mamãe, o
sonhador, o que foge de compromisso, o casado feliz e o divorciado feliz. Do outro lado vemos
as mulheres com quem esses homens querem se relacionar. A mãe solteira, que busca encontrar
um parceiro para se relacionar e que possa ser uma referência para seu filho; a mulher que
deseja se casar, ter uma relação mais estruturada e para isso o seu parceiro tem que se organizar
profissionalmente; uma mulher bem sucedida financeira e profissionalmente e uma moça que,
decepcionada com relações anteriores frustradas, não quer ser usada novamente e passa a
apresentar diversas condições e exigências para aceitar uma relação mais séria com o homem.
A maioria dos homens trazem em seus comportamentos e falas diversas características
machistas e misóginas, colocando a mulher como um objeto a ser conquistado para saciar os
seus próprios interesses, desejos e inseguranças. Ainda que nem todos tenham um
comportamento tão abusivo assim, com o é o caso do casado feliz e do filhinho da mamãe, a
relação com o grupo como um todo vai fazendo com que esses “entrem” na onda e passem a
ter comportamentos e pensamentos machistas. Isso mostra como o contexto vai influenciando
as pessoas, que na busca de serem aceitos pelo grupo e se socializarem, acabam cedendo a
valores ou tendo comportamentos, muitas vezes não refletidos, que repetem as relações
desiguais de poder.
O que é interessante verificar é que muitos dos problemas vivenciados ocorrem porque
as mulheres não são escutadas ou são reduzidas a um simples objeto de prazer pelos homens.
Nesse sentido, muitos homens não olham a mulher como uma pessoa dotada de inteligência,
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reflexão e possibilidade de diálogo e, mais que isso, de respeito. Já estão tão introjetados em
um olhar de diminuição da mulher, que não conseguem escutar o que elas tem a dizer ou
contribuir, pois logo já se coloca os preconceitos e dificuldades em entende-las, ridicularizando-
as e ignorando-as.
Um outro ponto que chama na narrativa é na relação do “sonhador” e a mulher bem-
sucedida. Pelo fato de a mulher apresentar uma imagem de autossuficiência e poder, o homem,
por sua vez, não quer ficar em uma situação inferior, então, busca mostrar uma imagem falsa
de “sucesso financeiro” para poder impressionar e, mais ainda, não ser inferiorizado diante de
uma mulher.
Na relação do divorciado feliz, vemos um caso em que na frente dos amigos o homem
se apresenta como forte e valentão, mas no ambiente doméstico, não é assim que acontece. De
fato, na relação de gênero, o poder e a violência não devem acontecer nem com homens e nem
com mulheres, mas o interessante é verificar que é muito difícil para um homem, dada a nossa
cultura machista, assumir que é mais fraco ou submisso a uma mulher.
É fato também, que nem sempre as relações entre gênero são totalmente desiguais e
há relações menos conflituosas, ainda que sabemos que mesmo que o homem tenha assumido
a sua responsabilidade, ele sempre terá seus privilégios por ser homem. Contudo o filme mostra
a versão masculina do casado feliz, que está satisfeito e, ainda que seja zombado pelos amigos,
deixa público a sua relação mais horizontal com a esposa, assumindo papeis e atividades que
preconceituosamente na sociedade são atribuídos às mulheres como cozinhar, limpar a casa e
cuidar dos filhos.
Por fim saliento a personagem do escritor, conselheiro e apresentador Steve Harley.
Ele, na minha percepção, está aproveitando da situação desigual entre homens e mulheres para
ganhar fama e dinheiro, quando em verdade ele me parece extremamente machista e
oportunista. Esse autor coloca para a mulher que ela só será feliz se conseguir um homem, que
ela tem que conquistar e segurar o homem, que ela é culpada por não estar com um homem pois
não pensa como ele ou não faz o que o homem gostaria que fosse feito. Enfim, ele não ajuda a
combater as relações de poder, mas aproveita dessas para afirmá-la e ganhar dinheiro com isso,
fazendo apenas uma ‘maquiagem” da situação e não buscando questionar o problema de fato.
Do lado feminino destacamos algumas personagens. A mãe solteira sente-se
pressionada por conseguir formar uma família melhor, entendendo como “melhor” o modelo
tradicional de pai, mãe e filho. O filme mostra que a criança parece ser muito mais feliz com a
presença de um pai e mostra a infelicidade da mulher por ter um filho e não ter um pai. De fato
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criar um filho sozinha não é fácil, mas o modelo de família não deve ser necessariamente aquele
tradicional. Não me parece que aquela mãe tinha dificuldades financeiras para criar o filho, a
preocupação era em encontrar alguém que fosse referência para o menino. Claro que ela
também se sentia sozinha e tinha o desejo de ter um companheiro, algo que é muito válido,
contudo há diversas motivações e aspectos que influenciam nessa escolha, tanto, que uma das
preocupações iniciais era se o filho iria aprovar o companheiro que a mãe havia escolhido.
No caso da mulher bem-sucedida acontece algo interessante, pois ao mesmo tempo
que a personagem é empoderada e autossuficiente, o autor mostra uma pessoa extremamente
carente que busca um companheiro que seja um complemento afetivo a todo custo, além de
apresentá-la como extremamente interesseira. Assim mostra uma imagem de mulher que é vista
como alguém incompleta e que precisa de um homem, mesmo quando já tenha conquista a sua
independência financeira.
Da mesma forma, parece-me preconceituosa, é como é retratada a personagem da mãe
do filhinho da mamãe, que não se basta sozinha ou com suas atividades pessoais, sejam sociais
ou religiosas, e que sempre precisa de um homem para isso. Antes era o filho, depois o
namorado. Ela não poderia ser feliz sozinha e se quisesse ter um namorado o teria, mas sem
que isso demonstrasse que ela só seria feliz se tiver um homem para “manipular”?
A moça que se relaciona com o “jogador” e que segue todas as orientações dos “90
dias”, dadas pelo conselheiro, também é retratada como alguém que perdeu a sua liberdade para
conseguir um homem que a levasse a sério. Mesmo com o desejo de convidar ele para entrar
em casa e transar com o homem, para não ser tida como “vagabunda” ou “mulher fácil” teve
que mostrar uma imagem de “mulher difícil” e assim ter o respeito do homem. Ora, se o homem
pode transar no primeiro encontro e ser reconhecido e elogiado pelos amigos e justificado pela
sociedade, qual o problema da mulher poder fazer o mesmo? Mais uma vez mostra o quão a
mulher sofre ou tem que se adaptar, ou ainda, tem a sua liberdade limitada por conta de um
constructo social que apresenta o homem como um ser livre e a mulher com o peso de ser
sempre bela, recatada e do lar.
Como toda comédia romântica o filme encerra com um final feliz. No entanto essa
felicidade é questionada, pois os homens conquistaram o que quiseram e as mulheres ainda que
tenham adquirido alguns ganhos, pois os homens passaram a “respeitá-las” mais, a mulher ainda
vive em uma situação de desigualdade, é inferiorizada e ridicularizada pelos homens e ainda
tem a sua imagem reduzida a um objeto e a sua liberdade e possibilidades limitadas por uma
cultura machista e preconceituosa.