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20 TIPOLOGIA TEXTUAL I

NARRAÇÃO, DESCRIÇÃO E DISSERTAÇÃO

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INTRODUÇÃO NARRAÇÃO
Os textos são classificados, de acordo com suas Falar de texto narrativo é observar que a matéria da
características, em determinados tipos, que variam narração é o fato. O relato de um episódio real ou de ficção
conforme a predominância da existência de figuras ou implica outros elementos (quem os vivencia, o fato em si
de ideias abstratas. Com isso, temos dois tipos de texto e e as circunstâncias), ou seja: o quê, quem, como, quando,
seus decorrentes discursos de base, conforme o exposto onde, porquê, por isso.
na tabela abaixo. Esses elementos não estão, necessariamente,
presentes em todas as narrativas. No entanto, são
Textos Descrição imprescindíveis os elementos quem e o que� para que
concretos possa haver narração.
(fi gurados) Narração São cinco as categorias da narrativa, também
chamadas de elementos da narrativa: o enredo, o narrador,
Textos Exposição os personagens, o tempo e o espaço (ambiente).
abstratos O enredo engloba a estrutura da narrativa. Mais do que
(conceituais) Argumentação entender a sequência de fatos constituintes da história,
o enredo atua na compreensão do conflito; é a trama
Diz-se que os textos são concretos quando apresentam que envolve personagens que se opõem, diante de um
palavras ou expressões que correspondem a algo existente complicador que leva a história para a frente.
(o que se imagina como tal) no mundo natural ou social Um enredo desenvolve-se nos seguintes estágios:
(figuras). Os textos abstratos são aqueles que apresentam
• Exposição
ideias que organizam e ordenam a realidade percebida
pelos sentidos. Já com relação aos discursos de base, os O narrador apresenta as circunstâncias da his-
textos mais concretos apresentam-se como narrações ou tória, situando em época e ambiente determinados,
descrições. Já aqueles mais abstratos, como exposições introduzindo algumas personagens.
ou argumentações.
• Complicação
Em contextos escolares, o discurso expositivo, quando
fundido ao argumentativo, gera o modelo dissertativo- Ao se iniciar o conflito, há o choque de interesses
argumentativo, típico das provas de vestibular. entre personagens.

QUEM FALA • Clímax


Narração narrador O ápice da história, o ponto de maior tensão. No
Descrição observador clímax, o conflito de interesses entre as persona-
gens chega ao ponto em que não há como adiar o
Dissertação argumentador desfecho.

• Desfecho ou desenlace
FALA O QUÊ
O material do enredo é o tema, resultante do trata-
Narração ações, acontecimentos
mento dado ao assunto pelo autor, ou seja, o ponto
Descrição seres, objetos, cenas, processos de vista ou enfoque dado.
Dissertação argumentos, conceitos, definições
Além da sequência temporal que observamos no texto
narrativo, temos como característica a apresentação de
OBJETIVO personagens que vivem fatos em determinado lugar (es-
Narração relatar paço) e tempo. Os fatos são narrados por um narrador.
Descrição identificar, localizar, caracterizar É importante observar que o narrador é uma entidade
literária, sem existência real; logo, não pode ser confundido
Dissertação discutir, informar, expor com o autor do texto. É ele quem conta a história, apresenta
as personagens e, ao fazer isso, constrói um determinado

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foco narrativo. O foco narrativo é, então, a perspectiva a observador; assim, o foco são características como forma,
partir da qual uma história é contada. tamanho, volume, coloração, espessura etc.
O narrador em 1ª pessoa pode assumir duas posições Na descrição subjetiva atenta-se para a percepção
diante do que narra: do observador em relação ao que é descrito. Neste tipo
de descrição, existe a parcialidade do observador que
a) narrador-protagonista ou personagem principal demonstra suas emoções e impressões individuais acerca
Não tem acesso aos sentimentos, pensamentos daquilo que descreve.
e intenções dos outros personagens, mas narra suas É também particularmente importante em uma
percepções, sentimentos e pensamentos. Por meio desse descrição a ordem dos elementos apresentados ao longo
foco, é possível ao leitor traçar o perfil do protagonista. do texto. Essa progressividade auxilia o leitor a combinar
os detalhes descritos em uma imagem unificada.
b) narrador-testemunha ou personagem secundário
Embora narre de dentro da trama os acontecimentos, DISSERTAÇÃO
não consegue saber os sentimentos das outras
A dissertação se caracteriza pela defesa de uma ideia,
personagens, limitando-se a inferências e hipóteses. Pode
de um ponto de vista, ou pelo questionamento acerca de
ou não tecer comentários.
um determinado assunto. Para a fundamentação desse
O narrador em 3ª pessoa, por sua vez, pode assumir
ponto de vista, o texto dissertativo utiliza-se de uma
duas posições diante do que narra:
estrutura argumentativa, pois é a partir desses argumentos
c) narrador-onisciente que se justificará a ideia central da dissertação.
Em geral, para se obter maior clareza na exposição
Tem conhecimento de tudo, até dos pensamentos e
de um ponto de vista, costuma-se distribuir o texto
sentimentos dos personagens. Está acima de tudo, por
dissertativo em três partes:
isso, pode antecipar ações e fatos futuros.
• Introdução: em que se apresenta a ideia ou o ponto
d) narrador-intruso de vista a ser defendido.
Simula um diálogo com o leitor, julga, comenta e
analisa o comportamento e atitudes narradas. • Desenvolvimento ou argumentação: em que se
desenvolve o ponto de vista para tentar convencer
o leitor, usando uma sólida argumentação, com
DESCRIÇÃO exemplos, citações, ou fornecimento de dados.
É o tipo de texto que mostra de forma verbal um
objeto, ser, coisa, paisagem ou mesmo um sentimento, • Conclusão: em que se dá um fecho ao texto, coe-
sempre por meio da apresentação de seus elementos rente com o desenvolvimento e com os argumen-
mais característicos, de suas particularidades e a forma e tos apresentados.
a ordem de sua organização. Em um texto dissertativo não há, de forma alguma,
A finalidade básica de uma descrição é estimular a marca de interlocução. Argumenta-se para convencer
os sentidos provocados pela coisa observada, como se um leitor hipotético, chamado de interlocutor universal.
pudesse dar ao leitor as mesmas impressões que se tem ao Portanto, em uma estrutura dissertativa, a presença da 2ª
estar diante daquilo que é descrito. Para isso, é importante pessoa ou de vocativos implica uma inadequação ao tipo
atentar para o ponto de vista, seja ele a posição física em de texto.
que se encontra o observador, seja a orientação afetiva Como a elaboração de uma dissertação não está
que apresenta diante daquilo que é descrito. centrada na função poética da linguagem, mas na
Daí decorrem dois tipos de descrição. A descrição exposição e defesa de ideias, não se justifica o uso
objetiva e a descrição subjetiva. Na primeira, a coisa exagerado de figuras de linguagem, pois os subtextos
descrita é mostrada de forma concreta, com foco em que a linguagem figurada cria podem, de alguma forma,
seus aspectos intrínsecos, sem revelar as impressões do esvaziar o poder argumentativo do texto.

ANOTAÇÕES

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INTERPRETAÇÃO

EXERCÍCIOS PROPOSTOS
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Considerando os seus conhecimentos sobre os gêneros

QUESTÃO 01 textuais, o texto citado constitui-se de


a) fatos ficcionais, relacionados a outros de caráter
(ENEM) realista, relativos à vida de um renomado escritor.

Mudança b) representações generalizadas acerca da vida de


Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas membros da sociedade por seus trabalhos e vida
manchas verdes. Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro, cotidiana.
estavam cansados e famintos. Ordinariamente andavam c) explicações da vida de um renomado escritor, com
pouco, mas como haviam repousado bastante na areia do estrutura argumentativa, destacando como tema
rio seco, a viagem progredira bem três léguas. Fazia horas seus principais feitos.
que procuravam uma sombra. A folhagem dos juazeiros
apareceu longe, através dos galhos pelados da caatinga rala. d) questões controversas e fatos diversos da vida de
Arrastaram-se para lá, devagar, sinhá Vitória com o filho personalidade histórica, ressaltando sua intimidade
mais novo escanchado no quarto e o baú de folha na cabeça, familiar em detrimento de seus feitos públicos.
Fabiano sombrio, cambaio. As manchas dos juazeiros e) apresentação da vida de uma personalidade,
tornaram a aparecer, Fabiano aligeirou o passo, esqueceu organizada sobretudo pela ordem tipológica da
a fome, a canseira e os ferimentos. Deixaram a margem do narração, com um estilo marcado por linguagem
rio, acompanharam a cerca, subiram uma ladeira, chegaram objetiva.
aos juazeiros. Fazia tempo que não viam sombra.
RAMOS, G. Vidas secas. Rio de Janeiro: Record, 2008 (fragmento).

Valendo-se de uma narrativa que mantém o distanciamento


na abordagem da realidade social em questão, o texto QUESTÃO 03
expõe a condição de extrema carência dos personagens
acuados pela miséria. (ENEM)
O recurso utilizado na construção dessa passagem, o qual
comprova a postura distanciada do narrador, é a Manta que costura causos e histórias
no seio de uma família serve de metáfora
a) caracterização pitoresca da paisagem natural. da memória em obra escrita por autora portuguesa
b) descrição equilibrada entre os referentes físicos e O que poderia valer mais do que a manta para aquela
psicológicos dos personagens. família? Quadros de pintores famosos? Joias de rainha?
c) narração marcada pela sobriedade lexical e sequência Palácios? Uma manta feita de centenas de retalhos de
temporal linear. roupas velhas aquecia os pés das crianças e a memória
d) caricatura dos personagens, compatível com o da avó, que a cada quadrado apontado por seus netos
aspecto degradado que apresentam. resgatava de suas lembranças uma história. Histórias
e) metaforização do espaço sertanejo, alinhada com o fantasiosas como a do vestido com um bolso que abrigava
um gnomo comedor de biscoitos; histórias de traquinagem
projeto de crítica social.
como a do calção transformado em farrapos no dia em
que o menino, que gostava de andar de bicicleta de

QUESTÃO 02 olhos fechados, quebrou o braço; histórias de saudades,


como o aventai que carregou uma carta por mais de
um mês... Muitas histórias formavam aquela manta. Os
(ENEM) protagonistas eram pessoas da família, um tio, uma tia, o
avô, a bisavó, ela mesma, os antigos donos das roupas.
Um dia, a avó morreu, e as tias passaram a disputar a
manta, todas a queriam, mais do que aos quadros, joias e
palácios deixados por ela. Felizmente, as tias conseguiram
chegar a um acordo, e a manta passou a ficar cada mês
na casa de uma delas. E os retalhos, à medida que iam se
acabando, eram substituídos por outros retalhos, e novas e
antigas histórias foram sendo incorporadas à manta mais
valiosa do mundo.

LASEVICIUS: A Língua Portuguesa, Sâo Paulo. n. 76.2012 (adaptado).

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A autora descreve a importância da manta para aquela c) advertir o leitor mais jovem sobre o mau uso que se
família, ao verbalizar que “novas e antigas histórias foram faz do tempo nos dias atuais.
sendo incorporadas à manta mais valiosa do mundo” . d) incentivar o leitor a organizar melhor o seu tempo sem
Essa valorização evidencia-se pela deixar de ser nostálgico.
a) oposição entre os objetos de valor, como joias,
e) convencer o leitor sobre a veracidade de fatos relativos
palácios e quadros, e a velha manta.
à vida no passado.
b) descrição detalhada dos aspectos físicos da manta,
como cor e tamanho dos retalhos.
c) valorização da manta como objeto de herança familiar
disputado por todos.
QUESTÃO 05
d) comparação entre a manta que protege do frio e a (ENEM)
manta que aquecia os pés das crianças.
Aí pelas três da tarde
e) correlação entre os retalhos da manta e as muitas
histórias de tradição oral que os formavam. Nesta sala atulhada de mesas, máquinas e papéis, onde
invejáveis escreventes dividiram entre si o bom-senso do
mundo, aplicando-se em ideias claras apesar do ruído e do

QUESTÃO 04 mormaço, seguros ao se pronunciarem sobre problemas


que afligem o homem moderno (espécie da qual você,
milenarmente cansado, talvez se sinta um tanto excluído),
(ENEM) largue tudo de repente sob os olhares a sua volta, componha
uma cara de louco quieto e perigoso, faça os gestos mais
Você pode não acreditar
calmos quanto os tais escribas mais severos, dê um largo
Você pode não acreditar: mas houve um tempo em que
“ciao” ao trabalho do dia, assim como quem se despede da
os leiteiros deixavam as garrafinhas de leite do lado de fora
vida, e surpreenda pouco mais tarde, com sua presença em
das casas, seja ao pé da porta, seja na janela.
hora tão insólita, os que estiveram em casa ocupados na
A gente ia de uniforme azul e branco para o grupo,
limpeza dos armários, que você não sabia antes como era
de manhãzinha, passava pelas casas e não ocorria que
conduzida. Convém não responder aos olhares interrogativos,
alguém pudesse roubar aquilo.
deixando crescer, por instantes, a intensa expectativa que se
Você pode não acreditar: mas houve um tempo em
instala. Mas não exagere na medida e suba sem demora
que os padeiros deixavam o pão na soleira da porta ou na
ao quarto, libertando aí os pés das meias e dos sapatos,
janela que dava para a rua. A gente passava e via aquilo
tirando a roupa do corpo como se retirasse a importância das
como uma coisa normal.
coisas, pondo-se enfim em vestes mínimas, quem sabe até
Você pode não acreditar: mas houve um tempo em que
em pelo, mas sem ferir o decoro (o seu decoro, está claro), e
você saía à noite para namorar e voltava andando pelas
aceitando ao mesmo tempo, como boa verdade provisória,
ruas da cidade, caminhando displicentemente, sentindo
toda mudança de comportamento.
cheiro de jasmim e de alecrim, sem olhar para trás, sem
NASSAR, R. Menina a caminho. São Paulo: Cia. das Letras, 1997.
temer as sombras.
Você pode não acreditar: houve um tempo em que as Em textos de diferentes gêneros, algumas estratégias
pessoas se visitavam airosamente. Chegavam no meio da argumentativas referem-se a recursos linguístico-
tarde ou à noite, contavam casos, tomavam café, falavam discursivos mobilizados para envolver o leitor. No texto,
da saúde, tricotavam sobre a vida alheia e voltavam de caracteriza-se como estratégia de envolvimento a
bonde às suas casas.
Você pode não acreditar: mas houve um tempo em que a) prescrição de comportamentos, como em: “[...] largue
o namorado primeiro ficava andando com a moça numa tudo de repente sob os olhares a sua volta [...]”.
rua perto da casa dela, depois passava a namorar no b) apresentação de contraposição, como em: “Mas não
portão, depois tinha ingresso na sala da família. Era sinal exagere na medida e suba sem demora ao quarto [...]”.
de que já estava praticamente noivo e seguro.
Houve um tempo em que havia tempo. c) explicitação do interlocutor, como em: “[...] (espécie da
Houve um tempo. qual você, milenarmente cansado, talvez se sinta um
SANT’ANNA, A. R. Estado de Minas, 5 maio 2013 (fragmento). tanto excluído) [...]”.
Nessa crônica, a repetição do trecho “Você pode não d) descrição do espaço, como em: “Nesta sala atulhada de
acreditar: mas houve um tempo em que...” configura-se mesas, máquinas e papéis, onde invejáveis escreventes
como uma estratégia argumentativa que visa dividiram entre si o bom-senso do mundo [...]”.
a) surpreender o leitor com a descrição do que as pessoas e) construção de comparações, como em: “[...]
faziam durante o seu tempo livre antigamente. libertando aí os pés das meias e dos sapatos, tirando
b) sensibilizar o leitor sobre o modo como as pessoas se a roupa do corpo como se retirasse a importância
relacionavam entre si num tempo mais aprazível. das coisas [...]”.

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INTERPRETAÇÃO

vem de “en avant tous”. Assim também acontece com o

QUESTÃO 06 “balancê”, que também vem de bailar em francês.

SOARES, L. Disponível em: http://gazetaonline.globo.com.


(ENEM) Um cachorro cor de carvão dorme no azul etéreo de Acesso em: 30 jun. 2015 (adaptado).

uma rede de pesca enrolada sobre a grama da Praça Vinte Ao discorrer sobre a festa de São João e a quadrilha como
e Um de Abril. O sol bate na frente nos degraus cinzentos manifestações da cultura corporal, o texto privilegia a
da escadaria que sobe a encosta do morro até a Igreja da descrição de
Matriz. A ladeira de paralelepípedos curta e íngreme ao lado a) movimentos realizados durante a coreografia da
da igreja passa por um galpão de barcos e por uma casa dança.
de madeira pré-moldada. Acena para a velhinha marrom
que toma sol na varanda sentada numa cadeira de praia b) personagens presentes nos festejos de São João.
colorida. O vento nordeste salgado tumultua as árvores e c) vestimentas utilizadas pelos participantes.
as ondas. Nuvens esparramadas avançam em formação
d) ritmos existentes na dança da quadrilha.
do mar para o continente como um exército em transe.
A ladeira faz uma curva à esquerda passando em frente e) folguedos constituintes do evento.
a um predinho do século dezoito com paredes brancas

QUESTÃO 08
descascadas e janelas recém-pintadas de azul-cobalto.
GALERA, D. Barba ensopada de sangue. São Paulo: Cia. das Letras, 2012.

A descrição, subjetiva ou objetiva, permite ao leitor visualizar


(ENEM)
o cenário onde uma ação se desenvolve e os personagens
que dela participam. O fragmento do romance caracteriza-
se como uma descrição subjetiva porque
a) constrói sequências temporais pelo emprego de
expressões adverbiais.
b) apresenta frases curtas, de ordem direta, com
elementos enumerativos.
c) recorre a substantivos concretos para representar um
ambiente estático. No texto, menciona-se que a gentileza extrapola as regras
de boa educação. A argumentação construída
d) cria uma ambiência própria por meio de nomes e
verbos metaforizados. a) apresenta fatos que estabelecem entre si relações de
causa e de consequência.
e) prioriza construções oracionais de valor semântico de
oposição. b) descreve condições para a ocorrência de atitudes
educadas.
c) indica a finalidade pela qual a gentileza pode ser
QUESTÃO 07 praticada.
d) enumera fatos sucessivos em uma relação temporal.
(ENEM) É dia de festa na roça. Fogueira posicionada, e) mostra oposição e acrescenta ideias.
caipiras arrumados, barraquinhas com quitutes suculentos
e bandeirinhas de todas as cores enfeitando o salão. Mas o
ponto mais esperado de toda a festa é sempre a quadrilha,
embalada por música típica e linguajar próprio. Anarriê,
QUESTÃO 09
alavantú, balancê de damas e tantos outros termos
agitados pelo puxador da quadrilha deixam a festa de São (ENEM)
João, comemorada em todo o Brasil, ainda mais completa. O Brasil é sertanejo
Embora os festejos juninos sejam uma herança da
colonização portuguesa no Brasil, grande parte das Que tipo de música simboliza o Brasil? Eis uma
tradições da quadrilha tem origem francesa. E muita gente questão discutida há muito tempo, que desperta opiniões
dança sem saber. extremadas. Há fundamentalistas que desejam impor ao
As influências estrangeiras são muitas nas festas dos público um tipo de som nascido das raízes socioculturais
três santos do mês de junho (Santo Antônio, no dia 13, e do país. O samba. Outros, igualmente nacionalistas,
São Pedro, no dia 29, completam o grupo). O “changê de desprezam tudo aquilo que não tem estilo. Sonham com
damas” nada mais é do que a troca de damas na dança, o império da MPB de Chico Buarque e Caetano Veloso.
do francês “changer”. O “alavantú”, quando os casais se Um terceiro grupo, formado por gente mais jovem, escuta
aproximam e se cumprimentam, também é francês, e e cultiva apenas a música internacional, em todas as
vertentes. E mais ou menos ignora o resto.

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A realidade dos hábitos musicais do brasileiro agora


está claro, nada tem a ver com esses estereótipos. O
gênero que encanta mais da metade do país é o sertanejo, QUESTÃO 10
seguido de longe pela MPB e pelo pagode. Outros gêneros
em ascensão, sobretudo entre as classes C, D e E, são o (ENEM) Garcia tinha-se chegado ao cadáver, levantara o
funk e o religioso, em especial o gospel. Rock e música lenço e contemplara por alguns instantes as feições defuntas.
eletrônica são músicas de minoria. Depois, como se a morte espiritualizasse tudo, inclinou-se e
É o que demonstra uma pesquisa pioneira feita entre beijou-a na testa. Foi nesse momento que Fortunato chegou
agosto de 2012 e agosto de 2013 pelo Instituto Brasileiro à porta. Estacou assombrado; não podia ser o beijo da
de Opinião Pública e Estatística (Ibope). A pesquisa Tribos amizade, podia ser o epílogo de um livro adúltero [...].
musicais — o comportamento dos ouvintes de rádio sob Entretanto, Garcia inclinou-se ainda para beijar outra
uma nova ótica faz um retrato do ouvinte brasileiro e traz vez o cadáver, mas então não pôde mais. O beijo rebentou
algumas novidades. Para quem pensava que a MPB e o em soluços, e os olhos não puderam conter as lágrimas,
samba ainda resistiam como baluartes da nacionalidade, que vieram em borbotões, lágrimas de amor calado, e
uma má notícia: os dois gêneros foram superados em irremediável desespero. Fortunato, à porta, onde ficara,
popularidade. O Brasil moderno não tem mais o perfil saboreou tranquilo essa explosão de dor moral que foi
sonoro dos anos 1970, que muitos gostariam que se longa, muito longa, deliciosamente longa.
eternizasse. A cara musical do país agora é outra.
ASSIS, M. A causa secreta. Disponível em: www.dominiopublico.gov.br.
Acesso em: 9 out. 2015.
GIRON, L. A. Época, n. 805, out. 2013 (fragmento).
No fragmento, o narrador adota um ponto de vista que
O texto objetiva convencer o leitor de que a configuração
acompanha a perspectiva de Fortunato. O que singulariza
da preferência musical dos brasileiros não é mais a mesma
esse procedimento narrativo é o registro do(a)
da dos anos 1970. A estratégia de argumentação para
comprovar essa posição baseia-se no(a) a) indignação face à suspeita do adultério da esposa.
a) apresentação dos resultados de uma pesquisa que b) tristeza compartilhada pela perda da mulher amada.
retrata o quadro atual da preferência popular relativa à
c) espanto diante da demonstração de afeto de Garcia.
música brasileira.
b) caracterização das opiniões relativas a determinados d) prazer da personagem em relação ao sofrimento
gêneros, considerados os mais representativos da alheio.
brasilidade, como meros estereótipos.
e) superação do ciúme pela comoção decorrente da
c) uso de estrangeirismos, como rock, funk e gospel,
morte.
para compor um estilo próximo ao leitor, em sintonia
com o ataque aos nacionalistas.
d) ironia com relação ao apego a opiniões superadas,
tomadas como expressão de conservadorismo e
anacronismo, com o uso das designações “império”
e “baluarte”.
e) contraposição a impressões fundadas em elitismo e
preconceito, com a alusão a artistas de renome para
melhor demonstrar a consolidação da mudança do
gosto musical popular.

ANOTAÇÕES

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