Você está na página 1de 5

Lição 5 – Bildade e Zofar aconselham Jó

Texto base: Jó cap 8, 11, 18, 20, 25

Alvo da lição: Ao estudar a lição, você vai aprender com as tentativas bem
intencionadas de Bildade e de Zofar que queriam “corrigir” a teologia de Jó e
levá-lo a arrepender-se de seus “pecados”

Os capítulos 4 a 27 são dominados por discursos de amigos de Jó e dele próprio,


e são uma mescla de discurso bonito e crítica velada, de teologia boa e teologia
ruim, de dicas úteis e meros chavões religiosos. A lição examina a essência dos
discursos de Bildade e de Zofar nos capítulos 8, 11, 18, 20 e 25, e o que de
positivo e de negativo há em cada um.

Quanta paciência você tem para ouvir aquele sofre, para sentir sua dor? Ou não
vê a hora de poder despejar todo seu conhecimento e soluções prontais em cima
de sua cabeça? Você mesmo já foi vítima da “solução” simplista de alguém?

1. Bildade, impaciente e errado (Jó 8.1-22)

Em Jó 8.2, percebe-se que Bildade não tem paciência com Jó (Compare Jó 18.2)
e entra de imediato com seu diagnóstico e sugestões. Ela acerta ao afirmar que
Deus nunca comete injustiça (Jó 8.3), que os filhos de Jó haviam pecado (Jó 8.4;
cf. 1.5), que pecado é julgado (Jó 8.4), que Deus aprova humildade e retidão (Jó
8.5-6,20), que em Deus há perdão e restauração abundante (Jó 8.6-7, 21-22). A
insinuação no “se fores puro e reto” (Jó 8.6) funciona qual senha que desvenda
o segredo para entendermos Bildade: para ele, Jó está sofrendo merecidamente
por não ser puro e reto. Mas nós sabemos algo que Bildade não sabia (Jó 1.8;
2.3)! ...

O conselho de Elifaz tem uma base lógica, que ele expõe em Jó 4.7-8: “Lembra-
te: acaso, já pereceu algum inocente?... Os que lavram a iniquidade e semeiam
o mal, isso mesmo eles segam”. Com isso concorda o Novo Testamento (veja
Gl 6.7), e concorda também o nosso coração, a nossa consciência: existe uma
ordem moral no mundo, e Deus é Juiz justo. Elifaz teve certeza confirmada por
experência pessoal de revelação divina, que descreve em Jó 4.12-21. Foi um
momento em que a doutrina da pura e santa justiça de Deus se tornou uma
realidade viva, não apenas uma doutrina teórica. E, como sempre acontece,
visão da santidade de Deus põe em relevo de contraste outra visão, a do ser
humano (Jó 4.19-21) na sua fragilidade e imperfeição (cf. Gn 18.25,27; Is 6.3-5),
e na loucura do seu pecado (Jó 5.1-5).

Elifaz continua seu conselho exortando Jó a orar (Jó 5.8). Quando oramos, antes
de pensar em nós mesmos e os nossos problemas, devemos pensar no Deus
com quem falamos. Elifaz faz isso de maneira muito bonita, conforme Jó 5.9-16,
e termina encorajando Jó a se submeter à disciplina do Senhor (5.17), na
esperança de que Deus possa reverter a situação, livrando Jó de todo o mal (Jó
5.18-22) e levando-o a um lugar de benção (Jó 5.23-26).

Jó para hoje: Quais os estímulos à oração que você pode encontrar no trecho de
Jó 5.9-16?

Como avaliar esse discurso? Sua teologia está correta. O que Elifaz fala sobre
Deus – Seu poder, Sua justiça, Sua sabedoria, Sua misericórdia – está tudo
certo. Suas palavras são citadas no Novo Testamento (Jó 5.13 em 1Co 3.19; Jó
5.17 em Hb 12.5-6). Elifaz é um bom teólogo. Mas é um conselheiro péssimo.
Imagine a insensibilidade – insensatez, até – das palavras em Jó 5.24-25
dirigidas a Jó na situação em que se encontra!

Sim, Elifaz começou bem o seu discurso, com bastante tato. Terminou, porém,
com a certeza dogmática de quem já resolveu o problema (Jó 5.27). Para Elifaz
e os outros dois amigos, a solução é simples: Deus é justo, e não castigaria um
homem inocente; portanto, Jó é grande pecador, sendo castigado assim; Deus
também é misericordioso; portanto, Jó só precisa se arrepender, e Deus o
perdoará.

Pode haver casos em que essa lógica se aplique com certeza. Não no caso de
Jó.

Às vezes é difícil confessar que não sabemos explicar os caminhos de Deus!

2. Segunda discurso: Defende sua teologia (Jó 15)

No diágolo com os três “amigos”, Jó continua insistindo que ele é justo (Jó 9.21;
10.7; 13.18). Não que seja sem pecado, mas que não merce sofrer assim.

O segundo discurso de Elifaz mostra como os três estão ficando mais duros na
posição. Elifaz mostra preocupação em 15.4; “Tornas vão o temor de Deus e
diminuis a devoção a ele devida”. Em outras palavras: Jó, se é verdade que
homem piedoso, temente a Deus, pode ainda sofrer tantos desastres, quem vai
querer servir ao Senhor?” Há uma lógica na colocação, mas é uma lógica
diabólica, como na perguntar que Satanás fez: “Porventura Jó debalde teme a
Deus?” (Jó 1.9). Nem Elifaz nem Satanás entendem que é possível alguém ser
fiel a Deus mesmo sem receber nada de recompensa.

Há uma ironia tremenda na pergunta 15.8: “Ou ouviste o secreto conselho de


Deus?...” Nem Elifaz nem Jó conhecem o que se passou nos capítulos 1 e 2
(Lição 2). Mas Elifaz continua confiando na sabedoria tradicional (Jó 15.9-10) e
na experiência mística que já mencionou (Jó 15.14-16; cf. Jó 4.17-19).

E, percebendo que as “suaves palavras” (Jó 15.11) do seu primeiro discurso não
surtiram efeito, Elifaz encerra o segundo discurso com palavras duras,
descrevendo a sorte dos perversos (Jó 15.17-35). Eles sofrem com a consciência
atormentada (Jó 15.20-24), mesmo antes de receber o castigado merecido (Jó
15.29-34). A implicação é, “Esse também é o seu caso, Jó. “E, desta vez, nem
faz apelo para que Jó se arrependa.
Mais uma vez, é dificil encontrar erro na teologia de Elifaz. Mas ele já se mostra
mais interessado em vencer um argumento do que em ajudar uma aflito.

Jó para hoje: As vezes, é difícil confessar que não sabemos explicar os caminhos
de Deus!

3. Terceiro discurso: Acusa de pecado (Jó 22)

Depois do segundo discurso, os dois lados tomam posições cada vez mais
radicais. Jó afirma que Deus parece ser totalmente injusto: Ele artomenta o
inocente (Jó 16.12-14) e abençoa os perversos (Jó 21.7-13). E Jó conclui que os
três “amigos” estão totalmente errados (Jó 21.34).

No último discurso, a lógica de Elifaz o constrange a caluniar a Jó com uma série


de acusações totalmente sem fundamento (Jó 22.5-9). E, mais uma vez, ele
avisa do juízo que certamente virá sobre a impiedade (Jó 22.10-20). Mas o seu
apelo final (Jó 22.21-30) é dos mais belos, prometendo benção total se Jó se
converter (Jó 22.23).

Antes, porém, de entrar nas acusações, Elifaz lança algumas perguntas


inquietantes: “Porventura, será o homem de algum proveito a Deus?... Ou tem o
Todo-Poderoso interesse em que sejas justo ou algum lucro em que faças
perfeitos os teus caminhos?” (Jó 22.2-3). É verdade que a nossa virtude não traz
nenhum lucro ao Todo-Poderoso; tampouco o nosso pecado Lhe traz prejuizo
(Jó 7.20). Mas isso não significa que Deus seja indiferente à nossa conduta
moral. Mais uma vez, há uma ironia, pois quem já leu os capítulos 1 e 2 sabe
que Deus tem interesse, sim, na fidelidade de Jó.

Apesar das falhas como conselheiro, Elifaz mostra um ponto positivo aqui: ele
escuta bem o que Jó está dizendo. Isso se vê na maneira com que lhe repete as
palavras (confira Jó 22.17-18 com 21.14-16). Só que Elifaz escuta para
discordar, não para compreender.
As palavras do apelo final (Jó 22.21-30), embora “belas e santas” (como Calvino
as chama), também são repletas de ironia. Ao dizer, “Reconcilia-te, pois, com
ele” (ou. “Une-te a ele”, 22.21), Elifaz está como que dizendo “Concorda comigo,
eu sei qual é o seu problema”. E quando, no versículo. 30, promete que Jó “livrará
até ao que não é inocente“, Elifaz não sabe que está falando do que acontecerá
no final do livro, quando a oração de Jó salvará o próprio Elifaz e seus amigos
do castigo divino!

Conclusão

Boa teologia, péssimo conselho. Precisamos de discernimento para aproveitar


bem o discurso de Elifaz. É verdade que não pode haver conselho bom sem
teologia boa. Mas teologia não basta: Tem que haver também aquela simpatia
que sabe escutar o coração aflito. A boa teologia de Elifaz pode nos dar uma
visão melhor da santidade tremenda de Deus e da Sua maravilhosa misericórdia.