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Jun / 2012

Nº 353

O ataque dos zines impressos: Tetê Procopio Canções Amigas, diálogos: Drummond,
Bandeira, Cecilia, Manuel, João Cabral: Marcelo Dolabela Vampiros (sempre eles) e o
cocô da verdade: Beto Vianna Qual futuro? A triste Belo Horizonte e outras cidades:
Carlos A. Cândido e Idelber Avelar + Brinco (de pena) de Tilelê: JPerdigão Vamos falar
mal de quem?: Mario Pontes A estranha democracia do general: Maria Carolinas Bissoto
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CDA 110
1902 - 2012
Caminhos (V)
Editorial
Notícias em metades Carlos Drummond de Andrade
A melhor notícia do ano dos últimos 12 anos vem de Itabira. Tem
quase 12 anos que a terra do ferro naufraga em montanhas e lagoas
de pó de minério, com seus governos de direita e sem visão ou pro-
gramas. E com cada vez mais dinheiro em caixa. Qual caixa? Está
entre a sexta e oitava arrecadação de Minas e é o 23º município em
população. Ou seja, o PIB está lá no alto e crescendo.
E a melhor notícia. É que Itabira poderá ter Jackson Tavares
como candidato a prefeito. Ou seja, indica que está melhor que Belo
Horizonte.
Aqui em Belo Horizonte, o PT se meteu numa enrascada ao cair
nas tramas de Aécio Neves e Fernando Pimentel, que deram em Mar-
cio Lacerda, o empresário higienista. O resultado é um retrato que
mais que doer, se altera para pior. Politicamente. Socialmente. É um
triste horizonte.
Ativistas, pensadores de toda ordem querem o novo em Itabira.
Só que o não sabem bem que novo é esse que querem.
Além da possibilidade Jackson Tavares do PT – agora livre do PP,
sair candidato, há uma outra oposição, a do sempre Damon, do PV e
mais um montes de partidos em sua volta.
Isto não é novidade nem assustador. Como disse Lula, como o
Brasil é um país multipartidário, só mesmo com grandes coligações –
não importando as tendências ideológicas, mas sim os programas de
governo, é possível vencer eleições e governar.
Portanto, as chances de Damon são maiores que a de Jackson.
Embora Jackson seja político e Damon tenda a se fazer de bom
gestor. – Isto é coisa de Aécio que afundou Minas. O que não signi-

Cartas
fica que Damon vá afundar Itabira. Longe disso. Ou não, sabe-se lá
e espera-se que não. Daí ter se cercado de nomes competentes, os
especialistas (olha eles aí de novo) – não necessariamente de par-
tido, até pelo contrário, para gerir seu programa de governo. Mas
Damon está se preparando como nunca esteve: o que virá veremos
na campanha.
Já o governo atual está, digamos, morto. Tal incompetência vi- Entre atos: cometa/endo
gente. Não é preciso dizer mais nada nem citar nomes. O que precisa- Marcelo e Conselho: obrigado pelo Co- infeliz da cidade que só tem um jornal...
ria mesmo seria ter promotores e juízes mais ousados para cumprir a
meta. Estou aqui meio de cometa, entre veja o site/blog: www.affonsoromano.
função que lhes cabe. Já que vereadores significam nada. Né, itabira-
metido, entre comprometido, entre uma com.br. Abraços,
nos de oposição, ativistas e militantes?
Mas o chamado grupão (nomenclatura fora de propósito), dizem, viagem e outra, e agradeço a lembrança.
prepara um nome próprio. Claro, precisa se defender e um dele é o O Jornal tá ótimo. Tivera o Rio algo - Affonso Romano de Sant’Anna
de Ronaldo, o ex-prefeito com seus 12 processos no TJMG e STE. assim. Daqui se pode dizer dessa cidade: (Rio de Janeiro/RJ)
Daqui de BH, a gente vê Itabira, vê Belo Horizonte, vê São Pau-
lo, vê muita cidade e não vê muita esperança de transformações
mais radicais.
Escrever
Jackson a gente sabe, mudou Itabira, encarou a ex-CVRD na Caros editores. literários no Cometa. Segue algo, sem
mesma altura. Provocou a LOC2000 (atenção artigo e análise dos O ultimo numero do jornal ficou otimo, compromiso. Agradeço.
os 12 anos e 3 meses da LOC na edição de junho). Mexeu com a gostaria muito de publicar meus textos - Amelina Chaves ( Montes Claros)
cultura. Teve visão maior. Apesar de erros e falhas.
Espera-se que o novo eleito – seja quem for, desde que seja Da-
mon ou Jackson, façam mais que o nada que Lacerda fez em Belo
Horizonte.
Escrever 2
Bom seria se não houvesse leis, nem poderes. Ilusão que pode-se Boa tarde Equipe O Cometa, por mim. Gostaria
dar o direito (êpa) de querer, buscar e esperar. Porque quem sabe um Sou estudante de jornalismo, pelas Fac- de saber se seria possível esse espaço.
dia chega esse novo tempo do outro mundo depois do outro novo que uldades Integradas do Norte de Minas
virá: esse tal possível que o sonho não cansa de querer alcançar. - Funorte, e gostaria de colaborar com - Alexandre Manoel Fonseca
o Cometa com alguns textos produzidos (Montes Claros/MG)

Bartolomeu Carlos Drummond de Andrade em


suas canções amigas
Olá, pessoal! cartas dos leitores, fiquei sabendo que

Expediente cometa editora


10 de junho de 2012
Edição 353
 Acabei de receber os três últimos
exemplares do jornal (março, abril e
houve um número (fev) em hom-
enagem ao nosso saudoso Bartô. La-
(parte 1)
maio). Fiquei muito feliz e agradecida! mentei não ter recebido tal exemplar!
Conselho Editorial: Colaboradores: Sou professora universitária e espe- Seria possível conseguir um exemplar
Carlos Alenquer, Ilson Lima, Marcelo Dolabela, Bartolomeu Campos de cialista na obra de Bartolomeu Cam- da edição de fevereiro?!  O uso da primeira pessoa no Modernismo como ponto motriz não é novi-
Beto Vianna, Cau Gomez, Queiróz, Gustavo Bones, Flávia Guerra,
Angelo Campos, Marcelo Marco Lacerda, Elício Pontes, Paulinho
pos Queirós.(minha dissertação de Abraços gratíssimos, dade. Desde o Romantismo alemão, essa profissão de fé é exercida à exaustão.
Procopio Saturnino Figueiredo, Eneida Costa, JBos- mestrado, publicada, trata de alguns          A diferença e a ampliação desse uso se deram pela incorporação, na
co, João Carlos Firpe Penna, Pablo Gobira, aspectos da obra dele).  Quando li as - Maria Lilia Simões de Oliveira
Diretor de arte:
(Rio de Janeiro/RJ) primeira pessoa do singular, de interlocutores.
Angelo Campos Mario Pontes, Casso, Waldez, Alecrim, Bira,
         Parafraseando, o poeta / escritor é seu “eu” e seus amigos.
Diagramação:
dz7 design - Sálvio Bhering
Nilson, Mario Vale, Alexandre Pimentel,
Carlos Alberto Cândido, Sulamita Esteliam,
Assinando          Carlos Drummond de Andrade, sem dúvida e sem muito esforço de
Estou achando este Cometa cada vez assinatura.
Charge e ilustração: Fernando Martins, Ivan Vellasco, Fernando
mais bonito. Melhor, com cada vez - Marilia Mendes
busca e de estudo, foi o mestre maior desta prática e práxis. Conversou, e
Bira, Alecrim,Genin, Sampaio, Tetê Procopio, Gabriel Rocha,
Cau Gomez Lucas Morais, Francesco Napoli, Mauro mais conteúdo, Decidi: vou fazer uma (Belo Horizonte/MG) aqui estou falando apenas de seus textos em versos, com mais de duas cen-
Secretária: Vivi Coelho Moura Andrade e Wir Caetano. tenas de “chegados”.
Redação e Administração:
Assassinando          Missivista do verso. Confidente do íntimo. Locutor do “inter” e do “in-
Rua Panamá 100, s/12 - Sion - Belo Horizonte/MG Nunca vi jornal mais tendencioso. Não o excesso de opinião. De uma linha nada tra”. Drummond mostra que, para ser um “solitário”, um “bruxo”, em uma
só politicamente, é um Cometa par- eclética. Para mim isso não é jornalismo. “solidão de solitários”, a “conversa tem que rolar solta”.
Cep: 30320.120 - Fone: 31.3286.2629
tidário. Mas o que sinto muito mesmo é - Antonio Carlos Hudson (Itabira)
e-mail: cometaon@gmail.com          Vejamos, então, CDA em cinco diálogos:
 Marcelo Dolabela
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Drummond e Bandeira – Interlocutores de Resposta a Carlos Não há mais, ó terra, ó sol, não há mais esse Os Caramurus conspiram na sombra das Mário de Andrade desce
longa data, Bandeira louva Drummond, em Drummond de Andrade espaço luminoso mangueiras ovais. aos Infernos
Estrela da tarde – “Carlos Drummond de (por Manuel Bandeira)  – jardim, coluna, pórtico – onde a idéia se Só o murmurejo dos cre’m-deus-padre irma- (por Carlos Drummond de Andrade)
Andrade – balada romântica, eu que rima   reclinava,  onde a sabedoria vinha conversar nava os homens de meu país...  
apenas o sobrenome “Andrade” – “qualidade” A mão que o dispensa deve com os homens. Duma feita os canhamboras perceberam que I
/ “verdade” / “vontade” / “trindade”; e, no O laurel sua virtude.  Como um bando perseguido nos apressa- não tinha mais escravos, Daqui a vinte anos farei teu poema
“Mafuá do malungo”, na quadra de circuns- Grato, mas junto sou rude mos.  Quem corre atrás de nós, com o passo Por causa disso muita virgem-do-rosário se e te cantarei com tal suspiro
tância “Resposta a Carlos Drummond de De quem Claro Enigma escreve. de um exército ou de um temporal? perdeu... que as flores pasmarão, e as abelhas,
Andrade”. Bandeira recebe, em troca, nada               confundidas, esvairão seu mel.
mais nada menos do que “Política literária”, O redondo horizonte do sonho sabe que é o Porém o desastre verdadeiro foi embonecar  
um dos poemas mais clássicos de CDA. E carro de Deus: mas nós pensamos ser apenas esta República temporã. Daqui a vinte anos: poderei
Bandeira ainda aparece em “Ode no cinqüen- Política literária o surdo trovão da Morte, precipitando-se. A gente ainda não sabia se governar... tanto esperar o preço da poesia?
tenário do poeta brasileiro”, em “Declaração (por Carlos Drummond de Andrade)   Progredir, progredimos um tiquinho É preciso tirar da boca urgente
a Munuel”, nos caudalosos “A.B.C. Manue-   ** Que progresso também é uma fatalidade... o canto rápido, ziguezagueante, rouco,
lino” e “Mosaico a Manuel Bandeira”. Este A Manuel Bandeira Será o que Nosso Senhor quiser!...  
um poema-livro que poderia, facilmente, ser   Carlos Drummond e Mário de Andrade – Estou com desejos de desastres... feito da impureza do minuto
publicado  em separado. O poeta municipal Mestre e interlocutor, Mário de Andrade foi   e de vozes em febre, que golpeiam
  discute com o poeta estadual para Drummond o irmão mais velho, aquele Com desejos do Amazonas e dos ventos mu- esta viola desatinada A Carlos Drummond de Andrade
qual deles é capaz de bater o poeta federal; a quem permitia comentários e conselhos. riçocas no chão, no chão. (por João Cabral de Melo Neto)
enquanto isso o poeta federal Diferentemente de Oswald de Andrade, influ- Se encostando na cangerana dos batentes...
tira ouro do nariz. ência e persona de enfrentamento – daria um Tenho desejos de violas e solidões sem senti- ** Não há guarda-chuva
ótimo estudo os mudos diálogos entre Carlos do contra o poema
  & Oswald. Mário “come amendoins” em po- Tenho desejos de gemer e de morrer. Carlos Drummond e João Cabral de Melo subindo de regiões onde tudo é surpresa
Carlos Dummond e Cecília Meireles – Poeta- ema, de 1924 – do “Clan do jaboti” –, em um   Neto – E, por ora e por fim, João Cabral de como uma flor mesmo num canteiro.
-musa, Cecília Meireles, que, um dia, Mário formato futurista tupiniquim. Drummond Brasil... Melo Neto, o poeta-só-lâmina, discípulo e  
Faustino saudou como a maior fazedora de já abre seu “Alguma poesia”, em 1930, de- Mastigado na gostosura quente do amen- “desafeto” de Drummond. Outro diálogo que Não há guarda-chuva
versos da poesia brasileira, saúda Drummond dicando “A Mário de Andrade, meu amigo”. doim... daria ótimo estudo. Saudou CDA na abertura contra o amor
com uma elegia à altura de seu estro. Cecília Longo poema, dividido em quatro partes, que Falado numa língua curumim / didicatória de “Pedra do sono”, de 1940- que mastiga e cospe como qualquer boca,
foi, também para CDA, uma forte interlocu- traz uma das mais magistrais estrofes de iní- De palavras incertas num remeleixo melado 1941, e de “O engenheiro”, de 1942-1945, e no que tritura como um desastre.
tora. Secreta. Implícita. Como o outro grande cio. Mário ainda é citado – via epígrafe – no melancólico... poema “A Carlos Drummond de Andrade”, do  
simbolista Alphonsus de Guimaraens. Cecília poema “Num planeta enfermo” e, no quase- Saem lentas frescas trituradas pelos meus mesmo “O engenheiro”. E, depois, silenciou. Não há guarda-chuva
aparece em um lusco-fusco de vela referência. -circunstancial, “Lira paulistano-carioca”. dentes bons... CDA homenageia – e que homenagem?! – contra o tédio:
A mais “clara” é uma estrofe quase perdida de   Molham meus beiços que dão beijos alastra- JCMN em “Campo, chinês e sono”. o tédio das quatro paredes, das quatro
“Ao sol da praia” e no, também cifrado, “Bo- dos   estações, dos quatro pontos cardeais.
ato da primavera” , vale a pena uma leitura E depois murmuram sem malícia as rezas  
total dos longos textos. bem nascidas... Não há guarda-chuva
    contra o mundo
Brasil amado não porque seja a minha pátria, cada dia devorado nos jornais
Pátria é acaso de migrações e do pão-nosso sob as espécies de papel e tinta.
onde Deus der...  
Carlos Drummond Brasil que eu amo porque é o ritmo do meu Não há guarda-chuva
de Andrade braço aventuroso, contra o tempo,
(por Manuel Bandeira) O gosto dos meus descansos, rio fluindo sob a casa, correnteza
O balanço das minhas cantigas amores e danças. carregando os dias, os cabelos.
Louvo o Padre, louvo o Filho, Brasil que eu sou porque é a minha expressão  
O Espírito Santo louvo. muito engraçada,  
Isto feito, louvo aquele Porque é o meu sentimento pachorrento, Campo, chinês e sono
Que ora chega aos sessent’anos Porque é o meu jeito de ganhar dinheiro, de (por Carlos Drummond de Andrade)
E no meio de seus pares comer e de dormir.  
Prima pela qualidade: A João Cabral de Melo Neto
O poeta lúcido e límpido
Que é Carlos Drummond de Andrade. O chinês deitado
  no campo. O campo é azul,
Prima em Alguma Poesia, A Carlos Drummond roxo também. O campo,
Prima no Brejo das Almas de Andrade o mundo e todas as coisas
Prima em Rosa do Povo, (por Cecília Merireles) têm o ar de um chinês
No Sentimento do Mundo.   deitado e que dorme.
(Lírico ou participante, Não há mais daqueles dias extensos,  com Como saber se está sonhando?
Sempre é poeta de verdade o tempo suficiente para acompanharmos o O poeta come amendoim O sono é perfeito. Formigas
Esse homem lépido e limpo amadurecimento dos frutos, e contemplar- (por Mário de Andrade) crescem, estrelas latejam,
Que é Carlos Drummond de Andrade). mos os pombos em seus movimentos pelos   os peixes são fluidos.
telhados. a Carlos Drummond de Andrade E as árvores dizem qualquer coisa
Como é o fazendeiro do ar, Ah! não temos mais desses dias,   que não entendes. Há um campo
O obscuro enigma dos astros para sentirmos as cores que se levantam na Noites pesadas de cheiros e calores amonto- cheio de sono e antigas confidências.
Intui, capta em claro enigma. espuma, e esperarmos as constelações, no céu ados... Debruça-te no ouvido, ouve  o murmúrio
Claro, alto e raro. De resto que roda sobre a nossa cabeça. Foi o Sol que por todo o sítio imenso do Bra- do sono em marcha. Ouve a terra, as nuvens,
Ponteia em viola de bolso Em lágrimas dizemos adeus à memória: sil. Andou marcando de moreno os brasilei- O campo está dormindo e forma um chinês
Inteiramente à vontade não há mais desses dias para acompanhar- ros. de suave rosto inclinando
O poeta diverso e múltiplo mos, sequer, no rosto que amamos o mapa Estou pensando nos tempos de antes de eu no vão do tempo.
Que é Carlos Drummond de Andrade. das rugas, com os dizeres que as explicam... nascer...
  Não há mais daqueles dias extensos larga-  
Louvo o Padre, o Filho, o Espírito mente abertos para o livro que chega, para a A noite era pra descansar. As gargalhadas
Santo, e após outra Trindade saudade que chama, para as inúteis palavras brancas dos mulatos... Semióticas
Louvo: o homem, o poeta, o amigo que, tristes e amorosas, enchiam horas e ho- Silêncio! O Imperador medita os seus versi- www.semioticas1.blogspot.com.br
Que é Carlos Drummond de Andrade. ras. nhos. Mário de Andrade desce
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A maior parte dos zines


que li na adolescência era sobre
música ou estava de alguma forma

(fan) zines de ataque


envolvida com este universo.
Falavam sobre o underground
como uma outra forma de olhar
o mundo, questionavam as
relações no mundo capitalista e
propunham outras, apresentavam
e entrevistavam bandas, citavam
autores revolucionários... De certa
forma, me faziam querer mudar o
Em meio à era digital, continuam surgindo publicações impressas que levantam o dedo do meio mundo. De outra,
para a caretice padronizada da grande imprensa e do mercado editorial mainstream mudaram o meu.

Tetê Procopio
Para começar, nos perguntamos:
em pleno 2012, ainda há espaço para os tam cerca de 8% do total. Um percentual João conta que, na verdade, A Zica
zines impressos? É aquela velha ques- pequeno que arriscamos explicar: fácil não nasceu no papel; ela é um desdobra-
tão que as novas tecnologias sempre acesso a música via internet e popula- mento de várias coisas que aconteceram
trazem... com a internet e seus milhares rização dos blogs como ferramentas de nos primeiros anos deste século. Como,
de blogs, livres para difundir idéias em crítica e mobilização”, eles dizem. desde a década de 90, João lia zines e
seus textos, imagens, músicas, vídeos... sentia uma atração por estas publica-
pra quê gastar dinheiro publicando no Libertando o novo ções, sua monografia, na faculdade de
papel? E mais, há público? E porque não Além dos temas, a qualidade das im- comunicação, foi exatamente sobre o
haveria? Por fim, por onde andam estas pressões e papéis utilizados nestas publi- tema.
ovelhas negras impressas e o que mudou cações alternativas também se diversifi- “Quando eu estava fazendo a mono-
em relação à época em que centenas de- cou. Mesmo que alguns apostem numa grafia, eu contactei amigos que faziam
las circulavam? estética, vamos dizer, mais “tosca” – que, ou que fizeram fanzines. Eles passavam
Bom, para quem ainda não teve con- de certa forma, compõe a identidade dos suas referências, e às vezes pediam: tô
tato com a criatividade da atual geração zines - é notável a vontade de explorar sem grana para fazer meu próximo zine;
de zineiros e colaboradores, a resposta usos que a tela não possibilitaria. e eu falava: ah, eu sou funcionário públi-
é sim. Em meio à era digital, continuam Independente do formato ou do co e onde trabalho tem xérox. Então eu
surgindo publicações impressas que le- suporte, o importante é que estas pu- levava uma cópia e tirava xérox”, lembra.
vantam o dedo do meio para a caretice blicações continuam sendo espaço em Aliás, esta parece ter sido uma prá-
padronizada da grande imprensa e do que idéias e criações circulam sem a tica muito comum no auge dos zines.
mercado editorial mainstream. Mesmo mediação de interesses econômicos/ No documentário Fanzineiros do Século
que essa atitude não seja intencional. mercadológicos, continuam abrindo Passado, de Márcio Sno – disponível
(OK, e nem sempre é assim). espaço para divulgar e incentivar novos na web, praticamente todos os editores
Como foi dito, isso acontece em meio artistas, promovendo intercâmbio, livre entrevistados admitem que contavam
à era digital e não em oposição. É ver- de amarras formatadoras e, dessa forma, com a ajuda de amigos para xerocar suas
dade que no final dos anos 90 e começo aberto a experimentações, provocações, publicações - que ainda eram escritas em Revista Marimbondo | Foto: Leandro Acácio
de 2000, muitos zines migraram para a fabulações. máquinas de escrever ou no computador
web. A partir daí, houve a expansão de E pra tudo isso não se perder apenas e montadas de forma manual.
Capa da “A Zica” nº 0
sites e blogs que, com a possibilidade de na memória de quem viveu os zines em Voltando à Zica, a revista tem uma re-
atualização rápida, baixo custo e liber- determinada época, segundo o pessoal lação forte com a cultura urbana, de rua.
dade de expressão acabaram chamando da Ugra Press, há hoje algumas iniciati- Em 2005, João Perdigão e Luiz Navarro
a atenção dos produtores de conteúdo e vas que tentam reunir estas publicações criaram o Culundria Armada, coletivo
dos seus leitores. independentes em arquivos. São as fan- que cola lambes e stickers provocativos Essa conexão de zines
Surgem algumas questões a partir zinotecas. Uma delas está em Porto Ale- nos muros e postes da cidade. Na época, com as ruas também me
daí. Uma é que a internet transformou gre e se chama Mutação. eles usavam um fotolog para divulgar faz voltar no tempo... Era
a linguagem dos zines. Quando um zine Em Belo Horizonte, se você for ao Ys- o trabalho e fazer contatos e decidiram excitante estar nas ruas,
A minha história com os
migra para a web, começa a dialogar com tilingue, na varanda do edifício Maletta, marcar um ataque sticker na Praça 7. “A conhecer pessoas, participar
zines começou há pelo
outras linguagens, como o vídeo, com numa sexta à noite, além de encontrar gente achou que iam, no máximo, umas de reuniões de coletivos na
menos 13 anos. Assim como
outros conteúdos, através dos hyperlinks uma anti-galeria de arte, regada a encon- 10 pessoas, mas foram mais de 20. Foi o Praça da Liberdade... achar que
o rock underground, estas
e com uma rede de leitores com mais tros, cerveja e música, vai encontrar uma dia em que conhecemos uma galera que fazia parte de uma construção
publicações alternativas
possibilidades de interação. Já o impres- banquinha, cheia de zines. Há alguns faz até hoje vários projetos juntos. Foi o importante, ir pra rua protestar
fazem parte do traçado
so começa a buscar novos caminhos e a mineiros e também de outros estados. início da Zica”. e distribuir panfletos no Dia
labiríntico que vivi até então.
assumir outros papéis. Quem (des)organiza esta banca é João Segundo João Perdigão, a ideia de Sem Compras...
No I Anuário de Fanzines, Zines e Para falar sobre zines, me dei Perdigão. fazer mesmo a Zica veio durante uma
Publicações Alternativas, publicado a liberdade de linguagem que exposição que o Culundria Armada
pela Ugrapress em 2010 – e disponí- estes possuem e mandei aos Zica de urbanidades participou na galeria Desvio, na Savas-
vel em ugrapress.wordpress.com – há confins da academia as regras Ao lado do designer Marcelo Lusto- si. “Tinha participação do pessoal do
uma análise em relação aos vários zines da escrita jornalística. sa e do jornalista Luiz Navarro, João, Azucrina, o Luquinhas, o Xerelll, várias
resenhados pela publicação. Segundo que também é jornalista, edita A Zica. pessoas que fazem trabalhos nas ruas. Aí
ela, a maior parte daqueles publicados O zine é publicado desde 2010 e conta a gente resolveu fazer um zine”. Como a
hoje tem como tema os quadrinhos. “Já com diversos colaboradores, que fazem ideia era produzir um fanzine mais sério
música e política, temas importantes e ilustrações, textos, quadrinhos e poesias e com uma conexão de rede, resolveram
recorrentes nos anos 80 e 90, represen- - sempre relacionados a três temas. colocar temas em cada edição.
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Um zine pode ser uma Alguém se habilita?
coisa muito pessoal. Eu cheguei
a criar um com minha prima Lia, Ferrão de Marimbondo
que se chamava Hein?!. Mas nunca Outra publicação temática que existe
chegamos a distribuir... E digo: em BH é a Marimbondo. Talvez não seja
um zine nasce de um conceito ou o caso de chamá-la de zine, mas é uma
de conceito nenhum. Nasce de publicação alternativa que também traça
uma idéia ou de um desejo. De um outros olhares e não se prende a lingua-
olhar ou de vários. De um grito. De gens quadradas. A revista foi criada por
uma loucura. Nasce de uma paixão. Julia Moysés e Carol Macedo que têm
Um zine começa a partir de uma
um escritório de geração de conteúdo,
pergunta ou de uma provocação. Ou
a Canal C, mas queriam criar o próprio
pode ser de um amor. Um zine é um
veículo. “O desejo surgiu de fazer um
pedacinho de liberdade rabiscado
projeto autoral, em primeiro lugar. E
num papel.
sempre foi um incômodo a cobertura jor-
nalística de cultura ser muito centrada
na agenda cultural ou na critica especia-
lizada”, conta Julia.
Julia ressalta que no projeto editorial,
que foi sendo criado junto com a revista,
elas não estabeleceram nenhum tipo de
critério pro texto, para que o jornalista
pudesse criar e dar opiniões nas repor-
tagens. “A gente queria que todas as
pessoas que trabalharam se sentissem
um pouco donas de Marimbondo, então
Revista Marimbondo | Foto: Flora Rajão a gente deu muita liberdade aos jornalis-
tas, fotógrafos e pra criação gráfica”.
Um dos lançamentos da Marimbon-
do aconteceu no Centro de Referência
O Trocador - 4 e 25 (Edições Serpentinas)
Mort, Macumba tinha acesso a publicações falando uma
Me lembro do meu primeiro à População de Rua. “Foi interessante,
Classe Média coisa dessas”, ele lembra. contato com os Zines. Não sei cena literária de Belo Horizonte. 
quando a gente fez um bate-papo com
A Zica 0 foi lançada em 2010, tinha João conta que na hora de escolher ao certo a data; talvez em 2000 as pessoas e distribuímos as revistas...
como tema Morte, Macumba e Classe os temas da revista eles buscam assun- ou 2001. O fato é que estava num Baile das Dependentes
Vários já tinham a revista e guardavam
Média e cerca de 20 colaboradores. Ela tos que provocam e não sejam pauta e show de bandas de rock autoral, A distribuição das Edições Serpen-
nos seus escaninhos. Eles receberam no
foi lançada no Vendendo Peixe, evento que eles sempre pensam em uma coisa no Lapa Multishow, com meu tinas é feita pelo próprio coletivo que
lançamento na sede do Espanca! ou na
artístico idealizado pelos editores e mais social, uma universal e outra “nada a irmão João e amigos. Antes de ir monta bancas na rua. Um dos lugares
embora, paramos em frente a uma Praia da estação, onde a gente distribuiu
um grupo de amigos, que aconteceu no ver”. “Toda vez, nós juntamos esses te- em que eles distribuíam era na porta
banquinha que vendia zines, fitas algumas”, lembra Julia Moysés.
velho Mercado Novo (no mesmo andar mas esdrúxulos. Classe média é um tema da casa de shows Bordello. Aliás, foi lá
demo e camisetas. Atrás do balcão, Na primeira edição, a revista teve
onde é hoje o Mercado das Borboletas). óbvio que ninguém explora. E você pode também que aconteceu, em 2011, o Baile
um integrante do Coletivo Cisma como tema a rua e para fazê-la chama-
Este foi uma reedição do Kréu Krio, que explorar um tema como esse de uma ma- das Revistas Dependentes, em que foram
nos apresentou a todo aquele ram uma co-editora, a Milene Migliano.
aconteceu em 2008, e reuniu artistas neira não óbvia; foi por isso que a gente lançados por aqui zines como Prego,
novo mundo. E eu comprei o meu Julia Moysés conta que a escolha do
plásticos, grafiteiros, vídeo makers, mú- colocou isso na Zica. É uma inquietação primeiro zine: O Idealista. Golden Shower e A Zica, ao som de ban-
tema dessa edição está ligada ao que a
sicos – todo mundo a fim de mostrar o nesse sentido e ele deu uma liga muito das autorais como Fadarobocoptubarão
cidade vem vivendo: que estar na rua
seu trabalho. estranha com os outros temas. A gente tá e Grupo Porco de Grindcore Interpreta-
ganhou uma potência artística e política
A Zica saiu com a mãozinha de um querendo provocar com o humor, com a tivo.
muito grande. “Mas a primeira pergunta
amigo, que imprimiu 1000 cópias da inquietação”. Na próxima edição, os te- No mesmo ano, a revista Samba 2 foi
que a gente se fez quando começou a
edição. Com esta ajuda, foi possível im- mas são apocalipse, bullyng e maconha. lançada no mesmo esquema, numa noite
escrever a matéria principal foi: será que
primir com grana do próprio bolso um n’A Obra.“Em shows de bandas feminis-
Revista Marimbondo isso é novo mesmo? Aí a Carol fez uma
pôster, que foi espalhado pelas ruas de tas e punks, eu levo A Zica para vender.
pesquisa muito grande e chegou à con-
BH. Segundo João Perdigão, toda edição É um espaço de diálogo porque a Zica
clusão de que BH sempre foi uma cidade
deve sair acompanhada de um pôster. não é só vender; é vender e chamar para
em que estar na rua é um momento de
Com a Zica 1, o cartaz foi feito também participar do próximo... é ser um ciclo”,
reivindicação. Esses conflitos com os
para chamar a atenção de possíveis destaca João Perdigão.
poderes institucionalizados sempre exis-
colaboradores. “Quando a gente fez a
convocatória e uma festa no Bordello,
tiram e isso está na gênese da criação da
Conexão Zine Revista Marimbondo | Foto: Milene Migliano
cidade, essa cidade jardim, cartão postal,
rolou um pôster com chamada pra Zica A impressão que fica sobre BH é que
essa cidade muito organizada, que se
com os temas: putaria, ficção cientifica e ainda não existe, ou não existe mais,
espelhava em cidades européias, uma
propaganda”. uma rede consistente que conecte edi-
cidade planejada... onde o conflito não
A festa, no finado (?) Nelson Bor- tores, colaboradores e leitores. Público,
existe, onde tudo tem que ser arrumadi- faz de tudo para manter as aparências, A
dello, aconteceu em janeiro de 2011, tem. Mas talvez este ainda esteja muito
nho, organizadinho”. Zica, o Zé Buceta, do Desali, a revista em
quando também foi lançado o site do fragmentado e a cena artística e cultural
quadrinhos Peiote, a publicação de tiri-
fanzine. E tudo isso acabou atraindo um alternativa da cidade, mesmo com a aju-
Xerelll e 4 e 25 nhas Ryotiras e outras seguem expres-
número muito maior de colaboradores da das redes sociais, necessite de mais
Além dos criadores da Marimbondo sando insatisfações, exaltando paixões,
para a segunda edição. “A gente sabia mobilização para sair do lugar.
e da Zica, a cultura urbana parece ins- circulando ideias.
que essa edição ia ser mais gorda porque “Não existe uma rede ainda... Eu tô
pirar outros editores da cidade do não.
o número 0 mostrou “olha, A Zica exis- querendo fazer um encontro no Piolho
Há, por exemplo, o zine do artista Xe- * Jornalista, produtora do Dzzz... a
te”, depois a gente criou um site, fez uma Nababo e quero chamar O Cometa tam-
relll, que documenta e explicita picha- rádio do Queijo Elétrico, no ar todo do-
festa pra arrecadar grana... É essa coisa bém. A ideia é criar um ambiente para
ções espalhadas pelos muros da cidade. mingo de 16 às 17 na Rádio UFMG
de conseguir grana fazendo o que gosta.” as pessoas se conhecerem. É tudo muito
E as Edições Serpentinas, projeto de
E publicando o que gosta. “Em 93, 94 incipiente em BH. Não sei se é o tradi-
artes integradas do coletivo 4 e 25, que Links: urubois.org/azica4e25.org
eu vinha na Urban Cave comprar CD e lá cionalismo do mineiro, ou essa descon-
produz livros e sketchbooks encader- revistamarimbondo.com.br
distribuía fanzine. E eu vi uma coisa que fiança, que trava esse negócio do faça-
nados com papelão retirado das ruas. odesali.blogspot.com
eu nunca imaginei ver numa publicação -você-mesmo. Aqui não tem tanta gente
Segundo Matheus Dutra, que faz parte ryotiras.com
impressa: ensinavam a fazer biscoito de fazendo”, analisa João Perdigão.
do coletivo, a proposta do projeto é pu- facebook.com/revistapeiote
maconha. E eu achei uma coisa muito Seja como for, o fato é que pelas la-
blicar novos autores e assim estimular a ugrapress.wordpress.com
subversiva. Naquela época, você não terais e nas entranhas dessa cidade que
10 11

Van Helsing e o cocô da verdade


esse nobre vampirão - no sentido platôni- O suíço Victor Frankenstein da obra
co, que fique claro), mas só agora, no albo- de Shelley está longe de ser um Hugo A- É curioso que Shelley e Stoker tenham
recer dos meus quarenta, me dispus a ler,
de fato e de cabo a rabo, o volume. E até
-Go-Go, vilão de Batfino. Sim, há loucu-
ra em Frankenstein, mas ela transita por
escolhido, para heróis científicos de
onde eu tenha algum crédito para avaliar seu amor pela namorada, pelos parentes, suas obras, não súditos da coroa
méritos literários, tem mesmo muita coi- pelos amigos, tanto quanto em seu amor
Sim, vampiros não existem, mas que tipo de problema é esse? sa melhor por aí, mas não é por aí que eu por explicar os fenômenos do universo britânica, mas, respectivamente,
gosto da obra. O buraco - e a razão de ser (e um amor não exclui, mas alimenta, o
deste texto - é em outro lugar. outro). O sucesso e a tragédia científicas
um suíço e um holandês. Nietzsche
Max Schreck pego em flagrante em Nosferatu Graças a Hollywood, e, mais tarde, a de Frankenstein ao criar “o monstro” re- costumava gozar a cara dos ingleses
toda uma indústria do entretenimento li- fletem a diferença de perspectiva sobre a
ght ocidental - da Família Addams até à “positividade” da ciência que existe entre dizendo que eles são comerciantes,
incrível turma do Penadinho -, Frankens- a criatura Victor Frankenstein, leitor de
Beto Vianna, tein e Drácula viraram aquilo que nunca Galvani, e a de sua criadora Mary Shelley, nada mais que comerciantes
foram. O livro de Shelley não é sobre um leitora de Erasmus Darwin. E por falar em
critic(ad)o literário cientista maluco irresponsavelmente brin- Batfino, voltemos ao cientista de Drácula.
cando de Deus, e o texto de Stoker não é Abraham Van Helsing ganhou o preno- do livro (o Dr. Seward, inclusive). Dr.
Dois dos livros que mais gosto na a vitória do amor cristão sobre as forças me de seu criador, Stoker, talvez porque Seward é um cientista prototípico, na vi-
praia da ficção foram escritos por ci- sensuais do mal. Definitivamente, não, e o autor o considerasse um grande sujeito. são de Bram Stoker. Não um cientista lou-
dadãos britânicos. Nisso eu posso ser e desafio para um duelo (de verdade, com Também acho. Van Helsing é chamado co, longe disso. De fato, o contrário disso.
até fui bem patrulhado como um chau- arma escolhida e tudo) quem, nesse pon- à Inglaterra por seu ex-discípulo, John Ele dirige um asilo para doentes mentais,
vinista de mente incorrigivelmente co- to, insistir no meu contrário. Seward, para ajudar no caso da misteriosa e é fera na craniometria, muito em voga no
lonizada, e faço até gosto, pois noves Frankenstein leva às últimas conse- doença de Lucy Westenra, uma patricinha século 19, um tipo assim como “O Alienis-
fora a literatura, meus queridinhos na quências (emocionais, pedagógicas, po- enricada, cobiçada por três personagens ta”, de Machado de Assis.
música são ingleses (aquela banda do líticas) a proposta do doutor Erasmus
George Harrison) e em outro terreno Darwin (avô de meu ídolo Charles) de
dos passatempos ocidentais - a ciência - que a vida é animada por um fluxo ener- Christopher Lee
sou darwinista de carteirinha. Mas não gético (a “eletricidade animal”, de Luigi
é só pelo sotaque britânico que minha ri de Drácula
Galvani), e, ainda assim, deve ser cuidada
confissão literária pode render apedre- – amada - para a vida realizar-se plena-
jamento. As obras de que estou falando mente como vida.
são Frankenstein, de Mary Shelley, e Drácula também tece considerações
Drácula, do irlandês (e, não, inglês, vá divertidas sobre o que é ser ou estar vivo,
lá) Abraham Stoker. mas esse é o subtema mais ingenuozi-
Até que o livro de Shelley nem é pro- nho da obra. O livro dá asas à pilhéria de
blema. Primeiro, porque a menina tem Stoker com o status auto afirmado da ci-
pedigree. É filha da filósofa feminista ência, num ponto absolutamente funda-
Mary Wollencraft, esposa do finíssimo mental: o lugar da verdade. Stoker, a par
poeta Percy Shelley e amigona de Lorde de suas diatribes literárias, formou-se em
Byron, outro monstro sagrado da pena matemática no famoso Trinity College, de
inglesa, guru do movimento romântico. Dublin (frequentada por outro irlandês
E Shelley não era dama de companhia bamba, Jonathan Swift, cuja obra, Gulli-
dessas feras. Escrevia muito e escrevia ver, também teve o triste destino de ser
bem, ensaísta, editora e tão ou mais po- ensalsichada pela cultura da irrelevân-
liticamente ativista que a mãe. E a pró- cia). Regozijo-me em saber que o mate-
pria obra mencionada, Frankenstein, mático Stoker não estava alheio à maior
tem seu lugar ao sol na lista de boas lei- e mais longeva história de mistificação de
turas do mundo. uma instituição, desde que Platão fundou
Por falar em Shelley (o marido) e a Academia: os cientistas são uma raça
Byron, é bem conhecida a história (tem de pessoas especiais que apontam para a
filme e tudo sobre isso, um filme bem verdade.
doidão: “Gothic”, de 86) em que os dois, É curioso que Shelley e Stoker tenham
mais o ítalo-inglês John William Poli- escolhido, para heróis científicos de suas
obras, não súditos da coroa britânica,
mas, respectivamente, um suíço e um
holandês. Nietzsche costumava gozar a
dori, passaram uma bizarra noite na com-
panhia de Shelley (a esposa), e desse ren-
Graças a Hollywood, e, mais cara dos ingleses dizendo que eles são co-
dezvous opiácio, com a borbulhante cola- tarde, a toda uma indústria do merciantes, nada mais que comerciantes.
Pode ser, mas também deve ser que, para
boração do láudano, brota o argumento de
Frankenstein. Polidori é outra figuraça. entretenimento light ocidental ser um bom comerciante, é preciso estar
Foi considerado culpado por introduzir preparado para seduzir o freguês com algo
o tema “vampiro” na literatura ocidental, - da Família Addams até à melhor que a própria mercadoria. Shel-
ley (post facto, é claro) e Stoker rendem-
com um conto seu chamado, adivinhe só,
“The Vampyre”. E aí está a deixa pra pu-
incrível turma do Penadinho -, -se ao deboche de Nietzsche ao buscar em
larmos pro Drácula. Frankenstein e Drácula viraram terras de fala (e, portanto, mente) mais Bram Stoker
germanizada, a personificação romântica
Bram Stoker não tem a proeminência,
o reconhecimento, as qualidades e muito aquilo que nunca foram do amor genuíno pelo explicar as coisas
não tem a
menos o sangue azul literário de Shelley. do mundo. Mesmo Van Helsing, holan- proeminência, o
Escreveu muita coisa aqui e outras ali, dês, é caracterizado no Drácula com forte
mas suas melhores pontuações no currí- que o cara é a cara cuspida do Christopher sotaque germânico e cheio de expressões reconhecimento, as
culo (fora, é claro, Drácula) são ter se ca- Lee (se o Cometa não publicar a foto dele, alemãs (“Mein Gott!”) talvez para afastá-
sado com a ex-namorada de Oscar Wilde, olha no Google e vê se estou mentindo). -lo um pouco de Amsterdã, afinal, também qualidades e muito
Sobre Drácula, só posso dizer o se-
ter sido amigo do ator Henry Irwin e ter
guinte: conheço bem a história do Conde,
terra de comerciantes (em que outro lugar
do mundo putas e maconheiros são vistos
menos o sangue
dirigido o teatro londrino Lyceum, de pro-
priedade do próprio Irwin. Dizem que a fi- do caçador de vampiros Van Helsing e do por tradicionais turistas mineiros de toda azul literário de
gura de Irwin inspirou a criação da figura casal atormentado Jonathan e Mina Ha- parte, do Brasil inclusive, como pitorescos
do Conde Drácula. Sim ou não, o certo é cker desde pirralho (sempre me afeiçoei a atrativos locais?). Um coprólito sendo examinado Shelley
12 13

Coisas impressionantes ocorrem com


a bela Lucy, mas é preciso que tais “im-
pressões” se avolumem até o limite do te-
nebroso para que o positivo Dr. Seward se
dê conta de que se trata de um caso, bas-
tante corriqueiro, se me permitem colocar
a missão sagrada e solitária de desvendar
um mundo independente das experiên-
cias partilhadas por estes cientistas, nem
as Humanidades com “H” maiúsculo - os
antropólogos, os psicólogos, alguns lin-
guistas - têm a missão sagrada e solitária
Outro debate que já deu o que tinha
que ter dado há séculos (Drácula
deve se lembrar dele) é a disputa pelo
Minicontos
Josué Borges
assim, de vampirismo. Se é mesmo de evi- de fazer sociologia das outras ciências in- fogo prometeico da verdade entre
dências que vive a ciência, como, com tan- dependente das experiências partilhadas
tas delas à disposição, o calejado cientista por estes cientistas.
a ciência e a religião. Ou entre as
não se dá conta do que realmente acon- Outro debate que já deu o que tinha que ciências e as religiões, se preferir
tece? Drácula está repleto de puxões de ter dado há séculos (Drácula deve se lem-
orelhas nessa confiança arrogante, nesse brar dele) é a disputa pelo fogo prometeico
privilégio institucionalizado da detecção da verdade entre a ciência e a religião. Ou
da verdade. Reproduzo aqui a leve palma- entre as ciências e as religiões, se preferir.
da aplicada pelo professor Van Helsing em Ele não se esgota, e até mesmo, recente-
seu cético aluno: mente, tem se renovado, exatamente por
“Você é uma mente sagaz, meu caro nada ter de religioso ou científico. Trata-
John. Sempre raciocinou com clareza e a -se de uma questão política. O fenômeno
sua mente é obstinada. Mas costuma fre- da evolução é uma de suas vítimas prefe-
quentemente prejulgar as coisas. Não es- ridas, principalmente na sua versão mais
pera que seus olhos vejam e seus ouvidos tragicômica (e chauvinista, pois finge que
ouçam, e tudo aquilo que diuturnamente a evolução existe para o humano): a hu-
acontece ao redor de sua própria vida pa- manidade é descendente de macacos ou
rece não lhe despertar o mínimo interes- foi criada por um deus? Se você prefere
se. Não consegue admitir que ainda exis- a primeira resposta, saiba que ela não é
tem muitas coisas que sua percepção não resposta para nada. Evolução não é uma
compreende, todavia elas estão aí”. teoria que explica coisa alguma: é um fe-
Sim, elas estão aí. Não é à toa que, ape- nômeno que deve, como tal, ser explicado
sar de enaltecer a bravura e a devoção cris- pelos cientistas. E se você optou pela se-
tã de todos os heróis da história que lutam gunda resposta, ótimo. Mesmo assim, isso
contra o vampiro, é ao próprio Conde Drá- nada tem a ver com o domínio da ciência,
cula que Van Helsing concede os melhores mesmo se for a mais absoluta verdade.
elogios, de natureza, digamos, intelectual. Isso porque a ciência não serve pra dizer
Drácula é “celebrado como o mais sábio, o verdades, mas para explicar os fenômenos
mais destro e o mais bravo dos filhos das tal como entendidos pelos cientistas. Di-
terras situadas além das densas flores- zer que um deus criou alguma coisa pede
tas”. O que torna Drácula elogiável como (cientificamente falando, é claro), ao me-
cientista - no melhor do termo, para Van nos, que se explique como isso aconteceu.
Helsing - não são seus incríveis poderes Se esse debate absurdo continua, é porque
malignos, mas os séculos de experiência certos grupos políticos - em especial, a di-
aguçando suas possibilidades de enten- reita evangélica norte-americana, e suas Mary Shelley fazendo o que sabe
dimento muito mais que seus caninos filiais mundo afora, especialmente na Áfri-
(como naquele gracioso refrán: “más sabe ca e na América Latina - esperam ganhar Freud e as coisas da vida como ele queria. Da nossa janela o vemos, todas realidade que desejamos.
el diablo por viejo que por diablo”). Van espaço institucional (leia-se: almas, poder Não sabia o que fazer com aquela sensação. as manhãs. E todos os anos mamãe compra uma Realidade, maldita porta escancarada a
Helsing alerta sobre o perigo de alguém e grana) vendendo asnices como a “teoria Mal acordara. Aquilo meio embuchada. Um fastio corda nova. Na primeira manhã de carnaval, mostrar seus dentes seculares. Caninos carnívoros
assim, criado e experimentado nas anti- do criacionismo científico” e a “teoria do que parecia querer explodir. Talvez fosse porque reforçamos os laços de família. consumidores de sonhos e sonos. Meu silêncio
gas terras dos magiares, dos mongóis, dos design inteligente”. Sinto dizer, pra quem te consome e se consome no teu silêncio, fera
já havia tomado a decisão. Só precisava entender
hunos, “na China, nos mais longínquos gosta de comprar essas bobagens, que elas
rincões da Terra”, fazer das suas logo na nada têm de teoria, nada têm de científi- como desatar o nó. Eu havia ficado confusa. Papai A boda dos tempos e companheira das horas opacas.
Tinha predileção por certos contos feéricos. Realidade. Como gostaria de devorar-te como um
arrogante Inglaterra, terra que não apenas co, nada têm de inteligente, e são criações sempre fora muito rígido e sisudo. Não vergava
Emaranhado de tranças e transas. Beladona. Nua. bife à milanesa, servido na última ceia do último
engatinha na arte do querer saber, mas até medíocres com péssimo design. diante de nada em minha educação, quando mais
se esquiva disso: “Quem dentre nós teria Termino este desabafo literário-cientí- Alva. O manequim ainda usa os mesmos véu e dia destes tempos indecisos em que nem a cólera,
a minha, que sou mulher. Como descendia das
sequer admitido tal possibilidade, em ple- fico com um exemplo de onde, de fato, eu grinalda. O campanário mor te foi dado. Cada nem a revolta conseguem trazer à tona o que
tradições familiares mineiras, era tudo muito
na vigência do século 19, a científica era penso residir a verdade. verdade enamorada perdura. Uma moldura em restava de esperança.
dos céticos e dos adeptos dos fatos com- Os  coprólitos (palavra do grego: pe- separado e nunca explicado. Homens são homens,
Vem, realidade absurda, saquear o meu
machos. E mulheres são fêmeas completamente. ruge e carmim eternizada no pôr-do-sol.
provados”? Pergunta o professor. dra de cocô) são fezes de humanos ou quinhão de dignidade, o que me resta de
Hoje, e, digamos, no Brasil, não esta- outros animais (é claro), no mais das Depois da morte de mamãe, as coisas semelharam hombridade, de virilidade e honestidade. Seja
mos provavelmente às voltas com o perigo vezes fossilizadas. Por sua conservação, bem esdrúxulas. Papai de hirto surgia com certas Arte contemporânea
lá o que isso for. Atropela o vazio absoluto que
de um iminente ataque de vampiros. Mas, podem oferecer valiosos vestígios físi- extravagâncias. Frequentado por um amigo assaz (conto - mini) criaste no meio da vida em sociedade, da vida em
acredite, hay outras bruxas soltas por aí. cos, fisiológicos e até moleculares, seja De resto ficou apenas o sangue seco na parede.
Tal como Shelley e Van Helsing (se posso de organismos que viviam nos intestinos íntimo. Não condizia com o costume, aquilo. Um comunidade, civilizada.
homem tem que ser. Aquilo, ó. E nó-cegado. E deu A princípio, a mãe pensou em passar por cima
misturar criadores e criaturas), penso que do indivíduo defecador, seja do próprio O que bebo de ti, persona non grata, é o
muitas das querelas atuais que envolvem animal que produziu a agora petrificada que, Freud. Papai precisava morrer, assim, de um uma tinta branquinha, modo de purificar a
veneno com que me mato, é o veneno com que te
nossas redes de conversas são vampires- cagada. É difícil achar uma fonte tão rica certo jeito, que foi logo depois do café. Sem dor lembrança dele. Mas aquelas manchas vermelho- assassino. Cada gota que injetas em minh’alma,
camente infectadas por um olhar injus- de informações sobre o passado quanto nem piedade. acobreadas foi tudo o que restou da vida do devolvo-te multiplicada em vômito, em asco, em
to sobre o afazer científico. Não tenho a os coprólitos. Por exemplo, examinando filho. O sangue-seco-na-parede. Olhando assim,
mínima esperança (ou receio) de que os um cocô desses dá pra conhecer ao me-
podridão. De resto, além da acidez de meu vômito,
cientistas sejam exímios caçadores de ver- nos em parte a dieta de um animal morto Laços de família de longe, até lembra uma obra de arte, dessas tens o meu silêncio, tão absoluto quanto o vazio
O ator Henry Irving Súbito! Papai fizera sozinho todos os laços. contemporâneas. Um esteta. Imensamente. que constróis e que, quem sabe, um dia, no último
dades, mas isso não deve ser motivo de de- há milhares ou milhões de anos, os locais
sespero pra ninguém. por onde ele transitava (comparando o Nem desconfiávamos. Aquilo, ao abrirmos a porta tardar da esperança, teu vazio te possa consumir
Debates como os das “guerras científi- paleoambiente da região com as amos- da cozinha naquela manhã de carnaval. Assim, Do avesso eu sou I e devolver-nos o Nada: a sombra adstringente de
cas”, aquelas que colocam os cientistas de tras do coprólito), os animais com quem Termino este desabafo literário- súbito. E papai ali, enlaçado. Foi o tempo de Há momentos em que tudo o que temos a dizer tudo o que não chegamos a ser.
laboratório (ou uma caricatura deles) às ele se relacionava, e se ele tinha vermes ou
turras com os cientistas das humanidades outras doenças. científico com um exemplo de onde, mamãe nos explicar. Ela sabia, então, daqueles é este silêncio clandestino a nos consumir pelas
laços? Foi o último ato de papai. Antoninha, beiradas. Nestes dias o desespero não é mais que * Poeta e escritor
(ou uma caricatura deles) podem ser di-
vertidos para fazer frisson na mídia, mas
Devia haver um ditado chinês para
isso, do tipo: “se você quiser conhecer a
de fato, eu penso residir a verdade: minha irmã, que estudou medicina, foi quem uma afável companhia que, embora finjamos não http://o-olho-que-ve.blogspot.com.br/
estão assentados em uma disputa vazia. verdade, examine detidamente toda mer- os coprólitos (palavra do grego: cuidou para que tudo desse certo, se esmerando ver, está sentado ao lado, sedando nosso destino Um livro é um livro é um livro é um livro, e nós outros,
Nem a Ciência com “c” maiúsculo - os fí- da que encontrar, mesmo que ela esteja e selando este momento inefável de supressão da transatlânticos, somos todos os livros que (nos) lemos.
para que, no tempo exato, tudo devesse ficar
sicos, os biólogos, alguns linguistas - tem endurecida há séculos”. pedra de cocô)
14 15

movimentos de vanguarda que se

Bracher barroco aproximaram de outros suportes e


outras tecnologias, Bracher também
destaca com orgulho em sua trajetória
a série de 100 quadros que realizou,
entre 1990 e 1992, para comemorar o
centenário da morte do pintor Van Gogh
O artista diz sobre seu livro Ouro Preto – Olha Poético: e a Praça Tiradentes é intercalada com a literatura, as artes plásticas e a música
(1853-1890) – que teve exposições em
textos breves em linguagem poética. nortearam sua trajetória.
é uma síntese amorosa sobre o sentimento das coisas encantadas Bracher recria o passado – com traços A dedicação à arte, que o levaria diversas galerias e museus no Brasil e
e palavras em busca dos enigmas às primeiras experiências do no exterior. Outro destaque importante
encobertos e das raízes profundas que reconhecimento ainda na década de é uma retrospectiva itinerante e
fizeram da antiga Vila Rica e da moderna 1950, iria ultrapassar em pouco tempo abrangente de sua obra que, desde
Ouro Preto as matrizes do pensamento as fronteiras de sua cidade-natal. Além 2006, está em curso na Europa, com
José Antonio Orlando artístico e libertário da identidade dos primeiros estudos em Juiz de Fora, exposições em Luxemburgo, Alemanha
nacional. Bracher também teve a sorte, como ele e Rússia. 
Aos 72 anos e depois de quase seis diz, de ter sido aluno em sua temporada Filho do pintor, professor e
Considerado por unanimidade compositor Waldemar Bracher e irmão
décadas de vida dedicada às artes em Belo Horizonte de Fayga Ostrower
um dos grandes artistas plásticos em dos artistas plásticos Nívea e Décio
plásticas, Bracher é o artista brasileiro (1920–2001) e de Inimá de Paula (1918–
atividade no Brasil, o pintor, desenhista, Bracher, casado com Fani Bracher, outro
que mais expôs no exterior, com dezenas 1999), entre outros mestres de primeira
escultor e poeta Carlos Bracher apresenta nome de destaque na pintura brasileira
de mostras individuais em importantes grandeza. 
mais um trabalho de excelência: o livro contemporânea, e pai de duas filhas,
museus e palácios em Paris, Roma, Já em 1967, Bracher obtinha a
“Ouro Preto – Olhar Poético”, com texto Blima e Larissa, Carlos Bracher defende
Milão, Londres, Madri, Haia, Moscou, premiação máxima de pintura no
e aquarelas de sua autoria. Partindo que a obra de arte é, desde sempre, o
Bruxelas, Miami, Tóquio, Pequim, entre país, com o “Prêmio de Viagem ao
das referências históricas desde as melhor que o ser humano pode produzir. 
outras cidades do mundo. Otimista, Estrangeiro”, do Salão Nacional de
origens de Vila Rica e de personalidades “A arte e a cultura formam um
absorto pela verdade da obra de arte Belas Artes, do Rio de Janeiro, pelo qual
emblemáticas do século 18 como Antônio conjunto que distingue o ser humano
e encantado pelos cenários barrocos permaneceu por dois anos na Europa
Francisco Lisboa, o Aleijadinho, além de de todos os outros seres do planeta”, ele
de Ouro Preto, ele faz do livro uma participando de cursos e oficinas de
Tiradentes, Marília de Dirceu, Cláudio diz, quando questionado sobre o valor e
declaração de amor à cidade que desde aperfeiçoamento em pintura. Em 1968,
Manuel da Costa, Tomás Antônio a importância da obra de arte no mundo
1971 adotou como sua. outro destaque surpreendente: o Prêmio
Gonzaga e outros heróis e poetas da atual. “Sem a obra de arte o ser humano
Uma conversa com Bracher é um Revelação do Ano, concedido pelo
Inconfidência, Bracher apresenta um não seria em nada diferente dos outros
encadeamento sem fim de lembranças “Jornal do Brasil”. Os fatos marcantes
roteiro poético sobre a cidade que, em animais. A arte é a descoberta do mais
e de ideias inspiradas sobre o tempo de sua carreira são muitos, enumerados
suas palavras, deu origem à “civilização humano que existe em nós mesmos”,
presente. No pouco tempo da entrevista no decorrer das últimas décadas, entre
mineira”. conclui.
ao telefone, ele descreve os passos de eles a grande retrospectiva “Pintura
Mineiro de Juiz de Fora, expoente de
composição do livro e recorda momentos Sempre”, em 1989, com curadoria de
uma família de artistas, Bracher escolheu
importantes de sua formação, que teve Olívio Tavares de Araújo, no MASP de
Ouro Preto para viver desde 1971. “Eu
conhecia Ouro Preto de passeios e
início num ambiente familiar propício São Paulo. Semióticas
para a arte. Ele conta com orgulho que Fiel ao uso de telas, tintas, pincéis www.semioticas1.blogspot.com.br
temporadas. A partir do Carnaval de 1971
foi desde a infância, em Juiz de Fora, que e cores, sem nunca ter se filiado aos
fui morar na cidade e desde então, com
a vivência e as experiências do dia a dia,
a minha paixão por Ouro Preto tem sido
cada vez mais avassaladora”, confessa.
“Ouro Preto – Olhar Poético” é o
segundo livro que Bracher publica. O como Dona Olímpia, Bené da Flauta,
primeiro, dedicado a Brasília (“Bracher os artesãos – e cenários, fotografias,
– Brasília”), foi lançado em setembro de imagens de Rugendas, referências
2006 reunindo uma seleção de textos culinárias e um leque de questões
e 66 quadros sobre os cenários mais culturais. O projeto, ele explica, nasceu
conhecidos da Capital Federal. “Na de uma proposta que pretendia uma

. . . s o m . . .
Som
verdade este livro sobre Ouro Preto foi “síntese amorosa”.

.
o primeiro que escrevi”, ele explica, em “Posso dizer que é uma síntese
entrevista por telefone. “Foi concluído amorosa sobre o sentimento das

. t e s t e . .
Teste..
no primeiro semestre de 2006, mas por coisas encantadas”, destaca. A Ouro
diversas razões o livro sobre Brasília saiu Preto de Carlos Bracher se desnuda
primeiro e o projeto sobre Ouro Preto em personagens, artistas, poetas e
ficou adiado, primeiro por um motivo, sonhadores, propondo uma viagem por
depois por outro”. imagens da história e cenas retratadas
O livro propõe uma visita a Ouro em aquarelas que ele produziu ao longo
Preto numa perspectiva que alcança do tempo. Entre outros personagens da
muito além da história e do conjunto trajetória da cidade, presentes no livro,
arquitetônico, levando o leitor a Bracher define o Aleijadinho:
passear pelos logradouros, museus, “Donde vinha a força daquele
igrejas, contando casos da cidade, homem? Do mutilado com seus ferrões
presos às mãos paralíticas, ferros
do “renascimento” ocasionado pelas “A arte e a cultura formam um
visitas dos modernistas na década de
1920 e do estilo que encanta turistas e
invioláveis da dor, da excrescência
máxima da feiúra do corpo a transitar a conjunto que distingue o ser Desde que o Rock era Blues,
pesquisadores. “São muitos detalhes
para publicar um livro de qualidade.
intangível beleza revertida, de alguém
a dialogar com o divino da encarnação, humano de todos os outros seres desde que o Cometa era nanico...
A própria edição é demorada, cheia de transfigurando chagas em cantaria,
detalhes e revisões, e tem também a suplício em poesia. Aleijadinho detinha
do planeta. Sem a obra de arte
questão do patrocínio, que é sempre um a real senha da pulsação, os vórtices o ser humano não seria em nada
complicador”, revela o artista. fecundos e a entrega devocional dos
Bracher apresenta um roteiro desígnios definitivos do que seja, em diferente dos outros animais. Atitude é assinar o cometa
amoroso que remonta à Vila Rica de 300 verdade, arte”...
anos no passado, com seus personagens A sequência de aquarelas com A arte é a descoberta do mais cometaon@gmail.com | tel.: (31) 3286.2629
históricos e outros mais recentes – cenários de igrejas, ladeiras, casarios humano que existe em nós mesmos”
16

Augusto Mendes Nascimento, técnico de controle Reserva Particular do Patrimônio


de processo, Anderson Nascimento Matos, operador Natural (RPPN), Capivary I,
de equipamentos, e Nataly Aragão, operadora de localizada em Santa Bárbara (MG)
equipamentos – Complexo Vargem Grande, Nova Lima (MG) e preservada pela Vale.

valor Para a Vale, o desenvolvimento só acontece


quando a empresa e a sociedade crescem
juntas. Isso significa que ser uma das maiores
empresas do país e a que mais contribui para
o equilíbrio da balança comercial do Brasil é tão
importante para nós quanto compartilhar valor,
investindo na preservação do meio ambiente,
na cultura brasileira e na qualidade de vida das
comunidades próximas às nossas operações.
Não temos todas as respostas e sabemos que ainda
há um longo caminho pela frente. Mas, com diálogo
e buscando soluções de consenso, podemos
imaginar e alcançar um futuro mais sustentável.

VL-100-12-E - AD Jornal O Cometa -VALE-250x190.indd 1 6/4/12 5:30 PM


18 19

Verticalização, higienização e O futuro passou


entristecimento de Belo Horizonte O crescimento das cidades e as mudanças na população criam novos problemas no
país do futuro e os antigos nem foram resolvidos ainda
A imprensa mineira é, sobretudo, governista, seja lá quem for que estiver no governo
Carlos Alberto Cândido*

A questão é antiga e recorrente. e a 2 milhões 400 mil em 2010. Hoje, Educação, espaço público, trabalho e
Idelber Avelar
Neste ano reaparece, graças à eleição onde deveria viver no máximo um belo- residência próximos – estas prioridades

O trio que mudou BH para pior


municipal. Márcio Pochmann, candidato horizontino, vivem 12! coincidem com o que eu penso da cidade
Eu não nasci em BH, mas me de Dilma havia deixado a prefeitura
do PT à prefeitura de Campinas, toca Se ainda assim a população de contemporânea, possível e necessária.
considero belo-horizontino. Nas zonas com 90% de aprovação: recado mais
nela, em entrevista à Agência Carta Belo Horizonte é a sexta do País, sua De acordo com a matéria, outro
oeste, centro ou leste da cidade morei claro, impossível.
Maior. Trata-se do crescimento das densidade populacional é a segunda, grande desafio apontado por Pochmann
entre 1975 e 1990 e, dos 22 anos desde O processo pelo qual se faz o
cidades no século XX e que continua superior à de São Paulo e inferior apenas é a mudança na demografia das grandes
então, só em 2 ou 3 deixei de passar traslado, via Fernando Pimentel
no século XXI. O Brasil atingiu o índice à da Fortaleza. Isso acontece porque cidades brasileiras. “Estamos vivendo
pelo menos 3 ou 4 meses na cidade. (que administrativamente não foi
de 84% da população vivendo em tanto Fortaleza quanto Belo Horizonte uma transformação importante na
Creio conhecer algo de seus recovecos mau prefeito, mas politicamente foi
cidades. E a distribuição é concentrada: são municípios com áreas relativamente queda da fertilidade brasileira e em
e seu jeito de estar no mundo. É, para desastroso), da legitimidade da Frente
tratam-se de poucas e imensas cidades. pequenas. Para efeito de comparação: duas décadas teremos uma regressão
mim, um paradigma da cidade-véu, a Popular para a coalizão neofascista
Belo Horizonte, que tem 2 milhões e Ouro Preto, a antiga capital de Minas, absoluta no número de habitantes e
urbe que demanda uma iniciação mais policial de Márcio Lacerda é um dos
400 mil habitantes, é a sexta maior tem área quatro vezes maior do que a um aumento na proporção de pessoas
complexa, dependente, em geral, de maiores estelionatos eleitorais do
cidade do País, foi ultrapassada por de Belo Horizonte. Isso explica por que idosas”, observa o intelectual candidato.
um(ns) guia(s), ao contrário de um Rio, nosso tempo. Lacerda, figura que
Fortaleza, Salvador, e Brasília. No o crescimento populacional de Belo O País não está preparado para isso,
Buenos Aires ou Nova York, cidades enriqueceu de forma estatal-nebulosa
entanto, Belo Horizonte, uma cidade Horizonte diminuiu, relativamente, a como não está preparado para quase
que se entregam e se oferecem, mesmo durante a ditadura, e que Aécio Neves anti-ocupação-de-praça, por exemplo,
projetada, que nasceu primeiro no partir da década de 1970. nada, porque o capitalismo não se
à caminhada aleatória, muito mais ofereceu a Pimentel como a armadura passam a ser moeda corrente.
papel, foi planejada para ter até 200 Acontece que a população urbana preocupa com planejamento e no Brasil
facilmente (cidades-vitrine). Nesse da espúria aliança que se construiu Têm comparável responsabilidade
mil habitantes! Era então, no fim não cresce apenas nas capitais, a “modernização” aconteceu muito
sentido, BH se parece mais a São Paulo em 2008, é uma espécie de Jânio nessa lástima o PSDB, o PT e, mais
do século XIX, a população de uma mas também nas cidades em torno rápido, mais do que em qualquer outro
— urbes em que, se você começar a Quadros em versão pós-moderna, recentemente, o PcdoB, que havia
metrópole. E o Brasil sequer era um país delas, que formam as chamadas país. Ainda nem chegamos ao futuro e já
caminhar aleatoriamente em/ a partir cyberpunk e tecnocrata, delirando congregado a oposição ao conluio
industrializado. É a industrialização que regiões metropolitanas. E a Região precisamos nos preparar para o que vem
do centro, você muito provavelmente megalomaniacamente com uma urbe até um certo momento, mas que não
faz as cidades crescerem absurdamente, Metropolitana de Belo Horizonte depois dele. “Vão sobrar escolas”, prevê
não vai encontrar nada de importante, ordenada, higienizada, asséptica e, resistiu às ofertinhas de cargos. O PSB
foi a industrialização que fez as cidades cresceu enormemente. Como a capital Pochmann. “Haverá uma mudança no
nada que a caracterize, nada que valha a quase sempre, militarizada. Os belo- mineiro opera como uma espécie de
europeias crescerem no século XIX. é o eixo da região e tudo passa por ela, perfil profissional da população e será
pena conhecer. A cidade demanda uma horizontinos notam(os) os efeitos no sublegenda aecista, um laranja para
Para se adequarem à nova realidade ao se falar na população da capital é uma sociedade de jovens e adultos muito
exploração mais direcionada. rosto da cidade, no seu desenho, na a maracutaia. Para resumir, então: o
de uma economia industrial, as cidades preciso considerar também a população complexa, com forte dependência do
Durante as prefeituras da composição demográfica de seu centro, partido de João Mangabeira e Miguel
europeias passaram por reformas, que das cidades que estão à sua volta. Na conhecimento.”
Frente Popular (1993-2008: Patrus no funcionamento de seus aparatos Arraes é o avalista chapa-branca para
transformaram suas características verdade, as regiões metropolitanas O que Pochmann faz são
Ananias, Célio de Castro, Fernando de repressão e homogeneização que o partido de Patrus Ananias e o
medievais inchadas com o tempo. Belo formam, na prática, uma única e imensa constatações, mas pelo menos ele está
Pimentel), Belo Horizonte manteve (relativamente submetidos a algum partido de Franco Montoro patrocinem,
Horizonte, a nova capital mineira criada cidade, com centenas de quilômetros olhando as coisas certas. São ideias
uma especificidade que a distinguia controle popular durante os mandatos com uns penduricalhos do partido de
pela República, tão logo proclamada de raio, a partir da capital. Considerada ainda tímidas, se consideramos que são
de cidades como Porto Alegre e São de Patrus e Célio, e desatados de forma João Amazonas, um acordo que põe em
esta, pretendia ser o mesmo: seguiu o como região metropolitana, a capital expostas por aquele que talvez seja o
Paulo: a inexistência do discurso brutal sob Lacerda) e, acima de tudo, ação um urbanismo digno de um Emílio
novo modelo de cidades “modernas”, mineira continua sendo a terceira melhor candidato a prefeito pelo melhor
antipetista. Até mesmo na imprensa, em seu astral, sua respiração, seu axé – Garrastazu Médici, comandado por um
em condições diversas. No centro de do País, com quase 6 milhões de partido do País. Dilma também falou e
a diferença é notável: a RBS fez ou como você queira chamar esse plus mini-Mussolini das empreiteiras.
Minas Gerais construiu-se uma cidade habitantes, só superada pela gigantesca fala coisas certas, mas seu governo está
oposição enlouquecida aos governos que faz da cidade a cidade. Como a diferença de dinheiro é
planejada, ampla, “moderna”, capaz Rio de Janeiro (quase 12 milhões) e longe de contemplar o que precisamos,
petistas no Sul, mas PT-PCdoB-PSB Belo Horizonte é hoje um espaço gigantesca em relação a quaisquer
de abrigar 30 mil habitantes logo a monstruosa São Paulo (quase 20 ao mesmo tempo em que dá aos ricos
governaram BH sem ser incomodados, marcado por expulsões de artesãos e forças de resistência que se possam
na primeira década, mas preparada milhões). tudo que querem e um pouco mais.
absolutamente, pelos Diários moradores de rua das áreas centrais, armar — estas têm sido articuladas
para crescer até 200 mil, o que seria a Pochmann é um intelectual
Associados. A imprensa mineira é, especulação imobiliária, segregação dos muito mais pelos movimentos de
população de uma metrópole. de posições lúcidas e tem ideias * Jornalista e escritor.
sobretudo, governista, seja lá quem pobres, intensa verticalização, repetidas ocupação, como o de Dandara, que
A cidade fantasma dos primeiros interessantes. Na entrevista a Maria Inês
for que estiver no governo. Ela foi, leis proibicionistas e crescente por estruturas partidárias  –, o quase
anos prosperou e chegou aos 200 mil Nassif, ele diz que as cidades industriais
claro, grande fiadora do sinistro acordo truculência da Guarda Municipal, certo é que Lacerda se reeleja em
no final da década de 1930, quando se transformaram em cidades de
petucanista que transferiu o capital esta atuando agora em parceria 2012. A cidade vai sucumbindo ao
tinha apenas 40 anos. E continuou serviços e que é preciso adequá-las à
político da Frente Popular para uma com a tradicional PM do tucanato. paradigma do asfalto e acelerando
crescendo. Os grandes saltos, porém, sua nova condição. “A cidade industrial
prefeitura higienista, com nítidos traços Com um trânsito insano, de absurda seu processo de entristecimento
aconteceram nas décadas de 1950 e empurrou as pessoas mais pobres para
fascistoides, como a de Márcio Lacerda. concentração de veículos dentro da empreiteiro.  Provavelmente algum
1960, coincidindo, não por acaso, com a as periferias e comprometeu uma grande
Num notável testemunho dos limites Avenida do Contorno, Belo Horizonte tempo transcorrerá até que a cidade
industrialização do Brasil. A população parte do tempo das pessoas com todos
do poder-mídia de manipulação e em cada vez mais replica de São Paulo o termine de processar a grave, talvez
belo-horizontina dobrou por duas vezes tipos de deslocamento. A cidade de
claríssima resposta, a cidade, mesmo que São Paulo tem de pior. Continuam imperdoável ironia de que sejam as
consecutivas, o que equivale a dizer que serviços, com o avanço das tecnologias
tendo sido administrada durante 16 acontecendo muitas atividades forças da assim-chamada-esquerda
onde havia um morador em 1950, vinte de informação e comunicação, não
anos positivamente pela Frente Popular interessantes na cidade, claro, mas ela (socialistas, petistas, comunistas e
anos depois viverão quatro! Significa pressuporá grandes deslocamentos ‘se
capitaneada pelo PT, deu a Marina Silva é, hoje, nitidamente, mais segregada, social-democratas) as fiadoras dessa
também que em 1970, a cidade tinha 1 houver uma mudança da centralidade
o primeiro lugar  no primeiro turno de previsível e higienizada, mais triste. privatização militarizada do espaço
milhão de habitantes a mais do que o da cidade’. O novo modelo é aquele
2010. Sim, a acreana Marina Silva bateu Belo Horizonte é uma cidade em público.
previsto para sua população máxima, ao em que o trabalho e a residência são
a belo-horizontina Dilma Rousseff em que o prefeito, o dono do iate, predica
ser construída. E continuava crescendo, mais próximos, ‘com forte presença
Belo Horizonte em 2010, caso o leitor aos conterrâneos que não deem comida * Jornalista e professor
chegando a 1 milhão e 700 mil uma do espaço público e da educação, que
não tenha notado, isso depois que o a moradores de rua, em que decretos Originalmente em revistaforum.
década depois, a 2 milhões em 1990 é o principal ativo dessa sociedade’.”
grande compadre e velho amigo petista flagrantemente inconstitucionais, com.br/idelberavelar
20 21

O que eu não queria Comissão da Verdade


ver e escutar OS DOIS LADOS DA VERDADE
Os atos praticados pelo Estado contra os seus cidadãos são crimes contra a humanidade
Jornalista comenta e critica entrevista e devem ser investigados e os agentes responsabilizados
de Alberto Dines com o delegado
torturador Claudio Guerra, que
confessou assassinatos de presos Maria Carolina Bissoto* É muita estranha a noção de
Campinas
políticos: ‘se nesse depoimento houver democracia desse general.
mentira, é a mentira mais próxima e No dia 5 de junho a Folha de São atos ignomináveis e por esse motivo Afirmar que alguém que deu um
Paulo publicou um artigo escrito pelo foram cassados, perseguidos. Houve
vizinha da pior verdade que existe’ general do Exército da reserva e ex- também aqueles que como Lamarca,
golpe, retirando do poder um
chefe do Estado-Maior do Ministério da para ficarmos com um exemplo, presidente constitucionalmente
Defesa, Rômulo Bini Pereira. No artigo lutaram contra o regime militar.
Urariano Mota
o general fala da falaciosa defesa de dois A Lei de Anistia não devolveu a paz
eleito, estava defendendo a
Recife
lados a serem analisados pela Comissão e nem poderia, já que sob o pretexto de democracia, é no mínimo risível.
Nacional da Verdade recentemente uma chamada reconciliação nacional
Confesso que fui ver para não
instalada no Brasil. e com base numa interpretação
Jango nunca pretendeu instalar
acreditar no que veria. Fui ver a
entrevista de Alberto Dines  com o
No artigo intitulado “O outro lado”, equivocada do termo “crimes conexos” o comunismo no Brasil, ele
o general argumenta que a Comissão presente no artigo 1º da Lei 6683/79,
ex-policial Cláudio Guerra com maus Soledad, da Verdade trará com ela o clima torturadores e demais agentes da
pretendia somente fazer
olhos, com um espírito prévio para morta no
apontar as falhas, as mentiras no
de beligerância e turbulência de um repressão teriam sido anistiados. A Lei reformas, reformas estas que não
Recife em passado recente de nosso país e que de Anistia teria sido “ampla, geral e
depoimento do matador de presos 1973 nos próximos dois anos, este tema irrestrita”, só que essa amplitude toda
foram realizadas até o momento.
políticos. Mas esse preconceito, ou pela ditadura. estará em evidência, sendo que as só teria valido para o lado da repressão,
seja, a visão antes da experiência, longe
esquerdas utilizaram-se de justificativas já que muitos presos políticos
estava de uma pose. Não. É que a
emocionais sempre. Ele ainda continuaram presos mesmo após a
inteligência, a sensibilidade da gente 
argumenta que a Lei de Anistia permitiu decretação da Lei de Anistia, e só foram
possui uma defesa contra o horror.
a paz durante o período democrático soltos alguns anos depois em virtude de
Temos sempre uma região de conforto chego ao minuto e tempo 32.48, até o O repórter perdeu o ritmo, continuo pós-ditadura. revisão de penas. Ora, como pode uma
que recusa e se recusa à zona mais ponto 38.16 do vídeo da entrevista. E
escura, aquela em que nos dizemos: “até da voz do policial escuto, contra o que a me dizer, pois existe uma tensão Argumenta ainda o general que as anistia que não atendeu os reclamos da
Forças Armadas ficarão em evidência sociedade, que não libertou todos os
aqui vai a dor – daqui não passarás”. eu não queria ver e escutar, quando dramática em qualquer gênero, até e que acabarão por se ver desgastadas. presos políticos ter devolvido a paz?
Então, de imediato, naquela ele conta o estado em que encontrou
atitude anterior à visão, na entrevista pessoas de militantes, antes de jogá-las mesmo em um trabalho jornalístico. E Ele afirma também que a esquerda Quanto as mortes e demais crimes
também teria causado mortes, praticado supostamente praticadas pelas
pude ver um Alberto Dines crédulo, ao forno de uma usina: mais grave, o repórter pula a denúncia torturas e que muitos inocentes teriam organizações armadas esses já foram
como se ele não fosse um repórter “As mordidas (em Ana Rosa)
experimentado. Aparecia nele uma eram mordidas humanas. Ela estava do terror. Ele salta o essencial sido atingidos por atos das organizações devidamente investigados e punidos,
de esquerda, e que nenhum dos não sendo garantido aos responsáveis
sombra de assentimento, como muito machucada… Eu creio que
familiares desses inocentes teria pelo ato o direito de ampla defesa e
é típico de qualquer repórter de foi asfixia. O corpo dela sangrava, o Nesse preciso instante, há uma recebido uma indenização. Entretanto, com invetigações a base de tortura, e
televisão para um entrevistado, corpo sangrando. Estava estourada verossimilhança terrível no que o o argumento mais falacioso utilizado ainda deve ser levado em conta que
“sim, sim, sim”, a concordar com o por dentro. O marido, Wilson Silva, Matador de Presos Políticos Cláudio pelo general é a sua afirmação de em muitos casos as pessoas pagaram
queixo. Parecia nele não haver uma estava sem as unhas da mão, todo Guerra fala. Ele bate com tudo que que caso os que resistiram a ditadura com as próprias vidas por seus atos
suspensão para a dúvida. E enquanto arrebentado”. E mais, como um pesquisamos e contra a nossa vontade militar, tivessem ganhado a “guerra” de resistência a um regime opressor.
assim via, eu me afirmava: o matador acúmulo de evidências, neste preciso aprendemos. E concluo, enfim: se nesse hoje não viveríamos numa democracia, Assim como podem esses atos serem
arrependido age contra a Comissão da ponto de verdade, que pela percepção depoimento houver mentira, é a mentira e sim, numa ditadura, e que ele, jamais investigados novamente? O Direito
Verdade, na medida em que insinua sabemos da memória de relatos dos mais próxima e vizinha da pior verdade poderia estar escrevendo num jornal, tem um princípio chamado “non bis
“não procurem mais corpos desses necrotérios na ditadura: que existe. Aquela verdade à qual nos pois esse só abordaria um lado. in idem” que proíbe expressamente
militantes, porque foram queimados”. “Todos os cadáveres que eu recebi recusamos, mas que ainda assim avança, É muita estranha a noção de a dupla investigação de um mesmo
E mais me dizia: como o entrevistado eram seminus. Era um tipo assim, sem respeitar o nosso horror. democracia desse general. Afirmar fato. Ora, se essas pessoas já foram
Cláudio Guerra pode relacionar certos mais parecido com um calção que uma defender ideias falaciosas como as
que alguém que deu um golpe, investigadas, presas e responsabilizadas
cadáveres a nomes? Qual a certeza de bermuda, não é? Porque as pessoas A entrevista de Dines com trazidas no artigo da Folha de São
retirando do poder um presidente pelos seus pretensos crimes como
suas lembranças para os corpos de eram torturadas nuas, pau de arara Guerra pode ser vista em http:// Paulo é porque pessoas lutaram
constitucionalmente eleito, estava podem ser novamente?
subversivos que ele fez sumir? era nu. As torturas ali de choque, nos tvbrasil.ebc.com.br/observatorio/ contra um regime que desde o
defendendo a democracia, é no mínimo Já os atos praticados pelos
Ah, essas perguntas Dines não órgãos genitais, muitos foram até episodio/entrevista-claudio-guerra primeiro dia prendeu, perseguiu
risível. Jango nunca pretendeu instalar agentes da repressão nunca foram
faz, eu me dizia, ele é um crédulo. castrados. Eram seminus, todos eles… lideranças comunitárias e sindicais,
o comunismo no Brasil, ele pretendia devidamente esclarecidos. Até hoje não
Como é possível um cara ter, como O caso de Capistrano ele não estava * Jornalista e escritor, autor de torturou, matou, proibiu a liberdade
somente fazer reformas, reformas se sabe onde estão os desaparecidos
o entrevistado fala, duas contas em todo esquartejado não. Ele estava com Soledad no Recife, Ed. Boitempo de expressão. Se hoje temos uma
estas que não foram realizadas até o políticos, como ocorriam as prisões,
um banco, numa, de nome falso, o braço direito decepado. Tinham Originalmente em diretodaredacao. democracia, mesmo que não seja ainda
momento. quem matou, quem torturou, quem
para receber o dinheiro extra por arrancado o braço dele, de Capistrano. com.br - via viomundo.com.br a de nossos sonhos, é porque houve
As Forças Armadas não tem o que foram os cúmplices. Não há dois lados
assassinatos, noutra, real, somente Os outros, na maioria eram fraturas resistentes. A Comissão da Verdade
temer da Comissão da Verdade, pois a serem investigados, há apenas um: o
para a remuneração de funcionário? O expostas ao longo do corpo, com os deve se preocupar é com a averiguação
P.S. do Cometa: leia um capítulo do livro de Uriano sobre esta na verdade somente separará o da repressão. Os atos praticados pelo
repórter perdeu o ritmo, continuo a me ossos aparecendo, entendeu? A maioria. das violações praticadas pelo Estado, é
Soledad Barret Viedma no viomundo.com.br – basta buscar o joio do trigo, ou seja, mostrará que nem Estado contra os seus cidadãos são
dizer, pois existe uma tensão dramática Na maioria era assim. Olha, são cenas texto’ Urariano Mota: O cabo Anselmo um dia antes da morte de este o único lado a ser investigado.
Soledad’. “Soledad era uma jovem idealista, corajosa, doce e linda, todos os militares praticaram violações crimes contra a humanidade e devem
em qualquer gênero, até mesmo em um que eu, é, pra mim me deixam fora, muito linda. Foi torturada e morta no Recife em 1973, grávida, a direitos humanos. Quem não deve não ser investigados e os agentes devem ser
trabalho jornalístico. E mais grave, o muito abalado narrar isso aqui. Pra depois de ser entregue ao delegado Sílvio Paranhos Fleury, traída * Especialista em Direito
pelo  cabo Anselmo, de quem trazia um filho na barriga”. – E depois teme, ora bolas! Houve muitos militares responsabilizados pelos seus crimes.
repórter pula a denúncia do terror. Ele mim é a pior época da luta de que eu Constitucional pela Pontifícia
compre o livro, é mais uma história da barbárie da ditadura, mais que não se submeteram a prática de Se hoje um general pode
salta o essencial, vou me dizendo. Então participei foi essa aí”. um fato a ser apurado pela Comissão da Verdade. Universidade Católica de Campinas.
22 23

Somos todos Tilelê? O homem preocupado


Tambor-batuque. - Amuletos, badulaques, penduricalhos, balangadãs, colar de semente, Mario Pontes
pulseira com as cores da Jamaica, tornozeleira, brinco com pena Rio de Janeiro
ONTEM, ao contrário do habitual (um
habitual recente), não tive tempo de abrir
o notebook, para saber o que El País, Le
Monde, La Repùbblica e outros jornais
João Perdigão * europeus tinham a dizer sobre a crise que
devora o antigo bem-estar do Velho Mun-
Há pouco mais de três anos, fui nas
Costumes-base do paço público – mesmo que seja pra uma do. Mas já bem tarde desafiei o sono e li-
guei a televisão a fim de ver pelo menos a
internets e pesquisei sobre “movimento Movimento Tilelê: micareta;
parte final de um programa que costuma
tilelê”. Só havia encontrado duas referên- - Samba de raiz, reggae roots, sertane-
cias. Na época, escrevi sobre o tema num - dread ou lenço na cabeça, ou jo de raiz, raiz forte, carapiá, mamacadela apresentar entrevistas interessantes. A
e mandioca. Em momentos de êxtase, um primeira está chegando ao fim. Registro
blog e cheguei a receber alguns comentá- dread + lenço tudo junto. Camisa tilelê de raiz dança alegremente como se o que diz o entrevistado, mas o nome dele
rios agressivos. Até hoje, espero não ser
mal compreendido nesta pseudo-análise de malha (com silk feito por você nele descesse a própria Pombajira - mes- não é dito pelo entrevistador, nem mos-
trado na tela. Sou informado, no entanto,
mo num batizado evangélico;
social. ou um amigo) pedindo a liberação - Você até gosta de Astrologia, mas ge- que se trata de um empresário. Não sei de
Basicamente, a galera tilelê é esse pes- que porte nem de que área.
soal que gosta de ouvir som de batuque. de algum preso no corredor ralmente é contra a monogamia.
– Estou preocupado – ele declara, com
Não é deboche, é constatação. Escuto vá- - Gringo de rolé antropológico pela
rias bandas com influência tambosêras, já
da morte ou a deposição de favela ou pelo terreiro de umbanda – ou
sua voz de homem maduro. Não consegue
disfarçar o temor que vinca sua face e o
fui em diversas festas do gênero e penso algum político. Ou roupa branca/ gringo com a coleção do Seu Jorge e do
obriga a piscar os olhos com freqüência
que o rufar dos tambores chama a multi- Jorge Benjor no seu ipod;
dão pra guerra.  
hipporonga, preferência pelo Mas calma aí, chega de rotular. Não
anormal.
– O que o preocupa? – pergunta o re-
O uso do termo tilelênico é usado em algodão cru. Basicamente, uma sejamos tão pejorativos assim. Seja Chico pórter.
Minas Gerais, mas no Rio de Janeiro, po- Buarque, Chico Science, Chiquinha Gon- – Tenho medo de que, por causa da
dem ser chamados de hari bo, ou se formos saia/calça de chita – além de zaga, Chico César, Chico Amaral, Chico crise econômica, as pessoas comecem a
pensar historicamente, burguesia folclóri- qualquer coisa que pareça pijama... Nunes, Chico Xavier, São Francisco, Chi-
co Mendes Chico Mineiro, Chico Bento ou
falar mal do capitalismo...
ca – modo como Carlos Lacerda usava pra ENTÃO me imagino naquele estúdio.
definir gente do tipo de Jorge Amado. o Velho Chico, liberte seu tilelê interior! O entrevistador parece perdido com a
Vamos para a etimologia; Em Belo resposta do empresário. Tomo a palavra
Horizonte, durante os shows de Maurí- e pergunto:
cio Tizumba, em seu folguedo tambosêra (*) Jornalista e escritor, João Perdigão – E aí, meu caro senhor, vamos falar
anual que rola lá no Prado, um dos refrões escreve preguiçosamente no canhotagem. mal de quem? – Ele permanece em silên-
alegres é “Tilelê-tilelê- tilelê- tilelê”. Geral blogspot.com e no tropecassino.blogspot. cio. – Falar mal dos socialistas, que estão
fritou com a onomatopéia e logo, os tilelê com (sobre os percalços de O Rei da Roleta fora do poder? Criticar os trabalhadores
talvez nem gostem ser chamados assim. – A Incrível Vida de Joaquim Rolla). Plane- que perderam seus empregos e não têm
ja pra daqui alguns anos, junto de Manuela dinheiro pra comer duas vezes por dia?
Pois a sonoridade de seus tambores car-
Tenreiro, a biografia de um artista com Soltar os cachorros em cima dos com-
rega influências de Clube da Esquina e ób-
nome de escola tilelê. pradores de modestos apartamentos, dos
vio, dos batuques maracatônicos pré e pós
Chico Science. quais foram despejados pelas imobili-
leiro, ou então faça contato com a Escola
Lista de costumes-base do Movimento árias e agora dormem na rua... como as
Superior de Propaganda e Marketing, aí O amedrontador, caro empresário, é
Tilelê - em constante transformação: mulheres, homens e crianças daquela foto
- Entender sobre tambores dos mais emblemática, feita em Atenas, diante da mesmo em São Paulo, e adquira o núme- aquele sistema que de vez em quando
ro de março-abril de 2012 da Revista da
variados timbres e sempre citar Naná Vas- sede do Parlamento grego, na Praça Sin-
ESPM, que a instituição publica há dezoi- tem febre alta, delira e provoca um
concelos como o maior percussionista do tagma (Praça da Constituição)?
mundo; O homem continua em silêncio, me- to anos... penoso desarranjo da economia. Doença
lancólico. Pergunto-lhe o que lê. Dá os – E o que vou encontrar nela...?
- Exaltação da cultura afro, assim – Pra começar, uma entrevista de Del- que alguns governantes, como os
nomes de dois jornais, uma revista.
como a exaltação nacional de sua cidade fim Netto. Dez páginas. Mas se não quiser maiorais da Zona do Euro, infelizmente
– E o que eles lhe dizem sobre a crise?
ou estado; ler todas, antes de chegar à terceira já terá
– Dizem... Raramente consigo deci- se propõem a remediar com medidas
- Dread ou lenço na cabeça, ou dread + encontrado a informação que certamen-
frar a linguagem dos economistas que
lenço tudo junto. Camisa de malha (com
escrevem naquelas publicações... Mesmo te lhe esclarecerá sobre pontos que ainda mais sádicas do que sábias.
silk feito por você ou um amigo) pedindo quando falam de coisas que eu pensava já obscurecem a sua compreensão.
a liberação de algum preso no corredor da ter entendido o suficiente... inflação, bol- NA ENTREVISTA, Delfim Netto re-
morte ou a deposição de algum político. sas, mercados, inflação, preços, déficits, mete o leitor à pré-história. E de saída põe sistema produtivo foi pro brejo.
Ou roupa branca/hipporonga, preferência inflação... de lado o comunismo primitivo divisado A entrevista Delfim se desdobra em ex-
pelo algodão cru. Basicamente, uma saia/ Pergunto-lhe se costuma ler Delfim por certas correntes do pensamento mo- plicações e opiniões sobre a economia mo-
calça de chita – além de qualquer coisa Netto. Aquele que foi Ministro da Fazen- derno. Para ele, o que começou a existir derna e seus desequilíbrios, com as quais
que pareça pijama; da nos tempos da Ditadura Militar? Sim. com as primeiras ações civilizatórias foi concorda quem quiser. Mas se nosso ate-
- Amuletos, badulaques, pendurica- É um insuspeito defensor do capitalismo, um sistema no qual os homens puseram- morizado empresário se concentrar nas
lhos, balangadãs, colar de semente, pul- e sempre escreve com muito mais clareza -se a produzir, trocar, vender, adquirir o poucas frases citadas ou parafraseadas
seira com as cores da Jamaica, tornozelei- do que a maioria dos seus colegas defen- que outros produziam, participando, as- no parágrafo anterior, verá de quem re-
ra, brinco com pena; sores do neoliberalismo. Toda semana sim, de “um processo histórico” sempre almente deve ter medo. O amedrontador,
- Somaterapia, Veganismo, Capoeira tem um artigo seu na Carta Capital. O mutável, ao qual “agora chamamos capi- caro empresário, é aquele sistema que de
Angola e fluência em, no mínimo, três re- atemorizado empresário faz uma careta talismo”. vez em quando tem febre alta, delira e pro-
ligiões; de quem não comeu e não gostou. Passados muitos capítulos dessa his- voca um penoso desarranjo da economia.
- Praia, cachoeira e bicicleta. Passapor- – A revista não lhe agrada, imagino. tória – Delfim prossegue – produtores e Doença que alguns governantes, como os
te carimbado no carnaval de Olinda, nos Pra começar, tem um logotipo aplicado compradores resolveram criar um siste- maiorais da Zona do Euro, infelizmente se
mais diversos Foruns Sociais Mundiais, campo escarlate... – Ele me olha com cara ma financeiro, cujo objetivo era “servir propõem a remediar com medidas mais
de como foi que adivinhou? Retomo a pa- ao sistema produtivo”. Mas “o primeiro sádicas do que sábias.
congressos universitários e marchas em
lavra: – Tudo bem. Já que não gosta da adquiriu vida própria e acabou dominan- Mas estou falando só. O homem preo-
geral. Larga experiência microbiana na
Carta, ofereço-lhe uma alternativa. Pena do o segundo... A produção foi posta de cupado saiu. Provavelmente em busca de
Europa;
que seja para uma única leitura. Mesmo lado, e o sistema financeiro elevou o risco um sonífero.
- Você não suporta revoltados de rede
assim sairá ganhando. Peça ao seu jorna- econômico ao paroxismo”. Resultado: o * Jornalista e escritor
social, pois é a favor da ocupação do es-
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A última do Ivan
Se você colar o ouvido no peito de Ivan Les- dos e perguntam: ué, cadê todo mundo?” Mas o que interessa é Ivan Lessa. Morto con-
sa, logo ouvirá uma voz dizendo: Gip-Gip Nheco- tínuo continua vivo, né. Acredito. Sua última co-
-Nheco. Ivan Lessa se não criou, introduziu no Brasil luna para o sítio da BBCBrasil (.com)não é, abso-
A frase acima é antiga, escrevi há décadas, ins- um tipo de humor meio que nonsense mas políti- luto, premonitório. Ele estava doente, com enfi-
pirada e em homenagem a Ivan Lessa, que mor- co, irreverente, demolidor. O Cometa, nascido em sema e recusava o hospital apesar da fragilidade:
reu ontem, 8 de junho. Nos anos 70 publicou no 1979, foi um dos que usou a sanha do Ivan. Depois seria demais para ele. Sua última crônica pode ser
Pasquim a página Gip-Gip Nheco-Nheco: frases veio a Casseta Popular (em 1983) e mais tarde O uma despedida (já fizera outras). Por inevitável
de Ivan ilustradas por Jaguar, Fortuna, Claudius Planeta Diário (em 1985), e a base era típico Ivan escrevia, sua melhor performance.
e outros. lessa: os dois últimos, depois que se tornaram E O Cometa publica a última crônica de Ivan
- uma que sempre repito por aí: amantes da Globo, envelheceram no cômodo do Lessa – sem autorização da BBC, porque leitores
“As esperanças ao falecerem olham para os la- conformismo decadente. do Cometa são pessoais. (MP)

Orlando Porto GIP-GIP NHECO-NHECO


Ivan Lessa
Colunista da BBC Brasil A crônica vai registrando, o
cronista vai falando sozinho
Orlando Porto. Taí um nome como ou- Chegou!
tro qualquer. Podia ser corretor de imóveis, - Aí está: uma cura definitiva para a cal-
diante de todo mundo.
deputado, ministro, farmacêutico. Mas não vície.
é. Trata-se de um anagrama de um escritor - Enfim cavaleiro do reino de sei lá o quê. A cada 15 anos, o Brasil se esquece
francês – e ator e ilustrador bom e autor e fi-
gurinha difícil francesa e aquilo que se pode-
- A vida está pelos olhos da cara. Pra
morte eles fazem um precinho especial,
do que aconteceu nos últimos 15 O avesso Jogar de acordo com o Não bastasse vir em socorro
ria chamar de “frasista”.
Feio como um demônio, no meio da déca-
combinado?
- Enfim, ano bissexto nunca mais. Esses
anos.
do avesso regulamento = jogo ruim de Demóstenes Torres,
Aécio agora defende,
da de 50 cansei de dar com ele dando comigo ficam para o Jaguar. O resto pro Ziraldo. Todo brasileiro vivo é uma
lá pelo Boulevard St. Germain, xeretando o - Ao menos é uma boca de menos a sus- O livro De Pernas Pro Ar: A Escola com unhas e dentes, o
espécie de milagre do Mundo ao Avesso (9ª ed. LPM, O futebol é emocionante como nenhum outro esporte, por governador tucano de
Flore, o Lipp, fazia uma cara que quem ia di- tentar.
zer algo importante e logo sumia na compa- - Só quero ver quanta gente vai sincera 2007), do escritor e jornalista uruguaio suas peculiaridades, mas tem coisas esdrúxulas, como a Goiás, Marconi Perillo.
nhia do Jean-Pierre Léaud, aquele maluqui- no meu funeral. Quem não escreve
Eduardo Galeano, é uma dessas vitória do pior. Mais do que isso: a vitória de um time que (Arnaldo Godoy, vereador.
nho dos filmes autobiográficos do Truffaut. leituras indispensáveis para quem não tenta vencer, como aconteceu com aquele time inglês
- Pronto! Inaugurei estilo novo: Arte PT em BH, no twitter)
por dinheiro não é acredita que a aventura do homem
Dupla estranha. Os desenhos do —esse Morta. que jogou contra o Barcelona. Nada pior para o torcedor
seu nome, artístico ou de batismo, Roland - Sabe que minha vida não daria um fil- digno da profissão. pela Terra, como diria Maquiavel,
do que ver um jogo em que o time joga em função do
tanto pode melhorar como pode
Topor— eram bacaninhas. Mas sempre foi me. O livro eu já escrevi. Deixem o desgraça-
piorar. regulamento. Porque o regulamento incentiva a retranca,
Orlando Porto para mim. do em paz, peço-lhes. O leitor não tem que escrever, o Além de dedicar um capítulo inteiro tolera a violência e premia os covardes. Deveria, ao con-
Fez cinema também. O Inquilino do Po- - Custou, mas estou acima de qualquer
lanski, o Reinfeld de Nosferatu, do Werner lei que vocês bolarem aí. leitor tem que ler ao jornalismo, esse mal que ataca trário, incentivar os dois times a jogar pela vitória, como
alguns de nós, Galeano fala de in-
Herzog. Até que bateu o que ocultava seus - Levou tempo, mas cortei enfim meu úmeros outros assuntos.
em outros esportes. Que valentia tem um time que joga
pés: umas botas estranhas como ele. cordão umbilical. Três em cada cinco índios são Diz, por exemplo, que o texto fundador 90 minutos na defesa? Ou 180? Por que o gol marcado na
De vez em quando, numa revista esotéri- - Roncar, nunca mais. Nem eu nem nin- casa do adversário vale mais do que vinte chutes a gol? Ou
ca, dou com ele. Ei-lo numa em inglês com guém ao meu lado. cada vez mais um só. Os outros do direito penal é El Martillo de Las
Brujas, que no Brasil conhecemos do que dez escanteios? Ou do que a posse de bola? Vencer
“100 boas frases para eu matar agorinha - Que desperdício nunca ter fumado em dois também. como o Martelo das Feiticeiras, um es- Retrato do Brasil, a melhor revista do País,
mesmo”. Se chegou ao fim, e chegou, foi pelo minha vida!
o adversário deveria ser a única preocupação de um time.
tranho manual lançado pela Inquisição trouxe na sua edição de abril uma ótima
cachê. Meros galicismos literários. - Consegui preservar o mistério sempre A obrigação de derrotar também o regulamento costuma
E aí trago à cena, mais uma vez, porque girando em meu torno.
Só se escrever para provocar em 1546, condenando boa parte da
ser demais, mesmo para os melhores. Este é talvez o maior
matéria de Tânia Caliari sobre a internet,
humanidade, principalmente se ela cujo gancho é o fenômeno do Facebook.
cismei, mestre Millôr Fernandes. Esse era - Maioria silenciosa? Essa agora é comi- uma inimigo, conquistar uma fosse mulher. Galeano lembra que defeito do futebol: regulamentos que frequentemente RB é a melhor porque suas matérias vão a
profissional. Nada a ver com “frasista”. Tra- go. mulher ou ganhar muito Gustave Le Bon, aquele mesmo da levam a jogos ruins e resultados injustos. (CAC) fundo no assunto. São poucas reportagens
balhava com a enxada dura da língua. Nunca - Na verdade, nunca me senti à vontade
para dar a cara no Flore, principalmente com
dinheiro psicologia social, acreditava que uma e a revista, mensal, não tem a intenção
nessa posição incômoda de cidadão do mun- mulher inteligente era algo tão raro de noticiar tudo que acontece, mas o que
Topor e Léaud. do. como um gorila de duas cabeças. noticia, noticia bem. Infelizmente, é uma
Reli umas 100 frases do Orlando, ou To- - Ei, juventude, pode vir que pelo menos Três entre quatro políticos não Le Bon foi o primeiro, a partir de
revista antiga, impressa, que não disponibi-
por, e não resisti à tentação de, em algumas uma vaga está aberta. sabem que país é este. O quarto 1895, a esboçar o conceito de massa,
liza seu conteúdo na internet. Também não
delas dar-lhes uma ginga por cima e outra - Emagrecer é isso aqui. como aprendemos nas Teorias da
por baixo, à maneira do frescobol querido do - Agora é conferir se, do outro lado, so- acha que é a Suíça Comunicação. Aquela história de que
é fácil encontrá-la nas bancas, seus leitores
são principalmente assinantes. Isso a torna
mestre, só para exercitar os músculos muito braram tantas virgens assim. das camadas mais populares surge
quase desconhecida, apesar de ser publi-
fora de forma. E assim, cada vez que um”frasista” pas- Não há motivo algum para nos o movimento irracional de massa,
cada desde os anos 80 -- na sua primeira
Cem razões: Faço por bem menos, mas sar por perto de mim, leve uma nossa: mi- porque esse seria o seu comporta-
mais Copacabana e Leblon. Algumas raque- nha e de Millôr. Dois contra um a gente ga-
sentirmos a vontade no mundo. mento natural. Freud vai se envolver versão. Mas é a melhor. A revista coman-
Os alienígenas somos nós. na discussão e usar a análise de Le dada pelo veterano Raimundo Rodrigues
tadas minhas em homenagem ao mestre cuja nha mole.
Bon para advertir: nas massas não Pereira nos mostra a diferença entre ler
falta continuo sentindo: * Jornalista, cronista, escritor, humoris-
existe apenas instinto, mas produção. coisas importantes, escritas por jornalistas
- Melhor maneira de verificar, antes, se já ta, frasista, uma dos criadores do Pasquim e
não estou morto.
Sincretismo religioso é quando Freud contesta a ideia da tirania da inteligentes, que pesquisam o assunto, e
nascido carioca em São Paulo, em 1935, lon-
- Mas não se mata cavalos e malfeitores? drino por opção e muito mais poderíamos um padre não passa debaixo de sugestão: que a ocasião iria influen- as bobagens descartáveis, falsificadas e
cheias de lantejoulas, que as “grandes” se-
- Pelo menos eu driblaria o câncer. falar de Ivan Lessa, e se você já leu, já sabe, uma escada. ciar uma pessoa a seguir impulsos ir-
manais (com a honrosa exceção de Carta-
- Milênio algum jamais me assustará. sabe inclusive que pode continuar lendo, racionais. Mas falávamos de Galeano,
- Apanhei-te horóscopo! Pura enganação! jornalismo e coisas pelo avesso, que Capital) nos vendem. Com o passar dos
seus livros – Garotos da Fuzarca, Ivan Vê o
- Levo comigo a reputação de meu tera- Mundo e O Luar e a Rainha e ainda Gip-Gip Amar é... ser a primeira a são por sinal, a condição de muitos: anos, RB, cujas edições antigas podem ser
peuta. reconhecer o corpo dele no a realidade se converte no avesso, do adquiridas como livro, num volume encad-
– Nheco-Nheco - , suas crônicas na BBC, na
avesso, do avesso, do avesso. ernado, tornou-se uma verdadeira enciclo-
- Pronto, agora não voto mais mesmo! web, etc Instituto Médico Legal (Marcea Braga, de Montes Claros) pédia do Brasil. (CAC)
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“Com o tempo, uma imprensa cínica,
mercenária, demagógica e corrupta formará
um público tão vil como ela mesma”.
Joseph Pulitzer
O que o
Facebook
vende 2
Depois de usar o FB durante três
300 anos do nascimento
de Rousseau.Diz ele: assim anos o estudante de direito austríaco
nasceu a propriedade Max Scherms descobriu que a rede
privada: alguém cercou um social criada por Mark Zuckerberg
terreno e disse: isso é meu; tinha o equivalente a 1.200 páginas
e bobos acreditaram nele. de informações sobre ele, organi-
(Leonardo Boff no twitter) zadas em 57 categorias, tais como
amigos, família, posicionamentos
políticos etc. Nem a CIA nem a KGB
(polícia política da antiga União So-
O que o Facebook vende viética) tiveram tantas informações
sobre um cidadão comum, observou
Quando o universitário harvardiano Mark Zucker- Scherms em entrevista citada por
berg criou o Facebook, ele estava inventando, talvez Retrato do Brasil. O austríaco pro-
sem saber, um novo tipo de negócio que o deixaria
milionário. Sob a aparência ingênua de rede social, cessou FB e criou uma organização
que oferece gratuitamente ao seu público ferramen- denominada Europe Versus Face-
tas de comunicação sofisticadas e possibilidades book, cujos objetivos são obrigar a

Rio mais 20 problemas


infinitas de relacionamentos, o que o Facebook rede social a atuar com transparência
faz é coletar informações sobre milhões (845, em
fevereiro de 2012) de pessoas mundo afora e vendê- e transferir ao usuário o controle
-las para seus clientes. E quem são esses clientes? sobre seus dados. Poucos sabem que
Claudio Alecrim - Rio de Janeiro Apesar da chamada pacificação das favelas,
Empresas de marketing, que atendem agências de todas as informações publicadas pelo
publicidade, que atendem empresas interessadas Sede da conferência Rio+20, a cidade mara- aonde a violência ultrapassou o limite do
vilhosa já não goza dessa reputação. Proble- tolerado, essa mesma violência ainda repre- usuário, mesmo aquelas apagadas,
em nos vender todo tipo de coisa. Nada impede,
porém, que o cliente do FB seja o governo dos mas não faltam e seu funcionamento, cada senta índice estatístico bastante preocupan- continuam em poder do FB. Além
EUA ou outro governo. O negócio do FB, por- vez mais deficiente, aponta para um quadro te, com seu deslocamento para lugares ainda disso, a partir dos usuários, FB ob-
caótico. não contemplados com as UPP´s - Unidade
tanto, é venda de informações e a rede social, o tém informações de outras pessoas,
meio que o viabilizou. Zuckerberg percebeu isso e O evento chegou a estar ameaçado pelos pre- de Polícia Pacificadora.
ços absurdos do setor hoteleiro, considerados Junto com esse pacote da segurança os pro- como aquelas que são “marcadas” em
fundamentou seu negócio -- que, em 2010, faturou
um dos mais altos do mundo. Tudo é caro no blemas aumentam com as precárias condi- fotos. EvFB afirma que o FB infringe
Leitura “orgânica” e junk reading US$ 3,7 bilhões -- nos princípios do crescimento
permanente e da gratuidade eterna do serviço. “O Rio. Morar na cidade da Rio+20 chega a ser ções de saneamento público, que responde a legislação europeia de privacidade e
um desafio até mesmo para os mais abasta- por doenças como a dengue, trazendo atraso
Facebook é e sempre será gratuito”, é o lema da rede quer que a rede social informe o que
Que vivemos a era da informação, todos sabem, oportunidade de exercitarem seus defeitos social. Seu usuário é convidado a todo momento dos. Seguem essa tendência os transportes, ao desenvolvimento sanitário esperado para
alimentação e lazer. cidades com a importância do Rio. faz com as informações obtidas dos
mesmo quem não parou para pensar nisso. Para livremente, mas também lixo profissional, por- a aumentar sua rede de “amigos”. Chega-se logo a
quem gosta de ler, nossa época é um paraíso, carias produzidas industrialmente, por exércitos um ponto em que é impossível ver o que todos os Contudo, a infraestrutura da cidade não Quando as autoridades mundiais se encon- seus usuários. Entre as artimanhas
com tantas publicações impressas, que em vez profissionais, e vendidas como mercadorias “amigos” publicaram. Isto seria um defeito do FB, corresponde ao valor que lhe é dado. O trarem para discutir os rumos do planeta e usadas pelo negócio de Mark Zuck-
transporte público tem péssima operacionali- condições ideais para a manutenção da vida,
de diminuírem, aumentaram, depois da che- glamourosas, usando propaganda enganosa no entanto o usuário continua sendo incentivado erberg, segundo EvFB, está a compli-
gada da internet. E esta, que nos disponibiliza e que fazem mal à saúde. É a junk reading, a aumentar sua rede de amizades. Por que isso, se dade, as ruas representam risco iminente aos poderão ver de perto as consequências de
cidadãos, com explosões de bueiros, frutos do políticas predadoras, voltadas para interesses cada mudança de configurações que
uma infinidade de notícias, reportagens, vídeos, equivalente, em leitura, à junk food, a “comida não é bom para o usuário? Porque é bom para o
gravações, músicas, documentos, em volume lixo”. A “junk reading” não está só na internet, FB. Na verdade, mais que bom: é sua necessidade, deteriorado serviço de manutenção do forne- pequenos e distantes do passo histórico que supostamente garantiriam a privaci-
crescente, com produção cada vez maior, basta está também nas bancas e nas livrarias e pode sua essência, seu negócio. Quanto mais usuários, cedor e nenhuma fiscalização por parte das pensam em dar. dade do usuário. A opção inicial,
autoridades municipais e estaduais. * Cartunista
pesquisar no Google. Uma maravilha. Nesse chegar de graça na nossa casa. Distinguir o que mais informações, mais matéria prima para vender, usada provavelmente pela maioria,
caldeirão cabe de tudo, inclusive lixo, não só é leitura “orgânica”, saudável e natural do que é mais clientes, mais lucro. Por isso o pesquisador do mantém os dados do usuário abertos
lixo, digamos, amador, produzido por pessoas “leitura lixo” é um exercício que faz bem à saúde laboratório de computação social da HP Bernar-
ignorantes e estúpidas, que veem na internet mental. (CAC) do Huberman sugere que o FB remunere seus “A imprensa brasileira sempre foi canalha. Eu acredito que se a imprensa para uso do FB. EvFB também faz
usuários, como uma espécie de “participação nos brasileira fosse um pouco melhor poderia ter uma influência realmente campanha para que os mais de 800
lucros”. (CAC) maravilhosa sobre o País. Acho que uma das grandes culpadas das condi- milhões de usuários solicitem seus
ções do País, mais do que as forças que o dominam politicamente, é nossa dados armazenados pelo FB. (CAC)

maiores empresas do mundo


imprensa. Repito, apesar de toda a evolução, nossa imprensa é lamentavel-
As mente ruim. E não quero falar da televisão, que já nasceu pusilânime”.
Millôr Fernandes
Deu no portal iG (que foi comprado pela empresa portuguesa Ongoing): as duas mil maiores empresas
do mundo faturaram US$ 36 trilhões de dólares em 2011 (11% a mais que em 2010) e lucraram US$ 2,6
Copão do Brasilzão
Um bar. Um lugar.
trilhões (12% a mais). Ao todo elas empregaram 83 milhões de pessoas. Não é interessante, consideran-
A CBF decidiu estender a Copa do Brasil ao longo
do a população mundial de 7 bilhões de humanos? Quase 99% da população do planeta sobrevive de
do ano, em 2013. Ótimo, mas qual será a fórmula
outras formas que não as atividades das maiores empresas capitalistas. Como? Eis aí uma boa pergunta.
E em Santa Tereza.
de disputa? A mesma atual? Metade dos times sai
Outra boa pergunta: como é que o faturamento das empresas aumentou, se o mundo está em crise e na primeira rodada? Mais um quarto na segunda
a economia encolheu? Pois é. Isto mostra que a crise é um mecanismo de concentração de riqueza. e assim por diante? O bacana da Copa é justa-
Enquanto o povo perde benefícios e emprego, enquanto o Estado corta gastos sociais, as empresas ficam mente ter clubes do Brasil inteiro. Já disse e repito: De segunda a sábado. Das 18 horas até o último dizer chega.
mais ricas. Na lista das duas mil tem 32 brasileira, a primeira das quais é a Petrobrás, a décima maior campeonato brasileiro pra ser chamado de bra-
do planeta. (Em tempo: o iG pertencia à Oi, que é acionista da Portugal Telecom; a Ongoing também é sileirão tem que ter pelo menos 40 clubes, de todos
Espaço para comemorações: até 120 convidados.
acionista da Portugal Telecom e participa do capital da Ejesa, que controla os jornais Brasil Econômico, os estados. É só fazer turno único. Se for bem feita, Rua Mármore, 373. Santa Tereza. BH. MG.
O Dia, Meia Hora e Marca. Em Portugal controla o Diário Económico.) (CAC) a Copa do Brasil tem tudo pra eclipsar o brasileir- (31) 2515-7149 - 9102-9405 | E-mail: clubemineirodacachaca@gmail.com
inho em emoção e público.  (CAC)
28 29

Sherazade
Uma das grandes lições  do orientalismo, se é que uma outra forma narrativa, no caso, a da escrita, O que o
Facebook
podemos chamar assim, nos vem de uma mulher, poderíamos dizer que a balada “Hey Boy” (Arnaldo
Sherazade, que nos fala sobre o poder da narra- Baptista/Elcio Decário), tem elementos tanto da

vende 3
tiva. E são vários e múltiplos os modos de narrar. Nouvelle Vague quando do Neorealismo Italiano.
Se pudéssemos unir cinema e música para ilustrar Se não, vejamos:

he, he, he, hey boy / o teu cabelo está bonito, hey pequeno / teu blusão importado / tua pinta de
boy / tua caranga até assusta, hey boy / vai pas- abonado
sear na Rua Augusta / He, he, he, hey boy / teu tuas ideias modernas... / he, he, he, hey boy... / as Se a mercadoria que o
pai já deu tua mesada, hey boy / a tua mina está meninas e as pernas, vão aparecer / nos passos Facebook vende somos
gamada, hey boy / mas você nunca fez nada... / ritmados / do iê iê iê bem dançado / da cuba- nós, que dirá do Google,
no pequeno mundo do ter carro / o tempo é tão libre gelada... / hey boy, viver por viver... seu irmão mais velho? Em
A viúva assassina A música está no álbum “A Divina Comédia”, título, a última frase, Alain Resnais talvez dissesse que
2011, a Google faturou
R$ 37,9 bilhões, dos quais
Ou, a violência seletiva alíás, sugestivo, lançado pela gravadora Polydor,
no distante e secular ano de 1970. Embora sobre
o objetivo do ser é unicamente ser. (Marcia Braga,
de Montes Claros
96% com publicidade.

da “grande” imprensa
Oferecer a ferramenta de
busca indispensável para
o uso da internet, acom-
panhada de penduricalhos,
Neila Batista
Assisto perplexa a cobertura da imprensa comer-
cial sobre o assassinato de Marcos Kitano Mat-
Compaixão e generosidade muitos dos quais também
entraram no nosso uso
sunaga. Não pelo evento em si, que já é repulsivo rotineiro, como o gmail, o
Metade dos jovens em idade economicamente ativa boa ação atrai outras, criando um círculo virtuoso.
em sua natureza. Mas pelo desconforto em citar a youtube, o google tradu-
está desempregada, tema que dá um bom filme. A E assim se desenrola “O Porto”, para nossa surpresa,
autora do crime. tor e o google maps (a
estatística é espanhola, mas o filme é francês: “As acostumados que somos a dramas sociais de finais
Esposa, mulher, bacharel em direito e, superando BHTrans, por exemplo,
tudo, a GloboNews a ela tem se referido como a neves do Kilimanjaro”. Outro francês, “O Porto”, trata infelizes. Em “As neves”, um sindicalista socialista
eliminou sua página de
“viúva de Marcos Matsunaga”, ou simplesmente, de assunto correlato: a migração de africanos para a em fim de carreira se dá conta de que se “aburgue-
buscas de linhas de ônibus
Elize Matsunaga. Nesse caso, imprensa está cor- Europa. O fundo de tudo isso: a crise do capitalismo sou” com os benefícios sociais conquistados em dé-
e substituiu-o pelo link do
reta. Tirando o “viúva”, formalmente correto, mas nos seus estertores. Os europeus, que escravizaram cadas melhores: tem boa casa, carro, seguro social,
google maps), tudo gratu-
pouco apropriado, o resto se encaixa.
Aí leio um post, nas redes sociais, de Luiz Mott, Rádio Beatles, o romance africanos, exportaram o capitalismo e colonizaram o
mundo inteiro, não querem estrangeiros. Mas eles --
aposentadoria, economias e faz bons churrascos
familiares aos domingos, enquanto jovens desem-
itamente, não é o negócio
da Google. E a multina-
polêmico antropólogo baiano, dizendo que se nós -- insistem em ir, clandestinos. E acabam viven- pregados, colhidos pela crise, desiludidos, escolhem
fosse alguém da população LGBT, o tratamento O novo livro da escritora e jornalista cional americana detém
do assim, comprando documentos falsos, trabalhan- o crime como forma de sobrevivência. As soluções
seria outro. Maria Clara Arreguy será lançado no dia muito mais informações
do nos serviços subalternos. O sistema os persegue, de uns e de outros são individuais: neste começo
Lembrei-me que, dias atrás, Luka Rocco Magnot- 27 de Junho 19:00 até 21:30 no La Parrilla do que o FB. Seu proces-
mas a compaixão e a generosidade ainda persistem de século XXI, apesar das mobilizações recentes,
ta, foi citado como assassino do chinês Lun Jin, do Brasília Shopping, em Brasília,claro. samento de dados é tão
no Canadá. Também aí rolou esquartejamento. entre velhos socialistas, velhos imigrantes, velhos não parece haver mais soluções coletivas, idealistas,
E em Belo Horizonte no dia 30, das 11 às fantástico que basta digi-
Como se tratam de eventos desviantes de um sindicalistas, mentalidades de outros tempos. Uma revolucionárias. (CAC)
13:13h no Café com Letras na Savassi. tar a primeira letra do que
padrão de normalidade hegemônico, o tratamento estamos buscando e ele
Clarinha, ops, Clara Arreguy fala ao Co-
midiático aos mesmos revela os preconceitos da
meta sobre o Rádio Beatles: começa a funcionar; quan-
sociedade.
No primeiro caso, os envolvidos são pessoas de - “É um romance sobre um engenhei- do terminamos a primeira
estratos abastados da sociedade paulistana. Nem ro beatlemaníaco que, às vésperas de palavra ele já selecionou
a assassina, nem a vítima são da população LGBT. completar 50 anos, repensa sua vida, sua tudo que se refere a ela e
Nem são de etnia negra. Portanto, todo o cuidado paixão pela música, que nunca abraçou listou as páginas -- deze-
é justificado. A motivação foi o ciúme por um como gostaria, quando era jovem. nas, centenas, milhares
suposto caso de “traição”, pela vítima. O esquar- “Ambientado no interior de Minas, fala -- numa ordem cujos cri-
tejamento do corpo sugere alguma patologia. Sim, das escolhas que as pessoas fazem na térios ignoramos. Quando
algo tão horrível, num público tão distinto, só pode vida, mostra uma geração - a minha - em digitamos uma expressão
ter explicação numa doença. Se concluírem que o ou uma frase inteira, ele
sua relação com o casamento, os filhos, a
assassinato também se deu por razões de inter-
religião, a arte.  costuma ir direto ao que
esse patrimonial, o que parece óbvio, o impacto
de tal possibilidade será menos dramático agora. “A ideia me veio durante um show da interessa, mas nem sem-
Voltemos ao jovem canadense. A imprensa parece banda Hocus Pocus, cover dos Beatles, pre temos tanta infor-
respirar aliviada ao descobrir a condição homoaf- na qual toca meu irmão Beto. Pensei em mação prévia para ajudar
etiva dele, sua profissão e seu relacionamento tantos músicos amadores que sonha- nossa busca. O que a
amoroso com a vítima. Qual o tratamento? Ator vam ser profissionais mas refugaram Google faz com tantas in-
pornô e gay. Pronto. Está explicado. em algum momento, e na possibilidade formações armazenadas?
Como no caso dos Von Richthofen, o que menos de, a certa altura, mudar de vida radi- Uma coisa nós sabemos:
importava é a pena singular a que seria submetida calmente. (pela dica, Marcelo Procopio esse é o maior poder do
Suzane, a filha; relevante era a revelação da “quali- século XXI. (CAC)
dade” do namorado: negro, pobre e de periferia. A
nenhum veículo de imprensa ocorreu arguir quem
eram os pais. Afinal, eventuais patologias da filha
tem relação direta com prováveis patologias dos
citados pais.
Nordestão
A sociedade, diante de crimes, reivindica que se Por que os clubes do Nordeste, Norte e Centro-Oeste do Brasil, que são aqueles
vingue a vítima. E nunca bastou que o Estado as- que mais levam torcedores aos estádios (Bahia 3 x 3 Vitória: 32.157 pagantes;
sim o fizesse. Se o criminoso ou criminosa é do Sport 2 x 3 Santa Cruz: 31.998; Ceará x Fortaleza: Goiás 1 x 1 Atlético GO:
“andar de cima”, isso causa desordem. Se for do 32.387), não abandonam o campeonato da CBF e realizam um campeonato
andar de baixo, tal vingança aparece também na
forma do preconceito contra a condição social,
exclusivo deles? Seria tão ou mais emocionante do que este disputado pelos
étnica e de modos de vida. clubes do Sudeste (11) e Sul (4), o brasileirinho. Nos EUA não tem uma coi-
E assim caminha a humanidade. sa parecida no basquete? A liga da costa oeste faz um campeonato e a liga da
costa leste faz outro? (CAC)
30 31

EXCLUSIVO!
O que realmente
A 26ª edição do Salão Nacional
de Poesia, realizado em Montes

se passou naquele
Claros.MG, abre inscrições no pró-
ximo 1º julho. Terá o nome/tema
la,
escritório entre Lu
de Psiu Poético+25, que se refere
ao quarto de século que o evento

Brasil do Bem na Gilmar e Nelson.


completou em 2011. Acontecerá
de 4 a 12 de outubro em vários
locais da cidade.
No Psiu Poético vale tudo, desde
que seja poesia. Qualquer pes-
soa, qualquer idade, qualquer
HQMix
nacionalidade. Cada inscrito por Festa das melhores na Livraria HQMix, em
enviar até três trabalhos: digitados São Paulo, um dos melhores espaços dos Revelações que nem a Veja ousou divulgar
ou criados artesanalmente. Tem aretistas gráficos do país.. Foi em março, mas
O Vaticano e a FIFA, ainda espaço para performances
o livro lançado está vivo. É o ‘Brasil do Bem’, Ivan Vellasco* eles dizem e o que o
poéticas, dança, teatro, esquetes, Demóstenes chama de
duas entidades intervenções, lançamentos de projeto organizado por Mario Mastrotti, livro
Logo na chegada de Gilmar, republicano eu viro um
livros, CDs: tudo que esteja ligado que reúne os cartunistas A. C. Pires, Alecrim,
internacionais corroidas a poesia. Bira Dantas, Da Costa, Eder Santos, Emerson Lula o cumprimenta ansio- monge.
pela corrupcao, devem E tem também o Cine Poesia:
filmes curtas e curtíssimos. Todos
Ferrandini, Ezê, Fernandes, Fred, Gil de Godoy, so, visivelmente apreensivo Lula cheira uma cigarrilha
Hals, Humberto Pessoa, Jean Pires, J. Bosco, e pergunta sem rodeios: lentamente e pergunta se al-
se abster de avaliar os com até 30 segundos e, claro,
Laudo Ferreira, Mário Mastrotti, Renato Ste- - Então, trouxe? guém tem isqueiro. Nelson
com referências poéticas.
outros, antes de apurar e O curador da Mostra Nacional gun, Ricardo Soares, Rice Araújo (que também - Presidente, responde Gil- se levanta resignado, apan-
desenvolveu a capa do livro), Sandro Melo, mar, trouxe, mas acho que ha um ao lado de um sino
punir os responsaveis dos Psiu Poético é o poeta Aroldo
Pereira. Alguns dos realizadores e Seri, Siqueira, Spacca, Ulisses Saravalle, Xavi, não é correto, ainda mais no que tem em seu escritório e
escandalos. – no facebook apoiadores: Prefeitura de Montes
Claros, Unimontes, SESC, Grupo
William e Zitto. seu estado... passa a Lula. Lula acende a
Cada um fez três caricaturas de brasileiros que - Eu sei, eu sei... O Toffoli, a cigarrilha e fecha os olhos
Nós por Nóiz, Grupo Transa Poéti-
Emir Sader ca, Fundação Genival Tourinho.
contribuíram para o bem do Brasil. Músicos, Carmem e o Brito disseram com uma longa tragada.
As inscrições podem ser feitas escritores, atletas, humoristas, artistas, etc. a mesma coisa, que isso era - O importante é que isso
na Biblioteca Dr. Antônio Teixeira Sabia mais aqui: http://osquadrinhos.blogspot. loucura e não iam apoiar. fique entre nós. Os médicos,
de Carvalho, do Centro Cultural com/2012/03/lancamento-do-livro-brasil-do- Para que servem os aliados? a Marisa e a imprensa não
Hermes de Paula ou pela internet. -bem.html#ixzz1xh2izIbB. Alguém ficou sabendo? podem saber. Imaginem
Saiba mais, ligue-se: www.psiupo- Ou compre pel site da HQMix: http://livra-
etico.com.br (Marcelo P) - Não. Disse que era um como o Serra usaria isso na
riahqmix.blogspot.com.br/ (O Cometa) presente para um amigo... campanha? Então Nelson?
- Nem a Guiomar? A Marisa Vai servir o vinho ou não?
não pode saber. (virando- Onde você arrumou esse
se para o Nelson). O vinho sino?
está com você? Nelson abre o vinho,
- Sim presidente, mas uma serve as taças, mas Gilmar
garrafa só. recusa alegando que está
- Ótimo. Com as duas que em horário de serviço e

A Educação Ambiental e a Rio + 20 eu trouxe são três.


- Mas presidente...
não pode beber e só veio
pelo pedido de Lula. Lula
- Deixa comigo. Sei o que e Nelson brindam. Depois
Os “protagonistas” do espetáculo da Conferência não enxergam essa área como essencial estou fazendo. (virando-se de uma longa tragada Lula
para Gilmar). Então, cadê? vira-se para Gilmar, baten-
Alexandre Macedo Pereira* sobre o papel político da Educação Am- processo dinâmico e simultâneo, que Portanto, está na hora de superar as fra- Gilmar, tira do bolso o pa- do com a mão na sua perna:
Rio Grande/RS biental no desenvolvimento econômico se efetiva na existência e não apenas gilidades (teóricas, políticas, metodoló- cote de cigarrilhas e entrega - E então, como foi em
do Brasil. em ideais. Nesse contexto o critério de gicas) e avançar com consistência para a a Lula, algo constrangido, e Berlim?
“Construir um modelo de desenvolvi- A Rio 92 foi entendida pelos pesquisa- verdade, do agir humano, deve sempre elaboração de uma Educação Ambiental olhando para Nelson com ar Segue-se uma conversa
mento sustentável” é o que Ban-Ki-Mo- dores e educadores ambientais como ser a prática social (Mao Tse-Tung). comprometida com os seres humanos, a de quem espera aprovação. sobre a qual as versões são
on, Secretário Geral da Organização das um marco na trajetória no campo da Direcionando o olhar para a história, justiça, a ética, etc. Sendo assim, a Edu- Vira-se para Lula: contraditórias.
Nações Unidas deseja que se concretize Educação Ambiental no Brasil. A partir pode-se afirmar que os avanços alcan- cação Ambiental crítica, emancipatória, - Presidente, no seu estado
durante a Rio+20. Sendo assim, as dela, algumas conquistas se consolida- çados nessa jornada são frágeis, seja no é combativa e não se efetiva por dentro seria melhor evitar. Os mé-
representações governamentais e não ram, destacando-se a Política Nacional campo da educação formal, não formal do sistema do capital, pois segundo dicos alertam que cigarros... * colaboracionista bipolar,
governamentais de diversos países se de Educação Ambiental (Lei 9795/99). e informal. Em vinte anos a educação István Mészáros “o sistema do capital é
- Esqueça os médicos. diretamente do Observatório
concentrarão no Rio de Janeiro para Apesar da Política Nacional de Meio ambiental não se consolidou como um incorrigível”.
tentar “tornar possível esse sonho”. Ambiente ser a uma grande conquista, campo político de enfrentamento desse “Em vinte anos, desde a Rio-92, a Se eu for fazer tudo que da Imprensa Golpista.
A Conferência seria um momento lacunas ainda não foram preenchidas modelo econômico expropriador. Na educação ambiental não se consolidou
chave de reflexão para o campo da Edu- nesse percurso histórico da Educação maioria das vezes a Educação Ambien- como um campo político de enfren-
cação Ambiental no Brasil, mas o fato Ambiental no Brasil. tal assume uma postura pragmática, tamento desse modelo econômico

A lucidez dos livros.


dessa área não fazer parte do processo Sendo assim, o que pensam os educa- utilitarista, reacionária, conservadora e expropriador. Na maioria das vezes a
de debates da Rio +20 é um indicador dores e pesquisadores da educação am- reprodutora. Educação Ambiental assume uma pos-
significativo que coloca em suspeita a biental quanto a não participação desta A partir dessa leitura pode-se concluir tura pragmática, utilitarista, reacioná-
relevância da Educação Ambiental no área do conhecimento nas discussões que os “protagonistas” do espetáculo ria, conservadora e reprodutora”

A loucura dos livros.


Brasil nos últimos 20 anos, e também, é da Conferência Rio + 20? Seria um mo- da Rio + 20 não enxergam a Educação
um indicador norteador dos debates do mento imprescindível para a reflexão- Ambiental como uma força essencial a * Pedagogo, psicopedagogo e
campo para a elaboração de uma nova -ação, ou seja, pensar/agir, pois a ação ser combatida e muito menos enxer- mestre em Gestão em Gestão de Recursos
agenda para os próximos vinte anos. e o conhecimento (práxis) modificam a gam como uma força aliada. Que triste Naturais e Desenvolvimento Local na Ama-
zônia da UFPA
Nessa conjuntura, é necessário dialogar realidade, o homem e a natureza. É um constatação!
- email: c.cpa2008@hotmail.com Ru a Fer n a n d es To u rin h o , 2 7 4 - S a v a s s i | 3 2 2 7 . 3 0 7 7 / 3 2 6 4 . 2 8 5 8
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Natalia Forcat
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