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INTRODUÇÃO SOBRE MITOLOGIA GREGA E ORIGEM DA FILOSOFIA

Os pensamentos mítico e filosófico surgiram e se desenvolveram da vontade humana por


explicações de sua condição MITO DA CASTRAÇÃO DE URANO E ORIGEM DO
COSMOS SEGUNDO O FILÓSOFO JEAN-PIERRE VERNANT Comecemos pelo Céu,
isto é, Urano, gerado por Gaia e do mesmo tamanho que ela. Ele está deitado, estendido sobre
quem a gerou. O Céu cobre completamente a Terra. Cada porção de terra é duplicada por um
pedaço de céu que lhe corresponde perfeitamente. Quando Gaia, divindade poderosa, Mãe-
Terra, Produz Urano, que é seu correspondente exato, sua duplicação, seu duplo simétrico, nos
encontramos em presença de um casal de contrários, de um macho e uma fêmea. Urano é o Céu,
assim como Gaia é a Terra. Na presença de Urano, o Amor age de outro modo. Nem Gaia nem
Urano produzem sozinhos o que cada um tem dentro de si, mas da conjunção dessas duas forças
nascem seres diferentes de uma e outra. Urano está o tempo todo deitando-se sobre Gaia. Urano
não tem outra atividade além da sexual. Cobrir Gaia incessantemente, o mais possível: ele só
pensa nisso, e só faz isso. Então, essa pobre Terra acaba grávida de uma série de filhos que não
conseguem sair de seu ventre e aí continuam alojados, aí mesmo onde Urano os concebeu.
Como o Céu nunca se distancia da Terra, não há espaço entre eles que permita aos seus filhos
Titãs virem à luz e terem uma existência autônoma. Estes não podem tomar a forma que é a
deles, não podem se transformar em seres individualizados, pois não conseguem sair do ventre
de Gaia, ali onde o próprio Urano esteve antes de nascer. Quem são os filhos de Gaia e Urano?
Primeiro, há os seis Titãs e suas seis irmãs, as Titânidas. O primeiro Titã chama-se. Okeanos. É
esse cinturão liquido que rodeia o universo e corre em círculo, de tal modo que o fim do Oceano
é também seu começo; o rio cósmico corre em circuito fechado sobre si mesmo. O mais jovem
Titã tem o nome de Krónos, é o chamado "Crono dos pensamentos marotos" Além dos Titãs e
das Titânidas, nascem dois trios de seres absolutamente monstruosos. O primeiro é o dos
Ciclopes - Bromes, Estéropes e Argeus - personagens muito poderosos que têm um só olho e
cujos nomes são reveladores do tipo de metalurgia a que se dedicam: o ronco do trovão, o fulgor
do relâmpago. Na verdade, eles é que vão fabricar o raio que será doado a Zeus. O segundo trio
é formado pelos Heratonkhires, ou Cem-Braços - Coto, Briareu e Gies. São seres monstruosos
de tamanho gigantesco, que têm cinquenta cabeças e cem braços, sendo cada braço dotado de
uma força terrível. Ao lado dos Titãs, esses primeiros deuses individualizados – ao contrário de
Gaia, Urano ou Póntos, eles não são apenas um nome dado a forças naturais, os Ciclopes
representam a fulgurância da visão. Possuem um só olho no meio da testa, mas esse olho é
fulminante, assim como a arma que vão oferecer a Zeus. Força mágica do olho. Por sua vez, os
Cem-Braços representam, com sua força brutal, a capacidade de vencer, de triunfar pela força
física do braço. Para uns força de um olho fulminante; para outros, força da mão que é capaz de
juntar, apertar, quebrar, vencer, dominar todas as criaturas no mundo. No entanto, Titãs, Cem-
Braços e Ciclopes estão no ventre de Gaia; Urano está deitado sobre ela. Ainda não há
propriamente luz, pois Urano, ao se deitar sobre Gaia, mantém uma noite contínua. Então, Terra
explode de raiva. Está furiosa por reter em seu seio esses filhos que, sem poderem sair, deixam-
na inchada, comprimem-na, sufocam-na. Dirige-se a eles, em especial aos Titãs, dizendo-lhes:
"Escutai, vosso pai nos faz injúria, nos submete a violências horríveis, isso tem de acabar.
Deveis revoltar-vos contra vosso pai Céu": Ao ouvir essas palavras vigorosas, os Titãs, no
ventre de Gaia, ficam aterrorizados. Urano, que continua instalado sobre a mãe deles, tão grande
quanto ela, não lhes parece fácil de ser vencido. Só o caçula, Cronos, aceita ajudar Gaia e
enfrentar o pai.
Terra concebe um plano particularmente engenhoso. Para executá-lo, fabrica dentro de si
mesma um instrumento (um tipo de foice), a hárpe, em metal branco. Depois, coloca essa foice
na mão o jovem Cronos. Ele está no ventre da mãe, ali onde Urano se uniu a Terra, e fica à
espreita, em emboscada. Quando Urano se deita sobre Gaia, ele agarra com a mão esquerda as
partes sexuais do pai, segura as firmemente e, com o facão que brande na mão direita, corta-as.
Depois, sem se virar, para evitar a desgraça que seu gesto teria provocado, joga por cima do
ombro o membro viril de Urano.
Desse membro viril, cortado e jogado para trás, caem sobre a terra gotas de sangue, ao passo
que o próprio sexo é atirado mais longe, nas ondas do mar. No momento em que é castrado,
Urano dá um berro de dor e se afasta depressa de Gaia. Vai então se instalar bem, no alto do
mundo, de onde não mais sairá. Como Urano tinha o mesmo tamanho de Gaia, não há um só
lote de terra que não encontre lá em cima um pedaço equivalente de céu. Ao castrar Urano, a
conselho e graças à astúcia de sua mãe, Crono cumpre uma etapa fundamental no nascimento do
cosmo. Separa o céu e a terra. Cria entre o céu e a terra um espaço livre: tudo o que a terra
produzir, tudo o que os seres vivos engendrarem, terá espaço para respirar, para viver. Assim, o
espaço se desbloqueia, mas o tempo também se transforma. Enquanto Urano pesava sobre Gaia,
não havia gerações sucessivas, pois elas ficavam ocultas dentro da criatura que as produzira.
Quando Urano se retira, os Titãs podem sair do colo materno e, por sua vez, darem à luz. Inicia-
se então uma sucessão de gerações. O espaço se libera e o "céu estrelado" tem agora o papel de
um teto, de uma espécie de grande abóbada escura, estendida acima da terra. De vez em quando,
esse céu preto vai se iluminar, pois agora o dia e a noite se alternam. Ora surge um céu preto
tendo apenas a luz das estrelas, ora, ao contrário, é um céu luminoso que aparece, tendo apenas
a sombra das nuvens. Deixemos por um instante a descendência de Terra e encontremos a de
Caos. O Abismo produz dois filhos, um se chama Érebos, o Érebo, o outro, Nyx, a Noite. Como
prolongamento direto de Caos, Érebo é o negro absoluto, a força do negro em estado puro, sem
se misturar a nada. O caso de Noite é diferente. Assim como Gaia, ela também gera filhos sem
se unir a ninguém, como se os fizesse em seu próprio tecido notumo: trata-se de Aithér, Éter,
Luz Etérea, e de Hemére, Dia, Luz do Dia. Érebo, filho do Caos, representa o negro próprio
dessa criatura, inversamente, a Noite invoca o dia. Não há noite sem dia. Quando Noite produz
Éter e Dia, o que faz ela? Assim como Érebo era o escuro em estado puro. Éter é a luminosidade
em estado puro. Éter é a contrapartida de Érebo. O Éter brilhante é a parte do céu onde nunca há
escuridão, ou seja, a que pertence aos deuses do Olimpo. O Éter é uma luz extraordinariamente
viva que nunca é alterada por sombra alguma. Ao contrário. Noite e Dia se apoiam mutuamente,
opondo-se. Desde que o espaço se abriu Noite e Dia. se sucedem regularmente. À entrada do
Tártaro encontram-se as portas da Noite que se abrem para a sua morada. É ali que Noite e Dia
se apresentam sucessivamente, se comunicam, se cruzam, sem jamais se juntarem nem se
tocarem. Quando há noite não há dia, quando há dia não há noite, mas não há noite sem dia.
Assim como Érebo representa uma escuridão total e definitiva. Éter encarna a luminosidade
absoluta. Todos os seres que vivem na terra são criaturas do dia e da noite; com exceção da
morte, eles ignoram essa escuridão total que nenhum raio de sol jamais alcança e que é a noite
do Érebo. Os homens, os bichos, as plantas vivem noite e dia nessa conjunção de opostos, ao
passo que os deuses, bem no alto do céu, não conhecem a alternância do dia e da noite. Vivem
numa luz profunda e permanente. No alto, temos os deuses celestes no Éter brilnante, embaixo,
os deuses subterrâneos ou os que foram denotados e enviados ao Tártaro, e que vivem numa
noite constante; e depois, os mortais, neste mondo, que já é um mundo de mistura. Voltemos a
Urano. O que acontece quando ele se fixa no alto do mundo? Não se une mais a Gaia, a não ser
durante as grandes chuvas fecundantes, quando o céu se solta e a terra dá à luz. Essa chuva
benfazeja permite que nasçam na terra novas criaturas, novas plantas, cereais. Mas, fora esse
período, está cortado o vinculo entre o céu e a terra.
Quando Urano se afastou de Gaia, lançou uma terrível imprecação contra seus filhos: "Ireis
chamar-vos Titãs"; disse-lhes, fazendo um trocadilho com o verbo titaíno, "porque estendestes
os braços alto demais, ireis expiar o crime de ter levantado a mão para vosso pai" As gotas de
sangue de seu membro viril mutilado que caíram no chão deram origem, algum tempo depois,
às Erinias. São elas as forças primordiais cuja função essencial é guardar a recordação da
afronta feita por um parente a outro, e de fazê-lo pagar, seja qual for o tempo necessário para
isso. São as divindades da vingança pelos crimes cometidos contra os consanguíneos. As Erínias
representam o ódio, a recordação, a memória do erro, e a exigência de que o crime seja
castigado. Do sangue da ferida de Urano nascem, junto com as Erinias, os Gigantes e as
Melíadas, ou Ninfas, dessas grandes árvores que são os freixos. Os Gigantes são essencialmente
guerreiros, personificam a violência bélica: desconhecendo a infância e a velhice, são eles, a
vida inteira, adultos na força da idade, dedicados à luta, com gosto pela batalha mortal. As
Ninfas dos Freixos - as Melíadas - também são guerreiras, e também têm vocação para o
massacre, pois o bosque de lanças das quais se servem os guerreiros durante o combate é
justamente o das árvores onde elas habitam. Assim sendo, das gotas do sangue de Urano nascem
três tipos de personagens que encarnam a violência, o castigo, o combate, a gueixa, o massacre.
Um nome resume aos olhos dos gregos essa violência: é Eris, conflitos de todos os tipos e de
todas as formas, ou discórdia dentro de uma mesma família, no caso das Erinias. O que acontece
com o membro que Crono joga no mar, isto é, no Pontos? Não soçobra nas ondas marinhas, fica
boiando, e a espuma do esperma se mistura com a espuma do mar. Dessa combinação espumosa
em torno do sexo, que se desloca ao sabor das ondas, forma-se uma fantástica criatura: Afrodite,
a deusa nascida do mar e da espuma. Ela navega por certo tempo e depois chega à sua ilha,
Chipre.-Caminha pela areia e, à medida que vai andando, as flores mais perfumadas e mais
belas nascem sob seus pés. No rastro de Afrodite, seguindo seus passos, surgem Eros e
Hímeros, Amor e Desejo. Esse Éros não é o Éros primordial, mas um outro que, doravante,
exige que haja o feminino e o masculino. Ocasionalmente se dirá que ele é filho de Afrodite.
Assim, Eros muda de função. Não mais representa o papel exercido nos primórdios do cosmo,
que era o de trazer à luz o que estava contido na escuridão das forças primordiais. Agora, seu
papel é unir dois seres bastante individualizados, de sexos diferentes, num jogo erótico que
supõe uma estratégia amorosa e tudo o que isso comporta de sedução, concordância, ciúme.
Eros une dois seres distintos para que, a partir deles, nasça um terceiro, que não seja idêntico a
um nem a outro de seus genitores, mas que prolongue a ambos. Assim, há agora uma criação
que se diferencia da que houve na era primordial. Em outras palavras, ao cortar o sexo de seu
pai, Cronos instituiu duas forças que, para os gregos, são complementares: uma que se chama
Éris, a Disputa, e outra que se chama Éros, o Amor. Éris é o combate dentro de uma mesma
família ou dentro de uma mesma humanidade, é a briga, a discórdia no que estava unido. Eros,
ao contrário, é a concordância e a união do que é tão dessemelhante quanto possa ser o feminino
do masculino. Éris e Éros são ambos produzidos pelo mesmo ato fundador que abriu o espaço,
desbloqueou o tempo, permitiu que gerações sucessivas surgissem no palco do mundo, agora
desimpedido. Nessa altura, todos esses personagens divinos, com Éris de um lado, Éros de
outro, vão se enfrentar e combater-se. Por que vão lutar? Menos para formar o universo, cujas
bases já estão assentadas, e mais para designar o senhor desse universo. Quem será o soberano?
Em vez de um relato cosmogônico que faz as perguntas: "O que é o começo do mundo? Por que
o Caos primeiro? Como foi fabricado tudo o que o universo contém?", surgem outras perguntas,
a que outros relatos, muito mais dramáticos, tentam responder. De que modo os deuses, que
foram criados e que por sua vez engendram, vão lutar e se dilacerar? Como vão se entender?
Como os Titãs deverão expiar a falta que cometeram contra o pai Urano, como serão
castigados? Quem vai garantir a estabilidade deste mundo construído a partir de um nada que
era tudo, de uma noite da qual saiu até a luz, de um vazio do qual nascem o cheio e o sólido?
Como o mundo vai se tomar estável, organizado, com seres individualizados? Ao se afastar,
Urano abre caminho para uma série ininterrupta de gerações. Mas, se a cada geração os deuses
lutarem entre si, o mundo não terá nenhuma estabilidade. A guerra dos deuses deve chegar ao
fim para que a ordem do mundo seja definitivamente estabelecida. Levanta-se a cortina do palco
onde serão travadas as lutas pela soberania divina.
CONSIDERAÇÕES SOBRE O MITO
Em que consiste o pensamento mítico? Qual a relação entre mito e Filosofia na Grécia Antiga?
A Filosofia surgiu na Grécia rompendo totalmente com as estruturas do discurso mítico ou
surgiu do interior do próprio mito? Há uma relação de rompimento ou continuidade entre esses
dois modos de pensar e entender o mundo?
Quando paramos para refletir sobre a origem desse modo sistemático e conceitual de pensar e de
olhar a realidade, que denominamos Filosofia, inevitavelmente nos deparamos com essas
questões. E somos obrigados a nos reportar ao mundo grego do século X ao VI antes de Cristo.
Ao analisarmos esse período da sociedade grega percebemos que a partir de um determinado
momento, devido a várias condições históricas, começa a surgir um novo modo de pensar e
entender a realidade. Entretanto, se em um determinado momento surge ou começa a surgir esse
novo modo de pensar, isso significa que existia um outro modo prévio. Essa outra maneira de
abordar a realidade era justamente o pensamento mítico.
A Origem das Epopéias Gregas Os dois grandes nomes que representam o pensamento mítico
grego são: Homero, "autor" da Ilíada e da Odisséia, e Hesíodo, autor de Os trabalhos e os dias
e da Teogonia. Muitos estudiosos questionam até que, ponto as epopéias homéricas são
resultado do trabalho de um único autor ou se são uma compilação. Enfim, se realmente foram
feitas por Homero. Contudo, o que nos interessa aqui não é tanto essa questão, mas sim
explicitar em que medida o contato com essas obras nos ajudam a compreender as
características do pensamento mítico. A origem das epopéias gregas se dá num contexto de
derrocada da civilização micênica ou aqueana que fora invadida pelos dórios mais ou menos no
século XII a.C. A sociedade micênica, formada por penínsulas e ilhas, era constituída por
famílias principescas, uma pluralidade de clãs e, do ponto de vista da estrutura geográfica,
possuía um determinado tipo de relevo que beneficiava a ligação com outras regiões através do
mar. Assim, as condições físicas e geográficas colaboravam para que este povo tivesse uma
certa vocação para o mar, tornando-se ele uma grande via de comércio e comunicação, de
aventuras e histórias imaginárias. Ora, os dórios, cuja origem étnica era a mesma que dos
aqueus, vindos do norte, invadiram e dominaram a região habitada por estes. Pois tinham uma
certa superioridade no uso dos utensílios e na fabricação e uso de armas de ferro. As invasões
dóricas, portanto, provocaram uma migração de grupos de aqueus em direção às ilhas e costa da
Ásia Menor, resultando na criação de colônias cujo objetivo era preservar a identidade do grupo,
suas instituições, tradições e organização social. Com o tempo se estabelecem as novas
condições de vida e de mentalidade. As epopéias são justamente a primeira expressão dessa
nova realidade. Ou seja, o homem grego procurou cantar por meio da poesia o declínio das
antigas formas de viver e pensar e o surgimento de uma nova situação. As epopéias são o
resultado da mistura de lendas jônicas e eólias, incorporando relatos sobre viagens marítimas e
outros elementos advindos do contato do mundo grego com a cultura de outros povos. Disso
tudo se conservaram a Ilíada (que trata da ira de Aquiles tendo como pano de fundo a guerra de
Tróia) e a Odisseia (que conta a história de Odisseu e sua tentativa de voltar para casa) entre o
século X e VIII a.C. Contudo, somente no século V ocorrerá o estabelecimento da edição dos
poemas de Homero. Tanto a Ilíada quanto a Odisséia tinham um núcleo duro que foi recebendo
acréscimos, especificando, assim, o aumento e tamanho dos poemas. Referente a Hesíodo,
também não se tem muitas certezas sobre sua vida (final do século VIII e início do VII). O pai
de Hesíodo tinha uma empresa de navegação e ao falir atravessou o mar Egeu, voltando para a
Beócia, sua terra de origem.
Ao morrer, o pai deixou a Hesíodo e ao seu irmão Perses algumas terras. Na divisão dos bens,
Hesíodo achou que fora trapaceado pelo irmão. Essa polêmica é importante porque,
provavelmente, servirá de tema para o seu poema Os trabalhos e os dias e para a sua visão um
tanto pessimista sobre o ser humano. Escreveu vários poemas, dos quais restaram apenas alguns
fragmentos. Inteiros, há apenas a Teogonia, que trata da origem dos deuses, havendo um germe
do princípio da causalidade. E Os trabalhos e os dias, que procura justificar a condição humana.
A Estrutura do Pensamento Mítico
Ao lermos, por exemplo, a Ilíada e a Teogonia, temos condições de perceber alguns traços
fundamentais do pensamento mítico. Ou seja, a interferência dos deuses nos assuntos humanos,
atuando diretamente ou criando situações; a capacidade de transformação dos deuses, seus
poderes e sua relação com a natureza etc. Na Ilíada, temos a cólera de Aquiles sendo cantada
em um cenário muito específico, a guerra de Tróia. Ora, qual a origem da guerra de Tróia e da
ira de Aquiles?

3 momentos da filosofia:

 Com os gregos a filosofia comporta todos os saberes: matemática, astronomia,


geometria são exemplos de conhecimentos que surgiram juntamente com o
questionamento filosófico.

 Na Idade Média, a filosofia torna-se um instrumento da teologia, isto é, uma vez que o
conhecimento estava restrito aos monastérios, ciência é conhecimento inspirado, ou de
origem divina.
 Na modernidade, filosofia e ciência seguem caminhos diferentes determinados por uma
metodologia própria. O método determina a diferença de abordagem dos problemas em
cada área e a lógica é o instrumento comum entre a ciência e a filosofia.

 A filosofia caracteriza-se pelo discurso racional, isto é, teórico-reflexivo, seu método


visa explicitar a relação entre particular e universal com o intuito de conceituar e
ampliar a compreensão do homem no mundo.

Ciência e Senso Comum:

 De acordo com Vásquez (1968), o senso comum é um conhecimento prático, utilitário,


sem ou quase sem nenhuma teoria, integrante da chamada cultura popular. O
conhecimento oriundo do senso aparece como uma força de resistência das camadas
mais baixas, ou que não tem acesso aos meios de tecnologia. Neste sentido podemos
nos questionar, fazendo uma análise do quanto o conhecimento científico alcança seus
objetivos, chegando aos maiores interessados que são as pessoas comuns, os cidadãos.

 Com o nascimento da filosofia, os gregos foram aos poucos rompendo com o mito e a
religião. Da mesma maneira o pensamento científico pretende romper com o senso
comum. Assim, enquanto a primeira ruptura é imprescindível para constituir a
ciência, a segunda deve transformar o senso comum em um conhecimento que chega a
todas as camadas, depurado de seus preconceitos e pré-juízos.

 Com essa dupla transformação, o que se espera é um senso comum esclarecido e uma
ciência coerente com as realidades sociais; um saber prático que dá sentido e
orientação à existência e se apega à prudência para encontrar o bem comum.
Depois de romper com senso comum, a ciência deve se transformar num novo e
melhorado senso comum, combinando, assim, a praticidade do senso comum com o
método e o rigor típicos da ciência e da filosofia.

A Ironia Moderna

 Entre os modernos, salientamos Marx e Engels como os pensadores que exerceram a


ironia ao longo de todo seu trabalho teórico. Suas reflexões filosóficas e políticas
apreenderam o escondido nas profundezas de estrutura do modo capitalista de produção
e, ao vincular filosofia e história, “(...)restituíram à negação seu poder
revolucionário(...)” (LEFEBVRE, 1969, p. 25-26)

 Ao estudar a história econômica e política da humanidade Marx e Engels desenvolvem


o conceito de alienação. Existem muitas formas de alienação e uma delas é a alienação
do trabalho. Este conceito nos permite entender como a humanidade está sujeita a uma
ironia, ou seja, a história aparente esconde o seu real significado.

 Podemos entender o conceito de alienação a partir do conceito de trabalho. O que é


trabalho?

 Fez isso por meio de sua inteligência utilizando sua criatividade e força física para
produzir suas condições de sobrevivência. Foi isso que o diferenciou dos demais
animais. O trabalho é o resultado do uso da capacidade criativa do homem para
transformar a natureza e garantir sua sobrevivência. Ocorre que ao trabalhar o homem
transforma o mundo e a si. Pois ao produzir coisas para si, ele acaba também se
produzindo naquilo que produz. Ele se reconhece naquilo que faz, pois tem sentido e
significado pessoal e coletivo. Por meio do trabalho o homem busca e consegue sua
identidade, pois se reconhece naquilo que produz.

 Com a revolução industrial e o surgimento das linhas de produção em série há uma


separação entre a criação inventiva do homem e a força que transforma a natureza. Os
trabalhadores produzem coisas que não são frutos de sua capacidade criadora e
inventiva. Eles apenas executam tarefas numa linha de produção. Quem pensou
criativamente não realiza o que idealizou. E quem executa não pensou. Ocorre,
portanto, a separação entre o pensar e o fazer. Quem pensa não faz e quem faz não
idealizou o objeto que será produzido. Pior ainda, a linha de montagem não permite que
o trabalhador domine todo o processo de produção, pois realiza apenas uma pequena
tarefa na linha de montagem.

 Já não se reconhece mais naquilo que produz. Se antes ao produzir um sapato ele se
reconhecia como um sapateiro. Agora na linha de produção ele é apenas um operário.
Uma peça na linha de montagem. Se ele era reconhecido em sua comunidade por aquilo
que fazia para garantir sua sobrevivência e a do grupo, agora ele é apenas mais um
componente da linha de produção que poderá a qualquer momento ser substituído,
descartado e em seu lugar será colocado outro que fará o mesmo trabalho que ele faz.

 Machado de Assis, a partir do realismo, faz uma forte crítica ao romantismo.

 O romantismo exerceu forte influência na elite burguesa carioca do final do século XIX
apropriando-se do ideário burguês europeu. Ao criar o personagem Brás Cubas,
Machado de Assis buscará, por meio da ironia, criticar esse ideário burguês. Ao dedicar
o livro ao “verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver”, Brás Cubas
ironiza o sentimento de superioridade da elite carioca, indicando que todos serão
comidos pelos mesmos vermes. Ao contrário de Sócrates, que na visão de Merleau-
Ponty, não gozava de imunidade literária, para Brás Cubas essa imunidade não é
suficiente, pois somente a morte é que lhe permite falar livremente de si e dos vivos,
fazendo pouco caso do julgamento desses últimos.

Teoria do Conhecimento

 O conteúdo O Problema do Conhecimento, trata da definição platônica do


conhecimento. Platão é o primeiro filósofo a examinar sistematicamente o problema do
conhecimento. Embora haja controvérsia sobre vários pontos da noção de conhecimento
em Platão, os historiadores são consensuais sobre o fato de Platão ter delimitado um
critério formal para o saber: a razão.

 Ter conhecimento é ser capaz de atingir, mediante investigação e estudo, o conteúdo


definicional de cada ser ou objeto existente

 A tradição mítica entra em crise e a filosofia passa a absorver questões como a origem
do universo, o bem universal, o que é o ser, a organização política de uma cidade, etc. É
provavelmente neste momento, por volta da metade do século V a.C. em Atenas, que
podemos situar o nascimento de uma preocupação com as condições em que se dá o
conhecimento.
 De acordo com Franklin Leopoldo e Silva (1985), os principais problemas que a teoria
do conhecimento deve investigar são:

1) as fontes primeiras de todo conhecimento;

2) os processos que fazem com que os dados se transformem em juízos ou afirmações acerca de
algo;

3) a forma adequada de descrever a atividade pensante do sujeito frente ao objeto do


conhecimento;

4) O âmbito do que pode ser conhecido segundo as regras de verdade.

 Uma pessoa tem basicamente três níveis de consciência, cada qual correspondendo a
uma perspectiva que dá corpo a sua visão do mundo. Esses três níveis são: sensação,
crença e conhecimento.

 A sensação é o nível em que nosso contato com o mundo é puramente físico ou


emocional.

 A crença, por seu lado, é um estado mental, uma representação de um determinado


estado de coisas. Segundo Moser (2004), a crença fornece ao indivíduo uma espécie de
esquema do mundo. Nesse sentido, ela mantém uma conexão importante com o
conhecimento.

 O conhecimento propriamente dito é a capacidade de justificarmos e validarmos


nossas sentenças sobre as coisas.

 Platão é um filósofo nascido em Atenas do período clássico. Suas obras tratam de


política, moral, ciência e arte. Platão descrevia suas teses em textos escritos na forma de
diálogos temáticos, isto é, cada diálogo tratava de um tema específico como Justiça,
Conhecimento, Coragem, etc.

 Já Protágoras é um “sofista” nascido alguns anos antes de Platão. Um sofista é um


sujeito tido como conhecedor de técnicas de aprendizado de oratória, matemática,
geometria, etc.. É alguém que tem uma “especial perícia ou conhecimento para
comunicar. Sua sophia [sabedoria] é prática, quer nos campos da conduta e política,
quer nas artes técnicas” (GUTHRIE, 1995, p. 34).

 Platão desenvolve três alternativas para a definição de conhecimento:

1) conhecimento é sensação;

2) crença-opinião verdadeira é conhecimento

3) opinião verdadeira justificada com a razão é conhecimento.

 Ao dizer que o raciocínio sobre as impressões é o que caracteriza o conhecimento,


Platão condena a tese de Protágoras à inconsistência epistemológica, isto é, nada na tese
permite retratar o processo de conhecimento.

 Platão insiste, o que organiza em nós o fluxo de dados captados pelos sentidos é o que
hoje chamamos mente ou espírito.
 Platão avalia que a sensação não pode ser responsável por um conhecimento porque
ela não opera no nível do “por que”, mas no nível do “através de que” (Diès, 1972, p.
458).

 Em outras palavras, Platão está dizendo que a sensibilidade não é capaz de fazer um
juízo da forma “esta flor é bela”. Mesmo que meus órgãos sejam tocados pela beleza da
flor, a expressão “é bela”, e seu sentido, é uma operação realizada pelo espírito. Platão
rejeita também a idéia de que opinião ou crença, ainda que verdadeira, possam ser
conhecimento.

 No que toca à crença, para Platão trata-se de um tipo de fluxo de idéias que se
caracteriza por uma tendência natural à mudança. Nossas crenças podem até ser
verdadeiras ou plausíveis, como, por exemplo,no caso de dizermos que “o egoísmo é
uma propriedade natural do ser humano”.

 Mas até que saibamos expor a causa, dizer o porquê, ou enunciar a função que a
natureza reservou a esse sentimento, não estamos autorizados a emitir aquele juízo
com pretensão de conhecimento. Se alguém lançar contra essa idéia uma série de
argumentos, podemos modificar nossa posição sobre o problema, sem, no entanto,
conhecer de fato a questão.

 Platão dizia que a estrutura de nossas opiniões segue mais ou menos o esquema de
nossas sensações

 Para Platão, toda sensação, seja auditiva, gustativa ou tátil, é um caso de aproximação
entre um órgão sensível (olho, ouvido, etc.) e um objeto. A crença/opinião, para
Platão, tem essa estrutura porque as informações que adquirimos mediante opinião se
mantêm apenas até que outra sensação, mais forte ou mais adequada, substitua a
sensação anterior que nos fazia emitir aquela opinião. Desse modo, toda informação que
administramos a título de opinião está sujeita a mudança, da mesma forma que nossa
visão dos objetos se modifica pelo deslocamento de posição, seja do nosso olho ou do
objeto.

 Aristóteles contestou Platão porque via problemas em alguns pontos da explicação


platônica do conhecimento. Platão tinha chegado numa tese importante: para haver
conhecimento da realidade, é preciso encontrar um caminho que dê acesso a idéias que
sejam imutáveis, que não sofram transformações decorrentes da interpretação ou do
capricho. Aristóteles concorda com isso, mas dirige uma crítica a Platão: para garantir a
certeza e validade do conhecimento não é necessário postular uma teoria que duplique o
real, isto é, que crie duas dimensões na realidade: o sensível e o inteligível, como fez
Platão

 teoria das Formas

 Por Forma Platão entende um núcleo de características de um determinado objeto ou


realidade que mantém seus componentes independentemente dos exemplares destes
objetos encontrados no mundo ou na linguagem.

 Platão se perguntava se não haveria um meio de evitar essa ambigüidade em que


diferentes situações exigirão de nós diferentes noções disto ou daquilo. Ele estava
consciente de que se não houvesse um modo de chegar a uma visão unitária seria um
problema.

 A preocupação de Aristóteles é que a teoria das Formas de Platão conduz a um tipo bem
particular de problema: ela torna o pensamento de um objeto independente deste objeto,
ou seja, faz pairar acima dos objetos conceitos abstratos. Isso não é necessário, pensa
Aristóteles. Ele concorda, por exemplo, que a observação e comparação de diferentes
tipos de cavalo levam a um grupo de aspectos que definem o “conceito de cavalo”. Isso
só pode ser feito pelo pensamento. Mas Aristóteles não concorda quando Platão
imagina que existe algo abstrato e formal como “a cavalidade”, independentemente da
existência de cavalos particulares. Para Aristóteles, chegamos ao conceito de cavalo
mediante estudo dos exemplares existentes, chegamos ao conceito de humanidade
mediante estudo de homens concretos e assim por diante. Aristóteles se pergunta: por
que postular propriedades essenciais de cada objeto que existam separadamente quando
sabemos que conceitos, termos, palavras, frases são produto do próprio pensamento e só
existem enquanto pensamento? Para Aristóteles um homem é mais real que a
humanidade.

 do particular ao geral: 1º movimento do entendimento, e é por meio do primeiro que


chegamos ao conceito. simples ao complexo

 do universal ao particular: 2º movimento do entendimento compreenda os conceitos


principais, mais gerais, só então se dedique ao estudo dos pontos particulares.

Leituras

- O Mundo de Sofia - Romance da História da Filosofia

Autor: Gaarder, Jostein Editora: Cia das Letras

Cartas anônimas começam a chegar à caixa de correio da menina Sofia. Elas trazem
perguntas sobre a existência e o entendimento da realidade. Por meio de um thriller
emocionante, Gaarder conta a história da filosofia, dos pré-socráticos aos pós-
modernos, de maneira acessível a todas as idades.

- O Que é Filosofia

 Qual a natureza, o objeto e o valor da investigação filosófica? A filosofia é apenas uma


ciração literária ou uma modalidade de conhecimento? Qua a relação entre
conhecimento científico e conhecimento filosófico? A filosofia enquanto conhecimento
do conhecimento. A filosofia segundo os próprios filósofos: dos antigos gregos até
Hegel e Marx.

Editora: Brasiliense Autor: CAIO PRADO JR. Ano: 1981