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TRADUÇÃO DO TEXTO “THE BRAZILIAN WHALE” de Irene Hirsh, pp. 280-283.

Universidade Federal de Uberlândia


GTR006: Tradução Comentada
Prof. Daniel Padilha
Alunos: Cinthia Raiane e Evandro Cruz
Uberlândia, 16/11/2017

A pontuação é outra questão digna de consideração. Quão fiel pode ser um tradutor nos
pontos e vírgulas intermináveis de Melville? Talvez a alteração mais dramática neste texto
traduzido de Moby-Dick seja uma questão de gênero, realizada não pelos tradutores nem pelos
editores, mas pela restrição da linguagem. Em português - como pode ser o caso em outras línguas -
a baleia é referida como feminino. O universo de Moby-Dick é predominantemente povoado por
homens, e parece bastante estranho que todos aqueles homens do mar, baleeiros, arpoadores e
marinheiros perseguissem uma criatura do sexo oposto, uma fêmea. Claro, isso poderia levar a uma
compreensão completamente diferente da narrativa de Melville, além de fazer o capítulo 95, " The
Cassock" sem sentido.
Embora esses deslocamentos possam mudar a obra original de Melville, eles não são
exclusivos da tradução de Xavier de Moby-Dick para o português. O texto de Xavier ilustra alguns
problemas comuns de tradução, mas apesar da presença autoral do tradutor no texto de Melville, a
tradução de Xavier, juntamente com a tradução de Péricles Eugênio da Silva, amplia
significativamente a popularidade de Melville no Brasil.
A tradução de Berenice Xavier foi publicada pela primeira vez em 1950 pela Editora José
Olympio, n 96 na série Fogos Cruzados (Crossed Fires) , com um prefácio da conhecida romancista
Rachel de Queiroz. Depois que o filme de Hollywood foi lançado em 1956, esta tradução recebeu
uma edição mais luxuosa, com as ilustrações de Rock-Well Kent, bem como a interpretação visual
de Poty. José Olympio vendeu os direitos da tradução para diferentes editores; em 1967, a Editora
Ediouro o publicou como livro de bolso, seguida pela Editora Francisco Alves e, em 1998, a
Publifolha também o reimprimiu.
A edição da Publifolha foi a maior tiragem, 24.000 cópias, que foram distribuídas com um
dos principais jornais brasileiros, a Folha de SP, a preço promocional (menos que USD 2).
A tradução de Péricles Eugenio da Silva Ramos se assemelha a Xavier de muitas maneiras,
pois também apresenta uma versão integral e fiel do texto, voltado para um público mais exigente.
Foi publicado pela Editora Abril em 1972, com uma capa vermelha, o título impresso em letras
douradas, e foi acompanhado por um folheto ilustrado de vinte páginas. Para a nova edição, lançada
em 1980, a capa foi alterada e o livro foi impresso em dois volumes.
TRADUÇÕES PRETENSAS

Como já mencionamos, há dois exemplos de "traduções pretensas" de Moby-Dick no Brasil,


que transformaram o original sem informar o leitor da mudança. Além de reduzir os custos de
produção, essa supressão textual também "domestica" o extenso trabalho de Melville. O que pode
parecer "muito complicado" ou "muito longo" é simplificado para o público, dando assim a ilusão
de uma erudição acessível e barata, não revelando que a técnica de supressão também faz parte da
estratégia de marketing.
Além de reduzir o número de capítulos, a supressão pode assumir formas mais insidiosas. Por
exemplo, ambas as edições deixam de lado o sonho de Stubb junto com o capítulo " Queen Mab",
bem como o sermão de Fleece. Na verdade, Fleece é cortado completamente da novela, revelando
ainda outra forma de supressão, a remoção de personagens secundários da narrativa, ao custo de
penalizar o estilo.
A supressão não é restrita a capítulos ou personagens, as vezes um parágrafo é parcialmente
traduzido ou uma metáfora é cortada. A descrição da cicatriz de Ahab na tradução de Machado
pode ser tomada como um exemplo. As seções que foram cortadas estão em itálico.

It resembled that perpendicular seam sometimes made in the straight, lofty trunk of a great
tree, when the upper light tearingly darts down it, and without wrenching a single twig,
peels and grooves out the bark from top to bottom, ere running off tinto the soil, leaving the
tree still greenly alive, but branded. (MD 123)

Lembrava essa marca perpendicular que, as vezes, perdura nos troncos direitos e altos
xxxxxx, fulminados por coriscos xxxxxxxxxxxxxxxxx que os descascam de alto a baixo
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx.

No entanto, enquanto o trabalho de Machado envolve principalmente a supressão, Lobato e


Rochesteiner preferem a condensação. Em vez de cortar, eles resumem a narrativa, reduzindo a
passagem citada acima em:

lembrando certos lanhos que os coriscos deixam nas árvores fulminadas e que as marcam
para sempre de alto a baixo.

Que é retrotraduzido para o inglês como:

resembling certain slashes lightning leaves on struck down trees and brands them forever
from top to bottom.

O critério utilizado para decidir o que fica e o que deve ser excluído não é sempre o mesmo
para ambas as traduções. Enquanto os cortes de Machado parecem ser direcionados principalmente
à redução de custos, a tradução de Lobato se assemelha em muitos aspectos às adaptações para
crianças, onde a ênfase é colocada na narrativa linear da busca de Ahab, mesmo que perdendo o
universo mais sutil e ambíguo de Melville. Os personagens são simplificados e suas características
exóticas destacadas, dando ao leitor indivíduos estereotipados. Assim, Daggoo se torna um solene
selvagem negro com grandes brincos, em cuja descrição lê-se:

O terceiro arpoador chamava-se Daggoo, um negralhão preto como pixe e de andar


imponente. Trazia nas orelhas argolas de ouro de demarcadas dimensões. Muito moço ainda
embarcara num navio baleeiro que fizera escala em sua terra natal--e nunca mais mudara de
profissão. Daggoo conservava todas as características da selvageria primitiva, e era de vê-lo
atravessar o convés com seus dois metros e cinco de altura–imponentíssimo.
Detalhe curioso: este homem agigantado fizera-se escudeiro do homem de menor estatura
do Pequod-- Flask, o qual ao seu lado, lembrava um peão de xadrez rente ao rei.(Lobato 61)

Que para o inglês seria retrotraduzido como:

The third arpooner was called Daggoo, a negro as black as pitch with an imposing step. He
had two very large golden hoops on his ears. Still very young he embarked on a whaler
which called at his native land--and never again did he changed profession. Daggoo
retained all his barbaric virtues, and to see him move about the deck with his six feet eigth
inches–very pompous.
A curious detail: this gigantic black was the squire of the shortest man on the Pequod--
Flask, who looked like a chess-man next to the king when beside him.

Comparando a retrotradução com o original de Melville:

Third among the harpooneers was Daggoo, a gigantic, coal-black negro-savage, with a lion-
like tread–an Ahasuerus to behold. Suspended from his ears were two golden hoops, so
large that the sailors called them ring-bolts, and would talk of securing the top-sail halyards
to them. In his youth Daggoo had voluntarily shipped on board of a whaler, lying in a
lonely bay on his native coast. And never having been anywhere in the world but in Africa,
Nantucket, and the pagan harbors most frequented by whalemen; and having now led for
many years the bold life of the fishery in the ships of owners uncommonly heedful of what
manner of men they shipped; Daggoo retained all his barbaric virtues, and erect as a giraffe,
moved about the decks in all the pomp of six feet five in his socks. There was a corporeal
humility in looking up at him; and a white man standing before him seemed a white flag
come to beg truce of a fortress. Curious to tell, this imperial negro, Ahasuerus Daggoo, was
the Squire of little Flask, who looked like a chess-man beside him. (MD 120)

Juntamente com todas as metáforas, as origens de Daggoo estão ausentes da descrição de


Lobato. A comparação com Ahasucrus não é mencionada, nem a África, nem Nantucket, nem os
"portos pagãos" mais freqüentados pelos baleeiros.
No entanto, Monteiro Lobato foi uma figura pioneira na cena editorial e literária brasileira, e
no período em que sua tradução foi lançada, entre 1930 e 1940, houve um considerável crescimento
da indústria editorial e no número de traduções no Brasil. Como a literatura traduzida,
especialmente de obras americanas, prosperou na época, editores contrataram vários escritores
brasileiros conhecidos para traduzir obras clássicas. Portanto, a tradução de Lobato de Moby-Dick
em 1935, apesar de não ser uma versão completa e fiel, pode ser considerada inovadora, pois
adequa os interesses de um crescente público leitor.

NOTAS DOS TRADUTORES


Como a numeração das notas da autora estão ilegíveis na maior parte do texto, decidimos
omiti-las na tradução. Também mantivemos as referências bibliográficas nas citações longas no
“estilo Harvard”, como no texto original.

BIBLIOGRAFIA
MELVILLE, Herman. Moby Dick ou A Baleia. Trad. Berenice Xavier. Rio de Janeiro, José
Olympio. 1957.
MELVILLE, Herman. Moby Dick. Trad. José Maria Machado. São Paulo, Clube do Livro. 1951.
MELVILLE, Herman. A Fera do Mar. Trad. Monteiro Lobato. São Paulo. Cia. Editora Nacional.
1935.