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UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO

CENTRO DE EDUCAÇÃO E HUMANIDADES


INSTITUTO DE APLICAÇÃO FERNANDO RODRIGUES DA SILVEIRA
(CAp-UERJ)
DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS HUMANAS E FILOSOFIA (DCHF)
Disciplina de Prática de Ensino em Ciências Sociais II

Docente: Prof. Dr. Rodrigo Pain


Discente: Aline Viana de Sousa (2011.1.01.222-11)

CINEMA EM SALA DE AULA: REFLEXÕES SOBRE O USO DE


RECURSOS AUDIOVISUAIS NO ENSINO DE SOCIOLOGIA

Aline Viana de Sousa

Introdução

A partir do século XXI, a utilização de tecnologias da informação e


comunicação por jovens tem sido crescente, principalmente em sala de aula, o
que tem se tornado um desafio para o processo de aprendizagem para os
professores. Com isso, verifica-se que a utilização de materiais de audiovisual
tem sido uma forma dos professores se apropriarem dessas tecnologias, com a
produção de diversos mecanismos de aprendizagem a partir do uso das
produções cinematográficas, sejam filmes de ficção, baseados em histórias
reais ou documentários. De acordo com Angrewski (2015, p. 2), no ensino de
sociologia a utilização de obras cinematográficas “pode se constituir numa
representação, simulação ou imitação das relações e estruturas sociais”.

O uso de filmes em sala de aula pode ser convidativo aos jovens


consumidores de tecnologia da informação e comunicação, sendo um recurso
de apoio ao educador de Sociologia, uma vez que contribui para o
desenvolvimento da “imaginação sociológica”. De acordo com Osório e
Sarandy (2012), a base do conhecimento sociológico é a crítica e deve ser
considerada como um modo de criatividade em ação para Charles Wright Mills.

A construção da definição de “imaginação sociológica” por Charles


Wright Mills reproduz a noção de reflexão da tomada de consciência sobre a
condição humana em sociedade, sendo o fio condutor para o processo de
aprendizagem no ensino de Sociologia na educação básica. Ou seja, “a
imaginação sociológica é exatamente o tipo de aprendizagem que
pretendemos desenvolver com nossos alunos com o ensino de Sociologia”
(OSÓRIO; SARANDY, 2012, P. 151).

Com isso, o objetivo deste trabalho é refletir acerca dos meios de


utilização de recursos audiovisuais como ferramenta didática para o processo
de aprendizagem em sociologia no ensino médio, a partir de produções sobre a
utilização do cinema como prática de ensino em Sociologia: Martins (2007),
Angrewski (2015) e Engerroff et al. (2014).

Ensino de sociologia e recursos audiovisuais

Sabe-se que a Sociologia se divide em várias disciplinas, que estuda a


ordem existente nas relações dos fenômenos sociais de diversos pontos de
vista irredutíveis, e com isso as possibilidades do uso de materiais audiovisuais
são possíveis e podem trazer bons resultados a partir do objetivo concreto da
disciplina.

Desde a obrigatoriedade da Sociologia na Educação Básica foi repensado


sobre a multiplicidade de recursos pedagógicos diante das tecnologias da
informação e comunicação para contribuir ao docente no processo de transmissão
de saberes escolares aos alunos. Por conta isso, os materiais didáticos estão em
constante desenvolvimento de metodologias de ensino que se adequem à
realidade social dos jovens, com o objetivo de contribuir ao processo de
aprendizagem. Com isso, busca-se o desenvolvimento de processos de ensino-
aprendizagem que estimulem a participação dos alunos, com apoio de
perspectivas defendidas por Paulo Freire no sentido crítico e emancipatório
(LEGRAMANDI; GOMES, 2019).

No ensino de Sociologia, a exibição do filme é colocada como “um meio


de compreender comportamentos, visões de mundo, valores, identidades e
ideologias de uma sociedade” (MARTINS, 2007, p. 2), que demanda a análise
do contexto que o cerca, e o significado das imagens daquele contexto social,
seja cultural ou política, por exemplo. Para isso, é importante situar as imagens
do filme para os alunos, na sua dimensão política e como se dá o modo de ver
as coisas em determinados contextos histórico-sociais. Para Angrewski (2015,
p. 3),

O cinema ao utilizar aparelhos capazes de penetrar o âmago


da realidade, expande o mundo dos objetos dos quais
tomamos conhecimento, tanto no campo visual, como
sensorial, aprofundando a percepção humana. Neste sentido o
cinema pode, pela pedagogia que veicula, ser um aparato
sociocultural envolvido com a transformação da sociedade.

Contudo, é necessário refletir sobre as possibilidades da utilização de


recursos audiovisuais em sala de aula. O professor deve estar atento às
condições materiais da exibição, pois depende da infraestrutura disponível na
unidade escolar, que muitas vezes não oferece recursos de projetor o que é
comum em unidades escolares da rede pública de ensino. Outro ponto é a
questão do tempo, no qual é um fator limitante para a exibição de filme de
longa-metragem ou documentários com duração maior que o tempo da
disciplina. Outro ponto é disponibilidade do filme para o aluno se a atividade for
colocada como extracurricular, apesar da popularidade de aplicativos de
Streaming1 como Netflix ou Youtube, além de não produzir uma leitura crítica
em formação coletiva com os colegas em sala de aula (ENGERROFF et al.,
2014).

1
A tecnologia streaming é uma forma de transmissão instantânea de dados de áudio e vídeo através de
redes. Por meio do serviço, é possível assistir a filmes ou escutar música sem a necessidade de fazer
download, o que torna mais rápido o acesso aos conteúdos online. Fonte:
https://www.techtudo.com.br/artigos/noticia/2013/05/conheca-o-streaming-tecnologia-que-se-popularizou-
na-web.html
No ensino básico, a Sociologia é uma disciplina que conta com até duas
aulas semanais e por isso geram-se limitações no trabalho com o filme na
íntegra. Engerroff et al. (2014) discutem sobre a utilização de recursos
audiovisuais em livros didáticos, nos quais apresentam a indicação de filmes
segundo o tema a ser estudado pelo aluno. Com isso, a indicação dos filmes
propõe as possibilidades do debate das temáticas que envolvem o ensino de
sociologia, como subsídio ao processo de aprendizagem e propõe a realização
de uma leitura de questões sociológicas através do cinema para o
desenvolvimento do senso crítico e desnaturalizando o senso comum. Assim,

Na proposta de utilização de filmes em sala de aula, o


propósito seria de pensar os próprios filmes como um modo
pelo qual pessoas expressam suas ideias, concepções de
mundo sobre temas, problemas da realidade, gerando um outro
modo de conhecer que é dado através da maneira como as
sociedades se produzem visualmente (ENGERROFF ET AL;
2014, p. 10).

Cinema e sociologia: possibilidades e limitações

O uso do cinema em sala de aula é mediado pela cultura audiovisual


ligada à trajetória social de professores e professoras. Neste contexto, existem
inúmeros meios de criar métodos para o uso do cinema no período de aula,
como corte de cenas para promover debates sobre assuntos mais polêmicos,
por exemplo, o que mostra um efeito sobre o esforço dos docentes em
promover atividades didáticas com o uso de imagens, mesmo com uma
ausência de formação pedagógica em recursos audiovisuais (MARTINS, 2007).

De certa maneira, o uso de recursos audiovisuais permite realizar o


ensino de Sociologia de modo interdisciplinar, que não prejudicam as práticas
já consolidadas no espaço escolar, mas não podem ser utilizados de formas
inadequadas como vídeo usado como forma de camuflar a aula, uso exagerado
do vídeo, exibir um vídeo sem muita ligação com a matéria ou só a exibição do
vídeo propriamente dita (ANGREWSKI, 2015).

Como já colocado, dificilmente a exibição dos filmes inteiros é possível


em sala de aula. Com isso, Angrewski (2015) aponta sobre a utilização de
trecho de filmes como possiblidade de inserção do cinema no processo de
aprendizado. Os trechos podem propor a reflexão tanto da linguagem
cinematográfica quanto do tema tratado, para investigação de temas, conceitos
e conteúdos em sala de aula, que leva a desenvolver a leitura e interpretação
audiovisual dos alunos.

No trabalho de Angrewski (2015) indica sobre a preferência de


professores de trabalhar o conteúdo no ensino de sociologia com trechos de
filmes, pois fornecem a possibilidade de concentrar a temática a ser discutida,
para que o aluno ou aluna não percam o foco da discussão em questão, além
de ser boa estratégia para desenvolver o senso critico dos alunos e
oportunidade de ampliar as discussões em sala de aula.

Outra forma diante das dificuldades de adequação de carga horária, os


professores geralmente trabalharem com outras formas de exibição dos filmes,
com apoio de arranjos como troca de aulas com outros professores ou
fragmentação do filme em partes (ANGREWSKI, 2015).

A utilização de filmes como prática de ensino é vista como opção do


professor ou professora que nesse processo tende a desenvolver métodos
adequados de uso de filmes, como optar filmes populares e que sugerem maior
aceitação pelos alunos, ou seja, com influência da indústria cultural o que faz o
uso de filmes um recurso também de entretenimento (ENGERROFF et al.,
2014; MARTINS, 2007).

No sentido sociológico, vale considerar o entendimento de Adorno e


Horkheimer (2002) sobre o cinema. Eles apontam que o cinema não deve ser
sustentado como obras de arte, pois faz parte apenas negócios a serviço da
reprodução capitalista e da transformação de conceitos e padronização da
cultura, apresentando assim uma visão mais negativa desse sistema. Além
disso, para Adorno e Horkheimer (2002) uma das funções do cinema seria a de
disciplinador de moral dos indivíduos, objetivando o controle de instintos
revolucionários no sentido de manter o sistema com o estabelecendo um
padrão de comportamento exibido em filmes. No âmbito da indústria cultural, a
formulação de personagens pode na verdade estabelecer também uma
enganadora identificação da sociedade e do sujeito no contexto trágico,
fazendo com que se confirma uma distinção do indivíduo neste meio.

A escolha do filme para o aluno de ensino médio por influência da


indústria cultural sugere também apontamentos sobre Cultura, Consumo e
Comunicação de Massa, que geralmente presente nos livros didáticos. O
sistema da indústria cultural apresentado por Adorno e Horkheimer (2002)
realiza a conversão de todos seus âmbitos da arte em mecanismos de
consumismo, mesmo que indiretamente, direcionando como mercadorias o
cinema, o rádio, televisão, e outros no qual se apresenta uma cultura sem
conceitos democráticos, voltando-se para um aspecto negativo de
“manipulação”. Dessa maneira, encontra-se a utilização da comunicação neste
aspecto para uma dominação técnica, impedindo um senso critico da massa
(ADORNO; HORKHEIMER, 2002). Em resumo, Engerroff et al. (2014, p. 11)
indica:

Enfim, na função do ensino das Ciências Sociais como


superação de clichês e estereótipos, o cinema pode ser um
bom aliado, e isto os livros didáticos parecem, ao seu modo,
perseguir. Como bem observado por Ianni (2011), deve-se
reconhecer que o social é movimento, ou seja, que as coisas
não estão congeladas, levando-se à desnaturalização dos fatos
sociais, e isto o cinema pode auxiliar. O seu uso pelos
professores pode ser abrangente, seguindo diversas sugestões
colhidas nos livros didáticos, sem perder de vista a contínua
reflexão do que queremos e esperamos do ensino de
Sociologia.

Em resumo, para o professor a seleção dos filmes torna-se um processo


pedagógico, onde é necessário considerar a adequação do conteúdo do filme
ao tema da aula. Na maioria das vezes a escolha de filmes possui influência da
indústria cultural e tem como premissa o maior envolvimento dos alunos à
discussão sociológica, diante do padrão de consumo audiovisual desses
jovens. Isso porque dentro do meio escolar, deve-se considerar que o jovem
carrega suas experiências sociais estabelecidas no espaço e tempo, que
influenciam o direcionamento e constituição de sua experiência escolar e
determinam as formas como esses jovens se constituem como alunos. O
cotidiano escolar torna-se um espaço complexo de interações, estabelecendo
diversas redes de dinâmicas sociais, com demarcação de identidades.

Diante disto, na tentativa de verificar como os recursos audiovisuais têm


sido abordados no ensino de Sociologia, Engerroff et al. (2014) realizou a
análise de cinco livros didáticos, para analisar como o cinema tem sido
trabalhada dentro das propostas desses livros. Os autores perceberam a
presença de filmes tanto em capítulos quanto eixos temáticos dos materiais
didáticos. Engerroff et al. (2014) aponta a crescente indicação de filmes com
essas características em livros didáticos, contudo é importante pensar nos
filmes como modos de expressão de ideias, concepções de mundo, retrato de
problemas da vida real, e as maneiras como as sociedades se produzem
através da indústria cultural (MARTINS, 2007).

Nesse processo, o mais importante é o professor ou professora de


Sociologia construir práticas de ensino orientadas pela teoria social, para que o
aluno ou aluna seja capaz de identificar e compreender aspectos da sua
realidade social e obter o conhecimento sobre os fenômenos sociais (OSÓRIO;
SARANDY, 2012).

Considerações finais

A utilização de recursos audiovisuais indica uma nova concepção de


ensino, sobretudo por tendências de desenvolver ações e atividades que
demandam aos professores uma postura de escuta e diálogo com os jovens
dentro da escola. No ensino de sociologia verifica-se a emergência da inclusão
de aspectos da realidade social dos alunos dentro da metodologia de ensino do
professor, ou seja, que o conteúdo ensinado possua referências do cotidiano
juvenil, onde faz sentido a preferência por indicações ligadas ao cinema
americano e ligado à indústria do entretenimento, conforme indicado por
Engerroff et al. (2014). Contudo é importante o professor reconhecer a
aproximação do conteúdo do filme com a vivência do aluno, principalmente na
introdução ao cinema brasileiro.
Com isso, a aplicação do cinema como prática de ensino em sociologia
verifica-se como um suporte para o processo de aprendizagem, sobretudo para
reflexão e percepção da realidade social através do diálogo coletivo. A leitura
de filmes está como uma forma de construir conhecimento, contudo é
importante colocar que as possibilidades do cinema em sala de aula ainda
expõem diversos desafios. Os obstáculos indicam a incorporação dos filmes
dentro do conteúdo programático, ainda sendo caracterizados como atividades
extracurriculares, além das dificuldades de expor os filmes diante da estrutura
disponíveis nas escolas e o tempo de aula da disciplina.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ANGREWSKI, E. Utilização do Cinema no Ensino de Sociologia: o que os


professores têm a dizer? In: XII Congresso Nacional de Educação, PUC-PR,
2015.

ENGERROFF, A. M. B. et al. Estudo da ferramenta “cinema” presente nos


livros didáticos de sociologia. Mosaico Social - Revista do Curso de Ciências
Sociais da UFSC. Ano XII, n. 07, 2014.

LEGRAMANDI, AB; GOMES, MT. Insurgência e resistência no pensamento


freiriano: propostas para uma pedagogia decolonial e uma educação
emancipatória. Revista @mbienteeducação. São Paulo: Universidade Cidade
de São Paulo, v. 12, n. 1, p. 24-32 jan/abr 2019.

HORKHEIMER, M.; ADORNO, T. A indústria cultural: o iluminismo como


mistificação de massas. p. 169-214. In: LIMA, L. C. Teoria da cultura de
massa. São Paulo: Paz e Terra, 2002. 364p.

MARTINS, A. L. L. Cinema e Ensino de Sociologia: usos de filmes em sala


de aula. In: XIII Congresso Brasileiro de Sociologia, UFPE, 2007.

OSORIO, A.; SARANDY, F. Uma conversa sobre avaliação escolar. In:


CARNIEL, F; FEITOSA, S. (Org.). A Sociologia em sala de aula: diálogos
sobre o ensino e suas práticas. Curitiba: Base Editorial, 2012, v. 1, p. 149-160.