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Origem e classificação dos solos

afetados por sais


Mateus R. Ribeiro1

1 Universidade Federal Rural de Pernambuco

Introdução
Formação e evolução dos solos halomórficos
Salinização
Solonização
Solodização
Classificação química e caracterização dos solos salinos e sódicos
Solos salinos
Solos salino-sódicos
Solos sódicos
Solos salinos e sódicos no sistema brasileiro de classificação de solos
Solos salinos e sódicos no sistema de classificação da FAO/WRB
Considerações finais
Referências

Manejo da salinidade na agricultura: Estudos básicos e aplicados


ISBN 978-85-7563-489-9

Fortaleza - CE
2010
Origem e classificação dos solos
afetados por sais

INTRODUÇÃO No Brasil, solos salinos e sódicos ocorrem no Rio


Grande do Sul, no Pantanal Mato-Grossense e,
Os solos afetados por sais, também conhecidos por solos predominantemente, na região semi-árida do Nordeste.
halomórficos ou solos salinos e sódicos, são solos Estimativas feitas por Pereira et al. (1986) relacionam uma
desenvolvidos em condições imperfeitas de drenagem, que área de 91.000 km2 de solos afetados por sais no Nordeste
se caracterizam pela presença de sais solúveis, sódio trocável do Brasil. Segundo Ribeiro et al. (2003), com base no Mapa
ou ambos, em horizontes ou camadas próximas à superfície. de Solos do Brasil, os solos salinos, solódicos e sódicos
Na classificação Americana de 1938, os solos
ocupam cerca de 160.000 km2 ou 2% do território nacional.
halomórficos foram incluídos na ordem dos solos
Na região Nordeste, o aumento da população e a
Intrazonais, aqueles que refletiam na sua formação a
influência dominante de um fator local, no caso, o excesso pressão econômica pela produção de alimentos tem
de sais solúveis. Estão relacionados, portanto, com resultado no aumento da área de solos degradados por
condições imperfeitas de drenagem, em regiões áridas ou salinidade e sodicidade, em virtude da expansão das
semi-áridas, onde a baixa precipitação pluvial, a presença áreas irrigadas em terras marginais, do uso de águas
de camadas impermeáveis e a elevada evapotranspiração salinas na irrigação, do manejo inadequado da água e do
contribuem para o aumento da concentração de sais solo e da ausência de drenagem, com grandes prejuízos
solúveis na solução do solo (salinidade) e/ou o aumento para a economia regional.
da percentagem de sódio trocável (sodicidade), A adoção de práticas de manejo visando à
interferindo no desenvolvimento normal das plantas. sustentabilidade dos perímetros irrigados e o sucesso das
Os efeitos prejudiciais da salinidade e da sodicidade técnicas de recuperação, uso e manejo dos solos salinos e
no crescimento das plantas são conhecidos pelo homem sódicos estão na dependência do conhecimento da sua
a mais de 2100 anos, quando os sais foram, inclusive, gênese e evolução, principal objetivo deste trabalho. A
usados como instrumento de guerra pelos Romanos que, classificação taxonômica dos solos salinos e sódicos também
após a vitória sobre os Cartagineses, incorporaram cloreto será abordada porque constitui ferramenta indispensável
de sódio nos solos dos arredores da destruída cidade de para a realização dos levantamentos pedológicos
Cartago, com o intuito de torná-los improdutivos e impedir
necessários para a classificação de terras para irrigação e
o ressurgimento da cidade (Brady & Weil, 2008)
para o correto planejamento das atividades agrícolas.
O aumento da concentração de sais solúveis no solo
afeta o crescimento das plantas em virtude do aumento
da tensão osmótica da solução do solo, que reduz a FORMAÇÃO E EVOLUÇÃO DOS SOLOS
absorção de água pelas plantas, da acumulação de HALOMÓRFICOS
quantidades tóxicas de vários íons e de distúrbios no
balanço de íons (Henry & Johnson, 1977; Chhabra, 1996). As teorias clássicas sobre a formação e evolução dos
Por outro lado, a saturação do complexo de troca pelo Na+ solos afetados por sais são, geralmente, atribuídas ao cientista
resulta em condições físicas altamente desfavoráveis ao russo K. K. Gedroits em 1927, e foram posteriormente
crescimento vegetal, além de provocar distúrbios melhoradas por C. E. Kellog e outros cientistas americanos
nutricionais (USSL Staff, 1954; Oliveira, 2001). na década de 1930 (Fanning & Fanning, 1989).
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De acordo com estas ideias, salinização, solonização e Os solos salinos geralmente se localizam em áreas
solodização são processos pedogenéticos sequenciais baixas, para onde convergem os sais das áreas
relacionados com a formação, evolução e degradação dos circunvizinhas, estando a salinização relacionada com
solos salinos e sódicos, embora estudos mais recentes
condições de restrição de drenagem, envolvendo lençol
confirmem que o desenvolvimento da sodicidade pode
também ocorrer independentemente de um estágio prévio freático alto ou baixa permeabilidade, que impedem a
de salinização, pela passagem direta do Na para as lavagem dos sais em profundidade, e com climas áridos e
superfícies coloidais, a partir do intemperismo de minerais semiáridos, cuja evapotranspiração elevada favorece a
ricos em sódio, particularmente albita (NaAlSi3O8), em ascensão capilar dos sais para a superfície. Pode ser um
condições de drenagem deficiente (Wilding et al., 1963). processo natural ou artificialmente induzido pelo homem,
Neste capítulo a gênese dos solos halomórficos será principalmente nas áreas irrigadas (USSL Staff, 1954;
abordada com base nos conceitos clássicos, considerados de Sommerfeldt & Rapp, 1978; Fanning & Fanning, 1989).
fundamental importância para a compreensão da evolução
O processo de salinização natural ou salinização
destes solos, única forma de se definir corretamente as
práticas de manejo visando à sustentabilidade e as técnicas primária pode ser desencadeado por várias causas,
de recuperação dos solos salinos e sódicos. podendo ser destacadas como mais importantes
O processo de salinização envolve a concentração de (Carvalho, 1966; Ribeiro et al., 2003; Ribeiro et al., 2009):
sais solúveis na solução do solo e resulta na formação dos a) Invasão da água salgada que deposita seus sais nos
solos salinos. O processo de solonização promove a terrenos atingidos. Este processo é característico das
formação de solos sódicos, e é constituído por dois sub- regiões costeiras, influenciadas pelo movimento das
processos: sodificação e dessalinização. A sodificação, marés, e o único que pode ocorrer em regiões mais
primeira etapa, é o processo de passagem do íon Na+ da
úmidas. Ocorre ao longo de toda a costa brasileira,
solução do solo para o complexo de troca, formando os
solos denominados de salino-sódicos, enquanto a estando relacionado com áreas de mangues e várzeas,
dessalinização, etapa final, promove a lavagem dos sais localmente denominadas de salgados ou apicuns;
solúveis, resultando na formação de solos unicamente b) Acumulação de sais provenientes de áreas
sódicos. Segundo a sequência clássica de evolução dos solos circunvizinhas, por escoamento superficial e drenagem
halomórficos, com o prolongamento da lixiviação, os solos lateral, nos horizontes superiores dos solos de áreas
sódicos podem ser levados a um processo de degradação, rebaixadas, devido à presença de estratos impermeáveis em
denominado de solodização, que promove a lavagem do
pequena profundidade (Figura 1). Esta é a principal causa
sódio e a sua substituição pelo hidrogênio, formando, no final
do processo, solos não salinos e não sódicos que, por esta de salinização natural no semi-árido nordestino, ocorrendo
razão, não serão abordados neste capítulo (Tabela 1). geralmente em áreas baixas, constituídas por Neossolos
Flúvicos, Planossolos, Vertissolos, Gleissolos ou outros solos
Salinização relacionados com planícies aluviais ou áreas deprimidas;
O processo de salinização consiste na concentração
de sais mais solúveis que o gesso (CaSO4.2H2O), cuja
solubilidade é de 2,41 g L-1, nos horizontes ou camadas
do perfil de solo. Os principais sais solúveis encontrados
nos solos salinos são cloretos, sulfatos e bicarbonatos de
Na, Ca e Mg. Em menor quantidade podem ocorrer
potássio (K + ), amônio (NH 4 +), nitratos (NO 3 - ) e
carbonatos (CO3 2-). As fontes fornecedoras dos sais
solúveis são, primordialmente, os minerais primários
formadores das rochas, por intemperismo químico, sendo Figura 1. Diagrama do processo de salinização no semi-árido
a água o principal agente carreador. (adaptado de Fanning & Fanning (1989))

Tabela 1. Esquema da sequência clássica dos processos e etapas da formação dos solos halomórficos

Fonte: Adaptado de Carvalho (1966).


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c) Ascensão por capilaridade, dos sais existentes no Se as condições ambientais forem mantidas,
próprio terreno e acumulados em camadas não prevalecendo o aporte de sais, a evapotranspiração
superficiais; e elevada e a deficiência de drenagem, os solos
d) Acumulação dos sais em áreas baixas, sopés de permanecerão indefinidamente na condição de solos
encosta, em consequência da drenagem subsuperficial salino-sódicos, ou seja, com excesso de sais solúveis e de
lateral das posições mais altas. Salinização típica das sódio trocável, condição dominante na grande maioria
posições de terço inferior de encostas em regiões das áreas salinizadas dos perímetros de irrigação do
semiáridas, muito comum nas áreas de Luvissolos e Departamento Nacional de Obras contra as Secas
Planossolos do semiárido nordestino (Figura 2). (DNOCS) no Nordeste.
Segundo Fanning & Fanning (1989), se houver,
entretanto, um processo de drenagem natural ou artificial,
pode ocorrer a dessalinização, última etapa do processo
de solonização, que promove a lavagem dos sais solúveis
do solo. Com a lixiviação dos sais solúveis, a salinidade
é removida e o complexo de troca fica saturado
predominantemente por sódio, que promove a dispersão
e consequente translocação das argilas, formando um
horizonte B textural e desenvolvendo condições físicas
Figura 2. Drenagem lateral em solo com substrato
extremamente desfavoráveis.
impermeável (adaptado de Sommerfeldt & Rapp (1977))
Como citado anteriormente, a sodicidade também
pode se desenvolver independentemente de um estágio
O processo de salinização induzido ou antrópico
prévio de salinização, pela passagem direta do Na para
ocorre em consequência das seguintes causas:
as superfícies coloidais, a partir do intemperismo de
a) Deposição dos sais pela água de irrigação
minerais ricos em sódio, particularmente albita
contendo sais em solução;
(NaAlSi3O8 ), em condições de drenagem deficiente e
b) Elevação dos sais à superfície por ascensão do semiaridez (Wilding et al., 1963). Este tipo de sodificação
lençol freático, em virtude do manejo inadequado da está relacionado com as grandes áreas de Planossolos
irrigação (ausência de drenagem e/ou superirrigação). Nátricos e Planossolos Háplicos Eutróficos solódicos do
Em todos os casos, naturais ou induzidos, o processo semiárido nordestino, que têm relevo suave ondulado.
de salinização envolve o excesso de água e, geralmente,
evapotranspiração elevada. Solodização
O processo de lavagem que promove a dessalinização,
Solonização não se limita somente à lixiviação dos sais solúveis, mas,
Quando a concentração de sais de sódio aumenta, o pode continuar hidrolisando o sódio do complexo de
Na+ solúvel começa a ser adsorvido pelo complexo de troca. Este sódio vai sendo gradualmente substituído pelo
troca, iniciando-se o processo de Solonização, que se hidrogênio, que penetra no complexo de troca em
desenvolve em duas etapas: sodificação e dessalinização quantidades sempre crescentes e termina por modificar
(Tabela 1). a reação do solo de alcalina para ácida.
A sodificação, passagem do Na + da forma de íon A solodização, também denominada de fase de
solúvel para o complexo de troca, começa a ter degradação, remove inicialmente o sódio trocável do
horizonte A, permanecendo o B ainda sódico, e pode
importância quando este cátion constitui a metade ou
chegar a remover o sódio de todo o perfil, resultando em
mais dos cátions solúveis da solução do solo (USSL Staff,
perfis não salinos e não sódicos (Tabela 1). Evidentemente,
1954). Nestas condições, os íons Ca2+ e Mg2+, por serem
este processo só chegará a solos não salinos e não sódicos
menos solúveis, precipitam quando a solução do solo se se ocorrer uma mudança radical nas condições ambientais
concentra em consequência da evapotranspiração, favorecendo os processos de infiltração e lixiviação, em
ficando o Na + , praticamente, como o único cátion detrimento da evapotranspiração e enriquecimento
presente na solução. Por este motivo, o Na+, apesar de
ter menor poder de troca, consegue deslocar os outros CLASSIFICAÇÃO QUÍMICA E CARACTERIZAÇÃO
cátions por ação de massa (Ribeiro et al., 2003; 2009), DOS SOLOS SALINOS E SÓDICOS
pela seguinte reação:
]Ca + 2Na+ → ]Na Na
+ Ca2+, onde ] é o complexo de Os solos halomórficos, formados pelos processos de
troca do solo. salinização, solonização e solodização, são usualmente
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classificados com base em dois critérios: (1) o conteúdo razão foram chamados por E.W. Hilgard, em 1906, de álcali
total de sais solúveis e (2) a percentagem de sódio brancos (USSL Staff, 1954). Em virtude da alta
trocável. Em virtude da propriedade dos íons em concentração de sais solúveis na solução do solo e da
solução conduzirem a corrente elétrica, a condutividade ausência de quantidades expressivas de sódio no complexo
elétrica do extrato da pasta saturada, mais conhecida de troca, os solos salinos são geralmente floculados,
como condutividade elétrica do extrato de saturação apresentando permeabilidade igual ou maior que a de solos
(CEes) é o mais rápido e simples método para se similares não salinos. Em virtude da floculação das argilas
estimar o total de sais solúveis do solo, tendo em vista estes solos também não apresentam estrutura prismática
que a condução da corrente elétrica é diretamente ou colunar, como pode ser observado na Figura 4.
proporcional à quantidade de íons em solução (Donahue
et al., 1977).
A PST, que representa o percentual de Na + em
relação à capacidade total de troca de cátions é calculada
pela Eq. 1:

(1)

Três grupos de solos halomórficos são definidos em


função destes parâmetros pelo USSL Staff (1954), mais
conhecidos a partir de 1963 como solos salinos, salino-
sódicos e sódicos (Tabela 1).

Solos salinos
Os solos são considerados salinos, segundo o USSL
Staff (1954), quando a CEes) é  4 dS m-1 e a PST é <
15%. Normalmente, o pH destes solos é menor que 8,5.
Solos com altos níveis de salinidade apresentam, na
época seca, a superfície coberta por eflorescências salinas,
que formam uma crosta esbranquiçada (Figura 3). Por esta

Figura 4. Perfil de um solo salino (Gleissolo sálico) na


planície aluvial do rio Acaraú, CE, mostrando a presença
de um lençol freático com influência da salinidade
marinha. Foto do acervo pessoal do autor

Os solos salinos correspondem aos solos classificados


como Solonchak nos antigos sistemas de classificação
taxonômica e no sistema atual do World Reference Base
for Soil Resources (WRB). No atual Sistema Brasileiro
de Classificação de Solos (SiBCS) a salinidade é
considerada no caráter sálico (CEes  7 dS m-1, a 25 ºC)
Figura 3. Aspecto da superfície de um solo salino (CEes =
e no caráter salino (4CEes<7dS m-1, a 25 ºC), utilizados
47 dS m -1) no Perímetro Irrigado de Poço da Cruz,
para separar classes no segundo terceiro e quarto níveis
Ibimirim, PE, mostrando a crosta salina esbranquiçada e
a ausência de vegetação. A única planta presente é um categóricos. (EMBRAPA, 2006).
indivíduo de Atriplex sp., espécie altamente tolerante à
salinidade. Foto cedida pelo Centro de Referência e Solos salino-sódicos
Informação de Solos do Estado de Pernambuco – Os solos são classificados como salino-sódicos
CRISEPE/UFRPE quando a PST atinge valores maiores ou iguais a 15% e
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os níveis de salinidade permanecem altos, com uma 8,5 e 10, resultante da hidrólise do Na do complexo de
CEes  4 dS m-1. Devido ao excesso de sais, os solos troca ou da formação de Na2CO3. O alto pH resultante
salino-sódicos possuem pH, geralmente,  8,5 e parte dos dispersa a argila e a matéria orgânica podendo dar cor
colóides permanece ainda floculada (Figura 5). Mantidas escura ao solo (álcali negro) e fazendo com que a argila
as condições ambientais, os solos permanecerão nestas migre no perfil formando um horizonte Btn, com alto teor
condições. Estes solos foram classificados como de sódio, estrutura colunar ou prismática e condições
Solonchak-Solonetzico nos antigos sistemas de físicas altamente desfavoráveis à penetração da água e
classificação taxonômica (Camargo et al., 1987) das raízes. O solonetz pode evoluir para o Solonetz
Solodizado, ainda considerado como sódico, por meio de
uma lavagem superficial do Na (solodização parcial),
tornando o solo menos alcalino e formando horizontes A
e E sobre um Btn mais profundo e sódico (Fanning &
Fanning, 1989) (Figura 6).

(A)

(B)

Figura 5. Aspecto morfológico de um solo salino-sódico


(Neossolo Flúvico Sálico sódico), mostrando a superfície
esbranquiçada e a ausência de estrutura colunar, em
consequência da salinidade, apesar da alta saturação por
sódio. A alta salinidade mantém as argilas parcialmente
Figura 6. Aspectos da estrutura colunar do horizonte Btn de
floculadas. Foto cedida pelo CRISEPE/UFRPE
dois solos com diferentes níveis de porcentagem de
sódio trocável, classificados como Planossolos Nátricos,
Solos sódicos com características físicas extremamente desfavoráveis à
Os solos sódicos, denominados de Solonetz (Camargo penetração da água e das raízes. Fotos cedidas pelo
et al., 1987) nos antigos sistemas de classificação CRISEPE/UFRPE
taxonômica, podem evoluir de um solo salino-sódico,
através de um processo de drenagem natural ou artificial Embora aceito em muitos paises, o nível de 15% de
que promova a lixiviação dos sais, ficando o solo apenas PST, como limite de separação de solos sódicos e não
com sódio no complexo de troca. sódicos, e como nível a partir do qual as propriedades
Os solos sódicos caracterizam-se por apresentar PST físicas do solo seriam gravemente afetadas, está longe de
 15% e CEes < 4 dS m-1, com um pH, geralmente, entre ser uma unanimidade universal. O efeito negativo da PST
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sobre as propriedades físicas do solo depende, além dos Altos níveis de salinidade e sodicidade representados
níveis de PST, de vários outros fatores, entre eles: pelos termos, sálico e sódico, são utilizados,
presença de sais na solução do solo, textura, tipo de argila preferencialmente, nos níveis de subordem e grande
e CE da água usada na irrigação ou na determinação da grupo. Ocorrem naturalmente relacionados com a
condutividade hidráulica (Sumner, 1995; Ribeiro et al., formação de classes de solos como Planossolos,
2009). Segundo Sumner (1995), as diferenças entre os Neossolos Flúvicos, Vertissolos, Gleissolos e
limites de sodicidade estabelecidos pela USSL Staff Cambissolos, que são normalmente relacionadas com
(1954), de 15%, e o valor adotado na Austrália por posições baixas do relevo e apresentam subordens e
Northcote & Skene (1972), de 6%, foram consequência grandes grupos formados sob condições de deficiência
de drenagem e semiaridez, como nos exemplos abaixo:
do uso de águas com diferentes concentrações de
Planossolo Nátrico Órtico
eletrólitos nas determinações de condutividade hidráulica
Planossolo Nátrico Sálico
em laboratório, mais alta no laboratório da Califórnia e
Planossolo Háplico Sálico
requerendo, portanto, uma PST maior para que as
Neossolo Fúvico Sódico ou Sálico
condições físicas fossem afetadas. Devido a estas
Vertissolo Hidromórfico Sódico ou Sálico
diferenças o SiBCS (EMBRAPA, 2006) considera dois Vertissolo Háplico Sódico ou Sálico
níveis de sodicidade para a separação de classes: o Cambissolo Flúvico Sódico ou Sálico
caráter sódico (PST 15%) e o caráter solódico (6% < Cambissolo Háplico Sódico
PST < 15%). Gleissolo Sálico Órtico
Gleissolo Sálico Sódico
SOLOS SALINOS E SÓDICOS NO SISTEMA
BRASILEIRO DE CLASSIFICAÇÃO DE SOLOS Níveis moderados de salinidade e sodicidade,
representados pelos termos salino e solódico, são
O SiBCS seguindo tendência mundial de diversos utilizados para separar classes no quarto nível
sistemas de classificação, adotou a definição de atributos (subgrupo) de várias classes de solos, como nos
e horizontes diagnósticos para a diferenciação das exemplos a seguir:
diversas classes de solos. Como os solos halomórficos não Neossolo Flúvico Ta Eutrófico solódico ou salino
constituem uma classe individualizada no 1º nível Neossolo Regolítico Eutrófico solódico
categórico, salinidade e sodicidade separam classes em Vertissolo Háplico Órtico salino ou solódico
níveis hierárquicos mais baixos de diversas ordens do Cambissolo Háplico Ta Eutrófico solódico
sistema, com base nos seguintes atributos diagnósticos Chernossolo Argilúvico Órtico solódico
(EMBRAPA, 2006). Luvissolo Crômico Órtico salino ou solódico
Caráter salino: Propriedade referente à presença de Argissolo Aamarelo Eutrófico solódico
Argissolo Aamarelo Eutrófico planossólico solódico
sais, mais solúveis em água fria que o CaSO 4, em
Plintossolo Argilúvico Eutrófico solódico
quantidades expressas por CE  4 e  7 dS m-1;
Gleissolo Háplico Tb Eutrófico solódico ou salino
Caráter sálico: Propriedade relativa à presença de
sais, mais solúveis em água fria que CaSO 4 , em
Nos casos em que os altos níveis de salinidade e
quantidades expressas por CE 7dS m-1;
sodicidade ocorrem em classes nas quais estes atributos
Caráter solódico: Termo usado para distinguir têm menor importância pedogenética e agronômica que
horizontes ou camadas que apresentam PST variando de outros processos ou atributos, como no caso dos
6 a <15%; Gleissolos Tiomórficos e dos Organossolos, os termos
Caráter sódico: Termo usado para distinguir sálico e sódico são usados no quarto nível, juntamente
horizontes ou camadas que apresentam PST 15%; com solódico e salino, como nos exemplos a seguir:
Estes atributos são considerados dentro dos primeiros Gleissolo Tiomórfico Húmico sódico ou sálico
120 cm do perfil, e são utilizados para diferenciar classes Gleissolo Tiomórfico Húmico solódico ou salino
no 2º, 3º e 4º níveis categóricos, na dependência da Gleissolo Tiomórfico Háplico sódico ou sálico
importância destes processos na formação dos solos e do Gleissolo Tiomórfico Háplico solódico ou salino
nível de restrição imposto ao desenvolvimento das plantas Organossolo Háplico Hêmico sálico ou sódico
e ao movimento da água. Organossolo Háplico Hêmico salino ou solódico
Origem e classificação dos solos afetados por sais 17

SOLOS SALINOS E SÓDICOS NO SISTEMA Salic: Usado para indicar a presença de um salic
DE CLASSIFICAÇÃO DA FAO/WRB horizon dentro dos primeiros 100 cm de profundidade.
Para aumentar o detalhamento podem ser usados os
A classificação de solos da World Reference Base for termos endosalic, para horizonte sálico entre 50 e 100
Soil Resources (WRB) é uma classificação cm, e epysalic para horizonte sálico entre 0 e 50 cm.
compreensiva, construída com o propósito de servir de Exemplos: Salic Fluvisol - Neossolo Flúvico sálico
base para correlação e comunicação internacional em (SiBCS), Endosalic Gleysol - Gleissolo Sálico (SiBCS),
solos, sendo recomendada oficialmente pela International Hypersalic: Usado para indicar CEes ≥ 30 dSm-1 em
Union of Soil Sciences (IUSS) em 1998 (FAO, 2006). alguma camada dentro dos primeiros 100 cm do perfil.
O sistema, construído com a colaboração da FAO Exemplos: Hypersalic Solonchak - Gleissolo Sálico
(Food and Agriculture Organization of the United (SiBCS)
Nations) e do ISRIC (World Soil Information) é Hyposalic: Usado como sufixo para indicar CEes >
constituído por 32 grupos de referência estabelecidos com 4 dS m-1 em alguma camada dentro dos primeiros 100 cm
base em propriedades definidas em termos de horizontes de profundidade. Exemplo: Leptic Regosol (Hyposalic) -
diagnósticos, propriedades e materiais, em sua maioria, Neossolo Regolítico Eutrófico léptico salino (SiBCS)
passíveis de serem observados e determinados no campo Com relação à sodicidade, os seguintes termos são
(FAO, 2006). usados como prefixos ou sufixos, dependendo da classe
Segundo FAO (2006) o sistema da WRB considera a de solo:
salinidade e a sodicidade na definição de dois horizontes Natric: Usado para discriminar solos que não se
diagnósticos principais: enquadram como Solonetz e apresentam o horizonte
Salic horizon: Horizonte superficial ou subsuperficial nátrico dentro dos primeiros 100 cm do solo. Exemplo:
raso, com enriquecimento secundário de sais solúveis Natric Cryosol - sem equivalente no SiBCS.
(mais solúvel que o CaSO 4 ), apresentando CEes = Sodic: Usado para distinguir solos com 15 % ou
15 dS m-1 a 25°C em alguma época do ano; CEes = mais de Na + Mg trocáveis no complexo de troca nos
8 dS m-1, se o pH do extrato de saturação for maior do primeiros 50 cm do solo. Exemplo: Vertic Luvisol
que 8,5; ou, o produto da espessura em cm pela CEes em (Sodic) - Luvissolo Crômico Órtico vértico sódico
dS m-1 maior que 450. (SiBCS)
Natric horizon: Horizonte subsuperficial denso, com Endosodic: Usado para distinguir solos com 15 % ou
mais de Na + Mg trocáveis no complexo de troca entre
alto conteúdo de argila em relação ao horizonte
50 e 100 cm de profundidade.
superficial, e com PST ≥ 15 % nos primeiros 40 cm, ou,
Hyposodic: Usado para discriminar solos com PST
com um valor de PST menor, desde que Mg + Na ≥ Ca > 4 % e < 15 % nos primeiros 100 cm de profundidade.
+ H nos primeiros 40 cm, e a PST ≥ 15 % em algum Exemplo: Gleyic Vertisol (Hyposodic) – Vertissolo
sub-horizonte dentro de 200 cm de profundidade. Hidromórfico Órtico solódico (SiBCS).
Estes horizontes diagnósticos vão definir dois grupos Solodic: Usado para qualificar solos com estrutura
de referência no primeiro nível da classificação da WRB: prismática ou colunar típica do horizonte nátrico, mas,
com PST < 15%. Exemplo: Solodic Planosol - Planossolo
Solonetz: Solos apresentando um natric horizon com
Háplico Eutrófico solódico (SiBCS).
início dentro dos primeiros 100 cm de profundidade.
Como se pode observar pelos exemplos citados, a
Correspondem aos Planossolos Nátricos do SiBCS.
salinidade e a sodicidade tem atenção especial na WRB,
Solonchak: Solos com um salic horizon com início
permitindo uma boa correlação com as classificações
nos primeiros 50 cm da superfície do solo. Estes solos nacionais, particularmente com o SiBCS.
podem corresponder no SiBCS a Neossolos Flúvicos
Sálicos, Vertissolos Háplicos Sálicos ou Gleissolos CONSIDERAÇÕES FINAIS
Sálicos, entre outras classes relacionadas com posições
baixas, que podem apresentar o caráter sálico Este capítulo procurou destacar a importância do
O sistema ainda utiliza no segundo e terceiro níveis conhecimento da gênese, morfologia e classificação dos
uma série de prefixos e sufixos qualificadores que são solos na prevenção, controle e recuperação de solos
usados para separar os solos dos diversos grupos de salinos e sódicos.
referência, em função de características transicionais e O aumento da população mundial e das suas
especiais. Com relação à salinidade o sistema, é bastante demandas por alimentos, fibras e fontes renováveis de
detalhado, e considera os seguintes qualificadores: energia, tem resultado na expansão da área cultivada no
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mundo. Nas regiões semiáridas a irrigação avança em Fanning, D.S.; Fanning, M.C.B. Soil morphology, genesis and
áreas de terras marginais, muitas vezes com utilização de classification. New York: John Wiley & Sons, 1989. 395p.
águas de baixa qualidade. Nesse contexto, o conhecimento FAO - Food and Agriculture Organization of the United
das propriedades e dos processos de formação e evolução Nations. World Reference Base for Soil Resources 2006. A
dos solos afetados por sais torna-se uma ferramenta framework for international classification, correlation and
indispensável na escolha das práticas de manejo do solo e communication. Rome: IUSS/ISRIC/FAO. 2006. 128p.
da água que visem a sustentabilidade destas explorações, World Soil Resouces Report, 103
e na seleção das técnicas mais indicadas para a Henry, J.L.; Johnson, W.E. The nature and management of salt-
recuperação de áreas já afetadas por salinidade e,ou, affected soils in Saskatchewan. Saskatoon: University of
sodicidade Saskatchewan, 1977. 26p.
O SiBCS na sua estrutura atual, permite classificar Northcote, J.H.; Skene, J.K.M. Australian soils with saline and
os solos em função de diversos níveis de salinidade e sodic properties. Melbourne: Commonwealth Science and
sodicidade, contribuindo para a compreensão dos Industrial Research Organization, 1972. 61p. Soil
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inclusão de informações sobre o sistema de Oliveira, J.B. Pedologia aplicada. Jaboticabal: FUNEP, 2001.
classificação da WRB foi motivado pela necessidade de 414p
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detalhados de solos constitui ferramenta indispensável para
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planejamento da implantação ou recuperação dos
Química e mineralogia do solo. Parte II – Aplicações.
perímetros irrigados. Os insucessos observados em alguns
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dos perímetros irrigados implantados no Brasil (inclusive na p.449-484.
iniciativa privada) são uma consequência do total Ribeiro, M.R.; Freire. F.J.; Montenegro, A.A. Solos
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