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RESÍDUOS PERIGOSOS DOMÉSTICOS

Dezembro 2008
Índice

• ENQUADRAMENTO
Resíduos Sólidos Urbanos (RSU) é o nome que recebe uma classe de resíduos que é
produzida pelos utilizadores finais dos bens de consumo. Apesar do nome "urbanos",
hoje em dia, esses resíduos não são exclusivos das populações "urbanas", uma vez
que os padrões de consumo das populações rurais tendem a urbanizar-se.
No passado, o lixo doméstico - um nome menos técnico para resíduos sólidos urbanos
- praticamente não constituía um problema. A quase totalidade dos objectos utilizados
recorria a materiais de origem animal ou vegetal, que, uma vez regressados à terra, se
decompunham naturalmente nos seus constituintes elementares, integrando de novo o
ciclo de vida. A densidade populacional era em geral suficientemente pequena, daí que
se acontecesse a acumulação desses resíduos, não provocava consequências graves.
Sobretudo ao longo do nosso século, todo este panorama se alterou, desenvolveu-se
todo um potencial tecnológico e científico que permitiu sintetizar uma enorme variedade
de novos materiais.

Com o aparecimento de novas tecnologias, surgiram uma grande diversidade de


produtos químicos potencialmente perigosos para uso doméstico, disponíveis no
mercado.

No entanto, a necessidade de minimizar a produção de resíduos e de assegurar a sua


gestão sustentável transformou-se, entretanto, numa questão de cidadania. Existe uma
consciência cada vez mais clara de que a responsabilidade pela gestão dos resíduos
deve ser partilhada pelo todo: produtor de um bem ao cidadão consumidos, do produtor
de resíduos ao detentor, dos operadores de gestão à autoridades administrativas
reguladoras.
• DEFINIÇÕES
Entende-se por:
“Resíduos” qualquer substância ou objecto de que o detentor se desfaz ou tem
intenção ou obrigação de se desfazer, nomeadamente os identificados na Lista
Europeia de Resíduos.
“Resíduos Sólidos Urbanos” (RSU), o resíduo proveniente de habitações bem como
outro resíduo que, pela sua natureza ou composição, seja semelhante ao resíduo
proveniente de habitações.
“Plano Estratégico de Resíduos Sólidos Urbanos” (PERSU), um documento onde
se define uma estratégia e metas, no âmbito de uma Gestão Integrada dos RSU. A sua
primeira versão foi publicada em 1997, o PERSU I, com uma meta de 10 anos, e tendo
como pilares o fim das lixeiras, assim como a introdução de um novo rumo nos
métodos de gestão de resíduos. Após 10 anos surgiu o PERSU II, aprovado em 2007,
apresentando metas ainda mais ambiciosas para o decénio de 2007 a 2017.
“Resíduos Perigoso Doméstico” (RPD), o resíduo proveniente de habitações, pela
sua natureza ou composição, tenha características de perigosidade.

• RESÍDUOS PERIGOSOS DOMÉSTICOS TÍPICOS


De acordo com o mencionado no PERSU II, a composição de RSU engloba uma
pequena quantidade de resíduos perigosos que não pode ser negligenciado.

Algumas fracções desse tipo de resíduos já são alvo de sistemas específicos, tais
como, as pilhas, embalagens de medicamentos. As outras fracções não são alvo de
qualquer gestão.

Embora sejam pequenas quantidades, a presença, deste tipo de resíduos em outras


fracções dos RSU pode perturbar o tratamento e a qualidade do produto final, com
especificações mais exigentes.

A fracção de resíduos perigosos existente nos RSU compreende características


bastante diversificadas, tais como, pesticidas, detergentes contendo substâncias
perigosas, produtos ácidos alcalinos, produtos ácidos ou alcalinos, colas, tintas,
vernizes, entre outras, existe ainda resíduos de embalagens que contem ou contiveram
esse tipo de produtos, como se poderá verificar na Tabela 1.

Tabela 1 – RESÍDUOS PERIGOSOS DOMÉSTICOS TÍPICOS

Tipo de Resíduos Características


PRODUTOS DE LIMPEZA DOMÉSTICA
• Pós de limpeza abrasiva Corrosivo
• Aerossóis Inflamável
• Produtos de limpeza com amoníaco Corrosivo
• Cloro para branqueamento Corrosivo
• Produtos cáusticos Corrosivo
• Polidores de mobília Inflamável
• Produtos de limpeza de vidro Irritante
• Produtos de limpeza de fornos Corrosivo
• Produtos de limpeza de calçado Inflamável
• Polidores de prata Inflamável
• Produtos de limpeza de manchas Inflamável
• Produtos de limpeza sanitária Corrosivo
• Produtos de limpeza de estofos e Inflamável e/ou corrosivo
carpetes
PRODUTOS DE CUIDADOS PESSOAIS
• Loção para o cabelo Venenoso
• Champôs medicinais Venenoso
• Removedores de verniz Venenoso, inflamável
• Álcool profiláctico Venenoso

Tipo de Resíduos Características


PRODUTOS PARA TINTAS
• Esmalte Inflamável
• Tintas à base de óleo Inflamável
• Latex Inflamável
• Solventes Inflamável
• Espessantes para tintas Inflamável
PRODUTOS DIVERSOS
• Acumuladores Corrosivo
• Ácidos Corrosivo
• Cloro para píscinas Corrosivo
PESTICIDAS, INSECTICIDAS, HERBICIDAS E FERTILIZANTES
• Exterminadores de formigas e baratas Venenoso e alguns inflamáveis
• Exterminadores de ervas daninhas Venenoso e alguns inflamáveis
• Fertilizantes químicos Venenoso
• Insecticida doméstico Venenoso
• COMPOSIÇÃO DOS RESÍDUOS PERIGOSOS DOMÉSTICOS
Na tabela 2 apresenta-se os componentes dos RPD, normalmente presentes nos RSU.

TABELA 2 - Composição dos RPD, de actividades urbanas, comerciais, industriais e


agrícolas.

Nome Uso Risco


Elemento de liga para metais (Pb, Cancerígeno e
Arsénio, As Cu) em placas de bateria, bainhas mutagénico, dermotores,
de cabos, tubos de caldeira fadiga a longo prazo
Selénio, Se Electrónica, TV, baterias solares, A longo prazo: dedos,
rectificadores, cerâmica, aço, dentes e cabelos
cobre, catalizadores, ralés vermelhos, fraqueza geral,
depressão, irritação do
nariz e boca
Bário, Ba Ligas absorventes de tubos de Inflamável em pó, a longo
vácuo, lubrificantes de tubos de prazo aumento tensão
raios x, ligas de vela de ignição arterial e bloqueio
nervoso
Cádmio, Cd Revestimento electrolítico, ligas Inflamável em pó, tóxico
de chumaceiras, pigmentos por inalação, cancerígeno.
cerâmicos, esmaltes, fungicida, Compostos solúveis muito
fotografia, litografia, células tóxicos. Concentração nos
fotoeléctricas rins, fígado, pâncreas e
tiróide
Crómio, Cr Elemento de ligas resistentes à Compostos hexavalentes
corrosão, aço inoxidável, cancerígenas e corrosivos.
revestimentos, pigmentos, altas A longo prazo prejudicial
temperaturas à pele
Chumbo, Pb Baterias, aditivos, pigmentos, Tóxico por inalação de pó
revestimentos cabos, tubos, ou fumos. A longo prazo
tanques, ligas de solda afecta cérebro, sistema
nervoso, rins
Mercúrio, Hg Amalgamas, catalisador, Altamente tóxico para a
electricidade, instrumentos, pele e inalação de vapor.
caldeiras, lâmpadas A longo prazo para o
sistema nervoso central
Prata, Ag Compostos de fotografia, química, Metal tóxico. A longo
espelhos, condutores eléctricos, prazo descoloração da
electrónica, medicina e cirurgia, pele, olhos e mucose (para
baterias, joalharia, ligas cinzento)
Benzeno, C6H6 Detergentes, nylon, fenol, Cancerígeno. Muito
solventes tóxico. Inflamável
Etilbenzeno, C6H5C2H5 Solventes Tóxico, inflamável,
irritante para pele e olhos
Tolueno, Explosivos (TNT), detergentes, Inflamável, tóxico por
C6H5CH3 gasolina aviões, produtos ingestão, inalação ou
químicos, diluentes, resinas absorção pela pele
Clorobenzeno, C6H5Cl Fenol, anilinas, solventes,Tóxico por inalação e
pesticidas, contacto com a pele
Cloroetileno, CH2CHCl PVC, síntese orgânica, adesivos Cancerígeno. Muito
para plásticos tóxico por todas as vias
Diclorometano, CH2Cl2 Solventes, plásticos, remoção de Cancerígeno, tóxico
pintura
Tetraclometileno, Solventes, secante, indústria Irritante para os olhos e
CCl2CCl2 química pele
Endrina, Insecticida Tóxico e cancerígeno,
C12H8OCl6 inacção e pele
Lindasse, Pesticida Tóxico por inalação,
C6H6Cl6 ingestão e pele
Taxafene, C10H10Cl8 Insecticida Tóxico
Siluex, Herbicida Tóxico
Cl3C6H2OCH(CH3)COOH

• QUANTIDADES
O PERSU II, faz referência, à fracção de resíduos perigosos que compreende
quantitativos entre os 5% e os 7% do peso total dos RSU, e compreende resíduos com
características bastante diferenciadas.

Na Tabela 3, são apresentados os dados referentes à percentagem de resíduos


perigosos domésticos que fazem parte dos RSU.

TABELA 3 – PERCENTAGEM DE RESÍDUOS PERIGOSOS DOMÉSTICOS


Resíduos Perigosos Domésticos Percentagem Total
Tinta à base de óleo 31,9 %
Solventes 15,4%
Tinta de látex 12,1%
Pesticidas 9,9%
Latas de óleo vazias 8,8%
Produtos de limpeza 8,3%
Ácido/Base 5,0%
Produtos de Petróleo 2,7%
Outros 4,9%

• CONTAMINAÇÃO AMBIENTAL
A contaminação ambiental por resíduos perigosos domésticos pode ocorrer,
directamente pela sua utilização ou indirectamente como transporte pelo vento e
chuvas e libertação a partir de resíduos dispostos no ambiente, a exemplo do que
ocorre com os resíduos dos aterros.

Na Tabela 4 são apresentados os dados referentes à persistência de alguns produtos


orgânicos no ambiente.

TABELA 4 – PERSISTÊNCIA DE ALGUNS PRODUTOS ORGÂNICOS NO AMBIENTE

COMPOSTOS
PRODUTOS PERIGOS
TÍPICOS
Óleos, solventes de baixo peso Problemas de toxicidade,
molecular, alguns pesticidas primariamente ao ambiente
Orgânicos não biodegradáveis, maioria dos e biota na origem ou local
Persistentes detergentes de descarga. Efeitos tóxicos
ocorrem rapidamente após
exposição.
Orgânicos Hidrocarbonetos de elevado Podem ocorrer efeitos
Persistentes peso molecular, clorados e tóxicos imediatos na origem
aromáticos, alguns pesticidas, ou no local de descarga.
PCB. Pode ocorrer toxicidade
crónica e duradoura. O
transporte dos resíduos a
partir da origem pode
resultar em contaminação
difusa e bioconcentração na
cadeia alimentar.

• PRÁTICAS DE GESTÃO
Segundo o PERSU II, a gestão dos resíduos perigosos domésticos propriamente ditos
é indissociável da gestão dos resíduos de embalagens, em que estes estiveram
contidos.

Assim, deve ser projectada uma gestão conjunta deste tipo de resíduos, tal como já
acontece em alguns países da Europa.

Desta forma, e segundo orientações do PERSU II, a gestão deste tipo de resíduos
deverá ser abarcada pela Sociedade Ponto Verde (SPV), bem como, pelos Sistemas
(Municipais e Inter-Municipais).

• PROGRAMAS DE RECOLHA
Tendo em conta o factor económico, a gestão deste tipo de resíduos poderá envolver
um sistema de entrega, que poderá abarcar pontos para entrega dos resíduos, à luz do
que já acontece com outros resíduos, tais como:

• Os locais de venda dos produtos;

• Ecocentros;

• Unidades móveis de recolha em locais predefinidos.

• INSTALAÇÕES PERMANENTES (Operadores de Gestão de


Resíduos ou Sistemas)

Com o intuito de estabelecer soluções a longo prazo para a gestão de RPD, como já
acontece a nível nacional para outro tipo de resíduos, considera-se a possibilidade de
utilizar as instalações existentes para efectuar esse armazenamento temporário com
vista a uma possível valorização.
• ECONOMIA

• CUSTOS
No que diz respeito aos custos inerentes à gestão de resíduos, a afirmação crescente
do princípio do “poluidor-pagador” tem vindo a determinar a responsabilidade prioritária
dos produtores de bens de consumo, dos produtores de resíduos ou dos detentores.

Os custos de um processo deste nível podem variar segundo múltiplos factores, por
exemplo:

• Quantidade de resíduos recepcionados;

• Tipo de resíduos recepcionados;

• Tipo de tratamento utilizado;

• Quantidade de materiais valorizados;

• Distância às instalações de armazenamento;

• Pessoal.

Contudo, se for utilizado as instalações existentes para proceder à recepção,


armazenamento, triagem e possível tratamento dos RPD, os custos inerentes ao
processo são menores.

• FINANCIAMENTO

Podem ser utilizados diversos métodos para financiar os programas de recolha e


gestão dos RPD.

Por exemplo:
• À luz do que se passa com outro tipo de resíduos poderá existir um eco-valor,
que será taxado ao produtor do resíduo;

• Taxas de deposição em aterro.