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3 de Abril de 2019

Nacionalidade portuguesa: dispensa de


comprovação da ligação efetiva

O critério da “ligação efetiva”


O maior obstáculo com que determinadas pessoas se deparam
quando está em causa a aquisição da nacionalidade portuguesa
traduz-se no critério da “ligação efetiva”.

Situações abrangidas
Como se sabe, estão sujeitas ao crivo da “ligação efetiva”, nos
termos do disposto no artigo 9.º da Lei da Nacionalidade, as
situações de aquisição da nacionalidade por efeito da
vontade e da adoção, o que significa que se encontram
abrangidos os seguintes casos:

- aquisição por filhos menores ou incapazes de mãe ou


pai que adquira a nacionalidade portuguesa (artigo 2.º
da Lei da Nacionalidade);

- aquisição em caso de casamento ou união de fato


(artigo 3.º da Lei da Nacionalidade);
- aquisição após perda da nacionalidade portuguesa
(artigo 4.º da Lei da Nacionalidade);

- aquisição na sequência de adoção plena (artigo 5.º da


Lei da Nacionalidade).

Mais recentemente, a Lei Orgânica n.º 9/2015, de 29 de


julho, veio conferir aos netos de portugueses o direito
à nacionalidade portuguesa originária, mediante a
comprovação de uma “ligação efetiva” com Portugal, a qual,
porém, ainda não se encontra em vigor (vigorando, por
enquanto, relativamente aos netos, a aquisição por
naturalização).

O que é a “ligação efetiva”?


A ligação efetiva é uma cláusula geral, ou seja, um conceito
indeterminado, que funciona como requisito do direito à
nacionalidade portuguesa, consubstanciando-se na necessidade
do interessado possuir laços de pertença à comunidade
portuguesa.

Evolução legislativa
Na sua versão original, o artigo 9.º, alínea a), da Lei da
Nacionalidade, dispunha que “constituem fundamento de
oposição à aquisição da nacionalidade portuguesa: a) A
manifesta inexistência de qualquer ligação efectiva à
comunidade nacional”.
No âmbito de tal regime, entendia a jurisprudência portuguesa
que caberia ao Estado, através do Ministério Público, provar
que o requerente manifestamente carecia de qualquer ligação
efetiva à comunidade nacional. Noutras palavras, no âmbito de
ação judicial de oposição à aquisição da nacionalidade
portuguesa, era do Ministério Público o ônus da prova do fato
impeditivo do direito, cabendo apenas ao requerente do
processo administrativo declarar que possuía tal ligação efetiva.

Uma importante alteração veio a ser introduzida pela Lei n.º


25/94, de 19/08, passando o artigo 9.º da Lei da Nacionalidade
a dispor que constituía fundamento de oposição à aquisição da
nacionalidade portuguesa “a não comprovação, pelo
interessado, de ligação efectiva à comunidade nacional”. O
artigo 22 do Regulamento da Lei da Nacionalidade Portuguesa
foi também concomitantemente alterado no sentido de
estabelecer a necessidade do interessado instruir o
procedimento com meios de prova referentes à sua ligação
efetiva com a comunidade portuguesa.

Finalmente, a Lei Orgânica n.º 2/2006, de 17 de abril, veio


proceder a uma nova inversão da questão do ônus da prova do
preenchimento do critério da ligação efetiva. Com efeito, o
referido artigo 9.º da Lei da Nacionalidade voltou a ser
alterado, desta vez no sentido de passar a constituir
fundamento de oposição à aquisição da nacionalidade
portuguesa “a inexistência de ligação efectiva à comunidade
nacional”. Paralelamente, o Decreto-Lei n.º 237-A/2006, de 14
de dezembro, aprovou um novo Regulamento da Nacionalidade
Portuguesa, o qual, no respectivo artigo 57, n.º 1, estabelece que
“quem requeira a aquisição da nacionalidade portuguesa, por
efeito da vontade ou por adopção, deve pronunciar-se sobre a
existência de ligação efectiva à comunidade nacional”, não
estipulando qualquer necessidade de instrução do
procedimento com elementos de prova referentes ao
mencionado critério.

Portanto, de acordo com o atual regime, o interessado


limita-se a pronunciar-se, por declaração, sobre a
existência de ligação efetiva à comunidade Portuguesa,
não se lhe exigindo que comprove essa ligação.

Caberá, assim, ao Ministério Público instaurar ação de oposição


à aquisição da nacionalidade portuguesa, cabendo-lhe alegar e
provar fatos que demonstrem que o requerente (réu na ação)
não possui ligação efetiva à comunidade portuguesa.

Este entendimento tem vindo a ser seguido pela jurisprudência


mais recente do Supremo Tribunal Administrativo português,
podendo exemplificar-se com os Acórdãos de 28/05/2014 e
18/06/2014 e 25/06/2015, proferidos no âmbito dos processos,
respectivamente, 01548/14, 01053/14 e 0618/15, os quais
podem ser consultados em www.dgsi.pt.

Efeito prático
O grande efeito prático deste cenário é a desnecessidade do
interessado comprovar a sua ligação efetiva à
comunidade portuguesa, cabendo ao Ministério Público, se
assim entender, instaurar ação de oposição à aquisição da
nacionalidade portuguesa, devendo, para o efeito, alegar e
provar fatos constitutivos da inexistência da ligação efetiva.
Tendo em conta que ainda não existe acórdão uniformizador de
jurisprudência sobre esta questão, não são nulas as
possibilidades de procedência da ação instaurada pelo
Ministério Público, mas trata-se, cada vez mais, de um risco
residual.

Desta forma, casos que anteriormente eram


considerados inviáveis, pois o interessado não tinha
maneira de comprovar uma ligação efetiva com
Portugal, ganham agora uma nova esperança.

Disponível em: http://ruicastro.jusbrasil.com.br/artigos/225966785/nacionalidade-


portuguesa-dispensa-de-comprovacao-da-ligacao-efetiva