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Universidade Mandume Ya Ndemufayo

Faculdade de Direito

TRABALHO EM GRUPO DE MEDICINA LEGAL

Tema: SINDROME DA MULHER BATIDA

2019
Índice

Introdução……………………………………………………....2

Capítulo I -VIOLÊNCIA DOMÉSTICA………………………..3


1.1 Noção de violência……………………………………………………..3
1.2 Tipos de violência……………………………………………………...5
1.3 Violência contra mulher………………………………………………..7
1.4 Causas da violência…………………………………………………….8

Capítulo II - Síndrome da mulher batida…………………….10


2.1 Conceito………………………………………………………………10
2.2 O ciclo da violência…………………………………………………...11

Capítulo III- Situação jurídica da violência doméstica – síndrome da


mulher batida………………………………………………….13

3.1 Apoio Institucional…………………………………………………….15


3.2 Procedimento Criminal………………………………………………...16
Conclusão…………………………………………………………………..19
Bibliografia………………………………………………………………....20
2

Introdução

O presente trabalho versa sobre a Síndrome da Mulher Batida, problemática abordada


em sede da disciplina de Medicina Legal.

Ao discorremos sobre este problema implica falar sobre violência, e é está actualmente
uma das grandes preocupações a nível mundial, afectando a sociedade como um todo,
grupos ou famílias e ainda, o individuo de forma isolada. No entanto, face a esta
situação, no presente trabalho ao abordarmos a temática referente a Síndrome da
Mulher Batida, procuramos enquadrar no âmbito da violência nas relações de
intimidade na qual obedecemos a seguinte ordem de trabalho: no primeiro capítulo
abordaremos sobre a violência doméstica destacando as suas respectivas causas e
implicações. No segundo capítulo abordaremos acerca da Síndrome da Mulher Batida e
finalmente no terceiro capítulo falaremos da situação jurídica da violência doméstica,
seu enquadramento legal, apoio institucional e procedimento criminal.

Portanto, com este trabalho procuramos caracterizar as várias representações sociais e


manifestações de violência contra as mulheres, bem como os contornos subjacentes à lei
sobre a violência contra a mulher.

.
3

CAPITULO I - VIOLÊNCIA DOMÉSTICA


1.1 Noção de violência

Etimologicamente a palavra violência vem do latim ”violentia” que significa carácter


feroz, indomável, carácter violento, arrebatador.

O conceito etimológico de violência é caracterizado por uma determinada unanimidade,


mas o mesmo já não se verifica ao discorrer sobre este de um modo científico pelo facto
de que cada sociedade ter o seu entendimento de violência.

Deste modo, entendemos por violência como um comportamento que causa


intencionalmente um dano ou intimidação moral a outra pessoa, ser vivo ou dano a
quaisquer objectos. Tal comportamento pode invadir a autonomia, integridade física ou
psicológica e mesmo a vida de outro. É o uso excessivo de força, além do necessário ou
esperado.

A violência traduz-se num mal social, e que se tem verificado em todas as instituições
destacando-se a família o que nos levaria a reflectir sobre a violência doméstica ou
violência nas relações de intimidade.

Falar sobre violência doméstica tem sido assunto constante nos nossos dias. Sempre
houve casos conhecidos de violência doméstica, porém, as pessoas estão cada vez mais
intolerantes a ela. São vários os tipos de violência doméstica e, normalmente, há
factores de risco associados, bem como um ciclo de violência doméstica.

Neste sentido, convém, referenciar que a Organização Mundial de Saúde define a


violência doméstica como uma ameaça ou utilização intencional da força física e/ou
força psíquica, que pode ser usada contra outros, grupo ou comunidade; que ameaça ou
coloca fortemente em risco de um traumatismo, ou de prejuízo para as suas acções
psicológicas, um mau desenvolvimento ou privações.1

1
Cfr. Organização Mundial de Saúde - OMS, Relatório Mundial sobre violência e saúde, Genebra,
2002,p.5, in https://www.opas.org.br/relatorio-mundial-sobre-violencia-e-saude/,consultado a 21/08/2017.
4

Por seu turno, a Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género, define a Violência
Doméstica como: “comportamento violento continuado ou um padrão de controlo
coercivo exercido, directa ou indirectamente, sobre qualquer pessoa que habite no
mesmo agregado familiar (v.g., cônjuge, companheiro/a, filho/a, pai, mãe, avô, avó), ou
que, mesmo não coabitando, seja companheiro, ex-companheiro ou familiar. Este
padrão de comportamento violento continuado resulta, a curto ou médio prazo, em
danos físicos, sexuais, emocionais, psicológicos, imposição de isolamento social ou
privação.

O nosso legislador entende por violência doméstica, toda acção ou omissão que cause
lesão ou deformação física e dano psicológico temporário ou permanente que atente
contra pessoa humana no âmbito das relações prevista no artigo 2.º.2

A violência doméstica abarca comportamentos utilizados num relacionamento, por uma


das partes, sobretudo para controlar a outra.

O crime de violência doméstica deve abranger todos os actos que sejam reprováveis e
que sejam praticados neste âmbito. Este crime, alberga acção ou omissão de natureza
criminal, entre pessoas que residam no mesmo espaço doméstico, sejam ex-cônjuges,
ex-companheiro/a, ex-namorado/a, progenitor de descendente comum, ascendente ou
descendente, e que inflija sofrimentos, tais como: físicos, sexuais, psicológicos e
económicos.

Contudo, na sua forma mais perfeita, pessoas envolvidas na violência doméstica podem
ser casadas ou não, ser do mesmo sexo ou não, viverem juntas e até namorados. É de
referir, que todos podemos ser vítimas de violência doméstica.

2
Cfr. Art. 3 da Lei 25/11 de 14 de Julho
5

1.2 Tipos de violência

A violência doméstica representa não só a mais dolorosa ocorrência de ordem afectivo


– sentimental, por atingir o âmago da estrutura familiar, senão também um assunto da
mais alta complexidade sob o ponto de vista médico-pericial. Razão pela qual nos
propusemos em apresentar alguns tipos de manifestação de violência doméstica:

 Violência emocional/psicológica: qualquer comportamento do companheiro


que visa fazer o outro sentir medo ou inútil. Usualmente inclui comportamentos como:
ameaçar os filhos; magoar os animais de estimação; humilhar o outro na presença de
amigos, familiares ou em público, entre outros. A intimidação, perseguição e coação,
também cabe neste tipo de violência doméstica psicológica, intimidar ou atemorizar a
vítima é também violentar. Infelizmente, muitas pessoas não entendem a verdadeira
gravidade deste tipo de violência. Apesar de não ofender a integridade física, o facto de
não provocar uma dor física, não deixa de ser grave.

 Violência social: neste contexto, o isolamento social é também um tipo de


violência doméstica, e resulta das estratégias que o agressor adopta para afastar a vítima
da sua rede social e familiar. Para o agressor, se a vítima for isolada é manipulada e
controlada mais facilmente. Comportamentos como proibir a mulher de sair de casa,
sozinha ou sem o consentimento do agressor, proibi-la de trabalhar, do convívio com a
família e amigos, são exemplos deste tipo de violência.

 Violência física: qualquer forma de violência física que um agressor(a) inflige ao


companheiro(a). Este tipo de violência, abarca todos os comportamentos que
magoam fisicamente a vítima. Consiste no uso da força física com o intuito de
ferir e causar danos físicos ou orgânicos, deixando ou não marcas. Actos como
empurrar, puxar o cabelo, dar murros e estaladas, pontapés, apertar o pescoço e os
braços com força, são exemplos claros de violência doméstica, podendo atingir
formas extremamente severas, das quais resultam graves ofensas à integridade
física da vítima, podendo resultar, ainda, numa incapacidade permanente ou
mesmo na morte da vítima. Geralmente nos casos de violência física as zonas do
corpo da vítima mais atingidas são o rosto, a cabeça, o pescoço, com a tendência
de deixa-la desfigurada.
6

 Violência sexual: qualquer comportamento em que o(a) companheiro(a) força o


outro a protagonizar actos sexuais que não deseja. Alguns exemplos: pressionar ou
forçar o companheiro para ter relações sexuais quando este não quer; pressionar, forçar
ou tentar que o(a) companheiro(a) mantenha relações sexuais desprotegidas; forçar o
outro a ter relações com outras pessoas.

 Violência financeira: qualquer comportamento que intente controlar o dinheiro


do(a) companheiro(a) sem que este o deseje. Alguns destes comportamentos podem ser:
controlar o ordenado do outro; recusar dar dinheiro ao outro ou forçá-lo a justificar
qualquer gasto; ameaçar retirar o apoio financeiro como forma de controlo.

 Perseguição: qualquer comportamento que visa intimidar ou atemorizar o


outro. Por exemplo: seguir o(a) companheiro(a) para o seu local de trabalho ou quando
este(a) sai sozinho(a); controlar constantemente os movimentos do outro, quer esteja ou
não em casa.
 Moral: entendida como qualquer conduta que configure calúnia, difamação e
injúria;

Para além das supracitadas formas de violência doméstica, a Lei 25/11 de 14 de Julho, no
seu artigo 3º., faz referência a outros tipos de violência doméstica, designadamente: a
patrimonial, verbal e o abandono familiar.
7

1.3 Violência contra mulher


A violência contra a mulher é justificada por atitudes e comportamentos que o agressor
reputa ameaçadores da sua autoridade, sendo este fenómeno uma tentativa de auto-
afirmação e um mecanismo de legitimação do poder do agressor e de subjugação da
vítima. Tem sido amplamente estudada devido aos altos níveis de prevalência que se
tem a nível mundial, as quais vêm sofrendo um aumento nos últimos anos.

O considerável aumento da violência contra as mulheres, tem ocasionado um grande


impacto não só a nível social, mas também no âmbito de matéria de saúde pública,
sendo considerado desde 1998, pela Organização Mundial da Saúde, (OMS), como
prioridade internacional para os serviços de saúde.

A violência contra as mulheres é um fenómeno complexo e multidimensional, que


atravessa classes sociais, idades e religiões, e tem contado com reacções de não reacção
e passividade por parte das mulheres, colocando-as na procura de soluções informais
e/ou conformistas, tendo sido muita a relutância em levar este tipo de conflitos para o
espaço público, onde durante muito tempo foram silenciados.

A reacção de cada mulher à sua situação de vítima é única. Estas reacções devem ser
encaradas como mecanismos de sobrevivência psicológica que, cada uma, acciona de
maneira diferente para suportar a vítima.

Muitas mulheres não consideram os maus-tratos a que são sujeitas, o sequestro, o dano,
a injúria, a difamação ou a coacção sexual e a violação por parte dos cônjuges ou
companheiros como crimes.

As mulheres encontram-se, na maior parte dos casos, em situações de violência


doméstica pelo domínio e controlo que os seus agressores exercem sobre elas através de
variadíssimos mecanismos, tais como: isolamento relacional; o exercício de violência
física e psicológica; a intimidação; o domínio económico, entre outros.

A violência doméstica não pode ser vista como um destino que a mulher tem que aceitar
passivamente. O destino sobre a sua própria vida pertence-lhe, deve ser ela a decidi-lo,
sem ter que aceitar resignadamente a violência que não a realiza enquanto pessoa.
8

1.4 Causas da violência


É difícil destacar com precisão as reais causas que levam a violência contra a mulher,
por ser um problema bastante complexo e estas variarem em função de cada sociedade.
Mas é de realçar que é um problema historicamente associado as desigualdades de
poder, aos valores culturais, que subalternizam a própria mulher a um conjunto de
preceitos e padrões, que permitem justificar e perpetuar essa prática.

Deste modo procuramos abordar as causas que mais têm-se verificado no nosso país.

 Causas Socioculturais:

Em sede destas causas pode-se verificar alguns preconceitos masculinos que de certo
modo institucionalizam o controlo das mulheres pelos cônjuges através de uma estrutura
discriminatória de distribuição de papéis, privilégios, direitos e deveres, limitando as
mulheres ao trabalho doméstico, o cuidar das crianças e o apoio emocional das famílias.
Estes factores influenciam em grande medida na fraca emancipação da mulher na
sociedade pois, a mulher, desde criança que nos ritos de iniciação feminina é educada a
ser submissa ao homem. Para salvaguardar o bem-estar do lar, é educada a sofrer e a
suportar as manias masculinas3, vendo no matrimónio um factor de aceitação social.

 O uso excessivo de bebidas alcoólicas;

O consumo excessivo de bebidas alcoólicas tem sido a principal causa dos casos de
violência doméstica ocorridos em Angola, declarou em Luanda a ministra da Família e
Promoção da Mulher. O fenómeno do alcoolismo tem causado consequências drásticas
na nossa sociedade, dando origem a casos de maridos que matam mulheres,
influenciarem negativamente no processo de desenvolvimento do país.

3
Passim, p. 10.
9

 Dependência económica da mulher

A dependência económica constitui um factor de violência contra a mulher sendo que


no nosso país ainda há uma diferença acentuada do género e esse factor as torna
economicamente dependente dos maridos, estes que procuram tirar vantagens de tal
situação de modos a controlar o comportamento das mulheres, violentando-as ou
expondo-as a subserviência.

Neste quadro a mulher sente-se financeiramente presa na relação, pois não tem como
garantir o seu sustento fora do matrimónio.

Ainda pudemos destacar outros factores como:

 A pobreza social e a falta de diálogo familiar;

 A história pessoal e familiar, como por exemplo a história pessoal de maus-


tratos e violência entre os pais;

 Stress ambiental, psicológico e frustrações inerentes a dificuldades


quotidianas;

 Inadequado suporte familiar e comunitário.

Em síntese, dentre as múltiplas causas que motivam a violência contra a mulher


procuramos discorrer sobre as que mais têm se destacados no nosso país. E analisadas
tais causas percebe-se que estas são transversais à agressão física, ao abuso sexual, e às
ofensas morais usando os homens como meios de reafirmação do seu poder, e tendo em
conta o modo de como é construída a nossa sociedade permite-se que a violência seja
aceite, perdoada, normalizada e ignorada tanto pelos indivíduos como pelas instituições
sociais.
10

Capítulo II - SÍNDROME DA MULHER BATIDA

2.1 Conceito

Etimologicamente a palavra síndrome (do grego "syndromé", cujo significado é


"reunião") é um termo bastante utilizado em Medicina e Psicologia para caracterizar o
conjunto de sinais e sintomas que definem uma determinada patologia.

O conceito de Síndrome da mulher Batida foi desenvolvido por Leonor Edna Walker,
pesquisadora e psicóloga norte-americana que trabalha com este tipo de violência há
mais de quarenta anos.

Para Walker a SMB é o conjunto de sintomas psicológicos geralmente passageiros que


são amiúde, observados num padrão reconhecível, especificamente em mulheres que
afirmam ter sido física, sexual e ou psicologicamente abusadas de forma grosseira pelos
seus companheiros masculinos.

Em 1979, publicou as conclusões do seu estudo baseado em testemunhos de mulheres


agredidas com quem trabalhava, e percebeu que essas mulheres não são agredidas o
tempo todo nem da mesma maneira, mas há fases da violência que têm uma duração
variada e manifestações diferentes.
11

2.2 O CÍCLO DA VIOLÊNCIA


Este é o que tem sido chamado ciclo da violência de Leonor Walker, uma das teorias
mais difundidas sobre as fases que a violência contra a mulher apresenta. Segundo a
autora, os episódios de violência doméstica se dividem em três fases distintas que
passaremos a descrever:

 1. Aumento de tensão: nesta primeira fase a violência é apenas verbal ou


psicológica não alcançando confrontos físicos. As tensões acumuladas no
quotidiano, as injúrias e as ameaças tecidas pelo agressor, criam, na vítima, uma
sensação de perigo eminente.
 2. Ataque violento: o agressor maltrata física e psicologicamente a vítima;
estes maus-tratos tendem a escalar na sua frequência e intensidade.
 3. Lua-de-mel: o agressor envolve agora a vítima de carinho e atenções,
desculpando-se pelas agressões e prometendo mudar (nunca mais voltará a
exercer violência).

Esta situação é impeditiva que a pessoa perceba as incompatibilidades com o outro,


culpabilizando-se, procurando transformações no seu próprio comportamento e
permitindo também que factores externos influenciem as suas atitudes e avaliações4.

De acordo com a Dra. Leonor Walker, para que uma mulher se encontre no estado de
Síndrome Da Mulher Batida, deve se verificar pelo menos duas das fases do ciclo da
violência.

A síndrome da mulher batida tem quatro características principais:

1. A mulher acredita que a violência é culpa sua;

4
Cfr. MARQUES, Ana Paula Teixeira A Violência Doméstica: A intervenção dos técnicos de
acompanhamento na construção de projectos de vida alternativos Porto, 2009, p 46.
12

2. A mulher tem uma inabilidade para colocar a responsabilidade da


violência sobre Outrem;
3. A mulher teme por sua vida e/ou de seus filhos;
4. A mulher tem uma crença irracional de que o agressor é omnipresente ou
omnisciente.

Deste modo, a mulher batida pode apresentar características ou traços provocados pelo
abuso que a tornam com mais propensão a manter-se na relação e menos capaz de
escapar. A crença da mulher batida, de que a fuga é impossível e a depressão que
acompanha esta crença levam à armadilha na relação. Exibindo assim baixa auto-
estima, dificuldades cognitivas como por exemplo, dificuldades de concentração,
memorização e de raciocínio, sintomas de mal-estar físico como cansaço, insónias,
dores de cabeça, depressão, ansiedade, entre outros.

A abordagem sobre a síndrome da mulher batida reveste-se assim de uma importância,


porquanto tal síndrome resulta de um distúrbio pós-traumático decorrente de abusos
físicos, sexuais e psicológicos vivenciados pelas mulheres batidas, sendo aceite por
especialistas de várias áreas (psicólogos, médicos, jurisconsultos, assistentes sociais)

Ora, as famílias patriarcais, desde sempre, consideraram ao homem o direito absoluto e


o poder ilimitado sobre a sua mulher e filhos. Em contrapartida, porque a história é feita
de avanços e de retrocessos, de conquistas e de desafios, a violência praticada contra a
mulher só se tornou um crime e um problema social de extrema gravidade, quando foi
reconhecido, publicamente, a “síndrome da mulher batida”
13

CAPÍTULO III - SITUAÇÃO JURÍDICA DA VIOLÊNCIA


DOMÉSTICA – SÍNDROME DA MULHER BATIDA

O crime de violência doméstica proliferou na nossa sociedade, e é necessário


compreender as causas e os efeitos, bem como apresentar algumas soluções para
apaziguar este nefasto fenómeno social.

Considerando que a família é a instituição fundamental da sociedade, tal requer uma


atenção redobrada, desta forma a Constituição da República consagra princípios
fundamentais para a protecção da mesma bem como da dignidade da pessoa humana,
proibindo qualquer comportamento que atente contra a integridade moral, intelectual e
física das pessoas, art. 30.º e 31.º da C.R.A.

Em sede do direito civil no seu art. 70.º há uma tutela geral dos direitos de
personalidade cingindo-se na honra em sentido amplo, a reputação ou bom nome, ao
decoro, e ao crédito. Relativamente à tutela penal, refiram-se os artigos 407.º ss do
código penal5. Já no que toca ao direito costumeiro, esta problemática da violência
contra a mulher não é muito levada em consideração por razões socioculturais como por
exemplo: o facto de o homem ser visto como o patrão da mulher, exercendo esta um
papel secundário no lar.

Anteriormente não existia uma regulamentação específica no Código Penal, as ofensas


resultantes destas práticas eram reguladas vagamente nos termos dos artigos 359.º ss
(Secção IV ferimentos, contusões e outras ofensas corporais voluntárias), bem como
pela Lei nº 01/88 de 20 de Fevereiro.

No ano de 2011 o ordenamento jurídico angolano passa a incorporar, depois da


competente promulgação, a prática da violência doméstica como crime público, na
sequência da aprovação pela Assembleia Nacional da ``Lei contra a Violência
Doméstica, ´´ procurou-se alcançar com esta lei a conciliação e coesão familiar, a
reinserção e protecção da vítima e do agente do crime.

5
Burity da Silva, Calos Alberto, Teoria Geral do Direito Civil, 2 ed, Luanda, 2014, 142 e ss.
14

A lei 25/11 trouxe ganhos legislativos no que diz respeito a regulamentação da matéria.
Esta, estabeleceu um regime jurídico de protecção e assistência das vítimas, prevendo
apoio institucional especializado, bem como, incutindo um espírito de
responsabilização, civil e criminal aos agentes da violação. Os seus objectivos
primordiais centram-se no desencorajamento de qualquer acto de violência e na resposta
eficaz e integrada dos problemas, criando espaço de aconselhamento para que a vitima
saiba lidar com os efeitos dos maus tratos.

Esta lei apesar de vigorar há quase oito anos, a sua longevidade não amadureceu a sua
aplicação prática, sendo ainda deficientemente aplicada e contendo incongruências no
plano de apoio e protecção as vítimas, mas o Direito não se apresenta como uma
realidade estanque e por isto, com a criação de instituições relativamente fortes,
acredita-se que tal lei poderá fazer face a todos os problemas suscitados. Deste modo o
Estado com o objectivo de coibir a violência contra a mulher deve procurar a promoção
e realização de campanhas educativas de prevenção, celebração de convénio, protocolos
ou outros instrumentos de parceria entre órgãos governamentais ou não governamentais,
bem como promover o respeito no meio dos órgãos de comunicação social, dos valores
éticos e sociais da pessoa e da família.
15

3.1 Apoio Institucional


Segundo Dobash & Dobash6, à medida que os episódios de violência se intensificam em
frequência e severidade, as lesões se tornam cada vez mais graves e é fundamental que
haja vários tipos de apoios à vítima.

As mulheres vítimas de violência só tendem a procurar apoio quando a situação já se


encontra num estado crónico, isto pelo facto destas acreditarem que sendo a primeira
vez, não haver necessidade de procurar por apoios institucionais, e outras são
influenciadas por conselhos que destacam a violência como uma simples fase do
relacionamento.

No nosso estudo pudemos constatar que as mulheres que são vítimas têm pouco ou
nenhum apoio institucional, sendo que em caso de desentendimento conjugal ou
conflito, o percurso de resolução de conflitos é, primeiro, tentar resolver a questão no
seio do casal e, de seguida, discutir o assunto em família, e ainda por fim, a separação
sendo que estas muitas das vezes vão a busca de uma responsabilização criminal do
agente.

Para além destas instâncias, outras também recorridas são, o padrinho, um pastor e
outras ainda chegam a procurar ajuda na delegação local da OMA.

No nosso país, as mulheres batidas são caracterizadas por um sentimento de descrédito


das instituições como a polícia nacional que dentre vários motivos destaca-se o facto de
não se encontrarem criadas comissões especializadas para o atendimento de casos de
violência doméstica nas principais unidades de polícia bem como em sede dos tribunais.

6
Cfr.DOBASH, R Emerson & DOBASH, Russell, Battered woman syndrome: tool of justice or false
hope in self-defense cases, 2nd edition, california, 2005, pp241-255
16

3.2 Procedimento Criminal

Ao nos referirmos do procedimento criminal, isto em sede do Direito processual penal


importa destacar que a acção penal é pública e compete ao Ministério Público exerce-
la7.

A violência doméstica assume a natureza de crime público, o que significa que o


procedimento criminal não está dependente de queixa por parte da vítima, bastando uma
denúncia ou o conhecimento do crime, para que o Ministério Público promova o
processo.

No âmbito da Lei contra a Violência Doméstica, (Lei nº 25/11 de 14 de Julho), faz-se a


distinção entre os crimes que admitem desistência (art. 24.º) e crimes que não admitem
desistência (art.25.º).

Via de regra, os crimes públicos são caracterizados por não admitirem desistência. Não
obstante o crime de violência doméstica em casos previstos no nº 3 do art. 24.º da lei
supracitada admitir desistência, o mesmo tem a natureza de crime público dada a
especificidade do mesmo.

O procedimento criminal inicia-se com a notícia do crime, e pode ter lugar através da
apresentação de queixa por parte da vítima de crime, ou da denúncia do crime por
qualquer pessoa ou entidade.8

Apresentada a denúncia da prática do crime de violência doméstica, não havendo


indícios de que a mesma é infundada, as autoridades ou órgãos de polícia criminal
competentes atribuem à vítima, para todos os efeitos legais, o estatuto de vítima. No
mesmo acto é entregue à vítima documento comprovativo do referido estatuto, que
compreende os direitos e deveres estabelecidos na lei, além da cópia do respectivo auto
de notícia ou da apresentação de queixa.

A vítima do crime pode pedir uma indemnização ao agressor pelos danos que tenha
sofrido. Essa indemnização é requerida através da formulação de um pedido de
indemnização civil, efectuado no respectivo procedimento criminal. A mesma

7
Cfr. Grandão Ramos, Direito processual penal noções fundamentais, LER & ESCREVER, Luanda, pag.161
8
Cfr. arts. 22 ss da Lei 25/11
17

indemnização será determinada tendo em conta a situação económica dos envolvidos e a


gravidade da agressão, agressão esta aferida pela actuação do Médico-legista.9

O pedido de indemnização civil abrange os seguintes danos:

1. Danos patrimoniais que englobam:

 Dano emergente: prejuízo causado nos bens ou nos direitos existentes à data da
lesão, por exemplo, tratamentos hospitalares, despesas com medicamentos,
deslocações a consultas médicas;

 Lucro cessante: os benefícios que o lesado deixou de obter com a prática do


crime, por exemplo, salários que a vítima deixou de auferir enquanto esteve
incapacitada para o trabalho;

2. Danos morais (ou não patrimoniais): são os prejuízos que, sendo insusceptíveis
de avaliação pecuniária, dado estar em causa a saúde, o bem-estar, a honra e o bom
nome da vítima, podem apenas ser compensados com a obrigação imposta ao autor do
crime, por exemplo, dor física e dor psíquica (resultante de deformações físicas
sofridas), perda do prestígio ou reputação entre outros.

No âmbito da intimidade, vitima e agressor têm uma relação entre si e o homicídio,


habitualmente, é perpetrado com o objectivo de lhe colocar termo.

O homicídio pode ser definido genericamente como crime contra a vida que resulta na morte
da vítima. O homicídio pode incluir as seguintes tipologias: homicídio qualificado, homicídio
privilegiado, homicídio por negligência e outras formas.

No que respeita a morte da vítima, não encontramos uma regulamentação na lei 25/11
de 14 de Julho, e por força do carácter subsidiário, que a lei penal tem (art., 34.º da Lei
25/11 de 14 de Julho), devemos a ela recorrer pois que, consagra e pune o crime de
homicídio, art. 349.º e ss, constituindo circunstância agravante quando a vítima for
esposa, nº 27 do art.34.º

A vítima de violência domestica, em alguns casos, é quem mata. Depois de muito a ser
vitimada, quer seja para se defender do agressor quer por percepcionar estar em perigo
eminente acaba por se converter em homicídio.

9
Perito social que actua na área penal e civil auxiliando o juiz a emitir a sua opinião técnica sobre os
vestígios no corpo humano que denuncia se houve crime, suicídio ou acidente.
18

Nestes termos devemos dar respostas as seguintes questões: agiu a vítima no momento
em que sofria a agressão? Ou será que esta reagiu num momento posterior a agressão?

Na primeira hipótese verificar-se-ia legitima defesa se preenchido os seus requisitos


(que tendo em conta os seus requisitos seria difícil de provar), e sendo esta uma das
causas de exclusão da ilicitude ficaria a ‘’mulher batida’’ ilibada de qualquer
responsabilidade, mas em situações de não se verificarem requisitos da legítima defesa,
sendo ainda uma agressão actual, acreditamos na possibilidade de se fazer valer de uma
causa de atenuação que resulta da provocação do agente nos termos do art. 370.º do
Código Penal.

Ao respondermos a segunda questão, reagindo a ‘’mulher batida’’ num momento


posterior a agressão do agente, esta situação poderia nos levar a configurar uma situação
de premeditação por parte da ‘’mulher batida’’, necessário seria, a vítima fazer prova de
que tem sido alvo de reiteradas agressões, para efeitos de atenuação, nos termos do art.
94.º Código Penal. Portanto é entendimento nosso que em situações que muitas
mulheres batidas que matam os seus agressores mesmo em situações fora de uma
confrontação directa, indubitavelmente o fazem em legitima defesa, pese embora não
num verdadeiro sentido técnico-jurídico.
19

Conclusão

O problema da violência doméstica contra a mulher se apresenta como um problema


que precisa ser percebido em sua especificidade, tanto no âmbito sociológico,
psicológico quanto legal. Políticas públicas de segurança voltadas para evitar tais
agressões são uma necessidade premente, visto que agressões simples, com o tempo,
tendem a se tornar agressões mais graves, e inclusive, assassinatos. A mesma questão se
aplica ao posicionamento do sistema judiciário e dos seus órgãos complementares.

A aplicação da Lei e a violência contra mulher, são tão inconciliáveis por motivos de
ordem cultural, social e política. Fala-se por exemplo, de tratamentos ou
acompanhamentos em centros especializados (art.12 da Lei 25/11), mas a sua
aplicabilidade está longe de ser, pelo facto de não existirem, se calhar, instituições fortes
para fazer valer esses objectivos. Por outro lado, a cultura de consultar um psicólogo
não nos é característica, substituímos os psicólogos pelos líderes religiosos e amigos.

No entanto, a lei apresenta um leque de medidas a serem implementadas que


habilitariam a vítima a se enquadrar na sociedade. Mas convém assinalar que a vítima
não existe sem agressor, por isso, o legislador aborda pouco sobre as consequências e
tratamentos para o agressor.
20

Bibliografia
Burity da Silva, Calos Alberto, Teoria Geral do Direito Civil, 2 ed, Luanda, 2014
DOBASH, R Emerson & DOBASH, Russell, Battered woman syndrome: tool of justice or false
hope in self-defense cases, 2nd edition, california, 2005.

Grandão Ramos, Direito processual penal noções fundamentais, LER & ESCREVER,
Luanda hope in self-defense cases, 2nd edition, california, 2005.

MARQUES, Ana Paula Teixeira A Violência Doméstica: A intervenção dos técnicos de


acompanhamento na construção de projectos de vida alternativos Porto, 2009.

https://repositorio-aberto.up.pt/bitstream/10216/82495/2/113302.pdf

Https://www.opas.org.br/relatorio-mundial-sobre-violencia-e-saude.