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Da Atipicidade da conduta

O delito de uso de documento falso pressupõe a efetiva utilização do documento,


não sendo, portanto, razoável imputar à paciente conduta delituosa consistente tão só na
circunstância de tê-lo em sua posse.

Nesse sentido:

HABEAS CORPUS SUBSTITUTIVO DE REVISÃO CRIMINAL. USO


DE DOCUMENTOFALSO 1. PLEITO DE ABSOLVIÇÃO.
POSSIBILIDADE. EXAME SEM PROFUNDOREVOLVIMENTO
FÁTICO-PROBATÓRIO. 2. PORTE DE DOCUMENTO
FALSO.ATIPICIDADE DA CONDUTA. 3. ORDEM CONCEDIDA.
1. O habeas corpus, ação de natureza constitucional, é antídoto deprescrição
restrita, que se presta a reparar constrangimento ilegalevidente,
incontroverso, indisfarçável e que, portanto, mostra-se deplano comprovável
e perceptível ao julgador. Não se destina àcorreção de equívocos,
controvérsias ou situações que, ainda queexistentes, demandam, para sua
identificação e correção, um amplo eaprofundado reexame do conjunto
fático-probatório, hipótese que nãose configura no caso em exame, visto que
o pleito de absolviçãosustenta-se no argumento de que o documento não foi
utilizado pelopaciente, tendo sido apreendido em revista pessoal promovida
pelospoliciais, circunstância que restou devidamente consignada
nasdecisões proferidas pelas instâncias ordinárias.2. O delito de uso de
documento falso pressupõe a efetiva utilizaçãodo documento, sponte propria,
ou quando reclamado pela autoridadecompetente, não sendo, portanto,
razoável, imputar ao pacienteconduta delituosa consistente tão só na
circunstância de tê-lo emsua posse.3. Habeas corpus concedido.

(STJ - HC: 145500 RS 2009/0165170-0, Relator: Ministro MARCO


AURÉLIO BELLIZZE, Data de Julgamento: 01/12/2011, T5 - QUINTA
TURMA, Data de Publicação: DJe 19/12/2011)

Assim também decidiu a Quinta Turma do Superior Tribunal de Justiça:


PENAL. USO DE DOCUMENTO FALSIFICADO. CARTEIRA
NACIONAL DE HABILITAÇÃO TIPICIDADE. POSSE. I ?? A simples
posse de documento falso não basta à caracterização do delito previsto
no art. 304 do Código Penal, sendo necessária sua utilização visando
atingir efeitos jurídicos. O fato de ter consigo documento falso não é o
mesmo que fazer uso deste. II ?? Se o acusado em nenhum momento
usou ou exibiu a documentação falsificada, tendo a autoridade policial
tomado conhecimento de tal documento após despojá-lo de seus
pertences, não se configura o crime descrito no art. 304 do Código
Penal. Recurso desprovido.(STJ - REsp: 256181 SP 2000/0039475-0,
Relator: Ministro FELIX FISCHER, Data de Julgamento: 19/02/2002,
T5 - QUINTA TURMA, Data de Publicação: DJ 01.04.2002 p.
193LEXSTJ vol. 152 p. 341RJADCOAS vol. 38 p. 558RSTJ vol. 156 p.
495)

O crime de uso de documento falso se consuma com o uso, independentemente


da obtenção de qualquer vantagem. Em nenhum momento ficou demonstrado que a autora
possuía a intenção de fazer uso desses documentos, sendo sua conduta desconstituída de dolo.

Em audiência Realizada no dia 21/02/2018 (Evento 17), a ré quando


indagada reafirmou que não estava dirigindo e não fazia o uso da carteira!

Atenta-se ainda que, em nenhum momento a ré́ tomou a iniciativa de apresentar


a carteira de motorista aos policiais federais. Em verdade, o referido documento foi confiscado
pela equipe policial para conferencia mesmo que não houvesse qualquer razão para tanto, pois
a ré́ não era a condutora de nenhum dos veículos envolvidos no acidente, mas tão somente
uma passageira.

Importante frisar que deve estar presente o dolo para configurar o crime, a
consciência de que o agente está utilizando um documento falso, caso contrário o fato será
atípico. Não prevendo o Código Penal a pratica desse delito na modalidade culposa, é atípica
a conduta da ré́ , pelo o que deve ser absolvida sumariamente, com fulcro no artigo 397, inciso
III, do Código de Processo Penal.

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