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Texto integrando dos Anais [recurso eletrônico] do IV Encontro Estadual de História - Ensino de

história no Amazonas, democracia e desigualdade. Organização: Keith Valéria de Oliveira Barbosa;


Barbosa
Leandro Coelho de Aguiar ... [et al.]. - 1. ed. -- Manaus: Universidade Federal do Amazonas, 2018.

Instituto de Filosofia, Ciências Humanas e Sociais – IFCHS


Programa de Pós
Pós-Graduação em História – PPGH

ANAIS

IV Encontro Estadual de História

Ensino de história no Amazonas, democracia e


desigualdades

ORGANIZADORES
Keith Valéria de Oliveira Barbosa
Leandro Coelho de Aguiar
James Roberto Silva
Júlio Claudio da Silva

ANAIS ELETRÔNICOS
Manaus - 2018

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Texto integrando dos Anais [recurso eletrônico] do IV Encontro Estadual de História - Ensino de
história no Amazonas, democracia e desigualdade. Organização: Keith Valéria de Oliveira Barbosa;
Leandro Coelho de Aguiar ... [et al.]. - 1. ed. -- Manaus: Universidade Federal do Amazonas, 2018.

Universidade Federal do Amazonas – UFAM

Instituto de Filosofia, Ciências Humanas e Sociais - IFCHS

Programa de Pós-Graduação em História – PPGH

IV Encontro Estadual de História - Ensino de história no Amazonas, democracia e


desigualdades.

Promoção
ANPUH Brasil, PROEXT - UFAM.

Comitê Organizador do Evento:


Dra. Keith Barbosa – UFAM
Dr. Julio Claudio da Silva – UEA
Dr. James Roberto Silva – UFAM
Marcos Vinicius Ribeiro Alvarenga – UFAM
Girlane Santos da Silva – UFAM
Alexandre da Silva Santos – UFAM

Comitê Técnico-Científico do Evento:


Dr. Davi Avelino Leal – UFAM
Dr. Jaime Ricardo Teixeira Gouveia – UFAM
Dra. Joana Campos Clímaco – UFAM
Dr. Glauber Cícero Ferreira Biazo – UFAM
Dra. Maíra Chinelatto Alves – UFAM
Me. Leandro Coelho de Aguiar – UFAM
Dr. Daniel Souza Barroso – UFPA
Dr. Gustavo Pinto de Sousa – UFOPA
Dr. Francisco Jorge dos Santos
Dr. Auxiliomar Silva Ugarte

Comissão Organizadora dos Anais


Dra. Keith Barbosa – UFAM
Dr. Julio Claudio da Silva – UEA
Dr. James Roberto Silva – UFAM
Me. Leandro Coelho de Aguiar – UFAM

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história no Amazonas, democracia e desigualdade. Organização: Keith Valéria de Oliveira Barbosa;
Leandro Coelho de Aguiar ... [et al.]. - 1. ed. -- Manaus: Universidade Federal do Amazonas, 2018.

E56a Encontro Estadual de História (4. : 2018 : Manaus)


Anais [recurso eletrônico]: ensino de história no Amazonas,
democracia e desigualdades / Organização: Keith Valéria de Oliveira
Barbosa ... [et al.]. -- 1. ed. -- Manaus: Universidade Federal do
Amazonas, 2018.
620p. : il., color.

ISBN: 978-85-526-0060-2

Disponível em: http://www.ppgh.ufam.edu.br/

1. História – Ensino – Amazonas. 2. Amazonas – Democracia. 3.


Amazonas – Desigualdades. I. Barbosa, Keith Valéria de Oliveira
(Org.). II. Aguiar, Leandro Coelho de (Org.). III. Silva, James Roberto
(Org.). IV. Silva, Julio Claudio da (Org.) V. Universidade Federal do
Amazonas. Programa de Pós-Graduação em História.

CDU 94(811.3)

Observações:
a) Todas as questões tratadas e abordadas nos textos que integram esta publicação são de
exclusiva responsabilidade dos respectivos autores.
b)Como critério de organização dos textos utilizamos a ordem alfabética dos autores.

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história no Amazonas, democracia e desigualdade. Organização: Keith Valéria de Oliveira Barbosa;
Leandro Coelho de Aguiar ... [et al.]. - 1. ed. -- Manaus: Universidade Federal do Amazonas, 2018.

SUMÁRIO

Apresentação, p. 09

Textos

CRIME, FÉ E OBRAS: A TRAJETÓRIA DE VIDA DE RAIMUNDO LUCAS DE JESUS,


PASTOR DA IGREJA CARCERÁRIA EM PARINTINS (AM)............................................... p. 10
Alain Martins Pereira

A LITERATURA COMO FERRAMENTA PARA O ENSINO DE HISTÓRIA DAS ÁFRICAS.


............................................................................................................................................................p. 19
Alexandre da Silva Santos

A CONSTRUÇÃO DE UMA IDENTIDADE TRABALHISTA DURANTE A DÉCADA DE 1930


NO AMAZONAS.............................................................................................................................. p.29
Amaury Oliveira Pio Junior

VILAS DE CASAS EM MANAUS (1900-1920): HERANÇA CULTURAL E ANTIGAS


FORMAS DE MORADIA............................................................................................................... p.40
Ana do Nascimento Guerreiro

MUSEU AMAZÔNICO E A PRESERVAÇÃO DO PATRIMÔNIO DOCUMENTAL: AS


MEMÓRIAS ATRAVÉS DAS FALAS DE SEUS EX DIRETORES..........................................p.51
Ana Estela dos Santos Ferreira
Leandro Coelho de Aguiar

IRMÃS DA CONSOLATA: DESAFIOS DOS PRIMEIROS ANOS 1949-1974........................p. 64


Andressa Ferreira Félix

BATIZADOS, MERCADORIAS, RAPTO E TRÁFICO, TRABALHAORES E AIAS:


INFÂNCIAS INDIGENAS NA CAPITAL DA BORRACHA – MANÁOS 1880 – 1907...........p. 70
Bruno Miranda Braga

A FESTA DE IEMANJÁ REPRESENTADA POR CARYBÉ E ODORICO TAVARES........p. 86


Bruno Rodrigues Pimentel

HISTÓRIA ORAL E MEMÓRIA: CLINTON THOMAS E A IGREJA DE CRISTO EM


URUCARÁ........................................................................................................................................ p.96
César Aquino Bezerra
Júlio Cláudio da Silva

A IMPORTÂNCIA DO ENSINO DE HISTÓRIA PARA A CONSCIÊNCIA HISTÓRICA E


POLÍTICA, p 109
Daiane Cristina Souza de Souza

HISTÓRIA ORAL E MIGRAÇÃO (APONTAMENTO DE PESQUISA) DISCRIMINAÇÃO E


PRECONCEITO: OS INDÍGENAS URBANOS DE PARINTINS...........................................p. 118
Edgar Viana

MULHERES INDÍGENAS CRISTÃS: ESTRATÉGIAS DE RESISTÊNCIA EM UM MUNDO


COLONIAL CRISTÃO (SÉCULOS XVII-XVIII),....................................................................p. 124
Érica Garcia de Freitas
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O SERVIÇO DE PROTEÇÃO AO ÍNDIO, A PACIFICAÇÃO E OS ÍNDIOS DO RIO


JAUAPERY.....................................................................................................................................p. 131
Evelyn Marcele Campos Ramos

“EU SOFRI MUITO NA JUTA”: HISTÓRIA E MEMÓRIA DOS TRABALHADORES DA


JUTA DA COMUNIDADE SÃO SEBASTIÃO DA BRASÍLIA PARINTINS-AM (1950-
1980).................................................................................................................................................p. 141
Everton Dorzane Vieira
Júlio Cláudio da Silva

DO REPERTÓRIO ÀS PESSOAS: UM OLHAR PARA AS PRÁTICAS MUSICAIS DE


FUNÇÃO RELIGIOSA NA CATEDRAL NOSSA SENHORA DA CONCEIÇÃO A PARTIR
DO FUNDO DE DOCUMENTOS MUSICOGRÁFICOS RECOLHIDO AO ARQUIVO DA
CÚRIA METROPOLITANA DA ARQUIDIOCESE DE MANAUS....................................... p. 154
Fernando Lacerda Simões Duarte

POVOS INDÍGENAS E REGIME CIVIL-MILITAR NO BRASIL: AGÊNCIAS INDÍGENAS


NA LUTA PELA AUTODETERMINAÇÃO E RECONHECIMENTO DA DIVERSIDADE E DA
DIFERENÇA...................................................................................................................................p. 165
Fernando Roque Fernandes
Eduardo Gomes da Silva Filho

UMA “DÁDIVA DO CÉU PARA ALÍVIO DA HUMANIDADE”: A IGREJA CATÓLICA E AS


ESTRATÉGIAS DE DISSEMINAÇÃO DA VACINA EM PORTUGAL NO INÍCIO DO
SÉCULO XIX.................................................................................................................................p. 174
Fillipe dos Santos Portugal

O MUSEU COMO RECURSO DIDÁTICO EM HISTÓRIA: O TERREIRO DE CANDOMBLÉ


DA MÃE YATYLISSÁ EM BOA VISTA-RR, COMO PROPOSTA DE MONTAGEM DE
MUSEU NA ESCOLA................................................................................................................... p. 185
Fylippio de Almeida Santos Castro

CHARGES COMO UMA ATIVIDADE CRÍTICA DO ENSINO DE HISTÓRIA NA ESCOLA


ESTADUAL DOM GINO MALVESTIO.....................................................................................p. 192
Guilherme Maciel
Matheus Rodrigues
Arcângelo Ferreira

A DOCUMENTAÇÃO DO PORTO DE MANAUS: CONSIDERAÇÕES ACERCA DE SUA


HISTORICIDADE E O (DES) CASO COM O PATRIMÔNIO DOCUMENTAL.................p. 204
Janine Rodrigues Saraiva Maria

PATRIMÔNIO E INTERPRETAÇÕES HISTÓRICAS: UMA ANÁLISE DOS PAINÉS


ESCULTÓRICOS DA PRAÇA DA LIBERADDE, PARINTINS/AM.................................... p. 215
Jessica Dayse Matos Gomes
Lucileni de Souza Meneses

“PROCURAÇÃO DE NEGROS” MEMÓRIA, HISTÓRIA ORAL E HISTÓRIA NO


MOVIMENTO QUILOMBOLA DO ANDIRÁ, FRONTEIRA AMAZONAS/PARÁ........... p. 226
João Marinho da Rocha

O DOCUMENTO ARQUIVÍSTICO DIGITAL COMO PATRIMÔNIO DOCUMENTAL A


SER PRESERVADO: CONSIDERAÇÕES ACERCA DO USO DO E-ARQ BRASIL........ p. 239

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Jorge Vicente Borges Lira

MONTEIRO LOPES, O DESEMBARGADOR E O BISCOITO.............................................p. 253


Juarez Clementino da Silva Jr

INSTITUTO GEOGRÁFICO E HISTÓRICO DO AMAZONAS: CEM ANOS DE


PRESERVAÇÃO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO..................................................................p.261
Kelly Cristine Oliveira do Nascimento

RESTAURAÇÃO DO PATRIMÔNIO DO AMAZONAS: O CASO DOS LIVROS DE


REGISTRO CIVIS DO INSTITUTO DE IDENTIFICAÇÃO “ADERSON CONCEIÇÃO DE
MELO”............................................................................................................................................p. 269
Kathyuscia Castilho Correa

CLUBES E ASSOCIAÇÕES RECREATIVAS: ENTRE A SOCIABILIDADE E A


CRIMINALIZAÇÃO DE PRÁTICAS SOCIAIS EM MANAUS, 1890-1910..........................p. 282
Kívia Mirrana de Souza Pereira

JOGO DA MEMÓRIA COMO PRÁTICA EDUCATIVA....................................................... p. 295


Laise Carvalho de Oliveira

CRIME E CRIMINALIDADE PRATICADOS POR ESCRAVOS NA MANAUS


OITOCENTISTA.......................................................................................................................... p. 302
Laura Stella Passador de Luiz Blanco

A RÁDIO ESCOLA COMO FERRAMENTA DE ENSINO-APRENDIZAGEM PARA O


ENSINO DE HISTÍORIA E DIREITOS HUMANOS............................................................... p. 318
Letícia Araújo Brandão
Maxlander Dias Gonçalves

PRESERVAÇÃO, CONSERVAÇÃO E RESTAURO DO PATRIMÔNIO DOCUMENTAL:


BREVES CONSIDERAÇÕES ACERCA DA FORMAÇÃO E EVOLUÇÃO DA PESQUISA E
DO ENSINO DA ÁREA NO BRASIL......................................................................................... p. 326
Letícia Sá Cabral

A CLASSE TRABALHADORA INDUSTRIAL E A CONSTRUÇÃO DO NOVO


SINDICALISMO NO ESTADO DO AMAZONAS (1978-1985).............................................. p. 340
Luiz Lima da Costa

AS OBRAS FICCIONAIS DOS MOÇAMBICANOS MIA COUTO E UNGULANI BA KA


KHOSA E O ENSINO DE HISTÓRIA DAS ÁFRICAS NO BRASIL ................................... p. 356
Marcos Vinicius Ribeiro Alvarenga

OS ALIENADOS DA SANTA CASA DE MISERICÓRDIA E DO HOSPÍCIO EDUARDO


RIBEIRO.........................................................................................................................................p. 368
Maria de Jesus do Carmo de Araújo

O ESTUDO DA HISTÓRIA LOCAL E DO COTIDIANO A PARTIR DAS NARRATIVAS


ORAIS............................................................................................................................................ p. 381
Naia Maria Guerreiro Dias

O GOLPE CIVIL-MILITAR NO AMAZONAS: PERSEGUIÇÃO POLÍTICA E CONTROLE


SOCIAL......................................................................................................................................... p. 391
Nataly Oliveira da Silva
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Bruno Venâncio Peragine

A ATUAÇÃO EPISCOPAL DE DOM JOSÉ AFONSO DE MORAIS TORRES NA


AMAZÔNIA IMPERIAL (1844-1857) ....................................................................................... p. 405
Pamela Sousa dos Santos

LEVANTAMENTO BIBLIOGRAFICO ACERCA DOS ESTUDOS SOBRE PATRIMÔNIO


DOCUMENTAL E A HISTÓRIA DAS INSTITUIÇÕES, ACERVOS E PRÁTICAS DE
ARQUIVOS NO AMAZONAS ................................................................................................... p. 416
Paola da Cruz Rodrigues
Leandro Coelho Aguiar

ALDEAMENTOS MISSIONÁRIOS NO ESTADO DO MARANHÃO E GRÃO PARÁ:


CONQUISTA, OCUPAÇÃO E “POSSE” DA AMAZÔNIA PORTUGUESA (SEGUNDA
METADE DO SÉCULO XVII) ................................................................................................... p. 427
Rafael Ale Rocha

“ACEITAM-SE COSTURAS DE SENHORAS”: O TRABALHO DE MULHERES MODISTAS


NAS PRIMEIRAS DÉCADAS DO SÉCULO XX ..................................................................... p. 437
Rafael da Silva Curintima

HISTÓRIA ORAL E GÊNERO: IMIGRAÇÃO DE MULHERES CHINESAS EM MANAUS


1980-2017 ....................................................................................................................................... p. 446
Raphaela Martins Pereira

RASTROS DE CATIVOS: PROTAGONISMOS E PRECARIDADES DA ESCRAVIDÃO NO


RIO BUJARU OITOCENTISTA DA PROVÍNCIA DO PARÁ .............................................. p. 457
Roberta Tavares

HISTÓRIA ORAL, GÊNERO E MEMÓRIA: O LUGAR DAS MULHERES NA ARENA


POLÍTICA DE PARINTINS-AMAZONAS (1964-2004) ......................................................... p. 471
Roger Kenned Repolho de Oliveira
Júlio Cláudio da Silva

SATERÉ-MAWE E O WARANA NA MUNDURUCÂNIA .................................................... p. 480


Rômulo Ribeiro Machado

OS TRABALHADORES EXTRATORES NA AMAZÔNIA: UMA DISCUSSÃO TEÓRICA


SOBRE UMA DAS FORMAS DE TRABALHO NÃO LIVRE DO INÍCIO DO
SÉCULO XX ..................................................................................................................................p. 494
Rômulo Thiago Oliveira de Souza

“SANTOS EM COMISSÃO”: MEMÓRIAS E CULTURAS NO ANDIRÁ-MIRIM,


FRONTEIRA AMAZONAS/PARÁ ............................................................................................ p. 510
Ronaldo Adriano Ferreira da Silva
João Marinho da Rocha

AS MENSAGENS DOS GOVERNADORES À ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DO


AMAZONAS: REFLEXÕES SOBRE A GUARDA DOCUMENTAL E O PRINCÍPIO DA
INDIVISIBILIDADE OU INTEGRIDADE ............................................................................... p. 522
Rosangela Oliveira França

O PROTESTANTISMO EM MANAUS: PRIMEIROS PASSOS, OS PIONEIROS E A


LEGISLAÇÃO BRASILEIRA .................................................................................................... p. 532
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Sandro Amorim de Carvalho

“UNO COLONIAL – UMA EXPERIÊNCIA DE PRODUÇÃO DE MATERIAL DIDÁTICO NO


ENSINO DE HISTÓRIA” ........................................................................................................... p. 547
Sarah dos Santos Araujo

ARQUIVO HISTÓRICO DO TEATRO AMAZONAS: HISTÓRIA E MEMÓRIA ATRAVÉS


DAS FALAS DE SEUX EX-GESTORES .................................................................................. p. 556
Sílvia Angelina Lima dos Santos

“REZAS PARA AS ALMAS”. MEMÓRIAS E CULTURAS SÓCIO RELIGIOSA EM SANTO


ANTÔNIO DA MALOCA, PARANÁ DOS RAMOS BARREIRINHA – AM ....................... p. 567
Soraia Lacerda dos Santos
João Marinho da Rocha

“O SANGUE DOS TICUNA DERRAMOU COMO ÁGUA ENXURRADA NO RIO


SOLIMÕES”: 30 ANOS DO MASSACRE DO CAPACETE .................................................. p. 579
Tamily Frota Pantoja

JUSTIÇA DO TRABALHO, TRABALHADORES E RESISTÊNCIA A PARTIR DOS


PROCESSOS DA JCJ DE ITACOATIARA (1980 - 1984) ...................................................... p. 591
Tamir Regina da Silva Carvalho

OS TRABALHADORES E O GOLPE CIVIL-MILITAR NO AMAZONAS (1961-1964) .. p. 601


Thaieny Gama Barata

EDUCAÇÃO HISTÓRICA E O PENSAMENTO HISTÓRICO DE JOVENS: CONCEPÇÕES


DE ALUNOS DO 9O ANO DO ENSINO FUNDAMENTAL DA REDE MUNICIPAL DE
MANAUS/AM ............................................................................................................................... p. 612
Thalia Abreu de Carvalho

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APRESENTAÇÃO

O IV Encontro Estadual de História, ocorrido nos dias 22 a 24 de agosto de 2018, nas


dependências da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), na cidade de Manaus, estado
do Amazonas, pretendeu ser um fórum de discussão científica nos quais diversos
pesquisadores, docentes e discentes da Amazônia e de diversas regiões do Brasil apresentaram
e debateram os resultados parciais e finais de suas pesquisas. Nesse sentido, o encontro
organizado pela ANPUH-AM foi um bem sucedido espaço de socialização de pesquisa, tendo
“Ensino de História no Amazonas: democracia e desigualdades” como tema. A eleição deste
tema norteador colocou o evento em um franco diálogo com os debates desenvolvidos nas
outras vinte e seis sessões estaduais e no âmbito da própria direção central da Associação
Nacional de História, órgão máximo dos profissionais de História no Brasil. Dado os exitosos
resultados do evento, entendemos que os capítulos que compõem esta obra apresentam e
colocam os leitores em contato com as diversas possibilidades enfrentar os desafios da
pesquisa e do ensino de história no Amazonas em um contexto de permanente luta pela
ampliação da democracia e da superação das desigualdades.

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CRIME, FÉ E OBRAS: A TRAJETÓRIA DE VIDA DE RAIMUNDO LUCAS DE JESUS,


PASTOR DA IGREJA CARCERÁRIA EM PARINTINS (AM)

ALAIN MARTINS PEREIRA

Introdução
Parintins é o segundo maior município do estado do Amazonas, e sua história oficial está
atrelada à Igreja Católica. As transformações contemporâneas no campo religioso têm imposto,
entretanto resistências a essa visão, principalmente com o crescimento dos evangélicos. Até pouco
tempo atrás a maioria das obras sociais e do reconforto espiritual aos doentes, abandonados e
encarcerados estava nas mãos das pastorais católicas. Recentemente isso tem mudado. Este artigo é
fruto de uma pesquisa de Iniciação Científica realizada no ano 2017 na unidade prisional de Parintins.
Investigamos a Igreja Carcerária que foi fundada em 2001 por Raimundo Lucas de Jesus, ex-detento.
Sua vida e marcada por um crime de homicídio e pela conversão evangélica pentecostal. Essa igreja
tem a missão de oferecer ajuda espiritual, evangelismo/estudos bíblicos, e a ressocialização dos
detentos juntamente com o apoio das familias. Me objetivo no momento é mostrar através das
narrativas do Pastor Raimundo Lucas a sua trajetória de vida, tratando ao mesmo tempo de sua prisão
(desafios e experiências na cadeia), conversão e novos desenhos de pastoral alternativos, daqueles
praticados pela pastoral católica carcerária. Para tanto, utilizo como método a história oral, que na
perspectiva de Verena Aberti (2008) “permite o registro de testemunhos e o acesso a "histórias dentro
da história" e, dessa forma, amplia as possibilidades de interpretação do passado”. “É um
procedimento integrado a uma metodologia que privilegia a realização de entrevistas e depoimentos
com pessoas que participaram de processos históricos ou testemunharam acontecimentos no âmbito da
vida privada ou coletiva” (DELGADO,2010, p.8).
No ano de 2015, Raimundo Lucas de Jesus improvisou juntamente com os fiéis detentos um
pequeno espaço que serve como templo, (entre os muros e as celas), aonde são promovidas reuniões
religiosas, e os encontros com as demais lideranças evangélicas locais que acontecem geralmente os
finais de semana.
Apenas muito recentemente estudiosos tem problematizado a questão da diversidade religiosa
local. “Temos buscado em nossas pesquisas traçar um quadro amplo do processo de pluralização do
campo religioso em Parintins” (Bianchezzi; Silveira,2015a;2015b). Parintins embora ainda muito
marcado pela força institucional do catolicismo, merece destaque no senário atual o crescimento
explosivo dos evangélicos, que aos poucos ocupam espaços antes reservados aos católicos, inclusive
na assistência a parcela mais carente da população. Nas periferias, pequenas igrejas pentecostais se


Acadêmico do curso de História do Centro de Estudos Superiores de Parintins CESP/UEA
alan_mpereira@hotmail.com
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multiplicam, no centro da cidade, pastores começam a disputar com os padres o cuidado espiritual dos
enfermos e encarcerados.

“Foi assim que me tornei prisioneiro”


Raimundo Lucas de Jesus é natural de Parintins, viveu boa parte de sua infância na
comunidade São José, zona rural do município de Parintins. Seus pais eram católicos,
descendentes de nordestinos. Além de Lucas, a família teve mais 6 filhos. As ocupações em
São José concentravam-se no plantio de juta e na agropecuária. Em 1953, quando tinha 11
anos de idade sua família se mudou para Parintins em busca de melhores condições de vida, e
também por conta do falecimento de sua Irmã. No entanto, a vida na cidade exigia da família
recursos financeiros para sobrevivência, e Lucas teve que trabalhar para ajudar nas despesas
da casa. Sua mãe faleceu quando ainda estavam recentes em Parintins. Sobre as dificuldades
encontradas em Parintins ele ainda nos diz o seguinte:

Quando a mamãe faleceu foi mais uma barreira que nós enfrentamos. Eu tinha
praticamente 11 anos e meu irmão caçula estava com um ano e seis meses de vida.
Mamãe passou pouco tempo por aqui [Parintins], isso foi uma certa dificuldade
tanto para o papai como para nós todos, sabe? Ai, o papai começou a trabalhar por
aqui e logo em seguida eu comecei a trabalhar também, nós fomos dividindo as
atividades, cada um fazia alguma coisa para ajudar na casa. Os meus irmãos
vendiam docinho na rua, sabe? E meu irmão mais velho pescava. E assim nós fomos
crescendo [...] (LUCAS, entrevista em maio,2018).

Com base nas narrativas de Raimundo Lucas podemos perceber as dificuldades


encontrada pela família e sua adolescência que é marcada pelo trabalho. Por conta disso, pai
de Lucas teve que traçar novos planos para a Família, e em determinados momentos os avôs e
parentes foram fundamentais nas assistências sociais e financeira para minimizar as despesas
da casa. Nas palavras de Lucas, “eles foram uma boia de escape”. No entanto, seu Pai não
consegui se adaptar na cidade, além de outras razões que lhe tiravam o sono, e além disso ele
trabalhava como autônomo. Sua vocação, diz Lucas, “era para a trabalhar com agricultura
mesmo”, ramo em que possuía vasta experiências principalmente nos tempos em que
residiram em São José”. Então, ele decide retornar para a zona rural, comunidade do Zé Açú,
(área de terra firme), próximo à Parintins. Sobre o retorno para a zona rural, Lucas nos diz que
desta vez, a família investiu principalmente no plantio de arroz que possuía grande aceitação
no mercado e outros grãos. Vejamos:

Ele conseguiu um pedaço de terra, e, eu morei uma temporada com eles por lá com a
intenção de ajudar o papai, que plantava arroz, feijão, milho, sabe? Nesse período
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aqui em Parintins o arroz era industrializado, e o papai era um dos produtores de


arroz na Comunidade do Zé Açu. Continuei por lá um certo tempo, lá tinha uma
escola que ainda existe até os dias de hoje, mas eu não cheguei a estudar nela estudei
só aqui em Parintins porque fui o filho que menos tempo morei por lá [...] depois o
papai adquiriu um pequeno comercio lá no Zé Açu. Tinha uma família aqui
[Parintins] que eles pediram do papai para eu ficar com eles, e, eu acabei ficando. Eu
trabalhei com essa família, eles possuíam um pequeno comercio de gêneros
alimentícios (LUCAS, Maio,2018).

No período em que a família investiu no agronegócio na comunidade do Zé Açú, eles


conseguiram uma certa estabilidade, nas palavras de Lucas, “possuíram até mesmo um
pequeno comercio”. Mas ele logo retornou a Parintins para prosseguir nos estudos, aliás, foi o
período em que Lucas mais frequentou a escola na vida, “estudei no sindicato” diz ele “onde
funcionava a escola Hirota Oyama”, concluiu o supletivo que era ofertado na época para o
ensino fundamental. Quando completou 16 anos de idade em Parintins, Raimundo Lucas
viajou para Manaus e morou com seus tios paternos, almejava oportunidades no mercado de
trabalho e dar continuidades nos estudos. Na casa dos tios, diz ele, “eu ajudava nas tarefas da
casa e estudava”. Aos 18 anos entrou para o exército. Durante sua trajetória no exército,
trabalhou como auxiliar de serviços gerais, se profissionalizou como eletricista, e atuou
também como motorista de transporte escolar. Após deixar a carreira militar, trabalhou em
diversas empresas no polo industrial de Manaus. Nessa época ele nos diz que “ já era
independente, morava sozinho, morei por muito tempo em quartos alugados por uma decisão
minha mesmo, até mesmo para ver se eu ia ter condições de me manter sozinho, sabe? ”
(LUCAS, entrevista, Maio, 2018). As perseveranças da labuta logo lhe agregaram resultados
positivos – resolveu trabalhar por conta própria, e adquiriu uma pequena empresa que
prestava diversos serviços. No entanto, sua maior atuação foi na área de manutenção
industrial (serviços elétricos), “foram 15 anos no ramo” argumenta. Foi a profissão que mais
lhe trouxe benefícios materiais e financeiros, inclusive adquiriu casa própria e uma
companheira com quem teve filhos, mas se divorciou por conta das desavenças. A separação
lhe ocasionou muitos problemas financeiros, chegou a ser internado inclusive no centro de
internação psiquiátrico de Manaus por apresentar problemas psíquicos.
Em 1998 Lucas retornou à Parintins e sua vida foi marcada por um crime de
homicídio onde foi condenado a cumprir pena durante 4 anos e 8 messes no presidio local.
Sobre o crime, ele delata o seguinte:
[...] eu fui funcionar um motor [ barco] eu sempre tinha a habilidade de botar para
funcionar ele, sabe? Nesse dia a máquina não queria funcionar. Passei praticamente
o dia todo mexendo tentado ver possíveis problemas, no motor que me tirou a
paciência. E aí, houve um desentendimento, uma confusão entre eu um rapaz dentro
do barco agente se ofendeu primeiro oralmente, aí fomos para o confronto físico e
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ele estava armado. E eu com intenção me proteger peguei uma arma [revolver] e
disparei contra ele [...] A arma era do proprietário do barco. Foi assim que me tornei
prisioneiro. (LUCAS, entrevista Maio, 2018)

Através das palavras deste sujeito, podemos perceber seu comportamento, profissão e o
motivo que o levou para prisão. Assim, portanto, Lucas foi indiciado, julgado e condenado por crime
de homicídio, o juiz da comarca de Parintins determinou o cumprimento de pena em regime fechado
de 4 anos e 8 meses na unidade prisional local.
Durante os primeiros meses na prisão, ele se deparou com inúmeros irregularidades estruturais
e administrativas, a unidade prisional funcionava junto a delegacia de polícia. Ele alguns
conhecimentos da legislação penal desde os tempos do exército, percebeu que os seus direitos e do
demais presos de justiça não eram atendidos. Vejamos:
Eu logo vi que o preso de justiça não tinha alimentação. Aí eu procurei saber com
uma promotora pública da época sobre a destinação da alimentação do preso de
justiça. Comecei a exigir meus direitos. Houve um determinado dia que os presos se
alimentaram de uma sopa e a ossada ficou jogada no corredor, agente sabe que osso
é uma arma [...] O Estado deve dar as condições para o preso de justiça, de maneira
que ele possa ser reinserido na sociedade. Deve oferecer – educação, trabalho,
alimentação, promover ações que possa motivar a socialização sabe? Então essa
situação que passamos é preferível a pena de morte, isso era um ato de tortura. Eu
fiz diversas denúncias verbalmente sobre as irregularidades do presidio logo quando
eu entrei (LUCAS, entrevista, Maio,2018).

Através da fala de Lucas, podemos perceber além da sua atitude como detento a situação da
instituição carcerária local, a violação dos direitos das pessoas na condição de prisão e principalmente
a ausência do estado. Assim, as atitudes e “espirito” de liderança fizeram de Lucas um sujeito
respeitado na prisão capaz de ganhar elogios dos líderes evangélicos que prestavam assistência
religiosa aos detentos. Segundo Lucas, Deus o chamou assim:
No presidio tinha o grupo IDE, eles faziam evangelismo lá dentro era um grupo
externo da assembleia de Deus do Brasil, inclusive eu fiz parte desse grupo [...] foi
através desse grupo de irmãos dentro do presidio mesmo que me converti ao Senhor
Jesus, entreguei minha vida pra Deus. Jesus tinha um plano na minha vida, ele me
levou para presidio para eu fazer a sua obra. Eu já tinha o temor por Deus, já tinha
lido a bíblia toda. Cheguei a frequentar diversas igrejas evangélica quando eu ainda
não era detento [...] quando eu me converti Procurei buscar no Senhor o que dizia a
palavra de Deus - o zelo que Deus tem pela sua palavra. (LUCAS, Maio/2018).

Nessa perspectiva os crentes na condição de prisão quando convertidos “ao pentecostalismo


passa a compreender o seu passado no crime como uma transgressão às leis divinas, percebendo, dessa
forma, o seu presente – o tempo passado na prisão – como um momento de castigo e, ao mesmo
tempo, de aprendizado” (Dias2005, p.43).
As experiências adquiridas quando ainda não era detento fora crucial para Lucas na prisão. Ele
também botou em pratica alguns conhecimentos dos tempos em que era militar principalmente sobre
questões culturais e religiosa. Lucas argumenta que nos tempos de exército havia uma um oficial
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Texto integrando dos Anais [recurso eletrônico] do IV Encontro Estadual de História - Ensino de
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militar cuja a orientação era voltada para religião, o batalhão oferecia também cursos diversos para
incentivo e bem-estar dos soldados:
Quando eu era do exército eu fiz um curso antidroga. Na época eu tinha 18 anos,
parabenizo esse homem [instrutor] até os dias de hoje por tudo o que ele me falou.
Verdadeiramente é correto, sebe? Esse cidadão quando me ensinou a respeito das
drogas foi de fundamental importância para minha vida. Então, eu fui refletir tudo o
que eu aprendi lá dentro do presidio, o poder das drogas na vida das pessoas
(LUCAS, entrevista, Maio,2018)

O bom comportamento, as experiências da carreira militar contribuíram para o sucesso


e a dedicação ao evangelismo no presidio. O “irmão Lucas” como ficou conhecido após sua
conversão, adquiriu respeito e status de “homem de Deus” na cadeia. Desta forma, seu perfil
de liderança lhe trouxera respeito e prestigio da administração prisional e das igrejas
evangélicas que visitavam o presidio, e no ano de 2001 ele foi consagrado e ungido a pastor
pelos próprios líderes evangélicos a pastorear o rebanho das ovelhas aprisionadas da unidade
prisional de Parintins. Camila Nines Dias (2005 p.62) chama a atenção ao afirmar que para a
“administração prisional as práticas religiosas são vistas simplesmente como funcionais, já
que seus integrantes, em geral, dão menos trabalho, em termos disciplinares, para os
funcionários dessas instituições”. Alessandro Bicca (2005, p.96), ao estudar a honra na
relação entre detentos crentes e não crentes em um determinado presídio no Sul do País
argumenta que “a honra é adquirida, entre os detentos crentes e não crentes, com o tempo, e
em uma relação pessoal, onde a conduta é constantemente avaliada”. Por conta disso, “O
discurso religioso resignifica a trajetória biográfica do indivíduo, dando novas cores e novos
sentidos ao seu passado, presente e futuro; o trabalho e, junto com ele a educação passam a
ser visto como vias de retorno à legitimidade social; e, por fim os laços familiares”.
(DIAS,2005, p.42). Desta forma, Raimundo Lucas de Jesus se dedicou exclusivamente auxílio
espiritual para os “irmãos” encarcerado.

Uma das características das conversões nas prisões é que, os detentos “ao se
converterem vem a religião como uma válvula de escape e muita das vezes, “buscam resgatar
os laços que, na maioria das vezes, se encontravam estremecidos ou mesmo rompidos”
(DIAS,2005, p.44). Isso é recorrência da entrada dos pentecostais nos presídios, ultimamente,
duas novas ideias aparecem se estruturar: a santificação de vida de homens e mulheres presos
pela força da palavra bíblica e a estruturação de um cotidiano religioso, articulados pela
conjuração de pastores que vêm de fora (para visitas e pregações) e de obreiros que mantem
atividades religiosas constantes dentro das unidades prisionais, foi o caso de Raimundo Lucas,
quer pelos suprimentos das “necessidades materiais dos internos” ou pela boa conduta dos
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novos fieis, as lideranças evangélicas tem acabado por constituir “uma parcela informal com
os diretores” e agentes penitenciários (LOBO,2005b, p.74), até mesmo ocupando, as vezes o
lugar do Estado em assistências sociais.

As boas obras da igreja carcerária.

A Igreja Carcerária faz do presídio de Parintins uma terra fértil para semear as boas
novas do Reino de Deus, de acordo com o pastor Lucas ela “transforma bodes em ovelhas”.
Ela mantém suas atividades sobre o controle do pastor que conduz o rebanho e está sempre
em constante vigilância a qualquer investida do inimigo. O pastor é o patrono desta “obra”
juntamente com o movimento interno dos crentes evangélicos. “Essa igreja está ativa até os
dias de hoje e tem sido uma benção para os presos” diz ele. Para o pastor Lucas, sua missão é
“ganhar almas para o Senhor Jesus”, promover o evangelismo interno oferecendo ao mesmo
tempo liberdade de crença, atuar nas práticas de ressocialização, confraternização e atividades
sociais, com o apoio das famílias. Sobre a fundação da igreja carcerária e os primeiros
trabalhos no presidio ele nos informa o seguinte:

Eu lembro dos os parceiros [detentos] que me ajudaram muito na época – irmão


Weliton, Irmão João Boás, mas eles foram embora eram detentos, e eu fiquei, na
época eu era detendo, dei continuidade na obra. Nesses tempos a igreja assembleia
de Deus deu apoio para nós, e, eu era membro inclusive. Nós conseguimos motivar
os irmãos internos, outras igrejas de fora nos incentivaram também e o grupo se
fortaleceu na palavra de Deus (LUCAS, entrevista, maio,2018)

Podemos destacar através do pastor a intenção de promover a liberdade de crença na


unidade prisional, um direito inclusive, e a organização de um grupo religioso que além de
almejar “ganhar almas” aprisionada, objetivou a ressocialização. Camila Caldeira Nunes
(2005, p.45) destaca que o grupo religioso “Fornece ao preso, em suma, a possibilidade de
estabelecer laços sociais que o vincule novamente à sociedade e que dê sentido à sua pertença
social”. Desta forma, o sistema carcerário, que tem a função não só de punir, mas dar
condições para que o infrator retome seu lugar na sociedade, no entanto, muitas das vezes tem
sido dependente dos grupos religiosos que têm desempenhado este papel.

Os encontros da igreja carcerária geralmente são promovidos aos finais de semana, e


em alguns casos são acompanhados de ações sociais e conta com a ajuda “extramuros” das
igrejas evangélicas locais que também aproveitam investem no espaço para reproduzirem suas

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crenças. Seu templo e um pequeno espaço adaptado entre os muros e as selas construídos
pelos próprios féis detentos, ele “constitui, por assim dizer, uma “abertura” para o alto e
assegura a comunicação com o mundo dos deuses” (ELIADE,1992, p.19). Durante os 16 anos
evangelizando no presidio, o pastor Lucas se sente honrado, ele além de obter respeito da
massa carcerária, tem têm se destacado nas atividades fora do presidio inclusive. Essas
parcerias com as lideranças evangélicas locais ajudam a promover o evangelismo interno e
uma das estratégias é o envolvimento das famílias dos fiéis detentos:

Muitos presos se converteram, se arrependeram, saíram do mundo das drogas,


juntamente com o apoio da família, isso foi fundamental, sabe? Temos irmãos que já
estão em liberdade, estão trabalhando, até mesmo alguns dirigindo igrejas, e outros
que não quiseram nada com a vida, mas eles ouviram, inclusive volta de novo para o
presidio, e quando eu os vejo por lá, recebo novamente com o mesmo carinho e
respeito de antes, sempre digo nos cultos – sejam bem-vindo, a igreja está aqui,
venha ouvir a palavra de Deus. (LUCAS, entrevista, Maio, 2018)

O pastor Lucas também nos conta que em um determinado tempo se “sentiu só na


obra”. O peso do cajado lhe trouxera cansaço, fadiga e muita responsabilidade, “a obra é de
Deus e ele entregou nas minhas mãos” argumenta. E ainda nas suas palavras, “aconselhar
preso não é tarefa fácil. Lá dentro é um aprisco onde estão - ovelhas, lobos, mulas, burros,
aviões, e muito mais. Para aconselhar essas pessoas, tem que ter compaixão (LUCAS,
entrevista, Maio, 2018).

A igreja carcerária sempre buscou promover ações sociais para os “irmãos” internos
principalmente para aqueles que estão em condição de abandono familiar. Já ouve muitos
casos em que de alguns detentos se encontrarem em situações pecaria como por exemplo, a
falta de roupa, remédio e materiais de higiene pessoal, e muitas das vezes eles chegam no
presidio ferido dependendo da gravidade de seus crimes. Vejamos o que ele diz sobre isso:

Os irmãos da igreja carcerária têm contado com a ajuda das igrejas cujas ofertas são:
creme dental, roupas usadas, sabonete, barbeador, coisinhas de higiene pessoal do
dia-dia que é responsabilidade do Estado inclusive, e além de bíblia, folhetos,
livretos om mensagens religiosas, roupas usadas [...]Deus tem abençoado a obra
mesmo, sou isso é muito gratificante para nós [...] nós temos os nossos
equipamentos para promover os cultos como: caixa de som microfone, púlpito,
cadeira. Tudo isso foi doado de fora dos irmãos parceiros da obra [...] Deus tem
ouvido nossas orações, somos muito gratos por tudo (LUCAS, entrevista,
Maio,2018),

A igreja carcerária através do seu pastor juntamente com a administração carcerária


são os responsáveis pela organização das visitas das demais denominações evangélicas locais
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organizam as festas comemorativas que acontecem na unidade prisional. Desta forma,


segundo o pastor Lucas, é para evitar desordens por parte das próprias igrejas que tem seus
horários determinados em cronogramas. Todos os “irmãos” aos entrarem no presidio são
submetidos a revista. Geralmente nos momentos de cultos, o pastor Raimundo Lucas sempre
prioriza os testemunhos dos crentes ex-detento, um método para impactar os presos não
crente. Ele inclusive, já levou vários pregadores de nível nacional cuja vida é marcada pelo
submundo do crime, além de cantores gospel e obreiros locais. Nas palavras do pastor, “o
testemunho destes homens estremece o inferno e é impactante ”

Finalizando

Neste artigo busquei através das narrativas do pastor Lucas mostrar sua trajetória de
vida tratando ao mesmo tempo das suas experiências na cadeia, conversão e pudemos
também refletir sobre novos desenhos de pastorais alternativos, aqueles praticados pelas
pastorais católicas carcerária. A vida deste sujeito é marcada pelo trabalho infantil, pelas
adversidades encontradas na zona rural e na cidade. No entanto, seu maior momento de gloria
foi na prisão, principalmente quando se converteu ao pentecostalismo. Sua trajetória é repleta
de contradições. Ele, através da religião no cárcere adquiriu capital simbólico e o status de
homem de Deus, contando ao mesmo tempo com o apoio da administração interna e das
lideranças evangélicas locais. Essa “missão” dentro do cárcere, segundo ele, foi fundamental
para sua empreitada em coordenar e incentivar os fiéis na busca de novas oportunidades tendo
a igreja como principal “esteio”. O bom comportamento e o trabalho social fizeram a
diferença para o status do pastor Lucas. Do posto de vista religioso, Lucas fez uma leitura de
sua realidade e percebeu que a religião no presidio tem o poder de envolver as pessoas. Os
detentos, assim como ele, carecem de perdão, salvação, esperança e oportunidades.
Raimundo Lucas é um personagem ímpar, diz ele “eu comi o pão que o diabo amassou”, mas
não desistiu da vida.

Portanto, o pastor Lucas, faz do presidio parintinense um aprisco fértil para os


evangélicos, eles oferecem novos métodos de sociabilidade, juntamente com o apoio das
famílias, e tem subtraído “almas” para suas igrejas periféricas. A igreja carcerária tem
priorizado atividades sociais, diz ele, “ minha missão agora é resgatar do inferno”, e durante
os dissésseis anos como coordenado o objetivo principal é a conversão. Muitos homens que
cumpriram pena no presidio de Parintins tiveram a oportunidade de participar da Igreja
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Carcerária, e mudaram de vida. Eles voltaram para o seio da família e adquiriram novamente
o respeito da sociedade. No entanto, há aqueles que inda se encontram na condição de prisão,
mas vem na religião esperanças de recomeço e oportunidades na sociedade. Raimundo Lucas
continua ativo nas atividades dentro do presidio, e a cada momento seu aprisco se renova.

Referências Bibliográficas
ALBERTI, Verena. Histórias dentro da História. In. PINSKY, Carla Bassanezzi. Fontes
Históricas, São Paulo, Contexto, 2011.
SILVA JUNIOR, Antônio Carlos da Rosa. “Campo religioso brasileiro prisional”: o lugar das
instituições religiosas no contexto de encarceramento”. In: Anais do XV Simpósio Nacional da
ABHR. Juiz de Fora: ABHR, 2015. pp. 1373-1383.
BIANCHEZZI, Clarice & SILVEIRA, Diego Omar. "Demografia, cartografia e história das
religiões em Parintins: novas possibilidades para o estudo da diversidade religiosa na
Amazônia". In: BIANCHEZZI, Clarice (et. al.). Pensar, fazer, ensinar: desafios para o ofício
DIAS, Camila Caldeira Nunes. Evangélicos no cárcere, representação de um papel
desacreditado”. In: Revista Debates do NER. Dossiê Religião e prisão. Porto Alegre: UFRGS,
ano 6, n. 8, julho/ dezembro de 2005. p. 39-55
DELGADO, Lucília de Almeida Neves. História oral – memória, tempo, identidades. Lucília
de Almeida Neves Delgado. – 2 ed. – Belo Horizonte: Autêntica, 2010.
EDILEUZA, Santana Lobo. “Ovelhas aprisionadas, a conversão religiosa e o rebanho do Senhor nas
prisões”. In: Revistas debates do NER. Dossiê religião e prisão. Porto Alegre: UFRGS, ano 6 n. 8
julhos/dezembros de 2005b. pp. 73-85
ELIADE, Mircea, 1907 1986.O sagrado e o profano / Mircea Eliade ; [tradução Rogério
Fernandes]. – São Paulo: Martins Fontes, 1992. – (Tópicos)

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A LITERATURA COMO FERRAMENTA PARA O ENSINO DE HISTÓRIA DAS


ÁFRICAS
ALEXANDRE DA SILVA SANTOS*

Introdução
Atualmente, discutir sobre o ensino de uma história das “Áfricas” está imbricado em
inúmeras discussões que procuram promover um rompimento de estereótipos ligados a fome e
a selvageria, disseminados por veículos de comunicação que reduzem o continente negro a
um lugar homogêneo, povoado por animais e homens selvagens e grupos étnicos em conflitos
constantes, como discorre o Professor Dr. Anderson Oliva (2008:30), ao questionar a imagem
construída pela mídia e o real conhecimento que se obtém sobre a África.
Tal concepção sobre essa temática ganhou maiores contornos a partir da aprovação da
Lei 10.639/03 e, posteriormente, a Lei 11.645/08. Elas se tornaram a maior conquista de
diversos movimentos sociais, pois, impunha aos estabelecimentos de educação fundamental e
médio de todo o território nacional a incluírem conteúdos de história e cultura afro-brasileira,
africanas e indígenas em sua grade curricular.
Nesse sentido, fazer uso da literatura como ferramenta de ensino, significa atender as
demandas que esse legislativo criou para se discutir em sala de aula a compreensão dos
processos que formaram as instituições e patrimônios que se ergueram em um determinado
instante ao longo do continente africano.
É um recurso que pode ser utilizado para que o aluno possa atentar-se a uma específica
época em que houveram movimentos em luta pela independência política ou compreenderem
os reinos que já existiram naquele território, por exemplo.
Nesse sentido, esse tipo de entendimento a respeito do uso metodológico que esse tipo
de fonte possibilita ao professor, permite ao aluno melhor situar-se no contexto do fato
histórico abordado em sala de aula. Assim, nosso exposto é similar ao de Oliveira (1984), em
Literatura e Sociedade, cuja compreensão acerca da produção literária percorre a saber que
ela resulta de convicções, crenças, códigos e costumes sociais que emergem de uma peculiar
realidade histórica.
Com efeito, é importante ressaltar a criação do legislativo que prevê a obrigatoriedade
do ensino de História e Cultura Africana e afro-brasileira nos estabelecimentos de ensino
público e privado em todo o país, porque a partir disso foi surgindo gradualmente a

*
Mestre em Letras- Estudos literários, PPGL-UFAM. Mestrando em História, ambos pela Universidade Federal
do Amazonas (UFAM). Bolsista Capes. E-mail: alexandresantosp@gmail.com.
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necessidade da utilização das chamadas “linguagens alternativas para o ensino de história”


(ABUD, 2005:310) como: teatro, produções cinematográficas, jornais, literatura, música.
Dessa forma, esta proposta visa contribuir em assuntos relacionados à sala de aula, que
em tempos de mudanças decorrente do novo ensino público no Brasil, constituem em uma
reorganização de conteúdos ministrados nos segmentos do fundamental e médio, constituem
um pacote de fatores auxiliares ao trabalho do docente e à aprendizagem do discente. Em
síntese, tem o intuito de fazer com que o aluno consiga de forma mais viabilizada,
compreender o conteúdo a ser trabalhado pelo professor.
Para tanto, partindo do pressuposto que ensinar exige práticas educativas e críticas, o
uso desse tipo de linguagem alternativa (a literatura), propicia condições aos educandos de
investigação, descobrimento e questionamentos acerca do passado e presente de sua realidade
como um todo. A partir do instante em que eles interpretam isso, passam a assumir-se como
seres sociais, históricos, culturais e pensantes dentro do processo de ensino e aprendizagem.
A escola é um espaço privilegiado de aprendizagem, é nesse local em que deverão ser
lançadas as bases acadêmicas para a formação do indivíduo. E é nele que privilegiamos o
ensino de história das Áfricas neste estudo, pois, de maneira mais abrangente do que
quaisquer outros, há nele um estímulo ao exercício da cognição, a percepção do real em suas
várias camadas. Por isso é importante que os agentes de uma escola, assim como os pais,
saibam os seus papéis da formação do educando ou seja: mediadores do conhecimento.
Com efeito, esse discente será o que Freire expõe, isto é: “O sujeito que se abre ao
mundo e aos outros, inaugura com seu gesto a relação dialógica em que se confirma como
inquietação e curiosidade” (FREIRE, 1996:154).
Nesse contexto, todo esse exposto tem na nossa proposta uma aula de introdução sobre
o continente africano, em âmbito do ensino fundamental, através de Mitos Africanos, de Gary
Jeffrey, publicado em 2002 e voltado para iniciar alunos da educação básica aos estudos sobre
esse lugar, a partir da mitologia local. Um livro ilustrado com histórias que percorrem a
ancestralidade, tradição oral e mitos dos povos africanos, constituído pelas narrativas:
“Origens, “Três mitos africanos”, “A história da criação do povo iorubá da África Ocidental”,
“Como Ananse se tornou o dono de todas as histórias que as pessoas contam”, “A história do
cão e do chacal”, e “Outros personagens míticos”.
Uma vez essa literatura trabalhada em sala de aula, o docente pode começar a
organizar os assuntos específicos que se referem à África a partir da compreensão que os
discentes possuem (aquelas que eles trazem de mundo) sobre o homem que ali reside e a

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condição humana existente. Esta é o fruto da vivência coletiva dos homens num mundo
comum e em condições sociais determinadas.
Por fim, espera-se que este estudo posso servir de auxílio à professores licenciados
pelas universidades brasileiras em história, e possui a ciência de que muito há de ser feito para
que os estudos africanos, em âmbito da educação básica no Brasil, possam ser discutidos com
maior clareza e importância. Avanços já foram obtidos, mas ainda estão em dinâmica de
surgimento outros, por isso sabemos que esta proposta não é um fim, mas um dos caminhos
que dão o suporte para o exercício da docência em nosso país.

Procedimento metodológico
O presente estudo realizou-se por meio de um estudo bibliográfico, partindo da leitura
inicial de Mitos Africanos, de Gary Jeffrey, de 2002, em específico as narrativas: “Origens” e
“A história do cão e do chacal”. Posteriormente, iniciou-se as leituras concernentes aos
estudos africanos, teoria da literatura e ensino de história.
Nessa etapa, foi realizada uma leitura informativa para a coletas de dados pertinentes
à formação docência, de acordo com a proposta da Lei 10.639/03, 11.645/08 sobre o ensino
de história e cultura da África por intermédio também de linguagens alternativas.
Logo após, foram realizados fichamentos desses textos para se observar os possíveis
percursos metodológicos que podem ser adotados em sala durante exposição dos temas
relacionados ao ensino da História da África, em singular utilizando a literatura como
ferramenta de ensino.
Assim, no intuito de sistematizar os dados obtidos para a realização de outras
literaturas relacionadas à proposta deste estudo, foi utilizado como caminho metodológico
uma abordagem reflexiva a partir da literatura de Freire (1996), em Pedagogia do Oprimido.
Dessa forma, a realização dessa etapa permitiu iniciar outra, isto é, compilar as informações
necessárias, considerando que o universo de uma sala de aula é repleto por diversos contextos
e situações de mundos que estão sob orientação do professor.
Por sua vez, as comparações realizadas objetivam expor um pensamento reflexivo
sobre a atenção que se deve possui a respeito das diversas formas de se ensinar História da
África, em ambiente da educação básica no Brasil.
Não é uma cartilha metodológica, nem mesmo um postulado sobre como deve-se
ministrar aula, ao contrário, é um diálogo a ser estabelecido e que possui na natureza de sua
proposta uma contribuição ao processo de ensino e aprendizagem de história.

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Nesse sentido, uma vez os textos lidos e organizados, deu – se início a uma análise
temática, interpretativa e de síntese pessoal acerca do assunto abordado. Com isso, pode ser
feito um levantamento e discussão de problemas relacionados à mensagem obtida dos teóricos
mencionados, no intuito de elaborar este artigo, cujo tema proposto em questão aborde uma
reflexão interdisciplinar nos campos da Literatura, História e Ensino de História da África.

Discussão
Por muito tempo houve a crença de que a produção da literatura de viés artística,
aquela orientada por Aristóteles como representação da realidade, chamada de mimese, ou por
Gil Vicente como instrumento de denúncia social pela comédia ou no trato irônico dos vícios
da sociedade portuguesa do final do século XV, ou ainda nos devaneios dos românticos do
século XIX, influenciados pelo espírito da Revolução Francesa - não era aceito como um
construtor de conhecimento e saberes, apenas ficção.
Partindo da premissa que Chartier (1999) expõe em História e Literatura, a relação
entre essas formas narrativas de se contar a história são muito próximas por conta das
modalidades discursivas, morfológicas e históricas de identificar o fato histórico. O teórico
considera que o autor da literatura “é o resultado de uma mobilidade social, política e cultural,
ao oposto do autor enquanto ator (aquele que faz a representação de uma realidade)”
(CHARTIER, 1999:197).
Nesse sentido, quando a literatura tematiza a realidade, ela ultrapassa as questões
clássicas dos historiadores e os leva a construir de outro modo o próprio objeto de sua
indagação. A história, ao mesmo tempo, se confunde e se opõe à ficção.
A partir da criação dos Analles e da História Cultural, a proposta interdisciplinar de
realizar o estudo histórico, permitiu a possibilidade de se observar na literatura uma fonte de
compreensão de variadas realidades que foram representadas pelo homem, por ser esse
escritor o resultado de uma construção de um determinado tempo, de uma específica época.
Para Bloch (2001), por exemplo, através de métodos interdisciplinares de se investigar
a realidade ao seu redor, o historiador deve ter a ciência de que “tudo o que o homem diz ou
escreve, tudo que fabrica, tudo que toca pode e deve informar sobre ele” (BLOCH, 2001:79).
Sendo assim, as narrativas históricas e literárias se apresentam de formas distintas, mas
constroem uma identidade coletiva e individual com o mundo.
Em outros termos, toda ficção que está enraizada na sociedade é em determinadas
condições de espaço, tempo, cultura e relações sociais, a matéria prima do escritor que através

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da linguagem materializa sua subjetividade criadora. Por conta disso, Chartier em A história
ou a leitura do tempo, de 2009, escreveu que algumas obras literárias realizam uma profunda
representação da coletividade do passado.
Em virtude disso, os historiadores devem compreendê-las como fontes, que
comunicam contextos históricos e sociais e isto requer consulta de outras informações acerca
de uma determinada época. Porém, sempre é preciso estar atento aos ambientes socioculturais
do período analisado para se evitar anacronismos.
Diante disso, quando um historiador também se ocupa da docência, uma prática muito
comum no Brasil, ele deve ter a percepção de que o aluno que ali está sentado à sua frente é
um homem que é fruto da vivência coletiva das condições humanas social e historicamente
determinada, tudo isso representado em jovens que chegam à escola em busca do saber e da
convivência com os colegas.
E é através da Educação que as sociedades sobrevivem, se renovam e se estabelecem
valores. Para tanto, mediante as inúmera transformações ocasionadas, principalmente, pela
regulamentação da lei 11.645/08, o ensino de história deve ser repensado a partir das
necessidades de se contemplar as demandas que são oriundas das perspectivas atuais sobre o
papel dos negros na formação do processo histórico do país. E consequêntemente, a
desmistificação de estereótipos que reduzem esses atores a meros coadjuvantes de suas
histórias, assim como prevê os objetivos estipulados pelos Parâmetros Curriculares Nacionais
– PCNs – (1998) de História para o Terceiro e Quarto Ciclo do Ensino Fundamental:
Conhecer e valorizar a pluralidade do patrimônio sociocultural brasileiro, bem como
aspectos socioculturais de outros povos e nações, posicionando-se contra qualquer
discriminação baseada em diferenças culturais, de classe social, de crenças, de sexo,
de etnia ou outras características individuais e sociais; (BRASIL, 1998:7)

Em outras palavras, a Lei 11.645/08 que altera a Lei no 9.394, de 20 de dezembro de


1996, modificada pela Lei no 10.639, de 9 de janeiro de 2003 visa em um dos pontos incluir e
esclarecer quais são os aspectos sobre a história e cultura da África e dos africanos que
deverão ser trabalhados em todo o currículo escolar.
Segundo essa legislação, a luta dos negros e indígenas no Brasil, a cultura desses e o
seu papel da formação da sociedade brasileira deve ser considerada consoante suas
contribuições nas áreas políticas, sociais, culturais, econômicas e outras pertinentes à história
brasileira.
Assim, após essas mudanças, foi necessário que escolas e professores repensassem em
estratégias de ensino que envolvessem essa temática para que não se tornassem profissionais

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“(...) obsoleto e ser considerado como mobília antiga que muitos guardam como lembrança de
alguém ou de um tempo passado.” (FREITAS; PETERSON, 2015:34).
Diante disso, a literatura como parte de uma linguagem auxiliadora no processo de
ensino da história, proporciona também a elucidação de assuntos tidos como enfadonhos e
desinteressantes, auxiliando a compreensão de forma facilitada de determinados temas, como
por exemplo, aqueles que discorrem sobre a África antes da diáspora, fazendo o discente
perceber naquele contexto os conhecimentos e saberes produzidos, como também a tecnologia
utilizada, a arquitetura, as navegações, e demais especificidades de cada grupo étnico.
Uma vez abordado tais assuntos, é necessário estabelecer um diálogo em sala de aula
com o aluno, orientando a compreensão de uma parte da história de nossos antepassados (de
acordo com a série escolar), para entender que na África as etnias formaram realidades
múltiplas oriundas de diversas tradições culturais, cujas dinâmicas permitem que as mudanças
ainda sejam algo permanente.
Tudo isso só foi possível também graças a Lei 11.645/08. Esta informa no segundo
parágrafo que: “Os conteúdos referentes a História e Cultura Afro-Brasileira devem ser
ministrados no âmbito de todo o currículo escolar, em especial nas áreas de Educação
Artística e de Literatura e História Brasileira” (BRASIL, 2008:2).
Com efeito, é possível perceber como é viável o diálogo entre literatura e história em
âmbito da sala de aula. Não é por acaso que essa relação em contexto de ensino, desde o
período do Renascimento perdeu o caráter público e passou ao privado, isto é, consoante
Zilberman (2006), em Sim, a literatura educa, transferiu-se para a escola a tarefa de ensinar
(o literário) em natureza pedagógica. Mais tarde, após a Revolução de 1789, a autora expõe
que “Os franceses introduzem na escola a literatura nacional, que, a partir de então torna-se
objeto da história literária...” (ZILBERMAN, 2006:19).
Este aspecto do uso pedagógico da literatura é mais uma possibilidade metodológica
ao docente de história para ministrar as suas aulas. Ela pode ser usada como tal porque as
mudanças que ocorreram desde o século XVI, conferiram ao ensino daquela o objetivo de
conhecer a história de um país, de um grupo, de uma sociedade.
Por isso é importante que essa característica de aula seja um espaço funcional. Há uma
'docência do espaço' dentro da sala de aula e este deve ser aproveitado pelo professor.
Segundo Vital Didonet em A escola que queremos, de 2013, esse lugar é referido como um
lugar onde os alunos aprendem lições sobre a relação entre o corpo e a mente, o movimento e

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o pensamento, este lugar tem que gerar ideias, sentimentos, movimentos no sentido da busca
do conhecimento.
Um dos exemplo do exposto acima e que pode ser utilizado ao longo da aula, ou para
iniciar a mesma, provém da narrativa intitulada “Origens”, de Jeffrey (2002). Neste tecido
textual, há a informação de que o continente africano é três vezes maior que a Europa e é
dividido ao meio pelo deserto do Saara. O professor pode explorar a partir dessa exposição o
mapa político da região e expor que no continente não somente vivem negros, brancos
também e os primeiros estão situados, em geral, na África subsaariana.
O docente pode expor, conforme o decorrer da leitura, que os povos africanos
possuem lendas e mitos que explicam a origem das coisas, da humanidade e do universo
(dadas as relatividades, parecido com a mitologia grega). Em uma outra aula ele pode
apresentar aos alunos a narrativa do cão e o chacal, do povo Bushongo
1
, do Congo. Após realizar a leitura com os alunos ele faz a exposição sobre esse grupo
étnico e ensinar sobre o país mencionado.
Essas histórias são dois exemplos, de outros possíveis que demonstram como o uso da
literatura no ensino de História possibilita um diálogo alternativo e rico de informações para a
exposição de assuntos relacionados à história africana.
Elas corroboram a assertiva da Lei de Diretrizes e Base – LDB (2001), sobre a
educação abranger os processos formativos que estão inclusos no desenvolvimento da vida de
uma pessoa, como: família, convivência humana, trabalho, movimentos sociais e
manifestações culturais, porque estas etapas são componentes principais no ato de aprender,
que associados a um bom intermédio (professor) possibilitam o sucesso garantido de que se
interessa a educação, isto é, a formação do individuo como ser pensante.
Por conseguinte, após essas mudanças, outra deveria ocorrer, pois a necessidade de
uma reformulação da LDB tornou- se urgente para que se permitisse a flexibilização do
currículo que as leis orientavam. Nesse interim, foram alterados os artigos 26-A, 79-A e 79-B
que também tornaram obrigatórios o ensino de história e cultura afro-brasileira e africana, nos
segmentos do fundamento e médio. Sendo assim, a história da África e dos africanos, a luta
dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na sociedade nacional.
Segundo os professores Mariana Heck e Fábio Amorim (2016), o objetivo dessa lei foi
possibilitar aos alunos uma noção sobre a história do continente africano e do homem que ali

1
Grupo étnico da região central da África, em uma época pré-colonial, hoje o país do Congo.
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reside, contribuindo para um ensino crítico e orientando os discentes para compreensão dos
modos de vida daquele lugar.
Paralelo a isso, a Resolução 01/04, logo após a aprovação da Lei 10.639, visa atender
as demandas de afrodescendentes, que antes de todo esse cenário possuíram pouca
visibilidade dentro do contexto educacional. Muito desse quase invisível ocorre do
desconhecimento em relação à história do continente africano, como também das diferenças
culturais e sociais ali existentes. Todo esse conjunto ajuda na criação e ainda permanência de
preconceitos e visões exóticas acerca do homem daquele lugar.
Por fim, pensar no uso da literatura como ferramenta de ensino de história, permite a
possibilidade de se trabalhar com discursos que revelam as contextualizações de uma
determinada época. Em outras palavras, ela é o observatório das representações de uma
sociedade em um específico tempo, sendo ela esse atributo, a história é o seu complemento.
Isto é, esta observa e registra as temporalidades, aquela humaniza a historicidade.
Nesse interim, o ensino de história vai além da aprendizagem de fatos e situações
históricas. A partir das mudanças nas Leis mencionadas, PCNs e LDB, possibilitou-se ao
aluno compreender que essa área de conhecimento está em construção e a novas reflexões
sobre os acontecimentos históricos.

Considerações finais
A educação lança mão de modelos que nada são do que visões acerca do homem que
se pretende educar. Segundo Siman (2005): “A atual política nacional curricular atribui ao
ensino de história o papel de formar um novo cidadão que, dentre outras características, seja
capaz de compreender a história do país e do mundo como resultante de múltiplas
memórias...” (SIMAN, 2005:350)
As mudanças que a Lei 10.639/03 e a 11.645/08 vem ocasionando sobre o ensino da
História da África e Cultura Africana. Como o observado, esse novo cenário também se deve
ao processo de ensino que considera o uso da Literatura, Música, Teatro, Educação Artística
e outras linguagens para realizar uma aprendizagem com qualidade.
Diante desse quadro, em específico no uso do texto literário, acreditamos que ele
consegue o ferramenta de mediação do conhecimento histórico por parte do professor, edifica
e compartilha saberes sobres os assuntos relacionados aos povos continentes.
Com efeito, esse novo modo de aula permite que o discente obtenha um tipo de
conhecimento sobre as Áfricas e seus descendentes que percorre desde o entendimento sobre

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as diásporas, como também a compreensão sobre a vida cotidiana e a respeito das dinâmicas
de expressão e reconhecimento de histórias do período pré-colonial. Além disso, esse jovem
estudante poderá ter acesso a um passado histórico em que houveram lutas e conquistas para
se obter a independência política.
Tudo isso desaloja conhecimentos continentais engessados e fechados em si mesmos.
E é nesse contexto que surge a literatura como a expressão que nos ajuda a entender sobre nós
e a realidade circundante. Esta situação corrobora com o pensamento de Achebe (2013) a
respeito do continente africano, ou seja, que a África não é ficção e possui gente de verdade.
O aluno que obtém conhecimento sobre os traços culturais, sociais, políticos econômicos a
partir das aulas de história das Áfricas, irá perpetuar essa compreensão sobre aquele lugar.
Em síntese, a promulgação das leis e as diversas formas metodológicas que já
surgiram sobre o ensino de história nesse contexto, rompem com uma tradição de se ensinar
os assuntos relacionados àquele continente. Diante do exposto, é necessário que o cotidiano
seja de mudanças na totalidade dos estabelecimentos educacionais do Brasil, para que haja
uma maior produção de conhecimentos sobre os estudos africanos e, dessa forma, maior
conscientização sobre quem somos, uma vez que a população brasileira é indígena e é negra.

Referências
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BRASIL. Lei nº 10.639, de 9 de janeiro de 2003. Altera a Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de
1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo
oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira”, e
dá outras providências. Diário Oficial da União. Brasília, DF, 10 jan. 2003.
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A CONSTRUÇÃO DE UMA IDENTIDADE TRABALHISTA DURANTE


A DÉCADA DE 1930 NO AMAZONAS.
AMAURY OLIVEIRA PIO JUNIOR

Introdução
A década de 1930 no Brasil seria marcada como o início de uma nova
contextualização nas relações entre trabalhadores, patrões e um novo papel do Estado sobre
estes. Verificaríamos a partir de então a constituição de um edifício legal que embora de
pronto buscasse atender o mundo do trabalho urbano para certas categorias mais específicas,
com o decorrer dos governos de Getúlio Vargas seria ampliado de forma significativa.
Nossa pesquisa se debruça sobre plataformas políticas voltadas à aplicação no Estado
do Amazonas da recém criada legislação, especialmente aquela relacionada ao novo papel
desejado para com os sindicatos de trabalhadores.
Utilizando como principais fontes a imprensa jornalística da época, voltaremos nossa
atenção sobre ojornal Tribuna Popular. Inicialmente sob o subtítulo “Órgão do Partido
Trabalhista Amazonense”, levaria a partir de julho de 1935 a denominação de “Órgão do
Partido Popular Amazonense”, resultado da união de lideranças do Partido Socialista
Amazonense liderados por Álvaro Maia, e do Partido Trabalhista Amazonensesob o comando
de Luís Tirelli.
Embora controlado por lideranças políticas, muitas das quais ligadas as antigas
estruturas do sistema partidário da denominada República Velha, o Partido Trabalhista do
Amazonas tinha por base diversos sindicatos amazonenses, o que dava voz ao movimento
operário nas páginas de seu órgão de divulgação – o Jornal Tribuna Operária – em especial
aos não reconhecidos oficialmente pelas novas leis impostas aos sindicatos pelo Ministério
do Trabalho, que deixavam pouca margem de manobra política aos que não se enquadravam
no oficialismo estatal.
Além disso, são justamente nas páginas do Jornal Tribuna Popular, nos discursos e
campanhas ali promovidos, que podemos encontrar a consolidação do grupo político que de
fato melhor representou os ideais varguistas-trabalhistas nos anos que se antecederam ao
Estado Novo, e sua interação com boa parte do movimento sindical entre 1934 e 1936; uma
época de tensões, de momentos ora de afastamentos ora de unificação entre suas lideranças


Mestre em História Social pelo Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do
Amazonas, Professor do Centro de Mídias do Governo do Estado do Amazonas e-
mail:amaurypio@hotmail.com
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políticas, que nada mais foram reflexos do que o país como um todo também assistiu, sentiu e
ficou marcado.

O Panorama do Mundo do Trabalho Brasileiro antes dos anos 30

Os movimentos das lutas operárias no Brasil datam do século XIX, embora suas
entidades tivessem até então marginalizadas pela negação de reconhecimento tanto pelo
Estado Brasileiro quanto através de suas Leis. Mesmo assim, a existência de sindicatos de
empregados no Amazonas naquele século permite afirmar que “o movimento operário de
Manaus já era significativamente atuante, como destacado pela identificação da greve dos
catraieiros em 1883” (PINHEIRO, 1999, p. 70)2. Profissionais portuários e gráficos tiveram
neste período destacado papel quanto a organização sindical regional.
A falta de uma legislação específica sobre o assunto levava a via de regra, que a
maioria dos acordos realizados em negociações grevistas fossem sumariamente descumpridos
pelo patronato. Embora fosse um dos fundadores da Organização Internacional do Trabalho
em 1919, para o governo brasileiro naquelas primeiras décadas do século XX, as relações
trabalhistas deixavam cada vez mais de ser um problema social para tornar-se policial não
sendo exagero “dizer que até o final do ano de 1930, não existiam leis trabalhistas no Brasil.
Ou melhor, se algumas existiam, não eram aplicadas” (GIANNOTTI, 2007, p.101).
Apontamentos indicam que a primeira vez que um governo aceitou intermediar
grandes greves foi em 1917, em São Paulo “durante o alastramento do que começou no mês
de junho no bairro da Mooca e se espalhou por toda cidade durante trinta e cinco dias,
obrigando o governo a interferir, tendo como resultado os trabalhadores conquistando parte
das reivindicações" (GIANNOTTI, 2007: p.68).
Os direitos trabalhistas eram entendidos pelo Estado como não legitimados por ele
mesmo e, portanto, as ações que o reivindicavam eram dignas de repressão. Por outro lado, o
empresariado entendia que as relações trabalhistas estavam reguladas pelas leis civis, no
instituto da ‘locação de serviços’. Desse modo, as greves de 1917 podem ser vistas como um
meio de luta não apenas para a efetivação de alguns direitos pontuais, mas sim da necessidade
de criação de um direito especial para um novo sujeito que se consolidava no mundo do
trabalho brasileiro: o operário urbano.

2
Quando Manaus ainda não possuía o Porto Flutuante, os navios ficavam no meio do rio Negro, sendo que estes
profissionais, em canoas denominadas de “catraias” faziam o transbordo entre a terra firme e as embarcações.
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A partir dos anos 1920, a radicalização dos movimentos Tenentistas, como a Revolta
dos 18 do Forte de Copacabana em 1922 e da Coluna Prestes entre 1922-1927, alémda
Revolução Paulista de 1924, levaram tanto governos Estaduais quanto Federal, a evocarem
em diversos momentos, medidas de repressão, como o estado de sítio e outras estratégias que
engessavam greves e manifestações.
Este período se não representou os avanços esperados – em alguns casos como o dos
anarquistas, a intensa perseguição do governo Bernardes promoveu um grande
enfraquecimento que por outro lado seria aproveitado por dois novos agentes que dominariam
o cenário do movimento operário: os cooperativistas e os comunistas3.
Apesar dos Cooperativistas - liderados por Sarandy Raposo -trazerem propostas que
procuravam transitar politicamente entre os dois grupos adversários, anarquistas e
comunistas- “acabaram por ficar mais alinhados com os últimos, até mesmo por conta dos
desafios institucionais políticos que as eleições para a Câmara de Deputados a acontecer em
fevereiro de 1927 exigiriam” (GOMES, 2005: p. 161).
A reação das lideranças sindicais comunistas através da criação da legenda “Bloco
Operário”, depois BOC (Bloco Operário Camponês) isolaria sob este aspecto, os sindicatos
ligados aos anarquistas que assistiriam um sucessivo esvaziamento de suas fileiras nos anos
seguintes.
Seria sob esta conjuntura onde cada vez mais os sindicatos atrelavam-se a projetos e
grupos políticos de âmbito nacional, que a emergência de um papel protagonista da parte do
governo brasileiro no mundo do trabalho encontraria um momento apropriado para o
estabelecimento das bases do Trabalhismo no país.

Implantação gradual e consolidação do Trabalhismo como Política de Estado


Logo após assumir o Governo Provisório em fins de 1930, Getúlio Vargas
providencia a criação do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio transparecendo uma
premente preocupação em reordenar as relações conflituosas entre entidades sindicais e o
patronato, conforme assistidas ao longo da década anterior.
Um extenso conjunto de leis seria logo adotado para isso, a exemplo do Decreto
19.770 de março de 1931, que estabelecia novas normas de sindicalização. A proposta ali

3
As notícias acerca do massacre promovido pelo governo bolchevique russo contra a Revolta do Kronsdat, onde
a maioria rebelde eram anarquistas, chegaram ao Brasil causando afastamento destes das organizações operárias
ligadas aos comunistas. Acirrou-se uma intensa disputa entre os dois grupos pelo controle das instituições como
Sindicatos, Associações e Federações.
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contida, segundo Ângela de Castro Gomes em A invenção do Trabalhismo, vinha


“transformar e ao mesmo tempo concorrer com o padrão de associações até então existentes
no movimento operário” (GOMES, 2005, p.163).
A sindicalização “facultativa” seria outra estratégia que empurraria muitos operários
ao novo modelo, pois somente sindicalizados gozariam de benefícios de leis que surgiriam.
Sob Salgado Filho “veríamos um período-chave onde seriam promulgadas a maioria destas
leis, que procuravam regularizar condições de trabalho como horários, férias, atuação de
mulheres e menores até a criação de instrumentos de enfrentamento dos conflitos que
surgissem, como Comissões e Juntas de Conciliação e Convenções Coletivas de Trabalho”
(GOMES, 2005, 164).
A construção do arcabouço Trabalhista se dá de maneira ambivalente nesta fase, ao
deixar evidente a negação da existência dos movimentos sindicais legítimos e suas lutas nas
décadas anteriores a 1930, ao mesmo tempo que retoma o discurso ainda do século XIX –
ressignificados em novo contexto – do valor fundamental do trabalho como meio de ascensão
social e não de saneamento moral, sendo este entendimento, juntamente com a dignidade do
trabalhador como “eixo principal do qual se monta sua comunicação com a sociedade e com o
mundo da política” (GOMES, 2005: p.27).
Ainda para Ângela Gomes, estes primeiros anos teriam mais um caráter
“pedagógico”, haja visto a resistência sindical especialmente de entidades ligadas aos
comunistas. Aponta-se que precisamente a fase de efetiva imposição desta legislação se daria
somente após o Golpe de Estado de 1937, também onde a adesão substancial do
empresariado se daria sob o receio do “avanço comunista” que o Plano Cohen apregoava.
O papel que o novo sindicalismo desempenharia seria fundamental para a execução
das teses Trabalhistas, em uma conjuntura que o Estado, principalmente após 1937, deveria
preocupar-se em se mostrar diferente das propostas comunistas e nazistas. Seria através da
atuação sindical, em sua nova roupagem, que fundamentalmente faria o Estado Novo infiltra-
se no indivíduo trabalhador.
Diante desta consolidação do discurso Trabalhista a nível nacional, resta-nos
averiguar sob que condições este se apresentaria sob os aspectos regionais do Estado do
Amazonas.

Um Trabalhismo com feição Amazonense

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No caso do Amazonas, as lideranças políticas locais identificadas no estabelecimento


de um discurso sob diretrizes trabalhistas foram em boa parte agentes que anteriormente a
1930,haviam despontado tanto através do Movimento Glebarista, quanto na efêmera, mas
intensa Revolução Tenentista de 1924, onde Manaus destacou-se por ter sediado um dos focos
mais radicais do movimento. Pesquisas ressaltam que “identificar a atuação destes
personagens nos eventos desencadeados nos anos 1920 é passagem obrigatória para
compreender a instalação do trabalhismo no Amazonas nos anos 1930” (SANTOS, 1989:
p.22).
O primeiro fator que permitiu o surgimento de novas lideranças4 pode ser observado
no desgaste das oligarquias tradicionais locais, geralmente em disputas que chagavam ao
governo Federal através de reiterados pedidos de intervenções, vinda de adversários
derrotados nas eleições locais. Foi assim, por exemplo, quando para o pleito ao governo
estadual no quadriênio 1920/1924, embora ocorresse a vitória de Luiz Wortingnen Ferreira –
apoiado pela facção de Silvério Nery - o grupo ligado a Guerreiro Antony consegue após
solicitação ao Presidente da República Epitácio Pessoa, a nomeação do desembargador César
do Rego Monteiro.
A administração Rego Monteiro, ao encontrar um Estado sob grandes dificuldades
financeiras acaba piorando substancialmente a penúria, após desastrosas tentativas de
empréstimos malsucedidos, tornando crônicos os longos atrasos do funcionalismo público, o
que gerava repercussão não somente nos diretamente afetados como no comércio das cidades,
principalmente Manaus.
As eleições previstas do próximo quadriênio, onde a força do grupo Rego Monteiro
indicaria para sucessão Aristides Rocha, logo encontraria um percalço: a Rebelião de 1924.
Trazidos para o Amazonas como forma de punição as Revoltas Tenentistas de 1922, diversos
líderes militares logo perceberiam a oportunidade de novamente engajarem-se em outra
Rebelião, acertada para ocorrer a nível nacional.
Em julho de 1924 liderados pelo tenente Ribeiro Junior, controlam não só a capital
Manaus, mas boa parte do Estado estendendo suas ações até Óbidos e Santarém no Pará,
quando ao largo de um mês de posse destas guarnições militares, são atacados pelos reforços
federais que finalmente promovem a rendição do tenente Ribeiro Junior e os quadros que

4
Embora muitas destas lideranças também pertenciam à oligarquias locais, traziam em sua formação intelectual
muito do que viam e ouviam dos locais para onde haviam sido enviados, principalmente capitais do nordeste e o
próprio Rio de Janeiro.
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fizeram parte de um tênue, mas intenso governo onde parte das contas públicas fora posta em
dia, principalmente a moralização quanto a salários.
Aparece diante deste quadro, um dos nomes que mais se destacaria nos anos
posteriores como representante do movimento trabalhista no Amazonas: o jovem Álvaro
Botelho Maia. Ao rastrear seus textos desenvolvidos no breve governo tenentista, como
Velhos e Novos Horizontes – O Amazonas e a Revolução de 1924, No Limiar da Intervençãoe
tambémApós a Campanha, a pesquisadora Eloína Monteiro, destaca como esta futura
liderança política buscava pontuar as suas posições de maneira antagônica ao modelo de
facções oligárquicas em constante crise política e ameaças de intervenção federal. (SANTOS,
1997: p. 37-39).
Embora oriundo do que seria parte da elite amazonense da época, filho de
seringalistas, enviado para fora do Estado para formar-se em Direito, sempre foi atuante em
diversos movimentos culturais, onde talvez tenha mais se destacado no Glebarismo, de forte
atuação desde a segunda metade da década de vinte entrando nos anos trinta, onde parte da
intelectualidade amazonense nata chamava para si a tarefa de retomar os rumos de um Estado
acostumado a intervenções federais e desmandos de uma oligarquia política bastante
fragmentada por lutas internas pelo poder.

O Jornal Tribuna Popular como voz unificante do discurso Trabalhista no Amazonas


O início do regime varguista iniciado em 1930 e que se estenderia até 1945, encontrou
na sua conjuntura inicial uma amálgama de interesses bastante difusos, dada a formação de
um novo governo que não só a nível federal, mas também nos Estados, refletia uma
diversidade senão ideológica, mas que opunham aqueles que se encontravam na oposição
durante a década de 1920 e agora tinham o anseio de participar da então denominada
Revolução de 1930, e as forças políticas da denominada República Velha.
O Amazonas como não poderia ser diferente, também sentiu os efeitos deste novo
leque de apoio ao novo regime, que incluía além de lideranças surgidas nos embates sindicais
dos anos 1920 - a exemplo do almirante de fragata Luiz Tirelli agora na liderança de
sindicatos ligados aos marítimos - também aqueles que como Álvaro Maia haviam se ligado
ao movimento Tenentista de 1924 - também “consistia-se da Liga Eleitoral Católica sob a
direção da benemérita Maria de Miranda Leão, a “Mãezinha”, e por fim um relevante grupo
ligado a Ação Integralista Brasileira ( AIB) que incluía um significativo número de políticos

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pertencentes a diversas siglas partidárias, como por exemplo, Leopoldo Carpinteiro Peres,
ligado aos trabalhistas (COSTA, 2001: p. 134-177).
Tal diversidade também era refletida nas organizações partidárias. Com o
enfraquecimento dos partidos ligados ao regime anterior a 1930 – principalmente quanto ao
Partido Republicano Amazonense – fazia-se necessário um reordenamento político que
resultaram no ressurgir em escala local de iniciativas que foram frustradas a nível nacional na
década de 1920: a criação do Partido Trabalhista Amazonense e do Partido Socialista
Amazonense. O primeiro criado em fevereiro de 1933 e o segundo em abril do mesmo ano.
( Diário Oficial do Amazonas (D.O.A), 1934: p. 12).
Estas informações nos levam a importante indagação: por que criados justamente em
1933, um intervalo de três anos após a Revolução de 1930? Em um primeiro momento,
Getúlio Vargas fez-se apoiar numa política centralizadora de seu poder, onde tentava
controlar as forças regionais pela atuação de interventores nomeados. No Amazonas, mesmo
sendo um nome bastante interessante para Vargas, por trazer um lufada de renovação e
juventude, Álvaro Maia ficou pouco mais de um ano como interventor nomeado, resultado de
pressões políticas locais que embora conseguissem um novo interventor, não possibilitou na
estabilização da política local, dado o registro da passagem de diversos nomes pelo cargo
entre 1931 e 1933.
O desencadeamento da convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte por
Vargas após 1932, provocará um período curto para a reorganização das agremiações
partidárias. Diante deste quadro é que verificamos a fundação do Partido Trabalhista quanto
do Partido Socialista Amazonense, necessários para que as lideranças se tornassem aptas a
concorrerem aos cargos.
Este arranjo tornou possível uma maior clarificação das forças locais ligadas a defesa
das propostas varguistas, em especial referentes à aplicação da recém elaborada legislação
sindical por parte do Ministério do Trabalho.
Eis portanto o contexto em que surge o Jornal Tribuna Popular, que em uma primeira
fase, inaugurada em 10 de outubro de 1933 - da qual consta-se o forte apelo em prol podemos
da liderança de Luís Tirelli5 – único deputado eleito pela aliança dos trabalhistas com os
liberais na chamada “Aliança Trabalhista Liberal do Amazonas” - com forte atrelamento a
classe trabalhadora a exemplo da manifestação de apoio na coluna Voz do Operário:

5
Filiado ao Partido Trabalhista Amazonense, elegeu-se em maio de 1933 deputado à Assembleia Nacional
Constituinte na legenda da Aliança Trabalhista Liberal do Amazonas (...) ,FONTES: ASSEMB. NAC. CONST.
1934. Anais (1).
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Na representação amazonense tem o proletariado seu legítimo defensor na pessoa


criteriosa e altamente digna do Sr. Comandante Luís Tirelli, vitorioso candidato do
P.T.A., de quem tudo esperamos em favor do Estado e do seu povo. O proletariado
que tem na pessoa do Comandante Tirelli seu destemido defensor, seu ídolo e por
ele cultiva verdadeira admiração e deposita em S. Exa., todas as suas esperanças. E
tem razão justificada para tal. Relevantes serviços têm ele prestado à causa
proletária, empregando o melhor de suas energias em favor das classes menos
favorecidas, harmonizando e influindo nas reivindicações de seus direitos
6
conspurcados.

Esta preocupaçãoinfere-se certamente ao cerceamento que o movimento sindical


passava na época, onde a política do novo regime somente permitia direitos aos sindicalizados
em entidades que fossem reconhecidas pelo Ministério do Trabalho – e obviamente por ele
assistidas e controladas – mas que viam em seus representantes daquela Assembleia
Constituinte de 1934, a esperança de poderem ter um campo de ação oficialmente mais
flexível, o quê acabou não acontecendo.
Mesma percepção nos parece na época bastante clara aos Trabalhistas do Amazonas,
que se preocupavam em congregar ao redor do seu Partido, as entidades sindicais que
estivessem “aptas”ou seja, legitimadas perante a nova legislação do Regime Varguista, como
nos aponta ainda a primeira edição do Jornal Tribuna Popular, onde se divulga a relação de
sindicatos e de associações operárias a eles ligadas.
A lista indicava a existência de uma federação de trabalhadores, oito sindicatos (
pilotos e práticos, estivadores, padeiros, diaristas, gráficos, sapateiros e motoristas) além de
quatorze associações (maquinistas, cigarreiros, motoristas, taifeiros, marinheiros, foguistas e
comerciários), além de indicar uma preocupação do Partido com a ramificação de
representantes no interior do Estado, como nos municípios de Parintins e Itacoatiara.
(Tribuna Popular, n. 09:1933).
Levando em conta que os registros oficiais davam conta da existência de 15
sindicatos de empregados e um sindicato de profissões liberais registrado no Ministério do
Trabalho, podemos apontar que de fato, na prática o Partido Trabalhista Amazonense tinha
em suas bases mais da metade das entidades sindicais que estavam respondendoàs proposta de
Vargas neste momento de reorganização do sindicalismo nacional (ANUÁRIO ESTATÍSTICO
1936 : p. 133).
Esta efêmera fase do jornal, mas não do Partido Trabalhista Amazonense, viria a ser
uma voz consolidada de importante parte do movimento partidário em uma segunda fase,
inaugurada em 15 de maio de 1934 onde em sua primeira edição além de informar em

6
Vóz do Operário. In: Tribuna Popular, Manaus, n. 03, 1933.
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subtítulo ser um “Órgão do Partido Trabalhista Amazonense”, no primeiro editorial, apontava


o que provavelmente, fosse uma importante razão de maior sobrevida: ser editado em “oficina
própria” (TRIBUNA POPULAR, n.08: 1934).
Este seria entre 1934 e 1936 o principal meio de comunicação de um grupo político
que se fortaleceria posteriormente sob a estrutura do “Partido Popular Amazonense”,
resultado da união das lideranças de Álvaro Maia como governador escolhido Governador
Constitucional para o período de 1935 a 1939 e o deputado estadual constituinte Luis Tirelli,
o primeiro do Partido Socialista Amazonense e o segundo do Partido trabalhista
Amazonense.7
Em aberta disputa pelas vagas da Assembleia Constituinte Estadual, durante todo ano
de 1934 percebe-se no Tribuna Popular que os Trabalhistas sob a liderança de Luís Tirelli e
Vivaldo Lima pautavam-se abertamente contra o Partido Socialista e seu nome maior, Álvaro
Maia.
O fator determinante para a união dos dois grupos seriam as eleições indiretas entre
os deputados constituintes estaduais eleitos para escolha do Governador que dirigiria o Estado
no período, onde o desgaste de Álvaro Maia entre os socialistas tornou-se evidente, ao não
conseguir eleger-se com votos de sua bancada, mas com a ajuda dentre outros,
escancaradamente divulgada no Jornal Tribuna Popular, dos que até pouco tempo haviam
“trocado espadas” na eleição estadual de 1934: o Partido Trabalhista Amazonense(TRIBUNA
POPULAR, n.42: 1935), que havia feito para esta Assembleia 4 deputados percentualmente
sendo 13 por cento aproximados do total. (COSTA, 2001: p. 166).
Desgastado pelos próprios correligionários, mas novamente no cargo de Governador,
Álvaro Maia organiza com seu grupo dissidente, tratativas com os trabalhistas que por fim
dão origem ao Partido Popular Amazonense, e consequentemente a continuidade do Jornal
Tribuna Popular, que em sua edição n. 64, do dia 15 de julho de 1935, além de anunciar a
nova legenda, utilizando-se do mesmo formato, inclusive em suas letras, propunha-se a ser o
porta voz deste grupo, que definiriam se posteriormente como consolidados entre os
representantes mais legitimados do regime de Vargas, inclusive após a instauração do Estado
Novo.
O Jornal Tribuna Popular até sua última edição em de abril de 1936 ao contrário de
indicar qualquer grave divergência no seio do Partido Popular Amazonense, do contrário nos

7
Quanto ao Partido Socialista Amazonense, consta-se que não possuindo um jornal próprio, utilizava-se de
outros órgãos como “O Jornal” para divulgar suas propostas.
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revela um otimismo alastrado mesmo entre seus apoiadores em regiões mais distantes da
capital, como quando menciona moção de agradecimento da Câmara Municipal de Tefé “pela
maneira patriótica que vem defendendo a causa deste Estado, sob a liderança de Álvaro
Botelho Maia” (TRIBUNA POPULAR, n.115 :1936).
Sem desmerecer diversos nomes que também colaboraram na implantação do
Trabalhismo no Amazonas, destacamos aqui os de cunho intelectual e de atuação bastante
expressiva na política local e mesmo nacional, agindo por vezes, como verdadeiros porta-
vozes entre os demais interventores e Vargas, papéis desempenhados tanto por Álvaro Maia,
quantopelo Deputado Leopoldo Carpinteiro Peres. Este último certamente podendo ser
incluído no bojo dos grandes ideólogos do projeto varguista, prova disto em obras como:
Política e Espírito do Regime de 1941 e Getúlio Vargas o Homem e o Chefe, de 1944.
Álvaro Maia com o discurso entusiasta de retomada da economia gomífera8,
vinculante ao entendimento que “eram os seringalistas e os seringueiros dois operários que se
auxiliavam na aventura e na conquista da terra” (MAIA, 1926: p.70), pensamento bastante
atrelado portanto a um conjunto em que ideias centrais como regionalismo e nacionalismo
estavam bastante atreladas. Outro nome que consoava com aspectos semelhantes foi Leopoldo
Peres, com seu “caboclo resignado”, “homem da floresta”, que deveria ser melhor atendido
pelo Governo Federal9.
Desta forma, nossa pesquisa até onde nos traz, permite perceber que o Jornal Tribuna
Popular não foi apenas mais um dentre outros tantos periódicos que surgem e desaparecem ao
sabor de realinhamentos políticos, percebidos até em nossos dias na política regional do
Amazonas.
Antes, superou-se como elemento divulgador de um período que ainda o campo
historiográfico pouco penetrou, lembrando não só o próprio governo de Getúlio Vargas e seus
reflexos sob o Trabalhismo no Amazonas, mas como a identidade deste Trabalhismo se
construiu no Estado naquele período.
De certa forma, dentre seus maiores legados podemos identificar ter permitido voz a
um movimento operário marginalizado, o qual arvorava no Amazonas novas perspectivas de
certo protagonismonas altas esferas políticas, algo inédito até então.

8
Fazia questão de ser colaborador dos Diários Associados de Assis Chateaubriand escrevendo onde podia
divulgar a nível nacional a situação do Amazonas sob seu comando.
9
Posterior a este período, conseguiria Leopoldo Peres, deputado constituinte em 1946 finalmente inserir naquela
Carta Magna o artigo 199, que criava o Plano de Valorização Econômica da Amazônia.
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Se não conseguiram isto como o pretendido, não podemos notar que entre 1933 e
1936, através do Tribuna Popular conseguiram um canal comunicativo com boa parte da
sociedade amazonense, da capital e interior. Uma voz que nos anos posteriores se consolidaria
através da aplicação mais ampliada da CLT e a confirmação de um novo perfil para o
sindicato brasileiro.

Referências
Fontes:
Anuário Estatístico do Brasil. Ano II Rio de Janeiro: Instituto Nacional de Estatística, 1936.
Jornal Tribuna Popular. Edição n. 25: Manaus, 1933.

Bibliografia:
Registro dos partidos no TRE/AM. In: Diário Oficial do Amazonas: Manaus, 10/10/1934.
COSTA, Maria das Graças Pinheiro. O Direito à Educação no Amazonas (1933-1935),
Tese(Doutorado), Pontifícia Universidade Católica de São Paulo-PUCSP, São Paulo,SP,
2001.
GIANNOTTI, Vito.História das Lutas dos Trabalhadores no Brasil. Rio de Janeiro: Mauad
X, 2007, p.68
GOMES, Ângela Maria de Castro. A Invenção do Trabalhismo – 3ª. Ed. Rio de Janeiro:
Editora FGV, 2005, p. 156 a 161.
PARANHOS, Adalberto. O Roubo da Fala: Origens da ideologia do trabalhismo no Brasil.
2ª. Edição. São Paulo: Boitempo: 2007
MAIA, Álvaro. Na Vanguarda da RetaguardaAmazonas. Departamento estadual de imprensa
e propaganda, 1943, p.70.
MAIA, Álvaro Botelho. Imperialismo e separatismo. Manaus: Armazéns Palácio Real, 1926.
PINHEIRO, Maria Luiza Ugarte – A Cidade sobre os Ombros – A cidade sobre os ombros:
trabalho e conflito no Porto de Manaus (1899-1925) – Manaus: EDUA, 1999
SANTOS, Eloína Monteiro dos. A Rebelião de 1924 em Manaus. 2ª. Ed. Manaus, Gráfica
Lorena: 1989.
SANTOS, Eloína Monteiro. Álvaro Maia, Uma Liderança Política Cabocla. Manaus: Editora
da Universidade do Amazonas, 1997, p. 37 – 39.

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VILAS DE CASAS EM MANAUS (1900-1920): HERANÇA CULTURAL E ANTIGAS


FORMAS DE MORADIA
ANA DO NASCIMENTO GUERREIRO*

Manaus foi protagonista de uma fase econômica impar na história - o período da


borracha (1879-1912), momento em que a exploração da economia extrativista do látex
proporcionou o florescimentode cidadescomo Manaus, Belém e Rio Branco, dentre várias
outras, que são testemunhas da ocupação e do desenvolvimento nesse contexto específico da
industrialização em escala mundial. O seu valor histórico não se deve apenas pela importância
no processo de ocupação da Amazônia brasileira, mas também pelo acervo edificado que o
ciclo da borracha deixou como herança para gerações seguintes, um significativo conjunto
arquitetônico que ainda permanece, mesmo sob grande pressão e ameaça da dinâmica caótica,
desordenada e degradada em seu sitio histórico.

A questão mais discutida acerca da preservação do Centro histórico de Manaus é, mais


especificamente, o que devemos preservar dentro desse sítio? O que preservar e porque
preservar? As diferentes interpretações do passado histórico e sua importância muitas vezes
são observadas pelo ponto de vista das expectativas institucionais estabelecidas pela
políticavigente de proteção do patrimônio, nas diversas esferas do poder público, constituída
com base no instrumento do tombamento.

O tombamento, para a política do patrimônio, é um ato administrativo realizado pelo


poder público, com o objetivo de preservar, por meio da aplicação da lei, bens de valor
cultural, histórico, arquitetônico e ambiental para a sociedade, impedindo que eles sejam
destruídos ou descaracterizados. No entanto, é no enfrentamento diário dos problemas dos
centros históricos que se justifica a necessidade de conhecer e aprofundar sobre aspectos da
política do patrimônio.

Compreendendo o Centro Histórico de Manaus como sendo um espaço que tem a


função de guardião da memória social e coletiva, a apropriação do conhecimento, por meio da
identificação e registro de suas características físicas de suas edificações, bem como
levantamentos sobre os dados históricos tem sido executada através de inventários por órgãos
públicos desde 1985, por iniciativa do órgão municipal de planejamento urbano, quando da
urgência de criar uma política de preservação até então inexistente. O marco inicial para essa

*
Arquiteta e Urbanista, mestranda em História PPGH-UFAM.
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iniciativa foi a demolição autorizada do Cine Guarany, despertando a população para a


ameaça que o crescimento intensificado pelo evento Zona Franca causou desde sua
implantação a partir de 1967. O resultado desse inventário compôs o Cadastro Arquitetônico e
Histórico de Manaus -1985, onde foram identificados um total de 869 imóveis classificados
como unidades de interesse de preservação”, onde 284 unidades eram consideradas de 1º grau
(unidades monumentos) e 585 unidades de 2º grau (unidades de acompanhamento). A partir
desse listagem, foi possível ter conhecimento necessário para fundamentar a Lei Orgânica do
Munícipio de Manaus (1990) e posteriormente a Lei nº 671/2002 o Plano Diretor Urbano e
Ambiental, onde o artigo 14 determinava a execução de “I - inventário atualizado de todos os
bens imóveis considerados de interesse cultural, já protegidos ou não, em articulação com
órgãos e entidades federais e estaduais de cultura e patrimônio; II - inventariar e registrar as
manifestações culturais – tradições, hábitos, práticas e referências culturais de qualquer
natureza – existentes no município que conferem a identidade de suas populações e dos
espaços que habitam e usufruem”.

A proteção legal do Centro Histórico da Cidade de Manaus está fundamentada na Lei


Orgânica do Município de Manaus (art.342), de 1990 que delimita e tomba a área denominada
Centro Antigo abrangendo o segmento denominado Sítio Histórico (art.235, §2). O Decreto
municipal nº 7176 de 2004, estabelece o Setor Especial das Unidades de Interesse Patrimonial
- SEIUIP, que classifica e lista as edificações que devem conservar suas características
originais, quanto às fachadas, à volumetria e taxa de ocupação do solo, também está baseada
nas estratégias estabelecidas no Plano Diretor e Ambiental do Município de Manaus, Lei
Complementar no.002 de 16/01/2014.

O decreto municipal nº7176 de 10 de fevereiro de 2004, comprometeu enfim a


administração pública municipal em promover e incentivar a preservação, recuperação e
revitalização das edificações de relevante interesse, como forma de proteção do patrimônio
histórico, artística e turístico da cidade de Manaus. Essas unidades de interesse de preservação
foram cadastradas e classificadas como sendo de 1º e 2º Grau, Orla Portuária e Praças
Históricas. Essa listagem contém cerca de 1666 imóveis e 10 praças, onde se pode observar
pela primeira vez a inclusão de cerca de 10 vilas de casas, um número bem inexpressível e
talvez, equivocado na interpretação dos critérios que determinam o interesse da preservação e
o reconhecimento do caráter simbólico dessa tipologia de habitação, onde estão listadas as
seguintes:

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Denominação Endereço Unidades Uso Atual


Vila Nair Av. Joaquim Nabuco nº 1771 Alterado Serviços de Saúde - Samel
Vila Georgette Rua Lauro Cavalcante nº 73 20 Residencial

Vila Ninita Av. Sete de Setembro ao lado Palácio Rio Alterado Secretária de Cultura do
Negro Amazonas -SEC
Vila Rezende Rua. Alexandre Amorim nº 193 16 casas Residencial

Vila Lucy Rua. Igarapé de Manaus nº 151 5 casas Residencial

Vila Ercília Av. Joaquim Nabuco nº 991 10 casas Residencial

Vila Augusta Beco José Casemiro nº 12 8 casas Residencial

Vila Baima Av. Sete de setembro nº 1419 8 casas Residencial


Vila Portela Rua Visconde de Porto Alegre nº 85 Alterado Residencial
Vila Arminda Rua Visconde de Porto Alegre nº 684 Alterado Residencial

Tabela 1 - Vilas localizadas no Centro Antigo tombadas pela legislação municipal. Fonte: Anexos I e II
do Decreto nº7176 de 10 de fevereiro de 2004 – Prefeitura Municipal de Manaus.

Quanto à Legislação Estadual, temos a Lei no. 1582 de 26/05/1982, que dispõe sobre o
patrimônio histórico e artístico do Estado do Amazonas e os respectivos decretos pelos quais
foram tombados 30 imóveis.
Vila

Mapa 1 –Mapa de Tombamento do Centro Histórico de Manaus 2010. A seta em vermelho


aponta a localização da Vila Georgette. Fonte: IPHAN-AM`. A seta

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Fundamentada no Decreto-Lei nº 25 de 1937, a proteção Federal do patrimônio, na


cidade de Manaus, no âmbito da Arquitetura, Urbanismo e Paisagismo, estava restrita a quatro
certidões de tombamento do IPHAN, sendo o Teatro Amazonas, o Mercado Municipal
Adolpho Lisboa, o Reservatório do Mocó (localizado fora do perímetro do centro histórico) e
o Conjunto Arquitetônico e Paisagístico do Porto de Manaus. Em 22/11/2010, foi publicado
no D.O.U a Notificação a Respeito do Tombamento do Centro Histórico de Manaus
promovido através do Processo n.º 1.614-T-10 (Processo n.º 01450.012718/2010-93), dado
em razão do seu elevado valor histórico, arquitetônico, urbanístico e paisagístico, conforme
delimitação das poligonais definidas como “de tombamento” e “de entorno”, como podemos
verificar no (Imagem 1). Os critérios de tombamento instituídos pelo IPHAN se mostraram
bastante equivocados e questionáveis, quando refletimos acerca dos juízos de valor histórico
na seleção dos conjuntos arquitetônicos protegidos, que excluiu, ou deixou de incluir, aqueles
que não representam a memória hegemônica, que reforça a narrativa do apogeu da cidade
dentro do ideário da monumentalidade dos edifícios de estilo eclético que ostentavam a
riqueza da época, excluindo outros objetos, tais como as palafitas, vilas de casas, elementos
naturais da paisagem, como apresenta Vládia Heimbecker:

A prioridade dada ao patrimônio eclético no centro histórico de Manaus e a ênfase


com que ele comparece nas listas de bens imóveis sobre os quais incide a legislação
preservacionista, evidencia o alinhamento do juízo seletivo institucionalizado e o
esforço em se fazer perpetuar uma memória na qual o ciclo da economia da borracha é
representante mais nobre. Ainda que Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico
Nacional tenha estabelecido um novo perímetro de tombamento no centro histórico, as
listagens operaram até o momento, como a base referencial para a proteção do
patrimônio edificado local. Desta forma, uma série de edificações, como as de caráter
moderno, situadas no centro histórico ou não, além de elementos naturais, como os
igarapés que sofreram intervenções recentemente para implantação por parte do
governo estadual, de moradias de interesse social, e as ocupações sobre as águas, não
são consideradas no processo de proteção patrimonial, evidenciando a
desconsideração no conjunto da legislação em vigor para proteção do patrimônio, de
seu valor para a paisagem cultural de Manaus, cujas feições preservadas derivaram de
uma compreensão histórica restrita temporal e socialmente. (HEIMBECKER, 2014:
199)

Trazer à luz a discussão das Vilas de Casas enquanto Patrimônio histórico vai nos
levar a buscar algumas definições e fazer algumas indagações. Para Francoise Choay
(CHOAY,2006, p.12), “o culto que se rende hoje ao patrimônio histórico, deve merecer mais
do que uma simples aprovação”. Requer um questionamento porque “constitui um elemento
revelador de uma sociedade e das questões que ela encerra”. Sendo assim, entre a
incomensurável abrangência do conceito de patrimônio, para este estudo, apropria-se como
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categoria exemplar, aquele que relaciona mais diretamente vida cotidiana de todos: o
patrimônio histórico é a herança edificadaque tem como destino e função dar abrigo ao
indivíduo e sua família – a habitação familiar (casa) “domus”, compreendendo o caráter
construtivo desse espaço que se estende do privado ao público.

Patrimônio Histórico designa um bem destinado ao usufruto de uma comunidade que


se ampliou a dimensões planetárias, constituído pela acumulação contínua de uma
diversidade de objetos que se congregam por seu passado comum: obras de artes e
obras-primas das belas-artes e das artes aplicadas, trabalhos e produtos de todos os
saberes e savoir-feire dos seres humanos. Em nossa sociedade errante, constantemente
transformada pela mobilidade e ubiquidade de seu presente, patrimônio histórico
tornou-se uma das palavras-chave da tribo midiática. Ela remete a uma instituição e a
uma mentalidade (CHOAY,2006, p.11)

Nessa perspectiva, falar de patrimônio histórico, é falar de preservação da memória,


do que queremos preservar eporque precisamos não esquecer.De acordo com Jacques Le
Goff, “a memória, como propriedade de conservar certas informações, remete-nos em
primeiro lugar para um conjunto de funções psíquicas, graças às quais o homem pode
atualizar impressões ou informações passadas, ou que ele representa como passadas”. (LE
GOFF, 2003, p.419).É imprescindível compreender a preservação do patrimônio histórico, no
sentido de preservar a vidas das pessoas na própria história da cidade, através de seus
edifícios diversos ocupados pelas famílias, empresas e atividades que dinamizam a vida das
cidades. De outra forma, o edifício vazio logo se tornará uma ruína.

Nessa perspectiva, o patrimônio histórico não pode ser compreendido como algo
hermético e limitado aos prédios dotados expressão monumental. São lugares dotados de
sentidos e significados e refletem as mudanças das sociedades que podem nos expressar e
contar algo que precisamos continuar a lembrar: nossa identidade.Nas palavras de Maria
Elaine Kohlsforf:

Os lugares possuem, como qualquer fenômeno real, capacidade de transmitir


mensagens que serão interpretadas como revelação de certos sinais codificados. A
arquitetura urbana comunica-nos informações de várias naturezas, expressando suas
diversas características por meio de signos captáveis pelo nosso sistema dos sentidos.
(KOHLSDORF,1996 p.26)

As narrativas sobre a cidade de Manaus, quase sempre, privilegiam os aspectos do


fausto econômico, desviando o olhar dos aspectos mais negativos e o alto preço que sociedade
acaba sempre a pagar pela desigualdade. As opções tomadas pela administração pública, em
uma perspectiva histórica, quase sempre emergem do discurso que defende a sociedade, a
moral, os bons e saudáveis costumes, a ordem e o trabalho. No entanto, ao nos distanciarmos
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no tempo, podemos lançar um olhar mais crítico sobre a produção do espaço urbano manauara
em 1900, no que tange à arquitetura e seus significados, na reflexão de Leandro Tocantins:
Se a arquitetura é o símbolo mais visível de uma sociedade, a fisionomia urbana de
Manaus reflete bem o espirito da sociedade que floresceu em fins do século passado e
princípios do atual. Não se trata de uma frase, ou simples generalização sociológica. A
arquitetura de Manaus – arquitetura mais antiga – exprime uma atitude emocional e
estética da burguesia enriquecida pelo comércio :(TOCANTINS, 1972, p.265):

A cidade ocultada e revelada por Edinea Mascarenhas Dias (DIAS, 2007, p.122)
evidencia-se nas práticas e regulamentações contidas nos no códigos de posturas municipais,
“a preocupação em livrar a cidade dos elementos nocivos à saúde, à ordem e aos bons
costumes, ao mesmo tempo em que definem o espaço da cidade em seus mais diferentes
níveis econômicos, social e cultural”. A negação da realidade física do território busca a todo
custo construir uma imagem de cidade civilizada, materializada nas intervenções urbanas de
embelezamento fundamentadas no padrão e representação simbólica de ostentação da riqueza
do ideal burguês, em contraponto a sua própria geografia, desprezando a paisagem e harmonia
natural do lugar.
As normas continham as disposições gerais e detalhamentos sobre como construir as
habitações dentro do padrão desejável e sujeitavam a construção ao licenciamento por parte
do órgão público competente, além de um conteúdo extremamente moralizante que pretendia
impor um tipo de comportamento ideal. A aplicação dessas e o rigoroso controle no perímetro
urbano excluiu parte da população que crescia na cidade, mas não se enquadrava nas
possibilidades e conceitos da cidade dentro da visão burguesa de uma cidade ideal. Assim
sendo, iniciou-se um processo de segregação e exclusão espacial dos mais pobres para áreas a
beira dos igarapés da Cachoerinha (Educandos) e Igarapé da Cachoeira Grande (São
Raimundo), que ficavam fora do perímetro regulamentado, atravessando os igarapés para
acessar a cidade e local de trabalho através dos serviços das catraieiros.
Fica evidente que o discurso disciplinador das Posturas Municipais de Manaus sobre o
controle do corpo era preceito básico organizado em um sistema de regras e punições rígidas.
A estratégia do processo civilizador visava fazer da punição e da repressão das ilegalidades
uma função regular no cotidiano e de responsabilidade e aprovação por parte da sociedade,
fazendo do infrator um inimigo comum, lembrando as reflexões de Michel Foucault, sobre a
mecânica da disciplina é exercida pelo poder:
As sociedades modernas, a partir do século XIX, até os nossos dias, de um lado a
legislação, um discurso, uma organização do direito público articulados em torno do
princípio da soberania do corpo social e da delegação, por cada qual, de sua soberania
de Estado; e depois temos, ao mesmo tempo, uma trama cerrada de coerções

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disciplinares que garante, de fato, a coesão desse mesmo corpo social. (FOUCAULT,
1999, p. 44).

A exemplo do que acontecia nas grandes metrópoles emergentes no início do século


XX, o espaço urbano que se produzia na Manaus de 1900 é incontestavelmente fruto das
transformações advindas do progresso tecnológico e industrial na lógica capitalista que se
consolidava no mundo, onde as cidades amazônicas que prosperaram representam uma peça
importante em um curto e intenso período na história. Ao mesmo tempo, contradições à
riqueza e à prosperidade emergem nas camadas sociais cuja mão de obra é explorada nesse
processo: a exclusão social e espacial a qual as classes trabalhadoras sofrem no período de
fausto da Belle Époque não era um dado ignorado pelo poder público. Dias relata a
manifestação do superintendente municipal Adolpho Lisboa em 1903, cuja fala explicita a
situação precária, insalubre e promíscua das habitações do proletariado da cidade. Isto se
evidencia na leitura dos relatórios apresentados ao Conselho Municipal:
É preciso fomentar, por meio de prêmios e isenções fiscais prazo que compense o
emprego de capitais, as construções mais em voga em outros países – agrupamentos
de casas, formando vilas e núcleos de famílias – seria, com efeito, magnifica tentativa
para mais depressa se povoar os subúrbios da capital, sem onerar os cofres da
municipalidade (DIAS, 2007, p.125).

A iniciativa da administração pública na época limitou-se a incentivar o investidor


privado com isenção do Imposto Predial durante o prazo de 15 anos, para “a construção das
chamadas vilas operárias” (idem, p.126), mas impunha uma série de condições findavam por
inviabilizar as propostas. A ideia era que essas vilas fossem construídas em terrenos mais
afastados, em áreas menos valorizadas que o centro. No entanto, os investidores teriam que
arcar com as despesas de desapropriação dos terrenos necessário, assim como apresentar a
submissão da administração a tabela de preços de aluguel. “As casas proletárias seriam
alugadas à classe proletária, a funcionários públicos ou a qualquer um que se obrigasse a sua
conservação e aluguel” (idem, p.126).
O resultado dessa contenda foi que os investidores preferiram optar pela construção de
prédios no centro. Atendendo as conformidades da aparência externa, “mas internamente com
péssimas condições de moradia”, no que se refere a ventilação e iluminação e equipamento
sanitário. “Essas habitações eram alugadas aos trabalhadores por 50, 60, 70 mil réis mensais”.
Muitos dos investidores que exploravam esse tipo de moradia, ganhavam tanto dinheiro a
partir dos alugueis, que passaram a morar fora da cidade; “na primeira década de 1900, muitos
imóveis localizados em ruas de alto valor lucrativo pertenciam à mesma família”.

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Imagem 1 – Incêndio na Vila Georgette(Manaus/AM) - 2012. Autora: Monica


Dias/G1/AM. Acesso em 09/11/2016:http://g1.globo.com/am/amazonas/

Dois momentos motivaram a pesquisa sobre as Vilas do Centro Histórico de Manaus,


e envolvem o mesmo conjunto de casas: primeiro foi o incêndio ocorrido na noite da quarta-
feira de 08 de agosto de 2012, quando a cidade de Manaus foi surpreendida com a notícia de
que 7 das 20 casas da antiga Vila Georgette, localizada na Rua Lauro Cavalcante, nº 73,
foram destruídas em um incêndio. As investigações apontaram para uma possível fábrica de
salgados clandestina que funcionava na unidade no fundo do lote. ; o segundo momento foi
um artigo publicado no jornal a Crítica em 24 de fevereiro de 2013 intitulada “Charme das
Vilas: o pacato estilo de vida de quem mora nesses conjuntos”, a matéria assinada por Nelson
Brilhante, traz no texto algumas afirmações que provocam e alimentam minhas indagações:

Passa o tempo, a cidade avança rapidamente em direção aos “fundos”, a classe média
alta se afugenta nos afastados e “blindados” condomínios e a vida nas vilas do Centro
continua, se não a mesma, mas a passos lentos em todos os sentidos. A convivência
segue tão pacata e as reformas dos prédios tão esquecidas que tem-se a impressão de
que a modernidade insiste em não entrar nas estreitas vielas cercadas de casas. (...)
Somente nesses pequenos conjuntos é possível manter alguns dos velhos costumes
que a violência urbana se encarregou de “arquivar”. Em algumas vilas ainda é
possível, por exemplo, colocar a cadeira na porta de casa e “bater papo” com a
vizinhança, afinal, vizinhos desconhecidos é coisa de condomínio e prédio de
apartamentos. (BRILHANTE, 2016)

Um dos moradores, o vendedor de churrasco Evandro Celestino Cruz, era morador dos
apartamentos do Programa Social e Ambiental dos Igarapés de Manaus (Prosamim) do
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Igarapé do 40, mas preferiu alugar uma das casas na Vila Georgete pelo valor de R$ 800,00
pelo motivo da proximidade com o lugar onde comercializa seu produto. Celestino fez o
seguinte comentário ao repórter: “Além da gente conversar com todo mundo, a criançada
pode brincar a vontade. A gente fica despreocupado, principalmente porque sabe que aqui as
crianças não correm risco de acidente de trânsito. Que bom se essa tranquilidade fosse em
toda a cidade, como era antigamente”. (BRILHANTE, 2016).

Outro morador, o eletrotécnico João Bonfim, disse que “foi um “achado” encontrar a
irmã de criação morando numa das vilas do Centro”. Como era inquilino no igarapé do 40,
não teve direito a apartamento do Prosamim. Hoje divide o aluguel de uma das casas com a
irmã e não quer outra vida. “Não tenho problema de ônibus, vou a pé para o trabalho, os
meninos podem brincar à vontade, enfim, parece vida de antigamente”.

Imagem 2 – Aspecto da fachada (Manaus/AM) - 2018. Autora: Ana Guerreiro.

De acordo com Mario Ypiranga Monteiro, a Vila Georgette, na rua Lauro Cavalcante,
é uma das mais antigas vilas que se tem notícia em Manaus; a implantação se de modo muito
peculiar e racionalmente organizada: são quatro casas maiores na fachada de frente para rua
na face da quadra, cuja fachada é revestida de “tijolinhos polidos”, herança típica da
arquitetura portuguesa. Um portão de ferro com pórtico em arco tem o nome da vila e abre
para o via privativa de casas alinhadas ao lado esquerdo, contendo 16 casas geminadas em
gosto eclético, com platibanda e bordas nas portas e janelas.

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Na rua do Dr. Lauro Cavalcanti ainda existe a “Avenida Georgette”, arruado de casas
do lado esquerdo, boas casas dotadas de porão habitável e de espaço econômico
sofrível. É uma das mais “velhas” de que se tem notícia em Manaus. No porão da
última casa funcionava o jornal “Vanguarda”, do Sr. Jacy Zany, em que me fiz
jornalista ali pelas calendas 1927. À entrada dessa “avenida” existem casas de fachada
de tijolinhos polidos, produto daquele ciclo dos azulejos, e numa delas residiu o
professor de língua portuguesa Dr. Encarnação. Como ele era de espirito
tradicionalista, além de conservar o sotaque luso, e somente ler obras produzidas em
Portugal, os tijolinhos da fachada continuam respeitando-lhe a idiossincrasia, e a
excelente biblioteca não foi extraviada. (MONTEIRO, 2006: 87).

Um dado a acrescentar sobre a proteção existente sobre esse bem imóvel, reconhecido
pelas pessoas e pelo poder público municipal como patrimônio a preservar, foi que a
poligonal de proteção delimitada pelo IPHAN excluiu ou deixou de incluir,
inexplicavelmente, a quadra onde a Vila Georgette está inserida, como pode ser verificado no
mapa 1.

O fenômeno das Vilas de Casas em Manaus acontece de maneira semelhante e


diferente das Vilas Operárias de outras capitais brasileiras. Semelhante, naquilo que
compreendemos com fato gerador da decisão do edificar essas habitações: o incomodo
causado às elites pela presença de moradias insalubres, precárias e pobres em áreas centrais
valorizadas e “bem habitadas”. Diferente, porque localizou-se nas áreas centrais e valorizadas
da época - e não nas periferias. Essa decisão de edificar as Vilas Operárias Privadas para
aluguel no centro, acabou por determinar uma diferença na forma de habitar o centro. Essas
habitações que hoje estão localizadas e incluídas em perímetros delimitados pelos órgãos que
protegem o Patrimônio Histórico, onde muitas delas se encontram esvaziadas, deterioradas,
desvalorizadas pelo mercado imobiliário ou ainda pior: em situação de risco, face às ligações
clandestinas de luz, instalações obsoletas e precárias e usos incompatíveis com o residencial.
Por outro lado, essa resistência acontece dentro de um cenário de exploração e deterioração,
pois ao mesmo tempo em que os inquilinos não tem acesso aos proprietários para negociar
melhorias.

Referências Bibliográficas
DAOU, Ana Maria. A Belle Époque Amazônica. Rio de janeiro: Jorge Zahar.2004.
DIAS, Edineia Mascarenhas. A Ilusão do Fausto – Manaus 1890-1920. Manaus: Ed. Valer,
2007.
FOUCAULT, Michel. Em defesa da Sociedade: curso no Collège de France (1975-1976). São
Paulo. Martins Fontes, 1999.
KOLSDORF, M. E. “A apreensão da forma da cidade”. Brasília. UnB, 1996.
LE GOFF, J. História e Memória. Campinas: Ed. Unicamp, 2003
MESQUITA, O. Manaus - História e Arquitetura (1852-1910) Manaus: Ed. Valer. 2006.
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MESQUITA, O. La Belle Vitrine: Manaus entre dois tempos (1880-1900). Manaus: Ed.
UFAM. 2009
MONTEIRO, Mário Ypiranga. Arquitetura: Tratado sobre a evolução do prédio amazonense.
Manaus: EDUA, 2006
SAMPAIO, Patrícia Melo. Posturas Municipais Amazonas (1838-1967).Organização de
Patrícia Melo Sampaio. Manaus. EDUA, 2016.
TOCANTINS, Leandro. O rio comanda a vida: uma interpretação da Amazônia.
Rio de Janeiro: 4ª Edição. Companhia Editora Americana, 1972.
Documentos Oficiais
GOVERNO DO ESTADO DO AMAZONAS – Lei nº 1528 de 26 de maio de 1982 – D.O.A.
de 26/05/1982.
PREFEITURA MUNICIPAL DE MANAUS – Decreto nº 7176, de 10 de fevereiro de 2004 –
publicado no D.O.M. nº 938 de 11/02/04
PREFEITURA MUNICIPAL DE MANAUS – Plano Diretor e Ambiental da Cidade de
Manaus – Lei Complementar nº 002, de 16 de janeiro de 2014 – D.O.M. de 16/02/2014
PREFEITURA MUNICIPAL DE MANAUS – Lei Orgânica do Município de Manaus de 05
de abril de 1990.
IPHAN – Dossiê do Tombamento do Centro Histórico de Manaus - DEPAM/IPHAN – 2010
Jornais na Internet
DIAS, Mônica; SOUAZ, Marina. Incêndio destrói sete casas em vila histórica no Centro de
Manaus. G1. Disponível em:
<http://g1.globo.com/am/amazonas/noticia/2012/08/incendio-destroi-sete-casas-em-vila-no-
centro-de-manaus.htm> Acesso em: 09/11/2016.
BRILHANTE, Nelson. Charme das Vilas: pacato estilo de vida de quem mora nesses
Conjuntos. A Crítica-Uol. Disponível em:
<http://acritica.uol.com.br/noticias/Amazonas-Manaus-Cotidiano-preservacao-urbanismo-
Charme-vilas> Acesso em 11/07/2016.

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MUSEU AMAZÔNICO E A PRESERVAÇÃO DO PATRIMÔNIO DOCUMENTAL:


AS MEMÓRIAS ATRAVÉS DAS FALAS DE SEUS EX-DIRETORES
ANA ESTELA DOS SANTOS FERREIRA*
LEANDRO COELHO DE AGUIAR**

Introdução
Tal trabalho faz parte do projeto de pesquisa “Patrimônio documental no Amazonas:
história das instituições, acervos e práticas de arquivo”, coordenado pelo professor Me.
Leandro Coelho de Aguiar e vinculado ao Programa Institucional de Bolsas de Iniciação
Científica (PIBIC) da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), e que tem por objetivo
ajudar na compreensão da concepção histórica e sociocultural do Museu Amazônico, que,
apesar de existir há 27 anos, ainda é pouco conhecido pela sociedade amazonense.
Pretende-se assim recuperar e organizar os registros da trajetória do Museu através da
visão dos homens e mulheres que por lá passaram. Dando vazão a duas vertentes, de um lado
o próprio papel dos diretores, que poderão contar a história a partir de seu ponto de vista, e de
outro lado, tentar remontar as ações dos mesmos e como contribuíram na construção da
história do Museu. Acredita-se que as entrevistas com os ex-diretores vêm assim ajudar na
consolidação da identidade histórica do Museu.
O Museu Amazônico busca se inserir na sociedade amazonense como um dos locusde
construção de uma identidade do homem amazônico, numa concepção histórica e
sociocultural das diversas identidades presentes na formação da Amazônia, entretanto a
mesma ainda carece de uma consolidação da própria identidade. A falta de um certo
autoconhecimento da própria memória não é exclusividade do Museu Amazônico, e por isso
que em 2017 o Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM) utilizou dois de seus eventos
principais para buscar construir e consolidar tais memórias. A 15º Semana Nacional dos
Museus, com a temática “Museus e história controversas: dizer o indizível nos museus”, que
veio propor o diálogo sobre a construção das histórias contadas nos museus e a forma como
tais histórias são expostas, e a 11º Primavera dos Museus, com a temática “Museus e suas
memórias”, que buscou refletir a partir da memória da própria instituição, levando em
consideração o processo de transformação que sofreram impacto dentro das instituições, e as
mudanças sofridas, a partir desta perspectiva.

*
Graduanda do curso de Arquivologia da Universidade Federal do Amazonas - UFAM. E-mail:
anaestela.ufam@gmail.com
**
Professor coordenador do projeto. Professor da Faculdade de Informação e Comunicação da Universidade
Federal do Amazonas..
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Aproveitando os debates realizados dentro das atividades organizadas pelo IBRAM


em 2017 é que este projeto busca assim incentivar tais reflexão acerca do papel do Museu
Amazônico ao longo das suas quase três décadas, possibilitando criar uma memória
institucional, assim como, refletir acerca de suas ações, apropriações e seu papel diante da
sociedade amazonense. Pensar no papel do Museu diante da sociedade amazonense é inserir
uma identidade regional ao homem amazônico criando um mecanismo de interligação dos
bens culturais regionais.
No caso deste trabalho, busca-se considerar a importância do patrimônio documental
guardado e conservado pelo Museu Amazônico. Registros de fontes históricas que dão início
às condições de pesquisa e investigação sobre os vários momentos da sociedade que ajudam a
entender as diversas histórias dos povos regionais da Amazônia.
Nota-se a importância em observar e reconhecer que o Museu Amazônico nasce
através de uma vertente histórica ligada justamente ao patrimônio documental, já que foi
idealizado para fazer a guarda do acervo documental da então também criada Divisão de
Pesquisa e Documentação Histórica - DPDH, que é responsável por fazer a higienização,
classificação e identificação da documentação histórica que formam os fundos que a
compõem. Outrossim, compuseram inicialmente seu acervo os documentos da Empresa J. G.
Araújo que nos remete a história do extrativismo na Amazônia, do período áureo da borracha
e a formação socioeconômica na região, e o acervo do antigo CEDAM - Centro de
Documentação da Amazônia - criado pela UFAM através do curso de História, mas que ao ser
finalizado, teve que conseguir um lugar para preservar seu acervo, que se tratava
principalmente da temática da Amazônia Colonial dos séculos XVII e XVIII.
Assim sendo, o Museu criou uma relação muito próxima da documentação história e
com práticas de arquivamento ao adicionar sob sua guarda outros fundos documentais,
principalmente, através da Divisão de Pesquisa e Documentação Histórica. Todavia, e é essa a
hipótese de tal pesquisa, é possível observar a perda do reconhecimento e da importância no
discurso identitário do Museu de sua vertente histórica.
Acerca da atual composição do acervo documental sob guarda do Museu Amazônico,
como pode ser observado no Quadro 1, possui hoje uma profusão documental, que vai desde
o acervo pessoal até o empresarial, além de contar com o acervo da Universidade Federal do
Amazonas e órgãos governamentais, como a Funai. Pertinente citar que, o Museu possui
ainda, um sub-fundo que faz parte do fundo J G Araújo.

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Quadro 1 - Lista dos fundos documentais existente no Museu Amazônico

- Fundo J G Araújo
- (Sub-Fundo) Vila Amazônica
- Fundo Silvino Simões Santos Silva (fotografo oficial do J G Araújo)
- Fundo Amazônia Colonial
- Fundo SPI Funai (Serviço de Proteção ao Índio)
- Fundo da Faculdade de Direito da UFAM
- Fundo Thiago de Mello
- Fundo Administrativo do Museu Amazônico
- Fundo diversos avulsos da província, municípios e estado do Amazonas
- Fundo fotos Manaus Antiga
- Fundo da Escola de Serviço Social da UFAM
- Fundo fotografias da UFAM (ASCOM).

Fonte: Museu Amazônico, 2018.

Visto que o Museu não guarda apenas peças tradicionalmente museológicas, mas,
como já apresentado aqui, também fundos documentais arquivísticos, cabe ressaltar assim sua
importância na guarda e acesso de fontes e na própria pesquisa. Assim como, é notório que o
Museu Amazônico possibilitou uma relação para além da pesquisa, de publicações de artigos
e integração apenas com a comunidade da UFAM, mas também fora dela, na medida em que
tenta organizar os fundos documentais tornando-os acessíveis à sociedade de forma geral.
Mas pensar tais mudanças da própria concepção e ação do Museu, consiste em pensar
também as mudanças que a própria sociedade passou, e é através da história oral junto de seus
atores sociais que pretendemos identificar tais momentos. A história oral, como uma das
técnicas advindas da História, será a coadjuvante no levantamento de informações de
funcionários e ex-funcionários para reconstruir talhistória administrativa e a memória
institucional.
Um importante trabalho que discute o uso da história oral como recurso metodológico
na prática arquivista, Sousa (2008) apresenta a técnica da história oral como uma das opções
para o fazer arquivístico, no âmbito da gestão documental. A classificação vista como função
arquivística, não identifica o seu produtor dentro da instituição, daí a necessidade do
arquivista recorrer à pesquisa de atos constitutivos das instituições, de atas de reunião e os
documentos de direção do qual faz-se uso para obter informações concretas, que vão

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consolidar o arranjo documental, que ocorre quando o documento se encontra em sua fase
permanente, onde os sub-fundos precisam ser identificados. Assim sendo, para o autor,

[…] apesar da história oral ser mais do que uma preenchedora de lacunas, ou seja,
construtora de registros escritos, onde não existia, ela tem se construído em uma
ferramenta importante, pois pode fornecer algo que os textos legais não conseguem:
a realidade concreta das instituições a partir de entrevistas com os sujeitos daquelas,
ou seja, os seus funcionários. (SOUSA, 2008, p. 25)

A proposta de uso da metodologia de análise de fonte oral refuta o entendimento do


conteúdo da mesma e de suas características, razões pelas quais é produzida e as razões pelas
quais será utilizada. Verifica-se a necessidade de compreender a fonte oral como informação
que deve ser tratada e recuperada.
A metodologia de pesquisa da história oral consiste em realizar entrevistas gravadas,
seja por gravador, por vídeos, ou outro meio com pessoas que podem testemunhar sobre
acontecimentos, conjunturas, instituições, modos de vida ou outros aspectos da história de
forma contemporânea. Ela passou a ser utilizada nos anos 1950, após a invenção do gravador,
nos Estados Unidos, na Europa e no México, e desde então se difundiu bastante. Segundo
Amado e Ferreira (2006, p. 6), a história oral ganhou cada vez mais adeptos, ampliando-se o
intercâmbio entre os que a praticam: historiadores, antropólogos, cientistas políticos,
sociólogos, pedagogos, teóricos da literatura, psicólogos e outros.

[...] acreditar-se que ela é uma "frente pioneira" da pesquisa histórica e um dos
campos em que se opera a sua renovação, como ignorar os múltiplos impulsos, os
incentivos e os exemplos que ela encontrou fora dela, a ponto mesmo de alguns se
perguntam se a história oral não deveria parte do seu sucesso ao fato de ter sabido
adaptar à história do tempo presente as problemáticas e os métodos desenvolvidos
pelo que ainda há pouco chamávamos de "nova história"? (AMADO; FERREIRA,
2006, p.6)

As entrevistas pautadas na metodologia da história oral são tomadas como fontes para
a compreensão do passado, ao lado de documentos escritos, imagens e outros tipos de
registro. Mas outro ponto relevante é a sua caracterização, por serem produzidas a partir de
um estímulo o pesquisador procura o entrevistado e lhe faz perguntas direcionadas sobre fatos
ou conjunturas, que se quer investigar.
Além disso, faz parte de todo um conjunto de documentos de tipo biográfico, ao lado
de memórias e autobiografias, que permitem compreender como indivíduos experimentam e
interpretam acontecimentos, situações e modos de vida de um grupo ou da sociedade em geral
e, neste caso do Museu Amazônico.

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Segundo Jardim (1995, p.1)

Recorre-se atualmente, com muita freqüência, à temática da memória, expressão de


interesses e paixões e objeto de um campo interdisciplinar. Diversos termos tendem
a ser associados à memória: resgate, preservação, conservação, registro, seleção etc.
Neste sentido, a memória parece visualizada, sobretudo como dado a ser
arqueologizado e raramente como processo e construção sociais.(JARDIM;1995,P.
1)

Então, como criar essa relação da história oral com a memória de uma instituição? A
árdua tarefa de conceituar memória nos remete a reconstrução de experiências que buscamos
captar de um tempo passado. E é a partir das transformações que percebemos as inovações
ocorridas dentro da sociedade, atribuindo impressões vividas e com representatividade no
presente.
Segundo Castro (2008, p. 18):

É importante perceber que a memória – quer em sua dimensão pessoal, quer social –
não é o registro de tudo o que se passou. A memória é seletiva e envolve uma
escolha, mais ou menos consciente, entre o que deve ser esquecido e o que deve ser
lembrado. É impossível preservar, física e mentalmente, todo o passado. Um conto
de Jorge Luis Borges, “Funes, o memorioso”, ilustra bem este ponto.(CASTRO;
2008, p. 18)

A construção da memória, portanto, envolvem aspectos históricos conscientes, que


prezam pela observância de tradições, mitos, aumento da verdade entre outros. A memória
expressa à percepção de lembrança de mínimos detalhes do que se viveu.
Barreto (2007, p.164) infere o seguinte:

A memória trabalha sobre o tempo, porém sobre um tempo experienciado pela


cultura. Nela, o tempo passado é reconstruído e revivenciado, o que traz um efeito
restaurador, uma vez que permite a ressignificação do sentido existencial,
atualizando conteúdos experimentados. A memória costura, tece o passado no
presente, compondo tramas e enlaçando-se em novas possibilidades existenciais.
(BARRETO; 2007, p. 164)

É com a experiência vivida e através da memória que tentaremos construir a história


oral do Museu Amazônico, suprindo a necessidade de criação de laços e fontes que torne o
estudo da história mais concreto e próximo, facilitando a apreensão do passado pelas gerações
futuras e a compreensão das experiências vividas por outros.
O trabalho com a metodologia de história oral compreende todo um conjunto de
atividades anteriores e posteriores à gravação dos depoimentos. Exige, antes, a pesquisa e o
levantamento de dados para a preparação dos roteiros das entrevistas.
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Após o levantamento dos nomes dos ex-diretores junto do próprio Museu, foi
realizada a pesquisa acerca de quem eram esses ex-diretores, qual área de atuação e qual
cargo dentro da UFAM. Tais pesquisas foram realizadas pela internet através da Plataforma
Lattes, no site da própria unidade a qual pertencem (ou pertenciam), assim como pelo site de
busca do Google.

O Museu Amazônico como objeto de pesquisa


O Museu Amazônico foi criado em regimento em 1975, através do Artigo 8º do
Estatuto da Universidade Federal do Amazonas, mas somente foi implantado em 1989, sendo
inaugurado em 1991, quando o então reitor Marcus Luiz Barroso Barros, nomeou sua
primeira Diretora Edinea Mascarenhas Dias, com a ideia de resgatar e reconstruir a história do
homem da Amazônia, abrindo as portas à pesquisa sobre o tema Amazônia garantindo assim
as múltiplas identidades culturais.
Esta abordagem constituiu um importante papel cultural de conhecimento e
informação para coletividade, exigindo de seus funcionários e gestores padrões elevados de
prática profissional. Por certo ao ser pensado, a quase três décadas, o Museu Amazônico se
propôs,

“[…] a resgatar e reconstituir acervos e informações acerca da Amazônia, bem como


pesquisar suas repercussões como forma de garantir a preservação da identidade
cultural regional [...]

Ele compromete-se com a organização e guarda de fontes históricas, de registros,


dos fatos e pensamentos dos homens que viveram na Amazônia, em vários
momentos históricos.” (MUSEU AMAZÔNICO. BOLETIM INFORMACIONAL,
v. 1, nº 1, 1991, p. 04)

O museu como espaço expositivo foi criado para sociedade abrindo possibilidades e
desconstruindo paradigmas dando ressignificância às peças documentais que o cercam.
Acerca do papel social do Museu,segundo a UNESCO (Organização das Nações Unidas para
a Educação, a Ciência e a Cultura), em sua Recomendação de 20 de novembro de 2015:

Os museus são cada vez mais vistos, em todos os países, como tendo um papel
chave na sociedade e como fator de promoção à integração e coesão social. Neste
sentido, podem ajudar as comunidades a enfrentar mudanças profundas na
sociedade, incluindo aquelas que levam ao crescimento da desigualdade e à quebra
de laços sociais.(UNESCO, 2015)

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Estas mudanças vêm sendo observadas desde a implantação do Museu, com a


necessidade de produzir pesquisas científicas, que retrata fatores de crescimento e
desenvolvimento da região. Ademais, outros pontos relevantes foram produzidos a partir da
influência dos gestores, que buscaram dar, já a época, harmonização a este lugar de memória
com outros espaços culturais. O papel social do Museu é procurar fazer esta integração de
diferentes classes sociais, buscando enaltecer para além as diversas possibilidades que o
mesmo possui.
Tais possibilidades, antes desempenhavam um papel diferente dentro dos museus,
vistos como sendo apenas lugar para exposição, lugar onde se armazenava coisas velhas, não
raro, os objetos que ali se encontravam faziam parte de coleções possivelmente particulares,
doados por pessoas abastadas que dividiam os seus objetos raros e conhecimento com as
minorias sociais.
Com a mudança de perspectiva, os museus buscam enaltecer hoje uma visão moderna
que aproxima a minoria, e não só a minoria, mas as diferentes classes sociais, dando voz e
prestando serviço à sociedade, fazendo com que em cada nova exposição sua coleção tenha
uma nova ressignificação. Desta forma é possível que a sociedade compreenda cada novo
conjunto como uma visão única.
Assim sendo,

O Museu Amazônico tem a complexa tarefa de articular a diversidade do povo da


região Norte por já nascer histórico, pois possui em seu acervo um pouco da história
do extrativismo na Amazônia e sua formação socioeconômica, bem como
documentos dos séculos XVII e XVIII com a temática indígena criados pelos
professores de história. (MUSEU AMAZÔNICO. BOLETIM INFORMACIONAL,
v. 1, nº 1, 1991, p. 04)

Por certo, contextualizar a tarefa do Museu, que já nasce histórico, não é fácil, haja
vista ser necessário fazer uma relação com a formação, consolidação e reinterpretação das
identidades sociais e culturais do momento vivido. Com efeito, o público visitante do Museu,
busca não somente uma distração, mas uma forma de aprender um pouco mais sobre si
mesmo, trocando experiências e criando um sentimento de pertencimento cultural.
Além disso, os museus são segundo o Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM),

[...] instituições sem fins lucrativos que conservam, investigam, comunicam,


interpretam e expõem, para fins de preservação, estudo, pesquisa, educação,
contemplação e turismo, conjuntos e coleções de valor histórico, artístico, científico,
técnico ou de qualquer outra natureza cultural, abertas ao público, a serviço da
sociedade e de seu desenvolvimento. (IBRAM, 2017)

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Texto integrando dos Anais [recurso eletrônico] do IV Encontro Estadual de História - Ensino de
história no Amazonas, democracia e desigualdade. Organização: Keith Valéria de Oliveira Barbosa;
Leandro Coelho de Aguiar ... [et al.]. - 1. ed. -- Manaus: Universidade Federal do Amazonas, 2018.

Porquanto, o museu necessita estabelecer vínculos que ajudem na construção de


sentido do patrimônio documental da região, através dos serviços oferecidos. Considerado
uma das categorias de patrimônio cultural, o que se pode inferir sobre ‘patrimônio
documental’. Segundo Jardim:

[...] noção de patrimônio histórico/cultural insere-se neste processo pelo qual o


Estado se organiza mediante a criação de um patrimônio comum e uma identidade
própria. A construção desse patrimônio pressupõe valores, norteadores de políticas
públicas, a partir dos quais são atribuídos qualificativos a determinados registros
documentais. (JARDIM, 1995)

Tal ideia fica mais clara com a publicação da Constituição Federal de 1988, em seu
Artigo n° 216, que embasa o conceito de fato e atribui a esfera pública competência para gerir
tais documentos:

Art. 216. Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e


imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à
identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade
brasileira, nos quais se incluem:[...]
IV - as obras, objetos, documentos, edificações e demais espaços destinados às
manifestações artístico-culturais;[...]
§ 1º - O Poder Público, com a colaboração da comunidade, promoverá e protegerá o
patrimônio cultural brasileiro, por meio de inventários, registros, vigilância,
tombamento e desapropriação, e de outras formas de acautelamento e preservação.
§ 2º - Cabem à administração pública, na forma da lei, a gestão da documentação
governamental e as providências para franquear sua consulta a quantos dela
necessitem. [...]
§ 4º - Os danos e ameaças ao patrimônio cultural serão punidos, na forma da lei.
(BRASIL, 2006, p. 152)

Como posto, a Constituição deixa claro o conceito de patrimônio documental e sua


abrangência, cabendo aos gestores a interpretação e ação dentro de cada especificidade.
Rememorar a especificidade de cada objeto dentro do museu, ou mesmo dar sentido ao
conjunto documental, requer do profissional que dirige a instituição a construção da memória
coletiva, baseado nos objetivos propostos no ato constitutivo da instituição. Além disso, os
diretores que passaram pelo Museu Amazônico, ao total sete até hoje, fazem parte do seleto
corpo Docente da Universidade, profissionais das mais diversas áreas de conhecimento, que
se propuseram a esta construção da memória.

Quadro 2. Relação dos Diretores e período de gestão

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Diretores do Museu Amazônico desde sua fundação

Edinea Mascarenhas Dias 1989 – 1993 (4 anos)

Geraldo Sá Peixoto Pinheiro 1993- 1996 (3 anos)

Francisco Jorge dos Santos 1997 – 2001 (4 anos)

Luiz Balkar Sá Peixoto Pinheiro 2001 – 2005 (4 anos)

Almir Diniz de Carvalho Junior 2005- 2009 (4 anos)

Sérgio Ivan Braga 2009 – 2011 (2 anos)

Maria Helena Ortolan 2011 – 2017 (6 anos)

Dysson Telles Alves 2017 – atual

Fonte: Museu Amazônico, 2018.

O Museu Amazônico é uma unidade suplementar da UFAM e ligada diretamente ao


Gabinete do Reitor, sendo o cargo de diretor do Museu Amazônico é indicado diretamente
pelo Reitor. Acerca do tempo de gestão de cada diretor, podemos observar através do Quadro
2, que mais da metade dos diretores exerceram o cargo em média por 4 anos, sendo a gestão
mais longa da Profa. Dra. Maria Helena Ortolan, - 8 anos -, que possui graduação em
Bacharelado e Licenciatura em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas,
Mestrado em Antropologia pela Universidade de Brasília e Doutorado em Ciências Sociais
pela Universidade Estadual de Campinas. Hoje, professora da Universidade Federal do
Amazonas, atuante no Departamento de Antropologia e no Programa de Pós-Graduação em
Antropologia Social.
De todos os diretores, apenas Geraldo Pantaleão Sá Peixoto Pinheiro, o segundo
diretor do Museu, não se encontra vivo, faleceu em 25 de maio de 2018. Em sua gestão, foram
organizadas a documentação colonial sobre o Grão-Pará e a Capitania do Rio Negro, copiadas
do Arquivo Histórico Ultramarino de Portugal pelo antigo CEDAM. Como apaixonado pela
cultura indígena, focou seu trabalho na Amazônia, onde coordenou exposições como Ara
Watasara e algumas mostras da cultura indígena.
Atualmente, quem dirige o Museu Amazônico é o servidor Dysson Teles Alves,
Doutor em História Social da Amazônia pela Universidade Federal do Pará, atuando
principalmente com a temática de História indígena na Amazônia Colonial. Fez seu Mestrado
abordando o tema “História Colonial da Amazônia”, onde se concentrou nas cidades coloniais
da Amazônia no século XVIII.

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Cabe ressaltar que a designação do atual diretor rompe com a tradição de docentes na
direção do Museu Amazônico, sendo ele o primeiro servidor técnico da UFAM lotado no
Museu Amazônico a exercer o cargo de diretor, sendo também, o único com alguma
aproximação com a Arquivologia a administrar o Museu, tendo em vista que possui
especialização em arquivos e documentação pelo Instituto de Estudos Brasileiros da
Universidade de São Paulo (USP). Antes de exercer o cargo de diretor do Museu, o mesmo
foi durante muito tempo o diretor da Divisão de Pesquisa e Documentação Histórica do
mesmo Museu, coordenando principalmente os projetos de organização arquivística do
Acervo Empresarial J. G. Araújo (1789 - 1984) e do Arquivo manuscrito dos documentos dos
séculos XVII e XVIII referentes à Amazônia Colonial.
Ademais, cabe ressaltar que todos os Diretores que por lá passaram, contribuíram de
alguma forma para o desenvolvimento do Museu, mas com a difusão perante a sociedade, e a
construção do lugar de memória. Relacionar história com memória não é algo simples de se
fazer, por isso chamamos atenção para a área de formação de todos os ex-diretores e o atual.
Podemos observar no Gráfico 1, desde sua fundação o Museu foi administrado,
principalmente por historiadores, assim como por antropólogos. Uma questão interessante é
observar que os primeiros diretores foram todos historiadores, tendência que mudou nas
últimos três ex-diretores, que eram antropólogos, sendo que o Sérgio Ivan Braga, tinha
graduação em História, mas doutorado em Antropologia Social pela Universidade de São
Paulo.

Gráfico 1 - Área de Formação dos Diretores

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Fonte: Currículo Lattes, 2018.

Tendo concluído o levantamento acerca dos nomes dos diretores, foi possível conhecer
um pouco mais sobre esses profissionais que ajudaram na construção da História do Museu,
por certo torna-se relevante conhecer um pouco mais, sobre a área de atuação e o cargo que
ocupavam dentro da UFAM para entendermos o que de fato influenciou o desenvolvimento
dos trabalhos no Museu, para assim tentarmos contextualizar o que motivou tais ações.
No Gráfico 2, é possível observamos que os diretores do Museu, em sua maioria,
foram provenientes do Departamento de História (5), seguidos pelos professores do Programa
de Pós-graduação de Antropologia Social – PPGAS (2) e o atual diretor que, como já foi
mencionado acima, é o primeiro servidor técnico da UFAM como diretor do Museu.

Gráfico 2. Unidade de Origem dos Diretores

Fonte: Plataforma Lattes,2018.

Tais informação observada nos Gráficos 1 e 2 nos remete a uma questão norteadora
dentro do projeto. Até que ponto a mudança no perfil dos diretores ao longo de sua existência
influenciou nas ações e no entendimento acerca do papel do Museu Amazônico? Assim como,

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qual o entendimento acerca do papel da Divisão de Pesquisa e Documentação História com a


identidade histórica do Museu e sua preservação do patrimônio documental no Amazonas?

Considerações finais
O Patrimônio Documental não é apenas algo que foi guardado ou um objeto antigo,
ele conta a história de um povo e demonstra de forma concreta a criação da identidade, o
Museu Amazônico buscou resgatar essa história, preservando os documentos dos fundos
documentais já apresentados. A significância desses documentos, materiais, registros escritos,
coleções de fotografias e obras de arte, demonstra que o Museu cumpre seu papel diante da
sociedade amazonense, construindo assim um “Lugar de Memória” onde podemos realizar
pesquisas e dar significado a história do homem amazônico.
Contar a história oral Museu Amazônico é um privilégio, pois os depoimentos
coletados ajudarão na compreensão do passado do Museu, fazendo com que o Museu tenha
sua história contada por aqueles que o ajudaram a construí-la.
Preservar essa memória expõe também o fato de que, de certa forma, houve o
amadurecimento do pesquisador e da própria instituição que buscou valorizar o esforço das
pessoas que contribuíram com ações de valorização do povo que habitou a região, em
períodos diferenciados, guardando documentos que servissem como prova dos
acontecimentos ocorridos à época. De sorte que hoje contamos com tais documentos, para
embasamento de pesquisas nos mais diversos ramos do conhecimento, o que proporcionou a
solidificação da pesquisa sobre o homem amazônico.

Referência
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil: promulgada em 5 de outubro de
1998 / obra de autoria da Editora Saraiva com a colaboração de Antonio Luiz de Toledo
Pinto, Márcia Cristina Vaz dos Santos Windt e Livia Céspedes. 38a ed. Atual. – São Paulo:
Saraiva, 2006.BOOTH, W.; COLOMB, G.; WILLIAMS, J. A arte da pesquisa. 2000. São
Paulo: Martins Fontes, 2008.
BURGER, Ednéia Regina; VITURI, Renée Coura Ivo. Metodologia de pesquisa em ciências
humanas e sociais: história de vida como estratégia e história oral como técnica: algumas
reflexões.
CASTRO, Celso. Pesquisando em arquivos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 2008.
INSTITUTO BRASILEIRO DE MUSEUS. XI Primavera dos Museus. 2017.
JARDIM, José Maria. A invenção da memória nos arquivos públicos. Ciência da Informação.
Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia. Brasília, v. 25, n. 2. p. 1-13,
1995.
LEGOFF, J. História e Memória. Campinas: UNICAMP, 1990.
RODRIGUES, Georgete Medleg. Construindo um objeto de pesquisa em Arquivologia:
algumas reflexões. Informação Arquivística, v. 1, n. 1, p. 69-90, jul./dez. 2012
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Texto integrando dos Anais [recurso eletrônico] do IV Encontro Estadual de História - Ensino de
história no Amazonas, democracia e desigualdade. Organização: Keith Valéria de Oliveira Barbosa;
Leandro Coelho de Aguiar ... [et al.]. - 1. ed. -- Manaus: Universidade Federal do Amazonas, 2018.

SOUSA, Renato Tarcisio Barbosa de. Em busca de um instrumental teórico-metodológico


para a construção de instrumentos de classificação de documentos de arquivo. In: BARTALO,
Linete; MORENO, Nádina Aparecida (Orgs.). Gestão em Arquivologia. Londrina: EDUEL,
2008, p.11-52.
UNESCO. Recomendação relativa à proteção e promoção dos museus e das coleções, da sua
diversidade e do seu papel na sociedade. Disponível em: http://icom-
portugal.org/multimedia/documentos/UNESCO_PMC.pdf. Acesso: 19/07/2018.
ZANIRATO, Silvia Helena; RIBEIRO, Wagner Costa. Patrimônio cultural: a percepção da
natureza como um bem não renovável. Revista Brasileira de História, São Paulo, vol. 26, n.
51, jan.-jun. 2006.

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IRMÃS DA CONSOLATA: DESAFIOS DOS PRIMEIROS ANOS 1949 -1974


ANDRESSA FERREIRA FÉLIX*

A igreja católica foi muito presente e atuante desde a chegada dos primeiros
colonizadores nas terras que viriam a ser denominadas como Brasil, o que ocorrera no século
XVI. Ao decorrer do tempo, essa presença se estendeu por todo território nacional, exercendo
influências diversas sobre a população.
De acordo com o autor Fábio Gumieiro (2013), o primeiro registro de um católico no
território que viria a ser o Brasil data da chegada dos portugueses em 22 de abril de 1500,
quando o frei Henrique de Coimbra, pertencente a ordem dos franciscanos celebrou a primeira
missa onde hoje é o estado da Bahia. Porém, a primeira ordem religiosa – que são instituições
internas da igreja Católica, as quais desenvolvem um modelo próprio para seguir e propagar o
cristianismo - a desembarcar no Brasil de maneira organizada e permanente foram os
Jesuítas10, em 1549, os quais eram a ordem oficial de Portugal e tinham a função de propagar
o cristianismo em todos os territórios “conquistados” pelos portugueses, os membros da
companhia de Jesus obtiveram uma exclusividade oficial nesse território até 1580. A união
entre as coroas de Portugal e Espanha entre os anos de 1580 a 1564 possibilitou que a
exclusividade com a companhia de Jesus fosse quebrada e entre os séculos XVI e XVII,
foram chegando outras ordens religiosas organizadas. É importante ressaltar que os membros
dessas ordens religiosas eram intrinsicamente ligados ao aculturamento dos indígenas, assim
como com o surgimento de aldeamentos, cidades e fundações de escolas em todo o território
colonial. Guimeiro quando ao se referir aos jesuítas ainda nos primeiros séculos de ocupação
portuguesa cita:
Sua participação foi crucial para a formação e organização das cidades de Salvador,
Rio de Janeiro, São Vicente, entre outras, pois mesmo com um número de padres
considerável,ainda era insuficiente para catequizar tanta gente, assim surgiram os
aldeamentos, pois estando os indígenas em um mesmo local, eles poderiam
catequizar vários indivíduos ao mesmo tempo.
Das diversas atividades desenvolvidas pelosmembros da Companhia de Jesus no
Brasil Colônia, uma das mais importantes, sem dúvida estava diretamente ligada ao
campo educacional.
(GUIMERO, 2013, pp. 66 - 67)

Da mesma maneira, outras ordens que desembarcaram nessas terras utilizaram


métodos de catequização parecidos, utilizando-se da educação e contribuindo de maneira

* Universidade Federal de Roraima, Graduanda do 5 semestre do curso de história


10
Ordem fundada em 1534 e a oficial da coroa portuguesa entre o ano de 1759.
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veemente para o surgimentos de aldeamentos os quais facilitavam o trabalho de catequização


pois agrupava os nativos em um só lugar – assim como de cidades.
Na região amazônica essas ordens desempenhavam, além de um papel religioso e
educacional, uma função econômica. Pois se encontravam na Amazônia produtos
economicamente valorizados na Europa, as chamadas Drogas do sertão. A Nesse aspecto, as
ordens religiosas que atuavam nesse território utilizavam a religião, por meio da catequização,
para se aproximar dos nativos - fato que contribuiu tanto para que a cristianização ocorresse
no imaginário indígena, o que facilitou a institucionalização da igreja católica na Amazônia,
quanto para a utilização da mão de obra nativa na extração das drogas do sertão. Essas
vantagens econômicas e religiosas geraram uma disputa entre as ordens religiosas, a qual
culminou em uma divisão religiosa em 1693, como afirma o autor Helysson Oliveira.
Em 1693, a região Amazônica é dividida entre as principais ordens religiosas aqui
estabelecidas, ficando assim definidas as áreas de atuação para cada uma delas: os
Jesuítas ficaram com o sul e à direita do rio Amazonas, já o norte e a esquerda,
ficaram para os demais: Mercedários, Franciscanos de Santo Antônio, Franciscanos
da Piedade e a dos padres Carmelitas.(Oliveira, 2017, p. 19)

A área, que até então pertencia ao estado do Amazonas, ficou sob domínio religioso
da Ordem dos carmelitas, os quais chegaram a essa região em 1725, depois de um longo
período - entre 1693 até 1725 - esse âmbito passou a estar sob a influência religiosa dos
monges beneditinos11, que chegaram aqui em 1909 e a partir de 1948, após a expulsão dos
beneditinos, os Missionários da Consolata12 passaram a estar à frente dos trabalhos religiosos
dessa localidade. Segundo a autora Mary Mwangi (2015), a organização religiosa a consolata,
originária da Itália, possuía uma determinada diversificação para que pudesse atender as
necessidades dos brasileiros fazendo com que a diocese seguisse um catolicismo tradicional,
onde centralizavam-se suas atividades na catequização de nativos e locais, educação e
trabalhos sociais.
O trabalho desenvolvido, era, também, uma forma de combate ao protestantismo, sendo
estimulados pelas autoridades eclesiásticas a abrirem escolas.13 Podemos citar, em Boa Vista
a escola São José e posteriormente a escola Euclides da Cunha, quais eram regidas pela igreja
católica seguindo os dogmas religiosos.

11
Ordem religiosa italiana fundada na idade média, em 529 d.c, que privilegia a autonomia de suas congregações.
12
Fundada pelo padre italiano José Alamano. Em 1901 foi criado um instituto de missões para membros do sexo
masculino, alguns anos depois, em 1910, se deu origem a um instituto de missões para irmãs, a partir de então as
missões passaram a percorrer países de todo o mundo.

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No território do Rio Branco, as atividades realizadas por membros de ordens religiosas


nem sempre eram associados as questões sacras. Semelhantementeas ordens que atuaram
séculos antes, grande parte do trabalho dessa ordem estava ligado a satisfação de anseios do
estado, a exemplo disso na década de 1940 o trabalho realizado por essa ordem com os
indígenas ligava-se às políticas governamentais de Getúlio Vargas, cujo objetivo era integrar
os índios a populações indígenas.
A chegada dos missionários da consolata ao então território do Rio Branco não era
esperada pelos missionário beneditinos. Segundo relatos do padre Marcon (1983, p.3), os
beneditinos deveriam ter recebido um telegrama informando as modificações, porém tal
mensagem não foi recebida antes de os novos religiosos aportarem no território do Rio
Branco em 14 de julho de 1948.
No ano seguinte da chegada dos membros religiosos do sexo masculino, as primeiras
freiras da ordem da Consolata chegaram no Território do Rio Branco, especificamente em 12
de maio de 1949 (foto 01). Segundo relatos extraídos do livro “As missionárias da consolata
na Amazônia brasileira: 1949 -2011”, ao pousarem aqui, por meio de um avião das forças
armadas, elas não tinham conhecimento sobre os costumes locais ou mesmo a língua dos
habitantes.

Foto 01 – Freiras da ordem da Consolata em um navio a caminho do Brasil


Fonte: Mwangi (2015)

Cabe ressaltar que a sociedade boa-vistense do início do século XX era dominada


predominantemente por homens. As mulheres religiosas não tinham o mesmo espaço que os
religiosos do sexo masculino e se detinham a poucas atividades administrativas.

Diante de uma sociedade majoritariamente masculina, as mulheres tiveram seu


espaço no meio religioso, mesmo sendo consideradas menos importantes e por isso
denominadas de segunda ordem, considerando a primeira sempre a dos homens.
(GUIMERO, 2013, p. 68)

Perante isso, era mais propício a elas desenvolverem trabalhos sociais. Apesar da
falta de domínio e conhecimento da língua e costumes nativos, Mwangi (2015) ressalta que,
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de acordo com os princípios católicos, elas cumpriram suas atividades voltadas ao público
com excelência.
A primeira residência (foto 02) das missionárias da consolata se encontrava, como
cita a autora Mary Mwangi (2015, p. 64), se encontrava anexa ao hospital Nossa Senhora de
Fátima. Tratava-se de uma localidade estratégica, pois se situava no centro da cidade e
próximo as áreas onde elas iriam atuar – ao lado da igreja matriz, de fundo com o hospital
nossa Senhora de Fátima e ao lado do Colégio católico São José e aproximo a outro colégio,
Euclides da Cunha – inaugurado em 1949.

Foto 02 – Primeira casa das irmãs da Consolata. Fonte: Mwangi (2015)

Nos primeiros anos, as missionárias da consolata obtiveram dificuldades com a


comunicação, pois ainda não falavam a língua local, com o clima tropical e com a diferença
cultural. Mesmo com as dificuldades encontradas pelas consolatas nos primeiros anos, elas
desenvolveram um importante trabalho social em diversas áreas – social e espiritual, como as
visitas aos enfermos (foto 3) e acompanhamento de famílias carentes; além do trabalho
educacional, por meio da administração de escolas onde além das disciplinas seculares eram
ensinados bons modos e, no caso das meninas, eram ensinados bordados e serviços diários do
lar.

Foto 03 – Irmãs saindo para visitas. Fonte: Mwangi (2015)


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Segundo informações cedidas pela Ir. Leda14 em entrevista – membra da ordem das
consolatas – devido à proximidade da casa com o que é denominado atualmente como bairro
Caetano Filho, as membras realizavam diversos trabalhos com pedintes, alcoólatras e
prostitutas.
Ainda utilizando o relato desta irmã - que apesar de ter chegado aqui em 1974
conviveu diretamente com as irmãs que atuavam nesta região desde 1949 – havia uma sala
específica para atender essas mulheres, para realização de exames e conversas com religiosas.
Além disso, era oferecido a elas “apoio espiritual”, muitas dessas jovens chegavam a
passar alguns meses convivendo com as religiosas, porém tinham plena liberdade para sair a
qualquer momento que desejassem.
A educação era uma forte aliada para os desejos católicos. Cabe ressaltar, que um
dos principais motivos para as missões era uma tentativa de “combate ao protestantismo”,
tendo em vista que os primeiros cristãos protestantes chegaram a essa região ainda nas
primeiras décadas do século XX.
Os religiosos católicos comandavam duas instituições educacionais da época –
Colégio São José e Ginásio Euclides da Cunha - na cidade de Boa Vista, localizada no
território do Rio Branco.
O colégio São José foi oficialmente fundado em outubro de 1924, porém, de acordo
com pesquisas, funcionava desde 1922, desde o ano de sua inauguração até o ano de 1948 foi
dirigido pelas irmãs beneditinas, porém a partir da chegada das irmãs da consolata, por meio
da Ir. Piergiulina Conti, passou ao comando das mesmas, a partir do ano de 1949.

Foto 4 - Madre Madalena – educadora na escola são José – com estudantes


Fonte: Mwangi (2015)

14
Membra atuante da ordem das Consolatas, a qual chegou no sul do Brasil na década de 1930 e em 1974
chegou a Roraima para dar continuidade ao seu trabalho.
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O ginásio Euclides da cunha foi inaugurado em dezembro de 1949, em uma área


cedida pela prelazia. Foi inaugurado pelo professor Aloísio Neves, porém o direito de
propriedade foi doado em julho de 1951 a prelazia do Rio Branco, hoje diocese de Roraima.
Ambos os estabelecimentos de ensino tinham, além da educação secular, educação
religiosa enfática, a qual estava ao comando principalmente das irmãs da consolata.
Essa era não somente uma forma de proclamar a educação, como também de
evangelizar, expandir o catolicismo e entrelaçar o mesmo a cultura local.
As consequências desses trabalhos estão presentes até os dias atuais na cultura boa-
vistense, os colégios que outrora foram dirigidos por elas se tornaram referência de qualidade
de ensino, os mais cidadãos mais velhos da cidade relembram com certa nostalgia os eventos
escolares organizados por elas. As dificuldades enfrentadas pela dificuldade com a fala, falta
de hábito com o clima, costumes não foram puseram barreiras nas atividades desenvolvidas
pelas irmãs da consolata.
Porém, ao analisar os fatos relacionados a chegada e os trabalhos das irmãs da
consolata, pode-se inferir que tais atos não estavam apenas ligados a “bondade proporcionada
pela fé e vocação”, mas também a um contexto de disputa de poder religioso e social.
Não se pretende com isso retirar os méritos e contribuições de tais ações, mas
esclarecer os fatos, ligados aqui a questão religiosa, que impulsionaram tanta dedicação a um
trabalho social mais próximo da população e uma atenção voltada a educação.

REFERÊNCIAS
A ORDEM DE SÃO BENTO. Disponível em: <https://www.msbento.org.br/beneditinos>.
Acessado em: 10 de janeiro de 2018
Conheça José Allamano.Disponível em: <http://imc.consolata.org.br/conheca-jose-allamano-
2/> Acessado em: 10 de janeiro de 2018
GUMIEIRO, Fábio.As ordens religiosas e a construção sócio-política no Brasil: Colônia e
Império. Tuiuti: Ciência e Cultura, n. 46, p. 63-78, Curitiba, 2013.
MAWANGI, Mary Agnes Njeri. As Missionárias da consolata na Amazônia brasileira:
1949-2011. 1a ed. Goiânia: Gráfica e Editora América, 2015.
OLIVEIRA, Helysson Silva de. As ordens religiosas na Amazônia: Os missionários
beneditinos e os conflitos políticos no vale do Rio Branco (1840-1948). 2017. 62f,
Monografia. Boa Vista, 2017.
Por que existem tantas ordens religiosas na Igreja?. Disponível em:
<https://pt.aleteia.org/2013/04/26/por-que-existem-tantas-ordens-religiosas-na-igreja/>
Acesso em: 20 de janeiro de 2018.
SANTILI, Paulo. Política e Ritual:a faina missionária beneditina entre os Makuxi no Vale do
Rio Branco.São Paulo, Unesp, v. 10, n. 2, p. 35-61, julho-dezembro, 2014.

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Texto integrando dos Anais [recurso eletrônico] do IV Encontro Estadual de História - Ensino de
história no Amazonas, democracia e desigualdade. Organização: Keith Valéria de Oliveira Barbosa;
Leandro Coelho de Aguiar ... [et al.]. - 1. ed. -- Manaus: Universidade Federal do Amazonas, 2018.

BATIZADOS, MERCADORIAS, RAPTO E TRÁFICO, TRABALHADORES E AIAS:


INFÂNCIAS INDÍGENAS NA CAPITAL DA BORRACHA- MANÁOS 1880-1907

BRUNO MIRANDA BRAGA

Introdução: Os índios, a Cidade e o ser criança indígena na cidade


Que havia indígenas na cidade de Manáos durante a Belle Époque é fato inegável. Que
resistiam ao que lhes era imposto também não duvidamos. E com relação aos menores? As
infâncias? Havia uma diferenciação entre os indígenas que nasciam na hinterlândia e os que
nasciam na cidade, uma questão de identidade que o governo prorrogava como sendo os
nascidos nas matas “selvagens por não terem sidos gerados no seio da civilização”,
representada na cidade.
Discutir sobre a questão de índios urbanos em Manaus ainda hoje gera uma
diversidade de questões que fogem aos objetivos desse texto. De fato, houve em Manáos um
grande êxodo rural, que também pode ser chamado de migração compulsória.15Nisso,
queremos apresentar que o indígena ao se estabelecer em Manáos tornara-se um “índio
urbano”, mas, por aqui, o termo índio foi generalizado de uma forma multiescalar, assim,

[...] falar dos “índios de Manaus” torna-se altamente pretensioso e impreciso; algo
assim como falar dos “latino-americanos”, considerando que o México e a Bolívia, a
Venezuela ou o Chile são uma única e mesma coisa; ou falar dos “africanos”,
desconhecendo as par9ticularidades de nações e de povos nesse vasto continente.
Essa pretensão só revela profunda ignorância e, quando não, um cinismo político do
qual é preferível precaver-se. Em Manaus, tivemos a oportunidade de encontrar
índios Apurinã, Arapaso, Baré, Baniwa, Dessana, Kokama, Macuchi, Mundurucu,
Mura, Pira-Tapuya, Saterê-Mawé, Siriano, Tariano, Ticuna, Tukano, Tuyuca e
Yanomami. Povos diferentes pelas línguas, histórias, tradições, formas de
organização, territórios e interesses. (BERNAL, 2009, p. 28 grifos meus)


Esse artigo é uma versão modificada de um item do capítulo terceiro de minha Dissertação de Mestrado em
História Social intitulada: Manáos uma Aldeia que virou Paris: Saberes e Fazeres Indígenas na Belle époque
Baré 1845-1910, defendida no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Amazonas –
PPGH/UFAM, em 2016.

Licenciado em História (UNINORTE, 2013) Licenciado em Geografia (UEA, 2017).Especialista em Gestão e
Produção Cultural (UEA, 2018). Mestre em História Social pelo Programa de Pós-Graduação em História da
Universidade Federal do Amazonas – PGH/UFAM. Atualmente, é professor Formador do Plano Nacional de
Formação de Professores da Educação Básica PARFOR/CAPES, locado na Universidade do Estado do
Amazonas, no Curso de História. E-mail: brunomirandahistor@hotmail.com.
15
Embora no sentido coerente dos termos, entendemos que êxodo rural se refere a transferência de populações
do meio rural para a cidade em busca de melhores condições. É algo pessoal e escolha livre. A migração
compulsória é aquela que cidadãos são obrigados a se transferirem para outras regiões por questões políticas,
naturais e/ou econômicas. A nosso ver, a vinda dos indígenas para Manaus nesse período, foi um êxodo rural
pois estes foram retirados de suas regiões originarias, mas houve uma obrigatoriedade, muitos foram trazidos
para a cidade para serem mão de obra. Enfim, o que pretendemos apresentar é que de fato, muitos indígenas
foram trazidos a cidade em grande escala contra sua vontade.
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Se nos dias atuais fazer essa distinção é difícil e gera uma ampla discussão de
etnogênese, no oitocentos a dificuldade se amplia à medida que quem se diferenciava dos
“civilizados”, era índio! Assim, entendemos que:
Dinâmicas migratórias e tipos de estabelecimentos diferentes marcam o percurso de
cada uma dessas comunidades. Determinados grupos indígenas contam às vezes
mais de três gerações de vida urbana, outros chegaram recentemente. Uns vieram
buscar trabalhar como domésticos. Outros emigraram por motivos de insegurança
nas suas regiões de origem ou seduzidos pelos encantamentos dos “civilizados”.
Outros, ainda, se instalaram recentemente enquanto representantes de organizações
étnicas. (IDEM, p. 29)

Portanto, é nessa vinda a cidade que centraremos as poucas fontes disponíveis que
apontam para os menores, para aqueles que estevam aqui, silenciados por diversos lados, e
por sua pequenez, estavam sempre na tutela ou domínio de outrem. Falar das crianças
indígenas em Manáos durante o decurso do oitocentos, evoca uma discussão amplamente
sentimental pois visualizamos situações nas quais os menores foram hostilizados, feridos de
uma maneira violenta e desprezível, como se fossem algo não humano ou vivo.
Muitos meninos foram trazidos, arrancados de suas aldeias afim de serem educados no
Instituto dos Educandos Artífices, esses meninos vinham de diferentes localidades, de
diferentes populações indígenas das diferentes regiões dos rios que circuncidam a cidade e a
Amazônia.
Ser criança na cidade de Manáos nesse período significava, ser preparado para exercer
trabalho. A legislação do Império do Brasil regulamentava que o trabalho era a forma mais
pedagógica e eficiente que existira. Assim,
Arriscamos em afirmar que a regulamentação das vidas das crianças no Brasil, entre
meados do século XIX e as duas primeiras décadas do século XX, teve caráter
educativo-preventivo e corretivo. Chamamos de leis de caráter educativo-preventiva
as leis voltadas para criação de asilos, casas de recolhimentos e escolas internatos
para crianças. Aos asilos eram encaminhados os meninos menores de 12 anos que
viviam na mendicância, assim estabelecia um dos artigos do Decreto de 17 de
fevereiro de 1854. Segundo tal decreto, enquanto as casas de asilo não haviam sido
criadas, os meninos seriam entregues ao pároco ou a professores que, através de um
pagamento mensal do governo, garantiriam sua manutenção e instrução. (PESSOA,
2010, p. 50)

A autora acima citada mostra-nos que as crianças, no Brasil do fim do XIX, careciam
de uma boa formação para possuírem um doutrinamento educativo e corretivo, para não
caírem na mendicância, nem no meio dos desvalidos. Certamente, quando se tratava de
menores indígenas essas assertivas se duplicavam, pois, ser indígena ou descendente de
indígenas já trazia uma carga de “preocupações” educativas e preparatórias para serem úteis
aos serviços da cidade. Concordamos ainda com Alba Barbosa (2010, p. 51) quando afirma

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[...]as crianças eram vistas como seres que necessitavam de auxílio. Não sendo
possível a família dar-lhes a devida assistência, caberia ao Governo garantir-lhes o
sustento e o ensino de um ofício. Tal postura era uma medida de prevenção para que
estas não viessem a cair na vadiagem que tanto era temida pela camada dirigente.

No século XIX, no Brasil criara-se a perspectiva discursiva na qual os indígenas


desapareceram das narrativas. John Manuel Monteiro aponta que essa tese de
desaparecimento fora sustentada por diferentes e sucessivas corretes de pensamento social no
Brasil, pois, ao entrar no país, o pensamento antropológico ancorava-se na própria história
desenvolvimentista nacional. Acreditava-se, em meios acadêmicos, que o indígena estaria
fadado ao desaparecimento, pois se teorizava que tais povos se encontravam na “infância da
civilização”, que a educação e a moral trariam um novo jeito de ser aos indígenas daqui, com
o avanço das regiões agrícolas e com a evolução das cidades, esses povos que “se
encontravam na ignóbil hostilidade”, seriam civilizados e acrescidos ao trato social.
John Manuel (2004) nos esclarece que essas medidas,
[...] posto na prática redundava no deslocamento de populações, na imposição de
sistemas de trabalho que desagregavam as comunidades, na assimilação forçada, na
descaracterização étnica e, em episódio de triste memória, até na violência
premeditada e no extermínio físico. Mesmo nas fases mais esclarecida da proteção
social, os órgãos indigenistas trabalhavam no sentido de amenizar o impacto do
processo civilizatório, considerado um fato inevitável que, dia mais, dia menos,
levaria à completa integração dos índios a nação.

Uma questão que entra em choque é o próprio perfil da escola nesse momento. Antes
de uma função formativa e intelectual como concebemos hoje, a escola detinha mais um perfil
de conduzir, de preparar para uma determinada atuação, seja profissional seja social, no meio
da cidade. Para os meninos e meninas indígenas, essa prerrogativa se ampliava pois, ao
chegarem numa escola da cidade, não encontravam uma escola que se adequasse a suas
diferenças, porém, deviam se enquadrar nessa escola, posto que, se hoje a escola ainda não
está preparada para receber alunos indígenas, no período em que pesquisamos, estava menos
ainda, à medida que queria-se romper com os elementos da cultura indígena, conceituada
como “atrasada e hostil”, assim, não pensemos que a educação no final do oitocentos “acolhia
bem” como narram algumas fontes, os indígenas que nela ingressavam. Como sabemos,
Manáos possuía características de uma cidade bilíngue. Embora desde o período da Amazônia
Pombalina, a obrigatoriedade do uso da Língua Portuguesa se oficializara, pouquíssimo se fez
para torná-la generalizada, uma vez que a maior parte dos moradores da cidade ainda
preferiam o uso do Nheengatu, ou de suas línguas maternas.

Sob a tutela do Estado: a formação das meninas indígenas


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Assim, acreditamos que as crianças indígenas estavam plenamente entregues ao


Estado para serem “domesticadas, ” se tornarem úteis aos diversos ofícios que a cidade
necessitava, como vimos anteriormente, os meninos indígenas eram educados para o trabalho
no interior do Instituto dos Educandos, havia também em Manáos o estabelecimento no qual
as meninas eram ensinadas a serem donas de casas e aias, damas de companhia e atuarem na
casa da elite.
O instituto das moças órfãs, chamado de Asilo Orfanológico Elisa Souto, era, como
muito bem expressou Ana Luiza Morais (2014, p. 65) “a menina dos olhos do governo”.
Com a leitura da documentação, as referências ao Instituto são as mais prodigiosas
cabíveis. De fato, o governo via nesse estabelecimento uma possibilidade de suplantar a
questão da orfandade, e atrelavam-se a esse local múltiplos discursos. Vemos o discurso de
caridade, o discurso de benevolência, o discurso religioso, o discurso social, o discurso
educacional e pedagógico, o discurso sanitário, todos esses embutidos em discursos maiores
que eram o trabalho e a moral ou como o trabalho estabelecia uma moral e o preparo para este
serviço era dever do estado.
Porém, este estabelecimento não fora o primeiro (como muitos escrevem) voltado para
instrução das meninas órfãs da Província. Em 1860, em sua Exposição Governamental, o 1º
Vice-Presidente Manoel Gomes Correa de Miranda, aponta para a instituição de um
estabelecimento voltado para ensino de meninas, “um estabelecimento das Educandas”, nos
moldes do Estabelecimento dos Educandos, já em pleno funcionamento. O vice-presidente
descreve que este estabelecimento foi criado pela lei 29 de novembro de 1859, mas foi
instalado desde 07 de maio de 1859 com a denominação de Colégio Nossa Senhora dos
Remédios.16
Na Província, no ano de 1872, o presidente José de Miranda da Silva Reis, informa
que foi fundado e estava sendo fiscalizado pelo padre Dr. José Manoel dos Santos Pereira,
vigário geral da Província e da Paróquia da Capital Manáos, o “Azilo Nossa Senhora da
Conceição”. Quem mantinha esse estabelecimento era a Província, e haviam no momento
dez meninas “pobres e de preferência tiradas das classes das indígenas selvagens”. Este foi

16
EXPOSIÇÃO APRESENTADA ao Exmo. Sr. Dr. Manoel Clementino Carneiro da Cunha, Presidente da
Província do Amazonas pelo 1º Vice-Presidente da mesma o exmo. Sr. Dr. Manoel Gomes Corrêa de Miranda
por ocasião de passar-lhe a administração da mesma Província. Manáos, 24 de novembro de 1860.
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instituída em forma de contrato com o Governo Provincial, celebrado em 16 de julho de


1869.17
O presidente também salientou que as alunas, ou seja, as meninas indígenas além dos
princípios religiosos, aprendiam leitura, caligrafia, ortografia, geografia, história nacional,
línguas portuguesa e francesa, música e piano, costura bordados e mais prendas domésticas.18
Mas tarde, o estabelecimento reformado passou a abrigar “moças órfãs”, e desvalidas,
já denominado de Asilo Orfanológico. Percebemos pela leitura de fontes que este
estabelecimento sempre for bem quisto por prestar relevante serviço a educação e formação
das moças órfãs desvalidas.
O Instituto das moças órfãs se dedicava ao ensino de prendas e gracejos domésticos as
educandas ali inseridas. Assim como os meninos deviam ser bons servidores públicos e/ou
privados, deviam ter um ensino profissionalizante, as meninas deviam ser educadas para
servirem nas casas de particulares e/ou serem boas e prodigiosas esposas. Salientamos que
essas meninas eram em sua maioria índias retiradas de suas comunidades ou aquelas que seus
pais morreram precocemente.
Assim, o universo educacional da Província e do início do Governo, em especial da
capital, estava voltado para educação que “transformasse”, que fizessem os indígenas serem
incorporados aos ensinamentos e posturas do mundo branco. Era uma união entre igreja e
estado, clero e educação visando estabelecer novas sociabilidades aos menores indígenas,
mas, sem respeitar seus fazeres e menosprezando seus saberes. Em 1884, assim se
pronunciava o Presidente Dr. Theodoreto Carlos de Faria Souto;
A catequese e a educação, e com elas as colônias orfanológicas para abrigo da
infância desamparada e dos ingênuos e particularmente dos índios, o ensino de arte e
ofícios, o melhoramento das missões, os asilos e pequenos institutos profissionais, a
civilização pela ação combinada da lei e da religião, visando antes de tudo a
instrução dos menores e considerando leis sagradas – a inviolabilidade da vida do
homem selvagem e o respeito a sua liberdade, à sua honra, e a sua família, tornando-
se efetiva a ação criminosa para todos os delitos praticados contra a personalidade
do índio, como contra personalidade do homem civilizado.19

As infâncias indígenas na Manáos da Belle Époque eram personificadas, como vemos,


pela fala do Presidente como aptas a civilização. Essa prerrogativa evidencia que o ensino

17
RELATÓRIO APRESENTADO à Assembleia Legislativa Provincial do Amazonas na Primeira Sessão da 11ª
Legislatura no dia 25 de março de 1872 pelo Presidente da Província o Exmo. Sr. General Dr. José de Miranda
da Silva Reis. Manáos: Impresso na Typografia do Commercio do Amazonas, de Gregório José de Moraes,
1872, p.p. 248, 249. Acervo IGHA.
18
Idem, Loc. Cit.
19
EXPOSIÇÃO APRESENTADA à Assembleia Legislativa Provincial do Amazonas na Abertura da Primeira
Sessão da 17ª Legislatura em 25 de março de 1884, pelo Presidente Dr. Theodoreto Carlos de Faria Soutoo.
Manáos: Typ. do Amazonas de José Carneiro dos Santos, 1884. p.02. Acervo IGHA.
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asilar, das artes e ofícios eram essencialmente voltadas para dar esses menores “brutos”, um
contato com as regras do trato social e para estes não se perderem na mendicidade e na
vadiagem tão comuns no cotidiano citadino de então. Essas infâncias indígenas eram o
espelho da cidade, estavam sendo instruídas para não se perderem nos caminhos errôneos que
a cidade oferecia, e também para serem empregados a altura da elite, a altura daquilo que os
enriquecidos esperavam.
Em 1885, a diretora do Asilo a senhora Eulália Fernandes Rego Monteiro, informa em
seu relatório anexo, que os antecessores e o atual Presidente da Província fizeram valer que a
preferência de meninas no estabelecimento eram as desvalidas filhas de escravas e as filhas de
indígenas da Província do Amazonas.
O Asilo Orfanológico configurou-se não somente como assistencialista, mas o seu
caráter educacional pertenceu a sua origem. No Relatório do Amazonas de
25/03/1886, além do curso primário, o asilo foi considerado um “viveiro” de escolha
de professoras, pois nele funcionava o Curso Normal do sexo feminino, com aval do
novo Regulamento da Instrução Pública nº 56, de 17/03/1886. Nesse período, o asilo
funcionava na rua da Independência (atual Frei José dos Inocentes).
A análise de que as instituições assistenciais possuíam o caráter educacional [...] é
pertinente no caso do Asilo Orfanológico. Mais tarde, enquanto Instituto Benjamin
Constant, o Curso Infantil “Froebel” fora criado para o atendimento das crianças
pequenas. (MIKI, 2014, p. 146)

Logo as meninas estavam sendo preparadas em termos de educação também. Reitero


que a educação aos menores indígenas na cidade era ligada a crenças progressistas e
etnocêntricas das quais apenas o ensino e o trabalho regularizado trariam a estes menores uma
vida plena e feliz, e proporcionaria a estes “saírem da escuridão em que estavam inseridos”,
por terem nascidos indígenas. Esse pensamento perdurou por toda a Província e primeira parte
da República.
O Asilo Orfanológico foi reconfigurado e mudara de nome para Instituto Benjamin
Constant, no Governo de Eduardo Ribeiro, este considerou que o Asilo devido a suas péssima
organização e má orientação nada tinha produzido “que compensasse os gastos e sacrifícios
feitos para melhorar o futuro das órfãs. ”20 As imagens seguintes apresentam uma menina da
etnia Pamary no ano de 1893, 21

20
DECRETO Nº 11 de 26 de abril de 1892: Extingue o Asilo Orfanológico Elisa Souto, cria o Instituto
Benjamin Constant e dá regulamento ao mesmo. In: ESTADO DO AMAZONAS. Decretos, Leis e
Regulamentos colecionados na Administração do Exmo. Sr. Dr. Fileto Pires Ferreira. 1889 a 1896. TOMO IV –
1892. Manáos: Imprensa Oficial, 1897. Embora ainda se chame de Benjamin Constant, hoje o Instituto é
mantido pelo Governo Estadual e oferece cursos técnicos na área de informática pelo Centro de Educação
Tecnológica do Amazonas CETAM. Abrigou durante muito tempo uma escola que formava Normalistas, e a
posteriori uma escola de Ensino Médio regular da rede Estadual de ensino. Quanto ao edifício, após diversas
reformas e restauros, continua com os principais traços originais e se localiza no Centro de Manaus cito a
Avenida Ramos Ferreira, 991 CEP: 69010-120.

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Pela leitura das fontes referentes ao Instituto Benjamin Constant, percebemos que
neste, ao contrário do Asilo Orfanológico, existe uma ausência, não há diretamente uma
preferência pelas meninas indígenas. As fontes silenciam com relação as identidades étnicas
das educandas e como era formado seu alunato. Mas cremos que pela maior parte da
população de Manaus ser indígena ou tapuia, as alunas eram em sua maioria indígenas.

O tráfico de menores indígenas


Porém, nem sempre o destino dos índios órfãos e órfãs trazidos à Manáos eram
positividades e alegrias. Pesquisando jornais do período, nos defrontamos com diferentes
queixas e denúncias sobre os “menores” que habitam a cidade, e muitos dos quais “estão
entregues ao relento”, na vadiagem e mendicância.
Em fins do oitocentos, a cidade presenciara uma diversidade de casos de tráficos de
menores índios de uma forma horrenda e demasiada. Em 27 de agosto de 1881, o presidente
da Província Alarico José Furtado, informa a Assembleia Legislativa22 que o juiz de órfãos
deste Termo expandiu um mandato para que o cidadão Alexandre Nogueira de Lacerda,
residente na povoação de Alvarães entregasse os dois órfãos que se achavam em seu poder.
Certamente se tratava de menores indígenas que seriam traficados para serem comercializados
em Manáos, a fim de servirem como escravos a particulares. O presidente informou que
houve muita oposição por parte de Nogueira de Lacerda, que com sua dureza, feriu ao
subdelegado regional. O mesmo foi indiciado.
Já no ano seguinte, 1882, sete meses após o ocorrido, na cerimônia de entrega da
administração provincial, Alarico José tornou a mencionar o caso dos dois órfãos. O
presidente reiterou sua fala do dia 27 de agosto de 1881, agora afirmando que se tratavam de
dois menores índios, que foram trazidos para Manáos e ficaram em sua guarda. Um dos dois
falecera no Hospital da Caridade, e o outro se encontrava na antiga Casa dos Educandos,
confiado aos cuidados do Reverendo Sr. Vigário Geral. Alarico José afirma que pesquisou
onde residiam os pais destes menores, afim de “efetuar sua restituição”, porém não teve êxito
em sua busca. O presidente concluiu que o melhor a ser feito era destiná-los a companhia de
menores.
Escravidão de Índios
[...]

22
FALA COM QUE o Exmo. Sr. Dr. Alarico José Furtado, abriu a Sessão Extraordinária da Assembleia
Legislativa Provincial do Amazonas, em 27 de agosto de 1881. Manáos: Typ. do Amazonas de José Carneiro dos
Santos, 1882. Acervo IGHA.
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As autoridades judiciais e policiais da província, reiterei em 24 de fevereiro último,


as recomendações que, por várias vezes em diferentes épocas, têm sido feitas por
esta Presidência no intuito de proteger os índios e por um paradeiro a esse comércio
revoltante, que consiste em arrancá-los de suas malocas, para empregá-los na
extração da goma elástica, ou dá-los como criados a pessoas da Capital desta
Província. Comércio indigno, que revolta todas as fibras da natureza humana, que
fere as leis divinas e os sentimentos sagrados da família, que pode provocar
dificuldades internacionais e substituir, eu já o disse, nesta província a escravidão
negra, que tende a desaparecer sob influência dos princípios cristãos, pela escravidão
vermelha.
Confio que esse comércio irá desaparecendo sob a ação enérgica da autoridade,
auxiliada pelos bons cidadãos, e eu tenho a satisfação de registrar nesse relatório,
que além dos dois índios que acima refiro-me, não tive notícia de outros, que
viessem para esta capital e fossem aqui distribuídos como criados. [...].23

Alarico José finaliza dizendo que os custos com o menino indígena que estava
confiado aos cuidados do Vigário Geral correrão por conta da Presidência. Com o relato do
presidente verificamos que o tráfico, rapto e comércio de crianças indígenas na cidade não era
uma questão desconhecida, mas antes disso uma questão de leis e jurisprudência. Embora o
presidente afirme não ter conhecimento de outros casos da natureza, há uma diversidade de
fontes que apresentam bem esta questão.
Na quinta feira, 23 de fevereiro de 1893, o Diário de Manáos, famoso periódico que
circulava na cidade, num artigo bem expressivo, denunciava a situação que os órfãos e órfãs
indígenas estavam sujeitos, inclusive os que adentravam no Instituto Benjamin Constant, e
Estabelecimento dos Educandos Artífices:
Benefício a Civilização!
A título de Benefício à Civilização! Os primitivos exploradores das florestas do
Amazonas, ávidos de fortuna, devastavam os rios, assaltavam as malocas, atiravam
sobre os índios que se recusavam submeter-se, amarravam e amordaçavam os outros
a pretexto de chamá-los ao grêmio da civilização, como se tratasse de uma caçada de
homens!...
Violentados por essas nefandas expedições também denominadas – Descimentos de
índios - que tinha por único fim escraviza-los; depositavam-nos no Curral (Caicará
– em língua indígena) nome afrontoso que deram ao lugar ainda hoje infelizmente
conhecido no Rio Solimões. Ali como animais, os infelizes filhos das selvas eram
vendidos como escravos e flagelados de modo brutal!
As mães separadas dos filhos e uma grande parte de vida dizimadas pelos açoutes,
pela fome e miséria, tudo enfim era insuficiente para tocar aos brutais instintos dos
nossos expedicionários, que, como negros das costas da África, não se distanciavam.
O grito de aflição de tamanho barbarismo não deixou felizmente de ser acudidos
pela humanitária carta de Lei de 6 de junho de 1755 que aboliu semelhante comércio
até então legal e considerou os índios do Pará e Maranhão isentos da ociosa
escravidão.24

23
EXPOSIÇÃO com que o Ex-Presidente do Amazonas, exmo. Sr. Dr. Alarico José Furtado, passou a
administração da Província ao 2º Vice-Presidente, Exmo. Sr. Dr. Romualdo de Sousa Paes de Andrade. Manáos,
07 de março de 1882. Acervo IGHA.
24
JORNAL Diario de Manáos. Quinta feira, 23 de fevereiro de 1893. Disponível em:
http://memoria.bn.br/DocReader/cache/2078703629512/I0002282-. Acesso em 03 de fevereiro de 2015, às
14:15.
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Inicialmente, o redator apresenta-nos um quadro histórico da situação dos grupos


indígenas na Amazônia desde a colonização. Com esse excerto, o redator procurou enfatizar
que pouco se tem feito para de fato inserir o indígena na “benéfica civilização”, mas como o
mesmo apresenta, a situação agravava-se, pois, as leis não estavam sendo devidamente
cumpridas. O autor faz um paralelo entre a Lei de 6 de julho de 1755, e a áurea de 10 de julho
de 1884.25 Prossegue o relator afirmando que dessas leis de fato,
[...] O confronto, porém, da lei áurea de 10 de julho de 1884 com esta, quanto a sua
fiel observância, é vergonhosa, triste e lastimável.
A de 10 de julho, feliz, rápida em sua plenária execução; de 1755 particularmente
par o Amazonas somente modificou, mas não extinguiu o comércio, a sujeição, mau
trato e violências aos pobres índios que tiveram a infelicidade de mais sofrerem à
proporção que os escravos desamparavam a casa de seus ex-senhores, substituindo-
nos de modo ainda mais vergonhoso.
De forma que com libertação dos negros, quase que trouxe como consequência a
nova escravização dos índios órfãos, do Benefício da civilização dos duros tempos
coloniais.26

Com o paralelo realizado pelo redator do artigo, vemos que a situação do indígena na
cidade e nas demais localidade da Província era de um regime de semiescravidão, sofrendo o
índio diversas espoliações. O autor critica a postura das leis pois as mesmas pouco fizeram
para, de fato, auxiliar o indígena a se integrar na sociedade, mas era constante sua
escravização em meio públicos e particulares. Assim, na Província, os órfãos que eram aptos
para a “civilização”, acabavam sendo inseridos em outras práticas, contrarias inclusive a dita
civilização.
No Purus, Juruá, Madeira não ignoramos a maneira porque o pobre índio é tratado
pela faina dos regatões e extratores que os vendem a pretexto de que lhe são
devedores, (dividas que nunca saldam) arrancando-lhes os filhos com enganosas
promessas ou os trocam com futilidades.
Constantemente vemos com desgosto essas pobres crianças cobertas de farrapos nos
vapores que demandam aqueles rios conduzidos a semelhança de animais
domésticos (xerimbabos) como encomenda ora para esta capital e as mais vezes para
fora do Estado e mesmo do país, onde não mais voltam.

25
A Lei de 6 de julho de 1755, estabelecida pelo Marquês de Pombal, estabelecia entre outras coisas a garantia
de terras reservadas aos índios: "(...). Os índios no inteiro domínio e pacífica posse das terras ... para gozarem
delas por si e todos seus herdeiros." Segundo Patrícia Sampaio (2012, p.137, et seq.), a oferta de mão de obra
africana fora reduzida na Colônia, levando o governo a apresentar garantias mínimas de acesso a mão de obra
indígena. Assim, com a publicação dessa lei, chamada de “Lei de Liberdades” de 1755, foi uma maneira de se
estabelecer o poderio sobre a mão de obra indígena, à medida que, estes não se rendiam ao poder português.
Ainda de acordo com Patrícia Sampaio, o seu vigor dependeu de diversas medidas, onde se destaca como
primeira o Diretório de 1757. Já a Lei de 10 de julho de 1884, foi a lei que extinguiu a escravatura no Amazonas,
este se antecedeu quase 4 anos do restante do país, no governo do Presidente da Província Theodoreto Carlos de
Faria Souto.
26
JORNAL Diario de Manáos. Quinta feira, 23 de fevereiro de 1893. Disponível em:
http://memoria.bn.br/DocReader/cache/2078703629512/I0002282- Acesso em 03 de fevereiro de 2015, às
14:15.
78
Texto integrando dos Anais [recurso eletrônico] do IV Encontro Estadual de História - Ensino de
história no Amazonas, democracia e desigualdade. Organização: Keith Valéria de Oliveira Barbosa;
Leandro Coelho de Aguiar ... [et al.]. - 1. ed. -- Manaus: Universidade Federal do Amazonas, 2018.

Os índios assim despreparados pelo roubo dos filhos, de seu penoso trabalho, maus
tratos e desconhecendo a ação da justiça, não trépida acometer os civilizados por um
desforço natural e não por instinto malévolo que muitas vezes se lhes quer imputar.27

Ao descrever o rapto e o tráfico das crianças índias, o autor do artigo apresenta-nos


uma dura realidade da qual estavam sujeitas as crianças indígenas de então. Ao serem
raptadas, e consequentemente vendidas, essas crianças perdiam toda e qualquer relação com
seus pais, que desolados pouco sabiam o que fazer para reivindicar seu direito paterno. O
autor relata como era a situação de translado dessas crianças para a capital e para o exterior,
uma desumanidade sem descrição. Seguindo o autor descreve como a região do Rio Branco
formada por grandes populações indígenas era de fato a melhor região onde o indígena era
bem tratado.
Chegamos à parte mais importante desta fonte para nossa pesquisa que é a parte na
qual o relator nos apresenta situações desses órfãos indígenas em Manáos:
[...] Na capital do Estado, é penoso não só ver a maneira lastimosa porque são
mantidos a maior parte dos infelizes índios apurinãs, japurás, etc., e sejamos
francos, mesmo os infelizes órfãos, que a pretexto do ensino são tirados das mães e
entregues a pessoas que muitas vezes não tem a precisa moralidade, meios de
educar, e outras vezes a família que além de os maltratarem, a pretexto de um sem
número de futilidades, até ciúmes, fazem das raparigas amas secas, que é o menos,
vendedeiras de doce, frutas, bugigangas etc., pelo mercado e ruas da capital vestida
de um modo imundo, que causa comiseração. Encontramo-las a cada passo, neste
lamentável estado, impróprios a civilização e ao decoro da nossa sociedade, pelas
tabernas e quantos lugares impróprios; que se lhes devia evitar, mas que
infelizmente só tem servido para dali serem seduzidas pela soldadesca, que quase
sempre são os felizes mortais, que tiram melhor partido com estas infelizes.
Sem muita demora vão dar elas entrada nos hospitais já em estado muitas vezes de
verdadeira lástima ou andar aí pelas ruas e cachoeiras a vagabundar na mais crassa
devassidão! 28

Temos uma imagem da situação de diversos menores indígenas em Manáos na Belle


Époque, vemos que existiam uma diversidade de grupos indígenas trazidos, ou vivendo por
aqui, vemos também que embora o discurso fosse em nome do progresso e da civilização,
muitas vezes, as crianças trazidas do meio de seus pais e parentes eram entregues a pessoas
que as fariam enveredar por caminhos ruins ou hostis. E prossegue:
Às vezes, as pobres órfãs, além do ensino que lhe proporciona a mestra é este
completo pelo mestre ou tutor, filho ou afilhado da casa mimoseando-lhe com o
estado interessante no qual é incontinente deitada no olho da rua!! Outras muitas
circunstâncias, concorrem para a infelicidade destas desventuradas.
A mestra, se há de chamar o mestre ou o filho às contas, uma vez descoberto este
fracasso, entende-se com a paciente a que julga sempre a única culpável no caso e é
condenada a quantos martírios ou judiarias se pode imaginar, enquanto não é
seguido o preceito do - olho da rua!

27
Idem.
28
Idem. Grifos meus.
79
Texto integrando dos Anais [recurso eletrônico] do IV Encontro Estadual de História - Ensino de
história no Amazonas, democracia e desigualdade. Organização: Keith Valéria de Oliveira Barbosa;
Leandro Coelho de Aguiar ... [et al.]. - 1. ed. -- Manaus: Universidade Federal do Amazonas, 2018.

Parece incrível, mas temos presenciado a desfaçatez de uns tantos degenerados –


tutores ou chefes de famílias que blasonar do caso que acabamos de expor! Eis mais
ou menos o modo quase invariável com que a órfã é obrigada as mais das vezes a
compensar o ensino que lhe dão os seus tutores.29

Embora meio prolixo e redundante, com muitos eufemismos e metáforas, a proposta


deste excerto da fonte era divulgar que muitas das índias órfãs eram entregues
conscientemente ou não aos deleites sexuais de seus tutores que lhes “provinham educação”
no Instituto Benjamin Constant, já mencionado neste trabalho. Fica evidente que estas
meninas eram seduzidas por seus tutores, filhos, ou afilhados que acreditavam que manter
relações sexuais com elas era uma forma de pagamento por seus “incentivos” dispensados na
sua educação. Essa triste realidade vivenciada por essas menores, parece ter sido bastante
presente no cotidiano da cidade, pois o relator apresenta uma veemência em sua crítica e se
policia em encobrir nomes e posturas de possíveis usurpadores ou transgressores dessas
menores.
A seguir, vemos a situação mais clara de como as coisas funcionavam nos
estabelecimentos dos órfãos indígenas.
O asilo Benjamin Constant – não comporta de certo modo todas estas infelizes
criaturas, mas terão ali maior número delas se não estivesse os seus lugares
ocupados pelas intrusas de pais e mães abandonadas ou em condições menos
precárias quanto as que verdadeiramente deveriam merecer este favor e para cujo
fim instituiu-se aquele estabelecimento de educação.
O mau trato de que estes infelizes são vítimas é doloroso e a tanto não chegavam os
aplicados aos escravos, porque enfim estes custavam dinheiro e aqueles um simples
presente de um amigo seringueiro, comandante de vapor, se é índio, e se é órfão
pelo próprio juiz que quase sempre é iludido nestas requisições e empenhos.30

Vemos uma denúncia contida nas entrelinhas desta parte do artigo. Quando o redator
aponta que as vagas do Instituto/Asilo Benjamin Constant, que em sua maioria eram
destinadas as órfãs indígenas, inclusive regimentado por lei, este estabelecimento estava
abrigando outras “intrusas” que vinham se apropriando dos lugares das meninas índias que de
fato deveriam estar ali abrigadas.
Com relação aos meninos indígenas, a situação não parecia ser tão diferente, pois o
redator enfatiza:
Os órfãos – rapazinhos – enfim, são homens, quando não adquirem o ensino preciso
a sua vida é menos precária, conquanto tenhamos razão de sobra para lamentar essa
turba que encontramos de tabuleiros na cabeça a formar a turba de moleques a jogar
pincho nas esquinas e ruas.
Com o estabelecimento dos Educandos, que grandes proveitos têm dado nestes
últimos tempos, acontece a mesma coisa que com o Asilo Benjamin Constant – mais
afilhados do que propriamente necessitados -. A despesa com o estabelecimento da

29
Idem. Grifos meus.
30
Idem. Grifos meus.
80
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história no Amazonas, democracia e desigualdade. Organização: Keith Valéria de Oliveira Barbosa;
Leandro Coelho de Aguiar ... [et al.]. - 1. ed. -- Manaus: Universidade Federal do Amazonas, 2018.

ordem do Educando nunca é demasiada; antes desse-lhe melhores proporções e


aumente-se o número dos infelizes, que quando não tenham muito a ganhar com o
ensino, ao menos será um futuro vagabundo de menor. [sic.]31

A prioridade para ingresso nos Institutos Educacionais da Cidade de Manáos eram os


menores indígenas. Os trabalhos de Ana Luiza Morais, de Alba Barbosa Pessoa, de Irma
Rizzini, também concordam com isso, mas pela leitura da fonte transcrita, vemos que entre o
estabelecido pela lei e a prática, havia uma ambiguidade onde o discurso se diferenciava
bastante do vivido. Reitero que, durante o período estudado, de fato, foi instituído um
discurso de amplas realizações, porém, o discurso diferia e muito das práticas citadinas.
Ao encerrar o artigo, o autor nos diz que:
Com esta ligeira exposição não temos por fim estigmatizar a ninguém e sim apelar
para o sentimento humanitário das pessoas a quem são confiadas estas pobres
criaturas; as autoridades a quem incumbe salvaguardar as liberdades e direitos
humanos; pugnando por nossa vez pelos infelizes sobre quem pesa ainda uma
pressão imprópria da época em que vivemos e chama-los ao grêmio da civilização a
que tem eles justo direito, pois são brasileiros e amazonenses como nós.32

Com a leitura da fonte acima transcrita e comentada, destacamos a presença de


infâncias indígenas na cidade, e mais ainda, observamos como a sociedade as tratava,
desmerecendo sua pequenez e seus direitos assegurados legalmente, como bem destacou o
redator do jornal.

Batismos e vida cenas da vida cotidiana

E quanto a cristianização? Viver na cidade nesse período era assumir-se cristão

temente e praticante dos princípios católicos. Para os indígenas ser batizado e

consequentemente assumir a fé cristã era receber o nome, o título de Cristão. Ser batizado era

sinônimo de ser cidadão. Nisso, concordamos que

[...] Ser cristão significava ocupar um lugar no grêmio da igreja, passar,


definitivamente, a fazer parte da “civilização”. O modelo colonizador e civilizador
dos europeus justificava-se através da ideia de salvar as almas dos gentios e torna-
los vassalos e cristãos úteis. Por outro lado, esta nomeação passou a ter uma
“existência concreta”. Esta existência não se reduz somente ao termo classificatório
criado pelos europeus, mas antes e principalmente, foi assumido e assimilado pelos
próprios “índios”. (CARVALHO JÚNIOR, 2007, p. 125)

31
Idem. Grifos meus.
32
Idem.
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Na cidade de Manáos, os batismos eram frequentes e era demasiado o número de


cidadãos que recebiam este sacramento. Muitos jornais noticiavam os números de batizandos,
e destacavam de onde provinham, se eram estrangeiras, se vinham de outras províncias etc.
No dia 12 de janeiro de 1908, noticiava o redator do Jornal Amazonas, maravilhado que no
ano findado, 1907, haviam sido batizadas na Paróquia de Nossa Senhora dos Remédios 1224,
sendo 618 do sexo masculino, 616 do sexo feminino e 280 ilegítimos. Ainda curioso e bem
expressivo, o redator informa-nos que ainda no número de batismos deram-se 4 casos de
crianças gêmeas e foram batizadas 4 crianças índias.33
Como o caso acima reportado, há em diferentes jornais com diferentes números que
apontam para uma grande presença e participação indígena na cidade durante a Belle Époque.
As infâncias indígenas na cidade eram muito presentes assim como fica evidente uma
participação de seus pais, provavelmente muitos dos quais foram os trazidos a trabalhar nas
obras dos edifícios públicos da cidade, bem como os que aqui já viviam. Ao serem batizados,
os menores indígenas iriam participar também da catequese e se preparar para receber os
demais sacramentos da fé cristã, uma vez que o Batismo era a conversão e a aceitação aos
ensinamentos eclesiásticos, bem como significava se tornar cidadão.
Assim como na colônia, acreditamos que os indígenas resistiam e viam no batismo
uma forma de sobrevivência também; receber o sacramento podia ser uma astúcia na qual os
índios souberam se colocar a fim de evitar espoliações e serem inserido na sociabilidade
“branca”, sem serem desprezados ou diminuídos. Assim ao se tornarem “índios cristãos,”34
esses sujeitos estavam agindo na lógica do poder sem deixa-la, bem como estavam se
tornando cidadãos, convertidos a fé cristã lembremos que:
[...] Somente os batizados poderiam ser “cristãos” e somente os “índios” entram
nessa categoria. Portanto, “índios cristãos” são especiais. Compõem-se de etnias
diversas em sua origem, mas definem um tipo de inserção social particular. A
identidade dos índios cristãos significou a resposta inovadora que as populações
ameríndias, subjugadas e integradas, deram ao projeto civilizador. Era uma forma de
se apropriarem de seu destino. Ser cristão, antes de ser um enquadramento
genérico, era uma decisão – era fruto de uma ação, mesmo que muitas vezes,
forçada. (IDEM, 2007, p.127 –grifos meus)

De fato, há em diversas fontes que norteiam essa pesquisa a referência a índios aptos
ao convívio social, sendo aqueles que entre outros critérios já haviam recebido o Sacramento
do Batismo. Ao utilizarmos do dado da fonte citada e enfatizando que há outras fontes que

33
JORNAL AMAZONAS. Ano XLIV, Nº 62. Domingo, 12 de janeiro de 1908. Manáos Amazonas. Acervo:
Hemeroteca do IGHA.
34
A expressão é de Almir Diniz de Carvalho Júnior, 2005.
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corroboram a ideia levantada sobre os índios que estavam sendo batizados na cidade,
pretendíamos destacar dois pontos: o primeiro, já citado aqui era que de fato havia indígenas
na cidade e estes exerciam certas práticas do poder dominante e sobreviviam. Um segundo
ponto, segue a linha do pensamento do historiador Almir Diniz (2007) quando este propõe
que ao se batizarem, os índios não estavam completamente investidos a fé cristã, mas, faziam
tal simbolismo e participavam deste ato litúrgico como forma de burlar o poder dominante
sem deixá-lo, e assim, poderem exercer suas vivências na cidade, era um “processo de
conversão sincera a seu modo, transformando a nova religião a seu modo”.
Mesmo passando por uma ressignificação, por um “embraquecimento”, como dissera
Otoni Mesquita, a cidade ainda se divertia e mantinha muitos hábitos caboclos, indígenas,
exercendo práticas muitas das quase proibidas nos Códigos de Posturas. Em 1895, no auge da
Belle Époque, assim era relatado um fato muito inusitado em um jornal muito popular da
Cidade, o Diário de Manáos:
Que susto!

Em dias da semana passada, defronte dessa cidade, no lugar Marajó, deu-se uma
tragédia verdadeiramente tropical.
Um caboclinho de nome Idalino foi a tomar banho e no momento de lançar-se ao
rio, ficou preso por uma perna nas mandíbulas de um jacaré. O caboclinho não
perdeu o ânimo e sustentou com tão feroz inimigo, por espaço de uma hora, uma tão
luta insólita quanto desigual.
Quando já estava quase extenuado de fadiga e de susto, lembrou-se de meter os
dedos dentro dos olhos do jacaré, e este com dor abriu a boca e deixou escapar a
presa.
Idalino nadou com toda a força para a terra e começou a gritar pedindo auxilio.
Acudiu gente da casa, trazendo flechas e arpões com os quais executaram o terrível
anfíbio, que media dezoito pés de comprimento.
Que susto! Dizia Idalino ao contemplar ufano o cadáver de seu inimigo.35

Nesta passagem, observamos uma cena cotidiana comum na cidade e no seu entorno:
um cidadão possivelmente um rapaz visto que, o redator se refere a ele como “caboclinho de
nome Idalino”. Embora o redator diga que o fato ocorreu no lugar denominado “Marajó”, o
mesmo fica na entrada de Manáos,36 era próximo, esse lugar pertencia e pertence a cidade, é
entorno. O historiador Leno José Barata de Souza (2005, p. 278) em sua pesquisa sobre

35
JORNAL Diário de Manáos. Ano 01, nº 176. Sábado, 27 de dezembro de 1890. Acervo Biblioteca Nacional
do Rio de Janeiro. Disponível em: http://bndigital.bn.br/hemeroteca-digital/. Acesso em 30/01/2015 ás 09:58.
36
De fato, na proximidade da cidade de Manaus ainda hoje existem diversas ilhas, vilas e comunidade. Não se
encontram numa distância em larga escala da cidade. Há quem as considere distritos urbanos da cidade, que
mesmo possuindo certa autonomia, ainda obedecem a gestão citadina. A mais famosa delas é a Ilha de Marapatá
considerada “Porta de entrada” de Manaus. Outra é a Vila de Paricatuba, já mencionada nesse trabalho.
Possivelmente o referido local pertencia a essa vila, ou seria a Ilha de Marapatá com outra denominação.
83
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queixas e vivências populares nos jornais de Manaus sobre molecagens, desordens citadinas
vinculadas a infâncias, destacou que:
Ao todo, em meio às questões de ordem, somaram-se quase 40 queixumes que
potencializaram uma representação da infância, ou melhor, de uma determinada
infância da Manaus no início do XX voltada exclusivamente para os difíceis viveres
dos chamados “moleques” no seio de uma urbe extremamente madrasta [...].
Viveres infantis que como destaca Fraga Filho, voltando-se para a sociedade baiana
do oitocentos, “... faziam das ruas o espaço de trabalho, de divertimento, de
peraltices, de jogos e brincadeiras”, ou como suscita Ednea Dias sobre os meninos
de Manaus de outrora: “passavam o dia às sombras das árvores, conversando ou
jogando bola, incomodando com sua ociosidade as autoridades”.
Os menores nas Queixas do Povo, tanto poderiam despontar na condição de
“moleques”, com toda carga pejorativa que o termo insere: vadios, desocupados,
desordeiros, como, devido principalmente à violência sofrida por parte de pais e
tutores, na condição de vítimas; momento em que mais pareciam assumir a condição
de criança, ser frágil, que precisava de proteção da sociedade, ao contrário dos
denunciados “moleques malcriados”, aos quais lhe faltaria mesmo a
correção.(grifos do autor)

Pretendemos mostrar que haviam menores indígenas em Manáos e mesmo que


expostos a diferentes tipos de maus tratos e condições sub-humanas, aqui eles estavam. Outra
questão que apontamos é que, como existiam crianças indígenas na Cidade, a posteriori
haveriam homens e mulheres confirmando nossa ideia central de que a cidade jamais perdera
sua tez indígena, suas culturas indígenas, seus fazeres e saberes indígenas. Era de fato uma
necessidade para a elite “branca”, esconder, expelir essa tez do cotidiano citadino, assim, uma
das tentativas mais utilizadas foi a de mandá-los, “empurrá-los” para o mais distante possível
da área central.
Agora, o grande problema era o da habitação, em uma cidade civilizada, não é
admissível conviver junto com a elite, a classe trabalhadora e inferior.

Referências
BERNAL, Roberto Jaramillo. Índios Urbanos: Processo de Reconformação das identidades
étnicas indígenas em Manaus. Manaus: Editora da Universidade Federal do
Amazonas/Faculdade Salesiana Dom Bosco, 2009.
CARVALHO JÚNIOR, Almir Diniz de. Líderes Indígenas no Mundo Cristão Colonial.
Canoa do Tempo: Revista do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade
Federal do Amazonas. Vol. 01, nº 01. Manaus: Editora da Universidade Federal do
Amazonas, 2007.
DECRETO Nº 11 de 26 de abril de 1892: Extingue o Asilo Orfanológico Elisa Souto, cria o
Instituto Benjamin Constant e dá regulamento ao mesmo. In: ESTADO DO AMAZONAS.
Decretos, Leis e Regulamentos colecionados na Administração do Exmo. Sr. Dr. Fileto Pires
Ferreira. 1889 a 1896. TOMO IV – 1892. Manáos: Imprensa Oficial, 1897.
EXPOSIÇÃO APRESENTADA à Assembleia Legislativa Provincial do Amazonas na
Abertura da Primeira Sessão da 17ª Legislatura em 25 de março de 1884, pelo Presidente Dr.

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Theodoreto Carlos de Faria Souto. Manáos: Typ. Do Amazonas de José Carneiro dos Santos,
1884. P.02. Acervo IGHA.
EXPOSIÇÃO APRESENTADA ao Exmo. Sr. Dr. Manoel Clementino Carneiro da Cunha,
Presidente da Província do Amazonas pelo 1º Vice-Presidente da mesma o exmo. Sr. Dr.
Manoel Gomes Corrêa de Miranda por ocasião de passar-lhe a administração da mesma
Província. Manáos, 24 de novembro de 1860.
EXPOSIÇÃO com que o Ex-Presidente do Amazonas, exmo. Sr. Dr. Alarico José Furtado,
passou a administração da Província ao 2º Vice-Presidente, Exmo. Sr. Dr. Romualdo de Sousa
Paes de Andrade. Manáos, 07 de março de 1882. Acervo IGHA.
FALA COM QUE o Exmo. Sr. Dr. Alarico José Furtado, abriu a Sessão Extraordinária da
Assembleia Legislativa Provincial do Amazonas, em 27 de agosto de 1881. Manáos: Typ. Do
Amazonas de José Carneiro dos Santos, 1882. Acervo IGHA.
JORNAL AMAZONAS. Ano XLIV, Nº 62. Domingo, 12 de janeiro de 1908. Manáos
Amazonas. Acervo: Hemeroteca do IGHA.
JORNAL Diário de Manáos. Ano 01, nº 176. Sábado, 27 de dezembro de 1890. Acervo
Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Disponível em: http://bndigital.bn.br/hemeroteca-
digital/. Acesso em 30/01/2015 ás 09:58
JORNAL Diario de Manáos. Quinta feira, 23 de fevereiro de 1893. Disponível em:
http://memoria.bn.br/docreader/cache/2078703629512/I0002282- . Acesso em 03 de fevereiro
de 2015, às 14:15.
JORNAL Diario de Manáos. Quinta feira, 23 de fevereiro de 1893. Disponível em:
http://memoria.bn.br/docreader/cache/2078703629512/I0002282- . Acesso em 03 de fevereiro
de 2015, às 14:15
MIKI, Pérsida da Silva Ribeiro. Aspectos da Educação Infantil no Estado do Amazonas: o
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1933). Itatiba: Tese Doutorado em Educação – Universidade São Francisco –USF, 2014.
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Da; GRUPIONE, Luiz Donisete Benzi (orgs). A temática indígena na escola: novos subsídios
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PESSOA, Alba Barbosa. Infância e Trabalho: Dimensões do Trabalho Infantil na Cidade de
Manaus (1890-1920). Manaus: Dissertação de Mestrado em História - Universidade Federal
do Amazonas – UFAM, 2010.
RELATÓRIO APRESENTADO à Assembleia Legislativa Provincial do Amazonas na
Primeira Sessão da 11ª Legislatura no dia 25 de março de 1872 pelo Presidente da Província o
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SOARES, Ana Luiza Morais. Os Indígenas na Cidade de Manaus (1870-1910): entre a
invisibilidade e a assimilação. Manaus: Dissertação de Mestrado em Antropologia Social,
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SOUZA, Leno José Barata de. Vivência Popular na Imprensa Amazonense: Manaus da
Borracha (1908-1917). São Paulo: Dissertação de Mestrado em História Social. Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP, 2005.

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A FESTA DE IEMANJÁ REPRESENTADA POR CARYBÉ E ODORICO TAVARES


BRUNO RODRIGUES PIMENTEL

A ideia inicial deste texto é desenvolver uma reflexão sobre construções de Iemanjá e
da sua festa no cotidiano do Recôncavo Baiano. Para desenvolver esse estudo teremos como
fontes privilegiadas o número 7 da Coleção Recôncavo (CARYBÉ, 1951)37, intitulado “Festa
de Yemanjá” e o capítulo “O Reino de Iemanjá” do livro “Bahia: imagens da terra e do povo”
(TAVARES, 1961), ambas as obras tiveram sua primeira edição publicada em 1951.

Na introdução do número 7 da Coleção Recôncavo de Carybé38, José Pedreira39


destacou a popularidade de Iemanjá na Bahia e mencionou, especificamente, a sua glória na
cidade de Salvador. O autor acrescentou, que “Yemanjá, a rainha das águas”, é a favorita dos
baianos e que “(...) em todos os jardins da Bahia, cultivam-se flores para ‘ela’”. Pedreira
destacou que o grande presente oferecido a essa deusa no dia 2 de fevereiro de cada ano,
“numa grande procissão que reuni os mais dignos representantes dos mais respeitados
‘terreiros’ da Bahia, não é suficiente”. As cenas dos ogans, com os corpos vergados, sob o
peso dos balaios floridos, de acordo com ele, traduzem, apenas em parte, a grandeza do culto
a Iemanjá, “mãe de todos nós” (PEDREIRA, 1951, s/p).


Doutorando em História Social no Programa de Pós-Graduação em História Social da Universidade do Estado
do Rio de Janeiro. Bolsista FAPERJ.
37
No ano de 1951 foi lançada a Coleção Recôncavo pela Livraria Turista. Esta obra é de autoria de Carybé, mas
conta com textos de alguns colaboradores. A Coleção soma 10 volumes, cada qual sobre um tema de aspectos da
cultura presente na região do Recôncavo Baiano, desenvolvidos através dos desenhos feitos por Carybé. Na
Coleção, para cada conjunto temático de desenhos, existe um texto introdutório. Os textos foram assinados por
Vasconcelos Maia, Odorico Tavares, José Pedreira, Wilson Rocha, Carlos Eduardo, Pierre Verger; e pelo próprio
Carybé.
38
Hector Julio Páride Bernabó, que usava o pseudônimo Carybé, nasceu em Lanús-Argentina em 1911 e morreu
na cidade de Salvador em 1997. Após passar parte de sua infância na Itália, Carybé veio para o Rio de Janeiro
com sua família em busca de melhores condições de vida, tendo em vista as dificuldades econômicas que a
Europa do pós-guerra enfrentava. Em 1928, ingressou na Escola Nacional de Belas Artes. Em 1929 Carybé
interrompeu os estudos na ENBA para voltar para a Argentina com a sua família. A primeira viagem de Carybé a
Salvador ocorreu em 1938 e nesta ocasião ele permaneceu na cidade por seis meses. Na década de 1940 Carybé
realizou mais duas viagens à cidade de Salvador e tornaram-se inevitáveis as suas representações dos ritos do
candomblé, das feitas populares, da capoeira, do sampa, dos mercados, dos casarões do Pelourinho, entre outras
coisas. As experiências que este artista foi adquirindo e a proximidade com esse universo fez com que ele se
apaixonasse pela cidade de Salvador. Em 1950 ele foi morar definitivamente na Bahia.
39
José Pedreira foi um dos fundadores do bar galeria Anjo Azul e escritor, também colaborou na Revista
Cadernos da Bahia com o seguinte título “O culto às águas na Bahia” que foi ilustrado por Carybé. Neste texto,
Pedreira comenta, sobre a força sagrada das águas baianas, e em especial o Dique, que, antes de qualquer coisa é
a lagoa encantada onde habitam Oxum e Iemanjá. Ele foi responsável por escrever a introdução do número 7 da
Coleção, “Festa de Yemanjá”.
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Leandro Coelho de Aguiar ... [et al.]. - 1. ed. -- Manaus: Universidade Federal do Amazonas, 2018.

Assim, Pedreira destacou que o culto a Iemanjá não está restrito ao dia 2 de fevereiro,
mas que, na Bahia, ela é cultuada o ano inteiro. Além dos festejos populares, ela faz parte do
cotidiano das pessoas, ela é vista pelos pescadores, que pedem sua proteção, benção e
prosperidade por meio de preces e cânticos entoados em meio a execução das suas atividades
habituais. Iemanjá é representada como a mãe de muitos filhos, a que está presente em todos
os cantos do Recôncavo Baiano e da Bahia.

Odorico Tavares40 desenvolveu, na obra mencionada, variados temas da cultura baiana


e seu trabalho pode ser, inclusive, compreendido como um verdadeiro guia turístico dos
aspectos socioculturais do Recôncavo Baiano41. Odorico iniciou o capítulo “O Reino de
Iemanjá” narrando as belezas e os lugares da Baia de Todos os Santos. Ele apresentou o
Recôncavo Baiano para o leitor por meio de um passeio de saveiro42, outro símbolo da Bahia
daquele tempo. Seu “passeio”/narrativa tem início na Ponta de Montesserrate, passa pelas
praias mansas da Ribeira, atravessa Plataforma, Aratu, Mataripe. Seguiu adiante, pelo mar
tranquilo, sem presa e chega em São Francisco do Conde em São Roque. Em algum dia de
sol, depois de fazer a volta inteira na Baia de Todos os Santos, chega em Itaparica e em tantos
outros locais e ilhas perdidas. Odorico diz que quem domina esse mundo do Recôncavo,
como seu ponto maior, é a cidade de Salvador. Mas alerta que os encantos não param por aí,
pois o mar que se estende fora da Barra também deve ser apreciando com calma. Ondina, Rio
Vermelho, Amaralina, Pituba, Armação, Chega Negro, Boca do Rio, Piatã, Itapoã, também

40
Odorico Tavares, foi responsável pela redação que inicia o volume 2, 5 e 6, respectivamente, “Pelourinho”,
“Festa do Bonfim” e “Festa da Conceição da Praia” - da Coleção Recôncavo. Ele chegou a Salvador em 1942,
aos 29 anos de idade. Vinha do Recife, a pedido de Assis Chateaubriand, para dirigir os Diários Associados na
Bahia. Lá, entusiasmou-se com a Bahia e tornou-se um promotor da cultura baiana e atuou como crítico de arte.
41
Importante salientar que muitos dos temas desenvolvidos por Odorico Tavares no livro “Bahia: imagens da
terra e do povo” também foram desenvolvidos por Carybé na Coleção Recôncavo. Como, por exemplo: Pesca
de Xaréu, Festa de Iemanjá, Feira de Água de Meninos, Candomblé, Capoeira, Conceição da Praia e Nosso
Senhor do Bonfim.
42
Os saveiros eram, até a década de 1940 e 1950, os principais responsáveis pela realização do transporte de
mercadorias entre as cidades do Recôncavo Baiano. Cada cidade tinha um pequeno e modesto porto para a
realização do transporte das suas mercadorias e movimentação do comercio local. No entanto os pequenos portos
foram perdendo importância e alguns até mesmo desapareceram. Segundo Brito “a navegação nas águas da Baía
de Todos os Santos era, provavelmente, o meio de transporte mais importante” (BRITO, 2008: 40). Os
transportes também eram realizados por meio de grandes embarcações, mas os saveiros eram os responsáveis
pela maior parte da movimentação das mercadorias entre os portos do Recôncavo. Os portos, a princípio, tinham
como principal função enviar e receber os produtos de subsistência, pois o Recôncavo Baiano era um grande
fornecedor de produtos agrícolas, principalmente para a Capital. De acordo com Pierre Verger “esses veleiros
traziam dos diversos pontos do Recôncavo, da extensa Baía de Todos os Santos, pessoas e mercadorias”. Verger
acrescenta que, segundo Odorico Tavares, a madeira e o carvão eram trazidos de Itaparica; “o café e o cacau, de
Nazaré das farinhas; as bananas, laranjas, legumes e a farinha de mandioca, de Maragogipe; os charutos e os
rolos de fumo vinham de Cachoeira e de São Félix” (PIERRE, 2002: 38).

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devem ser amados e apreciados. Cenários paradisíacos e integrantes do reino de Iemanjá,


segundo o autor (TAVARES, 1961: 51-52).

Segundo Tavares o mar é um grande senhor que penetra a Bahia, que, por sua vez, se
orgulha do seu império das águas. Esse grande império por sua vez é regido pela deusa das
águas. Como o autor diz:

(...) há uma fôrça que rege, que impera senhora absoluta de tôdas as águas, de
tudo que em função da água vive e possa viver, há uma fôrça que ordena, que
manda, que decide sôbre a vida dos pescadores, dos saveiristas, dos
doqueiros, dos pais e mães de santo, de todos que têm vistas para alcançar o
azul dos mares baianos. Em cada recanto dêstes mares, nas praias, nas
cabanas dos pescadores, nos altos destes montes, ela é a grande Senhora.
Ninguém pode dizer que não é vassalo dos mais servis do reino de Iemanjá
(TAVARES, 1961: 53).

O trecho acima indica a soberania de Iemanjá no seu reino. O reino de Iemanjá


apresentado por Odorico Tavares era, e continua sendo, muito importante para toda a
Bahia.Os seus domínios e o poder exercido sobre eles influenciavam diretamente a vida dos
baianos, não só os pescadores, saveiristas e doqueiros, mas também os comerciantes, os
produtores rurais, os agricultores, os feirantes e todos que habitavam a Bahia. O Recôncavo
Baiano, parte importante do Reino de Iemanjá descrito pelo autor, sempre foi uma região de
grande importância econômica por causa do desenvolvimento das atividades canavieiro-
açucareira e fumageira (ALMEIDA, 2008: 13). Foi nessa parte do reino de Iemanjá também
que teve início no Brasil a exploração comercial de petróleo, a partir da década de 1940 e
permaneceu sendo a única que região de exploração até a década de 196043 (BRITO, 2008:
74; MORAIS, 2013: 45; SANSONE, 2008: 1-2).

43
Apesar do petróleo ter sido descoberto no Recôncavo Baiano em 1938, foi somente em 1941 que teve início a
sua exploração econômica (MORAIS, 2013: 74), com as descobertas dos campos de Cadeias e Itaparica,
respectivamente. De acordo com José Mauro de Morais foram feitos vários poços na localidade de Lobato em
1938, bairro de Salvador, mas em 1939 eles se mostraram não comerciáveis por conta da baixa produtividade.
No entanto, essa descoberta fez com que o governo nacionalizasse a área no entorno da região de Lobado com
efeito de dá continuidade à exploração (MORAIS, 2013: 46). A descoberta em Lobato foi importante para
impulsionar a exploração na área ao seu entorno, tornando assim a região do Recôncavo Baiano área de
prioridade para o desenvolvimento de estudos geológicos, geofísicos e explorações empreendidas pelo Conselho
Nacional do Petróleo. A partir daí a primeira jazida de petróleo comerciável encontrada foi na localidade de
Candeias, que neste período ainda era periferia da cidade de Salvador, em 1941 a mais de mil metros de
profundidade. No final do mesmo ano teve início a produção de petróleo em escala comercial no Brasil, poço de
Candeias-1. Em 1941 ocorreram descobertas de gás natural em Aratu e no ano seguinte foi descoberto petróleo
em Itaparica. Essas localidades passaram a ser consideradas como pontos pioneiros de exploração de petróleo no
Brasil (Lobato, Candeias, Aratu e Itaparica). No Brasil, o Recôncavo Baiano foi o único produtor petrolífero até
a década de 1960

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Como demonstramos de acordo com as ideias desenvolvidas nos textos de Pedreira e


Tavares, que seguiam das representações artísticas de Carybé, nada poderia acontecer no
reino de Iemanjá sem que ela quisesse. “Nada se faz, nada se altera, nada se transforma, sem
que seja por foça de sua vontade” (TAVARES: 1961: 53).

Festa de Iemanjá
O Número 7 da Coleção Recôncavo possui representações artísticas dos diferentes
momentos da festa de Iemanjá. Carybé desenhou os momentos da festa desde a sua
preparação até as oferendas em cortejo no mar. Nesse número Carybé expressou através dos
seus traços como são feitas, com muita devoção e dedicação, as oferendas à Iemanjá, a deusas
mais popular na Bahia de seu tempo. Além dos momentos da festa ele representou também o
cotidiano dos pescadores, deu indícios de como a rotina da cidade de Salvador estava ligada
ao mar e as atividades que giram ao seu entorno – o comércio, por exemplo. Bares e pequenas
barracas são representados, indicando o movimento à beira-mar. Modestas casas de
pescadores e outros trabalhadores também estão presentes nas suas representações. O artista
demonstrou, nos seus desenhos, como o mar e tudo que vem dele está diretamente ligado ao
povo baiano. Isso parece “justificar” tamanha devoção à deusa que habita as suas
profundezas.
O sustento dessas pessoas, como as imagens nos “dizem”, vem das atividades ligadas
ao mar. Essa relação de dependência está na construção que o artista desenvolveu. Nas suas
representações, Carybé, destacou as pessoas simples, as classes subalternas. Os homens são
representados com corpos bem definidos, talvez os músculos bem delineados sejam resultado
do tralho duro que exercem no mar ou na sua proximidade, pesca, manutenção de redes e
embarcações, além de outros trabalhos manuais que exigem força e vigor físico para serem
cumpridos. Eles estão, na maioria das vezes, sem camisa ou com simples camisetas e calção
típico para banho. As mulheres também aparecem representadas com belos corpos, pois as
curvas típicas do corpo feminino são destacadas pelo artista. O vento marinho ajuda a cumprir
essa tarefa, pois o vento, em algumas representações, movimenta os vestidos contra os corpos
das mulheres, o que acaba por ressaltar as suas formas.

No entanto, mesmo em meio a toda simplicidade e labuta pela sobrevivência, as


pessoas estão representadas felizes. Mesmo não tendo um motivo aparente para tal felicidade,
ainda assim elas estão felizes. Por esse motivo o artista recebeu críticas e foi, inclusive,

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chamado de alienado, pois representava o negro à margem dos problemas sociais que eram
comuns ao seu cotidiano.

Os trabalhos mais pesados e que exigiam pouca ou nenhuma especialização estavam


destinados a eles, isso significa que eram mal remunerados e, em muitas das vezes, viviam em
condições difíceis, moradias precárias, entre outras coisas. Mas, mesmo assim, Carybé os
representavam felizes e harmônicos em uma cidade que, na sua construção, comportava muito
bem as diferenças, sejam elas sociais, culturais, econômicas e, sobretudo, religiosas. A crítica
chamou Carybé de alienado, pois os negros representados por ele, não reivindicavam, eram
negros apáticos politicamente, que não lutavam para uma melhor condição, negros
acostumados e felizes com o que tinham. O artista, de acordo com esse pensamento, não
representou o negro que buscava uma melhor condição de vida, de trabalho, que lutava por
mais respeito para com as suas expressões culturais. Ele representou os negros felizes,
integrados harmonicamente numa cidade que comportava as diferenças.

No entanto, também devemos ter em mente que a construção de Carybé não resultou
de escolhas apenas feitas por ele. Sabemos que Carybé mudou-se definitivamente para a
cidade de Salvador em 1950, pois em 1949, Rubem Braga44, escreveu uma carta para Anísio
Teixeira, que na ocasião era Secretário de Educação e Saúde do estado da Bahia,
recomendando Carybé para desenvolver estudos folclóricos. Não tivemos acesso a carta, mas
podemos ter indícios dos planos de Rubem Braga45 em relação a Carybé por meio de uma
crônica escrita em 1948. O título da crônica é “Que venha Carybé” e nela Braga diz o
seguinte:

O general Peron vem ao Brasil, o que é uma coisa importante. Muito mais
importante, todavia, será a vinda de Carybé. Odorico Tavares me disse que falaria a
Anísio Teixeira e a Otávio Mangabeira sôbre a urgência de recuperar para a Bahia
esse argentino de alma baiana.

Carybé andou a tempos por La Paz e se deixou ficar às margens do Titicaca


aprendendo coisas com os índios. Mas hoje é casado e pai de um filho. Teve de
voltar para Buenos Aires, onde ganha a vida como técnico de paginação em um

44
Rubem Braga (1913-1990) foi um jornalista e cronista brasileiro, correspondente na Itália durante a Segunda
Guerra Mundial, autor, dentre muitas outras obras, do livro intitulado "Com a FEB na Itália", de 1945. Foi
correspondente do Jornal O Globo em Paris, em 1947. Foi nomeado Chefe do Escritório Comercial do Brasil em
Santiago, Chile, em 1953. Na década de 1960, foi Embaixador do Brasil no Marrocos. Ver:
http://enciclopedia.itaucultura.org.br/pessoa6903/rubem-braga
45
É importante destacar que Rubem Braga era amigo de Jorge Amado, ambos haviam, inclusive dividido um
apartamento na cidade de São Paulo. Amado foi preso em 1937 e depois de ter sido solto, em 1938, ele
transferiu-se do Rio para São Paulo, onde morou com Braga. Entre 1941 e 1942, Jorge Amado exilou-se no
Uruguai e na Argentina, neste período Carybé vivia nos arredores de Buenos Aires, mas não encontramos
evidências se ele e Amado se encontraram nesse período.
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jornal e como ilustrador de livros. Não seria difícil para elê ganhar a vida também no
Rio do mesmo jeito. Mas Carybé está cansado de oficinas e editoras. Disse que ele
quer morar na Bahia. Não conhece nem Anísio Teixeira nem Otávio Mangabeira:
mas conhece uma quantidade de negros de candomblés e capoeiras, tem altas
relações entre malandros e tocadores de viola. (...)

Alguns amigos acharam que ele podia ser contratado pelo governo baiano para fazer
estudos de folclore. Eu por mim conheço o que ele fez por simples amor à coisa,
sôbre a dança e o canto do jogo da capoeira. Carybé fez muitas centenas de desenhos
rápidos e ágeis para documentar a dança de combate. E quanto a letra e a música
acho que não tomou nenhuma nota por escrito. Mas com um pandeiro na mão êle
passa horas cantando – com aquela prodigiosa justeza da pronúncia com que ele
canta qualquer coisa das Américas.

Depois soubemos que o governo baiano já contratou um professor de folclore norte-


americano para fazer estudos na Bahia. Está certo. Mas Carybé poderia ser um
fabuloso auxiliar para este professor. E Carybé não precisa de muito dinheiro.
Apenas para aguentar a esposa e o filho em Salvador e poder viajar pela Bahia a
dentro, como é seu sonho.

Hector Bernabó, vulgo Carybé, Jornalista, pintor, cantor e macumbeiro tem sido em
muitos países da América um espantoso propagandista da Bahia. Êle está precisando
de mais Bahia: precisa encher seus tanques de coisas baianas. Vamos tirá-lo dr.
Mangabeira, dr. Anísio Teixeira, dr. Mariani, vamos tirá-lo das oficinas de
46
“Críticas”, onde êle suspira triste, e soltá-lo no seu Recôncavo querido?

Braga destaca que alguns amigos achavam que Carybé poderia ser contratado pelo
governo baiano para desenvolver estudos folclóricos e em seguida discorreu sobre temáticas
que já haviam sido desenvolvidas pelo artista e descreveu também a maneira como as obras
foram elaboradas. Braga dá a entender, por meio da sua narrativa, que Carybé manteve
contato direto com sambistas, capoeiristas, adeptos do candomblé e, por isso, era um
conhecedor das manifestações culturais características desses grupos. O autor demonstra que
o artista já desenvolvia temas relacionados ao folclore baiano e que ele desejava poder voltar
a desenvolver essas temáticas, que se identificava tanto.

Além disso, um precedente é apresentado por Rubem Braga. O fato de um professor


norte-americano ter sido contratado pelo governo baiano para desenvolver estudos folclóricos,
o mesmo poderia acontecer com Carybé, um argentino. Ou, como sugere Braga, Carybé
poderia ser um fabuloso auxiliar para o professor, que não conseguimos identificar quem era,
já que Rubem Braga não entra em detalhes.

No decorrer da crônica, Braga destacou as qualidades artísticas de Carybé e defendeu


que elas poderiam ser usadas para o desenvolvimento dos temas folclóricos do Recôncavo

46
BRAGA, Rubem. Que venha Carybé. Jornal Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 28 de maio de 1948, primeira
seção, página 3.
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Baiano. Além de citar dois importantes nomes do cenário político baiano daquele período,
Braga ainda cita Clemente Mariani Bittencourt, que naquele momento era Ministro da
Educação e Saúde Pública, do Governo de Eurico Gaspar Dutra (1946-1951). O cronista pede,
deliberadamente, ao governador da Bahia, ao Secretário de Educação do Estado da Bahia e ao
Ministro de Educação, para que Carybé fosse “solto” no Recôncavo, ou seja, para que o
artista fosse contratado para representar artisticamente a cultura daquela região.

Deste maneira, os temas e a maneira como eles seriam desenvolvidos deveriam


ressaltar aspectos do cotidiano e da cultura local. Um dos fatores que fazem das
representações realidades construídas é o fato dos artistas realizarem escolhas (sob as mais
variadas influências), existe uma verdadeira e minuciosa seleção do que será representado. Só
é possível ver nas representações o que o artista julgou ser conveniente e o que estava de
acordo com os propósitos estabelecidos.

Carybé, por ser do candomblé, seguia um código de conduta e nas suas representações
ele ocultava tudo que pudesse de algum modo, contribuir para a formação de uma imagem
negativa do candomblé. O fato desse artista ter optado por representar o negro feliz mesmo
em meio as problemas existentes, pode ter uma relação com isso, pois o negro estava, nas suas
obras, diretamente ligado ao candomblé e se seu objetivo era gerar uma imagem positiva e
harmônicadesse culto, nada mais obvio do que representar o negro feliz e devidamente
integrado a cidade, pois o negro e o candomblé não aparecem de modo algum dissociados.

A festa de Iemanjá representada por Carybé resulta da sua observação da festa que
ainda acontece anualmente na praia do Rio Vermelho. Na imagem I, que segue abaixo,
podemos observar a construção romantizada que esse artista desenvolveu da Festa de Iemanjá.
Na representação podemos ver as pessoas sobre toda a extensão da faixa de areia da praia,
dentro do mar e no calçamento da rua. Pequenas embarcações também aparecem
representadas. Mulheres, crianças e homens participam, fazem oferendas, batem palmas,
fazem gestos que parecem ser em saudação. Flores são entregues a deusa. Fogos estouram no
céu do Rio Vermelho. Tudo isso para agradecer as bênçãos alcançadas e para receber novas
graças de Iemanjá. Os fogos podem ser interpretados como o início do cortejo marítimo.

O artista destacou a devoção e a alegria das pessoas. Esse é um típico exemplo do foi
dito anteriormente. O artista representou os fiéis expressando sua fé e felicidade. Negro, fé e
felicidade estão fortemente associados nessa representação, assim como em muitas outras.

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Carybé elegeu momentos específicos para as suas representações. Ele elegeuos momentos de
felicidades da festa. No entanto ele também representou o trabalho duro dos negros na região
litorânea e nos mercados.

Imagem I

Carybé, Coleção Recôncavo, Festa de Yemanjá.

Imagem II

Carybé, Coleção Recôncavo, Festa de Yemanjá.

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Na imagem II, Carybé representou o memento em que as oferendas são preparadas


para serem entregues a Iemanjá por meio do cortejo marítimo. Além dos presentes que
aparecem na imagem, podemos observar um quadro situado no seu centro. O quadro tem a
representação de Iemanjá. A divindade do candomblé que a rainha do mar aparece na figura
de uma sereia.

A representação de Carybé demonstra a preparação ritual de pessoas que


compartilham uma determinada crença. O embrulho maior,que aparece na representação, é
um grande balaio. É comum no dia da festa deIemanjá adeptos e simpatizantes dessa crença
ou da deusa em específico levam balaios comoferendas para serem depositados no mar.
Muitas vezes essas oferendas são feitas emagradecimento ou são feitas com o objetivo de
alcançar graças por meio da benção dessadeusa.

A imagem em análise nos comunica um ato religioso e nostransmite disposições de


ânimo e sentimentos. Iemanjá representada no quadro que fazparte da composição do artista,
em muito se aproxima da deusa descrita por Tavares (TAVARES, 1961: 54-46) e Pedreira
(CARYBÉ: 151: s/p). Cabelos longos, contorno dos seus seios estãodestacados, pois
avantajados são características atribuídas a Iemanjá. Da cintura para cima possuem
características femininas e da cintura para baixopossuem uma calda. Aparece representada
como uma bela sereia. Representação típica dessa deusatão popular entre os pescadores,
marinheiros, trabalhadores dos portos e demais pessoas.
Carybé, José Pedreira e Odorico Tavares destacaram nas suas representações a
popularidade dessa deusa na Bahia. Eles destacaram, cada um a seu modo, a devoção, o
respeito, a admiração do povo baiano. Na construção de Tavares vimos que Iemanjá tem o
Recôncavo como parte integrante do seu vasto reino e que nada acontece com os seus
súditos/filhos sem a sua permissão. Carybé, por meio dos seus desenhos demonstrou como a
vida dos baianos estava diretamente ligada a essa divindade. Iemanjá é construída como a
rainha não somente do mar, mas como soberana de toda a Bahia.

REFERÊNCIAS
ANDRADE, Adriano Bittencourt. A cidade de Salvador, dos idos de 1959: os olhares de
Jorge Amado e Milton Santos, In:PINHEIRO, D.J.F, SILVA, M.A, (orgs). Visões imaginárias
da cidade da Bahia: diálogos entre a geografia e a literatura. Salvador: EDUFBA, 2004.

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ALMEIDA, Paulo Henrique. A economia de Salvador e a formação de suaRegião


Metropolitana. In:CARVALHO, I.M.M., PEREIRA, G.C. (Orgs). Como anda Salvador e sua
região metropolitana [online]. 2nd. edição. Salvador: EDUFBA, 2008.
BAHIA, Joana D’Arc do Valle. O Rio de Iemanja: uma cidade e seus rituais. Revista
Brasileira de História das Religiões. ANPUH, Ano X, n. 30,Janeiro/Abril de 2018, 177-215.
BRITO, Cristóvão. A PETROBRAS e a gestão do território no Recôncavo Baiano [online].
Salvador: EDUFBA, 2008.
CARYBÉ, Pseud. Festa de Yemanjá: 27 desenhos de Carybé. Salvador: Livraria Turista,
1951. (Coleção Recôncavo, n.7).
CAMPOS, Marcelo Gustavo Lima. Carybé e a construção da brasilidade: arte e etnografia
para uma análise além das representações. Dissertação (Mestrado em Artes visuais).
Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro. 2001.
CHARTIER, R. Pierre Bourdieu e a história. Debate com José Leite Sérgio Lopes. Topoi, Rio
de Janeiro, mar. 2002.
MORAIS, José Mauro de. Petróleo em águas profundas: uma história tecnológica da
Petrobras na exploração e produção offshore. Brasília: Ipea: Petrobras, 2013. p. 45.
PIERRE, Verger. Retratos da Bahia. Salvador:Editora Corrupio, 2002.
SANSONE, Lívio. Um contraponto baiano de Açúcar e Petróleo: mercadorias globais,
identidades, globais? Trabalho apresentado na 26ª Reunião Brasileira de Antropologia,
realizada entre os dias 01 e 04 de junho, Porto Seguro, Bahia, Brasil, 2008, p. 1-2.
TAVARES. Odorico. Bahia: imagens da terra e do povo. Editora Civilização Brasileira S.A.
Rio de Janeiro. Ilustração de Carybé, 3º edição, 1961.

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HISTÓRIA ORAL E MEMÓRIA: CLINTON THOMAS


E A IGREJA DE CRISTO EM URUCARÁ

CÉSAR AQUINO BEZERRA*


JÚLIO CLÁUDIO DA SILVA**

Em 1965, uma família de norte-americanos chega de barco em uma pequena cidade


amazonense. Os Thomas vinham como missionários para Urucará, estabelecer a primeira
igreja evangélica da cidade. Como foi a trajetória dessa família até chegar em Urucará? Por
que decidiram morar em Urucará? Como foram suas relações com os moradores da cidade,
com as autoridades, com outras igrejas? Quais memórias estão guardadas sobre a fundação da
Igreja de Cristo em Urucará? São questões como essas que norteiam essa pesquisa.
Este artigo baseia-se em entrevista realizada com Thomas Joel Thomas, nascido em 11
de janeiro de 1964, no estado do Colorado, Estados Unidos, o caçula dos três filhos de
Clinton e Phyllis Thomas. Também conhecido como “Tomé”, ele trabalhou em fábricas e
oficinas de mecânica nos dois países. Tomé residiu no Brasil até a década de 1990, e teve dois
filhos de seu primeiro casamento, Juliana e Tomé, além de quatro netos. Voltou a morar no
Brasil em 2015, e está casado com Alcilene França da Gama Thomas, nascida em 04 de abril
de 1965, e professora da rede estadual de ensino.47

História oral e memória


Procurando apreender tais questões, essa pesquisa enquadra-se no que denominamos
história do tempo presente. Por séculos, a historiografia, que celebrava o uso de fontes
escritas, rejeitou a possibilidade de escrever uma história do tempo presente, pois incluiria o
uso da memória, rejeitada por sua subjetividade, e clamava-se sempre pelo necessário
afastamento, possível apenas nos documentos escritos e fontes oficiais. Porém, conforme
Márcia Menendes Motta (2012), as discussões historiográficas do século XX admitiram novas
concepções a respeito da memória, e consequentemente do tempo presente. A história do
tempo presente nos permite a construção de “uma narrativa científica acerca do que vivemos,
do que estamos consagrando como memória e, por contraste, do que estamos esquecendo”
(MOTTA, 2012:34).
*
Acadêmico de Licenciatura em História da Universidade do Estado do Amazonas - Centro de Estudos
Superiores de Parintins. E-mail: cesaraquinobezerra@gmail.com
**
Professor adjunto do Colegiado de História na Universidade do Estado do Amazonas - Centro de Estudos
Superiores de Parintins. E-mail: julio30clps@gmail.com
47
Dados biográficos a partir da entrevista realizada com Thomas Joel Thomas, em 19 de agosto de 2017, em
Urucará/AM. Acervo pessoal/GEHA/CESP.
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Parte da oposição à história do tempo presente devia-se ao uso do que chamamos de


história oral. Segundo Verena Alberti, “a História oral permite o registro de testemunhos e o
acesso a ‘histórias dentro da história’ e, dessa forma, amplia as possibilidades de interpretação
do passado” (2014:155). Mas, o que é História Oral?
A História oral é uma metodologia de pesquisa e de constituição de fontes para o
estudo da história contemporânea surgida em meados do século XX, após a
invenção do gravador a fita. Ela consiste na realização de entrevistas gravadas com
indivíduos que participaram de, ou testemunharam, acontecimentos e conjunturas do
passado e do presente. Tais entrevistas são produzidas no contexto de projetos de
pesquisa, que determinam quantas e quais pessoas entrevistar, o que e como
perguntar, bem como que destino será dado ao material produzido. (ALBERTI,
2014:155)

Sem esquecer que a História oral “responde apenas a determinadas questões e não é
solução para todos os problemas” (ALBERTI, 2014:165), consideramos que esta metodologia
permite estudar “as formas como pessoas ou grupos efetuaram e elaboraram experiências,
incluindo situações de aprendizado e decisões estratégicas” (p. 165). Estudar essas
experiências “torna possível questionar interpretações generalizantes de determinados
acontecimentos e conjunturas” (p. 165). A entrevista pode ampliar a percepção histórica, e
permitir a “mudança de perspectiva”. Entretanto, “entre gravar as entrevistas e delas tirar
conclusões consistentes para os campos de investigação escolhidos vai uma grande distância”,
pois “não é fácil trabalhar com a chamada fonte oral” (ALBERTI, 2014:168).
A gravação de entrevistas é uma especificidade marcante da história oral: ela produz
sua própria fonte. A “entrevista de História oral é, ao mesmo tempo, um relato de ações
passadas e um resíduo de ações desencadeadas na própria entrevista” (ALBERTI, 2014:169).
Na História oral, há no mínimo um entrevistado e um entrevistador – dois autores. Assim, a
entrevista nasce da interação entre entrevistado e entrevistador, e “tanto um como outro têm
determinadas ideias sobre seu interlocutor e tentam desencadear determinadas ações” (p. 169).
Além disso, a entrevista de História oral também é fruto da ação de interpretar o passado.
Nisso, chama-se “a atenção para a possibilidade de ela documentar as ações de constituição de
memórias - as ações que tanto o entrevistado quanto o entrevistador pretendem desencadear
ao construir o passado de uma forma e não de outra” (p. 169). Apenas pela narração há a
transmissão do acontecimento que o entrevistado viveu, ou seja, “ele se constitui (no sentido
de tornar-se algo) no momento mesmo da entrevista” (p. 171). É no contar das experiências
que “o entrevistado transforma o que foi vivenciado em linguagem, selecionando e
organizando os acontecimentos de acordo com determinado sentido” (p. 171).
Para Alessandro Portelli, “a narração oral da história só toma forma em um encontro
97
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Leandro Coelho de Aguiar ... [et al.]. - 1. ed. -- Manaus: Universidade Federal do Amazonas, 2018.

pessoal causado pela pesquisa de campo” (2010:19). É apenas no diálogo entre duas pessoas,
a fonte e o historiador, o entrevistado e o entrevistador, que aquilo que está guardado na
memória será relembrado, organizado e narrado. Por isso, o entrevistador deve provocar as
memórias e colaborar com sua criação: “por meio da sua presença, das suas perguntas, das
suas reações” (p. 20). Com os estímulos do entrevistador, o narrador pode ser levado a
explorar setores e aspectos da sua experiência, antes mantidos longe quando relata suas
histórias aos seus conhecidos.
Não sendo a narração um fim em si mesmo, já que visa a produção de um documento,
o espaço da entrevista institui o que Portelli chama de “bipolaridade dialógica” (2010:20),
pois dois sujeitos estão face a face, com a mediação de um microfone. Assim, “os dois se
olham” (p. 20), o pesquisador olha para sua fonte, o narrador olha para seu entrevistador, e
portanto, por suas percepções, modela seu discurso, durante a “troca de olhares”. Dessa
forma, considera que “a história oral é um gênero multivocal, resultado do trabalho comum de
uma pluralidade de autores em diálogo” (p. 20).
Mas, Motta (2012) alerta ao equívoco de considerar memória e história como
sinônimas; assim, persiste a necessidade de o historiador fazer uma reconstrução crítica e não
apenas restaurar memórias, compreendendo que estas tanto são fontes históricas quanto
fenômenos históricos. Da mesma forma, Alberti reitera que não podemos considerar o relato
como a própria “História”, ou seja, quando “a entrevista, em vez de fonte para o estudo do
passado e do presente, torna-se a revelação do real” (2014:158). É preciso entender que a
entrevista é mais uma fonte que precisa ser interpretada e analisada.

A Igreja de Cristo
A Igreja de Cristo nasceu nos Estados Unidos, no início do século XIX, a partir de
movimentos que buscavam um retorno ao cristianismo primitivo, unidade dos cristãos e
valorização da Bíblia. Esses movimentos, tendo como líderes principais os pastores Barton
Stone (1772-1844), Thomas Campbell (1763-1851) e Alexander Campbell (1788-1866),
ficaram conhecidos como Movimento de Restauração ou Movimento Stone-Campbell, apesar
de se nomearem apenas como Cristãos ou Discípulos de Cristo. Tendo objetivos comuns, em
1832, os movimentos liderados por Stone e Campbell se uniram, apesar de suas diversidades
internas serem permitidas, seguindo um de seus lemas: “No essencial, unidade; nas opiniões,
liberdade; em todas as coisas, o amor”. As congregações do movimento, conhecidas como
Igrejas de Cristo ou Igrejas Cristãs, se expandiram pelos Estados Unidos e enviaram

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missionários para outros países.48


Segundo o site Movimento de Restauração, mantido por membros da Igreja de Cristo
no Brasil, a permissão de teologia e práticas plurais acarretou na divisão dos Discípulos em
três vertentes. Em 1906, a primeira divisão aconteceu com o grupo das Igrejas de Cristo (A
Capella), chamado de ramo radical. A segunda separação aconteceu entre a década de 1920 e
1968, por um grupo mais liberal e ecumênico, formando a Igreja Cristã (Discípulos de
Cristo). Os membros que não seguiram a nova denominação formaram a comunhão da Igreja
Cristã/Igreja de Cristo (Discípulos independentes). É nesse grupo que nossos estudos irão se
concentrar. Nas estimativas oficiais da igreja, os independentes foram o segundo grupo
religioso que mais cresceu nos EUA no fim do século XX, somando mais de três milhões de
membros na América do Norte.49
No final da década de 1920, as igrejas A Capella enviam três missionários para o
Brasil. Porém, devido às dificuldades, os trabalhos não tiveram sucesso e os missionários se
uniram à nascente Igreja Assembleia de Deus.50 Depois, os Discípulos independentes enviam
o casal David e Ruth Sanders, que chegam ao Brasil em 25 de março de 1948, com destino à
futura capital. Como Brasília ainda estava em construção, os Sanders decidem ficar em
Goiânia-GO, onde a primeira igreja foi instalada, em 7 de setembro de 1948. Vários
missionários norte-americanos se juntaram aos Sanders, e igrejas são estabelecidas no Pará,
Amazonas, Amapá, Tocantins e no Distrito Federal. Líderes nacionais começam a surgir
ainda no fim da primeira década, mas apenas a terceira geração de líderes brasileiros assume a
direção da Igreja de Cristo no Brasil. A igreja brasileira também foi alcançada pelo
Pentecostalismo, mas, sendo composta de igrejas independentes umas das outras, não houve
divisão entre as igrejas que aceitaram e as que não aceitaram o Pentecostalismo.51 Conforme
estimativa de líderes, no site Movimento de Restauração, a Igreja de Cristo no Brasil possui
mais de seiscentas igrejas52, principalmente em Goiás e Distrito Federal, mas também em

48
AGOSTINHO JÚNIOR, Pedro. Introdução à História do Movimento de Restauração de Stone e Campbell.
Movimento de Restauração. Disponível em <http://movimentoderestauracao.com/2008/05/26/introducao-a-
historia-do-movimento-de-restauracao-de-stone-e-campbell/>. Acesso em 20 de agosto de 2017.
49
AGOSTINHO JÚNIOR, Pedro. Introdução à História do Movimento de Restauração de Stone e Campbell.
Movimento de Restauração. Disponível em <http://movimentoderestauracao.com/2008/05/26/introducao-a-
historia-do-movimento-de-restauracao-de-stone-e-campbell/>. Acesso em 20 de agosto de 2017.
50
AGOSTINHO JÚNIOR, Pedro. Ibidem.
51
FIFE, Jefferson Davis. As Igrejas de Cristo/Cristãs e o Movimento de Restauração. Movimento de
Restauração. Disponível em <http://movimentoderestauracao.com/2009/07/29/as-igrejas-de-cristo-cristas-e-o-
movimento-de-restauracao/>. Acesso em 20 de agosto de 2017.
52
AGOSTINHO JÚNIOR, Pedro. Introdução à História do Movimento de Restauração de Stone e Campbell.
Movimento de Restauração. Disponível em <http://movimentoderestauracao.com/2008/05/26/introducao-a-
historia-do-movimento-de-restauracao-de-stone-e-campbell/>. Acesso em 20 de agosto de 2017.
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outros estados, além de projetos missionários, formação de pastores, assistência social, e


outras frentes de atuação.53

Clinton Thomas e a Igreja de Cristo em Urucará


Dentro da primeira onda de missionários da Igreja de Cristo no Brasil54, estavam
Clinton e Phyllis Thomas. Clinton Benjamin Thomas nasceu em 28 de setembro de 1930, em
Williamsport, no estado da Pensilvânia, Estados Unidos.55 Filho de Benjamin e Lucinda
Thomas, formou-se no Johnson Bible College56 em 1955. Phyllis Eleanor Thomas, nasceu em
26 de dezembro de 1934, também em Williamsport, Pensilvânia. “Desde criança, iam na
mesma igreja”, e se casaram no final da década de 1940. Depois, “foram juntos para o
colégio, como casal”, mas quanto à Phyllis, “faltou um ano para terminar”. O casal Thomas
teve três filhos: Timothy Benjamin Thomas, Theodor Andrew Thomas e Thomas Joel
Thomas. Respectivamente, nasceram em “56 o Timóteo, Teodoro em 59 e eu sou de 64”.57
Questionado sobre porquê seus pais foram enviados como missionários para o Norte
do Brasil, Tomé narra: “Meu pai era um mecânico de aviação que a missão tinha um avião. Só
que quando ele chegou aqui não precisaram mais dele”. “Ele veio em 54, mas ele voltou né”,
depois disso, “ele voltou para o Estados Unidos, vendeu as coisas e voltou em 56”. Em outra
fala, reitera que “na primeira vez ele voltou, vendeu as coisas que tinha lá e... veio”. O filho
caçula afirma que Pastor Clinton “gostou do Brasil e quis voltar”.58
Os Thomas atuaram primeiramente nas cidades de Belém-PA e Macapá-AP.59
Moraram em Belém, “na faixa de 2 anos”, onde nasce o primeiro filho: “ela veio grávida lá
dos Estados Unidos”. Como “os missionários queriam que ele trabalhasse no outro lado do
rio, em Macapá”, Tomé relata que a família Thomas mudou-se para o Amapá: “lá onde o
segundo irmão nasceu em Macapá, tinha casa, igreja lá”. Por quanto tempo? “Parece que 10
53
FIFE, Jefferson Davis. As Igrejas de Cristo/Cristãs e o Movimento de Restauração. Movimento de
Restauração. Disponível em <http://movimentoderestauracao.com/2009/07/29/as-igrejas-de-cristo-cristas-e-o-
movimento-de-restauracao/>. Acesso em 20 de agosto de 2017.
54
O Mensageiro das Igrejas de Cristo. Jan/Fev. 2007, nº 126. Disponível em
<http://movimentoderestauracao.com/2007/01/01/o-mensageiro-jan-fev-2007-n-126-historia-eles-tambem-
fazem-parte/>. Acesso em 13 de setembro de 2017.
55
BRAZIL CHRISTIAN WIKI. Clinton and Phyllis Thomas. Disponível em
<http://en.brazilchristianwiki.org/wiki/Clinton_and_Phyllis_Thomas>. Acesso em 15 de agosto de 2017.
56
Fundado por Ashley e Emma Johnson, o seminário nasceu em 1893 como The School of the Evangelists, em
Knoxville, sendo renomeado como Johnson Bible College em 1909. Em 2011, tornou-se Johnson University.
Disponível em <http://history.johnsonu.edu/index.html>. Acesso em 10 de maio de 2018.
57
Entrevista realizada com Thomas Joel Thomas, em 19 de agosto de 2017, em Urucará/AM.
58
Ibidem.
59
RODRIGUES, Gezo. Movimento de Restauração: A Igreja de Cristo de Volta às Origens. Disponível em
<http://movimentoderestauracao.com/2014/12/18/movimento-de-restauracao-a-igreja-de-cristo-de-volta-as-
origens/>. Acesso em 13 de setembro de 2017.
100
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anos nessa área, Belém e Macapá”.60


Sobre as relações dos missionários Thomas com a Igreja de Cristo norte-americana,
Tomé descreve o apoio das igrejas nos Estados Unidos: “eu acho que cada missionário tem
uma base do estado que eles vêm da Igreja... ajuda no suporte financeiro...” Assim sendo,
Pastor Clinton recebia recursos da igreja da Pensilvânia. Ainda que não saiba sobre os outros
missionários no Brasil, acredita “que cada qual tem o seu programa, né, de ajuda
financeira”.61
Depois de Macapá, eles voltaram aos Estados Unidos, conforme Tomé: “59 a 60 ele
voltou, passou uns anos lá quando eu nasci”. Durante os anos nos Estados Unidos, Clinton
trabalhou “com torno, ele também tinha uma loja de armas no Colorado”. Permaneceu “uns 3
anos naquela área, mas aí pediram pra ele voltar pra missão”. Foi nessa ocasião “que ele veio
pra essa área de Urucará”. O primeiro destino novamente foi Belém: “porque o voo chegou
em Belém, aí pega a chatinha62 até Urucará”. Até aquele momento, Clinton “só tinha vindo de
Belém até Manaus”. A viagem até Urucará se deu “subindo parece que a chatinha nos anos
60, 65 né, chatinha, que é de lenha, naquele tempo, ia parando e demorava bastante (...) a
chatinha demorava meses pra chegar...” De acordo com Tomé, “era a primeira vez” que a
família viajava naquela direção.63
Apresentamos então nosso espaço de pesquisa: a cidade de Urucará, no estado do
Amazonas, pertence à Mesorregião do Centro Amazonense e Microrregião de Parintins, com
área de 27.903,534 km². O nome Urucará deriva da junção de duas palavras indígenas: “uru”,
cesto de palha, e “cará”, inhame. A cidade originou-se do povoado de Santana da Capela,
fundada em 1814, por Crispim Lobo de Macedo. A freguesia de Nossa Senhora Santana de
Capela foi criada em 3 de maio de 1880, sendo elevada à vila de Nossa Senhora Santana de
Urucará por lei provincial em 12 de maio de 1887, desmembrada do município de Silves. Em
1892, uma lei altera o nome do município de Senhora Santana de Urucará para simplesmente
Urucará. Um ato estadual em 1930 suprime o município e anexa seu território ao de
Itacoatiara, sendo restabelecido em 1935. Em 31 de março de 1938, a sede do município
recebe foros de cidade, e a comarca de Urucará é criada em 1952. Em 1981, uma emenda
constitucional desmembra o território para a criação de São Sebastião de Uatumã.64 Segundo

60
Entrevista realizada com Thomas Joel Thomas, em 19 de agosto de 2017, em Urucará/AM.
61
Ibidem.
62
Meio de transporte fluvial.
63
Entrevista realizada com Thomas Joel Thomas, em 19 de agosto de 2017, em Urucará/AM.
64
CÂMARA MUNICIPAL DE URUCARÁ. Disponível em <http://www.ale.am.gov.br/urucara/o-
municipio/historia/>. Acesso em 13 de setembro de 2017.
101
Texto integrando dos Anais [recurso eletrônico] do IV Encontro Estadual de História - Ensino de
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o IBGE, a população de Urucará em 2010 era de 17.094 habitantes. Destes, 4.052 se


declaravam como evangélicos.65
Por que Clinton Thomas foi para Urucará? Tomé Thomas relata que “ele queria uma
área nova onde não tinha igreja (...) queriam achar cidade que não tinha igreja cristã. Em
Urucará foi uma”. Poderia ter sido outra: “tinha cinco assim (...) então, aqui era uma, então
ele ficou”. Não havia nada de específico em Urucará: “chegou aqui e resolveu ficar”.66
Tomé afirma que Clinton não conhecia ninguém da cidade, mas várias pessoas
estavam observando sua chegada, já que “o pessoal ficava lá na frente da cidade, quando a
embarcação chegava... pra ver quem chegava, quem ia embora (...) todos estavam esperando
ele lá, quando ele subiu...” Por quê? “Ele era branco né, ninguém sabia o que ele tava
procurando. Aí o seu Arthur Libório recebeu ele... disse que tava esperando um homem como
ele.”67
O morador Arthur Libório estava esperando não o pastor Clinton especificamente.
“Porque o pai dele disse que um dia vinha um homem branco, que vinha trazer um
evangelho... e ele achou que aquele era o momento.” Arthur ouvira isso de seu pai em
Manaus. Tomé não conhece bem essa história: “eu não sei, eu só sei que o pai dele disse que
um dia viria um homem com ensinamentos da escritura e pra abraçar a fé”. Esse
acontecimento torna-se importante na trajetória de Clinton Thomas, e “quando o papai
visitava as igrejas ele contava as histórias”, sendo esta uma das mais importantes ao legitimar
sua ação religiosa no interior do Amazonas.68
Segundo Tomé Thomas, seu pai “comprou uma casa próximo do seu Arthur, depois
vendeu e comprou onde é a casa principal, que era uma usina de arroz”. Quanto ao trabalho
missionário, eles começaram logo: “Foram começando sim!” Urucará, “aquele tempo não
tinha eletricidade e nem água né”. As primeiras reuniões aconteciam na casa: “primeiro a
igreja teve que ser em casa porque não tinha estabelecimento...”69
Tomé não soube dizer sobre possíveis reações negativas dos moradores após a
chegada da família Thomas, mas narra sobre um caso emblemático daqueles primeiros dias:
“o único problema eu acho que foi quando ele foi lavar uma rede de uma pessoa que era
doente de lepra né”. Se a cidade não tinha água encanada, pastor Clinton foi lavar a rede no

65
IBGE. Urucará. Disponível em <https://cidades.ibge.gov.br/brasil/am/urucara/panorama>. Acesso em 17 de
setembro de 2017.
66
Entrevista realizada com Thomas Joel Thomas, em 19 de agosto de 2017, em Urucará/AM.
67
Entrevista realizada com Thomas Joel Thomas, em 19 de agosto de 2017, em Urucará/AM.
68
Ibidem.
69
Ibidem.
102
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história no Amazonas, democracia e desigualdade. Organização: Keith Valéria de Oliveira Barbosa;
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rio em frente à cidade, e “as pessoas tomavam banho no rio e não gostaram daquilo.”70

Foi logo que chegou. Que a filha queria madeira pra fazer um caixão, e ele queria
saber quem faleceu, e... a filha disse que ele não faleceu, mas ninguém entrava na
casa pra ajudar ele, porque ele tinha doença. (...) Aí ele foi e ajudou o homem, e
ainda recuperou... ele fez tratamento em Parintins e morou diversos anos depois
aqui. (...) Tinha que limpar ele né, porque ninguém entrava na casa... e naquele
tempo todo mundo tinha medo, eles davam comida por um buraco na porta, num
caniço. E ele caiu da rede e pensaram que ele ia morrer lá. (...) Aí já iam preparar o
caixão pra ele. [risos]71

Pastor Clinton foi a primeira pessoa que se dispôs a ajudar esse homem, já que
“naquele tempo era desconhecido os efeitos da doença né”. Tomé identifica o homem como
Paulo Serrão. Clinton o ajudou a ir para Parintins, “porque era um local que tinha um
tratamento, o outro era em Manaus”. Após essa ajuda do pastor norte-americano a Paulo
Beltrão, os moradores, “logo que viram a recuperação, acho que começaram a confiar no
trabalho do papai né, ajudando as pessoas...” Diversos casos são lembrados por Tomé, em que
Pastor Clinton ajudava pessoas doentes e feridas, “é porque não tinha... não tinha outro para
ajudar né”. Seus conhecimentos médicos vieram de sua mãe, “a mãe dele era enfermeira”, e
“ele tinha os livros, estudava antes de vim... era um dom de Deus que ele tinha”. Tomé relata
que “qualquer coisa as pessoas corriam com ele naquela época”.72
Após a chegada, pastor Clinton “comprou a primeira, e a segunda residência ele foi
comprando”, com a ajuda da igreja norte-americana. “Ele tinha uma parte em dinheiro que ele
trouxe... parece que a usina de arroz era... dois mil réis, naquele tempo... onde é a casa agora.”
Tomé Thomas não sabe quando foi construído o templo: “eu acho que logo fizeram... o
estabelecimento da igreja. Que desde a minha memória de pequeno já tinha um local né”. A
primeira igreja “era de madeira. Só tinha uma parede. Os bancos de madeira”, no mesmo
endereço, “é a mesma que a atual agora”, “na rua da frente”. O próprio pastor “terminou o
serviço”; “em 80 mais ou menos que fizeram uma de alvenaria”. Os recursos vieram dos
Estados Unidos: “E veio dinheiro de fora para ajudar a missão (...) pessoas independentes e da
igreja pra ajudar a fazer a construção de alvenaria (...) a missão, e os grupos que ajudaram ele
que mandavam ajuda financeira”.73
O terreno da usina ficava próximo à Igreja Matriz de Santa Ana, “ela fazia fundo com
a igreja”. O prédio da Igreja de Cristo foi construído no mesmo terreno, “no mesmo

70
Ibidem.
71
Ibidem.
72
Entrevista realizada com Thomas Joel Thomas, em 19 de agosto de 2017, em Urucará/AM.
73
Ibidem.
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quarteirão”. Dessa forma, uma característica singular da primeira igreja evangélica de Urucará
é sua proximidade com a Igreja Católica: “porque a igreja já fica na praça, é bem próximo”.
Apesar da proximidade, Tomé Thomas afirma que não haviam problemas entre os fiéis, se
encontrando na direção de suas reuniões religiosas: “Não! Não! Não! Nessa parte... só barulho
de festa quando tinha alto falante...” Como durante as festividades na Igreja Católica era
usado um alto falante, isso atrapalhava os cultos evangélicos, “porque o programa de um era
diferente que do outro né”.74
Tomé assegura que essa localização não teve algum motivo especial, mas
simplesmente porque “a cidade era pequena naquele tempo, eu acho que era um local que
tinha pra comprar né”. A população de Urucará “era menos de cinco mil eu acho”. Sua renda
era “a pescaria né, comum na área, e a prefeitura, até hoje, é a renda principal”.75
A chegada dos missionários também teria efeito sobre a atuação católica em Urucará.
Até a década de 1960, de acordo com Tomé, “o padre só vinha uma vez por ano, durante a
festa (...) Não sei qual era a festa naquele tempo, eu acho que era Santana”. Porém, “depois
que ele chegou, aí mandaram o padre... pra ficar aqui, permanente”. Apesar das animosidades
possíveis na relação entre as duas igrejas cristãs, como verificado em outras regiões76, havia
amizade entre os religiosos, “porque a maioria era canadense, então eles conversavam em
inglês”, e inclusive “os padres vinham visitar ele”. Os padres “norte-americanos sempre se
deram bem”, entretanto, com a mudança dos sacerdotes, “os mexicanos não se deram tanto
com o meu pai”. Tomé não viu problemas entre as igrejas por divergências: “Eu acho que... os
padres faziam os trabalhos dele e papai fazia o trabalho cristão, que era as Escrituras, a base
da Igreja Cristã. Então não era motivo de encrenca.”. Entretanto, sem entrar em detalhes,
Tomé atesta que haviam diferenças: “Sempre tem, a diferença de quem está certo ou errado
(...) Mas se você precisa ajuda de alguém, você não vai brigar com aquela pessoa”. Dessa
forma, pastor Clinton “era aceito... porque ele ajudava em outras áreas, além da igreja”. Seu
trabalho alcançava “a comunidade em geral, tanto faz católico ou da Igreja de Cristo”. Com
isso, reitera o papel fundamental do missionário na cidade: “O papai era a única pessoa,
naquele tempo, que podia correr pra ele”.77
Tomé explica a ajuda financeira que a família recebia. “Uma pessoa encarregada” nos

74
Ibidem.
75
Ibidem.
76
Ver por exemplo: RODRIGUES, Cesar Augusto Viana. Conflitos religiosos em Parintins na década de 50.
Trabalho de Conclusão de Curso de Licenciatura Plena em História. Universidade do Estado do Amazonas,
Parintins, 2008.
77
Entrevista realizada com Thomas Joel Thomas, em 19 de agosto de 2017, em Urucará/AM.
104
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Estados Unidos era responsável por receber as contribuições: “podia mandar pra aquela
pessoa quando precisasse né. Não era por mês ou por semana, era quando tinha alguma coisa,
ia para aquela pessoa responsável”. Pastor Clinton tinha acesso a esse dinheiro através do
banco: “eles mantinham a conta bancária no Estados Unidos... e quando o papai precisava ele
podia pegar o dinheiro”. Ele não recebia ajuda financeira do Brasil, “aqui no Brasil não tinha
nada não”, nem mesmo de outras congregações brasileiras da Igreja de Cristo, pois Tomé
menciona que “naquele tempo, não tinha igreja na área né”.78
As relações com as autoridades da cidade de Urucará teriam sido problemáticas em
algumas ocasiões, recorda Tomé Thomas: “Porque é... política você tem que estar de um lado
ou de outro, se você não está... de acordo com o prefeito, você se torna um contra né,
inimigo... e já que ele não participava na política, sempre perseguiam ele.”. Os prefeitos,
“alguns se davam com ele, e outros não”. Também policiais, “tinha alguns que não gostavam
dele”, já que o pastor Clinton procurava manter-se livre das questões políticas da cidade.
“Porque ele era independente do... do que o prefeito queria né”. Clinton Thomas “não gostava
de som alto e ele reclamava sempre”, e como os habitantes “diziam que pagavam direito,
então era um motivo de encrenca (...) era pelo alto falante e barulho, naquele tempo, que
perseguiam ele”. Como era de conhecimento público onde aconteciam as reuniões
evangélicas, “eles faziam barulho né, sabendo que ele tinha o culto”.79
A atuação médica de Clinton Thomas dispunha da contribuição de um médico
brasileiro: “só tinha o doutor João Lúcio que dava amostra grátis pra ele, medicamentos, em
Manaus”. João Lúcio era amigo do pastor Clinton, e fornecia “medicamentos pro papai trazer,
distribuir aqui pro pessoal”. É provável que esse seja o médico que nomeia um hospital na
capital amazonense: “eu acho que o Hospital Doutor João Lúcio é o nome dele”. Pastor
Clinton “ia em Manaus, numa base de uma vez por mês, fazer compras e ia visitar o doutor
João, sempre tinha um estoque de remédio para mandar pra ele”.80
As consultas eram realizadas “de manhã até meio-dia”. Havia “fila de pessoas”, que
“ocupava bastante tempo” do pastor Clinton. O local das consultas era sua residência: “ele
tinha um consultório em casa, as pessoas vinham... com muitos, muitos problemas né”. Além
disso, “pessoas que não podiam chegar em casa ele ia visitar na casa deles”. Apesar de sua
ajuda, em casos mais sérios, ele pedia que o doente fosse para Itacoatiara ou Manaus: “alguma
coisa que não tinha tratamento aqui, tinha que... aí nesse ponto as famílias, a prefeitura,

78
Ibidem.
79
Entrevista realizada com Thomas Joel Thomas, em 19 de agosto de 2017, em Urucará/AM.
80
Ibidem.
105
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pediam uma ajuda, uma passagem, se não tivesse”. Não havia médicos na cidade, “só depois
né, dos anos 80 que veio aparecendo os médicos”. Segundo Tomé, as autoridades da cidade
apoiavam o trabalho medicinal do pastor Thomas, “porque todo mundo precisava dele. Se ele
doava o tempo dele ninguém ia empatar ele né (...) tanto faz prefeito, policial, todo mundo
confiava nele, no trabalho dele”.81
Tomé Thomas revela que seu pai “nunca cobrou medicamento de ninguém... nem
ajuda, só na área de mecânica, porque precisava o material e ele teria que pagar pra ajudar
então ele cobrava, mas, era pouco”. Apresentando a atuação mecânica de seu pai, Tomé
descreve que “ele tinha torno, ele fazia de tudo, até peças pra máquina elétrica”. Assim, ele
cuidava dos veículos, “alguns né, que não tinha muitos naquele tempo”. Enquanto as manhãs
eram para o atendimento médico, “pela tarde ele trabalhava na área mecânica (...) assim,
ajudando o povo”.82
Ocupando suas manhãs e tardes, como Clinton conciliava suas atividades com o
serviço pastoral? Tomé Thomas afirma que os cultos eram “domingo de manhã, domingo à
noite, quarta-feira, tinha culto de oração”, “então ele tinha bastante tempo pra ele ficar...”
Também “ajudava quando as pessoas iam visitá-lo né, se, tinham alguma pergunta espiritual,
podiam conversar com ele”. Tomé recorda que “até em 1980 era bem assistido”, já que “antes
de televisão, era bem assistido, porque não tinha motivo de reunir as pessoas né”.83
E em que áreas a Sra. Phyllis Thomas atuava? Tomé relata que sua mãe “tinha hobbies
né, de fazer costura, com grupos de mulheres, é, tecido de metro e meio de tapete, assim, pra
conversar e ter algum objeto pra fazer as coisas né”. Também dava aulas “na escola pública e
particular”. Ela ensinava “inglês particular”, e trabalhou na Escola Estadual Ramalho Júnior.
Clinton substituiu Phyllis algumas vezes nas aulas de inglês: “Se ela... é, viajasse ele
preenchia assim, uma noite, que ela não podia ir, mesmo que ele não era um professor, mas
ele... acho que tem pessoas que tem lembrança dele...” E sua atuação na igreja? Tomé fica
indeciso um momento e diz que “ela tinha as partes né, que ela trabalhava mais com as
senhoras, e ele com os homens”.84
A Igreja de Cristo foi a primeira igreja evangélica de Urucará, mas “nos anos 90,
chegou outras denominações”. Como eram as relações entre as diferentes igrejas evangélicas?
“Sempre tem a crítica de prática. Cada um tem o seu método, não é? De igreja com mais

81
Ibidem.
82
Ibidem.
83
Entrevista realizada com Thomas Joel Thomas, em 19 de agosto de 2017, em Urucará/AM.
84
Ibidem.
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número, sempre se acha certa porque o número é maior...” Tomé também relata sobre as
mudanças dos fiéis: “é porque os outros quando vem, eles já vem atrás de evangélicos que
tem a base... é mais comum tirar alguém da igreja que já é evangélico para ajudar, do que
achar uma pessoa nova, né?”.85
Tomé credita às novas igrejas a diminuição da frequência na Igreja de Cristo: “Vir os
outros movimentos, e as pessoas começaram a sair”. Urucará “também cresceu, então as
pessoas ficavam mais distantes da igreja, e começaram a frequentar a mais próxima de sua
casa”. Ainda que “sempre vai saindo, e vem entrando novos, né, mas... Outros era estudo em
Manaus, ou trabalho em Manaus”, pois “a imigração pra Manaus foi grande”. Com tudo isso,
os membros foram diminuindo. Entretanto, ainda que muitos membros tenham saído, “tem
muitas pessoas que reconhecem a base de crescimento que papai espalhou, na infância deles,
mesmo que eles, hoje pratiquem com outras igrejas, né...”86
Depois de trinta anos em Urucará, é à sua mãe que Tomé Thomas atribui a saída dos
missionários da cidade:
Sim, porque a mamãe queria voltar. Acho que saudade, né, de família. Tantos anos
fora... e motivo de escola foi motivo que ela queria terminar... que ela não terminou
quando ela veio em 56, ela não tinha terminado ainda a escola. Então ela sempre
cobrava do papai para voltar um dia e terminar...87

O casal Thomas retornou aos Estados Unidos na segunda metade da década de 1990,
aposentando-se de suas ações missionárias. Visitavam Urucará algumas vezes nos anos
seguintes, e Pastor Clinton vem a falecer em 21 de abril de 2007, no Baptist Hospital em
Knoxville, Tennessee.88

Considerações finais
Ao privilegiar aspectos da história da região do Baixo Amazonas, buscamos suprir
lacunas na historiografia amazonense, tendo em visto a inexistência de análises acadêmicas
sobre a trajetória de Clinton Thomas e a Igreja de Cristo em Urucará. A nível nacional, não
encontramos pesquisas científicas sobre a Igreja de Cristo no Brasil. Procuramos desbravar
esse campo, analisando as redes de relações de Clinton Thomas com Urucará, com a Igreja de
Cristo no Brasil e com a Igreja de Cristo nos Estados Unidos. Além de seu relacionamento
com outras pessoas no Brasil e com outros estrangeiros, que viviam ou visitavam Urucará e
85
Ibidem.
86
Ibidem.
87
Entrevista realizada com Thomas Joel Thomas, em 19 de agosto de 2017, em Urucará/AM.
88
BRAZIL CHRISTIAN WIKI. Clinton and Phyllis Thomas. Disponível em
<http://en.brazilchristianwiki.org/wiki/Clinton_and_Phyllis_Thomas>. Acesso em 15 de agosto de 2017.
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outras cidades do Norte brasileiro.


Diversas questões ficam em aberto, apontando as possibilidades da pesquisa. Através
da metodologia da História Oral, poderemos acessar as “histórias dentro da história”
(ALBERTI, 2014:155). A trajetória de Clinton Thomas e Phyllis Thomas, e seus três filhos,
nos dois países, suas relações, as ações missionárias em três estados da Região Norte do
Brasil, sua atuação médica, educacional e mecânica, a influência na sociedade urucaraense, a
permanência da igreja após sua saída, e outras problemáticas, poderão ser conhecidas através
das narrativas de Phyllis Thomas e seus filhos, de primeiros frequentadores da Igreja de Cristo
e de outros moradores de Urucará, além de permitir a busca de colaboradores em outros
estados e nos Estados Unidos.

Referências Bibliográficas
ALBERTI, Verena. Histórias dentro da História. In: PINSKY, Carla Bassanezi (org.). Fontes
históricas. 3. ed. São Paulo: Contexto, 2014, p. 155-202.
MOTTA, Márcia Maria Menendes. História, memória e tempo presente. In: CARDOSO, Ciro
Flamarion; VAINFAS, Ronaldo (org.). Novos domínios da história. Rio de Janeiro: Elsevier,
2012, p. 21-36.
PORTELLI, Alessandro. Sempre existe uma barreira: A arte multivocal da história oral. In:
_______. Ensaios de história oral. São Paulo: Letra e Voz, 2010, p. 19-35.

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A IMPORTÂNCIA DO ENSINO DE HISTÓRIA PARA A CONSCIÊNCIA


HISTÓRICA E POLÍTICA.

DAIANE CRISTINA SOUZA DE SOUZA*

Introdução
A pesquisa analisa o movimento que foi organizado pelos professores das Escolas
Estaduais do Município de Parintins durante a greve dos funcionários públicos da área da
educação no ano de 2018. Vivenciamos essa experiência durante o Estágio Supervisionado II
e foi muito importante, pois acendeu-nos a reflexão sobre a importância do professor na
consciência histórica e na transformação da realidade. Este movimento exigia dentre outros
direitos o reajuste do piso salarial, por isso a ação foi denominada como greve dos professores
o que culminou na paralisação das aulas da rede pública de ensino estadual. Ganhando força
posteriormente, com o apoio de outros servidores como os merendeiros, porteiros e
professores aposentados. Em busca dos seus direitos, os servidores envolvidos chegaram a
ficar acampados na Praça de São Benedito, espaço cedido pela Igreja Católica, que também
apoiava a luta do movimento grevista. Reconstituiremos esse importante momento por meio
das entrevistas que fizemos com os envolvidos e que foram devidamente registradas e
analisadas à luz das questões trazidas pela História Oral. Esta metodologia estabelece e
norteia os procedimentos desta pesquisa. Essa greve foi muito importante para fortalecer os
laços entre as escolas estaduais e mostrar a união dos professores, que depois de muita luta
conseguiram algumas conquistas como o reajuste salarial de 27%. Durante o acampamento na
Praça São Benedito, os professores decidiram ocupar, também, o prédio da representação da
SEDUC no município. O acampamento foi realizado por professores e servidores e contou
com a participação em massa de alunos e de seus responsáveis.
O movimento que nasceu da base e no início ocorreu à revelia do Sindicato da
Categoria fez surgir novas lideranças como o professor de história Rooney Vasconcelos e a
professores de língua portuguesa Keila Regina Nogueira. A organização do acampamento era
feita por todos os professores da rede estadual, que revezavam entre os horários diurno e
noturno. Também alternavam- se na limpeza do espaço que ocupavam e na produção de
alimentação para o grupo. Além disso, promoviam ações como vendas de guloseimas para
custear os gastos do acampamento.

*
Esta pesquisa é fruto da experiência vivida na prática do Estágio Supervisionado em História I na graduação de
História da UEA/CESP, realizada no primeiro semestre de 2018, sob a supervisão da profª Drª Mônica Xavier.
Graduanda do 8º período do curso de Licenciatura em História da Universidade do Estado do Amazonas
(CESP/UEA). Contato: daisouzacris@gmail.com
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“ESTAMOS UNIDOS, DISPOSTOS A LUTAR POR NOSSOS DIREITOS”.

Assim como outros setores, a educação sempre foi um dos problemas mais atuais
dentro do cenário brasileiro. Também é verdade que a valorização e dignidade dos nossos
mestres, nunca foi de fato reconhecida pelos nossos representantes governamentais, o que é
lamentável, uma vez que são eles que trabalham para formar todas as outras profissões e
muitas vezes por sinal, em condições precárias.
Dentro desta perspectiva a qual estão esses sujeitos, é notório que os docentes e
funcionários da educação, não suportariam muito mais tempo, tanto descaso e desvalorização
de seu trabalho.
Foi justamente o que aconteceu com os Servidores Públicos do Amazonas, cansados
de tantas promessas e esperar por reajustes e outros benefícios, decidiram em assembleia por
paralisarem as aulas nas escolas estaduais. Contando apenas com o apoio dos pais e de alunos
e também com uma boa parcela da comunidade parintinense, que aprovavam as
manifestações. Os professores começaram as articulações, promovendo assembleias, indo
para as ruas reivindicando seus direitos e promovendo vendas para custear os gastos da greve,
já que não contavam com nenhuma ajuda financeira de nenhuma entidade. Organizados e
amparados pela lei, uma vez que a greve é um direito constitucional foram posicionando- se
de maneira critica e exigindo melhorias sociais, políticas e civis, através deste movimento dos
servidores da educação.

As Reinvindicações dos servidores públicos


No dia 15 de março, teve inicio em Parintins, um grande movimento contra a
desvalorização da categoria da educação do estado e que mais tarde viria se estender por todo
o Amazonas como “A greve dos servidores públicos”.

Este movimento inicialmente foi encabeçado e estruturado somente pelos professores


das Escolas Estaduais, que exigiam dentre outros direitos o reajuste do piso salarial, de 35%
ao que se refere aos últimos quatro anos, além da Participação do interior na revisão do Plano
de Cargos Carreira e Remuneração. Também lutavam para garantir a reposição de aulas por
parte dos professores sem descontos das faltas, o reajuste do vale alimentação, auxilio
localidade de acordo com a distância, benefício este, que deveria se estender aos merendeiros,
vigias, ao corpo administrativo e retornando aos aposentados. A saúde também era um dos
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pontos reivindicados por eles, buscando a extensão de atendimento do plano de saúde para os
interiores e sua extensão para os dependentes (menores de idade), também exigiam melhorias
na merenda escolar, transporte para os servidores de todos os municípios do interior e
transparência na aplicação de recursos do FUNDEB, muitas outras questões foram levantadas
e foi em busca dessas melhorias e direitos que se articulou o movimento grevista. Os
servidores ressurgem não apenas como trabalhadores inertes, que seguem o que é determinado
pelo sistema e se erguem afim de transforma sua realidade. Sobre isto, Paulo Gomes Lima
afirma:
Esta educação transformadora promove a consciência de quem desenvolve o
trabalho pedagógico- o professor, a equipe técnica e colaboradores, bem como o
desenvolvimento do estudante; todos são participantes, de uma historia construída
por meio de vez, voz e voto e mais do que isso, os saberes que são adquiridos e
desdobrados passam a ter um outro sabor: uma ênfase na construção do homem
como ator social e não como sujeito passivo que deve, simplesmente, consumir um
conhecimento intelectual linearizado (LIMA, 2012 s/p.)

No primeiro momento esta ação foi denominada como greve dos professores o que
culminou na paralização das aulas da rede pública de ensino estadual, ganhando força
posteriormente, com o apoio de outros servidores como, auxiliares administrativos,
merendeiros, porteiros e professores aposentados, que também estavam reivindicando os seus
direitos, após anos de serviços prestados a educação, desta maneira tiveram a necessidade de
mudar o nome do movimento para “Greve dos Servidores de Parintins”.
Na ação de exigir aquilo que se tem por direito e até mesmo na criação das pautas
levantadas, muitas reuniões eram realizadas, afim de discutir as ações do grupo, onde todos
eram ouvidos e podiam dar a sua opinião, discutindo ações que fortaleceriam a greve.
Oficialmente, a greve foi definida para o dia 22 de março de 2018 em Assembleia da
categoria realizada em Manaus, porém em várias cidades do interior e em muitas escolas da
capital o movimento já se colocava pela base. Em Parintins, os professores já estavam
mobilizados desde janeiro deste ano.

Acampados por dignidade e valorização


Após muitas articulações e reuniões com os servidores, ficou decidido que os
envolvidos ficariam acampados na Praça de São Benedito, espaço cedido pela Igreja Católica,
que assim como pais e alunos, também apoiava o movimento grevista, tendo o próprio
arcebispo de Manaus divulgado carta em apoio ao movimento dos professores.
Esta foi a forma que encontraram para pressionar o governo do Estado do Amazonas
para negociarem suas reivindicações. Com o posicionamento dos funcionários da educação, o
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governo tentou um acordo com o Sindicato dos Trabalhadores em Educação do Estado do


Amazonas(Sinteam), que por sinal é “representante legal” da classe, e que para a surpresa de
todos entrou em consenso com o Governador Amazonino Mendes firmando um acordo de
apenas 8% do reajuste, mas a categoria não aceitou a oferta e mostrando que estavam firmes
na sua decisão continuaram com a greve.
Visivelmente chocados com Sinteam e insatisfeitos com a proposta dada pelos
nossos administradores, na pessoa do governador Amazonino Mendes, a categoria em
reuniões decidiu que o mínimo que se esperaria como acordo para finalizarem a greve seria o
reajuste de 27%.

FONTE: SOUZA, 2018.

Os servidores da rede Estadual de Ensino todos os dias em que estiveram acampados,


produziram atas com assinaturas dos mesmos, também fizeram passeatas e manifestações nas
ruas da cidade de Parintins.
Alguns grupos da mídia e até o próprio governador, associava a ação grevista a
politicagem, onde segundo ele, os professores estavam sendo orientados por terceiros, afim de
prejudicar o governo vigente, afirmação esta que foi negada por todos os participantes da
greve. Os servidores embasados na lei e sem nenhum tipo de parceria particular ou política
para manutenção do movimento grevista, seguiu contando apenas, com a colaboração dos
membros envolvidos que alternavam- se para produzir seus alimentos, cuidando do
acampamento, dialogando e traçando estratégias para o sucesso da manifestação grevista.
Como relata Valeria Fragata, educadora da escola João Bosco;
Estou no movimento desde janeiro, tenho cinco anos de experiencia e em janeiro nós
começamos a reunir. Eu, a professora Keila do João Bosco, o professor Gideão do
João Bosco e o Roney, que é do Álvaro Maia e Gentil Belém. Nos passamos as
nossas férias nos articulando, então o nosso movimento desde o inicio sempre foi
organizado, tudo documentado, tanto que nós não temos nenhuma reclamação da
coordenaria ou da polícia de baderna, de nada. Então sempre foi organizado.

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Contavam ainda com a participação e apoio da maioria dos pais de alunos e os


próprios estudantes que demonstrando solidariedade aos seus mestres e que também estavam
em peso nas passeatas, com seus cartazes e gritos de ordem, mostrando que as
“transformações só são possíveis quando arregaçamos as mangas e vamos em busca dos
resultados (aluno da escola Dom Gino).
Percebe- se o quão esse movimento foi importante para os estudantes e o quanto se
faz necessário que se trabalhe dentro de sala de aula sobre as questões políticas e sociais,
mostrando para os alunos a necessidade de se formarem sujeitos críticos, conscientes dos seus
deveres e direitos e que isto depende a construção do ser cidadão.

Fonte: LACERDA, 2018. Vendas para a manutenção do acampamento.

Também sobre a organização do acampamento é importante destacar a conservação


do espaço. Alternavam- se na limpeza da área que ocupavam e também destinavam quem
seriam as pessoas responsáveis pela produção de alimentação para o grupo, fazendo cotas
para comprar o que se fizesse necessário. Além disso promoviam ações como vendas de
guloseimas para custear os gastos do acampamento, assim foi possível alugar a tenda onde
muitos professores reversavam-se entre os horários diurno e noturno, para pernoitarem no
local. A professora Valeria Fragata, explica como se deu a organização do acampamento:
O nosso acampamento também foi organizado. Nós fizemos um revezamento entre
as escolas por turnos, a cada seis horas ficam três escolas responsáveis pelo
acampamento. Eles se organizam para alimentação, água e estrutura. Nós temos um
fundo de greve, organizado por todos, que paga a locação do acampamento, da tenda
e do estrado. Tudo está sendo com o nosso dinheiro. Nosso fundo inicialmente foi
com a colaboração de cada professor né, e depois começamos a movimentar vendas,
porque os professores não têm dinheiro todo tempo para estarem dando, então nós
começamos a vender salgados e mingau. Também estamos com uma venda hoje,
com a sexta cultural, para arrecadar fundos e cobrir as nossas despesas. Então tudo
desde o início, pagamento de carro, de som, pagamento de locais, que nos
utilizamos, foi pago com esse dinheiro. (FRAGATA,2018)

“Passa-tempo”, não!

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Muitas pessoas que não entediam a greve ou não estavam a favor da mesma, não
davam muita credibilidade às manifestações dos servidores. O que para mim enquanto
pesquisadora designada pela Dra. Monica Xavier (que ministrava a disciplina de Estágio II)
para atuar em campo na greve, é uma ideia distorcida e errônea dos fatos.
Nós que estivemos presentes nos dias finais da greve, percebemos a união e o quão
determinados estavam os servidores, apesar de todo o cansaço do grupo, estavam
esperançosos em um retorno que favorecesse a todos. Muitas conversas surgiram durante a
greve que descontentaram os participantes, um deles foi reclamações de algumas pessoas que
usaram redes sociais e grupos de whatsApp para desqualificar o movimento grevista.
Situações como essas partiram de alguns pais de alunos, que não concordavam com a
paralisação das aulas, relatando a falta de compromisso dos docentes com os seus filhos.
Devo dizer que este foi um grande desapontamento para mim enquanto cidadã,
como estudante e também como futura colaboradora da educação, mas que também me
estimulou a trabalhar com meus futuros alunos, sobre o papel de ser um cidadão, conhecedor
dos seus deveres com a sociedade, mas também consciente dos seus direitos, refletindo e
questionando, propondo mudanças para o bem maior da sociedade. Dessa forma, mostrar aos
alunos e para toda a sociedade que se temos deveres enquanto cidadãos, da mesma maneira
temos direitos, estes que estão garantidos dentro da Constituição Federal do Brasil, nas
palavras de Sergio Martins (2012); “Se o direito de greve está inserido no capitulo II, dos
Direitos Sociais, do Título I, já é possível dizer que os interesses são sociais, dizendo respeito
às condições de trabalho, a melhoria das condições sociais, inclusive salariais”.

Fonte: LACERDA, 2018. Descontração e articulações.

Foram, muitos relatos de que os professores reclamavam sem motivos e que eram
uma desculpa para não estarem em sala de aula. Essa ideia repercutiu muito, dentro da
comunidade parintinense, havendo algumas manifestações por redes sociais e grupos de pais,
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ao nosso entendimento devido alguns professores durante o acampamento promoverem


conversas e algumas brincadeiras, mas percebemos que durante esses momentos de
descontração, eles discutiam estratégias para o melhor funcionamento do acampamento,
promovendo diálogos que ajudavam a fortalecer o movimento. Tudo o que estava sendo
organizado, partiu de uma rotina cansativa, que exigia muita determinação e esforço por parte
dos grevistas, como podemos ver na declaração da professora Valéria;

Nós fomos para rua, colocamos a cara no sol, na chuva. Chamamos a atenção
da sociedade, falamos diretamente com os pais nas suas casas e em uma
reunião que nós organizamos. Realizamos eventos, caminhadas, demos
entrevistas para chamar a atenção e pedir apoio da sociedade, tudo muito
organizado, resultado de muito trabalho mesmo. (FRAGATA,2018)

Inclusive muitas ideias surgiam dessas reuniões em pequenos grupos, a própria


música usada pelos professores surgiu de conversações como estas, e que mais tarde viriam
ser um hino para a Greve dos servidores Públicos de Parintins.

“O equívoco dos professores”


Jogar a responsabilidade de um governo para o outro já virou rotina dentro do
cenário político. Seguindo essa linha, o Governo do Estado do Amazonas, apesar de
reconhecer a injustiça que os professores vêm sofrendo ao longo do tempo tentou desarticular
o movimento dizendo que os professores estavam “equivocados” em fazer uma greve neste
momento, pois segundo ele, essa manifestação deveria ter sido realizada nos anos de 2015 e
2016.
O Governo do Estado do Amazonas posicionou-se contra a greve e afirmou que não
seria possível conceder o aumento reivindicado, pois caso o fizesse descumpriria o chamado
“limite prudencial” da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF). Assim, durante boa parte do
movimento, o governador afirmava que um aumento além do 4,57% oferecido seria
impossível. Argumentou ainda que o governo estava reajustando alguns benefícios como o
auxilio alimentação e a gratificação de localidade.
Como os servidores não cederam a essas justificativas, o Governador Amazonino
Mendes, propôs um aumento de 8% ao Sinteam, responsável legal dos Servidores Públicos do
Amazonas, o que foi aceito por esse representante, mas não pelos os grevistas que sentiram-
se desassistidos e prejudicados pelo acordo e após reunião em assembleia resolveram
continuar com a paralização.

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O governador veio à cidade de Parintins, pioneira nesta greve do Amazonas, mesmo


assim não houve acordo, pois na “conversa” o governador desvalorizou o diálogo com os
representantes que foram à reunião e, ao se sentirem desrespeitados e mais uma vez
desvalorizados, o acordo não foi firmado. Com o desfecho negativo, Amazonino Mendes após
uma acalorada manifestação que seguiu o mesmo até o aeroporto, volta para Manaus sem
sucesso nas negociações, deixando os grevistas bastante revoltados com o tratamento
descabido por parte do governo.
Depois de três negociações frustradas com o governo do estado, a Assembleia
Legislativa do Amazonas, aprovou no dia 6 de abril o percentual referente às perdas salariais
dos últimos quatro anos da categoria com o reajuste de 27,02% para os professores e
servidores da rede pública de ensino do estado,
Participamos de todo o findar das negociações, os professores acompanhavam com
muita atenção por meio de uma caixa de som e ouviam a cada fala positiva dos legisladores ao
fim da cessão. Muita euforia com o resultado afinal é uma das maiores conquistas para a
classe, que apesar de não terem conseguido sucesso em todas suas reivindicações, deu um
grande passo para a educação e uma lição importantíssima do que é ser cidadão consciente
dos seus direitos e deveres.

Considerações finais
Diante do que foi exposto neste trabalho, posso concluir que através do contato com
a Greve dos Servidores Públicos do Amazonas, por intermédio da disciplina de Estágio
Supervisionado II, pude compreender algumas dificuldades por qual irei passar enquanto
educadora. Das mazelas que os professores e outros servidores da educação tem que enfrentar
todos os dias.

Devo salientar que essa experiência contribuiu de forma significativa com a minha
formação como futura professora de História, com mais disposição para interferir e promover
novas possibilidades na minha vida profissional e social, assim como na vida dos meus
alunos.

Ainda abre espaço para refletir sobre o que é ser um cidadão consciente de suas
obrigações e seus direitos, entendo a greve como um direito constitucional do servidor
público. Exercendo-a dentro da legalidade e com responsabilidade, pois é um direito social
que não se restringe somente a classe de trabalhadores da educação, mais de todos os

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cidadãos, lhe dando condições para viver com dignidade, através da valorização e
reconhecimento de seu trabalho.

Referências
LIMA, Paulo Gomes. A Importância do papel do professor para o sucesso da educação.
Disponível em: http://pt.scribd.com/doc/13500666/A- IMPORETANCIA-DO-PAPEL-DO-
PROFESSOR-PARA-0-SUCESSO-DA-EDUCAÇÃO-PRF-DR-PAULO-GOMES-LIMA-
UFGD Acesso em 03 de agosto de 2018.
MARTINS, Sergio Pinto. Direito do trabalho. 28a Ed. Atlas: São Paulo, 2012.
FOTOS
LACERDA, Soraia. Fotos/ Arquivo pessoal. 2018.
SOUZA. Daiane. Fotos/ Arquivo pessoal. 2018.

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HISTÓRIA ORAL E MIGRAÇÃO (APONTAMENTO DE PESQUISA)


DISCRIMINAÇÃO E PRECONCEITOS: OS INDÍGENAS URBANOS DE
PARINTINS
EDGAR VIANA

Introdução
As etnias indígenas brasileiras têm tido ao redor do país e de sua história uma
carregada e marcante trajetória de dificuldades enfrentadas desde a escravidão a forma de
apagamento da própria história. uma das atuais dificuldades enfrentadas por estes
personagens ea discriminação e o preconceito sendo estes evidenciados em episódios que
cuja as próprias testemunhas são condizentes com a situação pois a caracterização e a cultura
do outro é ensinado desde o berço a ser ignorado e tratado como o errado havendo uma total
falta de austeridade e essas questões da própria sociedade são os fomentadores de conflitos
que acontecem desde o sair de casa, dentro de escolas e durante o trabalho.

Essa discriminação e preconceito podem ser vistas em discursos políticos e na própria


história do país a há também uma questão de perda de cultura pois há um senso comum do
que define o indígena como suas vestes e características portanto para alguns e improvável
que um indígena possa possuir bens de consumo como celular pois a partir do memento em
que ele passa a ter esses itens em sua vida ele deixa de pertencer a sua etnia e torna-se um
“civilizado”.

A história do tempo presente é um campo de estudos que faz parte da historiografia


contemporânea, algo recente neste campo cientifico pois a história recente não era feita por
historiadores. Essa temática era inicialmente feita por outras ciências humanas e sociais, como
a Sociologia e Antropologia, mas a história oral permitiu aos historiadores uma janela para a
pesquisa do passado mesmo ele tendo acontecido não muito tempo atrás. O que se considera
tempo presente na historiografia parte-se do recorte temporal do ano de 1945 como uma
ruptura, o final da Segunda Guerra Mundial, e deste recorte cronológico pôde-se começar a
fazer alguns dos primeiros estudos nesse campo. A partir da utilização da história oral foram
feitas pesquisas usando como fonte as entrevistas de ex-combatentes de guerra e testemunhas
de fatos do ocorrido através das suas memórias (POLLAK, 1992; MOTTA, 2012). E assim o
historiador pode reconstruir o passado recente problematizando-o e procurando uma
representação crítica deste novo pretérito não o eliminando, mas reinterpretando-o a partir de
teorias e fontes que a historiografia oferece (MOTTA, 2012).

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A história oral produz documentos segundo ALBERTI (2012) através das entrevistas
que se tornam posteriormente a fonte analisada faz com que o pesquisador possa através da
análise do testemunho encontrar uma experiência de vida que tenha relação com o objeto de
estudo. A história da experiencia segundo Lutz Niethammer e o que deixa os pesquisadores de
história oral mais próximos do que ele considera o significado de história dentro da história.
Como a história oral permite obter o conhecimento sobre diferentes modos de vida e de
vivencias de grupos sociais partindo de uma memória ao qual esses grupos sociais e modos de
vida geraram o que torna a memória um objeto que possa a ser analisado através dos
testemunhos de seus guardiões pelo método da história oral que torna-se um instrumento
necessário para a com a pluralidade e sua fragmentação pois a memória é flexível e pode ser
reconstruída.

A memória segundo MOTTA (2012) para alguns autores que trabalham com a
metodologia da história oral como Michel Pollak e Maurice Halbwachs entendem que ela e
algo construído no íntimo do indivíduo ou até de um coletivo onde se encontram as noções de
realidade que esse grupo/pessoa ao criar sua memória demonstra entender, mas essa memória
está sujeita a mudanças e transformações ao decorrer do tempo. Apesar da memória ter uma
característica de estar em constate mudança e transformação existem traumas ou momentos da
memória em que não se alteram. A memória também é uma fonte histórica pois elas ao serem
recordadas demonstram contradições, elos e visões distintas sendo possível assim analisa-las
criticamente para que possam descontruir outras memórias consagradas.

No caso das entrevistas realizadas com o indígena da etnia Sateré-Mawé José Ferreira
de Souza (conhecido também como “Zezinho”) e com seus familiares (seu filho Alcimar de
Souza e sua esposa Ada da Costa Silva) é demonstrado repetição de uma experiência
proporcionada pela migração feita por essa família da sua moradia na reserva indígena de
nome ponta alegre próximo do distrito de João madeira para sede da cidade de Parintins onde
essas pessoas começariam a passar por episódios em locais específicos da rotina de seu dia-a-
dia que não haviam passado em seu antigo lar. O conjunto familiar formado por “José Ferreira
de Souza” (1973-2017) que possuía um cargo de importância na sociedade da etnia sateré-
mawe o qual herdou de seu pai e zezinho em seguida explica que seu pai lhe concede o cargo
de capitao geral da tribo Sateré Mawé após seu falecimento e que junto ao cargo de tuxaua
(um outro cargo na hierarquia Sateré) comandam toda a população que se encontra no que ele
define como sua nação. Em seguida temos a sua esposa Ada da Costa Cabral que não se
identifica como uma Sateré-Mawe, mas convive com eles desde seu nascimento na área
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indígena e por último seu filho Alcimar da Costa Souza este último nos dias atuais está
exercendo as funções do cargo de seu pai pois este já apresentava em suas palavras forte
empenho político para com as questões indígenas

O pai de “Zezinho” Francelino Gregório de Souza como já dito antes possuía um


cargo hierárquico de Capitao da tribo sateré-mawe cuja a função seria a de comandar junto ao
tuxaua a nação uma posição de extrema necessidade pois este que ocupava o cargo deveria
estar sempre a estar a par de soluções para os problemas que surgissem na área indígena e
com sua nação. este cargo só pode ser repassado para descendentes do sexo masculino do
atual detentor do cargo se o atual detentor não possuir um membro da família assumira como
um irmão ou sobrinho.

“Zezinho” ao fazer sua odisséia a sede da cidade de Parintins em busca principalmente


de uma melhor qualidade de educação para seus filhos já que sua comunidade estava limitada
apenas ao ensino fundamental incompleto fez com que ele fosse procurar em um contexto
urbano uma condição de ensino diferente para seus filhos. A partir desse momento “Zezinho”
e seus familiares se deparariam com situações nunca antes passada em sua antiga residência.

A própria questão da convivência com o diferente causava conflitos entre os novos


moradores (indígenas) e os antigos moradores da cidade e mesmo após o estabelecimento
ainda residem ressentimentos de experiências passadas e os estereótipos que permanecem na
sociedade “civilizada” essa sensação e notada pelos moradores que se reconhecem
etnicamente como indígenas. Pois sentem que sua simples presença é um incomodo alheio,
apesar do tempo de estabelecimento na residência e no bairro ainda parece que seus vizinhos
apresentam ressentimentos quanto as primeiras experiências proporcionadas pelo primeiro
contato com os novos moradores. No relato de Zezinho:

“Seu Zé: Faz muito tempo que nós cheguemos aqui... 20 e poucos anos... Aqui era...
Índio já viu
como é né? Quando barco chegava lá tudo ficava admirado... Hoje a gente passa aí...
Têm
Às críticas pra mim não valem nada...
En: Mas que críticas são essas?
Seu Zé: A gente é índio, índio come isso, toma aquilo,
... Que índio é lascado..
Seu Zé: É... Por causa de adulação(zoação?) de dizer ah tu é índio, tu come saúva e é
preguiçoso não sei quê... Ele partia pra cima...”89

89
Gravação de 08 de maio de 2017 entrevistado: José Ferreira de Souza
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Isso nos leva a questão de racismo que a família de zezinho passou foi apresentada
desde sua chegada no local até os locais onde ele deveria ser combatido pois o intuito de
“zezinho” ao ir a sede da cidade de Parintins era a de uma melhor qualidade de educação já
que seu antigo local de moradia não atendia as suas necessidades nas escolas foram onde
ocorreram os episódios de discriminação com maior frequência em uma das falas de Zezinho:

“Z: Meu filho tem 40 anos, brigava muito aí...


EN: É mesmo?
Z: É... Por causa de adulação de dizer ah tu é índio, tu come saúva e é preguiçoso
90
não sei quê... Ele partia pra cima...”

Durante o decorrer das entrevistas e notável o aparecimento de questões de


preconceito como e é o caso da entrevista com Alcimar que demonstra em alguns trechos de
seu relato que o preconceito as etnias indígenas ocupam vários espaços da sociedade até
mesmo onde essa atitude deveria ser incentivada a não existir como nas escolas onde Alcimar
estudou e segundo ele a sala se dividia em pessoas que queriam aprender sobre a sua cultura e
aquelas que formavam um grupo que não tolerava a presença deles dentro de uma sala de aula
ou mesmo na cidade essa questão ainda seria levada para a sala de aula de uma universidade
do estado:

“...Sofria isso na escola né? Era brincadeira de mau gosto né? Ah ele é índio,
inclusive na época eu briguei com um colega meu que sempre bagunçava, tudo era ô
índio, quando aparecia algum trabalho que era pra falar de índio, ele sempre levava
pro lado de discriminação”.91
“...Tinha colegas nossos que queriam saber como era a nossa cultura e como que era
a nossa convivência, mas tinha outros não que... tem até hoje né? Tem gente que não
quer nem papo com índio né? Que não gosta... A gente não agrada a todos né? Tem
gente que não gosta...” 92

“Colocar o ano em que o ensino sobre cultura afro e indígena foi colocada em lei para
problematizar mais a questão da intolerância dentro da sala de aula e depois descobrir em que
ano Alcimar entrou na universidade e quando foi que veio estudar em Parintins para
relacionar as datas pois se forem após 2011 na universidade deveriam haver no mínimo
palestras sobre as questões de intolerância.”
“…questão da faculdade também, tinham uns colegas meus que não se davam bem
com a gente, por causa da questão indígena, porque eles dizem que índio só... Eu
acho que o choque que eles levam e que... A gente só quer o bem-bom, eles sempre
veem as nossas reivindicações, tem na mídia sempre reivindicando e questionando,
mas eles pensam que a gente quer tudo a mão, tudo de bem. Mas não é assim
também não, a gente que é índio sente na pele”. 93

90
Gravação de 08 de maio de 2017 entrevistado: José Ferreira de Souza
91
Gravação de 06 de maio de 2017 entrevistado: Alcimar da Costa Souza
92
Gravação de 06 de maio de 2017 entrevistado: Alcimar da Costa Souza
93
Gravação de 06 de maio de 2017 entrevistado: Alcimar da Costa Souza
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“Eu tinha um colega que falava assim: Ah não, esses índios querem demais, tem
muita terra, não querem trabalhar, índio é preguiçoso, índio é isso... Sabe ele falou
na lata, e a gente tinha que se defender né? Não é assim também não, a questão de
ser preguiçoso, a questão é que o nosso modo de vida é outro, nossa cultura é outra.
Não é o que eles pensam... O que a gente pensa... E... A gente sentia na pele essa
questão aí de discriminação... Quando eles pensam que a gente quer que o governo
94
dê pra gente, não, a gente só quer nosso espaço e lutar pelos nossos direitos”.

Logo após os comentários de Alcimar ele também se utiliza de frases que remetem ao
conhecimento sobre sua própria identidade pois apesar de todas as influências que a sociedade
propõe a Alcimar ele ainda se vê como um indígena segundo suas palavras:
“Eu posso ser o que você é sem deixar de ser o que sou. Eu sempre falava isso pra
eles, eu posso ser um deputado, um prefeito, mas nunca vou deixar de ser índio, eu
posso chegar a qualquer cargo desse, mas sempre valorizando meus princípios
95
indígenas, sempre levando minha identidade”.

Alcimar conta outro caso de discriminação que aconteceu durante o período que
trabalhava (não há especificação de seu oficio) no ano de 2013 quando o seu patrão descobre
que havia sido furtado de algum pertence seu então todos os trabalhadores são colocados em
fila e o patrão vai verificando cada um de seus contratados, mas quando chegou a vez de
Alcimar por possuir uma condição étnica diferente das demais presentes seria acusado como
autor do crime:
“Ele foi falando de cada um né? E quando chegou em mim ele falou: eu não
conheço ele, ele é índio, ele é índio, não sei como é a vida dele.” 96

Em seguida após uma investigação séria provando que não teria sido Alcimar que teria
cometido tal ato e depois da comprovação da sua inocência ele receberia um tratamento
melhor vindo de seus colegas de trabalho e até mesmo recebendo desculpa do próprio patrão:
“Depois passaram a me conhecer realmente né? Que eu não era aquela pessoa, que
eu era diferente... Eu saí de lá com a consciência tranquila, todos eles me gostaram,
até ele(chefe) me elogiou e pediu desculpa pelo que ele tinha falado.” 97

Conclusão

Conclui-se que mesmo havendo políticas e órgãos voltados a extinguir estes estigmas
da sociedade brasileira ainda existem resquícios que permaneceram sem cura já que não havia
naquele momento pessoas envolvidas no embate pois existem em espaços onde não deveriam
existir e se apresentam através de quem deveria ser o mais avido combatente a esse tipo de
questão. Para que esse tipo de episódio não volte ou ao menos diminua sua intensidade e

94
Gravação de 06 de maio de 2017 entrevistado: Alcimar da Costa Souza
95
Gravação de 06 de maio de 2017 entrevistado: Alcimar da Costa Souza
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Gravação de 06 de maio de 2017 entrevistado: Alcimar da Costa Souza
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necessário uma conscientização sobre o assunto nas diversas camadas da sociedade


principalmente entre os professores de escolas públicas pois este sendo um dos principal focos
de disseminação de conhecimentos sobre as mais diversas formas de diferença e de culturas
esta entre as melhores formas de combater o preconceito e discriminação não apenas para as
etnias indígenas como também para outras formas de agressão já que este e o espaço
institucionalizado para o aprendizado e ao meu ponto de vista o melhor modo de tratar desta
questão.

Referência
SOUZA, Hellen C. Entre a aldeia e a cidade: estudantes indígenas em contextos urbanos no
Brasil. Trabalho apresentado na 26ª. Reunião Brasileira de Antropologia, realizada entre os
dias 01 e 04 de junho de 2008, Porto Seguro, Bahia, Brasil.
CARDOSO, Ciro Flamarion; VAINFAS, Ronaldo (orgs.). Novos domínios da história. Rio de
Janeiro: Elsevier, 2012.
PINSKY, Carla Bassanezi (org.). Fontes históricas. São Paulo: Contexto, 2011.
POLLAK, Michael. Memória e identidade social. Estudos Históricos. Rio de Janeiro, vol. 5,
n. 10, 1992.
POLLAK, Michael. Memória, Esquecimento, Silêncio. Estudos Históricos, Rio de Janeiro,
vol. 2, n. 3, 1989.

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MULHERES INDÍGENAS CRISTÃS: ESTRATÉGIAS DE RESISTÊNCIA


EM UM MUNDO COLONIAL CRISTÃO (SÉCULOS XVII-XVIII)

ÉRICA GARCIA DE FREITAS*

Introdução
A presença da mulher indígena nos séculos XVII-XVIII é imprescindível para a
manutenção da colônia, porque as tarefas desempenhadas pelas indígenas dentro do
aldeamento, eram essenciais para a manutenção da vida – preparo da farinha, o principal
alimento da colônia - e da economia - confeccionando tecidos de algodão que serviam como
moeda de troca (CARVALHO JÚNIOR, 2013: 91-92). Mais tarde, como aponta Leila Mezan,
à medida que essas mulheres vão entrando nos espaços domésticos, como escravas ou criadas
nas casas dos senhores, as técnicas de produção da farinha de mandioca vão sendo
incorporadas pelas portuguesas. Outra prática absorvida pelas senhoras, apoiadas pelos
conhecimentos de suas escravas, foi a administração de remédios caseiros (ALGRANTI,
1997:127-144).
Ao serem absorvidas por este novo mundo, as mulheres indígenas tornaram-se
escravas domésticas e usadas para o sexo, simultaneamente, imputando-as uma moralidade
estranha e distinta de sua realidade. Além de que, "por mais contraditório que possa parecer,
embora escravas, adquiriram mais liberdade" (CARVALHO JÚNIOR, 2013:223). Esta
“liberdade” refere-se ao fato de poderem se livrar da vigilância constante dos missionários.
Apesar de já conhecerem a fé católica, essas mulheres não abandonaram por completo as
tradições ancestrais e, na casa dos senhores, acabavam por se especializarem em magia e
encantamentos, abarcando até mesmo as senhoras ao solicitarem as especialidades místicas
das índias.

Apesar dos muros, a vida doméstica na sociedade colonial não era tão privada, por
conta da grande interação com a rua e os vizinhos. Os processos e denúncias do Santo Ofício,
no Estado do Grão-Pará, nos permite adentrar na intimidade da colônia e visibilizar o
protagonismo dos sujeitos denunciados e processados. Segundo Ronaldo Vainfas, os
visitadores da Inquisição Portuguesa, nas portas das igrejas, apontavam quais eram as
condutas que deveriam ser denunciadas, e por medo do poder, a sociedade colonial
denunciava seus parentes, seus vizinhos, seus desafetos e seus rivais (VAINFAS, 1997:228).

*
Graduanda em Licenciatura em História pela Universidade Federal do Amazonas.
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A mulher nas interpretações do Gênesis, livro sagrado cristão, era vista como
responsável pela expulsão da humanidade do Paraíso. Os europeus, com isso, sustentavam
essa visão a partir dos seus códigos de posturas, cuja, as mulheres eram vistas como
vulneráveis ao pecado da carne e, imediatamente, precisavam ser controladas por não
conseguirem fazer nada com moderação:
As mulheres são, por natureza, mais impressionáveis e mais propensas a receberem
a influência do espírito descorporificado; e quando se utilizam com correção dessa
qualidade tornam-se virtuossismas, mas quando a utilizam para o mal tornam-se
absolutamente malignas. [...] possuidoras de línguas traiçoeiras, não se abstém de
contar às suas amigas tudo o que aprenderam através das artes do mal; e, por serem
fracas, encontram modo fácil e secreto de se justificarem através da bruxaria.
(KRAMER; SPRENGER, 1997:115-116)

Malleus Maleficarum, ou “Martelo das Feiticeiras”, é dirigido principalmente às


mulheres, atacando-as como bruxas através de estereótipos caracterizados pelos seus autores -
Kramer e Sprenger - a fim de reprimir a intimidade, a sexualidade e a fertilidade. Este livro,
escrito entre 1430-1505, era a grande referência para identificar as bruxas e hereges nos
Tribunais do Santo Ofício, influenciando durante séculos o comportamento feminino, tanto na
vida pública, quanto na vida privada e de ambos os lados do Atlântico.

Este artigo busca identificar, através das menções do missionário João Daniel, as
diferentes maneiras que as mulheres indígenas entendiam estas normatizações teocráticas e
rituais da fé católica impostas a elas, formando assim estratégias de resistência que consistiam
na ressignificação destes rituais para obter uma certa liberdade do julgo missionário, ou para
outros benefícios próprios. Ambas as fontes - Malleus Maleficarum e os relatos de João
Daniel serão analisadas, a partir da Nova História Cultural, considerando as abordagens da
Nova História Indígena e a categoria de Gênero.

Abordagens e Metodologias: Nova História Cultural, Nova História Indígena e História


de Gênero

A História Cultural se encaminhou, entre as décadas de 1960 e 1990, em direção a


antropologia (antes disso era usada para se referir à “alta” cultura, às artes e às ciências), ao
emprestar dela vários conceitos e construindo uma nova abordagem que ficou conhecido
como “antropologia histórica” (BURKE, 2008: 42-44). Foi a partir do encontro entre História

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e Antropologia que o termo “cultura” empregou-se de forma mais ampla, outras ideias da
antropologia interessaram aos historiadores:

O conceito amplo de cultura dos antropólogos era, e continua sendo, um outro


atrativo, vinculando os estudos dos símbolos - que havia sido abandonado pelos
historiadores especialistas em arte e literatura. [...] A ideia antropológica de “regras”
e “protocolos” culturais também atraiu os historiadores culturais; a ideia de que -
como crianças - eles tinham que aprender como as coisas eram feitas: como pedir
uma bebida, como entrar em uma casa, como ser um rei medieval ou um santo da
Contra-Reforma. (BURKE, 2008: 57)

A Nova História Cultural desenvolveu-se a partir da antropologia histórica, dando uma


virada coletiva na teoria e na prática da História Cultural. Certas teorias culturais fizeram com
que os historiadores tomassem conhecimento de novos problemas, que até então eram
ignorados, a preocupação com a teoria é uma das características distintas da Nova História
Cultural (BURKE, 2008: 70). As Práticas, como um paradigma deste novo estilo de história
cultural, tiveram um grande impacto nos campos mais tradicionais: “a história das práticas
religiosas e não da teologia, a história da fala e não da linguística, a história do experimento e
não da teoria cientifica” (BURKE, 2008: 75). Ao utilizar a antropologia histórica, como
categoria de análise da Nova História Cultural, analisamos os sujeitos “vindos de baixo” a
partir de fontes ditas “oficiais” .

Para o surgimento da Nova História Indígena uma outra junção foi importante: a da
antropologia e do indigenismo. Para John Manuel Monteiro, a relação dessas perspectivas
possibilitou ampliar a visibilidade dos povos nativos da América portuguesa, que quase
sempre eram omitidos, e revelou as perspectivas desses povos sobre o seu próprio passado. A
antropologia histórica vai incluir os povos indígenas como atores históricos, não os
minimizando a apenas vítimas dos processos da conquista e colonização, colocando-os como
sujeitos que desenvolveram estratégias diante dos desafios das relações de dominação
(MONTEIRO, 1995).

A história de gênero, como vai apontar Joan Scott, é um campo de pesquisa já


consolidado. O termo gênero fez sua primeira aparição dentro do movimento feminista sob o
intuito de enfatizar o aspecto relacional das definições normativas de feminilidade. Ao utilizar
Gênero como categoria de análise, podemos compreender a diferenças entre os sexos e seus
papéis nos simbolismos sexuais em diversas sociedades e períodos, encontrando um sentido
de como eles funcionavam para “manter a ordem” ou mudá-las (SCOTT, 1990: 72).

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Para usar teorias do campo de Gênero sobre a trajetória das mulheres indígenas no
período colonial, é necessário compreender que, apesar das diferenciações culturais entre as
mulheres ocidentais - o qual estamos mais habituados a discutir sobre gênero - e as mulheres
indígenas, em um contexto de colonização, foram-lhes impostas uma moralidade atribuída, a
princípio, às mulheres brancas. Portanto, ao impor normatizações aos nativos, os
missionários, como representantes da Igreja, demonstraram em seus relatos as práticas que
consideravam heréticas, identificando esses atos, dentre outros, por meio do livro Martelo das
Bruxas (1430 - 1505), considerado como a “bíblia do inquisidor”.

A partir desses três campos de pesquisa - Nova História Cultural, Nova História
Indígena e História de Gênero - pudemos identificar não apenas os contextos de violências
nos quais as mulheres indígenas foram protagonistas, mas suas representações num mundo
cristão no qual foram inseridas. Através do diálogo com esses campos, podemos destacar o
seguinte recorte: étnico (indígenas), das hierarquias sociais (os subalternos esquecidos pela
historiografia tradicional) e de gênero (mulheres).

Casamento e batismo: ressignificação de sacramentos da fé cristã como forma de


resistência das mulheres indígenas
Os indígenas foram identificados pela historiografia de forma dualística, entre os
resistentes e colaboradores, radicalmente opostos e complementares. Monteiro busca romper
com essa visão de extremos, mostrando como a resistência caminha (MONTEIRO, 1999:239-
240). A resistência muitas vezes é explicada e entendida como reação às forças externas,
envolvidas em um mundo colonial, as mulheres indígenas desenvolveram outras formas de
resistir, tais como a ressignificação de rituais da fé cristã como o batismo e o casamento,
podendo oferecer “benefícios” de seus interesses.

Ao utilizar os relatos do missionário francês Yves d'Evreux, Ronald Raminelli aponta


as seis “classes da idade” das mulheres ameríndias tupinambás – do nascimento ao
envelhecimento – observando-se as diferenças entre os dois sexos, feminino e masculino, nos
costumes e tradições desse povo. A partir do nascimento até o sétimo ano de vida não havia
distinção e nem separação das tarefas entre os meninos e as meninas, tendo esta distinção de
deveres somente a partir dos sete aos quinze anos, quando as meninas aprendiam os deveres
de mulheres tais como: fiar algodão e fazer farinha. Quando jovens, seus pais as ofereciam

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aos homens franceses em troca de quaisquer gêneros materiais, não recebessem outros
convites de casamento (RAMINELLI, 1997: 21-23).

A forma de como os indígenas entendiam a união marital na sua cultura, poderia


influenciar o entendimento de como funcionava o matrimônio cristão. Desse modo, Carvalho
Júnior afirma que o casamento ficou tão popular na Colônia que foi usado de forma irregular,
ficando ele mais patente após as denúncias e Visitação do Santo Ofício (CARVALHO
JÚNIOR, 2013: 168).

Ao mesmo tempo, estas mulheres estavam sendo denunciadas por não cumprirem as
normatizações dos códigos português, tal como estava escrito, encontrando caminhos para
burlá-los e ressignificá-los através dos rituais de sacramento cristão, como, por exemplo, o
batismo. Carvalho Júnior aponta que, no bispado do Maranhão, era pecado gravíssimo manter
coito com mulheres não cristãs. Logo, para manter a liberdade sexual própria da sua tradição,
as mulheres indígenas se batizavam e, agora cristãs, poderiam ter relações sexuais com os
homens brancos, podendo também casar-se com um homem indígena, visto que o sexo para
os povos indígenas era entendido de forma distinta da cultura europeia. João Daniel observa
em Tesouro Descoberto do Rio Amazonas (1772-1776) como se davam os papéis de gênero
no casamento indígena, sobretudo ao homem, afirmando que,

quando se casam é bastante fundamento para o marido repudiar a mulher, o acha-la


virgem, e intacta: porque, diz o marido, é tal, que ninguém a quis, e assim que
também eu a não quero. [...] a sua muita rudeza não lhes deixa apreender a
gravidade, e malícia deste vício: e por estas mesmas causas estão os mesmos já
nascido, e creados nas missões, e todos os dias doutrinados oferecendo as filhas, e
talvez as mesmas mulheres por qualquer ridicularia, como é um frasco de ágoa
ardente (DANIEL apud CARVALHO JUNIOR, 2013: 234 ).

O controle do corpo, principalmente o do feminino, era concebido como foco de


problema duramente combatido pela Igreja, como irá apontar Mary del Priore, eram os
pecados da carne, a luxúria, a lascívia os mais combatidos esses tempos. “Afinal, como se
queixava o padre Anchieta, além de andar peladas, as indígenas não se negavam a ninguém”
(DEL PRIORE, 2014: 17).

O Martelo das Feiticeiras (1430-1505) irá dar as razões pela qual as mulheres mais
suscetíveis, segundo a Igreja e a bíblia cristã, aos pecados da carne e as heresias:

A razão natural está que a mulher é mais carnal do que o homem, o que se evidencia
pelas suas abominações carnais. E convém observar que houve uma falha na

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formação da primeira mulher, por ela ter sido criada a partir de uma costela recurva,
ou seja, uma costela do peito, cuja a curvatura é, por assim dizer, contrária à retidão
do homem. E como virtude dessa falha, a mulher é animal imperfeito, sempre
decepciona e mente (KRAMER; SPRENGER, 1997: 115-116).

As Índias Cristãs98 não abandonaram por completo as tradições de seus ancestrais,


encontrando dentro dos rituais cristãos estratégias de resistência, por isso foram elas
denunciadas e processadas por crimes de heresia - feitiçaria e bigamia - pelo Tribunal do
Santo Ofício. As estratégias de resistência adotadas por essas indígenas, não consiste na
negação da fé católica, mas sim como a sua ressignificação tendo por base as práticas
ancestrais desses povos.

Considerações Finais
Este artigo buscou evidenciar o protagonismo e a resistência das mulheres indígena
inseridas em um mundo colonial cristão, no século XVII-XVIII, tendo como fonte as menções
dos missionários e códigos de posturas vigentes da época. O tema aqui apresentado faz parte
de um dos objetivos do meu projeto de Pesquisa de Iniciação Científica (PIBIC), ainda em
desenvolvimento, que busca um diálogo entre a Nova História Cultural, a Nova História
Indígena e História de Gênero, essa última deve ser matizada em um contexto de
diferenciação cultural, considerando os universos culturais específicos dessas indígenas.

A Nova História Indígena, segundo Monteiro, “busca romper com as abordagens que
enxergam a resistência como apenas uma reação anônima, coletiva e estruturalmente limitada.
Novas leituras do espaço intermediário poderão revelar o sinuoso caminho por onde passou -
e passa- a resistência” (MONTEIRO, 1999: 243).

Por conseguinte, as mulheres indígenas, como sujeitos históricos, agiam de acordo


com o mundo ao seu redor, neste caso, um mundo colonial e cristão, é então através da
ressignificação do batismo e casamento, que elas puderam de alguma forma burlar a constante
vigilância dos missionários e as normatizações que eram impostas pela Igreja sem ao menos

1
Termo “Índios Cristãos” foi criado por Almir Carvalho Junior por ser entendida como uma construção histórica.
Somente os batizados poderiam ser “cristãos” e nessa categoria só os “índios” entram. cf. CARVALHO
JÚNIOR, Almir Diniz. Índios Cristãos: Poder, Magia, e Religião na Amazônia Colonial. Curitiba: CRV, p.26,
2017.

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considerar suas diferenças culturais, denominando seus costumes, práticas e sexualidade


como atos demoníacos.

Referências
ALGRANTI, Leila Mezan. Família e Vida Doméstica. In: NOVAIS, Fernando. História da
Vida Privada no Brasil: Cotidiano e Vida Privada na América Portuguesa. São Paulo:
Companhias das Letras, 1997.
ARAÚJO, Emanuel. A Arte da Sedução: sexualidade feminina na colônia. In: DEL PRIORE,
Mary. História da Mulheres no Brasil. São Paulo: Contexto,1997.
BURKE, Peter. O que é História Cultural?. Rio de Janeiro:Jorge Zahar, 2008.
CARVALHO JÚNIOR, Almir Diniz. Bigamia indígena nas malhas da inquisição:
apropriações e mediação cultural. In: Simpósio Internacional de Estudos Inquisitoriais,
Salvador, 2011.
CARVALHO JÚNIOR, Almir Diniz. Índios Cristãos no Cotidiano das Colônias do Norte
(séculos XVII e XVIII). Revista de História USP, n° 168, 2013
CARVALHO JÚNIOR, Almir Diniz. Índios Cristãos: Poder, Magia, e Religião na Amazônia
Colonial. Curitiba: CRV, 2017.
DANIEL, João. Tesouro Descoberto do Rio Amazonas (1722-1776). Anais da Biblioteca
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Texto integrando dos Anais [recurso eletrônico] do IV Encontro Estadual de História - Ensino de
história no Amazonas, democracia e desigualdade. Organização: Keith Valéria de Oliveira Barbosa;
Leandro Coelho de Aguiar ... [et al.]. - 1. ed. -- Manaus: Universidade Federal do Amazonas, 2018.

O SERVIÇO DE PROTEÇÃO AO ÍNDIO, A PACIFICAÇÃO E OS ÍNDIOS DO RIO


JAUAPERY
EVELYN MARCELE CAMPOS RAMOS*

Introdução
Este artigo pretende apresentar os resultados do trabalho de iniciação científica
intitulado: O Serviço de Proteção ao Índio e os índios do rio Jauapery. Tem como recorte
temporário os anos de 1912 a 1930. O trabalho pretende fazer um balanço historiográfico dos
trabalhos publicados sobre os índios do rio Jauapery, visando identificar os atos de estado
presentes na política tutelar do SPI e os impactos sobre os povos indígenas do rio Jauapery,
analisando as estratégias de etnopolíticas e as formas de agenciamento indígena em face às
políticas indigenistas. Esse projeto este projeto está vinculado tema: História, Etnicidade e
Formas de Agenciamento Indígena na Amazônia (XIX e XX).

Com relação a região do rio Jauapery, esta é situada no baixo rio Negro, em uma área
que hoje faz fronteira entre o Estado do Amazonas e o Estado de Roraima, mas que no início
do século XX, pertencia ao Amazonas e estava sob a influência econômica e até política de
empresas seringalistas situadas na cidade de Manaus.

Sobre o SPI – Serviço de Proteção ao índio, órgão esse que teoricamente colocaria em
prática a política indigenista, tem como protagonista o indígena que a partir 1910 passa a ser
agenciado pelo governo e começa a ter problemas pois, o que serviria como um programa que
protegeria as comunidades indígenas torna-se um facilitador da exploração da mão de obra
indígena. Uma vez que o conflito fora inserido no monopólio do regime tutelar e nos seus
dispositivos administrativos a atividade de “amansar o índio” e torná-lo dócil inserindo ao
progresso num lugar subalternizado e sob um ambiente controlado.

A Importância desse tema

Como forma de contribuir no debate sobre a história indígena e do indigenismo na região


Amazônica e também ir preenchendo algumas lacunas sobre determinados povos é que essa
pesquisa se coloca. Algumas áreas do estado já estão sendo esquadrinhadas pelos

*
Graduanda em História na Universidade Federal do Amazonas (UFAM]); voluntária no Programa institucional
de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC), sob orientação do Professor Doutor Davi Avelino Leal; vinculada ao
Laboratório de História da Imprensa no Amazonas, sob a coordenação da Professora Doutora Maria Luiza
Ugarte Pinheiro.
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pesquisadores e o nosso entendimento sobre a relação entre a história dos povos indígenas e o
poder estatal avança.

Porém, algumas regiões ainda estão a descoberto, quase que na invisibilidade, e cabe aos
(as) pesquisadores (as), lançar luz sobre esses espaços opacos da historiografia de forma que a
gente possa ter um quadro cada vez mais completo e complexo das estratégias indígenas e das
formas de agenciamento dessas populações face as políticas indigenistas.

Esse é o caso da região do rio Jauapery, situado no baixo rio Negro, em uma área que
hoje faz fronteira entre o Estado do Amazonas e o Estado de Roraima, mas que no início do
século XX, pertencia ao Amazonas e estava sob a influência econômica e até política de
empresas seringalistas situadas na cidade de Manaus.

As propriedades do comerciante português J.G de Araújo espraiavam sobre essa imensa


região e já no final do século ela havia entrado na rota de preocupação do governo estadual
que para lá enviava equipes técnicas de levantamento das potencialidades econômicas da área.
Lendo os relatórios dos governadores dos últimos anos do século XIX chama atenção a
preocupação governamental com o Jauapery e também com o rio Branco e o incomodo que
representava os conflitos com índios Uaimiri. Se os povos indígenas do rio Madeira havia
sido o principal obstáculo da expansão da segunda metade do XIX, os índios do rio Branco
tornaram-se a “pedra no sapato” do governo.

Tal aspecto é significativo para se entender porque determinadas áreas são escolhidas
como prioritárias para a atuação do SPI no Amazonas a partir de 1910. O Madeira volta para
o centro das preocupações, mas agora ele não está sozinho. O rio Jauapery e as suas
populações indígenas farão parte desse roteiro de atuação militarizada.

De acordo com Antônio Carlos de Souza Lima, durante sua existência, o Serviço de
Proteção aos Índios, agiu com sagacidade, pois usou a tutela dos indígenas brasileiros, criando
uma relação de controle e poder, onde o estado deveria atuar como o defensor dos povos
indígenas, e como moeda de troca tinha acesso recursos humanos e financeiros nos
estabelecimentos indígenas. O plano de proteção, buscava controlar os conflitos entre as
populações indígenas e a sociedade nacional e transformar essas populações indígenas em
trabalhadores nacionais no fim das contas, a proteção oferecida pelo SPI aos indígenas estava
ligada aos interesses da sociedade nacional (LIMA, 1995).

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Essas populações estavam tuteladas a Postos indígenas, esses postos eram locais onde
essas comunidades tinham contato com oficinas, escolas, remédios e médicos. O SPI
enfrentou durante toda a sua existência problemas de carência de recursos e dificuldades de
qualificação de seu pessoal. A atuação do órgão acabou por gerar resultados opostos à sua
proposta. Eram frequentes as denúncias de casos de fome, doenças, assassinatos e
escravização.

Pela amplitude que esses postos tinham, foi feita a escolha de um dos postos mais antigos
era o Posto indígena do Jauapery criado em 1911, o mesmo tem uma grande quantidade de
ofícios enviados à Inspetoria e recebidos da Inspetoria. Por fim, faz-se presente a necessidade
de descortinar esse processo de atuação dos agentes do Serviço de Proteção ao Índios, pois
durante o período de existência do órgão, várias denúncias foram efetuadas contra os mesmos.

Uma discussão necessária


Para a elaboração desse projeto foram feitas as leituras de obras e fontes que nos
mostram de forma ampliada quais os motivos da implantação desse serviço, bem como nos
ajuda a verificar o que pensaram aqueles foram ligados diretamente ao órgão como foi o caso
de Alípio Bandeira99. As obras que falam diretamente do Serviço de Proteção ao Índio,
mostram que, desde o início da colonização, ocorreu o processo de extermínio da população
indígena. Em diversos momentos da história brasileira, as consequências trazidas pelo contato
do índio a com a sociedade nacional significou mudanças sociais, econômicas e demográficas
traumáticas para a sobrevivência física e cultural do índio.
No que diz respeito a conquista das terras indígenas, estas ações ocorriam de forma
extremamente violenta. A terra foi um importante objeto motivo de muita ambição dos
colonizadores. Por conta desse pensamento índio nada mais significou que um obstáculo e
nenhuma razão existia para que fosse preservado.
É importante destacar, que esse processo não ocorreu de forma homogênea. Sendo a
população indígena um grupo dividido em várias comunidades. Deste modo, teremos povos
que tem cultura, etnia e línguas diferentes, bem como suas particularidades. Por serem muitos
povos, podemos entender que cada visita do estado nacional era uma surpresa, pois cada
contato foi recebido de maneira diferente.

99
O Coronel era oficial do Exército e companheiro de Rondon na demarcação de fronteira. Ele organizou a
primeira legislação de proteção aos índios no Brasil, em 1910, quando criaram o SPI no início do século XX.
Como representante do Serviço de Proteção ao Índio percorreu a região onde se localiza o rio Jauapery, quando
ocorreram novos contatos amistosos com esses indígenas, agora denominados de Uaimirys.
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No período colonial as relações do império com os índios eram mediadas pelas


missões religiosas, quem fazia parte do corpo das missões tinham visão muito etnocêntrica
dessa população chamada nesse período de “sociedade primitiva”. O índio, além de ser visto
como um ser primitivo, era visto como detentor de uma cultura considerada “profana” e
graças a visão eurocêntrica essa cultura deveria ser erradicada, devendo-se buscar ensinar os
costumes corretos de vestir, comer, falar, relacionar-se, modificando suas crenças na
perspectiva de salvar suas almas. O trabalho de catequização intolerante e fanático produzido
pelas antigas missões religiosas levaram ao extermínio de muitos povos e aos que
sobreviveram deixaram um vazio, pois essas, missões destruíram a confiança desses índios
em seus valores, sem terem sido capazes de apresentar outros preceitos que lhes assegurassem
condições de sobrevivência.
Com a virada de século marcada por grandes mudanças, é notório no final do sec.
XIX, no período em o Brasil torna-se república vemos uma mudança, onde política pró-
extermínio dá lugar um Brasil disposto a ter trabalhadores nacionais e após a experiência
“Rondonista”100 o Estado acha possível fazer uma pacificação entre a sociedade e povos
indígenas. Em 1910 foi criado o Serviço de Proteção aos Índios – SPI. A criação do SPI
marcou uma mudança importante na política indigenista. Retirou-se da Igreja a
responsabilidade total na relação com os índios.
No papel observamos uma série de medidas do que viria “beneficiar a esses tutelados”,
mas tanto as leituras dos textos, quanto os relatórios das inspetorias, nos mostram quão
violentos foram muitos desses contatos. Apesar dos avanços da legislação em relação aos seus
direitos, na prática os índios não deixaram de ser encarados como um entrave ao
desenvolvimento nacional. Os jornais do início do século registraram impressionantes relatos
sobre massacres e assassinatos decorrentes do conflito entre índios e colonos.
David Stauffer que escreveu um importante artigo na década de 50 afirma:
“Era difícil encontrar relatórios de testemunhas oculares sobre conflitos com
os indígenas escritos imparcialmente. A importância de tais relatórios não
está nos detalhes de massacres praticados por um ou por outro lado, mas
antes no fato de que eles apareciam nos diários, servindo àqueles que
desejavam contribuir para um sentimento popular em favor da proteção ou
do extermínio daqueles índios.” (STAUFFER, 1954, p.86)

100
O Tenente-Coronel Cândido Rondon era visto como herói nacional, esse prestigio era consequência do
trabalho foi desenvolvido desde 1890, de construção da rede telegráfica nas áreas estratégicas do país. Ao longo
desses anos este fez amizade com inúmeros povos indígenas e conseguindo fazer com que esses indígenas
trabalhassem lado a lado com ele durante a instalações dessas redes.
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No que diz respeito ao Amazonas, o primeiro posto do SPI foi criado no Rio
Jauapery101 localizado entre os Estados de Roraima e Amazonas, este era cercado por mais de
15 grupos indígenas tendo destaque os Uaimiry102 tanto no relatório de Alípio Bandeira que
leva o nome do rio onde fez sua inspetoria: Jauapery(1911), quanto Barbosa Rodrigues
famoso pelo seu relato chamado A pacificação dos Crichinás(1884).
A história oficial do contato dos esses povos inicia-se no final do século XVIIII, com
João Barbosa Rodrigues, este é conhecido como primeiro pacificador desse povo.
Segundo os relatos, Barbosa Rodrigues percorreu diversas vilas103 próximas do
território indígena com o objetivo de coletar registros e relatos sobre aquele povo. Ele os
denominou Crichanás, justificando que essa era a etnia encontrada no período de suas
expedições e que os violentos e ardilosos indígenas cuja sua braveza era espalhada por todo
estado ali não existiam.
Os relatos desse período mostram que esses indígenas não eram vistos apenas como
bravos:
O Jauapery é o esconderijo de algumas tribos intatas, chamadas de bravas ou
antropófagas por não tolerarem nada dos chamados “civilizados”. Dizem que agora
o rio está totalmente abandonado pelos seringueiros. Com a última matança inútil,
promovida por uma expedição punitiva vinda de Manaus, em 1905, que, segundo se
diz, custou a vida de duzentos índios de ambos os sexos e diferentes idades, estes
ficaram irritados. Diz-se que só vêm ao rio principal na estiagem, para pegar
tartarugas; na época das chuvas retiram-se para longe, para as cabeceiras. Que, no
ano passado, algumas canoas com índios Jauaperí estiveram novamente em Moura
para trocar mercadorias. O fato de esses índios tentarem repetidamente relacionar-se
de modo pacífico com a civilização prova que não são os canibais ferozes que têm a
fama de ser. Os heróis de Moura só ousam ir até o Jauaperi em companhia de vinte a
trinta barcos para, na estiagem, pescar e pegar tartarugas. Nessas ocasiões, é
muitíssimo frequente atirarem imediatamente em qualquer índio que apareça; não se
pode, pois,condenar esses índios quando, ocasionalmente, se vingam da corja
mestiça. (Koch-Grunberg, 2006: 32)

No início do século XX, Alípio Bandeira, representante do Serviço de Proteção ao


Índio – SPI viajou na região onde se localiza o rio Jauapery, quando ocorreram novos
contatos amistosos com esses indígenas, agora denominados de Uaimirys, valendo-se da
mesma estratégia utilizada por Barbosa Rodrigues, a oferta de “brindes”. Alípio Bandeira
encontra, guardadas as devidas proporções e momento histórico, a mesma situação de
hostilidade entre indígenas e não indígenas, quando em 1905, um incidente provocou o

101
O rio Jauaperi é um grande curso de água ao sul do estado de Roraima. Seu curso dá-se nos municípios de
Caroebe, São João da Baliza, São Luís e Rorainópolis tendo como foz o rio Negro.
102
Atuais Waimiri Atroari.
103
Existiam três vilas próximas a esses grupos indígenas, sendo que a única que era atacada era a Vila Moura,
todas essas vilas já haviam agido contra aos índios do Jauapery, os ofícios da época e os textos de dos autores
acima citados falam que não sabem o motivo de apenas um lugar ser atacado.
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massacre daquele povo, por tropas do governo, autorizado pelo governador do Estado,
Constantino Nery.104
Para efeito de síntese, pode-se dizer que a gestão do inspetor Alípio Bandeira, embora
de curto espaço de tempo (julho de 1911 a janeiro de 1912), revestiu-se, segundo a ideologia
que informava o SPILTN, de extrema importância, à proporção que promoveu a chamada
“pacificação” dos povos indígenas do rio Jauapery. Nesse particular, como afirma Souza
Lima(1995:166), “as pacificações têm uma dimensão espetacular fundamental na constelação
de temas político-administrativos enfeixados pelo poder tutelar”.
Em 1912 instalou o primeiro posto de atração aos índios no rio Jauapery. A partir
dessa data, o SPI passa a coordenar os trabalhos e a política indigenista na região. Isso
teoricamente, pois esse órgão governamental pouca autonomia teve para impor as políticas
indigenistas vigentes nessa época, dada as proporções que Pessoas ligadas ao governo e
grandes donos de seringais viam o potencial que as terras daquela região tinham.
Alípio por ter participado da formação desse posto indígena, ficou sempre informado
da situação que essa população Uaimiry passava e no seu livro ele deixa tudo isso explicando
de forma detalhada de quem era culpa de toda aquela violência e quis motivos eram trazidos
como argumentos daqueles crimes pelos fitos “civilizados”.
Coordenados pelo Inspetor Bento Lemos esses índios foram reordenados para região
de Tauacuerera onde durante 5 anos conseguiram fazer moradias fixas, porém, viram seu
território ser invadido por exploradores de recursos naturais (peles de animais, castanha,
balata, pau rosa, entre outros) e, contra esses invasores, armavam-se de arco e flecha.
As condições de saúde colocavam em questão a administração do SPI. As doenças
eram interpretadas como relações de conflito entre os indígenas e a empresa seringalista, não
obstante a perspectiva funcional e harmônica de Bento de Lemos ao enfatizar a ação
econômica. Em relação ao Posto do Jauapery, houve a ocorrência de gripe, causando a morte
de três indígenas:

104
“Em 1905, o Sr. Coronel Antonio Bittencourt, vice-governador, tinha no Jauapery um barracão de sociedade
com o Sr. Antunes, em Maracacá. Aí foram os índios uma vez. Vidal, criado de Bittencourt e Antunes tocou os
índios de casa para fora e, como, ao chegar à escada, um deles resistisse a descer, Vidal deu-lhe um empurrão
que o jogou abaixo. O índio, assim que caiu, flechou Vidal. Vidal matou-o com um tiro de rifle. Os
companheiros do índio queestavam na praia com um companheiro de Vidal, mataram-no. Bittencourt pediu,
então, uma expedição a Constantino Nery, governador. Essa expedição, comandada pelo Capitão catingueira
entrou no Jauapery e, guiada pelo índio Manoel, do Sr. Horta, foi à maloca, matou muitas mulheres e crianças e
aprisionou um certo número de índios que pretenderam transformar em soldados. Quase todos morreram de
nostalgia. O Sr. Nazareth reconduziu a Moura doze desses índios sobreviventes que voltaram à sua maloca”.
(Bandeira, 1926:22).
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“[...]Comunico-vos que dos índios domiciliados faleceram os seguintes: Gregori,


Perej a índia, e uma criança do sexo masculino de aproximadamente 3 meses[...]”
(Documentos do Posto indígena do Jauapery, pp.535)

A fama de valentia desse povo chegava até a capital da província do Amazonas e


expedições militares eram organizadas para tentar retaliar toda a comunidade indígena. Nessa
tentativa de afastar os invasores de seu território, muito mais perdas, segundo os relatos e
documentos.
O governo estadual105, nesse período, tinha sua economia alicerçada nos produtos
extrativistas. Dessa maneira, a população indígena tornava-se um incômodo para os coletores
das "drogas do sertão", que viam nas terras indígenas um grande depósito desses produtos.
Alípio Bandeira fala sobre isso:
Em outubro de 1921, Simplício Coelho de Rezende Rubim, aproveitando a
circunstância de ser governador do Estado o seu tio desembargador Rego Monteiro,
associou-se a outros indivíduos para a exploração de castanhas e requereu grandes
lotes cujos autos em maio deste ano estavam na Seção de Terras para conferência.
Entraram assim no rio, justamente na sua melhor parte, além de Simplício, Bezerra
& Irmão, Gregório Horta, José Francisco Soares Sobrinho, Guilherme Baird e
outros. (Bandeira, 1926: 30).

No governo do Desembargador Rego Monteiro76 a situação se agravou. As


“invasões” passaram a acontecer, inclusive, em terras que haviam sido destinadas pela Lei
941, de 16 de outubro de 1917, a serem demarcadas como terras indígenas. Isso se deve ao
seguinte fato:
O Governo do estado editou lei, no ano de 1922, revogando a supracitada lei, com o intuito de
favorecer tais invasões, em sua maioria protegidos ou parentes seus, conforme abaixo:
“E que o poder executivo. Atuando sobre a Assembléia Legislativa do Estado, fez
que esta votasse uma lei, já sancionada, revogando a de nº 941, de 16 de outubro de
1917, que não só reconhecia o direito dos índios sobre as suas posses havidas por
ocupação primária, como reservara, desde logo, aos silvícolas várias áreas situadas
nos rios Surumú, Seruhiny e Jauapery. A nova lei draconiana é concebida nos
seguintes termos:
Artº 1º - Fica revogada a lei nº 941, de 16 de outubro de 1917.
Artº 2º - O Governador do Estado concederá às famílias ou tribos indígenas a área
de terra, que a seu critério julgar conveniente para domicílio e aproveitamento
dessas famílias ou tribos conforme o destino agrícola ou pastoril que for dado a
essas terras.
Parágrafo Único – Desta concessão serão excluídas as terras que já tenham sido
concedidas pelo Estado, e as que já estiverem ocupadas e cultivadas para qualquer
pessoa, com residência habitual e cultura efetiva.
Artº 3º - Os interessados pela concessão dessas terras promoverão perante o
executivo do Estado, o respectivo processo, que obedecerá ao que for determinado
no Regulamento da Repartição de Terras do Estado.
Artº 4º - Revogam-se as disposições em contrário.

105
Governado nesse período pelo o Srº Rego Monteiro
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A pesquisa revela que muitos desses empresários de drogas do sertão tentavam ter
controle dos postos indígenas tentando colocar membros de sua família como inspetores do
serviço de proteção ao índio como mostra a carta enviada pela firma Cardoso e Barros para
Bento Lemos:
Caçaduá, 9 de março de 1921
Digníssimo Sr. Dr. Bento
Desejando-vos bastante saúde e toda sorte de felicidade, juntamente a Exª. família e
adorados filhos, respetivamente cumprimento-vos bastante acanhado, peço-vos
venia, para mais uma vez importunar-vos, com um pedido que presentemente, só o
Sr., honrado Dr., poderá satisfazer, tirando-me da difficil situação em que encontro-
me.
Sendo arrendado o nosso seringal (“Caçaduá”,) ao dedicado Tenente Barros, para
pagar-se do soldo que lhe sou devedor, relativamente a nossa sociedade que
grupava, sobre a firma (“Cardoso e Barros”) e receio de não collocar-me durante o
respectivo praso referido arrendamento, maxime, na epocha em que tudo é difícil;
venho respeitosamente solicitar-vos a ocupação de um cargo qualquer Posto
Indígena, até mesmo administração do Posto Jauparery, que com a vossa capiciente
instrução para bem amparar os interesses dos nossos irmãos das selvas.
O Ilustre Dr. Já tem provas bastantes, de que sempre fui ardoroso. Emº do Índio e
quando estiver ocupando o responsável cargo de encarregado do posto Jauapery,
melhor vos provarei, identificando-me solicitamente com honrosa e emmorredoura
causa dos silvícolas.
Enquanto o meu procedimento o distinto Dr. já deve conhecer; sou distituído de
vícios prejudiciaes e de prodigalidades; já a índoli, já por ter recebido os melhores
exemplose concelhos do vosso abnegado Tenente Barros.
Certo por ter atendido no meu pedido, desde já, penhoradíssimo agradeço-vos.
Otávio dos Santos Cardoso. (Documentos do Posto indígena do Jauapery, pp.222 e
223)

Invasões em áreas ocupadas por indígenas eram incitadas e denúncias dessas invasões
eram tidas como calúnias contra os coletores, feitas por pessoas que impediam o crescimento
da economia estadual. Devido ao reduzido número de combatentes, a posição dos Uimirys era
mais de defesa do território, da honra, da comunidade. Aldeias inteiras eram dizimadas em
ataques-surpresa, mesmo assim os índios combatiam com extrema habilidade guerreira.

Conclusões

A pesquisa aponta, que com o trabalho de Rondon e seus companheiros, garantiu-se a


criação do Serviço de Proteção aos Índios, em 1910. A criação do SPI não representou,
contudo, a derrota dos interesses que permeavam as posições de indivíduos como os
moradores da Vila de Moura. Apesar dos avanços da legislação em relação aos seus direitos,
na prática os índios não deixaram de ser encarados como um entrave ao desenvolvimento
nacional.

Nos três primeiros anos do SPI garantiu-se as verbas solicitadas. Em relação a pessoal,
Rondon contava com a equipe formada durante a construção das linhas telegráficas e com
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intelectuais que participaram da luta pela criação do SPI. A autoridade garantiu-se através do
exercício pois o SPI era constituído em sua maioria de oficiais.

Era necessário garantir verbas suficientes, pessoal altamente qualificado e autoridade


para se impor aos poderes locais. No caso do posto indígena do Jauapery aponta que pessoas
como Simplício Rezende Rubim, sobrinho do então Governador Sr. Rego Monteiro, juntou-se
Bezerra & Irmão, Gregório Horta, José Francisco Soares Sobrinho, Guilherme Baird para
exploração de castanhas e essas terra que estes tinham conseguido autorização para
exploração era justamente o a região Taucauera, onde estavam se organizando povo após
pacificação, estes usaram o indígenas como desbravadores, quando viam o quão fértil era o
local, viam e de forma violenta os tirando se suas instalações e aos que teimavam em ficar, a
eles restavam o trabalho exploratório.

É valido chamar atenção, que a ação do SPI garantiu que imensas regiões do país
fossem ocupadas pacificamente e os índios que as habitavam passassem a viver nos Postos
Indígenas que correspondiam a pequenas partes dos territórios. A visão "romântica" dos
positivistas de "que uma vez asseguradas oportunidades de desenvolvimento, as comunidades
desabrochariam da condição fetichista para etapas cada vez mais avançadas e se integrariam
harmonicamente à sociedade nacional", foi rapidamente desmentida. Além do mais, a ação do
SPI não impediu o efeito de desagregação cultural dos grupos indígenas, nem conseguiu
conter os invasores porque o Estado não garantiu os direitos legais dos índios,
fundamentalmente, a posse da terra necessária à sua sobrevivência. Se, por um lado, é verdade
que a ação do SPI salvou povos da extinção total, por outro, o processo de pacificação dos
povos hostis ocasionou a disseminação da fome, de doenças, da desintegração tornando os
índios parte do grupo mais miserável dos segmentos marginais da sociedade.

O que chama a atenção na trajetória do SPI é que parece estar presente, em todos os
mecanismos de intervenção estatal da questão indígena, a contradição entre a atuação de
indivíduos profundamente motivados pela vontade de proteger as populações e a dinâmica
estrutural que produz a miséria e a degradação física aos tutelados.

Fontes e Referências Bibliográficas


Fontes:
Ofícios remetidos ao posto do Jauapery. Disponíveis em: Museu Amazônico.
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“EU SOFRI MUITO NA JUTA”: HISTÓRIA E MEMÓRIA DOS TRABALHADORES


DA JUTA DA COMUNIDADE SÃO SEBASTIÃO DA BRASÍLIA PARINTINS-AM
(1950-1980)*

EVERTON DORZANE VIEIRA**


JÚLIO CLÁUDIO DA SILVA***

Introdução
Neste artigo analisamos a história e a memória de ex-trabalhadores que atuaram no
cultivo da juta no período de 1950 a 1980, na Comunidade de São Sebastião da Brasília,
localizada aproximadamente a 7 km do município de Parintins, no interior do Estado do
Amazonas, região do Baixo Amazonas106. Também buscamos analisar a história das
experiências com o trabalho e suas condições no processo do cultivo da juta a partir da
metodologia da História Oral.
Esta metodologia foi essencial para o desenvolvimento deste trabalho, pois
realizamos entrevistas com ex-trabalhadores, que atualmente moram na comunidade, e por
meio dessas narrativas, identificamos quais foram às atividades laborais diretamente
relacionadas à produção de juta, conhecemos quais foram às condições de trabalho e
percebemos como era a divisão social do trabalho entre homens e mulheres. Com base nestes
relatos, nossa intuição é de valorizar suas vozes e iluminar o seu sentido histórico, e através
de suas trajetórias de vida evidenciamos quais foram as consequências econômicas do
trabalho deixadas na comunidade para estes homens e estas mulheres no período do apogeu
da produção da juta na Amazônia.
Abordaremos em seções os seguintes itens para estruturação desta produção. Na
primeira seção, faremos uma breve comunicação sobre a juta no município de Parintins, desde
os acordos políticos, bem como a imigração japonesa na década de 1930, e os impactos
econômicos trazidos ao município por meio deste acontecimento econômico, social e cultural.
Na segunda seção faremos uma apresentação da comunidade São Sebastião da Brasília, desde
o seu surgimento, oficialmente e não oficialmente, a chegada da juta a estes comunitários, e

*
Apontamentos de pesquisa do Programa de Apoio à Iniciação Científica – PAIC, da Universidade do Estado do
Amazonas – UEA, do Centro de Estudos Superiores de Parintins – CESP. Financiado pela Fundação de Amparo
à Pesquisa do Estado do Amazonas – FAPEAM.
**
Acadêmico do Curso de História da Universidade do Estado do Amazonas – UEA, no Centro de Estudos
Superiores de Parintins – CESP. E-mail: everton.parintins@gmail.com
***
Professor Adjunto da UEA/CESP. E-mail: julio30clps@gmail.com
106
Consulta realizada no site www.sidra.ibge.gov.br no dia 04 de maio de 2018.
141
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principalmente o que a juta proporcionou economicamente no período de 1950 a 1980, os


festejos que acontecem e a estruturação da comunidade.
E finalizaremos com uma seção que argumenta sobre a história e memória dos ex-
trabalhadores da juta da comunidade São Sebastião da Brasília, que através dos relatos desses
colaboradores podemos identificar aspectos que objetivam nossa comunicação. E argumentar
a importância da história oral para este tipo de trabalho de pesquisa, no que tende a elucidação
da memória como algo primordial para a construção de uma trajetória de vida ou história de
um determinado acontecimento como marco positivo ou negativo de quem narra.
Numa dessas narrativas, utilizamos uma frase para titularmos esta discussão. Frase
de um ex-trabalhador da juta na comunidade, e nisto percebemos em todas as narrativas que o
trabalho do cultivo da juta, foi para estes ribeirinhos, nada mais que um trabalho árduo e
sofrido.

A juta no município de Parintins


A juta chegou a Parintins por volta da década de 1930, com imigração japonesa, e a
partir deste município, a juta foi espalhando-se para outros municípios e outros estados do
país. Para Schor e Marinho (2013) “a história da juta em Parintins inicia-se com a chegada de
uma missão, chefiada pelo deputado, Dr. Tsukasa Uetsuka”. Os autores também afirmam que
a viajem do político tinha por finalidade a escolha de um local em Parintins, cujo objetivo era
“destinado à instalação do núcleo de Kotakuseis (como eram chamados os alunos diplomados
pela Escola Superior de Colonização do Japão)” (SCHOR; MARINHO; 2013, p. 241).
De acordo com Ferreira (2016), a juta foi uma modalidade crescente neste período,
este afirma que “a partir do êxito de Ryota Oyama em 1934, essa modalidade agrícola não
parou mais de crescer e alcançar novas áreas”, o autor ainda afirma que “de Parintins, ela se
espalhou por quase todo o Amazonas, Pará, e em algumas localidades dos estados do Amapá
e Espírito Santo” (FERREIRA, 2016, p. 145).
Neste caso podemos compreender que a juta no município de Parintins foi um
propulsor para os demais municípios do estado do Amazonas, e esta proporcionou emprego e
renda a esses municípios. Mas para os cultivadores da juta que habitavam em comunidades
ribeirinhas, isso foi considerado por eles, um trabalho árduo e difícil, no que causou doenças e
mortes ao longo do tempo de cultivação no período de auge da juta.
O processo de implantação da juta no Amazonas deu-se por dois momentos. O
primeiro momento, foi no período de 1927, com a assinatura do governador Ephigenio Salles

142
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para conceder terra aos japoneses para cultivação da juta no estado do Amazonas. O segundo
momento, foi o processo de saída dos imigrantes japoneses das terras amazônicas, por conta
dos acordos de Vargas com os norte-americanos, sucedeu a retirada dos japoneses do Brasil,
neste período. Assumindo a juta, grandes empresários que reorganizaram juntamente com o
governo o “retorno da juta”.
Após a retirado dos japoneses, o negócio com a juta ficou nas mãos de empresários
brasileiros, que no caso do Amazonas, utilizaram bastante a mão-de-obra ribeirinha por conta
das áreas de várzeas na qual se localizam as comunidades. E uma dessas comunidades que foi
utilizada para este ramo de trabalho no período de 1950 a 1980, foi a comunidade de São
Sebastião da Brasília.

Comunidade São Sebastião da Brasília


A comunidade São Sebastião da Brasília, está localizada à margem esquerda do Rio
Amazonas, com cerca de 7 km do Município de Parintins, estado do Amazonas, região do
Baixo Amazonas (IBGE, 2010). E de acordo com Arcângelo Cerqua esta foi criada
oficialmente em 28 de março de 1968, pela Igreja Católica, por meio da Comunidade Eclesial
de Base (CEB), que tinha como missão reorganizar as localidades rurais a levar ensinamentos
religiosos católicos aos comunitários do interior (CERQUA, 1980).
Em uma de nossas entrevistas, encontramos na oralidade do Sr. Antônio Soares
Ribeiro Filho, conhecido na comunidade como Pampam, sobre a formação da comunidade
não oficializada pelo governo ou pela igreja. E este respondeu, não lembrando a época, que
seus avós vieram de Portugal e foram aos poucos construindo a comunidade antes da inclusão
da instituição religiosa católica. Ele afirma que,
“Eles vieram de Portugal e se coisaram aqui através da juta, e foram se mudando, se
mudando e aí trabalhava na juta e aí foram construindo assim a família, um filho
casava com um, outro filho casava com outra e assim ia saindo à comunidade aqui
foi aumentando, ainda não era comunidade, não era comunidade, era só os
moradores a granel, cada um fazia sua casa” 107.

“Moradores a granel” eram os primeiros comunitários que não tinham identificação


oficial registrada, como Pampam afirma. E podemos compreender nesta narrativa o registro
não oficial desta comunidade. Ao perguntarmos sobre os primeiros moradores da
comunidade, Pampam nos afirmou que seus pais, tios e avós já haviam falecidos e que
lembrava raramente somente o que seus pais lhe contavam sobre a história da comunidade.

107
Entrevista com Sr. Antônio Soares Ribeiro Filho (Pampam) no dia 26/03/2017, na comunidade de São
Sebastião da Brasília.
143
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No período de 1950 a 1980, a juta foi um gênero agrícola de grande relevância


econômica e social, influenciando o modo de vida das populações ocupantes das várzeas do
Rio Amazonas (SOUZA, 2008). Ela proporcionou certa economia ao município de Parintins,
empregando homens e mulheres que trabalharam nas chamadas “prensas”, antigos armazéns
que na maioria eram mulheres que atuavam no trabalho de prensar a fibra para exportação.
Mas antes da juta chegar ao município ela era cultivada nos interiores do Amazonas,
que no caso, a comunidade em questão, foi uma das comunidades que atuaram praticamente
em grande proporção dos seus comunitários para o cultivo da juta no período abordado. A juta
proporcionava uma escassa economia a esses comunitários, conforme seus relatos, tinha que
entregar uma certa quantidade de juta conforme o combinado com o “patrão”, e este lhe
“servia” como alimentos básicos e pouco dinheiro.
Naquele período os ribeirinhos usavam o termo “patrão” a pequenos empresários que
faziam a compra e venda da juta, ou seja, compravam dos cultivadores nos interiores, essa
compra era feita conforme exigências e regras desses patrões, e depois vendiam aos armazéns
que faziam outros serviços derivados da juta para a exportação. Esse sistema de “patronagem”
é relacionado ao sistema de aviamento no período da exploração da borracha na Amazônia,
também registrado pela Literatura da região. Segundo McGrath “aviar significa fornecer
mercadoria a prazo com o entendimento que o pagamento será feito em produtos extrativos
dentro de um prazo especificado” (MCGRATH, 1999). Esse tipo de sistema fez com que o
lucro monetário se concentrasse apenas nas mãos de poucos, que no caso, eram os patrões e
demais empresários que submetiam comunidades em troca de produtos alimentícios. E pela
necessidade de obter o alimento ou um pouco dinheiro em um período em que estes
comunitários não tinham outro método de sobrevivência, tinham apenas a força da mão-de-
obra como ferramenta principal de trabalho.
Para o filósofo húngaro István Mészáros, este tipo de situação fez com que poucos
enriquecessem e muitos ficassem cada vez mais na miséria, principalmente pela valorização
da propriedade. Para os brasilienses da comunidade, o fato de terem um pedaço terra para
morar e por alguns terem conseguido na juta, ou por heranças de seus pais que também
trabalharam na juta, fez que essa valorização fomentasse a importância de luta diária pela
conquista. Mészáros afirma que,
“Aconteceu que a elite foi acumulando riquezas e a população vadia acabou por
ficar sem ter outra coisa para vender além da própria pele. Temos aí o pecado
original da economia. Por causa dele, a grande massa é pobre e, apesar de se
esfalfar, só tem para vender a própria força de trabalho, enquanto cresce
continuamente a riqueza de poucos, embora esses poucos tenham cessado de
trabalhar há muito” (MÉSZÁROS, 2007, p. 113).
144
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Na comunidade, atualmente, são comemoradas duas festas. A primeira é realizada no


mês de janeiro em homenagem ao padroeiro São Sebastião, festa realizada e organizada pela
Igreja. E a segunda, consiste na festa do mastro, que de acordo com Charles Wagley é algo
típico de muitos interiores da Amazônia (WAGLEY, 1988). Sua organização e realização
ficam por responsabilidade da associação da comunidade juntamente com alguns moradores.
A igreja é uma das instituições que determina o modo de vida dos comunitários,
Charles Wagley afirma que,
“Existem instituições e poderes sociais de âmbito regional, nacional, e até mesmo
internacional, que determinam a tendência de vida de cada pequena comunidade. A
igreja, as instituições políticas, o sistema de educação convencional, o sistema
comercial e muitos outros aspectos de uma cultura, são muito mais difundidos e
mais complexos em sua organização do que parecem quando observados em uma
comunidade” (WAGLEY, 1988, p. 43).

Ainda há na comunidade uma outra festa surgida a partir do trabalho desses


comunitários. Além dessas duas comemorações festivas há também a festa do camarão, sua
realização acontece no mês de agosto, no período em que a pesca pelo crustáceo é realizada
com mais frequência. Segundo a associação de moradores e os registros paroquias, residem
atualmente, cerca de 69108 famílias na comunidade, e suas habitações são construídas no
modelo de palafitas, por causa do período de enchente e vazante que ocorre todo ano na
Amazônia. Há também na comunidade a Igreja do Santo Padroeiro; uma escola com ensino
regular; uma sede da associação, na qual acontecem reuniões e eventos. Não há uma Unidade
Básica de Saúde na comunidade, quando necessário, os comunitários vão ao hospital do
município de Parintins.

História, história oral e memória do trabalho com a juta


Na comunidade, fizemos entrevistas sobre o trabalho que tiveram com cultivo da
juta, no período de 1950 a 1980. Como descrito acima, nosso objetivo é compreender como
foi esse trabalho e principalmente valorizar as vozes e as memórias desses comunitários que
vivenciaram o que foi trabalhar na juta. Entrevistamos algumas famílias da comunidade, e
ouvimos os homens e mulheres que atuaram nesse árduo trabalho que foi o da juta.
A história e a memória desses ribeirinhos foram analisadas segundo suas narrativas,
ou seja, de cunho autobiográfico. Em uma entrevista o pesquisar tem que conformar-se com

108
Também referenciada no site www.institutoamazonia.org.br, acessado em 28 de maio 2018.
145
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que está sendo narrado, principalmente quando não há registros literários de quem está
narrando. Nesse sentido, Pierre Bourdieu (1998) afirma que,
“produzir uma história de vida, tratar a vida como uma história, isto é, como o relato
coerente de uma sequência de acontecimentos com significado e direção, talvez seja
conformar-se com uma ilusão teórica, uma representação comum da existência que
toda uma tradição literária não deixou e não deixa de reforçar” (BOURDIEU, 1998,
p. 185)

Nas análises das narrativas, iniciaremos com o Sr. Antônio Soares Ribeiro Filho,
como descrito acima, conhecido como Pampam nasceu na comunidade de São Sebastião da
Brasília, no dia 2 de novembro de 1940. O antigo trabalhador da juta, na data da entrevista,
contava com 77 anos de idade. Segundo seus relatos o trabalho com a juta parecia ter sido um
legado de seus pais e iniciado em sua infância.
Sendo a juta um trabalho familiar, seus pais o introduziram juntamente com seus
irmãos nesta labuta, pois a mão-de-obra é a ferramenta principal do trabalhador ribeirinho, e
esta força de trabalho auxilia diretamente no sustento da família. Nas palavras de Pampam,
este afirma que todo esse trabalho era “pra criar os filhos que eles já estavam tendo”. Aos dez
anos de idade o pequeno Antônio “já ajudava” seus pais na juta109.
Conforme o tempo ia passando, e os pais de Pampam já com idade avançada,
juntamente com seu irmão tinha que dar continuidade na juta, para o sustento de toda a
família. Pampam nos relatou esse momento em que seu pai passara a responsabilidade do
trabalho com a juta para si e seu irmão. “Ele (pai de Pampam que também tinha por nome de
Antônio) me chamou e me disse ‘meu filho eu já tô velho”.110 Desse momento em diante
Pampam e seu irmão sendo mais jovens faziam o trabalho que exigia mais força.
“Aí meu irmão, nós era só dois irmãos, aí meu irmão mais velho que foi na frente,
nós trabalhava junto, mas os velhos mesmo velho ajudavam nós também, nós
brocava o roçado, se fosse uma quitaria, nós faziam assim de trocar dia um com
outro pra fazer aquele serviço de cinco, seis ou sete pessoas pra roçar mato, fazer
uma quitaria, uma quitaria tem cem metro de comprimento com cem de largura, nós
fazia só num dia aí se queimava, a gente fazia o brocamento tudinho só num dia e aí
queimava o roçado e aí a gente pegava a semente da juta e ia plantar e aí era só
zelar, aí tem aquele que chamam de... mas aqui na várzea só chamam de carieiro, só
que o carieiro ele comia a juta, então o senhor tinha que cuidar assim andando pelo
aceiro do roçado pro bicho não coisarem”.111

109
Entrevista com Sr. Antônio Soares Ribeiro Filho (Pampam) no dia 26/03/2017, na comunidade de São
Sebastião da Brasília.
110
Idem.
111
Idem.
146
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O trabalho que eles faziam consistia no plantio da juta, no corte, no afogamento, na


lavagem, na secagem, no enfardamento, e por fim na entrega dos fardos aos destinados
patrões, conforme o negócio entre as partes. O processo de plantação era feito com uma
máquina, que segundo Pampam, eles a chamavam de tico-tico, Pampam às vezes passava de
três dias plantando uma quitaria (100m²), “não acabava e no outro dia, dois dias, três dias
acabava uma quitaria de plantar”112, afirma.
Após o plantio da juta, eles faziam o processo de corte conforme o tamanho decidido
pelo agricultor ou quando fosse o melhor para a colheita. Pampam também nos relatou ainda
sobre o processo de plantio da juta, o período até a colheita, “o plantio da juta era em
novembro”. Esse período foi um exemplo utilizado pelo Pampam, e continuou “e o senhor
contava, dezembro, janeiro, em fevereiro o senhor cortava por causa da água que vinha”. Na
Amazônia acontece o período de enchente e vazante das águas, a agricultura, a piscicultura e a
agropecuária são organizadas conforme esse período. Na subida das águas, a juta tinha que ser
cortada e passar por vários processos até o momento da entrega, “a água vinha e a gente ia
cortando, ia cortando e afogando”113.
O processo de “afogar” era a parte mais árdua do trabalho com a juta. Eles faziam
um sistema para realizar este tipo de afogamento, que mesmo sendo na água não era o
processo de lavagem.
“Afogar era reunir tudinho os fechos que era amarrado com a mesma fibra da juta,
só que a fibra da juta era a juta verde e a gente tirava, e quebrava assim, tah! Tirava
aquela envira e atracava um fecho, vamos dizer assim, uma comparação com isso
aqui, o senhor cortava e ia amontoando um em cima do outro, aí o senhor pegava a
envira e amarrava, aí o senhor fazia a pilha que nós chamamos da juta, pra ela
amolecer, o senhor faz de quinze, de vinte, de cinquenta, quarenta fechos, uma da
ilharga do outro, mesmo que ser essas tábuas aqui, certo! Que era pra botar o pau em
cima pra fazer a pessoa que era pra ela ficar dentro da água assim, mais ou menos no
fundo, com mais ou menos um palmo de fundura e com uma semana ela estava
mole”114

A lavagem da juta era realizada para a retirada de uma película que havia nos feixes
de juta, “a água era suficiente e senhor sacudia ela na água pra lá, pra cá, tirava tudinho aquela
pelica que é a casca”. Esse trabalho de lavagem da juta era realizado em grande pelas
mulheres, mas elas também faziam os demais processos da juta. “Ela ainda me ajudou bem a

112
Idem.
113
Idem.
114
Idem.
147
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trabalhar na juta, ela mesmo, ela capinou, ela me ajudava, quando era em terra ela me ajudava
a cortar com o terçado e na água lavava mais e também fazia tudo”115.
A secagem da juta era realizada em uma espécie de madeira com grande
comprimento conhecida como “vara” pelos ribeirinhos. Essas varas eram colocadas com
ligações feitas por pontos de conexões, e os feixes de juta eram colocados em cima dessas
varas e expostos ao sol, como relata Pampam, como um grande varal. Após os feixes de juta
secarem, após ficarem dias expostos ao sol, eles recolhiam os feixes para serem prensados ou
enfardados.
O enfardamento da juta era realizado na comunidade, pois tinha que ser entregue em
fardos e pronto para a pesagem. Esse sistema era o último processo a ser feito antes da entrega
para o patrão. Pampam nos mostrou como funcionava esse sistema, uma prensa manual feita
de madeira. “Enfardar é uma prensa, eram oito paus, afincava quatro aqui, um pau aqui, outro
pau aqui e outro pau aqui, essas duas bocas aqui, essa boca daqui era a boca e jogava de lá
duas cabeças e de lá ele virava aqui e de lá virava, botava daqui e virava pra lá”116.
E ainda nos explicara que o tamanho do fardo era feito conforme o instrumento de
trabalho, “o senhor fazia o fardo da juta do tamanho que o senhor quisesse fazer, do peso que
o senhor quisesse fazer conforme a prensa”117.
Pampam continuou nos explicando esse processo até sua finalização,
“No nosso sistema nós chamava prensa e aí o senhor pegava e enfardava aquilo, nós
pegava quatro tipo assim de coisa, mas então nós pegava assim na mão, que era pra
quando a prensa enchesse o senhor pegava em cima do fardo e ele arreava com seu
peso aí eu pegava e chamava essa minha mulher aí. Quando ela não estava pra me
ajudar ia só eu, pegava um pedaço de pau e ia enrolando assim, ia enrolando,
enrolando, enrolando até que desse assim pra mim acochar, ia acochando,
acochando, e metia lá e tirava o fardo, dava cinquenta quilos, sessenta, quarenta,
quarenta e cinco quilos, aí é como eu tô dizendo, o senhor fazia o fardo do tamanho
que o senhor quisesse fazer, se o senhor quisesse fazer dez quilos era dez quilos, se
quisesse fazer cinco quilos era cinco quilos mas a gente não fazia assim porque o
negócio do carreto era coiso, a gente entregava na canoa que era pra levar pro patrão
da gente que tinha valido a gente no verão pra se manter, pra fazer o roçado e colher
a produção e entregar tudo pra ele”118.

O último processo era considerado a parte principal para estes trabalhadores, pois era
o momento da entrega conforme o combinado, ou seja, seguir com os acordos. Primeiramente
a produção era transportada de canoa para ser entregue ao “patrão”. Pampam nos informou
que o seu patrão ficava com tudo o que havia produzido, e uma parte da produção era

115
Idem.
116
Idem.
117
Idem.
118
Idem.
148
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utilizada para pagamento de dívidas já contraídas, “o senhor pagava a sua dívida pro seu
patrão com aquela fibra. Aí ele dizia ‘olha! Ainda ficou? Eu quero a produção tudo que tu me
entregue’ aí o senhor não tinha como dizer não”119.
Essas dívidas citadas por Pampam condiziam no “servir” como citado no início desta
produção. Naquele período os patrões forneciam alimentos, roupas e demais produtos
alimentícios em troca de mão-de-obra, e também faziam pagamentos com o dinheiro da
época, que no caso era o cruzeiro. Ele nos relatou, que eles (patrões) serviam primeiro estes
itens para que depois os comunitários “pagassem” com produção da juta, e às vezes eles
continham um pequeno saldo desta produção.
Pampam nos forneceu uma informação importante sobre esse sistema de trabalho.
Ele relatou que não era o único a negociar no modelo deste sistema, e que os demais
comunitários e até mesmo outras comunidades trabalhavam dessa forma imposta por esses
patrões. “E não era só uma pessoa que fazia isso como eu, eu trabalhava com meu patrão,
finado Túlio Melo, finado Didinho, essas coisas assim, finado Chiquito, eu trabalhava com
eles assim, eu colhia toda a produção... finado Zé Tavares era um que morava lá”120.
Assim como Pampam, também entrevistamos sua companheira, Dona Maria do
Rosário dos Anjos Ribeiro; o Sr. Valdo Monteiro Gama, conhecido na comunidade como
Fadô, e sua companheira, Dona Luzia Cândida da Silva Gomes; o Sr. Valdino Jacaúna
Franco, conhecido na comunidade como Careca, e sua companheira, Dona Cecília Soares
Ribeiro Franco, também irmã do Pampam.
Nos relatos dos demais entrevistados comparados ao de Pampam, antes da juta,
percebemos que o cacau foi bem produzido e comercializado pelos moradores da Brasília, de
acordo com as narrativas de Fadô e Careca. Fadô nos relatou no período que trabalhava com
cacau, “a gente colhia, a gente secava, e vendia pro comerciante que tinha ali no Paraná”121.
Careca nos afirmou que durante o período de comercialização do cacau a sua principal função
era a coleta do produto, “pra nós ir colher o cacau, nós ia colher o cacau”122.
Sobre o início do trabalho com a juta, assim como Pampam, Fadô também iniciou na
juta desde criança trabalhando com seus pais, “eu sofri muito na juta, eu trabalhava desde os

119
Idem.
120
Idem.
121
Entrevista com Sr. Valdo Monteiro Gama (Fadô) no dia 26/03/2017, na comunidade de São Sebastião da
Brasília.
122
Entrevista com Sr. Valdino Jacaúna Franco (Careca) no dia 26/03/2017, na comunidade de São Sebastião da
Brasília.
149
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meus 11 anos na juta”123, afirma Fadô. E após a cegueira derivada da idade avançada de seus
pais, Fadô teve que assumir a responsabilidade do trabalho com juta da sua família. Também
nos afirmou que seus antecedentes, os avós, eram de Portugal, assim como os antecedentes de
Pampam. Além da juta, os antecedentes de Fadô trabalhavam com cacau, com a seringa, e
outras plantações, mas ale afirmou que neste período, o cacau era muito comercializado,
assim como a juta, “sempre teve comércio daqui da Brasília com a cidade”. A juta, o cacau e
seringa, eram os principais produtos na qual a família de Fadô trabalhava mais, e nos relatou
que cada um tinha o seu tempo de produção, afirmando que o “difícil era com a juta”124.
Dona Luzia nos relatou que também iniciou cedo a labuta com a juta, “eu comecei
bem novinha com a juta, tive que ajudar minha mãe”. E afirmou que conheceu o Fadô na juta,
“quando tinha 17 anos, eu fui morar com ele, já era nós dois na juta”125. A mulher era vista
como “ajudadora” do homem, e o seu trabalho não era visto como principal e sim como
coadjuvante (TORRES, 2004).
A narrativa de Careca sobre seu início na juta deu-se pelo fim do trabalho com o
cacau, “quando eu tinha 10 anos, minha mãe me colocou pra juntar cacau”. E nos afirmou que
logo após o trabalho com o cacau, foi para o ramo da juta, “quando eu tinha 18 anos, aí eu fui
trabalhar na juta já, entrei na juta com meu pai”126. Dona Cecília relatou que trabalhou na juta
com Careca, mas afirmou que quase não trabalhava com seus pais, passou a trabalhar mais
quando passou a conviver com Careca, “eu não trabalhei muito com meus pais, mas o
Pampam, eu ajudei mais o Careca quando a gente começou a viver junto, a gente precisava
né”127.
No processo inicial do trabalho com a juta, comparados aos relatos de Pampam, Fadô
afirmou como era após receberem a semente do patrão, que dependendo do negócio, ou era
vendida ou era socializada, “gente ia né, roçava, plantava aí, queimava né, quando queimava
bem né a gente plantava de máquina”128. Antes de Careca iniciar a sua história com a juta, ele
introduziu sobre a história da juta na Amazônia, uma história contada de pai para filho. “Foi

123
Entrevista com Sr. Valdo Monteiro Gama (Fadô) no dia 26/03/2017, na comunidade de São Sebastião da
Brasília.
124
Idem.
125
Entrevista com a Sra. Luzia Cândida da Silva Gomes, no dia 26/03/2017, na comunidade de São Sebastião da
Brasília.
126
Entrevista com Sr. Valdino Jacaúna Franco (Careca) no dia 26/03/2017, na comunidade de São Sebastião da
Brasília.
127
Entrevista com Sra. Cecília Franco, no dia 26/03/2017, na comunidade de São Sebastião da Brasília.
128
Entrevista com Sr. Valdo Monteiro Gama (Fadô) no dia 26/03/2017, na comunidade de São Sebastião da
Brasília.
150
Texto integrando dos Anais [recurso eletrônico] do IV Encontro Estadual de História - Ensino de
história no Amazonas, democracia e desigualdade. Organização: Keith Valéria de Oliveira Barbosa;
Leandro Coelho de Aguiar ... [et al.]. - 1. ed. -- Manaus: Universidade Federal do Amazonas, 2018.

um japonês, esse japonês, o Ryota Oyama. O pai dele, quando veio para o Brasil, trouxe a juta
aqui (mãos), a semente, nas unhas, a semente”129.
O sistema de trabalho com cultivo da juta, consistia no plantio, no corte, no
afogamento, na lavagem, na secagem, no enfardamento, e finalizava com a entrega do produto
na comunidade. Esse sistema funcionou com estes ex-trabalhadores e trabalhadoras da
Comunidade São Sebastião da Brasília durante este período pesquisado. E quando
questionamos sobre as formas de pagamento, cada um fez sua declaração conforme os
negócios acertados.
Comparados aos relatos de Pampam sobre este quesito, Fadô nos informou que o
pagamento era com cestas básicas e vestimentas para toda a família, e que sobrava conforme
o negócio era o saldo que apuravam de toda uma temporada de trabalho, “ai pagava a gente
quando tinha saldo né”130 relata. Já com Careca, a forma de pagamento que presenciava
quando via os negócios de seu pai com patrão era baseada apenas na alimentação, “não tinha
pagamento, o pagamento era boia”. E quando assumiu os negócios por conta, Careca nos
informou a situação do pagamento, “ele botava a despesa para nós trabalhar, ele só ia comprar
uma roupa, uma coisa para nós, com que nós nos beneficiávamos”131.

Considerações finais
A juta foi uma atividade laboral que trouxe diversas consequências para aqueles que
trabalhavam dia a dia com este vegetal. No caso da comunidade pesquisada, houve mortes
durante a execução do trabalho, além de ser um trabalho árduo e sofrido, o pagamento que
estes recebiam era praticamente um desprezo total ao ser humano. Pampam e Dona Rosária,
Fadô e Dona Luiza, Careca e Dona Cecília, foram apenas algumas de diversas pessoas do
Amazonas, que tiveram suas vidas transformadas pela experiência do trabalho com a juta.
Para estes homens e mulheres a juta foi a única forma de sobrevivência desse
período, mesmo utilizando outros ramos de vida, a juta era a principal para o comércio da
época. Todos sofreram na juta, principalmente economicamente, onde havia muito trabalho e
pouco lucro. Não tinha como negar o trabalho com a juta, um trabalho que envolvia toda a

129
Entrevista com Sr.Valdino Jacaúna Franco (Careca) no dia 26/03/2017, na comunidade de São Sebastião da
Brasília.
130
Entrevista com Sr.Valdo Monteiro Gama (Fadô) no dia 26/03/2017, na comunidade de São Sebastião da
Brasília.
131
Entrevista com Sr.Valdino Jacaúna Franco (Careca) no dia 26/03/2017, na comunidade de São Sebastião da
Brasília.
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história no Amazonas, democracia e desigualdade. Organização: Keith Valéria de Oliveira Barbosa;
Leandro Coelho de Aguiar ... [et al.]. - 1. ed. -- Manaus: Universidade Federal do Amazonas, 2018.

família, homens, mulheres, crianças, idosos, todos trabalhavam para o sustento de todos, que
na maioria dos casos era apenas por uma simples cesta básica.
Os sete passos do trabalho com a juta estão até hoje na memória de milhares de ex-
cultivadores, que alguns tiveram apenas a juta como única opção de sobrevivência. O trabalho
de plantar, cortar, afogar, lavar, secar, enfardar e entregar, foi diversas vezes repetido durante
décadas na vida daqueles que moram até hoje às margens do rio Amazonas.

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DO REPERTÓRIO ÀS PESSOAS: UM OLHAR PARA AS PRÁTICAS MUSICAIS DE


FUNÇÃO RELIGIOSA NA CATEDRAL NOSSA SENHORA DA CONCEIÇÃO A
PARTIR DO FUNDO DE DOCUMENTOS MUSICOGRÁFICOS RECOLHIDO AO
ARQUIVO DA CÚRIA METROPOLITANA DA ARQUIDIOCESE DE MANAUS
FERNANDO LACERDA SIMÕES DUARTE*

Introdução
Dentre os muitos vestígios materiais de práticas musicais pretéritas, os documentos
musicográficos – documentos textuais com notação musical – constituem uma importante
fonte para os estudos da Musicologia histórica. Além deste gênero ou categoria documental,
seria possível citar ainda enquanto fontes diretas para o estudo da Musicologia, segundo
Gómez González e seus colaboradores: os registros sonoros e audiovisuais nos mais diversos
suportes – cassetes, vinis, rolos de cera etc., libretos de óperas e outros textos interpretados,os
escritos pessoais dos compositores, os tratados sobre música,documentação de órgãos
governamentais ou instituições com atividades musicais,os estatutos e regulamentos de
entidades em que se pratica música,entrevistas, instrumentos musicais, objetos artísticos – nos
quais alocaríamos como subcategorias os objetos tridimensionais, tais como a imaginária
sacra e iconografia –, livros de contas – ditos, em âmbito religioso, livros de caixa ou de
fábrica, cerimoniais religiosos e civis,expedientes de oposições para admissão de músicos no
período colonial, documentação avulsa; livros sacramentais, documentos pontifícios,
documentos notariais ou cartoriais, impressos relativos a práticas musicais, tais como as
críticas musicais em periódicos de circulação, bem como anúncios e cartazes de concertos,
além das correspondências. Ainda segundo os autores, existem ainda fontes indiretas, dentre
as quais, os guias de acervos,inventários,catálogos e bases de dados, bem comoíndices
informatizados (GÓMEZ GONZÁLEZ et al., 2008: 93-102).
No Brasil, o estágio de sistematização das chamadas fontes diretas ainda é inicial. À
exceção de grandes acervos pontuais já sistematizados – a exemplo dos acervos João Mohana,
recolhido ao Arquivo Público do Maranhão, as coleções realizadas pelo padre Jaime Diniz
que hoje se encontram na Fundação Gregório de Mattos, em Salvador-BA e no Instituto
Ricardo Brennand, em Recife, do Museu da Música de Mariana, do Museu da Inconfidência
de Ouro Preto, que custodia a coleção Francisco Curt Lange e do Acervo Ernesto Nazareth,
recolhido à Biblioteca Nacional –, é possível perceber na maior parte dos casos a necessidade
de cuidados básicos, que vão desde o recolhimento ou passagem dos documentos
musicográficos a uma fase intermediária de arquivamento (BELLOTTO, 2002),
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história no Amazonas, democracia e desigualdade. Organização: Keith Valéria de Oliveira Barbosa;
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acondicionamento, higienização e conservação, até a produção de instrumentos de pesquisa.


Se esta situação marca a maior parte dos acervos brasileiros, fica evidente, portanto, a
carência de instrumentos de pesquisa da documentação em nível local – inventários e
catálogos – e de um guia de acervos, cuja produção demanda, a nosso ver, um intenso e
coordenado trabalho interdisciplinar (DUARTE, 2017).
Neste trabalho, buscamos analisar um fundo composto por documentos
musicográficos procedentes da Catedral Metropolitana de Manaus, que hoje se encontra
recolhido ao Arquivo Arquidiocesano de Manaus. Este conjunto de documentos
musicográficos é constituído por partituras, partes instrumentais e vocais avulsas, sendo tais
fontes apresentadas de forma manuscrita e impressa. Em que pese às limitações deste tipo de
fonte para a produção de um trabalho historiográfico mais profundo – uma vez que os dados
contidos nas fontes são, em sua maior parte, informações a serem convertidas em som, ou
seja, parâmetros musicais de altura, duração e intensidade das notas musicais, o texto a ser
cantado e os instrumentos a serem utilizados –, é possível problematizar questões específicas
acerca das práticas musicais que ocorreram na Catedral de Nossa Senhora da Conceição no
período aproximado da datação das fontes. Assim, deram origem à presente investigação as
seguintes questões: qual a situação de recolhimento deste patrimônio musical documental e
quais as condições de sua conservação e acondicionamento? O que as fontes musicais revelam
das práticas musicais do passado? Quais os sujeitos envolvidos em tais práticas e quais as
características dos grupos que interpretavam este repertório? Quais as características do
repertório em termos estilísticos? O repertório e as práticas reveladas neste documento se
adequavam aos paradigmas do motu proprio “Tra le Sollecitudini”, principal documento
romano a disciplinar as práticas musicais católicas no período ou é possível observar
negociações? O repertório e a maneira de executá-lo apresentam muitas peculiaridades ou
refletem as práticas musicais no Brasil como um todo neste período?
Para responder a tais questões, foi empreendida pesquisa documental in loco no
Arquivo da Cúria Metropolitana de Manaus, bem como a digitalização das fontes e
cooperação para seu acondicionamento, com a doação de pastas plásticas de tamanho A3 para
que os documentos maiores não fossem ainda mais danificados em seu acondicionamento.
Ademais, foi realizada pesquisa bibliográfica e documental sobre a legislação romana que
versava sobre a música ritual, bem como em arquivos religiosos de outras regiões do país. A
análise dos dados se baseia na relação entre memória coletiva e identidade em Joël Candau
(2011), nos lugares de memória Pierre Nora (1993), na teoria das três idades documentais

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apresentada na obra de Heloísa Bellotto (2002) – com a devida crítica à sua aplicabilidade aos
documentos musicográficos –, bem como em noções inerentes à musicologia histórica, tais
como a de patrimônio musical, a de fontes para o estudo da musicologia e a de controle
normativo das práticas musicais, em Ezquerro-Esteban (2016), Gómez González (et alii,
2008) e em nossa própriainvestigação sobre as práticas musicais no catolicismo romano
(DUARTE, 2016), respectivamente. De acordo com Candau (2011), existe uma estreita
ligação entre memória coletiva e a identidade compartilhada pelos grupos. Tal memória se
inscreve – como uma espécie de extensão da própria memória – também nos documentos
escritos. Assim, determinados lugares de memória seriam responsáveis por deter o
esquecimento do passado, os chamados lugares de memória, dentre os quais os arquivos. Não
há de se falar, entretanto, no presente estudo, de uma memória viva, que ainda é
compartilhada pelos sujeitos no presente, mas de uma memória histórica, que pode ser
acessada por meio destes arquivos e a partir dele, buscar-se alcançar algumas respostas sobre
o passado (NORA, 1993).
Ainda sobre os vestígios do passado, Ezquerro-Esteban (2016) procedeu a uma
taxonomia do que chamou de patrimônio musical, enquanto patrimônio cultural. Para este
autor, os instrumentos musicais constituiriam uma categoria, a do patrimônio organológico.
Por meio de conversas informais com diversos interlocutores, soubemos da existência de um
órgão tubular na Catedral de Nossa Senhora da Conceição, que hoje não se encontra mais no
coro alto da mesma. As fontes documentais musicográficas também vêm a corroborar a
existência de tal instrumento. Não foi localizado, entretanto, o paradeiro do instrumento no
presente. A própria catedral constituiria, na classificação de Ezquerro-Esteban uma categoria
de patrimônio, o patrimônio espacial, ao passo que a noção de patrimônio documental é
bastante ampla, abrangendo não apenas as partituras e partes instrumentais e vocais avulsas –
documentos musicográficos –, mas a documentação produzida pela própria catedral, tais
como livros de tombo e fábrica, fotografias (iconografia), provisões de sacerdotes e mestres-
de-capela no passado, registros audiovisuais das celebrações, dentre outras. A maior parte
desta documentação ainda não nos foi possível, contudo, consultar. Por esta razão, o presente
trabalho está centrado em responder problemas relativos às práticas musicais a partir do fundo
documental. Finalmente, a classificação do patrimônio musical abrange uma quarta categoria,
que é o patrimônio propriamente musical. Este patrimônio estaria relacionado ao próprio fazer
musical, sendo, desta maneira, sonoro, evanescente, cessando sua existência tão logo deixe de
soar o último som.

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De posse desta conceituação inicial, é possível buscar responder os problemas


formulados, partindo-se de um breve apanhado histórico da própria catedral em comparação
com os marcos temporais que delimitam o acervo em questão. Em seguida, será apresentada
uma descrição pormenorizada das fontes, buscando analisar, para além das informações
propriamente musicais como este repertório se articula com os movimentos hegemônicos o
catolicismo romano neste período. Para tanto, será traçado um breve panorama das práticas
musicais na Igreja Católica Romana no Brasil no período compreendido pelas fontes
analisadas, a partir de nossa investigação doutoral, que teve extensão territorial de setenta
cidades brasileiras, nos vinte e seis estados e no Distrito Federal (DUARTE, 2016).
Finalmente, serão apontados dados referentes às pessoas, tais como nomes de intérpretes, a
presença ou ausência de intérpretes ou copistas mulheres, formações instrumentais, dentre
outras que eventualmente constem das fontes.

Do patrimônio musical espacial ao documental

A presença sistemática da Igreja Católica associada à Coroa Portuguesa na Amazônia


remete ao século XVII, com os processos de missionação de jesuítas, franciscanos e
carmelitas, que partiram do Maranhão rumo a Oeste, e da posterior chegada dos frades
mercedários, antiga ordem cavalariça cujos religiosos vieram de Quito rumo a Leste. Em
âmbito diocesano, a instituição, em 1667, do bispado do Maranhão – que não era sufragâneo
da Bahia, mas diretamente ligado ao Patriarcado de Lisboa – foi também um marco da
expansão dos poderes secular e religioso na região. Décadas mais tarde, a criação do bispado
do Grão-Pará, em 1719, viria a selar, no âmbito eclesiástico, a expansão lusitana e o
adensamento populacional decorrente do comércio das chamadas “drogas do sertão”.
A fundação da Catedral de Manaus está ligada, entretanto, à missionação carmelita,
que erigiram a primeira capela em honra de Nossa Senhora da Conceição, segundo Corrêa
(2011: 86-87), em inícios de 1696, ao chegarem ao Forte de São José da Barra do Rio Negro,
edificado pelos portugueses em 1695. Outras fontes consultadas sugerem, entretanto, como
marco de fundação da primeira capela o ano de 1695. Há de se notar que a passagem da
primeira e rústica capela até a catedral foi um processo de quase dois séculos, uma vez que
somente em abril de 1892 houve o desmembramento da província eclesiástica do Grão-Pará,
sendo então constituída a Diocese do Amazonas. Note-se que até o momento em que houve o
desmembramento, Manaus contava apenas com duas paróquias ou matrizes, Nossa Senhora

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da Conceição e Nossa Senhora dos Remédios.A primeira nomeação episcopal viria quase dois
anos mais tarde, em princípios de 1894, tendo sido Dom José Lourenço da Costa Aguiar o
primeiro a assumir o trono episcopal do Amazonas (PACHECO, [20--]). A elevação de
Manaus a arquidiocese somente viria a ocorrer em 1952, no pontificado de Pio XII.
Diferentemente da história de longa duração da Catedral Metropolitana de Manaus, o
fundo de documentos musicográficos dela procedente tem balizas temporais pouco extensas,
tendo como possível marco inicial a segunda década do século XX e final, o início dos anos
1970. Percebe-se, portanto, nestas fontes, um silêncio das práticas musicais religiosas do
período colonial, cujos papéis de música também não se encontram recolhidos ao Arquivo
Arquidiocesano de Manaus. Longe de ser um fenômeno isolado, algo semelhante foi
percebido em nossa investigação doutoral (DUARTE, 2016) na maior parte das dioceses e
arquidioceses visitadas. Há de se observar, entretanto, dois fatores na configuração de tal
lacuna. O primeiro deles é a presença de ordens religiosas em missionação ao tempo de
fundação da capela. Hoje é bastante conhecido que os frades carmelitas cultivavam intensas
práticas musicais na Amazônia como um todo, inclusive com classes de Filosofia, Teologia e
Solfa (Música) em sua casa do Maranhão (SANTIN, 2008: 151) – onde eram concedidos,
inclusive, títulos de doutor em Filosofia e Teologia –, tendo se valido também da música em
distintas ocasiões de missionação, conforme atesta a documentação:
Nas missões do Solimões, como nas missões do Rio Negro, os carmelitas
mantinham aulas de música e de canto, aproveitando as habilidades e inclinações
dos catecúmenos para as artes. Em Tefé, por exemplo, onde sediavam as missões do
Solimões, mantinham uma orquestra, em que os instrumentos tinham sido feitos
pelos nativos. Em Mariuá, onde sediavam as missões do Rio Negro, mantinham um
coro na igreja local, o qual se fez ouvir por ocasião da chegada do Capitão-General
Mendonça Furtado, durante a solenidade religiosa que ali se realizou em
homenagem ao mano de Pombal. [...] O historiador Arthur Reis afirma: Nas
missões do Solimões, como nas missões do Rio Negro, os carmelitas mantinham
aulas de música e de canto, aproveitando as habilidades e inclinações dos
catecúmenos para as artes (SANTIN, 2012).

Do mesmo modo que ocorreu com os jesuítas e demais ordens que empreendiam
missionação, contudo, nenhum documento musicográfico referente aos Quinhentos e
Seiscentos que revele o repertório cantado ou como este seria praticado se preservou no
Brasil. Parece-nos claro que a investida do Marquês de Pombal contra as ordens religiosas no
século XVIII tenha sido um fator determinante para esta lacuna relativa às fontes musicais.
O segundo aspecto que parece determinante para a ausência de documentos musicográficos
anteriores aos Novecentos parece ter sido um incêndio de grandes proporções que destruiu a

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antiga Matriz em 1850, tendo a atual edificação sido empreendida entre 1855 e 1878. Apesar
de a integridade do templo não garantir a preservação dos acervos musicais – a exemplo do
que temos observado em nossas pesquisas na Arquidiocese de Belém –, fato é que o incêndio
certamente afetou o patrimônio musical em suas vertentes documental, espacial e
organológica, tendo muito provavelmente se refletido ainda nas práticas musicais a partir de
então (patrimônio propriamente musical).

Em relação ao acondicionamento das fontes que chegaram ao Arquivo Arquidiocesano


de Manaus, estas se encontravam em pastas denominadas de arquivo-morto quando de nossa
pesquisa, ainda sem uma sistematização dos dados a elas relativas em um instrumento de
pesquisa. Ademais, as partituras e partes não se encontravam ordenadas e agrupadas de
acordo com as obras, de modo que, em nossa pesquisa, procuramos agrupá-las minimamente.
Quanto ao modo como era realizado acondicionamento, algumas partituras de proporções
maiores precisavam ser dobradas ou amassadas para adequarem-se ao tamanho do invólucro.
Com vistas a solucionar tal questão, adquirimos para o acervo uma pasta plástica de
proporções maiores que as caixas de arquivo que lá se encontravam, em tamanho A3.
Ademais, no processo de consulta às fontes, nos foi possível ainda digitalizar parcialmente o
acervo com o uso de uma câmera digital compacta. Todos os documentos manuscritos foram
digitalizados, ao passo que as coletâneas mais recorrentes em acervos brasileiros – tal como a
Harpa de Sião, organizada pelo padre verbita João Batista Lehmann – o foram apenas por
amostragem, ou seja, fotografadas as capas e eventuais anotações manuscritas. Tendo deixado
uma copa das mais de mil e oitocentas imagens digitais no acervo, acreditamos estar
cooperando não apenas para a conservação dos documentos físicos, mas também para a
difusão deste patrimônio musical documental.

O fundo documental da Catedral de Manaus


O acervo hoje se encontra no que seria possível classificar como fase permanente de
recolhimento, ou seja, seu uso se limita à pesquisa e não mais à execução musical. Em outras
palavras, o documento se preserva em razão de seu valor secundário, das informações nele
contidas (BELLOTTO, 2002). Há de se observar, entretanto, que ao contrário do que se aplica
aos documentos administrativos, os documentos musicográficos sempre podem voltar à fase
corrente, ou seja, servirem à interpretação musical enquanto as informações representadas
pela notação musical deles constante puderem ser compreendidas e transformadas em música.

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A datação das fontes concentra-se principalmente na primeira metade do século XX.


Trata-se principalmente de documentos manuscritos, à exceção de uma coletânea de música
para órgão, dois impressos de repertório anterior à década de 1960 e o repertório dito pós-
conciliar, ou seja, posterior ao Concílio Vaticano II (1962-1965). O repertório constante das
partituras e partes avulsas, ao contrário, é bastante diversificado e a data dos documentos não
necessariamente equivale à data das composições que foram neles registradas e interpretadas
pelos cantores e instrumentistas no período: é possível perceber, neste sentido, uma longa
duração, que se estende do período próximo ao Concílio de Trento – com um arranjo para
canto e órgão da Missa “Lauda Sion” de Giovanni Pierluigi da Palestrina (1525-1594) até
compositores da década de 1970, sendo mais recorrentes, contudo, obras compostas entre o
século XIX e início do XX.
A opção pelo resgate da obra de Palestrina é bastante justificada no panorama musical
religioso da primeira metade do século XX, período conhecido como Restauração musical
católica. Neste período, as práticas musicais litúrgicas foram disciplinadas pelo motu proprio
“Tra le Sollecitudini”, promulgado por de Pio X em 1903, um documento normativo que se
pretendia um “código jurídico de música sacra” (SOBRE MÚSICA SACRA, 1903). Dentre as
principais disposições do motu proprio estavam o combate à influência estilística que a ópera
e a música sinfônica exerceram sobre a música religiosa no século XIX – inclusive como um
desdobramento da aversão da Romanização aos ideais iluministas de maneira mais ampla –, a
declaração do canto gregoriano o repertório oficial do catolicismo romano de rito latino e
modelo composicional por excelência – a composição moderna seria tão mais adequada ao
culto católico quanto se aproximasse dos referenciais melódicos gregorianos –, o resgate com
o mesmo empenho da música polifônica do século XVI, sobretudo da obra de Palestrina, além
da declaração do órgão tubular como instrumento oficial da Igreja Católica. Dentre as
proibições do documento, é possível destacar aquelas dirigidas aos coros mistos, à presença
de bandas de música (fanfarras) no interior dos templos, aos pianos e instrumentos de
percussão, bem como às interpretações vocais que remetessem à ópera.
A música litúrgica que fosse composta a partir dos referenciais do motu proprio ficou
conhecida, em razão do grande movimento da Restauração musical católica, como repertório
restaurista. A prática deste repertório era incentivada não apenas por força da legislação
eclesiástica, mas por um complexo sistema de controle normativo (DUARTE, 2016), que
envolvia propaganda e censura promovida por organismos censores – as comissões
diocesanas de música sacra – publicadas em periódicos especializados. Ademais, havia uma

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difusão dos valores restauristas por meio da formação musical do clero e até mesmo de
relatórios apresentados periodicamente pelos bispos sobre as situações de suas dioceses.
O acervo procedente da Catedral de Nossa Senhora da Conceição se adéqua em grande
parte aos paradigmas musicais restauristas. Assim, é possível perceber composições dos
frades franciscanos observantes Basílio Röwer e Pedro Sinzig, ambos de origem alemã, que se
empenharam em difundir no Brasil os ideais do motu proprio desde inícios do século XX.
Igualmente, há obras e uma coletânea organizada pelo padre verbita João Batista Lehmann,
outro sacerdote alemão radicado no Brasil. A presença de obras do monsenhor italiano
Lorenzo Perosi no repertório sinaliza para a assimilação do principal compositor restaurista.
Além deste, outros nomes de compositores restauristas relativamente recorrentes no Brasil
podem ser percebidos no fundo documental, dentre os quais, Michael Haller, Johann Gustav
Stehle e Oreste Ravanello. A presença de uma indicação “O Sanctissima, do Sicilianishes
Schillerlied” aponta para a estreita ligação entre as cópias realizadas localmente em Manaus e
fontes primárias propriamente restauristas alemãs. Outros compositores restauristas são
menos recorrentes em acervos brasileiros, sendo localizados quase exclusivamente em
Manaus: Francisco Tavoni, A. Hellá, John Wiegand, Henn du Mont e Julian Vilaseca.
Há ainda os compositores cujas obras não se adequavam totalmente ao paradigma
composicional restaurista, sendo possível citar o padre jesuíta Lambillotte, Haendel, Charles
Gounod – cuja Missa conventualis, copiada em 1925, apresenta também o título “Convend
Mass”. Dentre os compositores posteriores ao Concílio Vaticano II, chama atenção a presença
de Luigi Picchi, cujas obras também podem ser localizadas em outros acervos brasileiros,
apesar de serem relativamente incomuns.
Desta maneira, é possível afirmar que o acervo reflete uma situação preponderante na
fase restaurista no Brasil como um todo, que foi o acolhimento do repertório produzido de
acordo com os paradigmas do motu proprio de Pio X, mas uma relativa negociação em
relação às normas, por meio da utilização também de um repertório considerado menos
adequado de acordo com o documento. Ademais, há de se observar que o acervo da Catedral
de Manaus tem quatro compositores bastante específicos, sugerindo uma via de difusão do
repertório diversa daquela observada na maior parte dos acervos brasileiros, muito
possivelmente por meio de músicos vindos diretamente da Europa para o Teatro Amazonas,
que acabavam por difundir este repertório menos canônico.

Do repertório às pessoas

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Acerca dos atores envolvidos nas práticas musicais da catedral manauara, além da
hipótese da circulação de obras diretamente da Europa – de somente poderá ser confirmada ou
refutada a partir de estudos mais aprofundados, que envolvam uma diversidade muito maior
de fontes –, é possível perceber outro fenômeno relativamente comum no Brasil: apesar de a
legislação eclesiástica tratar o órgão como instrumento oficial da Igreja Romana (e nos parece
praticamente certo o fato de ter havido também na Catedral um órgão tubular na primeira
metade do século XX), a presença de grupos instrumentais foi comum em todo o Brasil. Há
de se notar, contudo, uma peculiaridade, que não é traço exclusivo de Manaus, mas foi menos
recorrente nos acervos que visitamos: a grande presença de partes instrumentais para
instrumentos de cordas friccionadas (arcos).
Quanto ao canto, não parece improvável a presença feminina, sobretudo pelo fato de
se observar na Missa Coral “Pio X”, de Julian Vilaseca, a indicação: “Cópia de Nair Alves
Ferreira 27/10/937”. A presença feminina nos coros sacros foi outro aspecto bastante
recorrente no Brasil, apesar de ser fruto de uma negociação em relação às normas, conforme
abordamos em trabalho recente (DUARTE, 2018).
Outro aspecto que pode sugerir uma circulação considerável de europeus é a
nomenclatura dadas às diversas partes instrumentais da cópia da Missa in honorem B. V. M.
de Loreto, de Vincent Goller:na parte de 1º Violino, lê-se: “Vozes 1, 2, 3, 4, Violino,
Clarinetti, Cello, Baixo, Orgel”, ou seja, parte da instrumentação é indicada em italiano e
parte, em alemão. Ainda acerca da instrumentação, há cópias com partes de Basso
(contrabaixo de cordas), Flauta em Dó, Violinos I (2) e II (3), violoncelo e piston (trompete).
Destaca-se ainda a assinatura ao final da partitura da Missa em Honra Imm.
Conceição, para coro e órgão em duas claves, “Ney Rayol 6-12 1933”. É sabido que um
músico maranhense Antonio Rayol (século XIX), compositor, violoncelista e cantor barítono,
que teria atuado em Manaus (CARVALHO SOBRINHO, 2004: 16). A distribuição do
sobrenome Rayol entre músicos pela Amazônia é bastante intensa, abrangendo também o
nordeste do Pará, o que possibilitaria um estudo de eventuais relações familiares, da
manutenção do ofício musical nesta família, bem como das rotas de deslocamento motivadas
pela atividade musical entre a segunda metade do século XIX e primeira metade do XX.
Finalmente, sobre os intérpretes, destaca-se que a indicação “Côro Santa Cecilia,
Catedral de Manaus” é interessante, por possibilitar que se descubram novas informações
sobre este grupo musical não somente em outras eventuais partituras, mas também na
documentação da própria catedral (eventualmente, no livro de tombo ou de fábrica, nas

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despesas com o coro) ou até mesmo em periódicos diocesanos ou até mesmo em periódicos de
circulação em Manaus neste período, que podem ter registrado alguma observação ou nota
crítica sobre a atuação do coral na liturgia da catedral.

Considerações finais
Ao final deste trabalho, é possível afirmar que o fundo documental procedente das
práticas musicais realizadas na Catedral Nossa Senhora da Conceição, de Manaus se encotra
recolhido – com as devidas adaptações necessárias a este tipo de documentação – à fase
permanente (BELLOTTO, 2002).As fontes não foram inventariadas, apesar de terem sido
parcialmente digitalizadas quando de nossa pesquisa no Arquivo Arquidiocesano de Manaus.
Os documentos musicográficos, em sua maioria, da primeira metade do século XX,
revelam inicialmente uma lacuna que é comum a todas as regiões do Brasil: a ausência de
documentos musicográficos relativos à missionação carmelita e das demais ordens religiosas
nos séculos XVI e XVII. Ademais, um incêndio havido na Matriz em meados do século XIX
pode ter sido a principal causa do perecimento de documentação musical dos séculos XVIII e
primeira metade do XIX.
O fundo documental estudado aponta para a presença de grupos instrumentais e vocais
nas práticas musicais da catedral, bem como um repertório predominantemente restaurista,
composto de acordo com os paradigmas musicais romanos, mas também certo grau de
negociação revelado pelo uso de obras e de grupos instrumentais que pouco se adequavam ao
motu proprio, tal como ocorreu em diversos templos católicos no Brasil neste mesmo período.
Quanto às pessoas envolvidas, merece destaque a presença de grupos instrumentais, do uso de
diversos idiomas para designar instrumentos de uma mesma obra – sugerindo a presença de
músicos estrangeiros de diferentes nacionalidades – e também a presença feminina por meio
da atuação da copista Nair Alves Ferreira, que embora não fosse incomum no Brasil
(DUARTE, 2018), sempre merece destaque, uma vez que era silenciada nos documentos
oficiais romanos sobre a música litúrgica.
Finalmente, destaca-se que esta pesquisa teve caráter exploratório. Seu
aprofundamento dependeria de ampla consulta à documentação de cunho administrativo da
Igreja no Amazonas, recolhida ao Arquivo Arquidiocesano de Manaus, especialmente os
livros de tombo e fábrica das matrizes e eventuais contratos com músicos, além de iconografia
e eventuais notícias em periódicos de circulação da primeira metade do século XX.

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Referências

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Associação de Arquivistas de São Paulo, 2002.
CANDAU, Joël. Memória e identidade. São Paulo: Contexto, 2011.
CARVALHO SOBRINHO, João Berchmans de. A música no Maranhão Imperial: um estudo
sobre o compositor Leocádio Rayol baseado em dois manuscritos do Inventário João Mohana.
Em pauta, Porto Alegre, v.15, n.25, p.5-37, 2004.
CORRÊA, Marcus Vinicius de Miranda. Cápsula do Tempo: Arqueologia da Arquitetura na
Catedral Metropolitana de Manaus. São Paulo: Biblioteca24horas, 2011.
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feminina na Restauração Musical Católica no Brasil. Anais do V Simpósio Brasileiro de Pós-
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carmelita do Maranhão a faculdade de dar o título de doutor aos frades de sua Ordem. Revista
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Disponível em http://www.vatican.va/holy_father/pius_x/motu_proprio/documents/hf_p-
x_motu-proprio_19031122_sollecitudini_po.html. Acesso em: 3 mai. 2009.

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POVOS INDÍGENAS E REGIME CIVIL-MILITAR NO BRASIL: AGÊNCIAS


INDÍGENAS NA LUTA PELA AUTODETERMINAÇÃO E RECONHECIMENTO DA
DIVERSIDADE E DA DIFERENÇA

FERNANDO ROQUE FERNANDES132


EDUARDO GOMES DA SILVA FILHO133

Introdução
Na segunda metade do século XX, o Brasil passou por profundas transformações que
abalaram suas estruturas políticas e sociais. A instauração do Regime Civil-Militar concorreu
para o acirramento de uma série de debates que envolveram demandas de diferentes
movimentos sociais que articularam estratégias de reivindicação de direitos sociais diante do
regime de exceção.
Dentre as ações coletivas, desenvolvidas por diferentes grupos sociais, determinados
grupos indígenas passaram a se articular através de assembleias em âmbito local, regional,
nacional e, mesmo, internacional. A fracassada tentativa de integração compulsória de vários
grupos étnicos, financiada pelo Estado, foi respondida através da efervescência dos
Movimentos Indígenas. Naquele contexto, processos de emergência política e social de povos
indígenas historicamente submetidos às relações de dominação de grupos com interesses
muitas vezes econômicos, teve seu fundamento jurídico através do texto constitucional de
1988.
As lutas que levaram ao reconhecimento da diversidade e da diferença de povos
existentes no país resultaram de uma complexa rede de protagonismos indígenas de caráter
individuais e coletivos, característicos daquele período. As políticas indigenistas voltadas à
assimilação, integração, etnocídio, extermínio, submissão às relações de trabalho forçado,
cristianização e, nos anos 1970 e 1980, daquilo que passou a ser chamado de “falsa
emancipação”, foram subvertidas por uma série de agências indígenas que informaram modos
de proceder característicos dos movimentos étnicos no Brasil contemporâneo.
Atualmente, a quantidade de pesquisas desenvolvidas sobre o período no âmbito das
universidades ainda deixa a desejar. Até recentemente, apesar de uma reviravolta nas
análisesqueinformam uma nova percepção sobre o lugar ocupado pelos povos indígenas
nasnarrativashistoriográficas, aquilo que passou a ser chamada de uma “Nova História

Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Doutorando em História Social da Amazônia pela Universidade
Federal do Pará (UFPA). Bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).

Mestre em História Social pela Universidade Federal do Amazonas. Professor da Universidade Federal de
Roraima (UFRR).
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Indígena”, pouco valorizou este período tão importante para a compreensão do protagonismo
indígena na atualidade. No contexto do regime Civil-Militar no Brasil (1964-1985), os povos
indígenas articularam estratégias particulares para o reconhecimento da diversidade e da
diferença de vários povos, especialmente no que diz respeito à manutenção de suas tradições.
Além disso, os estudos contemporâneos relacionados ao protagonismo empreendido
pelos coletivos indígenas a partir dos primeiros contatos ocorridos ainda no período colonial,
indicam que tais coletivos têm, historicamente, articulado estratégias particulares de
sobrevivência diante de instituições opressoras e limitadoras de suas ações.
Por outro lado, tais instituições ao longo das relações de contato, investiram de modo
contundente na criação de diferentes projetos de integração, assimilação e extermínio de
sujeitos e coletivos étnicos espalhados por diferentes partes do atual território geopolítico
brasileiro. No entanto, consideramos que os processos que informam o protagonismo indígena
desencadeado no contexto do regime Civil-Militar, foi algo particular que apresentou
características históricas específicas daquele período, conjuntura política e processo histórico.
Na segunda metade do século XX, sujeitos e coletivos indígenas passaram a se
apropriar de mecanismos de articulação político-institucional e passaram a utilizá-los em
benefício próprio. Diante de um projeto de integração compulsória, empreendido pelo regime
de exceção sobre os povos indígenas, estes criaram estratégias específicas que precisam ser
melhor problematizadas de modo a possibilitar a evidenciação do protagonismo dos
“Movimentos Indígenas no Brasil Contemporâneo”.
Nesse sentido, o objetivo desta comunicação é apresentar elementos característicos das
agências indígenas nas relações políticas que passaram a estabelecer com o Estado na
reivindicação do direito à diversidade e a diferença no contexto do regime Civil-Militar no
Brasil (1964-1985). Para tanto, propomos uma reflexão sobre as articulações políticas
indígenas desenvolvidas no âmbito plurinacional brasileiro a partir das correlações que
passaram a estabelecer no âmbito político-institucional, através de encontros de caráter local,
regional, nacional e mesmo internacional, com o aporte da Constituição Federal de 1988. Esse
novo paradigma constitucional, abriu espaços no campo das discussões jurídicas, acerca da
importância dos processos de demarcações dos territórios tradicionais, que já se arrastavam há
décadas, sem uma solução aparente, principalmente por causa da negligência do poder
público.

Resistências e agências do protagonismo indígena

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Durante as décadas de 1970 e 1980, a Fundação Nacional do Índio (FUNAI) e o


Governo Civil-Militar (1964-1985), sofreram duras críticas de diferentes setores sociais. Este
período foi marcado por intensas transformações políticas que resultaram da articulação de
grupos de interesse que nem sempre se posicionaram nas estratificações hegemônicas da
sociedade brasileira. Associações e organizações indígenas e pró-indígenas, se articularam de
forma estratégica diante de propostas que defendiam a assimilação dos povos indígenas pela
sociedade envolvente. As discussões relacionadas aos binômios tutelado/emancipado e
integrado/não integrado, se mostraram incompatíveis com às práticas empreendidas pelos
sujeitos indígenas.
Dentre as finalidades dos discursos em jogo se incluía a modificação do Estatuto do
Índio.134 O pretexto utilizado pelos representantes do Estado, era de que esta legislação não
atendia aos interesses dos grupos indígenas. Mas na visão de antropólogos, professores
universitários, missionários, juristas, lideranças indígenas, dentre outros,afirmavam que o
Estatuto não dava conta do atendimento das demandas dos grandes grupos empresariais
interessados nas terras e na mão de obra indígena. Por conta disso, várias propostas de
modificação do Estatuto foram apresentadas.
A desapropriação sutil das terras indígenas foi mascarada por propostas de
emancipações compulsórias coletivas. Para os indígenas era necessário haver uma
transformação do sentido da FUNAI. Esta deveria passar a atuar como um mecanismo de
representação indígena perante o Estado, e não como instrumento de assimilação dos povos
indígenas, objetivo para o qual havia sido criada. Por conta de suas contradições, o Estatuto
do Índio parece ter sido utilizado como justificativa à criação de propostas assimilacionistas
que propunham a derrocada das culturas indígenas,mas houve resistência.
Foi na gestão do General Bandeira de Mello, que presidiu a FUNAI entre 1970 e 1974,
que o General Emílio Garrastazu Médici, então Presidente da República (1969-1974),
sancionou o Estatuto do Índio em 1973. As discussões que tiveram como culminância a
criação desta lei, não eram recentes. A novidade no conteúdo dos debates não era,
especificamente, o tema da emancipação dos índios. Isto já era discutido há algum tempo em
diferentes projetos relacionados às ideias de nacionalismo, como podemos observar em
(GARFIELD, 2000).

134
Cf. Leinº 6.001, DE 19 de dezembro de 1973.
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O que parece ter mudado com a criação desta lei, foi que tais propostas passaram a ser
reguladas e amparadas pelo caráter jurídico estabelecido. As articulações políticas que
surgiram naquela conjuntura passaram a ter prerrogativas estabelecidas na própria legislação.
Logo após sua sanção, em dezembro de 1973, o Estatuto do Índio já levantava
polêmicas. Em 27 de janeiro de 1975, o Ministro do Interior Maurício Rangel Reis, em
entrevista coletiva à imprensa, sugeria que essa legislação fosse alterada, permitindo a
emancipação das comunidades indígenas. Conforme suas análises, as modificações a serem
feitas na legislação possibilitariam uma espécie de “emancipação coletiva”, onde grupos
inteiros seriam emancipados de uma só vez. No dia 2 de fevereiro, cinco dias depois, o
presidente da FUNAI e General do Exército Ismarth Araújo de Oliveira, defendia as ideias
apresentadas pelo Ministro do Interior, General Maurício Rangel Reis, admitindo que talvez
fosse perigosa a existência de uma legislação única para todos os índios, (COMISSÃO PRO-
ÍNDIO, 1979).
Mesmo reconhecendo a necessidade de considerar a diversidade de povos, o
presidente da FUNAI defendia como necessária a alteração da lei. Naquele mesmo dia,
antropólogos do Museu Paraense Emílio Goeldi, criticavam a atitude do Ministro, afirmando
que não se tratava apenas de emancipação, já que “o índio sempre se integra à sociedade
nacional num nível mais baixo do que desfrutava em sua vida tribal”.
Nos idos de 1978, as discussões sobre a emancipação dos índios tomaram maiores
projeções. Em junho daquele ano, veio a conhecimento público a existência de uma minuta de
decreto de regulamentação que alterava os artigos 9º, 10º, 11º, 27º e 29º do Estatuto do Índio,
que havia sido enviada ao Presidente pelo Ministro Rangel Reis. Conforme aponta a matéria
intitulada:Emancipação indígena vai a Geisel, publicada pelo periódico Jornal do Brasil, na
edição de 22 de outubro de 1978, havia se reunido em Brasília um grupo restrito para discutir
não mais a elaboração de um projeto de lei, o qual era a intenção inicial do governo, mas um
projeto de decreto de lei.
A diferença é que esta estratégia visava afastar a discussão pelo legislativo, anulando
as possibilidades de os antropólogos fazerem pressão sobre o Congresso na tentativa de
impedir sua aprovação, (JORNAL DO BRASIL, 1978).Não se sabia ao certo sobre o teor do
documento, senão apenas que se tratava de uma proposta de reestruturação dos artigos
relacionados aos processos emancipatórios.A minuta de decreto se direcionava
especificamente para os artigos que tratavam da questão da assistência e da tutela dos índios e
sobre suas terras. Para muitos estudiosos do assunto, inclusive em âmbito internacional, os

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processos que conformavam essas proposições, tinham forte relação com os projetos
desenvolvimentistas e sua relação com as terras indígenas, como nos aponta (VIDAL, 1979).
As propostas apresentadas pelo Ministro Rangel Reis, foram denominadas por vários
antropólogos de “falsa emancipação”. Isso resultou do fato de que, conforme prescrição do
Capítulo IV do Estatuto, apesar de os territórios indígenas serem de posse e usufruto dos
índios, os mesmos eram tidos como propriedades inalienáveis da União. Para tais
antropólogos, este seria o aspecto responsável pela manutenção e preservação das terras
indígenas, impedindo que a “cobiça alheia” dominasse esses espaços, (PRO-ÍNDIO,
1979:18).
Assim, as propostas sobre a emancipação dos povos indígenas contrariavam a
manutenção de suas terras. E esta não era uma leitura feita apenas pelos antropólogos.
Em Carta datada de 26 de outubro de 1978, enviada ao General Ismarth de Araújo
Oliveira, a Indian Rights Association, conhecida associação indigenista norte americana,
atuando desde 1882 nos Estados Unidos, criticava as propostas apresentadas pelo presidente
da FUNAI, observando que “quando a terra indígena está em jogo, as questões são encobertas
por uma nuvem de nobre retórica sobre a necessidade de se civilizar o índio, conceder-lhe
cidadania, terminar o ‘degradante’ sistema de reservas”, (CARTA DA INDIAN RIGTHS
ASSOCIATION, 1978:24).
Monções de apoio como estas, resultavam dos posicionamentos dos próprios
representantes do Estado. No dia 12 de fevereiro de 1978, o Ministro do interior Maurício
Rangel Reis, afirmava em nota à imprensa: “a política indigenista atual terá fracassado se não
emancipar, pelo menos, 1 [um] índio”, (PRÓ-ÍNDIO, 1979:12). As mesmas palavras já
haviam sido ditas pelo Ministro em outras ocasiões (como na CPI do Índio, ocorrida em
1968). Em outra ocasião o mesmo enfatizava: “achamos que os ideais de preservar a
população indígena dentro de seu habitat são belas ideias, porém irreais”, (Idem:12). Dois
anos depois declarava: “se não emancipar algumas comunidades indígenas até o fim do
governo, estará frustrada a política indigenista do governo Geisel”, (Idem:41).
A jornalista Eliana Lucena, havia redigido uma matéria intitulada:A emancipação (das
terras) dos índios, que foi publicada pelo periódico Movimento, na edição semanal de número
139, de 27 de fevereiro de1978. Nela, o padre Egydio Schwade, secretário do Conselho

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Indigenista Missionário (CIMI),afirmava que “por detrás da emancipação do índio está o


interesse na ‘emancipação’ de suas terras”,(LUCENA, 1978:8)135.
Eliane Lucena foi responsável por diversas matérias publicadas, entre 1973 e 1978, no
jornal O Estado de Mato Grosso.As matérias abordavam questões que diziam respeito aos
povos indígenas. Uma delas foi intitulada: União, a única defesa dos índios,(HEMEROTECA
DIGITAL, 2017).
Publicada em 15 de dezembro de 1973, na cidade de Cuiabá, a referida matéria
apresentava questões relacionadas à condição dos povos indígenas na Amazônia frente aos
projetos desenvolvimentistas implementados na região. Em certa altura do texto, a jornalista
observa que apesar da polêmica sobre como integrar o índio, num ponto FUNAI, sertanistas,
antropólogos e técnicos indigenistas concordavam: “o índio seria muito feliz se pudesse
continuar isolado no seu habitat. Mas isso é uma ideia utópica, já que ninguém poderá deter o
processo de desenvolvimento”, (LUCENA, 1973:3). Continuando, Lucena destacaria a fala de
um sertanista e ex-funcionário da FUNAI chamado Antônio Cotrim Neto, na qual se lia: “o
índio não pode se constituir num entrave ao desenvolvimento da Amazônia e deve ser
integrado gradativamente na sociedade”, (Idem:3).

O papel das lideranças indígenas


O indígena Megaron, da etnia Txucarramãe,foi também destaque na matéria.Nascido
em 1951, esta liderança indígena ficou conhecida por acompanhar Orlando Villas Boas em
suas viagens pelo país, passando inclusive, por São Paulo. Sabia ler, escrever, falava o
português e não escondia o gosto pelas músicas da comunidade envolvente. Naquela ocasião,
com o fim de seguir para a aldeia dos Txucarramãe, Megaron foi visto pela jornalista
enquanto esperava uma canoa no Posto Indígena Diauarum, localizado no Parque Indígena do
Xingu, a cerca de 650 km da cidade de Cuiabá, no Estado do Mato Grosso.
Acompanhado de sua mulher, seu cachorro, uma máquina fotográfica, um gravador,
duas redes e calças da marca Lee, o indígena revelaria à Eliana Lacerda os motivos daquela
viagem. Em suas palavras: “soube que está havendo problemas com a minha tribo e os
posseiros em Piará-Açu. Por isso, vim logo para cá, pois podem precisar de mim e, além do
mais, preciso visitar a minha mãe, que já está velha”, (LUCENA, 1973:3).

135
Este periódico circulava, chegando por vias aéreas, na maioria das principais cidades da região norte do país,
dentre elas, Manaus, Santarém, Altamira, Macapá, Porto Velho e Rio Branco.
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A fala de Megaron, destacada na matéria, nos permite observar diferentes nuances das
relações que este sujeito estabelecia com a comunidade envolvente, sem descuidar das
responsabilidades que tinha como militante das causas indígenas, das causas de sua
comunidade. Ademais, considerando as diferentes nuances da questão apresentada pela
jornalista em suas matérias, podemos observar que as divergências de opinião já se faziam
sentir desde antes da validação do Estatuto do Índio, em fins de 1973. O caso de Megaron,
reflete as ações de lideranças indígenas que, apesar da relação com a comunidade envolvente,
não estavam alheias às necessidades de seus grupos étnicos, com eles mantendo relações em
defesa dos interesses das coletividades das quais faziam parte.
Eliana Lucena finalizava a matéria observando que enquanto não se chegava a uma
conclusão sobre o melhor método de integração dos povos indígenas, um ponto parecia ser
fundamental: “se não for garantida a terra ao índio, ele talvez não consiga assistir a sua
própria integração no mundo do branco”, (Idem:3).
Pelo teor da matéria, é possível observar que, independente das posições tomadas em
relação à questão indígena, era perceptível que as propostas de emancipação mascaravam
outros interesses. Para diferentes grupos da sociedade, a emancipação dos sujeitos e povos
indígenas deveria ser desenvolvida, considerando os processos que conformavam os modos
de vida dos sujeitos indígenas. Forçá-los a emancipação significava entregar suas terras aos
interesses de grandes empreendimentos de caráter desenvolvimentista.
Para os antropólogos da Comissão Pró-Índio de São Paulo, os problemas fundiárias
pelos quais o país passava, não deveriam ser resolvidos à custa dos índios. Os objetivos dos
projetos emancipacionistas seriam ausentes de justiça e inviáveis de serem alcançados. Em
outras palavras, integrar os indígenas significaria entregar suas terras aos interesses de
grandes grupos empresariais. Para alguns estudiosos do assunto:
“[...] emancipar grupos indígenas [era] entregá-los desarmados a forças
infinitamente mais poderosas, que lhes arrebatarão, em maior ou menor prazo, as
terras a vil preço, por grilagem ou por execução das dívidas, absorvendo-os como
mão-de-obra barata”, (PRÓ-ÍNDIO, 1979:18).

Outros grupos também se posicionavam contrários à forma como os projetos de


emancipação dos índios eram desenvolvidos. Assim como foram contrários à proposta de
emancipação forçada, apresentada pelo Ministro do Interior ao Presidente Geisel.

Lula e o discurso pró-indígena

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No encontro de lideranças indígenas e entidades de apoio, “ocorrido entre 26 e 30 de


abril de 1981 em São Paulo, na Sessão Pública da reunião da Diretoria da União das Nações
Indígenas (UNI)”, como discorreu (DEPARIS, 2007:89).Feita para a escolha de uma nova
diretoria para coordenar as atividades da UNI, Luiz Inácio Lula da Silva, então Presidente do
Partido dos Trabalhadores, convidado pelas lideranças indígenas Mário Juruna (da
comunidade Xavante)e o líder indígena Olair (da comunidade Carajá), subia à Plenária para
discursar da seguinte maneira:
Companheiros e companheiras: hoje tive a satisfação de receber, no Sindicato de
São Bernardo do Campo, o Cacique Mário Juruna e um representante da tribo
Carajá, o Olair. Eu acredito que para mim foi uma grande lição. Uma lição porque
eu imaginava encontrar um cacique falando uma língua que eu não conhecia. Sem
brincadeira, às vezes chegava a imaginar um homem de arco e flecha na minha
frente. Afinal de contas, eu não posso ter culpa disso, e acredito que ninguém do
plenário poderia ter culpa disso, porque a formação que nós recebemos sobre o índio
nas grandes cidades é uma formação deturpada, recebemos a informação de que o
índio é selvagem. As nossas crianças quando entram na escola, recebem essa
informação de que os índios são selvagens e a coisa não para por aí; quem liga a
televisão, assiste um filme de bang-bang americano, com os brancos matando os
índios como forma de garantir a sobrevivência da raça supostamente tida como
maravilhosa e bondosa, a raça branca. [...] Sempre existe aqueles que tentam dizer
que o problema do índio é um e o problema do trabalhador é outro, mas é mentira, o
problema é um só, é a fome, é a exploração, é a miséria. É tudo igual! É a
multinacional comprando ou roubando a terra do índio, é a multinacional roubando
o sangue e o suor do trabalhador em São Bernardo do Campo [...]. (PRÓ-ÍNDIO,
136
1982:47).

Ressalvadas as considerações sobre a relação com a causa dos trabalhadores, o teor do


discurso de Lula enfatizava, justamente, a forma como a imagem sobre os povos indígenas
poderia ser manipulada para naturalizar a imagem de que lugar de índio é no meio do mato e,
ainda assim, somente enquanto é assimilado pela civilização.
Como bem evocou Lula, os projetos desenvolvimentistas empreendidos com o
consentimento do Estado, esbarravam nos inúmeros conflitos com as populações indígenas
estabelecidas por todas as partes do país. Massacres eram cometidos, fome e miséria
assolavam os grupos indígenas que eram expulsos de suas terras, muitas vezes, com o
consentimento do próprio órgão responsável pela manutenção, fiscalização e defesa de seus
direitos.
A situação era insustentável, aliás, não que tenha se tornado sustentável em algum
momento,mas era preciso criar mecanismos que fortalecessem a luta dos povos indígenas em
defesa dos parcos direitos que tinham conquistado com o Estatuto do Índio e lhes permitissem
conquistar mais direitos, principalmente, se quisessem que o Estado cumprisse seu papel de
136
Sessão Pública da Reunião e discussões relacionadas à votação da nova diretoria da UNI, feita pelas lideranças indígenas
presentes no Encontro de abril de 1981, em São Paulo (Reunião fechada aos não índios).
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possibilitar às comunidades indígenas o direito à terra, a saúde e a educação, permitindo a


esses povos o exercício dos direitos à cidadania brasileira, sem que fossem forçados a deixar
de ser índios.
Para defender seus direitos, as lideranças indígenas precisavam dialogar com a
comunidade envolvente. No entanto, abrir mão de suas diferenças para serem assimilados não
parecer ter sido a intenção dos povos indígenas, que passaram a ascender politicamente
naquele contexto. A ideia de integração à comunidade nacional era entendida por estes a partir
de suas cosmologias e experiências junto à comunidade envolvente.

Considerações finais
Para muitos líderes indígenas que iniciaram na década de 1970 o processo de
articulação entre grupos étnicos de diferentes regiões do país, o direito à cidadania brasileira
não deveria se conformar pelas políticas emancipacionistas ou civilizatórias empreendidas
pelo Estado,mas sim, a partir da lógica dos próprios sujeitos indígenas. Para estes, a
integração junto à comunidade nacional deveria ocorrer em seus próprios termos.
Cabe-nos a observação de que o evento para o qual Lula havia sido convidado por
Juruna e Olair, apesar de ser organizado para possibilitar o diálogo entre lideranças indígenas
e entidades de apoio, acabou por se constituir como o primeiro encontro de lideranças
indígenas em perspectiva nacional, reunindo um número expressivo de chefes de várias partes
do país, sendo por elas dirigido e encaminhado nos três dias que se seguiram.
O país passava por intensas agitações políticas e sociais. Democracia, Cidadania e
Direitos Humanos eram temas que estavam na pauta de primeira ordem nas agendas dos
movimentos sociais. Os movimentos indígenas, para além das especificidades étnicas de suas
articulações, não estavam alheios a essas mudanças. Suas lutas seriam legitimadas pelo
reconhecimento de suas diferenças prescrito no texto constitucional de 1988.

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UMA “DÁDIVA DO CÉU PARA ALÍVIO DA HUMANIDADE”: A IGREJA


CATÓLICA E AS ESTRATÉGIAS DE DISSEMINAÇÃO DA VACINA EM
PORTUGAL NO INÍCIO DO SÉCULO XIX.
FILLIPE DOS SANTOS PORTUGAL*

Em 1798, o inglês Edward Jenner descobriu a vacina antivariólica, daí se tornou


comum chamá-la de vacina jenneriana. A vacina antivariólica era retirada de uma doença que
acometia os gados bovinos chamadacow-pox. Jenner obteve a vacina pela observação de que
pessoas que trabalhavam com o gado e contraiam o cow-pox, consequentemente, não
adquiriam a varíola. Em contrapartida não se tinha referenciais teóricos para explicar o
processo imunizante. Como esta não era uma doença muito comum no gado, acabava-se a
utilizar o método de vacinação braço a braço, retirando-se o fluído vacínico de uma pessoa já
vacinada e aplicando direto no braço de outro indivíduo. (FERNANDES, 2010: 31-32.)

Os discursos sobre a vacina e a sua aplicação foram uma questão polêmica por toda
Europa. No início do século XIX, diversas dúvidas foram suscitadas quanto à eficácia da
vacina e a possibilidade de transmissão de outras doenças através de sua utilização, de modo
que, grande parte da população leiga tinha receio em se vacinar. Até mesmo entre os médicos
também não havia consenso quanto a sua prática.

Em Portugal a prática de vacinação foi introduzida logo nos primeiros anos após o
desenvolvimento do método, todavia, a vacina foi difundida a partir de uma base individual,
voluntarista e não sistemática - o que dificultava a vulgarização da prática. As pessoas que
vacinavam eram oriundas de diversos grupos sociais, desde médicos e cirurgiões, até mesmo
indivíduos não especializados, como padres, sangradores e pessoas movidas por ideais
filantrópicos ou humanitários. Para Teixeira da Silva, a distribuição da vacina ficou restrita a
poucas áreas de Portugal, e se formou uma “malha bastante rarefeita e pouco eficaz em
termos de cobertura do território”. (SILVA, 2015: 272-273)

O marco de difusão da vacina antivariólica em Portugal foi a criação da Instituição


Vaccinica da Academia Real das Sciencias de Lisboa, no ano de 1812. Esta instituição foi
fruto do incentivo de um grupo de médicos portugueses ligados a sobredita academia que
tinham o propósito de levar a vacina a todo território português. A institucionalização da

*
Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em História das Ciências e da Saúde da Fundação Oswaldo Cruz. Casa
de Oswaldo Cruz, 2018.

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prática possibilitou uma maior expansão e sistematização dos serviços de vacinação e


conseguiram isto devido a diversas estratégias, utilizadas pelos médicos para promover a
vacinação. (PORTUGAL,2018: 86-92)

Segundo o sócio fundador da instituição, o médico Bernardino Antonio Gomes, dentre


as principais estratégias para difundir a vacina seria: lembrar constantemente a todos das
mortes, das deformidades e dos incômodos da varíola; divulgar a “benignidade da vacina e
seu poder antivarioloso”; além de divulgar o exemplo de outras nações europeias que já
tinham maior experiência com a prática(GOMES, 1812: 25-30).Segundo esse médico, na
Alemanha, a bexiga não existia mais, porque todos os pais haviam sido obrigados a vacinar os
filhos sob penas estabelecidas, bem como na França, Itália e Inglaterra, lugares onde a vacina
já era amplamente praticada. O exemplo escocês seria, segundo Bernardino Gomes, o mais
bem recomendado, pois cada pároco, após batizar uma criança, poderia intimar a seus pais
dizendo-lhes:

Se esta criança morrer de bexigas naturais, vos somente sois culpado de sua
morte, por que tendes não um prompto e eficaz meio de a livrar deste fatal
enfermidade, e heste meio é a vacina dadiva do céu para alivio da fragilidade
humana.(GOMES,1812:30)

O discurso do médico Bernardino Antonio Gomes é interessante, pois apresenta uma


estratégia da instituição que visava aumentar a aceitabilidade da vacina entre a população.
Porém, a prática percebida e nomeada como uma “dádiva do céu” desentoava que
representaria a vacinação na percepção de muitos médicos e políticos da época. Neste sentido,
mesmo com todo este incentivo, por muito tempo, boa parte da população tinha sido refratária
ao método quanto à utilidade e eficácia.

A questão da população ter sido resistente a esta profilaxia nos leva a pensar diferentes
problemáticas com as mais variadas causas. Diversos casos foram citados pelos médicos
como: o de facultativos opositores da vacina embasados na obra de Heliodoro Carneiro137; tais
como: a pouca credibilidade do efeito protetor da vacina;o surgimento de doenças e epidemias
atreladas a vacinação, entre outros. Em uma matéria da Gazeta de Lisboa,em 1814, foi
narrado que “o povo clamava que a vaccinação não é só um acto irreligioso, antecipando a

137
Médico português que escreveu a obra Reflexões sobre a Pratica da Inoculação da Vaccina e suas funestas
consequênciaspublicada em 1808, foiuma obra totalmente voltada contra a vacina e causou grande repercussão entre os
médicos e a população portuguesa.
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vontade do Altissimo, mas também que he uma moléstia de animaes irracionaes, que não
pode ser sem peccado transmittida a especie humana” (Gazeta de Lisboa, 1814:(s/p)).

É importante salientar, como o historiador Bruno Barreiros afirmou, que, na primeira


metade do século XIX os cuidados médicos na saúde pública em geral foram ampliados,
assim como também, ocorreu um esforço para uniformizar e fiscalizar as práticas de saúde de
maneira a reprimir as práticas diversas da medicina popular, que possuíam concepções
diversas sobre saúde e doença, então amplamente difundidas por todo Portugal(BARREIROS,
2014:77-88.). Neste sentido, em 1815 o médico português, José Feliciano de Castilho, lente
da Universidade de Coimbra, em uma matéria publicada no Jornal de Coimbra, relatou o que
uma das suas pacientes pensava sobre a vacina:

[...]Dizia-me ésta pobre mulher, que a Vaccina he a maior das desgraças, que tem
vindo ao mundo; que pela sua Terra toda a gente se vaccina, mas he porque o seu
Parocho os ameaça com prisão e Portagem se não o fizerem. Acrescentou que ter
filhos he o maior mal que pode succederá gente pobre, que com a criação d’elles não
pode cuidar na sua vida, ir á lenha, a herva, etc.; que para bexigas he que os pobres
apellavão para se verem livres dos filhos; e que agora nem esse recurso lhes-resta;
que ninguem morre de bexigas, nem já as-ha, nem se-tornão a esperar na sua
Terra.(Jornal de Coimbra,1815:73)

Para o médico José Feliciano de Castilho, o relato desta paciente na verdade era um
grande elogio à vacinação, pois mostrava a efetividade da prática. Todavia, podemos perceber
uma postura de imposição e coercitividade da vacina, mesmo que sua obrigatoriedade não
fosse imposta pelo governo. Neste sentido, a participação dos padres e da Igreja no processo
de vacinação foram indissociáveis das tentativas de convencer a população portuguesa a se
vacinar neste período. Ademais, os próprios membros da Igreja poderiam ser coagidos, como
podemos perceber na pastoral em prol da vacinação feita pelo Bispo d’Elvas, D. Joaquim da
Cunha de Azeredo Coutinho, em 1814, na qual determinou que o corpo eclesiástico “que se
empenhe em promover este bem, e aos omissos, ou rebeldes faz lembrar o poder da sua
jurisdição” (Gazeta de Lisboa, 1814: s/p). Esta relação também estava bastante clara no ofício
expedido pelo Intendente Geral da Polícia, João Antonio Salter de Mendonça, para todos os
prelados diocesanos do Reino em 1813:

[...] Como apesar de tantos desvelos e notórias utilidades, ainda há bastante


negligência ao cumprimento da dita obrigação por falta de conhecimento e
persuasão. E é servido recomendar a V. Ex.a. 1º. Que V. Ex.a. promova a vacinação
por todos os meios possíveis, especialmente pelo exemplo, sempre mais poderoso,
que o conselho, procurando não só fazer vacinar todas as pessoas de sua família, que
não tiverem tido bexigas, os empregados e alunos dos seminários, e outras
corporações, que estiverem de baixo da sua inspeção, mas também persuadir as
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pessoas principais a que imitem tão louvável procedimento, pois a prática deste
saudável invento depende inteiramente da opinião pública, para se introduzir em
todas as famílias e classes da sociedade. 2º.Que V. Ex.a. ordene aos párocos, seus
súditos, que não cessem de persuadir aos fregueses por todos os modos,
especialmente na citação da missa em alguns domingos as utilidades da vacinação,
exortando a que se pratique por todos que dela necessitarem.(Correio Braziliense:
Ou Armazem Literario,1813:242-243.)

A ordem do Intendente Geral da Polícia o “exemplo do alto escalão”, ou seja, de


membros das altas hierarquias e autoridades governamentais, também citado, fez parte da
estratégia recorrente utilizada para difundir a vacina. O fato de D. João ter vacinado seus
filhos foi um argumento sempre lembrado pelos vacinadores. Diversos cirurgiões atestaram
terem utilizado tal estratégia para conseguir difundir a vacina, como,por exemplo, na carta do
médico Francisco Gomes da Motra endereçada, em 1814, à Instituição Vaccinica da
Academia Real das Sciencias de Lisboa, na qual afirmava ter tentado introduzir a vacina na
vila da Macejana usando a estratégia de conseguir a presença de dois ministros e do
Corregedor da Comarca no primeiro ato de vacinação afim “de animar, atrair e encher o povo
de confiança”. Todavia, os planos do médico foram frustrados, pois, das 40 pessoas que foram
vacinadas, em nenhuma delas a vacina teria funcionado (Jornal de Coimbra, 1814: 96-97).

Outro exemplo interessante foi do médico Antonio de Almeida, secretário da


instituição vacínica, que relatou que em meio a uma epidemia de coqueluche estavam
aparecendo “bexigas muito discretas e benignas”, que não teriam tido progresso graças a
vacinação. Todavia começou a se espalhar pela freguesia de Travança, que a mortandade de
crianças naquele território pela coqueluche era devida à vacinação que havia sido introduzida
há pouco tempo. O médico relatou que conseguiu deter os boatos com ajuda do padre e o
capitão-mor da freguesia, demonstrando o fato que a coqueluche estava se espalhando por
outras regiões em que não havia vacinação. Antonio de Almeida afirmava que para se pudesse
atribuir à vacina o surgimento de qualquer doença, seria preciso que ela fosse inteiramente
nova ou que atacasse com mais regularidade antes da vacinação (Jornal de Coimbra, 1817: 8-
9).

Além do alto escalão, pessoas “respeitáveis” também poderiam servir de exemplo para
o resto da população, mesmo assim, esta medida não garantia que o povo não continuasse
refratário ao método. É importante salientar que a estratégia de utilizar exemplos para
disseminar a vacinação mais do que direcionados à população em geral, eram destiandos aos
os chefes de família. Desta forma, quanto mais legitimada a efetividade da vacina, maior se
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tornava o discurso médico de culpabilização destes indivíduos pela ocorrrência de casos


varíola, seja por sua negligência, letargia ou incredubilidade que trariam como resultado
direto a perda de entes queridos. Neste sentido, a narrativa de Bernardino Antonio Gomes,
feita em 1815, é interessante, pois ao ressaltar que em Lisboa o número de vacinados era
muito baixo, relacionou um pequeno aumento nos números de vacinados a uma tragédia onde
as bexigas haviam ceifado uma família, atacando dois meninos e uma menina de 18 anos
“formosa, mui prendada, e de excelente indole”. Fato este que teria aumentado o medo das
pessoas de tal forma que “o severo castigo, que derão ao incredulo e infeliz Pai daquelles tres
irmaos, que despertaram muitos negligentes, e converterão alguns incredulos”(Historia e
Memorias da Academia Real das Sciencias de Lisboa, 1816:52.).

Outro exemplo interessante foi o fragmento de memória sobre a utilidade da vacina


que foi publicada no Jornal de Coimbra em 1815:

Os pais hão-de chegar a persuadir-se que não são menos obrigados a


innocular(vaccinar) os seus filhos do que a alimentallos e vestillos...? Que diferença
ha entre assacinar um filho e abandonallo a disposição da peste e ds bexigas?...
Haverá por ventura Mães que se atrevão a supportar a voz de um filho, morto de
bexigas, que lhe grita da sepultura,, Mãe insensivel e dsesumana? por que me
deixaste morrer? que desculpa tens para dar, de haveres suffocado o brado da razão,
que poz nas tuas mãos o meio mais seguro e infallivel de me salvar? Com que
direito deste ouvidos as preocupações que me sacrificarão?(Jornal de
Coimbra,1815:195-196.)

Além dos argumentos de culpabilização, medidas mais enérgicas para difundir a


vacina foram encontradas de forma espassada ao longo de nossa análise. Primeiramente,
como mostramos, em 1813 foi expedida uma ordem pelo Intendente Geral da Polícia para que
os párocos prestassem uma ampla ajuda nos serviços de vacinação. Esta ordem também foi
expedida para os corregedores das comarcas portuguesas. Estes deveriam contabilizar o
número de vacinadores de sua jurisdição e, além disso, criar planos para suprir os lugares em
que os vacinadores estivessem em falta. (Correio Braziliense: Ou Armazem Literário,
Londres, 1813: 243-245).

Seria de atribuição dos corregedores publicar por edital os nomes e as residências


destes vacinadores para persuadir a opinião pública, porém ,João Antonio Salter de Mendonça
advertia que eles deveriam utilizar sempre a persuasão e o exemplo, mas nunca a autoridade,
pois “em semelhantes assuntos, em vez de aproveitar, só pode servir de impecer o fim
pretendido”. Todavia, apesar da precaução do intendente, a prática da vacinação não ocorria

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desta forma, pois havia umaordem explicíta para que os corregedorres vacinassem todos os
individuos à eles subordinados, isto incluía: os órfãos, as pessoas empregadas nos hospitais ou
os convalescentes que deles saissem, os presos nas cadeias públicas, os expostos, os alunos
das casas de educação que lhe fossem sujeitos, ou qualquer outra pessoa sob sua jurisdição.

Vários médicos da Instituição Vaccinica da Academia Real das Sciencias de Lisboa


cobravam uma maior obrigatoriedade e empenho do governo para auxiliar a difusão da
vacinação. Além disso, quanto mais os números de vacinação declinavam maiores eram as
críticas neste sentido. Por exemplo, para Ignácio Benevides, membro da Instituição Vaccinica
da ARSL, embora o serviço de vacinação fosse filantrópico, seria necessário algum incentivo,
principalmente pelo fato de os “prejuízos dos povos ainda persiste”. Benevides acreditava que
seria muito difícil persuadir o povo da necessidade da vacinação, pois as medidas tomadas
pelo governo eram pouco enérgicas, e entendia que este deveria seguir o exemplo de outros
povos, como o sueco, que admitia a denúncia daqueles que não vacinavam seus filhos, e de
outras nações onde esta obrigação era incluída no Catecismo doutrinal e incorporadas nas
práticas dos párocos e nas missas conventuais(Historia e Memorias da Academia Real das
Sciencias de Lisboa,1819: 40-41).

Em 1820 a vacinação se tornou obrigatória aos membros do Exército as autoridades


civis e eclesiásticas. Estas autoridades ficaram imbuídas na promoção da vacinação e na
prestação de conta dos seus progressos enviada trimestralmente à Instituição Vaccinica da
Academia Real das Sciencias de Lisboa. Nestes avisos estava determinado que os provedores
fossem encarregados de promover a vacinação nas suas comarcas, de receber dos vacinadores
as relações de vacinados, e de as remeter à instituição no fim de cada trimestre, cabendo o
mesmoao Chefe da Repartição de Saúde do Exército. As contas trimestrais seriam entregues
diretamente ao Rei,com as informações sobre as pessoas que a promoviam e aquelas que
dificultavam sua prática.(Historia e Memorias da Academia Real das Sciencias de
Lisboa,1821:28-42.)

Para além da questão da obrigatoriedade, para muitos médicos e autoridades


governamentais um dos fatos que mais prejudicava a vacinação eram os boatos e rumores em
torno da vacina, sendo o principal deles o de que vacinados contraíam bexigas. Sobre isto, o
intendente de polícia português, João Antonio Salter de Mendonça, discorreu que os médicos
davam o nome de bexigas a diferentes moléstias e com isso “podem illudir o povo, e destruir
a confiança, que todo este reino vai tendo na eficácia da vacina, ao atestarem que vacinados
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tiveram bexigas”. Devido a isso o intendente expediu uma ordem, em 1819, para que os
médicos que atestassem que algum vacinado tivesse adquirido bexiga, deveriam emitir este
parecer por escrito para que o fato fosse examinado por médicos correspondentes da
Instituição Vaccinica da Academia Real das Sciencias de Lisboa, que assim iriam emitir seu
parecer sobre o caso e se esta pessoa havia tido realmente vacina verdadeira ou não.

Os rumores e boatos sobre a vacina ressaltados pelo intendente não cessariam


facilmente com a promulgação de um decreto e continuaram frequentes nas reclamações dos
médicos da Instituição Vaccinica da Academia Real das Sciencias de Lisboa. Em nossa
análise documental, um dos melhores exemplos que encontramos de boatos sobre a vacina foi
uma carta, de autoria do “Anti-Impostor”, dirigida ao redator do Correio Braziliense e
publicada, em 1813, neste mesmo jornal. Na carta, o autor fez diversas críticas a um opúsculo
publicado no mesmo jornal,que era favorável à vacinação,além referir-se a diversas
reclamações sobre a vacinação, citando fatos como a interferência dos párocos no incentivo à
vacinação, a obrigatoriedade velada da vacinação e até o fato de se colocar “moléstias de
Brutos na Economia animal”,o que gerava doenças cutâneas como sarnas e tinhas em
Portugal( Correio Braziliense: Ou Armazem Literário, 1813: 824-827).

Um fato interessante, também debatido na carta, foi relativo à aprovação de D.João ao


método. Segundo o “Anti-Impostor”, o fato de que D. João tivesse vacinado seus filhos, não
levava à conclusão de que ele fosse favorável à vacina, pois tendo sete filhos apenas vacinou
dois e somente tardiamente. Relatou, ainda, que D. João observara frequentemente no Brasil
os “funestos e repetidos effeitos da vacina”, e que fora por este o motivo que não havia
permitido que vacinassem seus outros filhos. Para o “Anti-Impostor” a vacinação dos filhos
de D. João foi um fato que teria reforçado a oposição do Rei à vacina, pois os dois que foram
vacinados possuíam uma saúde extremamente precária diferentemente do restante da Família
Real, fato este que seria de conhecimento de todos os frequentadores do Paço imperial no Rio
de Janeiro.

Claramente o “Anti-Impostor” levantava alguns dados pouco críveis, na medida em


que, no Brasil, o monarca português fora amplamente favorável à vacinação,tendo inclusive
criado a Junta da Instituição Vaccinica da Corte no Rio de Janeiro em 1811. Porém, o boato
de que D. João não era favorável à vacina era mais um exemplo de boatos espalhados na
época, os quais poderiam diminuir a credibilidade da prática de vacinação.

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Conclusão

O interesse governamental em difundir a vacina esbarrou em um fator relevante em


Portugal: a pouca aceitabilidade do método pela população. Destarte, podemos perceber que
em Portugal as autoridades buscaram ampliar o número de vacinados através do
“convencimento” com o auxílio da Igreja Católica e de figuras “ilustres”, que foram
fundamentais para aumentar a aceitação da prática no povo.

Mesmo não se tornando obrigatória em Portugal, muitas vezes a prática ocorreu de


forma coercitiva. Cabe ressaltar que o discurso de muitos médicos do período seguia o
caminho de incentivar a obrigatoriedade do povo a se vacinar. Como afirmou Bruno Barreiros
em seu artigo, o século XIX foi um período onde os discursos e as práticas médicas se
ampliaram junto a um esforço de fiscalizar e tornar cada vez mais uniformes as práticas de
saúde, de maneira a reprimir as práticas da medicina popular, que possuíam concepções
diversas sobre saúde e doença(BARREIROS, 2014, 77-88.).

O auxílio de membros importantes da Igreja Católica no processo de vacinação de


Portugal foi fator premente tendo em vista a importância da instituição na administração do
estado português, deste modo o clero português buscou incentivar ou mesmo coagir os fiéis
em seus trabalhos religiosos para que utilizarem esta prática médica. Assim, a história da
vacina antivariólica em Portugal é interessante por deslumbrar o quanto as práticas de saúde,
as concepções populares e instituições como a igreja católica se tencionavam.

Todavia, cabe ressaltar que isto não foi uma exclusividade do governo português. A
título de elucidação, há o caso da Rússia. Foi noticiado em uma matéria na Gazeta de Lisboa,
que naquele país a vacina teria sido introduzida em 1801 pelo Collegio Imperial de Medicina
e parece ter tido boa aceitabilidade da população. Tal aceitação contribuiu para, a queda do
número de mortes por varíola, em 1802,para apenas119 pessoas. Porém, segundo o redator,
devido ao fato do povo ter ficado mais “frouxo” sobre o assunto, em 1804, o número de
pessoas mortas por varíola teria subido novamente, para um total de 379 pessoas. Neste
quadro, o governo teria ordenado que os pais de família, quando levassem seus filhos para
serem batizados, deveriam ser advertidos pelos ministros da religião que se alguma criança
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falecesse por bexiga, seriam eles os responsáveis pela sua morte, por um descuido
indesculpável. (Gazeta de Lisboa, 1805: (s/p)).

Ademais, em 1814, houve uma Ordem Papal para o Proto-Medicato de Roma, para
que continuasse a propagar a vacina “descobrimento precioso, que será para os povos mais
hum motivo de gratidão, e reconhecimento a hum DEOS sumariamente bom”(Gazeta de
Lisboa, 1814:(s/p). Por fim,esta ordem papal, bem como outras matérias publicadas em
diversos periódicos, indicam que a igreja católica teve um papel importante no processo de
promoção da prática da vacina no início do século XIX na Europa.

Fontes
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Literário, Londres, n.66, novembro de 1813, p.824-827.

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Fevereiro, Março, Abril, Maio, Junho, Julho, junho de 1814. Jornal de Coimbra, Lisboa,
n.XXX, parte I, junho de 1814, p.321-322.

Conta anual da Instituição Vaccinica da Academia Real das Sciencias de Lisboa, pronunciada
na sessão pública de 1815 por Bernardino Antonio Gomes. Historia e Memorias da Academia
Real das Sciencias de Lisboa. Lisboa, Tomo IV, parte II, 1816, p.52.

Continuação do Exame Sobre as observaçoens, e reflexoens relativas à prática da inoculação


da Vaccina, e suas funnestas cconsequencias feitas em Inglaterra pelo Dr. Heliodoro Jacinto
de Araujo Caneiro. O Investigador Português em Inglaterra ou Jornal literario, político, &c,
Londres, v. 2, n. VIII, janeiro de 1812, p. 359.

Diario Vaccinico de Jose Feliciano de Castilho em Coimbra, nos meses de abril, maio, e
junho de1815. Jornal de Coimbra, Lisboa, n. 38, 1815, p.73

Discurso Histórico sobre os trabalhos da Instituição Vaccinica, recitado na Sessão publica da


Academia Real das Sciencias de Lisboa, em 24 de Junho de 1818 por Ignacio Antonio da
Fonseca Benevides.Historia e Memorias da Academia Real das Sciencias de Lisboa, Lisboa,
Tomo VI, parte I, 1819, pp.40-41.

Discurso Historico sobre os trabalhos da Instituição Vaccinica, lido na sessão pública de 24 de


junho de 1820 por José Maria Soares. Historia e Memorias da Academia Real das Sciencias
de Lisboa, Lisboa, Tomo VII, 1821, pp.28-42.

Extracto de uma carta de Francisco Gomes da Motra a José Feliciano de Castilho, sobre
vaccina, febres intermitentes, etc. Jornal de Coimbra, Lisboa, n. XXXII, 1814, pp.96-97.

Lisboa 12 de Fevereiro. Gazeta de Lisboa, Lisboa, n.38, 13 de fevereiro de 1819. (s/p)

Lisboa 22 de Fevereiro. Gazeta de Lisboa, Lisboa, n.46,23 de fevereiro de 1820. (s/p).

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Gazeta de Lisboa, Lisboa, n.209,5 de setembro de 1814. (s/p).

Lisboa 19 de Novembro. Gazeta de Lisboa, Lisboa, n.274,19 de novembro de 1814. (s/p).


Para os Corregedores das Comarcas. Correio Braziliense: Ou Armazem Literário, Londres,
n.63, agosto de 1813, pp.243-245.

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Braziliense: Ou ArmazemLiterario, Londres, n.63, agosto de 1813, pp.242-243.

Memória sobre a utilidade da innoculação das Bexigas Vaccinas, traduzida do Alemão por
um amigo da Humanidade.Noticia. Jornal de Coimbra, Lisboa, n.XL, 1815, pp.195-196.

Seis Contas mensais de Antonio de Almeida, médico em Penafiel, sócio da Acad. R. das
Scienc. De Lisb. e correspondente da Inst. Vaccin., as quaes pertencentes ao 1° semestre do
anno corrente 1817. Jornal de Coimbra, Lisboa, n. LV, parte I, 1817, pp. 8-9.

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O MUSEU COMO RECURSO DIDÁTICO EM HISTÓRIA: O TERREIRO DE


CANDOMBLÉ DA MÃE YATYLISSÁ EM BOA VISTA-RR, COMO PROPOSTA DE
MONTAGEM DE MUSEU NA ESCOLA.

FYLIPPIO DE ALMEIDA SANTOS CASTRO*138

Introdução
As origens de espaços museológicos datam desde a Grécia Antiga: era um local
sagrado, que detinha coleções consideradas místicas das conquistas materiais que perpetuaram
ao longo do tempo, pois se agradeciam aos deuses, ofereciam sacrifícios e guardavam objetos
em nome das vitórias em batalhas. Esse papel de conservação e coleção caracterizada pelos
museus foi mudando seu objetivo no decorrer de sua história, porém sua essência de guarda
dos objetos de relevância memória permaneceu.
Existe a prática muito comum em todo o universo social de guarda material para
memoração. Seja por recordação, ou ressuscitar aquele momento que viveu em um passado
recente ou distante. Essa prática não é contemporânea, pois está presente na História de
muitos Estados onde certos fragmentos de coleções materiais que revivem o passado e
momentos históricos estão disponíveis em recintos próprios (seja por estátuas, bustos de
pessoas consideradas importantes, arquitetura, pinturas e etc). O ambiente do museu tem
práticas parecidas à preservação da memória e conhecimento material de uma época. A visita
a este espaço é um momento onde há uma quebra de monotonia do meio escolar, é uma
ocasião do pesquisador/docente aproveitar para transmitir um conhecimento de maneira mais
sólida, auxiliados pelos objetos diferentes. Não se deve somente ater o foco ao museu no
sentido de causar este ''impacto'' de um lugar diferente, mas também se necessita levar em
consideração a metodologia a ser usada para o conhecimento adquirido no museu e como tal
experimento vai auxiliar no ensino de História e entender como esse produto histórico chegou
até os dias atuais.
Hoje existe uma espécie de especialização temática para cada tipo de museu,
dedicados não só para a disciplina histórica, como também para a guarda de objetos
pertinentes a outras disciplinas como a zoologia, arqueologia (tanto em materiais pequenos,
mas também monumentos in situ), antropologia e outras temáticas pertinentes a materiais
específicos, além disso, concomitantemente com a renovação científica do século XX, refletiu
nos objetos de novos museus temáticos que surgirão no respectivo período, como é o caso dos
grupos historicamente esquecidos da historiografia tradicional que emergem para dar forma às

*Acadêmico do curso de licenciatura em História pela Universidade Federal de Roraima.


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novas questões, novos personagens, sujeitos históricos, culturas, grupos, além da apresentação
de novas problemáticas das quais podemos ter como exemplo as mulheres, crianças, negros,
indígenas, operários, história da educação dentre outros temas pertinentes às novas categorias
sociais explorados cientificamente.
Dentro desta perspectiva, usou-se como demonstração em forma de museu a religião
do Candomblé, uma cultura que sobreviveu ao longo dos séculos resistindo em sua riqueza da
herança imaterial, pois tais aspectos são importantes para esclarecer questões descritivas da
religião como produto de análise e compreensão por parte de quem participa da apresentação.

O Museu e o Candomblé: Uma experiência da cultura imaterial através de recurso


didático.
O ponto central da presente pesquisa é demonstrar a execução de certas práticas de
recurso didático mesmo com certas limitações de logísticas e de espaço. É importante
ressaltar que existe cada vez mais uma reciclagem de novas práticas de ensino, principalmente
pela parte docente para o aprimoramento no ensino didático-pedagógico.
Uma aula expositiva pode ser enriquecida, aprimorada com a utilização de alguns
recursos didático-pedagógicos, que não seja o quadro e o giz. Esta é uma
preocupação constante de alguns profissionais da educação [...]. Dessa forma os
educandos sairão da situação de agente passivo passando a ser agente ativo de sua
própria aprendizagem, podendo aprender os conteúdos expostos pelo professor e
interagir com os colegas (SANTOS, 2016:2)

Vale ressaltar que apenas o museu em si não é um recurso didático, mas sim a sua
forma de explicar os objetos ali expostos para o levantamento de problemáticas e agregação
no conteúdo intencionado. Tal espaço, tem seu caráter educativo e de contribuição social, ao
mesmo tempo em que pode ensinar, também pode atingir outro objetivo fundamental que os
objetos materiais podem exercer sobre os alunos: o questionamento, pois a partir daí pode
surgir a problematização do tema. Para Ribeiro:
No museu de História, esses vestígios são organizados e expostos para promoverem
uma ''viagem no tempo''. O veículo dessa viagem é exposição museológica que, ao
construir uma narrativa por meio de diferentes formas, perspectivas e temáticas,
possibilita aos visitantes a oportunidade de observar, pensar, descobrir, explorar,
investigar, questionar e elaborar novas narrativas. […] Ao nos depararmos com
evidências materiais de outros tempos, sinais preservados ou em ruínas deixadas
pelas pessoas do passado, somos impelidos a imaginar: quem produziu? Para quê?
Como foram usados? Perguntas que intrigam o olhar e mobilizam os atos de ensinar
e aprender História na escola e em outros espaços (RIBEIRO,2011:135)

Tais questionamentos também são fundamentais para não deixar a visita ao museu

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apenas uma evocação de uma memória descritiva, ou celebrar um mero momento histórico
sem o objetivo primordial de ser um laboratório de pesquisa. Assim, existem vários cuidados
de interpretação, observação, planejamento e estudo para a visita ao museu ter sua máxima
efetividade no que diz respeito ao estudo dos objetos ali expostos.
Além disso, é inerente para a vida escolar do aluno uma nova abordagem de análise da
fonte histórica exposta devido ao contato direto, novas problematizações e representações que
aqueles objetos denotam, também devem ser explorados tanto por parte do aluno quanto por
parte do professor, fomentando um rico debate e ''contribuir para que o educando reflita sobre
seu papel como ator social pertencente a uma determinada comunidade, que possui
patrimônios individuais e coletivos, memórias e legados que devem ser preservados. (amanda
pessoa 2016) ''
Segundo o artigo 6º dos Estatutos do Comitê Nacional Brasileiro do Conselho
Internacional de Museus (ICOM):
''O museu é um espaço de produção de conhecimentos abertos ao público, sua
função é adquirir, conservar, pesquisar, comunicar e exibir evidências materiais do
homem e de seu ambiente para fins de pesquisa educação e lazer''.(adaptado)¹

A partir daí, evidencia-se a função educativa dos museus. Porém, há de se desconstruir


os estereótipos dos museus como espaço apenas de se ''guardar'' coisas velhas. Esse
pensamento é constante também na concepção do significado de museu para as pessoas em
geral e também deve ser pauta na apresentação dos objetivos e importância de se constituir
esse precioso espaço.
Logo, os objetivos e a preparação para a visita ao museu são de suma importância para
o sucesso da excursão. Não é viável apenas a visitação ao espaço na espera de absorção do
conhecimento de forma inata com a simples exposição dos objetos sob a pena de uma
experiência superficial e indiferente, principalmente por parte dos alunos. Também é
imperioso estar preparado para quaisquer imprevistos que possam ocorrer, prevenindo para
uma possível frustração à excursão em vez de uma experiênciapositiva que agregue o
conhecimento dos alunos.
O estudo de caso remete-se à disciplina da Universidade Federal de Roraima práticas
de ensino I – Recursos Didáticos. O museu como tema foi bastante atrativo e tão logo foi
escolhido para a elaboração de uma aula para os acadêmicos com elementos museológicos.

¹
Adaptado do 6º artigo do ICOM. Disponível em www.icom.org.br/wp-content/uploads/2013/05/Estatuto-ICOM-
BR.pdf. Acessado em 31/05/2018
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Normalmente, na proposta do recurso de museu, existe a prática da retirada dos estudantes do


espaço escolar (no caso universitário), para a visitação do museu e assim elucidar os estudos,
interpretações e análises dos objetos expostos, porém, não há museu na cidade de Boa Vista –
Roraima, pois o museu que antes havia se encontra desativado. Devido às circunstâncias
limitativas para a efetivação da experiência de museu, optou-se por levá-la até a sala de aula.
Ao buscar a temática a ser mostrada no ensaio de museu em sala de aula, foi acordada a
religião do candomblé como objeto de estudo. A prática litúrgica do candomblé vem de
origem africana. O candomblé sofreu um sincretismo religioso com a religião católica na
época colonial e imperial do Brasil para o exercício religioso devido à subjugação da
sociedade brasileira à cultura africana. A combinação foi uma espécie de camuflagem para a
atividade religiosa que resultou na continuidade da cultura material e imaterial dos praticantes
candomblecistas que permaneceu viva até a contemporaneidade. O que ocorreu com sucesso,
pois é perceptível até os dias atuais a gerência e práticas litúrgicas dessa religião no seio
social brasileiro. Mesmo assim, o candomblé, assim como muitas religiões de origem
africana, é alvo de represálias e preconceitos pela mesma sociedade, evidenciando os
resquícios da intolerância que muitos paradigmas culturais de origem africana sofreram
durante a escravidão e que se perpetuaram ao longo do tempo. O trabalho abordou a
exposição dessa cultura imaterial que sobreviveu, sob a ótica do museu, gerando um impacto
sensorial que a exposição dessa cultura possa conceber, visando como objetivo a integração
do conhecimento através dos materiais e a oratória ali exposta de forma análoga aos museus
para melhor entendimento dos alunos sobre o tema.
Com o intuito de buscar auxílio para enriquecer a apresentação em forma de
exposição, buscou-se o terreiro da mãe Yatylissá que prontamente auxiliou com os objetos a
serem mostrados, então improvisou-se uma sala para mostrar aos acadêmicos as peças e
utensílios e além de uma pequena palestra feita pela própria mãe Yatylissá em sala a respeito
dos costumes do candomblé e dos desafios para gerenciar a prática da religião.
A importância de utilizar métodos para abordar tais temas considerados tabus são
pertinentes para amenizar as visões preconceituosas que muitos cultos sofrem no seio da
sociedade brasileira, o exemplo do presente ensaio para o uso de materiais para demonstração
da cultura material e imaterial do candomblé tem um duplo objetivo principal, da qual além
de desmitificar o senso comum que o aluno possa ter (muito comum o discente ter uma visão
preconceituosa e eivada de repercussão negativa), a exposição ajuda no conhecimento
histórico relativo ao culto religioso e sua sobrevivência na discriminação presente

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contracultura africana ao longo do tempo, gerando questões, problematização de pesquisa,


aguçando a percepção social, histórica e cultural que o aluno possa despertar no contato do
museu.

Desta forma, para atingir tais objetivos, foi exposto em uma sala no Centro de
Ciências Humanas da Universidade Federal de Roraima uma abordagem análoga ao museu
com a exposição de vestimentas, imagens e objetos pertinentes à religião, bem como um
breve histórico sobre a religião para suprir a função do museu de conhecimento de cultura
passada. No fim, foi exposto uma oratória feita pela mãe Yatylissá, bem como a demonstração
fictícia de alguns rituais da religião do candomblé e no final foi aberta à perguntas. Logo,
entende-se que a exposição dos objetos e da cultura material e imaterial é de bom proveito
para observar a herança que uma cultura que sofreu represálias ainda é presente na sociedade
contemporânea.

Conclusão
A apresentação dos objetos e a exposição oratória auxiliam na desconstrução de
muitos preconceitos enraizados em nossa sociedade, além do contato direto com os materiais
para o entendimento correto do funcionamento das liturgias candomblecistas. As práticas de
religiões africanas são frequentemente sujeitos passivos dos mais variados tipos de
preconceito pois, desde a escravidão no Brasil, tudo relacionado ao afrodescendente era
subjugado e visto de maneira inferior aos olhos da sociedade, essa essência maculada ficou
pertinente até os dias atuais, igualmente visto quando se trata da religiosidade que faz parte do
bojo cultural africano. O candomblé é um perfeito exemplo da resistência de suas práticas
perante o preconceito institucionalizado, que é fruto da herança colonial e imperial no Brasil.
É importante salientar que no currículo escolar apenas o cristianismo é ensinado como
religião primária a ser seguido, quando a escola pública tem o ensino religioso na estrutura
disciplinar. No antro privado de ensino, a educação religiosa é determinada pelas políticas
próprias da escola das quais são mais comuns as de essência cristã, quando pautadas sobre
organizações de religiosidade e ensino concomitantemente. Isto abre dois caminhos a serem
analisados quando se trata do ensino sobre religião: A primeira é uma espécie de obrigação de
princípios a serem ‘’estudados’’, trazendo uma sensação de que o cristianismo seria a crença a
ser seguida, criando muros para religiões que não compactuam com os dogmas cristãos.

A segunda seria que o aluno oposto à fé cristã, não fica inserido no ambiente escolar,
tanto devido ao preconceito que já é presente na sociedade quanto a falta de abordagens
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pertinentes às doutrinas diferentes do


cristianismo. Muito comum, por exemplo, casos de alunos que sofrem preconceito e não são
orientados pela gestão escolar ou pelo professor, quando não existe preparo docente, nem
administrativo para tratar de assuntos que desmitificam muitas visões errôneas comuns. Foi
bastante positivo a participação dos alunos e professores,
professores, além de obter o primeiro contato
com os adereços e objetos do candomblé, o conhecimento adquirido com a participação da
mãe Yatylissá auxiliou nesse primeiro contato e inovar na forma de participação da
comunidade para os estudos nas áreas sociais.
soci

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CONSELHO DE MUSEUS. Disponível em: <www.icom.org.br/wp
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CHARGES COMO UMA ATIVIDADE CRÍTICA DO ENSINO DE HISTÓRIA NA


ESCOLA ESTADUAL DOM GINO MALVESTIO

GUILHERME MACIEL*
MATHEUS RODRIGUES**
ARCÂNGELO FERREIRA***

Introdução
Partindo da perspectiva de usar novas ferramentas e formas de ensinar História, torna-
se necessário o manejo de diferentes modos de ensinar essa disciplina, para que ela se torne
um encanto para aqueles protagonistas da aprendizagem. Os alunos. E dentro desse contexto,
esse artigo tem por finalidade tratar a forma de como foi utilizado a charge, no ensino de
historia, a partir da oficina realizada na escola Dom Gino Malvestio pelos bolsitas do
Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (Pibid). Foram realizados oficinas
com alunos de 2º e 3º ano do ensino médio e a temática escolhida para ser trabalhada na
escola foi Política.
Com aulas expositivas e contextualizando a temática, objetivo era fazer com que os
alunos desenvolvessem o pensamento critico a respeito do significado de política para eles.
Varias opções metodológicas foram apresentadas, para que expressassem sua compreensão e
reflexão, alguns exemplos como: produção textual, cordel, música e as charges. Essa última
opção de se trabalhar com os alunos foi uns dos métodos mais utilizados como forma de
expressão dos alunos, sobre a compreensão da temática. No presente artigo apresentaremos
nosso relato de experiência sobre as aulas expositivas e dialogadas assim como o resultado da
produção na sala de aula – as charges - e as conclusões das análises das charges que os alunos
criaram.

Uma nova-velha ferramenta crítica


Durante a história da humanidade, onde foi possível o homem entender a realidade em
que vivia e até questionar essa realidade, ele foi capaz de criar formas de protestos e
contrapontos que batiam de frente com as determinadas linhas ideológicas, políticas e
econômicas da época. Não salvo da própria revolução francesa onde as mulheres invadiram

*
Acadêmico da Universidade do Estado o Amazonas (UEA), Centro de Estudo Superiores de Parintins (CESP). Email:
dexopo.maciel@gmail.com
**
Acadêmico da Universidade do Estado o Amazonas (UEA), Centro de Estudo Superiores de Parintins (CESP). Email:
matheuskarl895@gmail.com
***
Professor titular da Universidade do Estado o Amazonas (UEA), Centro de Estudo Superiores de Parintins (CESP).
Formado em História pela Universidade
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Versalhes para capturar Maria Antonieta, Rainha da França, em revolta aos autos gastos e a
forma espalhafatosa dela consumir luxo, ou trabalhadores cruzando os braços para seus
patrões em busca dos direitos trabalhistas, contra a exploração e o respeito que a maior classe
existente merece, a classe trabalhadora.
De uns séculos pra cá, outras formas de protestos e de criticar vieram surgindo, através
das artes e literatura, essas formas abriram uma nova forma de construir críticas muito mais
acessíveis, uma delas com força bem emblemática, as Charges. NERY (2001) nos ajuda a
pensar um pouco como utilizar as charges na sala de aula. Com o nome advindo do francês
que significa literalmente carga, as charges trazem realmente um sentido de peso, força e
exagero naquilo que elas pretendem passar para seu público, que geralmente não é um
especifico, pois são sátiras fáceis de compreender por pessoas de varias idades e classes
sociais, porém elas sempre vão criticar e fazer alusão a um tipo determinado de
acontecimento no tempo e espaço, o que geralmente remete a estar dentro do contexto de
algumas charges para poder compreender ela como um todo.
As charges e caricaturas como conhecemos hoje, herdeiras do jornalismo ilustrado
surgido sobretudo na Inglaterra e na França dos séculos XVIII e XIX, têm suas raízes
igualmente fincadas na iconografia da Idade Média e na atividade dos ateliês de pintura dos
séculos XV e XVI.Exemplos bem fortes de que as charges podem satirizar e contrapor
acontecimentos – ainda tendo a frança como exemplo nesse contexto – foi o emblemático
episodio francês, onde Luis XVI após a descoberta da sua fimose, (e o motivo de ainda não ter
“tentado” gerar filhos) os jornais da época fizeram varias sátiras em relação à situação do rei
da França. Alguns historiadores acreditam que ele cedeu à pressão e o escárnio que a
população impusera sobre ele e em uma cirurgia seu problema foi resolvido.
Elas – as charges – sempre tiveram um caráter imediatalista, e dentro dessa idéia da
charge ser resultante do contexto do momento, aplicamos uma atividade para os alunos dos 3º
e 2º anos do ensino médio da Escola Estadual Dom Gino Malvestio durante o ano de 2017. A
atividade consistiu na elaboração e na produção de charges sobre o tema política, que foi o
tema em questão trabalhado pelos pibidianos de História na escola.
De modo geral, as charges produzidas pelos alunos possuíram um teor critico
satirizando a conjuntura política atual num englobamento nacional e outras focadas na política
mais local. Obviamente o que estava sendo avaliado era o conteúdo em si da charge, e não seu
lado mais artístico, sendo que algumas delas mesmo possuindo um visual simples,
apresentaram reflexões criticas e pertinentes ao contexto do período em que a charge foi

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produzida. E no caso da oficina aplicada na Escola Dom Gino, dentro do tema política, os
alunos usaram os acontecimentos que estavam ocorrendo no Brasil, e a partir da produção
desse material dos alunos, pudemos ver o antes e o depois da visão de mundo em relação á
política dos alunos antes, durante e depois das oficinas aplicadas.

Conjuntura política de 2017 durante as oficinas139


Em 2017 foi um ano conturbado para a política brasileira, escândalos de corrupção,
reforma da previdência, reforma do ensino médio e reformas trabalhistas, estiveram na pauta
das discussões políticas e MENDONÇA (2012) trabalha a problemática de se estudar uma
História Política, pois ela afirma que a História Política tem inúmeras vertentes, e a idéia nas
oficinas era apresentar elas aos alunos e explicar a intenção de cada uma.
Com a saída da presidente Dilma Rousseff, seu vice presidente Michel Temer junto a
seus aliados iniciaram reformas radicais na economia, levando a perda de direitos básicos.
Com a ascensão de Michel Temer, a direita passou finalmente a reter todo o poder, passou a
controlar os três poderes, legislativo, judiciário e executivo. E com uma idéia que visa o lucro
e a exploração, os primeiros ataques foram na retiradas dos direitos básicos, privatização de
estatais e dos recursos naturais. O ano em que o silêncio tomou conta do país que até 2016
estavam na rua pedindo a “saída da presidenta”, que sem justificativa legal, foi retirado do
poder. O regime que se instaurou foi apoiado pelos meios de comunicação e pelos
movimentos de direitas em rede sociais como MBL e grupos religiosos. E assim como 1964 o
caminho para uma política autoritária estava aberto. Com o propósito de atender a classe
industrial brasileira e os latifundiários, o governo atual, tem um desproposito, com a
população.
A tentativa de sair de uma crise-econômica, e que agradassem a elite política, era necessário
alguém que atendesse seus “apelos” que fizesse as mudanças necessárias que os
beneficiassem coisas que não haviam conseguido no governo Dilma, que mesmo com
mudanças econômicas, não conseguiu atender a demanda de banqueiros e empresários do
país. A conjuntura da política no âmbito nacional tornou-se uma amostra do que acontece nas
cidades e nos estados de todo o país, onde as elites políticas passam a reter o controle,
mantendo o sistema de oligarquia, privilegiando determinados grupos que ainda matem uma
rotatividade no poder, em comum acordo, como no período da república do café com leite.

139
Segundo informes midiáticos e sites nas referencias bibliográficas.
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Seguindo a análise da conjuntura política brasileira, objetivo ao apresentar esse tema aos
alunos de 2º e 3º ano do ensino médio na escola Dom Gino Malvestio, teve como foco fazer
que os mesmo desenvolvessem um pensamento crítico, e como isso está implicado
historicamente na vida desses sujeitos. Com a problematização e contextualização, se iniciou
o desenvolvimento das oficinas, no qual as charges foram a principal forma que os colegiais
escolheram para expressar suas compreensões sobre o que é política no Brasil.
Os detalhes nas caricaturas exibiam uma clara crítica centrada aos políticos sua associação à
corrupção e a desigualdade social, correlacionando com a perda de direitos, e falta de políticas
públicas, junto à inércia dos representantes públicos, locais e nacionais. O sentimento
expresso era de insatisfação, que refletia a crise do atual cenário político, e suas repercussões
na economia, educação, saúde, infraestrutura e segurança, que no ano de 2017 passou a ser
mais visível aos olhos dos brasileiros, graças à tecnologia de informação e comunicação –
TIC. E o problema passa a ser o excesso delas e como filtra-las, e como isso desenvolver uma
análise crítica, objetivo das charges foi exatamente fazer os alunos levantarem esse ar de
criticidade, e mostrar que a política vai fazer parte de sua vida, enquanto sujeito histórico, seja
na escola, na universidade, no trabalho, em casa, na igreja, etc.
Vivemos em um período onde a desigualdade, intolerância, discriminação e a exploração
estão cada vez mais presentes no cotidiano, resultado de um longo processo histórico, que
legitima um sistema de opressão e que visa apenas o lucro, em contraposição e uma sociedade
cada vez mais marginalizada, sem direitos ou voz. A escola torna o espaço vital para
problematizar e resignificar a palavra política, possibilitando cada vez mais a participação
popular, fazendo-a questionar, com breves ponderações desde Aristóteles afirmando que o
homem é um ser político até alguns autores mais modernos (incluindo a definição dos
próprios alunos sobre política)

A problemática das charges na política e local e nacional


O projeto exposto no ano de 2017 que se refere a exposições de oficinas em salas de aula que
começou dia 26/04/2017, foi realizado através dos bolsistas de História da Universidade do
Estado do Amazonas dentro de uma realidade escolar, onde os alunos da escola Dom Gino
Malvestio foram colocados para praticar pequenos exercícios de reflexão e critica sobre a
conjuntura da política local e nacional, aplicamos uma oficina onde os alunos puderam
expressar através de alguns textos e charges que eles mesmos produziram, a forma como
enxergavam a política numa perspectiva local e nacional através do seu conhecimento.

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Antes das oficinas serem iniciadas, houve pequenos debates e diálogos com os alunos dos
terceiros anos sobre o que era a política, cada um tinha uma opinião sobre o tema, e com o
decorrer das aulas, explicamos de forma clara o que era política e como ela estava diretamente
ligada as nossas vidas. A estratégia aqui, junto com conversas informais, era sondar o
conhecimento dos alunos, e partir do seu senso comum para a reflexão critica, que era um dos
nossos objetivos finais desejados com a articulação das oficinas dentro da sala de aula. As
discussões ficaram dividias em política local e política num âmbito nacional.
Durante as primeiras conversas com os alunos, ficou notável que possuíam certo
conhecimento, mesmo que ainda a grosso modo, sobre política, porém um pouco voltada para
a política partidária; claro que a nossa primeira pergunta foi “Você sabe o que é Política?”, e a
partir daí os diálogos tiveram inicio. Foi levantado a questão sobre a importância de conhecer
política e a função que ela tem em nossas vidas pois como diria Aristóteles “ninguém
escolheria a posse do mundo inteiro sob a condição de viver só, já que o homem é um ser
político e está em sua natureza o viver em sociedade”(1991), viver em sociedade te faz um
agente político, cabível de suas próprias escolhas. O curioso é que mostrar como os alunos
estão inseridos na sociedade, que decisões políticas “lá em cima” podem afetá-los de
determinada forma aqui em baixo, foi uma das melhores estratégias para chamar-lhes a
atenção para o tema. Uma que vez que conseguiam se ver como tais agentes políticos, e como
estavam implantados no tempo e espaço, ficava mais fácil aprofundar as discussões.
Ainda com base em Aristóteles, onde ele afirma que “os sofistas pretendem ensinar política,
mas não são eles que a praticam, e sim os políticos, que parecem fazê-lo graças a uma espécie
de habilidade ou experiência, e não pelo raciocínio.” (1991). Colocamos questões mais
complexas, agora que teoricamente sabem que são agentes políticos, a conclusão que
conseguimos chegar juntos com os alunos foi a intencionalidade de Políticos, Empresários,
Emissoras, etc., de tornar o assunto Política e desagradável para a população, pois na frase dos
próprios alunos “se a população não quer fazer política, deixa que a gente faz”, e então os
políticos e outros transformam o campo da Política num show de horrores.
Essas conversas foram de suma importância para o desenvolvimento das oficinas, logo
estávamos problematizando situações do cotidiano que antes eles não sabiam que tinham forte
ligação com suas vidas e que podiam interferir nas suas escolhas para o futuro. Um dos
exemplos que rendeu bastante discussão construtiva foi o caso da Lixeira de Parintins – que
por si só gera bastante assunto, alvo até mesmo de pesquisas e trabalhos acadêmicos em
Parintins – que é bastante famosa e gera opiniões sobre seu posicionamento e toda uma

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questão ambiental. Perguntamos aos alunos se a lixeira incomodava eles, a escola tem uma
distância considerável da lixeira, e a maioria dos alunos moram nos arredores, provavelmente
por isso a maioria das respostas foi que a lixeira não incomodava. “Já aconteceu de um dia o
caminhão de lixo não passar na rua onde moram, por dois ou mais dias?”. Foi o suficiente
para instigar a reflexão, pois como os próprios alunos afirmaram, as ruas ficaram cheias de
lixo, as casas ficaram incomodadas por não saberem a maneira de despejar o lixo acumulado
em algum lugar apropriado. Essa parte das discussões ficou bastante ligada aos problemas
locais, mas não se prendeu somente ao caso da lixeira. Questões sociais e até mesmo escolares
da Escola Dom Gino, foram abordadas na sala de aula, vale pontuar que no inicio do projeto
PIBID em 2016 na escola, ela estava se preparando para se transformar em uma escola
militar, até os últimos dias que as oficinas foram aplicadas, nenhuma mudança na forma como
a escola dirigia seus alunos mudou.
A compreensão da política nacional também era de vital importância para situar o
aluno da conjuntura atual, foi perguntado a eles o que entendiam sobre política nos seguintes
aspectos: se sabiam o que era ideologias, e o significado de “esquerda”, “direita” e “centro”.
Obter essas informações sobre os conhecimentos prévio dos alunos sobre a temática era
essencial para que nos os aplicadores do projeto conseguisse encontrar o melhor meio
didático-pedagógico de problematizar junto com eles a questão apresentada. Muitas das
respostas iniciais dos alunos eram sempre associadas a corrupção e a políticos se tratando da
política nacional. Ainda não possuíam uma compreensão real sobre a política atual, e o que
ocorreu em 2016 no impeachment da presidente Dilma Rousseff, cuja serie de cortes e
reformas econômicas feitas pelo seu sucessor e atual presidente Michel Temer que os
afetavam diretamente os alunos e a população geral. Havia pouco interesse dos alunos sobre o
temática, sendo considera chata e alguns recusavam a participar ou opinar sobre o assunto.
Durante as oficinas, ao localizar e encaixar os alunos no fato político-social do Brasil,
mostrando a eles sua ligação com as “forças maiores”, que até mesmo o Estado tenta ter o
poder sobre seus próprios corpos das mais variadas formas possíveis, como coloca Foucault
(2010), apresentar-lhes as formas como são afetados por decisões aparentemente tão alheias a
sua realidade cotidiana; essa experiência em particular gerou bastante curiosidade e interesse
nos alunos, pois uma vez que conseguem se enxergar como agentes políticos, como
protagonistas de uma história que achavam que não eram deles, as questões, reflexões e as
criticas sobre Política, começaram a acalorar. Era aparente no discurso dos alunos uma nova

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compreensão sobre a temática, começando a problematizar a questão de modo mais critico e


abrangente a política presente no seu cotidiano, sua rua, bairro, sua cidade etc.
Ao fazer uma analise da produção das charges feita pelos alunos a partir do contexto dado
sobre o tema, ainda era nítido que a visão de política ainda se matinha sobre os políticos, que
sempre era caracterizado em cenas de corrupção e caricaturas satirizando personagens do
cenário político nacional. Notamos que havia alguns plágios nos trabalhos, já que os alunos
não buscavam traduzir sua compreensão de modo autentico devido ao sobre o tema. Mas a
maioria dos alunos conseguiu atingir a proposta apresentada quando o tema foi escolhido, que
era desenvolver o senso critico para pensarem sobre o tipo de política feita no Brasil e quem
se beneficiava dela. Algumas charges tiveram uma grande critica social e política, que
exemplificava sua compreensão de tudo que havia sido exposto nas salas de aula.
Após os diálogos aplicamos duas oficinas, uma produção de texto e a produção de charges,
essa última sendo objeto da nossa analise e escolhida pela maioria dos alunos. Eles se saíram
muito bem nas duas atividades, tivemos parodias, poemas e textos com experiências próprias.
Nas charges a criatividade e a sátira foram usadas como ferramentas de critica social e política
de forma interessante, nas charges os alunos reproduziram seus pontos de vista, sentimentos,
criticas, posicionamento político sobre Política em vários aspectos e esferas de atuação. Em
ambos os casos os alunos demonstraram boas articulações e domínio sobre o conteúdo.
Adiante a seleção de algumas charges que apresentam o resultado das discussões e debates em
sala de aula. A escolha de cada charge foi feita seguindo critérios que expõem a visão dos
alunos sobre Política em diversos níveis seja local ou nacional.
Charge 01140

(Autor: Alunas do 3º ano 1)141

140
Todas as charges foram transferidas para mídia digital e editadas pelos autores dessa publicação para melhor
visualização do leitor do referente artigo.
141
Optamos por manter o nome dos alunos em anonimato, por questões éticas profissionais.
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Optamos por expor em análise essa charge como sendo a primeira, pois ela reflete um
aspecto bastante local do cotidiano dos alunos do ensino básico da rede pública, ela se encaixa
como um retrado da política escolar abordada em sua prática pedagógica na qual os alunos se
encontravam; o descontentamento com essas abordagens e a falta de políticas escolares local
pode ser visto na charge em questão. Essa charge é a representação do aluno se vendo como
agente político e questionando decisões políticas escolares apresentadas a eles. Ainda nessa
charge as alunas fazem uma critica a disciplina de Filosofia e como ela é abordada durante o
ensino médio. Concluindo que Filosofia é o amor à sabedoria.
Charge 02

(Autor: Alunos do 2º ano 4)

Essa é uma das charges que nos chama a atenção. Pois além dela retratar a questão
salarial dos trabalhadores, enfatizando a luta por melhores condições de pagamento, a charge
faz uma previsão de um evento que ocorreu no primeiro semestre de 2018 em Parintins e
depois em várias cidades do Amazonas. Os professores da rede pública de Parintins
começaram um movimento exigindo um reajuste salarial do Governo do Estado do
Amazonas. O interessante é que o movimento começou com professores que atuavam na
Escola Dom Gino.

Charge 03

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(Autores: Alunas do 2º ano 2)

Essa charge em especial retrada a desigualdade social e a falta de políticas públicas, na


qual a diferença entre as classes sociais fica bastante evidente. A produção artístico
artístico-textual
em questão é uma das poucas que possuem titulo, “A igualdade no meu paíss me orgulha” é
uma das produções que já no titulo expressa de forma irônica o que as alunas sentem em
relação à questão de igualdade social.
Charge 04

(Autores: Alunos do 2º ano 1)

Ainda na linha da política partidária, essa charge representa a série de


de alianças e
interesses dos partidos políticos que resultaria nos acontecimentos como o golpe de 2016
contra presidente Dilma. As características expostas nas charges também fazem criticas
corrupção e ao fato que a lutas e articulação entre partidos é mais
mais relevante do que
desenvolver políticas públicas para a população, e parte da compreensão dos alunos foi isso
que eles passaram ao produzir essa charge.

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Charge 05

(Autores: Alunos do 2º ano 1)

Outra charge que, de todas produzidas escolhemos para exemplificar o resultado das
discussões na sala de aula foi a Charge 05, retratando a diminuição da jornada de trabalho,
assim como o sucateamento das leis trabalhistas. Como estávamos num contexto pós golpe, a
charge se associa às leis trabalhistas do até então presidente Temer (que assumiu após a
destituição da ex-presidenta Dilma do Governo do Brasil) apresenta no inicio do seu governo
e posteriormente implementa.

Charge 06

(Autor: Alunos do 2º ano 5)

Por fim, essa última charge resume o caos em que se encontra o Brasil representado
iconograficamente na visão de um aluno, e não deixa de ser a mesma opinião de boa parte da
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população brasileira; o interessante é que mesmo alguém que afirme não saber nada sobre
política, tem uma opinião formada, na maioria das vezes pode ser uma opinião negativa, mas
é o que esperar tendo exemplo aqueles que na teoria deveriam representar nossos interesses,
defender nossas causas e resolver nossos problemas. E aí está o problema da maioria das
pessoas – uma conclusão alcançada junto com os alunos – o problema do comodismo político.
Infelizmente não é possível apresentar todas as charges e tampouco comentar mais
sobre cada uma delas, que nas suas individualidades cada uma apresenta particularidade,
carisma e crítica a um aspecto do vasto amplo da Política, e ressaltando que forma produzidas
charges sobre mundo do trabalho, políticas publicas, política escolar, política partidária,
política estatal etc., porém, apenas dois temas não foram abordados pelos alunos: saúde e
segurança assim como temas co-relacionados, o que vale a curiosidade, pois durante as
oficinas, essas temáticas também foram abordadas.

Considerações finais
Um dos maiores problemas que afligem a população brasileira é o analfabetismo
político, juntamente com uma espécie de comodismo. Nas primeiras conversas com os alunos
percebemos isso, e por mais que eles afirmem que não gostem de falar sobre política, aqui
está algumas charges que podem provar o contrário. O projeto que apresentamos através do
PIBID sobre política na Escola Dom Gino Malvestio, foi uma experiência acadêmica e
pessoal de grande aproveitamento, pois a troca de conhecimento foi grande.
Situar os alunos na conjuntura política e mostrar que são agentes políticos capazes de
atuar para transformar a sociedade em que vivem, foi um dos resultados e alcançados mais
esperados e gratificante, como por exemplo na Charge 01 – que nas palavras do Guilherme
Maciel, “a minha charge favorita” – onde as alunas conseguiram se ver como agentes
políticos capazes de questionar as contradições das regras da política escolar do Dom Gino.
Outro fator satisfatório foi à notícia de saber a escolha de pelo menos seis alunos do
Dom Gino, de se inscreverem para o vestibular de História no CESP-UEA. Queremos nos
iludir de ter uma parcela de contribuição na escolha dos alunos ao optarem por esse curso.
Outras quatro alunas que tivemos estão cursando alguma disciplina na área de humanas, como
Letras por exemplo. Mas é certo que a contribuição das oficinas do PIBID foi algo que deixou
algo para os alunos refletirem posteriormente.

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O Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (Pibid) foi um meio para


alcançar alunos do ensino médio da rede publica. Trabalhar política e/ou qualquer assunto que
dificilmente é debatido em sala de aula, mas é cobrado pela sociedade, como temas
transversais: sexualidade, gênero etc., é fundamental para quebrar paradigmas da educação
tradicional ou bancária, como afirmaria Paulo Freire. Problematizar os acontecimentos
históricos em vez de decorar datas e nomes, é o que a disciplina de História faz hoje. Entender
o que aconteceu lá atrás, e o que levou as coisas a estarem do jeito que estão é um dos papeis
fundamentais da História como disciplina, e consequentemente evitando preconceito,
discriminação e aquele analfabetismo político, nos fazendo atuar diretamente como agentes
políticos.
E com o fim do programa PIBID, projetos como nosso não serão mais possíveis, ou
nas suas novas configurações que aceitam apenas alunos dos primeiros períodos da graduação
com pouca leitura critica e referencial teórico para debates em sala de aula. A idéia aqui não é
desqualificar os calouros, mas sim a queda da qualidade e aprofundamento sobre os temas.
Ciro Flamarion em uma entrevista afirma que o historiador é empirista, ou seja, o
conhecimento vem das leituras e reflexões sobre ela. Com o fim do Programa Institucional de
Bolsas de Iniciação à Docência, todos nós só temos a perder, alunos do ensino médio,
discentes, professores e por aí vai, pois como já foi afirmado, durante a aplicação das oficinas,
houve imensa troca de experiências, ensinamos e aprendemos. E outra, o que “quebra” o
Brasil é outra coisa, e não o acadêmico que ganha uma bolsa de 400 reais por mês.

REFERÊNCIAS
ARISTOTELES. Ética a Nicômaco; Poética. 4a ed. São Paulo: Nova Cultural, 1991.
FOUCAULT, Michel. Ditos e Escritos Vol. VI – Repensar a Política. São Paulo: Forense
Universitária, 2010.
12 FATOS que marcaram a política brasileira em 2017. Disponível em:
https://pleno.news/brasil/politica-nacional/12-fatos-que-marcaram-a-politica-brasileira-em-
2017.html. Acesso em: 16/03/2018
https://www.cartacapital.com.br/revista/974/anovidade-pertubadora-da-politica. Acesso em:
16/03/2018
MENDONÇA, Sonia Regina de; FONTES, Virgínia. História e teoria política.In:
CARDOSO, Ciro Flamarion; VAINFAS, Ronaldo (org). Novos Domínios da História. Rio de
Janeiro: Elsevier, 2012.
NERY, Laura. Charge: cartilha do mundo imediato. IX Seminário da Cátedra Padre António
Vieira de Estudos Portugueses da PUC-Rio em Novembro de 2001, intitulado “A situação da
narrativa no inicio do século XXI. Saudades de Sherazade”. Acesso: 15/03/2018 In:
http://www.letras.pucrio.br/unidades&nucleos/catedra/revista/7Sem_10.html

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A DOCUMENTAÇÃO DO PORTO DE MANAUS: CONSIDERAÇÕES ACERCA DE


SUA HISTORICIDADE E O (DES) CASO COM O PATRIMÔNIO DOCUMENTAL
JANINE RODRIGUES SARAIVA MARIA

Introdução

Este artigo é consequência do Trabalho de Conclusão de Curso, o qual foi defendido


em julho de 2018 no Curso de Arquivologia da Universidade Federal do Amazonas, com
orientação do Prof. Me. Leandro Coelho Aguiar. Neste trabalho serão apresentados breves
resultados obtidos no estudo da documentação do Porto de Manaus, acerca do (des) caso com
seu patrimônio documental.
Este estudo tem como base uma evidenciação complexa, que sobreveio a documentos
públicos brasileiros de vasta importância para a história do Amazonas. Destarte, transcendem
o mundo arquivístico diante das questões que envolvem seu valor histórico e social. O acervo
em questão é composto por documentos pertencentes à administração do Porto de Manaus,
que foram enviados para o “descarte” sem qualquer técnica arquivística envolvida. O objeto
desta obra baseia-se no estudo da documentação do Porto de Manaus referente o início do
século XX, que sofreu com descaso por parte da administração no momento da concepção do
Museu do Porto.
Cabe ressaltar que neste artigo a palavra descarte será utilizada com aspas, tendo em
vista que ela – na Arquivologia – significa um termo técnico e, após passar pelo processo de
avaliação, remete a arquivos excluídos. De acordo com o Dicionário de Terminologia
Arquivística do Arquivo Nacional (2005, p.41) a avaliação “estabelece os prazos de guarda e
a destinação, de acordo com os valores que lhes são atribuídos”.
Este trabalho tem como objetivo geral, contribuir com o estudo da concepção de
patrimônio e preservação documental no Amazonas. Como meios auxiliares de atingir o
objetivo principal, serão concebidos os seguintes objetivos específicos: mapear a tipologia
documental dos documentos do Porto de Manaus arquivados no APEAM; verificar o motivo
pelo qual os documentos foram rejeitados pela administração do Porto e do Museu; identificar
a trajetória da documentação entre o “descarte” pelo porto até a guarda no APEAM; e
averiguar a percepção dos atores sociais nesse processo de salvamento da documentação.


Bacharel em Arquivologia pela Universidade Federal do Amazonas.

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Como metodologia foram realizadas consultas a atores sociais, órgãos, instituições e


documentos, que remetem a este período, analisados com intuito de obterem-se respostas na
compreensão dos motivos que levaram os documentos ao “descarte”. A importância de tal
documentação foi ignorada no momento da sua supressão do acervo do Porto, o que
conduziria a consequências irreversíveis caso os documentos não fossem resgatados à época.
No Amazonas nos deparamos com grande dificuldade cultural, na descoberta de fatos
históricos que contemplaram importantes fases econômicas e sociais na cidade e no Estado
como um todo. Ressalta-se principalmente, a história do Porto de Manaus, esta que existe
como um quebra-cabeça, a qual deve ser estudada, pensada e montada de forma a concluir
alguns fatos importantes para o descobrimento da mesma.

Estado da arte
Ao longo da história arquivística diversas instituições produziram documentos no
decorrer da realização de suas atividades, sendo que algumas prezavam pela guarda
documental sem preocupações com a proveniência, o acesso e as técnicas de preservação dos
mesmos. Já outras, preocupavam-se em manter os mesmos organizados, da maneira que
julgavam corretas e funcionais. Também se verificou aqueles órgãos e instituições que
acreditavam na pouca importância da organização documental, não considerando a construção
social relevante que os mesmos deixariam de promover com seu desaparecimento ou
eliminação indevida.
Como início deste estudo, serão consideradas as instituições, acervos e práticas de
arquivos como construção histórica da sociedade, para manter seus acervos disponíveis e
preservados. Também serão estudados os arquivos permanentes como história e memória da
sociedade, e as formas como estes devem manter suas informações preservadas para
contribuir no desenvolvimento de uma memória social.
A patrimonialização e preservação dos acervos permanentes como construção social,
também será contextualizada, diante da necessidade de preservar e determinar como
patrimônio histórico e cultural os arquivos prejudicados pelo descaso, antes que os mesmos
não possam disponibilizar informação alguma, caso ocorra sua destruição.
As instituições arquivísticas integram um conjunto social de preservação da história de
uma nação, cujos problemas e inquietações refletem até os dias atuais nas questões de guarda
documental e práticas de arquivos. No intuito de evitar a perda de dados importantes que - nos

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limites do tempo - contribuem para a construção de bases sociais modernas e propagação do


conhecimento.
Ivana Parrela em sua obra “Patrimônio Documental e escrita de uma história da pátria
regional – Arquivo Público Mineiro 1895-1937” discute as inquietudes que a levaram a
buscar compreensão das memórias e iniciativas de preservação dos acervos documentais do
APM. Arquivo de grande importância histórica e cultural para o estado de Minas Gerais, onde
guarda até os dias atuais maior parte da história da construção da capital mineira e
desenvolvimento do estado.
Para que possamos compreender a história e prática dos arquivos e acervos diante das
instituições e sociedade, precisamos comunicar-nos com os arquivos como uma referência de
conjunto de responsabilidades tanto para a instituição, para os profissionais arquivistas e
acima de tudo para a sociedade.
Livia Iacovino trata deste tema em sua obra “Os arquivos como arsenais de
responsabilidade”, que manifesta de maneira clara e compreensível diversos fatos
contribuintes para que um arquivo funcione de forma acessível e democrática, mesmo diante
dos diversos casos de irresponsabilidade por parte de seus administradores.
Logo no início, a autora destaca a diferença entre os termos:
Os termos “prestação de contas” ou “responsabilidade” (account-ability) são
sinônimos de “transparência”, “abertura” e “confiança”, em oposição e “segredo”,
“escamoteação” e “corrupção”. Em países que possuem governos eleitos acesso
democraticamente, esses termos são sinônimos de acesso aberto aos arquivos de
Estado. (IACOVINO, 2016, p.261).

Conforme descrito na citação anterior, países com governos democráticos como o


Brasil possuem normalmente acesso aberto aos arquivos do estado. Sendo que o Brasil conta
com a Lei nº 12.527/2011 (Lei de Acesso a Informação), como uma vantagem para aqueles
que desejam acesso aos dados sobre as atividades meio e fim do governo federal e seus órgãos
vinculados. Porém, nem sempre o acesso é simples diante dos diversos casos de eliminação
documental indevida, terceirização de serviços, privatização de órgãos públicos, dentre
outros.
As duas autoras – Parrela e Iacovino – tratam de tema importante na discussão
arquivística atual, na análise das ações e responsabilidades de instituições que possuem
arquivos com funcionamento e acesso de forma integrada e popular. Parrela destaca o APM -
instituição com relevante significado social – no apontamento das ações que o local realiza
acerca da documentação criada ao longo de sua jornada administrativa, bem como a história
do Arquivo na contribuição da construção social.
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Iacovino (2016) destaca os arquivos como “arsenais de responsabilidade”, tendo em


vista a carga histórica, jurídica, pessoal e social que os mesmos carregam em seus
documentos. E da mesma forma evidencia as funcionalidades do arquivo como um local que
deve ser acessível, democrático, com os princípios arquivísticos atuantes, mesmo que diante
das dificuldades encontradas na guarda e preservação de um acervo.
A administração dos arquivos do Porto de Manaus, bem como dos documentos do
Museu do Porto, não vislumbrou a questão de responsabilidade que os mesmos possuíam e
ainda possuem. Principalmente nos dias atuais, diante das necessidades de busca e
entendimento do passado regional, e nos estudos realizados acerca do período auge do Ciclo
da Borracha. Tendo em vista que no período que antecedeu a concepção do Museu do Porto
de Manaus, foram “descartados” documentos importantes como livros de embarcações,
documentos funcionais de trabalhadores do porto, portarias e despachos, dentre outros de
mesma relevância. Tentava-se eliminar então da mesma forma, a possibilidade de
conhecimento da movimentação administrativa do porto diante deste período importante e
histórico.
A possibilidade de conceber informações sobre as embarcações que cruzavam o
Amazonas no período, bem como as contratações de funcionários e contratos de serviços
realizados na construção e modernização do Porto na época, quase foram impossibilitadas de
distribuir o conhecimento e responsabilidades adquiridas no momento de sua criação. Isto
ocorreria se os documentos não fossem salvos no momento da possível “eliminação” e
mantidos até os dias atuais no APEAM
A relação entre as palavras documento e responsabilidade existe de forma
contundente, isto é inegável, porém se verificou o estreitamento desta relação através dos atos
de corrupção, fraudes, escândalos da administração pública que demonstram o menosprezo
com questões éticas. Segundo Iacovino (2016, p.261) “Os arquivos não são capazes de evitar
fraudes ou corrupção, mas podem ajudar a detectá-las”. A administração pública e
profissionais arquivistas em conjunto com a sociedade, realizam a verificação de tais fatos,
impedindo assim a perpetuação das irregularidades que possam vir a prejudicar o
desenvolvimento da coletividade. Não são apenas questões administrativas, mas acima de
tudo éticas que devem ser observadas.
A abertura é negada onde há uma cultura de segredo, onde os direitos legais de
acesso não são respeitados, onde as imunidades são tão disseminadas que acabam
por negar o acesso e onde a implementação de regras é incômoda e dispendiosa. A
expectativa de ameaças terroristas globais vem sendo usada como desculpa para
restringir a informação e coletar maior quantidade de dados pessoais sobre os
cidadãos. (IACOVINO, 2016, p.261).
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A história dos arquivos do Porto de Manaus pode ser escrita na forma de conhecer os
anseios da administração na época, bem como a criação do museu e escolha dos documentos
que fariam parte do acervo. Porém, as dificuldades nas consultas aos participantes deste
processo poderá prejudicar a construção desta história diante da falta de informações
concretas.
As normas arquivísticas foram elaboradas para que sejam aplicadas em suas diversas
formas de atendimento aos arquivos, porém, as mesmas devem ser analisadas diante do
contexto de tempo e lugar. Sendo assim, o arquivista tem a responsabilidade de proceder com
essa análise e reproduzir suas funções, exercendo seu domínio sobre os documentos dentro do
importante mundo dos arquivos.
As obras de Parrela e Iacovino são leituras que se aproximam diante de seus temas
principais, arquivos permanentes, e contribuem para o entendimento das realizações
arquivísticas em outros acervos, bem como a não observância dos procedimentos de guarda e
preservação documental. O arquivo do Porto de Manaus, bem como do Museu do Porto,
deveriam primar pela estrutura do local onde guardam parte da história do Amazonas, diante
da sua responsabilidade em conservar documentos importantes para o estudo do
desenvolvimento histórico do estado. Porém a falta de políticas públicas eficazes, a
fiscalização da produção documental e sua destinação – ao longo da vida de uma instituição –
geram problemas de descarte indevido, deterioração de documentos, descaso por parte da
administração e outros fatores que contribuem para a perda da memória documental.
A memória de uma sociedade se produz a partir de preservação dos arquivos como
patrimônio histórico de formação da coletividade e na dinâmica da produção do conhecimento
humano. Como seria possível compreender o presente sem realizar um panorama com o
passado? São estudos que ainda necessitam de discussões acerca da relação dos arquivos,
memória e história como forma de prova, buscando dimensionar como se chegou a
determinadas situações vividas atualmente.
Sem dúvida, há diversos fatos históricos que nunca serão conhecidos pela sociedade,
tendo em vista a eliminação indevida e degradação dos arquivos, mas é importante ressaltar
que estes procedimentos foram realizados inadequadamente. Sejam por causas naturais ou
mesmo pelo poder humano de eliminar, a ocultação da memória social ainda vem
acompanhada do risco de injustiças e equívocos, quando esta assume a forma de prova
documental de acontecimento histórico.

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A arquivística tem trabalhado arduamente nos conceitos de preservação documental


como fonte de patrimônio histórico e cultural de uma sociedade. Patrimônio este, que serve
para o desenvolvimento e reconhecimento de culturas sociais e história da humanidade, pois o
homem vive em busca da evolução e utiliza-se da busca dos fatos históricos e seus contextos
para assim compreender o presente.
Pensando no descaso com o patrimônio histórico documental do Porto de Manaus,
verificamos que fatores de preservação e guarda de uma história regional não foram
relevantes no momento do “descarte” dos documentos da instituição. O que os
administradores do porto e do museu tinham como concepção de “acervo” histórico, torna-se
uma questão cabível de análise, sendo que poderiam ter criado uma coleção específica de
documentos relacionados ao período, mantendo assim a preservação documental deste
patrimônio.
Estudar os arquivos permanentes como história e memória, conduz a uma reflexão
quanto à preservação destes como conservadores de um período importante e de interesse
comum de uma sociedade. A história contida nos arquivos permanentes vive as limitações e
dificuldades de preservação constantemente, sobrevivendo aos infortúnios da eliminação
indevida.
A patrimonialização dos arquivos deve ser pensada como forma de construção de uma
sociedade, diante da existência de um acervo que poderá colaborar com o entendimento da
história de um povo, região ou grupo social. Quando um acervo é preservado para servir de
objeto de estudo, comprovação ou divulgação, o mesmo está sendo patrimonializado como
objeto de construção cultural, nisto considerando que o acervo deverá ter como responsável
de sua preservação uma instituição, órgão ou grupo de pessoas. Trata-se da garantia de
salvaguarda de um patrimônio cultural – seja material ou imaterial - que contribuirá de
alguma forma para o conhecimento ou descobrimento de fatos sociais importantes.
Quando determinado arquivo não é contemplado com o processo de
patrimonialização, o mesmo se perde diante das necessidades para o qual foi criado, e agrega
lacunas no conhecimento da sua história, cultura, fatos e comprovações. Assim como ocorreu
nos documentos do Porto de Manaus, que por motivos que ainda serão estudados não foram
patrimonializados, sofreram com “descarte” pela administração na época.
Pode ser uma questão implícita quando se fala nestes documentos, porém o fato da não
patrimonialização dos mesmos contribui para seu resgate e guarda por atores sociais – mesmo
que esteja sem os procedimentos corretos para manter a preservação – no APEAM. Os

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mesmos poderiam ter sido descartados de qualquer forma, não havendo tempo de resgate, o
que impediria nos dias atuais a consulta a estes documentos e possíveis processos de estudos
sobre informações contidas nos mesmos. Existem diversas dificuldades encontradas para a
preservação dos arquivos permanentes dentro da realização de práticas arquivísticas e
atendimento dos princípios básicos da arquivologia, assim como a complexidade de
patrimonialização dos documentos e acervos históricos. São estudos que devem ser
examinados e mantidos a margem de novas descobertas que possam contribuir para a
preservação dos documentos

Procedimentos metodológicos
A pesquisa foi realizada através do método exploratório, tendo em vista a sua função
de esclarecer ideias e formular o problema foco do estudo, sendo que poderá futuramente dar
continuidade a outros conhecimentos referente ao tema. O método exploratório foi utilizado
através de pesquisa junto ao APEAM, IGHA, IPHAN e Porto de Manaus, utilizando-se de
questionamentos junto a estes órgãos acerca dos documentos do Porto “descartados” e
daqueles que compõem o acervo do antigo Museu do Porto. Foram realizadas também
entrevistas com os atores sociais que participaram do processo do (des) caso com os
documentos do Porto, e até mesmo com aqueles que receberam informações na época acerca
da situação do acervo.
Inicialmente pensou-se em análises dos documentos que fazem parte do acervo do
Museu do Porto e daqueles que sofreram o “descarte” que se encontram no APEAM. Porém,
foi possível analise in loco apenas dos documentos localizados no APEAM, já os documentos
do museu não puderam ser consultados tendo em vista a negativa de liberação por parte da
administração do local. Dos atores sociais participantes deste momento descrito no estudo,
poucos aceitaram formalizar suas entrevistas, estas que foram acumuladas nesta obra no
subtópico “memórias não oficiais”.
As entrevistas foram realizadas na tentativa da descoberta dos motivos que levaram ao
“descarte” da documentação, já que não foi possível identificar em consulta ao órgão gerador
dos documentos – Porto de Manaus – e tampouco nos documentos relacionados à concepção
do museu, estes disponibilizados pelo IPHAN. E mesmo diante dos relatos nas entrevistas não
oficiais, não foi possível detectar os motivos para a ação do “descarte”.
Foram realizadas pesquisas bibliográficas, partindo de estudos já desenvolvidos, para
que seja possível o desenlace do conhecimento pretendido. Nas pesquisas bibliográficas o
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foco se desenvolveu na questão de patrimônio, patrimônio documental, arquivos permanentes,


preservação de documentos históricos, as técnicas arquivísticas de preservação e no
tratamento documental na administração de portos e museus.
A pesquisa bibliográfica é desenvolvida a partir de material já elaborado, constituído
principalmente de livros e artigos científicos. Embora em quase todos os estudos seja
exigido algum tipo de trabalho desta natureza, há pesquisas desenvolvidas
exclusivamente a partir de fontes bibliográficas. Parte dos estudos exploratórios
podem ser definidos como pesquisas bibliográficas, assim como certo número de
pesquisas desenvolvidas a partir da técnica de análise de conteúdo. (GIL, 2008, p.50).

As dificuldades encontradas no acesso ao arquivo do Museu do Porto impediriam a


análise tipológica dos documentos, porém o IPHAN disponibilizou o documento “Registro do
Acervo do Museu do Porto” que possibilitou a consulta aos documentos existentes e
identificação das tipologias. O mesmo processo de identificação tipológica foi realizado nos
documentos arquivados no APEAM, promovendo a realização do comparativo já cogitado
inicialmente.

Algumas análises
Com analise preliminar acerca do assunto, realizamos pesquisas junto a atores sociais,
onde histórias foram contadas informalmente, pois estes atores não desejaram popularizar
seus relatos ou até mesmo a possibilidade de alguns fatos terem sido esquecidos diante das
diversas situações que permeiam o principal objeto de estudo, o des(caso) dos documentos do
Porto de Manaus.
Segundo relatos, no processo de concepção do Museu do Porto, foi realizada uma
seleção pela administradora portuária daqueles itens que fariam parte da exposição e
integrariam o acervo do museu. Foi então que decidiram que alguns documentos não fariam
parte do acervo, desta forma então, os mesmos foram “descartados”. Neste episódio,
historiadores que verificaram tal situação, recolheram os documentos que já se encontravam
em processo de eliminação, e os levaram para o IGHA142, onde permaneceram por
determinado período embaixo de uma escada no prédio do Instituto. Após temporada no
IGHA, os documentos foram enviados para o APEAM onde permanecem até os dias atuais.

142
Fundado em 25 de março de 1917, e instalada na Câmara Municipal de Manaus, em histórica sessão liderada
pelos intelectuais Bernardo Ramos, que se tornaria seu primeiro presidente; Agnelo Bittencourt e Vivaldo Lima,
o Instituo Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA) apresenta hoje inegável vigor físico e intelectual. Sua
atual diretoria, que tem como presidente a professora Marilene Correa de Feitas, e vice-presidente o historiador
Francisco Gomes da Silva, propõe-se a executar ousado plano de trabalho na gestão2017/2018 com o
fundamental suporte do governo do Amazonas.
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Algumas informações descritas acima não foram oficializadas, haja vista que se tratam
de relatos de pessoas que participaram do processo de concepção do museu ou do “descarte”
dos documentos - outras até mesmo não atuaram, porém tem conhecimento de fatos – e desta
forma dominam os acontecimentos. Os participantes foram consultados formalmente, porém
não obtivemos retorno até a finalização deste estudo, tornando assim esta exposição com
ausência de oficialidade, mas com relevância para expor um pouco da memória.
Outros pontos importantes a serem destacados são a relevância da história do acervo
do Museu do Porto de Manaus, do APEAM e das tentativas de resgate da preservação
documental diante dos documentos estudados.
Acerca do acervo documental do Museu do Porto de Manaus, poucas informações
puderam ser coletadas, e algumas dúvidas não foram sanadas diante das dificuldades em
acessar o arquivo e verificar o seu estado de conservação. O acervo encontra-se inacessível
conforme informações recebidas da ManausCult, que através do Diretor de Cultura do órgão,
Marcio Braz, foi consultado sobre o acesso ao acervo do Museu do Porto. Este informou que
diante do curto prazo em que assumiram a administração do local, seria impossível realizar o
acesso de público externo (pesquisadores) ao acervo.
O Arquivo Público do Estado do Amazonas (APEAM) foi criado em 1897, e segundo
cadastro da entidade junto ao CONARQ143 (2018), tem a missão de:
Coleta, organização, armazenamento e recuperação dos documentos oriundos dos
órgãos e entidades da Administração Pública Estadual; Manutenção de um sistema
atualizado de consulta à documentação administrativa e histórica do Estado.
(CONARQ, 2018).

Ao realizarmos o levantamento da documentação do Porto de Manaus, quase quarenta


anos após o resgate da mesma, conseguimos identificar que a falta do interesse de políticas
públicas de preservação e o descaso de órgãos responsáveis pela preservação do patrimônio
público, trazem a tona uma documentação deteriorada, porém de alguma forma preservada. O
APEAM vivencia a trajetória do descaso de seus documentos históricos, com a falta de verba
pública para a preservação dos mesmos e ainda assim com a ausência de profissionais
especializados para a realização do trabalho.
Foi identificado que os documentos do acervo do Museu do Porto de Manaus e os
documentos do Porto arquivados no APEAM (que passaram pelo processo de “descarte”)
possuem mesma tipologia documental, o que impede o entendimento acerca dos critérios
utilizados para determinar quais documentos seriam “eliminados”.

143
Disponível em: http://conarq.gov.br/consulta-a-entidades/item/arquivo-publico-do-estado-do-amazonas.html
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Desde o período de sua criação até a completa desativação das atividades, o Museu do
Porto passou por diversas situações que levaram a destruição, extravio e perdas documentais,
que poderiam nos dias atuais conservar e preservar a história do Amazonas. Uma história de
importância sociocultural, que devido desentendimentos de órgãos e empresas da esfera
pública e privada, contribuíram para a repartição do acervo e, consequentemente, o
encerramento das atividades do museu.

Considerações finais
Foi possível identificar neste trabalho a necessidade de expansão das políticas de
preservação documental da história e os atores sociais que pensaram na preservação dos
documentos do Porto de Manaus na época do “descarte”. Não obstante é possível perceber a
falta de uma cultura madura de conservação documental, que perfaz em casos como o
estudado. Os parâmetros arquivísticos de preservação e difusão do conhecimento nem sempre
são seguidos em sua integralidade, e ainda por vezes são ignorados deixando como herança
um patrimônio documental histórico e cultural cercado de lacunas.
A análise dos dados aponta que os documentos “descartados” pelo Porto de Manaus
sofreram os danos do descaso, porém diante do apoio dos atores sociais que participaram de
seu resgate, permanecem preservados em sua quase totalidade. Os documentos conservados
no APEAM, neste ano de 2018 passaram por uma readequação, onde foram acondicionados
em estantes de aço. Ainda assim, necessitam os mesmos de apoio quanto ao restauro e
conservação, para que suas características iniciais e detalhes da função administrativa
continuem preservados. Já os documentos do Museu do Porto não puderam ser consultados,
tendo em vista questões burocráticas relativas à sua posse, da mesma maneira que não foi
possível identificar seu estado de conservação. O IPHAN contribui constantemente nas
questões relativas à preservação da edificação e dos acervos, bem como na tentativa de
preservação dos documentos e possibilidade de reabertura do Museu do Porto.
O descaso que sofre os documentos no estado do Amazonas ocorre também em outras
instituições de guarda documental de forma geral, provocada justamente pela falta de uma
cultura contínua de preservação.
A história do patrimônio documental do Porto de Manaus em específico, ainda
encontra-se em formação, que demanda um trabalho a ser executado, principalmente junto às
lembranças dos atores sociais que participaram dos fatos elencados neste estudo. Muitos
outros episódios precisam ser pesquisados para fechar o ciclo de descobertas acerca do que

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levou a tentativa de eliminação documental no Porto de Manaus. Que este trabalho possa
servir de inauguração de outros estudos no mesmo sentido, dando continuidade as pesquisas,
para que assim a visibilidade em torno da documentação do Porto de Manaus venha ressurgir
juntamente com a história ignorada ao longo do tempo.

Referências
CONSELHO NACIONAL DE ARQUIVOS. Resolução nº 27, de 16 de junho de 2008.
Disponível em: <http://www.conarq.gov.br/index.php/resolucoes-do-conarq/269-resolucao-n-
27,-de-16-de-junho-de-2008>. Acesso em: 02 mai. 2018.
GIL, Antonio Carlos. Métodos e técnicas de pesquisa social. 6 ed. São Paulo: Editora Atlas
S.A, 2008. 200 p.
IACOVINO, Lívia. Os arquivos como arsenais de responsabilidade. In: EASTWOOD, Terry;
MACNEIL, Heather (Orgs.). Correntes atuais do pensamento arquivístico. Belo Horizonte:
UFMG, 2016, p.261-302.
PARRELA, IVANA. Patrimônio documental e escrita de uma história pátria regional:
Arquivo Público Mineiro 1895-1937. 1a ed. Belo Horizonte, São Paulo: Annablume; PPGH-
UFMG, 2012. 294.

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PATRIMÔNIO E INTERPRETAÇÕES HISTÓRICAS: UMA ANÁLISE DOS


PAINÉIS ESCULTÓRICOS DA PRAÇA DA LIBERDADE, PARINTINS/AM.

JESSICA DAYSE MATOS GOMES


LUCINELI DE SOUZA MENEZES

As iconografias são fontes para o estudo histórico, pois, representam


significativamente a história de determinadas culturas. Os registros do passado ou do
presente, que representam a cultura de um povo constituem-se como patrimônio cultural, que
está relacionado à identidade, a relação entre o antigo e o atual.
Os patrimôniospassam de geração a geração, mantendo conexão com a ancestralidade
o que dá ao indivíduo o conhecimento de sua própria história. Para Ferreira (2006) o
patrimônio é portador de tempo evivências.
Vários patrimônios são identificados no território brasileiro, sendo que muitos deles
apresentam - além da riqueza cultural – todo um conjunto de conhecimentos ou interpretações
que acabaram por constituir tais bens importantes para as sociedades. Essas interpretações dos
patrimônios podem ser estudadas no ambiente da educação básica, de forma diferenciada e
dinâmica para o conhecimento histórico crítico e coerente com sua realidade.
Este trabalho apresenta análises de painéis escultóricos da Praça da Liberdade,
localizada no município de Parintins, interior do Estado do Amazonas.O estudo das
iconografias apresentadas neste documento é resultado de pesquisas realizadas pelos
acadêmicos da pós-graduação em Metodologia do Ensino de História, da Universidade do
Estado do Amazonas, Centro de Estudos Superiores de Parintins, sob orientação da professora
mestra Mary Tânia dos Santos Carvalho.
Numa abordagem qualitativa, utiliza-se pesquisa bibliográfica sobre iconografias,
fontes históricas (PINSK, 2005), imagem e imaginário (MAFFESOLI, 2001) assim como a
análise de painéis escultóricos que representam fatos, símbolos e períodos da história do
município de Parintins. O estudo das fontes iconográficas é uma metodologia diferenciada,
sobretudo para ensino na educação básica, possibilitando que haja maior proximidade e
contextualização com a história ensinada no ambiente da sala de aula.
A pesquisa foi desenvolvida em primeiro momento na sala de aula, com os
embasamentos teóricos; e, com a pesquisa de campo realizada na Praça da Liberdade, onde


Mestre em Sociedade em Cultura na Amazônia, Universidade Federal do Amazonas – UFAM e professora da
rede pública de ensino do estado do Amazonas – SEDUC/AM.

Mestre em Sociedade em Cultura na Amazônia, Universidade Federal do Amazonas – UFAM e professora da
rede pública de ensino do estado do Amazonas – SEDUC/AM..
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foram observadas as quatro obras, tendo sido feito registro fotográfico das mesmas e coleta de
informações referentes aos painéis.
Deve-se considerar que as fontes não devem ser concebidas como verdades absolutas,
sobretudo as iconografias, pois as mesmas reproduzem versões dos acontecimentos históricos
nas diferentes interpretações de pessoas de diferentes épocas. As obras iconográficas, assim
como outras fontes refletem interesses e subjetividades de quem as criou nos distintos
contextos e épocas. É importante desmistificar as fontes históricas para em seguida reconstruí-
las, juntamente com nossos alunos e acadêmicos, evitando incorrer no viés de uma História
positivista.

Fontes Históricas e seu uso na sala de aula


No ambiente escolar cotidiano, o estudo da história local é de suma importância para a
consciência histórica dos alunos que deve ser desenvolvida através de pesquisas que lhes
possibilitem o contato com diferentes fontes históricas, sejam documentais,
orais,iconográficas entre outras.
Os painéis escultóricos (fonte iconográfica) localizados na Praça da liberdade de
Parintins podem ser usados como fontes de ensino, pois, são entendidos como monumentos
históricos na medida que estão carregados de subjetividades e intencionalidades. Tais obras,
que apresentam interpretações da história local de podem ser significativas para o aprendizado
dos alunos, os quais poderão associar a teoria à prática e com isso, estar desenvolvendo seu
senso crítico a partir da iniciação à pesquisa científica, atuando como protagonistas de seu
aprendizado e de sua História.
Para Nikitiuk (2004:33) “o processo de construção do conhecimento requer pesquisa -
neste caso científica-, (...)caminho privilegiado para a construção de autênticos sujeitos do
conhecimento que se propões a construir sua leitura de mundo”.
Em consonância com esta abordagem, Silva (2003:18-19.) considera que:
é fundamental entender ensino e pesquisa de história como faces de uma
mesma atividade...Identificar pesquisa e ensino significa preservar o rigor da
produção do saber, próprio à primeira, e o compromisso de sua presença na
cena social ampliada e sob o controle de seus agentes, inerente ao segundo,
pensando numa síntese desses atributos.

O uso de registros históricos no ambiente da sala de aula deve transcorrer em


comunhão com a prática da pesquisa, em que o educador poderá trabalhar a História a
partir do diálogo com diferentes personagens, que emergem a partir de fontes
diversificadas, representados por fotos, iconografias, filmes, depoimentos orais, etc.
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Na atualidade, a iconografia é tida como “registro histórico realizado por meio de


ícones, de imagens pintadas, desenhadas, impressas ou imaginadas, e ainda esculpidas
(...). São registros com os quais os historiadores e professores devem estabelecer um
diálogo contínuo” (PAIVA, 2006:17). As interpretações e narrativas que advém do
contato com as fontes iconográficas permitem ao aluno/pesquisador percorrer e sentir a
atmosfera do passado, que se faz tão presente no cotidiano, produzindo conhecimento
científico com rigor histórico.
Profissionais da História tem inúmeras possibilidades de trabalhar a disciplina por
meios das diversas fontes que são apresentadas no ambiente atual. Tais fontes são produzidas
pelo próprio homem que ao longo do tempo vem deixando importantes registros para que
possamos compreender a realidade de nosso tempo e analisar os contextos de outrora.
No entanto, é preciso cuidado na utilização das fontes na sala de aula, uma vez que, no
espaço da educação básica as mesmas não devem ser tratadas por profissionais do ensino de
História, sob hipótese alguma, como comprovação da verdade, muito menos para tornar aulas
mais agradáveis aos discentes. Schimidt e Cainelli (2009:127) afirmam que:
Hoje o desafio de usar diferentes documentos como fontes de produção para o
conhecimento histórico e também como veículo para o ensino da historia é
amplamente debatido. Busca-se diversificar as possibilidades de usos de documentos
históricos em sala de aula com o objetivo de construir propostas de ensino
identificadas com as expectativas e cultura do aluno.

Para as autoras pode-se inserir a problematização dos fatos históricos dentro da prática
docente. Pinsk (2005: 7) considera que as fontes históricas são “o material o qual os
historiadores se apropriam por meio de abordagens específicas, métodos diferentes, técnicas
variadas para tecerem seus discursos históricos”.
Com essa metodologia, os alunos são estimulados a se posicionarem de maneira crítica
ao fato apresentado, refletindo, conversando e dialogando com as fontes, mais acima de tudo
estabelecendo uma compreensão de que todos fazem parte da história que está sendo
construída e reconstruída constantemente, porque todos são sujeitos, peças fundamentais do
processo histórico com visões diferentes de toda essa dinâmica.

Painéis da Praça da Liberdade: patrimônio e interpretações da história local


Entende-se por patrimônio a herança de culturas onde estão inseridas as memórias e
identidades sociais (Cerqueira: 2005), relevantes para o saber histórico e formação cidadã do
estudante.O Patrimônio Cultural é um conjunto de bens que mostra a formação e identidade
de um povo, grupo ou sociedade. Cada geração dá a sua contribuição, preservando ou não
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essa herança. Uma população que reconhece seus patrimônios e os valoriza é uma população
consciente de sua história, da sua memória e da sua identidade. Conforme Evelina Grunberg
Patrimônio Cultural são também os que se produzem no presente como expressão de cada
geração, nosso “Patrimônio Vivo” (GRUMBERG, 2007).
Em Parintins,município localizado à margem direita do Rio Amazonas distante cerca
de 369 quilômetros da capital do Estado do Amazonas, Manaus, os patrimônios materiais e
imateriais tem seu destaque devido a divulgação de Festival Folclórico que evidencia os bois
bumbás Garantido e Caprichoso como expressões da identidade local regional e até mesmo
nacional.
Por outro lado, o município também possui bens tangíveis e intangíveis que não
recebem tamanha evidência, causando questionamentos sobre o grau de conhecimento dessas
formas de expressão, saberes, modos de fazer e técnicas por seus moradores locais.
Sendo alguns desses bens materiais e simbólicos do município, as iconografias ou
painéis escultóricos da Praça da Liberdade são obras que representam interpretações da
história de Parintins de acordo com a ótica dos artistas que as esculpiram.
As imagens se transfiguram em esculturas de alto relevo que contam partes da história
do município de Parintins, envolvidas em técnica, pois, Maffesoli (2001) considera que uma
escultura é um objeto técnico. As obras também demonstram também a criatividade dos
artistas parintinenses. Mas todas as interpretações estão envolvidas em conceitos, influencias
e análises dos percursos históricos assim como o momento político da época.
Nesta discussão, de modo específico, serão feitas análises das obras iconográficas da
Praça citada, apresentando sua imagem e os dados da mesma. O primeiro painel estudado Os
primeiros habitantes(Figura 1).

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Texto integrando dos Anais [recurso eletrônico] do IV Encontro Estadual de História - Ensino de
história no Amazonas, democracia e desigualdade. Organização: Keith Valéria de Oliveira Barbosa;
Leandro Coelho de Aguiar ... [et al.]. - 1. ed. -- Manaus: Universidade Federal do Amazonas, 2018.

Figura 1: Painel Os primeiros habitantes

Fonte: Pesquisa de Campo (2014)

Como trabalhar essa imagem em sala de aula? Como problematiza-la? Como extrair
dela as informações que precisamos para nossa compreensão histórica? Parece-nos um grande
desafio e é esse o grande objetivo, vencer esses desafios, saindo da representação tida como
verdade para a problematização dos documentos/monumentos e construção da narrativa
histórica considerando as mudanças, rupturas e continuidades.
O painelEscultórico foi confeccionado com cimento, ferragens e pintura pelo
artista Luís Antônio. Não foi encontrada a data de sua criação, apenas o registro de que
em 2013 a obra foi revitalizada. O painel representa a chegada do branco colonizador,
os nativos do lugar e a exploração dos recursos naturais feita por eles. A imagem mostra
o branco em meio aos indígenas apresentado um símbolo cristão, no intuito de realizar a
conversão dos indígenas para dominá-los.
Sobre o painel escultórico intitulado: Primeiros Habitantes não se sabemos exatamente se a obra se refere aos primeiros
habitantes do que hoje é o município de Parintins ou se faz uma referencia aos primeiros
povos habitantes da Amazônia.
O segundo painel (Figura 2) analisado é intitulado Descobrimentos: Caravelas de
Francisco Orellana (Figura 2),confeccionado por Frank Bentes, que utilizoucom cimento,
ferragens e pintura. A obra não possui data de produção, mas foi revitalizado em 2013.

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história no Amazonas, democracia e desigualdade. Organização: Keith Valéria de Oliveira Barbosa;
Leandro Coelho de Aguiar ... [et al.]. - 1. ed. -- Manaus: Universidade Federal do Amazonas, 2018.

Representa o hipotético encontro de Francisco Orellana e seus tripulantes com o grupo de


mulheres indígenas nomeadas de Amazonas.

Figura 2: Painel Descobrimentos: Caravelas de Francisco Orellana

Fonte: Pesquisa de Campo (2014)

Este encontro foi relatado pelo cronista da expedição o então Frei Gaspar de Carvajal
que de acordo com ele “Estas mulheres são muito brancas e altas e tem longos cabelos
trançados e enrolados na cabeça, são musculosas e andam nuas em pelo, cobrindo sua
vergonha com arcos e as flechas nas mãos e lutando como dez índios”(CARVAJAL 1992: 79-
81).
essa descrição nos parece uma referência às mulheres amazonas da Grécia Antiga, salientando a representação do imaginário cultural do europeu que ainda estava bastante carregado da cultura grega
antiga e que eram difundidas através dos contos e lendas.
Percebe-se nesse painel escultórico que a visão do artista muito se aproxima com a visão descrita por Carvajal, uma visão europeia, permeada de mitos e lendas comuns da cultura do “velho mundo” e isso
nos leva a perceber como profissionais da História como o artista muitas vezes é levado a reproduzir aquilo que lhe foi dado como verdade absoluta, aquilo de que alguma maneira em determinado momento ele aprendeu,
seja na escola ou por meio dos livros.
De maneira alguma buscamos aqui colocar no descrédito a bela obra apresentada como exemplo, ao contrario, nosso objetivo maior é extrair da obra aquilo que nos é importante destacar dentro da sala de
aula enquanto profissionais quando nos apropriamos dessas fontes como recurso pedagógico.
É importante destacarmos as contradições, as interpretações do fato apresentado, a valorização da obra como documento histórico, a visão do artista, e sua importância como agente construtor de sua
própria história, historicizando uma representação dentro do contexto artístico.
Nós professores de História, temos como dever do ofício trabalhar em sala de aula a diversidade de informações que todas as obras apresentadas nos painéis nos fornecem, essa é a riqueza da Historia, isso
é construir um saber histórico, levar o aluno a dialogar com as fontes, e fazê-lo aproximar-se da pesquisa histórica dentro do ambiente escolar, mostrando por meio delas que existem diversas visões sobre o que lhes é
apresentado.

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Figura 3: Painel Começo do extrativismo

Fonte: Pesquisa de Campo (2014)

O painel denominado Começo do extrativismo (Figura 3), confeccionado pelos artistas Nonato, Luís Antônio e Rob
Barbosa com cimento, ferragens e pintura, também foi revitalizado em 2013 mostra seringueiros extraindo
o leite da seringueira, preparando as pelas da seringa e o transporte da mesma na região Amazônia. Considerando o conceito de extrativismo, segundo o dicionário Aurélio o extrativismo caracteriza-se como “uma atividade
produtiva baseada na extração ou coleta de produtos naturais não cultivados (como, por exemplo, madeiras da floresta amazônica)”.
Com base nesse conceito, Santos (2010) destaca que na fase arcaica da Pré-História da Amazônia a população nativa já praticava o extrativismo, uma vez que, o comércio entre eles era intenso através do
escambo. Entretanto, dentro da visão colonizadora o extrativismo na Amazônia não teria iniciado com o comércio da borracha e sim com a coleta das drogas do sertão por volta do século XVII como afirma Santos (2010) no
seu livro História do Amazonas:

De modo semelhante á historiografia tornou conhecida a expressão “drogas do


sertão” para designar um conjunto diversificado de produtos nativos ou
aclimatados existentes na Amazônia do período colonial, que eram extraídos da
floresta pela mão de obra indígena, e comercializados nos mercados europeus.
Foi por volta do século XVII, mais precisamente durante o reinado de D. Pedro II (1667-1706) Portugal empreendeu uma nova política de reerguimento do seu império, as “drogas do sertão” se tornaram
naquele momento a oportunidade econômica que a metrópole precisava para recuperar sua economia e a partir dai a região amazônica passou a ser a fornecedora dessas especiarias.
A palavra começoiniciando o título da obra intitulada: Começo do Extrativismo tem um significado forte, nos levando a compreender dentro da historiografia de que toda atividade econômica na região
amazônica teria tido como ponto de partida o comércio da borracha desenvolvido pelos nordestinos que foram enviados ate a região, contudo é importante dentro de sala de aula orientar nossos alunos para uma
compreensão importante desse fato histórico e aqui nesse painel, há três pontos relevantes que podem e devem ser abordados e discutidos: 1) O significado de extrativismo e comercio dentro do contexto capitalista; 2) A
história linearda atividade econômica dentro da visão colonizadora e 3) A visão do artista e a sua compreensão a respeito do fato histórico.
Se formos analizar a atividade economica na amazonia dentro do contexto capitalista acabaremos deixando de fora uma abordagem historiográfica do intenso comércio realizado pelos povos indigenas na
Amazônia antes mesmo da chegada do colonizador, e ai estaremos difundindo uma ideia linear, e positivista, deixando as minorias (povos indígrenas) e exaltando o papel do branco colonizador como único sujeito historico
capaz de realização de progresso no meio amazônico.
Também é importante analisar a visão do artista, e tentar uma aproximação a respeito de sua compreensão sobre o referido assunto, não se trata de querer encontrar ou impor uma verdade ou mesmo
colocar o autor e sua obra e situação vexatoria, trata-se de uma exploração intelectual que a obra oferece, e os inumeros argumentos, informações, que ela oferece a ponto de enrriquecer o trabalho histórico, pois o oficio
do históriador é esse: dialogar com as fontes e extrair dela o maior numero de informações possiveis.

O painel escultórico denominado “Prédio histórico – antiga prefeitura e cine teatro


Brasil” (Figura 4) foi confeccionado com cimento, ferragens e pintura pelo artista Luís
Antônio. Assim como os outros painéis o mesmo não possui data de produção, mas foi
revitalizado em 2013.
O painel apresenta os Prédios históricos do Palácio Cordovil (Antiga Prefeitura)
e Cine Brasil, localizados no centro da cidade.

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Figura 4:Prédio histórico – antiga prefeitura e cine teatro Brasil

Fonte: Pesquisa de Campo (2014)

Os painéis caracterizam-se como fontes iconográficas carregadas de imaginários e


intencionalidades interligadas ao período histórico em que as obras foram construídas. Tais
obras demonstram as formas de expressão da rica arte parintinense compondo assim o
patrimônio cultural deste município. Para Maffesoli (2001) “A existência de um imaginário
determina a existência de conjuntos de imagens. A imagem não é o suporte, mas o resultado”.
Considerações Finais
O uso de painéis escultóricos no ensino de História configura-se como uma metodologia diferenciada para ser trabalhada no ambiente da sala de aula. As aulas de História podem ter pesquisas voltadas
para a realidade local, apresentando aos alunos períodos da historiografia local que muitas vezes os próprios desconhecem e possibilitando que os discentes conheçam as diferentes interpretações que foram constituídas
sobre fatos da história do município.
Nessa perspectiva, o educador pode organizar suas aulas a partir da utilização de diferentes fontes e levar os alunos a problematizarem, entendendo que a História é dinâmica e que todos somos sujeitos
históricos. Além disso, nos proporciona uma oportunidade de trabalhar a História local através dos registros feitos por pessoas que possuem memórias dos acontecimentos locais, sem formação acadêmica na área de
História, mas que se constituem como colaboradores guardiões da memória relevantes para a prática pedagógica visto que, são fontes presentes no cotidiano do aluno, formando no mesmo uma atitude reflexiva acerca de
sua realidade social.
As análises feitas nos quatro painéis mostram, de modo geral, que os mesmo apresentam uma visão tradicional, positivista, eurocêntrica, perpetuando uma memória coletiva de um determinado grupo
social, mas com esse trabalho pretendemos desconstruir essa visão linear da História, apresentando novas possibilidades de conhecimento do fazer histórico.

Referências

CARVAJAL, Fray Gaspar de. Relación del Nuevo Descubrimiento del famoso Río Grande de
las Amazonas. Relatório do Novo Descobrimento do famoso Rio Grande escrito pelo capitão
Francisco de Orellana. In: GIUCCI, Guilhermo. Frei Gaspar de Carvajal. Edição
bilíngüe.Trad. Adja Balbino Barbieri Durão e Maria Salete Cicaroni. São Paulo: Scritta;
Brasília: Consejería de Educación de la Embajada de España, 1992.
CERQUEIRA, Fábio Vergara. Patrimônio Cultural, Escola, Cidadania e Desenvolvimento
Sustentável. Diálogos, DHI/PPH/UEM, v. 9, n. 1, p. 91-109, 2005
FERREIRA, Maria Letícia Mazzucchi. Patrimônio: discutindo alguns conceitos. Diálogos -
Revista do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História, vol.10,
núm. 3, Universidade Estadual de Maringá, 2006, pp. 79-88. Disponível em:
http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=305526866005
GRUNBERG, Evelina. Manual de atividades práticas de educação patrimonial. Brasília, DF:
IPHAN, 2007.
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história no Amazonas, democracia e desigualdade. Organização: Keith Valéria de Oliveira Barbosa;
Leandro Coelho de Aguiar ... [et al.]. - 1. ed. -- Manaus: Universidade Federal do Amazonas, 2018.
LEMOS, Carlos. O que é patrimônio histórico. São Paulo: Brasiliense, 1981.

MAFFESOLI, Michel. O imaginário é uma realidade. Revista FAMECOS. Porto Alegre, No


15, agosto 2001. Disponível em
http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/revistafamecos/article/view/3123/2395.
Acesso em 29/05/2018.
PAIVA, Eduardo. História & Imagens. Belo Horizonte: Autêntica, 2006.

PINSK, Carla Bassanezi. Fontes Históricas. São Paulo: Contexto, 2005.


SANTOS, Francisco Jorge dos. História do Amazonas. 1ª série, Ensino Médio. Rio de Janeiro: MEMVAVMEM, 2010.
SCHMIDT, Maria Auxiliadora: CAINELLI, Marlene. Ensinar História. São Paulo: Scipione, 2009.
SILVA, Marcos. História: O prazer em ensino e pesquisa. São Paulo: Brasiliense, 2003.

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“PROCURAÇÃO DE NEGROS”
MEMÓRIA, HISTÓRIA ORAL E HISTÓRIA NO MOVIMENTO QUILOMBOLA DO
ANDIRÁ, FRONTEIRA AMAZONAS/PARÁ

JOÃO MARINHO DA ROCHA

Introdução
Este texto versa sobre as relações entre Memória, história oral e História no
movimento quilombola do Rio Andirá, fronteira Amazonas/Pará144. Os trabalhos de produção,
enquadramento e institucionalização de memórias145 deu a tônica aos seus processos sociais e
políticos de lutas por diferenciação étnico-racial. Além de marcar profundamente seus
caminhos pelos reconhecimentos, também acabou produzindo sínteses históricas sobre si.
Fato que os (re)ligou aos mundos do trabalho não livres na Amazônia, sendo auto
reconhecidos como quilombolas em 2013.
Este texto é parte dos estudos para compor tese de doutorado junto ao programa de
pós-graduação “Sociedade e Cultura na Amazônia” - PPGSCA/UFAM sobre os processos de
construção da Identidade e territorialidades quilombolas no Rio Andirá146. Trazemos aqui uma
reflexão acerca das relações entre Memória, história oral e História no movimento quilombola
do Andirá, por diferenciação étnico-racial. O fazemos a partir dos procedimentos da História
Oral (ALBERT, 2011).
Essas comunidades reuniram e ressignificaram, à luz de suas demandas
contemporâneas, as memórias e tradições orais sobre as conexões das experiências de
tetravós, avós, bisavós e pais, com os mundos do trabalho na Amazônia, apontando em certos
casos para fins do século XIX e por todo o século XX, sendo continuamente amplificadas via
agentes externos ali achegados.
A memória oral do Rio Andirá aponta para projetos de identidades. Segundo consta
nas memórias “vivenciadas por tabelas” (POLLACK,1992) naquelas comunidades e
institucionalizadas no movimento quilombola, Benedito Rodrigues da Costa, negro angolano

144
A fundação Cultura Palmares através da Portaria Nº 176, de 24 de outubro de 2013 registrou no Livro de
Cadastro Geral nº 16 e certificou, de acordo com a autodefinição e o processo em tramitação, junto à referida
Fundação que as comunidades Comunidade de Boa Fé, Ituquara, São Pedro, Tereza do Matupiri, Trindade
se definem como remanescentes de quilombo. Ver: Diário Oficial da União. Seção 1. Nº 208, sexta-feira, 25 de
outubro de 2013. Já possuem relatório Antropológico publicado e aguardam processos finais de titulação de seu
território.
145
Para aprofundar isso ver Pollak (1989;1992)
146
Sob orientação da professora Marilene Corrêa da Silva Freitas
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com passagens pelo Pará, por exemplo, promete quando liberto fosse, retornaria àquele rio
para casar-se com a indígena Gerônima Sateré, que conheceu em uma festa no barracão de
sua Mãe, a índia Júlia Sateré, no lugar denominado “Terra Preta”147. Se a promessa ocorreu
de fato, nunca saberemos. Mas, para além dessa indagação fixa, o fato é que as genealogias
dos Castro e Rodrigues produzidas por Siqueira (2016), a partir da memória social partilhada
nas comunidades, indicam ser este casal inter étnico que deu prosseguimento à sua
reprodução física, econômica e sociocultural desde os fins do século XIX até aos que hoje se
auto identificam quilombolas do Andirá.
A memória teve, portanto, papel fundamental para a produção da Nova Identidade
étnico-racial e territorialidades quilombolas no Rio Andirá. É o que aponta e reconhece a
liderança Maria Amélia ao afirmar que foi “a memória das pessoas que fizeram nós ser
reconhecido como remanescente quilombola. Pra nós é uma satisfação imensa, de a nossa
história, que a nossa memória tá sendo valorizada, dentro das entidades que se chama UEA,
dentro da UFAM [...]148.
Tais constatações, como as apontadas pela liderança nos obrigam objetivar e produzir
ferramentas para compreendê-las, em suas e a partir das suas realidades e vozes, a partir de
utilização de metodologias como a História Oral, a qual vem sendo visualizada como “uma
metodologia de investigação social e/ou como instrumento de luta política” (KHOURY, 2012,
p.7). E, não somente, a partir de modelos estatísticos. Para tanto, levam-nos a (re)pensar os
antigos modelos, que não os permitiram existir no pós-abolição no Amazonas, pelo menos em
suas diversidades, enquanto sujeitos históricos que possuem uma memória acerca das suas
trajetórias históricas e sociais. Trajetórias essas que nem sempre estiveram contempladas nos
esquemas disponíveis para explicar a história da presença negra neste Estado do Amazonas no
pós-abolição. Mas que se mostram nestas primeiras décadas do século XXI, apresentando-se
como um desafio à sua compreensão da História que, para tal desafio de compreensão dessa
história do tempo presente, carece de diálogos com outras áreas do conhecimento científico e
principalmente de metodologias que se abram a tais diálogos, como é o caso da já citada
História Oral, pois
Na conjuntura globalizada que vivemos, em que contingentes cada vez
mais numerosos da população vivem processos de desarticulação e de
desenraizamento de modos culturais de viver, de trabalhar, de se

147
Ocupação de maior antiguidade nas memórias do movimento quilombola. Situado entre os atuais quilombos
de Ituquara e Boa Fé. Ainda residem ali algumas famílias, que resistem em “descer de vez” para os núcleos
comunitários, institucionalizados a partir da segunda metade do século XX.
148
Maria Amélia dos Santos Castro. Entrevista. Agosto de 2016. Parintins-AM.
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socializar, a história oral tem se constituído numa prática significativa,


alcançando maior reconhecimento em ambientes acadêmicos,
profissionais e militantes e uma dimensão pública mais ampla.
Praticada nesses ambientes como metodologia de investigação social,
ou como área do conhecimento, e ou/ como instrumento de luta
política, ela tem gerado trabalhos ricos e variados, visibilizando
sujeitos e lugares ocultados e silenciados por esses processos, trazendo
novas questões para o debate. Uma de suas maiores riquezas é a forma
como congrega vários campos de conhecimento e de prática
profissional, ampliando os horizontes de investigação social e da
consciência crítica daqueles que se colocam indagações sobre a
realidades social e histórica. Essa diversidade tem contribuído no
aprofundamento dos debates sobre problemáticas sociais, sobre
metodologias e técnicas de investigação social, tanto quanto sobre
concepções de memória e história e sobre suas mútuas relações
(KHOURY, 2012, p. 7)149.

Optamos por isso, em analisar as produções das identidades étnico-raciais e


territorialidades quilombolas no Rio Andirá, a partir das perspectivas dos próprios sujeitos
sociais envolvidos nesse processo de constituição de “identidades e projetos políticos”150
contemporâneos, com isso, iluminado para o pós-abolição nas fronteiras Amazonas/Pará,
quando tentamos perceber, em seus discursos como sujeitos de direitos, seus protagonismos,
suas ações políticas, os significados de tais ações e para onde apontam no sentido de iluminar
processos históricos e sociais naquela região da Amazônia. Estamos atentos para as relações,
as possibilidades e também eventuais problemas, possibilidades e perspectivas advindas para
a pesquisa a partir do par História e Memória. Especialmente para o fato de que os grupos
sociais, a exemplos dos “novos quilombos" que emergem contemporaneamente, se apropriam
da memória e das possibilidades dela advindas, para produzir suas “sínteses” e perspectivas
históricas. E nesse movimento político, (re)qualificar-se frente o estado

Memória , história oral e história no movimento quilombola do Andirá:possibilidades na


“procuração de negros”151.
As comunidades quilombolas do Rio Andirá, como os “novos quilombos” do Brasil,
conectam-se de inúmeras maneiras, aos processos sociais produzidos e sistematizados no
âmbito das mobilizações dos movimentos sociais das décadas finais do século XX.

149
KHOURY, Yara Aun. Apresentação. In: Portelli. Alessandro. Ensaios de História Oral. [seleção de textos Alessandro
Portelli e Ricardo Santiago; tradução Fernado Luiz Cássio e Ricardo Santiago]. – São Paulo: Letra e Voz, 2010. – (coleção
ideias).
150
ABREU, Marta; DANTAS, Carolina Vianna; MATTOS, Hebe (ORGs). Histórias do pós-abolição no mundo atlântico:
identidades e projetos políticos – volume 3 / organizado por– Niterói: Editora da UFF, 2014. – 7,2 MB ; PDF.
151
Maria Cremilda Rodrigues. Entrevista. 2015. Parintins, AM.
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Mobilizações essas que dentre outras coisas, com suas Ações sociais marcadas por
protagonismos diversos, alargaram conceitos e significações de elementos que até então
impossibilitavam olhares para realidades sociais de centenas de comunidades negras rurais
existentes no Brasil. Muitas das quais com existências de memórias e tradições que entre
outras coisas remetiam aos tempos do cativeiro e ou denunciavam as relações sociais tecidas
por tais sujeitos por todo o pós abolição. Dentre os temas alargados, ressignificados e,
portanto, que receberam novos olhares, estão a memória pública sobre a escravidão, sobre os
sentidos da liberdade conquistada, sobre os marcos e datas comemorativas até então
cristalizadas que passaram a por reapropriações (MATTOS,2006). Tais revisões estiveram
como pautas do movimento negro contemporâneo que a partir das décadas finais do XX,
encampou a questão quilombola como símbolo de lutas do povo negro(MATTOS,2006;
Domingues & Gomes, 2013).
Ocorre que do Rio Andirá, comunidades até então classificadas pelo Estado e
“reconhecidas” regionalmente como “caboclas-ribeirinhas”, passaram a construir mecanismos
de afirmação e diferenciação étnico-racial, como quilombolas. Tal reconhecimento, em linhas
gerais e, apenas para efeito de início desta reflexão, foi marcado, dentre outras questões por:
A) Um despertar para possibilidades de superação das suas condições sociais
contemporâneas precárias e reconhecimento de certas marcas históricas, enquanto grupo
social com trajetória históricas e memória social ligadas aos mundos do trabalho no pós-
abolição no Amazonas. Em outras palavras, num processo social contemporâneo em que se
viram como negros e precisaram aprender a ser quilombola, puxaram por tais memórias,
remetendo-se aos tempos dos “troncos velhos”, como se referem os quilombolas
contemporâneos, ao se referirem aos seus antepassados que teriam adentrado aquele rio em
fins do XIX. Metáfora não apenas registradas no Andirá, mas em outras partes da Amazônia,
como o Oeste Paraense, como registrados por Funes (1995);
B) Muitas lutas internas, materializadas dentre outras coisas, nos conflitos entorno de
quais memórias seriam eleitas para descrever a história oficial do novo grupo étnico. Também
nas lutas extras-locais, especialmente com seus vizinhos fazendeiros, extratores de madeira e
demais intrusos de suas terras tradicionalmente ocupadas pelos “antigos”, como são chamados
os sujeitos das primeiras gerações quilombolas, pelos demandantes contemporâneos;
C) Inúmeros processos contínuos de mapeamentos e de (re)ordenamento de suas
tradições orais, que passaram a ser constantemente politizadas, ressemantizadas e tornadas

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“capital simbólico” nos contextos atuais de luta política e demandas por direitos frente o
Estado brasileiro;
D) Um processo de (re)construção do passado por meio das “memórias do
cativeiro”(RIOS&MATOS 2006), “herdadas por tabela”(POLLAK, 1989;1992) dos “antigos
troncos”. Memória, cuidadosamente reatualizadas nestes tempos presentes de necessidades
por diferenciação étnico-racial e marcação das territorialidades específicas, são também
continuamente materializadas nas práticas socioculturais. Especialmente nas festas, danças e
das sociabilidades, como também nos modos de vida e nas novas formas de acesso e uso do
território, quase sempre referidas às práticas e ideias que, intentam remeter ao passado do
grupo, ali referenciado naquele rio;
E) Um processo constante de (re)configurações das histórias e das trajetórias
familiares dos sujeitos contemporâneos aos mais velhos das comunidades. Pautado, em muito,
nas memórias orais dos velhos que, ainda guardavam as memórias do que aqueles “troncos
antigos” contavam sobre suas vidas e mundos do trabalho na Amazônia. Indicando sempre
suas pretensas origens angolanas e que adentram a região a partir da província do Pará;
F) Conflitos internos e externos, mobilizações políticas e construções de formas
variadas de conhecimentos, a exemplo das práticas socioculturais como as festas populares.
Práticas essas que, ao serem analisadas em seus sentidos e significados, atribuídos pelos seus
organizadores, servissem para afirmar sua nova pertença étnico-racial. Tanto para si mesmos,
como para os demais grupos sociais do Rio Andirá, com os quais, produzem relações sociais.
Os trabalhos de (re)ordenamento de tais práticas socioculturais serviram,
especialmente, para indicar e demandar ao Estado, saídas para suas condições de
vulnerabilidades e exclusão social contemporânea, produzidas ao longo do pós-abolição.
Condições fortemente relacionadas à opressão histórica sofrida pelo grupo social ali
estabelecido, segundoas memórias, há mais de cem anos.
Os processos sociais de (re)tomada dessas informações que, dentre outras coisas,
apontaram para produção de conhecimentos sobre si. Conhecimentos, em muito, advindos
após conflituosos processos de produção de suas sínteses históricas. Marcadas, em muito, por
impasses locais entre as famílias e os grupos que começaram a fomentar disputas dos fios das
memórias dos “troncos velhos” e, das pretensas direções para onde apontariam os indícios de
tais memórias.
Dependendo do seu narrador e do grupo político a que se filiava, tais indícios, geraram
inúmeras formas de narrativas sobre o grupo. Mas todas guardando similaridades entre si,

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especialmente, no que diz respeito aos “troncos velhos”, especialmente a versão oficializada
pela Federação das Organizações Quilombolas do Município de Barreirinha - FOQMB sobre
a centralidade do personagem Benedito Rodrigues da Costa como liderança do grupo que teria
adentrado as águas do Rio Andirá em fins do século XIX.Nisso, as narrativas destoam apenas
quando descrevem sua chegada naquele rio e por conseguintes, apropriações dos espaços e
produção das sociabilidades, solidariedades e territorialidades específicas ao logo do pós-
abolição na Fronteira Amazonas/Pará.
Nesse movimento por diferenciação étnico-racial no Andirá, os sujeitos politizaram e
etnicizaram tais memórias. Oficializando-as e materializando-as nas práticas socioculturais, a
partir da FOQMB, que logo elegeu os “autorizados a falar” (HAMPANTÊ BÂ,2010. p.167) e,
os “guardiões da memória” (GOMES,2003) do cativeiro e da história do grupo. Isto, a nosso
ver, garantiu e pautou, cada vez mais a necessidade urgente de reparações que deveriam ser
materializadas no Andirá para atender aquelas comunidades.
Para tanto, precisaram tais comunidade, construir caminhos para acessos os
dispositivos constitucionais presentes no artigo 68 do Ato das Disposições Constitucionais
Transitórias - ADCT da Constituição de 1988. Com os quais, entraram em contato mais
sistematicamente a partir de 2005, tendo como mediadores privilegiados, pesquisados de
instituições como da Fundação Osvaldo Cruz - FIOCRUZ, Universidades Estadual do
Amazonas - UEA e Federal do Amazonas - UFAM e por último, e talvez o mais decisivo nos
seus processes de materialização de direitos, o Projeto Nova Cartografia Social da Amazônia -
PNCSA.
Estamos falando de Santa Tereza do Matupiri, Boa Fé, Ituquara, São Pedro, Trindade
e outros núcleos associados a tais comunidades (Pagoa, Distrito São Paulo do Açú, São
Marcos e Lírios dos Valle), município de Barreirinha-AM. Comunidades que no início deste
século, a partir de um despertar para sua condição, enquanto “sujeitos de direito”, passaram a
acionar uma memória do cativeiro remontada ao século XIX, que deu sustentação para sua
luta por reconhecimento como comunidades remanescentes de quilombo. Em 2013
conseguiram certificação como tais da Fundação Cultural Palmares-FCP, estando nas etapas
finais de titulação de seu território reivindicado socialmente via movimento social
quilombola. Ao que tudo indica, a memória passou a desempenhar importante papel na
(re)construção de caminhos que os levassem ao “aprender a ser” e a “dizer-se e ser”
(BRANDÃO ET AL., 2010)negros e, por conseguinte, quilombolas no Andirá. Fornecendo com

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isso, também os dispositivos necessários para a nova identificação étnico-racial e


territorialidades específicas quilombolas no Leste do Amazonas.
As análises dos “arquivos de fontes orais" mapeadas nas comunidades, dão conta que
as primeiras estratégias das lideranças do movimento quilombola local, foram marcadas pelo
levantamento das reminiscências dos velhos, que passaram a ser “os guardiões da memória”,
implicando-lhes novos valores às histórias contadas por seus pais, avós e bisavós. Tais
valores, foram logo revestidos com a força da tradição oral. Esta tentativa, ao que percebemos
nas análises do conjunto das memórias catalogadas, os ligou a um passado da escravidão
negra na Amazônia e, a uma origem Angolana, com passagens pela província do Pará.
Legitimando as suas lutas por titulação de suas “terras tradicionalmente ocupadas”, desde o
século XIX, segundo consta nas memórias dos antigos “troncos”, em indícios deixados nos
documentos paroquiais e, oficializada pela FOQMB.
Essa memória do cativeiro, passou então, a servir de base para (re)construção de
modos de ser e viver naquele território tradicionalmente ocupado. Auxiliou principalmente
nos processos de (re)organização da vida cultural das comunidades que, passaram a legitimar
a feitura de festas populares, como o festival de boi-bumbá. Também com a presença de
inúmeras danças, tidas, a partir de então, como tradicionais, como ocorreu com o lundum,
gambá e da onça te pega, para citar a principais, constantemente reordenadas ao longo do
movimento social quilombola. Entram nesses processos de (re)ordenação das práticas
socioculturais, também os cordões de bichos e/ou pássaros como a jaçanã e a garcinha.
Passaram também a dar outros sentidos e configurações às festas de seus santos do
catolicismo popular, como São Sebastião. Observando rigidamente os devidos equilíbrios
entre os tempos dos antigos pretos do Matupiri e os tempos atuais dos reivindicantes por
diferenciação étnico-racial como quilombolas do Andirá.
Elegemos aqui como indicativos daquelas tentativas, observância e equilíbrio, a
(re)estruturação da festa de São Sebastião. Tornado “padroeiro dos quilombolas”, no
processo do movimento social contemporâneo por diferenciação étnico-racial. Celebrado na
antiga “capela da ponta”, local onde existiu um dos primeiros núcleos familiares que deu
origem à comunidade de Santa Tereza do Matupiri, protagonizados pela matriarca Maria
Tereza que ali festejava, a seus modos híbridos, os “seus santos de terreiro”152. Práticas

152
Maria Amélia dos Santos Castro. Entrevista. Setembro de 2017. Quilombo Santa Tereza do Matupiri, rio
Andirá, Barreirinha-AM.
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socioculturais que foram continuadas por seus filhos e filhas153, muitos dos quais como Nézia
e Terezita, mulheres protagonistas de inúmeras “proezas”154 na “Ponta de São Sebastião”e.
Abandonada continuamente após a década de 1960155, mas reordenada continuamente no
movimento quilombola, a partir de 2005 como um dos lugares simbólicos de pertencimentos,
marcadores da Nova identificação étnico-racial e territorialidade específica quilombola no Rio
Andirá. Muitos dos quais indicadores de territorialidades múltiplas, capazes de promover
união dos tempos antigos e novos. Espaços simbólicos e de pertencimentos, que acabaram
servindo como elementos importantes nas lutas políticas das “sementes”156, que produziram
caminhos por meio da memória para acessar os “troncos velhos”157 e, nisso legitimar suas
lutas por reconhecimento. Lembramos que “o fato de que as formas contemporâneas sejam
predominantemente políticas não reduz em nada seu caráter étnico”(BARTH, 2005, p. 37).
Nisso, afirmar suas diferenças frente aos demais grupos sociais locais do Rio Andirá, mas
principalmente frente ao Estado Nacional.
Estamos falando de processos sociais e políticos entorno de (re)classificação social no
Rio Andirá. Como já aludido anteriormente, a partir de um despertar para a suas condições,
enquanto “sujeitos de direitos” previsto no artigo 68 da dos Atos e Disposições
Constitucionais Transitórias da Constituição Federal, os negros desse rio, passaram construir

153
Em 1933, Maria Terezadeslocou-se até o núcleo “Moura” do lado direito do Andirá, onde solicitou batizado
para Manuel xisto, Raimundo xisto, da Nersia, da Terezita, da Maria do Carmo, da Nila e da Usulina. Muitos dos
quais, também batizaram seus filhos. Livro de Batismo Cúria Diocesana de Parintins.
154
Expressão corrente no Rio Andirá entre os quilombolas para referir-se aos trabalhos realizados nos terreiros
pelos grandes curandeiros ou mestres como são conhecidos os homens e mulheres que exerceram suas
manifestações de fé nas fronteiras entre as práticas das religiões de matriz africana, a pajelança indígena e o
catolicismo popular nas profundezas da Amazônia. As informações sobre Nersia e Terezita constam na
entrevista com Maria Amélia dos Santos Castro. Entrevista. Setembro de 2017 em Santa Tereza do Matupiri,
ocasião em que acompanhamos um pesquisador do Projeto Nova Cartografia Social da Amazônia-PNCSA ao
quilombo para lhes comunicar da construção de um Museu de Saberes na referida comunidade. Construído em
local a ser escolhido em assembleia geral, sendo o ponto mais cotado entre as lideranças da Federação a “antiga
ponta”, onde morou Tereza Albina e seus filhos. Dentre os quais, as já mencionadas mestras Terezita e Nersia.
155
Quando após intensa águas grandes, e o considerável aumento populacional, a comunidade expande-se da
ponta para a área mais alta acompanhando o rio Matupiri, onde localiza-se atualmente o “quadro” da
comunidade.
156
Metáfora largamente utilizada nos discursos das lideranças do movimento quilombola do Andirá,
especialmente por Maria Amélia, sendo percebido também em narrativas como a de João Freitas da comunidade
Trindade, para referirem-se à si próprios, enquanto demandantes que buscavam (re)ligar-se historicamente aos
passados de tetravós, bisavós, avós e pais, por eles nominados como troncos velhos. Maria Amélia dos Santos
Castro, Entrevista Realizada em Agosto de 2016, em Parintins-AM, ocasião em que promoveu conferência
“trajetórias do movimento quilombola no Rio Andirá”, para estudantes de História da Universidade do Estado do
Amazonas, Centro de Estudos Superiores de Parintins-UEA/CESP, e professores de História da Rede Estadual
de Ensino-SEDUC, durante o Evento “Diálogos de Saberes I. Universidade e comunidades quilombolas do
Andirá”, promovido pelo Núcleo de Estudos Afro brasileiros CESP/UEA. João Freitas de Castro. Entrevista
realizada em Julho de 2016 na comunidade de Trindade, contexto última audiência pública do Instituto Nacional
de Colonização e Reforma Agrária-INCRA para fechar o relatório de identificação e demarcação do Território
quilombola -RTDI
157
Idem
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ferramentas metodológicas e institucionais, como é o caso de uma “Federação”. Instrumentos


capazes de a acionar, registrar e materializar, “memórias do cativeiro”, remontadas ao final
do século XIX e prepará-los para demandar frente o Estado Brasileiro, que os reconheceu
como grupo étnico quilombolas em outubro de 2013. Esses fenômenos de construção de
novas identificações étnico-raciais e territorialidades específicas quilombolas que se vem
assistindo no Estado do Amazonas, aparecem como que um desafio a ser compreendido.
Dizemos isso, pois, se olharmos às realidades e às condições contemporâneas das inúmeras
comunidades negras rurais amazônicas, principalmente se o fizermos, a partir de observações
atentas aos seus modos de vidas, práticas e processos socioculturais indicados por suas
realidades. São necessários, para tanto, olhares descompromissados com ideias fixas
emprestadas à ciência que costuma pensar a Amazônia. Dizemos fixas, por serem marcadas
por visões “Biologizadas, Geografízadas e Edenizadas” (ALMEIDA,2008 b), sobre as
existências desses grupos sociais. Se assim procedermos, talvez possamos contribuir, por
meio da ciência que hora se produz, para a construção de outros olhares, outras histórias para
as gentes amazônicas. Ciência que pode produzir histórias mais conectadas com as questões
reais, mais relacionadas com as sociedades e com as culturas.
Sociedades e culturas amazônicas diversas, apesar de terem sido historicamente
projetadas em imagens homogêneas e frigorificadas (ALMEIDA,2008 b) e, de estarem
também marcadas pelos processos sociais e históricos de produção de pobrezas e exclusões
extremadas (PINTO, 2008; FREITAS,2009). Muito das quais, resultantes das situações
históricas a que foram e continuam a serem expostas, contra o que, no entanto, lutaram e
lutam continuamente. Aliás, o movimento contemporâneo para diferenciação étnico-racial
indica essa (re)atualização das lutas de todo o século XX por acessar direitos étnicos, sociais e
territoriais naquela fronteira Amazonas/Pará. Lutam, portanto, contra a imagem projetada e
“as representações correntes sobre o povo brasileiro emergida no pensamento social brasileiro
como povo pobre” (PINTO, 2008, p. 107).

Considerações

No exercício de pensar as emergências étnico-raciais contemporâneas no Amazonas, a


partir de metodologias como a História oral, julgamos iluminar para o conhecimento das
táticas desenvolvidas por tais movimentos sociais contemporâneos na Amazônia, palco de
diversos impasses e lutas sociais por direitos de existências de povos e comunidades

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tradicionais como ocorreu/ocorre na Fronteira Amazonas/Pará. Dizemos isso por acreditarmos


que não dá mais para ler a presença negra na Amazônia apenas pelo viés da quantidade
numérica, pois, “aplicado à Amazônia, todo procedimento em busca do conhecimento torna-
se plural” (FREITAS, 2012, p.39). Em nossas pesquisas buscamos não somente considerar os
dados estáticos em si, mas também os múltiplos significados da presença negra. Nesse
sentido, estamos interessados em perceber como a presença negra se articularam aos espaços
e mundo amazônicos e aqui construir novos espaços de liberdades e territorialidades
específicas. As práticas socioculturais e memórias contemporâneas de tais comunidades,
portanto, acabaram/acabam esticando os seus presentes, e nisso os sujeitos acabam
reconstruindo os seus passados a partir de suas demandas políticas contemporâneas,
objetivadas no movimento social quilombola. É nessa “viagem das memórias” que intentamos
conhecer um pouco das histórias desses sujeitos, até pouco tempo classificados como “pretos
do matupiri”. E a partir de 2013 foram (re)classificados como “quilombos do Rio Andirá”.
Fato que segundo Maria Amélia dos Santos Castro, significa que terão “Outros Valores158”,
mais que isso, “seremos tratados diferentes159”. Tal assertiva é uma projeção futura, onde a
liderança esperançosa anseia mais respeito, tanto por parte do Estado, como dos seus
vizinhos.

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158
Maria Amélia dos Santos Castro. Entrevista. Agosto de 2016. Parintins -AM.
159
Idem.
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O DOCUMENTO ARQUIVÍSTICO DIGITAL COMO PATRIMÔNIO


DOCUMENTAL A SER PRESERVADO: CONSIDERAÇÕES ACERCA DO USO DO
E-ARQ BRASIL

JORGE VICENTE BORGES LIRA*

Introdução
Grande parte dos documentos estão em locais de guarda, como arquivos, centros de
documentação, museus e bibliotecas, correndo riscos de deterioração ou destruição por fatores
naturais ou da ação humana, ou falta dela.

No tocante ao sentido orgânico, observa-se que os documentos em determinado


contextual cronológico, tem sua importância em razão de registrar um fato, uma ação, de
relevância para a sociedade. É a memória coletiva e documentada.

A relação entre o documento como peça de acervo a ser considerado como patrimônio
cultural e a sua posição como integrante de um arquivo permanente, sugere que em
determinado tempo passado, este documento não tinha a mesma relevância. Isso nos faz
pensar esta relação nas práticas de registrar informação em suportes de nova geração
tecnológica.

Com os avanços tecnológicos e a criação de outros tipos de suportes, com destaque


para o meio eletrônico digital, observou-se o surgimento de outro cenário.A dinâmica
formatação do modo de registrar informações em um suporte mudou consideravelmente o
tratamento do documento, sendo ele arquivístico ou não, com suas especificidades e
complexidades.

Porém,os documentos arquivísticos digitais encontram-se sob a mesma condição de


risco dos documentos considerados convencionais, devido a instabilidade tecnológica dos
hardwares, softwares e formatos, motivando preocupação com a preservação da memória
digital a longo prazo.

O e-ARQ Brasil é um modelo adotado para a produção ou avaliação de sistemas


informatizados prontos, de gestão arquivística de documentos somente digitais, ou seja, o
próprio documento, e também de documentos digitais e convencionais, ou seja, o registro das
referências em base de dados, os metadados.

*
Universidade Federal do Amazonas – Curso de Arquivologia – Graduando.
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O objetivo do e-ARQ Brasil é de orientar a implantação de um sistema de gestão


arquivística de documentos independente da área de atuação e tipologia documental.

Informação, suporte e documento

É importante fazermos uma referência à informação, suporte e documento, pois são


estes que formam o pilar da cadeia documental, bem como importantes impulsionadores da
criação do arquivo.

Discorrer sobre o tripé informação-suporte-documento, objetiva-se formar ideia das


características que um documento possui no seu interior, ou seja, um conteúdo, uma
mensagem, uma informação, e que este documento necessita estar montado, escrito, apoiado
em um suporte.

As ações humanas ao longo da história produziram e produzem quantidade


significativa de informações, que servem de prova e testemunho dessas ações em um
determinado tempo e lugar.

A Ciência da Informação, em linhas gerais, explica que: Informação é um conjunto de


dados sistematicamente dispostos que referencia um evento ou um fato. É um fenômeno
humano emitido e recebido no contexto de suas ações.

No contexto da arquivologia a informação é reconhecida como objeto, no sentido


orgânico, conforme explica Lousada (2011, p. 21),
A informação orgânica é por natureza arquivística, pois é fruto das ações da
organização/instituição. Contudo, a informação arquivística nem sempre é orgânica,
no sentido de que não foi necessariamente produzida no interior de uma determinada
organização, isto é, pode ter sido produzida em ambientes externos à organização.

A informação arquivística manifesta-se na produção ou recebimento, no exercício das


atividades de uma organização física ou jurídica, públicas ou privadas. Nas instituições
públicas, por exemplo, é produzida ou recebida no desempenho das atividades administrativas
ou jurisdicionais, podendo ainda ser originada por motivos funcionais, administrativos ou
legais. Por conseguinte, da informação surge o documento, este funcionando com o seu
suporte, fazendo transmitir assim uma ideia ou mensagem.

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A ideia de suporte é a concepção de guardar informação “eternamente” segura, íntegra


e acessível. O suporte é o meio físico que serve de base para a materialização de uma
informação.

O documento por sua vez, é o resultado da produção de informação com sentido


contextual. Todo documento é uma fonte de informação.

Ao se formar a ideia que, documento é informação registrada em um suporte, logo, a


ideia de “documento de arquivo” dá ao documento “comum” particularidades, características,
que o conceituam como “arquivístico”.

Observa-se que, três condições são necessárias para que se reconheça um documento
como sendo arquivístico. A primeira condição, é que deve estar escrito, ou afixado, num
suporte com uma determinação de suas funções e relações formais. A segunda condição, é
que deve possuir um elo, um conteúdo, com um acontecimento relacionado ao contexto no
qual é produzido. E a terceira condição, é possuir uma forma, isto é, uma configuração física,
conforme normas pré-fixadas.

Vale salientar que, o que faz um documento ser considerado um documento


arquivístico não é o tipo de suporte, e sim, as razões para as quais o documento foi criado.

Os documentos considerados, de arquivo, ainda que possam apresentar aspectos


diferentes na sua forma, isto é, no suporte em que a informação está registrada, possuem
características que os diferenciam de outros documentos que podem conter informações de
valor científico, histórico e cultural.

Além dessas características de sentido, os documentos de arquivos apresentam


características quanto a sua autenticidade. Estas características se apresentam de forma
isolada, porém devem estar em conjunto no documento, para que um documento autêntico
seja íntegro e fidedigno.

Partindo dessa ideia, a informação produzida e guardada em equipamento eletrônico, é


um “documento eletrônico”, ou seja, é todo registro que tem como meio físico um suporte
eletrônico. Segundo Rondinelli (2002, p.130), documento eletrônico,

é o documento processado por meio eletrônico, em formato digital. Entretanto, há


outros documentos que, embora não sendo digitais, são processados

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eletronicamente. É o caso das fitas de áudio e eletromagnéticas analógicas, que


também podem ser entendidas como documentos eletrônicos.

Vale salientar que, o que dá sentido ao documento, ou seja, a cadeia de dados contidas
no documento, é a sua representação, seu sentido e significado em relação ao conjunto
documental.

Os documentos eletrônicos e os convencionais, possuem os seguintes elementos


característicos entre si: Suporte, conteúdo, forma (ou estrutura), ação, pessoas, relação
orgânica e Contexto.

Salientamos como reforço, que novos conceitos profusos em decorrência de


documentos tendo como seu suporte, o suporte eletrônico, estes documentos também devem
conservar as características dos documentos convencionais, entre elas, razão, sentido e forma
definida, conservando-se a integridade, autenticidade e fidedignidade.

E-ARQ Brasil

Desenvolvido em razão da existência de um significativo patrimônio documental


produzido em formato digital, o eARQ Brasil ao longo do tempo vem sendo tratado por
especialistas interdisciplinares, entre os quais, os das áreas de arquivologia e de tecnologia da
informação, que têm como tarefa principal, conceituar o documento arquivístico e o
documento arquivístico digital para construir e propor soluções mediante os desafios impostos
por este formato.

O e-ARQ Brasil foi publicado por meio das Resoluções do CONARQ de nº 25, de 27
de abril de 2007, e pela Resolução nº 32, que dispõe sobre a inserção dos Metadados na sua
Parte II.

De acordo com o (CONARQ, 2011, p.9), o e-ARQ Brasil é


uma especificação de requisitos a serem cumpridos pela organização
produtora/recebedora de documentos, pelo sistema de gestão arquivística e pelos
próprios documentos, a fim de garantir sua confiabilidade e autenticidade, assim
como sua acessibilidade. Além disso, o e-ARQ Brasil pode ser usado para orientar a
identificação de documentos arquivísticos digitais.

O e-ARQ Brasil é um modelo adotado para a produção ou avaliação de sistemas


informatizados prontos, de gestão arquivística de documentos somente digitais, ou seja, o

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próprio documento, e também de documentos digitais e convencionais, ou seja, o registro das


referências em base de dados, os metadados.

Para melhor ilustrar, consideremos o primeiro caso, o documento somente digital


quando a sistematização do mesmo acontece desde sua produção, o nato-digital, ou seja,
nasce digital, “morre” digital em forma de registro em base de dados. No segundo caso,
consideremos um mixer. O documento nasce “físico”, passa por processo eletrônico digital
(digitalização) e seus dados são registrados em base de dados (metadados).

O objetivo do e-ARQ Brasil é de orientar a implantação de um sistema de gestão


arquivística de documentos na administração pública (federal, estadual ou municipal) ou
empresas privadas independente da área de atuação e tipologia documental, para criação ou
aquisição de umSIGAD.

O CONARQ (2011, p. 10) definiu o SIGAD como:


É um conjunto de procedimentos e operações técnicas, característico do sistema de
gestão arquivística de documentos, processado por computador. Pode compreender
um software particular, um determinado número de softwares integrados, adquiridos
ou desenvolvidospor encomenda, ou uma combinação destes. O sucesso do SIGAD
dependerá, fundamentalmente, da implementação prévia de um programa de gestão
arquivística de documentos.

O e-ARQ Brasil observa a fundamental importância dos sistemas eletrônicos


gerenciadores de documentos se fundamentem nos conceitos arquivísticos para assegurar as
características de confiabilidade e autenticidade destes documentos.

Instrumentos utilizados na gestão arquivística de documentos

São necessários vários instrumentos de apoio aos procedimentos e operações técnicas


de gestão arquivística de documentos, definidos em instrumentos principais e adicionais
conforme o CONARQ (2011, p.36):
Instrumentos principais
 plano de classificação, codificado ou não, baseado nas funções e
atividades do órgão ouentidade;
 tabela de temporalidade edestinação;
 manual de gestão arquivística dedocumentos;
 esquema de classificação referente à segurança e ao acesso aos
documentos.

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Instrumentos adicionais
 glossário;
 vocabuláriocontrolado;
 tesauro.

Plano de classificação e código de classificação

A classificação é o principal procedimento de organização de um arquivo. É uma


atividade física e intelectual que se destina a agrupar os documentos hierarquicamente entre
classes e subclasses, conforme as funções e atividades de seu produtor, de maneira sistemática
e compreensível através de códigos (numéricos ou alfanuméricos).

Segundo o CONARQ (2011, p.36),


Um plano de classificação é um esquema de distribuição de documentos em classes,
de acordo com métodos de arquivamento específicos, elaborado a partir do estudo
das estruturas e funções de uma instituição e da análise do arquivo por ela
produzido.

Tabela de temporalidade edestinação

A Tabela de Temporalidade é um instrumento onde são definidos os prazos para a


destinação dos documentos, por terem cumprido os valores arquivísticos previstos, de acordo
com a codificação estabelecida no Plano de Classificação.

Sobre a tabela de temporalidade, o CONARQ (2011, p.37) afirma que:


A tabela de temporalidade e destinação deve contemplar as atividades-meio e as
atividades-fim. Sua estrutura básica deve apresentar os seguintes itens:
 identificador de classe;
 prazos de guarda nas fases corrente eintermediária;
 destinação final (eliminação ou guardapermanente);
 observações necessárias a suaaplicação.
 Deve-se elaborar um índice alfabético para agilizar a localização dos assuntos no
plano ou código e natabela.

Observamos que a tabela de temporalidade determina o período do documento no


arquivo corrente e intermediário, onde findo este prazo, é realizada sua eliminação ou

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recolhimento ao arquivo permanente onde serão preservados considerando-se seu valor como
fonte para a história ou probatório para ainstituição.

Manual de gestão arquivística dedocumentos

O manual de gestão arquivística de documentos é um conjunto de procedimentos e


regras que determinam as orientações desde a produção até a destinação final dos documentos
orgânicos, para a condução das atividades da instituição.

Esquema de classificação de acesso e segurança

O esquema de classificação de acesso e segurança tem por finalidade definir as


permissões de acesso por perfis de usuários do sistema de gestão arquivística desde a
produção até a destinação final dos documentos. Segundo o CONARQ (2011 p.38) “é a
definição das categorias de usuários e das permissões de acesso e uso do sistema de gestão
arquivística para produção, leitura, atualização e eliminação dos documentos.”. As restrições
adotadas aos documentos devem estar de acordo com legislação vigente.

Glossário

A princípio, glossário é um conjunto de conceitos essenciais de um determinado


campo de ação. Atualmente já existem processos organizados, lógicos e sistemáticos para
transformar glossários em ontologias, léxicos computacionais e terminologias de qualquer
ramo tecnológico. Conforme o CONARQ (2011, p.38),

Glossário é um vocabulário afeito a uma área específica do conhecimento, que


envolve definições conceituais, dispostas em ordem alfabética. Num glossário, os
termos não guardam relações entre si. Um glossário pode estar anexo ao plano de
classificação e à tabela de temporalidade e destinação, bem como ao manual
degestão.

Vocabulário controlado

É uma representação de categorias sob uma forma hierárquica.

Para o Dicionário Brasileiro de Terminologia Arquivística (2005, p.174), vocabulário


controlado é “conjunto normalizado de termos que serve à indexação e à recuperação da
informação.”.

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O termo indexação indica o processo utilizado para representar o documento com


palavras-chaves ou descritores, possibilitando a recuperação da informação.

Tesauro

Tesauros são vocabulários controlados, semanticamente relacionados, formados por


termos, organizados por temas, que definem a terminologia de um domínio do conhecimento
e são utilizados principalmente para indexar e recuperar informações por meio de seu
conteúdo.

Os termos estão divididos em descritor e não-descritor. O descritor é aquele que


representa um único significado, uma interpretação, um conceito; não ambíguo. O não-
descritor ou remissivo, é aquele que remete a um descritor e é ligado por uma relação de
equivalência.

Nesse sentido o CONARQ (2011, p. 38) define tesauro como,


uma lista controlada de termos ligados por meio de relações semânticas,
hierárquicas, associativas ou de equivalência que cobre uma área específica do
conhecimento. Em um tesauro, o significado do termo e as relações hierárquicas com
outros termos são explicitados.

O tesauro é fundamentado na ideia de se utilizar um vocabulário controlado para a


indexação e busca da informação. A normalização terminológica dos vocabulários de
indexação proporciona clareza na pesquisa documental.

Especificação de requisitos para um SIGAD:

O eARQ Brasil apresenta um conjunto de requisitos que obedecem um formato padrão


de sistemas computacionais para gestão de documentos de arquivo conforme apresentados no
item anterior. Estes requisitos obedecem aos métodos procedimentais empregados para uma
gestão de documentos eletrônicos. Vale salientar, como reforço, que todo o processo faz parte
da essência da gestão documental.

As especificações de requisitos para sistemas informatizados de gestão arquivística de


documentos (SIGAD) e seus aspectos de funcionalidade estão subdivididos nas seguintes
classes principais conforme o CONARQ (2011), compiladas a seguir:

Organização dos documentos arquivísticos: plano de classificação e manutenção dos


documentos.
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A organização dos documentos arquivísticos é feita com base num plano ou código de
classificação. Tal instrumento constitui-se no núcleo central de qualquer SIGAD. Por meio
dele, são estabelecidas a hierarquia e a relação orgânica dos documentos, devidamente
demonstradas na forma como eles são organizados em unidades de arquivamento.

Tramitação e fluxo de trabalho.

Os requisitos desta seção tratam apenas dos casos em que o SIGAD inclui recursos de
automação de fluxo de trabalho (workflow). Eles abrangem funções para controle do fluxo de
trabalho e atribuição de metadados para registro da tramitação dos documentos, incluindo-se o
status do documento (minuta, original ou cópia).

Captura.

A captura consiste em declarar um documento como documento arquivístico ao


incorporá-lo num SIGAD por meio das ações de registro, classificação, indexação, atribuição
de metadados e arquivamento.

A captura do documento convencional será realizada pelo SIGAD por meio das
atividades de registro, classificação e indexação. O arquivamento será feito da forma
apropriada ao suporte, formato e tipo de documento.

Avaliação e destinação.

No contexto de um SIGAD, a avaliação dos documentos refere-se à aplicação da


tabela de temporalidade e destinação de documentos. Essa tabela define o prazo pelo qual os
documentos têm que ser mantidos em um SIGAD e a destinação dos mesmos após esse prazo,
ou seja, recolhimento ou eliminação.

Um SIGAD deve ter capacidade de exportar documentos para apoiar as ações de


transferência e recolhimento de documentos, ou ainda para realizar uma migração ou enviar
uma cópia para outro local ou sistema.

A eliminação de documentos arquivísticos deve ser realizada de acordo com o previsto


na tabela de temporalidade e destinação de documentos, após a avaliação dos documentos e
de acordo com a legislação vigente.

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Os documentos arquivísticos convencionais e os híbridos gerenciados pelo SIGAD


devem ter os procedimentos de avaliação e destinação controlados pelo SIGAD, da mesma
forma que os documentos digitais.

Pesquisa, localização e apresentação dos documentos.

Um SIGAD precisa prover funcionalidades para pesquisa, localização e apresentação


dos documentos arquivísticos com o objetivo de permitir o acesso a eles.

Todas essas funcionalidades têm de ser submetidas aos controles de acesso descritos
na seção Segurança.

A pesquisa é o processo de identificação de documentos arquivísticos por meio de


parâmetros definidos pelo usuário com o objetivo de confirmar, localizar e recuperar esses
documentos, bem como seus respectivos metadados.

Um SIGAD pode conter documentos arquivísticos com os mais diversos formatos e


estruturas, e deve ter a capacidade de apresentar esses documentos ao usuário sem adulterá-
los, seja exibindo-os na tela do computador, imprimindo ou emitindo som.

Segurança

Esta seção contém um conjunto de requisitos para serviços de segurança: cópias de


segurança, controle de acesso (tanto baseado em papéis de usuário como em grupos de
usuários), classes de sigilo, trilhas de auditoria de sistemas, criptografia para sigilo, assinatura
digital e marcas d’água digitais.

As cópias de segurança têm por objetivo prevenir a perda de informações e garantir a


disponibilidade do sistema. Os procedimentos de backup devem ser feitos regularmente e pelo
menos uma cópia deve ser armazenada, preferencialmente off-site.

Além dos requisitos de autoproteção, o SIGAD deve interagir com outros sistemas de
proteção, tais como antivírus, firewall e anti-spyware.

Os documentos arquivísticos completos não podem, em regra, ser alterados e


eliminados, exceto no término do seu ciclo de vida num SIGAD. No entanto, os
administradores podem precisar apagar documentos arquivísticos para corrigir erros de

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usuário (p. ex., declarar documentos de arquivo no dossiê/processo errado) ou para cumprir
requisitos jurídicos no âmbito da legislação sobre proteção de dados.

Armazenamento

A estrutura de armazenamento em um SIGAD deve fazer parte de uma arquitetura


tecnológica que permita a preservação e a recuperação de longo prazo dos documentos
arquivísticos. Por isso, essa estrutura deve abrigar os documentos, seus metadados, os
metadados do sistema (informações sobre segurança, direitos de acesso e usuários, entre
outros), trilhas de auditoria e cópias de segurança. Do ponto de vista físico, tais informações
residem em dispositivos de armazenamento eletrônicos, magnéticos e ópticos.

Os dispositivos de armazenamento de um SIGAD e os documentos neles armazenados


devem estar sujeitos a ações de preservação que garantam sua conservação de longo prazo.

Preservação

Exatamente como no caso dos documentos convencionais, a preservação de


documentos arquivísticos digitais não é um fim em si mesmo. Antes possui um propósito que
deve ser considerado na definição e implementação das estratégias de preservação. A razão
para se preservar um determinado documento pode ser seu valor probatório e/ou informativo.

Conformidade com a legislação e regulamentações

Um SIGAD tem que cumprir a legislação e as regulamentações vigentes. Setores de


atividades distintos apresentam requisitos legislativos e regulamentares diferenciados. Sendo
assim, todos os requisitos desta seção são genéricos e têm que ser adaptados à realidade de
cada órgão produtor de documentos arquivísticos.

Usabilidade

Um sistema de software com boa usabilidadedeve apoiar a realização de tarefas


simples, diretas e objetivas, que garantam as metas de produtividade e qualidade de trabalho
do usuário. Se os usuários de um SIGAD encontrarem inúmeras dificuldades de operação, sua
efetiva implantação pode fracassar, ocasionando desperdício de recursos.

Interoperabilidade

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A adoção de regras e padrões de comunicação já consolidados permite a consulta entre


sistemas heterogêneos sem que o usuário perceba as operações envolvidas, convergindo para
uma relação sinérgica entre as partes.

Disponibilidade

Os requisitos de disponibilidade devem ser especificados pelo administrador do


SIGAD de acordo com o nível de serviço a ser fornecido. Por exemplo, os períodos previstos
de atendimento (“8x5” indica oito horas por dia útil, “24x7” indica atendimento contínuo),
bem como o tempo máximo tolerável em interrupções previstas. O grau de disponibilidade a
ser estabelecido deve levar em conta fatores como as regras de negócio da organização, a
necessidade de realização de backup, manutenções planejadas, entre outros.

Desempenho e escalabilidade

Os requisitos de desempenho enfocam a eficiência no atendimento aos usuários, de


acordo com suas expectativas quanto ao tempo de resposta. Os tempos de resposta são
influenciados por fatores externos ao SIGAD, como, por exemplo, infraestrutura de rede,
volume de tráfego de dados e dimensionamento dos servidores e estações de trabalho.

Em um SIGAD, entende-se escalabilidade como a capacidade de um sistema


responder a um aumento do número de usuários e do volume de documentos arquivísticos,
mantendo o desempenho de suas respostas.

Para tanto, faz-se necessário que a cada aumento de hardware corresponda um


aumento de desempenho.

Considerações finais

Ao abordarmos os fundamentos arquivísticos dos documentos ditos convencionais e


eletrônicos digitais, a visão proposta quanto a preservação dos documentos se dá através de
métodos diferentes quanto ao tratamento físico entre ambos, porém a intencionalidade do
trabalho foi construir pensamento no sentido orgânico. Os métodos são similares, o que muda
é a ferramenta devido a constituição do suporte.

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O eARQ Brasil foi elaborado com o objetivo de construir procedimentos através de


requisitos para manter a autenticidade, integridade, fidedignidade e acesso aos documentos
eletrônicos digitais.

Com o tratamento adequado para estas novas formas de registrar e preservar


informações, conservando-se os princípios, funções e metodologias arquivísticas, estes
registros, documentos eletrônicos digitais, de alguma forma poderão ser considerados como
patrimônio documental?

Neste sentido, os documentos eletrônicos digitais são tratados da mesma forma pela
gestão documental dos documentos tradicionais, consequentemente podendo tornar-se peças
integrantes do acervo permanente, diante da sua relevância, integrante do patrimônio
documental cultural.

Em razão do tempo de uso das tecnologias para registrar documentos em banco de


dados através de ferramentas (softwares), existem raros exemplos de como estes documentos
se consideraram como patrimônio cultural.

Referências

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de Janeiro: Arquivo Nacional, 2005.
BELLOTTO, Heloisa Liberalli. Arquivos permanentes: tratamento documental, 4. ed., Rio de
Janeiro: Editora FGV, 2006, 320p.
BELLOTTO, Heloisa Liberalli. Arquivo: estudos e reflexões. Belo Horizonte: Ed. da UFMG,
2014.
CONSELHO NACIONAL DE ARQUIVOS – CONARQ, Glossário – Câmara Técnica de
Documentos Eletrônicos – CTDE. 5.1 versão. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2010.
E-ARQ Brasil, Modelo de requisitos para sistemas informatizados de gestão arquivística de
documentos. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2011.
LE COADIC, Yves-François. A ciência da informação. Brasília,DF: Briquet de
Lemos/Livros, 1996.
LEI No 8.159, DE 8 DE JANEIRO DE 1991. Dispõe sobre a política nacional de arquivos
públicos e privados e dá outras providências.
LOPEZ , André Porto Ancona. Princípios arquivísticos e documentos digitais , Brasília:
UNB, Arquivo Rio Claro - n. 2 - 2004.
LOUSADA, Mariana. Informação orgânica como insumo estratégico para a tomada de
decisão em ambientes competitivos / Mariana Lousada. – Marília, 2011. 250 p., 30 cm.
Dissertação (Mestrado em Ciência da Informação) – Faculdade de Filosofia e Ciências,
Universidade Estadual Paulista, 2010.
PAES, Marilena Leite. Arquivos: teoria e prática. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2004. 228 p.
249
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Leandro Coelho de Aguiar ... [et al.]. - 1. ed. -- Manaus: Universidade Federal do Amazonas, 2018.

RONDINELLI, Rosely Curi. Gerenciamento Arquivístico de Documentos Eletrônicos: uma


abordagem teórica da diplomática arquivística contemporânea. 3. ed. Rio de Janeiro: FGV,
2005. 158 p.
RONDINELLI, Rosely Curi. O documento arquivístico ante a realidade digital: uma revisão
conceitual necessária. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2013. 280.

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MONTEIRO LOPES, O DESEMBARGADOR E O BISCOITO.


JUAREZ CLEMENTINO DA SILVA JR.*

O presente texto foi originalmente elaborado para compor parte da minha dissertação
de mestrado, sobre Manoel da Motta Monteiro Lopes, pernambucano, Advogado e o primeiro
Deputado Federal negro e com discurso afirmativo do Brasil, representante do então Distrito
Federal e falecido em 1910 no Rio de Janeiro. No entanto, o texto não pode ser aproveitado
dado o caráter monográfico do trabalho. Na verdade já é um novo desmembramento de texto
mais amplo, que trata de 150 anos da história de protagonismos de uma incomum família
negra de nome Monteiro Lopes originária de Pernambuco, incluindo e principalmente, o seu
ramo amazônico, fundado por José Elias Monteiro Lopes, irmão mais velho do já citado
Deputado Manoel da Motta Monteiro Lopes. José Elias lá pelo início da República deixou
Recife e se radicou no estado Pará, onde advogou e depois foi juiz, teve seis filhos, entre eles
o nosso agora protagonista Agnano de Moura Monteiro Lopes. Hoje o ramo amazônico dos
Monteiros Lopes está disperso parcialmente para o Rio de Janeiro e fora do país, mas ainda
presente na Amazônia.
Iniciamos pois uma curta biografia do paraense Agnano de Moura Monteiro Lopes,
que foi Juiz assim como o pai, entremeada da curiosa história do biscoito paraense que leva o
nome da família.
Agnano nasceu em Belém do Pará em 1910 e chegou a Desembargador e Presidente
do Tribunal de Justiça do Pará 160. Ficou orfão de pai aos 11 anos de idade. Com isso, o então
adolescente Agnano e toda a família tiveram uma brusca queda do padrão de vida, segundo
conta sua filha Vera Lúcia Monteiro Lopes Leite 161, as coisas não ficaram fáceis, Agnano foi
jornaleiro, depois, através de uma oportunidade surgida por conta de sua facilidade com o
texto, começou a escrever para a Folha do Norte, de Belém, ajudando assim na subsistência
familiar e na manutenção dos estudos.
Se formou em Direito aos 20 anos, segundo seu perfil biográfico publicado em
homenagem póstuma pelo TJPA-Tribunal de Justiça do Pará (PARÁ, 2001) foi nomeado no

*Mestre em História Social pela Universidade Federal do Amazonas, juarez_silva@hotmail.com .


160 Trecho do prefácio de publicação do TJPA: O nosso homenageado nasceu em 17/11/1910, isto é, no
século passado, nesta cidade de Belém do Pará, filho do casal pernambucano aqui radicado, de invejável
envergadura moral e conduta ilibada, predicados esses, absorvidos pelo eminente Desembargador Agnano
Moura Monteiro Lopes, em sua trajetória como juiz. Urge inserir que, José Elias Monteiro Lopes genitor do
homenageado, exerceu também a magistratura neste Estado, profissão que deve ter concorrido na formação à
carreira escolhida. Ver ( PARÁ, 2001)
161 Informações prestadas pela filha Vera Lúcia Monteiro Lopes Leite, em entrevista em Manaus no dia
19/03/2016.
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mesmo ano para Juiz Substituto na distante Comarca de Faro, divisa com o Amazonas,
prestou concurso para Promotor público, sendo aprovado e nomeado para Muaná, em 1933
aos 22 anos assumiu a promotoria em Marabá, comarca instalada em 1914 por seu pai, o Juiz
José Elias, que hoje dá nome ao fórum local.
Fig. 01- Capa da publicação, homenagem póstuma

Fonte: foto sobre arquivo pessoal de Vera Lúcia Monteiro Lopes Leite

Em 1935 é tranferido a pedido para Igarapé-Miri, em 1936 retorna a Marabá e 1939


segue para Macapá, que na época, junto com o restante do atual estado do Amapá ainda fazia
parte do Estado do Pará, prestou então concurso para Juiz, sendo aprovado e classificado em
primeiro lugar, permanecendo como Juiz em Macapá até 1941, quando é então removido para
Igarapé-Miri. Em 1960 é nomeado Desembargador do TJPA. Foi empossado presidente do
Tribunal em fevereiro de 1968, o presidindo até 1975.
A partir do relato de sua filha Vera Lúcia Monteiro Lopes Leite, foi possível
acrescentar algumas informações muito interessantes a essa história. Agnano se casou

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com Laura Borges, de família portuguesa, que acrescentou ao nome o Monteiro Lopes,
tiveram 4 filhos, Mário Juracy, Carlos Jurandir, Rodrigo Otávio e Vera Lúcia.

Fig. 02 – Casal Laura e Agnano Monteiro Lopes

Fonte: Arquivo familiar de Vera Lúcia Monteiro Lopes Leite

Uma pausa no fluxo oficialesco da história, para narrar e esclarecer uma outra história
que tem muito a ver com uma já tradição muito cara à cultura paraense, em especial a de
Belém. Agnano e Laura se conheceram muito jovens, ela do município de Breves-PA, foram
56 anos de casamento.
Antes disso porém, como já dito, na adolescência a situação da família de Aganano
não era das melhores, muitos esforços foram feitos visando a formação de todos os filhos, a
família portuguesa da adolescente Laura, não aceitava o romance com o jovem negro, que
pouco adiante aos 20 anos se tornaria bacharel e pouco depois Juiz Substituto.
Por preconceito, a família a expulsou de casa, a mãe de Agnano, D. Julia, diante de tal
situação lhe deu guarida. É a partir desse fato que surge uma tradição muito popular em
Belém do Pará, o biscoito Monteiro Lopes.

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Fig. 03- Biscoito Monteiro Lopes

Fonte: Composição a partir de Cacauverde.com e Tipicas.com.br

Em Belém do Pará é muito popular e comum nas festas um tipo de confeito, um


biscoito conhecido por Monteiro Lopes, pela Internet é comum encontrar receitas e video-
receitas da delícia, assim como uma versão para seu surgimento:
Monteiro Lopes é uma espécie de biscoito preparado em massa delicada e
crocante, além de conter uma cobertura com chocolate empanada em açucar
cristal. É um biscoito típico do Norte do Brasil. O nome “Monteiro Lopes”, é
uma homenagem à família que criou a receita. Emiliana Moraes, paraense, conta
a seguinte história: Entre 1850 e 1890, em Santa Maria de Belém do Grão Pará,
existiam duas padarias: uma na Oriental do Mercado Ver o Peso e a outra na
Ocidental do mesmo mercado (antiga Cidade Velha, bairro de Belém do Pará).
Uma era proprietária de Manuel Monteiro, um mulato e a outra de Antônio
Lopes, um português. Eram concorrentes e, por tradição, cada um produzia um
biscoito de cores e paladares diferentes. Os filhos de ambos, após a morte dos
pais, se casaram e deixaram de ser concorrentes, juntando cores e sabores num só
biscoito, nascendo assim o Monteiro Lopes. Conta Emiliana que quem lhe contou
esta história foi Lima Josué, professor de História e Ciência da Religião
(BISCOITINHOS, 2012)

Invariavelmente é essa mesmíssima versão que aparece em todas as ocorrências retornadas de


busca web, exceto por uma, publicada no Diário do Pará e replicada no site do Tribunal de
Justiça do Pará, que atribui a origem do nome relacionando com o Desembargador Agnano
Monteiro Lopes, afirmando que seria consequência do antigo costume de se referir
‘elogiosamente’ a pessoas negras consideradas ou de proeminência como ‘negro de alma
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história no Amazonas, democracia e desigualdade. Organização: Keith Valéria de Oliveira Barbosa;
Leandro Coelho de Aguiar ... [et al.]. - 1. ed. -- Manaus: Universidade Federal do Amazonas, 2018.

branca’ (MENEZES,2013), já que a aparência do biscoito, conteúdo branco envolvido por


uma cobertura cor de chocolate, sugeriria a mesma situação.Não localizamos fonte alguma
que validasse a primeira versão, o professor citado existe, mas não é memorialista, nem
publicou nada a respeito, portanto a informação passada à citada aluna parece ter sido em
carater anedótico, mera reprodução do tipo “lenda urbana”, quanto a segunda, de início
imaginávamos a mais plausível, no entanto entrevistando a filha do desembargador, surge a
terceira versão, muito mais lógica e verossímil, tendo inclusive sido informada e publicada no
site do TJPA:
O TJ-PA foi o primeiro tribunal brasileiro a ter um negro presidente, em 1968,
com o desembargador Agnano de Moura Monteiro Lopes, filho de escravos.(sic)
Jovem, se enamorou de uma moça branca portuguesa, cuja a família, a princípio,
não aceitava o casamento. Acabaram se casando na Igreja da Trindad. Em
homenagem a esse amor que superou preconceitos, uma doceira amiga da mãe de
Agnano batizou o biscoito “Monteiro Lopes” com o nome do magistrado, já que
o doce é formado por uma metade preta e outra branca, simbolizando a união das
raças. Dessa união nasceram cinco filhos. GRIFO NOSSO (PARÁ, 2014)

Com alguns erros, possivelmente de interpretação por quem colheu a informação,


como o fato de ser filho de escravos, quando de fato não era, tanto os pais quanto os avós
eram livres, é praticamente a mesma versão que nos contou D. Vera Lúcia, filha do
Desembargador Agnano, acrescentando que quando menina, viu muito a avó Júlia envolvida
com o preparo dos docinhos, e que a mesma explicava que as cores simbolizavam a união
dois pais e que ‘o branco não se separa do preto, tem que estar juntos para sempre’.
Aliás, a primeira versão parece ser apenas uma deturpação dessa última, pois guarda
elementos semelhantes, como famílias negra e portuguesa, preconceito/antagonismo, filhos
que se enamoram e depois casam formando um casal interracial.
Esclarecida essa interessante questão, retornamos ao fluxo da narrativa biográfica.
Seguindo a tradição familiar de excepcionalidades, pioneirismos e protagonismos, o
Desembargador Agnano de Moura Monteiro Lopes, foi o primeiro negro presidente de um
Tribunal de Justiça no país (PARÁ, 2014). Segundo informou sua filha Vera Lúcia, ao
assumir em 1968 a presidência do TJPA, também passou a assumir esporádica e
extraordinariamente o governo do Pará em impedimentos do Governador Alacid Nunes.
Foi na sua gestão em 1970 que o TJPA teve pela primeira vez sede própria, e em 1971
foi inaugurado o Museu do TJPA, o primeiro museu judiciário do Brasil.

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Fig. 04 – Des. Agnano, recepcionando o Presidente da República,


Gen. Emílio Garrastazu Médici em sua visita a Belém em 1971

Fonte: Arquivo familiar de Vera Lúcia Monteiro Lopes Leite

O Desembargador Agnano de Moura Monteiro Lopes se aposentou em 1.977 e faleceu


em 02 de maio de 1994, aos 84 anos de idade, passadas 4 décadas de seu afastamento do
TJPA ainda é lembrado e festejado, o auditório do Tribunal leva seu nome, sua imagem e
nome ainda tem apelo midiático, em 2014, na comemoração dos 140 anos do Tribunal de
Justiça do Estado do Pará foi homenageado, recebendo postumamente a medalha
comemorativa (AGÊNCIA PARÁ, 2014).

Fig 05 – Des. Agnano Monteiro Lopes, vivo na memória

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Fonte: Composição a partir de imagens no Diário do Pará , Site do TJPA e Arquivo Familiar

No projeto Museu sobre rodas do TJPA, escolares visitam parte dessa história, tiram
fotos com a toga e o retrato do Desembargador, enquanto saboreiam, uns biscoitinhos
Monteiro Lopes (PARÁ, 2014).
O ramo amazônico dos Monteiro Lopes, está hoje na quarta geração. Como os demais
descendentes do patriarca José Elias, a descendência do desembargador Agnano, mantendo a
tradição e a partir do coeficiente acumulado de mobilidade social familiar, aplicando seus
talentos, também obtiveram destaques pessoais/profissionais relevantes. Dos seus filhos estão
vivos dois, Carlos Jurandir, Jornalista, Musico e Escritor, que mora no Rio de Janeiro e Vera
Lúcia, Engenheira Mecânica, que vive em Manaus com os filhos Ana Laura, Psicóloga e
Administradora de Empresas e Euclides Jr., Engenheiro Químico.

Fig 06 – Carlos Jurandir Monteiro Lopes, RJ e Família Monteiro Lopes, núcleo Amazonas

Fonte: O autor

Esperamos em breve poder juntar essa e outras histórias da família Monteiro Lopes,
incluindo o constante da dissertação, em um livro.

Referências
AGENCIA Pará. PLENO do TJPA celebra 140 anos de fundação. 2014. Disponível em:
<http://www.agenciapara.com.br/exibe_clipping.asp?id=45443>. Acesso em: 22 nov. 2016.
BISCOITINHOS Monteiro Lopes. 2012. Blog Rabiscos na cozinha. Disponível em:
<http://rabiscosnacozinha.tumblr.com/post/16006036487/esse-biscoitinho-é-tradicional-na-
minha-cidade>. Acesso em: 21 abr. 2016.
MENEZES, Carolina. Um pedaço da história da Justiça no Estado do Pará. Diário do Pará.
Belém, 13 out. 2013. Política, Caderno A, p. 3-3. Disponível em:
<http://digital.diariodopara.com.br/pc/edicao/13102013>. Acesso em: 21 abr. 2016.

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PARÁ. Tribunal de Justiça do Estado do Pará. Poder Judiciário (Ed.). Desembargador


Agnano de Moura Monteiro Lopes: Homenagem Póstuma. Belém: Tjpa, 2001. (Perfil dos
Magistrados do TJPA).
PARÁ. Tribunal de Justiça do Estado do Pará. Poder Judiciário. TJ-PA: Primeiro a ter um
negro presidente. 2014. Disponível em:
<http://www.tjpa.jus.br/PortalExterno/imprensa/noticias/Informes/955-TJ-PA---PRIMEIRO-
A-TER-UM-NEGRO-PRESIDENTE.xhtml>. Acesso em: 21 abr. 2016.
PARÁ. Tjpa. Poder Judiciário. Museu do TJ fica em Parauapebas até dia 7. 2014. Disponível
em: <http://www.tjpa.jus.br/PortalExterno/imprensa/noticias/Informes/1697-Museu-do-TJ-
fica-em-Parauapebas-ate-dia-7.xhtml>. Acesso em: 22 abr. 2016.

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INSTITUTO GEOGRÁFICO E HISTÓRICO DO AMAZONAS: CEM ANOS DE


PRESERVAÇÃO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO.

KELLY CRISTINE OLIVEIRA DO NASCIMENTO*

Introdução
Desde a pré-história o homem sente a necessidade de registrar informações, a cerca de
dez mil anos atrás esses registros eram feitos pelos nossos ancestrais através de desenhos (as
chamadas pinturas rupestres), deixadas em cavernas ou superfície rochosas; essas
representações poderiam ser do cotidiano, da caça, rituais, do nascimento de uma criança, ou
até mesmo de coisas simples como a própria alimentação diária.
Essas representações artísticas, chamadas também de registros da informação,
deixadas por nossos ancestrais, possibilitou que nos dias de hoje pudéssemos ter acesso a
histórias que assim como muitas outras dão base para toda uma sociedade, histórias essas que
jamais poderiam ser conhecidas atualmente, se tivessem sido registras. Nos dias atuais o
registro da memória e da história se dá por meio de documentos gerados pelas atividades
desenvolvidas por determinada organização, pessoa ou família. O que seria da sociedade,
hoje, sem seus documentos? Os documentos são a essência de uma organização, “A memória
de uma sociedade, é uma ponte no tempo.” (DURANTI e THIBODEAU,2008)
Desta maneira, o presente artigo pretende colocar em evidencia a importância do
patrimônio histórico para a sociedade, destacando o trabalho do Instituto geográfico e
histórico do Amazonas como fonte de acesso a informação. O Instituto Geográfico e Histórico
do Amazonas é uma das formas de manter viva nossa história, e tem como objetivo ajudar a
preservar, compreender e consolidar a própria concepção histórica das diversas identidades na
formação da Amazônia, entretanto mesmo com seus 100 anos de existência e ação, o mesmo
ainda é pouco conhecido pela sociedade amazonense.
Sendo assim, tal projeto de pesquisa, busca ajudar na difusão sobre a importância do
Instituto como fonte de conhecimento, através da organização dos registros da sua trajetória
baseada nos métodos de história oral, dando voz aos colaboradores, funcionários, e a diretoria
do IGHA, na tentativa de realizar uma dupla reflexão, de um lado observar que concepções
que os mesmos têm a respeito da importância do Instituto, assim como observar tais
personagens como agentes ativos do IHGA.
Objetivos:

*
Universidade Federal do Amazonas (UFAM), graduanda em Arquivologia.

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Geral: Criar uma memória institucional do IGHA através das falas dos seus ex-diretores,
memória esta que irá, não apenas, moldar o próprio entendimento da missão e ações do IGHA
dentro desses cem anos, mas também possibilitar moldar e planejar as ações futuras do IGHA
enquanto instituição de memória das sociedades amazônicas, buscando assim consolidar sua
representatividade junto da sociedade; Específico: (1) Pesquisar acerca da história do IGHA
com intuito de conhecer e contextualizar suas atividades e seus atores sociais ao longo da
história; (2) pesquisar e listar os nomes dos ex-servidores do IGHA, assim como seus
respectivos contatos atuais e elaborar uma biografia de cada um dos diretores com objetivo de
organizar e preparar melhor as entrevistas; (3) realizar as entrevistas aos antigos diretores do
IGHA e analisar os dados com objetivo de criar a memória institucional do IGHA.
A metodologia proposta pelo presente trabalho busca desenvolver uma reflexarão
através de entrevistas orais feitas aos funcionários do IGHA, abordando assuntos como: a
importância de se preservar o patrimônio histórico, como o Instituto vem trabalhando para
que a sociedade tenha acesso as informações contidas nos documentos que estão sobre a
guarda do Instituto e como essas informações podem influenciar o saber cultural da sociedade
em geral e estudiosos da área que procuram o IGHA como fonte de acesso a informação. As
entrevistas foram feitas na própria sede do IGHA, em dias alternados da semana.
Por meio das entrevistas é possível trocar experiências individuas que compõem a
narrativa do sujeito, tornando o diálogo dinâmico e subjetivo, como aponta Mercedes
Villanova:
A entrevista significa duas pessoas que estão se olhando. E é nesse olhar-se um ao
outro que a fonte oral se justifica, porque constitui um processo de aprendizado. Não
estamos estudando fontes; estamos conversando com pessoas que buscam diferentes
conhecimentos. E é nessa síntese nova que elaboramos através do diálogo, estamos
convencidos, e vivemos essa experiência, que vamos mudar uns aos outros.
(VILLANOVA, 1994:47)

Desta maneira podemos conhecer o Instituto através de olhares, falas e experiência dos
indivíduos que fazem parte da história da criação do IGHA e do trabalho diário realizado por
cada um deles.

Os Institutos regionais: guardiões da memória e do patrimônio162


O Patrimônio histórico não é apenas uma questão pública, mas da sociedade como um
todo, são memórias que pertencem a todos nós, fazem parte da nossa história, seja direta ou
indiretamente. É preciso que haja uma conscientização em relação e importância do
162
Revista Brasileira de História. Print Version ISSN 0102-0188 on- line version ISSN 1806-9347
http://dx.doi.org/10,1590/S0102-0188201000100004
260
Texto integrando dos Anais [recurso eletrônico] do IV Encontro Estadual de História - Ensino de
história no Amazonas, democracia e desigualdade. Organização: Keith Valéria de Oliveira Barbosa;
Leandro Coelho de Aguiar ... [et al.]. - 1. ed. -- Manaus: Universidade Federal do Amazonas, 2018.

Patrimônio Histórico, sua guarda e preservação.


Patrimônio histórico é conceituado como:
O conjunto de bens móveis e imóveis existentes no País e cuja conservação seja de
interesse público, quer por sua vinculação a fatos memoráveis da história do Brasil,
quer por seu excepcional valor arqueológico ou etnográfico, bibliográfico ou
artístico sendo os bens “de natureza material e imaterial, tomados individualmente
ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos
diferentes grupos formadores da sociedade brasileira. (CONSTITUIÇÃO
FEDERAL, 1998, Artigo 216).

Foi pensando na guarda, na preservação e na difusão da história que os Institutos


Históricos e Geográficos foram criados; atualmente são 23 Institutos estaduais e 52
municipais. Ambos com o objetivo de proporcionar aos seus usuários, sejam eles, professores,
pesquisadores, colecionadores, e/ou sociedade em geral, o acesso as informações. Os
Institutos se preocupam não somente com o acesso a informação, mas também em se
manterem envolvidos com a sociedade, promovendo palestras, minicursos, exposições,
buscando inovar seus acervos, de moda a não permitir que se tornem IHGS engessados, como
se tivessem parado no tempo.
Infelizmente sabemos que culturalmente falando as pessoas não buscam conhecer a
fundo a história de como tudo começou, quem foram os principais envolvidos na história do
Brasil, e como essas informações são relevantes nos dias de hoje; Não é de praxe que as
pessoas escolham lugares como museus, teatros, bibliotecas como roteiro para passeio, mas
todos esses órgãos de utilidade pública estão aí para oferecer um arsenal de informações,
curiosidades e histórias surpreendentes.
Foi em 1838 no Rio de Janeiro, que o primeiro Instituto Histórico e Geográfico do
Brasil foi fundado, único expoente da produção do saber histórico. Seus fundadores foram:
Marechal Raimundo José da Cunha Matos e cônego Januário da Cunha Barbosa. Imagine só a
importância e responsabilidade que o IHGB possuía, o instituto representava toda uma nação.
Embora criado por iniciativa da sociedade auxiliadora da Indústria Nacional, o Instituto
Histórico organiza-se administrativamente independente daquela instituição. Contanto com
cinquenta membros ordinários (25 na seção de História e 25 na seção de Geografia), um
número ilimitado de sócios correspondentes nacionais e estrangeiros, além de sócios de honra.
Antes da maioria dos institutos históricos e geográficos serem criados, não havia
institutos destinados de guardar e preservação do conhecimento e a história das cidades e
estados, o IHGB foi o primeiro no Brasil a lutar pela guarda e preservação do patrimônio
cultural. Com 177 anos de idade, o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro é caracterizado
pela realização de uma série de atividades que se relacionem tanto com os setores históricos,
261
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história no Amazonas, democracia e desigualdade. Organização: Keith Valéria de Oliveira Barbosa;
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como também culturais e cívicos do nosso país.


Com o passar dos anos, ele reuniu um grande acervo, repleto de dados museológicos,
dados de arquivo e bibliográficos, dados cartográficos, iconográficos e hemerográficos. A
disposição de tais informações é para todo o público, sendo conferidos principalmente entre
exposições, cursos, congressos e demais conferências que são não só organizadas como
também realizadas pela entidade, anualmente.

O Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA)


Para abordar a história da fundação do Instituto, é preciso fazer um breve esboço do
período da crise da borracha amazônica, já que o IGHA nasceu em meio à euforia da mesma.
A crise da borracha Amazônica teve seu início nas últimas décadas do século XIX, quando
foram retiradas, da Amazônia, sementes de seringueiras que iriam constituir uma grande
plantação no continente asiático, o que acarretaria, anos mais tarde, uma desvalorização da
borracha no mercado mundial, diminuição da arrecadação de impostos nos Estados e
Territórios da Amazônia e uma desestruturação da organização especial da produção de
borracha. Contudo, isso só ocorreria na primeira década do século xx.163 Era o fim do domínio
da exportação do produto dos seringais naturais da Amazônia (quase que exclusivamente
gerada no Amazonas), deflagrando o início de uma lenta agonia econômica para a região. O
desempenho do comércio manauara tornou-se crítico e as importações de artigos de luxo e
supérfluos caíram rapidamente. Manaus, abandonada por aqueles que podiam partir,
mergulhou em profundo marasmo. Os edifícios e os diferentes serviços públicos entraram em
estado de abandono.
Foi na aurora do século XX, que o Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas foi
fundado, mais precisamente em 25 de março de 1917. Ainda em meio a euforia da crise da
borracha, seu fundador foi Bernardo Ramos, que juntamente com seus sócios luram para ter
um lugar onde pudessem guardar o acervo da história regional. A primeira diretoria do IGHA
se deu da seguinte maneira: como primeiro presidente: Bernardo de Azevedo da Silva Ramos,
nascido em Manaus, 13 de novembro de 1858, e falecido no Rio de Janeiro, 5 de
fevereiro de 1931. Fundador e primeiro presidente do Instituto, além de eminente arqueólogo,
egiptólogo e numismata. Bernardo foi funcionário dos correios e participou da comissão de
limites Brasil- Venezuela, chefiada pelo Barão de Parima, em 1879. Ajudou a fundar o Clube

163
OLIVEIRA NETO, Thiago; NOGUEIRA, Ricardo Jose Batista. A cidade de Manaus e a crise da borracha:
uma breve análise histórica. Estação Científica (UNIFAP), Macapá, v. 6, n. 3, p. 09-27, 2016.

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Republicano do Amazonas, um dos primeiros a instalar-se no Brasil, que lançou um


Manifesto contra o império, durante a visita do Conde D’Eu a Manaus. 1°Secretário: Agnello
Bittencourt, nascido em Manaus,14 de dezembro de 1876 e falecido no Rio de Janeiro,19 de
julho de 1975, foi um geógrafo, administrador público e historiador brasileiro e membro da
Academia Amazonense de Letras, publicou diversos livros de história e geografia do
Amazonas, além de dezenas de artigos científicos, publicados em várias revistas brasileiras de
ciência e cultura. 2º Secretário: Henrique Rubim, e como Orador: Vivaldo Palma Lima,
nascido em Salvador, 10 de abril de 1877 e falecido em 23 de novembro de 1949, foi
um médico, advogado, jornalista e político brasileiro, faleceu no exercício do mandato
de deputado federal pelo estado do Amazonas, aos 72 anos de idade. Tesoureiro: Antônio
Clemente Ribeiro Bittencourt, nascido em Belém,23 de novembro de1853, falecido em
Manaus, 3 de março de 1926, foi um político brasileiro e maçom, um dos signatários da
primeira constituição do estado do Amazonas, prefeito de Manaus em 1891, e governador do
estado do Amazonas, de 23 de julho de 1908 a 1 de janeiro de 1913. Além dos membros
citados anteriormente tiveram vários outros envolvidos com a criação e instalação do
IGHA.164
O IGHA é a instituição cultural mais antiga do Amazonas, seu acervo, matriz
iniludível para a historiografia do Estado do Amazonas é um dos mais completos do país, com
sua preciosa biblioteca, as coleções dos jornais e documentos Engloba além de estudos
amazônicos, Geografia, História, Arqueologia, Sociologia, Antropologia Cultural, Linguística
e Ciências correlatas; além de possuir uma hemeroteca dos jornais regionais, peças indígenas
arqueológicas e atuais, alguns quadros e moveis antigos, uma boa mapoteca, muitas
fotografias e documentos como atas, cartas com mensagens ao governador, mensagens a
câmara municipal, mensagens ao congresso; e conta também com uma biblioteca de obras
antigas e modernas.
A sede do IGHA passou por restauro na década de 1980, durante a presidência do
consócio Robério dos Santos Pereira Braga, e adequada aos serviços que se dispunha a
prestar. Foi restabelecido o Museu Crisanto Jobim, disposto em duas seções: uma composta
de peças da etnografia amazônica, que pertencera ao Museu Rondon, criação e manutenção do
próprio homenageado. O acervo deste museu foi doado ao IGHA pelo interventor federal,
capitão Nelson de Mello, na década de 1930. A outra seção expõe objetos e peças de diversas
procedências, entre estas, a espada do comandante Plácido de Castro, que rememora a
164
REVISTA DO IGHA, Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, 97° ano da sua fundação – FASE IV-
n° 04- ano 2014.
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Revolução Acreana (1900-04). Também nesta gestão, foi organizada a biblioteca, que recebeu
o nome do falecido sócio efetivo Walmiki Ramayana de Paula e Souza de Chevalier, nascido
em Manaus, era médico formado pela Faculdade de Medicina da Bahia, também coronel da
Polícia Militar do Estado, mas que se notabilizou pelos escritos e debates jornalísticos.
A origem desse espaço cultural está vinculada ao Museu Rondon, criado e organizado
pelo pesquisador Crisanto Jobim. Em 25 de outubro de 1926, com o objetivo de adquirir essa
coleção particular, a Intendência Municipal concedeu ao Instituto Geográfico e Histórico do
Amazonas - IGHA um auxílio financeiro no valor de cinco contos de réis. Contudo, a compra
do antigo Museu Rondon foi efetivada somente em 1934, quando o Governo do Estado o
adquiriu e o repassou ao Igha, à época, dirigido por Agnello Bittencourt. Nesse período, o
IGHA já possuía algumas peças de referências históricas, etnográficas e arqueológicas sobre a
região, reunidas desde a fundação do instituto, em 1917. Com a incorporação da coleção do
Museu Rondon, foram adquiridos novos mostruários que serviram para a exposição das peças,
na sede própria do IGHA, na Rua Bernardo Ramos, n. 117, Centro – local em que se encontra
até hoje.
Em 1976, o museu foi reorganizado pelo Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas
Sociais, atual Fundação Joaquim Nabuco, em conjunto com a Fundação Universidade do
Amazonas, atual Universidade Federal do Amazonas. Após esse trabalho de recuperação, sua
reabertura foi realizada no dia 7 de setembro daquele mesmo ano.165
Em 2017 o Instituto completou 100 anos, mostrando grande vigor físico. são décadas
trabalhando arduamente, enfrentando problemas, passando por crises, com único objetivo, não
deixar morrer a nossa história, cuidando e guardando para que essa geração e a vindoura tenha
acesso a esse arsenal de informações que o IGHA possui.
Poder voltar ao tempo é facilmente possível, basta passear pelos salões do museu e se
maravilhar com as gravuras feitas dos índios, de seu trabalho, suas vidas; artesanatos feitos
por tribos que hoje nem existem mais, objetos usados pelos seringueiros na produção do látex,
vários outros objetos encontrados em bairros de Manaus que fizeram parte de um povo, uma
época, uma história que para muitos é desconhecida.
Atualmente a direção é composta por:

Quadro 01: Diretoria do Centenário – Eleita para o biênio 2017-1018.

165
CEDPHA-AM. Manaus – Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, site:
http://www.infopatrimonio.org

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DIRETORIA ATUAL
Presidente: Marilene Corrêa da Silva Freitas
1°Vice-presidente: Francisco Gomes da Silva
2º Vice-presidente: Humberto Figliuolo
Orador: Robério dos Santos Pereira Braga
Orador Adjunto: Max Carpentier Luís da Costa
Secretário-Geral: José Geraldo Xavier dos Anjos
Secretário Adjunto: Abrahim Sena Baze
Tesoureiro (a): Edineia Mascarenhas Dias
Tesoureiro adjunto: Paulo Pinto
Conselho Fiscal titulares: Almir Diniz de Carvalho, Marita Socorro Monteiro, Arlindo
Augusto dos Santos Porto
Conselho Fiscal Suplentes: José Roberto Tadros, Pedro Lucas Lindoso, Luís Carlos Bonates
Fonte: REVISTA DO IGHA-Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, 98° ano da fundação-fase IV-n° 05-
ano II.

A atual diretoria do IGHA tem vários Projetos como: Campo de Estágio no IGHA;
Projeto de Seminários e Estudos Temáticos com o eixo Conhecimento e Memória; apoio às
Atividades de Manutenção do Patrimônio físico no que diz respeito à conservação e
restauração do edifício-sede e outros imóveis pertencentes ao IGHA; apoio ao Projeto de
Digitalização do Acervo Documental e Biblioteca do IGHA no âmbito da ação da Biblioteca
Virtual do Governo do Amazonas; atualização do site e criação do Portal de Acesso aos
serviços do IGHA e ao Projeto Funcionamento do Museu Etnográfico Crisanto Jobim e à
manutenção de suas exposições permanentes e temporárias. Desde sua criação do instituto a
maior preocupara da direção sempre foi a preservação da história do Amazonas, dando acesso
a todos que tiverem o desejo de conhecer um pouco mais das nossas raízes.

Conclusão
Dado o exposto, podemos entender a importância e um pouco do trabalho que os
Institutos Geográficos e Históricos, desenvolvem e como contribuem para que a história do
Brasil como um todo não seja esquecida e apagada ao longo dos anos. Esses Institutos são
verdadeiros guardiões da história, do patrimônio histórico e das informações contidas nos
documentos. O Trabalho e objetivo desses Institutos nada mais é que manter vivo os

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elementos de determinado momento da história, trabalho este que exige dedicação e cuidados
como: preservar e guardar de forma segura as informações, documentos, móveis, fotos,
mapas, livros e outros, dar acesso à informação a sociedade e estudiosos, fazer atividades que
contribuam para o desenvolvimento cultural.

Referência
IHGB- História do Instituto Histórico e Geográfico do Brasil. Disponível em:
https://www.ihgb.org.br.
PORTAL DA AMAZÔNIA. Disponível em: http://portalamazonia.com
REVISTA DO IGHA- Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, 97° ano da fundação,
fase IV, n° 04 - ano 2014. Out/Nov/Dez.
REVISTA DO IGHA- Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, 98° ano da fundação,
fase IV, n° 05 - ano 2015. Jan/Fev/Mar.
VILLANOVA, Mercedes. Pensar a subjetividade: estatística e fontes orais. In: MORAES,
Marieta (Org.).História Oral. Rio de Janeiro: Diadorim/FINEP, 1994, p.45-74.

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RESTAURAÇÃO DO PATRIMÔNIO DO AMAZONAS: O CASO DOS LIVROS DE


REGISTRO CIVIS DO INSTITUTO DE IDENTIFICAÇÃO “ADERSON
CONCEIÇÃO DE MELO”.

KATHYUSCIA CASTILHO CORREA*

Introdução
A constituição de 1988 no Art. 216 refere se ao documento como um dos elementos
que integram o patrimônio cultural brasileiro:
Art. 216. Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e
imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à
identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade
brasileira, nos quais se incluem:
I - as formas de expressão;
II - os modos de criar, fazer e viver;
III - as criações científicas, artísticas e tecnológicas;
IV - as obras, objetos, documentos, edificações e demais espaços destinados às
manifestações artístico-culturais;
V - os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico,
arqueológico, paleontológico, ecológico e científico.

É percebido que os documentos constituem a memória da sociedade e também o


patrimônio cultural brasileiro, o qual é composto por expressões materiais e imateriais. A
administração pública assim como a comunidade tem a responsabilidade de proteger o
patrimônio cultural, pois a “memória de todos é registrada e perpetuada em meios aos bens
culturais, refletindo o conjunto de indivíduos da nação” (MERLO; KONRAD, 2015:6).
Para Portela 2012 o conjunto documental tornar-se um patrimônio documental, deve
ter algumas características como: cumprir sua função imediata e a razão para qual foi criada,
já ter passado pelo arquivo corrente, pela tabela de temporalidade e ter sido recolhido para o
arquivo permanente pelo seu valor informativo.
Os documentos devem cumprir sua função social, administrativa, jurídica, técnica,
científica, cultural, artística e histórica, dada a sua importância é fundamental que eles sejam
preservados, organizados e acessados para se cumprir essa função tem a preocupação da
preservação desde sua criação até a avaliação onde será recolhido ou eliminado.
Para os documentos cumprirem sua finalidade é preciso preservar seu significado e
valor desde sua criação, assim ele irá desempenhar seu papel no desenvolvimento da
sociedade e contribuindo para proteção da memória individual e coletiva, promovendo a
democracia e sustentando os direitos dos cidadãos.

*
Universidade Federal do Amazonas – UFAM, Discente em Arquivologia.
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Texto integrando dos Anais [recurso eletrônico] do IV Encontro Estadual de História - Ensino de
história no Amazonas, democracia e desigualdade. Organização: Keith Valéria de Oliveira Barbosa;
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Restauração do Patrimônio do Amazonas: o Caso dos Livros de Registro


CivisdoInstituto de Identificação “Aderson Conceição de Melo”

Os arquivos resguardam a memória da sociedade, são constituídos por um patrimônio


único e insubstituível, pois registram as ações, memórias e decisões que podem ser
transmitidas para outras gerações.
Quando o homem recupera sua essência encontra se o processo de sua existência,
soluciona sua dependência entre história e consciência, e memória e consciência, pois é a
partir dos homens que se faz a história e a memória. De acordo com Oliveira “coletiva ou
individual, a memória é sempre histórica e, por isso, circunscrita ao tempo e espaço humanos”
(2002: 19).
Um dos processos sociais construídos pelo homem é a memória no que diz a respeito
dos comportamentos e mentalidades coletivas, onde a lembrança individual está ao encontro
da inserção social e histórica de cada individuo. A partir da memória compreendemos o
passado, o presente e o futuro, agindo no que foi vivido, atuando em torno de lembranças no
cotidiano do individuo ou grupo, fundamentando sua identidade social.
A memória
É vida, sempre carregada por grupos vivos e, nesse sentindo, ela está em permanente
evolução, aberta à dialética da lembrança e do esquecimento, inconsciente de suas
deformações sucessivas, vulnerável a todos os usos e manipulações, susceptível de
longas latências e de repentinas revitalizações (NORA, 1981:6).

A memória não se restringe apenas ao ato de recordar, mas revela a base da existência
humana e as experiências de vida incorporadas no presente, atribuindo significados, sendo a
memória um processo em frequente construção.
Para Le Goff a memória se confunde com a história, no mundo contemporâneo a
história estaria sobre a pressão da memória coletiva e procura os criadores e dominantes da
memória coletiva. O estado, os meios sociais, os políticos, essas novas concepções
desenvolve uma nova forma de historiografia, a história da história, começa a fazer o estudo
sobre a manipulação da memória coletiva de um fenômeno histórico. Memória é “a
propriedade de conservar certas informações, propriedade que se refere a um conjunto de
funções psíquicas que permitem ao individuo atualizar impressões ou informações passadas,
ou reinterpretadas como passadas” (LE GOFF, 1990:266).
A memoria é o suporte da consciência tanto individual como coletiva, ela reordena e
reconstrói lembranças, tornando a dinâmico, renovável e dialética. E a partir da memória se

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constrói a identidade de uma comunidade, pois o ato de recordar está inserido na vida social
humana, o qual possui cultura, experiências, símbolos, crenças e valores.
A história não se limita aos acontecimentos descritos na memória, tanto a história
quanto a memória possuem processos bidimensionais, não há história sem memória e
memória sem a essência da história, elas encontram sua base no homem, que precisa se
reconhecer como um ser histórico e produtor da história.
A história não faz nada - em si mesma -, ‘não possui uma riqueza imensa’, ‘não dá
combate’, é o homem, o homem real e vivo que faz tudo isso e realiza combates;
estejamos seguros de que não é a história que serve do homem como um meio para
atingir-como se fosse um personagem particular-seus próprios fins; ela não é mais
que a atividade do homem que persegue os seus objetivos (MARX, 1984 apud
OLIVEIRA, 2002:17).

A memória e história são distintas e possuem espaços de saber diferenciados, a


primeira não se limita a memorização e lembranças, mas se refere ao passado presente e
futuro. A memória é um processo ativo, dinâmico, complexo e interativo.
A memória é
Por natureza, múltipla e desacelerada, coletiva, plural e individualizada. A história,
ao contrario, pertence a todos e a ninguém, o que lhe dá uma vocação para o
universal. A memória se enraíza no concreto, no espaço, no gesto, na imagem, no
objeto. A história só se liga às continuidades temporais, às evoluções e às relações
das coisas. A memória é um absoluto e a história só conhece o relativo. (NORA,
1981:6)

A memória não mais como um espaço inerte, mas um território vivo, politico é
simbólico onde se encontra lembranças e esquecimentos do ser social de forma dinâmica e
criativa, ela institui identidades e garante a permanência dos grupos.
A memória é uma atividade que ao mesmo tempo cria e continua a exercer sobre o
território a atividade de recuperar o que foi esquecido. Ela apresenta várias aberturas para a
história, possibilita desde a própria historiografia, onde se possa repensar os pressupostos
fundamentais das teorias até as probabilidades do uso da memória individual e coletiva como
fontes históricas.
Sendo a memória um resgate, preservação, recuperação do passado, tendo o arquivo
como um lugar de guarda, de transmissão de acontecimentos vividos é um meio de difundi-la.
Existe a necessidade de uma memória registrada, que não é estática, mas um
pensamento de uma organização ou individuo, o arquivista deve ter a responsabilidade de
conservar a memória custodiada pelo arquivo. “Os arquivos são práticas de identidade,
memória viva, processo cultural indispensável ao funcionamento no presente e no futuro”
(MATHIEU; CARDIN, 1990 apud JARDIM, 1995:6).

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O arquivo é um lugar da memória material, que deve ser simbólico, cristalizando e


transmitindo a lembrança, uma interação entre a memória e a história, na falta de intenção da
memória os lugares de memórias serão considerados lugares da história.
Assim se vê a importância do arquivo como um lugar de memória, e os arquivos
públicos são considerados como lugares de um determinado tipo de memória, consequente
das relações entre o estado e a sociedade.
Os arquivos é um produto essencial para o funcionamento de uma sociedade e suas
diversas complexidades, para produção do saber, pois quanto mais é desenvolvida uma
sociedade se observa que as atividades humanas são mais diversificadas, independentes e
numerosas.
A finalidade e o papel do arquivo, segundo a autora Bellotto é quando se “ocupam no
processo social, cultural e administrativo de um país. Nessa direção, cabe-lhes, em
corresponsabilidade, a informação, a divulgação científica, tecnológica e social, assim como o
testemunho judiciário e histórico” (2014:30-31).
Os homens veem o documento como um ato de assegurar e registrar seus
relacionamentos, aumentando a produção e uso dos documentos, o homem faz o uso do
documento como prova.
O documento segundo Shellenberg é:
Todos os livros, papéis, mapas, fotografias ou outras espécies documentárias,
independentemente de sua apresentação física ou características, expedidos ou
recebidos por qualquer entidade pública ou privada no exercício de sues encargos
legais ou em função das suas atividades e preservados ou depositados para a
preservação por aquela entidades ou por seus legítimos sucessores como prova de
suas funções, suas políticas, decisões, métodos, operações ou outras atividades ou
me virtude do valor informativo dos dados neles contidos” (2000:.41)

Enquanto o documento arquivístico é:


Um documento dito como pertencente à classe dos arquivos é aquele elaborado ou
usado no curso de uma transação administrativa ou executiva (pública ou privada)
da qual tomou parte; e subsequentemente preservado sob sua custódia e para sua
própria informação pela pessoa ou pessoas responsáveis por aquela transação e seus
legítimos sucessores. (RONDINELLI, 2011:150)

Podemos perceber que a definição de documento e documento arquivístico apresenta


no seu começo certa igualdade, pois é toda informação registrada independente de seu
formato ou suporte como prova, fatos, formas de pesquisa, etc., porém o documento
arquivístico possui organicidade garantindo a característica das atividades de uma instituição.
O arquivo e formado por manifestação e testemunhos da civilização humana, são
evidencias do passado, estas passam a ser nosso patrimônio, cujo é definido como um
conjunto de bens que pertence a um individuo ou a um grupo, sendo uma:
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Construção coletiva pertence a todos e todos os cidadãos, devem ter o direito e o


dever de preserva-lo, como possibilidade de resgate de sua identidade social (dentro
da comunidade de origem) e individual (frente a frente consigo mesmo no espelho
da alma) (PORTELLA, 2012 apud GARBINATTO, 2002, pag.19).

Os arquivos são instituições responsáveis pela preservação de todo o patrimônio


documental e informacional criado por uma sociedade, para Bellotto (2006) “o arquivo e sua
constituição, enquanto um lugar privilegiado do saber, que vai além de um suporte, de uma
estrutura formal, representa toda uma rede de informações contextualizadas”, essa rede de
informações remete se a cultura, ideologia cujo refletem o pensar e o saber das pessoas,
grupos sociais e dá própria instituição organização.
O patrimônio cultural “refere se sempre as manifestações e testemunhos significativos
da civilização humana.” (PORTELLA, 2012 apud MARILLAS, 2003:19). Refere se a
humanidade como seus aspectos que caracteriza cada povo, sociedade ou grupos ou nação,
seus aspectos da existência social e seu modo de vida, compreendendo elementos materiais e
imateriais, naturais e culturais, do passado e presente, onde um determinado grupo se
reconhece e constrói sua identidade. Hoje patrimônio cultural não se limita apenas em
monumentos artísticos de uma civilização, mas como um conjunto de bens culturais
relacionados à identidade coletiva de um povo.
O patrimônio cultural estabelece a construção, reconstrução e a manutenção da
identidade coletiva ou individual diante da vida cotidiana. Sendo a identidade uma
representação das relações entre o individuo e o grupo diante do cotidiano em conexão com
seu meio social, espaço, tempo e produção. O patrimônio cultural e a junção do passado e
presente de uma sociedade, na qual colabora para a construção de identidade e da sua história.
Patrimônio cultural é o “conjunto de bens tangíveis e intangíveis que refletem a
herança cultural de um povo, etnia ou grupo social, instituído um sentido de pertencimento”
(PORTELLA, 2012:20). O patrimônio cultural esta relacionado com a memória de um grupo,
ela é constituída por objetos, registros e produtos concretos que foram criados pelos homens
durante seu desenvolvimento reconhecidos como bens culturais.
Na Constituição da República Federativa do Brasil, de 1988, afirma que os conjuntos
documentais fazem parte do patrimônio cultural, para Bellotto (2000 apud PORTELLA,
2012) patrimônio documental é “caudatário do patrimônio cultural, ou seja, pode ser
entendido como uma das linhas do patrimônio cultural, sendo bens culturais, tanto quanto os
demais”.
O patrimônio documental são os registros que descrevem os fatos, as informações e as
atividades de uma instituição pública ou privada, de pessoas ou família, constituindo algumas
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características como movíveis, feitos de símbolos, códigos, sons, imagens, criados a partir de
um processo documental e sua configuração se dá pelo conteúdo informativo e seu suporte
garantindo uma parte importante para a memória.
Os documentos que compõem o patrimônio documental devem ser preservados e
disponibilizados pelo seu valor de prova e testemunho, de acordo com a Organização das
Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) o patrimônio documental
representa boa parte do patrimônio cultural mundial sendo constituído pela memória coletiva,
que pode ser construída pelos documentos demonstrando a evolução dos pensamentos,
realizações e descobertas da sociedade.
Para os documentos cumprirem sua finalidade é preciso preservar seu significado e
valor desde sua criação, assim ele irá desempenhar seu papel no desenvolvimento da
sociedade e contribuindo para proteção da memória individual e coletiva, promovendo a
democracia e sustentando os direitos dos cidadãos.

Intervenção nos Livros de Registro Civil


A formulação do conceito de preservação segundo Beck surgiu pela primeira vez no
Traité de Documentatión (1934) de Paul Ptlet, mas é consolidado pelo documento da
UNESCO Memória do Mundo: diretrizes para a salvaguarda do Patrimônio Documental
Mundial publicado em 2002 onde “o objetivo da preservação é o acesso permanente”
(MEMÓRIA DO MUNDO, 2002, apud, BECK, 2006:1). Este programa propõe uma
aproximação entre a gestão da informação e a preservação documental, definindo seu
conceito, as atividades coordenadas à salvaguarda e a integridade dos acervos documentais
para o acesso. “A preservação é a soma das medidas necessárias para garantir a acessibilidade
permanente do patrimônio documental” (MEMÓRIA DO MUNDO, 2002, apud BECK,
2006:7).
Para Cassares preservação é “um conjunto de medidas e estratégias de ordem
administrativa, política e operacional que contribuem direta ou indiretamente para a
preservação da integridade dos materiais.” (2000:12)
A politica de preservação requer tomada de decisões de pessoas e instituições
responsáveis pela definição de quais bens materiais culturais devem ser preservados “a quem
interessa esses bens, qual o sentindo deles para a cultura ou a história da humanidade.”
(FRONER;SOUZA,200:5)

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Para se entender a preservação “é fundamental compreender que o sentido da


preservação perpassa questões profundas, subordinadas aos conceitos de valor, poder político
e econômico.” (FRONER; SOUZA, 2008:6). A preservação pressupõe um conjunto de
técnica referente à segurança da obra onde a finalidade é evitar que as ações externas não
prejudique a integridade do suporte. “A preservação é um termo amplo. Ela engloba
conservação, restauração e o que se refere à gestão de uma política de manutenção de um
acervo” (BARROS, 2009:21)
Em 1980 ocorreram mudanças da mentalidade e uma nova visão na politica da
preservação, foi Gael de Guichen que definiu uma nova mentalidade da preservação para
conservação preventiva, este novo conceito ‘está associado à visão de que a preservação só é
eficiente quando envolve ações planejadas para a salvaguarda dos acervos em seu
conjunto’(BECK, 2006:2) com isso ocorre uma mudança no objeto da preservação antes era o
artefato histórico, com a mudança o objeto passa a ser os conjuntos informacionais.
Conservação preventiva
Requer uma mudança profunda de mentalidade. Onde ontem se viam objetos, hoje
devem ser vistas coleções. Onde se viam depósitos devem ser vistos edifícios. Onde
se pensava em dias, agora se deve pensar em anos. Onde se via uma pessoa, devem
ser vistas equipes. Onde se via uma despesa de curto prazo, se deve ver um
investimento de longo prazo. Onde se mostram ações cotidianas devem ser vistos
programas e prioridades. A conservação preventiva significa assegurar a
sobrevivência das coleções (GUICHEN, 1995, apud BECK, 2006, p.2)

A conservação preventiva “abarca procedimentos relacionados à adequação das


condições ambientais, físico-químicas, sob as quais uma coleção se encontra.” (FRONER;
SOUZA, 2008:9).
Para Beck essas mudanças ocorreram em momentos distintos quando é verificada a
fragilidade do suporte e questões essenciais quanto ao acesso dos documentos “em pouco
tempo se tornavam quebradiços, advindo a consequente necessidade de salvar grandes massas
de informação que corriam o risco de desaparecer” (2006:3).
Conservação “é um conjunto de ações estabilizadoras que visam desacelerar o
processo de degradação de documentos ou objetos, por meio de controle ambiental e de
tratamentos específicos (higienização, reparos e acondicionamento).” (CASSARES, 2000:12).
A finalidade da conservação é
Prolongar a vida útil de determinadas obras ou artefatos com o intuito de preservar
suas características originais, auxiliando assim nos processos de pesquisa, exposição
e documentação, ao levar em consideração alguns fatores primordiais: o caráter
insubstituível da obra de arte ou artefato; (FRONER; SOUZA, 2008:3).

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Cabe lembrar que todo procedimento feito no âmbito da preservação é seletivo e


criterioso, devem considerar o interesse da sociedade nas diversas esferas sociais, escolhidas a
parti de critérios específicos que seu significado apresente o importante valor de memória,
identidade e história.
Todo procedimento de restauração é considerado “uma ação de conservação”
(FRONER; SOUZA, 2008: 10) a qual esta baseada em uma intervenção direta a estrutura do
suporte. É restauração “qualquer intervenção destinada a manter em funcionamento, a facilitar
a leitura e a transmitir integralmente ao futuro as obras e os objetos definidos nos artigos
precedentes” (IPHAN, 1975:2).
Umas das exigências fundamentais da restauração é respeitar e salvaguardar a
autenticidade dos elementos construtivos. “Este principio deve sempre guiar e condicionar a
escolha das operações” (IPHAN, 1975:9).
A ação de restauração vai desde a limpeza simples até os procedimentos químicos,
alterações no seu suporte como preenchimentos com polpa de papel japonês, enxerto,
reintegração, reconstituições das partes faltantes, aplicações de vernizes, entre outros
procedimentos.
Restauração “é um conjunto de medidas que objetivam a estabilização ou reversão de
danos físicos ou químicos adquiridos pelo documento ao longo do tempo e do uso, intervindo
de modo a não comprometer sua integridade e seu caráter histórico.” (CASSARES, 2000:12)
Para realizar o processo de restauração é necessário suceder estudos preliminares
(documentação extensiva, análise histórica e de uso, análise morfológica e sobre as técnicas
construtivas, avaliação do estado de conservação, proposta de tratamento baseada nessas
informações prévias), ao verificar a coleta das informações iniciais se podem elaborar uma
proposta de tratamento para a intervenção que é a restauração.
Na proposta de restauro deve conter os materiais a serem usados, os métodos e
técnicas a serem utilizados, as pessoas envolvidas e o tempo necessário para realizar o
processo além de conhecer os conceitos fundamentais aos procedimentos de intervenção “uma
intervenção de restauro deve ser vista como uma intervenção cirúrgica e o objeto, como
paciente.” (FRONER; SOUZA, 2008:8) deve estudar que tipo de procedimento será realizado
no objeto, não se pode fazer uma intervenção irresponsável, de qualquer forma sem respeitar a
estrutura e sua originalidade.
Qualquer intervenção que vise estacionar a degradação e restituir as características
originais do objeto-seja estética ou de resistência-implica na introdução de novos
materiais ou na utilização de métodos mais drásticos, submetendo-o a uma serie de

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variações e mudanças que interferem em seu comportamento físico-estrutural e até


mesmo químico. (FRONER; SOUZA, 2008:9)

Para realizar o processo de intervenção é preciso observar esses princípios e analisar


se o procedimento irá ser eficaz quanto à preservação do suporte assim uma “ação
interventiva-restauração-determina câmbios profundos na estrutura da matéria, sendo
justificada apenas quando o objeto for retornar para um local apropriado, planejado a partir de
parâmetros da conservação” (FRONER; SOUZA, 2008:9).
A restauração são procedimentos reversíveis que irão devolver ao objeto, na mediada
do possível os atributos perdidos ou danificados por ações externas, respeitando as
propriedades e técnicas do suporte utilizando materiais reversíveis para não agredir a
integridade e originalidade do objeto.
Garantir a condição original do objeto é uma questão essencial durante o processo de
intervenção de restauro ou conservação, pois muitos objetos estão com ‘vulnerabilidade
cultural’ devido ao tempo a ‘vulnerabilidade material em decorrência do seu uso e manuseio.
A finalidade deste artigo é mostrar o trabalho realizado pela equipe do Ateliê de
Conservação e Restauro de Obras de Arte e Papel que está vinculado ao Departamento de
Patrimônio Histórico e Arquitetônico pertencente à Secretaria de Cultura do Estado do
Amazonas (SEC), e as etapas do processo de restauro executado nos livros de registro civis
para que estas informações sejam preservadas em longo prazo e para que a sociedade possa
rememorar a história.
No processo de restauração deve haver a preocupação de utilizar obrigatoriamente
equipamento de proteção e segurança individual como luvas, máscaras, touca, jaleco e se
necessário óculos de proteção. Feito essa ação preventiva começa o procedimento de
restauração dos livros de registro civis. É iniciado o trabalho de restauro com a identificação
do livro preenchendo a ficha de diagnóstico fazendo uma analise inicial do suporte. É
necessário fotografar todo o suporte, capa (frente e verso), laterais (cortes, lombadas), folha
de rosto, as páginas (anverso e verso), pois é a partir das fotografias que podemos visualizar
com clareza a evolução do trabalho de restauração. Nesse momento ocorre a analise,
identificação e registro do suporte.
Durante a análise se preenche o diagnóstico com informações sobre a obra, por
exemplo, o titulo, autor, dimensões, etc. tipo de suporte, características gerais sobre a
informação informando se existe deterioração da encadernação e do suporte.
Após esta identificação é iniciado a limpeza mecânica dos cortes do livro, ainda
encadernado retirando a sujeira com uma trincha macia. “A higienização mecânica ou limpeza
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superficial é um método de limpeza, a seco, eficiente para remoção de sujidades superficiais


de documentos e objetos de arquivo, bibliotecas e museus.” (CARRASCO, s/d: 5) O próximo
procedimento foi numerar todas as páginas com lápis 6b no canto inferior direito e somente
no anverso da folha e depois a desmontagem do livro.
Foi realizado o teste de solubilidade da tinta para verificar se existira sua saída ou não,
neste caso a tinta apresentou- se solúvel descartando o procedimento de banho de
desacidificação das folhas.
A próxima etapa foi à higienização mecânica, folha por folha com uma trincha macia e
o bisturi, este utilizado para a retirada das sujidades como excrementos de insetos e pontos de
ferrugem.
Segundo Spinelle et al, higienização
Trata da eliminação mecânica de todas as sujidades que se encontre nos documentos
e dos agentes considerados agressores, tais como: os clipes oxidados ou não, os
excrementos de insetos, os grampos metálicos, os itens generalizados utilizados
como marcadores de páginas, as poeiras e, todos os elementos espúrios à estrutura
física dos documentos.(20011:4)

Após a higienização realizou se reparos e enxertos com papel japonês, os dois


procedimentos foram feitos devido o suporte apresentar rasgos e perdas em diversas áreas.
Reparos
São diminutas intervenções que podemos executar visando interromper um processo
de deterioração em andamento. Essas pequenas intervenções devem obedecer a
critérios rigorosos de ética e técnica e têm a função de melhorar o estado de
conservação dos documentos. (CASSARES, 200:33)

Em seguida ocorreu a planificação, a digitalização e a encadernação do livro.


A memória é o fundamento das identidades, pois ela possui fatos e bens que procuram
mostrar a trajetória do homem, independente do acontecimento possuir um valor histórico,
mas as recordações expõem os efeitos dos homens no seu cotidiano, sendo a identidade um
processo dinâmico apresenta vestígios do passado e questões do tempo presente.
Preservar informação relevante requer atualmente o envolvimento de equipes
multidisciplinares na seleção de preservação, no estabelecimento de prioridades com
base no valor informacional, na demanda de uso e na vulnerabilidade dos meios. A
partir destes dados podem ser definidas políticas que asseguram o acesso
continuado. A preservação deve ser uma questão de constante interlocução com as
equipes de gestão documental, ou desenvolvimento de coleções (BECK, 2006:4).

Diante disso se vê a importância da preservação e restauração dos livros já que estão


repletos de informações que nos remetem a memória, identidade e a uma produção
historiográfica.

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A restauração visa à salvaguarda dos bens culturais, por meio de ações técnicas de
caráter intervencionista nos documentos executando o trabalho de removibilidade dos danos
causados no suporte sejam, eles físicos ou químicos, desde modo restaurar é o processo de
recuperação do documento em suporte de papel.

Considerações Finais
O patrimônio cultural e documental estabelece a construção, reconstrução e a
manutenção da identidade coletiva ou individual diante da vida cotidiana. Sendo a identidade
uma representação das relações entre o individuo e o grupo diante do cotidiano em conexão
com seu meio social, espaço, tempo e produção. A memória é um resgate, preservação,
recuperação do passado, tendo o arquivo como um lugar de guarda, de transmissão de
acontecimentos vividos é um meio de difundi-la.
A relação de patrimônio cultura/pesquisa histórica “os documentos do arquivo são
[...], recursos culturais. Fazem parte do patrimônio cultural de uma comunidade, nação ou
povo” (BELLOTTO, 2014:308). Os documentos que já cumpriram sua função imediata foram
avaliados é considerado de valor permanente, devido seu valor informativo e testemunhal
passando a fazer parte do patrimônio documental, sendo uma construção social coletiva, de
identidade e memória de um povo.
A finalidade da restauração é resgatar a integridade do documento e garantir sua
preservação por um longo período, pois o documento é um produto da sociedade e a
informação um elemento básico para o desenvolvimento social e intelectual do ser humano. A
ação de preservação e restauração dos livros de registros civis demostram uma grande
importância para a cidade de Manaus, devido ao seu valor arquivístico, da história regional e
da memória para a população, é compreendido seu caráter social e cultural já que possui
conhecimento inestimável para a história, memória e para o patrimônio cultural e identidade
da sociedade manauara.
A restauração pode ser compreendida como um conjunto de esforços, com a finalidade
de prolongar ao máximo a vida útil do objeto por meio de intervenções diretas, controladas e
conscientes, preservando suas características originais e não se limitando apenas ao suporte,
mas também em ações no ambiente externo.
O resultado obtido dessas intervenções é garantir a preservação do suporte, já que
apresenta um valor histórico e cultural para o estado do Amazonas, podendo difundir seu
conteúdo na forma digital, auxiliando a pesquisa e a produção de conhecimento, e caso haja

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necessidade pode ocorrer o manuseio do livro na forma física sem perdas do suporte e da
informação.

Referências
BARROS, Gabriella da Silva Motta. Restauração de documentos com suporte em papel: um
estudo de caso no Centro de Documentação da Universidade de Brasília. Monografia
apresentada ao Departamento de Ciência e Documentação da Universidade de Brasília.
Brasília, 2009.
BECK, Ingrid. O ensino da preservação documental nos cursos de arquivologia e
biblioteconomia: perspectivas para formar um novo profissional. 2006. Dissertação
(Mestrado em ciência e informação)-Universidade Federal Fluminense/Instituto Brasileiro de
Informação em Ciência e Tecnologia, Rio de Janeiro, 2006.
BELLOTTO, H. L. Arquivo: estudo e reflexões. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2014.
_______. Arquivos Permanentes: tratamento documental. Rio de Janeiro: FGV, 2006.
BRANDI Cesare. Teoria da restauração. Cotia, SP: Ateliê Editorial, 2004.
BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil: texto
constitucional promulgado em 5 de outubro de 1988, com alterações determinadas pelas
Emendas Constitucionais de Revisão nº 1 a 6/94, pelas Emendas Constitucionais nº 1/92 a
91/2016 e pelo Decreto Legislativo nº 186/2008. Diário Oficial [da] União. Brasília, DF, 5
out. 1998. Disponível em:
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Leandro Coelho de Aguiar ... [et al.]. - 1. ed. -- Manaus: Universidade Federal do Amazonas, 2018.

CLUBES E ASSOCIAÇÕES RECREATIVAS: ENTRE A SOCIABILIDADE E A


CRIMINALIZAÇÃO DE PRÁTICAS SOCIAIS EM MANAUS, 1890-1910.

KÍVIA MIRRANA DE SOUZA PEREIRA*

Era período republicano e a cidade de Manaus exibia sinais indeléveis que rumava
para um novo tempo. Graças à explosão gomífera, a partir de 1890 nota-se um investimento
econômico na região com o objetivo de construir uma cidade moderna, limpa, a frente de seu
tempo. Tal período, conhecido como “Belle Epoque”, caracterizou-se pelas grandes
mudanças urbanas e arquitetônicas, crescimento da população e introdução de elementos e
costumes europeus, “podendo-se fazer uma analogia desta fase de mudanças com a montagem
de uma vitrine” (MESQUITA, 2006, p. 142). Essa comparação se deu justamente para
explicar as modificações culturais, políticas e econômicas que Manaus estava passando, onde
a “cultura local despia-se das tradições de origem indígena e vestia-se com características
ocidentais” (MESQUITA, 2006, p. 145).
Entretanto, essa cidade idealizada para ser um modelo em civilidade, não pode ser lida
e interpretada somente por sua forma estrutural, como uma casa de brinquedo. No bojo dessas
transformações, novos hábitos, costumes, normas, modelos e relações terciam as vivências
dos cidadãos com o espaço citadino. As questões que perpassam o cotidiano da cidade e de
seus habitantes envolvem duas reflexões: a primeira sobre as imposições feitas a ela pelo viés
econômico e estrangeiro e a segunda, sobre a ação e reação de seus cidadãos, pois Pro
a modernidade em Manaus não só substitui a madeira pelo ferro, o barro pela
alvenaria, a palha pela telha, o igarapé pela avenida, a carroça pelos bondes
elétricos, a iluminação a gás pela luz elétrica, mas também transforma a paisagem
natural, destrói antigos costumes e tradições, civiliza índios transformando-os em
trabalhadores urbanos, dinamiza o comércio, expande a navegação, desenvolve a
imigração. É a modernidade que chega ao porto de lenha, com sua visão
transformadora, arrasando com o atrasado e feio, e construindo o moderno e o belo.
(DIAS, 2007, p. 29)

Nessa dinâmica, a elite local e do Estado estruturaram a cidade de Manaus para servir
os gostos e padrões estrangeiros, buscando um reconhecimento cultural, social e econômico.
Avenidas, praças, bares, teatros, estabelecimentos foram criados para dar à cidade uma
aparência moderna. Além de servir o capital nacional e estrangeiro por meio de serviços e
mão-de-obra ao capital, os seus cidadãos viviam, divertiam-se e compartilhavam experiências

*
Discente no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) com o
projeto “Sociabilidade e Identidades: Clubes, Associações e Sociedades Recreativas em Manaus, 1890-1915”.
Bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, Capes. E-mail:
mirranakivia@gmail.com.
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sociais nos mais variados níveis e lugares. Seja no trabalho, no porto, na fábrica, na rua, na
igreja, nos bares ou praças, as relações sociais ligavam o sujeito com o seu espaço, e vice-
versa.
Os clubes recreativos que surgiram nesse momento se estabeleceram como
importantes recintos para convívio e interação social. Nesses ambientes, frequentados por
homens, mulheres, nacionais e estrangeiros, a diversão por meio de jogos lícitos, danças,
teatros, esportes, piqueniques e outras atividades recreativas, permitiam que novas relações
sociais fossem criadas e consolidadas além do espaço doméstico, dando ao ser social uma
vida mais pública e urbana, como pontua Simone Villanova:
A sociedade de modo geral passou a se organizar em torno das associações
recreativas, artísticas, culturais, esportivas, carnavalescas, filantrópicas, etc. Isso
significa que a cultura do lazer no século XIX não se restringia somente ao ambiente
doméstico. Ficava cada vez mais comum a essa época o encontro e as diversões
públicas, como os grêmios e clubes, tornando-se importantes expressões de convívio
social. Com o desenvolvimento das cidades e, por seguinte, da urbanização houve o
aumento desse fenômeno, fazendo com que o convívio social fora de casa se
transformasse em um hábito urbano cada vez mais comum à família.
(VILLANOVA, 2015, p. 60)

Analisar os espaços de sociabilidade nos permite refletir também sobre duas outras
dimensões: como institucionalmente se configuram esses espaços e suas práticas na dinâmica
do controle social e também a experiência de viver o conteúdo destas práticas166. Ou seja,
significa refletir a própria atuação dos clubes e sociedades recreativas frente à modernização,
ora instrumentalizando, disciplinalizando e contribuindo com os desejos civilizatórios e ora
compartilhando experiências dessas práticas por meio da coletividade e solidariedade.
O historiador E. P. Thompson167nos convida a estudar esses espaços de interação,
visto quepodem revelar a importância das relações sociais, ações dos sujeitos e dos rituais que

166
Tomo como referência a proposta de Déa Ribeiro Felenón que ao reconhecer a complexidade e variabilidade
da luta de classes afirmaque o seu constante fazer-se e refazer-se nos possibilita analisá-la de forma mais
especifica e diferenciada, por ter seu próprio processo. A autora também nos chama para o desafio de
compreender esse processo de constituição de classe em suas mais variadas dimensões e expressões, como, por
exemplo, o aspecto religioso: “do exame da religiosidade e das práticas religiosas para perceber, de um lado,
como institucionalmente se configuram a religião e a Igreja na instrumentação do controle social, mas também a
experiência de viver o conteúdo desta religiosidade e, da pobreza e dos despossuídos, sobretudo para
acompanharmos o processo em que se agrava o medo das ‘classes perigosas’ tomando necessário separá-las das
classes trabalhadoras, mas também para acentuar como este processo está intimamente relacionado ao
crescimento das cidades e todos os problemas sociais daí decorrentes.” (FELENON, 2009, p. 47)
167
Em “As fortalezas de Satanás”, Thompson salienta “Precisamos de mais estudos sobre as atitudes sociais de
criminosos, soldados e marinheiros, e sobre a vida nas tabernas; e deveríamos olhar as evidências, não com olhos
moralizadores (nem sempre os “pobres de Cristo” eram agradáveis), mas com olhos para os valores brechtianos
– o fatalismo, a ironia em face das homilias do Establishment, a tenacidade da autopreservação. E devemos
também lembrar o ‘submundo’ do cantor de baladas e das feiras que transmitiu tradições para o século 19 (até o
music hall e animadores de Hardy); pois dessa forma os “sem linguagem articulada” conversavam certos
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se constituem em tradições subpolíticas168. Rituais como a venda de esposas, rough music,


motim e turba que ocorriam no mercado, na feira, na taberna ou em praça pública, afetaram a
formação do primórdio movimento operário inglês. Logo, temos a noção que além de estudar
os comportamentos dos sujeitos, devemos analisar os seus espaços de atuação, tendo em vista
que nestes ambientes os indivíduos criavam e externavam suas noções de direito,
solidariedade e cultura, uma vez que esses “espaços autônomos de sociabilidade que, embora
conflitivos e plurais, possibilitavam o desenvolvimento de fortes noções de coletividade e a
formulação de valores diferenciados” (FORTES, 2006, p. 204).
Por meio da catalogagem no Jornal Amazonas, Jornal Correio do Norte e outros
periódicos, tivemos acesso a notícias sobre esses clubes e sociedades recreativas. Graças a
essas informações, até o momento, encontramos 32 clubes169, entre os anos de 1868 a 1910,
instalados na cidade que tinham suas atividades voltadas ao divertimento e recreação. Além
disso, cabe ressaltar que tomando a “grande imprensa” e os jornais desses clubes como fonte
histórica, compreende-se que problematizar o papel da imprensa, significa tomá-la como força
ativa do capitalismo, e não como mero lugar de anúncio dos acontecimentos, eventos e
atividades que essas associações estavam promovendo170. Assim, cabe reafirmar que a
imprensa local se apresentou também como um espaço privilegiado de e para articulação de
projetos políticos, culturais, modernizadores e elitistas de uma sociedade idealizada aos
moldes europeus e capitalistas.
Segundo o memorialista Thiago de Mello, em “Manaus, amor e memória”, havia três
categorias de clubes na cidade. Os considerados “clubes da nata” frequentados pela elite local,

valores– espontaneidade, capacidade para a diversão e lealdade mútua –, apesar das pressões inibidoras de
magistrados, usineiros e metodistas”. (THOMPSON, 1987, p. 62)
168
As tradições subpolíticas se colocam como formas alternativas de luta e resistência, para além do embate
político, partidário e associativo. Por meio dessa resistência cotidiana, que pode se manifestar através da cultura,
do costume e por meio de práticas de resistência e solidariedade, a classe popular se opõe às pressões do capital,
criando sua própria identidade, moral e tradição. (THOMPSON, 1987, p. 62)
169
São eles: Clube Scientifico (1868) do Pará que tinha sócios do Amazonas, Sociedade Harmonia Amazonense
(1870), Clube Familiar (1872), Jockey Clube (1872), Club Literário (1879), Clube Girondinos (1880), Clube
Recreativo Juvenil (1883), Club Limitado (1890), Club Ebat (1890), Club Amazonense (1890), Clube Athenas
(1890), Clube Tesoura (1890), Club 5 de Setembro (1892), Hight-life-Club (1892), Clube Polyanthéa (1893),
Clube Sempre-Viva (1893), Reform Club (1893), Atheneu Comercial (1893), Clube Amazonas (1898), Sport
Club (1898), White Club (1906), Club Internacional (1906), Club dos Nippões (1906), Ideal Club (1906), City
Club (1906), Club P. D. dos oficiais do Regimento (1906), Iracema (1906), Club do Esperanto de Londres
(1906); Terpaychore (1907); Club José do Patrocínio (1906); Club da Guarda Nacional do Amazonas (1906);
Derby Club (1909), Grêmio Gil Vicente (1910).
170
O texto de Heloísa de Faria Cruz e Maria do Rosário da Cunha Peixoto, Conversas sobre história e imprensa,
nos ajudaram no desenvolvimento da metodologia e na problematização das fontes históricas, compreendendo o
periódico como um monumento, ou seja, uma fonte destinada a transmitir à posteridade a memória “de fato” ou
pessoa notável (Dicionário Silveira Bueno). Portanto, devemos lidar com as intencionalidades explícitas ou não
em suas páginas.
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os clubes populares destinados à classe média e os clubes dos subúrbios voltados para atender
a população mais pobre, os considerados “freges”. Entretanto, apesar das diferenciações,
limitações e dependendo dos estatutos de cada associação, consideramos a possibilidade das
camadas intermediárias e mais pobres usufruírem de alguma forma dos serviços desses
espaços. De outro modo, sociedades recreativas, beneficentes ou clubes carnavalescos, de
caráter étnico e mutualista, também poderiam agregar imigrantes de diferentes camadas
sociais ou diversas categorias em um só local.
Não sabemos ao certo qual foi o primeiro clube recreativo instalado na capital
amazonense. No entanto, por meio da notícia no jornal “Amasonas”, desde 1868, ainda no
período imperial, Manaus já possuía o desejo de elitizar e moldar sua cultura ou participar de
sociedades e programações com esse intuito. Por não haver nenhum clube de recreação na
capital, alguns membros da elite manauara se vincularam ao “Clube Scientífico” de Belém –
PA, que apesar da emancipação econômica e política da região em relação à província
paraense, os vínculos, alianças e interesses culturais e políticos ainda se mantiveram.
O referido clube, com sede em Belém, fundado em 06 de abril 1866, tinha como sócio
honorário o Sr. Capitão José Justiniano Braule Pinto, residente em Manaus. O capitão e
administrador local foi responsável por desenvolver obras públicas na região e para tanto, em
1869 fundou a sociedade e instituto educacional “Atheneu das Artes”. Em sua passagem a
Belém, em 05 de abril de 1868, o capitão recebeu as congratulações dos sócios do Clube
Scientifico, que pontuaram que a sociedade paraense reconheceu a necessidade que tinha de
acercar-se de homens ilustrados e de alta posição na sociedade, para não baquear e sucumbir
no meio de tantos óbices e dificuldades que soavam sempre como oposição a esse desejo171.
Além disso, os discursos do clube nas páginas dos periódicos paraenses mostravam a sua
preocupação com projeto em disciplinar e educar o povo por meio da literatura e
cientificidade:
A literatura, senhores, é um dos elementos necessários para a vida moral de qualquer
povo; por ela é que se avalia o estado da civilização, por ela se conhece o progresso
da instrução, por ela finalmente julga-se a importância que merece qualquer uma
nação.
Um povo sem literatura é uma árvore sem frutos. E certamente que ideia podereis
fazer de um homem, que no gozo de todas as suas faculdades ainda vos não mostrou
que sabia pensar? Convireis comigo que é estupido, mesmo que vos apresente um
diploma de sábio: assim também o povo, que anela os foros de ilustrado, deve
apresentar uma literatura própria por onde os estranhos o possam aquilatar.
Uma excelente literatura representa o progresso das ciências, o florescimento das
artes, e é a melhor garantia da civilização.
[...]

171
Jornal “Amasonas”, 16/05/1868.
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Vós todos conheceis, senhores, a importância das associações literárias, como esta.
São elas sem contradição, bem como os jornais, o clero e o teatro, os alicerces da
instrução de qualquer povo. Se conheceis a sua utilidade, deveis também não ignorar
quais os cuidados, que se devem empregar a fim de tornar real, e não fictício, o
nome com que vos ornais.
(Diário de Belém, 17 de dezembro de 1868)

Apesar de se tratar da sociedade paraense, o discurso revela o pensamento da época.


Como é notório, governadores, administradores e a elite local, por prezar pelo progresso,
tentam impor, direta – por meio de leis, decretos e códigos de posturas – ou indiretamente –
por meio da cultura, normas e padrões de civilidade e comportamento.
Na sociedade manauara não foi diferente. Com o investimento econômico na região e
a mudança de sua paisagem, era esperado que uma cultura erudita se constituísse na mente e
no comportamento de seus habitantes. Para isso, os espaços de sociabilidade, como a igreja, o
teatro e os clubes, apresentavam programações que tinham o intuito de reunir pessoas que
compartilhassem das mesmas práticas e gostos e ensinar bons modos e costumes.
A exemplo disso, o Sport Club Amazonense, fundado em 24 de outubro de 1897172,
tinha como objetivo desenvolver o gosto pelos exercícios, especialmente a velocipédica,
ginástica, esgrima, patinação e jogos atléticos, além dos demais jogos não proibidos, assim
promovendo recreios e diversões uteis, compatíveis com o meio social e climático manauara.
Para se associar ao clube, segundo o artigo 4º do estatuto, era preciso cumprir as seguintes
formalidades:
a) que o proposto goze de bem conceito e cumpra posição social decente;
b) que seja adepto reconhecido de qualquer um dos ramos de diversão compreendidas
no programa do Club;
c) que seja apresentado por um dos sócios em pleno gozo de seus direitos;
d) que seja aprovado pela diretora, a quem deve ser dirigida a proposta sendo tal ato de
sua exclusiva competência.
(Estatuto do Sport Club Amazonense. Diário Oficial. 02 de janeiro de 1898.)

Cabia aos sócios observar o fiel cumprimento dos estatutos, regulamento e demais
deliberações dos corpos administrativos do clube; trabalhar para o engrandecimento e
prosperidade dos bens e crédito da coletividade, impulsionar os exercícios que formavam o
fim da instituição e pugnar para que fosse despertado o gosto por eles, e pagar de uma só vez
100 mil réis, pela joia de admissão, diploma, estatutos e regulamentos e contribuir mais
mensalmente com a cota de 10 mil réis.

172
Estatuto do Sport Club Amazonense. Diário Oficial. 02 de janeiro de 1898.
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Essas imposições não são à toa, vazia e sem significado, mas manifestam algo que
perpassa o debate teórico e as vivências humanas: a luta de classe173. Por classe, com clara
inspiração e tradição marxista, Thompson elucida:
Classe é uma formação social e cultural (frequentemente adquirindo expressão
institucional) que não pode ser definida abstrata ou isoladamente, mas apenas em
termos de relação com outras classes; e, em última análise, a definição só pode ser
feita através do tempo, isto é, ação e reação, mudança e conflito. Quando falamos
em uma classe, estamos pensando em um corpo de pessoas, definindo sem grande
precisão, compartilhando as mesmas categorias de interesse, experiências sociais,
tradições e sistema de valores, que tem disposição para se comportar como classe,
para definir, a si próprio em suas ações e sua consciência em relação a outros grupos
de pessoas, em termos classistas. Mas classe, mesmo, não é uma coisa, é um
acontecimento. (THOMPSON, 2012, p. 169)

Para a formação da classe, Thompson con